Diversidade no elenco de “o senhor dos anéis”? Sim, é possível — e desejável

A presença de pessoas com origem asiática, latino-americana e africana no elenco da nova série “O Senhor dos Anéis”, que está sendo produzida pela Amazon, gerou acusações de “lacração” por parte de alguns fãs. O vídeo abaixo tem o objetivo de mostrar que, pelo contrário, a presença desses atores ressalta alguns aspectos importantes e menos maniqueístas da obra, em especial nos textos mais maduros de Tolkien. Discuto isso com base em trechos dos livros “O Silmarillion”, “Contos Inacabados” e “O Senhor dos Anéis”. Discuto também aspectos do pensamento ambiental e antropológico da obra de J.R.R. Tolkien. Confira.

Namárië, Christopher

É com profundo pesar que informamos Christopher John Reuel Tolkien, filho e “testamenteiro literário” de J. R. R. Tolkien, recebeu hoje a Dádiva dos Homens aos 95 anos.

Christopher John Reuel Tolkien

Os detalhes ainda são escassos e optamos por não publicar apressadamente informações de origem incerta; sabemos, porém, que Christopher faleceu na madrugada de hoje (pelo fuso-horário de Paris) no centro hospitalar de Dracénie, em Draguignan, departamento francês do Var. A notícia foi publicada originalmente pelo jornal Var-Matin (original em francês, disponível em uma tradução automática para o inglês), repercutida pela Sociedade Tolkieniana Alemã (Deutsche Tolkien Gesellschaft) e confirmada há cerca de trinta minutos pela Tolkien Society Britânica.

As informações ainda são escassas e publicaremos novos detalhes assim que estes estiverem disponíveis, se esse for o desejo da família.

as origens da mitologia de tolkien no sesc!

Mais uma passada rápida por aqui pra fazer um novo convite: quem estiver em Jundiaí e adjacências amanhã, quarta-feira, dia 17/07, está convidadíssimo a vir bater um papo com este humilde escriba sobre as origens do mundo de J.R.R. Tolkien, o autor de “O Senhor dos Anéis”, “O Hobbit”, “O Silmarillion” e muitas outras obras. Minha ideia é contar como a mitologia, a linguística e a arqueologia do mundo real inspiraram a nova mitologia moderna engendrada pelo Professor Tolkien.

O bate-papo acontece às 19h30 no Sesc Jundiaí e a entrada é franca. O endereço é Av. Antônio Frederico Ozanam, 6600, Jardim Botânico. Ah, e teremos livros de Tolkien para quem quiser adquiri-los. Espero a todos por lá!

A INVENÇÃO DA TRADIÇÃO NA TERRA-MÉDIA

Por que a obra de Tolkien tem uma complexidade literária tão superior à de praticamente todas as outras obras de fantasia? Do meu ponto de vista, a resposta passa pela maneira como ele inventou a tradição cultural de seu próprio mundo, em especial fingindo ser o tradutor de manuscritos antigos que chegaram até ele em diferentes versões.

É o que explico no vídeo acima, que é uma gravação da palestra que dei a convite do pessoal da Toca-RJ e da Unirio. Pra quem quiser ver muitos mais detalhes do mesmo raciocínio, é possível baixar gratuitamente minha tese de doutorado clicando aqui.

5 livros para começar a curtir fantasia

O pessoal do jornal online Nexo me pediu para sugerir 5 livros essenciais (e, acrescento, não óbvios) para gostar de fantasia. Montei uma lista bem idiossincrática, obviamente incluindo Tolkien em um de seus livros menos conhecidos e mais belos. E é claro que faço referência ao professor na introdução do texto. Confira abaixo ou, se preferir, acesse o texto no site do Nexo clicando aqui:
https://www.nexojornal.com.br/estante/favoritos/2019/5-livros-instigantes-para-conhecer-o-g%C3%AAnero-fantasia

J.R.R. Tolkien (1892-1973), o autor de “O Senhor dos Anéis”, definia a fantasia como a arte da “subcriação” de um Mundo Secundário — um mundo ficcional cheio de encantamento pelo qual as mentes do público podem viajar e que, com sorte e engenho, chega a soar quase tão crível quanto o mundo real. Raros são os autores de fantasia que chegam perto da complexidade do Mundo Secundário tolkieniano, mas muitos de seus seguidores (e adversários) conseguem usar artifícios literários similares aos dele para deleitar seus leitores e lançar luzes insuspeitas sobre a condição humana (mesmo quando estão falando de elfos) e a natureza da realidade por meio desses outros universos possíveis. Abaixo, alguns dos livros mais instigantes do gênero segundo este escriba, vários dos quais ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros.

Trilogia Terramar Ursula K. Le Guin

No mundo-arquipélago da história (daí o nome Terramar), predominam os seres humanos de tez acobreada ou negra (os brancos são bárbaros), e a filosofia dos magos da saga é influenciada pelo taoísmo. Le Guin recria tradições orais com habilidade no pano de fundo das histórias. Da trilogia original, temos edições brasileiras recentes dos livros um e dois, “O Feiticeiro de Terramar” e “As Tumbas de Atuan” — ainda falta sair “The Farthest Shore” (A Costa Mais Distante).

The once and future king T.H.White

A história começa de modo a lembrar uma releitura infanto-juvenil da lenda do rei Arthur, mas se transforma aos poucos numa meditação comovente sobre a natureza da violência e do poder e o lugar do ser humano na natureza, com diálogos entre o jovem Arthur e diferentes espécies de animais. Talvez seja a única versão das histórias arturianas nas quais o cavaleiro Lancelot, mais famoso dos guerreiros da Távola Redonda, é feioso e luta contra suas próprias tendências à psicopatia. Atenção: a obra completa contém cinco livros, às vezes lançados em volumes separados.

Estação Perdido China Miéville

Sexo entre humanos e mulheres-besouros, intrigas trabalhistas e um clima de pesadelo pseudovitoriano fazem deste romance britânico uma experiência visceral e assustadora. A menção a “trabalhismo” se explica, em parte, pelos pendores políticos de Miéville, um dos poucos escritores de fantasia a se engajar diretamente na política pelo lado da esquerda — ele chegou a fundar um partido no Reino Unido e escreveu ainda um livro de não ficção sobre a Revolução Russa.

Summerland Michael Chabon

Um menino que odeia beisebol e seus amigos precisam aprender a dominar uma versão mágica do jogo para salvar o pai dele e todo o Cosmos do Apocalipse. Lírico e bem-humorado, o livro cativa até quem, como eu, não faz ideia das regras do beisebol. Chabon também escreve ficção realista, mas mesmo suas obras não fantásticas sempre trazem referências, ainda que oblíquas, oriundas do mundo dos quadrinhos de super-heróis e da cultura pop.

Ferreiro de Bosque Grande J.R.R.Tolkien

Pouco maior que um conto, a história se passa na Inglaterra medieval, e não na Terra-Média. Seu protagonista descobre a glória e a tristeza de vislumbrar a magia que está além dos olhos mortais ao ganhar, ainda criança, uma estrela de prata que lhe serve de passaporte para Feéria, o Reino das Fadas. É o último livro publicado por Tolkien ainda em vida, em 1967, que ele descrevia como “a obra de um homem idoso, cheia de presságios de luto”.

Reinaldo José Lopes é jornalista de ciência do jornal Folha de S.Paulo, autor de oito livros e tradutor de três obras de J.R.R.Tolkien: “A queda de Gondolin”, “O Silmarillion” e “O Hobbit”. Tem títulos de mestre e doutor pela Universidade de São Paulo por estudos sobre a obra de Tolkien.

Mais uma espécie de “hobbit” é descoberta no sudeste asiático

Agora virou festa: apareceu mais uma espécie extinta de hominídeo nanico, desta vez nas Filipinas. Conto a história na minha reportagem de hoje na Folha de S.Paulo. Confiram abaixo.

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Há 67 mil anos, a ilha de Luzon, onde hoje fica a capital das Filipinas, era habitada por um misterioso parente dos seres humanos que parece ter combinado traços similares aos do Homo sapiens com outros bem mais primitivos.

A criatura, batizada de Homo luzonensis, acaba de ser apresentada à comunidade científica internacional em artigo na revista especializada Nature. O trabalho é assinado por Florent Détroit, do Museu do Homem de Paris, e Armand Salvador Mijares, da Universidade das Filipinas.

Se a análise dos parcos restos mortais do H. luzonensis descobertos até agora estiver correta, a descoberta indica que as ilhas do Sudeste Asiático funcionaram como um grande laboratório da evolução dos hominídeos (ancestrais e parentes próximos do homem) até épocas muito recentes do ponto de vista geológico.

Com efeito, a espécie filipina não é o primeiro caso de hominídeo peculiar a dar as caras nessa região do planeta. Na década passada, os estudiosos da evolução humana foram pegos de surpresa com a descoberta do chamado “hobbit” da ilha de Flores, na Indonésia.

Tal como a raça de seres diminutos de O Senhor dos Anéis, o “hobbit” indonésio media apenas 1,10 m, segundo seus descobridores. Batizado de Homo floresiensis, ele teria vivido entre 200 mil e 50 mil anos atrás, fabricando instrumentos de pedra e caçando parentes anões dos elefantes.

Os achados em Flores não foram aceitos de modo unânime – alguns pesquisadores passaram a defender a ideia de que os indivíduos da ilha não passavam de seres humanos modernos com alguma deficiência grave, como microcefalia. Mas os novos fósseis filipinos parecem indicar que a situação na Indonésia se repetiu em outras ilhas do Pacífico tropical.   

Isso porque, tal como os “hobbits”, os sujeitos achados na caverna de Callao parecem ter sido pequeninos. Até agora, foram desenterrados apenas 13 pedaços da anatomia da espécie – principalmente dentes, além de ossos das mãos e dos pés e um pedaço do osso da coxa. Já é o suficiente, no entanto, para estimar que os restos correspondem a pelo menos três indivíduos.

Comparados com os nossos, os dentes supracitados são minúsculos, apesar de compartilharem algumas características com os do Homo sapiens e de uma espécie ancestral, o H. erectus, que viveu a partir de 1,8 milhão de anos atrás. O detalhe anatômico que mais chama a atenção, no entanto, é o formato de um osso dos dedos dos pés (veja infográfico).

Ocorre que esse osso é curvado, e não relativamente reto, como acontece com os seres humanos modernos. Na verdade, a estrutura é semelhante ao que se vê em esqueletos de australopitecos, os “homens-macacos” africanos mais primitivos que, pelo que sabemos, acabaram dando origem ao nosso gênero, o Homo.

Acredita-se que tais ossos fossem curvados porque os australopitecos ainda eram capazes de passar certo tempo nas árvores, tal como os grandes símios dos quais descendiam, ou então simplesmente porque tinham retido parte das características anatômicas ancestrais.

É bem mais estranho, no entanto, encontrar esse mesmo traço, bem como o peculiar mosaico de anatomia moderna e primitiva, nos ossos do H. luzonensis – e coisas parecidas também são vistas no esqueleto do “hobbit” da ilha de Flores, embora os detalhes de cada espécie sejam bem diferentes entre si.  

Como explicar, então, a convergência entre as duas versões “de bolso” dos hominídeos? Em tese, o tamanho diminuto é o mais fácil de entender. Animais de grande porte costumam ser “miniaturizados” em ilhas após milhares de anos, já que os recursos mais limitados desse tipo de ambiente levam a seleção natural a favorecer corpos menores e que exigem menos alimento. Existiram diversas espécies de elefantes pequeninos nas ilhas do Mediterrâneo, por exemplo. Assim, isolados, ambos os hominídeos teriam se tornado nanicos.

O mais difícil é saber qual forma ancestral deu origem aos dois. O candidato mais óbvio é o H. erectus, que já foi encontrado em boa parte da Ásia e, inclusive, na própria Indonésia. Pelo que se sabe, ele foi o primeiro hominídeo a deixar o berço africano do grupo. Mas os traços primitivos das formas anãs, que lembram australopitecos, poderiam sugerir que alguma espécie menor e mais antiga poderia ter feito a jornada rumo à Ásia de forma independente. Só mais estudos – e, de preferência, mais fósseis – permitirão desfazer o mistério.

Tolkien, as motosserras e o clima do Brasil

Não sei se vocês sabem, mas tenho um plano maligno de espalhar a palavra de Tolkien por todos os aspectos da cultura nacional. (Tá, na verdade eu só tento falar de Tolkien toda vez que tenho uma brecha mesmo). Resolvi citar o professor numa das minhas colunas recentes da página de Ciência da Folha de S.Paulo, sobre o efeito do desmatamento no clima do Brasil. Confiram o texto abaixo.

Sem árvores, o Brasil torra


“O som selvagem da motosserra nunca silencia onde quer que árvores ainda sejam encontradas crescendo”, escreveu J.R.R. Tolkien, o filólogo e autor de “O Senhor dos Anéis”, em carta datada de 30 de junho de 1972, no ano anterior à sua morte. Nisso, e ao classificar as máquinas que queimam combustíveis fósseis de “motores de combustão inferna” (um trocadilho com “interna”), o criador dos hobbits ainda é uma voz profética. Afinal, é bem possível que o tal som selvagem nos carregue um pouquinho mais para perto do Inferno nos próximos 30 anos.

Chame-me de alarmista se assim o desejar, gentil leitor, mas um estudo publicado na semana que passou por cientistas brasileiros aponta justamente nessa direção calorosa (no mau sentido). Ao analisar como o desmatamento tem afetado o clima local no Brasil e no mundo, eles calculam que uma derrubada sem freios pode aumentar a temperatura média do país em 1,45°C até 2050. Como já disse aquele sábio do jornalismo esportivo, 2050 é logo ali, amigo.

Repare que eu disse “clima local” ali em cima. A análise, que está na revista científica de acesso livre Plos One, levou em conta não a quantidade de gases causadores do aquecimento global emitidos pelo desmatamento —algo que vai para a atmosfera e acaba afetando a temperatura média do mundo todo, em certa medida. No lugar disso, o estudo considera as mudanças climáticas de pequena escala geradas quando uma área antes florestada perde sua cobertura de árvores.

A equipe do estudo, que inclui Gisele Winck, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e Jayme Prevedello, da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), explica didaticamente que o efeito climático local das florestas depende principalmente de duas variáveis.

A primeira é o albedo –grosso modo, uma medida de quanto o solo reflete ou absorve a luz. A folhagem escura das florestas corresponde a um albedo relativamente baixo, que absorve a radiação solar e, portanto, tende a esquentar.

Entretanto, é preciso a considerar a segunda variável, a evapotranspiração –grosso modo, a maneira como as florestas “suam”. E, nesse caso, a seta aponta para o outro lado: ao transpirar, as florestas refrescam mais a superfície da Terra do que a vegetação mais aberta, como pastagens.

Com esses princípios em mente e com dados sobre cobertura florestal e clima no mundo todo, Winck, Prevedello e seus colegas se puseram a fazer as contas. Acabaram concluindo que a presença de florestas tem efeitos variados dependendo da região do mundo onde se encontram.

Nas regiões tropicais e, em menor grau, nas zonas temperadas, florestas tendem a ter um efeito local de ar-condicionado, diminuindo a temperatura. Perto dos polos, a situação se inverte – basicamente porque, quando não há a folhagem escura da mata, temos chão coberto por neve, que tem um albedo elevado – o branco, afinal de contas, reflete toda a luz solar.

Bem, como você sabe, moramos num país tropical (a parte do “abençoado por Deus e bonito por natureza” tem ficado menos verossímil). Pelos cálculos da equipe, se o desmatamento não for controlado com seriedade, enfrentaremos o calorzinho nada agradável descrito acima daqui a 30 anos. Parece-me uma razão mais do que suficiente para botar uma focinheira nas motosserras selvagens.

por que traduzir os nomes na obra de tolkien?

Além de todas as tretas das traduções novas, existe um ponto mais básico que muita gente ainda questiona: por que, afinal, traduzir nomes próprios na obra de Tolkien? Em nome próprio a gente não mexe, certo? Errado! Neste vídeo, explico em detalhes a lógica por trás dessa decisão, as mudanças de posição de Tolkien sobre o tema e por que, embora necessária, essa abordagem quase nunca dá um resultado perfeito. Bônus: você pode rir da minha cara de mané enquanto eu quase quebro a câmera (e o iPad).

Novo Silmarillion chega ao top 10 dos mais vendidos no Brasil

Taí a imagem que não me deixa mentir: a nova tradução de O Silmarillion, feita para a editora HarperCollins Brasil por este escriba que vos fala, estreou na lista de mais vendidos de ficção da revista Veja neste fim de semana, alcançando a sexta posição.

Vale lembrar que todos os livros de Tolkien lançados pela HarperCollins Brasil até agora chegaram ao top 10 da maior revista semanal do país — além de O Silmarillion, isso também aconteceu com A Queda de Gondolin e Beren e Lúthien. Neste ano também teremos o lançamento das novas traduções de O Hobbit e O Senhor dos Anéis.

Explicando O Silmarillion para quem nunca leu Tolkien

Como explicar O Silmarillion e sua importância literária para quem nunca leu Tolkien? Foi o que tentei fazer, já faz um tempinho, para a revista Diário de Bordo, uma publicação voltada para fãs de Star Trek. Confiram o resultado abaixo e não deixem de conferir a nova edição do Silma, que está lindona!

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É impressionante a quantidade de leitores iniciantes (ou mesmo não tão iniciantes assim) da obra de J.R.R. Tolkien (1892-1973) que, depois de amar O Hobbit e/ou O Senhor dos Anéis, os livros escritos em vida pelo britânico que são quase unanimidade entre os amantes da fantasia, acabam levando uma sova das poucas centenas de páginas da principal obra póstuma dele, O Silmarillion. “Cadê o fio da meada da história?”, questiona um, prestes a arrancar os cabelos. “Mano, é muito nome! Só de gente com o sufixo –fin no epíteto são uns 30”, queixa-se outro.

Sim, sou o primeiro a admitir que o livro é “difícil”. Aliás, foi escrito para ser difícil, em certo sentido. Por outro lado, confesso que sou parte mais do que interessada no destino desse texto esquisito e fascinante. Fui encarregado recentemente de produzir uma nova tradução do livro para o português do Brasil e fiz meu mestrado e doutorado sobre a obra de Tolkien, com ênfase justamente na massa interminável de rascunhos que acabariam dando origem à versão “canônica” de O Silmarillion. Por isso, na melhor tradição do proselitismo (quase) religioso, ouso dizer: regozijai-vos, irmãos! O livro vale a pena. É, na verdade, uma pedra preciosa que precisa ser lapidada pela paciência do leitor para que brilhe em toda a sua glória, como faziam os elfos ou os anãos de outrora com suas gemas mágicas. Encare este artigo como um guia para os perplexos: espero que você passe a enxergar o livro com outros olhos depois de lê-lo.

O Silmarillion, para quem não conhece, é uma espécie de Antigo Testamento do mundo criado por J.R.R. Tolkien (embora a analogia não seja tão boa assim; eu já explico). Do ponto de vista literário e narrativo, trata-se de um livro com uma das abordagens mais take no prisoners do século 20, talvez apenas comparável – por motivos totalmente diferentes, claro – a clássicos modernistas que praticamente ninguém leu, como Finnegans Wake, de James Joyce.

Nessa obra na qual trabalhou durante quase 60 anos de sua vida, e que não chegou a terminar para valer, Tolkien basicamente dá uma banana para as convenções novelísticas tradicionais, aquelas que dizem que é importante você desenvolver de forma equilibrada a psicologia de cada personagem, que é preciso construir conflitos e solucionar os ditos cujos de forma relativamente linear e lógica ou que, horror dos horrores para a geração das maratonas do Netflix, jamais se deve soltar spoilers se você deseja prender a atenção do leitor da primeira à última página.

Bem, não há quase nada dessas regras de boa conduta ficcional no livro. O sujeito que resolver ler O Silmarillion antes de O Hobbit ou de O Senhor dos Anéis (foi esse o meu caso nos idos de 1998) terá diante de si uma seção inteira do volume, a última, batizada de “Dos Anéis de Poder e da Terceira Era”, que não passa de um grande spoiler do que ocorrerá nos dois romances mais famosos de Tolkien. E, mesmo nas seções anteriores do livro, a narrativa é constantemente afetada pela “sombra do futuro”: em alguma medida, já fica claro em que direção caminham os personagens (rumo a quantidades cavalares de sangue, suor e lágrimas, resumindo).

Teogonia, cosmogonia e guerra
Como escrevi alguns parágrafos atrás, a questão é que faz sentido que o livro tenha essa cara aparentemente tão esquisita e dificultosa, porque, atenção para o ponto crucial, ele não é um romance. O Silmarillion é a pedra fundamental do que Tolkien deseja que fosse sua “mitologia para a Inglaterra” (expressão usada por ele em uma de suas cartas a um possível editor, que acabou não publicando seus livros).

Como toda boa mitologia do mundo real, a nova mitologia inglesa criada pelo autor começa com uma teogonia e uma cosmogonia, ou seja, um relato das origens dos seres divinos e do Cosmos. Trata-se, a rigor, de uma visão reimaginada do nosso próprio Universo, no qual a única verdadeira divindade – Eru Ilúvatar, identificado com o Deus judaico-cristão – delega sua tarefa de Criador a “poderes angélicos” que se assemelham superficialmente aos deuses das mitologias que conhecemos. Esses seres, os Valar, precisam enfrentar seu membro mais poderoso, Morgoth, que se rebela contra o desígnio do Criador (qualquer semelhança com Lúcifer não é mera coincidência) e tenta dominar Arda, a Terra, e seus habitantes – elfos, anões, seres humanos e hobbits, entre outros.

Embora os elementos que citei tenham paralelos fáceis de enxergar com mitos pré-existentes e com a Bíblia, a combinação específica deles no livro dá à criação de Tolkien um sabor único. Como estudioso de línguas, manuscritos e narrativas antigas da Europa, ele conseguiu estruturar os ciclos de histórias de O Silmarillion de tal modo que eles parecem refletir uma longa história de transmissão cultural, com grande número de versões e variantes em prosa e verso (se você não gosta de poesia, a boa notícia é que quase não há poemas espalhados ao longo do texto em prosa, ao contrário do que acontece na Saga do Anel ou em O Hobbit). De fato, a qualidade do texto em si está entre os grandes atrativos do livro: longe das descrições detalhadas de lugares e construções de O Senhor dos Anéis, a narrativa é econômica, às vezes seca, de um lirismo arcaico como os mitos que a inspiraram.

Cor-de-rosa? Sério?
Um ponto que vale a pena salientar está ligado a outra crítica recorrente, e altamente injusta, à visão de mundo de Tolkien. De novo, quem só conhece superficialmente O Hobbit e O Senhor dos Anéis por vezes se sente tentado a classificar o filólogo britânico como um otimista incorrigível, um sujeito doido para relatar finais felizes a qualquer custo.

O leitor que diz isso no caso dos livros mais conhecidos se apega ao fato de que “o Bem” vence neles, embora claramente não tenha prestado atenção no preço altíssimo que a Demanda do Anel cobra de Frodo; no fato de que o heroicamente leal Sam, com sua falta de tato, também é o responsável por eliminar a última chance de redenção de Gollum; e por aí vai. As coisas são muito mais sombrias em O Silmarillion, porém. Uma frase enigmática da rainha élfica Galadriel na Saga do Anel – a de que ela e seu esposo Celeborn passaram milênios lutando “a longa derrota” contra as forças das trevas – fica abundantemente clara com a leitura do livro póstumo.

A narrativa principal da obra registra tantas desgraças e resistências heroicas fadadas ao fracasso que o leitor fica esperando que a qualquer momento apareça a frase “E todos morreram. FIM.” Os elfos retratados em tons quase sempre róseos em O Senhor dos Anéis se revelam perfeitamente capazes de guerras fratricidas, megalomania, incesto e genocídio durante a Primeira Era. Os seres humanos incrivelmente longevos, poderosos e sábios da ilha de Númenor, a Atlântida tolkieniana, acabam embarcando numa carreira nada edificante de imperialismo e “satanismo” (ou “morgothismo”, para usarmos uma terminologia mais adequada ao mundo ficcional do autor) que os conduz à ruína. Há algo de podre no reino de Arda, em suma.

Tal retrato da “longa derrota” combina com o forte veio de pessimismo da personalidade de Tolkien, para quem a história humana do mundo real funcionava de acordo com mais ou menos esses mesmos princípios. Mas também é um veículo para que ele exponha uma das grandes lições que costumava depreender das antigas mitologias do norte da Europa. Segundo o escritor, o conceito unificador desses mitos, de origem germânica/escandinava, era a “teoria da coragem do Norte”. Naquelas mitologias, vai acontecer uma espécie de Apocalipse, como nas narrativas judaico-cristãs, mas as profecias dizem que as forças das trevas vão vencer no final. É o que preveem, por exemplo, os textos sobre o Ragnarök (“destruição dos deuses” em nórdico antigo).

Mesmo assim, diz Tolkien num de seus textos teóricos mais famosos, os deuses escandinavos continuam lutando até o fim, e jamais acham que o fato de estarem fadados ao fracasso significa que deveriam mudar de lado. Essa lógica trágica e heroica está condensada de modo admirável em O Silmarillion. Só isso já faz valer a pena encarar as linhas mais complicadas do livro.

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