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The Fall of Gondolin será publicado em agosto no Reino Unido

Para completar a “trifeta” das Grandes Histórias do Silmarillion, ao lado de Os Filhos de Húrin e Beren e Lúthien, a editora Harper Collins publicará em agosto no Reino Unido The Fall of Gondolin (“A Queda de Gondolin”), naquele que provavelmente será o último trabalho de Christopher Tolkien editando as obras do pai.

Ainda não há muitas informações sobre o livro além do fato de já aparecer em algumas livrarias virtuais em pré-venda, como a Amazon alemã e The Book Depository. A capa ainda não foi divulgada, mas a primeira edição, em capa dura, terá cerca de 304 páginas.

Lançada a 2ª edição do Curso de Quenya

Capa da 2ª edição do Curso de QuenyaFoi lançada hoje a segunda edição do Curso de Quenya – A mais bela língua dos elfos, de Helge Kåre Fauskanger, publicada pela editora Arte e Letra. A tradução da primeira edição foi lançada em 2004 e esgotou-se em pouco tempo.

Não houve uma reedição imediata devido ao fato de que mais materiais inéditos estavam sendo publicados em jornais linguísticos tolkienianos quase que imediatamente após o livro ter sido colocado à venda, o que tornaria qualquer nova impressão automaticamente obsoleta, sendo necessária uma atualização do material do curso por parte do autor. No decorrer dos anos, o volume de material inédito sobre o Quenya foi aumentando e isso, somado à demanda pela reedição do livro, fez com que Fauskanger se empenhasse em atualizar seu curso, cuja tradução brasileira é a primeira a ser publicada em livro e a mais completa (uma versão preliminar em inglês dessa segunda edição foi disponibilizada há pouco tempo na lista de discussão Elfling).

A nova edição do Curso de Quenya mantém o mesmo formato da anterior, com 20 lições, apêndices, vocabulário e respostas para os exercícios. Porém, todas as seções do livro sofreram atualizações, sendo reescritas e/ou aumentadas à luz do material publicado desde 2004, que inclui as edições do jornal Vinyar Tengwar até o número 49 e do jornal Parma Eldalamberon até o número 18.

O livro pode ser adquirido diretamente no site da editora Arte e Letra.

Curso de Quenya – A mais bela língua dos Elfos

Autor: Helge Kåre Fauskanger

Tradução: Gabriel Oliva Brum

Editora: Arte e Letra

Preço: R$42,00

 

Mitos Transformados IX – Orcs

The History of Middle-earth XEsta é outra nota, bastante distinta, sobre a origem dos Orcs, escrita rapidamente a lápis e sem nenhuma indicação de data.
 
 

 
Isto sugere – embora não seja explícito – que os "orcs" eram de origem élfica. Sua origem é tratada mais claramente em outro lugar. Um ponto apenas é certo: Melkor não poderia "criar criaturas" vivas de vontades independentes.

Ele [e todos os "espíritos" dos "Criados–primeiro", conforme seus limites] poderia assumir formas corpóreas; e ele [e eles] poderia dominar as mentes de outras criaturas, incluíndo elfos e homens, pela força, medo, ou por engôdos, ou por pura magnificência. Os elfos de épocas remotas inventaram e usaram uma palavra ou palavras com uma base [o]rok para indicar qualquer coisa que causasse medo e/ou terror. Isto teria sido originalmente aplicado a "fantasmas" [espíritos assumindo formas visíveis] tão bem quanto a quaisquer criaturas existindo independentemente. Sua aplicação [em todas as línguas élficas] especificamente às criaturas chamadas orcs – assim devo escrevê-la no Silmarillion – foi posterior.

Uma vez que Melkor não poderia "criar" espécies independentes, mas tinha imensos poderes de corrupção e distorção daquelas que caíam em seu poder, é provável que estes orcs tivessem uma origem mista. A maioria deles claramente [e biologicamente] eram corrupções de elfos [e, posteriormente, de homens provavelmente também]. Mas sempre entre eles [como servos especiais e espiões de Melkor, e como líderes] deviam haver numerosos espíritos menores corrompidos que assumiram formas corpóreas semelhantes. [Estes apresentariam personalidades aterrorizantes e demoníacas]

Os elfos teriam classificado as criaturas chamadas "trolls" [no Hobbit e Senhor dos Anéis] como orcs – em personalidade e origem – mas eles eram maiores e mais lentos. Pareceria evidente que os orcs eram corrupções de tipos humanos primitivos.

 

 
No rodapé da página meu pai escreveu: "Ver O Senhor dos Anéis Apêndice p. 410"; este é o trecho do Apêndice F relativo aos Trolls.

Parece possível que sua palavras iniciais nesta nota "Isto sugere – embora não seja explícito – que os ‘orcs’ eram de origem élfica" na verdade se refere ao texto anterior fornecido aqui, VIII, onde ele inicialmente escreveu "elfos, como uma fonte, são muito improváveis", mas mais tarde concluiu que "permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem élfica nos orcs". Mas se realmente for isso, as palavras que se seguem "Sua origem é tratada mais claramente em outro lugar" deve se referir a alguma outra coisa.

Ele agora expressamente afirma a visão inicial de que os Orcs eram originalmente Elfos corrompidos, mas observa que "mais tarde" alguns provavelmente derivaram de Homens. Ao dizer isto (como o último parágrafo e a referência ao Apêndice F de O Senhor dos Anéis sugerem) ele parece estar pensando nos Trolls, e especificamente nos Olog-hai, os grandes Trolls que aparecem no final da Terceira Era (como dito no Apêndice F): "Ninguém duvidava que tivessem sido engendrados por Sauron,  mas não se sabia a partir de que linhagem. Alguns afirmavam que não eram trolls e sim orcs gigantes; mas os olog-hai eram, na conformação do corpo e da mente, bem diferentes até mesmo dos maiores orcs, a quem sobrepujavam amplamente em tamanho e força".

A concepção de que entre os Orcs "deviam haver numerosos espíritos menores corrompidos que assumiram formas corpóreas semelhantes" aparece também no texto VIII: "Melkor corrompeu muitos espíritos – alguns grandes, como Sauron, ou menores, como balrogs. Os menores poderiam ter sido primitivos (e muito mais poderosos e perigosos) orcs"

Mitos Transformados VIII – Orcs

The History of Middle-earth 10Este texto faz parte de um conjunto de ensaios intitulados "Mitos Transformados", contidos no The History of Middle-earth 10. A Valinor já possuía grande parte deles e está agora tradiuzindo os faltantes bem como acrescentando as notas e comentário. Este texto VIII trata da origem dos Orcs.
 
 
 

 
Na última sentença da versão curta original do texto VII meu pai
escreveu que os Eldar acreditavam que Morgoth gerou os Orcs ‘capturando
de Elfos (e Homens) cedo’ (isto é, nos primeiros dias de suas
existências). Isto indica que suas visões sobre este assunto mudaram
desde os Anais de Aman.
 
Para a teoria da origem dos Orcs como esta estava,
no ponto dos registros escritos nas narrativas (1), a este tempo ver os
Anais de Aman. Na forma final de Os Anais de Aman ‘isto é tido como
verdade pelos sábios de Eressëa’:

que todos aqueles dos Quendi que acabaram nas mãos de Melkor, antes de
Utumno ser quebrada, foram lá postos na prisão e por artes lentas de
crueldade e maldade foram corrompidos e escravizados. Desta forma
Melkor gerou a terrível raça dos Orkor em inveja e paródia aos Eldar,
de quem se tornaram após isto os mais amargos inimigos. Pois os Orkor
tinham vida e se multiplicavam à maneira dos Filhos de Ilúvatar; e nada
do que tem vida por si mesmo, nem a aparência de vida, Melkor jamais
poderia criar, desde sua rebelião no Ainulindalë antes do Começo: assim
dizem os sábios.

No texto datilografado de Os Anais de Aman meu pai escreveu ao lado do
registro da origem dos Orcs: ‘Alterar isto. Orcs não são Élficos’.  

O presente texto, entitulado ‘Orcs’, é um ensaio curto (em grande parte
um registro de ‘pensando com a caneta’) encontrado na mesma pequena
coleção reunida em um jornal de 1959 como os textos III e VI. E como
estes ele foi escrito nos papéis do Merton College de 1955; e como o
texto VI ele faz referência a ‘Finrod e Andreth

 


 
Sua natureza e origem requerem mais reflexão. Elas não são fáceis de inserir na teoria e no sistema.
 
[1] Como o caso de Aulë e os Anões mostra, somente Eru podia criar criaturas com vontades independentes e com capacidade de raciocínio.
Mas os Orcs parecem possuir ambas: eles podem tentar enganar
Morgoth/Sauron, rebelar-se contra ele ou criticá-lo.

[2] ? Portanto, eles devem ser corrupções de alguma coisa pré-existente.

[3] Mas os Homens não haviam ainda aparecido quando os Orcs já
existiam. Aulë construiu os Anões a partir de sua memória da Música; mas Eru não
sancionaria a obra de Melkor de modo a permitir a independência dos Orcs. (A não ser que os Orcs fossem em essência remediáveis ou pudessem
ser corrigidos e "salvos".)


Também parece claro que, embora Melkor pudesse corromper e arruinar
indivíduos completamente, não é possível contemplar sua perversão
absoluta de um povo inteiro, ou grupo de pessoas, e sua criação que
afirma hereditariedade
(2) [Adicionado posteriormente: Este último deve [se
um fato] ser um ato de Eru].

Neste caso os Elfos, como uma fonte, são muito improváveis. E os Orcs
são "imortais" no sentido élfico? Ou os Trolls? Parece claramente
implícito em O Senhor dos Anéis que os Trolls existiam independentemente, mas foram "modificados" por Melkor (3).

[4] E o que dizer de feras falantes e pássaros com raciocínio e fala? Esses foram adotados levianamente por mitologias menos
"sérias", mas representam um papel que agora não pode ser cortado. São certamente "exceções" e não muito usados, mas suficientemente para
mostrar que eles são uma faceta reconhecida do mundo. Todas as
criaturas os aceitam como naturais, se não comuns.

 
Mas criaturas
"racionais" verdadeiras, "povos falantes", são todas de forma
humana/"humanóide". Somente os Valar e Maiar são inteligências que
podem assumir formas de Arda à vontade. Huan e Sorontar poderiam ser
Maiar – emissários de Manwë. (4) Mas, infelizmente, em O Senhor dos Anéis é
dito que Gwaehir e Landroval são descendentes de Sorontar [Thorondor] (5).

De qualquer forma, é provável ou possível que mesmo os menores dos Maiar
se tornariam orcs? Sim: tanto fora de Arda como dentro dela, antes da
queda de Utumno. Melkor corrompeu muitos espíritos – alguns grandes,
como Sauron, ou menores, como Balrogs. Os menores poderiam ter sido orcs
primitivos (e muito mais poderosos e perigosos); mas, por procriarem
quando encarnados, eles (ver Melian) [se tornariam] cada vez mais
ligados à terra, incapazes de retornar ao estado de espírito (mesmo
forma demoníaca), até serem libertados pela morte (assassinato), e definhariam em força. Quando libertados eles estariam, claro, como
Sauron, "condenados": isto é, reduzidos à impotência, infinitamente
recessiva: ainda odiando, mas incapazes cada vez mais de fazê-lo
de modo efetivo fisicamente (ou não seria o estado órquico muito definhado de
morte um poltergeist?).


Mas novamente – Eru proveria fëar a tais criaturas? Para as águias etc., talvez. Mas não para os Orcs (6).

Entretanto, parece melhor ver o poder de corrupção de Melkor como
sempre começando, pelo menos, no nível moral ou teológico. Qualquer
criatura que o tomava por Senhor (e especialmente aquelas que
de modo blasfemo o chamaram de Pai ou Criador) logo tornava-se corrompida
em todas as partes de seu ser, o fëa arrastando o hröa em sua
queda ao morgothismo: ódio e destruição. Quanto aos Elfos serem
"imortais": eles na verdade possuiam vidas excepcionalmente longas, e
foram "cansando-se" fisicamente e sofrendo um enfraquecimento lento e
progressivo de seus corpos.

Em resumo: eu acho que se deve supor que "falar" não é
necessariamente o sinal da posse de uma "alma racional" ou fëa. (7) Os Orcs
eram feras de forma humanizada [para zombar de Homens e Elfos] deliberadamente pervertidos/convertidos em uma semelhança mais próxima
dos Homens. Sua "fala" era na verdade "gravações" recitadas, colocadas
neles por Melkor. Melkor ensinou-lhes a fala e ao reproduzirem-se herdaram isso; e possuíam tanta independência  quanto, digamos, cães ou
cavalos possuem de seus mestres humanos. Sua fala era em grande parte ecoada (como
papagaios). Em O Senhor dos Anéis é dito que Sauron inventou um idioma para eles (8).

O mesmo tipo de coisa pode ser dito de Huan e as Águias: os Valar lhes ensinaram um idioma e os elevaram a um nível
superior – mas eles ainda não possuíam fëa.

Mas Finrod provavelmente foi longe demais em sua afirmação de que Melkor
não poderia corromper completamente qualquer obra de Eru, ou que Eru (necessariamente) interferiria para anular a corrupção ou para cessar a
existência de Suas próprias criaturas, pois elas teriam sido
corrompidas e voltadas para o mal (9).

Permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem
élfica nos Orcs. (10) Estes podem então ter sido cruzados com feras (estéreis!) – e posteriormente com Homens. Seu tempo de vida seria
diminuído. E morrendo eles iriam para Mandos e seriam mantidos aprisionados
até o Fim.

Ver Melkor. Lá será visto que as vontades dos Orcs e Balrogs etc., são
parte do poder de Melkor "dispersado". O espírito deles é de ódio. Mas
o ódio é não-cooperativo (exceto sob medo direto). Daí as rebeliões,
motins, etc., quando Morgoth parecia estar distante.  Os Orcs são feras e
os Balrogs Maiar corrompidos. Além disso (n.b.), Morgoth, não Sauron, é a fonte das
vontades dos orcs. Sauron é apenas outro (se não maior) agente. Os Orcs
podem se rebelar contra ele sem perder sua própria fidelidade
irremediável ao mal (Morgoth). Aulë queria amor. Mas, claro, não
pensava em dispersar seu poder. Apenas Eru pode dar amor e
independência
. Se um subcriador finito tenta fazer isso, ele na
verdade quer uma ardorosa obediência absoluta, mas ela vira servidão
robótica e torna-se mal.

 
NOTAS

1. Em uma longa carta a Peter Hastings datada de Setembro de 1954, a qual ele não enviou (As Cartas de J. R. R. Tolkien, #153), meu pai escreveu o que se segue com relação à questão de que Orcs ‘poderiam ter "almas" ou "espíritos"’:

… uma vez que em meus mitos de forma alguma eu concebo a criação de almas ou espíritos, coisas de uma ordem igual senão de poder igual aos Valar, como uma possível ‘delegação’, eu ao menos representei os Orcs como seres reais pré-existente nos quais o Senhor Escuro exerceu a totalidade de seu poder remodelando-os e corrompendo-os, mas não os criando… podem ter ocorridos outras ‘criações, contudo, as quais eram mais como títeres preenchidos (apenas à distância) com a mente e vontade de seu criados, ou agindo como formigas sob o comando de uma rainha central.

Anteriormente, nesta carta, ele citou as palavras de Frodo a Sam no capítulo "A Torre de Cirith Ungol": ‘A sombra que os criou só pode arremedar, não pode criar: nada realmente novo que se origine dela mesma. Não acho que lhes tenha dado vida, apenas os arruinou e deformou’; e ele continua: "Nas lendas dos Dias Antigos é sugerido que o Diabolus subjugou e corrompeu alguns dos primeiros Elfos…". Ele também disse que os Orcs "são fundamentalmente uma raça de criaturas ‘racionais encarnadas’".

2. No Athrabeth Finrod declarou:

Mas nunca, mesmo na noite, acreditamos que ele [Melkor] pudesse prevalecer contra os Filhos de Eru. Este ele poderia iludir, ou aquele ele poderia corromper; mas mudar o destino de todo um povo dos Filhos, roubá-los de sua herança: se ele pudesse fazer tal coisa à revelia de Eru, então de longe maior e mais terrível é ele do que imaginávamos…

3. Em O Senhor dos Anéis Apêndice F (I) é dito dos Trolls:

Nos seus primórdios, no crepúsculo dos Dias Antigos, eram criaturas de natureza obtusa e bruta, sem outra linguagem que não a dos animais. Mas Sauron fizera uso deles, ensinando-lhes o pouco que eram capazes de aprender e aumentando sua inteligência com maldade.

Na longa carta de Setembro de 1954 citada na Nota 1 escreveu sobre eles:

Eu não estou certo sobre os Trolls. Eu acho que era eram meras ‘imitações’ e portanto (embora aqui eu esteja, claro, usando apenas elementos de antigos mitos bárbaros que não tinham uma metafísica ‘consciente’) eles retornam a simples estátuas de pedra quando não estão no escuro. Mas há outras espécies de Trolls além daqueles bastante ridículos, embora brutais, Trolls-das-rochas, para os quais outras origem são sugeridas. Claro… quando você faz Trolls falarem você está dando a eles poder, o qual em nosso mundo (provavelmente) denota a posse de uma "alma".

4. Ver comentários finais da Sexta Seção de os Anais de Aman. Ao final da página contendo o breve texto V meu pai escreveu rapidamente a seguinte nota, inteiramente desconectada com o assunto do texto:

Coisas vivas em Aman. Assim como os Valar poderiam se vestir como os Filhos, muitos dos Maiar vestiam-se como outras coisas vivas menores, como árvores, flores, bestas. (Huan.).

5. "Lá vinha Gwaihir, o Senhor dos Ventos, e Landroval, seu irmão, as maiores de todas as Águias do Norte, e os mais poderosos descendentes do velho Thorondor"  ("O Campo de Cormallen" em O Retorno do Rei).

6. A este ponto existe uma nota que começa com ‘Crítica de (1) (2) (3) acima’ (ou seja, os pontos iniciais deste texto) e então se refere obscuramente a ‘última batalha e a queda de Barad-dur etc.’ em O Senhor dos Anéis. Em uma visão do que se segue meu pai estava presumivelmente pensando no capítulo ‘A Montanha da Perdição’:

De todas as suas planos e teias de medo e traição, de todos os seus estratagemas e guerra sua mente se livrou; e através de todo o seu reino ocorreu um tremor, seus escravos se acovardaaram, seus exércitos pararam, e seus capitães repentinamente sem direção, privados de vontade, hesitaram e se desesperaram. Pois eles foram esquecidos.
    
A nota continua

Eles tinham pouca ou nenhuma vontade quando não ‘cuidados’ de fato pela mente de Sauron. Suas traições e rebeliões davam aquela possibilidade a animais como cães etc.?
       
7. Compare com fim do trecho citado na carta de 1954 na nota 3.

8. Apêndice F (I): ‘Diz-se que a Língua Negra foi inventada por Sauron nos Anos Escuros’.

9. Ver a citação do Athrabeth na nota 2. Finrod de fato não afirma a última parte da opinião aqui atribuída a ele.

10. A afirmação de que ‘permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem élfica nos orcs’ aparece meramente para contradizer o que foi dito sobre serem não mais do que ‘bestas falantes’ sem avançar em novas considerações. No trecho acrescentado ao final do texto a afirmação de que ‘Orcs são bestas’ é repetida.
 

Agora é OFICIAL: Filmes de O Hobbit confirmados… e com Peter Jackson!

E a novela acabou mesmo! Pelo menos em parte. A MGM, a New Line Cinema e o diretor Peter Jackson finalmente entraram em acordo sobre a adaptação cinematográfica de O Hobbit.
 

Oficializada hoje, a adaptação contará com Peter Jackson como co-produtor executivo, junto com sua esposa Fran Welsh.

As duas empresas e PJ confirmaram há poucos que os filmes (sim, serão mesmo dois!) serão distribuídos na América do Norte pela New Line Cinema e nos outros continentes pela MGM. Ambos os filmes serão rodados simultaneamente. Como se não bastasse, todos os litígios envolvendo PJ e a New Line foram encerrados, mas o teor dos acordo e seus respectivos números não foram divulgados.

"Estou muito feliz que conseguimos
deixar nossas diferenças para trás e que podemos iniciar um novo
capítulo com nossos velhos amigos da New Line"
, declarou em comunicado oficial Jackson. "Estou empolgado em continuar nossa jornada pela Terra-média e gostaria de agradecer a Harry Sloan e nossos novos amigos da MGM por nos ajudar a encontrar um meio termo necessário para continuar essa saga", continuou, referindo-se aos processos que tinha contra a New Line.

"Peter é um cineasta visionário e estabeleceu novos patamares com O Senhor dos Anéis", disse Michael Lynne, da New Line. "Estamos muito felizes que a saga de Tolkien contiuará com a marca dele".

As filmagens começarão no início de 2009 e a produção deve ser iniciada em poucos meses. O primeiro deve sair em 2010 e o segundo em 2011. Um blog de produção foi aberto, mas por enquanto apenas este comunicado pode ser lido por lá. Ainda há a questão dos boatos sobre os filmes serem rodados em 3D. O diretor ainda não foi anunciado.

 

Fonte: Omelete  

 

Novidades sobre os livros dos Cursos de Sindarin e Quenya

Como alguns já devem estar pensando "Não vão lançar nunca o livro do Curso de Sindarin? E o de Quenya, não voltará a ficar em catálogo?", creio que é uma boa hora para dar as últimas informações sobre os projetos.
 

Curso de Quenya
O livro do Curso de Sindarin já havia sido anunciado há algum tempo e tudo indicava que sairia muito em breve. Mas quando o texto já estava sendo preparado para ir para a gráfica, eis que o autor do curso, Thorsten Renk, resolveu atualizá-lo. A nova versão (2.7) foi colocada online no site do autor, Parma Tyelpelassiva, no último dia 30. Depois de conversarmos, o editor da Arte & Letra, Thiago Tizzot e eu, o tradutor do curso, resolvemos que seria melhor e mais lógico prorrogar um pouco mais o lançamento do livro justamente para que as devidas mudanças pudessem ser feitas de maneira satisfatória e, com isso, evitar que o livro já saísse defasado para os leitores. Se tudo der certo, o livro deverá ser lançado mesmo no início do ano que vem, com a versão mais recente possível do texto.

Quanto ao livro do Curso de Quenya, ele voltará ao catálogo, mas já como a segunda edição, revista e ampliada! O autor do curso, Helge Fauskangr, retomou as atualizações do mesmo e, segundo o que nos informou recentemente, pretende terminar esse processo até o fim do ano. Até o momento, 2/3 do curso já foram atualizados. Estamos apenas na espera pelo último terço para retomar também o processo de revisão do texto atual do livro. Com a errata já compilada, todos os erros que acabaram entrando na primeira edição serão devidamente sanados e, com a atualização, mudanças significativas de conteúdo serão feitas em partes da gramática do Quenya, resultando em um livro muito melhor e mais completo que o primeiro.

E uma última notícia: para aqueles que não aguentavam mais esperar por um dicionário de Quenya, saibam que um também está nos planos da Arte & Letra, justamente as listas compiladas por Helge Fauskanger e disponíveis atualmente (em sua versão mais recente) no Ardalambion em inglês. Os trabalhos no dicionário – sim, pois os planos são de fazer um material mais completo do que as listas atuais, um verdadeiro dicionário, com transcrições fonéticas e em Tengwar e tudo o mais! – deverão começar assim que os livros dos dois cursos estiverem prontos. 

Tenham então só mais um pouquinho de paciência que 2008 será um belo ano para os aficcionados pelas línguas élficas por aqui!  

Caixa com os três volumes de SdA em oferta no Submarino

Para aqueles que não foram rápidos o suficiente ou estavam no aperto para a última promoção dos livros, eis mais uma oportunidade:
 

A caixa com os três volumes de O Senhor dos Anéis com as capas originais desenhadas pelo próprio Tolkien está em oferta no site Submarino de R$153 por apenas R$64,90 + frete! Clique no link abaixo para conferir a promoção:

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Corra e garanta o seu, pois a caixa deve sumir logo, logo!

Michael Drout analisa The Children of Húrin

O professor de Literatura Medieval e
especialista em Tolkien, Michael Drout, faz uma análise da forma do
texto, suas fontes e da prática editorial envolvendo o mais recente lançamento
tolkieniano, The Children of Húrin (Os Filhos de Húrin).
 

Atenção: Há pequenos spoilers abaixo.

Minha reconstrução hipotética neste post estava
errada. Conforme podia ser inferido pelo índice que foi divulgado mais tarde, The
Children of Húrin
não é todo o material relacionado a Túrin / Húrin de
todas as obras publicadas anteriormente reunidas em um único lugar, mas sim uma
versão um pouco diferente do "Narn i Hîn Húrin" publicado em Contos
Inacabados
em 1980. Como Christopher Tolkien explica no muito útil e
interessante apêndice, os maiores acréscimos são o relato de Huor e Húrin em
Gondolin e a parte da história da Quinta Batalha, Nirnaeth Arnoediad (mas
apenas a parte ocidental da batalha), assim como algumas mudanças e expansões
na seção sobre Túrin entre os foras-da-lei. J. R. R. Tolkien escreveu versões
desses episódios para inclusão no "Narn", mas Christopher Tolkien os
deixou de fora da versão em Contos Inacabados porque um material muito
parecido já havia sido usado em O Silmarillion. (Mais sobre essa
prática editorial depois).

Temos aqui, portanto, um tratamento cronológico direto das vidas de Húrin e
filhos do nascimento de Húrin até a morte de Túrin. Contudo, a narrativa não
inclui a tentativa de Húrin de chegar a Gondolin (que forneceu a Morgoth uma
idéia geral da localização da cidade oculta), nem a sua jornada até
Nargothrond, a morte de Mîm, o anão-pequeno, lá por sua mão e o seu retorno a
Doriath com o Nauglamír, o Colar dos Anões (que indiretamente é responsável
pela morte de Thingol e pela destruição de Doriath).

Como o "Narn", a história é bastante legível e, como o
"Narn", é uma espécie de hibrído entre o estilo histórico/analítico
de The Silmarillion e o estilo de romance de O Senhor dos Anéis.
Nesta forma em particular, como um livro próprio e independente, a
"sensação" do estilo e da estrutura é muito parecida com aquela da
recente novela de Ursula Le Guin, Gifts, embora obviamente trate mais
de reis e príncipes e questões de grande importância em seu mundo subcriado. Também
como Gifts, a história é basicamente uma novela publicada como um
volume independente devido em grande parte à reputação do autor.

Não há muitas surpresas nem muito material desconhecido até então, mas fiquei
surpreso de como o livro me deu muito prazer. Li O Silmarillion e Contos
Inacabados
muitas vezes, mas ainda gostei muito de ler The Children of
Húrin
e senti que tratar o material como uma narrativa única trouxe à tona
o poder emocional da história de Túrin. Também ajuda, tenho certeza, o fato deste
ser um livro bonito: sou mais um fã de Ted Nasmith do que de Alan Lee, mas que
se dê o devido crédito a Lee aqui: suas ilustrações são belas e atmosféricas. O
design do livro como um todo também é muito bom: a fonte escolhida, o tamanho,
o formato, tudo funciona (e funciona em parte para esconder a relativa
brevidade do livro). Editores e produtores deviam pensar mais sobre o prazer
físico que livros bem produzidos podem proporcionar e, em particular, as
editoras acadêmicas podem querer pensar a respeito de tornar seus livros
bonitos.


Análise: Forma e Fontes


Estou mais convencido do que nunca de que o artigo de
Gergely Nagy, "The Great Chain of Reading" ["A Grande Cadeia de
Leitura"], em Tolkien the Medievalist, de Jane Chance, é a
explicação mais efetiva de como as obras de Tolkien criam os seus efeitos
estéticos. Nagy mostra como a incorporação de poesia, anais, inversões
providenciais de expressões, retratos impressionantemente vívidos da parte de
Tolkien – tirados de suas próprias obras anteriores – cria os efeitos
"mitopéicos" da composição: a obra de Tolkien parece mito em vez de
invenção porque ela possui a mesma colagem de textos previamente existentes que
tradições mitológicas estabelecidas há muito tempo parece possuir. O leitor se
depara com um fragmento de texto de uma fonte anterior e, mesmo sem saber da
existência da fonte anterior, reconhece que o texto que está lendo é uma
espécie de agrupamento. Tolkien é único, porém, pelo fato de que todas as
partes separadas e reconhecíveis vêm de uma única mente em vez de séculos de
escritores e adaptadores separados.

Achei o comprometimento de Tolkien com a lenda de Sigfried mais óbvio nessa
versão da história do que em outras, embora isso possa refletir a minha própria
leitura do que o próprio texto. É claro que a semente da história de Túrin é o
ciclo de Kullervo no Kalevala finlandês,
mas acredito que pelo menos um impulso em Túrin é contar a história de um
matador de dragão que não é uma espécie de "übermensch"
nietzscheniano/wagneriano (uma das evidências, creio, é a inclusão de um anão
chamado Mîm). Tolkien detestava o tipo de heroísmo que Wagner extraiu da Nibelungenlied
e da Völsungr Saga: o herói que é superior de alguma maneira
existencial a todo mundo e, assim, de alguma forma merece esmagar tudo em seu
caminho. Ao pegar o herói mais poderoso fisicamente, o matador de dragão
original, mas colocá-lo sob a maldição de Morgoth e mostrar como ele sofre,
Tolkien aborda a história de Sigfried de uma maneira muito diferente e mais
humana.


Análise: Prática Editorial

Terei mais a dizer quando tudo tiver sido melhor assimilado, mas deixem-me
terminar com uma palavra sobre a prática editorial de Christopher Tolkien.
Acredito que quase todos os críticos de Christopher Tolkien estejam exata e
precisamente errados em 180°. A idéia de que Christopher Tolkien está lançando
o mesmo material continuamente ou que está desesperado para espremer o que
puder de lucros com a obra de seu pai, ou que o Tolkien Estate precisa
alavancar as vendas, para mim é estúpida (e soa como inveja quando a ouço).
Está claro pelos seus comentários publicados que o propósito consistente de
Christopher Tolkien tem sido completar o sonho de seu pai de publicar o seu
material do Silmarillion. Obviamente houve um esforço imenso para que as
palavras de Christopher Tolkien não fossem confundidas como sendo as de J. R.
R. Tolkien. Contudo, essa prática editorial extremamente rígida fez com que, no
passado, os textos ficassem um pouco menos "legíveis" do que poderiam
ser.

Parece-me que a republicação de materiais previamente publicados (exatamente
aquilo pelo qual Christopher Tolkien foi injustamente acusado) de fato
tornariam (como ocorre neste livro com Huor e Húrin e a Quinta Batalha) a
história mais fácil de ser acompanhada como um todo independente (tão
independente quanto pudesse ser, dado o conhecimento exigido do pano de fundo
da tradição do Silmarillion). Logo, The Children of Húrin mostra que
as obras não-publicadas de Tolkien podem ser colocadas em formas que são menos
acadêmicas e mais fáceis de serem lidas: acredito que isso seja uma coisa boa,
tanto porque isso apresentará mais pessoas à literatura como porque isso
produzirá mais prazer em mais leitores. Sou grato pelas edições
acadêmicas, mas também adoro o prazer de simplesmente ler o texto. E agora que
temos as edições acadêmicas, eu receberia mais do que de bom grado a
"reciclagem" ou "republicação" de Christopher Tolkien dos
outros Grandes Contos (Queda de Gondolin, Beren e Lúthien, Nauglafring) em
formas legíveis similares em volumes únicos. E se ele precisar escrever
materiais de ligação, ficarei feliz em lê-los (desde que haja uma nota
explicando o fato em algum lugar). Na verdade, eu teria gostado de ver Children
of Húrin
continuar até a morte de Húrin, embora eu compreenda por que isso
não foi feito (podemos supor que não exista uma versão do "Narn" que
continue dessa forma). A história teria sido ainda melhor e podemos pelo menos
teorizar que J. R. R. Tolkien teria gostado de tê-la completa. Assim, contra
algumas tradições na crítica de Tolkien, eu digo: "Mais Christopher
Tolkien, por favor".

No meu próximo post falarei sobre temas e estilo de prosa. Mas quero terminar
com resumindo: Bom livro. Gostei dele muito mais do que esperava gostar.
Acredito que muitos leitores também gostarão, apesar da falta de hobbits.

 

(Fonte: Wormtalk and Slugspeak

Filhos de Húrin, ou Tolkien: Os Estudiosos e os Crí­ticos

Em Babel-17, de Samuel R. Delany, há uma descrição de uma arma que
pode se parecer como uma pedra ou um pedaço pequeno de metal. Ela é basicamente
não é detectável, mas se você introduzi-la sorrateiramente em uma espaçonave e
colocá-la perto de qualquer tipo de "sistema de estase-inércia", a
nave irá se desintegrar assim que você tentar viajar pelo espaço.

 

Acho que O Senhor dos Anéis possui o mesmo tipo de efeito nas teorias
de boa literatura. Pegue a teoria de algum crítico a respeito do que é
"boa literatura", coloque Tolkien nela e observe o edifício inteiro
desmoronar sobre as suas próprias contradições.

Por exemplo, como Tom Shippey mostra de maneira tão bela,
Philip Toynbee diz que "O Bom Escritor" pode escrever sobre qualquer
coisa, até mesmo "duques incestuosos na Terra do Fogo", e cabe ao
público se ajustar à obra e não desconsiderá-la como estranha ou diferente
demais. Aparentemente o Sr. Toynbee deixou de mencionar a cláusula adicional de
sua teoria de que "duques incestuosos não tem problema, mas Elfos não são
permitidos", pois Tolkien encaixa-se perfeitamente na descrição de Toynbee
(e de muitos outros) de "O Bom Escritor", e ainda assim Toynbee, e
"Bunny" Wilson, Salman Rushdie e, mais recentemente, Bryan
Appleyard
, claramente sequer colocariam Tolkien próximo do panteão deles
dos "Bons Escritores".

E mesmo assim ele se encaixa tão bem nos critérios:
Lutar com a recalcitrância da língua inglesa? Confere (exceto que Tolkien sabia
mais sobre a estrutura e complexidade do inglês, sua história e seu
desenvolvimento do que Pound, Eliot ou Joyce – embora Joyce provavelmente
tivesse um sentido fono-estético internalizado tão profundo quando o de
Tolkien, ainda que não tão teorizado explicitamente). Seguir sua imaginação
onde quer que ela vá? Confere. Recusar-se a aceitar os pressupostos de
ideologias contemporâneas? Confere. Escrever para si próprio e não se preocupar
com as opiniões ou com críticos ou com editores ou mesmo com a posteridade?
Confere.

Logo, o que isso mostra? É tentador tentar devolver as palavras dos críticos
hostis a eles em um tipo de judô intelectual, mostrando que Tolkien tem
o seu lugar entre os outros grandes escritores, adequando-se precisamente nas
categorias de Bunny Wilson e outros. Tom Shippey (que é uma pessoa muito mais
gentil e mais razoável do que eu) faz isso muito bem. Ele parece querer dizer a
esses críticos: "Abram os olhos. Usem suas próprias teorias. Isto é o que
vocês disseram que era boa literatura. Tolkien se encaixa em todos os seus
critérios".

Eu, por outro lado, (que não sou nem tão instruído nem tão legal quanto
Shippey) acredito que Tolkien mostra que a maioria das teorias estéticas modernistas
– pelo menos o tipo que foi internalizado pelos críticos que publicam no Times
e em outros meios da elite – são uma bosta. Desculpe, isso não foi educado e
poderia ser melhor reformulado: as teorias estéticas de pessoas como Bunny
Wilson, Toynbee, Judith Shulevitz, Bryan Appleyard, Michiko Kakutani (quando se
dão ao trabalho de articular todas elas) são compostas igualmente de evasivas e
suposições profundamente enraizadas que, assim que são questionadas, não podem
ser sustentadas.

Deixe-me ver a primeira
resenha de Os Filhos de Húrin de J. R. R. Tolkien, feita por Bryan
Appleyard
. É tentador (ah, tão tentador) "esmiuçar" a resenha,
dividindo-a em parágrafos e mostrando o que há de errado com cada um, mas
deixarei isso para outros. Em vez disso, quero chamar a atenção para algumas
suposições muito importantes e não-questionadas as quais acredito que deveriam
ser questionadas.

Appleyard começa citando A. N. Wilson no argumento de que Tolkien "não era
realmente um escritor" mas sim um criador de mundos. Esse é um insight
muito útil das idéias de Wilson e Appleyard. Um "escritor", sob esse
aspecto, não é alguém que publica livros ou mesmo escreve privadamente. Um
escritor é algo mais, um membro de algum subgrupo de pessoas que publicam
livros. Um "escritor" (ao contrário de um escritor) pertence a um
grupo específico.

Como é esse grupo? De acordo com o parágrafo seguinte, ficamos sabendo que
escritores devem ser aquele subgrupo de pessoas que escrevem e que estão
preocupadas com o estilo. Esse é um começo promissor; eu mesmo acredito que a
maior lacuna entre Tolkien e os seus críticos é que as metodologias críticas
contemporâneas não são muito aplicáveis ao estilo de Tolkien, de modo que talvez
estejamos chegando a algum lugar.

Mas então ficamos sabendo que Tolkien preocupava-se com o estilo, só
que, aparentemente, da maneira errada. Ele estava interessando no estilo de Beowulf,
de Sir Gawain e o Cavaleiro Verde, das sagas nórdicas "e,
especialmente no caso deste último livro… de Wagner"
(ênfase
chocada minha): "A abordagem óbvia para um autor contemporâneo que queira
recuperar tais formas é atualizar o estilo delas e, talvez, colocá-las em um
contexto contemporâneo".

Ficamos sabendo agora de coisas ainda mais importantes: para ser um escritor, é
preciso "atualizar" o próprio estilo. Essa é a abordagem
"óbvia". Então, se seguirmos essa linha de raciocínio, embora possa
haver coisas boas e importantes em textos antigos, se alguém vivo agora quiser
escrever sobre essas coisas boas, deverá "atualizar-se" ao estilo ou
mesmo ao contexto contemporâneo. A suposição não-dita porém dominante deve ser
a de que o estilo contemporâneo é melhor do que estilos mais antigos
(do contrário, para que "atualizá-lo" – atualizar implica
melhoramento).

Vemos aqui então que Appleyard (e suponho que Wilson e muitos outros) vem
aceitando inconscientemente uma ideologia estética progressista
enunciada abertamente pela última vez por escritores do final da era vitoriana,
mas que obviamente ainda exerce uma influência muito forte. Se você seguir essa
linha de raciocínio, parece que a arte da escrita está sendo continuamente
aprimorada, de modo que o que é mais recente é melhor (embora a distribuição
desigual de talento no decorrer das eras signifique que alguns grandes
escritores antigos ainda valem a pena ser lidos mesmo que não tenham sido
"atualizados").

Ou há a possibilidade de que possuímos uma variedade de progressivismo estético
na qual não é preciso afirmar que, digamos, Hemingway é esteticamente superior
a Shakespeare, mas que cada um é mais "adaptado" à sua época e,
assim, se Shakespeare escrevesse exatamente as suas palavras em 1941, a obra de
Hemingway seria superior. Creio que provavelmente é onde a maioria dos críticos
literários jornalísticos (como Appleyard, Shulevitz, Kakutani) acabaria: não em
um progressivismo estético absoluto, mas em um relativo: há um estilo
que é apropriado para um determinado período de tempo, e desviar demais desse
estilo constitui uma má literatura.

Mas eis aqui uma rápida experiência de opinião: digamos que alguém descubra, em
algum arquivo empoeirado, um soneto shakespeareano ou uma obra chauceriana
genuína (por exemplo, o perdido Livro do Leão) ou outro poema escrito
pelo poeta do Beowulf. Poderia essa ser uma grande obra de literatura?
Não creio que alguém iria argumentar que não poderia (isso dependeria, é claro,
da qualidade do texto). Agora, imaginemos que, após 100 anos, inúmeros artigos
acadêmicos, etc., descobríssemos que o texto encontrado fosse na verdade uma
criação do século XX. Aquelas mesmas palavras passariam de boa literatura para
má literatura? E se fosse descoberto que uma obra canônica fosse uma invenção
posterior? Se Beowulf tivesse sido escrito no período Tudor ele agora
seria um poema ruim?

De acordo com as suposições que Appleyard parece estar seguindo, me parece que
o autor e o período são o que valem, não as palavras específicas no papel.
Contudo, não estou ciente de qualquer argumento lógico para tal ponto
de vista. Joyce ou Eliot serem melhores estilistas da prosa que Tolkien –
"(artistas muito superiores)", diz Appleyard, sem explicar por que –
pressupõe algum modo de julgar o estilo da prosa. Mas quando tentamos
compreender o que o autor da resenha quer dizer com um melhor estilo de prosa,
nos deparamos com evasivas: "profundidade" (indefinida) ou
"tendências mais profundas" (indefinidas).

Appleyard continua (a respeito de Os Filhos de Húrin): "O
pensamento moderno está claramente sendo arrastado pelo pescoço para longe de
sua zona de conforto literário". Essa é uma passagem muito boa, e bem
provável que seja verdadeira, mas ele a diz como se fosse uma coisa ruim.
Parece-me que a maior parte do que ouvi sobre o poder e a importância da arte e
da literatura modernistas e pós-modernistas diz respeito a tirar as pessoas de
suas zonas de conforto: não é essa a mensagem básica de cada uma das Bienais
Whitney desde, digamos, a década de 80? Mas quando Tolkien faz isso é ruim. É
por que há Elfos? (Alguém esqueceu de mencionar novamente a cláusula adicional
"sem Elfos"?)

Appleyard menciona que ele "desistiu" de O Senhor dos Anéis
porque a prosa de Tolkien é "completamente superficial, sem nenhuma das
tendências mais profundas que constituem uma boa ou excelente obra". Aqui
fiquei realmente confuso. Se há algo que o estudo das obras de Tolkien mostrou
é que há uma "profundidade" imensa por trás das escolhas de
palavras e imagens de Tolkien: quando Tolkien usa "eyot" [arc.
"ilhota"] ou "laving" ["lavando"] ou "louver"
["gelosia"] ou "ninnyhammer" [coloq. "idiota
cabeça-dura"] ou "dwimmerlaik" [ing. médio "criatura
espectral"], ele está usando termos técnicos precisos e fazendo a ligação,
através de referências literárias, com obras de literatura mais antigas (assim
como Eliot faz em "A Terra Desolada", que Appleyard menciona). Quando
Tolkien usa construções sintáticas tais como "Come not between the Nazgul
and his prey" ["Não te intrometas entre o Nazgul e sua presa"] ou "That was a grim meeting" ["Aquele foi um encontro
sinistro"], ele faz uso de referencialidade tradicional para invocar
contextos literários maiores. Quando conta a história de Túrin dormindo por fim
com sua irmã e cometendo suicídio quando descobre, ele está fazendo referências
ao Kalevala finlandês e pegando um tipo de motivo do folclore e
transformando-o em uma história com personagens mais complexos e ironias mais
específicas ("atualizando", se preferir). Infelizmente, se você for
um crítico literário mas não um estudioso, se você for um jornalista que cita Beowulf
ou Sir Gawain e o Cavaleiro Verde mas não os leu com atenção (ou, em um
dos exemplos acima, Rei Lear), você não entenderá o recado.

Logo, não é que a prosa de Tolken careça de profundidade, mas sim que as
profundidades às quais ela faz referência não são as profundidades que o
crítico conhece. Mas por que Tolkien é o culpado aqui? O grande escritor,
segundo Toynbee, não tem que se adiantar e o crítico se esforçar para
acompanhar? Quem determinou que o conjunto de referências e textos deve ser
aquele com o qual o crítico sente-se confortável? Eliot parecia estar zombando
da falta de erudição de muitos críticos quando publicou suas próprias notas de
rodapé para "A Terra Desolada", e os críticos que não compreendem as
referências de Tolkien também carecem de erudição (de um tipo diferente,
"setentrional" em vez de clássica, por exemplo), mas em vez de se
esforçarem para adquiri-la, eles supõem que as referências são obscuras,
"provincianas", "dônicas", "pouco sólidas".

A comparação de Appleyard com o Único e Eterno Rei de T. H. White é reveladora. A obra de White é repleta
de ironia, aquele condimento multiuso dos escritores modernistas,
críticos e jornalistas. Tolkien tem realmente muito pouco interesse nesse tipo
de ironia (que com freqüência é, na minha opinião, superficial, embora não no
caso de White). A ironia, porém, é fácil para o crítico e lhe permite manter
uma pose de superioridade, que é essencial se você vai dizer às pessoas do que
elas devem ou não gostar (em vez, digamos, explicar como um artefato estético
produz seus efeitos em diferentes leitores). É uma camada adicional de ironia:
não apenas o leitor sabe de coisas que o personagem não sabe, como se supõe
que o crítico sabe de coisas, coisas importantes, que o autor não sabe
.

É irônico, portanto, que Os Filhos de Húrin seja conduzido
por uma série de ironias dramáticas, e talvez por isso Appleyard pareça
basicamente gostar do livro, apesar do uso de "provincianas",
"pouco sólidas" e a menção de que Dungeons and Dragons "dominava
quartos fétidos de universitários" em 1974 (fale pelo seu próprio quarto,
meu chapa) –, tudo com a intenção de mostrar que Appleyard é realmente um dos
meninos legais, com um gosto discriminante.

Há também muita "profundidade" em Os Filhos de Húrin, mas a
profundidade, como Gergely Nagy mostrou no melhor artigo escrito sobre Tolkien
na década passada, está relacionada com o próprio conjunto de textos de
Tolkien. Ao contrário de outras fantasias imitativas, a obra de Tolkien produz
a "sensação" de se estar lendo um mito. Suas camadas de poemas,
histórias, anedotas, anais e rascunhos funcionam para produzir o tipo de
textualidade possuída, por outro lado, apenas por obras que foram tratadas por
muitos escritores e leitores no decorrer de muitos séculos. Nenhuma outra
pessoa conseguiu esse feito, antes ou desde então: não Joyce, Pound, Eliot,
Morrison, Rushdie ou mesmo Eco (Borges talvez chegue perto).

Ora, esse não é o único critério para a excelência estética, mas ao menos
possui a vantagem de ser explícito: O Senhor dos Anéis, e agora Os
Filhos de Húrin
, dispõe-se a algo que era impossível anteriormente:
escrever uma história nova que dê ao leitor a impressão de estar lendo uma
história muitíssimo antiga. Não tenho muito tempo para a discussão inacreditavelmente
tediosa "Tolkien criou uma nova mitologia?" (minha resposta: não no
início, mas talvez ela esteja se tornando uma), mas creio que está claro que
ele conseguiu fazer com que a sua obra parecesse ser mitológica em vez de
inventada. Esse efeito estético não fazia parte do projeto modernista (e é
possível que seja bem contrário a ele), mas ele, no entanto, é um efeito que
muitos leitores sentem intensamente. Um bom crítico deveria tentar explicar os
efeitos do livro sendo criticado.

Meus alunos se divertem com a metodologia crítico-literária (muito) antiquada
de comparar cada obra de literatura com Homero e Virgílio (60% tão bom quanto
Homero e 75% tão bom quanto Virgílio, simplificando). Mas a crítica
jornalística em voga parece estar fazendo exatamente isso, sem o benefício de
nomear os modelos ou de reconhecer a metodologia.

Porém, talvez pudéssemos resolver muitos problemas tornando oficial uma nova
máxima. Chame-a de lei de Dyson: É impossível que a boa literatura inclua um
Elfo.

Não acredito que tal regra tenha sido provada alguma vez, mas a impressão que
fica é a de que muitos críticos a aceitaram como absoluta. Eu adoraria ver as
linhas gerais do argumento.

— 

Michael D. C. Drout é Professor de Inglês na Wheaton
College, em Norton, Massachussets, E.U.A, onde leciona Inglês Antigo (Anglo-Saxão),
Inglês Médio, literatura medieval, fantasia, ficção científica e produção
textual. É autor de Beowulf
and the Critics
, J. R. R. Tolkien Encyclopedia e editor do jornal
literário Tolkien Studies.

(Fonte: Wormtalk and Slugspeak)

 

"Por que demoraram tanto?", uma resenha de Os Filhos de Húrin

Trinta anos depois de sua morte, Tolkien
produziu um novo romance – com uma pequena ajuda de seu filho. Poderia esse
grande mito levar os leitores de volta à Terra-média?
 

Esta
é, como colocou o neto de Tolkien, Adam, a "versão do diretor" de Os
Filhos de Húrin – embora eu não tenha certeza se o diretor em questão é o
pai ou o filho.

Porém,
o próprio fato de ser esse o modo pelo qual o livro surgiu aponta para uma das
mais reveladoras estranhezas da obra de Tolkien. Ele não era, primeiramente, um
romancista e, como sugeriu A. N. Wilson, não era realmente um escritor. A
tarefa a qual ele se propôs foi a de criar o mundo, a Terra-média, que veio
antes do nosso. Ele assim o fez através de mapas, etimologias, raças inventadas
– principalmente elfos e orcs – e vastas e indecifráveis genealogias complexas.
Os livros surgiram dessa montanha de invenções curiosas. Contudo, eles sempre
foram fragmentos do todo. Ao ler Tolkien, a pessoa fica constantemente ciente
da vasta história de fundo que provavelmente jamais completamente conhecida
pois, como um todo, ela encontrava-se apenas na cabeça de Tolkien. Os romances,
em outras palavras, foram produtos derivados de um projeto muito maior.

A
acusação de Wilson de que Tolkien não era realmente um romancista deixará
milhões horrorizados, mas ele tinha razão. O estilo de Tolkien – de fato, sua
abordagem inteira – era derivado de poemas narrativos ingleses tais como Beowulf
e Gawain e o Cavaleiro Verde, das sagas nórdicas e, especialmente no
caso deste último livro, de Wagner. Essas eram histórias de heroísmo e magia,
de valores absolutos, das últimas coisas. A abordagem óbvia para um autor
contemporâneo que queira recuperar tais formas é atualizar o estilo delas e,
talvez, colocá-las em um contexto contemporâneo. Isso enfaticamente não é o que
Tolkien se propôs a fazer. Ele queria recriar o mundo e os idiomas daquelas
histórias, ajustadas apenas marginalmente aos ouvidos modernos. Uma frase do
primeiro parágrafo de Os Filhos de Húrin confirma isso: "Sua filha
Gloredhel casou com Haldir, filho de Halmir, senhor dos homens de Brethil; e,
na mesma festividade, seu filho Galdor, o alto, desposou Hareth, a filha de
Halmir."

Essa
é uma escrita demasiadamente "retrô".

O
pensamento moderno está claramente sendo arrastado pelo pescoço para longe de
sua zona de conforto literário. O argumento de Wilson foi o de que, tendo feito
esse gesto, o interesse de Tolkien no estilo terminara. Ele o compara a Iris
Murdoch: "Na verdade, Murdoch e Tolkien tinham isso em comum, embora
dificilmente pudessem ser mais diferentes em outros aspectos: como Murdoch,
Tolkien não se preocupava com o 'estilo', simplesmente fazendo uso, onde O
Senhor dos Anéis estava em questão, de sua prosa sub-William Morris".

Isso
está exatamente correto. Anos atrás, desisti de O Senhor dos Anéis e O
Hobbit precisamente porque a prosa parecia ser completamente superficial,
sem nenhuma das tendências mais profundas que constituem uma boa ou excelente
obra. Minha fome infantil por fantasia foi saciada pela inteligência, elegância
e poder da série de romances de T. H. White O Único e Eterno Rei. Depois
disso, Tolkien pareceu raso e freqüentemente puritano, de uma maneira
provinciana e "dônica" [N.T.: "dônica" = relativa aos dons
de Oxford, como Tolkien]. Concordei inteiramente a afirmação de um certo Hugo
Dyson, ao ouvir Tolkien ler uma parte de O Senhor dos Anéis: "Não
outra mer** de elfo".

Dito
isso, Os Filhos de Húrin é um tipo diferente de maçada. Não desisti de
lê-lo, principalmente porque um estilo intenso e muito adulto o salva das
falhas de suas outras obras. A prosa ainda é mais gestos do que profundidade,
mas há um sentimento real de grande seriedade. Não é uma história para crianças
como O Hobbit e é muito mais sombrio do que O Senhor dos Anéis. É
Tolkien no modo wagneriano. De fato, pode ser possível dizer que é o echt
Tolkien [N.T.: echt = "genuíno", em alemão]. A popularidade de
suas outras obras pode bem tê-lo desviado da seriedade e intensidade da sua
visão da Terra-média. Ele era um católico devoto, e embora o cristianismo não
esteja explicitamente presente, há um desenrolar dramático de história e
salvação no decorrer da obra. Esse era um homem que realmente queria dizer
aquilo com o que dizia. Mas por quê? O que tudo isso queria dizer? A primeira e
mais óbvia afirmação a se fazer é sobre o contexto. A Terra-média nasceu nos
dias sombrios da primeira guerra mundial e O Senhor dos Anéis foi
escrito durante e logo após a segunda. Seria absurdo ver os senhores do mal
Morgoth e Sauron como o Kaiser e Hitler; Tolkien de fato sempre negou qualquer
intenção alegórica. Entretanto, seus sonhos de lutas antigas e épicas entre o
bem e o mal parecem um modo de dar sentido à matança sem sentido e globalizada
do século XX.


mais uma peculiaridade nisso. Tolkien é visto convencionalmente como uma figura
antimodernista. Ele tinha aversão à tecnologia, e sua busca pelo antigo parece
ecoar aquelas dos Pré-Rafaelitas e do fantasista gótico Augustus Pugin,
projetista do Palácio de Westminster.

Isso
pode ser visto como escapismo, uma rejeição do engajamento modernista com o
presente e o futuro, mas não tenho certeza se isso é realmente justo. Compare,
por exemplo, o projeto de Tolkien com duas das maiores obras da literatura
modernista. Ulisses de James Joyce conta a história da vida comum de um
dia de Dublin como uma recapitulação da lenda do herói errante grego. A
Terra Desolada de T. S. Eliot é um panorama mitológico, baseando-se nas
histórias do passado para lançar uma luz devastadora sobre a condição do
presente, a coisa toda assombrada pelo espectro do colapso mental.

Em
outras palavras, embora completamente diferentes (e artistas muito superiores),
esses escritores estavam fazendo algo similar a Tolkien: tentando lançar uma luz
sobre o presente ao adaptar as histórias e mitologias do passado. O projeto de
Tolkien, na verdade, era mais como simples escapismo – seu passado, afinal de
contas, era inteiramente invenção sua – mas isso não diminui a importância
desse projeto como um sintoma fundamental da condição moderna.

De
fato, em virtude das vendas e do impacto cultural global das histórias da
Terra-média de Tolkien, seria insano tentar diminuir a importância de seu
projeto. Esses livros claramente se fizeram sentir na atualidade. Há uma
demanda, não exatamente por fantasia – tanto Christopher e como Lee concordam
que não querem que Tolkien seja confinado confortavelmente ao gênero da
fantasia –, mas por histórias que pareçam melhores, mais grandiosas, maiores e
mais estranhas do que as narrativas monótonas do mero presente. Enquanto O
Senhor dos Anéis encontrava-se no meio de sua ascensão nas listas de livros
mais vendidos ao redor do mundo, o jogo de tabuleiro Dungeons & Dragons,
vendido pela primeira vez em 1974, dominava quartos fétidos de universitários.
Hoje, seriam jogos de computador igualmente fantásticos, como World of
Warcraft. A magia, em uma era de descrença, persiste em curiosos intervalos do
contemporâneo.

Além
disso, tanto os filmes de Star Wars como os livros de Harry Potter confirmam o
anseio contemporâneo pela narrativa grandiosa e mágica. Glaurung, o dragão,
parece-se muito com Jabba o Hutt, e a espada falante de Turin poderia pertencer
a Harry. Parece haver uma necessidade, em todas as culturas modernas, pela
história que transcenda tempo e espaço, que, ao escapar dos pormenores e
compromissos do presente, trate diretamente das questões fundamentais da vida.
Se o Tolkien provinciano eleva nossa vista acima do mundano com sua prosa
precipitada e gestual e suas mitologias extravagantes, então quem sou eu para
reclamar? De qualquer forma, como um livro, não apenas como um fragmento de um
projeto, Os Filhos de Húrin, de seu próprio modo pouco sólido, porém
também digno de admiração, funciona.

Seis
mil anos antes de Bilbo Bolseiro encontrar o anel de Sauron, nasceram Turin e
Nienor, filhos de Hurin, chamado de O Inabalável, senhor de Dor-lomin, esposo
de Morwen. Turin guerreou com Morgoth e matou Glaurung, o primeiro dos dragões
de Morgoth. Mas…

Não,
é melhor eu não continuar. O enredo de Os Filhos de Húrin de J. R. R.
Tolkien está prestes a emocionar e intrigar milhões. O livro possui uma tiragem
inicial de 500.000 exemplares ao redor do mundo, mas isso será apenas o começo.
O Senhor dos Anéis de Tolkien vendeu 150 milhões de exemplares –  50 milhões desses desde que os filmes de
Peter Jackson foram lançados. Outros 50 milhões de exemplares de outros
Tolkiens, principalmente O Hobbit, também foram vendidos. É seguro dizer
que o "grande conto" de Turin está prestes a se tornar um mito
global.

O
livro foi restaurado pelo filho de Tolkien, Christopher, a partir dos escritos
reunidos de seu pai. A história foi iniciada em 1918, mas nunca foi formalmente
organizada em um romance. Christopher agora realizou isso, usando, diz-se,
apenas as palavras de seu pai, com poucas mudanças gramaticais. Em teoria, isso
levanta possibilidade de restauração de outros grandes contos deste período – A
Queda de Gondolin, Beren e Luthien foram sugeridos, e A Balada de Leithian – mas,
na prática, nenhum desses parece estar no estado completo, porém disperso, de Os
Filhos de Húrin. Esse provavelmente será o último conto completo de
Tolkien.

O
momento é significativo. Os filmes mudaram fundamentalmente o status dos
livros. Como me conta Alan Lee, o ilustrador de Os Filhos de Húrin e
vencedor do Oscar pela direção de arte dos três filmes, há algo literal sobre o
filme. Ao desenhar para Jackson, ele se viu tendo que detalhar cada nuance.
Enquanto Tolkien podia rabiscar em uma página de prosa, a audiência do cinema
moderno quer a coisa toda na tela. Além do mais, foi criada uma geração de fãs
de o Senhor dos Anéis – mas não necessariamente de leitores de Tolkien. A
ênfase deixou de estar nos livros.

Isso
parece explicar, pelo menos em parte, pontualidade de Os Filhos de Húrin.
Christopher falou pela primeira vez com David Brawn, diretor de publicações da
HarperCollins, sobre o livro há dois anos, quando o rebuliço dos filmes estava
pronto para diminuir. Brawn acredita que foi uma clara tentativa de trazer a
obra de seu pai de volta às páginas impressas. E de fato, para Lee, foi uma oportunidade de escapar do
literalismo dos filmes e voltar para o seu estilo assombroso, sugestivo e muito
inglês de contos de fadas.

Contudo,
um novo Tolkien póstumo é um risco. Em 1977, a publicação de O Silmarillion
foi criticada porque o livro incluía interpolações de Christopher. A acusação
era de que o espólio estava explorando o legado. O livro foi chamado em
zombaria de "The Sell-a-Million" [N.T.: trocadilho com o nome
"Silmarillion"; literalmente "O Vende-um-Milhão"]. A
implicação era a de que Tolkien estava se tornando uma marca em vez de um
autor, um processo certamente acelerado pelos filmes. Por outro lado, é
trabalho dos executores literários encontrar bons materiais não-publicados. Se
Christopher não fez mais do que amarrar uma história coerente a partir da prosa
de seu pai, não vejo muito problema. Ele apenas fez o que seu pai pretendia.

(Fonte: Times
Online
)