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5 livros para começar a curtir fantasia

O pessoal do jornal online Nexo me pediu para sugerir 5 livros essenciais (e, acrescento, não óbvios) para gostar de fantasia. Montei uma lista bem idiossincrática, obviamente incluindo Tolkien em um de seus livros menos conhecidos e mais belos. E é claro que faço referência ao professor na introdução do texto. Confira abaixo ou, se preferir, acesse o texto no site do Nexo clicando aqui:
https://www.nexojornal.com.br/estante/favoritos/2019/5-livros-instigantes-para-conhecer-o-g%C3%AAnero-fantasia

J.R.R. Tolkien (1892-1973), o autor de “O Senhor dos Anéis”, definia a fantasia como a arte da “subcriação” de um Mundo Secundário — um mundo ficcional cheio de encantamento pelo qual as mentes do público podem viajar e que, com sorte e engenho, chega a soar quase tão crível quanto o mundo real. Raros são os autores de fantasia que chegam perto da complexidade do Mundo Secundário tolkieniano, mas muitos de seus seguidores (e adversários) conseguem usar artifícios literários similares aos dele para deleitar seus leitores e lançar luzes insuspeitas sobre a condição humana (mesmo quando estão falando de elfos) e a natureza da realidade por meio desses outros universos possíveis. Abaixo, alguns dos livros mais instigantes do gênero segundo este escriba, vários dos quais ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros.

Trilogia Terramar Ursula K. Le Guin

No mundo-arquipélago da história (daí o nome Terramar), predominam os seres humanos de tez acobreada ou negra (os brancos são bárbaros), e a filosofia dos magos da saga é influenciada pelo taoísmo. Le Guin recria tradições orais com habilidade no pano de fundo das histórias. Da trilogia original, temos edições brasileiras recentes dos livros um e dois, “O Feiticeiro de Terramar” e “As Tumbas de Atuan” — ainda falta sair “The Farthest Shore” (A Costa Mais Distante).

The once and future king T.H.White

A história começa de modo a lembrar uma releitura infanto-juvenil da lenda do rei Arthur, mas se transforma aos poucos numa meditação comovente sobre a natureza da violência e do poder e o lugar do ser humano na natureza, com diálogos entre o jovem Arthur e diferentes espécies de animais. Talvez seja a única versão das histórias arturianas nas quais o cavaleiro Lancelot, mais famoso dos guerreiros da Távola Redonda, é feioso e luta contra suas próprias tendências à psicopatia. Atenção: a obra completa contém cinco livros, às vezes lançados em volumes separados.

Estação Perdido China Miéville

Sexo entre humanos e mulheres-besouros, intrigas trabalhistas e um clima de pesadelo pseudovitoriano fazem deste romance britânico uma experiência visceral e assustadora. A menção a “trabalhismo” se explica, em parte, pelos pendores políticos de Miéville, um dos poucos escritores de fantasia a se engajar diretamente na política pelo lado da esquerda — ele chegou a fundar um partido no Reino Unido e escreveu ainda um livro de não ficção sobre a Revolução Russa.

Summerland Michael Chabon

Um menino que odeia beisebol e seus amigos precisam aprender a dominar uma versão mágica do jogo para salvar o pai dele e todo o Cosmos do Apocalipse. Lírico e bem-humorado, o livro cativa até quem, como eu, não faz ideia das regras do beisebol. Chabon também escreve ficção realista, mas mesmo suas obras não fantásticas sempre trazem referências, ainda que oblíquas, oriundas do mundo dos quadrinhos de super-heróis e da cultura pop.

Ferreiro de Bosque Grande J.R.R.Tolkien

Pouco maior que um conto, a história se passa na Inglaterra medieval, e não na Terra-Média. Seu protagonista descobre a glória e a tristeza de vislumbrar a magia que está além dos olhos mortais ao ganhar, ainda criança, uma estrela de prata que lhe serve de passaporte para Feéria, o Reino das Fadas. É o último livro publicado por Tolkien ainda em vida, em 1967, que ele descrevia como “a obra de um homem idoso, cheia de presságios de luto”.

Reinaldo José Lopes é jornalista de ciência do jornal Folha de S.Paulo, autor de oito livros e tradutor de três obras de J.R.R.Tolkien: “A queda de Gondolin”, “O Silmarillion” e “O Hobbit”. Tem títulos de mestre e doutor pela Universidade de São Paulo por estudos sobre a obra de Tolkien.

Tolkien, as motosserras e o clima do Brasil

Não sei se vocês sabem, mas tenho um plano maligno de espalhar a palavra de Tolkien por todos os aspectos da cultura nacional. (Tá, na verdade eu só tento falar de Tolkien toda vez que tenho uma brecha mesmo). Resolvi citar o professor numa das minhas colunas recentes da página de Ciência da Folha de S.Paulo, sobre o efeito do desmatamento no clima do Brasil. Confiram o texto abaixo.

Sem árvores, o Brasil torra


“O som selvagem da motosserra nunca silencia onde quer que árvores ainda sejam encontradas crescendo”, escreveu J.R.R. Tolkien, o filólogo e autor de “O Senhor dos Anéis”, em carta datada de 30 de junho de 1972, no ano anterior à sua morte. Nisso, e ao classificar as máquinas que queimam combustíveis fósseis de “motores de combustão inferna” (um trocadilho com “interna”), o criador dos hobbits ainda é uma voz profética. Afinal, é bem possível que o tal som selvagem nos carregue um pouquinho mais para perto do Inferno nos próximos 30 anos.

Chame-me de alarmista se assim o desejar, gentil leitor, mas um estudo publicado na semana que passou por cientistas brasileiros aponta justamente nessa direção calorosa (no mau sentido). Ao analisar como o desmatamento tem afetado o clima local no Brasil e no mundo, eles calculam que uma derrubada sem freios pode aumentar a temperatura média do país em 1,45°C até 2050. Como já disse aquele sábio do jornalismo esportivo, 2050 é logo ali, amigo.

Repare que eu disse “clima local” ali em cima. A análise, que está na revista científica de acesso livre Plos One, levou em conta não a quantidade de gases causadores do aquecimento global emitidos pelo desmatamento —algo que vai para a atmosfera e acaba afetando a temperatura média do mundo todo, em certa medida. No lugar disso, o estudo considera as mudanças climáticas de pequena escala geradas quando uma área antes florestada perde sua cobertura de árvores.

A equipe do estudo, que inclui Gisele Winck, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e Jayme Prevedello, da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), explica didaticamente que o efeito climático local das florestas depende principalmente de duas variáveis.

A primeira é o albedo –grosso modo, uma medida de quanto o solo reflete ou absorve a luz. A folhagem escura das florestas corresponde a um albedo relativamente baixo, que absorve a radiação solar e, portanto, tende a esquentar.

Entretanto, é preciso a considerar a segunda variável, a evapotranspiração –grosso modo, a maneira como as florestas “suam”. E, nesse caso, a seta aponta para o outro lado: ao transpirar, as florestas refrescam mais a superfície da Terra do que a vegetação mais aberta, como pastagens.

Com esses princípios em mente e com dados sobre cobertura florestal e clima no mundo todo, Winck, Prevedello e seus colegas se puseram a fazer as contas. Acabaram concluindo que a presença de florestas tem efeitos variados dependendo da região do mundo onde se encontram.

Nas regiões tropicais e, em menor grau, nas zonas temperadas, florestas tendem a ter um efeito local de ar-condicionado, diminuindo a temperatura. Perto dos polos, a situação se inverte – basicamente porque, quando não há a folhagem escura da mata, temos chão coberto por neve, que tem um albedo elevado – o branco, afinal de contas, reflete toda a luz solar.

Bem, como você sabe, moramos num país tropical (a parte do “abençoado por Deus e bonito por natureza” tem ficado menos verossímil). Pelos cálculos da equipe, se o desmatamento não for controlado com seriedade, enfrentaremos o calorzinho nada agradável descrito acima daqui a 30 anos. Parece-me uma razão mais do que suficiente para botar uma focinheira nas motosserras selvagens.

por que traduzir os nomes na obra de tolkien?

Além de todas as tretas das traduções novas, existe um ponto mais básico que muita gente ainda questiona: por que, afinal, traduzir nomes próprios na obra de Tolkien? Em nome próprio a gente não mexe, certo? Errado! Neste vídeo, explico em detalhes a lógica por trás dessa decisão, as mudanças de posição de Tolkien sobre o tema e por que, embora necessária, essa abordagem quase nunca dá um resultado perfeito. Bônus: você pode rir da minha cara de mané enquanto eu quase quebro a câmera (e o iPad).

Explicando O Silmarillion para quem nunca leu Tolkien

Como explicar O Silmarillion e sua importância literária para quem nunca leu Tolkien? Foi o que tentei fazer, já faz um tempinho, para a revista Diário de Bordo, uma publicação voltada para fãs de Star Trek. Confiram o resultado abaixo e não deixem de conferir a nova edição do Silma, que está lindona!

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É impressionante a quantidade de leitores iniciantes (ou mesmo não tão iniciantes assim) da obra de J.R.R. Tolkien (1892-1973) que, depois de amar O Hobbit e/ou O Senhor dos Anéis, os livros escritos em vida pelo britânico que são quase unanimidade entre os amantes da fantasia, acabam levando uma sova das poucas centenas de páginas da principal obra póstuma dele, O Silmarillion. “Cadê o fio da meada da história?”, questiona um, prestes a arrancar os cabelos. “Mano, é muito nome! Só de gente com o sufixo –fin no epíteto são uns 30”, queixa-se outro.

Sim, sou o primeiro a admitir que o livro é “difícil”. Aliás, foi escrito para ser difícil, em certo sentido. Por outro lado, confesso que sou parte mais do que interessada no destino desse texto esquisito e fascinante. Fui encarregado recentemente de produzir uma nova tradução do livro para o português do Brasil e fiz meu mestrado e doutorado sobre a obra de Tolkien, com ênfase justamente na massa interminável de rascunhos que acabariam dando origem à versão “canônica” de O Silmarillion. Por isso, na melhor tradição do proselitismo (quase) religioso, ouso dizer: regozijai-vos, irmãos! O livro vale a pena. É, na verdade, uma pedra preciosa que precisa ser lapidada pela paciência do leitor para que brilhe em toda a sua glória, como faziam os elfos ou os anãos de outrora com suas gemas mágicas. Encare este artigo como um guia para os perplexos: espero que você passe a enxergar o livro com outros olhos depois de lê-lo.

O Silmarillion, para quem não conhece, é uma espécie de Antigo Testamento do mundo criado por J.R.R. Tolkien (embora a analogia não seja tão boa assim; eu já explico). Do ponto de vista literário e narrativo, trata-se de um livro com uma das abordagens mais take no prisoners do século 20, talvez apenas comparável – por motivos totalmente diferentes, claro – a clássicos modernistas que praticamente ninguém leu, como Finnegans Wake, de James Joyce.

Nessa obra na qual trabalhou durante quase 60 anos de sua vida, e que não chegou a terminar para valer, Tolkien basicamente dá uma banana para as convenções novelísticas tradicionais, aquelas que dizem que é importante você desenvolver de forma equilibrada a psicologia de cada personagem, que é preciso construir conflitos e solucionar os ditos cujos de forma relativamente linear e lógica ou que, horror dos horrores para a geração das maratonas do Netflix, jamais se deve soltar spoilers se você deseja prender a atenção do leitor da primeira à última página.

Bem, não há quase nada dessas regras de boa conduta ficcional no livro. O sujeito que resolver ler O Silmarillion antes de O Hobbit ou de O Senhor dos Anéis (foi esse o meu caso nos idos de 1998) terá diante de si uma seção inteira do volume, a última, batizada de “Dos Anéis de Poder e da Terceira Era”, que não passa de um grande spoiler do que ocorrerá nos dois romances mais famosos de Tolkien. E, mesmo nas seções anteriores do livro, a narrativa é constantemente afetada pela “sombra do futuro”: em alguma medida, já fica claro em que direção caminham os personagens (rumo a quantidades cavalares de sangue, suor e lágrimas, resumindo).

Teogonia, cosmogonia e guerra
Como escrevi alguns parágrafos atrás, a questão é que faz sentido que o livro tenha essa cara aparentemente tão esquisita e dificultosa, porque, atenção para o ponto crucial, ele não é um romance. O Silmarillion é a pedra fundamental do que Tolkien deseja que fosse sua “mitologia para a Inglaterra” (expressão usada por ele em uma de suas cartas a um possível editor, que acabou não publicando seus livros).

Como toda boa mitologia do mundo real, a nova mitologia inglesa criada pelo autor começa com uma teogonia e uma cosmogonia, ou seja, um relato das origens dos seres divinos e do Cosmos. Trata-se, a rigor, de uma visão reimaginada do nosso próprio Universo, no qual a única verdadeira divindade – Eru Ilúvatar, identificado com o Deus judaico-cristão – delega sua tarefa de Criador a “poderes angélicos” que se assemelham superficialmente aos deuses das mitologias que conhecemos. Esses seres, os Valar, precisam enfrentar seu membro mais poderoso, Morgoth, que se rebela contra o desígnio do Criador (qualquer semelhança com Lúcifer não é mera coincidência) e tenta dominar Arda, a Terra, e seus habitantes – elfos, anões, seres humanos e hobbits, entre outros.

Embora os elementos que citei tenham paralelos fáceis de enxergar com mitos pré-existentes e com a Bíblia, a combinação específica deles no livro dá à criação de Tolkien um sabor único. Como estudioso de línguas, manuscritos e narrativas antigas da Europa, ele conseguiu estruturar os ciclos de histórias de O Silmarillion de tal modo que eles parecem refletir uma longa história de transmissão cultural, com grande número de versões e variantes em prosa e verso (se você não gosta de poesia, a boa notícia é que quase não há poemas espalhados ao longo do texto em prosa, ao contrário do que acontece na Saga do Anel ou em O Hobbit). De fato, a qualidade do texto em si está entre os grandes atrativos do livro: longe das descrições detalhadas de lugares e construções de O Senhor dos Anéis, a narrativa é econômica, às vezes seca, de um lirismo arcaico como os mitos que a inspiraram.

Cor-de-rosa? Sério?
Um ponto que vale a pena salientar está ligado a outra crítica recorrente, e altamente injusta, à visão de mundo de Tolkien. De novo, quem só conhece superficialmente O Hobbit e O Senhor dos Anéis por vezes se sente tentado a classificar o filólogo britânico como um otimista incorrigível, um sujeito doido para relatar finais felizes a qualquer custo.

O leitor que diz isso no caso dos livros mais conhecidos se apega ao fato de que “o Bem” vence neles, embora claramente não tenha prestado atenção no preço altíssimo que a Demanda do Anel cobra de Frodo; no fato de que o heroicamente leal Sam, com sua falta de tato, também é o responsável por eliminar a última chance de redenção de Gollum; e por aí vai. As coisas são muito mais sombrias em O Silmarillion, porém. Uma frase enigmática da rainha élfica Galadriel na Saga do Anel – a de que ela e seu esposo Celeborn passaram milênios lutando “a longa derrota” contra as forças das trevas – fica abundantemente clara com a leitura do livro póstumo.

A narrativa principal da obra registra tantas desgraças e resistências heroicas fadadas ao fracasso que o leitor fica esperando que a qualquer momento apareça a frase “E todos morreram. FIM.” Os elfos retratados em tons quase sempre róseos em O Senhor dos Anéis se revelam perfeitamente capazes de guerras fratricidas, megalomania, incesto e genocídio durante a Primeira Era. Os seres humanos incrivelmente longevos, poderosos e sábios da ilha de Númenor, a Atlântida tolkieniana, acabam embarcando numa carreira nada edificante de imperialismo e “satanismo” (ou “morgothismo”, para usarmos uma terminologia mais adequada ao mundo ficcional do autor) que os conduz à ruína. Há algo de podre no reino de Arda, em suma.

Tal retrato da “longa derrota” combina com o forte veio de pessimismo da personalidade de Tolkien, para quem a história humana do mundo real funcionava de acordo com mais ou menos esses mesmos princípios. Mas também é um veículo para que ele exponha uma das grandes lições que costumava depreender das antigas mitologias do norte da Europa. Segundo o escritor, o conceito unificador desses mitos, de origem germânica/escandinava, era a “teoria da coragem do Norte”. Naquelas mitologias, vai acontecer uma espécie de Apocalipse, como nas narrativas judaico-cristãs, mas as profecias dizem que as forças das trevas vão vencer no final. É o que preveem, por exemplo, os textos sobre o Ragnarök (“destruição dos deuses” em nórdico antigo).

Mesmo assim, diz Tolkien num de seus textos teóricos mais famosos, os deuses escandinavos continuam lutando até o fim, e jamais acham que o fato de estarem fadados ao fracasso significa que deveriam mudar de lado. Essa lógica trágica e heroica está condensada de modo admirável em O Silmarillion. Só isso já faz valer a pena encarar as linhas mais complicadas do livro.

O novo Silmarillion está chegando – e aqui está a Nota do Tradutor!

Como vocês sabem, tive a imensa alegria de traduzir a nova edição de O Silmarillion que está prestes a chegar a todas as livrarias do Brasil. Aqui vai um dos “Easter eggs” do livro: a nota sobre a tradução que escrevi. Espero que atice o interesse do pessoal da Valinor pelo novo Silma!

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NOTA DE TRADUÇÃO

Quando publicou O Hobbit, sua primeira obra de ficção, J.R.R. Tolkien decidiu incluir no livro uma nota introdutória que começava dizendo o seguinte: “Esta é uma história de muito tempo atrás”. Se essa afirmação vale para as aventuras de Bilbo, ela é incomensuravelmente mais verdadeira para O Silmarillion, uma narrativa que começa com as origens de Eä, o Universo, e de Arda, o Reino da Terra, e narra “as estranhas histórias antes do princípio da História”, como diz, de novo, o narrador de O Hobbit. A linguagem usada por Tolkien nos textos que compõem este livro reflete esse fato de modo muito claro. O narrador e os personagens da obra falam uma língua que está muito longe de ser o inglês coloquial – ou mesmo literário – do século XX. Em muitos aspectos, o estilo e o vocabulário se aproximam do idioma formal de uns 500 anos atrás.

Na presente tradução, tentei refletir ao máximo essa ambição de Tolkien – a de contar uma história do passado primevo numa linguagem que ecoa esse mesmo passado – usando equivalentes que temos à nossa disposição em língua portuguesa. No vocabulário, a opção central foi pelo arcaísmo ou, para ser mais preciso, para palavras que possuem uma história relativamente longa no nosso idioma. De fato, Tolkien em geral não usa palavras esquecidas que ninguém mais entende, mas sim vocábulos “clássicos”, que um inglês da época de Shakespeare (1564-1616) teria tanta facilidade de compreender quanto uma pessoa comum na Oxford dos anos 1960.

Para alcançar esse objetivo, usei apenas termos que estão presentes em português pelo menos desde os séculos XVI e XVII, o que equivale de modo bastante preciso ao vocabulário moderadamente arcaico, mas sempre compreensível, de O Silmarillion. Também procurei usar palavras que respeitem as origens (majoritariamente) latinas do português, mas que, ao mesmo tempo, são da língua corrente das últimas centenas de anos. Evitei neologismos eruditos forjados diretamente a partir do latim e do grego. Elfos e Homens, por exemplo, são “as Duas Gentes”, não “As Duas Etnias”.

A influência da Bíblia e do cristianismo medieval, tanto nas ideias quanto no estilo, é inegável neste volume. Por isso, busquei levar em conta boas traduções da Bíblia para o português no meu trabalho. Os reflexos bíblicos (e o de outros autores pré-modernos) em O Silmarillion aparecem também na estrutura peculiar das frases do livro, seja nas frases construídas com várias conjunções “e” (como no Ainulindalë), seja na ordem inversa das palavras (Tolkien adora começar um parágrafo com um objeto indireto, por exemplo). Tentei manter esses detalhes saborosos ao máximo em português.

Os trechos poéticos da Balada de Leithian que constam do livro foram traduzidos pelo colega Ronald Kyrmse como parte de seu trabalho em Beren e Lúthien, pelo qual eu e todos os entusiastas da obra de Tolkien no Brasil somos muito gratos. Boa leitura!

Nova tradução de “O Hobbit” CONCLUÍDA!

É com prazer que comunico à comunidade Valinor que, dez minutos atrás, concluí a tradução do último capítulo de “O Hobbit” para a HarperCollins Brasil. Leiam mais em julho, quando sair a nova edição do livro no Brasil. Estou tão feliz que prometo gravar a versão em português das duas canções dos Anãos que apareceram nos filmes de Peter Jackson — no dia em que o livro sair, para não termos spoilers, é claro. Que venha a série The History of Middle-earth (não, ainda não sei quando, mas virá)!

Minha posição definitiva sobre Orques e Gobelins

A treta sobre o uso de termos como Orques e Gobelins nas novas edições da obra de Tolkien, publicadas pela editora HarperCollins Brasil, voltou com toda a força nos últimos dias. Eduardo Oliferr, do site Tolkien Brasil, que já tinha escrito uma série monumental (embora profundamente equivocada; stay tuned) de artigos sobre o tema condenando as novas traduções, iniciou uma verdadeira campanha em sua página do Facebook, conclamando outros fãs a manifestar sua contrariedade e praticamente exigindo que a editora altere os termos. Há uma ameaça mal-disfarçada de boicote no ar.

Bem, como vocês sabem, eu sou parte interessada nessa história. Sou o tradutor de A Queda de Gondolin, O Silmarillion e O Hobbit e membro do Conselho de Tradução da HarperCollins Brasil junto com os colegas tradutores Gabriel Brum (também aqui da Valinor) e Ronald Kyrmse. Creio firmemente, porém, que temos argumentos muito bons do nosso lado. E me parece claríssimo que a análise feita pelo Eduardo é parcial, enviesada e, em última instância, errada. Abaixo, explico o porquê disso ponto a ponto, aproveitando para citar várias críticas ou dúvidas das pessoas que estão atacando as novas traduções.

1)“Tolkien odiava/não aceitava adaptações fonéticas de qualquer tipo nos termos de suas obras”

Isso é, no máximo, sendo muito generoso, uma meia-verdade. O problema é tomar como verdade absoluta uma “fotografia” de UM momento específico citado nas Cartas de Tolkien, nos anos 1950, e extrapolar isso pra todos os lugares e todas as épocas em que foram feitas traduções da obra tolkieniana.

Não sei se vocês sabem, mas Tolkien era… gente. Um ser humano, que mudava de ideia, negociava, avançava e recuava, esquecia as coisas. Isso tem de ser levado em consideração.

Sim, Tolkien ficou chocado quando tradutores holandeses e suecos, nos anos 1950, resolveram traduzir ou adaptar a nomenclatura inglesa do Condado e dos nomes dos hobbits. A primeira reação dele foi vetar tudo, e aí teremos edições totalmente anglicizadas por aí. Mas lentamente ele foi levando em consideração que suas obras são, em tese, supostas traduções de manuscritos antigos em línguas que não têm nada a ver com o inglês, e que, portanto, tudo o que está em inglês – segundo essa teoria – seria “traduzível” ou adaptável foneticamente, em alguma medida.

Ele continuou meio infeliz com a ideia num nível visceral, mas sabia que era o certo a fazer.

E ele próprio sugere a possibilidade de adaptações ortográficas e fonéticas na Nomenclatura de O Senhor dos Anéis, documento que preparou para os tradutores nos anos 1960. Dois exemplos claros são os nomes Sharkey (o apelido de Saruman, traduzido como Charcote na edição da Martins Fontes) e Maggot, sobrenome do fazendeiro Magote.

Sobre Sharkey, Tolkien escreve: “A palavra, portanto, com uma modificação de ortografia para se adequar à LT [língua de tradução]; a alteração do sufixo diminutivo e quase afetuoso –ey para se adequar à LT também seria adequada”. Daí “Charcote” (a terminação lembra “mascote”, “filhote” em português).

Eis um trecho do verbete sobre Maggot: “A ideia é que seja um nome ‘sem significado’ (…) provavelmente é melhor deixá-lo intacto, embora alguma assimilação ao estilo da LT também fosse adequada”. Isso explica a remoção do “g” duplo e a vogal no final em “Magote”.

(Aliás, notem o “provavelmente”. Tolkien sabia que o trabalho de tradução comporta incertezas e soluções que variam – diferentemente de alguns de seus fãs…)

2)Mas ele jamais permitiria esse tipo de coisa com as palavras mais importantes de sua obra!!!

Errado. Um dos volumes da obra “The J.R.R. Tolkien Companion & Guide”, obra de referência organizada por Christina Scull e Wayne Hammond, mostra Tolkien totalmente aberto a negociar mudanças sutis e mesmo brutais para o termo “hobbit”. Sim, “hobbit”.

Em 1962, a editora Fabril, de Buenos Aires, estava negociando a publicação de uma tradução de O Hobbit, e Tolkien disse o seguinte: “Numa língua latina, o termo ‘hobbits’ parece horroroso e, se eu tivesse sido consultado antes, teria concordado imediatamente com alguma naturalização da forma: p. ex. ‘hobitos’, que combina melhor com ‘elfos’, palavra adotada há muito, além da boa sorte de conter o sufixo normal diminutivo do espanhol [-ito, no caso].”

A editora chegou a propor ‘jobitos’, uma vez que, como em português, o “h” do espanhol é mudo, enquanto o “j” do castelhano é aspirado. Tolkien disse que preferia “hobitos” e acrescentou que muitos hobbits provavelmente abandonavam o “h” aspirado no começo das palavras, tal como os camponeses da Inglaterra. Ou seja, alguns hobbits diziam ser “óbits”!

Em outra negociação, desta vez em 1968, com a editora francesa Editions Stock, a empresa propôs alterar “hobbit” para “hopin” porque “hobbit” parecia um palavrão francês (eles não dizem qual). Tolkien fez birra, jogou-se no chão e chamou os franceses de bobos, feios e chatos. Né?

Não. Tolkien embarcou na ideia.

“De qualquer modo, ‘hopin’ me parece uma solução apropriada e engenhosa: ‘hopin’ está para ‘lapin’ [“coelho” em francês] assim como ‘hobbit’ está para ‘rabbit’ [“coelho” em inglês].” Para quem não se lembra, essa comparação entre hobbits e coelhos aparece várias vezes no livro. Ele só pediu para os ilustradores não desenharem Bilbo com cara de coelho por causa disso.

Mas fiquem tranquilos – estamos sendo conservadores e não vamos mexer em “hobbit”. Mais conservadores que o próprio Tolkien, pelo visto…

3)Ah, mas nenhuma tradução europeia acabou seguindo essas ideias. Dois grandes especialistas em Tolkien também são contra elas. Vocês querem saber mais que eles?

Verdadeiro, porém irrelevante. Esse raciocínio parte de uma visão binária: se a nossa escolha de tradução é boa, a deles é ruim, e vice-versa.

Bom, em tradução isso é relativamente raro. A não ser que a gente estivesse errando o significado ou o tom de uma palavra (trocando um termo formal por gíria, por exemplo), não existe 100% errado ou certo nessa área. O que existe são ESCOLHAS que podem ser defensáveis ou não, por diferentes motivos.

Manter o termo original é defensável? Totalmente. Ligeiras adaptações ao estilo da língua de tradução são defensáveis? A resposta, como o próprio Tolkien deixou entrever, também é SIM.

Ah, e só pra arrematar, isso é, no fundo, argumento de autoridade. Ou seja, uma falácia lógica.

4)Vocês não estão traduzindo, estão só inventando palavra!

Bom, não sei se vocês sabem, mas palavras são inventadas o tempo todo. Tipo “futebol”, “upar”, e “shippar”. Isso normalmente acontece quando a língua de tradução não tem equivalentes considerados precisos para o termo designado na chamada língua de partida (o idioma original).

“Duendes”, em português, são entidades com associações fofinhas e naturebas que não dão conta dos “goblins” de Tolkien – daí a opção por “gobelim/gobelins”. Quanto a “Orc”, nunca tivemos uma palavra que sequer se aproximasse em sentido ou tom no nosso idioma.

A opção mais lógica é abraçá-las como neologismos – desde que a adaptação fonética necessária seja feita. Aliás, no caso de “Orc” a adaptação fica na fronteira entre o fonético e o gráfico. Ou você conhece algum brasileiro que pronunciasse “Orc” de um jeito que não soasse como “Orque” (aliás, “orqui”, né)?

5)O próximo passo vai ser “robitos” e “Tomás Bombadinho”! É um absurdo!

Temer essa possibilidade é simples falta de atenção com a maneira como temos trabalhado. As mudanças só afetaram essas palavras porque elas não foram criadas por Tolkien nem são nomes pessoais, mas estão em uso na língua inglesa faz tempo e, portanto, podem ser pensadas como substantivos comuns “adaptáveis”. E, de novo, Tolkien ressalta que o importante é o SOM de “Orc”, não a grafia.

Aliás, nota de rodapé: “hobbit” também tinha registro em certos compêndios antes da obra de Tolkien, mas parece que era o termo usado para falar de um ente sobrenatural que não tem nada a ver com Bilbo e companhia. Para todos os efeitos, faz mais sentido tratá-la como invenção de Tolkien e, portanto, mais “intocável”.

6)Mas gobelim é nome de tapeçaria!

Meia-verdade, mas irrelevante. Na verdade o termo preferido pelos dicionários, como o Houaiss, é “gobelino”.

Mas e daí? Será que, a esta altura do campeonato, preciso mesmo apresentar a alguém supostamente tão douto quanto o Eduardo o conceito de homófono e homógrafo?

“Pena” pode ser de galinha, de dó ou de tempo passado na prisão. Isso por acaso faz a palavra ser proibida em português? De mais a mais, quantas pessoas com nível superior que você conhece vão imediatamente gritar “tapete!” quando você diz “gobelim”?

7)Vocês estão fugindo do debate!

Parafraseando Bilbo, parece que tem gente que sabe mais do que acontece dentro da minha própria casa do que eu mesmo (ou da casa dos demais membros do Conselho de Tradução).

O convite para o debate veio em janeiro, o mês em que eu tenho duas crianças pequenas de férias em casa o dia todo, quando eu também preciso trabalhar como repórter, atualizar meu blog (que sou pago pra fazer), escrever meu próprio livro (que tá atrasado…), traduzir O Hobbit, cozinhar, arrumar a casa, cuidar das porquinhas-da-índia… e eu ainda não defini data pra debater com o rapaz porque estou com medo. Então tá.

Debato com a maior tranquilidade – quando eu tiver tempo, e quando houver honestidade intelectual e um mínimo de cortesia pra debater. Nem um minuto antes disso.

Essa história toda me lembra a obra do psicólogo Jonathan Haidt sobre como as decisões humanas são tomadas. Ele resume os achados dele da seguinte maneira: “As intuições vêm primeiro, o raciocínio estratégico vem depois”.

A estranheza inicial de “Orques” e “Gobelins”, a “feiura”, fez com que intuitivamente muita gente achasse que as traduções estavam erradas. Correram, então, atrás de todo tipo de argumento para tentar justificar racionalmente essa intuição.

Faltou, porém, olhar os argumentos por todos os lados possíveis. Tudo bem você achar as palavras feias ou, em termos tolkienianos, “pouco eufônicas”. Tudo bem você achar que outra solução seria melhor. Mas dizer que as nossas opções estão “erradas” e “contrariam Tolkien” não é opinião, meu amigo. É puro autoengano.

E agora, se vocês me dão licença, tenho de entregar a tradução de O Hobbit até o dia 10 de fevereiro.

A arte da Guerra de Sun tzu presente na quinta batalha: Nirnaeth Arnoediad – Erros e acertos

O que é a arte da guerra?

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A arte da guerra é um compacto manual construído em treze capítulos, pelo filosofo e general chamado Sun Tzu, escrito no século III antes de cristo, sendo este um dos mais antigos tratados militares do mundo. Este livro acabou exercendo uma grande influência em guerras no decorrer do tempo e hoje é utilizado por empresas, políticos e estudiosos de diferentes áreas. 

Segundo Sun Tzu “A guerra é uma questão vital para o Estado. Por ser o campo onde se decidem a vida ou a morte, o caminho para a sobrevivência ou para a ruína…” (Ttzu,2001,p.25).  Os leitores de Tolkien bem sabem que sua obra é repleta de guerras, sendo utilizada como meio de resolver sua desavenças políticas, lutas por joias riquezas, como no caso das Silmarills, desavenças entre as raças, entre outras. As guerras na obras de Tolkien sempre representam essa linha tênue entre a sobrevivência e ruína das raças bem como sendo utilizadas para marcar a mudanças das eras.

A Batalha de Nirnaeth Arnoediad

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No livro Silmarillion é relatado que Maedhros, reuniu todas as forças que pôde de elfos, homens e anões,com o objetivo de atacar Angband e acabar de uma vez por todas com Morgoth, porém um de seus erros foi realizar um ataque cedo demais, antes que suas seus planos estivessem completos e embora tenha expulsado os orcs do norte de Beleriand, acabou avisando a Morgoth do levante, podendo assim se preparar.

Segundo Sun tzu, um dos melhores planos de ataques é desfazer-lhes as alianças, provocando o rompimento dos seus adversários, o que foi realizado por Morgoth, fato este que fica presente:
“…Muitos espiões e traidores mandou para o meio dos homens, como agora era mais capaz de fazer, pois os homens desleais de sua aliança secreta ainda estavam muito enfronhados nos segredos dos filhos de Fëanor.” (TOLKIEN, 2011, p.239))

Seguindo essa estratégia Morgoth utiliza-se de espiões, ao qual para Sun-tzu “Há cinco tipos tipos de espiões a poderem ser empregados: nativos, internos, duplos, dispensáveis e vivos.” (Tzu,2001, p.118).  Destes Morgoth utiliza-se então de agentes dispensáveis, ou seja, espiões nossos em que são deliberadamente dadas informações falsas, presente no trecho abaixo:
“Maedhros fora impedido na partida pelas astúcia de Uldor, o Maldito, que o enganara com advertências falsas de um ataque proveniente de Angband.” (TOLKIEN, 2011, p.240)
Além disso utiliza-se de mais dois tipos de espiões. Os nativos- são naturais da terra rival que nos servem. Os espiões vivos que são os que conseguem voltar com as informações para seu soberano.

Em outro front de batalha, o capitão de Morgoth no oeste havia recebido ordens de rapidamente atrair Fingon para fora das colinas, pelos meios que lhe fossem possíveis.

Então os arautos, pegaram “Gelmir, filho de Guilin, aquele senhor de Nargothrond que haviam capturado na Bragollach, e eles o haviam cegado. E deceparam os pés e as mãos de Gelmir, acabando por decapitá-lo, à vista dos elfos” (TOLKIEN, 2011, p.241)

Este apresenta-se como um grande erro nessa batalha, pois segundo Sun tzu, um dos principais motivos pelo qual as tropas abatem o inimigo, está no fato de se sentirem enraivecidas, já que a raiva pode tornar os inimigos cerca de 10 vezes mais fortes.
Fato este que se mostra presente na batalha, já que nas colinas estava Gwindorde Nargothrond, irmão de Gelmir que em um ataque de raiva ele seus homens mataram os arautos e atacaram o corpo principal do exercito de Morgoth, fazendo com que Fingon fosse a seu auxílio com os noldor. Dessa maneira o exercito mandado por Morgoth a oeste foi dizimado, configurando uma vitória aos noldor e humanos, que continuaram avançando e atacaram os portões de Angband, porém para tal feito eles tiveram que passar por Tangorodrim. Para quem não lembra, Tangorodrim eram montanhas erguidas à frente de Angband, servindo de muralhas ao norte da terra-média.

“Por muitas portas secretas nas Thangorodrim, Morgoth permitira a investida de sua força principal, que mantinha de reserva. E Fingon foi rechaçado das muralhas com perdas enormes”( TOLKIEN,2011, p.242)

Para o Mestre Sun Tzu, Montanhas e pântanos apresentam-se como terrenos difíceis pois a deslocação é árdua e promove cansaço as tropas.  Para, além disso: “o terreno cujo acesso é apertado e sua saída tortuosa e onde uma pequena força inimiga  pode atacar a minha embora maior é cercado.”(Sun tzu,2001,p.106)

Na planície de Anfauglith, no quarto dia da guerra, teve início Nimaeth Arnoediad, as Lágrimas Incontáveis e Haldir, Senhor dos haladin, foi morto assim como a maioria dos homens de Brethil, até que chegou Turgon com seu exército, abrindo o cerco dos orcs a até chegar a Fingon e Húrin, também chegou Maedhros, vindo do leste abatendo-se sobre os orcs, então Morgoth soltou sua última força, e Angband ficou vazia. Vieram lobos, vieram balrogs, dragões eGlaurung, pai dos dragões.

 “E Glaurung avançou entre as hostes de Maedhros e Fingon, separando-as.” ( TOLKIEN,2011, p.243) A atitude de Glaurung, que sempre foi um dragão muito astuto, foi  dividir as forças do adversário, esta era uma estratégia muito usada, desde a época de Sun Tzu.

Contudo, se não fosse pela traição dos homens em que muitos dos orientais se voltaram e fugiram, com o coração cheio de mentiras e pavor, enquanto outros como os filhos de Ulfang, porém de repente passaram para o lado de Morgoth e investiram contra a retaguarda dos filhos de Fëanor.

Mais uma vez volta-se par ao ponto de desfazer as alianças dos inimigos uma estratégia essencial, fazer promessas e alianças militares promovendo uma traição em meio as fileiras adversárias, tem um grande impacto numa batalha, em que uma fuga de uma porção das tropas, faz com que se percam os ânimos, enquanto que ao mesmo tempo uma traição, leva os soldados de homens e elfos que ainda estavam do lado de Fingon, Turgon, Húrin a se sentirem perdidos momentaneamente em meio ao campo de batalha. Dessa forma a traição foi essencial para vitória de Morgoth.

Referencia:

Sun Tzu, A arte da guerra. São Paulo: Editora Martin Claret Ltda, 2001.

Tolkien, J. R. R., O Silmarillion;organizado por Christopher Tolkien. 5 ed, São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.

Autor:Patrick Queiros



Jair Bolsonaro e a Síndrome de Boromir na política

(AVISO: este texto representa apenas a minha opinião pessoal, e não a da Equipe Valinor)

Já faz alguns dias, vi a frase mais famosa do Faramir em “O Senhor dos Anéis” (a clássica sobre “não amar a espada luzente por sua agudeza, nem o guerreiro por sua glória”, mas “amar apenas o que eles defendem”) usada num meme do Bolsonaro. Achei curioso, porque, dos dois filhos de Denethor, é difícil associar o Capitão ao mais novo. Do meu ponto de vista, pensando em termos tolkienianos, o problema do candidato (um deles, ao menos) é sofrer de Síndrome de Boromir.

Reparem: Boromir não é um vilão. Pode até ser considerado um herói trágico, segundo a tradição clássica. (Não sei se Bolsonaro tem as virtudes de Boromir. Se, como diz o Senhor, a boca fala do que o coração está cheio, parece que não, mas não sou Deus pra julgar o que está no coração do cara.) O problema do Boromir está muito claro no que ele diz no texto de “O Senhor dos Anéis”, no entanto:

“A coragem precisa de força e, depois, de uma arma. Que o Anel seja vossa arma, se tem tal poder como dizeis. Tomai-o e avançai para a vitória!”

Ou, na conversa fatídica com o Frodo:

“É loucura não usá-lo, não usar o poder do Inimigo contra ele. Os indômitos, os impiedosos, apenas esses alcançarão a vitória. O que não poderia um guerreiro fazer nesta hora, um grande líder?”

E então ele começa um monólogo sobre “muralhas e armas, e a reunião de homens; e fez planos para grandes alianças e vitórias gloriosas que viriam; e derrotou Mordor, e se tornou ele próprio um grande rei, benevolente e sábio.”

A resposta do Elrond?

“Ai de nós, não. (…) O mero desejo do Anel corrompe o coração.”

Chamo a atenção de vocês para o ponto que me parece crucial: o desejo que move o Boromir é “mau”? NÃO! É perfeitamente legítimo (fora a parte em que ele, sem querer, usurpa o trono do Aragorn na cabeça dele, mas deixa pra lá…). A questão são os MEIOS. A ideia de que é possível “derrotar o mal” na base da força superior, sem levar em conta as consequências do uso dessa força, é que “corrompe o coração”.

E outra força corruptora poderosa é justamente a crença de que, estando disposto a ir até as últimas consequências para impor o “bem”, você não corre o risco de se transformar naquilo que está combatendo. É justamente o contrário: é quando você está nessa posição que você corre o maior risco imaginável.

É essa crença “boromiriana” inabalável na própria bondade e justiça que vejo no Bolsonaro e numa parcela significativa de seus apoiadores. (Uma crença que, paradoxalmente, também está presente em muitos na esquerda.) O que eu sugeriria a eles (não me perguntaram, mas como alguns são meus amigos e outros são colegas fãs de Tolkien, digo assim mesmo): duvidem mais dos seus próprios motivos antes de agir. Se vocês acham que “sabem” o que fariam quando chegassem às Sammath Naur, é porque não se olharam direito no espelho.

O paradoxo da política é esse mesmo. Com frequência, a fé excessiva na própria virtude é que produz os males. Sujeitos levemente venais, mas que têm crença menos ferrenha na capacidade de produzir o bem absoluto, às vezes causam menos estrago.

Um último ponto: acho difícil questionar o fato de que o centro de gravidade ético da obra de Tolkien é a compaixão. Poder sem compaixão é tirania. Independentemente de quem vença o atual certame, essa é a verdadeira medida da vitória.

Informações importantes sobre as novas traduções de Tolkien

Como muitos que acessam a Valinor já sabem, sou o tradutor de “A Queda de Gondolin”, que acabou de sair no Brasil, e também de “O Silmarillion” e “O Hobbit”. O uso de termos como “Orques” e “Gobelins” nessas novas traduções tem causado polêmica entre os fãs do Professor. Então, trago alguns esclarecimentos no texto abaixo, ponto por ponto. Vários deles também estão presentes neste vídeo recente do canal Tolkien Talk:

1)Lembrem-se de que as decisões sobre as traduções de Tolkien agora estão sendo tomadas não de modo individual, mas por um conselho, formado pelo gerente editorial Samuel Coto e por três tradutores: eu, Ronald Kyrmse e Gabriel Brum.

2)Todas as decisões importantes são discutidas formalmente, votadas (e às vezes desempatadas pelo Samuel, que tem a palavra final). Portanto, são decisões coletivas, não idiossincrasias individuais.

3)De modo geral, Tolkien deixou bastante claro o que se podia ou devia traduzir da nomenclatura de seus livros e o que ele queria que ficasse intacto. Boa parte disso está no texto “Nomenclatura de O Senhor dos Anéis” ou “Guia Para os Nomes de O Senhor dos Anéis”, publicado em diferentes coletâneas.

4)Os termos “Orc” e “goblin” fazem parte dessa categoria que admite tradução ou adaptação para a fonética da língua de tradução segundo o próprio Tolkien.

5)O próprio Tolkien usa a expressão francesa “des Orques” (alguns Orques) para se referir à essa espécie em suas cartas, outro sinal de que ele admitia esse tipo de adaptação fonética.

6)A orientação geral de Tolkien era: se a palavra faz parte da língua inglesa corrente, ela pode ou até deve ser traduzida ou adaptada para a língua de tradução. Foi o padrão que seguimos no caso de “Orque”, “Gobelim” e “Trol” (com um L só).

7)Imaginamos como seria se há séculos as palavras “orc” e goblin” fossem incorporadas ao português e sofressem a evolução fonética natural dentro da língua. “Orque” e “Gobelim” seriam resultados plausíveis desse processo. “Trol” perde o L duplo inexistente em português.

8)É importante lembrar também que tanto orc quanto goblin são palavras, em última instância, de origem latina, e portanto não é absurdo adaptá-las à fonética do português.

9)“Anãos” é estranho, mas ESTÁ CORRETO. Confiram bons dicionários. É um plural alternativo ao “anões”, mais comum. Ora, o plural padrão de dwarf em inglês é dwarfs, mas Tolkien preferia usar “dwarves”, o que explica nossa opção pela forma alternativa.

10)O termo hobbit NÃO MUDA, por ter sido introduzido no inglês pelo próprio Tolkien (embora haja outros usos mais antigos com sentido bem diferente).

11)Tudo o que é de origem élfica também não muda: Balrog continua sendo Balrog, Silmaril continua sendo Silmaril etc.

12)A maioria dos textos de “A Queda de Gondolin” são dos anos 1910 e 1920, uma fase “imatura” da escrita do Tolkien. São textos que soam bem estranhos e arcaicos e inglês e por isso mesmo precisam soar assim em português.

13)Por que fazer isso agora? Por que não manter os termos consagrados? A resposta é uma só: coerência. Ter uma nomenclatura para a obra toda, de cabo a rabo, que realmente leve em conta toda a lógica da nomenclatura tolkieniana conforme expressa pelo autor e conforme ela se casa com a estrutura e a história do português brasileiro. É isso que estamos buscando.

14) A visão de que o tradutor não deve aparecer na tradução é a visão tradicional. Só que ela não é a única. Aliás, há muitos teóricos que consideram a ideia de “invisibilidade do tradutor” ultrapassada. E eu concordo com eles. Um texto traduzido veio DE OUTRA LÍNGUA. De outra cultura, de outra tradição literária, que pode ser bem diferente da língua de tradução. O tradutor que deixa isso claro com honestidade na verdade melhora a experiência do leitor ao trazer pra ele, na medida do possível, essa estranheza do texto original. E outra: Tolkien — e outros autores importantes — são estranhos NA PRÓPRIA LÍNGUA DELES. Quando alguém “nem percebe que está lendo uma tradução”, na verdade está comprando gato por lebre, porque o tradutor está simplesmente reescrevendo o estilo original de um jeito que não assuste o leitor que não deseja ser desafiado.

É isso. Estamos à disposição pra outros esclarecimentos.