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Estratégias de Sauron – Passos para a Derrota (Parte II)

Na Primeira Era, Morgoth tentou
derrotar seus inimigos Eldarin jogando tudo o que fosse possível contra
eles. Logo, seus exércitos conseguiam sucesso misto. Mesmo a Nirnaeth
Arnoediad provou ser uma vitória tão cara que Morgoth não pode
conseguir a vitória definitiva dos exércitos élficos e seus aliados.
Ele tomou controle de Hithlum e da Marcha de Maedhros, restaurou suas
tropas em Dorthonion, e tomou controle total sobre a parte superior do
Sirion. Mas Falas, Nargothrond, Doriath (e Brethil, que tecnicamente
era parte de Doriath), e Gondolin tiveram que ser tratadas
separadamente.

 

 

 
Na Segunda Era, Sauron tentou duplicar os sucessos
dúbios de Morgoth com ataques repentinos, tentando adquirir grandes
vitórias militares. Ainda, ele não tinha as vantagens de Morgoth.
Apesar de que muito da Terra-Média esteve sobre o controle de Morgoth,
Sauron teve que continuar a manter seu império. E apesar de que a
fortaleza-chefe de Morgoth, Angband, estava perto de seus aliados,
Sauron posicionou-se em Mordor com a intenção de lançar agentes que
trabalhassem ao mesmo tempo para os eldar no norte e os numenoreanos no
sul.

A colonização numenoreana não avançou para o extremo
norte já que Sauron forjou o Um Anel por volta do ano 1600. As grandes
fortalezas do Pelargir, no baixo Anduin, e Umbar não seriam
estabelecidas em menos de 600 anos. O poder numenoreano era no máximo
uma ameaça futura distante de conflito. Mas quando Gil-galad chamou
Númenor para ajudar na guerra iminente, os numenoreanos investiram
perto de 100 anos fortificando posições perto dos rios Gwathlo e Lhûn.
Enquanto Sauron começava a mover suas forças para o Norte, seus
inimigos tinham linhas múltiplas de defesa.

Mas não quer dizer
que Sauron foi derrotado. As histórias deixam claro que Sauron dominou
Tharbad e abriu caminho sobre Eregion com relativa facilidade.
Ost-en-Edhil foi possuída por algum tempo, possivelmente em torno de um
ano. Os esforços de Elrond de reforçar Eregion falharam e ele teve que
se retirar para o norte. Sauron mandou em exército para tirar Elrond do
caminho. E, aparentemente, ao mesmo tempo em que ele estava destruindo
Eregion, sauron mandou um exército para o leste das Montanhas Nevoentas
para expulsar os povos Eldar e Edain, o último desses que foram grandes
aliados dos anões Barbalonga.

Então, Sauron não somente deu a
seus inimigos grande tempo para se preparar para a guerra, ele espalhou
bem suas forças quando lançou a guerra. Gil-galad foi capaz de
consolidar muitas de suas forças sobreviventes no Lhûn depois de ser
empurrado do rio Baranduin. Sauron derrotou Eriador, mas Tolkien nota
que Sauron matou ou expulsou os homens e elfos vivendo na região. Os
expulsos alcançaram o acampamento de Elrond em Imladris ou o reino de
Gil-galad. As duas regiões foram reforçadas pela campanha crescente de
Sauron.

No final das contas, foi precisa uma intervenção
massiva de Númenor para derrotar Sauron, mas a lição que ele aprendeu
da guerra foi que Númenor ia dar mais trabalho que Lindon. Tolkien nos
diz que a guerra entre os elfos e Sauron nunca acabou depois daquele
dia, apesar de Sauron ter alterado seus objetivos estratégicas. Ele
começou conquistando mais territórios no leste. E, gradualmente,
enquanto Sauron estendia seu poder para o sul ele entrou em confronto
com colônias numenoreanas ao longo das costas meridionais da
Terra-Média. Númenor vinha colonizando a Terra-Média desde o ano 1200,
mas por todo o ano 1800 os numenoreanos começaram a estabelecer
fortalezas, cobrar tributo dos povos locais, e conquistando terras
ocupadas. Númenor virou um poder rival que Sauron tinha que conter. Em
fato, provou-se ser impossível para este derrotar Númenor no campo de
batalha, e ele finalmente os derrotou através de um subterfúgio que
trouxe destruição para Númenor e a morte de grande parte de seu povo.

E ainda, apesar da queda de Númenor, Sauron não tinha se livrado ainda
da ameaça numenoreana. Elendil e seus Dunedain Fiéis exilados
estabeleceram reinos em Arnor e Gondor, na Terra-Média setentrional.
Apesar de ser apenas um resto da nação poderosa que fora e que
humilhava Sauron militarmente, os Dunedain Fiéis eram poderosos demais
para serem aniquilados rapidamente. Sauron entendeu isso quando tomou
Minas Ithil e foi empurrado para fora de Osgiliath. Vocês podem até
ouvi-lo pensando: "Opa, isto estava fora dos planos". Se ele esperasse
mais 100 anos, Arnor e Gondor teriam ficado mais poderosos, mas Sauron
teria restabelecido total controle sobre sua rede de aliados e assuntos
de estado. Ele teria muito mais recursos à disposição do que possuía
quando atacou Gondor em 3429.

Esperando demais, atuando cedo
demais — esses eram os erros que Sauron cometeu na Segunda Era. Ele
permitiu a seus inimigos o tempo para crescer fortes enquanto ele mesmo
dispersou suas forças e criou guerra em muitas frentes. Depois de sua
derrota, Sauron teve 1000 anos para refletir sobre suas falhas e
fraquezas. E quando ele ficou forte o bastante para reencarnar, ele
entendeu que para conseguir tomar controle da Terra-Média, ele tinha
que trabalhar vagarosa e cuidadosamente. Ele tinha que aumentar seus
poderes enquanto acabava com seus inimigos.

O primeiro passo
era escolher um porto seguro. Mordor foi ocupada por Gondor, que no 11º
século da Terceira Era quase chegou ao topo de sue poder. Não tinha
chance de lutar pelo controle de Mordor com os Dunedain nesta era. E
ainda, Sauron precisava estar perto de seus inimigos. A Grande Floresta
Verde, porém, oferecia uma posição atrativa. As densas florestas
ofereciam uma privacidade relativa e alguma defesa, e a região de Amon
Lanc, por muito tempo abandonada pelos elfos, seria fácil de se
fortificar.

Sendo o Necromante de Dol Guldur (o novo nome que
os elfos deram para Amon Lanc), Sauron construiu um grupo de servos do
mal que se espalharam pela floresta. A Grande Floresta Verde ficou tão
aterrorizante que os homens a renomearam Floresta das Trevas. E à
medida que Orcs, Trolls, Wargs, aranhas e outras criaturas se juntavam
em Dol Guldur, Sauron renovou seus contatos com alguns servos orientais
que serviram a ele no passado. Induzindo alguns dos Orientais a migrar
para o sul da Floresta das Trevas, Sauron começou uma onda de migrações
que aconteceram em Eriador. Os Hobbits, criando moradia nos Vales do
Anduin por muitos anos, cresceram com medo já que o influxo de
Orientais ameaçava seus vizinhos, e começaram a ir para terras mais
seguras, no oeste.

Perto do ano 1300, Sauron mandou o Rei dos
Nazgûl para o norte, a fim de estabelecer o reino de Angmar. Angmar
serviu a dois propósitos. Primeiro, era uma base remota de operações
que trabalhava contra os povos de Arnor que viviam nas proximidades.
Sauron não precisava se preocupar em estabelecer e proteger longas
linhas de suprimentos. Segundo, Angmar pareceria somente mais uma terra
inimiga aos elfos e dunedain. Um único inimigo implacável traria muita
atenção. Mas se reinos hostis surgissem em vários lugares, ninguém
teria certeza do que estaria acontecendo. Havia Sauron retornado, ou
seus servos apenas ficaram mais ambiciosos e poderosos? Inspirar a
dúvida e a demora em seus inimigos deu tempo para que Sauron crescesse
em força.

Mas apesar de Angmar ter vantagem sobre as divisões
que nasceram em Arnor (dividida em três reinos menores pelos Dunedain
em 863), Dol Guldur ficou isolada do leste. Enquanto Sauron contemplava
o que poderia fazer com os reinos do norte, Minalcar estabeleceu as
diferenças entre os homens do Norte e os Orientais atacando as terras
perto do lado sul da Floresta Das Trevas, terras que Gondor clamou há
muito tempo, mas viraram moradia dos Orientais e de muitos homens do
Norte. Minalcar destruiu ou mandou embora os Orientais perto do mar de
Rhûn, e se aliou com o reino de Rhovanion, leste da Floresta das
Trevas, comandado por Vidugavia.

A falha de Minalcar em atacar
Dol Guldur é curiosa. Possivelmente, Sauron estava usando seus
Orientais como uma farsa, e o Necromante de Dol Guldur acabou com
Minalcar como se fosse uma pequena ameaça (ou ameaça nenhuma) para
Gondor. Ainda, Sauron tinha que esperar que seus Orientais recuperassem
seus números. Mas pode ser que ele sentiu que um novo tipo de cultura
oriental foi criada. Nos últimos séculos, Tolkien nos disse, haveria
guerras entre os Orientais. O controle de Sauron sobre os povos do
leste poderia não estar completo, ou então ele sentiu que os melhores
guerreiros seriam aqueles que sobreviveram a grandes contendas e
guerras.

Mas Gondor também era poderosa. Mesmo quando os
Fratricidas morreram, e os Eldacar levaram seus inimigos para o sul,
Sauron não tinha como ter vantagem no conflito. Estava muito longe de
Umbar, onde os rebeldes procuraram abrigo, para fazer contato com os
dissidentes. Apesar de ser um porto seguro, Dol Guldur era bem
confinante. A Grande Praga de 1636, que Sauron lançou no leste e
direcionou para o oeste, abriu novas oportunidades para ele. Gondor
perdeu tanta gente que não poderia mais sustentar os exércitos em
Mordor. Quando os dunedain saíram, orcs e outras criaturas entraram.
Mas ao invés de se mudar para lá, Sauron meramente usou Mordor como
corredor para expansão. Ele provavelmente mandou agentes para o sul
para fazer alianças com os haradrim.

200 anos após a Grande
Praga, os Carroceiros atacaram os homens do norte e Gondor. Os povos do
oeste foram derrotados e Sauron conseguiu domínio da Floresta das
Trevas e de Mordor. O Lorde dos Nazgûl trouxe então a derrota final à
Arthedain, o últimos dos reinos dos Dunedain. Mas apesar de Lindon e
Imladris continuarem no norte, e os dois terem papéis significantes na
derrota de Angmar, Sauron tornou sua atenção para Gondor, suja
intervenção foi responsável pela derrota de Angmar. Os reinos do norte
foram destruídos, mas eles eram a menor das ameaças.

Assim,
quando os anões de Khazad-dûm acordaram o Balrog em 1980, eles
inesperadamente mudaram o balanço de poder no norte. Apesar de
Khazad-dûm não ter tido (aparentemente) um papel importante nas guerras
contra Angmar, ele estava na Última Aliança de Homens e Elfos contra
Sauron, e então enfrentou Sauron novamente. A destruição da civilização
anã efetuada pelo Balrog, e a fuga subseqüente de muitos elfos de
Lothlórien, virtualmente asseguraram que Sauron não tinha quase nenhum
inimigo de poder significante no norte. Tolkien sugere que foi por
causa da presença do Necromante no sul da Floresta das Trevas que
Galadriel resolveu intervir em Lothlórien. Se ela e Celeborn não
tivessem restaurado a ordem ao reino élfico, não teria ninguém para
opor Dol Guldur exceto por alguns homens das florestas e alguns povos
pequenos chamados Eotheod, o restante do outrora poderoso reino de
Rhovanion, Vidugavia. O reino de Thranduil no norte da Floresta das
Trevas continuou forte, mas ele não participou de nenhuma grande guerra
desde a Segunda Era.

O século XX da Terceira Era provou ser um
período tumultuado para Sauron e seus aliados. A perda de Arthedain e
Khazad-dûm deveria ter alarmado os eldar e os Istari. As perdas de
Gondor para os Orientais e a fuga final dos Eotheod para os Vales do
Anduin assegurou que o oeste não tinha força para impulsionar o fluxo
de guerreiros para a Floresta das Trevas e Mordor. E o problema com os
Nazgûl em 2002, quando eles atacaram Minas Ithil, que durou apenas dois
anos, foi um sinal que o mal derrotado no norte sofreu pouco.

Apesar de tudo, Dol Guldur, mesmo com má reputação, parece não ter
feito muito neste período. Os reis de Arnor e Gondor concluíram no meio
do século XX que uma vontade única estava orquestrando suas quedas para
um propósito desconhecido. Pelo século XXI, os Sábios (lordes dos Eldar
e Istari) concluíram que o poder de Dol Guldur era o candidato mais
provável para Inimigo-Mor. Mas quem era o Necromante? Os Sábios
suspeitavam ser um Nazgûl. Apesar de tudo, o Lorde dos Nazgûl era o Rei
Bruxo de Angmar. Os Nazgûl dominaram Minas Ithil. Nazgûl obviamente
estavam ativos na Terra-Média. Mas alguns, provavelmente incluindo
Galadriel e Gandalf, temiam que o Necromante fosse Sauron. Logo, em
2063, Gandalf investigou Dol Guldur e Sauron fugiu para o leste.

Pelos próximos 400 anos, que os Sábios diziam ser a Paz Vigilante,
Sauron preparou novas forças. Os Balchoth, parecidos com os
Carroceiros, cresceram em proeminência no leste. Os Uruks nasceram em
Mordor. Umbar, destruída por Gondor no século XIX, foi recriada com
novas forças totalmente leais a Sauron, e ele finalmente começou a
desafiar o controle numenoreano dos mares. A influência de Sauron entre
os Haradrim aumentou.

Quando ele viu ser a hora certa, em 2460
Sauron retornou para Dol Guldur com novas forças, e Minas Ithil lançou
os Uruks contra Ithilien. Sauron mandou Orcs e Trolls para colonizar as
Montanhas Nevoentas. E os Corsários de Umbar começaram a atacar Gondor.
O retorno à Dol Guldur, porém, implica que Sauron ainda temia a união
de seus inimigos. Os Anões Barbalonga estavam fortes novamente. Os
Eotheod ficaram mais numerosos, e havia outros povos humanos nos Vales
do Anduin que se aliavam com Gondor. Lothlórien virou uma marca do
poderio élfico, e Thranduil controlava o norte da Floresta das Trevas.
Sauron provavelmente procurou deixar seus inimigos do norte
desbalanceados enquanto o Nazgûl, os Balchoth e Corsários acabavam com
os recursos de Gondor.

Mas Sauron também voltou para Dol
Guldur por outro motivo: o Um Anel. Ele acreditava que este fora
destruído. Até ele perceber que não era bem assim. Ele investiu grande
parte de sua força no Anel. Se ele fosse destruído, provavelmente ele
teria ficado fraco demais para ficar poderoso de novo. Sua força
continuou a voltar, porém, e século após século ele conseguiu enxertar
sua vontade sobre mais pessoas e criaturas. Em alguns pontos, a
sobrevivência do Anel virou um fato óbvio para Sauron. Sauron não
apenas sobreviveu à derrota, como estava se recuperando do anel.

E então virou um dever de Sauron recuperar o Anel antes que seus
inimigos o encontrassem e o usassem contra ele. Ele nunca imaginou que
alguém pudesse destruir o Anel, mas havia na Terra-Média Eldar
poderosos que, se viessem a ter o Anel, poderiam usá-lo para construir
exércitos contra ele novamente: Círdan, Elrond, Galadriel, Celeborn.
Eram todos parentes dos antigos reis elfos, e tinham alto conhecimento
e força. E o que Sauron sabia ou suspeitava dos Istari? Com certeza
eles eram imortais. Eles já vagueavam por mais de 1000 anos.

Quando Sauron soube do fim de Isildur, ele se posicionou em Dol Guldur
para ganhar controle sobre os Campos de Lis para que seus servos
pudessem procurar pelo Anel. Mas Sauron não entenderia por muitos
séculos que o Anel estava bem do outro lado do rio, ou que ele foi
encontrado, muito antes dele ter começado a procurar, por um Grado
chamado Déagol, cujo primo Sméagol o assassinou e roubou o Anel.

O ataque dos Balchoth contra o norte de Gondor em 2510 teve dois
propósitos: primeiro, acabar com as forças de Gondor; segundo, limpar o
caminho para a procura de Sauron pelo Anel. A borda norte de Gondor
ficava perto demais de Dol Guldur para que eles mantivessem o segredo.
Os objetivos de Sauron sofreram um revés, porém, quando Eorl liderou um
exército de Eotheod para o norte, em auxílio de Gondor. A Batalha nos
Campos de Celebrant não foi uma derrota ameaçadora para os Balchoth.
Eles continuaram uma efetiva força guerreira para Sauron, mas o
controle sobre os Meandros passou de Gondor para os Eotheod, ao invés
de para Sauron. Gondor e Lothlórien continuaram, então, a ser uma
grande ameaça aos seus planos.

Ainda, quando Cirion cedeu
Calernadhon para Eorl e seu povo, Sauron teve que alterar sua
estratégia uma vez mais. Cirion consolidou suas forças em Anórien e
Ithilien, e Calenardhon veio a ser controlada por um forte povo do
norte, que Sauron percebeu não poder controlar. Os Rohirrim, como o
povo de Eorl veio a ser chamado, não poderia ser simplesmente ignorado.
E a oportunidade de cuidar deles veio no 28º século. Helm, rei de Rohan
(como Calernadhon veio a ser chamado), consolidou seu poder sobre as
terras ocidentais matando Lorde Freca e destruindo sua família. O filho
de Freca, Wulf, se aliou com os Terrapardenses, cujos ancestrais
serviram Sauron na Segunda Era.

Em 2758, Wulf lançou um ataque
à Rohan de Dunland. Ao mesmo tempo, Corsários de Umbar e outras partes
de Harad atacaram o lado oeste de Rohan, e os Balchoth ou outros
Orientais atacaram Rohan do leste. Até mesmo Gondor foi atacada,
ficando então bloqueada de ajudar Rohan. Os Rohirrim foram derrotados
em campo aberto e fugiram para as montanhas. Wulf tomou posse da
maioria das terras. Sauron com certeza planejou o ataque, e o extenso
período de frio, chamado o Longo Inverno, assegurou que o povo de Rohan
(e Eriador) sofreriam terrivelmente. Mas se o objetivo de Sauron era
destruir os Rohirrim neste conflito, ele falhou. Apesar de Helm ter
perecido no Longo Inverno, seu sobrinho Frealaf derrotou Wulf e seus
aliados, na primavera, com a ajuda de Gondor, que reprimiu os ataques
do sul. Mas o conflito produziu outro problema, que Sauron preferiu
ignorar.

Em 2590, os Anões Barbalonga re-estabeleceram o Reino
sobre a montanha de Erebor, que ficava a leste da parte norte da
Floresta Das Trevas. Enquanto Erebor não era ameaça para Dol Guldur,
ele se aliou ao Reino de Valle. Os dois reinos cresceram em riqueza,
fama e poder. Em 2770 o dragão Smaug veio do distante norte e destruiu
Erebor e Dale. Os anões sobreviventes se exilaram e a família real foi
parar em Terra Parda. Em 2990, Thror, que era rei sobre a Montanha,
decidiu retornar para o leste. Foi assassinado por Azog, chefe dos Orcs
em Khazad-Dûm, que decapitou Thror e mutilou a cabeça do Rei-Anão.

Thrain, filho de Thror, fez uma aliança entre todos os povos anões por
uma guerra de 7 anos contra os Orcs das Montanhas Nevoentas. Apesar dos
anões sofrerem grandes perdas, eles quase exterminaram os Orcs. O
controle de Sauron sobre as Montanhas Nevoentas foi efetivamente
destruído na guerra. Junto com sua falha de destruir ou tomar controle
sobre Rohan, perder as Montanhas Nevoentas diminuiu as chances de
Sauron de destruir Lothlórien ou achar o Um Anel.

Para não
ficar totalmente frustrado, Sauron começou então a recuperar os outros
Anéis do Poder que ele cedeu na Segunda Era. Os Anões tinham os Sete e
os Nazgûl tinham os Nove. Mandar os Nazgûl devolverem seus anéis não
era problema. Mas Sauron tinha que caçar os Reis-Anões um a um e pegar
os Anéis deles. E, desses reis, apenas três tinham anéis. Quatro dos
Anéis foram aparentemente destruídos por dragões. Thrain foi o último
Portador Do Anel a cair nas mãos de Sauron. Apesar de Tolkien não
explicar porque Sauron pegou os Anéis de volta, podemos concluir que
era para aumentar sua própria força. Ou então pretendia, futuramente,
distribuí-los para novos escravos. Glóin reportou para o Conselho de
Elrond em 3018 que Sauron ofereceu 3 Anéis para o Rei Dain II, apesar
de não podermos dizer que Sauron devolveu os Anéis para os anões.

Ao que o Conselho Branco corria, no qual Galadriel se juntou aos Istari
e lordes elfos depois que a Paz Vigilante acabou, Gandalf retornou para
Dol Guldur em 2851. Foi lá, então, confirmado que o Necromante
realmente era Sauron, e Gandalf descobriu que Sauron estava juntando os
Anéis de Poder novamente, assim como procurava pelo Um Anel. Tais
notícias alarmaram Saruman, que tinha ido morar na fortaleza gondoriana
de Isengard depois do Longo Inverno. Saruman, neste momento, percebeu
que o Um Anel poderia, sim, ser encontrado, e ele o queria para si. Ele
começou a recrutar Orcs e Terrapardenses para servi-lo, e mandou
espiões para procurar pelo Anel nos Campos de Lis.

Apesar de
Saruman apresentar uma ameaça pequena para Sauron, a procura pelo Anel
descobriu outro problema. Enquanto Arnor foi completamente destruída
(ou assim Sauron acreditava – ele não percebeu que descendentes de
Isildur sobreviveram no norte), Gondor provava ser muito mais forte e
resiliente, graças à aliança com os Rohirrim. O crescimento de um poder
rival em Isengard poderia complicar, mas se Sauron pudesse encontrar o
Um Anel ele poderia rapidamente conseguir controle sobre muitas pessoas.

Em 2941, Sauron provavelmente se convenceu que o Um Anel não estava
mais na região dos Campos de Lis. O Conselho Branco moveu-se contra ele
e ele fugiu de Dol Guldur. Dizem que a Floresta das Trevas ficou um
lugar mais calmo por um tempo. Tal transição implica que Sauron não
fugiu simplesmente de Dol Guldur. Ele sugere que foi uma grande
migração de orcs, homens e outras criaturas sobre seu controle.
Enquanto alguns argumentam que a ação do Conselho Branco foi um tipo de
ataque mágico, é mais provável que Lothlórien mandou um exército contra
a Floresta das Trevas. Os Istari e os senhores elfos desafiaram o poder
de Necromante diretamente, mas Sauron retraiu-se e então preservou
grande parte de suas forças.

A fuga sugere que Sauron não
estava mais a fim de arriscar seus exércitos principais em combate
aberto. Por outro lado, no norte, Bolg (filho de Azog) lançou uma
campanha contra um pequeno grupo de anões liderados por Thorin, filho
de Thrain, que retornou a Erebor. Após a morte de Smaug, elfos, homens,
anões e orcs se convergiram para a montanha, para recuperar o tesouro
que Smaug guardou à 170 anos. Estava Bolg seguindo ordens de Sauron, ou
Sauron perdeu o controle sobre os orcs das Montanhas Nevoentas? Se
Sauron aprovasse ou permitisse à Bolg lançar o ataque, então ele o
supriria com recursos o suficiente para executar uma ação que, além de
segurar uma base no norte, poderia ser usada para atacar Thranduil. Mas
isso também deixaria Sauron sem ajuda próxima das Montanhas Nevoentas.
Se Bolg ganhasse controle sobre Erebor, Sauron estaria em posição para
acabar com Thranduil e trazer reforços para atacar Lothlórien num
minuto. Mas quando Bolg retirou os exércitos órquicos, Lothlórien tinha
uma oportunidade única de ação.

Se Bolg fosse o comandante de
Sauron no norte, Sauron poderia retornar para Mordor com todas as
forças de Dol Guldur. Ao invés de espalhar seus recursos pelas três
maiores bases (Mordor, Dol Guldur e Erebor), Sauron poderia consolidar
sua força em duas regiões bem protegidas, que poderiam ser suprimidas e
reforçadas pelo leste. Então, por não ter arriscado tudo, a derrota de
Bolg em Erebor somente atrasou os planos de Sauron. Tolkien diz que
três quartos dos Orcs do norte pereceram na Batalha dos Cinco
Exércitos. Levaria décadas para que eles pudessem se recuperar
totalmente. Enquanto isso, enquanto os homens do Norte refaziam o Reino
de Dale e os Anões Barbalonga reconstruíam o reino de Erebor, Sauron
retornou para Mordor.

Sauron se declarou abertamente em 2951.
Ele agora se sentia confiante o bastante, apesar de sua falha em
recuperar o Anel, para agüentar qualquer ataque que o Oeste lançasse
sobre ele. O efeito psicológico do "Estou de volta" sobre os elfos não
deve ser subestimado. Muitos dos elfos simplesmente perderam a fé.
Talvez muitos deles acreditassem que Sauron tinha recuperado o Um Anel,
ou que estava quase encontrando. Pelo ano 3000 anões começaram a se
mover para o oeste, e trouxeram do leste relatos de movimentos de
povos, guerras predatórias e o poder crescente de Sauron. Muitos dos
eldar restantes fizeram uma onda massiva de migração para o Mar,
deixando a Terra-Média para sempre. Os Elfos Silvan continuaram
decididos, mas Lindon e Imladris nunca mais puderam reconstruir
exércitos.

À medida que os orcs das Montanhas Nevoentas
recuperavam seus números, novos inimigos ameaçavam a borda leste de
Dale. Mordor forjou novas alianças com os Orientais e os Haradrim, e
Saruman caiu no encanto de Sauron quando o mago usou o Palantír que
encontrou em Isengard para espiar Mordor. Apesar da fidelidade de
Saruman para com o oeste já ter se esvaecido, até agora ele se opunha a
Sauron. Foi útil para Saruman ajudar o Conselho Branco a livrar Dol
Guldur em 2941. Ele queria procurar pelo Anel livremente. Perto da
Guerra do Anel, Saruman encontrou os restos de Isildur, mas não o Anel
(que, com certeza, foi levado para o Condado).

Gondor
continuava a decair ante os repetidos ataques de Mordor e Harad, mas a
força militar de Gondor já não era vital para a estratégia de Sauron. O
Anel virou a prioridade-mor de Sauron. Ele finalmente soube de Sméagol
do destino do Anel, e em 3018 ele mandou os Nazgûl para o Condado para
recuperar o Anel e trazê-lo de volta. Apesar dele estar se preparando
para a guerra, e que ninguém acreditava que ele podia perder, Sauron
precisava ter certeza que seus inimigos não usariam o Anel contra ele
antes que ele lançasse a guerra. Seus capitães poderiam mudar de lado
caso alguém poderoso o bastante para usar o Anel aparecesse e tomasse
posse deste.

A grande lista de reinos e tribos que Sauron
juntou assegurava-o de qualquer vitória em qualquer guerra em que
ninguém usasse o Anel. A recuperação do Anel o assegurava, então, de um
controle indisputável sobre a Terra-Média. Os elfos que sobraram não
eram fortes o bastante para desafiá-lo. Os Dunedain definharam e eram
poucos demais para chegar a ter os poderosos exércitos que comandavam
no auge de seu poder. E os homens do norte, apesar de fortes em lugares
como Dale, os Vales do Anduin, e Rohan, estavam divididos em reinos
demais e incapazes de formar uma aliança forte o bastante para
desafiá-los.

Em 3018, Sauron esteve preste a atacar Dale e
Erebor, passando pela Floresta das Trevas, e limpar os Vales do Anduin
dos homens, elfos e anões. Mesmo Lothlórien provavelmente não
sobreviveria por muito tempo. Gondor, por outro lado, possuía força o
suficiente, especialmente se reforçado por Rohan, para agüentar ao
menos um ataque massivo. O dever de Saruman ele prevenir ou adiar o
reforço de Rohan. Os orcs das Montanhas Nevoentas poderiam atacar os
Beornings, os Homens das Florestas, Lothlórien, e sem dúvida alguma
Imladris e Eriador. Dol Guldur, agora reconstruída, poderia deixar
Thranduil dificultado. Não tinha chance dos povos do norte formarem uma
aliança no último minuto e chegar em auxílio de Gondor. Todas as peças
estavam no lugar. Vitória era certa. O Senhor do Escuro estava se
divertindo.

A análise de Gandalf das intenções e prioridades
de Sauron (revelada no Conselho de Elrond em 3018 e no último debate
dos capitães do Oeste em 3019) oferece um discernimento das estratégias
mutantes de Sauron na Terceira Era. Quando ele acordou e assumiu uma
força física uma vez mais, Sauron acreditou que ele fora ferido pela
destruição do Um Anel. Determinado a se vingar de seus inimigos, e
talvez reconquistar o controle sobre a Terra-Média, ele começou o
trabalho de dividir e enfraquecer seus inimigos. Seus tenentes
trouxeram a destruição de Arnor. O Balrog (direcionado por Sauron, ou
mesmo por pura sorte) destruiu Khazad-dûm e grande parte de Lothlórien.
Os Orientais e Haradrim enfraqueceram Gondor, reduzindo-o de um império
extremamente poderoso a um estado murcho, ainda orgulhoso mas temeroso
e com uma paranóia de ameaça e derrota. E muitos dos elfos restantes
fugiram da Terra-Média quando viram que a batalha final estava para
começar

Descartando problemas ocasionais, em 3019 Sauron
estava confiante de sua habilidade de adquirir vitória suprema sobre a
oposição. Ele sabia que o Um Anel ainda existia, e ele sabia quem o
possuía. Ele temia que alguém mais tomasse o Anel e usasse contra ele.
O grande perigo, ao ver de Sauron, estava na possibilidade que a
divisão e as brigas poderiam surgir entre seus exércitos. As forças que
ele conseguiu poderiam se virar contra ele. Aragorn e Gandalf
concluíram, então, que a chance de Frodo em concluir a sua missão
dependia do medo de Sauron. Eles fizeram Sauron acreditam que um novo
Senhor do Anel, presumavelmente Aragorn, estava aparecendo.
Penetrantemente atento ao que o atraso custou a ele na Segunda Era (e
talvez fazendo-o sentir que não estava agindo tão cedo), Sauron lançou
um ataque massivo contra Gondor na esperança de capturar o Anel. E
quando esse ataque falhou, ele lançou tudo o que ele tinha num assalto
selvagem que ele acreditava que iria trazer rapidamente o Anel para ele.

Como deve ter sido devastante para Sauron a verdade, quando Frodo
clamou o Anel na cova de Sammath Naur, que ele, o mestre da
manipulação, foi um tolo. Todo seu planejamento cuidadoso e manobras
sagazes por dois mil anos foram para nada. Força massiva, poder
impressionante, e as estratégias mais sutis foram sabotados pela
completa equivocação de Sauron quanto aos fatos que ele descobriu. Ele
acreditava que seus inimigos queriam ser como ele. Se ele entendesse
que eles simplesmente queriam se livrar dele e de todos os Lordes
Negros para sempre, ele teria ficado mais retraído. Em tal mundo,
Sauron estaria sem ação por um tempo. Ele ainda teria que temer que
alguém tomasse o Anel e o usasse contra ele. Mas ele também temeria que
eles o destruíssem. Ele teria que refazer sua estratégia. Não devemos
duvidar que ele deveria ter feito isso, e que o Conselho de Elrond
acertou no ponto quando concluiu que eles tinham uma única chance de
derrotar Sauron.

Michael Martinez

Cânones

Até agora eu tenho dado apenas uma pequena ajuda ao esforço dos fãs destinado a estabelecer um cânone para as discussões sobre Tolkien. Não “O” cânone, veja você, nem o cânone decisivo, ou o cânone atual ou mesmo o melhor cânone. Simplesmente um cânone. Minha pequena ajuda consistiu apenas em conceder permissão para as pessoas mencionarem o projeto para o “White Council”.

A verdadeira discussão canônica recomeçou no site The Barrowdowns, mas parece que parou. Eu acho que posso entender porque parou. Parte do problema é que um projeto como este requerirá muito tempo, e isso é ameaçador.

Mas deixe-me começar do início, tanto quanto eu consiga voltar no tempo. A questão do “cânone” tem frequentemente surgido em vários fórums de discussão pela Internet. Duas ou mais pessoas irão discordar acerca de algo nos livros e irão começar a fornecer citações para provar as suas afirmações. Graças à Deus, as citações são completas e relevantes, mas quase sempre alguém se opõe à fonte de informação do outro. A citação pode até estar completa, mas ela não parece relevante para todos os grupos.

Por exemplo, é relevante citar “O Livro dos Contos Perdidos” quando se discute “O Silmarillion”? Os dois trabalhos estão separados por mais de 50 anos. Muitas pessoas sentem que “O Livros dos Contos Perdidos” é apenas um “Silmarillion” mais atual [e não é!]. Muitas pessoas apontam que Christopher Tolkien usou “O Livro dos Contos Perdidos” para escrever partes de “O Silmarillion” [o que realmente fez!]. Então, “O Livro dos Contos Perdidos” é uma fonte relevante de informação.

Oh, que dores de cabeça aquela questão criou! Ninguém pode fornecer uma resposta definitiva. A melhor resposta que até agora eu consegui dar é, “Depende”. Algumas pessoas têm [erroneamente] suposto que significa: “Depende se [Michael Martinez] quer usá-la”. O que depende é se você está falando sobre os trabalhos de J.R.R. Tolkien ou o mundo retratado por “O Silmarillion”. “O Livro dos Contos Perdidos” é centrado na Inglaterra. Determinavelmente, honestamente e inegavelmente. Tolkien regularmente trabalhou a geografia da Inglaterra nas suas estórias. A Inglaterra seria aquela porção de Tol Eressëa que foi restaurada ao mundo mortal. “O Livro dos Contos Perdidos” foi uma mitologia que Tolkien escreveu para a Inglaterra.

Em algum lugar dos anos 20 Tolkien desistiu de escrever a mitologia da Inglaterra, mas ele não desistiu de escrever mitologia. Quer dizer, ela não era mais destinada à Inglaterra. Ela se tornou a mitologia de J.R.R Tolkien. Eu penso que ele sempre quis publicá-la, mas percebeu, de alguma forma, que não era algo que se esperasse que os editores perseguissem. Apesar de tudo, falsas mitologias não inundavam as livrarias naqueles dias.

Suas mitologias são linguisticamente dirigidas. Ou seja, as estórias são frequentemente ligadas com as linguagens Élficas construídas por Tolkien. Ele foi guiado por três paixões: a paixão por sua amada esposa, Edith [quem ele quase perdeu para outro homem antes que se casassem]; a paixão pela linguagem; e a paixão por contar estórias. Foi esta última paixão que eventualmente garantiu que Tolkien fosse publicado, mas foi a primeira paixão que resultou na melhor estória de Tolkien, o conto de Beren e Lúthien. E ainda ele atribuiu grande parte das suas estórias à segunda paixão, seu amor à linguagem. Ele queria saber as histórias por detrás de simples palavras; e juntou-as todas e criou uma fantástica história imaginária.

Nós podemos mostrar os livros “The History Of Middle Earth” [ainda sem tradução no Brasil] e dizer, “Este [livro] documenta este período” e assim por diante, mas estas divisões arbitrárias que Christopher Tolkien impôs sobre a história devem-se muito mais às suas próprias limitações humanas. O reuso de estórias, idéias, personagens e linguagens através dos anos feneceram as diferenças para J.R.R Tolkien, e essas diferenças nebulosas foram preservadas para nós. Agora nós as achamos nebulosas, também.

Tenho certeza de que sempre houve um mundo na mente de Tolkien, no qual suas personagens viveram e atuaram. Ele chamava-o de mundo secundário, ou um mundo sub-criacional [sua sub-criação]. Christopher continuou a chamá-lo de mundo secundário, posto junto ao mundo primário [nosso mundo] e consistindo de eras imaginárias no passado, antes que a história mundana começasse.

O mundo secundário de Tolkien primeiramente incluía Gnomos, Homens e Anões [malvados]. Mas com a publicação de O Hobbit ele teve que se confrontar com a preocupação real de fornecer um sequência para uma estória a que ele somente tinha designado uma importância secundária. Nesta época, Tolkien estava tirando outras criaturas do seu mundo secundário, que não mais se adaptavam a ele: duendes, fadas e outros tipos dos contos de fadas. Os gnomos eram Elfos, Elfos de uma espécie diferente, somente vislumbrada nas mitologias nórdicas, talvez levemente melhoradas com um toque de Tolkien

Para satisfazer sua necessidade íntima de ver mitologia publicada, e assim criar uma “realidade” à sua maneira, e para satisfazer os editores e leitores que queriam mais sobre Hobbits, Tolkien uniu o mundo de O Hobbit com o mundo de “Quenta Silmarillion”, que veio para substituir “O Livro dos Contos Perdidos” como “a mitologia”. “Quenta Silmarillion” já era um trabalho bem diferente do Contos Perdidos, mas ainda se parecia com os contos de muitas formas.

Hobbits, por outro lado, eram uma criação completamente nova. Eles não tinham lugar na velha mitologia [agora com mais de 20 anos de idade]. Eles de fato não tinham lugar real no mundo secundário de Tolkien; então, ele criou um lugar para eles e assim, mudou seu mundo radicalmente. A mudança forçou Tolkien a dispensar algumas convenções que ele tinha adotado anteriormente. Hobbits eram criaturas informais. E a mudança forçou Tolkien a procurar ver como essas criaturas poderiam compartilhar um mundo com Gnomos e Homens heróicos, trágicos e poderosos, sem se tornar confuso.

Tolkien produziu “O Senhor dos Anéis”, que milhões de pessoas já leram. E ele sugeriu algumas revisões a “O Hobbit” ao seu editor, que foram entendidas, de fato, como mudanças na estória. Quando Tolkien descobriu que as suas sugestões viraram realidade, teve que se virar para revisar o material histórico que já estava preparando para o ainda não publicado “Senhor dos Anéis”. Quando o livro foi finalmente publicado, Tolkien teve que revisar toda a base de informação histórica novamente, condensando-a e reorganizando-a consideravelmente. Muito do que ele pretendia que fosse publicado nunca viu a luz do dia durante seus dias de vida.

“O Hobbit” e o “Senhor dos Anéis” foram revisados novamente anos depois quando a Ace Books, aproveitando-se de um furo na lei de copyright, publicou uma edição não autorizada dos trabalhos de Tolkien. Para combater os livros não autorizados, foi pedido a ele que apresentasse mudanças suficientes em ambos os livros para justificar a nova edição “oficial”. Estas mudanças alteraram invariável e novamente o mundo em desenvolvimento na mente de Tolkien, e introduziram controvérsias acerca da progressão da história imaginária.

Então, muitos anos depois, as pessoas na Internet descobriram Michael Martinez e suas longas citações sobre Tolkien. Eu tenho refletido muito e pontificado nos mundos de “O Hobbit”, de “O Senhor dos Anéis” e o de “O Silmarillion”. E ocasionalmente [quando me convém, diriam uns] eu pego algum volume do “The History of Middle-Earth” e incluo seu conteúdo nas minhas reflexões e pontificações.

Mas, há alguma emoção ou razão para fazer tudo isso? Quase sempre minhas citações parecem confusas para muitas pessoas. Eu irei mencionar “O Livro dos Contos Perdidos” aqui quando discuto “A Queda de Gondolin”, mas eu irei excluí-lo lá quando discuto a queda de Gondolin [do Silmarillion]. “O Silmarillion não é canônico.” eu direi para as pessoas, e então eu continuarei a mencioná-lo para afirmar qualquer coisa que eu achar que posso.

“Como você acha e escolhe seus textos?” me perguntam, às vezes.

Eu digo: “Cuidadosamente.”

“Por que o Silmarillion não é canônico?”

Esta é a pergunta mais complicada de todas. Não é relevante para os outros livros porque Christopher Tolkien removeu-o de tal relevância. No prefácio de O Silmarillion, Christopher avisa ao leitor que “uma consistência completa [tanto dentro do próprio O Silmarillion como em comparação com outros escritos publicados de meu pai] não é para ser almejada, e poderia apenas ser alcançada, se o for, com um grande e inútil esforço.”

Christopher tinha anteriormente repudiado algumas de suas decisões editoriais em O Silmarillion, entretanto, das mudanças críticas que ele introduziu na estória da queda de Doriath ele continuou a dizer: “

“Esta estória não foi ligeiramente e facilmente aceita, mas foi o resultado de uma longa reflexão entre concepções alternativas. É, e era, óbvio que um passo estava sendo dado de uma forma diferente de qualquer “manipulação” dos próprios escritos do meu pai…pareceu naquele tempo, que haviam elementos inerentes na estória da Ruína de Doriath como estavam que eram radicalmente incompatíveis com “O Silmarillion” como foi projetado, e que havia aqui uma escolha impossível de escapar: abandonar aquela concepção, ou então alterar a estória. Eu acho agora que esta foi uma visão errada, e que as indubitáveis dificuldades poderiam e deveriam ter sido, superadas sem que se ultrapassem, de tão longe, os limites da função editorial.”

Esta confissão em nada invalida O Silmarillion como uma representação da obra de J.R.R. Tolkien. De fato, não há Silmarillion que represente uma realização autoral direta de J.R.R. Tolkien. Até mesmo “Quenta Simarillion”, dos findos anos 30, não é parte de um trabalho muito maior e mais completo que se tornaria O Silmarillion.

Não tenha dúvida: a maior parte do material em O Silmarillion foi escrita por J.R.R. Tolkien…em uma hora ou outra. Entretanto, o material não foi escrito para ser parte deste livro. Não foi a intenção de Tolkien. Christopher Tolkien escreveu O Silmarillion definitivo, e depois de gastar perto de 20 anos analisando o trabalho de seu pai e comparando-o com o livro publicado, ele chegou à conclusão que ele não tinha sido tão fiel à obra de seu pai quanto esperava.

Então quando as pessoas me vêem repudiar O Silmarillion de Christopher eles invariavelmente perguntam como eu poderia rearranjar o livro, fosse-me dada a tarefa de revisá-lo. Eu nunca serei capaz de responder esta questão. Eu acho que é inevitável que novas edições de O Silmarillion sejam publicadas. Uma vez que os direitos autorais das obras de Tolkien um dia virão a expirar, e as estórias se tornarão de domínio público, as pessoas irão dar a si mesmas a tarefa de escrever novos Silmarillions.

Alguns esforços serão ao mesmo tempo lastimados e saudados com grande louvor. Auto-intitulados puristas de Tolkien irão argumentar que apenas um dos dois Tokiens é qualificado para corrigir o texto de O Silmarillion, se tal texto pode ser idealizado. Qualquer outra pessoa está meramente passando por um falsificador. Talvez, mas Christopher Tolkien está aposentado, e ele indicou que não irá mais escrever. Suas realizações em documentar os trabalhos do pai são incomparáveis, e ele revelou a árvore que traz os frutos disformes que teremos que distribuir entre nós.

O gosto d”O Silmarillion é ao mesmo tempo amargo e doce, e desta forma deve servir para o propósito dos autores melhor que qualquer futura publicação. Mas ele não consegue uma consistência com O Hobbit e O Senhor dos Anéis, que seria necessária. E para obter tal consistência, alguém precisa reescrever não só O Silmarillion, mas também cada um dos outros dois livros. A idéia de reescrever O Silmarillion é dificilmente confortável para a maioria dos fãs de Tolkien. Agora ninguém ousaria reescrever os outros dois livros.

E mesmo assim, a proeza já foi feita, nos dois livros, por editores ávidos por trazer os textos “corretos” de Tolkien para impressão. Veja bem, J.R.R.T. indicou algumas correções que deveriam ser feitas nos textos e que não foram incorporadas até a sua morte. Estas são a “quarta” edição d”O Hobbit e a “terceira” edição d”O Senhor dos Anéis, dificilmente distinguíveis das suas predecessoras, mas diferentes o bastante para que alguns leitores encontrassem profunda significância na sua existência.

E há uma grande distância entre corrigir textos e realmente revisar a estória em cada livro. Além do mais, isto também já foi feito, aos dois livros de novo, e mais de uma vez. Ambos foram adaptados para o cinema e televisão, e para o rádio. O Hobbit também foi adaptado para o teatro. As estórias passaram por mais mudanças que, talvez, qualquer pessoa pudesse esperar ver.

Então não é grande coisa, exceto em termos emocionais, considerar uma revisão formal de, digamos, O Hobbit, para trazê-lo para uma forma mais consistente com O Senhor dos Anéis. O próprio J.R.R. Tolkien escreveu: “Eu acho que O Hobbit pode ser visto como início de algo que pode ser chamado de modo “caprichoso”, e de alguma forma até mais humorístico [do que O Senhor dos Anéis]…mas eu me arrependo disso do mesmo jeito.”

Humphrey Carpenter diz em sua biografia que quando Tolkien revisou O Hobbit para diferenciá-lo da edição não autorizada da Ace Books “ele achou grande parte dele “muito pobre” e teve se conter para não reescrever o livro inteiro.”

Os Vulcanos têm um ditado, de acordo com o Sr. Spock: Somente Nixon pode ir à China. A maioria dos fãs podem dizer: somente Tolkien pode reescrever Tolkien. É verdade, muito provavelmente ninguém seria capaz de reescrever O Hobbit como J.R.R. Tolkien o faria. Qualquer autor publicado atualmente produziria, sem dúvida, um tipo profundamente diferente de estória, fornecendo um tom diferente, novos personagens, detalhes “não-canônicos” adicionais, prenúncios e empréstimos de O Senhor dos Anéis, e tudo mais de pior. Esta é a forma dos pastiches. O novo escritor pode não ser de ajuda, mas deixar suas próprias digitais na obra.

O que é solicitado é um mestre das falsificações, alguém que queira produzir outro Rembrandt, não uma pintura tão boa quanto Rembrandt. Um falsificador imergiria a si mesmo no estilo e prosa de Tolkien, não adicionaria nada que Tolkien não teria adicionado, não usaria palavras que próprio Tolkien não escreveria. Entretanto, o perigo de contar com uma falsificação é que o falsificador poderia, apesar de tudo, produzir uma obra banal e desinteressante. Pareceria que Tolkien teria escrito o livro, mas ele seria um fracasso. Somente um mestre da falsificação com o dom de um contador de estórias similar ao de Tolkien teria alguma chance de ter sucesso. Mas…tal pessoa existe?

Invariavelmente milhões de fãs diriam: Não!

Muito bem. Eu não tentarei ser esta pessoa.

Porém, em resposta à questão irrespondível, se eu tentasse revisar O Silmarillion, eu tentaria também revisar O Hobbit. Eu não tenho idéia do que eu faria no último, mas ele requereria mudanças. Uma nova edição de O Hobbit libertaria o autor do novo O Silmarillion de obrigações de honrar inconsistências. Estas obrigações atrasaram Christopher Tolkien, que reduziu seriamente alguns pontos históricos de forma a alcançar um nível modesto de consistência com O Senhor dos Anéis. Ele nunca levou O Hobbit em consideração.

Para o meu Silmarillion, eu revisaria as estórias de Maeglin, Béren e Lúthien, Túrin, a queda de Gondolin e Eärendil. Eu reafirmaria o número de passagens que foram abandonadas dos textos. Mas eu também teria que escrever novo material para trazer às estórias de O Silmarillion consistência com O Senhor dos Anéis. Eu não iria, por outro lado, introduzir os Hobbits em O Silmarillion. Eles não têm lugar nas histórias Élficas. Eles têm suas próprias histórias, perdidas, esquecidas, enterradas nas tradições insondáveis que não têm sido preservadas. A falta dos Hobbits em O Silmarillion tem sido lembrada com uma fraqueza do livro para os fãs de O Hobbit. Talvez, mas não há evidências que J.R.R. Tolkien já tenha se inclinado alguma vez a incluir os Hobbits nas histórias Élficas. Ele provavelmente incluiria os Druedain.

Portanto, um bom falsificador não pode colocar Hobbits em Beleriand. Quantas pessoas poderiam resistir à tentação, de qualquer forma, se lhes fossem dada a tarefa? A retumbante promessa inicial da campanha do Presidente George Bush vem à mente: “Leia meus lábios: nenhum novo imposto.” Dois anos depois, ele aprovou novos impostos. Para ter sucesso, um novo O Silmarillion simplesmente não pode incluir Hobbits. Ele não seria compatível com a visão de Tolkien. Nós sabemos bastante sobre aquela visão, então poderíamos fingir sermos falsificadores competentes se fôssemos discutir a idéia de “cânone”. Somente Tolkien poderia definir seu cânone, e desde que ele não se incomodava, se rudemente insistíssemos em fazer por ele, deveríamos nos tornar falsificadores.

Pode ser argumentado que para que um novo Silmarillion tenha “sucesso”, ele deve apelar para sua audiência moderna, especialmente se. Não deve levar outros 50 ou 70 anos para ser reescrito. Os livros velhos compartilham uma visão de uma audiência há muito perdida. Mas, quando falsifica-se um Rembrandt não se pinta com o estilo de Picasso. Deve-se pintar com o estilo de Rembrandt. Para alcançar a perfeição, deve-se usar os mesmos tipos de tinta e pincéis, canvas e a mesma iluminação de Rembrandt. Deve-se tornar Rembrandt em cada detalhe possível, viver no seu mundo e produzir uma obra de arte que deveria vir do seu mundo. O mesmo princípio serve para falsificar literatura. Se alguém adicionar um novo livro para os comentários Gálicos de César, deve-se escrevê-lo como César o faria [e ignorar, de qualquer modo, a controvérsia se o último livro era uma falsificação pobre]. Deve-se buscar consistência com o que é conhecido e aceito pelos experts como o carimbo do artesão cujo trabalho está sendo forjado.

É por isso que eu escolho os meus textos rigorosamente. O que é consistente com o cânone de Tolkien? Se alguém puxar um tópico de um livro, eu procuro pelas passagens em outros livros [se elas existirem]. O cânone da Terra-Média, como foi definido por J.R.R. Tolkien, já existe. Ele o estabeleceu na terceira edição de O Hobbit, na segunda edição de O Senhor dos Anéis, no The Road Goes Ever On e nas Aventuras de Tom Bombadil. Poderia até ser afirmado que o mapa da Terra-média de Pauline Baynes também faça parte do cânone.

Estes livros são, na sua maior parte, consistentes entre si. O Silmarillion trata de um monte de material não incluído naqueles livros, daí as oportunidades para consistência [ou para erros que desviem da consistência] serem tantas. O próprio Tolkien não disse: “Estes livros são o cânone; eles definem as leis do meu mundo.” Ele simplesmente os publicou. Ele os aprovou, escreveu-os, revisou-os. Eles são os enunciados formais, de J.R.R. Tolkien, para o que é e não é Terra-Média. E há inconsistências pequenas entre eles, mas nada como as inconsistências que aparecem entre esses livros e O Silmarillion de Christopher.

Mas se alguém começar a revisar o texto de O Silmarillion, esse alguém deve ter uma fonte para o novo material, que é indistinguível do material de J.R.R. Tolkien. E isso, é claro, é onde os The History of Middle-Earth e Os Contos Inacabados se tornam importantes. Christopher Tolkien já havia publicado muitos dos trabalhos de seu pai, previamente não publicados. Ele utilizou algum material de Os Contos Inacabados para escrever partes de O Silmarillion. E as fontes diretas da maior parte do livro têm sido publicadas nos The History of Middle-Earth.

O que um falsificador moderno [ou futuro] pode contar é com um cânone secundário publicado por Christopher para consultar. Quando ele estava compondo O Silmarillion, Christopher não teve este extensivo corpo de pesquisa disponível. Ele estava apenas nos primeiros estágios da pesquisa. Se ele soubesse antes o que ele sabe agora, ele teria escrito um O Silmarillion diferente. E se Christopher Tolkien poderia ter escrito um livro baseado no conhecimento que nós todos temos hoje disponível, então por que outra pessoa não? Bem, esta é outra questão irrespondível, daí nós iríamos apenas falsificar adiante e assumir que a questão foi respondida satisfatoriamente [e este ensaio termina aqui, mas eu não estou pronto para finalizá-lo].

Há questões difíceis que devem ser mencionadas. O conteúdo total de “Quenta Simarillion” deve ser considerado, por exemplo. Ele nunca teve a intenção de cobrir todos os detalhes das estórias completas. Ele é um resumo, uma camada de interpretação, se você preferir, que fica entre o leitor e os contos “verdadeiros”. Portanto, ninguém pode simplesmente encaixar o “Narn i Chin Húrin” inteiro no texto. Por outro lado, “The Wanderings of Húrin” é uma importante extensão da estória de Túrin e seu pai, e ela não deveria ser excluída, sendo que estava na forma na qual Christopher a encontrou [na realidade, a versão publicada é muito diferente dos manuscritos não editados, pela explicação dada pelo próprio Christopher]. A estória de Túrin deve retornar para Doriath, o que acontece de forma inadequada no Silmarillion publicado, e por isso Christopher literalmente cortou o final da estória e fabricou um final inteiramente novo.

Outro assunto que preocupa é como os velhos parágrafos que Christopher usou devem ser reescritos. Eles devem ser reescritos, porque são muito inconsistentes com as coisas que J.R.R. Tolkien incluiu posteriormente no cânone. Seguidores do “Grande Debate dos Balrogs” sabem que as pessoas frequentemente defendem que os Balrogs não poderiam ter voado, porque em Dagor Bragollach, Glaurung veio saindo de Angband com os Balrogs nas suas costas. Esqueça o fato de que “nas suas costas” poderia incluir criaturas voadoras, o parágrafo é tecnicamente inapropriado para inclusão no Silmarillion porque foi escrito antes que Tolkien alterasse radicalmente a descrição física dos Balrogs [nos anos 40, enquanto escrevia “A Ponte de Khazad-dum”] e seu número [no anos 50, reduzindo eles de centenas ou milhares para não mais que 7], e antes que os Balrogs se tornassem Maiar corruptos.

Existem fortes emoções ligadas à passagem “nas suas costas”. Ela tem sido frequentemente usada para provar [sem sucesso] que os Balrogs não têm asas e não podem voar. Bem, os Balrogs para os quais J.R.R. Tolkien escreveu aquelas palavras não tinham asas e não podiam voar, eram em número de 1000 e viajavam nas costas de dragões e/ou outras criaturas. Eles eram uma tropa de cavalaria assustadora, e eram um pouco diferentes do Balrog de Moria.

Não pretendo redebater o assunto Balrog aqui, mas minha opinião é que algumas coisas nas quais fortes sentimentos [e lealdades] foram atados simplesmente teriam que desaparecer. Não para provar que Balrogs tinham asas e voavam, mas porque elas eram inconsistentes com o cânone publicado por Tolkien, ou com as decisões de Tolkien que eram contemporâneas com o cânone publicado.

E então se levanta outro assunto espinhoso. É justo que se utilizem decisões feitas durante os anos entre 1950 – 1966, quando foi estabelecido o cânone publicado, mas quais não estariam incluídas nele? Pegue a passagem de Gil-galad, por exemplo. Christopher agora admite com prazer que ele nunca deveria ter declarado Gil-galad como sendo filho de Fingon em O Silmarillion. Ele baseou aquilo em uma nota de rodapé que ele depois percebeu ser apenas uma “idéia efêmera”. Gil-galad era um tipo de “batata quente” genealógica, pulando em torno da Casa de Finwë de pai para pai, começando com Inglor [adivinhe, Finrod] e passando para Fingon e de volta para Finrod e finalmente para Orodreth. E lá ele ficou, como filho de Orodreth, perdido nas genealogias.

É inapropriado usar a conexão Fingon –> Gil-galad em O Silmarillion. Christopher diz que teria sido melhor deixar o parentesco de Gil-galad incerto, dizendo nada. Eu acredito que seria melhor declarar que Gil-galad era o filho de Orodreth, e descobrir um alguma maneira para ele evitar a Queda de Nargothrond, tal como Galadriel a evitou. As pessoas querem saber quem foi o pai [e mãe] de Finrod. Pelo menos parte da informação está estabelecida em material publicado postumamente.

Algumas pessoas no Barrowdowns estavam perguntando se a seção “Mitos Transformados” do Anel de Morgoth poderia ou deveria ser usada para estabelecer um cânone. Eles se baseiam no revisado mito do Sol e da Lua. Eu não faria isso. Ele é completamente inconsistente com todo o mais publicado. Tolkien, nos seus últimos anos, ficou preocupado, talvez até alarmado, que O Silmarillion [quando publicado] estabeleceria o antigo mito [em termos da sua vida] sobre a criação do Sol e da Lua a partir das últimas folhas de Laurelin e Telperion nas histórias Élficas. Mas os Elfos, ele pensou, particularmente os Eldar, cujas histórias eram essas, foram instruídos diretamente pelos Valar e Maiar, os seres angelicais que existiam antes do Tempo. Eles não deveriam ser tão rápidos a inventar baboseiras falsas e pseudo-religiosas sobre como o Sol e a Lua eram folhas das árvores.

Por um instante, Tolkien brincou com a idéia que talvez o Homem, recordando e passando as histórias Élficas, tivesse estragado as estórias. Mas no final das contas, ele rejeitou aquela idéia e chegou à conclusão que a história inteira deveria ser reescrita. Esta é a razão real para o porquê Tolkien nunca publicou, ele mesmo, O Silmarillion. Ele simplesmente não existia, exceto na forma de comentários estranhos e notas para ele mesmo sobre o que funcionava e o que não funcionava. Tudo estava a ponto de mudar de novo.

Ninguém pode simplesmente reconciliar O Hobbit, O Senhor dos Anéis, As Aventuras de Tom Bombadil com a história humana atual, e nossas deduções sobre o que veio depois. Se alguém deve reescrever O Silmarillion, então alguém deve reescrever todos os outros livros também. E isso é exatamente o que o falsificador deve fazer? Seria como repor todos os Rembrandts por novas pinturas apenas para justificar uma falsificação menos coerente. No caso de Tolkien, ele não tinha como proceder muito mais com as suas extrapolações para perceber as implicações mais amplas, e talvez tenha sido um alívio para ele que não tenha conseguido ver onde as revisões deveriam acabar.

Então, inevitavelmente, alguém deve permanecer fiel aos mitos mais antigos, e produzir um Silmarillion que viva no mundo imaginário do cânone publicado. Neste mundo, Galadriel não poderia se juntar com os Teleri em Alqualondë contra os Noldor [uma das decisões que Tolkien tomou tarde em vida]. Nem pode Celeborn ser um Elda de Aman, neto de Olwë [um relacionamento que o faria primo de primeiro grau de Galadriel e, portanto, violando um tabu sobre tais uniões que Tolkien tinha previamente estabelecido e depois esquecido]. A história de Galadriel deveria ser planejada para o Silmarillion forjado. Não há história real para Galadriel. Existem muitas tentativas de Tolkien para inventar uma, mas cada uma delas termina logo, e introduz seus próprios problemas no enredo da estória.

Pelo menos, eu permaneceria fiel aos mitos mais antigos. Sim, os Elfos deveriam ter maior conhecimento do que pensar que Eärendil é Vênus, que o Sol e a Lua foram só criadas cerca de 11.000 anos atrás, e o mundo era plano mas foi encurvado quando os Numenorianos se rebelaram. Mas, eu não posso pensar em reescrever o Senhor dos Anéis, sendo que o propósito de reescrever o Silmarillion é necessário para fazê-lo consistente com o livro mencionado.

E eu acho que é onde as pessoas que querem definir um cânone para as discussões devem ir. Há uma riqueza de material que pode ser usado para descrever o que é necessário para a consistência com o Senhor dos Anéis. Mas se alguém está pensando em reescrever os mitos, esse alguém está pensando em reescrever O Senhor dos Anéis, e então a intenção de definir um novo cânone de Tolkien perde todo o valor. Você não seria capaz de discutir Tolkien de acordo com um novo cânone, você seria capaz apenas de discutir o novo mundo que você criou.

Claro, alguns fãs de Tolkien diriam: “Por que apenas não criamos novos mundos e deixamos Tolkien em paz?”

Esta também é uma questão sem resposta.

[Tradução de Daniel. A. Sant’Ana]

valinor

Celeborn Unplugged

Constantemente alguém pede para que eu fale sobre Celeborn. Ele é, talvez, o mais mal-falado e incompreendido dentre todos os personagens de Tolkien. Muitas pessoas consideram o Senhor de Cabelos Prateados de Lórien como sendo tolo ou mesmo ridículo. Por que? Basicamente por uma frase proferida por Galadriel.

E agora os sabres da racionalização começam a censurar em suas bainhas: “Oh, mas ele não faz realmente nada no livro!” dizem os seus detratores. Da mesma forma, Galadriel deixa o seu capacho real e faz alguma coisa? Perdão. Nesse mato não tem Warg. Nenhum dos dois personagens faz muito na história. Os dois realizam muitíssimo no segundo plano: Galadriel ajuda Gandalf e Celeborn ajuda a derrotar as forças de Dol Guldur. Juntos, eles lideram os Elfos de Lórien. A principal reclamação que muitos parecem ter contra Galadriel é perguntar o que ela está fazendo com um idiota como Celeborn. Francamente, pelo meu livro, qualquer um que consegue se casar com uma Galadriel é um vencedor, mas isso é apenas a minha opinião. Chame isso de uma interpretação do texto. Diga que eu estou lendo algo no texto que não está lá. Isto não é como se ninguém houvesse feito isso antes.

O principal problema com Celeborn é que Tolkien nunca se decidiu sobre ele. Por exemplo, Tolkien o chamou “Celeborn o Sábio” e pessoas perguntaram: “Por que?” O único comentário de Robert Foster no verbete em The Complete Guide to Middle-earth é dizer que Celeborn não parece especialmente claro em O Senhor dos Anéis. Ora, quem parece? Alguém pretender questionar se Samwise Gamgi (cujo primeiro nome significa “meio-inteligente”) é um modelo de inteligência? Ou que tal Gimli, filósofo-anão que ele é, exaltando as virtudes das rochas?

Mesmo o personagem mais inteligente na Sociedade, Gandalf, não se deu conta de que Saruman o havia traído. Qual foi a última vez que Celeborn foi capturado por agentes do Inimigo? Ok, talvez isso não seja justo com Gandalf. Entretanto, alguém deve ser capturado, e ele é um prisioneiro conveniente. Ele é astuto e reservado – é admirável que Saruman não o tenha aprisionado mil anos antes.

É claro, a definição de Tolkien para “sábio” parece diferir da definição da maioria das pessoas atualmente. Tolkien não quis dizer “Celeborn o Sabe-tudo”. Quando a Sociedade aparece em Lórien, eles não estavam de olhos vendados, amordaçados, amarrados, arremessados na mala de um Lincoln Town Car e rodaram por aí durante três horas, e então forçados a confrontar o Senhor élfico mau-humorado na escuridão de um armazém. “Se vocês aí pensam que vão conseguir alguma ajuda de nós, se enganaram vindo até aqui! Oh, droga. Lá vem a patroa. Todos aí peguem uma harpa e se comportem como ELFOS!”

Tolkien também não quis dizer “Celeborn o Sábio espirituoso”. “Ei, Gimli! Com quantos anões se troca uma lâmpada?”

Mas quando se fala “os Sábios”, geralmente eu fico com a sensação de que interpreta-se “os Sábios” como os elfos mais inteligentes. E qual seria a justificativa para esse tipo de pensamento? Fëanor foi o elfo mais inteligente de seu tempo, e vejam onde o seu cérebro o levou. Ter inteligência confere algum tipo de sabedoria? Certamente que não. Nsa verdade, pessoas inteligentes cometem os mais estúpidos e tolos erros. A História é marcado pelos erros dos mais brilhantes.

Sabedoria é uma combinação de conhecimento, experiência e intuição. E todos os elfos de Tolkien possuem conhecimento, experiência, e intuição. Até mesmo Legolas, que parece ser jovem para um elfo (provavelmente não teria mais do que algumas poucas centenas de anos), tem conhecimento, experiência e intuição. Ele é sábio além dos anos de qualquer mortal, certamente. Entretanto, ele é um dos Elfos-Sábios? Aparentemente não. Ainda assim, ele aceita partir na missão para a Montanha da Perdição e termina por encontrar seu destino além do Mar. Adeus, Terra-Média. Olá, aposentadoria forçada em Aman.

Alguns parecem acreditar que uma boa capacidade de dedução é um aspecto da sabedoria. De fato, uma pessoa sábia iria colher todas as provas e concluir que Moriarty é mesmo o culpado. Mas Celeborn não é Sherlock Holmes, meu caro Watson. E nem deveria ser. Entretanto, Celeborn sabe quem é o seu inimigo. Ele não é questionado com dúvidas graves ou tentações, tal qual sua esposa. Ele tem um personalidade bastante sólida a esse respeito.

A credibilidade de Celeborn enquanto um sábio é normalmente questionada em três pontos: por que ele é repreendido por Galadriel perante a sua côrte e da Sociedade; por que ele não pertence ao Conselho Branco; e por que ele não quer o Um Anel? É evidente, a razão pela qual ele é repreendido é que Tolkien quer explicar algo ao leitor. E o que o autor está tentando nos dizer?

Celeborn está tão espantado quanto todos os outros quando das (prematuras) notícias da morte de Gandalf. Quando Celeborn diz, “E se isso fosse possível, talvez se pudesse dizer que Gandalf, no último momento, da sabedoria caiu na loucura, entrando sem necessidade nas entranhas de Moria”, muitos leitores reclamam. Ei, não fale assim do nosso Mago favorito!

Mas a reserva de Celeborn é um restabelecimento necessário da advertência anterior de Aragorn para Gandalf não entrar em Moria. A credibilidade de Gandalf como um dos Sábios foi severamente enfraquecida. Ele não pôde encontrar um caminho através de seus obstáculos, e quando prosseguiram ele foi frustrado pelo Balrog (que o arrastou para dentro do abismo). Muitos assumem que o Balrog desejava o Um Anel. Bem, quando nos é dito que ele sabia sobre o Um Anel? Eu acho que Gandalf tinha um Balrog bem por fora de tudo em suas mãos, e isso era tudo. O velhinho arremessou parte da montanha jovialmente no Balrog quando ele não sabia mais o que fazer. Eu tenho certeza de que Balrogs, sendo criaturas tão inflamadas como são, não apreciam ter montanhas arremessadas neles.

O meu ponto é que geralmente os leitores focam demais sua leitura na linha principal da história. Tolkien introduziu um conflito pessoal para Gandalf portanto ele poderia ser removido convenientemente da ação. A queda de Gandalf em Moria é, na verdade, um artifício literário não diferente dos seus negócios urgentes no sul distante em O Hobbit. Ele é um personagem muito poderoso para o autor mantê-lo com a Sociedade do Anel, então ele deve partir.

Mas se livrar de Gandalf diminui a sua credibilidade. Então, alguém que não tenha parecido fraco e tolo deve restabelecer a credibilidade de Gandalf. Agora podemos todos concordar que Galadriel restabelece a reputação de Gandalf ao refutar que contestem as suas decisões. Alguém deve arriscar sua própria credibilidade para que possa colocar Galadriel em posição de defender Gandalf.

A expressão de dúvida não soaria bem vindo de Aragorn ou outro membro da Sociedade. Nem seria apropriado a um dos elfos inferiores no salão que dissessem, “Ei, o Gandalf deu mole dessa vez, chefe!”. A inquietação do leitor acerca da sabedoria e propriedade das escolhas de Gandalf devem vir de alguém com autoridade. E Celeborn tem a autoridade apropriada.

Ao sacrificar (temporariamente) a credibilidade de Celeborn, Tolkien oferece ao leitor um caminho diferente de um enigma literário. Ninguém deve criticar o pobre e velho Gandalf por fazer o que parece uma decisão estúpida. Afinal de contas, a Comitiva poderia apenas ter cruzado o Passo Alto por sobre Valfenda, que era protegido pelos Beornings, e viajado para o sul por terras ameaçadas por orcs nos Vales do Anduin, certo? Ou eles poderiam ter ido através do Desfiladeiro de Rohan quando todos os Orcs estivessem cochilando durante o dia. A parte mais fraca da história é a afirmação de Tolkien (através de Gandalf) que o único caminho para sair de Eriador (e Azevim) com o Anel é ir por Moria até Lórien.

Gandalf, é claro, queria alcançar Lórien. Ele sabia que encontraria ajuda lá. Então, ir através do Desfiladeiro de Rohan não faz sentido, realmente. Foi bom que Gandalf não tenha desperdiçado tempo discutindo com Boromir sobre a validade de se levar o Anel para Gondor. De fato, aprecia-se um pouco mais a sabedoria de Gandalf quando se considera o fato de ele ter desconsiderado este argumento.

É claro, outra reclamação contra Celeborn diz respeito à sua má liderança vez ou outra. As pessoas encaram sua retração em dar as boas-vindas a Gimli (e a todos que vão com Gimli – que são a Comitiva como um todo) como um sinal de estupidez. Deve-se questionar o argumento por trás deste julgamento, entretanto. Afinal de contas, Celeborn reconhece que ele (e, presumivelmente, Galadriel) suspeitavam há muito de que algo poderoso e terrível habitava em Moria. Agora seu maior medo foi confirmado, e ele conclui que seu reino não é ameaçado apenas por Dol Guldur, mas também pelo poder em Moria. E não é apenas um poder qualquer, é um Balrog.

Muitos olham para O Silmarillion e pensam, “Ah, Elfos matavam balrogs a torto e a direito. Então por que Celeborn deveria se preocupar acerca de um só?” Bem, O Silmarillion é enganador. O único conto onde Elfos matam Balrogs é a história sobre Tuor e a queda de Gondolin, e Christopher Tolkien teve que sintetizar um texto muito antigo, um conto pré-Silmarillion de O Livro dos Contos Perdidos para criar aquele capítulo. Na realidade, caso J.R.R. Tolkien houvesse vivido tempo suficiente para reescrever a história para O Silmarillion, ele provavelmente não teria tantos Balrogs sendo assassinados. Ele teria mantido o sacrifício heróico de Glorfindel e seria desse jeito.

Celeborn havia de se preocupar em como manter Lothlórien no mapa tanto tempo quanto fosse possível. A desvantagem de Lothlórien para uma longa sobrevivência era, na verdade, muito grande. Então por que deveria uma pessoa sábia (especialmente um dos Sábios Elfos, que, de qualquer modo, têm suas próprias preocupações) não ficar preocupada nem um pouco ao saber que um balrog mora logo ao lado? O coração de Galadriel deve ter batido mais forte também, e ela foi cautelosa ao ter que expressar sua preocupação com o descontrole de Celeborn.

De fato, a retratação de Celeborn mostrou que ele e Galadriel nem sempre tinham as mesmas opiniões. Suas rápidas desculpas a Gimli, que seguiram a breve repreensão de Galadriel, demonstram uma força de caráter que ela não via em si mesma.Celeborn foi capaz de mudar de direção mesmo no meio da tempestade. Ele não foi compelido pelas suas escolhas do passado em direção a um curso dos acontecimentos. Galadriel, diferentemente, havia mantido a si mesma na Terra-Média por suas próprias escolhas (ou assim somos levados a crer em The Road Goes Ever On). O temperamento de Celeborn é flexível a aberto à persuasão.

Além disso, ele também tem conhecimentos sobre o mundo em geral. Quando Aragorn revela que ele não havia decidido por qual caminho a Comitiva deveria prosseguir, Celeborn lhe poupa um bom tempo dando a Comitiva alguns barcos. Os barcos permitem que Aragorn deixe as opções em aberto. Mas também acelera o grupo no sentido das inevitáves escolhas que eles devem tomar. Aragorn não compreende isso, ele não tem plena noção de quão rápido eles prosseguem pelo rio.

Quando Celeborn convoca a Comitiva uma última vez antes que partam, ele lhes diz: “Pois chegamos agora ao limiar do nosso destino. Aqui, aqueles que desejarem podem esperar a aproximação da hora em que ou os caminhos do mundo se abrirão de novo, ou os convocaremos para a luta suprema de Lórien.” Há um senso de urgência em suas palavras que é enterrado abaixo da dúvida de Aragorn e da habilidade de Celeborn ao lidar com essa dúvida. Enquanto Celeborn evita fazer escolhas pela Comitiva, ele sabiamente limita as suas escolhas.

Vamos supor que a Sociedade estivesse para deixar Lothlórien à pé. Para onde eles iriam? Celeborn os avisa para evitarem a floresta da Fangorn. Então eles poderiam tanto retornar para as montanhas quanto tentar passar por Isengard, ou eles deveriam seguir o rio — talvez ainda tentar cruzar o rio pelas passagens mais rasas. A doação dos botes guia a Comitiva para longe das montanhas e de cruzar o rio muito cedo. O cruzamento será feito no sul como uma conseqüência da decisão de Celeborn.

É claro, considerando-se como os acontecimentos sucederam-se em Fangorn, é natural que perguntemos por que Celeborn deveria alertar a Comitiva para que ficassem longe da floresta. Merry e Pippin, depois de encontrarem Barbárvore pessoalmente, perguntam a ele por que Celeborn os havia advertido para não entrar na floresta. De sua parte, Barbárvore responde, “Hm, ele disse, é? E eu poderia ter dito o mesmo, se vocês estivessem indo daqui para lá.”. Ele reconhece que tanto a sua terra quanto a de Celeborn são muito perigosas para estrangeiros. Gandalf sugere algo similar, também, quando conta a Aragorn, Legolas, e Gimli que eles próprios são perigosos cada qual da sua maneira, exatamente como Barbárvore e os Ents são perigosos.

A advertência de Celeborn é suficiente para provocar a precaução dos viajantes. Ele não pode preveni-los de entrar na Floresta da Fangorn, e nem compeli-los de fazê-lo. Mas em face das dúvidas de Boromir acerca dos velhos contos de avós, Celeborn relembra ao viajantes que “talvez as velhas avós guardem na memória relatos sobre coisas que alguma vez foram úteis para o conhecimento dos sábios.”

Sua observação é curiosamente refletida no próprio epitáfio de Tolkien ao legado de Celeborn, dado no Prólogo: “mas não há registros do dia em que ele finalmente se dirigiu aos Portos Cinzentos, e com ele partiu a última memória dos Dias Antigos da Terra-Média.” Quando Celeborn o Sábio deixa a Terra-Média, muito do que um dia foi útil para o conhecimento dos sábios se foi com ele. De certa forma, Tolkien estava advertindo o leitor a não ter Celeborn como certo. Ele era uma mina de ouro de experiência e conhecimento, e por conseguinte sabedoria. Ele era muito perspicaz and poderia prever a corrente do rio tão bem quanto qualquer outro.

Portanto, quando diz “Adeus” a Aragorn, Celeborn permite que ele possa logo afastar-se de Galadriel. Ele estava inclinado a aceitar a separação, sabedor de que ao tempo certo ele iria segui-la através do Mar. Muitos freqüentemente questionam por que Celeborn deveria permitir que Galadriel o deixasse daquela forma. Mas eu penso que Tolkien explicou bem as razões de Celeborn em várias oportunidades.

Primeiramente, era provável que Galadriel precisasse que alguma cura. Ela não apenas foi uma Portadora de um dos Anéis de Poder, e por essa razão sujeita ao poder do Um Anel (ainda que indiretamente), como também era a última sobrevivente dos líderes da rebelião dos Noldor na Primeira Era. Galadriel havia se fatigado por seu exílio de longos anos, cujo regresso ela havia expressado na canção que ela compôs para a Comitiva ao deixar Lothlórien. Ela necessitava de um tempo até estar novamente em empatia com os Valar. Ela e Elrond eram ainda os últimos Portadores dos Anéis Élficos, e os Anéis de Poder eram originalmente um segundo ato da rebelião élfica. Galadriel, assim, deveria absolver a si mesma da falta em dois casos de “Queda”. Nenhum outro elfo precisou desse tipo de conciliação.

A separação de Celeborn seria ainda a oportunidade de Celeborn de dizer adeus a Terra-Média. Ele estava emocionalmente envolvido com a terra de modo que Galadriel não poderia estar. Agora, há quem acredite fervorosamente que Celeborn veio de Aman exatamente como Galadriel. De qualquer forma, no último ano de sua vida, Tolkien pessoalmente fez sua decisão. Mas à época, Tolkien se esqueceu de muito do que havia escrito, que teria sido útil para si. Em Contos Inacabados, Christopher nos diz:

“Assim, de início, é certo que a concepção mais antiga era que Galadriel atravessou sozinha as montanhas desde Beleriand para o leste, antes do fim da Primeira Era, e encontrou Celeborn em sua própria terra de Lórien. Isso está explicitamente afirmado em escritos inéditos, e a mesma idéia forma a base das palavras de Galadriel a Frodo, em A Sociedade do Anel, II, VII, onde ela diz de Celeborn que Ele mora no Oeste desde os dias da aurora, e eu moro com ele há anos sem conta; pois, antes da queda de Nargothrond ou Gondolin, atravessei as montanhas, e juntos, através de eras do do mundo, combatemos a longa derrota. É muito provável que Celeborn nessa concepção fosse um elfo nandorin (isto é, um dos elfos que se recusaram a atravessar as Montanhas da Névoa na Grande Viagem a partir de Cuiviénen).”

Lembra-se agora como eu disse acima que Tolkien não poderia parecer ter se decidido sobre Celeborn? A origem Nandorin para Celeborn não durou muito. Eventualmente, ele se tornou um príncipe sindarin — parente de Thingol Capa-cinzenta — que à época morava em Doriath, e mais tarde em Harlindon como senhor dos Sindar sob Gil-Galad. A transição foi feita em alguma época dentre os anos de 1956 a 1965, e provavelmente ocorreu em 1965, quando Tolkien modificou O Senhor dos Anéis para estipular a tradição Sindarin.

As mudanças feitas por Tolkien em 1965 para a segunda edição de O Senhor dos Anéis devem ser aceitas como canônicas, sobrepondo-se ao que está na Primeira Edição (assim como a Segunda Edição de O Hobbit trouxe aquela história para a Terra-Média). Celeborn é dessa forma indiscutivelmente um elfo Sindarin. mas as palavras de Galadriel de fato não fazem sentido, a não ser que se invente uma quase incrível história para Celeborn, ou interprete livremente sua fala para Frodo como uma passagem incorreta ou implicando que tanto ela quando Celeborn viajaram pelas Montanhas juntos.

Há, é claro, algum embasamento para a interpretação mais tardia. Nas histórias não publicadas de Galadriel e Celeborn, eles adentram Eriador juntos. Mas assim as coisas se tornam complicadas. Tolkien deixa o papel de Celeborn em Eregion duvidoso, e ele não está certo de quando Celeborn foi para Lórien, ou como, ou por que. Ao tratarmos de Celeborn como um elfo de Doriath, Tolkien cria uma razão para fazê-lo não-amigável aos Anões. Celeborn recorda-se do ataque a Doriath e da morte de Thingol (agora seu parente próximo).

Celeborn não é exatamente hostil aos Anões em O Senhor dos Anéis. Mas se aceitarmos a visão de Tolkien de que Celeborn nãoé afeiçoado a eles, então a antiga lei que Celeborn deixa de lado para permitir que Gimli caminhe livremente em Lothlórien faz sentido. Amroth, rei original de Lothlórien, parece ter sido amigável aos Anões. Ele e seu pai foram indubitavelmente aliados dos Anões Barbas-longas de Khazad-dum. Mas quando os Anões despertaram o Balrog e fugiram, eles despertaram um grande medo no povo de Amroth. Seu reino teve efetivamente um fim no ano de 1981.

Galadriel e Celeborn então se estabeleceram em Lothlórien para restabelecer alguma estabilidade ao reino élfico. Como Lothlórien teve sua população muito diminuída devido ao êxodo, eles iniciaram novas políticas. Lothlórien cessou praticamente todas as relações com outros povos. Eles até mesmo interromperam a comunicação com o reino de Thranduil no norte da Floresta das Trevas. Eles permaneceram amigáveis apenas com Valfenda, possivelmente Cirdan nos Portos, e talvez com os senhores de Gondor. Observando que os anões causaram o êxodo, Celeborn deve ter decidido que que eles não deveriam mais ser considerados bem-vindos em Lothlórien com a intenção de evitar contato com seja lá o que tenham despertado.

Então, sua decisão de deixar de lado a velha lei quando a Comitiva chega é um outro sinal da natureza flexível de Celeborn. Os tempos haviam mudado, e as necessidades de seu povo eram diferente daquelas de há mil anos. Lothlórien havia indubitavelmente crescido em população, e era óbvio naquele momento que os Anões não eram uma ameaça a Lothlórien. Celeborn poderia, por conseqüencia, parecer perigoso. Sua dúvida repentina, após descobrir que um Balrog morava em Moria, é compreensível. Ele havia então mudado o status quo. Gimli deve ser o primeiro de muitos Anões a retornar para Lothlórien depois de um milênio de isolamento. As novas sobre o Balrog eram uma infeliz confirmação da decisão que Celeborn havia então feito.

Desta forma foi para seu crédito que Celeborn pôde considerar verdadeiramente a advertência de Galadriel sobre sua retratação às boas-vindas de Gimli. Celeborn era sábio o suficiente para compreender que as suas considerações não eram as únicas no mundo. Galadriel é tida como tendo sido favorável aos Anões devido a sua origem Noldorin. Seu povo havia sido mais amistoso aos Anões do que o de Celeborn (tanto os Nandor quandos os Sindar). Mas Celeborn era resoluto e guiado pela necessidade. O Balrog tinha saído da toca, por assim dizer. Barrar Gimli e todos que foram com ele não teria realmente nenhum propósito. Celeborn deveria se focar nas suas necessidades presentes, e as palavras de Galadriel o relembraram de que aquelas necessidades eram tão importantes porque os Elfos e seus aliados estavam empenhados em preservar tudo que eles apreciavam.

Galadriel o mostrou bem sutilmente como encontrar uma empatia com Gimli: “Se nosso povo estivesse exilado longe de Lothlórien há muito tempo, quem dos Galadhrim, até mesmo Celeborn o Sábio, passando perto daqui, não desejaria rever seu antigo lar, mesmo que tivesse se tornado um covil de dragões?”

Essas são palavras muito proféticas, e Celeborn deve ter refletido sobre a sua relevância para o futuro. O dia em que Galadriel havia de deixá-lo estava chegando, e eventualmente seguiria-se que ele mesmo deveria deixar a Terra-Média um dia. Saudades do passado e pesar eram sentimentos que Elfos, todos os Elfos, podiam entender e aceitar.Galadriel falou a Celeborn, Elfo para Elfo, e fez a ele exatamente o tipo de questionamento que um Elfo iria concordar. Ele entendeu o que ela estava dizendo sem hesitação, e suas palavras conciliadoras mostram que ele estava desejoso de aceitar a amizade com Gimli.

De todos os senhores élficos mencionados no livro, Celeborn parece ser o menos aturdido pelos acontecimentos. Gildor Inglorion contem-se de ajudar Frodo diretamente contra os Nazgûl. Ele provavelmente teme que desafiando abertamente os agentes de Sauron irá atrair muita atenção. Ele se comunica com Bombadil, Aragorn, e Valfenda a favor de Frodo — e também muitos freqüentemente questionam o que o bondoso Gildor pode fazer por Frodo. Celeborn socorre Frodo prontamente, quase com avidez. Ele vive na fronteira e sabe o que está em jogo.

Mas Gildor era provavelmente também um dos senhores de Eregion, ou ta,vez um senhor de Lindon, que havia se tornado profundamente enredado na política dos Anéis. Os Noldor, ainda que com toda sua sabedoria e amizade com outras raças, cometeram um grande pecado ao criarem os Anéis de Poder e ao falharem em descobrir todos os fatos acerca dos Anéis. Celeborn, ainda que provavelmente sabendo que Galadriel tem um Anel de Poder, era praticamente desprovido de culpa. Enquanto que Elrond foi quase paralisado de medo do Um Anel, Celeborn fez suas escolhas rapida e facilmente. Sim, nós vamos ajudar o Portador do Anel. Sim, nós vamos enfrentar Dol Guldur e qualquer outra ameaça de Sauron.

Se a única dúvida que Celeborn manifesta relaciona-se às suas calorosas boas-vindas a Gimli, uma dúvida tão facilmente posta de lado pelo encorajamento de Galadriel, então ele é seguramente o elfo de vontade mais forte no livro. Mesmo Legolas parece um pouco fraco às vezes. Elrond, com toda sua sabedoria, aparentemente não podia imaginar o que fazer com Frodo. É apenas após a oferta de levar o Anel a Mordor que Elrond junta todas as indicações e conclui que é essa a missão apontada para o Hobbit. Celeborn, por outro lado, enxergando como todos estão pensando no quefazer em seguida, imagina um caminho para ajudá-los a prosseguir em direção a seus objetivos enquanto deixa as opções deles em aberto.

É evidente, há uma outra passagem quando Celeborn parece um pouco incerto. E isso foi para com o final do livro, quando ele e Galadriel estão conversando com Barbárvore. “Eu não acho que iremos nos encontrar novamente”, Barbárvore lhes diz. “Eu não sei, Maisvelho.”, Celeborn diz respeitosamente. Na verdade, eu penso que é um pouco mais tato pessoal do que respeito. É assim, Celeborn provavelmente entende que eles três nunca estarão mais juntos. Muitos apontam a resposta florida de Galadriel “nos prados de salgueiros de Tasarinan” como ligando a lacuna entre estupidez e a física de Einstein.

para mim, o grande significado dessa passagem é que o leitor está sendo preparado para ainda outro vislumbre de uma dessas histórias que Tolkien nunca encontrou tempo para contar. Se você voltar e reler a observação de Barbárvore a Merry e Pippin acerca da floresta de Fangorn e Lothlórien, e então olhar para sua doce despedida deles em “Muitas Despedidas”, torna-se óbvio que Celeborn, Barbárvore e Galadriel têm uma história. O que teriam eles feito em eras passadas? Quantas vezes eles teriam estado juntos?

Quando Tolkien traduziu a saudação em élfico de Barbárvore a Celeborn e Galadriel (A vinimar vanimalion nostari!), ele escreveu: “O cumprimento de Barbárvore a Celeborn e Galadriel significava Ó belos, pais de belas crianças.” Enquanto é de conhecimento comum que Celebrian era filha de Celeborn e Galadriel, não é tão sabido que – por um instante – Tolkien considerou Amroth seu filho, também. Amroth, eventualmente, se tornou filho de Amdir (ou Malgalad), mas as palavras de Barbárvore implicam que ele sabia (e amava) os filhos de Galadriel e Celeborn. Evidentemente, havia mais na conexão Barbárvore/Galadriel/Celeborn do que Tolkien revelara em O Senhor dos Anéis.

E o mesmo é verdade sobre Celeborn pessoalmente. Nós vemos apenas breves cenas das muitas facetas de Celeborn. Ele não é um diamante bruto tanto quanto uma jóia brilhante que jaz meio-enterrada entre outras jóias, algumas mais brilhantes ou menos cobertas. Como o próprio Tolkien poderia ter dito, não há recordação do conto completo de Celeborn, mas seu conto estava selado no coração de Tolkien, e quando Tolkien por fim viu os Portos Cinzentos de sua própria maneira, com ele se foram as últimas memórias não reveladas dos dias de Celeborn na Terra-Média.

valinor

Por Esta Espada, Eu Reino!

Os fãs de Robert E. Howard devem reconhecer o eco de uma aventura de Kull nesta sentença, "Por esta espada, eu reino". Howard gostava de escrever sobre guerreiros fortes e poderosos. Eles podiam ser homens do Velho Oeste Americano, boxeadores no ringue, ou bravos bárbaros que atravessam os salões de civilizações tão antigas que mesmo os cidadãos esqueceram sua origem distante.
 

Em alguns aspectos, Aragorn era um bárbaro, pelo menos de uma perspectiva gondoriana. Apesar de ser criado por Elrond em uma casa Eldarin, Aragorn não era um garoto mimado. E seu pai e avô foram mortos por monstros (respectivamente, Orcs e Trolls), dos quais a maioria do povo fugiria em terror absoluto.

Como os reis-guerreiros de Howard, Conan e Kull, Aragorn descendeu de um povo "atlante". Kull foi, na verdade, um atlante, forçado ao exílio. Ele e Conan deixaram seus povos bárbaros e se transformaram em reis. Aragorn também deixou sua terra natal (Eriador) e alcançou o trono real (de Gondor e Arnor).

Mas aí acabam as comparações, ou elas viram superficiais. Howard celebrava a força primitiva da pura "barbaridade", enquanto Tolkien celebrava a sofisticada sabedoria derivada do declínio e queda de muitas civilizações. Mas os dois escritores embutiram seus personagens de um senso de poder que invoca uma simetria de paixão.

Esta paixão aumenta o conflito entre os elogios e as críticas. Os personagens são tratados com grande respeito por alguns, e profunda irritação e chateação por outros. Conan já foi comparado a um velho gagá. Aragorn já foi comparado a um nobre cavalo.

É o aspecto bárbaro de cada personagem o que mais intriga o leitor, e Conan e Aragorn viram arquétipos ou estereótipos para heróis de ação/aventura. Eles são caracterizações primárias porque os dois, de algum modo, recebem uma sofisticação deixada de seus predecessores. (As histórias de Kull derivam das histórias de Conan por muitos anos, e Aragorn é comparável a Beren, que apareceu nas histórias de Tolkien pela primeira vez 20 anos antes de Howard escrever a história final de Conan).

Nenhum dos autores viveu o bastante pra ver o quanto seu legado literário seria direcionado para o mercado de massa e, na minha opinião, é ótimo para os dois. Imagine o quanto ficariam espantados em ver maus atores atravessando pedreiras a cada filme barato, destruindo monstros de borracha e escravizando mulheres que só sabem gritar?

Embora a magia de Kull/Conan estar focada na fúria bárbara, Aragorn é o primeiro Guardião/Ranger. Todos os Guardiões/Rangers são baseados nele, e os trilheiros também. Mesmo Norda, a trilheira da imperadora no recente filme de "Dungeons & Dragons", deve algo à compostura reservada de Aragorn, sua sabedoria perspicaz, e sua suprema competência nas habilidades de caçador. Quando Aragorn expressa dúvida sobre si, ele não está se importando se consegue perseguir algumas dúzias de orcs correndo no continente. Ele se pergunta se é capaz de fazer as escolhas certas, mesmo quando todas estão erradas. Norda, em cenas cortadas o filme, expressa dúvidas similares sobre suas próprias escolhas, mas continua confiante em suas habilidades.

Os guardiões/rangers de Aragorn às vezes me lembram os homens alegres de Robin Hood, misturados à uma fina nobreza. Não hà Little John no conto do exílio de Aragorn, mas Halbarad poderia fazer um interessante Will Stutley. Legolas poderia se juntar à brincadeira como Will Scarlet: um pouco afetado, mas forte e mortal. Gimli poderia ser Frei Tuck, perigoso com uma lâmina, rápido para o sarcasmo e grande adorador de vinho. Em público os Guardiões/Rangers de eriador parecem ser estóicos e quietos, mas tenho certeza que eles freqüentavam uma taverna ou duas. A Taverna Abandonada pode ter esse nome graças à festa do Bacharel de Arathorn II, que todos nós conhecemos.

Quando Robin toca sua corneta, os homens felizes vêm correndo com armas preparadas, e eles são uma força fatal a ser enfrentada quando sua raiva está acesa. Assim também são dos Dunedain que cavalgam ao auxílio de Aragorn em resposta à sua silenciosa necessidade. Kull tinha seus Assassinos Rubros e Conan tinha seus companheiros, mas Aragorn tinha 30 rangers.

Um dos momentos mais memoráveis para mim na história de Kull é o fragmento onde Kull leva seus guarda-costas (400 homens) ao rio Styx. Lá o velho homem da balsa os avisa que, quem quer que seja que atravesse o rio, não retornará. Ele fala de um poderoso exército, milhares de soldados, que cruzaram o rio. A batalha que confrontaram contra seus inimigos desconhecidos pôde ser ouvido por milhas e durou dias. E então só se pôde ouvir o silêncio. Kull fez a coisa certa. Ofereceu a liberdade à qualquer um que estivesse com medo, mas nenhum de seus guardas queriam desertá-lo. Ele só pôde elogiá-los, dizendo "vocês são homens".

Aragorn, ao estilo de Kull, liderou seus trinta homens através das Sendas dos Mortos. Eles também, se recusaram a abandonar seu líder. É difícil imaginar um cara citadino, mesmo Boromir, comandando esse tipo de amor e respeito de seus soldados. E Boromir também não era nenhum mauricinho. Quando apareceu em Valfenda, ele tinha ficado em terras selvagens por um bom tempo. Ele deveria estar muito feio, mesmo se as donzelas élficas fizessem barba e cabelo antes do grande conselho. Então Boromir conseguiu pelo menos um título de Bárbaro Honorário.

Mas ainda há um problema em desenhar uma analogia aos Dunedain de Tolkien. Eles podem não ter vivido em cidades por muito tempo, mas eles não abandonaram a civilização. Ela pode ter se esvaído em sua volta, mas eles preservaram suas melhores qualidades. Os primitivos Rohirrim pareceriam garotos rústicos perto da pequena companhia de Rangers Eriadorianos.

Os verdadeiros bárbaros das histórias de Tolkien são geralmente chamados sumariamente, ou ficam fora de cena. Esses são os Orientais, membros de tribos sem nome sem costumes estipulados. Agora, algumas pessoas podem ser rápidas e apontar os Homens do Norte como bárbaros também. Bem, sim e não. O que é um bárbaro? No senso clássico, o bárbaro é um forasteiro. Kull e Conan eram estranhos às culturas que vieram a governar. O fato de eles vestirem roupas engraçadas, falarem estranho, e poderem matar cinco vezes mais homens do que qualquer soldado eram o que revelavam a sua barbaridade. No fundo de cada um, eles eram estranhos à maneira que as pessoas civilizadas eram.

Os homens do Norte de Tolkien não apenas eram amigos dos Dunedain, como se casavam livremente com eles, e ajudaram a criar laços estreitos em Gondor (mais de uma vez). E eles tinham suas próprias cidades, como Lake-town, Dale, Edoras, e Aldb
urg. Alguns de vocês podem dizer que Framsburg pode ter sido uma cidade, já que eram grande o bastante para conseguir um nome e uma marca no mapa.

Mas os Orientais representaram a barbaridade como os escritores bíblicos o perceberam. Eles usaram a palavra grega "bárbaro" para denotar pessoas que não falavam grego. Os Orientais não falavam Sindarin, a língua das culturas sofisticadas, nem Westron, a língua do prestígio imperial dos Dunedain. Pode haver Orientais que conhecem Westron o suficiente pra conseguir se comunicar, mas eles são orientais, e é Westron, a língua do oeste. Orientais são tão diferentes, que parece que apenas duas palavras foram preservadas em suas histórias: variag e khand.

No mundo antigo, a língua era uma poderosa ferramenta do estado. Cidadãos poderiam ser separados de estrangeiros rapidamente baseado em quem falava tal língua. E a língua também foi usada para estabelecer o poder sagrado, e recordar as tradições das culturas locais. Uma pessoa que não sabia escrever não era sofisticada, e uma pessoa que falava ou mesmo escrevia uma língua estrangeira eram estrangeiros, não tão importantes como aqueles que falavam a verdadeira língua-mãe. Quando Roma impôs suas leis através do mundo Mediterrâneo, latim virou uma grande língua, enquanto o grego ainda prevaleceu no leste.

Tolkien também usa a língua pra separar os locais dos estrangeiros. Os Noldor, que cairam em decadência, viraram estrangeiros em seu exílio. Para poderem viver entre os Sindar, eles foram forçados à adotar a língua dos Sindar. A perda de sua língua-mãe é uma marca de sua vergonha, e com certeza uma marca da supremacia dos Sindar em Beleriand. Os Noldor construíram muitas cidades de pedra, e todas as grandes fortalezas fora de Doriath, mas ainda eram estrangeiros, e nem todos os Sindar gostavam deles.

Como os Noldor em Beleriand, o povo de Aragorn eram exilados que retornaram à Terra-Média. Eles se estabeleceram junto de seus primos menos sofisticados, mas os Dunedain exilados se beneficiaram de um revés na sorte. Númenor havia se tornado um poder dominante na Terra-Média, e a civilização foi conduzida aos homens da Terra-Média pelos Numenoreanos. Portanto, foi a língua adunaica numenoreana que se espalhou por toda a terra e virou o símbolo da civilização.

Aragorn com certeza falava westron bem, mas ele também conhecia o Sindarin, e falava fluentemente. Na verdade, os Sindar viraram estrangeiros para a maioria do pessoal. Gondor, mesmo sozinha entre as nações da Terceira Era da Terra-Média, ainda retinha grande conhecimento de Sindarin. Como o Quenya foi antes, Sindarin virou um pouquinho mais que uma língua dos sábios para os Dunedain. Eles o preservaram ao invés de enriquecê-lo. Eles preferiram não o expandir.

No mundo de Tolkien, palavras são acompanhadas por ações. No mundo de Howard, ações são acompanhadas por palavras. Quando o bárbaro Kull quebra as tábuas de pedra com as leis de Valusia, ele levanta seu machado acima da cabeça e grita "Por este machado, eu reino!". Quando Aragorn revela sua verdadeira herança a Éomer e os Rohirrim, dizendo sua lista de nomes e títulos, ele levanta sua espada e grita, "Aqui está a espada que foi quebrada e foi forjada novamente!"

Como Kull e Conan, Aragorn chega à sociedade gondoriana de fora, rompendo políticos e destronando líderes locais. Denethor fica ofendido com a idéia de deixar seu cargo para "alguém como ele, o último de uma casa destruída, por muito tempo privado de dignidade e nobreza". Mesmo quando ele é presenteado com a oportunidade de entrar na cidade como o vitorioso capitão da guerra, Aragorn prefere ficar de fora como "o Capitão dos Rangers, que não precisam de cidades e casas de pedra". E com isso ele ordena que sua bandeira seja dobrada e que a Estrela do Norte.

Só resta a Aragorn assumir o comando dos exércitos de Gondor antes que ele possa clamar sua coroa formalmente. Apesar de ganhar a confiança do povo rapidamente, eles precisam de um rei-guerreiro, e não de rum rei-filósofo-de-fala-empolada. Aragorn prova que ele possui grande conhecimento e habilidade com línguas, mas suas palavras são ofuscadas por seus atos. Ele é bravo e forte, mas também deve ser decisivo.

É uma parte da magia do bárbaro que, onde um homem civilizado vai ponderar o significado de palavras e profecias, um bárbaro vai seguir em frente destruir o nó que perplexou o mundo civilizado por séculos. É preciso de um rei Macedônio para espalhar a civilização grega por metade do mundo conhecido. É preciso um rei Dunadan para levar Gondor à vitória em suas guerras com o leste. Onde Denethor e seus capitães sentam em suas torres e imaginam o quanto eles conseguirão resistir aos ataques de Mordor, Aragorn corre através das Sendas dos Mortos, recruta um exército fantasma, e usa isso para acabar com as forças dos inimigos de Gondor.

Então Tolkien nos presenteia com duas faces da barbaridade: o bárbaro puro, incorrupto ou justificado pelo longo exílio, e o bárbaro corrupto, perdido no mal e na escuridão. É o puro bárbaro que representa o melhor das idéias românticas uma vez visadas pela civilização. Sua barbaridade é a do estrangeiro. Ele não é um selvagem ou um oponente virulento que visa unicamente saquear e pilhar as cidades costeiras. Ele é um salvador vindo para completar as antigas profecias. Sua força é pura e seu coração é nobre.

Bárbaros às vezes são creditados com a revigoração de civilizações decadentes. E Aragorn é o Renovador. Ele inicia um período de crescimento e vigor renovados nas sociedades Gondorianas e Arnorianas. Ele infunde os Dunedain com sangue novo, quando se casa com Arwen, a princesa Meio-Elfa cujo povo foi renegado ao status de bárbaros.

Os bárbaros de Tolkien, então, serviram ao mesmo propósito dos bárbaros de Howard. E sem dúvida os escritores reconheceram os fins das civilizações, e apreciaram o quanto a barbaridade representa mais que somente um contraste pra a civilização. Barbaridade é a nova e constante origem de crescimento e vitalidade. À medida que o tempo tira o poder das legiões romanas, os bárbaros recuperam seu poder. E à medida que o tempo arrasa os exércitos de Gondor, forçando retiradas de Mordor, Enedwaith e Calenardhon, os Homens do Norte chegam para tomar o lugar.

Assim como o Conan de Howard procurou aventura em Aquilonia, Aragorn chegou do norte bárbaro para se aventurar no sul gondoriano, e anos depois ele tomou o trono de Gondor. Assim como Kull, Aragorn veio do mar para clamar o trono. E assim como Alexandre criou uma renascença grega, Aragorn revitalizou Gondor e carregou sua cultura para terras estrangeiras, incluindo a sua própria. Aragorn era um homem de palavras e de ações.

Tradução de Aarakocra

valinor

Questões Sobre os Beornings

Beorn – John Howe

Um dos mais fascinantes personagens de “O Hobbit” é Beorn, o raivoso madeireiro que vive sozinho exceto pela companhia de seus animais encantados. Beorn era um homem, embora com um toque de mágico de acordo com Tolkien, porque ele podia mudar sua pele [tornando-se um enorme urso]. As origens de Beorn estão ocultas em mistério. Gandalf diz a Thorin e Companhia mais de uma explicação sobre a origem de Beorn, e não é claro sobre qual delas é a verdadeira.

 

 Quando Gandalf e a Companhia de Thorin foram levados com segurança até a Carrocha pelas Grandes Águias das Montanhas Nebulosas, o mago conta a seus companheiros que existiam poucos povos vivendo na região. Existiam vilas de homens mais afastadas ao sul [provavelmente além da Antiga Estrada da Floresta], nos vales das montanhas e ao longo das margens dos rios. Este povo, que era chamado de “Homens da Floresta” em “O Hobbit” estava gradualmente retornando do norte. Eles eram parentes dos Homens da Floresta de Mirkwood de acordo com Tolkien no apêndice de “O Senhor dos Anéis”, mas dentre muitos povos pergunta-se se este era o povo que Beorn um dia veio a governar.

Pode-se apenas supor, realmente, de onde os Beornings vieram ou como eles eram. Eram todos homens, embora talvez uns poucos fossem troca-peles como Beorn. Tolkien não revela se Beorn nasceu com a habilidade de falar com animais e trocar sua pele, mas ele diz que muitos dos descendentes de Beorn possuíram a habilidade de trocar de peles. Então, em algum momento, a troca de peles tornou-se hereditária ou o segredo foi passado de geração a geração.

“O Hobbit” menciona que os dragões caçaram a maioria dos homens expulsando-os das terras no norte, e isto implica que os grandes ursos das montanhas do norte desapareceram quando os gigantes apareceram algum tempo antes da história acontecer. Beorn é associado com ambos ursos e homens do norte. Se os troca-peles não se originaram com Beorn então eles devem ter vivido nas montanhas, e Gandalf que uma vez ele ouviu por acaso Beorn expressando a esperança que ele tinha de um dia retornar para as montanhas.

Bilbo encontrou realmente poucos Homens em “O Hobbit”. Sua primeira conexão com homens depois de ter cruzado as Montanhas Nebulosas foi o ataque pretendido pelo Goblins e Wargs. Gandalf ouviu por acaso os Wargs discutindo um possível ataque às vilas do sul da fortaleza Goblin do Passo Alto. A próxima conexão de Bilbo com homens foi Beorn, que protegeu e auxiliou Thorin e Companhia e sua expedição. Embora Gandalf tenha dito que poucas pessoas viviam perto da Carrocha, ele parece indicar que Beorn não era o único habitante local, e quando Bilbo e Gandalf retornaram com Beorn no próximo ano, ele convidou muitos homens a comemorar em sua casa. Então o povo de Beorn já existia ao tempo da história, apesar de poder ter sido reforçado pelos homens da floresta que estavam migrando para o norte.

Não foi antes de Bilbo e dos Anões terem alcançado a Cidade do Lago sobre Esgaroth, o Lago Extenso, que eles encontraram mais homens. Estes homens, aparentados com os antigos homens de Valle [agora há muito destruída por Smaug], eram corajosos e fortes. Estes continuavam a viver relativamente próximos à desolação do dragão e ao leste de Mirkwood. Os homens da Cidade do Lago viviam em termos amigáveis com os Elfos do norte de Mirkwood [o povo de Thranduil e Legolas] e mantinham comércio com os homens que viviam mais ao sul no Rio. De fato, o comércio se estendia tão longe quando a terra longínqua de Dorwinion, localizada nas margens noroestes do Mar de Rhun.

Embora nunca tenhamos ouvido mais sobre os homens vivendo ao sul da Cidade do Lago, quando Bard restabeleceu o reino de Valle, recrutou homens tanto do oeste quanto do sul. Mas Mirkwood ficava a oeste de Valle e da Montanha Solitária, e além de Mirkwood estavam os Beornings, que parecem ser muito poucos em número para ajudar a popular a cidade. Talvez Bard tenha recrutado homens dos Vales do Anduin, ou então existiam homens da floresta vivendo ao norte da caverna de Thranduil na calha leste da Floresta?

Quando Tolkien escreveu “O Senhor dos Anéis”, encorpou a história destes homens do norte das Terras Ermas. Os Rohirrim tornaram-se uma facção sulista dos homens do norte, que eram todos associados com a Casa de Hador, a Terceira Casa dos Edain em Beleriand, por Faramir quando ele deu a Frodo e Sam uma breve lição de história sobre Gondor. Muito mais material do que o publicado no livro tinha sido preparado por J.R.R. Tolkien, que teve que cortar uma grande parte dos Apêndices para economizar espaço. Chistopher Tolkien publicou parte do material “perdido” no Unfinished Tales, junto a alguns ensaios tardios e histórias escritos por seu pai. O restante do material “perdido” foi finalmente publicado no “The Peoples of Middle-earth”, volume XII do “The History of Middle-earth”. É possível então investigar a história dos povos do norte durante todo o tempo até a Primeira Era.

Quando Tolkien escreveu “O Senhor dos Anéis”, encorpou a história destes homens do norte das Terras Ermas. Os Rohirrim tornaram-se uma facção sulista dos homens do norte, que eram todos associados com a Casa de Hador, a Terceira Casa dos Edain em Beleriand, por Faramir quando ele deu a Frodo e Sam uma breve lição de história sobre Gondor. Muito mais material do que o publicado no livro tinha sido preparado por J.R.R. Tolkien, que teve que cortar uma grande parte dos Apêndices para economizar espaço. Chistopher Tolkien publicou parte do material “perdido” no Unfinished Tales, junto a alguns ensaios tardios e histórias escritos por seu pai. O restante do material “perdido” foi finalmente publicado no “The Peoples of Middle-earth”, volume XII do “The History of Middle-earth”. É possível então investigar a história dos povos do norte durante todo o tempo até a Primeira Era.

Os homens do norte, freqüentemente chamados de Homens dos Vales do Anduin, aparentemente dividiam-se em dois grupos. Vamos chamá-los de grupo leste e grupo oeste. Originalmente, os da Casa de Beor [a Primeira Casa dos Edain] e os Marachs [a Terceira Casa] migraram para leste ao longo do mar interior. Os Marchs eram o grupo mais ao norte e eles aparentemente se fixaram nas terras entre os rios Carnen e Celduin. Após restabelecer contato com os da Casa de Beor, alguns dos Marachs continuaram a migrar para o oeste. A maioria dos Beorians os seguiu.

Em Eriador os Beorians alcançaram os Marchs e fixaram-se por todas as amplas terras. A maioria dos Marachs continuou a jornada para o oeste, acompanhados por uma pequena parte dos Beorians. Sob seus líderes Beor e Marach, apenas uma pequena porção de ambos os povos realmente entrou em Beleriand. O resto permaneceu no leste em Eriador e por todas as Terras Selvagens.

Os Edain das Terras Selvagens eventualmente formaram uma aliança com os Anões Barbalonga, o povo de Dúrin. Esta aliança, formada no início da Segunda Era para auxiliar a expulsar os Orcs e outras criaturas que fugiram da destruição de Angband para as terras do leste, prosperou por mais de mil anos até a Guerra dos Elfos e Sauron. Naquela guerra os povos Edaínicos foram quase destruídos, e apenas pequenos enclaves sobreviveram nas Terras Selvagens, tanto em Greenwood a Grande [mais tarde chamada Mirkwood] quanto nas montanhas.

Estes homens que fugiram para as montanhas parecem ser os ancestrais dos Beornings e dos homens do norte que foram para o leste. O grupo leste fixou-se perto da área norte de Greenwood, e no começo da Terceira Era começaram a migrar para o sul ao longo da borda da floresta. Foi destes homens que os povos de Valle, Cidade do Lago e o reinado de Rhovanion descenderam. Em “O Hobbit” parece que os recrutas oeste de Bard podem ter vindo de uma comunidade de homens da floresta vivendo ao norte do reino de Thranduil. Não existe indicação que aqueles homens tinham parado de viver no nordeste da floresta.

Os Beornings e Homens da Floresta, contudo, não são necessariamente um povo “puro”. No “The Disaster of the Gladden Fields” [publicado no Unfinished Tales], o sobrevivente solitário da companhia de Isildur foi auxiliado por homens da floresta vivendo nas bordas oeste de Greenwood, perto de Amon Lanc [mais tarde Dol Guldur]. Estes homens da floresta parecem ser alguns daqueles povos Edaínicos que fugiram para a Floresta durante a Guerra entre os Elfos e Sauron.

Em “Cirion and Eorl” [também publicado no Unfinished Tales], Tolkien relata a parte mais tardia da história do Reino de Rhovanion. Este reino, situado ao leste do sul de Mirkwood, foi destruído pelos Carroceiros em 1860 da Terceira Era. O exército de Rhovanion foi destruído, mas alguns de sua cavalaria escaparam e fugiram para os Vales do Anduin. Mais tarde, muitos foras-da-lei vindo através da Floresta se juntaram a eles. Estes eram os ancentrais dos Eotheod. Embora seja possível que os foras-da-lei incluíssem muitas mulheres e crianças, parece altamente provável que os homens da cavalaria tiveram que casar com mulheres das vilas locais – eles misturaram-se com os homens da floresta que viviam em Mirkwood ou ao longo do rio.

Cerca de 100 anos mais tarde, logo após o reino nortista de Angmar ter sido destruído, os Eotheod migraram para o norte, para os vales onde os rios formadores do Anduin corriam. Lá eles se fixaram por várias centenas de anos. Eles assim o fizeram, Tolkien nos conta no Apêndice dO Senhor dos Anéis, porque os homens estavam aumentando nos Vales do Anduin. Nem todos eram Homens do Norte. Alguns eram leais a Sauron, Orientais, aparentados aos Carroceiros. Os outros homens poder ter sido dos homens da floresta e possivelmente os ancestrais dos Beornings.

Quando Eorl o Jovem conduziu os Eotheod para o sul cinco séculos mais tarde, alguns de seu povo permaneceram no norte. Estes cavaleiros escolheram – seja qual for a razão – não seguir Eorl? Possivelmente, mas se isso realmente ocorreu eles não deram origem a uma grande nação de guerreiros montados. Ao contrário, desapareceram na história e foram esquecidos. O que aconteceu com eles?

Beorn como Urso na Batalha dos Cinco Exércitos

Retornando aO Hobbit, devemos recordar que Gandalf mencionou os dragões como tendo expulso homens do norte. Como Smaug e Valle, os dragões podem facilmente ter destruído muitas cidades e vilas. O primeiro dragão conhecido no norte foi Scatha, mas este dragão foi morto por Fram, filho de Frumgar, o líder que conduziu os Eotheod para o norte por volta do ano 1977. De acordo com o Conto dos Anos em O Senhor dos Anéis, os dragões não começaram a se multiplicar novamente até cerca do ano 2570. A entrada declara especificamente que os dragões começar a afligir os Anões. Eorl tinha conduzido seu povo para o sul cerca de 60 anos antes, então poderia não restar muitos homens no norte distante. Mesmo que existissem alguns, estes deveriam ter sido expulsos para o sul pelos dragões.

Nós também devemos considerar que uma das principais razões pelas Gondor pediu ajuda a Eorl e os Eotheod em 2509/10 era que os Vales sul do Anduin estavam se tornando perigosos para Gondor e seus aliados. Os Balchoth, ou povo Oriental aparentado aos Carroceiros, estavam então vivendo ao longo da borda sul da Floresta. Eles podem, portanto, ter destruído ou expulso muitos dos Homens do Norte restantes, então talvez apenas os Homens da Floresta restaram.

Com os dragões vindo do norte e os Balchoth mantendo o sul, os Homens do Norte dos Vales do Anduin foram fortemente pressionados a encontrarem um local seguro para viver. Eles devem ter entrado em um longo período de declínio a este tempo, e não foi antes do trigésimo século que eles começaram a recuperar suas terras perdidas. Os Orcs começaram a colonizar as Montanhas Nebulosas no final do século 25, e eles foram uma ameaça significativa até a Guerra dos Anões e Orcs [2793-99].

Em algum momento de todos esses anos e guerras, os Beornings devem ter se ramificado dos outros Homens do Norte. É concebível que eles fossem descendentes tanto dos Eotheod remanescentes quanto dos Homens das Florestas que foram para o norte antes que os dragões começassem a inquietar a região. Os cavalos e pôneis de Beorn não são apenas extraordinários [assumindo que o conto de Bilbo foi apenas levemente enfeitado com o objetivo de contá-lo], ele possuía um grande amor por eles – o qual lembrava a devoção dos Rohorrim a seus cavalos. É portanto concebível que os Beornings tenham mantido a tradição da montaria à cavalo.

Da mesma forma que os Rohirrim viviam nas Ered Nimrais e pastoreavam seus rebanhos e manadas nos amplos campos gramados de Calenardhon, então, também os Beornings podem ter morado nas montanhas e pastoreado seus cavalos nas terras baixas. Então segue-se que se Beorn desejava retornar para as montanhas, ele deve ter sido expulso de lá pelos Orcs, e seu povo em geral pode ter sido destruído ou expulso pelos Orcs. Um guerra anterior com os Orcs poderia explicar o pouco número dos Beornings quando Bilbo e Gandalf os visitaram, mas as enormes perdas sofridas pelos Orcs das Montanhas Nebulosas na Batalha dos Cinco Exércitos poderia ter dado os homens do Vale do Anduin uma tão necessária trégua.

Beorn poderia, portanto, ter recrutado novos seguidores dentre os Homens da Floresta que estavam migrando para o norte para ampliar os números de seu povo, e uma vez que Gloin contou a Frodo que os Beornings mantiveram a Passagem Alta aberta ao tempo da Guerra do Anel, os Beornings parecem ter se tornado fortes o suficiente para terem retornado às montanhas.

A cultura dos Beornings pode então lembrar aquela dos Rohirrim, mas em alguns modos deveria ser similar àquela dos Homens da Floresta. Quanto aos Homens da Floresta, contudo, não temos evidências diretas sobre seus modos de vida e costumes. Porém Tolkien descreveu um outro grupo de Homens da Floresta, na Primeira Era: o Povo de Haleth, que vivia de modo similar ao dos Beornings. Como Beorn, o Povo de Haleth freqüentemente vivia sozinho, ou apenas com poucas pessoas juntas. Eles construíam grandes cercas ao redor de suas casas, e a maioria vivia dentro da floresta, na floresta de Brethil.

Tais similaridades podem ser apenas superficiais, Tolkien pode não ter previsto nenhum paralelo próximo entre as culturas do Povo de Haleth e o povo de Beorn; mas por outro lado, ele parece ter enfatizado o relacionamento entre os Rohirrim e os outros Homens dos Vales do Anduin. Fazendo isso, ele poderia estar sugerindo que as culturas de Rohan e dos Beornings não eram muito distanciadas.

[Tradução de Fábio ‘Deriel’ Bettega]

Michael Martinez

Mágica, por Melkor. Não Aceitam-se Devoluções

Porque ouro? Eu tive essa questão feita para mim algumas vezes. De onde eu tirei a idéia que os dragões poderiam retirar poder do ouro, ou, mais especificamente, que existe alguma coisa especial no ouro no que se trata de mágica? [Nota do Tradutor: Martinez está se referindo ao ensaio Todos os Dragões se Foram? , de sua própria autoria]
Bem, eu esqueci de mencionar um parágrafo crucial
quando estava citando um ensaio de Tolkien [o qual, a propósito,
Chistopher Tolkien chamou de “Notas Sobre os Motivos do Silmarillion” – os parágrafos sobre o elemento-Morgoth foram movidos do início para o final de seção II]. 

Quando ao final nos referimos à visão de Tolkien de como a mágica funcionava para Sauron, temos as seguinte palavras: “O
poder de Morgoth estava disseminado através de todo o Ouro, se em
nenhuma parte absoluto [pois ele não criara o Ouro] em nenhuma parte
estava ausente. [Era este elemento-Morgoth na matéria, de fato, que era
o pré-requisito para a “mágica” e outras perversidades que Sauron
praticou com ele e sobre ele.]”

Mas o que se segue explica
minha fascinação pelo ouro, e porque eu acho que dragões seriam capazes
de se sustentar a partir dele:

“É bastante possível, claro,
que certos “elementos” das condições da matéria tenham atraído a
atenção especial de Morgoth [principalmente, exceto no passado remoto,
por razões de seus próprios planos]. Por exemplo, todo o ouro [na
Terra-média] parece ter uma tendência especialmente “maligna” – mas não
a prata. A água é representada como quase inteiramente livre de
Morgoth. [Isto, claro, não significa que um mar, rio, poço ou mesmo
vasilhame de água em particular não pudesse ser envenenado ou poluído –
como todas as coisas podiam.]”

Então, não existe uma
conecção específica com dragões, mas Tolkien pelo menos reservou alguns
pensamente para o lugar em particular ocupado pelo ouro na hierarquia
do que podemos chamar “substâncias mágicas” na Terra-média. Ouro é um
elemento fascinante. É o terceiro metal mais condutivo que conhecemos
[apenas cobre e prata são mais efetivos]. Em sua forma mais pura o ouro
pode ser ingerido com segurança [embora sopa de ouro seja muita cara,
segundo me contaram] mas não possui um valor nutritivo para nós.
Dragões podem ou não ter se beneficiado da absorção de algumas libras
de ouro. [Nota do tradutor: libras no sentido de peso]

De
fato, me foi apontado que o tesouro dos dragões incluem mais coisas do
que apenas ouro. A barriga de Smaug, por exemplo, estava incrustrada
com jóias. Mas qualquer um que viu o desenho de Bilbo e Smaug que
Tolkien fez para O Hobbit [entitulada “Conversação com Smaug”] não
poderá deixar de notar que a maior parte da cama do dragão é composta
de ouro. Sim, existe todo tipo de coisas brilhantes espalhadas pela
pilha [incluindo a Pedra Arken no topo da pilha] mas a maior parte do
tesouro é ouro.

Isso não quer dizer que as jóias não sejam
especiais a seu próprio modo. Lembre-se como Ungoliant cobiçou as gemas
que Melkor roubou dos Noldor em Formenos. Ela comeu todas exceto as
Silmarilli e ficava mais poderosa enquanto o fazia. Estas gemas
possivelmente não continham o que Tolkien se referia como
elemento-Morgoth, mesmo Morgoth tendo sido mantido em Aman por um longo
tempo. Então, a questão que surge é se existia algum outro elemento
“mágico” com o qual Ungoliant estava se alimentando ou se ela estava
simplesmente se alimentando da própria essência das pedras preciosas.

Quando Ungoliant sugou a vida das Duas Árvores e depois sorveu a luz
líquida dos Poços de Varda ela cresceu a um tamanho imenso. Ela
tornou-se tão grande e poderosa que Melkor a temeu. Luz era o sustento
de Ungoliant, mas a luz das Duas Árvores seria um produto do que
poderíamos considerar “mágica pura”, o poder de um Vala. Yavanna trouxe
as Duas Árvores à vida pelo poder de sua canção, um ato de sub-criação
inigualado dentro dos Salões de Eä, e que ela disse não ser capaz de
repetir. Assim alimentada pelo poder do encantamento mais poderoso de
Yavanna, Ungoliant tornou-se imensa e mais poderosa do que antes.

Da mesma forma as gemas roubadas dos Noldor eram encantadas. Fëanor
aprendeu como fazer pedras preciosas que brilhavam sob a luz das
estrelas ou que brilhava de acordo com sua vontade. Ele teve muitos
anos, durante os quais construiu um grande tesouro, e este tesouro foi
transportado para Formenos quando Fëanor, Finwë e os filhos de Fëanor e
os Noldor que os seguiram fixaram lá ao norte de Valinor durante o
período do banimento de Fëanor de Tirion. Portanto Ungoliant foi capaz
de se alimentar não apenas com a essência das jóias Noldorin mas também
com o poder que Fëanor [e quaisquer outros artesãos] colocou nelas.

Se os Noldor eram capazes de crias gemas mágicas em Aman, eles não
seriam menos capazes de criá-las na Terra-média. E assim como os Noldor
foram ensinados pelos Valar e Maiar, especialmente por Aulë, também os
Anões foram ensinados pessoalmente por Aulë. Os Anões possuíam suas
próprias habilidade e poderes especiais. Eles podem ter sido menos
poderosos que os Eldar, ou talvez menos ambiciosos [pois eles nunca
fizeram artefatos como os Anéis de Poder ou as Silmarilli]. Mas os
Anões também colocavam seus pensamentos nas coisas que faziam, como o
elmo-dragão de Dor-lomin, que protegia seus portadores de qualquer
dano. E a Flecha Negra de Erebor que Bard usou para matar Samug pode
ter sido um produto de mais do que um artesão experiente. Talvez algum
mestre Anão, morto pelo dragão fazendo com que todo seu conhecimento
fosse perdido com ele, tenha posto um grande esforço na sua criação e
embuiu nela algo de seu poder.

O poder dos Elfos – e dos Anões
– podia não ser igual ao poder de Morgoth ou Yavanna, mas ainda sim
seria uma fonte de encantamento. Um dragão sobre um tesouro Élfico
[como em Nargothrond] ou um tesouro Anão [como em Erebor] poderia sugar
ou simplesmente banhar-se nas energias dos criadores dos itens
encantados tanto quanto ou quase tanto como no elemento-Morgoth contido
no ouro. O que não quer dizer que os dragões tivessem que fazer isso,
mas claramente a passagem de poder de um ser para um objeto é uma idéia
que Tolkien usou várias e várias vezes, e um após o outro ele nos deu
exemplos de poder passando de um objeto para uma criatura. As imensas
energias que Melkor dispersou através de Arda em seus esforços para
identificá-la consigo mesmo poderiam, coletivamente, ofuscar aquelas
dos Elfos e Anões criadores de itens. Mas um tesouro de ouro e gemas
não importa o quão grande fosse seria apenas uma pequena fração da
essência de Arda. Assim cada pequena partícula ajudaria.

Um
senso de escala desenvolve-se quando pesamos os grande poderes
[malignos] da Primeira Era contra aqueles das Eras posteriores. Melkor
governou seu reino a partir de Angband, onde ele estava cercado por
seus servos: Sauron, os Balrogs, Draugluin e os lobisomens, Orcs,
Trolls, Thuringwethil e talvez outras criaturas como morcegos, e outros
monstros não nomeados nas lendas dos Elfos e Edain. Ele criou lá alguns
dragões e nutriu Carcharoth, o grande Lobo. Mas suas criaturas também
residiam por toda a Terra-média. O cerco de Angband foi mais um show do
que qualquer outra coisa, pois as forças de Melkor eram capazes de ir e
vir como queriam através de rotas no norte. E Melkor recrutara muitos
Homens do leste.

Na Segunda Era Sauron começou a agir por si
mesmo. Ele eventualmente reuniu todas as criaturas malignas novamente
mas quase todos os servos Maiar de Melkor haviam perecido ou se
ocultado. E se existiam dragões a seu serviço eles parecem não ter
conseguido muito em Eriador [a menos que quando Sauron queimou as
grandes florestas de Minhiriath e Enedwaith na Guerra dos Elfos e
Sauron ele o tenha feito com a ajuda dos dragões]. Ao final da Era
Sauron tinha escravizado os Nazgul. Uma vez que um vasto exército de
Elfos, Anões e Homens foi capaz de derrotá-lo, Sauron não era tão
poderoso [militarmente] quanto Melkor havia sido ao final da Primeira
Era. Parte da força militar sem dúvida vinha do número de magos ao
serviço de Melkor, e de suas qualidades. Mesmo em seus estado decaídos
os Maiar corrompidos eram bastante poderosos.

Na Terceira Era
Sauron tomou forma muito lentamente, e concentrou seus esforço ao redor
de Dol Guldur por um longo tempo. Ele enviou o Senhor dos Nazgul ao
norte para fundar o Reino-Bruxo de Angmar e de Angmar Sauron atingiu os
Dunedain do Norte [e em uma extensão menor aos Eldar também]. Parte da
estratégia de Angmar parecia ser corromper o Povo das Colinas de
Rhudaur, alguns dos quais se tornaram feiticeiros. Mas, embora temidos
pelos Homens, estes feiticeiros não parecem ter deixado marcas na
história. Eles foram virtualmente eliminados durante ou após a guerra
de 1409.

Embora Tolkien não fale das magias realizadas pelo
Povo das Colinas ele revela alguma coisa sobre os tipos de magia
utilizadas pelo Senhor dos Nazgul e pelos Espectros Tumulares, que
foram enviados pelo Rei Bruxo para habitar os túmulos de Tyrn Gorthad
após a Grande Praga ter destruído a maior parte do povo de Cardolan. Os
Nazgul e os Espectros parecem ter sido adeptos de matar seres vivos, e
os Nazgul especialmente [com suas lâminas Morgul] escravizavam os
espíritos daqueles que matavam. O Espectro Tumular que capturou Frodo e
os Hobbits estava pronto a sacrificá-los, presumivelmente para enviar
seus espíritos a Sauron ou ao Senhor dos Nazgul.

No Morgoth’s
Ring, o ensaio sobre “Morte e separação do fea e hrondo [>hroa]”,
Tolkien fala de como os espíritos dos Elfos assassinados podiam
prolongar-se na Terra-média:

“Mas pareceria que nestes dias
posteriores mais e mais elfos, sejam eles dos eldalië em origem, sejam
de outras raças, que demoram-se agora na Terra-média recusando a
convocação de Mandos, e vagam desabrigados no mundo, negando-se a
deixá-lo e incapazes de habitá-lo, assombrando árvores, fontes ou
lugares ocultos que conheciam. Nem todos destes são amigáveis ou
intocados pela Sombra. De fato, a recusa à convocação é em si um sinal
de mácula.”

“É, portanto, algo imprudente e arriscado,
além de ser um ato errado, proibido pelos Governantes de Arda, os vivos
tentarem se comunicar com os desencarnados, embora os desabrigados
possam desejá-lo, especialmente os mais indignos entre eles. Pois os
desencarnados, vagando pelo mundo, são aqueles que no mínimo recusaram
a porta da vida e continuaram pesarosos e auto-piedosos. Alguns são
preenchidos com rancor, desgosto e inveja. Alguns eram escravizados
pelo Senhor do Escuro e ainda fazem o seu trabalho, apesar de ele ter
partido. Eles não dirão verdades ou sabedoria. Apelar-lhes é uma
tolice. Tentar dominá-los e fazê-los servos da própria vontade de
alguém é perversidade. Tais práticas são as de Morgoth; e os
necromantes são da hoste de Sauron, seu servo.”

Alguns
dizem que aqueles Desabrigados desejavam corpos, embora não desejassem
consegui-los através da lei pela submissão ao julgamento de Mandos. Os
mal intencionados dentre eles iriam tomar corpos, se pudessem, sem
seguir a lei. O perigo de se comunicar com eles era, portanto, não
apenas o perigo de ser iludido por fantasias ou mentiras: também
existia o perigo da destruição. Para um dos famintos Desabrigados, se
fosse admitido à amizade dos Viventes, poderiam procurar expulsar o fëa
do corpo; e na disputa pelo controle o corpo poderia ficar gravemente
ferido, mesmo que não tivesse sido arrancado de seus morador de
direito. Ou os Desabrigados poderiam implorar abrigo, e se admitido,
procurariam escravizar seu anfitrião e usar tanto sua vontade como seu
corpo para seus próprios objetivos. É dito que Sauron fez tais coisas,
e ensinou ao seus seguidores como alcança-las.

Alguém pode se
espantar com o que a última frase significa. Sauron foi conhecido com o
Necromante durante os longos anos em que residiu em Dol Guldur. Ele
operou sem corpo para escravizar outros enquanto recuperava sua força?
Ele algumas vezes abandonava o próprio corpo para trabalhar com
feiticeiros que pensavam que podiam escravizá-lo? O que veio a ser dos
escravos que Sauron obteve desta forma, e quem seriam seus seguidores
que podiam praticar tais enganações? Estariam os Nazgul tomando posse
de tais possíveis feiticeiros? Tais ligações arriscadas com Sauron
poderiam explicar tanto porque ele era capaz de manipular tantos
líderes dos Homens como porque eles se sentiam atraídos por ele em
primeiro lugar. Os xamãs e reis e líderes não saberiam, até ser tarde
demais, que seus predecessores que se tornaram poderosos não eram nada
mais do que avatares de Sauron. Isto não quer dizer que todos os servos
de Sauron seriam diretamente manipulados. Mas os mais poderosos dentre
seus servos e aliados de fato poderiam ser feiticeiros-marionete.

Talvez isto explique o costume bárbaro onde os reis queimavam-se em uma
pira. Denethor II escolher morrer desta maneira e Gandalf o repreendeu
por isso, dizendo que apenas os reis bárbaros eram tratados dessa
forma. Se Sauron não tivesse mais uso para um de seus escravos poderia
ser conveniente destruir todas as evidências de sua possessão do que
deixar que seus seguidores aprendessem a verdade, ou alguma porção
dela. Por outro lado, pode-se argumentar, se Sauron e os Nazgul podiam
controlar pessoas, porque o Senhor dos Nazgul não usou o corpo de
Earnur para ter controle sobre toda Gondor? Pode ser que, se ele
fizesse a tentativa, o Senhor dos Nazgul não tivesse o poder
necessário. Earnur não iria coloborar de livre vontade com um Nazgul ou
mesmo com o próprio Sauron. Sua vontade seria rompida mas ele
provavelmente morreria, consumido pelo esforço.

O medo que
alguns dos Rohirrim demonstram, perguntando-se se Aragorn e seus
companheiros poderiam ser espectros Élficos quando ele toma as Sendas
dos Mortos, também pode dar fundamento à suspeita de que talvez ele
tenham sido possuídos por espíritos Élficos. A especulação implica que
os Rohirrim teriam experiência com homens possuídos por espíritos
Élficos, ou talvez tenham ouvido contos o bastante sobre tais homens
para acreditar que seriam verdade. E finalmente sabemos que Tolkien não
estava apenas revendo o tema quando escreveu o ensaio sobre morte e
conitnuidade do espírito e corpo. Ele estava preenchenco algumas
lacunas na estrutura já estabelecido pelO Senhor dos Anéis.

E
dessa forma nós podemos seguramente deduzir que, no mundo de Aragorn e
seus companheiros, existiam ou existiram homens que tolamente tentaram
tornar-se poderosos através de meios não-naturais. Talvez inspirados
por ou invejosos dos Istari e Elfos, que possuiam tais habilidades
naturalmente, homens foram conduzidos em direção das trevas. E o
aparente aumento no força e sofisticação dos inimigos de Arnor e Gondor
também podem mostrar aqueles homens sucumbindo à tentação de forjar
alianças com espíritos malignos, embora pudessem não ter idéia do que
estavam fazendo.

O que nos traz de volta ao assunto de como os
homens podem ter começado tal experimentação. Mesmo Sauron precisou de
um primeiro voluntário para sucedê-lo. Será que ele descobriu que os
homens já estavam brincando com esta idéia quando tomou forma
novamente? Terá ele plantado as sementes de tais práticas durante a
Segunda Era? Se sim, a antiga sabedoria recuado para o leste distante
mas não poderia estar completamente perdida. Talvez os nazgul tivessem
mantido o conhecimento vivo em antecipação ao eventual retorno de
Sauron. E homens buscando poder poderiam procurar por objetos de poder.
Ouro seria valioso, mas ouro trabalhado pelos Elfos e Anões seria mais
mágico do que qualquer coisa que os Homens pudessem conquistar por si
mesmos.

Portanto, pessoas desejando tornar-se feiticeiro
poderiam barganhar com Elfos e Anões se possuíssem riquezas e recursos
que os Elfos e Anões desejassem. De outra forma, Homens poderiam pilhar
Elfos e Anões na esperança de obter tesouros. A animosidade e
estranhamento que se criou entre Homens e as outras raças durante a
Terceira Era podem ter tido muitas causas, mas Tolkien cita que os
Anões eram frequentemente saqueados pelos Homens, provavelmente mais do
que pelos dragões. E assim geração após geração de feiticeiros e
estudantes de necromancia poderiam lutar e obter artefatos preciosos e
gemas, valorizando-os não por sua beleza mas sim por seus encantamentos.

Não que todos os praticantes de magia tivessem que ser malignos. Os
Numenorianos de Cardolan, pelo menos, tinham modos de criar espadas
encantadas. As espadas do túmulos que Tom Bombadil deu aos Hobbits eram
“imbuídas com feitiços para a destruição de Mordor”. Faramir fala a
Frodo e Sam que mesmo em Gondor alguns de seu povo continuavam a fazer
elixires na desesperada busca por vida longa, e alguns homens
continuavam a se relacionar com os Elfos. Em uma carta para um leitor,
Tolkien fala que Beorn era um homem “ainda que um Troca-Peles e um pouco de mago”.
Tais homens não haviam procurado comunicar-se com espíritos Élficos, os
Desencorporados, ou com Sauron e os Nazgul. Eles teriam procurado uma
sabedoria mais pura.

E uma vez que o poder de Melkor estava
disseminado através do mundo físico existia muito material com o qual
trabalhar. Não é necessário encantar material que já está encantado.
Ouro era um material ruim para armas mas podia ser inserido nas lâminas
de espadas de ferro [como nas lâminas tumulares]. As lâminas tumulares
eram também decoradas com gemas, e feitas de um estranho metal que os
Hobbits não reconheceram. E Denethor reconheceu imediatamente que a
espada de Pippin havia sido feita pelos Dunedain do norte. Ele
reconheceu a arma pelo seu desenho, seus materias ou por alguma outra
coisa?

Os Numenorianos também contruiram a grande torre de
Orthanc, cuja pedra era tão lisa e forte que não podia ser quebrada
pelos Ents. Exista magia envolvida ali? Estaria a pedra negra com a
qual os Numenorianos trabalharam cheia com uma quantidade
extraordinariamente grande da essência de Melkor ou seria simplesmente
suficiente que eles pudessem murmurar ou cantar seus pensamento nela e
a torre se tornaria quase impenetrável? E do que a pedra negra de Erech
era feita? Por que era tão importante para os Homens Mortos de
Dunharrow? Isildur a colocou ali, e seu rei havia feito um juramente
sobre ela. Seria, talvez, a pedra um repositório de elemento-Morgoth
maior do que, digamos, outras pedras de forma e tamanhos similares?

Mas então Isildur teria sido capaz de fazer uso do elemento-Morgoth
para amaldiçoar os Homens de Dunharrow por quebrarem seu juramento?
Como um Homem ele era desprovido do poder necessário para confinar os
espíritos de uma tribo inteira na Terra-média por milhares de anos.
Mesmo o mais poderoso dos feiticeiros entre os Homens parece não ter
atingido nada comparável. Então a maldição de Isildur deve ter sido
ampliada por algo maior, algo mais puro. Mesmo os Valar não tinham a
autoridade de manter os Homens nos Salões de Eä para sempre. Seria um
ato de desafio e rebelião para com Námo manter um espírito Humano tanto
tempo, ao final das contas. Então a vontade e a autoridade que reforçou
a maldição de Isildur deve ter vindo de um poder maior, e este poderia
ser apenas o próprio Ilúvatar.

Como um Rei de Gondor, Isildur era, de fato, um sacerdote de Ilúvatar por parte de seu povo. “Parece que,” Tolkien aponta na Carta 156, “que existia uma “área santificada” no Mindolluin, aproximável apenas pelo Rei…”


“…onde ele antigamente oferecia graças e louvores por parte de seu
povo; mas isto foi esquecido. Foi relembrado por Aragorn, e lá ele
encontrou um broto da Árvore Branca, e a replantou no Pátio da Fonte. É
presumível que com o ressurgimento da linha dos reis sacerdotes [da
qual Lúthien, a Abençoada Dama Élfica, era uma antepassada] o culto a
Deus poderia ser renovado, e Seu Nome [ou título] seria novamente
ouvido com mais frequência. Mas não existiriam templos do Deus
Verdadeiro enquando a influência Numenoriana persistisse.”

Os Reis de Gondor [e, presumivelmente, os Reis de Arnor] estariam
apenas continuando ou revivendo o antigo culto que seus povos
praticavam em Numenor.

“Os Numenorianos então começaram um grande novo bem, como monoteístas;
mas como os Judeus com um único centro físico de “adoração”: o pico da
montanha Meneltarma “Pilar do Céu” – literalmente, pois eles não
concebiam o céu como a residência divina – no centro de Númenor; mas
não possuía construções nem templos, e todas essas coisas tinham uma
associação com o mal….”

Ilúvatar não encheu Arda com sua
essência pessoal como Melkor fez, mas não havia necessidade. Ilúvatar
criou Eä com a Chama Imperecível, e colocou a Chama em seu interior. Os
Salões de Eä eram incontestavelmente identificados com a vontade de
Ilúvatar, e as maquinações mesquinhas de Melkor podiam apenas inserir
uma identificação com Arda. Portanto Ilúvatar é livre para agir em sua
criação assim que desejar. E Gandalf aponta para Frodo que existiam
alguns propósitos-guia funcionando em Arda, quando ele diz “Existe
mais do que um poder funcionando, Frodo. O Anel está tentando voltar
para seu mestre… por trás disso algo mais trabalha, além de qualquer
propósito do Criador do Anel. Não posso colocar isso de forma mais
simples do que dizendo que Bilbo estava marcado para encontrar o Anel,
e não o criador do mesmo…”

E podemos estar certos que Gandalf falava de Ilúvatar pois Tolkien o diz na Carta 156 “Então
Deus e os deus “angelicais”, os Senhores ou Poderes do Oeste, apenas
olhavam através de certos locais como a conversação de Gandalf com
Frodo”
. Tendo os Valar alguma parte na decisão de se Bilbo
encontraria o Anel ou não, Tolkien está claramente incluindo Ilúvatar
na decisão.

A inserção de um elemento divino na “mágica” da
Terra-média então levanta uma questão sobre aplicabilidade. Estaria a
palavra “mágica” sendo muito usada? Nesse ponto Tolkien demonstra
arrependimento em ter usado a palavra, que descreve tanto os trabalhos
sub-criacionais dos Elfos quanto “as fraudes do Inimigo”. Ainda quele
ele defina dois aspectos da mágica, magia [efeitos físico] e goétia
[efeitos na mente e espírito], ele insistiu que tanto um quanto outro
tipo poderiam ser bom ou mau dependendo do motivo do usuário, e que
tanto os personagens bons [Valar, Elfos] quando os Maus [Melkor,
Sauron] utilizaram ambos os tipos de mágica. E mais: todos as “mágicas”
ou poderes vieram em última instância da vontade ou pensamento de
Ilúvatar, que criou os seres que praticavam mágica. Então, se os
poderes de Melkor, ou Ulmo, são o produto do pensamento de Ilúvatar,
ele difere em natureza das intervenções diretas de Ilúvatar?

Em um aspecto, o poder de Melkor é dele próprio: dado a ele
irrevogavelmente por Ilúvatar. Apenas Ilúvatar ou Melkor poderiam
alterar sua força natural. Outros seres, como Manwe e Namo, poderiam
ser capazes de capturas e executar Melkor, e portanto enfraquecê-lo
como resultado dele ser forçadamente desalojado de sua encarnação
física. Mas tal desalojação seria resultado das leis físicas da
Criação. Isto é, Ilúvatar fez as regras que mesmo Melkor tinha que
obedecer. Ele não poderia simplesmente recusar ser morto. Sua
encarnação física era sujeita às consequências da fisicalidade.
Portanto existia uma chance real, embora mínima, de Fingolfin matar
Melkor. E por isso também que Gil-galad e Elendil [ou Isildur, como
alguns acreditam] foram capazes de matar Sauron. Sauron morreu em
Númenor mas a destruição de Númenor foi causada por Ilúvatar. A morte
de Sauron na encosta do Orodruin foi atingida por um ser ou seres com
poderes e estatura muito inferiores a Manwe.

O aspecto divino
da “mágica” é, portanto, identificável com as leis da natureza. Isto é,
a vontade de Ilúvatar não pode ser distinguida de um aspecto de si
mesmo ou de sua criação. Se a Criação deve comportar-se de uma certa
forma, e a própria Criação é atingida pelo poder de Ilúvatar, então
todas as coisas da Criação estão, por extensão, exibindo o poder de
Ilúvatar, embora porções desse poder tenham sido dados irrevogavelmente
a elas.

Pode existir, portanto, um aspecto de Arda [e todos os
Salões de Eä, a Criação] que é muito parecido com o elemento-Morgoth,
embora mais puro e mais consistente: um elemento-Ilúvatar. Não
utilizável com finalidade de conduzir “mágica”, talvez, mas
irrevogavelmente estampado com sua vontade. Coisas existem porque
Ilúvatar disse que ela poderiam existir, e elas funcionam de acordo com
as Leis da Criação que ele definiu. Então, todo o poder dos Ainur e
Elfos e Anões, seja por eles retido ou inserido em outros itens, devem
existir e funcionar de acordo com as leis naturais de Ilúvatar. E o
próprio Ilúvatar portanto não precisaria transgredir suas próprias leis
para executar sua vontade sobre o mundo. O mundo irá executar sua
vontade para ele porque as leis da natureza fderivam de sua própria
vontade.

Isto é, não existe distinção real entre a “mágica” de
Ilúvatar e a “mágica” de Melkor, exceto em escala e pureza de
propósito. O poder de Melkor é incomparavelmente menor do que o de
Ilúvatar, mas a perversão de Melkor também corrompeu seu poder então
ele é impuro. Todo o poder é retirado da mesma forma e corre a partir
da mesma fonte. Mas Ilúvatar concedeu irrevogavelmente poderes, em
alguma proporção, às criaturas de seu pensamento. Os esforços de Melkor
para identificar-se com Arda através da disseminação de sua força
através do mundo foi, de fato, um ato de desafio. E amplamente
infrutífero. Ilúvatar não irá cancelar seus presentes a Melkor, mas
também não é barrado pela vontade de Melkor.

Por outro lado,
tendo feito os Salões de Eä e os populado com os Ainur e outras
criaturas de estatura similar porém inferior, Ilúvatar nãoprecisa
infundir continuamente seu poder em Eä. Então existe um aspecto finito
na mágica. Apenas uma certa quantia desse poder veio para o universo e
apenas uma certa quantia foi adicionada através do nascimento de seres
que possuem a habilidade de encantar coisas. A separação de Aman da
Terra-média de uma certa forma limita ou mesmo reduz a mágica que pode
ser “utilizada” pelos Homens e outros seres. O que Melkor deixou para
trás trata disso disso. Novos Elfos e Anões podem ter nascido, mas seus
poderes são incomparavelmente pequenos perto do poder de Melkor. Assim
que os Elfos partem ou morrer, assim que os Anões morrem, e seus
artefatos desaparecem ou são destruídos, a reserva de mágica disponível
e passível de utilização diminui.

Isto é, com o passar dos
milênios tornar-se-ia mais e mais difícil para os Homens praticarem a
“verdadeira” mágica porque as fontes de mágica dais quais necessitavam
se tornariam cada vez menos. Uma das mais fortes críticas levantadas
contra Tolkien por escritores atuais de fantasia é que parece não haver
limite para a mágica em seu mundo, e nada poderia estar mai longe da
verdade. “Mágica” é extremamente difícil de definir, mas as expressões
de poder, a criação de “artefatos mágicos”, diminuíriam em tamanho e
número com o passar das Eras porque o poder estaria deixando a
Terra-média.

Portanto as Silmarilli de Fëanor e os Anéis de
Poder definem um limite superior da expressão de poder na Terra-média.
Sem dúvida outros grandes trabalhos foram realizados: as cidades de
Gondolin, Mengroth e Khazad-dum eram, de muitas maneiras, “mágicas”.
Mas elas eram os produtos de populações inteiras, o resultados de eras
de trabalho. E mesmo assim nada como elas poderá ser contruído
novamente. Mesmo na Quarta Era, quando Durin VII liderou seu povo
novamente para Khazad-dum, é improvável que eles pudessem reviver a
antiga glória de sua cidade. Apenas um eco do passado poderia ser
alcançado, em parte porque seu número havia se reduzido, mas também
porque eles haviam perdido muito da antiga sabedoria. Khazad-dum era a
última relíquia de eras onde cidades mágicas eram possíveis. Agora elas
são simplesmente lendas.

O medo de Galadriel de que seu povo
pudesse diminuir na Era dos Homens, condenado a se tornar um povo
rústico de cavernas e vales, é portanto assentado sobre um problema
bastante real. Uma vez que os Anéis de Poder deixaram de existir, os
Elfos [que haviam sido protegidos dos efeitos do Tempo] teriam que
deixar a Terra-média. Os Elfos perderam não apenas grande parte de seu
conjunto de talentos, mas também suas “reserva de poder”. Isto é,
restaram menos Elfos para construir novas cidades. Alguns dos Alto
Elfos permaneceram em Imladris e Lindon mas eles nunca mais poderiam
ser uma grande nação Eldarin. Não existiriam mais artefatos, nem
cidades a serem cionstruídas nas terras dos Homens. E os Elfos que
compreendiam que Arda continuava possuindo o elemento-Morgoth poderiam
relutar em utilizá-lo novamente na mesma escala da criação dos Anéis de
Poder. Eles aprenderam através de muitas lições amargas qual era o
preço de trabalhar com tal mágica.

Algo pode ser dito aqui
sobre o Mithril. Se ouro é altamente mágico, Mithril seria ainda mais?
Eu acho que sim. Desafortunadamente é extremamente difícil obtê-lo.
Ouro é bem mais abundante. Também o são as jóias. E muito do mithril
que foi trazido à luz está perdido. Tar-Telemmaite, décimo-quinto rei
de Númenor, coletou todo o mithril que pode encontrar. Sauron também
coletou todo o mithril que pode. Embora seja duvidoso que os
Numenorianos tivessem sido feiticeiros, Sauron pode realmente ter
encontrado usos mágicos para o seu mithril. E quando Barad-dur foi
destruída uma grande quantidade de mithril pode ter sido destruída com
ela. Lentamente o mithril desapareceu da Terra-média.

Pode ter
havido uma boa razão porque o Balrog de Moria escondeu-se em ou perto
de um veio de mithril. O mithril em seu estado natural pode ter
mascarado seu poder. E pode ser que se os dragões pudessem realmente
drenar poder do ouro e jóias que pudessem drená-lo do mithril também.
Mas se prata [prata normal] possuía menos elemento-Morgoth que o ouro,
o mithril possuíram mais do que a prata? Ou, sendo “prata verdadeira”,
o mithril estava praticamente livre do elemento-Morgoth? Nós
provavelmente nunca vamos saber.

[Tradução de Fábio ‘Deriel’ Bettega]
valinor

As Profecias da Terra-Média

As profecias têm um papel importante nas histórias
da Terra-Média. De fato, alguns argumentam que Tolkien tencionava a
Terra-Média como tendo um destino pré-determinado ou linha do tempo,
uma vez que aparentemente todas as profecias mencionadas tornam-se
verdade de alguma forma. Bem, há falsas profecias nas histórias, mas
elas são raras. Ou, se não são falsas, no mínimo não realizadas.
 
 
 
A questão sobre se há poder nas profecias ou poder
detrás delas é virtualmente impossível de se resolver satisfatoriamente
a todos. Muitos acreditam que a história desdobra-se de acordo com a
Música dos Ainur (o que não é verdade, uma vez que foi Ilúvatar quem
deu à Música esse sentido através da sua Visão). Desconsiderando-se o
que vem em seguida à Música ou à Visão, o Tempo certamente desvela
muito enquanto os Ainur e Ilúvatar criam seus temas. Mas O Silmarillion
nos conta que cada Era revela novas maravilhas aos Valar sobre as quais
eles não conheciam nada, e que não haviam sido previstas na Música ou
na Visão.

De fato, muito da história que é prevista não vem a
ocorrer na Música ou na Visão. Depois que Ilúvatar pára a música, ele
fala aos Ainur. "E muitas outras palavras disse Ilúvatar aos Ainur naquele momento", Tolkien escreve no "Ainunlindalë". "E,
em virtude da lembrança de suas palavras e do conhecimento que cada um
tinha da música que ele próprio criara, os Ainur sabem muito do que
foi, do que é e do que será, e deixam de ver poucas coisas. Mas algumas
coisas há que eles não conseguem ver, nem sozinhos nem reunidos em
conselho: pois a ninguém a não ser a si mesmo Ilúvatar revelou tudo o
que tem guardado; e em cada Era surgem novidades que não haviam sido
previstas, pois não derivam do passado."

Ilúvatar então
mostrou muito na Visão que os Ainur não haviam cantado, e mesmo quando
os Ainur entraram em Eä, Ilúvatar revelou novidades. Sua liberdade de
alterar Eä ao que o Tempo desdobra-se deixa Ilúvatar como o último
árbitro da presciência. Assim, ele pode (se ele assim escolher)
invalidar a presciência que um Ainu individualmente possa ter produzido
de partes da Música ou da Visão. Mas Ilúvatar nega algo que havia sido
previsto? Essa é uma questão interessante, ainda que ainda não possa
ser respondida.

Nós sabemos de muitas ocasiões em que Ilúvatar
intervém. Por exemplo, quando Aulë cria os Anões, Ilúvatar fala a ele e
no final das contas aceita os Anões como seus Filhos adotivos. Ilúvatar
dá a eles verdadeira vida e pensamento independente. Não há, é claro,
texto algum que diga que a impaciência de Aulë e a criação dos Anões
havia sido predita ou prevista na Música ou na Visão. Mas Aulë
construiu os Anões em segredo. Ele poderia trabalhar com afinco e em
segredo se os resto dos Ainur soubessem através do pré-conhecimento
advindo do Ainunlindalë. Portanto, a criação dos Anões por Aulë, e a
intervenção de Ilúvatar, são fortemente possíveis de serem
acontecimentos novos, desconhecidos dos Valar.

Quando
Ar-Pharazôn invadiu Aman para se apropriar da imortalidade, conta-se
que os Valar dispensaram sua guarda. Ilúvatar então interveio e alterou
o mundo, removendo Aman de Arda e transformando o que restou em um
mundo redondo. Os Valar poderiam saber que os Numenoreanos iriam se
rebelar contra sua autoridade? Eu não acredito nisso. Estando armados
de tal pré-conhecimento, eles teriam condenado efetivamente uma
multidão de numenoreanos a se tornarem maus.

Tolkien escreveu
que Manwë não podia, não iria compelir Melkor ao arrependimento, ou
usar contra Melkor os artifícios que ele próprio usara. No
Ósanwë-kenta, Tolkien explica que "Se Manwë tivesse quebrado esta
[sua] promessa [de libertar Melkor do aprisionamento no tempo
determinado] para seus próprios propósitos, ainda que "bons", ele teria
dado um passo em direção aos caminhos de Melkor. Este é um passo
perigoso. Naquela hora e ato, ele poderia ter deixado de ser o
vice-regente do Uno, tornando-se somente um rei que toma vantagem sobre
um rival que ele conquistou pela força."

Manwë igualmente
controlou a compulsão com a qual Sauron estava preocupado. Sauron
recebeu a ordem de se apresentar a Manwë para o julgamento, mas quando
Sauron falhou em mostrar-se, os Valar não o capturaram. A primeira
guerra para aprisionar Melkor foi iniciada em virtude dos Filhos. A
segunda guerra, ao final da Primeira Era, foi lançada por um propósito
similar. Não era a intenção de Manwë compelir Melkor ou forçar o Tempo
para um certo caminho.

Então, ao pronunciar o destino, como
quando os Valar expulsaram os Noldor de Aman e impuseram-lhes uma
condenação, na verdade uma maldição, não foi um ato em que os Valar
compeliram a escolhas específicas ou alteraram as atitudes dos Filhos.
Quando os Valar amaldiçoaram os Noldor, eles não poderiam compeli-los a
praticar o mal adiante (e de fato praticaram), mas de preferência
deveriam libertar os Filhos de quaisquer graça que sua convivência com
os Valar os tivesse concedido. Os Valar removeram suas influências
sobre os corações dos Noldor, que trilhavam um caminho (assim
deduziram) que os levaria apenas à autodestruição.

Pengolodh escreveu no Ósankë-kenta, "Eu
digo que isto não é assim. Tais coisas podem parecer-se, mas se em
gênero elas são totalmente diferentes, elas devem ser distintas.
Previdência, que é a previsão, e prognóstico, que é a opinião tomada
pelo raciocínio sobre a presente evidência, podem ser idênticas em sua
predição, mas são completamente diferentes em modo, e deveriam ser
distinguidas por mestres de tradição, mesmo se a língua habitual, tanto
de Elfos como de Homens, lhes dê o mesmo nome como áreas da sabedoria".

O Ósanwë-kenta diz que "Os
Valar entraram em Eä e no Tempo de livre vontade, e eles agora estão no
Tempo, enquanto este durar. Eles não podem perceber nada fora do Tempo,
salvo pela memória de sua existência antes dele começar: eles podem
recordar a Canção e a Visão�?.

A primeira nota acrescida ao
comentário sobre o "Athrabeth Finrod ah Andreth" diz respeito à
liberdade de Ilúvatar em oposição às limitações dos Valar:


"Os Eldar acreditavam que Eru era e é livre em todos os estágios. Esta
liberdade foi mostrada na Música por Sua introdução, após o surgimento
das dissonâncias de Melkor, de dois novos temas, representando a
chegada de elfos e homens, que não estavam no Seu primeiro comunicado.
Portanto Ele pode, no estágio cinco, introduzir diretamente coisas que
não estavam na Música e que assim não são realizadas através dos Valar.
Não obstante, isto continua em geral verdadeiro no que diz respeito a
Eä como concluído através da intervenção deles."

A
intervenção dos Valar na criação (ou sub-criação) de Eä, bem como sua
memória da Música e da Visão, os provêm com o conhecimento intrincado
de Eä e do Tempo em que eles projetaram o que se daria. Eles também
podiam prever acontecimentos ainda não revelados, mas apenas caso
Ilúvatar transmitisse tal conhecimentos a eles. A sua própria
intervenção deu a eles pré-conhecimento, mas não previsão. Ilúvatar
falou aos Ainur quando lhes mostrou a Visão, e disse-lhes muito que não
estava incluído nela.

Desse modo, o livre-arbítrio não colide
com as ações e intenções dos Valar, exceto Melkor, que desejava
compelir todas as criaturas viventes à sua obediência. Ele desejava que
fosse adorado pelos Filhos assim Ilúvatar deveria ter sido. Ele queria
ser obedecido pelos Ainur como Ilúvatar deveria ter sido. Melkor tentou
engajar-se no tipo de corrupção que iria eliminar ou reduzir o
livre-arbítrio. Tolkien tentou explicar esse resumo do dom de Ilúvatar
a todas as criaturas encarnadas pensantes nos ensaios a respeito da
origem dos Orcs.

No seu último ensaio sobre os Orcs, Tolkien escreveu:
verdade, claro, que Morgoth mantinha os orcs em horrenda escravidão;
pois em sua corrupção, eles haviam perdido quase toda a possibilidade
de resistir à dominação de sua vontade. De fato, tão grande era a sua
pressão sobre eles que, antes de Angband cair, se direcionasse seu
pensamento na direção deles, eles ficariam conscientes de seu "olho"
onde quer que estivessem; e quando Morgoth finalmente foi removido de
Arda, os orcs que sobreviveram no oeste se dispersaram, sem liderança e
quase sem sagacidade, e estiveram por um longo tempo sem controle ou
propósito."

A compulsão de Melkor por outras vontades deve
ser reduzida a mera influência, como na influência que ele parece ter
manifestado nas escolhas feitas pelos filhos de Húrin. Quando Melkor
aprisionou Húrin sobre as Thangorodrin, ele disse, "No entanto
posso chegar a você e a toda sua casa amaldiçoada, e serão quebrados
pela minha vontade, mesmo que sejam todos feitos de aço… Olhe! A
sombra de meu pensamento pesará sobre eles aonde quer que vão, e meu
ódio há de persegui-los até os confins do mundo�?.

Desde
que Túrin foi criado em Doriath sob a proteção de Melian, é improvável
que Melkor pudesse ter tido muita influência sobre a vida de Túrin. Mas
Saeros, em seu orgulho, abriu a si mesmo ao mal. Melkor deve apenas ter
necessitado de deduzir que onde quer que Túrin fosse, ele iria
encontrar alguém que tivesse alguma mácula sobre si. Nesse encontro, a
escolha de Túrin seria pré-influenciada para suspeitar do que é certo.
Tão pequena semente deve falhar em florescer uma centena de vezes, mas
conseguir usufruto ao menos uma. O conto dos filhos de Húrin poderia
estar repleto de casos em que eles eram tentados a escolher errado, mas
não o fazem.

No final, apenas as escolhas que levaram ao
destino que Melkor desejou para eles compreendem os elementos-chave do
Conto dos filhos de Húrin. Isso é o mais próximo que Tolkien chega de
impor qualquer coisa como predestinação sobre seus personagens. E ainda
que Húrin tenha revelado a localização geral de Gondolin aos espiões de
Melkor, este apesar de tudo deveria contar com o engano e aproveitar-se
das circunstâncias para alcançar seu objetivo. Ele não poderia
simplesmente decretar que Húrin trairia Turgon. Tal traição teria
acontecido antes e com menos complicações.

A maldição de
Melkor, assim como a maldição dos valar sobre os noldor rebelados, não
era, então, profecia, e certamente não impôs limitação ao
livre-arbítrio. Essas eram as ações de grandes poderes, possuidores de
grande conhecimento e compreensão, e capazes de considerável
discernimento acerca das motivações e prováveis escolhas das criaturas
com as quais lidavam.

Profecias verdadeiras acontecem algumas
vezes, mas isso é ofuscado pela previsão. Se pudermos distinguí-los,
devemos concluir que previsão apenas confirma intuitivamente que algo
deve ou irá ocorrer. Por exemplo, quando a Comitiva do Anel está
decidindo qual rumo tomar em Eregion, Aragorn alerta Gandalf sobre a
escolha do caminho através de Moria. Aragorn não tem uma idéia clara do
motivo para ele se sentir compelido a alertar Gandalf sobre aquele
caminho. E Gandalf certamente não pressente tal perdição. Mas a
premonição de Aragorn prova-se certa: eles encontram o Balrog e Gandalf
é afastado de seus companheiros.

Por outro lado, Elrond prediz alguns acontecimentos concernentes a jornada de Frodo: "Consigo
prever muito pouco do seu caminho, e como sua tarefa deve ser
desempenhada eu não sei. A Sombra agora já chegou aos pés das
Montanhas, e avança até a região próxima ao rio Cinzento; sob a Sombra
tudo fica escuro aos meus olhos. Você vai se deparar com muitos
inimigos, alguns declarados, alguns disfarçados; e poderá encontrar
amigos em seu caminho, quando menor esperar."

Quem pode
duvidar de que Boromir deve ser um inimigo não-declarado, e Faramir um
amigo inesperado? Mas a predição de Elrond é enganada pela Sombra,
quase como se ele estivesse literalmente vendo a jornada de Frodo
enquanto ela se desenrola. Por que deveria a Sombra (presumivelmente a
influência ou vontades de Sauron e Saruman) impedir a visão de Elrond?
A nota seis no Ósanwë-kenta nos oferece uma sugestão:


"Pengolodh aqui elabora (embora não seja necessário ao seu argumento)
esta questão de previsão. Nenhuma mente, ele afirma, conhece o que nela
não está. Tudo o que fora experimentado está nela, apesar de que no
caso dos Encarnados, dependendo dos instrumentos do hröa, algumas
coisas podem ser esquecidas, não estando imediatamente disponíveis para
recordação. Mas nenhuma parte do futuro lá está, pois a mente não pode
vê-lo nem tê-lo visto: isto é, uma mente situada no tempo. Tal mente
pode aprender sobre o futuro apenas a partir de outra mente que o tenha
visto. Mas isto significa apenas diretamente de Eru, ou por intermédio
de alguma mente que tenha visto em Eru alguma parte de Seu propósito
(assim como os Ainur, que agora são os Valar em Eä). Só assim um
Encarnado pode conhecer algo do futuro: por instrução derivada dos
Valar, ou por uma revelação vinda diretamente de Eru. Mas qualquer
mente, seja dos Valar ou dos Encarnados, pode deduzir pela razão o que
pode ou irá ocorrer. Isto não é previsão, mesmo que possa parecer claro
em termos e, de fato, mesmo mais preciso do que vislumbres de previsão.
Nem mesmo se isto é formado por visões vistas em sonho, um meio segundo
o qual a previsão é freqüentemente revelada à mente."

A
previsão do Elrond não pode ser uma dedução baseada em seu
conhecimento. Ele não sabia quem poderia ou iria trair Frodo, bem como
quem poderia ou iria aparecer em seu caminho. Elrond não sabia nem
mesmo por qual caminho Frodo seguiria até Mordor. Ainda que pudesse ser
argumentado que Elrond e Gandalf haviam despedido um bom tempo
discutindo sobre o caminho que a Comitiva do Anel poderia seguir, e
quem vivia naquela estrada. A remoção de Gandalf em Moria dá um limite
à sua influência sobre o pensamento de Elrond.

Então, deve ter
sido enviado um sutil conselho a Elrond pelos Valar, ou talvez pelo
próprio Ilúvatar. Da mesma forma, os sonhos que Faramir e Boromir
tiveram alertaram-nos para procurar Valfenda, isso não pode ser produto
de seus pensamentos. Eles simplesmente não tinham conhecimento
suficiente para deduzirem sobre tais possíveis acontecimentos. Eles
devem ter ouvido algo sobre Imladris quando crianças e esquecido-se
disso; eles sem dúvida sabiam que a espada de Elendil havia sido
quebrada. Mas eles não poderiam saber que um Pequeno tinha um símbolo
de grande poder, ou que um conselho seria desvelado em Imladris quando
seria decidido sobre uma grande perdição.

Outros exemplos de
previsão entre Elfos e Homens incluem as profecias de Malbeth, o
Vidente (acerca do nome de Arvedui e a jornada de Aragorn pelas Sendas
dos Mortos), a predição de Glorfindel de que o Senhor dos Nazgûl não
cairia pelas mãos de um homem, e a predição de Isildur de que a guerra
contra Sauron não terminaria rapidamente.

As deduções
intuitivas dos Lossoth (de que o barco élfico enviado para resgatar
Arvedui não era seguro) e os Druedain (que Númenor não sentia mais
segurança sob seus pés, e que uma mudança viria previamente à batalha
dos Campos de Pelennor) parecem estar mais proximamente alinhadas com a
idéia de previsão, embora esses (primitivos) povos tenham estado mais
intimamente direcionados a conselhos sutis dados por Ilúvatar (ou os
Valar).

E sobre as palavras de Elrond acerca do Condado, e seu
desejo de enviar Merry e Pippin de volta como mensageiros? Tolkien não
revela quanto Elrond sabe (ou descobre) das atividades de Saruman em
Eriador. Mas Gandalf e Aragorn estavam cientes do crescente interesse
no Condado. Gandalf pediu a Aragorn que aumentasse a guarda no Condado.
Então, se Gandalf e Aragorn sabiam que alguém estava atento para algo,
Elrond deve ter sabido, também, o que estava acontecendo. E a revelação
de Gandalf acerca da traição de Saruman teria ajudado Elrond a concluir
que o Condado não era mais um lugar seguro de influências externas. Sua
preocupação é muito vaga, embora prove-se bem fundamentada.

A
advertência de Celeborn a Aragorn é outro exemplo da previsão élfica, e
também é um pouco mais avançada que a previsão de Elrond. Celeborn
explica a situação e sobre as terras para a Comitiva do Anel, dado o
curso que eles haviam escolhido. E ele lhes dá mais tempo para pensar
melhor sobre as escolhas que irão fazer ao dá-los barcos, então eles
podem prosseguir para o sul pelo Anduin. Mas no final, ele aponta, eles
devem escolher se irão para o leste ou ao oeste. E ele relembra Boromir
que os velhos contos de avós podem guardar mais do que os Sábios acerca
de determinados assuntos. Talvez a advertência de Celeborn para não
passarem por Fangorn tenha sido um vislumbre de verdadeira previsão,
onde os Valar ou Ilúvatar podiam estar sugerindo de forma vaga que os
problemas estavam crescendo.

A inabilidade de Elrond para ver
com clareza o que irá acontecer nas terras onde a Sombra cresce implica
em uma limitada capacidade de previsão. Isto é, se Ilúvatar o estivesse
enviando visões, então por que seriam curtas? Malbeth parecia estar
muito bem informado nos problemas de Estado e catástrofe. Sua previsão
é quase como pré-conhecimento, e isso significa que ele estava
recebendo suas visões de Ilúvatar, ou talvez de Manwë.

Mas
Tolkien diz que Ilúvatar intervém apenas após a morte de Gandalf. É
nesse ponto que o plano dos Valar para derrotar Sauron falha. Por dois
mil anos, então, os Valar estiveram conduzindo o espetáculo. O quanto
eles sabem do que está por vir, e o quanto eles estão deduzindo? E eles
devem estar deduzindo algumas coisas. De outra forma, por que iria
Gandalf ser pego desprevenido pela traição de Saruman e a aparição do
Balrog? A incerteza do plano dos Valar implica fortemente que eles não
poderiam prever o final do conflito. A intervenção de Ilúvatar implica
fortemente que ele queria que o conflito terminasse de uma determinada
forma.

Ao falar sobre a recusa dos Valar em intervir diretamente em Beleriand antes do término da Primeira Era, Tolkien sugere que "a
última intervenção com força física pelos Valar, que resultou na queda
das Thangorodrim, pode então ser vista como não de fato relutante ou
indevidamente postergada, mas precisamente ao seu tempo. A intervenção
veio antes da aniquilação dos Eldar e dos Edain. Morgoth, apesar de
logicamente triunfante, havia negligenciado a maior parte da
Terra-Média durante a Guerra; e de fato ele havia sido enfraquecido: em
poder e prestígio (ele havia perdido e falhado em recuperar uma das
Silmarils), e acima de tudo, em mente … A guerra foi bem-sucedida, e
a ruína limitou-se à pequena (porém bela) região de Beleriand."

Os Valar não foram, assim, sempre atuantes baseados no
pré-conhecimento, ou previsão, mas ao menos em algumas ocasiões –
especialmente depois que muito Tempo já havia passado – baseados em
suas próprias deliberações. Eles estavam a calcular quando e o quanto
deveriam intervir diretamente na História. Seu conhecimento do que
estava por vir era incompleto, e tornando-se ainda mais incompleto com
o passar de cada era. No fim, eles equivocaram-se (na verdade, eles
calcularam mal mais de uma vez, mas Ilúvatar precisou intervir
diretamente ao menos em duas ocasiões para preservar a ordem natural).

O que parece ser profecia em muitas ocasiões, assim, resulta da
imposição, quando é o produto de uma vontade maléfica como as de Melkor
ou Sauron; ou da previsão, o cálculo do que deve ou pode vir a
suceder-se baseado no conhecimento sobre os acontecimentos e pessoas;
ou do pré-conhecimento, que é derivado da Música, da Visão, ou
Ilúvatar; ou de Ilúvatar propriamente dito. Apenas deste é a verdadeira
predição profética, mas profecia não é simplesmente predição. Profecia
em seu sentido mais completo é revelação. Caso os Valar revelem algo a
Elfos ou Homens, eles estão transmitindo conhecimento profético ou
previsão.

As limitações da previsão podem explicar por que Tom
Bombadil não pôde oferecer aos Hobbits, muitos conselhos acerca de seu
caminho. Ele não acreditava que os Nazgûl fossem incomodá-los durante
um longo tempo (ele estava, na verdade, errado). Os Nazgûl estavam
vigiando Bri quando Frodo e seus companheiros chegaram. Tom estava
aparentemente contando com seu conhecimento sobre a região e as
criaturas que conhecia. Sua experiência com os Nazgûl era limitada, e
então, ele não era muito bom para predizer o que eles poderiam vir a
fazer. E ele disse tanto quanto podia aos Hobbits.

A incerteza
das predições de Tom é compável com a incerteza das revelações do
Espelho de Galadriel. Sua pequena bacia cheia dágua claramente revela
acontecimentos, então as visões de Frodo e Sam percebem nele são
profecias verdadeiras. Mas Galadriel os alerta que não é fácil
descernir em que ocasiões as revelações são sobre o passado, o
presente, ou o futuro. E ela também aponta que nem tudo "predito" pelo
espelho vêm a acontecer. Então, qual a fonte das visões do espelho?
Estará a magia de Galadriel captando pensamentos aleatórios de Ainur
que dormem? Ou estaria Ilúvatar distribuindo visões como
biscoitos-da-sorte?

Internamente ao Conto do Tempo, profecias
desempenham um papel variado que informa e ilumina, mas isso não
domina. Em mãos erradas isso é tanto uma ferramenta de imposição,
quanto evidência de imposição. Mas em boas mãos são um sinal do
contínuo interesse e intervenção de Ilúvatar, que sozinho sabe como
tudo irá arrumar-se. Mas, apesar de tudo, ele permite a todos os Filhos
de seu pensamento, tanto Ainur quando Encarnados, que tomem suas
próprias decisões.