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Viajando na maionese de Asas e Cabelos

Michael Martinez

Novos livros de autoridade sobre a Terra-média são escassos e demandam enorme espera. Frequentemente, quando um novo livro é publicado fornecendo novas informações sobre a Terra-média, nossas queridas ideias que nutrimos por tanto tempo sofrem um sério desafio e devem ser reavaliadas.

The History of Middle-earth (HoME) caminha a passos tímidos para um nada profundo desfecho através das notas finais de Christopher Tolkien sobre “Tal-Elmar” finalizando The Peoples of Middle-earth. Seu papel no longo e meticuloso processo de organizar e publicar as anotações e manuscritos de seu pai termina de forma silenciosa. Tantas questões permanecem sem resposta no 12º volume da HoME que muitas pessoas expressam uma enorme frustração com este trabalho. “Isso é tudo que há para se falar sobre a Terra-média?”, perguntam elas.

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Os comerciantes da Terra-média

De vez em quando alguém pergunta que moeda era usada na Terra-média. É difícil de encontrar evidência de moeda (dinheiro) em O Senhor dos Anéis, mas existem sim algumas referências sobre isso. Quando Gandalf chegou à Vila dos Hobbits com uma carroça com fogos de artifício para o último aniversário de Bilbo e Frodo juntos, crianças hobbits o seguiram até Bolsão esperando por uma apresentação do mago. Ao invés disto, Bilbo atira para elas alguns centavos e as manda embora. Mestre Gamgi também relata que Bilbo é esbanjador em se tratando de dinheiro enquanto fala com os amigos.

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Contos Misteriosos da Terra-média

Não ouvimos falar com freqüência sobre as histórias de fantasmas que as
pessoas deviam contar umas às outras na Terra-média. O trabalho de
Tolkien é permeado por lendas bem trabalhadas que possuem, geralmente,
de fato um embasamento (dentro do escopo de sua pseudo-história), mas
quando paramos para considerar as imensas expansões de tempo que a
pseudo-história da Terra-média cobre, devemos nos perguntar quão
artificiais essas lendas se tornaram.
 
 
 
Todos já ouviram falar da história sobre o louco
que escapa de um sanatório e quase mata um casal jovem em uma estrada
escura, deixando sua garra pendurada na porta do carro (este seria, é
claro, um carro bastante antigo). Talvez essa história deva um pouco ao
mito nórdico do deus da guerra Tyr, que colocou sua mão na boca de
Fenris, deixando o lobo arrancá-la, enquanto os Aesir acorrentavam o
lobo. Tyr deveria ser um tanto quanto louco para fazer isso.

As primeiras histórias de fantasmas da Terra-média provavelmente foram
os contos há muito tempo esquecidos que os Elfos criaram sobre os
monstros de Melkor antes de Oromë descobrir sua morada em Cuiviénen. "E,
de fato, as canções mais antigas dos Elfos, cujos ecos ainda são
lembrados no Oeste, falam sobre formas sombrias que caminhavam nas
montanhas acima de Cuiviénen, ou passavam de repente pelas estrelas, e
do Cavaleiro Negro sobre seu cavalo selvagem, que perseguia aqueles que
vagavam, para tomá-los e devorá-los."

Os primeiros Elfos
eram um tanto ingênuos, em comparação aos seus sucessores Eldarin. Eles
não sabiam nada sobre quem eram os Valar, como o mundo se tornou o que
é, ou que monstros existiam (originados das criaturas inocentes de
Yavanna, ou Maiar corrompidos que assumiram formas de terror). Nem seus
poderes de mente e corpo estavam desenvolvidos. Será que os Elfos
sabiam, antes de encontrar os Valar, como utilizar suas faculdades
subcriacionais? Seria interessante se os primeiros menestréis Élficos,
que, em eras posteriores podiam "fazer com que as coisas sobre as quais eles cantavam aparecessem em frente aos olhos daqueles que estivessem escutando",
tenham feito canções de poder, onde suas audiências veriam novamente as
terríveis e místicas formas sombrias que rastejavam em seu mundo
outrora agradável.

Oromë levou os Eldar para o Oeste, através
de um mundo assustador, grande e desconhecido, para as margens
ocidentais da Terra-média, e a partir dali a maioria dos Eldar partiu
para uma terra de luz. É difícil imaginar os Altos-Elfos de Aman
vivendo sobre os fantasmas e demônios de seu passado. Eles seguiram o
estudo de alta civilização e arte e construíram grandes cidades e
artefatos poderosos. Mas os Eldar que permaneceram na Terra-média, os
Sindar, foram deixados na escuridão (ou na fraca luz das estrelas), e
apesar de por longas eras eles não terem sido perturbados pelas
criaturas de Melkor, ainda tinham razão para conhecer o medo.

Pois os Sindar eram perturbados pelos Noegyth Nibin, os Anões
inferiores, exilados das grandes cidades dos Anões do Leste, que
encontraram seus caminhos para Beleriand. Ali, nas Terras Selvagens
antes da vinda dos Elfos, eles estabeleceram sua própria cultura, da
qual não conhecemos praticamente nada, além do fato que eles eram
reservados e rancorosos. Os Noegyth Nibin atacaram os Elfos, que
revidaram ao caçá-los, sem saber de fato que os Noegyth Nibin eram
decaídos de um estado mais alto de civilização, tomando-os por animais
ou pequenos monstros da escuridão.

Com o tempo, os Sindar se
tornaram amigos dos Anões de Nogrod e Belegost, e eles aprenderam sobre
a verdadeira natureza dos Noegyth Nibin, e os povos deixaram cada um em
paz. Mas os Sindar eram de vez em quando avisados pelos Anões do Leste
que criaturas malignas estavam se multiplicando nas terras além de Ered
Luin. Se os Sindar tivessem tido tempo para esquecer os antigos
monstros, eles eram eventualmente lembrados, quando as criaturas de
Melkor começaram a se rastejar por Beleriand, "lobos… ou criaturas que andavam em forma de lobos, e outros seres sombrios cruéis".

Os Sindar se dividiram em dois grupos: Elfos das Florestas que se
espalharam para o Norte e Oeste a partir de Doriath e os Elfos
navegantes, que moravam nas terras costeiras ocidentais e se espalharam
pelo Norte. Muitos destes Elfos viviam fora das cidades, mais
provavelmente em cidadelas ou vilarejos que nunca apareceram em nenhum
mapa. Mas estando longe dos centros de poder e sabedoria, eles estavam
menos seguros em suas casas e talvez mais propensos para se perguntar
sobre as coisas misteriosas que se rastejavam ao redor deles. Será que
estes Elfos, talvez, cantavam sobre as coisas sombrias que assombravam
Beleriand?

Após o retorno dos Noldor e o começo da Guerra das
Gemas, criaturas sombrias e terríveis teriam se tornado bem conhecidas
através de Beleriand. Imagine se um exército de goblins, vampiros e
lobisomens estivesse prestes a invadir sua terra natal e permanecer
próximo por muitos anos. Você estaria propenso a contar "histórias de
fantasmas", sabendo que os fantasmas estavam logo além da montanha? Os
contos seriam histórias reais, não lendas. As criaturas seriam inimigos
conhecidos, e não terrores maléficos misteriosos.

Não seria
até após o colapso dos grandes reinos que de fato se tornaram lenda
novamente. Homens mortais se lembrariam das histórias e passariam as
mesmas para a frente, mas a cada geração, as histórias se tornaram
menos reais. Será que Dirhavel de Arvenien entendia sobre o que estava
cantando, se ele cantou sobre o conto de Barahir e seus fora-da-lei 70
anos após os eventos terem se desenvolvido? Quantos dos Elfos que
sobreviveram à destruição dos reinos em Arvenien e Ilha de Balar eram
velhos o suficiente para se lembrar das grandes batalhas ou do passado
antigo? Mesmo Elrond, que já era antigo na época da Guerra do Anel,
teria crescido nos dias em que Húrin e Túrin eram apenas memórias dos
homens e mulheres idosas, Hador era um ancestral distante e Cuiviénen
estava há gerações além de sua experiência.

Quão reais os
contos do Lobo-Sauron e Drauglin, pai dos lobisomens, e Thuringwethil,
a mensageira de Sauron em forma de morcego, e Gorlim, o fantasma
infeliz, teriam parecido às gerações de Homens e Elfos que cresceram no
início da Segunda Era? Seu mundo havia mudado. A maior parte de
Beleriand havia sumido. Os grandes reis, que lideraram os Elfos e Edain
na guerra contra Morgoth estavam todos mortos. Os Edain do Oeste
navegaram para construir uma grande civilização e os Edain do Leste
retrocederam às planícies e bosques onde eles lentamente esqueceram que
uma vez alguns de seu povo partiram para o outro lado das montanhas.

E ainda após Sauron ter começado a tumultuar novamente na Segunda Era,
reunindo mais uma vez criaturas maléficas sob seu controle, como
evidência do retorno do mal que se movia através das Terras Élficas, os
Homens devem ter apagado as antigas lendas sobre lobisomens, vampiros,
Orcs e demônios, e recontaram como havia uma vez um senhor do escuro
contra quem somente alguns Elfos e Homens se defenderam valentemente.

E ainda o mal, conseqüentemente, adquiriu um aspecto mais claro, e a
Guerra dos Elfos e Sauron trouxe um fim a muitos reinos Élficos e
Humanos, e muitos séculos de combate existiriam subseqüentemente. A
Segunda Era deve ter originado novas lendas de terror, principalmente
quando os Nazgûl apareceram na Terra-média, mas também pode ser, como
na Primeira Era, que a Segunda Era tenha trazido o mal para muito perto
de casa para as pessoas desenvolverem uma estranha fascinação por ele.
Somente sonhamos com vampiros e lobisomens quando sabemos que eles não
são reais e não podem nos machucar.

Mas a guerra final da
Segunda Era contribuiu para a fundação de uma das maiores lendas de
terror na Terceira Era. Isildur convocou um povo das montanhas para
marchar contra Sauron, e eles recusaram, uma vez que eles outrora
adoravam Sauron como um deus. A esses homens sem fé, Isildur condenou a
desaparecerem como um povo. Eles definharam e morreram, perdidos e
sozinhos nas terras altas, condenados a assombrar suas terras antigas
até o dia em que eles pudessem redimir seus juramentos para um Herdeiro
de Isildur.

O audacioso povo das montanhas de Gondor vivia ao
lado dos Mortos do Templo da Colina, e deve-se imaginar se eles não
passaram longas noites de inverno trocando contos de viajantes
imprudentes que se perderam nos caminhos dos Mortos, ou que encontraram
uma reunião de fantasmas à grande pedra de Erech em tempos
problemáticos. Ninguém sabe como a dama Élfica Nimrodel se perdeu nas
montanhas, mas será que o povo local a adotou como uma vítima de suas
lendas? Será que eles a imaginavam perdida e assustada, possuída pelos
antigos fantasmas?

Os caminhos dos Mortos eram famosos
através das terras dos Dúnedain, ao que parece. Malbeth, o vidente, que
vivia em Arnor, previu que um dia um Herdeiro de Isildur caminharia
naqueles caminhos e acordaria os Mortos. Séculos depois, quando os
Rohirrim se estabeleceram em Calenardhon e Brego, seu segundo rei,
terminou a construção do salão de Meduseld, ele e seus filhos passaram
pelas montanhas e encontraram um homem idoso sentado na entrada do
caminho dos Mortos.

"O caminho está fechado", ele disse a eles. "O
caminho está fechado. Foi feito por aqueles que estão Mortos, e os
Mortos o guardam, até a hora chegar. O caminho está fechado."
E
então ele morreu, e o príncipe Baldor resolveu entrar no caminho dos
Mortos e ver por si mesmo que segredos existiam ali. Ele nunca
retornou, e toda Rohan se questionou sobre o que se tornou dele.

Provavelmente os ossos que Aragorn encontrou dentro da passagem eram de Baldor: "Diante
dele estavam os ossos de um homem forte. Estivera vestido de malha
metálica, e sua armadura jazia ainda inteira, pois o ar da caverna era
seco como pó; sua cota era dourada. O cinto era de ouro e granadas, e
rico em ouro era o elmo sobre os ossos de sua cabeça, caída com o rosto
contra o chão. O homem tombara perto da parede oposta da caverna, pelo
que se podia presumir, e diante dele havia uma porta de pedra
hermeticamente fechada: os ossos de seus dedos ainda agarravam as
fendas. Uma espada quebrada e chanfrada jazia ao seu lado, como se ele
tivesse golpeado a rocha em seu último desespero"
.

O que
poderia ter acontecido dentro daquela caverna escura e solitária é que
um dos mais bravos guerreiros de Rohan teria ficado louco e rachado a
rocha em desespero? Ele deve ter sido atacado por um exército dos
Mortos, e procurando uma maneira de escapar e se desviou. Ou talvez ele
meramente sucumbiu ao medo e temor, estremecido a sua própria alma, e
irracionalmente, fugiu impetuosamente na escuridão até não poder mais
encontrar seu caminho, e lentamente, tristemente, passou seus últimos
dias ou horas em vão, procurando admissão em algum refúgio de natureza
duvidosa.

Os Mortos do Templo da Colina não eram as únicas
assombrações a habitar a Terra-média na Terceira Era. Os Nazgûl
surgiram de Mordor no ano 2000 e sitiaram a cidade montanhosa de Minas
Ithil. Após 2 anos eles tomaram a cidade e a transformaram em um lugar
de terror existente, e dizia-se que era a residência de fantasmas e
outros monstros. Até mesmo os Orcs que estavam posicionados ali estavam
enervados pelas criaturas terríveis com as quais os Nazgûl haviam
ocupado a cidade. Todas as terras vizinhas se tornaram desertas,
conforme as pessoas fugiam para o outro lado do Anduin, e com o tempo
somente as pessoas mais audaciosas de Gondor ousavam viver em Ithilien,
que uma vez havia sido uma terra muito agradável e bela.

Os
Nazgûl eram especialmente bons em acabar com as vizinhanças. Séculos
antes o Senhor dos Nazgûl havia rumado para o Norte para estabelecer o
reino de Angmar. Homens serviam a ele, mas também Orcs, Trolls, e
outras criaturas, incluindo espectros. Ele ensinou ou encorajou o povo
das colinas de Rhudaur a praticar feitiçaria, principalmente
necromancia, e na guerra com Cardolan e Arthedain no ano 1409, o Senhor
dos Nazgûl enviou espectros para habitar os antigos túmulos em Tyrn
Gorthad, próxima a Bri. Estes espíritos se tornaram as Criaturas
Tumulares. Eles animaram antigos ossos e ocuparam a terra com pavor e
medo. Seu poder era tão grande que, muitas gerações depois, os esforços
do Rei Araval para recolonizar Cardolan falharam, porque as pessoas não
poderiam viver perto de Tyrn Gorthad.

Quando os últimos
remanescentes do Reino do Norte foram arruinados, criaturas maléficas
ocuparam sua última capital, Fornost Erain, apesar de que depois de
apenas alguns meses elas foram destruídas ou expulsas por um grande
exército de Gondor e Lindon. Muito da terra estava limpa quando a
própria Angmar foi destruída, mas as Criaturas tumulares permaneceram,
e os Homens de Bri ficaram amedrontados em relação às ruínas de Fornost
Erain, conseqüentemente, denominando-as de Dique dos Mortos, porque
eles apenas podiam se lembrar do terror que brevemente havia governado
ali.

Arnor estava quase esvaziada de pessoas, e ruínas foram
deixadas por todos os lugares: Annúminas, Fornost, Tyrn Gorthad, as
colinas de Rhudaur, Topo do Vento. Tharbad, a última cidade de Arnor,
declinou e se tornou uma cidade ribeirinha, e conseqüentemente foi
abandonada após ter sido destruída por severas inundações. Quase toda
Eriador era uma terra vazia e desolada, com cidades esquecidas e
túmulos assombrados.

É um pouco estranho que os Hobbits que
partiram do Condado em 3018 não eram muito mais amedrontados em relação
ao mundo ao redor deles. Eles tinham lendas sobre a Floresta Velha, que
ficava nas fronteiras da Terra dos Buques, uma terra estranha onde as
árvores podiam se mover conforme queriam e que abrigavam um antigo ódio
pelos seres que caminhavam em duas pernas. Tolkien observa que "mesmo
no Condado, o rumor sobre as Criaturas Tumulares das Colinas dos
Túmulos além da Floresta foi ouvido. Mas não era um conto que qualquer
Hobbit gostaria de ouvir, mesmo em frente a uma confortável lareira bem
longe de tudo isso".

Mas Frodo e seus amigos não sabiam
nada sobre os terrores que existiam além das Colinas dos Túmulos e suas
criaturas, ou as lendas que ainda assombravam as terras, apesar das
criaturas que geraram terror aos contos terem desaparecido há muito
tempo. Se eles tivessem ido em busca de antigas histórias de fantasmas,
ao invés de buscar uma maneira de destruir o Um Anel, eles teriam
encontrado lendas suficientes para encher um livro. Havia o velho
monstro vivendo no alto das montanhas sobre Minas Morgul, as estranhas
e agourentas árvores da Floresta de Fangorn, o escuro e repugnante
Guardião na Água, o espírito de fogo e sombras que assombrava as
cavernas perdidas de Moria, a fria e cruel Caradhras, e coisas escuras
voadoras que bloqueavam as estrelas à noite, e os próprios Nazgûl.

A pobre e perdida Eregion se tornou a morada de lobos enfeitiçados e
tropas ameaçadoras de Crebain, e a terra esqueceu que uma vez fora lar
a um povo Élfico que ousara mexer com a força do Tempo na própria
Terra-média. Mas quando tudo estava feito e o Senhor dos Anéis
destruído, os Hobbits e seus aliados foram mais uma vez lembrados de
todos os grandes e antigos temores, e eles devem ter passado muitas
noites felizes trocando contos em frente à lareira, mantendo vivas as
estórias de fantasmas da Terra-média.

[tradução: Helena "Aredhel" Felts]

Eles, os Anões!

Gimli, por John Howe

Vamos falar sobre Anões. Eu imagino que a atuação que John Rhys-Davies fará de Gimli irá resultar em alguns Web sites de homenagem tanto para o autor quanto para o personagem. Neste momento eu não consigo encontrar nada útil pesquisando Anões. Oh, existem dezenas, talvez centenas de Web sites que mencionam o fato de que os Anões eram uma das raças da Terra-média, e podem citar os Apêndices de alguma maneira e reprocessar o que todo mundo com uma cópia de O Senhor dos Anéis e talvez mesmo O Silmarillion podem facilmente descobrir virando algumas poucas páginas.

 
 
 
Mas alguém realmente conhece o papel total dos Anões de Tolkien? Tolkien conhecia todo o papel? Bem, provavelmente nem o próprio Tolkien conhecia o suficiente sobre seus Anões para escrever além do que foi publicado, mas uma grande quantidade de informação veio à luz através dos anos. Vamos dar uma olhada em como a civilização dos Anões surgiu, e ver o que Tolkien nos contou, e o que nós podemos razoavelmente inferir sobre isso. Mas é importante compreender como a concepção de Tolkien sobre os Anões se desenvolveu, pois como suas idéias mudaram também mudou sua história imaginária.

A maioria das pessoas sabe que aos Anões de O Hobbit foram dados nomes retirados da mitologia nórdica de uma maneira particularmente casual. Quando Tolkien visualizou a demanda para uma continuação dessa história popular como uma oportunidade para publicar alguma coisa de sua mitologia pessoal, ele confrontou-se com a necessidade de incorporar aos nome nórdicos dos Anões em um mundo complexo que ele vinha inventando há anos.

Inicialmente Tolkien tentou explicar os nomes como uma “concessão editorial”: “Estes Anões não são como os Anões de contos mais conhecidos. A eles foram dados nomes nórdicos, é verdade; esta foi uma concessão editorial. Muitos nomes na língua própria ao período poderia ser alarmante…” [J.R.R. Tolkien, “Letters of J.R.R. Tolkien”].

De fato, Tolkien foi ligeiramente desistimulado pelo uso inicial de nomes nórdicos. A história de O Hobbit era, apesar de tudo, planejada originalmente para entreter seus filhos. Tolkien inventou muitos contos, a maioria dos quais foram perdidos por nunca terem sido escritos ou apenas começados. Mas é aparente de pelo menos três dos contos de fadas de Tolkien que ele gostava de emprestar nomes de sua mitologia linguisticamente inspirada para proporcionar alguma cor e profundidade a estas histórias.

Então, Elrond e a Queda de Gondolin se intrometem nos negócios de Bilbo com os Anões, e mais tarde existe uma referência obscura ao misterioso conflito de Thingol com uma família de Anões não relacionada ao povo de Thorin Escudo-de-Carvalho. Em Roverandom o cão de brinquedo encantado vaga através do mundo e eventualmente é trazido próximo ao litoral de Aman, o Reino Abençoado, que aparece novamente como a fantástica Terra dos Elfos visitada pelo Ferreiro em Smith of Wootton Major.

O empréstimo casual de elementos da mitologia nunca foi intencional, mas sim boa sorte ao contar histórias. Contadores de histórias frequentemente reusam as mesmas idéias, nomes, temas, e mesmo descrições para manter suas histórias movimentadas. A repetição de passagens inteiras é comum nas tradições orais onde poetas e contadores de histórias memorizam grandes sagas em pedaços e recontam os antigos contos com frases e descrições familiares que podem ou não ser usadas da mesma forma a cada nova narrativa.

Em dezembro de 1937, J.R.R. Tolkien escreveu a E.G. Selby: “Eu não aprovo muito O Hobbit por mim mesmo, preferindo minha própria mitologia [da qual ele apenas se aproxima] com sua nomenclatura consistente – Elrond, Gondolin e Esgaroth escaparam dela – e história organizada, a esta multidão de Anões saído do Voluspa nomeados como nos Eddas, Hobbits modernos e Gollums [inventados em uma hora ociosa] e runas anglo-saxãs.” [Christopher Tolkien, “The Return of the Shadow”].

Claramente quando Tolkien publicou pela primeira vez O Hobbit ele o viu como um trabalho separado, um conto que sustentava-se por si mesmo e que meramente emprestara algumas coisas, por motivo de conveniência, de uma mitologia maior e mais antiga que àquele tempo havia sido dividida apenas com a família, C.S. Lewis e outros conhecidos próximos.

Christopher Tolkien discute este assunto com alguma extensão no The Peoples of Middle-earth: “Neste, a “língua de Valle = Escandinavo [utilizada pelos Anões daquela região]” mostra claramente um obstáculo maior, talvez o obstáculo principal, para uma “autentificação” coerente ser resolvida a este tempo. Quando meu pai escreve O Hobbit ele certamente não tinha noção de os nomes em escandinavo antigo dos Anões requeririam qualquer explicação, dentro dos termos da história: aqueles eram seus nomes e aquilo era tudo que deveriam ser… mas agora este inescapável elemento Nórdico teria que ser considerado; e daquela “multidão de Anões saído do Voluspa nomeados como nos Eddas” surgiu a concepção de que os Anões tinham “nomes externos” derivados das línguas dos Homens com os quais tinham contatos…” [Christopher Tolkien, “Peoples of Middle-earth”].

Esta aparente dificuldade, tão facilmente resolvida por uma nota rapidamente rabiscada que definiu a ficção linguística que Tolkien utilizou para explicar os relacionamentos das linguagens que ele empregou em O Senhor dos Anéis, eventualmente levou Tolkien a inventar uma complexa e [para mim, pelo menos] interessante história para os Anões que originalmente ele não previra. Claro, tudo que ocorreu na Segunda e Terceira Era foi planjeado diretamente como um resultado do fato de Tolkien ter concordado em escrever uma continuação para O Hobbit, com exceção da história de Númenor. Sua queda, pelo menos, já tinha sido escrita em forma de história por Tolkien vários anos antes dele escrever O Senhor dos Anéis.

A concepção original de Tolkien sobre os Anões era radicamente diferente da raça nobre embora oh-tão-arrogante de bravos guerreiros e reis que nós encontramos em O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Em sua primeira mitologia, a “mitologia para a Inglaterra” que está contida [quase completa] no The Book of Lost Tales, os Anões eram uma raça maligna, liderados por Fangli ou Fangil [um servo de Melko, o Senhor Escuro]. Este primeiros Anões eram inimigos das fadas [Elfos] e eles lutaram uma terrível guerra contra os Eldar.

Estes primeiros Anões malignos deram vez a uma raça mais neutra, que era antiga e imortal. “Nunca vem uma criança entre eles, nem eles riem,” Tolkien escreveu no “The Nauglafring”, a primeira história na qual seus Anões tem um papel proeminente. “Eles são baixos em estatura, mas mesmo assim fortes, e suas barbas atingem até seus dedos dos pés, e as barbas dos Indrafengs são as mais longas de todas, e são divididas, e eles a prendem pelo meio quando saem andar.” [Tolkien, “The Book of Lost Tales, Part Two”].

Os Nauglath eram mestres ferreiros e cientistas nesta concepção primária. Eles negociavam livremente com Elfos, Homens e Orcs, não tendo antipatia especial por nenhuma das raças. No “The Nauglafring” o tesouro do dragão Glómund é trazido a Tinwelint, rei dos Elfos da floresta e pai de Tinuviel, e embora a princípio ele busque se desfazer do ouro amaldiçoado ele é persuadido por Ufedhin, um Gnomo que vivia entre os Nauglath, para fechar um contrato com eles para trabalharem o tesouro em uma nova coleção de maravilhas. Mas a maldição de Urin imediatamente teve efeito, e Tinwelint tào logo fez sua barganha com Ufedhin começou a suspeitar dos motivos do Gnomo.

Então Tinwelint altera os termos da barganha e mantém Ufedhin e a maior parte de seus seguidores prisioneiros enquanto os Nauglath trabalhavam em metade do tesouro. Fiéis à sua palavra os Nauglath apareçaram no tempo combinado com o tesouro retrabalhado e Tinwelint autorizou-os a trabalhar na outra metade do tesouro. Mas agora Ufedhin estava amargurado por meses de aprisionamento, e ele persuadiu os Nauglath a demandar um preço não razoável de Tinwelint para moldar o ouro em um novo tesouro. Então a maldição enlaçou os Nauglath, que demandaram sacos de ouro e prata e donzelas Élficas para irem com eles, e Tinwelint ficou enfurecido.

A história quase não lembra a reconstrução que Chistopher Tolkien publicou em O Silmarillion, e não pode ser comparada de perto com “A Ruína de Doriath”. “The Nauglafring” pertence a uma mitologia diferente, um mundo completamente diferente. E seus Anões malignos, como velhos homens impregnados pela forja e ciência e privados de contrapartes femininas em sua raça, não tinham lugar na Terra-média que tomou forma nos anos de 1930 e 1940.

Tolkien manteve algumas das idéias do relacionamento entre Tinwelint e os Nauglath, mas quando ele expandiu sua história e mundo para englobar os hobbits e seu mundo, os Anões tornaram-se uma nova raça. Eles mantiveram sua tradicional afinidade com mineração e forja, viviam sob a terra, mas agora eles se tornaram produto da intromissão bem intencionada de Aulë o Ferreiro, o impetuoso Vala que não pode esperar os Filhos de Ilúvatar despertarem.

Os filhos de Aulë, os primeiros Anões, experimentaram um breve período de consciência antes de Ilúvatar e Aulë pô-los pra dormir. Aulë então os colocou em cavernas bastante separadas através do norte do mundo, e lá dormiram até algum tempo após o acordar dos Elfos. Muitas pessoas têm especulado precisamente quando os Anões acordaram e se aventuraram no mundo. É quase certo que, uma vez que os Elfos não encontraram nenhum Anão na Grande Jornada, os Anões continuassem a dormir. Os Eldar passaram através de pelo menos duas cordilheiras de montanhas onde os Anões foram deixados por Aulë.

De acordo com o “Annals of Aman” [Christopher Tolkien, “Morgoth”s Ring”], os Anões primeiramente apareceram em Beleriand no Ano dos Valar de 1250 [cerca de 250 Anos dos Valar antes da morte das Duas Árvores, e 200 Anos dos Valar depois dos Elfos acordarem em Cuiviénen. “Grey Annals” [Tolkien, “The War of the Jewels”] concorda com o trabalho antigo mas adiciona e revisa uns poucos detalhes. Aqui os Anões possuem moradias mais antigas no leste distante do que Nogrod e Belegost, as cidades que eles construíram nas Ered Luin. E mais, no The Peoples of Middle-earth o ensaio “of Dwarves and Men” [escrito aproximadamente ao mesmo tempo que O Senhor dos Anéis] sugere que os Vigas-largas e os Barbas-de-fogo acordaram nas Ered Luin ao norte.

Nós podemos conciliar essas contradições aparentes sugerindo que os Anões, quando acordaram, podem ter vagado pelo mundo buscando uns aos outros. Durin acordou sozinho no Monte Gundabad de acordo com o ensaio no Peoples, e os pais dos Cachos-negros e Pés-de-pedra acordaram tão ao leste dos Punhos-de-ferro e dos Barbas-duras quanto de Durin. É difícil imaginar onde este Anões foram colocados, mas se nós usarmos os mapas fornecidos no The Shaping of Middle-earth como guia, pode-se inferir que existem duas cadeias de montanhas que Tolkien não desenhou nos mapas.

A primeira cordilheira “desaparecida” seriam as Montanhas Nebulosas, localizadas a leste das Ered Luin e provavelmente ao norte a partir do mar de Helcar. A segunda cadeia “desaparecida” [sem nome] poderia estar a meio caminho entre as Montanhas Nebulosas e as Orocarni, as Montanhas do Leste. Estas montanhas não precisam ser tão extensas quanto as Montanhas Nebulosas, que Melkor supostamente ergueu para barra o caminho de Oromë quando este caçava as criaturas malignas do Senhor Escuro na Terra-média.

Alternativamente, os Punhos-de-ferro e Barbas-duras podem simplesmente ter sido colocados nas montanhas bem ao norte, e de alguma forma protegidos das Guerra dos Poderes que resultou na destruição da fortaleza de Melkor, Utumno. Seja qual for o lugar onde acordaram, se os Anões primeiramente procuraram uns aos outros, a tradição de que eles teriam mantido conclaves em Gundabad começa a fazer mais sentido. Durin acordou sozinho e vagou pelas Montanhas Nebulosas por um longo tempo, aparentemente por anos. Ele deve eventualmente ter vagado para o norte e lá, talvez, ter encotnrado seu povo.

Gundabad pode ter sido, portanto, a mais antiga cidade dos Anões na Terra-média, e como a população de Anões cresceu eles eventualmente retornaram à suas terras natais para contruir novas cidades, Durin pode ter permanecido nas terras centrais onde ele acordou, mas a certo tempo ele levou alguns Anões para o sul para fundar a cidade de Khazad-dum. Então, podemos supor que os Anões se dispersaram em algum momento por volta do Ano dos Valar de 1250, e eles teriam acordado não mais do que 100-122 Anos dos Valar antes disso [os Teleri cruzaram as Ered Luin no Ano dos Valar de 1128]. Estes Anos dos Valar eram equivalentes a aproximadamente 9.58 anos do Sol [Tolkien, “Morgoth”s Ring”, p. 58].

Vamos assumir, por questão de conveniência, que os Anões acordaram não antes do Ano dos Valar [A.V.] de 1130. Os próximos 120 Anos dos Valar seriam equivalentes a 1149.6 anos do Sol. Durin provavelmente viveu durante todo este tempo, e por isso ele foi chamado Durin, o Imortal. A vida média para um Anão, baseado na genealogia fornecida pelo O Senhor dos Anéis, parece estar por volta dos 250 anos. Os Anões parecem casar por volta do seu centésimo aniversário, então poderiam estra na 12a. geração no A.V. 1250. Se os outros pais dos Anões viveram apenas 250 anos [do Sol], os reis que lideraram a dispersão podem ter sido os 10os. de suas respectivas linhagens.

Os Anões de Belegost e Nogrod então viviam como vizinhos próximos dos Sindar por cerca de 2400 anos antes do surgimento do Sol e da Lua [em termos de anos do Sol]. Devem ter existido, no mínimo, cerca de 23-24 reis tanto em Belegost quando Nogrod durante os longos anos sob as estrelas. Durante aquele tempo os Anões estabeleceram um amizade próxima com o reino de Thingol [mas eles não se aventuravam próximo ao Mar nem visitavam o povo de Círdan no oeste de Beleriand].

A históra dos Anões Pequenos, os Noegyth Nibin, requer alguma consideração, contudo. Eles reinvidicavam estar em Beleriand antes dos Elfos chegarem. Isto pode significar que os Anões devem ter acordado antes de 1130. Os primeiros Eldar alcançaram Beleriand no A.V. 1115. Os Noegyth Nibin eram párias das outras sete casas, não sendo realmente uma oitava casa mas aparentemenre seu número era insuficiente para manter uma comunidade pelo equivalente a muitas gerações [o último de sua raça morreu na Primeira Era, no ano 500 do Sol, quando Húrin matou Mîm].

Uma vez que os Elfos acordam no V.A. 1050, haviam apenas 65 V.A. [pouco mais de 600 anos do Sol] disponíveis para os Anões acordarem, se dirigirem para o Monte Gundabad, e livrarem-se dos Noegyth Nibin. As coisas ficam um pouco apertadas mesmo se supormos que os Anões acordaram logo após os Elfos. Novamente, podemos supor que os Anões acordaram antes da Grande Jornada e que começaram a procurar uns aos outros antes da Guerra dos Poderes. Isto os livraria de caminhos perigosos e locais de despertar no mínimo no V.A. 1090 [o ano em que os Valar começaram seu ataque a Melkor].

De fato, pode ser conveniente supor que os Anões acordaram durante a guerra. Então eles teriam partido sem serem notados pelos Valar, que já tinham encontrado os Quendi, e nós ganhamos um espaço razoável de 25 V.A. [cerca de 239.5 anos do Sol] antes dos Eldar entrarem em Beleriand. Naquele tempo, os primeiros párias da comunidade dos Anões devem ter sido relativamente poucos, provavelmente muito poucos para realmente estabelecerem uma comunidade, mas eles podem ter vivido em Beleriand tempo suficiente para receber outros párias.

O único desentendimento real que permanecia entre os Anões e os Elfos nos tempos antigos era a acaça acidental dos Noegyth Nibin pelos Sindar. Os Sindar não reconheceram os Anões Pequenos como colegas racionais Encarnados, e parece ter sido devido à natureza secreta e ocasionalmente hostil a estranhos, dos Noegyth Nibin. Os Elfos pararam de caçar os Noegyth Nibin quando eles encontraram os Anões de Belegost e Nogrod, mas eles aparentemenre divulgaram suas ações aos Anões, que levaram essas notícias a outros Anões. Tolkien escreveu que os Anões ficaram ofendidos pela caça aos Anões Pequenos, e este pode ter sido o antigo rancor que permanecia latente na Terceira Era [como Tolkien registrou nos Apêndices de O Senhor dos Anéis].

Através das muitas gerações os Anões de Belegost e Nogrod expandiram seus contatos com os Elfos. Eles aparentemente negociavam com os Elfos de Eriador, ou pelo menos tinham algum conhecimento deles, pois eles informaram os Sindar quando os Elfos do leste começaram a fugir para florestas mais profundas e colinas para escapar das criaturas de Melkor [primeiramente os Orcs, ao que pare ce] que começavam a se espalhar pela Terra-média.

Tolkien menciona dois outros fatos sobre estes primeiros Anões que raramente são discutidos. O primeiro é o fato de que os primeiros Anões, antes do contato com os Sindar, se especializaram em trabalhar com ferro e cobre e preferiam trabalhar com pedra do que madeira. Mas eles não eram artísticos e muito funcionais em seus designs arquiteturais e ao fazer ferramentas e armas. Tolkien registra que os Anões foram profundamente influenciados por sua associação com os Elfos, adquirindo influências artísticas a partir deles.

O outro fato é que os Anões lutavam entre si. Ainda que a natureza dessas rixas ou guerras nunca seja discutida, pode ser que se existiu uma primeira comunidade de Anões ela pode ter se dispersado não apenas devido à pressão populacional mas também, talvez, me parte devido a disputas entre as várias casas. Como a população de Anões crescia, comida seria mais e mais díficil de conseguir [exceto através de comércio com os Elfos] a menos que os Anões cultivassem a própria comida, e o ensaio “Dwarves and Men” diz que eles preferiam não cultivar se pudessem evitar. E mais, como a população dos Anões aumentou, eles poderiam ter desenvolvido uma sofisticação maior em governar a si mesmos, e então facções rivais podem ter aparecido.

Isto é, claro, completamente especulativo, mas parece evidente que Tolkien anteviu algumas interações próximas entre os primeiros Anões que eventualmente foi subistituída por relações mais distantes e frias. Durin, o Imortal, parece ter sido grandemente reverenciado por todos os Anões como o mais antigo da raça e o de mais longa vida. Ele poderia ter possuído uma considerável presença entre os primeiros reis após os outros pais terem morrido. O Povo de Durin, os Barbalongas, não descendiam diretamente dele – não nas primeiras gerações. Ao contrário dos outros pais, Durin não teve uma parceira criada por Aulë. Então ele teve que encontrar uma esposa entre as filhas ou netas de outros pais. E seu povo foi originalmente recrutado de outras casas tanbém. Os Barbalongas podem ter sido, portanto, o grupo mais cosmopolita e objetivo de Anões quando as variações de costumens e preferências começaram a aparecer entre eles.

A presença de Durin entre os primeiros Anões traz a questão de quando eles realmente começaram a fundar cidades. A ele é creditada a fundação de Khazad-dum, que recebe a distinção [entre as outras cidades de Anões] de ter sido a única nomeada para a inteira raça dos Anões [“Khazad-dum” = “mansão dos Anões”]. Pode ser incorreto supor que Gundabad serviu de moradia para os Anões por muito tempo. Durin pode ter levado o povo Anão para o sul para Khazad-dum, e embora ele tenha sido chamado Imortal devido à sua longa sobrevida aos outros pais dos Anões, chegou o dia em que ele morreu.

Suponha que aquele evento crítico que levou à dispersão dos Anões através da Terra-média foi a morte de Durin? Se ele tivesse sido a cola ligando-os em uma tradição única, e se seu número crescente tivesse gradualmente dificultado suas habilidade de susteram a si próprios, então o sucessor de Durin e seus reis seguidores podem ter decidido que o tempo de uma mudança na sociedade dos Anões era chegado. Ao contrário de todos os Anões viverem juntos, as outras seis casas partiram de Khazad-dum e retornaram às terras onde seus antepassados acordaram.

Então, os Vigas-largas e os Barbas-de-fogo viajaram para o oeste seguindo os passos dos Eldar e fixaram nas Ered Luin. Eles construíram as cidades de Belegost e Nogrod e, olhando para o oeste, vagaram em Beleriand para ver como era a nova vizinhança.

Pelo equivalente aos próximos 3000 anos [do Sol] os Anões do oeste participaram da história dos Eldar, até o final da Primeira Era do Sol. Então o mundo mudou para todos.

Ele deverá ser como uma árvore plantada ao longo de rios de água

As árvores da Terra Média revelam o profundo amor de Tolkien pelos graciosos gigantes da natureza. Mas apesar de os Ents defenderem a causa das árvores num mundo de lenhadores de duas pernas, eles parecem ter revelado um pouco mais sobre eles. Devemos aumentar as palavras de Tolkien com nossas imaginações, uma vez que estamos prestes a contemplar todas as árvores dos silenciosos e selvagens bosques.
 

Como os Ents foram parar na Floresta Fangorn? Como, e quando, eles fizeram a jornada através da Terra Média para o extremo sul das Montanhas Cinzentas? E por que eles se moveram por todo esse caminho até lá? Fangorn conta a Merry e Pippin que ele uma vez vagou pelos prados de salgueiro de Tasarinan. Prados de salgueiro é uma expressão curiosa, uma vez que árvores não crescem em prados. Porém, Tolkien adorava espalhar salgueiros por toda a Terra Média, ao longo de rios e lagos. E salgueiros realmente crescem junto de rios e lagos.

O salgueiro há muito tempo tem sido usado como um símbolo de arrependimento e amor perdido na literatura Inglesa. Quando Fangorn conta sobre sua juventude em Beleriand, ele começa com os prados de salgueiro de Tasarinan (Nan-Tathren no mapa de Beleriand, uma região entre as fozes do Sirion e seus Portões, para o sul de Doriath). Quando Frodo e Sam vagam por Mordor e estão com sede, Sam pensa melancolicamente, onde eles pararam em sua jornada, em salgueiros ao lado de rios. E quando Théoden conduz os Cavaleiros de Rohan fora de Harrowdale, eles passam por salgueiros ao longo do Riacho de Neve..
A mais poética descrição de salgueiros na Terra Média é provavelmente a descrição de Voronwë, de Nan-Tathren, para Tuor em “De Tuor e sua chegada a Gondolin”:

…Naquela terra o Narog se une ao Sirion, e os dois não mais se apressam, mas seguem largos e silenciosos através de prados cheios de vida; e em toda a volta do rio reluzente há lírios como um bosque em flor, e a relva é repleta de flores, como pedras preciosas, como sinos, como chamas de vermelho e ouro, como uma extensão de estrelas multicoloridas em um firmamento verde. Porém o mais belo de tudo são os salgueiros de Nan-Tathren, de um verde-pálido, ou prateados ao vento, e o farfalhar de suas inúmeras folhas é um encanto de música: o dia e a noite passavam palpitando, sem conta, enquanto eu ainda me detinha, submerso em relva até os joelhos, a escutar. Lá fui encantado, e esqueci o Mar em meu coração…

Apesar de toda sua beleza e felicidade, no entanto, Nan-Tathren parece nunca ter atraído uma população élfica permanente. Tuor e Idril conduziram os exilados de Gondolin para a região e permanecerem ali por um tempo, realizando banquetes e fazendo canções de arrependimento e mágoa por Gondolin, e para lembrar a coragem de Glorfindel. Mas eles não continuaram por muito tempo na região.

A canção de Fangorn para os Hobbits fala que ele ficaria em Nan-Tathren (Tasarinan – ele preferia usar Quenya) na primavera, e dali passar ao leste para Ossiriand, para vagar pelos bosques de olmo. No outono ele vagaria em Neldoreth, uma das florestas de Doriath, e dali passaria ao norte para Dorthonion no inverno.

É fácil inferir que os Ents rodearam Beleriand durante a Primeira Era, mas também deve-se perguntar como ou quando. Doriath era supostamente impenetrável, porém os Sindar podiam passar livremente para dentro e fora. Talvez Melian, sabendo quem e o que os Ents eram, permitiram que eles passassem livremente. Mas a antiga canção dos Ents não deve realmente retratar um modelo ou rota que qualquer Ent deve ter vagado em Dorthonion depois da Dagor Bragollach, quando Sauron conduziu um exército de Angband até a região mencionada.

Em todas as probabilidades, os Ents devem ter se retirado para Ossiriand. Ali, aliados com os elfos verdes e talvez com alguns dos feänorianos, eles teriam ajudado a manter a região livre do poder de Morgoth. Os Ents estavam, desta maneira, disponíveis a ajudar a destruir o exército de Nogrod quando retornou de Doriath, embora a estória da destruição de Doriath nunca foi totalmente desenvolvida para o Silmarillion. Por que os Entes deveriam ajudar a destruir um exército de anões? Tolkien não dá nenhuma resposta, apesar de que pode-se supor que no saque de Doriath muitas árvores teriam sido destruídas, acordando a raiva dos Ents.

Ossiriand teria se tornado populosa com antecedência na Segunda Era, no entanto. Não somente moravam os elfos verdes ali, como também os Sindar e Noldor, e por um tempo alguns dos Edain moraram na região. Os Ents devem ter se retirado para o leste do outro lado das montanhas para Eriador a fim de encontrar um pouco de paz. É claro, havia alguns Sindar que os haviam precedido, mas já havia muitos elfos Nandorin e Homens também.

Fangorn fala de um tempo onde uma enorme floresta se estendeu a partir das Montanhas Sombrias para as Montanhas Azuis (Ered Luin): “… Aqueles foram dias grandiosos! Houve um tempo em que eu podia caminhar e cantar o dia todo e escutar apenas o eco de minha própria voz nas concavidades das colinas. As florestas eram como a floresta de Lothlórien, apenas mais densas, mais fortes, mais jovens. E o aroma de ar! Eu costumava passar uma semana só respirando.

Os Ents parecem ter gostado de sua privacidade, de seu tempo quieto nos bosques. Então eles naturalmente evitaram o abarrotamento da civilização. Até os Elfos eram grandes construtores de cidades, e os marinheiros de Círdan eram lenhadores que necessitavam de madeira para seus navios. Especialmente os Ents não estavam muito contentes com os Falathrim ou quaisquer Elfos que usavam madeira extensivamente.

Por outro lado, as Entesposas eram muito organizadas, e até certo ponto em suas andanças, elas se dispersaram dos Ents. É impossível dizer quando a separação dos Ents e das Entesposas começou, mas é bem possível que tenha começado depois dos Ents terem se estabelecido nos bosques que se tornaram a Floresta Fangorn. E quando os Ents se estabeleceram nesse local? Provavelmente por volta desta época os Sindar estavam migrando em direção ao leste e estabelecendo reinos nos Vales do Anduin. “Os limites de Lórien” (Apêndice C de “A História de Galadriel e Celeborn” em Contos Inacabados) conta que “Pois a lenda relatava que o próprio Fangorn se encontrara com o Rei dos Galadhrim em dias antigos, e Fangorn dissera: – Conheço o meu, e você conhece o seu; que nenhum dos lados moleste o que é do outro. Mas se um elfo desejar caminhar na minha terra por prazer, será bem vindo; e se um ent for avistado na sua terra não tema nenhum mal.

Por que havia necessidade de Fangorn estabelecer limites sobre os Elfos, e dividir as terras? A resposta deve ser que os Ents vivenciaram certo atrito até mesmo com os Elfos, e esse atrito deveu-se ao uso de árvores. Os Elfos de Lórien usavam as árvores assim como a maior parte das pessoas as utiliza: eles constroem casas, móveis e barcos.
Os Ents devem ter percebido que até certo ponto não podiam mais contes os Elfos e Homens em Eriador, então eles retiraram-se para os bosques ao sul e estabeleceram um acordo aonde as árvores poderiam crescer livres e selvagens.

Mas Fangorn também conta a Merry e Pippin que havia lugares na floresta onde as árvores eram antigas, algumas até mais velhas que ele, e a sombra nunca aterrisou sobre elas. A sombra, ou escuridão, a qual ele se refere parece ser de Morgoth e não Sauron. Fangorn fala de um tempo onde os Elfos começaram a fugir para o Mar. Isso só pode se referir ao período após a Guerra dos Elfos e Sauros. Mas desde que ele próprio vagou por Beleriand, e relembrou de Tasarinan, ele era mais velho que a guerra. Portanto, as árvores que eram mais velhas que ele estiveram vivas por séculos, talvez milênios, antes que Sauron invadisse Eriador.

Também, se os Ents estiveram presentes em Eriador quando Sauron queimou as florestas, eles deveriam relembrar a catástrofe e se opor a Sauron diretamente. Ao invés disso, Fangorn somente sabe que as florestas foram destruídas. Ele e seu povo parecem ter estado habitando próximos ao fim das Montanhas Sombrias quando Sauron invadiu Eriador. Então a migração Ent ocorreu primariamente à Guerra dos Elfos e Sauron, e dessa forma parece lógico que os Ents procuraram uma terra onde eles poderiam obter algum benefício (dissipando a escuridão antiga das árvores ou evitando que as árvores más machucassem inocentes e espalhassem o mal), assim como estabelecendo um refúgio onde as árvores pudessem ser protegidas e alimentadas.

De sua parte, as Entesposas parecem ter morado próximo do extremo sul das Montanhas Sombrias dos primeiros dias. Fangorn conta a Merry e Pippin que as Entesposas cruzaram o Anduin “quando a escuridão veio para o Norte”. O evento o qual se refere só pode ser o retorno de Morgoth a Terra-Média, e o estabelecimento de Angband. O poder de Morgoth se estendeu através de toda a Terra Média, mas após os Noldor retornarem à Terra Média, ele começou a concentrar sua atenção em Beleriand. Então deve ter havido um breve período em que Morgoth encontrou os jardins das Entesposas e as ameaçou ou as importunou.

Mas a situação das Entesposas levanta uma interessante questão: o que elas estavam fazendo ali em primeiro lugar? A resposta deve ser que a Floresta Fangorn representa não apenas o último refúgio dos Ents na Terceira Era, mas também a terra de sua origem. Fangorn diz que os Elfos originalmente acordaram os Ents e os ensinou linguagem. Os elfos poderiam ter feito isso em Cuiviénen, mas Fangorn nunca menciona Cuiviénen, e Ents nunca estão associados com Cuiviénen. Também, a Grande Jornada marca o início da real expansão e curiosidade Élfica. Pode ser que alguns dos Eldar, ou talvez alguns dos Nandor, acordaram os primeiros Ents, logo que os Elfos cruzaram o Anduin.

Quando os Elfos passaram para o oeste, ou se dispersaram através de outras terras, os Entes devem ter se movido, para aprender mais sobre o mundo. As Entesposas ficaram em casa, e o eventual separatismo entre os dois sexos dos Ents começou logo cedo. Os Ents retornavam para as Entesposas de tempos em tempos, mas os dois grupos gradualmente foram à deriva. Finalmente, as Entesposas cruzaram o Anduin. A passagem deve ter sido facilmente alcançada nos vaus, e as Entesposas se estabeleceram nas terras ao sul da Floresta das Trevas, e então a leste de sua floresta original. Elas deviam estar próximas dos Elfos e dos Homens, mas elas poderiam ter permanecido relativamente intactas.

Na Segunda Era, como os Ents se retiraram para o leste de sua antiga morada, eles acharam antigos bosques infectados pelos mal e que as Entesposas haviam partido. Mas eles continuaram tendo contato com as Entesposas durante um tempo. A separação final deve ter sido o resultado final de Guerra dos Elfos e Sauron. Os Ents observaram enquanto o mundo revolvia-se em tumultos ao redor deles. Pois Sauron não apenas invadiu Eriador, ele mandou exércitos de Mordor para marchar ao norte para destruir as pessoas Edaínicas das Terras Selvagens, assim como quaisquer reinos Élficos que pudessem alcançar. Provavelmente, os Ents permaneceram na Floresta Fangorn pelo resto da Segunda Era. Eles prestaram pouca atenção quando a Última Aliança dos Elfos e Homens marchou ao sul contra Mordor. Mas um dia Fangorn decidiu visitar seu antigo amor Fimbrethil, e passando ao leste através dos Vaus ele chegou a uma terra devastada pela guerra. As Entesposas haviam partido, e seus jardins haviam sido destruídos.

E então começou uma aventura que deve ter durado mil anos. De vez em quando os Ents arriscavam-se para adiante e perguntavam às pessoas se haviam visto as Entesposas. Certamente, os Ents nunca encontraram as Entesposas. Quando questionado sobre elas por um leitor, Tolkien respondeu:

Eu acredito que de fato as Entesposas desapareceram pelo bem, sendo destruídas com seus jardins na Guerra da Última Aliança (Segunda Era 3429-3441), quando Sauron lutou por uma política de terra seca e queimou a terra delas contra o avanço dos Aliados abaixo do Anduin (vol.II p.79 refere-se a isso). Elas sobreviveram somente na “agricultura” transmitida aos Homens (e Hobbits). Algumas, é claro, devem ter escapado para o leste, ou até se tornado escravizadas: tiranos mesmo em tais contos devem ter um fundo econômico e agricultural para seus soldados e metalúrgicos. Se alguma então sobreviveu, elas estariam bem diferentes dos Ents, e alguma reaproximação seria difícil – a não ser que a experiência da agricultura militarizada e industrializada tenha as tornado um pouco mais anárquicas. Eu espero que sim. Eu não sei. (Letter 144)

A procura dos Ents pelas Entesposas inspirou muitas músicas e canções, e até mesmo Aragorn parecia saber algo da longa procura dos Ents, pois ele disse a Fangorn que novas terras seriam abertas a ele. Fangorn naquela altura tinha pouca esperança de encontrar sua amada Fimbrethil novamente, e ele pode nunca ter deixado seus bosques na Quarta Era. Os Ents parecem se contentar em permanecer no bosque selvagem, e vigiar Orthanc, para assegurar que o mal nunca retornará àquela região.

Naturalmente, as pessoas rapidamente notam que os Ents ou criaturas do tipo moravam próximos do Condado. E quando Fangorn questiona Merry e Pippin sobre sua terra, ele concluiu que seria uma terra favorável para as Entesposas. Mas não havia Entesposas no Condado, e é improvável que elas já tenham se estabelecido lá. A famosa árvore andante de Sam, que é reportada por seu primo Hal, poderia de fato ser uma árvore andando e não um Ent. As árvores da Floresta Velha podiam se mover, o que Frodo e seus companheiros aprenderam quando perderam seu caminho em meio aos bosques zangados. Mas não havia Ents na Floresta. Apenas árvores antigas como o Velho Salgueiro e outras curiosas, perigos inominados. Árvores podiam acordar por si próprias, por razões inexplicadas. Fangorn descreveu o processo para Merry e Pippin:

As árvores e os Ents – disse Barbárvore. – Eu mesmo n&ati
lde;o entendo tudo o que está acontecendo, por isso não posso lhes explicar. Alguns de nós ainda somos ents verdadeiros, e bastante vivos à nossa própria maneira, mas muitos estão ficando sonolentos, ficando arvorescos, por assim dizer. A maioria das árvores são árvores verdadeiras, é claro; mas muitas estão semi-acordadas. Outras estão bastante acordadas, e algumas estão, bem, ah, bem, ficando entescas. Isso está acontecendo o tempo todo.

Quando isso acontece a uma árvore, você descobre que algumas têm corações maus. Não tem nada a ver com a madeira: não quero dizer isso. Vejam, eu conheci alguns bons salgueiros velhos, descendo o Entágua, que se foram há muito tempo, infelizmente! Estavam bem ocos, na verdade estavam caindo aos pedaços, mas eram tranqüilos e falavam suavemente como uma folha jovem. E também há algumas árvores nos vales sob as montanhas, vendendo saúde e totalmente más. Esse tipo de coisa parece estar se espalhando. Costumava haver umas partes muito perigosas neste lugar. Ainda há alguns trechos muito negros.

Numa carta para o Daily Telegraph Tolkien explicou a diferença entre as florestas na Terra Média. Um artigo associou tristeza e escuridão com os bosques de Tolkien e ele deu exceções para a comparação:

Com referência ao Daily Telegraph de 29 de Junho, página 18, eu sinto que não é justo usar meu nome associado à tristeza e escuridão, especialmente num contexto lidando com árvores. Em todos os meus trabalhos, eu assumo a parte das árvores contra todos os seus inimigos. Lothlórien é linda porque as árvores são amadas; em outros lugares as árvores são representadas como o despertar para a consciência delas próprias. A Floresta Velha era hostil com criaturas de duas pernas devido às memórias de antigas feridas. A Floresta Fangorn era antiga e bela, mas naquele momento tenso da estória, com hostilidade porque estava ameaçada por um inimigo amante das máquinas. A Floresta das Trevas declinou diante da dominação do Poder que odiou todos os seres vivos, mas foi restaurada e se tornou a Floresta das Trevas antes do final da estória.

É difícil pensar em Beren encantado pela beleza e graça de Lúthien em uma floresta triste e escura, ou em Finrod olhando os ancestrais de Beren dormindo numa floresta esquecida, condenada e cheia de ódio. Os bosques de Doriath, Ossiriand, e até os do Condado são amistosos e locais abertos. Seus habitantes devem ser insulares e protetores de suas terras e vidas, mas eles não são possuídos pela malícia. A Floresta Velha e a Floresta Fangorn herdaram alguns toques do mal dos dias de Morgoth. Mas ao passo que os Ents retornaram a Fangorn para purificar ou vigiar seus bosques ancestrais, a Floresta Velha foi roendo a si mesma com malícia, pelo menos até que Tom Bombadil decidiu se estabelecer por ali. Gandalf observou no Conselho de Elrond que Bombadil havia se “retirado para uma região pequena, dentro de limites que ele mesmo fixou, embora ninguém consiga enxerga-los, talvez esperando uma mudança dos dias, e não sai dali.” Bombadil contou a Frodo e seus companheiros que ele, Bombadil, nunca poderia sair de sua terra, pois ele deveria vigia-la. O mal da Floresta Velha e das Colinas dos Túmulos havia se tornado tão grande que Bombadil se sentia obrigado a checa-la constantemente.

Mas apesar de que as Colinas dos Túmulos terem sido mandadas para infestar os antigos montes dos Dunedain por ambos Sauron ou o Senhor dos Nazgul, por que a Floresta Velha se tornou escura e ameaçadora? Tolkien notifica que os bosques mantinham “a memória de muitas feridas”. O que eram essas feridas? Nós podemos apenas ter certeza de algumas. A queimada das florestas de Eriador por Sauron deve ter começado o vagaroso processo. De algum modo, poucos lugares como A Floresta Velha e Eryn Vorn sobreviveram à destruição provocada pela guerra. Mas ao passo que alguns dos Gwathuirim (homens relacionados ao Dunlendings e os Homens de Brethil em Beleriand) se retiraram a Eryn Vorn, e sem sombra de dúvida deram seu amor aos bosques como os melhores homens são capazes, nenhum homem se retirou à Floresta Velha.

Milhares de anos antes, homens se refugiaram na Floresta Velha. Na Guerra de 1409 na Terceira Era, o reino de Angmar invadiu Cardolan. Os Dunedain se retiraram para o oeste de suas casas nas Colinas do Sul. Alguns dos Dunedain resistiram nos montes de Tyrn Gorthad, mas alguns fugiram para a Floresta Velha. Ali a luta foi violenta, e talvez muitas árvores foram perdidas ou feridas. Um retiro similar deve ter ocorrido quando Angmar finalmente destruiu o reino de Arnor. Muito do povo de Arnor foi destruído, mas alguns fugiram para se esconder. A Floresta Velha pode provavelmente ter servido de refúgio. E séculos depois, os Buqueburgos cruzaram o rio Brandevin a partir do Condado e colonizaram uma faixa de terra adjacente à Floresta Velha. Os hobbits e as árvores entraram em conflito, e Merry conta que houve uma batalha de resolução. Os Hobbits queimaram muitas árvores e cresceram o feno para ser uma barreira entre sua terra e a Floresta. Mas Hobbits ainda ocasionalmente arriscam-se a entrar na Floresta Velha. Ali ainda podem acontecer alguns poucos acidentes.

Sem Ents para vigiá-la, e com Bombadil apenas checando o mal, procurando nem destruir nem domina-la, a Floresta Velha se ferveu com malícia e a “memória de muitas feridas”. Algumas das árvores se tornaram Entescas, como Fangorn diz. E sem dúvida alguma, de quando em quando, algumas delas, saiu vagando por terras selvagens. Talvez elas acharam um bom pedaço de terra e por fim se estabeleceram. Talvez elas foram destruídas por terríveis criaturas de duas pernas ou pior. Mas ainda havia uma pequena esperança de que os Ents encontrassem as Entesposas novamente, então deveria haver uma pequena esperança de uma reconciliação da Floresta Velha com as criaturas de duas pernas. Finalmente, Tom Bombadil desistiria de sua função e prosseguiria com sua vida.

Se existia algum povo que mantinha grandes esperanças de qualquer coisa relacionada às árvores, este seria os Elfos. Fangorn observa que os Ents e os Elfos cresceram à parte. Mas no final da Terceira Era e no começo da Quarta Era, a cultura Élfica era substancialmente diferente do que das Eras iniciais. As sábias civilizações Eldarin foram reduzidas a alguns encraves. Os Elfos Silvan de Floresta das Trevas eram o maior e mais poderoso grupo. E muitos dos Noldor haviam ambos se tornado nativos, para falar, como Galadriel, ou estavam apenas permanecendo na prazerosa memória dos dias passados, como o povo de Gildor. Quando Legolas e Gimli visitaram a Floresta Fangorn após a Guerra do Anel, pode ser que uma fase final de amizade e entendimento tenha começado entre os Ents e os Elfos, e até mesmo entre os Ents e os Anões.

Mas tais tréguas ou retomadas de amizades poderiam apenas ser temporárias. Não há dicas sobre o que fez-se dos Ents e das Entesposas, salvo apenas em uma canção Élfica em que Fangorn lem
brou com prazer para dividir com Merry e Pippin. A canção tentava representar a divisão do povo Entes, mas Fangorn notou que era “Élfica, é claro: alegre, com poucas palavras e curta.” Após descrever a diferença entre os Ents e as Entesposas, a canção oferecia uma esperança de reconciliação. Juntos pegaremos a estrada de leva ao Oeste, e ao longe encontraremos uma terra onde ambos nossos corações poderão descansar.

Esse Oeste só pode ser Aman, e como tal, representa uma esperança Élfica, ou melancolia. Galadriel, em sua separação com Fangorn, o avisa que eles não voltarão a se encontrar “até que as terras que estão embaixo das ondas estarão levantadas novamente”. Ela não considerava a passagem de nenhum Ent pelo Mar. E não deveria passar nenhum. Ilúvatar criou os Ents para vigiar as árvores da Terra Média. Em Aman eles não seriam necessários, apesar de que talvez seus espíritos, após morrerem, pode ter sido reunido ali por Namo. Não há realmente nada de misticismo Ent em nenhuma das discussões de Fangorn com as pessoas. Não sabemos se para eles existe uma outra vida, ou preocupações espirituais. Mas eles eram encarnados racionais, como Tolkien mesmo colocou, e eles entendiam o arrependimento, a perda e até mesmo a esperança. Então talvez, quando Elrond, Galadriel, Gildor, Frodo, Bilbo e Gandalf rumaram para o Mar no fim da Terceira Era, no momento em Sam, Merry e Pippin observaram eles desaparecem na distância na Estrada para os Portos Cinzentos, havia olhos antigos vigiando a partir das árvores, dando silenciosas despedidas às antigas amizades e vínculos.

E talvez, apenas talvez, os Elfos e os Hobbits plantaram salgueiros em Lindon e no Condado, ao longo das margens gramadas dos rios, em memória dos antigos bosques e seus orgulhosos pastores. Até mesmo as Entesposas teriam gostado, apesar de que nada poderia ser comparado à beleza dos prados de salgueiro de Tasarinan na Primavera. A vanimar, vanimalion nostari. Namarie!


Tradução de Helena ´Aredhel´ Felts

Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português

Amor nas árvores – Um Ensaio sobre Tom Bombadil e Ents

Tom Bombadil e os Ents se enterraram em pequenos nichos, e parece impossível desenterrá-los para uma nova discussão. Devemos tentar mudar isso. A questão mais comum acerca de Bombadil é “Por quê o Anel não o afeta?”. Na verdade, essa questão deveria ser: “Por quê Bombadil não queria o Anel?”. Há uma diferença. Acredito que o Anel afetou o velho Tom, pelo menos a ponto de ter atiçado sua curiosidade e o interessado por tempo suficiente para o satisfazer a si mesmo, considerando se ele ainda era seu próprio mestre.

Quanto aos Ents, praticamente o que todos sempre perguntam é: “Os Ents encontraram as Estesposas?”. E deve ser notado que Tolkien providenciou respostas para ambas as questões. Seus leitores estavam tão intrigados com Bombadil e os Ents que eles indagaram essas questões mais de uma vez. E, no entanto, agora eu percebo que todos perdemos algo importante relacionado ao Tom Bombadil e aos Ents. Eu acho que, talvez, até mesmo Tolkien perdeu.

Ao discutir a importância simbólica de Bombadil, Tolkien escreveu para Naomi Mitcheson na Letter 144:

“Bombadil não é uma pessoa importante – para a narrativa. Eu suponho que ele tenha alguma importância como um “comentário”. Quero dizer, eu não escrevi exatamente daquele jeito: ele é apenas uma invenção (que apareceu primeiramente na Oxford Magazine em 1933), e ele representa algo que sinto ser importante, apesar de que eu não estaria preparado para analisar tal sentimento precisamente. Eu, no entanto, não o manteria, se ele não tivesse algum tipo de função. Posso colocar desta forma. A estória é lançada em termos de um lado bom e mau, beleza contra a feiúra implacável, tirania contra reinado, liberdade moderada com consentimento contra a compulsão que há muito perdera qualquer objetivo a não ser mero poder, e por aí vai; mas ambos os lados em algum grau, conservativo ou destrutivo, querem uma medida de controle. Mas se você tem o controle renunciado, como se fosse tomado um “voto de miséria”, e você se deleita em coisas para o povo sem referência para si próprio, e até certo ponto tendo consciência disso, então a questão dos certos e errados do poder e controle podem se tornar completamente insignificantes para você, e os meios do poder um tanto sem valor. É uma visão pacifista natural, que sempre surge em mente quando há uma guerra. Mas a visão de Valfenda parece ser que há algo excelente a ser representado, mas há, de fato, coisas impossíveis de se arcar; e sobre quais sua existência, no entanto, depende. No fundo, somente a vitória do Oeste permitirá que Bombadil continue, ou mesmo sobreviva. Nada seria deixado para ele no mundo de Sauron.”

“Ele não tem nenhuma conexão na minha mente com as Entesposas. O que acontecera a elas não está resolvido neste livro. Ele é, de certa forma, uma resposta a elas, no sentido que ele é quase o oposto, sendo como Botânica e Zoologia (como ciências) e Poesia, que são opostas à Pecuária e Agricultura e Praticidade”.

Mitcheson leu as páginas-prova para o Senhor dos Anéis antes do livro ser publicado. Ela foi literalmente a primeira dos fãs de Tolkien a perguntar a ele questões sobre a estória e seus personagens. Suas questões (e as respostas de Tolkien) se estenderam através de um amplo espectro de temas. Mas a parte desta carta, que é freqüentemente citada por leitores modernos é a que eu providenciei acima. O breve comentário de Tolkien sobre a importância simbólica de Bombadil gera raivosos infernos relacionados à importância global de Bombadil para o livro.

E, no entanto, ninguém parece perguntar a única questão que seria a mais fácil de responder: Bombadil era feliz no casamento com Fruta D’Ouro? Agora tenho certeza que a maioria das pessoas diriam de imediato “ABSOLUTAMENTE!”. Qual homem não gostaria de ter uma esposa como Fruta D’Ouro? E qual mulher não gostaria de ter um marido como Bombadil? Bem, ok, talvez ele tenha ficado com a melhor parte do trato. E, no entanto, o casamento de Bombadil com Fruta D’Ouro toca em muitas questões que atiçaram o interesse dos leitores ao longo dos anos.

Por exemplo, uma crítica freqüentemente levantada na estória é a de que é um conto de garotos, cheio de caras indo para aventuras, lutando contra monstros terríveis e deixando as garotas em casa. E, no entanto, a aventura de Bombadil se comporta, em parte, dessa forma. Enquanto é verdadeiro que Fruta D’Ouro não encara o Velho Salgueiro-Homem ou a Criatura Tumular, ela, de fato, exerce sua vontade sobre algo mais aterrorizante e poderoso: Bombadil. E antes que você ridicularize isso, pense quem você preferiria enfrentar num duelo: Bombadil, que cospe Criaturas Tumulares antes do café da manhã ou a repugnante Criatura Tumular que não pode prevenir Frodo de chamar Bombadil? Eu escolheria a Criatura de qualquer jeito. Pelo menos eu teria chance de chamar por ajuda.

A única criatura que controla Bombadil, além dele próprio, é Fruta D’Ouro. Ele pertence a ela completamente. Quando Elrond sugere que talvez ele devesse ter chamado Bombadil para seu conselho em Valfenda, Gandalf se opõe, apontando que “Ele não teria vindo.” Ele continua, explicando seu ponto de vista sobre Bombadil: “É melhor dizer que o Anel não tem poder sobre ele. Ele é seu próprio senhor. Mas não pode alterar o próprio Anel, nem desfazer o poder deste sobre os outros. E agora se retirou para uma região pequena, dentro de limites que ele mesmo fixou, embora ninguém consiga enxerga-los, talvez esperando uma mudança dos dias, e não sai dali.”

Por que Bombadil se retirou para sua “pequena terra” e quando? As pessoas perguntam essas questões muitas vezes. É claro que a maioria dos leitores parece sentir que Bombadil nunca tivera liberdade para se mover além de sua terra, que ele deve sempre ter vivido na, ou próximo da, Floresta Velha, desde que o Tempo começara (que deve ser bastante longo – Bombadil “apenas” assumiu que se lembrava da primeira gota de chuva na Terra-Média). Bombadil contou a Frodo e seus companheiros que ele estava lá quando os Elfos passaram em sua jornada para o Oeste, e ele estava lá quando o Senhor do Escuro veio de Fora (presumivelmente quando Melkor escapou de Valinor e retornou à Terra-Média).

Mas Bombadil não falou que ele sentou na mesma colina por eras incontáveis. Ele somente fala que ele estava por perto quando coisas antigas aconteceram. Ele passa a dividir sua sabedoria considerável, por exemplo, sobre a história de Arnor e seus estados sucessivos, Arthedain, Cardolan e Rhudaur. Poderia Bombadil realmente ter aprendido tanto sobre os Dunedáin – até a ponto de se lembrar da beleza de uma princesa ou dama Dunadan – se ele não tivesse viajado e conhecido pessoas? E por que Gandalf falaria “agora se retirou para uma região pequena, dentro de limites que ele mesmo criou”, se Bombadil nunca tivesse vagado para mais além de seus “limites que ele mesmo fixou, embora ninguém consiga enxergá-los”?

A familiaridade de Elrond com Bombadil é revelada através de um breve catálogo de nomes que ele revela no conselho: “Mas tinha me esquecido de Bombadil, se é que esse é o mesmo que caminhava nas florestas e colinas há muito tempo, e mesmo naquela época ele era mais velho que os velhos. Nesse tempo tinha outro nome. Chamavam-no de Iarwain Ben-adar, o mais antigo e sem pai. Mas outros nomes foram dados por vários povos: Forn pelos anões, Orald pelos homens do Norte, e outros nomes além desses.” Bom, as histórias não sugerem que os Anões tenham passado algum tempo nas Colinas dos Túmulos ou na Floresta Velha, então por que eles se incomodariam em dar um nome a Bombadil, a não ser que ele tenha viajado entre eles em algum ponto?

Bombadil é muitas vezes descrito como um espírito livre. De fato, antes de escrever O Senhor dos Anéis, Tolkien se referiu a Bombadil como o “espírito do interior (desaparecendo) de Oxford e Berkshire”. Bombadil existia antes do Senhor dos Anéis, tendo sido introduzido em um mundo não desconfiado através de um poema publicado na Oxford Magazine. Ele se originou de um boneco de um dos filhos de Tolkien, e as aventuras de Bombadil eram somente uma coleção em uma série de coleções de aventuras que Tolkien fez para seus filhos. Então a existência pré-SdA é muito diferente da sua existência em das. Ele é muito menos sofisticado e um tanto variável, um pouco mais volátil. Ele é um clássico jovem aventureiro, andando por aí sem se preocupar com o mundo.

Mas a ênfase deve ser colocada no homem quando Tolkien incorpora Bombadil no mundo da Terra-Média. Em The Road to Middle-Earth, Tom Shippey dispensa Bombadil como um episódio sem importância na estória, mas em seguida concorda com o aspecto mais intrigante de Bombadil: Aquilo que gostaríamos de saber sobre Bombadil é o que ele é, mas isto nunca é perguntado ou respondido diretamente. No capítulo 7, Frodo toma coragem para perguntar quem ele é, apenas para receber as respostas de Fruta D’Ouro, (1) “Ele é”, (2) “Ele é, como já viram”, (3) “Ele é o Senhor da floresta, das águas e das colinas”, e de Bombadil, (4) “Ainda não sabe meu nome? Esta é a única resposta.”

Após recontar a origem poética de Bombadil e sua ressurreição nas páginas de aventuras dos Hobbits, Shippey conclui sua introdução sobre Bombadil dizendo: “O que ele é pode não ser conhecido, mas o que ele faz é dominar.” E, de fato, isto é precisamente o que Bombadil faz, apesar da afirmação de Tolkien que Tom previamente declarara a dominação de outros vontades.

Estará então Tolkien mentindo, ou Bombadil não está dominando vontades? Eu não acho que Tolkien procurasse intencionalmente enganar seus leitores. Por exemplo, note que Fruta D’Ouro não reivindica Bombadil como seu senhor. Ele é “o Senhor da floresta, das águas e das colinas”. Isto é, Bombadil controla coisas que não possuem vontades. Mas Fruta D’Ouro aponta que ele não governa até mesmo as coisas que ele controlou. “Isso seria um fardo pesado demais”, diz ela. “Ninguém jamais prendeu o velho Tom quando ele caminhava pela floresta, atravessava as águas, ou pulava nos topos das colinas, seja de noite, seja de dia”, ela conta a Frodo.

A esse respeito, Tom é muito viril. Ele é o maior lenhador, o verdadeiro esportista, se você quiser, pois ele sempre aceita o desafio, e sempre ganha, mas tendo vencido ele libera seu oponente. Ele é confiante em si mesmo e todos que o conhecem expressam uma tremenda fé nele e em sua habilidade de resolver qualquer situação. Muitos meses depois, no momento em que Laracna está prestes a lançar-se sobre Sam e Frodo, Sam pensa melancolicamente em Bombadil:

“É uma armadilha! – disse Sam, colocando a mão sobre o punho de sua espada; e no momento em que fez isso, pensou na escuridão do túmulo de onde ela vinha. ´Gostaria que o velho Tom estivesse por perto agora’, pensou ele”.

Como Bombadil teria enfrentado a Aranha? Nunca saberíamos, é claro, mas muitos provavelmente argumentariam que a Laracna viraria sopa de aranha para o próximo banquete de Fruta D’Ouro, se ela e Tom viessem a se encontrar. Ele não conhece o medo, e somente respeita os limites que ele próprio criou. E, no entanto, Bombadil reconhece suas limitações. “Tom não é o senhor dos Cavaleiros da Terra Negra, que fica distante de sua região”, ele admoesta os Hobbits, quando estes pedem seu auxílio contínuo em seu caminho. Talvez ele também não seja o mestre das aranhas gigantes. Laracna, afinal, tinha seu próprio objetivo – como os Nazgul uma vez tiveram, mesmo que agora eles estão sob a vontade de Sauron.

Bombadil assim alegoriza muitas das coisas que Tolkien achava que eram boas qualidades em um homem: ele é honesto, fiel, um bom amigo, amado e devoto marido, e ele sabe que não deve exceder suas próprias capacidades. Bombadil é tão certo de si mesmo, pois ele aprendeu tudo o que precisava saber sobre si mesmo. Mas apesar de ter aprendido um bocado sobre “bosques, águas e montanhas” – o suficiente para ser o mestre deles – ele ainda é curioso, e ainda faz perguntas sobre o que está acontecendo além de sua pequena terra.

Bombadil não se senta silenciosamente em seu castelo, fechado para o mundo. Ele é muito consciente do que está acontecendo ao seu redor. Ele continua a interagir com pelo menos alguns de seus vizinhos. No poema “Bombadil goes boating” (Bombadil vai remar), ele visita o fazendeiro Magote no Condado. E apesar de Tolkien ter decidido, enquanto escrevia O Senhor dos Anéis, que Bombadil não visitaria Bri, ele conhece Bri e sabe alguma coisa sobre Cevado Carrapicho, “um homem respeitável” da estalagem Pônei Saltitante. Mais tarde, após Bombadil ter cuidado dos pôneis de Merry por um tempo, chega a Bombadil a informação da quantia que Carrapicho teve que pagar a Merry por aqueles pôneis, após eles terem sido soltos do estábulo da estalagem. Como Bombadil sabia disso? Algo ou alguém deve ter contado a ele, e a fonte de informações mais provável deve ter sido um Elfo ou um Guardião.

Eu acho que Tom se dava bem com os Guardiões. Aragorn o conhecia, e Bombadil conhecia Aragorn (descrevendo Aragorn para os Hobbits, numa visão que ele comunicou a eles após liberta-los dos Túmulos). Desde que os Guardiões passaram a visitar Bri com maior freqüência, e vigiavam o Condado por muitos anos, eles devem ter tido muitas oportunidades de passar pela terra de Bombadil e trocar notícias com ele. Bombadil, afinal, também manteve contato com Gildor Inglorion, uma vez que Gildor pediu para que Bombadil ajudasse Frodo em seu caminho para fora do Condado.

Bombadil, portanto, tem amigos, e ele não é um verdadeiro recluso. Ele permanece interessante e até mesmo poderoso. E isso pode explicar porque Fruta D’Ouro casou-se com ele. No poema The Adventures of Tom Bombadil (As Aventuras de Tom Bombadil), Fruta D’Ouro puxa a barba de Tom, puxando-o para dentro da água e roubando seu chapéu de uma maneira infantil:

There his beard dangled long down into the water:
up came Goldberry, the River-woman’s daughter;
pulled Tom’s hanging hair. In he went a-wallowing
under the water-lilies, bubbling and a-swallowing.

‘Hey, Tom Bombadil! Whither are you going?’
said fair Goldberry. ‘Bubbles you are blowing,
frightening the finny fish and the brown water-rat,
startling the dabchicks, and drowning your feather-hat!’

‘You bring it back again, there’s a pretty maiden!’
said Tom Bombadil. ‘I do not care for wading.
Go down! Sleep again where the pools are shady
far below willow-roots, little water-lady!’

Back to her mother’s house in the deepest hollow
swam young Goldberry. But Tom, he would not follow;
on knotted willow-roots he sat in sunny weather,
drying his yellow boots and his draggled feather.

Up woke Willow-man, began upon his singing,
sang Tom fast asleep under branches swinging;
in a crack caught him tight: snick! it closed together,
trapped Tom Bombadil, coat and hat and feather.*

*Tradução adaptada para o poema:

“Ali sua barba balançava na água. Chega Fruta D’Ouro, Filha do Rio. Puxou o cabelo dependurado de Tom. Para dentro ele foi. Rolando debaixo dos nenúfares, borbulhando e engolindo água.

“Hey, Tom Bombadil! Onde você está indo?”- disse a bela Fruta D’Ouro. “Bolhas você está soprando. Assustando os peixinhos e o rato d´água castanho. Assustando os pintinhos, e afogando seu chapéu de penas!”

“Traga-o já de volta, linda donzela”- disse Tom Bombadil. “Eu não ligo para isso. Afunde! Durma novamente, onde os charcos são sombrios, muito abaixo das raízes de salgueiro, pequena dama da água!”

De volta a casa de sua mãe, no mais profundo e vazio pântano, nadou a jovem Fruta D’Ouro. Mas Tom, ele não a seguiria. Em raízes retorcidas de salgueiro ele se sentou, em tempo ensolarado, secando suas botas amarelas e sua pena”.

Este é um clássico ritual de cortejo. A mulher faz a escolha e testa o homem para ver se ela consegue domina-lo. Se ela conseguir, o ele falha no teste e ela deixa de se interessar por ele. Tom não participaria de jogos infantis e, apesar disso, ele continua com seus afazeres, dispensando Fruta D’Ouro como se ela não tivesse importância para ele. Então ele passa no teste, e mais adiante, no fim do poema, quando Tom chega para toma-la, Fruta D’Ouro está preparada para ser sua esposa.

No entanto, o afastamento de Tom não é presunçoso. Ele é autoconfiante e sabe para onde está indo e o que está fazendo. Ele tem suas prioridades. Ele pode, se um amigo pede, deixar de lado suas preocupações por um tempo e encarregar-se de qualquer outra coisa. Ele faz isso ao pedido de Gildor, quando ele fica de olho em Frodo e seus companheiros. Mas Gandalf rapidamente nota que Bombadil seria uma má escolha para ser o guardião do Um Anel, se o Conselho de Elrond decidisse esconder novamente o Anel de Sauron. O medo de Gandalf é de que Bombadil não entendesse por que todos iriam querer que ele ficasse com o Anel, e de que Bombadil poderia, por fim, esquecer-se sobre isso.

Essas preocupações estão totalmente de acordo com o retrato que Tolkien faz de Bombadil, de um homem decidido e focado. Homens não podem, de fato, ser confiáveis para cuidar de negócios de outrem. Eles têm suas próprias preocupações. Há um jogo de futebol hoje. Terão que esperar para mudar o sofá até amanhã.

A pureza entre Tom e Fruta D’Ouro reside no fato de que ela é sua prioridade número um. Ela está a salvo em casa (como todos que ali visitam), e segura, enquanto Tom estiver por perto. E Tom não deixará que ela enfrente o mundo sozinho. Ele sabe que Sauron está perseguindo os Hobbits. Ele parece até mesmo saber o que o Um Anel é. Mas ele se recusa a deixar sua terra para ajuda-los mais. Seria uma grande aventura, com certeza, e Tom provavelmente aprenderia coisas novas. Mas “Tom tem sua casa para cuidar, e Fruta D’Ouro está esperando”, ele fala aos Hobbits.

De sua parte, Fruta D’Ouro é a Senhora sem falas. Tolkien é cuidadoso em não dá-la título ou status, mas há limites claros entre Tom e Fruta D’Ouro. Enquanto pode parecer que Fruta D’Ouro é rebaixada aos papéis tradicionais na casa (lavar e cozinhar), na realidade a ela é concedida a dignidade de realizar decisões cruciais. “Hoje é o dia de Fruta D’Ouro lavar tudo. O dia de fazer a limpeza do outono”, Bombadil conta aos Hobbits. Tom não designa a ela esses serviços. Ela decide quando irá fazer essas coisas.

À noite, Tom e Fruta D’Ouro se revezam para entreter suas visitas. Ela prepara a comida que eles servem juntos, e ela canta canções junto à lareira antes de recolher à cama. Apesar disso, é Tom quem ensina aos Hobbits muito sobre os perigos do mundo. O mundo além da porta de Tom, com suas árvores malvadas e criaturas tumulares, é um lugar verdadeiramente perigoso.

A imagem que Tolkien retrata, com Tom e Fruta D’Ouro graciosamente fornecendo comida e abrigo para o Povo Pequeno, é tão familiar ao leitor como uma família se reunindo para jantar. Papai Tom e Mamãe Fruta D’Ouro estão cuidando de suas crianças até que eles tenham idade suficiente para sair para o mundo por conta própria. De fato, quando está na hora dos Hobbits partirem e eles se dão conta de que esqueceram de se despedir de Fruta D’Ouro, eles retornam para encontra-la no topo de uma colina:

” – Fruta D’Ouro – gritou ele. – Minha linda senhora, toda vestida de verde-prata! Não lhe dissemos adeus, nem a vimos desde ontem à noite! – Estava tão perturbado que já ia voltando; mas naquele momento um chamado, uma voz cristalina, desceu ondulando colina abaixo. Ali, no topo, estava ela, acenando para eles: os cabelos esvoaçavam soltos, e, conforme captavam a luz do sol, brilhavam e reluziam. Uma luz como o brilho da água sobre a grama orvalhada vinha de seus pés, enquanto dançava.

Os Hobbits correram ladeira acima, e pararam sem fôlego ao lado dela. Fizeram reverências, mas, com um aceno de braço, ela pediu que olhassem em volta; ali, no topo da colina, puderam ver a paisagem sob a luz da manhã. Agora tudo estava claro e podia-se enxergar longe. Na vinda, quando tinham parado no outeiro da Floresta, quase não puderam enxergar nada, por causa da névoa que lhes velava a visão, mas agora o outeiro aparecia, erguendo-se claro e verde por entre as árvores escuras do oeste. Naquela direção, o terreno coberto de vegetação se levantava em cordilheiras verdes, amarelas, avermelhadas sob o sol. Atrás delas se escondia o vale do Brandevin. Ao sul, sobre a linha do Voltavime, havia um brilho distante, como de vidro claro, no ponto em que o rio Brandevin fazia uma grande curva no terreno mais baixo, para depois correr para regiões desconhecidas dos hobbits. Ao norte, além das colinas que iam sumindo, a terra fugia em espaços planos e protuberâncias cinzentas, verdes e cor de terra, até desaparecer na distância sombria e sem forma. Ao leste, as Colinas dos Túmulos se erguiam, topo atrás de topo dentro da manhã, sumindo da visão numa conjetura: não passava de uma conjetura azul, com pontos de um branco remoto, que se misturava ao céu no horizonte, mas que mesmo assim falava-lhes das montanhas altas e distantes, presentes na memória de antigas histórias.

Encheram os pulmões de ar, sentindo que um salto e alguns passos largos os levariam aonde quisessem. Parecia fraqueza de espírito irem andando em direção à estrada ao longo das bordas enrugadas das montanhas, quando na verdade deveriam ir aos pulos, com o mesmo vigor de Tom, sobre os degraus de pedra das colinas, diretamente até as Montanhas.

Fruta D’Ouro dirigiu-lhes a palavra, chamando sobre si seus olhares e pensamentos. – Apressem-se agora, belos convidados! – disse ela. – E continuem firmes em seus propósitos! Rumo ao norte com o vento no olho esquerdo, e sorte em seus passos! Apressem-se enquanto o sol brilha. – E para Frodo, ela disse: – Adeus, amigo-dos-elfos, foi um encontro feliz!

Mas Frodo não teve palavras para responder. Fez uma grande reverência, montou o pônei e, seguido pelos amigos, avançou lentamente, pela descida suave atrás da colina. Perderam de vista a casa de Tom Bombadil e o vale, e depois a Floresta. O ar ficou mais quente entre as paredes verdes formadas pelas encostas das colinas; o cheiro da turfa subia forte e doce. Voltando-se, ao atingirem o fundo do vale verde, viram Fruta D’Ouro, agora pequena e esguia como uma flor ensolarada contra o céu: ainda estava ali, olhando-os, com as mãos estendidas na direção deles. No momento em que olharam, saudou-os com a voz cristalina, e levantando a mão virou-se e sumiu atrás da colina.”

É Fruta D’Ouro que se despede dos Hobbits, e não eles. Ela os leva ao seu caminho com palavras de amizade e encorajamento, mas o rompimento é definitivo. Os Hobbits passaram por uma aventura adolescente que só pode levar para um inevitável rito de passagem, em que Tom (o Pai) observa sua transição final na idade adulta metafórica. Fruta D’Ouro (a Mãe) preparou, assim como Tom, os Hobbits para desafiar o mundo maior. E a alegoria, quer seja intencional ou coincidência, de uma vida familiar harmônica estabelece uma fundação de criação sólida. O leitor está moralmente assegurado de que os Hobbits foram criados sob os valores corretos: eles foram ensinados a ser curiosos, cuidadosos e firmes. A qualquer hora que eles se afastarem de seu caminho escolhido, eles lembrarão de Tom e Fruta D’Ouro de certo modo, tanto quanto uma criança entende o conselho do pai anos depois, após ter feito algo que o pai aconselhou a criança a não fazer.

Desta metáfora para o trabalho, Fruta D’Ouro deve ser tanto mulher como Tom é um homem. Isto é, ela deve ser bonita, tentadora, calorosa, apaixonada e provedora. Fruta D’Ouro é tudo isso e muito mais. Ela acolhe os Hobbits em sua casa, onde está cercada por nenúfares em tigelas. Seu vestido é verde, salpicado de prata, e ela usa um cinto dourado. As primeiras palavras de Frodo a ela são: “Bela senhora Fruta D’Ouro”.

Quando os Hobbits passam a conhecê-la, eles observam Fruta D’Ouro ir e vir. Algumas vezes ela está ali, algumas vezes ela está fora, e Tom somente explica que ela está fazendo suas coisas. Ela é, portanto, um pouco misteriosa, e mantém os Hobbits interessados por não estar sempre lá. Sempre que Fruta D’Ouro entra numa sala, ela deixa todos sem fôlego. Os Hobbits observam ela se mover graciosamente pela sala sem pronunciar uma palavra.

Quando o jantar termina, Tom e Fruta D’Ouro dão aos Hobbits banquinhos para os pés junto à lareira, e Fruta D’Ouro segura uma vela em suas mãos após apagar a maioria das luzes. Ela senta junto à lareira e canta muitas canções para suas visitas. Então, ela é calorosa e amigável, muito franca, mas uma fonte radiante de inspiração poética. Tom, é claro, adora Fruta D’Ouro, e ele constantemente traz presentes para ela, e a acorda cantando debaixo de sua janela. Ele pode ser seu próprio homem, mas ele deixa claro que ele também é o homem de Fruta D’Ouro. E Fruta D’Ouro circula pela casa e coração de Tom como uma primavera refrescando jorrando de um lado da montanha.

Na simbologia dos sonhos, a água é um símbolo de sexualidade quando está relacionada a uma linda mulher. Tolkien cuidadosamente associa Fruta D’Ouro com a água, através de nomeá-la Filha do Rio, os presentes de nenúfares de Tom, assim como seus movimentos fluidos, sua dança encantadora na chuva e sua fala e idioma. Fruta D’Ouro é muito sensual, mas ela é reservada e distante. Isto é, ela se preserva para Tom, e não se abre completamente (sexualmente) para seus hóspedes. O leitor pode tentar imaginar como Tom pode ficar tanto tempo conversando com seus convidados enquanto Fruta D’Ouro está esperando, mas o fato de que Fruta D’Ouro está esperando, e de que Tom volta para ela à noite, mostra que eles não estão tendo nenhum problema com sua intimidade.

E por fim, Fruta D’Ouro toma conta das refeições. Ela seleciona o menu e anuncia quando a comida está pronta. Ela também tenta satisfazer a curiosidade de Frodo sobre Tom, e acalmar os medos dos Hobbits. “Vamos trancar a noite lá fora, pois talvez ainda estejam com medo da neblina, das sombras das árvores, das águas profundas e das coisas hostis. Nada temam! Pois esta noite estão sob o teto de Tom Bombadil.”

Fruta D’Ouro serve como mediadora entre Tom e os Hobbits, assim como uma mãe serve como mediadora entre um pai e seus filhos. Ela abre a casa de Tom para seus hóspedes e se despede deles. Ela mantém a casa em ordem e estabelece o ritmo no qual a vida caseira segue. As coisas acontecem quando Fruta D’Ouro decide que elas devem acontecer, e ela e Tom têm uma vida satisfatória e realizada juntos. Pois cada um procura satisfazer o outro, e não pensam em seus próprios desejos. Cada um está contente.

Mas agora contraste o relacionamento de Bombadil e Fruta D’Ouro com aquele entre os Ents e as Entesposas. Os Ents e as Entesposas se distanciaram talvez porque os Ents eram muito distantes e desinteressados nas prioridades das Entesposas. Enquanto Bombadil e Fruta D’Ouro dividem uma casa, igualmente atendendo às necessidades de seus hóspedes, dividindo o trabalho e as responsabilidades cuidadosamente, as Entesposas, por fim, viviam separadas dos Ents.

Barbárvore conta a Merry e Pippin, de um modo um tanto quanto melancólico, como ele costumava vagar através de centenas de milhas de florestas sem pista, de Beleriand ao Anduin. Ele passou estações inteiras em diferentes partes das terras nórdicas. As Entesposas, por sua vez, queriam vidas estabelecidas e ordenadas. E essa organização incluía dominar outras coisas:

“- É uma história muito triste e estranha – continuou ele depois de uma pausa. – Quando o mundo era jovem, e as florestas eram vastas e selvagens, os ents e as entesposas – e havia entezelas naquela época: ah! como era adorável Fimbrethil, Pé-de-Fada, a dos passos leves, nos dias de minha juventude! – , eles andavam juntos e moravam juntos, mas nossos corações não continuaram crescendo do mesmo modo: os ents devotavam seu amor a coisas que encontravam no mundo, e as entesposas devotavam o seu a outras coisas; pois os ents amavam as grandes árvores e as florestas, e as encostas de colinas altas, e bebiam das nascentes das montanhas, e só comiam frutas que as árvores deixavam cair em seu caminho; e aprenderam com os elfos e conversavam com as árvores. Mas as entesposas se dedicaram a árvores menores, e a campinas ao sol além dos pés das florestas; viram o abrunheiro nas moitas e a macieira selvagem e a cerejeira florescendo na primavera; e as ervas verdes nas terras banhadas pela água e a grama descente nos campos durante o outono. Não desejavam conversar com esses seres, mas eles desejavam ouvi-las e obedecer ao que lhes diziam. As entesposas ordenaram que crescessem conforme seus desejos, e que produzissem folhas e frutos como queriam; pois as entesposas desejavam a ordem, e paz (que para elas queria dizer que as coisas deviam permanecer como elas as tinham colocado). Então as entesposas fizeram jardins nos quais pudessem morar. Mas nós, ents, continuamos vagando, e só íamos aos jardins de vez em quando. Então, quando a Escuridão chegou ao Norte, as entesposas atravessaram o Grande Rio, e fizeram novos jardins, e araram novos campos, e nós as víamos com menos freqüência. Depois que a Escuridão foi derrotada, a terra das entesposas floresceu ricamente, e seus campos ficaram cheios de trigo. Muitos homens aprenderam os ofícios das entesposas e prestavam grandes honras a elas; mas nós ficamos sendo para eles apenas uma lenda, um segredo no coração da floresta. Mas ainda estamos aqui, enquanto que os jardins das entesposas estão abandonados: os homens os chamam agora de Terras Castanhas.”

Enquanto os Ents se viam apenas como gentis pastores de árvores, as Entesposas acreditavam que elas podiam melhorar as coisas ao redor das quais viviam. Aquelas árvores favorecidas pelas Entesposas – macieiras, laranjeiras – foram domesticadas, crescendo em pomares. As Entesposas praticavam agricultura enquanto os Ents praticavam uma silvicultura semi-nômade. Assim como a clássica história de conflito entre os nômades das estepes e as civilizações sedentárias da Europa ou China, os Ents e as Entesposas dedicavam-se a diferentes prioridades. As Entesposas, de fato, sucumbiram aos mesmos desejos dos Elfos: “desejavam a ordem, e paz (que para elas queria dizer que as coisas deviam permanecer como elas as tinham colocado)”.

As Entesposas se tornaram muito dominadoras, muito decididas. Os Ents tinham que visitar as Entesposas. As Entesposas deixaram de pensar nas florestas antigas de onde vieram. Os Ents, em troca, afastaram-se das terras abertas que as Entesposas procuravam. O resultado final provou ser desastroso para a raça. Os Ents não podiam ser encontrados quando os exércitos de Sauron invadiram a terra das Entesposas. Do destino delas, Tolkien pode apenas tristemente especular que “as Entesposas desapareceram por bem, sendo destruídas junto de seus jardins na Guerra da Última Aliança (Segunda Era 3429-3441), quando Sauron exercia uma política de queimadas e queimou suas terras, contra o avanço dos Aliados pelo Anduin…”

Diferentemente de Fruta D’Ouro, as Entesposas se recusavam a ser submissas a seus parceiros. Diferentemente de Tom Bombadil, os Ents se recusavam a ser dominantes. Cada gênero se acostumou tanto a viver se o outro que passaram-se muitos anos após a destruição das terras das Entesposas até os Ents descobrirem sua perda. Era tarde demais para salvar a raça deles.

E enquanto alguns podem inferir, a partir da perda das Entesposas, que Tolkien defendia um papel doméstico para as esposa, era, de fato, a necessidade da domesticação que levou as Entesposas à ruína. Elas queriam que tudo fosse fixo e permanente, de tal forma que os Ents não podiam suportar viver com elas. Fruta D’Ouro, pelo menos, suporta o constante vagar de Bombadil através das paisagens, desde que ele volte para casa à noite.

Ambos, Bombadil e os Ents, exerciam grande poder. Os Ents podiam destruir vastas fortalezas, mudar o curso dos rios, e alterar a paisagem ao liderar seus rebanhos de árvores para novos “pastos”. O poder de Bombadil não é tão claramente revelado ao leitor, mas ele trabalha mais sutilmente. Apesar dos Ents comandarem as árvores e os Huorns, Bombadil opõe-se dominando vontades (tal como a do Velho Salgueiro Homem), apenas suficientemente para assegurar de que tudo continua a salvo e em harmonia.

Ambos, Bombadil e os Ents, acumularam conhecimento, mas enquanto Tolkien descreve Bombadil em termos de “Botânica e Zoologia (como ciências) e Poesia, como opostas à Pecuária e Agricultura e Praticidade”, os Ents (e Entesposas) quase possuem os mesmos atributos contrastantes: os Ents como pastores, as Entesposas como agricultoras, e enquanto Bombadil cria novas poesias, os Ents se contentam em apenas preservá-la.

Se as diferenças entre os relacionamentos pudessem ser resumidas em uma palavra, esta palavra seria arriscar, isto é, ambos Bombadil e Fruta D’Ouro arriscam algo ao permitir ao outro certas liberdades. Os Ents e as Entesposas, por outro lado, eram relutantes ou incapazes de chegar a um meio termo quanto aos seus desejos e necessidades, e, por fim, eles se divorciaram. Tal rejeição não seria natural no ponto de vista católico de Tolkien. Abandonar o casamento seria algo vergonhoso ou até mesmo pecaminoso. Mais importante ainda, tal ato remove toda a esperança de alimentar o relacionamento e os filhos da casa. Não há equilíbrio, harmonia, e o resultado de tal divisão é desastroso para todos os envolvidos.

Bombadil e Fruta D’Ouro vivem bem ao lado da Floresta Velha, mas não dentro dela. Eles são livres para passar por baixo das árvores, mas eles também podem perambular pelas colinas descampadas. Os Ents aprisionaram a si próprios dentro dos limites de seus bosques, enquanto as Entesposas recusavam deixar seu conforto (e falsa segurança) de suas terras altas. Bombadil e Fruta D’Ouro experimentam o melhor de ambos os mundos, enquanto os Ents e as Entesposas polarizaram seus mundos.

Quando Gandalf deixa os Hobbits, virando-se para visitar Bombadil, ele fala, “Ele é um coletor de musgo, e eu tenho sido uma pedra fadada a rolar”. Os dias de “rolar” de Bombadil acabaram-se. Ele fez o que os Ents não puderam: se fixou. Fruta D’Ouro, de sua parte, fez o que as Entesposas não puderam: aceitar um lugar no mundo de seu marido.

Enquanto eu não aconselharia ninguém a modelar suas vidas em Tom e Fruta D’Ouro, seu casamento, sem dúvida, representa tudo o que há de melhor nos relacionamentos, na visão de Tolkien. De fato, Bombadil representa a mitologia de Tolkien: ele é antigo, com uma bela história que encanta os outros, mas ele adquiriu certa maturidade em sua tenra idade, que é estável e permitiu que ele prosperasse. No fim das contas, Bombadil sobreviverá aos Ents, porque apesar de seus modos nômades, ele permanece flexível bastante para realizar quaisquer mudanças que forem necessárias em sua vida. Ele é vibrante e possui um coração jovem. Ele não possui arrependimentos, e nunca olha para trás. Bombadil e Fruta D’Ouro estão fazendo novas memórias.

Tudo o que resta para os Ents, enquanto um por um cai num sono profundo e permanente, é a memória de suas vidas que uma vez foi compartilhada com as Entesposas.

[Tradução de Helena ‘Aredhel’ Felts]

Gil-galad era um Rei Elfo

E isso é tudo em que concordamos.

A ascendência de Gil-Galad ainda não se transformou num tópico central entre os fãs de Tolkien, mas o tempo dirá se acontecer. Mesmo tendo pouca informação sobre o mais famoso dos reis noldorianos, há pessoas que acharam motivos para escrever grandes artigos sobre ele [e eu não sou exceção].

 

Quem foi o pai de Gil-galad, Fingon ou Orodreth? J.R.R. Tolkien diz Orodreth, mas milhões de fãs parecem discordar dele. Afinal o Silmarillion diz que foi o Fingon. “Que Gil-galad foi filho de Fingon [The Silmarillion] vem de uma nota escrita a lápis no manuscrito dos Anais Cinzentos [Grey Annals $157],” nos conta Christopher Tolkien na Guerra das Jóias [The War of the Jewels], “dizendo que quando Fingon se tornou rei dos Noldor na ocasião da morte de Fingolfin ‘seu jovem filho [?Findor] [sic] Gilgalad ele mandou para os Portos.’ Mas isso, adotado depois de muita hesitação, certamente foi uma das muitas especulações de meu pai.

Essa dica tentadora incendiou um dos primeiros debates sobre Gil-galad. Se Fingon não era seu pai, e Finrod Felagund não podia ser [discussões anteriores mostraram que esta idéia fora abandonada] quem foi então o pai do Gil-galad? Algumas pessoas ficam firmes com O Silmarillion, dizendo que tem que ser verdade, pois foi fielmente produzido por Christopher Tolkien de acordo com os desejos de seu pai. Mas isso não é verdade.

Em outro lugar na Guerra das Jóias [The War of the Jewels], e em vários outros volumes dos The History of Middle-earth, Christopher mostra aonde ele desviou da visão de seu pai [na maior parte devido a uma pesquisa insuficiente, pois ele estava trabalhando sob pressão e não tinha tido acesso a todos os papéis de seu pai]. Em particular ele cita a “Ruína de Doriath”[The Ruin of Doriath]:

Ter incluído [“As andanças de Hurin” em O Silmarillion], assim me pareceu, implicaria numa grande redução, realmente uma inteira remontagem de uma maneira que eu não queria fazer; e já que a história é intrincada eu tinha medo que isso produziria um confuso entrelaçamento na narrativa sem nenhuma sutileza, e por cima de tudo iria diminuir a figura temerosa do velho homem, o grande herói, Thalion, o inabalável, indo de encontro aos propósitos de Morgoth, como ele estava destinado a fazer. Mas me parece agora, muitos anos depois, ter havido muita manipulação com o pensamento e intenção de meu pai: portanto levantando a questão de que se fazer um Silmarillion unificado tenha sido válido.

Numa outra explicação de como “A Ruína de Doriath” foi escrito mais tarde no livro, Christopher diz:

Essa estória não foi facilmente ou apressadamente concebida, mas foi o resultado de uma longa experimentação entre concepções alternativas. Nesse trabalho Guy Kay teve uma grande participação, e o capítulo que eu finalmente escrevi, se deve a muitas discussões com ele. É, e foi, óbvio que um passo estava sendo tomado de uma diferente ordem de qualquer outra ‘manipulação’ da própria escrita de meu pai no decorrer do livro: mesmo no caso a estória da queda de Gondolin, que meu pai nunca retomou, alguma coisa podia ser feita sem introduzir mudanças radicais na estória da Ruína de Doriath do jeito que estava e que era radicalmente incompatível com ‘O Silmarillion’ como projetado, e que havia uma escolha inescapável: ou abandonar esta concepção, ou alterar a estória. Eu acho que foi uma opinião errada, e que as indubitáveis dificuldades poderiam, e deveriam ser tratadas sem ultrapassar a barreira da função editorial.

Essa repudiação de sua mais significativa contribuição ao O Silmarillion mostra que Christopher Tolkien não o apresenta como um trabalho final e fiel. Isso é, ele nunca teve a intenção de que O Silmarillion publicado representasse a visão de seu pai. Ele tomou cuidado no próprio prefácio, dizendo que:

…a tentativa de apresentar, num único volume, a diversidade de materiais – revelar O Silmarillion de fato como uma criação contínua e em evolução, que se estendeu por mais de cinqüenta anos- levaria na realidade apenas à confusão e ao obscurecimento daquilo que é essencial. Propus-me, por isso, elaborar um texto único, selecionando e organizando trechos de tal modo que me parecessem produzir a narrativa mais coerente de maior consistência interna….Não se pode aspirar a uma harmonia perfeita…e ela somente poderia ser alcançada, se fosse possível, a um custo muito elevado e desnecessário…

Temos portanto, um sólido motivo, dado pelo próprio Christopher Tolkien, para questionar a validade de qualquer afirmação em O Silmarillion. Mas é claro que não se deve dizer que tudo que está no livro seja não confiável. Mas, já que temos ao nosso dispor o material base para nosso próprio estudo, podemos determinar [especialmente com ajuda deste comentário explícito do Christopher] em que partes a estória original foi alterada ou não, e porque.

No caso da filiação de Gil-galad nós temos uma maior afirmação de Christopher que aquele acima. No The Peoples of Middle-Earth ele dedicou um pequeno comentário sobre a filiação de Gil-galad nas paginas 349-51. Parece que a verdadeira genealogia de Gil-galad o coloca como sendo filho de Orodreth, que era filho de Angrod, e não um dos filhos de Finarfin.

Não deve haver dúvidas que esta era a palavra final de meu pai sobre este assunto”, Christopher nos conta. Sua última declaração diz: “Uma análise mais profunda deste material extremamente complexo do que fiz há vinte anos atrás mostra claramente que Gil-galad como filho de Fingon [veja XI.56,243] era uma idéia efêmera.

Que revelação! Dizer que Gil-galad como filho de Fingon era “uma idéia efêmera” acende as chamas da controvérsia imediatamente. Pessoas tem argumentado anos após anos qual deveria ser a filiação de Gil-galad. E ainda temos do Christopher Tolkien que não pode haver dúvida sobre quem era seu pai: ele era filho de Orodreth.

Ainda mais, Christopher admite ter mudado o nome de Gil-galad no texto da carta publicada como parte de “Aldarion e Erendis” nos Contos Inacabados [Unfinished Tales]. Onde o livro mostra “ Ereinion Gil-galad filho de Fingon”. JRRT havia realmente escrito “Finellach Gil-galad da Casa de Finarfin”. Numa outra passagem da estória Christopher também mudou “Rei Finellach Gil-galad de Lindon” para “Rei Gil-galad de
Lindon
”.

Então porque as pessoas continuam a duvidar da palavra de Christopher Tolkien, o homem que publicou O Silmarillion, onde ele admite que queria manter um “texto único”, e foi quem selecionou e arranjou o material para produzir uma narrativa consistente e coerente [um objetivo que ele não atingiu totalmente, pela sua própria admissão]? Eu acho que responder esta questão requereria uma análise que beiraria a uma dissertação. A recusa para aceitar as afirmações de Christopher Tolkien em várias questões é um fenômeno sociológico.

Mas podemos examinar Gil-galad no contexto da estória correta e determinar algumas coisas sobre seu caráter que nunca foram revelados em O Silmarillion. Isto é, podemos deduzir alguma coisa da sua estória pessoal.

Orodreth provavelmente nasceu em Valinor. Sua mãe foi Eldalôtë, uma dama Noldorin cujo nome foi facilmente convertido para o Sindarin Edhellos. Quando Finrod construiu a cidade secreta de Nargothrond, ele reinava sobre Tol Sirion e as terras anexas a Angrod, enquanto Aegnor reteve comando sobre os altos de Dorthonion que cobriam Ard-galen. Isso contradiz tudo que nos foi contado em O Silmarillion, claro.

Quando a Dagor Bragollach irrompeu e os Noldor foram derrotados, Finrod apressou-se para o norte para trazer reforço para seus irmãos, mas ele chegou muito tarde. O povo de Aegnor foi conquistado, e apesar do povo de Angrod se agüentar em Tol Sirion por algum tempo, o próprio Angrod foi finalmente morto e Orodreth afastou-se da ilha, fugindo para Nargothrond. Ele levou com ele sua esposa, uma dama Sindarin das terras do norte, e seu filho [Rodnor Gil-galad] e filha [Finduilas].

Gil-galad não ficou em Nargothrond por muito tempo. Ele teria ficado lá no mínimo até cerca do ano 455 [o ano da Dagor Bragollach], e Christopher cita uma nota de seu pai que diz que “Gil-galad escapou e finalmente chegou nas Quedas do Sirion e foi Rei dos Noldor lá” . Sua escapada deve ter sido por causa da destruição de Nargothrond, que ocorreu no ano de 495.

Durante estes 40 anos não sabemos nada sobre Gil-galad, mas podemos supor que ele deve ter estado presente no grande debate quando Beren pediu a ajuda de Finrod na questão do Silmaril. Ele, claro, não foi um dos doze lordes fiéis que acompanharam Finrod em sua missão, mas presumivelmente Gil-galad deve tê-lo achado muito novo ou muito importante para fazer parte desta missão [de fato, ele nem havia sido concebido no pensamento de Tolkien quando a versão inteira da estória de Beren foi escrita nos anos 30]. Gil-galad não marchou com a companhia de Gwindor para a Nirnaeth Arnoediad, e ele não parece ter sido um dos soldados no exército de Orodreth que foi derrotado pelo exército de Glaurung na Batalha de Tumhalad.

Faria sentido para Orodreth deixar Gil-galad para trás para defender Nargothrond. Gil-galad devia estar chegando somente na sua completa maturidade. E Orodreth era um governante cauteloso, somente concordando devido a pressão de Turin e a impaciência dos lordes Noldorin que favoreciam a opinião de Turin de abandonar a política de defesa secreta de Nargothrond.

Portanto quando Glaurung veio contra a cidade e seus defensores se mostraram poucos e fracos diante do dragão, o jovem príncipe deve ter sido separado da família. Nós não sabemos o destino de sua mãe, talvez ela tenha sido morta ou feita prisioneira, mas Finduilas foi capturada e levada com as outras elfas para Brethil pelos Orcs. Lá ela foi mortalmente ferida apesar dos melhores esforços dos homens da floresta para libertar os cativos.

Indo para o sul Gil-galad chegou nas Quedas do Sirion. A comunidade de Elfos e Homens que mais tarde fundariam o reino de Arvernien sob Earendil ainda não existia, mas vários Noldor [e Sindar] haviam fugido para o sul há anos,esperando se juntar a Cirdan, cujo povo havia abandonado o Falas depois do Nirnaeth Arnoediad em 473 e fugido para a Ilha de Balar. Annael, chefe do grupo de Sindar que criou Tuor, finalmente chegou nas Quedas do Sirion.

Então Gil-galad estabeleceu uma comunidade de Elfos lá, ou fundou uma e foi considerado seu líder. Essa comunidade, entretanto, deve ter-se mudado para Balar, provavelmente a convite de Cirdan, assegurando assim que a Casa de Finwë sobreviveria.

Gil-galad era nessa época apenas um rei dos Noldor, não seu Alto Rei. O Alto Reinado havia passado na morte de Fingon para o seu irmão Turgon, e agora nós sabemos porque . Fingon não tinha filhos, e o seu reinado foi então para o seu parente masculino mais próximo da linha de descendência de Finwë. Quando Gondolin foi destruída no ano de 510, e Turgon morto, o Alto Reinado passou para a Casa de Finarfin, da qual o último descendente masculino era Gil-galad.

Durante o resto da Primeira Era Gil-galad ficou em Balar. Ele e Maedhros eram os últimos reis Noldorin a viver em Beleriand, mas parece que Gil-galad nunca encontrou Maedhros. Ele teria conhecido Celebrimbor, o filho de Curufin, que ficou em Nargothrond depois de Celegorm e Curufin serem banidos por Orodreth. Celebrimbor não era um rei, e não tinha reino para herdar, apesar de ele tecnicamente ter se tornado o líder dos Fëanorianos quando da morte de Maedhros e da partida de Maglor.

Quando a Guerra da Ira terminou e as Hostes de Valinor voltaram para o Oeste, muitos dos Noldor e Sindar de Beleriand foram com eles. Os poucos Finwëanos que ficaram [Gil-galad, Celebrimbor, e Galadriel] junto com os lordes chefes dos Sindar [Celeborn and Cirdan] decidiram ficar na Terra-média. A história de Galadriel é muito confusa, mas parece que ela partiu de Nargothrond um pouco antes de 495 [provavelmente antes da Nirnaeth em 473]. Então ela e Celeborn devem ter vindo para o oeste quando Eonwë chamou todos os Elfos da Terra-média para velejar pelo Mar.

No The Road Goes Ever On J.R.R. Tolkien escreve que Galadriel “era a última sobrevivente dos príncipes e rainhas que haviam liderado os Noldor que se revoltaram para se exilar na Terra-média. Depois da queda de Morgoth no fim da Primeira Era, uma proibição foi posto sobre seu retorno e ela respondeu orgulhosamente que ela não desejava fazê-lo. Ela foi pelas montanhas com seu marido Celeborn [um dos Sindar] e foi para Eregion….

A posição de Galadriel entre os lordes Eldarin da Terra-média era bem única, e parece que ela nunca se enquadrou bem no reinado de Gil-galad. Numa outra estória, publicada nos Contos Inacabados [Unfinished Tales], Galadriel e Celeborn primeiro se fixaram em Eriador perto do Lago Evendim no começo da Segunda Era, e lá eles foram reconhecidos os governantes dos Elfos em Eriador. Mesmo assim, O Senhor dos Anéis nos conta que Celeborn era vassalo de Gil-galad em Harlindon por um tempo depois que o Reino de Lindon foi estabelecido.

Elrond, escolhendo ficar com os Elfos,se transformou num conselheiro e era aparentemente um amigo chegado de Gil-galad. Seu pedigree com certeza assegurou a Elrond um alto lugar no novo reino dos Elfos. Nascido entre os sobreviventes de Gondolin e Doriath, um descenden
te de Turgon e Thingol, Elrond foi capturado enquanto era ainda uma criança com os Fëanorianos, e ele e seu irmão Elros foram criados por Maglor.Assim Elrond desenvolveu uma relação especial com os Fëanorianos.

O reino de Gil-galad deve, no início deve ter tido Elfos de todas as partes da antiga Beleriand: sobreviventes de Falas e Hithlum, sobreviventes de Nargothrond, sobreviventes de Gondolin e Doriath, Fëanorianos, e provavelmente mesmo uns poucos Laegrim de Ossiriand e o que teria sobrado dos Avari que teriam alcançado Beleriand. Apesar de supostamente tudo ter sido perdoado entre os Elfos, aparentemente eles não conseguiam por de lado velhas mágoas. Os Doriathrim aparentemente teriam aceitado o governo de Gil-galad no começo mas foram eles [aparentemente] que lideraram a grande migração dos Sindar para longe de Lindon.

Os Sindar começaram a migrar na direção leste no começo da Segunda Era, mas nós não sabemos quando. E os seus primeiros grupos podem ter se fixado a oeste de Eriador. A pressão populacional pode ter sido parte da razão de eles ter deixado Lindon. Os Elfos continuaram a ter famílias durante a Segunda e Terceira Era. Mas pode ser também que Gil-galad foi suficientemente influenciado por políticas dos Noldorin para que os Sindar tenham sentido que seu reino não era para eles. Cirdan e os Falathrim tinham sempre sido amigos dos Noldor, e tinham assumido alguns usos e costumes dos Noldor em Beleriand [Finrod ajudou a reconstruir suas cidades por exemplo]. Os Sindar de Hithlum e Nargorthrond também poderiam ter sofrido a influência dos Noldor.

Foram os Sindar de Doriath que eram os mais relutantes em adotar os costumes e a cultura Noldorin. E também eles teriam muita dificuldade para esquecer velhas mágoas, tendo combatido os Fëanorianos diretamente não uma mas duas vezes. Virtualmente todas as mágoas dos Sindar sobre suas perdas poderiam ter sido obra dos Noldor, se fosse para acusar alguém. Portanto a sua migração para o leste era provavelmente também o resultado de alguma antipatia em relação aos Fëanorianos.

A primeira fase da migração Sindarin foi provavelmente completada na época em que os Numenoreanos alcançaram a Terra-média e começaram a visitar Lindon. Nessa época o porto de Edhellond havia sido estabelecido mais para o sul e vários Sindar haviam se fixado entre os Nandor e Avari de Eriador. O povo de Gil-galad manteve o contato com os Elfos de Eriador, e tinha entrado em contato com os povos Edain que ainda viviam lá também. Esses Homens mandaram doze de seus líderes para se encontrar com Vëantur e seus Numenoreanos depois de solicitarem a Gil-galad um encontro.

Então, no momento que o seu reino parecia se esfacelar, Gil-galad foi colocado no palco da história por Numenor. E Sauron começava a atuar na Terra-média mais uma vez. Rumores chegaram aos ouvidos de Gil-galad de um poder distante que não era amigo dos Homens e Elfos. Ele não sabia nada com certeza, mas suas duvidas e preocupações gradualmente aumentaram. Quando o jovem príncipe Anardil [mais tarde Tar-Aldarion] começou a se aventurar na Terra-média, Gil-galad ficou seu amigo, e o príncipe Numenoreano fez várias viagens a mando de Gil-galad visitando os Homens pelas terras norte e oeste da Terra-média.

Gil-galad parece ter feito uma política de estabelecer relações mais próximas com Homens. Talvez ele só estava interessado em Homens de descendência Edainica, já que os Elfos não confiavam em Homens de outros tipos. Mas os povos Edainicos haviam se espalhados há tempos. Eles podiam ser encontrados tão longe quanto as Quedas de Sirion e tão ao leste como o rio Carnen e as Montanhas de Ferro.

O estabelecimento do reino Noldorin pode também refletir em parte a política de Gil-galad. Apesar de Eregion agir por conta própria, Gil-galad não abandonou o povo de Eregion durante a Guerra dos Elfos e Sauron. E ele pode ter sido decisivo na hora de decidir que os Noldor estabelecessem uma colônia perto de Khazad-dum para ter acesso ao mithril. Nesse sentido a civilização élfica teria controle assegurado sobre as rotas de comércio Eriadoriano.

Quando Sauron começou a se aproximar dos reinos dos Elfos disfarçado de Annatar, O Senhor dos Presentes, sondando-os em relação ao seu destino de um dia desvanecerem, Gil-galad e Elrond suspeitaram de seus motivos e se recusaram a tratar com ele. Annatar/Sauron não foi admitido em Lindon, e ele virou sua atenção para Eregion. Lá Celebrimbor, senhor de Gwaith-i-Mirdain, ouviu Annatar, e ele sonhou em transformar a Terra-média num paraíso élfico como Valinor.Os Elfos tinham um problema real em que eles tinham que lidar com a própria morte: o desvanecimento. Eles perderiam seus corpos. Seus espíritos ficariam conscientes, mas incapazes de interagir com o mundo.

Gil-galad claramente entendia este problema como qualquer um. Mas ele fez a escolha correta de não mexer com a natureza. Os Elfos viviam com a vida de Arda. Isto é, seus espíritos não abandonariam os círculos do mundo como os espíritos humanos. Por isso para eles “vida” não era simplesmente uma função biológica mas também uma vida espiritual. Eles se perguntavam se seus espíritos continuariam a existir após a existência do Tempo. Eles achavam que Homens tinham sua vida continuada assegurada, e não se preocupavam tanto assim com a morte do corpo como os Homens. Assim Gil-galad não queria evitar os efeitos do Tempo.

Mas ainda assim, quando os Anéis do Poder foram feitos, e Sauron se revelou à aqueles que fizeram os Anéis quando ele pôs o Um Anel, os Elfos não conseguiam se obrigar a destruir os Anéis. Celebrimbor deu dois dos maiores anéis para Gil-galad, e Gil-galad também não pôde destruí-los. Porque? Era porque ele achava que não havia sentido em desfazer o que havia sido feito? Teria prejudicado severamente a Celebrimbor, aquele que fez os Três, para os anéis serem destruídos? Ou tinha Gil-galad achado alguma razão para mudar de idéia após séculos rejeitando os avanços de Annatar?

Os Três Anéis agiram nos reinos élficos mesmo quando ninguém os usava durante o resto da Segunda Era. Tolkien escreveu que eles ainda conteriam os efeitos do Tempo , assim os Elfos estavam assegurados que não desvaneceriam enquanto os Anéis do Poder existissem. A política de Gil-galad tornou-se então mais manipulativa. Quando ele teve certeza que Sauron iria invadir Eriador, Gil-galad solicitou a Numenor ajuda para defender os Elfos e Homens que viviam lá. Mas ele não contou aos Numenoreanos sobre o quê era a guerra. Somente se pode imaginar os argumentos usados nos altos conselhos élficos antes que houvesse a chamada às armas. Era justo omitir informação vital dos Homens que iriam arriscar suas vidas a favor dos Elfos, que queriam manipular a natureza?

Quando a guerra finalmente chegou Numenor ficou junto ao reino élfico, sem dúvida pela anti
ga amizade, e porque qualquer um que conhecia as antigas lendas e histórias das Guerras de Beleriand sabia que Sauron era do mal. Que ele estivesse usando Orcs e Trolls nos seus exércitos, e que os Gwathuirim com quem os Numenoreanos tinham tido problemas se aliaram a Sauron, simplesmente encorajaria a crença de que era certo apoiar o povo élfico. Esta questão se transformou em questão de sobrevivência para todos os Elfos e Homens. Os Anéis do Poder estavam escondidos de Numenor como também de Sauron, e seu segredo permaneceria por séculos.

Gil-galad pode ter achado acertado a sua decisão de não contar tudo aos seus aliados nos séculos que se seguiram após a guerra. Sauron foi derrotado e enviado para Mordor, e seu poder para ameaçar Eriador foi diminuído. Ele voltou sua atenção para as terras à leste da Terra-média, onde ele decidiu que ele poderia construir um grande império capaz de ameaçar Numenor e Gil-galad. Mas lá por volta do ano de 1800 os Numenoreanos começaram a mudar seu comportamento. A Guerra dos Elfos e Sauron haviam lhes mostrado a sua força, e essa força foi agora usada para dominar e escravizar outros Homens, ao invés de ajudá-los.

Seria perigoso revelar a existência dos Anéis do Poder para essa nova Numenor, pois logo os Dunedain começaram a questionar o seu destino, e a querer o tempo de vida dos Elfos. Quanto disso chegou aos ouvidos de Gil-galad só podemos supor, mas depois os Numenoreanos se dividiram entre os acampamentos dos fiéis e os homens dos Reis , e somente os fiéis continuaram a se fixar ou a visitar o noroeste da Terra-média, deve ter sido óbvio que os Reis de Numenor tinham se colocado num caminho de auto destruição.

Por seu lado Gil-galad tinha seus problemas. Vários Eldar deixaram a Terra-média depois da Guerra dos Elfos e Sauron. Provavelmente pareceu ser uma questão de tempo antes de Sauron crescer suficiente em seu poder para de novo desafiar Gil-galad e os Numenoreanos. Assim o poder de Gil-galad diminuiu e os Elfos permaneceram sob ataque constante mesmo durante os séculos em que a atenção de Sauron se voltava para o leste. Quando os Numenoreanos começaram a conquistar porções da Terra-média eles finalmente entraram em conflito com o reino de Sauron. As guerras de conquista poderiam retirar um pouco da pressão sobre os Elfos, mas seus Dias de Fuga parecem ter continuado até a decisão fatal de Ar-Pharazon de arrancar o controle sobre a Terra-média de Sauron.

Tecnicamente, Numenor poderiam ainda estar aliada de alguma maneira com os Elfos. Pelargir, o pátio real dos barcos [essencialmente uma base naval], tinha sido fundada perto das Quedas do Anduin em 2350. Apesar de ter sido transformado no porto sul pelos Numenoreanos fiéis,o nome da cidade implica que foi construída com a sanção real, e pode ter servido como base de operações nos conflitos com o reino de Sauron. O poder reunido pelos Numenoreanos em Pelargir através dos séculos pode ter servido para desafiar e provocar Sauron, embora Mordor na época tivesse sido mais um posto avançado do império de Sauron do que seu centro.

Gil-galad não tomou nenhuma atitude quando Ar-Pharazon trouxe uma armada para a Terra-média. Umbar, onde Ar-Pharazon aportou, era provavelmente muito ao sul para Gil-galad marchar ou velejar, e Ar-Pharazon muito provavelmente não queria nenhuma ajuda élfica mesmo. Ele veio para reinvindicar seu lugar como o Rei dos Homens, e nenhum Elfo seria necessário para ele afirmar a sua autoridade. De qualquer modo, o exército de Ar-Pharazon era tão grande que os aliados de Sauron o abandonaram. O Um Anel deixou Sauron na mão de novo. Então Sauron deixou Mordor e se entregou a Ar-Pharazon, permitindo que o rei o levasse para Numenor.

A partida de Sauron parece ter acabado de vez com as guerras com os Elfos. No decorrer dos 57 anos seguintes Gil-galad foi capaz de extender a sua influência pela parte norte do mundo, mesmo nos altos Vales do Anduin. Quando Elendil e seus filhos trouxeram nove barcos com sobreviventes do disastre de Numenor à Terra-média em 3319, Gil-galad ficou amigo deles e ajudou-os a estabelecer os reinos de Arnor e Gondor. O rei Elfo construiu três torres de onde se avistavam o Golfo de Lune para Elendil, e esses podem ter sido a primeira morada do rei de Dunadan na Terra-média. Mas apesar de ele ter cedido bastante autoridade a Elendil sobre Eriador, Gil-galad ainda nada disse [parece] sobre os Anéis do Poder.

Não seria até o ano de 3429, quando o Sauron reconstituído sentiu-se forte o suficiente para atacar Gondor, que Gil-galad se sentiu confrontado com o dilema moral dos Anéis. Ele guardou Narya e Vilya por mais de 1,000 anos. Nem ele nem nenhum outro Elfo havia usado os Anéis naquela época. Eles não se atreviam. Mas eles ainda se beneficiavam com a habilidade dos Anéis de inibir os efeitos do Tempo. Deve ter ficado óbvio para Gil-galad que os Elfos somente adiaram a inevitável decisão de destruir os Anéis. Ele pode não ter se convencido da necessidade de fazê-lo, ou que eles falhariam se o Um anel fosse desfeito, mas enquanto Sauron permanecesse uma ameaça aos Homens e Elfos não havia esperança dos Elfos alguma vez realizar o benefício integral dos Anéis dos quais eles tinham controle.

Então parece que Gil-galad revelou tudo para Elendil e seus filhos. Agora finalmente os Elfos confessaram seus pecados e eles resolveram junto com os Dunedain para embarcar na guerra final contra Sauron que teria resultado na sua completa derrota. Eles tinham o poderio militar para alcançar esse objetivo. O Povo de Gil-galad tinha crescido em número de novo, mas ele também tinha estabelecido relações com os povos dos Vales do Anduin, incluindo os bem mais numerosos Silvan Elfos governados por Oropher e Amdir. Elfo, Homem, e Anão se juntaram com um propósito comum e eles organizaram o maior exército da army Terra-média desde o fim da Primeira Era.

Mas os argumentos persuasivos de Gil-galad não devem tê-lo agraciado com Oropher, que como um Elfo Doriathrin era não simpatizante dos Noldor. Deve-se provavelmente a relação de Gil-galad com Thingol e a necessidade urgente de se fazer algo contra Sauron, que havia destruído as terras ao leste das Montanhas Nebulosas como as de Eriador, que fez com que Oropher se aliasse a Gil-galad. Oropher ainda assim recusou a marchar sob a bandeira de Gil-galad.

Levou três anos para Gil-galad e Elendil prepararem seus exércitos. Eles tinham que recrutar e treinar seus soldados,e aparentemente construir armas e armaduras. Mas eles devem ter gasto um tempo considerável preparando uma estratégia: pesquisar o terreno, testar as defesas de Sauron, talvez mandar reforços para Gondor para assegurar que Anarion não fosse sobrepujado. Deve ter havido considerável debate sobre como atacar Sauron. Deveria uma força do norte atacar Mordor enquanto o exército principal cruzava as montanhas, ou o ataque principal deveria vir do norte?

Em 3431 Gil-galad e Elendil cruzaram as Montanhas Nebulosas e marcharam para o sul. Em algum ponto eles se juntaram às forças de Khazad-du
m, Lorien, e Greenwood. A estratégia que eles selecionaram era ir direto para Mordor. Deve ter sido necessário escolher esse caminho por várias razões ,uma das principais sendo que seus exércitos eram grandes de mais para serem trasportados até Gondor facilmente. Mas Sauron parece ter aumentado suas defesas nos altos dos Vales de Anduin, tal que Lorien e Greenwood foram diretamente ameaçadas.Esse ataque de Gil-galad teria libertado esses reinos de perigo imediato.

A primeira maior batalha ocorreu nas terra ao sul de Greenwood onde as Entesposas haviam construído seus jardins. Nunca se soube o destino das Entesposas, apesar de que elas possam ter sido destruídas quando Sauron incendiou suas terras para evitar que a Última Aliança conseguisse ajuda de lá. As Entesposas poderiam no mínimo ter providenciado suprimentos para a Última Aliança. Sauron retrocedeu para o sul e a Última Aliança o seguiu. Eles alcançaram seu exército em Dagorlad, e lá inflingiram uma severa derrota a Sauron. Mas Amdir e o exército Lorien foram isolados nos Dead Marshes, e mais da metade dos Silvan Elfos de Lorien morreram. Gil-galad pode ter sido influenciado por essas perdas devastadoras pelo povo de Amdir"s people to hold up.

A Última Aliança posicionou suas forças na entrada norte de Mordor [onde ficaria o Morannon mais tarde], mas Gil-galad não conseguiu segurar Oropher, que lançou um assalto contra as defesas de Sauron prematuramente. Tolkien não diz como foi a batalha, mas Gil-galad muito provavelmente fez o mesmo que Fingon milhares de anos antes no Nirnaeth Arnoediad. Ele deve ter posto seu elmo e entrou na batalha na cola do ataque de Oropher , tarde demais para salvar Oropher, que morreu cedo. A Última Aliança ganhou o dia, entretanto, e abriu caminho para Mordor.

O que sobrou das forças de Sauron neste momento deve ter corrido ou sido aniquilado, e Sauron foi confinado a Barad-dur.Agora Gil-galad voltou a manter a política antiga dos elfos de cercar o lorde negro em sua fortaleza. Gil-galad tomou posiçao em Orodruin, perto do Sammath Naur onde o Um anel foi forjado. Gil-galad poderia ter destruído os Três Anéis então, talvez, mas ele preferiu não fazê-lo ou então os Anéis não foram levados para a guerra. Ele deve ter fortificado a montanha, entretanto.As notas apontam várias manobras durante os sete anos, e depois de seis anos de cerco Sauron ainda era capaz de arremessar pedras para fora de Barad-dur, pois Anarion foi morto naquele ano por uma daquelas pedras.

A estratégia de Gil-galad mudou radicalmente. A Última Aliança não mais tentava subjugar Sauron pela força, e a guerra se arrastava. Eles somente esperavam diminuir as forças de Sauron através de atritos para que no fim Sauron capitulasse. Mas Sauron ficou tão desesperado que ele formou um plano diferente. Ele procurou Gil-galad em Orodruin e o atacou diretamente. Elrond conta as pessoas em Rivendell que somente Elendil ficou junto a Gil-galad e que somente ele [Elrond], Cirdan, e Isildur viu o que aconteceu.O corpo de Sauron era tão quente que queimou Gil-galad, e matou-o, mas Elendil correu e conseguiu dar um golpe mortal contra Sauron. O Lorde Negro foi capaz ainda de reagir , e jogou Elendil no chão. E a espada de Elendil quebrou debaixo dele.

A estratégia final contra Sauron funcionou, mas provavelmente não como Gil-galad esperava. Será que ele queria realmente combater Sauron sozinho? Ele parece ter sido um rei cauteloso durante sua carreira. Para preparar para a Guerra dos Elfos e Sauron Gil-galad aumentou suas defesas ao longo do rio Baranduin. Ele deu a Elrond o comando de um pequeno exército para reforçar Eregion mas foi obrigado a retroceder para o norte. Sauron forçou seu caminho através do Baranduin e Gil-galad foi somente capaz de mater o Lune seguro contra ele. Portanto os recursos do Rei dos Elfos eram limitados e os limites desses rescursos devem ter ditado sua política.

Mas ele rapidamente ajudou Elendil a estabelecer o reino de Arnor, que se transformou no reino mais poderoso do norte. Porque era importante criar um grande reino de Homens? Era importante para Gil-galad preservar a grandeza de Numenor, ou era sua política de lidar com Homens através de Homens, uma decisão conservadora, talvez xenofóbica? Gil-galad não tinha problemas em lidar com povos Edainicos, mas qualquer outro tinha que ir através de seus representantes Nuemenoreanos.

A única vez que Gil-galad foi na ofensiva foi quando ele e Elendil formaram a Última Aliança de Elfos e Homens. Nesta época já devia ser óbvio que Sauron seria capaz de reconstruir seu poder com o Um Anel cada vez que alguém o derrotasse. O objetivo de Gil-galad deve ter sido achar e tomar Sauron prisioneiro, e de alguma maneira arrancar o Um Anel dele. Gil-galad pode não ter conhecido os segredos dos que fizeram os Anéis, mas ele deve ter sido capaz de aprender o suficiente para entender o verdadeiro perigo que o Um Anel representava. Devemos imaginar se Gil-galad teria usado os Três Anéis, ou permitido seu uso, se ele tivesse vivido e Isildur tivesse ainda assim tirado o Anel de Sauron. Prudencia teria aconselhado os Elfos a não usar os Anéis depois de Isildur ter sumido para o norte. Mas apesar de sábio, Elrond não seguiu o caminho da prudência.

Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português

Orc que é Orc não usa Windows!

Pesquisando sobre os Uruk-hai, me deparei com um
fato interessante: não existiam Uruk-hai na primeira vez que Tolkien
escreveu o capítulo que os introduziu. Ele não os havia concebido até
então. O título original do capítulo era “Uma caçada Orc" (“An
Orc-raid"?).
 
 
 
Bem, isso não soa muito excitante, não é? Na
verdade, na época em que Tolkien chegou nessa parte da história, os
Uruks (principalmente Uruk-hai) ainda estavam por aparecer.

Espere um pouco!, como diria Harry Potter. Vamos voltar um pouquinho e começar tudo de novo.

Enquanto a maioria das pessoas sabe que “orc" raramente aparece no O
Hobbit (Christopher Tolkien encontrou apenas uma aparição na primeira
edição do livro, por exemplo), você ainda pode encontrar algumas poucas
passagens com o termo “orc" na segunda e terceira edição. O que é
importante sobre a raridade de “orcs" em O Hobbit (e a quase raridade
de “goblin" em O Senhor dos Anéis) é que o uso dessas palavras
representam uma transição fundamental em relação às idéias de Tolkien
relativas às criaturas que ameaçaram os Hobbits.

Os goblins
assombravam a imaginação de Tolkien desde os tempos de escola. O mais
antigo exemplo que existe sobre os goblins na literatura é o poema
“Goblin feet", que foi publicado em 1915 na Oxford Poetry:


Eu estou fora da estrada Onde lanternas das fadas reluzem Onde pequenos
morcegos voam Uma escassa faixa cinzenta se afasta rastejante E as
cercas-vivas e a grama suspiram O ar está tomado por asas E besouros
estúpidos Que o avisa com seus zumbidos e zunidos O! eu escuto as
pequenas cornetas De duendes encantados E dos pés fofos de muitos
gnomos que se aproximam

O! as luzes! O! os lampejos! O! o som tilintante: O! o farfalhar de
seus pequenos mantos silenciosos! O! o eco dos seus pés – de seus
alegres pequenos pés: O! as suas lâmpadas que balançam em pequenos
globos iluminados pelas estrelas! Devo seguir no seu trem Pela a
tortuosa estrada das fadas Para onde os coelhos há muito partiram E
onde eles cantam argenteamente Em um círculo que se move sob a luz da
lua Todos brilham com as jóias que usam Eles se empolgam rodeando o
círculo Onde os vagalumes queimam palidamente E o eco dos seus pés
fofos se esvanece O! Está batendo no meu coração – Deixe-me ir! O!
Deixe-me começar! Pois as pequenas horas mágicas estão voando!

O! o calor! O! o zunido! O! as cores na escuridão! O! as brisas das
abelhas douradas! O! a música dos seus pés – dos seus pés de goblin
dancantes! O! a magia! O! a tristeza quando ela morre
.

Os Goblins são, claro, um dos principais elementos do folclore inglês.
Eles estão lá, glorificados por Shakespeare e contos de antigas
esposas, por tanto tempo quanto se pode lembrar. E os goblins têm
aparecido nos contos e poemas de Tolkien por tanto tempo quanto se pode
lembrar, mas apesar de hoje nós dizemos com confiança que goblins e
orcs são iguais, nem sempre foi assim.

No índice para The Book of Lost Tales, Part Two, Christopher Tolkien indexou o seguinte registro:

GOBLINS Freqüentemente usado como um termo alternativo para Orcs (cf.
Melko’s goblins, the Orcs of the hills 157, mas algumas vezes
aparentemente diferenciados, 31, 230)…

A primeira deriva do “Tale of Tinúviel", e descreve Angamandi (a fortaleza de Melko): “…Junto
estavam as câmaras tristes onde o noldo-escravo trabalhava amargamente
sob o comando dos Orcs e dos goblins das colinas…"

A
segunda passagem aparece em “The Nauglafring", e descreve como
Naugladur, um rei anão, reúne um exército de criaturas negras: “Além
disso ele reuniu em sua volta uma grande hoste de Orcs, e goblins
errantes, prometendo a eles uma boa retribuição, e o prazer de seu
Mestre eternamente, e uma boa pilhagem ao final…"

Ambas
as distinções são relativamente ambíguas. Tolkien poderia estar
utilizando Orcs e goblins de modo trocado para se referir a criaturas
similares, ou ele poderia estar sugerindo que algumas criaturas eram
Orcs e algumas eram goblins. Não está claro a sua intenção naquele
momento.

Porém, quando Tolkien escreveu O Hobbit para divertir
seus filhos, ele negligentemente misturou elementos de diversas
tradições, buscando deixar a sua história mais interessante. Ao
publicar o livro, ele a resumiu um pouco, e manteve os Orcs a um
mínimo, enquanto goblins abundam pelo conto.

Os goblins se
tornaram, em meados da década de 30, um dos elementos principais na
dieta das aventuras imaginárias da família Tolkien. As Father Christmas
Letters, enviadas por JRRT aos seus filhos entre 1920 e 1943,
ocasionalmente deleitaram as crianças com incidentes (e desenhos que
demonstravam como a confusão se resolveu) envolvendo goblins, pequenas
criaturas negras que podiam realizar travessuras infindáveis.

Os goblins de O Hobbit são uma mistura de diversas criaturas, tiradas
do folclore, do conhecimento de Tolkien e de idéias do livro The
Princess and the Goblin, de George Macdonald. Esses goblins não
precisam ser de maneira nenhuma muito sérios. Eles capturam Bilbo e
seus companheiros anões, mas deixam Gandalf, que mata seu líder, o
Grande Goblin, no coração da Cidade Goblin.

Mas os goblins de
O Hobbit gradualmente se tornam criaturas mais assustadoras,
parcialmente como parte do efeito do contar-de-histórias de Tolkien e
parcialmente devido à necessidade de introduzir uma ameaça convincente
próxima do fim da história. A Batalha dos Cinco Exércitos não havia
sido imaginada ainda, e Bolg do Norte marca a primeira aparição de um
personagem goblin de importância (mesmo que um que não fale nada)
visando publicação. Isto é, ele não havia sido concebido até que
Tolkien precisou apresentar um conto finalizado para o editor.

Quando O Hobbit se tornou um sucesso publicado, Tolkien tentou
brevemente trazer suas histórias do Silmarillion para publicação. Seus
editores queriam publicar mais livros sobre Hobbits, entretanto, e
Tolkien teve que colocar O Silmarillion (que substituiu The Book of
Lost Tales como seu projeto mitológico primário) de lado por muitos
anos.

Entre 1937 e 1948, Tolkien se empenhou em produzir uma
seqüência para O Hobbit que não se limitasse a entreter os seus
leitores, mas que também pudesse interessar a ele. Durante esses anos,
ele usou a palavra “goblin" menos e menos – chegando ao ponto de
reservá-la a umas poucas passagens de diálogo entre Hobbits – e “Orc"
mais e mais.

Enquanto pode se dizer que “Orc" soa mais
ameaçador que “goblin", Tolkien deve ter tido uma razão mais urgente
para abandonar a palavra que usara por muito tempo. Como filólogo, ele
indubitavelmente sabia da história da palavra “goblin", que veio para o
inglês arcaico do francês normândico. Isto é, goblins não são monstros
ingleses. Em vez disto, eles são nomeados para um gobelin, um espírito
que se diz ter assombrado a cidade francesa de Evreux em 1100.

Por outro lado, “Orc" possui um passado muito misterioso. Muitos
comentaristas agora sugerem que provavelmente veio da palavra
anglo-saxã orcneas, usualmente traduzida como “baleias" (porque vem do
Latim Orca, que significa “inferno" ou “morte"). O texto anglo-saxão
original é encontrado em “Beowulf", linha 112, “eotenas ond ylfe ond
orcneas"(Ettins e Elfos e Orcs – descendentes de Caim).

“Ettins" são gigantes ou trolls. Elfos são, no ponto de vista cristão,
criaturas malignas. Orcs são impossíveis de se descrever, exceto que
eles devem ser criaturas fantásticas familiares à audiência do poeta
Beowulf. Algumas pessoas hoje (e talvez até Tolkien) sugerem que eles
podem ter sido espíritos ou demônios (apesar de referir como um
descendente de Caim desta maneira não faz sentido). Entretanto, se um
Orc é um espírito ou um demônio, e um goblin é um espírito maligno,
então substituir Orc por goblin começa a fazer sentido.

Então,
em certo ponto de seu desenvolvimento da Terra-média, Tolkien pode ter
decidido abandonar “goblin" em detrimento de “Orc", porque “goblin"
possui uma história lingüística maculada (Tolkien não gostava muito da
língua Francesa).

E aqui as coisas se tornam interessantes,
porque mesmo que ele tenha sugerido algumas mudanças a serem feitas em
O Hobbit em 1947 para torná-lo mais compatível com O Senhor dos Anéis,
Tokien parece ter começado a experimentar assuntos-Hobbits anterior
àquele tempo.

Por exemplo, na Nota 35 para “O Anel vai para o
Sul", publicado em The Return of the Shadow, Christopher para para
refletir no uso de seu pai para “Orcs" na seguinte passagem (onde a
Sociedade discute sobre as Minas de Moria):

‘Eles não estão
longe’, disse o mago. Eles estão nessas montanhas. Eles foram feitos
pelos anões da família de Dúrin muitos séculos atrás, quando elfos
habitavam Hollin, e existia paz entre as duas raças. Naqueles dias
antigos, Dúrin habitou Caron-dun, e havia tráfego no Grande Rio. Mas os
Goblins – ferozes orcs em grande número – os expulsou após muitas
guerras, e muitos dos anões que escaparam rumaram para o norte
longínquo…

A nota é a que segue:

35 Esta não é
a primeira vez que a palavra Orc é usada nos rascunhos do SdA: Gandalf
se refere a ‘orcs e goblins’ entre os servos do Senhor do Escuro, pp
211, 264; cf. também pp 187, 320. Mas a raridade do uso neste estágio é
digno de nota. A palavra Orc nos remete ao Lost Tales, e difundido em
todos os escritos subseqüentes de meu pai. No Lost Tales os dois termos
foram usados como equivalentes, apesar de algumas vezes aparecerem de
formas distintas (vide II. 364, registro Goblins [1]). Uma
pista pode ser encontrada em uma passagem que ocorre tanto no antigo
Quenta quanto no novo (IV. 83, V. 233): ‘Eles podem ser chamados de
goblins, mas nos dias antigos eles eram fortes e caídos.’ Neste ponto
parece que ‘Orcs’ são para serem considerados como um tipo de ‘goblin’
mais formidável; então no primeiro esboço para ‘As Minas de Moria’ (p.
443) Gandalf diz “existem goblins – de uma espécie muito maligna, maior
que os normais, verdadeiros orcs.’ – é incidentalmente notável que na
primeira edição de O Hobbit que a palavra Orcs é utilizada apenas uma
vez (ao final do capítulo VII ‘Estranhos Alojamentos’), enquanto no SdA
publicado, goblins é raramente utilizada.

Ao escrever a
primeira versão de “A ponte de Khazad-dûm", Tolkien fez com que Gandalf
descrevesse que ele viu quando olhou para fora da Câmara de Marzabul
(da mesma forma que Gandalf faz na versão final da história): “‘São goblins: muitos deles,’ ele disse. ‘Eles parecem malignos e grandes: Orcs negros…’"

A frase “Orcs negros" foi eventualmente trocada por “Uruks negros de
Mordor", mas isso não aconteceria até a revisão de “Uma caçada Orc"
meses depois de Tolkien inventar o nome “Urukhai"e decidir que alguns
Orcs, maiores que outros, seriam chamados Uruks. E mesmo assim, a
importância dos Uruks só foi reunida nos apêndices, que Tolkien não
começou a trabalhar antes de 1950 (dois anos após ele ter completado o
texto primário de O Senhor dos Anéis).

Nas versões mais
antigas de “Os Herdeiros de Elendil" e “O Conto dos Anos", não existem
menções de Uruks, que no livro publicado se diz que apareceram pela
primeira vez no governo de Denethor I, regente de Gondor. Tudo o que
Tolkien diz sobre eles é “nos últimos anos de Denethor I a raça dos
uruks, orcs negros de grande força, apareceram pela primeira vez fora
de Mordor, e em 2475 eles passaram impetuosamente por Ithilien e
tomaram Osgiliath…"(O Senhor dos Anéis, Apêndice A).

No apêndice F, Tolkien tratou dos Orcs e da Língua Negra. No primeiro parágrafo, ele escreveu:


Orc é a forma do nome que as outras pessoas deram para esse povo
horrível como era na linguagem de Rohan. Em Sindarin era orch. Não há
dúvida que a palavra uruk está relacionada com a Língua Negra, apesar
de ter sido aplicada como regra apenas para os grandes soldados-orcs
que nessa época eram despachados de Mordor e Isengard. As raças menores
eram tratadas, especialmente pelos Uruk-hai como snaga ‘escravo’.

Assim, Tolkien afirma que ele utilizou a palavra derivada do inglês
arcaico ornceas, para representar a palavra Rohirric para os Orcs. A
transição de goblin para orc está completa, mas não de Hobgoblin para
Uruk.

Isto porque em O Hobbit, Tolkien utilizara a palavra
“hobgoblin" como um nome para Orcs maiores. Mas no folclore inglês, um
hobgoblin é um goblin pequeno, não um grande (na verdade, eles deveriam
ser espíritos domésticos). Tolkien estava, efetivamente, virando o
folclore inglês de cabeça para baixo, afirmando que os piores goblins,
os verdadeiros orcs, eram os hobgoblins.

De certa forma,
Tolkien estava corrigindo um erro. Ele transformou seus goblins,
espíritozinhos maliciosos em Orcs, criaturas caídas enviadas de Angband
(Inferno). Mas ele também elevou seus hobgobilns (Orcs maiores) ao
distinguir eles como “goblins das colinas" e “Orcs das montanhas". Eles
não eram espíritos domésticos como Robin Goodfellow. Eles eram Uruks.

Mais adiante, os Uruks se tornaram malignos, mortíferos, monstros
sérios capazes de intimidar e apavorar mesmo os maiores inimigos. Uruks
não babavam como os goblins de George Macdonald, não possuíam pezinhos
tamborilantes, e eles não eram nem um pouco amigáveis aos homens ou aos
amigos dos homens. Uruks são os Orcs mais malignos e malevolentes,
corrompidos até o ponto em que seus malignos senhores conseguem,
conservando apenas as qualidades humanas mais essenciais como coragem,
lealdade, amizade e (no caso dos Uruk-hai de Saruman), orgulho.

E Tolkien os fez muito parecido com os homens, inclusive mostrando suas
semelhanças físicas. Ele não queria, de maneira alguma, fazer com que
os Uruks parecessem pequenas criaturinhas de contos de fada. Nem ele
pretendia que se associasse os Uruks com fantasmas e espíritos, como
aqueles que teriam assombrado cidades da França medieval. Os Uruks eram
reais, tão reais que Gandalf (no texto publicado) não precisou
chamá-los de “Orcs de verdade".

Porém, o fascínio de Tolkien
pelos “Orcs de verdade" não terminou com O Senhor dos Anéis. Ele fez
fortes alusões a eles na seqüência abandonada para O Senhor dos Anéis,
The New Shadow, onde Orcs se tornaram pouco mais do que uma memória
assombrando a história dos Dúnedain e a sensibilidade da Gondor da
Quarta Era. Meninos brincavam de Orcs, sem ter uma idéia real do mal
que os Orcs um dia infligiram.

No lapso entre algumas
gerações, Tolkien supôs, que a memória dos “Orcs de verdade" se apagou
e foi substituído por um conceito mais divertido. E como a verdadeira
história inglesa pareceria para ele? Os Orcs de Beowulf foram
esquecidos e trocados na imaginação popular por um goblin francês. Mas
quem poderá um dia esquecer dos Uruks?

[1] Nota do Tradutor: Christopher Tolkien está se referindo à passagem do Book of Lost Tales 2, descrita logo acima neste mesmo texto no §11.

Viajando em Carroças com Hobbits

Provavelmente nunca haverá um filme do tipo Dias de Trovão celebrando as corridas de carroça entre a Vila dos Hobbits e Beirágua. Hobbits são por natureza um povo caseiro, cujos riscos mais selvagens tendem a ser roubar cogumelos e entrar e sair de botes. É claro, alguns ocasionais Tûks rumam para o Mar, mas até Gandalf ter atiçado Bilbo e Frodo Bolseiro a vagarem pela Terra Média, Hobbits provavelmente não passavam muito tempo fora de suas próprias terras por mais de mil anos.

 

Havia uma certa propriedade que acompanhava o Hobbit “literal”, um senso de que “tudo estava bem até este momento”. E este era um falso sentido de propriedade. Os Hobbits, como os Elfos, tinham seus próprios arrependimentos e preocupações. O povo do Condado tinha esquecido (ou parecia fingir ter esquecido) que eles uma vez viveram em Bri, que era agora uma terra estrangeira. E antes de morarem em Bri, eles viveram em terras ao leste das Colinas do Vento, ou ao sul do rio Gwathlo.

Estórias de Hobbits não se tornam interessantes a não ser que alguém agite suas vidas. Todos os dias, durante muitos anos, Hobbits viveram calmamente em suas colinas e jardins, e então alguém viria e tiraria sua inocência. Poderia ser devido a um Necromante, que transforma a Grande Floresta Verde na Floresta das Trevas. Ou poderia ser devido a um Rei-Bruxo que desencadeia uma devastadora série de guerras. Ou poderia ser um mago andarilho que decide ajustar alguns erros e percebe que os Hobbits podem escapar próximos ao escrutínio o suficiente para alcançar algumas coisas.

Qualquer que seja a causa, chega um dia na vida de um Hobbit em que ele põe a família em uma ou mais carroças e ruma para o interior. Tais migrações, ou fugas, devem ser difíceis para todos. Os líderes dos antigos Helvetii, um grupo de tribos celta que vive nos Alpes, a leste da Gália (França), forçava seu povo a queimar suas casas e vilarejos. Os Helvetii e seus aliados entraram na Gália sem nada além de suas carroças e os animais que puderam trazer com eles. Não havia como voltar atrás.

A decisão de deixar suas terras nos Alpes tem sido muito debatida. Os Helvetii não poderiam simplesmente partir por capricho. Alguns eruditos, ao longo dos anos, sugeriram – de fato, insistiram – que os Helvetii seguiam uma antiga prática celta chamada ver sacrum,uma expansão ritual das tribos dentro de novos territórios. Os celtas do Norte da Itália dividiam nomes tribais com os celtas da região Alpina e com os celtas da Gália.

Os Helvetii e seus aliados afirmaram que estavam fugindo para o oeste para escapar das tribos Germânicas e Eslavas. Júlio César usou a migração dos Helvetii como uma desculpa para estabelecer uma base de poder na Gália, e uma vez que ele derrotou os Helvetii, forçando-os a retornar aos Alpes, ele seguiu com a conquista de toda a Gália. As campanhas para a conquista da Gália de César desencadearam uma migração celta final, da Gália do Norte para a Bretanha.

Durante todo o tempo em que os antigos celtas se moviam ou expandiam, arranjos políticos regionais chegavam a Utumno numa cesta de mão. Qualquer que fosse o reino ou cidade que estivesse no caminho da migração, estava normalmente calçado, mas os inimigos dessas pessoas infelizes muitas vezes encontravam novos aliados nos celtas quando viajavam pelas terras. O costume do ver sacrum era disputado, apesar de ser mencionado apenas por antigos escritores. Mas arqueólogos e historiadores, em geral, aceitam que os celtas e os germânicos estavam provavelmente seguindo uma antiga prática de mandar embora os colonizadores assim que suas populações começassem a aumentar.

O registro arqueológico de comunidades agricultoras Européias sugere que, há aproximadamente 8000 anos, fazendeiros foram para a Europa a partir da Grécia. Sabe-se que eles pressionaram os clãs mais velhos e vagantes para o leste e norte. Os fazendeiros trouxeram com eles animais domesticados, ferramentas superiores, armas, e um conhecimento sobre agricultura que os possibilitou formar maiores famílias, viver em maiores comunidades e viver por mais tempo.

A agricultura e a pecuária aumentaram o poder dos clãs, para por fim se tornarem tribos e nações. Mas a tecnologia era insuficiente para suportar grandes populações. Então, a cada poucas gerações, os vilarejos tinham que exilar parte de suas populações. As fazendas locais estavam consumindo toda a terra com a sua tradicional tecnologia de “cortar e queimar”, que proporcionou breves períodos de boa agricultura antes que os agricultores tivessem que se mudar. Fazendeiros da América do Sul estão destruindo milhares de acres de Floresta Tropical todos os anos através de prática similar.

Apesar desse tipo de agricultura requerer que novas terras sejam abertas de tempos em tempos, os fazendeiros podem deslocar-se dentro da mesma região geral, de forma que seu número total não se modifique. Mas a agricultura alimenta muitas bocas famintas, e as pessoas tinham tendência de ter muitos filhos. Apesar de que a maioria das crianças não chegava à maturidade (por uma série de razões), as comunidades agricultoras gradualmente se expandiram para o leste e para o norte por aproximadamente 3000 anos.E então novos povos, que chamamos de Indo-Europeus, começaram a ir para a Europa, e iniciaram o processo de expansão novamente.

Os Indo-Europeus não eram simplesmente agricultores. Eles eram guerreiros, nômades e inventores. Eles projetaram carroças que eram eficientes, fáceis de construir e manter,e capazes de transportar muitas mercadorias. O projeto de carroça dos Indo-Europeus permaneceu essencialmente inalterado até o século XIX, quando pioneiros americanos e vassalos russos usavam vagões que se pareciam muito com os seus antecessores de 5000 anos antes, para abrir terras em dois continentes.

Esses povos Indo-Europeus que se mudaram para a Europa se estabeleceram entre os fazendeiros nas terras densamente plantadas e adotaram um pouco de seu estilo de vida. Um desses costumes era a tradicional prática de cortar e queimar. De acordo com Tacitus, que escreveu sobre eles no século I DC, os Germânicos, um grupo ao norte dos Indo-Europeus, adotaram o costume de obrigar as famílias a sair de suas fazendas todos os anos. Tacitus tinha a impressão de que as tribos germânicas de certa forma aglomeravam-se no interior, queimando suas casas e reconstruindo-as a cada ano.

Tais medidas devem ter sido extraordinárias, e eles devem ter tido motivos políticos por trás de tudo. A Arqueologia nos mostra que existiam cidades fortificadas no norte da Europa, conectadas por estradas e rotas comerciais ao longo de estuários até antes de 1400 AC. Os Germânicos Ocidentais, dos quais vieram os Saxões, Francos e Borgonheses da primitiva História Medieval, eram possivelmente as tribos mais primitivas do n
orte. Mas eles, no entanto, tinham suas próprias cidades grandes e podiam reunir respeitáveis exércitos capazes de destruir legiões Romanas experientes, incluindo as malfadadas três legiões de Quinctilius Varus no começo do primeiro século DC.

Todos esses fazendeiros bárbaros viajantes provavelmente mais forneceram a Tolkien em esquema para as migrações dos Hobbits. Os Hobbits não gostavam de guerras. Eles não conquistavam impérios. Ao invés disso, eles achavam suas própria terras confortáveis e se fixavam por tanto tempo quanto às políticas locais permitiam. Assim como os Celtas e os Germânicos, que divergiram das mesmas subculturas ancestrais Indo-Européias em algum tempo no fim do terceiro ou segundo milênio AC, os Hobbits se dividiram em duas populações após terem entrado em Eriador.

Agora, muitas pessoas serão rápidas ao apontar que havia três grupos de Hobbits: Pés-peludos, Grados e Cascalvas. Sim, isso mesmo. Mas os Cascalvas e os Pés-peludos permaneceram no Norte. Eles cruzaram as Montanhas Sombrias através da Passagem Alta (acima de Valfenda – a mesma passagem onde Thorin e a Companhia foram capturados por Orcs em O Hobbit) e estabeleceram-se em Rhudaur, provavelmente entre o Mitheithel e as Colinas do Vento.

Os Grados cruzaram as Montanhas Sombrias pela passagem do Chifre Vermelho e se dividiram em dois grupos. Alguns foram ao norte para o Angle e ficaram em Cardolan. Os outros se estabeleceram em Terra Parda, ao sul da fronteira de Cardolan. Não é apenas uma coincidência que as famílias de Hobbits que descendiam dos Grados da Terra Parda tinham nomes célticos, enquanto famílias de Hobbits que descendiam de grupos do norte tinham nomes germânicos. Muitos leitores observaram ao longo dos anos como os Terra-pardenses parecem ser um pouco “celtas”.

De fato, todo o povo de Bri tem nomes relacionados a motivos populares celtas (Macieira, Carrapicho, etc). Isto é, são nomes relacionados à natureza. Quer estejam certas ou erradas, as pessoas têm – desde o final do século XVIII – cada vez mais associado os celtas e os druidas com à adoração à natureza e uma espécie de anti-pastorialismo em cidades. Na realidade, os celtas eram grandes e ativos construtores de cidades. Mas nos lembramos deles principalmente por seus fortes em colinas, migrações e por seus misteriosos druidas.

A identificação céltica de Tolkien para com os Terra-pardenses e seus parentes é estabelecida principalmente através de nomes de lugares, como por exemplo, para a terra de Bri. Bri (Bree) é uma palavra britânica para colina e Archet, Coombe e Staddle são todos nomes derivados da antiga língua Britânica (Celta). A animosidade entre os Terra-pardenses – é dirigida de sua terra natal pelos Rohirrim – e os Rohirrim também se assemelham aos Contos Arturianos dos Celtas contra os Saxões.

O próprio Tolkien indicou a conexão celta no apêndice F de Senhor dos Anéis:

…Os nomes dos habitantes da Terra dos Buques eram diferentes daqueles do resto do Condado. As pessoas do Pântano e seus descendentes da margem oposta do Brandevin eram estranhos em vários sentidos, como se disse. Foi sem dúvida do antigo idioma dos Grados do Sul que herdaram muitos de seus estranhíssimos nomes. Normalmente deixei-os inalterados, pois, se agora são esquisitos, já eram esquisitos em sua própria época. Possuíam um estilo que talvez devamos, vagamente, considerar como “céltico”.

Como a sobrevivência de vestígios da antiga língua dos Grados e dos Homens de Bri se assemelha à sobrevivência de elementos célticos na Inglaterra, minha tradução às vezes imita estes últimos. Assim, Bri, Archet e a Floresta Chet são baseados em relíquias da nomenclatura Britânica, escolhidos de acordo com o sentido: Bree “colina”, chet “floresta”. Mas somente um nome de pessoa foi assim alterado. Meriadoc foi escolhido para refletir o fato de que o nome abreviado desse personagem, Kali, significa, em westron, “alegre”, “jovial”, apesar de ser na verdade uma contração do nome Kalimac, da Terra dos Buques, sem significado na época.”

Podemos falar sobre quatro períodos da migração dos Hobbits dentro das histórias estabelecidas por Tolkien: A) sua migração original para os Vales do Anduin, que o ensaio “Anões e Homens” em The Peoples of Middle-Earth indica ter ocorrido no início da Terceira Era; B) suas migrações para Eriador, que o apêndice B de Senhor dos Anéis diz ter ocorrido nos séculos XI e XII da Terceira Era; C) suas migrações para o oeste, para Arthedain, ou para o leste, de volta aos Vales do Anduin e D) suas migrações para o Condado.

O Condado, é claro, se expandiu alguns séculos depois para a Terra dos Buques, e muitos séculos depois para o Marco Ocidental. Mas essas expansões parecem ser diferentes do que as volkvanderungs* dos períodos iniciais. Clãs inteiros deixavam suas terras natais, talvez queimando suas casas para desencorajar seus próprios retiros, e passaram por vastas regiões até alcançar novas terras onde deveriam começar novamente. Tudo o que uma família Hobbit auto-suficiente tinha deveria ir na mudança, em suas costas, ou em carroças puxadas por pôneis e/ou gado pequeno.

Todas as três primeiras migrações ocorreram por razões similares: guerra, ou a ameaça da guerra, tirou os Hobbits de suas terras, assim como os Helvetii e seus aliados deixaram a Helvetia (aproximadamente a mesma região ocupada pela Suíça) no século I DC devido a uma ameaça de guerra a partir do leste e do norte. A Quarta migração se diferenciou das migrações porque, pela primeira vez, os Hobbits migraram em tempos pacíficos. Isso era mais ou menos como um ver sacrum dos povos celtas. Os chefes dos Hobbits, Marcho e Blancho, reuniram o máximo de pessoas que poderiam segui-los e partiram para a terra real de antigamente, além do rio Brandevin.

Devido a razões desconhecidas a nós, os Hobbits dividiram sua nova morada em quatro partes, as quatro Quartas. A divisão provavelmente não ocorreu de imediato. Até certo ponto, deve ter sido estabelecida após a queda de Arnor, depois de Angmar ter sido derrotada e os Hobbits poderem voltar para sua terra natal. Suas casas provavelmente haviam sido destruídas, e os Hobbits teriam que construir tudo novamente. Foi somente quando Aranath (aparentemente anunciado que Aranath) não reestabeleceu o acordo com o rei que os chefes do Condado começaram a organizar questão por conta própria.

Os Hobbits do Condado se estabeleceram em pequenos povoados construídos ao redor de clãs de liderança, que, ao longo de mil anos, em sua maioria fracassavam. Algumas das antigas famílias conservavam suas distintas tradições de clãs, mas muitos se tor
naram homogeneizados em uma sociedade totalmente sedentária.

Eles abriram novas terras, para ser exato, mas somente uma única grande migração é mencionada antes do retorno da autoridade real na Quarta Era. Os Oldbucks deixaram o Condado (ou alguns deles deixaram) e se estabeleceram na Terra dos Buques. Por que um Thain escolheria desistir de sua autoridade é um mistério, mas pode ser que a família Oldbuck havia se tornado tão numerosa que eles simplesmente precisavam de uma terra própria. Nesse caso, as antigas migrações dos celtas ecoam vagamente na última grande jornada Hobbit da Terceira Era.

Os Fazendeiros Celtas eram bem avançados para o seu tempo. Eles eram, de fato, melhores fazendeiros que os Romanos (de acordo com algumas opiniões). Os Celtas usavam arados de ferro e desenvolveram a rotação da safra. Então, apesar de sua reputação de vagar por todos os lugares, os Celtas tentavam permanecer no mesmo local o tanto quanto fosse possível. As migrações são consideradas uma solução para o problema de população crescente.

Os Hobbits, sendo pessoas diminutas, não requeriam tanta terra quanto homens de tamanho normal, mas eles ainda assim deveriam invadir novas terras a cada algumas gerações. O Condado deve ter sido uma região muito grande para as populações iniciais, evidentemente reduzida em 1636 (A Grande Praga) e 1974 (A Queda de Arnor). Como os Oldbucks cruzaram o Brandevin, os Tûks devem ter mandado colonizadores para o norte após a Batalha dos Greenfields (2747), uma vez que Bandobras Tûk tinha muitos descendentes na parte norte do Condado.

As comunidades mais velhas estariam assim estáveis e auto-suficientes, constantemente mandando um fluxo de colonizadores às comunidades mais jovens, que, em troca, teria dado origem às novas comunidades próximas às beiras do Condado. O presente de Aragorn do Marco Oeste para o povo do Condado no começo da Quarta Era demonstrou a necessidade de expansão mais uma vez. O estabelecimento do Marco Oeste teria sido um evento importante. Por todo o antigo Condado, famílias de Hobbits estavam enchendo as carroças, dizendo adeus aos seus amados e partindo à procura de uma nova vida.

Abrir novas terras e encarar os perigos que elas podem trazer (tais como as árvores zangadas da Floresta Velha) não são aparentemente aventuras para os Hobbits e sim feitos nascidos da necessidade. Armados com machados, escavadeiras, martelos e picaretas, os Hobbits começavam a tarefa árdua de conquistar novas terras, cujos habitantes anteriores haviam fugido. Portanto, eles não tinham necessidade de se tornar os grandes guerreiros de que os Celtas eram tão renomados por ser. Um fazendeiro Hobbit somente precisava defender sua safra contra as incursões dos filhos famintos do vizinho.

Mas se as pessoas imaginam para onde os Hobbits foram, a resposta deve ser óbvia. Houve um tempo onde as invasões dos Homens eram demasiado ameaçadoras. Os antigos limites haviam sido quebrados ou esquecidos. Então, eles encheram suas carroças, junto com seus pôneis e pequenas vacas e partiram pela estrada, seguindo para o oeste. De algum modo, eles não foram para o Mar, mas eles continuaram se movendo. E agora eles ainda estão na estrada. Crianças, carroças e tudo.

* volkvanderungs: migrações dos povos, em alemão.


Tradução de Helena ´Aredhel´ Felts

Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português

Todos os cavalos dos reis e todos os homens do rei

“Osanwë-Kenta” é um estudo interessante, porém confuso. Christopher Tolkien acredita que ele foi composto ao mesmo tempo que “Quendi e Eldar” (cerca de 1959), cuja maior parte foi publicada no War of the Jewels (N. do T.: Guerra das Jóias, um dos HoME). “Quendi e Eldar” é uma coleção de pequenos estudos que provêm o desenvolvimento etimológico de certas palavras que os elfos usavam para nomear a si mesmo e outros povos, ou para se referir a indivíduos de certas maneiras.

O primeiro texto é carregado com notas históricas e anedotas que revelam muito mais sobre a história élfica que algumas passagens do Silmarillion. Infelizmente, o material do “Quendi e Eldar” não é compatível com O Silmarillion. E apesar de sabermos que as decisões editoriais de Christopher Tolkien impactaram o texto do Silmarillion consideravelmente, as discrepâncias entre esses dois trabalhos vão bem além dos possíveis erros editoriais.

“Quendi e Eldar” é intitulado “Origens e significados do élfico referindo-se aos elfos e suas variedades. Con apêndices dos seus nomes para outros Incarnados.” “Osanwë-Kenta” é intitulado “Investigação sobre a Comunicação de Pensamento”. E se o assunto estipulado desses dois trabalhos não é diferente o bastante, um terceiro corpo de escritos também está associado à eles: um estudo sobre a origem dos Orcs, publicado no Morgoth’s Ring (HoME), com uma introdução na página 415 que menciona “Quendi e Eldar” e “Osanwë-Kenta”.

Christopher publicou o estudo de Orcs primeiramente como parte da coleção de escritos “Myths Transformed”, no qual a cosmologia da Terra-Média foi gradualmente expandida e revisava para excluir algumas das mais velhas tradições datadas de 1916-17.

A conexão entre “Orcs” e “Quendi e Eldar” fica na entrada do Apêndice C do “Quendi e Eldar”, onde Tolkien escreve:

“…Os Orcs das últimas guerras, depois da fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-Média, não eram espíritos ou fantasmas, mas sim criaturas vivas, com capacidade de fala, de manufatura e organização, ou pelo menos capazes de aprender tais coisas de seus mestres. Eles se multiplicavam rapidamente sempre que não eram perturbados. É impossível, como a consideração da origem final dessa raça deixa claro, que os Quendi tenham encontrado qualquer raça ou tribo de Orcs, antes de serem achados por Orome e a separação dos Eldar e Avari.”

Christopher escreve: “Sem dúvida meu pai perdeu o controle das palavras em ´É impossível, como a consideração da origem final dessa raça deixa claro…´ para escrever aquele ´consideração´…” E este é o estudo sobre Orcs, quando Christopher colocou no Morgoth’s Ring o que deve ser um dos mais confusos e debilitantes preâmbulos da história da escolaridade literária.

Morgoth’s Ring foi publicado em 1993, e o War of the Jewels veio em 1994. Um ano depois de ler essa introdução ao estudo dos Orcs, finalmente nos permitem ver o trabalho em quase toda sua plenitude. Porém, não o seria até Vinyar Tengwar de Julho de 1998 (número 39) ser publicado, quando finalmente seríamos introduzidos à uma parte substancial do apêndice D do “Quendi e Eldar”, que Christopher tinha omitido da publicação por “falta de espaço”.

Bem, ninguém pode discutir muito com “falta de espaço”. Muitas pessoas esperaram mais de 40 anos para ver como os reais apêndices do Senhor dos Anéis pareciam, graças à “falta de espaço” que forçaram J.R.R. Tolkien a diminuir o material para até metade do conteúdo original. Mas a “falta de espaço” não deixou a coleção “Quendi e Eldar” num estado incompleto e desgrenhado. Porque, você verá, outra parte do “Osanwë-kenta” foi publicado no Vinyar Tengwar de Julho de 2000 (Número 41). As “notas etimológicas no Osanwë-Kenta” eram desconhecidas à Carl Hostetter quando ele publicou “Osanwë-kenta” numa antiga edição do VT.

A história inteira parece com isso:

Perto do ano 1959, J.R.R. Tolkien colocou de lado seus esforços n´O Silmarillion para dar a si mesmo um pouco de história. Numa entrevista à televisão datada da metade dos anos 60, Tolkien disse que ele desgostava da história se não fosse uma história das palavras. Palavras dizem muito sobre as pessoas que as usavam, e ele gostava de explorar tais assuntos. “Quendi e Eldar” é então uma aventura na história pelas palavras. As palavras sozinhas significam pouco a menos que tivessem uma história acompanhando, então Tolkien criou essa história.

Estudando as raízes das palavras élficas para “povos” (e palavras correlatas), Tolkien descobriu de onde as três famílias vieram, e daí ele aprendeu quem eram os pais elfos. Pelo caminho ele notou que os elfos de Cuivienen devem ter encontrado alguns tipos de proto-orcs mas não os verdadeiros orcs das guerras, e ele tinha que descobrir de onde esses orcs vieram para entender porque isso deveria ser.

Mas à medida que ele ia documentando a história da linguagem, seu uso e desenvolvimento, Tolkien não podia deixar de falar sobre a língua e de como os Noldor a estudava. Eles estudavam sua própria língua e o Valarin (a língua de Valinor), assim como o dialeto de Quenya falado pelos Teleri de Alqualonde e o que falavam os Vanyar. O Silmarillion nota que a língua dos Teleri mudou durante sua jornada em Tol Eressëa, e foi sem dúvida essa velha tradição que (em parte) inspirou Tolkien a devanear sobre os obscuros caminhos da história da linguística élfica.

Mas como o “Osanwë-kenta” entra nisso?

A conexão parece ser o evasivo Pengolodh, que aparece aqui e ali nos HoME. Pengolodh era um senhor da tradição Noldorin, um dos Lambengolmor (Conhecedores das Línguas). Ele era um elfo do povo de Turgon em Gondolin, e tinha uma filiagem mista, Noldor e Sindar. Pengolodh sobreviveu à queda de Gondolin e (presumivelmente) vagou com o grupo de exilados do bando de Tuor e Idril. Ele chegou em Eregion na Segunda Era, e eventualmente fugiu da Terra-Média quando aquele reino foi destruído. Pengolodh era o último membro sobrevivente dos Lambengolmor quando navegou através do Mar.

Osanwë-kenta abre com o seguinte parágrafo:

“No fim do Lammas Pengolodh discute brevemente a transmissão de pensamento (sanwë-latya “though-opening”), fazendo várias asserções sobre ele, que evidentemente são baseadas em teorias e observações dos Eldar, que em algum lugar eram dissertadas longamente. Eles estão preocupados primeiramente com os Eldar e os Valar (incluindo os Maiar nessa ordem). Homens não são especialmente considerados, exceto no caso de estarem no mesmo nível dos Incarnados (Mirroanwi). Deles Pengolodh diz apenas: “Homens tem a mesma faculdade dos Quendi, mas são mais fracos graças à força do hröa, sobre o qual a maioria dos homens tem pequeno controle.”

“Osanwë-kenta” é apresentado como o trabalho de um autor inominado – provavelmente Bilbo Bolseiro, apesar de Carl Hostetter notar “é… tentador identificar esse redator, como aquele do ´Quendi e Eldar´, como Ælfwine, o marinheiro anglo-saxão que foi o tradutor e comentador de outros trabalhos de Pengolodh, tais como o Quenta Silmarillion (LR: 201, 203-4, 275 fn) e, notavelmente, Lhammas B (cf. LR:167)”.

Porém, em 1959 Ælfwine tinha desaparecido da mitologia e todas as traduções confiáveis do élfico foram atribuídas a Bilbo (o autor oginial d´O Livro Vermelho do Marco Ocidental) e subsequentes escolados, incluindo Merry, possivelmente um ou mais Tuks, e ao menos um escolado gondoriano: Findegil, o escriba do rei, que fez a cópia do Livro do Thain, que Tolkien alega ser sua fonte para o SdA. Tolkien valida o Livro do Thain como a autoridade suprema em muitas coisas salvo as histórias de Bilbo e Frodo (no prólogo do SdA):

“O Livro do Thain foi então a primeira cópia feita do Livro Vermelho e continha muito que tinha sido omitido ou perdido. Em Minas Tirith ele receber anotações, e muitas correções, especialmente nomes, palavras, e citações nas línguas élficas; e ali lhe foi adicionado uma versão abreviada do Conto de Aragorn e Arwen, fora do conto da Guerra. O conto inteiro é dito ter sido escrito por Barahir, neto de Faramir, algum tempo depois da morte do Rei. Mas a importância maior da cópia de Findegil era que ela continha todo o trabalho do Bilbo em “Traduções do élfico”. Esses três volumes eram um trabalho de grande perícia e conhecimento, no qual, entre 1403 e 1418, ele usou todas as fontes disponíveis para ele, vivas e escritas. Mas desde que eles foram usados por Frodo, quase totalmente preocupado com os Dias Antigos, nada mais é dito dele aqui.”

É possível que o narrador inominado fosse Findegil, ou outro escolástico gondoriano (de fato, foi meu primeiro impulso sugerir isso), mas Bilbo também conquistou um status de sábio nas palavras “Esses três volumes eram um trabalho de grande perícia e aprendizado…”. Quem, devemos perguntar, notou-os serem grandes trabalhos? Talvez a pesquisa de Bilbo só fora totalmente apreciada em Gondor, e provavelmente somente depois que Peregrin retraiu-se para Gondor em FA 64, levando o Livro do Thain com ele (à pedido de Elessar)

Alguns dos comentários dos apêndices do SdA estão entre aspas, que é a maneira de Tolkien de sugerir que está citando diretamente do Livro Vermelho. Por exemplo:

“Nosso rei, nós o chamamos; e quando ele vem para o norte e fica um tempo perto do lago Evendim, então todos do Condado ficam felizes. Mas ele não entra nessa terra, e se prende à lei que criou, que ninguém do Povo Grande deve passar essas bordas. Mas ele cavalga frequentemente com alguns amigos até a Grande Ponte, e lá ele saúda seus amigos, e outros que quiserem conhecê-lo; e alguns cavalgam com eles e ficam em sua casa pelo tempo que desejarem. O Thain Peregrin esteve ali muitas vezes, assim como o Mestre e Prefeito Samwise. Sua filha Elanor a Bela é uma das donzelas da Rainha Vespertina.”

Essa passagem deveria ter sido escrita entre os anos FA 15 e 30, os anos nos quais Elanor virou uma donzela da rainha e casou-se com Fastred de Greenholm. A língua não é nada comparada com os comentários do “Osanwë-kenta” e outros trabalhos sobre os Dias Antigos. Mas não pode ser o comentário de Bilbo porque ele não estava no Condado durante essa época. O “Traduções do Élfico” do Bilbo representa então um espaço em branco que Tolkien teve que preencher com o tempo. “Quendi e Eldar”, “Osanwë-kenta” e “Orcs” (para não mencionar o próprio Silmarillion) são todos partes de trabalhos antigos que Bilbo traduziu e preservou.

Bilbo era um mestre linguista, e sua mão deve ter sofrido à cada história que gerou o Livro Vermelho. Ele sabia Quenya e Sindarin, e deve ter aprendido bastante com os elfos de Valfenda, alguns dos quais se dúvida conheciam Pengolodh. De fato, pode ser que o povo de Elrond, sendo em maioria Noldor, eram mais familiares com Pengolodh do que outros senhores élficos, dos quais muitos poucos são nomeados. O colapso total da civilização Eldarin na Primeira Era, e a perda de muitos elfos no fim da Segunda, teria diminuído o poço de recursos que Elrond lhe proveu, e até os próprios recursos de Bilbo eram limitados.

O propósito de “Osanwë-kenta” é explicar como, ou porquê, dois seres podem se comunicar por pensamento. Mas rapidamente cai numa discussão sobre o personagem de Melkor e suas motivações, opostas às de Manwë. Melkor usa a habilidade inata comum à todas as criaturas racionais (diminuídas em certas ordens, como elfos e homens) para se comunicar por pensamento como uma maneira de aproximar-se e seduzir as vontades dos seres mais fracos. Ele não poderia forçar outra vontade à fazer o que desejasse, não até ele ter iludido-a. Isto é, Melkor não pode influenciar diretamente o pensamento de outro ser, mas poderia indiretamente levar outros seres a pensar que eles quissessem fazer tal. Entre os Eldar de Aman, ele contava com a linguagem, cuja maestria impressionava até mesmo os Vanyar, apesar de Manwë ter-lhes advertido que Melkor teria adquirido tal habilidade com sua língua.

O estudo termina com uma discussão sobre a decisão de Manwë ter restaurado a liberdade à Melkor. Ele concorda dizendo que, se Manwë não tivesse feito isso, ele teria ficado como Melkor, rebelde aos olhos de Ilúvatar. Uma das notas atadas ao estudo também fala de premonição. Comunicação de pensamento, a natureza do bem e do mal, premonição – inclusive a idéia de se um Valar pode ficar preso numa forma escolhida (corpo) – “Osanwë-kenta” viaja por todo lugar, pulando de idéia em idéia quase tão rápido quanto a pena do autor.

O material do final dos anos 50 representa uma era altamente produtiva de carreira de Tolkien, apesar de insatisfatória. Quanto mais escrevia sobre a Terra-Média, mais tinha que escrever para explicar o que tinha escrito. Respostas viraram questões, questões continuaram sem resposta, e idéias rolavam de sua mão como rochedos na montanha de Caradhras.

Parece, todavia, que tudo estava levando de volta à mitologia que Tolkien escreveu para o Senhor dos Anéis. A porção do Apêndice D do “Quendi e Eldar”, que Christopher omitiu do War of the Jewels, fala principalmente com a carreira de Fëanor como um senhor da tradição élfica. O estudo da línguagem de Fëanor e suas motivações políticas são mais elucidadas no “A Senha de Fëanor”, que Christopher publicou no The Peoples of Middle-Earth, o décimo-segundo e último volume da série HoME.

Linguistas focaram-se na primeira parte do “Senha” porque ele provêm detalhes sobre o desenvolvimento do Quenya Noldorin, enquanto historiadores se focaram na segunda parte do “Senha” porque ele oferece detalhes na geneologia final dos Noldor. “A Senha de Fëanor” foi composta em 1968 ou depois, e foi terminado quase uma década depois do “Quendi e Eldar”. Parece, logo, que Tolkien se sentiu insatisfeito com o que escreveu no “Osanwë-kenta” e decidiu expandir a história de Fëanor. Christopher conclui, no HoME, que seu pai usou genealogias escritas no fim dos anos 50 enquanto escrevia no “A Senha de Fëanor”. É possível, até provável, que Tolkien tinha alguns ou todos os papéis do “Quendi e Eldar” ao alcance.

Porém, como Ælfwine, cuja última aparição ocorreu em algum lugar dos anos 50 (de acordo com a própria análise do Christopher), Pengolodh está estranhamente silencioso no “A Senha de Fëanor” e nos textos que o acompanham. Os textos de Pengolodh foram despedaçados com o tempo, e a tradição sobre Pengolodh caiu em más línguas com Tolkien. A necessidade de prover uma voz anciã para as traduções de Bilbo foi colocada de lado pela necessidade de Tolkien de revisar a cosmologia e aplacar seu senso de perfeição. No curso dessas mudanças, ele inevitavelmente esqueceu de alguns conceitos que ele tinha apenas tocado.

Nós sabemos agora que os Vanyar não apenas vagueavam pelas florestas de Valinor ou sentavam-se nos salões de Manwë e ficavam cantando o dia inteiro. “A Senha de Fëanor” (na seção publicada na Vinyar Tengwar de Julho de 2000) e, numa outra extensão, “Osanwë-kenta” indica que os Vanyar tinham seus próprios mestres de tradição, alguns dos quais argumentaram com Fëanor sobre princípios linguísticos. Podemos deduzir que os Vanyar tinham uma curiosidade quanto à linguagem que quase se igualava à dos Noldor. Mas os Vanyar podem não ter se importado com a história da linguagem tanto quanto seu uso. Os senhores de tradição Vanyarin de fato concordam com Fëanor em teoria, sobre a questão de objetar a mudança no som, mas por causa de sua veemência em condenar a mudança, Fëanor alienou seus potenciais aliados entre os Noldor e os Vanyar.

Também é possível deduzir algo da história de Aman depois do fim da Primeira Era de alguns desses escritos e outros textos. Tolkien ocasionalmente joga uma alusão à Aman no presente, talvez inconscientemente, talvez com vontade de tornar possível algum contato com as Terras Imortais. Nos disseram que muitos dos escritos sobre Númenor foram perdidos na Queda. Então, toda a correspondência com os Eldar de Tol Eressëa, e os jornais e contos sobre as visitas dos Elfos, foram perdidos. No máximo, Elendil e seu povo trouxeram alguns livros de Númenor, mas destes muitos se perderam pelos séculos e pelas guerras. A perda das fontes numenoreanas livrou Tolkien de escrever muitas histórias. Mas também reforça a visão de que qualquer texto razoavelmente completo falando dos Dias Antigos está no “Traduções do Élfico” de Bilbo Bolseiro

Apesar de Tolkien ter contemplado como produzir os 3 volumes das “Traduções”, é evidente que ele nunca procedeu muito longe nesse caminho, e preferiu escrever e reescrever as historias principais do “Quenta Silmarillion” e seus textos acompanhantes. Os estudos linguísticos são experimentais, e nos dão pequenos pedaços de sabedoria ao longo do processo de desenvolvimento. Como Humpty-Dumpty na sua cantiga de ninar, as Traduções do Élfico representam uma herança perdida que nem meso um exército de pesquisadores seriam capazes de recuperar. Não há nada realmente a recuperar, mas “Quendi e Eldar”, “Osanwë-kenta” e “Orcs” podem merecer atenção especial no futuro. Nós provavelmente só começamos a juntar as peças.

[Tradução de Aarakocra]