Arquivo da categoria: Fanfics

Desafio 2010 Tolkien Group no Fanfiction.net

Recebemos o bacana release abaixo, da nossa usuária Ahrdarah :

“Em um buraco no chão vivia um hobbit”. Assim começou Tolkien, provavelmente sem se dar conta da dimensão que o universo que começava ali a compartilhar com leitores do mundo inteiro viria a tomar para tantas pessoas … Algumas das quais, totalmente apaixonadas pela vastidão, poesia e mistério dessa Terra Média criada pelo Professor, com o intuito de prolongar a sensação de que estamos em um mundo diverso deliciosamente surpreendente – e do qual não sairiamos jamais se a realidade que nos cerca aqui fora não fosse tão insistente – criaram o Tolkien Group, com o intuto de compartilhar fanfics inspirados pela obra do Mestre.
Criado em 30 de outubro de 2004, somos também um lugar de encontros e amizade, aberto a quem aceitar nosso convite para dizer “Amigo”, e entrar.
Há 4 anos promovemos um DESAFIO anual, em que divulgamos shortfics especialmente desenvolvidas para a ocasião. Este ano vamos publicar as histórias, de temática livre, no fanfiction.net  num link único, que indicamos abaixo.
Convidamos todos que quiserem dar uma conferida a aparecer (e, se possível, deixar uma review).
Link para a página do Desafio 2010 Tolkien Group no Fanfiction.net:
Link para a nossa página no Yahoo Grupos:
Pra quem gosta, é um prato cheio!

Maerton – Capí­tulo 5 – Beleriand

Certo dia, Sereg avançou até as Ered Luin. Ele sentia uma vontade imensa e descontrolada de ver Beleriand. Quando estava caminhando, encontrou um exótico grupo de homens, e no meio deles um elfo tocava e cantava uma linda canção. Era Finrod, do reino de Nargothrond. O líder dos homens era Bëor. Ao ver aquilo, Sereg os seguiu, por uma trilha nas Ered Luin, até Ossiriand, onde ele andou até Doriath, e se deteve no cinturão de Melian, onde guardas o levaram até Menegroth, e ele foi apresentado a Thingol. Ali eles o levaram para o calabouço, e só então Sereg entendeu: ele era um prisioneiro. Então, reunindo todo o seu poder, se transformou em um Balrog, e matou 63 soldados, até que Melian, a Maia, o enfrentou e desmaiou-o. Então, ele tomou sua forma normal, foi muito bem preso, em uma mesa feita pelos anões. Ali ele ficou por muitos anos.

 
No leste, todos da tribo Maerton, receberam nomes (até então eles não o tinham), e o herdeiro de Lómin, seu filho, foi chamado Dar-Lómin, e o filho deste, Dir-Lómin. Esta virou uma tradição dos herdeiros de Lómin. Os elfos, porém, sentiram inveja da força, agilidade, beleza e velocidade dos Maerton, e os expulsaram para Beleriand, onde passaram um ano. Eles eram lá vistos como alguns simples Moriquendi, e foram morar na terra, mais tarde nomeada Dor-Lómin, por um longo ano.

Quando já estavam a duas semanas ali, Dar-Lómin foi com seu general,Figôniel, caçar, para além das Ered Luin, e Dir-Lómin ficou como regente, em seu lugar. Nesta época, o regente nomeou aquela terra onde viviam: Dor-Lómin. Isso foi uma homenagem dupla: homenageou Lómin, pois Dor-Lómin significa terra de Lómin; e homenageou seu filho de doze anos de idade, Dor-Lómin. Quatro meses depois, um cavaleiro caindo aos pedaços se aproximou de Dor-Lómin.

 
(Capítulos Um, Dois, Três e Quatro desta fanfic) 

O Espelho de Mandos – Capí­tulo 3 – Proposta

O céu chorou todo o dia seguinte, mas durante a noite a chuva se foi,
contrariando a previsão do Sr. Nodewich de que choveria por cerca de
uma semana ou mais. Para mim isso foi uma bênção, pois eu pude
finalmente sair de casa para mostrar Lanval a toda Ugür. O elfo
continuava hospedado lá, pois ainda queria falar com minha mãe, mas
Urwen fizera um voto de silêncio e trancara-se no quarto, ficando lá
sozinha durante a maior parte do dia. Segundo os costumes de Ugür
aquilo deveria durar mais cinco dias, mas Lanval não se importou por
esperar. Na verdade parecia bastante contente enquanto todos os aldeães
se encantavam todas as noites com sua prosa, pois lhe era pedido que
contasse histórias dos elfos e dos homens, e dos Valar e de seus
inimigos e suas guerras, e Lanval fazia-o com música e discurso. A
maioria de nós se admirava com o conhecimento do elfo, e invejava sua
capacidade de viver mais que o suficiente para conhecer o mundo inteiro
e sua História. À exceção de minha mãe e Hardur, que também não saía de
casa desde o incidente na floresta, todo o vilarejo se reunia no
Mochileiro, a taverna do Sr. Pilgrim, para ouvir Lanval falar. E
durante o dia, o elfo tentava ajudar os moradores com suas tarefas
cotidianas, muito interessado em aprender tudo que pudesse sobre nossos
hábitos e costumes.

 

 
Eu também me fascinava com a beleza e o carisma daquele ser, mas estava mais interessado pelas histórias que ele sabia sobre meu pai e meu irmão, e mais ainda pelo momento da morte do primeiro e do desaparecimento do segundo. Mas sobre esse assunto específico Lanval demonstrava muita reserva, e eu encarava isso como efeito da dor de uma lembrança tão ruim. Ainda assim eu me achava no direito de saber os detalhes, pois eu já começava a me achar com a obrigação de encontrar Arameth, estivesse onde ele estivesse.

– Ele caiu das montanhas – disse ele, após uma longa hesitação. Era tarde da noite e voltávamos para casa após mais uma sessão de histórias no Mochileiro. Eu insistira em saber sobre como terminara a última missão nas encostas das Ered Gorgoroth, e agora Lanval, muito contrariado, me falava sobre meu irmão.

– E daí? Vocês não desceram pra procurar o corpo? – perguntei.

– Descemos.

– E não encontraram?

– Dungortheb é um lugar horrível, Adam. Ninguém sai vivo de lá – Lanval parecia cansado, e falava olhando para o céu.

– O que há lá? – perguntei, e ele me deu um olhar triste enquanto andava.

– Males terríveis, Adam. E você é só uma criança, não devo falar sobre isso com você.

– Que males? – insisti. – Lanval, Arameth é meu irmão! Eu tenho que saber quais são as chances de ele estar vivo, para o caso de querer tentar resgatá-lo algum dia.

Eu falei com tanta precisão que agora o olhar do elfo exprimia perplexidade e indecisão. Hoje imagino que ele deve ter reconhecido algo de adulto dentro de mim, ou alguma semelhança com o jeito do meu pai. E então ele disse. Contou-me uma história sobre Ungoliant, uma criatura que se aliara a Melkor para roubar as Silmarils e o poder das Árvores que iluminavam o continente dos Valar. Mas uma vez que chegaram à Terra-média, Ungoliant tentou tomar o tesouro que Morgoth tinha consigo, falhando em seu intento, pois os servos de fogo do Senhor do Escuro ouviram seu chamado e chegaram para ajudá-lo, expulsando Ungoliant para a região entre as montanhas e a floresta de Neldoreth. Ali o terrível monstro morava desde então, procriando e espalhando medo e dor e morte a quem quer que pisasse em seu território.

– Então Arameth provavelmente está morto no interior da barriga de alguma aranha? – perguntei, sentindo uma profunda tristeza.

– Lamento muitíssimo, Galdweth.

Continuamos andando em silêncio. Apenas as luzes da lua e das estrelas guiavam nossos passos, mas Lanval andava como se fosse dia. Eu estava frustrado, pois contara com a possibilidade de um dia resgatar o meu irmão. Comecei a pensar em minha mãe, sua tristeza e solidão, e percebi que agora ela só teria a mim, e eu precisaria ser forte para protegê-la. Já fazia cinco dias que Lanval chegara com a notícia, e mamãe ainda estava acamada.

– Não estará ela doente?

– Urwen?! Não – respondeu ele, o tom da voz voltando à naturalidade e deixando de lado a morbidez. – Todas as mulheres passam por isso quando perdem alguém que amam, Adam, até mesmo as elfas.

– Como são as elfas? – perguntei, desinteressado.

Lanval falou então sobre as mulheres do seu povo, principalmente Gilraen, sua noiva, cujos cabelos eram como rios de ouro e cujo riso era como a melodia dos Ainur. À medida que falava, encantava-me novamente com suas palavras, e eu sentia-me novamente confortado. Perguntei-me se havia no mundo criatura mais fascinante que os elfos.

Mas quando fui pra cama aquela noite, as aranhas do inferno voltaram para assombrar meu quarto e não me deixar dormir. Elas teciam suas veias de veneno pelo teto e tinham patas e presas manchadas de sangue. O sangue de meu irmão.

E enfim eu chorei.

No dia seguinte minha mãe mandou chamar Lanval. Eu estava novamente contente, pois o dia estava bonito e minha mãe voltara a falar. O elfo levantara e cedo e dirigira-se ao campo, onde tentava ajudar os aldeães a lavrar a terra.

– Adaman! Bom dia – fez ele, ao me ver chegando.

– Boas novas, Lanval – eu disse, um pouco cansado após subir o morro correndo, mas não pude deixar de reparar no suor que escorria de sob o lenço que envolvia a cabeça do elfo, para protegê-la do sol de quase meio-dia. – Minha mãe te chama.

– Ah! Finalmente. Espere um pouco que nós já desceremos – disse ele, e andou até o pequeno depósito de ferramentas que ficava próximo à plantação. Lá chegando, deixou sua enxada pendurada com as outras numa viga no teto, e sentou-se num banco que na verdade era um toco de árvore.

– O que está fazendo? – perguntei.

– Descansando, oras – respondeu ele, abrindo o cantil e servindo-se de água.

– Descansando?! Mas ainda nem é hora do almoço, Lanval.

– E daí? Elfos também cansam, moço.

– Aposto que nenhum deles já está cansado – apontei para os lavradores, que batiam a terra à nossa frente.

– Mas eles já estão acostumados com o serviço – ele me olhou e riu, e passou o lenço na testa para enxugar o suor. – Tudo bem, confesso que vocês, homens, têm mais força e resistência do que nós. Ou pelo menos mais que eu. Mas que calorão!

– Lá em Himring é muito frio?

– Neva quase o ano todo! Dizem que elfos não sentem frio, mas tem dias que até mesmo nós precisamos nos agasalhar.

– Eu gostaria de ir a Himring.

– Você irá – disse ele, e eu o olhei, incrédulo. – Você e sua mãe. Eu vou levá-los lá.

Encarei-o, boquiaberto.

– Você quer dizer, agora? – perguntei, cheio de entusiasmo. – Foi pra isso que você ficou, Lanval? Era isso que você queria dizer à minha mãe?

– Sim, mas é claro que ela precisa aceitar. Acho que já podemos ir, vamos andando.

– Mas quando é que vamos pra lá?

– Quando sua mãe achar que devemos.

Descemos a colina e dirigimos-nos à minha casa, onde minha mãe nos aguardava. Lanval não respondia mais às minhas perguntas, só ria e fazia comentários misteriosos. Minha empolgação era indescritível. Conhecer Himring e suas montanhas, os elfos, suas moradias, suas artes, seus costumes!

– Olá, Lanval – fez minha mãe quando chegamos, a mesa posta onde a refeição principal era peixe, já que o elfo não comia carne. Ela fez um gesto para que sentássemos. – Desculpe minha falta de cortesia para com você todo esse tempo.

– Não se preocupe, senhora, eu a compreendo – respondeu ele, com seu sotaque difícil.

– Agora eu gostaria de saber o que você ainda deseja comigo.

Eu observava a conversa com tanta ansiedade que esquecera de me servir. Lanval pegou uma migalha de peixe e um pouco de caldo, além de algumas verduras e água. Ele jamais comia mais do que isso, e mesmo essa pequena refeição era suficiente para mantê-lo cheio até o dia seguinte.

– Senhora, meu senhor Maedhros enviou-me para informar o que eu já informei, para apresentar nossos pêsames, e mais duas coisas. Entregar-lhe uma recompensa em ouro por todos os serviços prestados pela vossa família e fazer um convite: venha morar conosco em Himring.

Mamãe olhou-o séria, e pediu-lhe um tempo para analisar a proposta. Fiquei com medo que ela recusasse, mas depois que ela viu o prêmio que Lanval trouxera, sua resposta foi quase imediata.

– De fato, eu gostaria de visitar os elfos, e se é lá que está o corpo de meu marido, é lá que devo ficar.

O Espelho de Mandos – Capí­tulo 2 – Lanval

No início havia Eru, o Único, e ele criou Arda e os Ainur. Destes, quinze desceram ao mundo, dentre eles o Senhor do Escuro, Morgoth, contra quem lutavam todas as criaturas de Ilúvatar. Diz-se que os Valar, aqueles Ainur que deram forma à essência de Arda em tempos imemoriais, habitam terras magníficas no Oeste distante, onde o mundo tem fim. Mas sabemos que eles ainda vagam pela Terra-média, às vezes sem suas roupagens corpóreas, apenas em suas formas espirituais, a fim de interceder por homens e elfos contra os males do Norte. E sabemos que, dentre eles, Ulmo, o Senhor das Águas, tem um carinho especial pelos homens, principalmente os habitantes de Estolad, abençoando a água que dá vida a nossos campos.

 
Gratos a ele, nossos avós erigiram em sua homenagem a capela que dera origem a todo o povoado de Ugür. E ainda nos meus tempos de infância, os habitantes da aldeia e suas redondezas se reuniam todo mês na capela para festejar por Ulmo, nosso querido padroeiro. Os adultos costumavam preparar grandes refeições com frutas, carne de javali, bolos e cerveja, e as crianças costumavámos usar nossas melhores roupas.

– Eu o vi voltando para casa à noite – comentou, empolgado, Silas, filho do prefeito de Ugür. Era Dia de Ulmo, e Silas sempre se unia ao nosso grupo em eventos assim, embora durante quase todo o restante do mês não lhe fosse permitido ficar com a gente. Ele tinha professores e era obrigado a estudar o dia todo, e quase não lhe sobrava tempo para brincar. Apesar de ter roupas e brinquedos melhores que os nossos, sentíamos pena da vida que ele levava. – Ele tropeçava no escuro como um rato manco, achando que não estava sendo visto sob a lua cheia.

– Vocês deixaram-no nu, seus irresponsáveis! – disse Elanor, tentando parecer séria, mas também incapaz de conter o riso. Elanor era alguns meses mais velha que eu, tinha cabelos negros curtos e cacheados, além de pequenas covinhas nos cantos da boca. Sua pele, de tão branca, era quase rosa, e a maioria de nós éramos encantados com ela, mas sabíamos que seus pais em breve arranjariam um pretendente de berço nobre para ela, coisa que ninguém em Ugür era. – Já imaginaram o que os pais dele podem fazer ao descobrirem quem fez isso com ele?

– Nós já assumimos o risco – fez Camus, cujo olho inchara e agora estava quase do tamanho de uma pêra. – Nada pode ser pior do que o que eu passei ontem quando voltei pra casa. Vou ficar uns bons dias sem poder cavalgar.

Todos rimos de seu comentário. Estávamos reunidos no estábulo do Sr. Pilgrim, o dono da hospedaria de Ugür, que ficava ao lado da capela, onde nossos pais preparavam o banquete que serviria de almoço para todos nós. Fazia mais um belo e quente dia de verão, embora o Sr. Nodewich, nosso vidente do tempo, tivesse previsto o início da temporada de chuvas para aquela noite.

– O mesmo digo eu – disse eu, em meio aos risos. – Mas é melhor que ficar uns bons dias sem poder sair de casa sem ser alvo de risada de toda a aldeia.

– Vocês tinham que ver o medo do primo dele – tornou Camus, apontando para o pequeno grupo de Bête, que estava reunido nos degraus de entrada da capela, todos cochichando entre si sérios, olhando de longe para nós –, principalmente enquanto eu corria atrás dele.

– Você foi muito corajoso, Camus – agora foi a vez de Mardoc, cujas roupas pareciam apertadas demais em seu corpo gordo -, mas Adam foi mais. Conte-nos como você enfrentou o Stripa sozinho, Adam.

Todos os olhos se voltaram para mim, e eu me senti meio desconfortável.
– Eu não o enfrentei, muito menos sozinho, lamento decepcioná-los – olhei para os lados antes de continuar, certificando-me de que não havia ninguém de fora que pudesse me ouvir. Além de nós, só havia no estábulo os cavalos e um sujeito que dormia encostado na outra parede, a metros de distância, com um chapéu sobre o rosto. – Havia um homem na floresta, um sujeito de armadura preta, que me ajudou – sussurrei.

– Um sujeito de armadura?! – repetiu Silas, impressionado.

– Fale baixo, Silas – sussurrou Elanor.

– Silas, se os adultos descobrirem que andamos perambulando pela floresta e que há uma pessoa estranha lá, jamais voltarão a nos deixar sair de casa – adverti, sério.

– Eu sei, eu sei – respondeu ele -, desculpem.

– Será que era Eöl? – perguntou Mardoc, traduzindo o pensamento de todos ali.

– Eu perguntei seu nome – respondi -, mas ele só riu, me ajudou a levantar e em seguida partiu.

– Então não deve ser ele – disse Mardoc, que era o que mais se interessava por histórias sobre o estranho ser que habitava o coração de Nan Elmoth. – Se fosse ele, teria te amarrado e carregado para seu cativeiro.

– Mas dizem que de fato ele possui uma armadura negra – fez Esdras, que costumava falar pouco.

– Não parecia galvorn – disse eu, que conhecia o metal por causa de uma cota que meu pai possuía -, parecia algo mais pesado. Na verdade, cada peça parecia pesar uma tonelada.

– Crianças – tivemos um sobressalto ao ouvir uma voz, mas ao olharmos em sua direção vimos Nenar, a irmã mais velha de Mardoc, que nos acenava da porteira. – Os adultos vos chamam, é hora da bóia!

Camus e Silas urraram de alegria e correram à frente, loucos para serem os primeiros a atacar a mesa com o vasto banquete. Nenar virou-se em seguida e acompanhou-os, enquanto o restante do grupo andava um pouco atrás.

– Será que ela nos ouviu? – perguntou Elanor, preocupada.

– Aposto que não – respondeu Mardoc. – Se ela tivesse ouvido, já teria deixado isso bem claro, tentando nos chantagear para que não a deixemos contar aos nossos pais. Eu a conheço.

Dirigimos-nos, então, alegres à capela, para comer e cantar e orar ao Senhor das Águas.

Mas minha alegria iria durar pouco.

A noite daquele mesmo dia se aproximava, e com ela as primeiras nuvens de chuva vindas do leste.O vento já uivava alto, e os trovões chegavam a nós como rugidos de feras distantes. À luz das lamparinas, eu e minha mãe costurávamos, eu um pequeno ferimento na orelha de Borges, meu cachorro de estimação, e minha mãe as roupas rasgadas do meu pai e do meu irmão. Meu pai chamava-se Arameth, era um guerreiro que prestava serviços aos elfos no norte e voltava para casa uma vez por ano. Lembro-me que ele tinha cabelos compridos e ruivos, mas agora não mais me recordo de seu rosto, talvez porque em sua imagem mais nítida que há na minha mente, ele usa um elmo cobrindo-o todo, à exceção dos olhos azuis. Mas imagino que sua face tenha sido marcada por diversas cicatrizes, como é a maior parte dos guerreiros que passam a maior parte de suas vidas treinando e lutando.

Arameth era também o nome do meu irmão, que no último verão fizera dezessete anos e partira para o norte com meu pai, juntando-se ao exército de Maedhros, um dos príncipes élficos que enfrentavam todas as criaturas que desciam da nefasta fortaleza no extremo norte, uma montanha gigantesca chamada Angband. Enquanto eu parecia mais com minha mãe, herdando sua pele e seus cabelos negros, Arameth era mais parecido com meu pai. Lembro-me dele como sendo extremamente alto, mais até que meu pai, e sendo muito belo de rosto. Toda a população de Ugür (à exceção das famílias dos demais guerreiros, que eram poucos e não tinham qualquer contato com os elfos, mas serviam Haldad no leste) admirava meu pai e meu irmão por passarem seus dias com seres de raça tão elevada como os eldar. Além disso, era sabido que meu irmão era excepcionalmente hábil com a espada e poderia se tornar um grande herói a ser clamado por gerações e gerações, pois com apenas quinze anos ganhara vários torneios de habilidades marciais em Balan. Eu mesmo invejava sua capacidade, e sonhava em um dia me tornar alguém como ele, ou mesmo como meu pai, que era um homem dedicado e, segundo o que me contaram depois, com uma inteligência na guerra fora do comum.

Era novamente verão e com as chuvas se aproximava o tempo em que eles deveriam voltar, pois já estavam a quase um ano longe do lar. Como a chuva nos obrigava a ficar em casa, nessa época do ano minha mãe costumava se dedicar muito à preparação da casa para a volta de seu marido. Lustrava as armas e armaduras que serviriam a ele durante sua próxima ausência, engraxava suas botas, consertava suas roupas velhas e comprava novas, limpava toda a casa, deixando-a impecável, e agora eu sabia que durante os próximos dias ela ia se ocupar muito com isso, passando a maior parte de seu serviço caseiro para mim.

Mas eu estava enganado.

Ouvimos duas batidas na porta e nos entreolhamos. Estava escurecendo e não era comum os habitantes de Ugür fazerem visitas à noite, ainda mais uma que prometia um belo temporal. Mamãe fez um gesto mandando-me atender quem quer que fosse, e eu me levantei, incapaz de imaginar quem era. Não poderia ser meu pai, pois ele sempre batia três vezes quando chegava, e ele nunca chegava de noite.

Abri uma brecha e olhei um rapaz magro, segurando um cavalo pelo cabresto, com roupas surradas de viagem e um cabelo sujo que esvoaçava com o vento.

– Boa noite, a Sra. Urwen se encontra? – disse ele, com o sotaque mais estranho que eu já ouvira em toda minha vida. Urwen era o nome de minha mãe.

– Quem é? – perguntei, desconfiado.

– Meu nome é Lanval – ele fez uma leve mesura -, e sou um amigo de Arameth.

Olhei para mamãe, que ouvira a breve conversa. Em resposta, ela me olhou de volta com uma sobrancelha levantada, mas se levantou e andou em direção à porta.

– Posso ajudar? – fez ela, abrindo mais a porta para poder ver o homem.

– Sinto muito incomodá-los, senhora, mas eu gostaria de conversar. Venho em nome de seu marido – ele fez novamente a mesura, o que era um gesto considerado demasiadamente educado em Ugür.

– Eu não te conheço – respondeu minha mãe, que era pouco dada a acreditar em estranhos. – O que você quer dizer? Está tudo bem por lá, não está?

– Sinto muito, senhora, mas não – Lanval pareceu meio sem jeito para continuar. – sinto informá-la que seu marido faleceu há três dias, no dia quinze de maio no calendário dos noldor.

Minha mãe empalideceu na hora, e eu senti algo apertar minha garganta.

– Desculpe, eu não compreendi – disse ela, quase incapaz de respirar.

– Seu marido, o Sr. Arameth, faleceu em batalha há três dias, e seu filho desapareceu nos vales das Ered Gorgoroth.

Precisei de rapidez e força para segurar minha mãe, que caíra para trás e quase perdera a consciência.

– Mamãe, mamãe? – tentei reanimá-la, mas ela estava mole e pesada como uma grande carpa que eu pescara outro dia. Lanval tentava ajudar, mas ao se abaixar para tocá-la ela se ergueu num pulo, se apoiando na porta para não cair novamente.

– Senhora, está tudo bem? Sinto muito pelo que houve, mas eu tive ordens de trazer-lhe a notícia.

Minha mãe tentava se recompor, articulando as palavras devagar:

– Garoto, espero que isso não seja uma brincadeira de mau gosto. Você pode provar o que diz?

– Este é o cavalo de Arameth – respondeu ele rapidamente, e olhamos a montaria que ele trazia pelo cabresto. De fato era Aracar, o alazão de meu pai, e ao olhar para ele veio-me uma dor súbita no coração e uma imensa vontade de chorar. Minha mãe também reconheceu o animal, e com os olhos cheios de lágrimas e uma exclamação agoniada correu para dentro de casa, deixando-me sozinho com o rapaz. Um trovão mais próximo ressoou e as primeiras gotas começaram a cair do céu, como se o mundo começasse a chorar a morte de meu pai. Mas eu seria mais forte e não faria o mesmo.

– Você pode entrar, se quiser – disse eu, enquanto o homem me encarava em silêncio -, enquanto eu guardo Aracar.

– Eu vou com você – respondeu ele. – Mas depois eu gostaria de entrar, sim. Apesar de sua mãe provavelmente me odiar.

Não respondi, pois sabia que se respondesse algo naquele momento, o choro iria chegar. Apenas peguei o cabresto de sua mão e guiei Aracar para a parte de trás da casa, onde havia um pequeno celeiro onde o cavalo ficava em dias de chuva. Nesse momento começou a chover mais forte, e as gotas estavam frias, por isso me apressei para abrir a porta da pequena e alta construção.

Entramos, e eu guiei Aracar até o pequeno monte de feno que sobrara do ano anterior e que estava com um aspecto desagradavelmente ruim. O capim mais novo estava reunido no armazém maior do Sr. Elfrar, um mercador amigo dos meus pais, e não seria possível ir até lá para recolhê-lo. Aracar deveria contentar-se com o que havia, pelo menos até o próximo dia.

A água caía do céu como uma torrente, e ao bater no telhado de madeira do celeiro produzia um som monótono e alto. Lanval olhava para mim sem ter o que dizer, sabendo da minha dor. Eu parei para acariciar o pêlo de Aracar, enquanto ainda tentava digerir a morte de meu pai, forçando-me a segurar as lágrimas, quando de repente lembrei-me de algo.

– O senhor disse que era amigo de meu pai? – perguntei.

– Lutamos várias vezes juntos, e seu pai era um grande homem. Seu irmão também.

– Quer dizer então que você é um elfo? – perguntei, impressionado.

– Oh, me desculpe – disse ele, surpreso -, sim, sou um elfo. Falhei ao me apresentar.

– Um elfo! Alguém mais sabe que o senhor está aqui?

– Bom, meu senhor Maedhros sabe, e mais alguns amigos que moram comigo em Himring. Da tua aldeia, ninguém – ele respondeu com um singelo sorriso, adivinhando meus pensamentos. De repente eu notei nele uma certa luz própria, e ele pareceu-me incrivelmente belo, mesmo naquela penumbra que beirava a escuridão.

– Então eu tenho que te mostrar aos meus amigos! Eles não vão acreditar! – eu estava tão empolgado que não parecia que acabara de perder um pai.

A chuva afinou por alguns segundos, e nós aproveitamos para correr de volta pra casa, onde minha mãe chorou toda a noite e Lanval me contou as maravilhas de seu mundo ao norte, as famosas guerras do passado, e os grandes feitos de meu pai nas montanhas geladas de Maedhros.

Maerton – Capí­tulo 4 – O despertar

Quando acordaram, os Maerton se sentiam como se tivessem dormido por
uma noite. Eles estavam presos dentro da “pedra da espada”. Foi aí que
o filho único de Lómin, agora com tanto status como Gil, foi arrebentar
a pedra, para poderem sair. Aconteceu, pois, que ele, com um chute, mal
rachou a pedra. Foi aí, que os Maerton perceberam: estavam bem mais
fracos que antes! Todos se enfureceram com os Valar, que os havia
reunido ali. 
 
 
Porém, o herdeiro do senhor dos guerreiros, pegou em uma
mão Ravena, e na outra Manestríndil. Então ele atacou a rocha com tudo,
e, sete horas depois, conseguiu sair. Mas ele se cansou, e com isso os
Maerton perceberam: estavam bem mais fatigantes do que antes. Foi então
que o ódio aos Valar se inflamou realmente: Seregorr não estava na
rocha!

Eles, então, viram de repente, um ser na sua frente, mais
fraco que eles, mas falava uma língua diferente. Aos poucos os Maerton
foram aprendendo aquela língua, o Sindarin. Mas nenhum Maerton Ousava
ir até Beleriand, pois, daqueles lados, eles acreditavam vir os Valar.
A tribo rumava sempre para o leste, mais um deles tinha um desejo
enorme de rumar para o oeste, e para Beleriand. Este era Sereg, o mago.
 
(Capítulos Um, Dois e Três desta fanfic)

Maerton – Capí­tulo 3 – Durante o sono

Enquanto os Maerton dormiam, várias coisas aconteceram. Os Valar
limitaram suas forças, pois sentiram medo deles, Seregorr foi confiada
a Eonwë, o arauto de Manwë, que a guardou em Taniquetil. Melkor foi
derrotado e preso nos palácios de Mandos, por três eras. Os
primogênitos de Eru, os elfos, nasceram, em Cuiviénen, e Oromë os
conduziu até Valinor. Muitos, porém, não chegaram à terra imortal, e
ficaram na terra-média: os Moriquendi. Alguns destes foram os Sindar,
que criaram o idioma Sindarin, falado em Beleriand.
 

Melkor foi
libertado, com um juramento de lealdade, e ele foi até Ungoliant, na
terra de Avathar, o extremo sul, e os dois “atacaram” Valinor.
Destruíram Laurelin e Telperion, como também os poços de água e luz, de
Varda, mataram Finwë e roubaram as Silmarils. Isso gerou a nova
proteção de Valinor, com as Pelóri mais altas que nunca, e a deixa dos
Noldor (resultado de tragédias), que, quando estavam chegando a
Beleriand, admiraram o sol e a lua pela primeira vez. Foi nesse
instante que os homens nasceram, longe, perto de Cuiviénen. E os
Maerton despertaram mais uma vez!

(Capítulos Um e Dois desta fanfic)

Um Antigo e Mais novo Inimigo da Terra-média – Cap. 16

FUGA E INCERTEZA 
Finalmente Dargorot tinha se revelado e se mostrado ainda mais poderoso do que todos imaginavam. Parece que a máxima, quanto mais velho mais poderoso é o dragão, tinha, de uma vez por todas, se confirmado. Pallando, Eomer, Elor, Halmá, ainda desacordado, e os demais sobreviventes, chegaram finalmente à passagem secreta. Esta era escavada por dentro das Montanhas Brancas, por obra dos anões, a pedido do Rei Aragorn Elessar desde que assumira o agora, Reino-Reunido de Gondor. O projeto tinha como objetivo facilitar uma possível fuga de soldados que por ventura teriam que defender o Forte da Trombeta, tendo em vista este ser facilmente cerceável devido a sua localização, como se fosse um prelúdio do perigo que agora acometia a Terra-Média, sendo assim sua função tinha se confirmado, as mulheres e crianças que escaparam primeiramente antes do ataque dos goblins tinham chegado em segurança a Édoras, e agora os remanescentes soldados trilhavam o mesmo caminho, porém com uma maior cautela e medo profundo de que essa passagem fosse descoberta antes de chegarem à saída.
 
Os que não a conheciam observavam atentamente e se perguntavam, como uma obra feita pelos anões seria ainda tão rústica e primitiva, a passagem não lembrava em nada a arquitetura anã e muitos tentaram compará-la a Moria, mas nada de semelhante se via. Era uma passagem estreita, com três metros de altura por dois de largura, as paredes eram mal acabadas, água escorria por elas e pingava nas cabeças dos soldados quando passavam. Os passos eram cautelosos, pois muitos buracos tinham no chão e não se via se eram profundos ou não, e no teto, vigas pontiagudas pareciam apenas esperar o momento certo para desabar sobre eles. Insetos caiam constantemente em suas cabeças e seus ombros, aranhas, centopéias, às vezes as teias das aranhas ficavam presas as suas cabeças, morcegos ficavam pendurados nas paredes e revoavam para todos os lados com seu chiado, que na caverna se tornavam gritos. Do teto um pingo atingiu Halmá no rosto fazendo-o acordar assustado, ele logo perguntou tudo o que tinha ocorrido aos demais sem moderar a voz que ecoava como um grito ainda maior que os chiados dos morcegos.

-Fale baixo Halmá! O silêncio tem que estar sempre presente para que não chamemos atenção. – disse Elor sussurrando.

Logo ele foi posto no chão por Elor e ainda meio tonto teve que ser apoiado.

Todos estavam com medo e assustados, os pingos e os passos dos cavalos ecoavam pela caverna atingindo o silêncio mortal que ali reinava. A sombra parecia crescer a cada passo e envolver os soldados com o terror e o desespero, então Pallando criou uma pequena luz que emanava de seu cajado para que a caminhada se tornasse mais segura e menos incerta. Em suas mentes duvidas brotavam como água de uma nascente: “será que chegaremos vivos?” "Os goblins descobrirão a nossa passagem e nos perseguirão por essa estreita caverna?” “A saída, será que esta sendo vigiada por eles?” Mas ninguém tinha coragem de falar nada, não queriam que as poucas esperanças de chegarem vivos se extinguissem de vez.

Eles se olhavam constantemente, tentando ver nos olhos uns dos outros, uma expressão que não fosse medo e incerteza, até mesmo Eomer e Pallando estavam com a fisionomia abalada, logo eles, que durante o combate, instigavam os soldados a lutarem por suas famílias, pela suas terras e pelo seu rei.

Naquele momento parecia que palavras não serviriam de nada, as faces dos soldados mortos estavam estampadas na mente desses homens. O poder de Dargorot parecia inderrotável, mas eles continuavam caminhando cada vez mais apressadamente, queriam chegar logo a Édoras, primeiramente para escapar dos goblins e logo em seguida descrever o quão devastador foi Dargorot para Faramir e Eowin, de modo que conjuntamente com o Rei Aragorn Elessar tomassem providências urgentes em prol da população.

Eles seguiram e, depois de caminharem por algumas horas, encontraram um leve feixe de luz, acima de uma pequena rampa, as paredes mudavam conforme eles se aproximavam, pareciam terra com pedras e não mais pedras como anteriormente, o solo tinha se tornado mais fofo e silencioso e as paredes parecia mais frágeis. Eles seguiram a rampa e juntos empurraram a pedra que antes não existia e que agora impedia a saída, Pallando estranhou um pouco, mas logo pensou que tinha sido obra dos próprios soldados que escoltaram as mulheres e as crianças até a saída e por segurança puseram essa pedra aí.

Assim que empurraram, a luz do Sol finalmente adentrou na sombria caverna, seus olhos doeram instantaneamente, mas aos poucos foram voltando ao normal e ao subirem se depararam com uma grande árvore.

-Finalmente saímos do túnel, e o dia esta claro e azul, goblins não gostam muito da luz, é a nossa chance de seguir e rápido para Édoras, cada cavalo pode levar duas pessoas para facilita nossa chegada, senhor Pallando venha comigo. – Disse Éomer.

Após se organizarem seguiram para a capital dos Rohirram olhando para todos os lados e atentos. Caminharam durante muito tempo e quando a noite se aproximava viram o palácio dourado de longe, reluzente com a pouquíssima luz do sol que ainda restava, apressaram o passo e quando chegaram foi dado o sinal. Do palácio desceram Allatar, Faramir e Eowin com alguns soldados e rapidamente as pessoas começaram a se amontoar ao redor deles curiosos para saber do resultado da batalha, Pallando estava exausto e foi levado por Allatar para o Palácio. Faramir dirigiu-se a Eomer, este rapidamente falou:

-Lutamos bravamente senhor Faramir, mas não resistimos, eram milhares de goblins, e ainda por cima, Dargorot… O tão falado dragão de outrora, que achávamos que os anões tinham matado, está vivo senhor e mais poderosos do que nunca…Ele acabou com nosso exército, o senhor Pallando tentou enfrentá-lo, mas sozinho não podia contra ele, e essa comitiva é a única que sobreviveu, elfos chegaram fugidos dos goblins dentre eles Elor, que foi o único que sobreviveu na batalha…

-Eowin, – disse Faramir, – acomode os demais, ainda quero conversar com Elor e Eomer no palácio.

Eowin levou os soldados, contudo, Faramir, Eomer e Elor dirigiram-se para o palácio sob os olhos curiosos do povo.

Ao chegarem ao palácio, os três sentaram-se numa grande mesa em uma das salas internas, bandeiras verdes com o símbolo do Rohirrins estavam em toda a parte juntamente com tochas para iluminar o ambiente, percebia-se uma arquitetura diferenciada, era uma mescla de madeira com pedras que pareciam douradas com o reflexo das tochas e, assim como a grande maioria dos palácios, possuía várias colunas nas laterais da sala.

Na mesa, Faramir indagou Elor sobre Valfenda, e este lhe disse que esta fora completamente tomada pelos goblins. Tentaram resistir, mas eram poucos, portanto fugiram para o Forte da Trombeta, porém quando passaram por Moria viram que lá, era de onde a grande quantidade de goblins saia e que o Forte da Trombeta para eles seria o local mais seguro, logo em seguida descreveu o combate e a fuga.

– Faramir, – disse Eomer. – nós seremos os próximos alvos, Édoras está no foco de Dargorot, isso é inegável, ele vem dominando importantes pontos estratégicos, não resistiremos quando ele vier com todo o seu poderio militar como fez com o forte da trombeta!

Faramir parou por alguns minutos perdidos em seus pensamentos, e voltando a realidade falou:

-Elor, você disse que Moria parece ser o esconderijo dessas criaturas não foi? Os soldados de Moria não são infinitos, tenho um plano arriscado e ousado, mas preciso consultar o Rei Elessar acerca dele, não falarei agora, afinal nós todos estamos precisando descansar.

Nesse momento Eowin já chegava com Allatar.

-Eowin, prepare minhas coisas, amanhã irei para Gondor falar com o Aragorn, Elor irá comigo, a situação é grave temos que agir!

-Eu quero ir com você meu amor, não quero me tornar uma simples coadjuvante nesta guerra, meu povo precisa de mim, e em memória de meu tio se necessário lutarei como lutei nos campos de Pellenor e protegerei meu povo! – o olhar da bela princesa parecia aflito, mas, ainda assim, ansioso por nova batalha.

Faramir sorri e continua, – Você é uma mulher de fibra, amanhã partiremos para Gondor. – Virando-se para Eomer. – Você será meu substituto temporário Eomer, cuide de Édoras como seu tio cuidaria se estivesse vivo! Oh príncipe de Rohan

-Farei isso Rei de Rohan!. – E se curvou.

Todos então se retiraram para seus aposentos. A noite estava fria, porém muito estrelada, as pessoas aos poucos se dirigiam a suas casas, apagando suas tochas, soldados se posicionavam nas muralhas, sempre atentos a qualquer movimentação, afinal, o inimigo estava às portas. Porém, naquela noite, nada ocorreu.

Mais um dia chegou e a aurora reluziu nas janelas do palácio, Faramir, Eowen e Elor já estavam prontos, montaram em seus cavalos e partiram para Gondor. Eomer por sua vez, tratou conjuntamente com Pallando em repassar a população a situação. Grupos de Rohirrins foram enviados para buscar mais soldados espalhados e trazê-los para Édoras e outro grupo ficou incumbido de fazer a segurança de Faramir, Eowin e Elor. Eram mais de duzentas milhas e alguns dias de caminhada. Faramir sabia que os Goblins não atacariam tão cedo, tinham perdido muitos soldados apesar de terem ganhado a batalha, mas sob o comando do inteligente Dargorot, eles não tentariam uma tática suicida, pelo contrario, esperariam, se reagrupariam, até que o momento certo chegasse, e assim atacariam Édoras com toda a força, como fizeram ao Forte da Trombeta. Isso ocorrendo não haveria defesa, principalmente se Dargorot decidisse agir em conjunto com suas tropas.

No caminho para Gondor, Faramir, Eowin, Elor e sua comitiva de soldados seguiam atentos, pela estrada norte-sul, beirando as montanhas brancas pelo folde leste, cruzaram o córrego de Mering atingindo a região de Anórien.

A pressa não lhes permitiu acampar como se deveria numa viagem dessas, mesmo assim, seguiram firmes com os melhores cavalos da terra-média, forçando-os um pouco mais, e esses não hesitavam, pareciam que quanto mais corriam mais forças tinham. Assim seguiram cruzando Anórien, ainda beirando as montanhas brancas até ao longe se via a imponente cidade de Minas Tirinth e depois de mais algumas horas caminhando vindos de Édoras, adentraram a noite e chegaram numa bela manhã.

A comitiva de Faramir se aproximou dos portões, que rapidamente foram abertos e Faramir seguido de sua comitiva adentrou nos círculos de Minas Tirinth. Seguiram até o palácio perseguidos por olhos atentos, todos viam o Emblema dos reis de Rohan em suas vestes, e alguns até se curvaram diante dele, enquanto seguia cumprimentava as pessoas com gestos. Finalmente atingiram o mais alto e último circulo, durante o caminho observaram a arquitetura e a beleza da Cidade Branca, parecia que ela estava ainda mais bonita do que da ultima vez que tinham vindo, o povo parecia muito mais alegre e mais bem vestidos, crianças brincavam correndo de um lado para o outro, parecia que nada sobre os goblins tinha sido dito.

As portas do palácio, foram recebidos pelo rei Aragorn Elessar, sua bela esposa Arwen Undomiel Elessar e Radagast “O Castanho”, ambos os olhavam com apreensão, afinal era uma visita surpresa. Após se cumprimentaram, conforme adentravam no palácio, a preocupação na face do rei de Rohan era visível.

-Percebo que um grande peso o acomete Faramir, porém temo que esse peso seja demais para todos nós. Diga-nos se é Dargorot o grande culpado. – a voz da Estrela Vespertina soava musical dentro da mente atordoada de Faramir.

-Você está certa Arwen, sua sabedoria élfica, parece não tê-la abandonado mesmo depois de tudo que ocorreu. – Disse Faramir fazendo uma reverência.

-Meu rei, a nossa…

-Não precisa me tratar dessa forma Faramir, deixe as formalidades, somos amigos tempo suficiente para que nos tratemos de igual para igual.

Faramir olhou para Aragorn e um leve sorriso apareceu em seus lábios.

-Vejo que a humildade continua a mesma, apesar de tudo, meu amigo… Mas agora, essa humildade precisa se converter em comando, mais do que nunca precisamos de um plano para parar o avanço de Dargorot… Ele vem devastador Aragorn, tomou o forte da Trombeta e seus olhos sem duvida dirigem-se a Édoras, seu próximo alvo, temo que não poderemos resistir, nem devamos arriscar enviar soldados para proteger Édoras e enfraquecer Minas Tirinth, devemos formar grandes caravanas e trazer todos para cá e aqui mais uma vez devemos decidir o nosso futuro.

Aragorn baixou a cabeça respirou fundo e falou:

-Faramir, temo que Dargorot não seja o único de nossos problemas…

Todos se agitaram com essa noticias, a expressão de Faramir, Eowin e a comitiva se tornou profunda e escura como o céu durante uma noite, e o terror emanou de seus olhos.

-Mas como Aragorn! Do que você está falando?

Radagast então interveio…

-Não sabemos ao certo do que se trata, mas nossos soldados de Osgiliath foram todos mortos, muitos morcegos vampiros foram lá encontrados também mortos, parece-me que foram atacados por morcegos, porém, cortes por espadas sulistas e, ainda, homens de Harad foram encontrados, mas nenhum sequer tinha marcas dos dentes dos morcegos… Demoramos um pouco pra descobrir, porém quando descobrimos enviei alguns de meus pássaros para averiguar e me trazer noticia, mas pouco depois que passaram de Osgiliath, um bando de corvos os atacaram e todos morreram, os corvos os perseguiram e não deixaram um pássaro vivo. Essa atitude não é típica de corvos comuns, tenho em mente que eles estavam sendo controlados por alguém, e não há ninguém nessas terras que tenha tal poder a não ser eu… . Infelizmente jovem Faramir, talvez Dargorot também esteja no comando do sul, como eles chegaram até lá não sabemos, mas não vemos outra possibilidade lógica. Então Aragorn falou:

-Em meio a todos esses problemas Faramir, Fangorn esteve aqui após visitá-lo, ele disse-me que um pequenino tinha sido perseguido pelos Goblins até Isengard, e que após aquela batalha, terrível para os Ents, ele o enviou para cá, pelo rio Isen, mas não sei se ele sobreviveu, talvez se ele chegasse a tempo poderíamos ter nos preparado para isso.

-Onde está Fangorn?

-Fangorn dirigiu-se para a floresta de Mirkwood, Faramir, soubemos que Lórien foi tomada também pelos goblins, ele ficou encarregado de trazer para cá ou levar para o reino anão os elfos que lá ainda residem.

Enquanto conversavam, Eowin e Arwen se retiraram da conversa, e seguiram adentrando ao palácio.

-Vamos Eowin, depois nos informamos acerca da conversa, meu filho vai ficar feliz em lhe ver. Mesmo tendo em sua mente vontade de ficar Eowin decidiu ir, talvez após essa viagem longa um pouco de tranqüilidade seria fundamental, ela então seguiu Arwen.

-Os anões também são um dos motivos para nos conversarmos Aragorn, mas antes me deixe lhe apresentar Elor, ele e mais alguns elfos fugiram de Valfenda quando esta foi tomada pelos goblins, e lutaram no forte da Trombeta ao nosso lado. Infelizmente apenas ele sobreviveu naquela luta, por esse motivo ele…

-Meu rei! Meu rei! Um pequenino muito ferido montado em um pônei também ferido foi resgatado… . Interrompeu um dos soldados.

-Mas, como?

Aragorn saiu do palácio e encontrou o pequenino sendo carregado pelos soldados…

-Mas… você… . Aragorn olhou atentamente o pequenino e após alguns segundos lembrou sobre o pequenino que Fangorn tinha descrito. Você parece com o pequenino que Fangorn a muitos dias me falou?, Achávamos que estaria morto… mas..o que aconteceu? Ben é seu nome não é?

Sim, era Ben, estava muito ferido e ensangüentado como se estivesse sido espancado, mesmo assim, e ofegante, ele respondeu a pergunta do Rei. Por um instant em seus olhos estampada estava à malícia, como uma serpente pronta para dar o bote. Mas logo que olhou para o Rei ela desapareceu.

-Cor…corsários…de…de..Har..Harad, remanescentes de Umbar…me..me..capturaram…e me… escra..vizaram…, mas, con…segui…fugir…quando..atacaram…o povoado na regi…ão de Ethir..Anduin… .

– Aragorn, esse pequenino não está em condições de responder suas perguntas. – Disse Faramir, – Mande tratá-lo.

Aragorn, seguiu o conselho do amigo e ordenou que cuidassem do pequeno. Após mandou que alguns batedores fossem a Édoras e trouxessem toda a população, armas, comida e tudo que fosse possível para Minas Tirinth.

-Faramir se acomode, mais tarde conversaremos, com a cabeça menos preocupada escutarei seu plano. Chame sua mulher, coma e descansem, um pouco, você e sua comitiva. Tenho alguns relatórios de batedores para analisar imediatamente, reunirei Homens de Gondor espalhados por essas terras para cá, à noite pensaremos em Dargorot e essa estória dos corvos atacando os pássaros de Radagast.

-Sim Aragorn, farei isso. – Curvou-se e saiu. Mesmo tendo sido pedido por Aragorn que deixasse as formalidades.

-Quanto a Você Radagast, envie seus pássaros para as regiões próximas a Édoras, inclusive para o norte em especial o Forte da Trombeta. Allatar e Pallando já poderão adiantar o processo de fuga enquanto meus batedores não chegam.

-Sim, farei isso. – Curvou-se e saiu.

Aragorn do palácio olhava preocupado para o sul, afinal o que poderia estar acontecendo próximo a Mordor. Em sua mente Sauron era uma possibilidade, mas o Um Anel fora completamente destruído e Sauron não teria poder para absolutamente nada, então qual seria o inimigo? será Dargorot, também ao sul? Interrogações e duvidas brotavam em sua mente e a preocupação com seu povo e sua família era o que mais o perturbava, e o temor de mais uma guerra feria seu coração.

Viagem de um Anão – Capí­tulo 6 – Aves Negras e Risos Maléficos

Depois de comer até estar cheio, Rarum começou a beber vinho tinto, óptimo, vinho da colheita do ano 876 desse viagens-de-um-anao.jpgmilénio, das vinhas pedidas das distantes montanhas Rodeorn. Entendendo os seus limites, o anão pôs o vinho de lado.
 
 
Foi pedida a sobremesa, três apetitosos bolos, um pão-de-ló, um de ananás e um de laranja, juntamente com tarte de maçã. Rarum já não comeu muito, pois encontrava-se cheio, mas não dispensou uma fatiazinha de tarte de maçã. Depois prosseguiu conversa, perguntando ao rei:

-Bem o nosso cavalo e a nossa carroça, onde se encontram realeza?

-Oh, não se preocupe, estão em segurança. Neste momento o seu cavalo está a ser escovado e alimentado, e as rodas da sua carroça substituídas. Quando desejam partir?

-Bem, nós estávamos a pensar partir hoje, eu ainda tenho uns assuntos a tratar e Rarum deseja chegar rapidamente á sua cidade natal, nas montanhas Longrock! – respondeu Morit.

-Então o vosso desejo será satisfeito. Mas deixo-vos um concelho que vos poderá vir a ser útil: tenham cuidado na floresta, principalmente á noite. Os orcos estão longe, mas os gnomos travessos estão sempre á espreita! Ainda á uma semana atrás um pequeno grupo de gnomos ficou acampado perto da casa do portão… toda a cidade ficou em polvorosa, e o guarda do protão não pregou olho. Apesar de sermos muito mais que suficientes para os derrotar, se um deles se safasse poderia avisar os outros da nossa localização! Agora temos recebido notícias das fadas da floresta que eles estão longe e, ao que parece, estão a formar uma aliança com Itridin.

-Mas os gnomos não tinham sido banidos da floresta? E para mais, porque vocês não os abatem? – perguntou Rarum, curioso.

-Porque eles têm esconderijos que nem nós conhecemos! Mas se forem com cautela e silenciosos pode ser que lhes escapem. Para além disso, Morit possui grandes poderes e a sua ajuda pode ser preciosa! – respondeu o rei, soltando um pequeno sorriso confortante.

– Claro, claro, – disse Morit – mas também é preciso cautela, essas aberrações são difíceis de enganar!

 

Rarum tinha um frio na barriga. Histórias sobre gnomos já lhe tinham chegado aos ouvidos, histórias arrepiantes e inquietantes mas nunca pensara que se tivessem estendido o seu território até á Grande Floresta Central. Os gnomos habitavam o grande norte, nas Montanhas Geladas do Norte, no Desfiladeiro Superior Nórdico e nas Montanhas Finais. Nessa zona habitavam os elfos do norte, que tinham várias cidades na montanha e nos desertos gelados. As cidades das montanhas eram frequentemente cercadas, sem que os gnomos tivessem qualquer êxito. Mas pelos vistos tinham conseguido colocar pequenas colónias na grande floresta, a milhares de quilómetros dos seus reinos montanhosos. Agora tinham-se aliado a Itridin e iriam, muito provavelmente, causar grandes danos no bonito reino élfico da floresta.

A imagem de viajar numa floresta escura, com gnomos maléficos espreitando por entre os troncos das árvores arrepiavam-no, mas não deixou que os outros percebessem esse sentimento e perguntou ao rei:

-E como conseguiram eles passar até aqui? Quero dizer, os que vieram das Montanhas Geladas do Norte não tiveram de passar pelo reino dos elfos do nrote, mas os restantes tiveram… e como passaram todos eles pelo reino dos homens do norte?

-Oh, meu amigo! – respondeu o rei – Isso não é tão complicado como parece! Provavelmente, os do extremo norte vieram pelo lago gelado de Uribor, atravessando por entre os seus blocos de gelo. Quando chegaram ás Montanhas Geladas do Norte, seguiram pelo lado leste da Tundra de Uimur, entraram na Floresta do Norte, atravessaram-na, e depois foi só seguir o lago Diandor até entrarem nas matas da floresta central. Mas não se preocupe. Duvido que consigam conquistar a floresta. Mesmo com a aliança de Itridin, nem eles nem os Orcos das ilhas negras, entraram na floresta sem terem a certeza de que ganharam. E essa certeza nunca terão!  

-Bem – disse Morit – , se vossa alteza assim o consentir, gostaríamos de levar alguns mantimentos daqui… Apenas pão, pois o nosso já está duro, e alguma água que se está a acabar. De resto não é preciso mais nada, pois temos ainda bolo de mel, biscoitos, mel, presunto, chouriços, linguiças e compotas.

-Com certeza, com certeza. Mas em vez de pão, recomendo que levem bolacha élfica. Tem o mesmo efeito que o pão mas é doce e não endurece tão rápido! – propôs o rei.

-De acordo nobre rei. De bom grado aceitamos, e mil agradecimentos lhe deixamos! – respondeu o anão, com um riso falso entre os lábios, pois não conseguia esquecer a imagem dos gnomos na escuridão da floresta.

-Calculei que aceitassem e já mandei carregar a vossa carroça.

O rei levantou-se e ordenou a Rarum e Morit que o seguissem. Percorreram as magníficas plataformas da cidade, passando de uma para a outra por soberbas pontes de madeira, sem pilares. O anão e o mago trocavam olhares curiosos, tentando que um dissesse ao outro para onde se dirigiam. O rei ia altivo, seguindo pela madeira sem fazer um único ruído, muito apressado. Os seus pés eram leves, e davam a ideia de que este não tocava no chão. Tentando acompanhar a passada no nobre senhor élfico, Morit e Rarum iam a conversar, sobre o soberbo almoço e a simpatia do rei. Chegaram a uma plataforma de tamanho considerável, que albergava um estábulo onde se encontrava o cavalo dos nossos amigos e a sua carroça.

-Aqui está, meus amigos, a vossa carroça e o vosso cavalo! a carroça está carregada com novos mantimentos, e apenas lá continuaram os doces, mantas e os pertencentes de Rarum, que ele trouxe de Alin. De resto, tudo desapareceu. Colocamos bolachas élficas e algum porco salgado, bem como um barril de vinho tinto, oferta dos elfos da floresta para o senhor anão Rarum – disse o rei, apontando para a carroça, que abarrotava de coisas. Felizmente os elfos são muito cuidadosos e tinham arranjado tudo de maneira a não cair. Depois o rei prosseguiu:

-As fadas voadoras da floresta irão leva-los de novo para baixo, para ao pé da casa do portão. Aí, um dos meus guardas irá conduzi-los de novo á estrada.

-Nem sei como lhe agradecer, nobre rei! – disse Rarum.

-Agradeça-me evitando os gnomos! Não se deixe apanhar, não deixe que o matem, e eu ficarei contente – respondeu-lhe o rei.

Sem demoras, o rei chamou um guarda, magro e muito rápido e ordenou-lhe que os guiasse até á escada da casa do portão e da casa do portão até á estrada. Rarum e Morit inclinaram, levemente, a cabeça para o rei e seguiram pela cidade, por um atalho que o guarda disse conhecer, até a escada. Chegados á escadaria, começaram a desce-la, muito apressados. Rarum, mais uma vez, não se deixou ficar calado, e perguntou:

-Oiça, porquê tanta pressa? Quero dizer, nós estamos aqui de visita e é assim que se despedem de nós? Abrande por favor, ou então explique-nos o que se passa!

Morit abriu os olhos, espantados, e preocupado com a reacção do guarda, deu uma cotovelada no ombro de Rarum. O elfo parou na escada, olhou para o anão e para o mago e disse:

-Nada eu devia responder, nobres viajantes, pois essas são as minha ordens. Mas responderei, para que fiqueis alerta! Um bando de corvos, muitos corvos, enviados por Itridin, anda a sobrevoar a zona. Vão para as zonas do lago Diandor, mas passam por aqui, pois o feiticeiro negro sabe da existência de uma cidade secreta por estas bandas. As fadas da floresta avisaram-nos, eles encontram-se a cerca de cem quilómetros para Oeste. É necessário que os habitantes da cidade se escondam e camuflem as suas casas. Mas vocês não devem correr esse perigo, não habitam na cidade. Mas por favor, avancem, peço-vos! Ainda tenho de voltar á cidade antes da chegada dos corvos!

-Mas… o rei sabia? – perguntou Morit, ele próprio assustado.

-Sim, sabia, mas não vos queria preocupar! Ninguém deve saber que vos contei! Mas vamos, avancem, continuem.

Rapidamente, os três continuaram pela escada a baixo, aos tropeções. Chegando ao pátio, Tuimar lançou um olhar interrogativo ao elfos, que lhe respondeu com um outro olhar, afirmativo. Sem sequer parar, Tuimar dirigiu-se ao portão, destrancou-o e estalou o dedo de maneira a fazer a hera desaparecer. A floresta estava escura, e um cheiro a chuva muito distante invadia-a. Ao lado da casa do portão encontrava-se a carroça e o cavalo. Sem perder tempo Morit pegou nas rédeas do cavalo, que avançou rapidamente puxando a carroça. Para que a carroça não ficasse ainda mais lenta, nenhum dos três se montou nela. Uma chuva de pingas grossas começou a cair, numa quantidade enorme a floresta começou a ficar alagada. Morit subi para a carroça, a fim de a manobrar de maneira a evitar que esta se enterrasse na lama. A raposa seguia-os, também apressadamente, e completamente encharcada, com o seu pêlo felpudo todo despenteado.  Mais de meia hora passou, nestas condições, quando desembocaram na estrada que, devido á sua construção de boa qualidade, não se deixava alagar. Sem hesitar, Rarum subiu para a carroça, e guarda elfo voltou para trás. A chuva era torrencial e os nossos amigos estavam completamente encharcados. Rarum fechou a parte traseira da carroça, com as suas cortinas, atrás e á frente, junto ao acento. O silêncio era terrível e relâmpagos assustadores iluminavam a floresta. Era primavera, e Rarum achou muito estranho estar a chover assim naquela altura do ano, por isso perguntou a Morit, quase gritando, para que a sua voz se distinguisse por entre o ruído da chuva a bater no solo molhado da floresta:

-Meu caro! Será natural este tipo de chuva, nesta altura do ano? Nunca vi chover desta maneira, nem nunca tive de gritar a dez centímetros de um amigo para que ele me ouvisse!

-Não, não é normal, meu amigo! – respondeu-lhe o mago, franzindo os olhos – Das duas, uma! Ou é uma corrente fria ou isto é obra de xamãs gnomos! Malditas criaturas! De certeza que fizeram isto a mando de Itridin, para que os elfos de Luituin não consigam camuflar as suas casas! Mas ele engana-se, os elfos possuem muitos segredos, e uma das suas melhores habilidades, é a da camuflagem!

-Mas… Morit, tem a certeza de que eles não correm qualquer perigo?

-Não, meu caro anão, não correm! Eles sabem muito bem o que fazem, e se nunca foram descobertos, por alguma razão será! Vá acalme-se e preocupe-se connosco! Os gnomos andam por aí, não o quero alertar, mas é preciso ter cuidado! Andaram a afazer das suas, e aproveitam o tempo de chuva para a fazer travessuras a viajantes e a pequenas aldeias élficas no solo da floresta!

-No solo da floresta? Mas espera aí, as povoações élficas da floresta central não são nas árvores?

-As grandes cidade sim. Agora, as vilas e as aldeias, normalmente, são construídas debaixo da terra. Entra-se por uma gruta ou por portas que eles constroem em troncos velhos e mortos, com folhas de fingir. Mas os gnomos escavam e entram nelas, pregando partidas deveras desagradáveis, e, de vez em quando, chegam a provocar mortes! Mas não se entretêm apenas nas aldeias e vilas élficas! N maioria das vezes, não conseguem entrar nelas e atacam, escravizam e, talvez, matam, viajantes que atravessam a floresta! Por isso, é preciso extremo cuidado, e olhos bem atentos!

Um grande arrepio percorreu o corpo de Rarum, que meteu a mão por entre a cortina da carroça e tirou uma manta, com a qual se tapou. Olhava para as bermas, inquieto, pensando na imagem de gnomos travessos, feios e vestidos com trapos velhos, sem cor e nojentos, espreitando por entre os troncos dos abetos e pinheiros. Tinha medo, muito medo, que alguma patrulha os avistasse e ainda mais medo do que as vis e nojentas criaturas podiam fazer deles. A ideia de ter Morit, um mago, a seu lado, reconfortava-o e deixava-o um pouco mais tranquilo, mas não resistiu ao silêncio, apenas quebrado pelo barulho enorme das gotas de água a espalmarem-se contra o chão, e perguntou a Morit:

-Meu amigo… se um grupo de gnomos nos interceptasse, o que poderia você fazer?

-Oh oh oh… bem, velho anão, provavelmente tentaria assusta-los, de maneira a que fugissem e nos dessem tempo de aumentar o passo e fugir do local. Se não se assustassem, teria de dar luta, e, provavelmente, magoaria muitos deles. Mas enfim, não pense mais nisso! Mesmo que eles nos apanhem, nós fugiremos!

As palavras do mago aumentaram ainda mais a ansiedade do anão. De repente, ecoaram pela floresta muitos risos, muitas gargalhadas, uma após a outra. Rarum virou-se para Morit, com um olhar preocupado. O mago olhava para ambas as bermas, pois o som vinha de ambos os lados, procurando a confirmação para aquilo que mais temia. O anão estava desesperado, e desembainhou a adaga que tinha á cintura olhando em todas as direcções. Depois, Morit falou:

-São muitos, meu pobre amigo! E não vêem nem do lado esquerdo nem do direito; aproximam-se pela frente, pela estrada, e encontram-se a dois quilómetros!

-Mas… mas, como é possível! As gargalhas estão tão perto!

-O vento está a favor das suas vozes.

Sem mais uma única palavra, Morit deu uma forte puxada nas rédeas do cavalo, que se desviou para a berma.

-Estás a ver aquela grande rocha, ali ao fundo? – perguntou Morit, apontando para uma gigantesca pedra que se encontrava a uns cem metros da estrada.

-Estou sim! – respondeu Rarum, olhando por entre os troncos das árvores e tentando ver alguma coisa por entre a água que lhes escorria do cabelo.

-Vamos esconder a carroça e o cavalo ali atrás, a rocha é muito alte a larga, serviria para esconder duas carroças iguais a estas, ao comprido, e mais duas na vertical!

A carroça avançava por entre a floresta, puxada pelo cavalo agilmente controlado por Morit. Esconderam-se atrás da rocha, e Morit e Rarum puseram-se de guarda, cada um na sua ponta da pedra. A espera fora insuportável. Os olhos dos dois começavam a ficar cansados, de olhar tão fixamente para a estrada iluminada por relâmpagos ofuscante. A raposa encontrava-se de alerta, com as orelhas bem erguidas e os olhos buscando na escuridão. As gargalhadas aproximavam-se a cada minuto, mas pareciam nunca mais chegar. De repente, um enorme ruído desceu do céu,  e o mago e o anão olharam para cima. Um enorme bando de aves, negras como breu sobrevoava a floresta, a grande velocidade. Eram corvos de Itridin que procuravam, incansavelmente, por entre as copas das árvores. O grupo de aves parecia não acabar. Os dois companheiros distraíram-se, durante quase vinte minutos. As aves andavam em círculos, sobrevoando aquela zona. Estavam á procura da cidade, pois haviam ouvido as gargalhadas dos gnomos e confundiram-nas com cantorias. Depois de perceberem o seu engano, os negros vigilantes prosseguiram a sua viagem, até ao lago de Diandor. Durante breves segundos os nosso amigos ficaram inconsciente, pensando no que iriam aquelas malditas aves fazer a tão longe, ao lago Diandor. Mas o rosnar da raposa despertou-os, e aperceberam-se, terrificados, de que as gargalhadas estavam agora muito próximas. Rarum mandou calar Luin, e olhou para a estrada. Os gnomos atravessavam a estrada. Deviam ser uns trinta ou quarenta, e vinham armados e a rir. Por entre as gargalhadas, Morit e Rarum conseguiram perceber uma canção que muitos deles entoavam, muito alto:

Do norte frio e gélido, nós viemos!
Para animais  e viajantes molestar!
Homens, Elfos e Anões, nós mataremos!
Porque eles nunca mais devem, voltar!

Debaixo da chuva fria  nos movemos!
Para maldades praticar!
Glória e riqueza, nós teremos!
E ninguém será capaz de nos matar!

Magos e feiticeiros não tememos!
Eles a nós nos devem temer!
Porque nós nunca morreremos!
E os perseguiremos até morrer!

Destruição, fogo e morte!
Isso os gnomos irão trazer!
Porque não haverá sorte!
Que aos elfos possa favorecer!

Ouro, prata e safira nós buscamos!
E terra iremos remexer!
Para juntar ao que roubamos!
As riquezas que iremos obter!

Grito, gemido e dor!
Nós iremos provocar!
Das entranhas da floresta!
Até ao grande mar!

Os nosso chefes, xamãs e  mestres!
Até á vitória nos irão guiar!
E nem as criaturas mais agrestes!
Medo nos irão provocar!

Os gnomos avançavam pela estrada, cantarolando e rindo, sem nenhum medo. Atrás deles, amordaçado e preso com cordas, seguia um homem puxado por uma corrente. Caía a cada três passos, e a cada três passos, os gnomos cruéis humilhavam o pobre homem. Via-se que era um viajante, pois tinha um cabelo seco e áspero e as suas roupas estavam gastas.

-Ah ah ah! – troçavam os gnomos – agora já não te sentes tão corajoso, ó viajante miserável? A viajem cansou-te, foi? Então espera por ires trabalhar para as minas! Ah ah ah!

Á frente, seguia um grande gnomo, menos curvado que os outros, com um machado sujo na mão gritando:

-Venham, gloriosos gnomos! Brevemente teremos alimento! Sinto o cheiro a anão no ar!

Ouvindo isto, Rarum entrou em desespero e voltou o seu olhar para Morit. Conseguiu perceber a palavra “calma”, prenunciada em segredo, nos lábios do mago. Depois pensou: “Calma! Calma! Pois claro! Não é o cheiro a mago que eles sentem! Valham-me todos os deuses élficos e mais algum! Mas pode ser que não sejamos nós, afinal não devo ser o único anão que se faz á estrada! E para mais…”,  de repente mais uma frase de ordem do chefe gnomo, o alertou:

-Esperem! Parem! Estão perto! E o anão está acompanhado! Por um homem velho, muito velho!

 -Rarum! Eh, Rarum! – chamou Morit, em silêncio, por detrás da pedra. O anão virou-se para trás da pedra e disse:

-O que é Morit?

-Você acha que eu pareço muito velho?

-Oh, mas que disparate é esse? Chove a potes, estamos encharcados, temos um grupo de gnomos a cem metros que sentiram o nosso cheiro e você preocupa-se com a idade? Oh homem, não diga disparates! Para além disso, você é imortal!

-Não interessa! Estou velho na mesma! Sei que daqui não passo, mas ao menos gostaria que você fosse sincero comigo!

-Oh, mas que alguém me ajude! É obvio que você têm um aspecto de homem velho, mas isso não importa nada para agora! Continua forte e saudável como sempre, e é capaz de fazer coisas que não passariam pela cabeça de nenhum adolescente! Agora, deixe-se de tolices e tome atenção á estrada!

-Tolices? Você chama tolice um pobre homem inseguro perguntar se está velho?!

-Insegura está a nossa vida, homem! Por amor aos deuses, faça o favor de por os olhos na estrada senão vai servir de jantar a esses gnomos nojentos!

-Eu sei muito bem o que faço! Afinal de contas sou um mago! E esses “nojentos gnomos” não nos apanharam!

De repente, um ramo estalou atrás de Rarum, que, olhando para o olhar petrificado de Morit, percebeu o que se passava. Virou-se, de um ápice, e nesse mesmo segundo, um gnomo magro e corcunda gritou:

-Anão! Anão! Um anão e um mago! Temos jantar! Rápido, avancem! 

O Espelho de Mandos – Capí­tulo 1 – Ovelha Negra

Sou Galdweth, filho de Arameth, mas minha mãe me chamava Adaman, ‘filho da noite’ no idioma de seus pais. Essa é a história de Haleth e um amor incompreendido. É a história de um herói e seu sofrimento, e é a história da maldade de Sauron, o servo do Senhor do Escuro.

 

 
Era um verão azul em Ugür, uma pequena aldeia localizada no norte de Estolad, próxima ao rio Celon. Eu tinha oito anos e uma pele escura que me destacava entre os aldeães. Eu não gostava dela, pois a maioria das pessoas tinha e ainda tem superstições e preconceitos contra peles negras. Hoje isso já não me importa mais, tenho que admitir que a cor já me foi até útil em algumas ocasiões. As pessoas me chamavam Adaman, pelo fato de eu ser escuro como a noite, e com este nome eu não me importava, pois fora alcunhado pela minha própria mãe. Só me irritava quando usavam outros apelidos, como Abaman, ‘ovelha negra’, que meu vizinho Hardur criara para mim no dia anterior a essa bela tarde de sol. “Eu ainda farei você engolir isso!”, eu prometera, furioso, enquanto estava ocupado demais tosquiando as ovelhas de meu pai.

E agora eu estava prestes a cumprir a promessa.

Hardur era um garoto ruivo, talvez uns vinte centímetros mais alto que eu, uns quinze quilos mais forte e três anos mais velho. Mas eu era destemido e tinha amigos, que também desgostavam dele e ainda me deviam favores. E agora eles acabavam de chegar à margem da grande floresta que havia próxima ao vilarejo, à exceção de um.

– Onde está Mardoc? – perguntei num sussurro, enquanto os dois garotos se sentavam ao meu lado, sobre a relva. Estavam ofegantes, pois tiveram que vir correndo da aldeia até ali, para que nenhum adulto os visse. Crianças da nossa idade não tinham permissão para sair do vilarejo sozinhas, e meus amigos demonstravam uma mistura de medo e excitação com a transgressão da regra. Sentimentos que eu também compartilhava.

– Ele não pôde vir – respondeu, também num sussurro, Esdras, um menino loiro de feições delicadas e da minha idade e altura -, a mãe mandou-o olhar o irmão.

– Ora, por que ela mesma não faz isso, o filho não é dela? – perguntei, indignado por ter o grupo desfalcado por causa de uma tarefa tão ingrata que é vigiar um bebê. – E o que de errado pode acontecer com uma criança que sequer sabe andar?

– Ele está de castigo, Adam, você sabe – agora foi a vez de Camus, o segundo amigo, falar. Ele tinha nove anos, era um tanto mais alto que nós, mas tinha uma voz fina que o fazia parecer mais novo. Tinha o corpo bem magro e esguio. Tornar-se-ia, anos depois, um dos maiores atletas edain da Terra-média. – Desde que ele quebrou a tigela de barro da mãe.

– Oh não! Outra tigela? – Mardoc era um moreno gordo bastante desastrado. Também costumava se esquecer muito das coisas. Para piorar, seus pais eram muito rigorosos com ele, e só não podiam ser mais porque qualquer serviço que o dessem terminava em desastre.

– Não, é a mesma. Pela terceira vez – Camus não conseguiu evitar um risinho de escárnio.

– Tudo bem, ainda bem que eu não deixei nada pra ele trazer mesmo, eu imaginava que ele ia esquecer. Muito bem, o que vocês trouxeram?

– A tesoura, como você pediu – estendeu-ma Esdras -, cola e bastante barbante.

– Ótimo. E você, Camus?

– Meus punhos, claro – o garoto fechou a mão em volta do punho, com um sorriso malvado estampado no rosto.

– E o que mais? – perguntei, impaciente.

– Tinta.

– Tinta?! Pra quê?

– Ora, se a lã não cobrir o corpo todo, a gente pode jogar tinta preta que o resultado será o mesmo.

– Boa idéia – disse Esdras.

– A lã vai dar – disse eu, mal-humorado. O objetivo da missão era fantasiar Hardur de ovelha negra, não deixar sua pele simplesmente da cor da minha para que ele fosse zombado por isso.

– E onde está Amélia? – perguntou Esdras.

– Eu a amarrei a uma árvore lá no fundo – apontei para a floresta. – Não consegui fazê-la ficar abaixada, e acho que seria melhor se a gente o pegasse lá dentro, onde as árvores podem abafar os gritos.

– A gente o amordaça – observou Camus, a maldade brilhando nos olhos.

– Ainda prefiro o meu plano – reclamou Esdras -, imaginem sua cara de espanto ao ver uma ovelha negra na floresta. Vai achar que está sonhando!

– Eu não posso deixar Amélia sozinha com ele, ele estará armado, lembre-se disso. Agora façam silêncio, nós precisamos ouvi-los chegando.

– Não seria melhor se eu subisse numa árvore para ter uma visão melhor? – Camus, que era um exímio escalador, teve essa excelente idéia.

– Não! Eles poderiam te ver. Agora fiquem quietos!

Abaixamos-nos atrás do capim e esperamos. Olhávamos para o topo da Colina Norte, um pequeno morro verde que separava Ugür de Nan Elmoth, a floresta de Eöl. Eöl era uma criatura bizarra, metade elfo e metade anão, e que, segundo as histórias contadas por nossos pais e avós, habitava o coração da floresta. Havia relatos sobre crianças e mulheres que desapareciam após embrenharem-se na escuridão de Elmoth e nunca mais voltavam, pois eram capturadas e escravizadas pelo terrível Eöl. Mas com oito anos eu já tinha idade para não me assustar com essas histórias, aliás, minha temeridade era tanta que as lendas só me faziam sentir mais vontade de adentrar a floresta, descobrir a morada de Eöl e libertar os escravos. O fato de algumas pessoas acreditarem que Eöl fosse não um híbrido elfo-anão, mas apenas um elfo negro, me dava ainda mais curiosidade de ver a tal criatura.

Mas as histórias de Eöl estavam longe da minha mente naquele momento. Tudo em que eu pensava era em Hardur e seu primo Bête, que deviam estar subindo a colina pelo outro lado e que em breve deveriam aparecer no horizonte, e aí seria questão de poucos minutos até eu impor minha vingança. Não era só pelo Abaman que nós fazíamos isso, mas por uma rivalidade de anos em que Hardur sempre nos maltratara. Além de roubar e quebrar nossos brinquedos, Hardur costumava nos bater sempre que nos pegava sozinhos, às vezes sem qualquer motivo aparente. E quando nos juntávamos para revidar, ele reunia um grupo ainda maior de garotos maiores e aí nós apanhávamos mais ainda. Mas desta vez seria diferente, seu grupo estava desfalcado pelos gêmeos Gleen, que haviam partido para Balan com seus pais havia dois dias, a fim de vender trigo e leite de cabra, as bases do sustento de quase todas as famílias de Ugür.

Na ansiedade em que estávamos, Hardur parecia demorar horas, embora hoje eu ache que não havia passado trinta minutos até ele aparecer. Nesse momento quase gritamos de satisfação, pois começáramos a acreditar que ele não viria mais, e que nosso sumiço do vilarejo (que deveria ser acompanhado de uma bela surra para nossos pais quando voltássemos) tinha sido em vão. Mas agora lá estavam eles, Hardur, Bête e… um cachorro?!

Meu êxtase de finalmente começar a pôr o plano em prática de repente deu lugar à apreensão. Entreolhando meus companheiros, pude ver que o mesmo se passava com eles.

– Não sabia que eles caçavam com cães – sibilou Esdras, visivelmente aflito.

– Com certeza não caçam, já os observei milhares de vezes e eles nunca trouxeram um cão. Com certeza ele está aqui hoje para repor a perda dos gêmeos – sussurrei.

– Eu conheço esse cachorro, pertence a Madame Pomfrey e ou ele é realmente bravo ou ele não gosta de mim – foi a vez de Camus, nos mostrando uma pequena cicatriz no braço direito. Ele parecia bem menos apreensivo que Esdras, menos até que eu, mas estava sério, o que era bastante incomum.

– Ele é ensinado – respondi, pois também conhecia o cachorro. Camus e eu costumávamos assaltar o pomar da tia de Bête quando ela saía de casa, e algumas vezes éramos recebidos ferozmente por Stripa. – É só chamarmos pelo nome que ele não avança… acho.

– Não seria uma boa idéia agora treparmos nas árvores? – insistiu Camus.

– É uma ótima idéia – concordei, e puxei a corrida para alguns metros no interior da floresta, onde havia árvores mais altas e de folhagem mais densa, onde poderíamos nos esconder. – Esdras, não caia dessa vez.

– Pode deixar – respondeu ele, com tanto medo que era incapaz de sentir o orgulho ferido por minha provocação.

Aproximamos-nos de uma clareira que nos parecia apropriada para a execução do plano. Mesmo ali, no espaço entre as árvores onde entrava pouco sol, a grama não era tão baixa. Mas estava no caminho da trilha que adentrava a floresta e eu tive certeza que Hardur passaria por ali. Camus escolheu rapidamente sua árvore e subiu, rápido como um símio. Esdras não foi capaz de escalar segurando seu porrete, por isso levou somente sua funda. Cada um de nós carregava um pedaço de pau e uma funda, que eram meros cordões de elástico que usávamos para arremessar nossas preciosas pedras. Gastáramos dias recolhendo e selecionando as melhores pedras que podíamos encontrar ao redor da Estrada dos Anões e na beira do Celon. Agora essas pedras, com tamanho e pesos ideais para nossos cordões, enchiam nossos bolsos, e todo o tempo nós tomávamos o maior cuidado para não deixá-las cair. Quando eu ia tomar o impulso para alcançar o galho de uma árvore que eu escolhera, ouvi um balido vindo de dentro da floresta.

– Amélia! – exclamei, só então lembrara-me da ovelha do meu pai.

– O que foi? – Camus gritou de cima de sua árvore, ao me ver hesitando a escalar a minha.

– Amélia, esquecemos dela! Se Stripa fizer alguma coisa a ela, estou morto! Não saiam daí! – gritei, correndo em direção a onde eu amarrara a ovelha. Ouvi os latidos de Stripa ao longe e percebi que eu gritara alto demais. Mas eu precisava fazer algo para salvar a pobre Amélia, mesmo que fosse apenas desamarrá-la, talvez deixá-la fugir para longe fosse melhor que deixá-la servir de almoço a um cão feroz.

Se meus gritos não haviam sido suficientes para atrair a atenção de Stripa, o balido de Amélia com certeza foi. A ovelha gritou e pulou de susto ao me ver saindo do mato de repente, e me deu uma cabeçada quando me aproximei para desamarrá-la. O tremor nas mãos e os puxões que Amélia dava na corda não me permitiam ter qualquer agilidade em desatar o nó, e os latidos de Stripa estavam cada vez mais próximos, até que eu desisti de tentar, virei-me para o mato de onde o cachorro deveria sair e levantei meu porrete. Uma gota de suor escorregou até meu olho e eu tive que piscar com força, tenso, a respiração suspensa, esperando pelo momento em que o cachorro saltasse para fora do capim e em que eu precisaria ter o reflexo de acertá-lo com uma pancada antes que ele me derrubasse.

O capim se mexeu e minhas mãos impulsivamente se moveram alguns centímetros para a frente, mas eu as detive e imediatamente as retornei para trás. Stripa estava logo diante de mim, mas ao invés de sair do mato num pulo, saiu lentamente, com seu rosnado alto, os dentes à mostra e o focinho enrugado, o pêlo levemente eriçado e o corpo todo apoiado nas patas traseiras, pronto para dar o bote a qualquer momento. Tive o impulso de avançar contra ele, mas novamente me segurei, pois ele ainda estava a pelo menos dois passos de distância e minha investida daria tempo a ele para se esquivar. Após a decisão de me manter na defensiva, subitamente senti meu corpo rígido demais, e agora eu estava com medo de não conseguir mover os braços para golpear o cachorro quando ele avançasse. Encaramos-nos por alguns segundos, durante os quais eu me esquecera completamente de Hardur e seu primo, e de Camus e Esdras, que eu havia deixado pra trás. Era só Stripa e eu, e meu corpo estava paralisado, embora eu achasse que não estava com medo. Era só um cachorro, e eu já o enfrentara duas vezes antes, conseguindo fugir em ambas, embora dessa vez eu não pudesse simplesmente fugir. Havia Amélia, a ovelha de meu pai, e eu precisava protegê-la. Eu estava confiante, mas a rigidez do meu corpo me atrapalhava, e eu lutava para me livrar dela antes que o cachorro viesse, mas ela parecia não vir de mim, parecia vir de fora.

De repente Amélia baliu, Stripa olhou através de mim assustado e recuou, com um ganido. Não consegui olhar para trás, ainda não podia tirar os olhos do cachorro, até que ele disparou de uma vez por todas, ganindo como se tivesse apanhado. Com um suspiro de alívio, olhei para trás, e o susto me jogou com o traseiro no chão.

Um sujeito alto, forte, com uma armadura preta cobrindo todo o corpo, estivera parado a apenas alguns centímetros atrás de mim, e agora que eu estava sentado no chão, olhando para ele aterrorizado, ele se agachou e estendeu a mão para mim.

– Q-quem é você? – consegui, a custo, perguntar. Aquele homem causava em mim um pânico muito maior que o que o cachorro feroz havia causado. Talvez porque ele parecia uma horrível armadura de batalha ambulante, talvez porque ele parecia grande demais, ou talvez porque ele não disse nada em resposta. Mas mesmo assim estendi a mão e ele me ergueu, quase sem nenhum esforço. – Você é… Eöl?

Ele respondeu com uma gargalhada sinistra que me fez me encolher. Senti vontade de seguir Stripa para longe daquele homem. Ainda rindo, ele se virou, dando-me as costas, e partiu. Observei-o desaparecer entre as árvores, sentindo-me um estúpido por temer alguém que possivelmente me salvara a vida.

– O-obrigado! – disse eu, para a escuridão.

Me apoiei na árvore em que Amélia estava amarrada, e até a pobre coitada parecia sentir tanto medo que não era capaz sequer de balir mais. Lembrei-me dos meus amigos, que haviam ficado para cuidar de Hardur e Bête, e que talvez estivessem precisando de ajuda.

– Não vou te deixar amarrada, querida, o cachorro pode voltar. Tente voltar para casa sozinha, sim? – já mais calmo, desatei os nós e observei Amélia correr para longe, com a vaga sensação de que apanharia muito em casa, quando minha mãe descobrisse que eu soltara uma ovelha na floresta. Mas de qualquer forma, Amélia era uma ovelha negra, e ovelhas negras não dão boa lã, portanto era melhor perder Amélia que perder qualquer outra do rebanho do meu pai.

Dirigi-me sorrateiro para a clareira em que deixara Camus e Esdras, torcendo para que estivesse tudo bem. Andando alguns segundos entre as árvores, pensei ter me perdido, mas de repente ouvi um gemido que inconfundivelmente era de Camus, seguido pela risada inconfundível de Hardur.

– E agora, pentelho, ainda tem a pretensão de me dar uma lição? Isso foi tudo idéia daquele seu amiguinho Abaman, não é? – ouvi novamente sua risada, ecoada pelo riso de Bête, que foi o primeiro que avistei. Coloquei-me atrás do tronco de um salgueiro e vi Bête e Hardur cercando Camus pelos lados, enquanto ele recuava lentamente, ainda com seu bastão na mão, mas com um hematoma no rosto, provavelmente causado por um dos paus que Hardur e Bête seguravam. Dois contra um não era uma luta nada justa, e senti uma raiva profunda quando armei minha funda e estiquei o elástico. – Onde está ele, hein? Onde está seu amigo? Certamente fugiu de medo do cachorro, não é? Se é que já não foi pego e feito em pedaços, Stripador quando sai de casa fica muito, muito feroz.

Hardur deu uma nova investida com seu bastão, e Camus como um espadachim de verdade bloqueou o ataque com o seu próprio, mas Bête veio com uma estocada do outro lado. Ágil como um gato, Camus rodou o corpo e golpeou Bête nas costas, enquanto Hardur atacava uma segunda vez tentando acertar meu amigo na cabeça. Camus se abaixou no momento exato e saltou para trás, e eu atirei.

Mirei na cabeça de Hardur, mas minha mira não era boa e acertei na mão que segurava o porrete, fazendo-o soltar a arma. Camus raciocinou rápido e com um golpe tão forte que me embrulhou o estômago na hora só de ver, acertou o lado do bastão na barriga de Hardur, fazendo-o cair curvado no chão. Imediatamente se virou para Bête e tentou atacá-lo, mas o filho da mãe desviou e começou a correr para longe. Camus já ia pegá-lo quando o maldito arremessou para trás seu próprio bastão, acertando meu amigo no caminho. Atirei minha segunda pedra e errei, e Bête agora já desaparecera no cerrado da floresta.

– Eu ia derrotá-los sozinho – disse Camus, ao me ver chegando. Estava com um grande sorriso no rosto, que se alargou ainda mais quando nos aproximamos de Hardur, que ainda estava contorcido no chão, respirando com dificuldade. – Veja que peixão nós pegamos. Sim, pentelho, eu ainda pretendo te dar uma lição – deu um chute na costela de Hardur, que o fez gemer de dor.

– Cadê o Esdras? – perguntei, preocupado.

– Ah, ele caiu da árvore. Dê uma olhada ali.

Dirigi-me à arvore em que ele subira e o vi desacordado sobre as folhagens. Mexi com ele, batendo de leve em seu rosto, o que o fez acordar, para meu alívio.

– Quê?! Onde estou? – disse ele, confuso.

– Em Nan Elmoth com Camus e eu. Acabamos de pegar o Hardur.

– Ah, que ótimo – ajudei-o a se levantar, e ele parecia meio tonto. – Acho que desmaiei…

– Sim, ao que parece você caiu da árvore e… ei, sua cabeça está sangrando!

– Está?! – ele levou a mão à lateral esquerda da cabeça, onde havia um bolo de cabelo misturado com sangue seco. – Acho que tomei uma pedrada.

– Mas está tudo bem? Tá enxergando normal?

– Só dói um bocado, ai. Vou ficar bem. Agora me contem como foi isso – disse ele, apontando Hardur, chorando deitado no chão, ainda curvado sobre a barriga.

– Foi uma bela luta. Nós fizemos isso com o Hardur e botamos o Bête pra correr!

– Mas os maiores méritos são meus. Eu os enfrentei sozinho enquanto Adam não chegava – disse Camus, orgulhoso.

– Você estava apanhando pra eles! Foi só eu desarmar o Hardur pra você que aí ficou fácil.

– Ótimo, ótimo. Acho que agora nós temos que terminar logo o plano, antes que anoiteça. Minha cabeça dói – interrompeu Esdras, ainda segurando o ferimento, com uma careta de dor.

– Calma, amigo – respondi, olhando para Hardur no chão. – É agora que a diversão começa!

– Por falar nisso, onde está Amélia, Adam? E como você se livrou de Stripa? – perguntou Camus.

– Ah, isso… apareceu um homem estranho de armadura, e expulsou o cachorro. Amélia eu soltei.

– Um homem?! – perguntaram os dois, ao mesmo tempo. Hardur se mexeu no chão e agarrou o pé de Camus, que deu-lhe em troca um chute no queixo.

– Acho que ele está com pressa também – disse eu, dando um chute no traseiro de Hardur, que gritou de dor. – Vejam como ele chora.

– Podemos usar a tinta então? – perguntou Camus, animado. – Já que não há mais ovelha…

– Pode ser – respondi, ainda um pouco contrariado –, se não há outro jeito…

Tiramos à força as roupas de Hardur. Ele se debatia e tentava nos conter, mas ganhava mais chutes e sopapos nas pernas e no rosto. Quando estava totalmente despido e Camus e eu o segurávamos deitado para que Esdras amarrasse seus pulsos, me acertou de repente um cuspe no olho. Eu o soltei por um segundo para esfregar o local atingido, e ele aproveitou a deixa para me acertar uma joelhada no peito. Camus não conseguiu segurá-lo e ele se levantou, olhando para os lados preparando-se para correr.

Mas fomos mais rápidos e já o cercávamos novamente com nossos porretes na mão. Ele nos olhou assustado, e correu na direção de Esdras, tentando atropelá-lo no caminho. Mas Esdras não era bobo e pulou para o lado, deixando-o passar e em seguida acertando-lhe uma paulada nas costas. Hardur cambaleou mas não caiu, e por um momento eu cheguei a admirar a força do garoto. Tornou a correr para o mato, e Esdras e Camus já ia segui-lo quando eu os interrompi:

– Deixem-no comigo! – ele estava na minha mira, estiquei a funda ao máximo e atirei. Acertei em cheio no meio na cabeça, e Hardur caiu. Camus e Esdras olharam para mim assustados, e até eu temi ter acabado de matar meu vizinho. Corremos até ele, mas ele estava vivíssimo, embora não conseguisse mais sequer se mexer de tanta dor. Viramos-lhe e o arrastamos de volta até a clareira, onde a tinta preta o aguardava. Ele olhou para mim mais uma vez e encheu a boca de cuspe mais uma vez.

– Não ouse – ergui o bastão em ameaça, e ele cuspiu para o lado, tornando a me encarar.

– Você me paga, preto de uma figa – sibilou ele.

Sem pensar, chutei-lhe com força entre as pernas. Ele deu um grito tão alto que deve ter chegado até os gêmeos Gleen em Balan. Contorceu-se todo e tornou a chorar, e nós três começamos a rir sem parar.

– Isso é pra você aprender a não cuspir e a ficar calado – disse eu, em meio aos risos. – E preto de uma figa é você.

Dizendo isso, joguei minha cota de tinta sobre o corpo nu de Hardur. Sabíamos que aquilo ia demorar semanas pra sair, e não queríamos estar em sua pele.

Naquela noite cada um de nós apanhou muito ao chegar em casa, mas estávamos satisfeitos com a vingança e a tarde nos proporcionara uma bela diversão.

Viagem de um Anão – Capí­tulo 5 – A cidade das copas

viagens-de-um-anao.jpgRarum esticou o seu braço mais uma vez para as traseiras, esquecendo a presença da raposa. Quando se lembrou, já a sua pele áspera havia acordado o animal que dormia docilmente. Rarum apanhou um susto mas para sua enorme surpresa, o pobre mamífero levantou-se e deu uma lambidela húmida com a sua língua quente, na face assustada do anão. Rarum, assustado disse-lhe:

 
-Afasta-te! Por favor afasta-te!

A raposa assim o fez, para o enorme espanto de Rarum. Morit apenas mostrou um sorriso troçador como quem diz “Eu disse!”. Pois é, como sempre o velho e sábio mago já calculava.

Depois Rarum lançou um olhar surpreendido para Morit e o mago respondeu-lhe com outro olhar, desta vez encorajador. Era isso que Rarum queria. Que o mago o encorajasse a testar o animal. E assim o fez:

-Senta – disse-lhe, imperativo. O animal sentou-se.

-Deita – ordenou-lhe de novo. O animal deitou-se. E depois de cinco minutos de treinos o animal só obedecia ao pequeno anão. Depois Morit disse:

-Está a ver? Ele tem inteligência sim! A prova é que aprendeu a língua corrente, provavelmente a ouvir as canções dos elfos da floresta.

-Devo redimir-me… desta vez tinha razão. Bem agora é preciso arranjar-lhe um nome!

-Sim mas nada melhor que uma boa refeição para nos inspirarmos!

Rarum nem precisou que lhe dissessem mais nada: esticou o braço, e retirou o cesto das traseiras. Sentada na abertura onde o anão tinha dormido os quatro dias antes de chegarem á floresta, estava a alegre raposa, esperando o seu pequeno-almoço. Rarum retirou os alimentos do cesto, entregou uma grande fatia de bolo de mel ao mago e cortou cinco grossas fatias de presunto que deu à raposa. Depois, entre uma dentada e outra no pão com geleia, Rarum disse:

-Bom pelo que vi, se é que me entende, é um macho. Ora agora é puxar pela cabeça. Ora deixe ver… que tal “Nocturno”?

-Não! É um nome feio para uma raposa! Eu preferia “Comilão”!

-Bah é um nome muito vulgar e infantil! E se fosse “Fugitivo”?

-“Fugitivo” porquê?

-Ora essa, porque fugiu das montanhas, é claro!

-Mas isso não faz o menor sentido! Nesse caso deveria ser “Perdido”, porque ele se perdeu! Uma raposa das montanhas não foge das montanhas!

-“Perdido” soa mal! “Vigilante”! Ele vigiou-nos toda a noite!

-Também soa mal!

-Espere! Tive uma ideia! E se fosse o nome do seu deus?

-O quê? “Olguin”?

-Exactamente!

-Bem eu preferiria o antigo nome do deus… “Luin”! É mais bonito!

-Sim realmente tem razão! Então está feito. Da próxima vez que o chamar digo “Luin” até ele se habituar!

-Muito bem!

Um sorriso desenhou-se na face de ambos os companheiros. Depois de comerem prosseguiram caminho . Passaram-se três horas, sem que nenhum dos dois se pronunciasse até que Morit disse:

-É estranho… os elfos ainda não nos abordaram. Bem aguardemos um sinal. O seu sentido de boa educação e gentileza é demasiado apurado para não convidar um anão para um almoço.

-Olhe ontem estive a pensar… da última vez que nos vimos, fiquei com uma dúvida que agora me surgiu de novo. Qual é a diferença entre um mago e um feiticeiro?

-Bem, é simples. Enquanto um feiticeiro é um ser criado pelos deuses, genuinamente imortal e que nasce com os seus poderes, um mago é um homem, anão ou elfo completamente normal, mas que estudou e aprendeu a arte da magia.

-Mas não é possível, você é mortal?

-Já fui. Mas quando acabei os meus estudos, como acontece a todos os magos humanos, foi-me concedido o segredo da imortalidade. Ah e também é preciso fazer notar que apenas foram criados oito feiticeiros, dois deles, Itridin e Vigil, passaram-se para o mal, e cinco foram assassinados pelos guerreiros Albidan. Só resta Uimar, que se exilou no reino superior nórdico dos elfos do norte, e se tornou  conselheiro do rei. Quanto aos magos, estes existem cerca de cinquenta humanos, trinta elfos e os anões deixaram de praticar a arte mágica.

-Então quer dizer que magos anões e magos elfos não precisam que lhes seja revelado o segredo da imortalidade, pois já o possuem, certo?

-Certíssimo.

Quando Rarum se preparava para prosseguir o seu questionário, um Elfo, vestido com muitas cores, uma armadura por cima e com uma espada élfica na cintura, leve como uma pena e rápido que nem um falcão, irrompeu por entre as árvores, lançando-se como uma flecha para a estrada. Repentinamente, Morit puxou as rédeas, forte e vigorosamente, e o cavalo estancou que nem uma estátua. O elfo alinhou-se com o cavalo, inclinou-se suave e respeitosamente e disse:

-O meu respeitável mestre, rei do reino sul da floresta central élfica, vice-rei da parte sul do reino élfico da floresta central e regente da cidade secreta de Luituin, a cidade secreta das copas, tem o prazer de vos convidar para o almoço em sua casa.

-De bom grado aceitamos! – disse Morit, enquanto Rarum esboçava um pequeno sorriso dissimulado por entre a sua barba frisada. Na verdade estava muito contente por pensar que iria ter uma  refeição nas altas copas dos pinheiros e abetos. Sabia que os elfos os iriam receber como reis (é seu hábito tratarem muito bem os anões, e qualquer seu acompanhante) e que brevemente estaria sentado numa cadeira, a cem metros do chão, apoiado num chão de madeira construído sobre ramos e suportando o peso de mansões e jardins suspensos. Não conhecia nenhuma cidade élfica naquelas imediações da floresta, mas rapidamente a conversa que prosseguia entre o soldado e Morit lhe tirou essa dúvida: era uma cidade élfica secreta, devido à proximidade com o reino dos homens do sul, e querendo evitar que eles abusassem da sua hospitalidade e temendo que eles transformassem aquele paraíso suspenso numa zona de transição comercial entre o sul e o norte. Apenas elfos, anões, magos e homens do norte podiam habitar a cidade. Acabado o diálogo entre Morit e o elfo, os dois companheiros desceram da carroça, e seguiram o soldado, que guiou o cavalo por entre a floresta.

 A ansiedade e fome de Rarum faziam com que ele andasse aos tropeções, tendo desagradáveis encontros com as raízes das árvores. O pequeno-almoço, tomado há horas, já estava digerido e o estômago do pobre anão queixava-se. Andaram cerca de quarenta minutos, passando sempre nos sítios onde havia mais espaço entre os troncos das árvores para não danificar a carroça, até que se deparararam com um vale, que descia uns cinquenta metros. Para descer a íngreme depressão tiveram de ajudar o cavalo  com a carroça, e, quando chegaram ao fundo do vale notaram que uma casa circular, com um buraco no tecto por onde saia um enorme tronco envolto numa escada em caracol,  com algumas janelas enfeitadas com bonitos cortinados com quadradinhos vermelhos e brancos e portadas de madeira e apenas com um portão mais ou menos com dois metros e meio mas bastante forte. O guarda deu três batidas leves mas vigorosas no portão e disse “Nultan apresenta-se”. Depois, do interior do edifico (que era de pedra e envolto em cal) ouviu-se uns passos muito leves, e o portão estalou ruidosamente. Depois, devagar, abriu-se e um homem de longos cabelos e barba brancos, velho e de pele enrugada disse, franzindo o olho e realçando as suas pestanas farfalhudas:

-São estes os convidados do rei?

-São sim, ó guarda do portão! – respondeu o soldado, num tom baixo.

-Então eles que entrem! O rei espera-vos! É  com muita honra que eu, Tuimar, ex-pertencente ao reino dos homens do norte, guarda humano da Casa do Portão, entrada para a cidade secreta Luituin, cidade das copas, recebo um anão, amigo de elfos, e um mago, aliado de elfos. Mas por todos os deuses, apressem-se, não devemos chamar a atenção de ninguém, esta casa situa-se num vale secreto! – respondeu o guarda, preocupado e olhando o cimo da depressão, ansiosamente.

Morit, Rarum, o soldado e a raposa (que se tinha adaptado perfeitamente ao seu dono) entraram, pararam no hall de entrada, que tinha as paredes brancas com muitas velas e um chão de madeira com muitos tapetes, enquanto esperavam que o guarda fechasse a porta. O cavalo ficou lá fora, juntamente com a carroça, e quando Rarum ia perguntar porque o animal tinha ficado no exterior, Morit deu-lhe uma valente cotovelada. Muita luz jorrava por um pátio interior. Quando a porta se fechou, uma enorme hera nasceu do chão, cobrindo a casa e o tronco, dissimulando as escadas, e inúmeras pequenas fadas voadoras da floresta, acompanhadas por pirilampos mágicos sentaram-se nos finos ramos da planta conversando baixinho, na sua língua secreta. No interior, Rarum e Morit deixaram-se guiar, pelo corredor de entrada, até ao pátio. Aí o corredor desfazia-se num outro circular, que dava a volta ao pátio. Tinha quatro pequenos portões e, no lado oposto, inúmeras portas que davam para quartos que os nossos amigos desconheciam. Ora os quatro, mago, anão, elfo e homem, entraram no pátio, que tinha chão de calçada e quatro pequenos bancos de pedra entre os quatro pequenos portões de madeira. No centro, um grande tronco erguia-se, em direcção à copa da árvore, com umas longas escadas em caracol a percorrê-lo. A partir da parte que se encontrava ao nível do telhado, um manto de folhas de hera debruçava-se sobre o tronco e cobria-o (cobrindo também as escadas) e formando uma abóbada. Rarum franziu o olho e perguntou ao guarda:

-Mas… não vimos esta hera de fora!

-É normal. – disse Tuimar – Isto é uma hera mágica. Quando eu lhe ordeno que se recolha, ela vai para debaixo da terra, junto aos alicerces da casa. Mas quando eu lhe ordeno que se levante, ela volta a cobrir a casa, o tronco e as escadas. Agora estava retirada porque as  pequenas fadas voadoras disseram-me que hoje a floresta está livre de caminhantes e não há perigo… mas visto que mais vale prevenir que remediar, disse à hera para se reerguer.

-Então e o cavalo e a carroça? – perguntou Rarum, desta vez, sem que Morit se opusesse.

-Neste momento estão a ser levados lá para cima pelas fadas da floresta. Elas sabem o que fazem e falaram com o cavalo antes de o levarem, para evitar sustos. Quando lá chegarmos, ele estará no estábulo. – respondeu o guarda.

-Muito bem… então podemos começar a subir a escadaria? – perguntou Morit

-Podemos sim. Permitam-me que vá á frente, para que os guardas, no cimo da escada me identifiquem. – disse, Tuimar, que recebeu de imediato um aceno de Morit.

O experiente guarda começou a subir a escada, seguido de Rarum, Luin, Morit e, por fim, o soldado. O corrimão era de madeira escura e forte, e nele se apoiaram os quatro, enquanto penetravam no túnel de hera. A luz entrava, com dificuldade, por entre os ramos e folhas da enorme planta, mas era luz suficiente para não deixar que nenhum deles tropeçasse. Subiram a escadaria, dando voltas e voltas sobre o grosso tronco. O tronco havia sido cortado pelos próprios elfos e esculpido para se colocar a escada e Rarum apenas o notou pela falta de ramos. Quando chegaram ao cimo, onde a escada abandonava o tronco e desembocava numa enorme plataforma de madeira, ligava a outra plataforma e a outra e ainda a mais outra, por pontes de madeira, sem pilares, e com tectos extremamente bem esculpidos, em formas de botões de rosa. Era construída uma casa em casa plataforma. A cidade devia ter mais de vinte quilómetros, pois tinha bonitas casas ao ar livre, a perder de vista.

Como conseguiram eles construir casas nas copas com todos aqueles ramos? E como conseguiram aquelas plataformas de madeira aguentar as casas?  E como conseguiram os troncos das árvores, por mais grossos que fossem, aguentar as plataformas e as respectivas casas? Apesar de parecer complicado, é mais simples do que aquilo que se possa imaginar: em cada copa de árvore, eles cortavam todos os ramos num raio de cinco metros, a vinte metros do fim da árvore. Depois, regavam as árvores, durante um ano, com seiva de papoila misturada com água de nascente o que conservava o seu aspecto e textura mas lhes conferia uma enorme dureza. Aplicavam seiva de rosa no espaço de vinte metros em que tinha cortado os ramos (para que eles não crescessem mais) e depois, tomando como centro o tronco, construíam plataformas de madeira do norte, a madeira de pinheiro que os homens do norte enriquecem e endurecem, onde constroem casas (igualmente de madeira do norte), com uma abertura ou pátio no centro por onde sai o tronco.

Ora o edifício que se encontrava naquela plataforma, era o registo, onde um funcionário registava quem entrava e quem saia na cidade. O guarda da casa do portão deixou-os ali, enquanto recuava e fazia o caminho oposto ao anterior. Depois o soldado, seguido dos nossos companheiros e da sua mascote, entraram na casa de registo onde foram brevemente interrogados por um elfo de cabelo negro e olhos azuis, agarrado a um caderno com milhares de folhas.

-De onde vêem?

-De Alin. – respondeu Morit.

-Para onde vão?

-Para o vale de Ortich, mas faremos algumas escalas. Fomos convidados pelo rei para o almoço – respondeu de novo Morit.

-Então podem prosseguir, peço desculpa pelas moléstias.

O soldado, calado e apressado, saiu de novo, sempre seguido pelo mago, o anão e a raposa. A cidade era magnífica. Milhares de plataformas, ostentando fantásticos edifícios, alguns troncos com dois, três ou mesmo quatro andares. Aquelas árvores não pereciam abetos nem pinheiros. Tinham uma copa mais grossa. Os longos ramos debruçavam-se sobre a cidade suspensa. Magníficos jardins suspensos eram construídos em pátios de madeira esculpida. Todas as plataformas possuíam corrimãos que as contornavam, excepcionalmente trabalhados, apenas deixando aberturas para bonitas pontes sem pilares que parecia flutuar no ar. A cidade era silenciosa mas alegre, cheia de pirilampos mágicos, com todas as cores imagináveis, voando seguidos por fadas da floresta, pequenas e graciosas, com seus olhos vigilantes. A leve humidade que se fazia sentir no ar puro da cidade acariciava os pulmões de Rarum, que, com a maior das satisfações, olhava tudo á sua volta. Atravessando de ponte em ponte, de plataforma para plataforma, os três estranhos atravessaram a cidade, sob o olhar discreto de um ou outro elfo mais curioso. Era um povo discreto, nobre, e a curiosidade era apenas coisa de anões. Passaram pelo mercado, a única loja daquela cidade, que não era confuso como os outros dos anões e homens. Pelo contrario. Era discreto, e apenas tinha uma banca de alquimia e outra de especiarias, pois os elfos tinham o hábito de apanhar a sua comida. Todos os domingos e quartas-feiras, a casa do portão era aberta todo o dia, e o seu guarda tinha descanso, enquanto os elfos, calmamente, saíam e entravam, com cestos de frutos silvestres e temperos, vinham as mulheres. Com as carnes vinham os homens.

Quando chegaram a uma enorme plataforma, os nossos amigos depararam-se com um enorme terraço, onde degraus davam acesso a entrada de uma grande casa, habilidosamente construída e encaixada entre a vegetação. Á entrada do terraço, o soldado parou e disse:

-Aqui será o vosso banquete, na casa do nosso senhor, a casa das copas.

Morit inclinou a cabeça, em sinal de agradecimento. Mas Rarum não agradeceu, estava completamente hipnotizado pelo que se erguia á frente dos seus olhos: uma enorme mesa rectangular estava posta no centro do terraço com uma toalha branca, e enormes quantidades de comida por cima dela: javali assado, bolachas élficas, saladas, amoras, uvas, maçãs, pêssegos, morangos, pudins de todo o tipo, presunto, chouriços, vinhos, pão de cinco qualidades, bolos, doces, arroz com passas, arroz com fiambre e queijo, arroz de tomate, arroz de cenoura, arroz de ervilhas, batatas cozidas, sopas de cremes de vegetais, frango assado, inúmeros temperos e especiarias, perdizes, arroz de cabidela, cosido de grão, feijoada, mel, compotas e doces de fruta, biscoitos, empadas, croquetes, rissóis e pastelaria de todo o tipo. Rarum ficou vidrado.

Depois de alguns segundos calado, Morit, tendo acabado de observar a mesa, pois também ele tinha ficado espantado, soltou um chamamento que desviou a atenção do esfomeado anão.

-Então, meu velho? O gato comeu-lhe a língua, foi? – disse o mago, com um grande sorriso estampado nos seus lábios.

-Am? O quê? Ah… peço desculpa, meu amigo. Mas… onde se encontra o nosso anfitrião?

-Ele deve estar a sair. Oh!… veja! Olhe para a porta!

Saindo pelo pequeno portão aberto da grande mansão das copas, vinha uma majestosa figura, um elfo de seu metro e oitenta, com longos cabelos (loiros, como é hábito) mas excepcionalmente brilhante e reluzente, avançando sobre o terraço leve mas altivo, arrastando uma leve capa, quase transparente, sobreposta a uma túnica feita de verde cristalino. Era a pessoa mais imponente e altiva que alguma vez Rarum tinha visto e, sem hesitar, o pobre anão avançou pelo terraço, seguido de Morit e de Luin, até chegar a meio, onde se encontrava a mesa e onde o rei, com uma coroa de prata incrustada de esmeraldas, rubis e diamantes, e um anel de prata, parou. De seguida, Rarum e Morit inclinaram-se perante o rei, que vergou levemente, ordenou-lhes que se levantassem, com um gesto ordenativo e disse:

-Sejam bem vindos, meus novos amigos, a Luituin, a cidade secreta das copas, e ao meu terraço onde se banquetearam enquanto falamos e os bardos cantam para nós. Eu sou Uirragon o rei da parte sul do reino élfico da floresta central, colega de Artîr, rei da parte norte do reino élfico da floresta central e submisso de Fuliamer, rei de todo o rei élfico da floresta central. Mas, meus amigos, abandonemos as formalidades. Por favor, Rarum e Morit, os meus guardas informaram-me de tudo o que preciso de saber sobre vocês. É um prazer receber um anão e um mago na minha cidade.

-E é um prazer sermos convidados por um rei élfico, tão importante quanto o senhor, para um banquete no seu terraço!

O grande terraço, que saia da casa do rei e se debruçava sobre a floresta, ligado á cidade por uma ponte rodeada de heras, era coberto por jardins suspenso. Arbustos cresciam em vasos, roseiras erguiam-se entre o corrimão, heras cobriam as paredes exteriores da casa, hibiscos exibiam as suas flores ao sabor do vento que penetrava entre as árvores e inumares flores ornamentavam o agradável terraço, enorme, mas extremamente acolhedor. Escadas larguíssimas ligavam o patamar suspenso á mansão.

Sem grandes hesitações, Rarum perguntou, descaradamente, ao rei:

-Bem, e quando vamos almoçar?

-Oh!… vejo que tendes um amigo apressado, sábio mago! – responde o experiente rei – Não se preocupe, mestre anão, estou á espera que tragam um pequeno presente que consegui providenciar, á pressa, esta noite, enquanto esperava que vocês chegassem. É uma coisa muito útil e bonita, capturados á noite. Mas, enfim, é surpresa, apenas mandei trazer para estar á mão.

-Mas não era necessário, nobre rei! – interveio Morit.

-Sim, não era preciso, nós apenas queríamos uma boa refeição para partimos de volta á estrada! – disse Rarum, incentivado por uma cotovelada valente e encorajadora de Morit.

-Não foi nada, foi só para não os deixar irem-se embora sem uma recordaçãozinha de cá… Oh mas, vejam, vem ai o súbito a quem pedi que fosse buscar o vosso presente! Sentemo-nos, ele sabe onde deixar o presente.

Com efeito, o rápido elfo chegou rapidamente á mesa e colocou ma caixa de madeira, mais ou menos do tamanho de coelho, vermelha e com uma bonita fechadura dourada. O anão, sem cerimónias, sentou-se numa cadeira, á frente de Morit, paralela á do rei. Aí surgiu-lhe uma pergunta:

-Mas… nobre anfitrião, porquê tanta comida para apenas três pessoas? E porquê uma mesa tão grande?

-Um anão é sempre bem servido numa cidade élfica, bem como o seu companheiro!

-Mil agradecimentos! – disse Morit – Mas para mim basta um ou dois croquetezitos e estou arranjado!

-Tal é a mania! Com tanta comida e ele contenta-se com um “croquetezito”! – disse Rarum, de boca cheia, mastigando uma grande fatia de presunto, com salada e rissóis no prato.

-Já devia estar habituado aos rigores dos magos, mestre anão! – respondeu-lhe o rei, risonho, e comendo bolacha élfica com compota de alperce.

Os três continuaram ali, falando dos seus assuntos, comendo e bebendo, com Morit de prato vazio e apenas bebendo vinho. Todos os assuntos vinham á baila: receitas de comida élfica ancestral, a ausência de queda de água na época das chuvas, a densidade populacional élfica, como construíram os arquitectos élficos as cidades suspensas nas árvores, as guerras com as ilhas negras, os reinos distantes da tundra nórdica e muitos outros temas.