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Antes dos Numenoreanos Virem

As coisas na Terra Média mudaram radicalmente como resultado da Guerra da Fúria. A Guerra durou cerca de 42 anos , começando no ano 545 da Primeira Era e terminando no ano 587. Durante esse tempo vastas áreas da Terra Média- Beleriand, as distantes terras setentrionais, o mar interior de Helcar – foram destruídas ou mudaram de forma. Em Morgoth`s Ring Cristopher Tolkien apresenta um até então inédito ensaio do seu pai que reflete os motivos das várias forças no Silmarillion. Na primeira e segunda partes do ensaio JRRT esclarece como Melkor reduziu-se gradualmente ao se encarnar

[como Morgoth] permanentemente. Ele fez isso para controlar o hroa, a “carne” ou matéria física , de Arda. Ele procurou se identificar com ela. Um procedimento maior e mais perigoso, embora de feição similar às operações de Sauron com os Anéis. Assim, fora do Reino Abençoado, toda “matéria” tendia a possuir um “ingrediente Melkor”, e aqueles que tinham corpos, nutridos pelo hroa de Arda, possuíam, como ela própria uma tendência, pequena ou grande, de seguirem Melkor [1]: nenhum deles era completamente livre dele em suas formas encarnadas, e seus corpos tinham um efeito sobre seus espíritos”.

 

Essa notável conclusão [ em si própria nada além de uma premissa para conclusões posteriores abordadas mais tarde no ensaio] foi decidida ou talvez ponderada por Tolkien no fim dos anos cinquenta ou no início doa anos 60, menos de dez anos depois da publicação do Senhor dos Anéis e é aproximadamente contemporânea com os textos que formaram a base para muito do Silmarillion como foi publicado. Ë, portanto, razoável aceitar a explicação que segue a citação feita acima como o motivo por detrás da relutância dos Valar em agir diretamente contra Melkor no Silmarillion [ na forma com que foi publicado]:

Mas dessa forma, Morgoth perdeu [ ou trocou ou transmutou] a maior parte dos seus poderes “angélicos”, de mente e espírito, enquanto adquiria um terrível controle sobre o mundo físico. Por essa razão, ele tinha que ser combatido, principalmente por força física, e uma enorme ruína material seria a provável consequência de qualquer confronto direto com ele, vitorioso, ou não. Essa é a explicação principal da constante relutância dos Valar em entrar em combate aberto contra Morgoth. A tarefa e o problema de Manwë eram muito mais difíceis do que os de Gandalf. O poder relativamente menor de Sauron estava concentrado ; o vasto poder de Morgoth estava disseminado. Toda a Terra Média era o Anel de Morgoth, não obstante, de momento, a sua atenção estivesse principalmente concentrada no Noroeste. A menos que tivesse êxito rapidamente, a Guerra contra ele poderia muito bem transformar toda a Terra Média num caos, possivelmente até mesmo Arda inteira. É fácil dizer: “é o dever e função do Rei mais Velho governar Arda, e tornar possível para as Crianças de Eru viverem nela sem serem molestadas.


Mas o dilema dos Valar era esse: Arda só poderia ser liberada por uma batalha física mas o provável resultado de tal batalha seria a ruína irreparável de Arda”…

Portanto, na realidade, o ataque contra Morgoth, teria que se iniciar com um assalto sobre a própria Terra Média. Morgoth teria sido capaz de usar a própria terra para enfrentar a Hoste de Valinor, .E os Valar teriam que destruir a terra com o fito de minar a força de Morgoth. Então faz sentido que a Hoste de Valinor chegasse o mais distante para o Norte quanto fosse capaz, o mais próximo de Angband quanto fosse possível..Eles estariam evitando a maior parte da força disseminada de Morgoth. Mais importante do que isso, eles estariam mais perto da encarnação física de Morgoth , a qual era, essencialmente, o objetivo da Guerra deles.

A Guerra das Jóias, para todos os intentos e propósitos, terminou com o assalto contra Gondolin. Os Elfos nunca mais organizaram uma campanha contra Morgoth e ele nunca mais tomou qualquer medida direta contra eles. Com a Queda de Gondolin, os elfos foram reduzidos para três pequenos e inócuos agrupamentos: Ossiriand, onde uns poucos Feanörianos tinham se refugiado com os Elfos-verdes, Arvenien, onde refugiados de Doriath e Gondolin estabeleceram uma nova colônia com alguns dos Edain; e Balar, onde fugitivos de Hithlum [ Sindar como Annael], Nargothrond, e das Falas criaram uma colônia depois da Nirnaeth Arnoediad.

Muitos outros elfos vaguearam através de Beleriand, exilados ou Avari, ou foram escravizados em Angband .Alguns desses elfos, pode-se supor, eventualmente alcançaram Arvenien, e a partir de lá prosseguiram para Balar. Mas quando os Feanorianos destruíram Arvenien no ano 538, um número significativo de Elfos morreu. A população élfica de Beleriand foi reduzida ao seu menor tamanho. Dos Feanorianos, do povo de Balar e dos elfos de Ossiriand eventualmente provieram os Eldar que estabeleceram o reino de Lindon na Segunda Era.

Mas Gil-galad e Círdan devem ter de alguma forma se reconciliado com os Feanorianos remanescentes durante os três anos finais da Primeira Era. Isso deve ter ocorrido no tempo que os Elfos abandonaram Balar. A ilha teria afundada ou Gil-galad e Círdan simplesmente sentiram que era hora de retornar para o continente agora que Morgoth se fora? Nós nunca saberemos.

Os Edain de Estolad também migraram para o leste, mas eles se fixaram em Lindon ao longo da nova linha costeira. Nos Contos Inacabados a terceira nota de “Aldarion e Erendis” diz que os Numenoreanos acreditavam “que os homens deixados para trás descendiam dos homens perversos que, nos últimos dias da guerra contra Morgoth, haviam sido chamados por ele do Leste". Os Edain de Beleriand devem, portanto, ter perdido toda memória dos seus antigos parentes no leste, e essa perda implica que todos os seus mestres de sabedoria devem ter perecido nas guerras. As gerações que cresceram na escravidão devem ter aprendido muito pouco das suas origens, e os elfos, provavelmente, poderiam ter muito pouco a dizer a eles.

Essa divisão dos Edain teve um efeito profundo sobre suas culturas. Quando os Numenoreanos voltaram para a Terra Média no ano 600 da Segunda Era “eles viram homens que poderiam ter caminhado em Númenor sem serem reconhecidos como estrangeiros salvo por suas roupas e armamentos.”. Para os Edain de Eriador os Numenoreanos “pareciam antes com senhores Élficos do que homens mortais em comportamento e vestuário”. Os primeiros Edain haviam recebido as boas vindas em Númenor pelos Eldar de Tol Eressëa, sobreviventes de Beleriand, que presentearam os Edain com muitas dádivas e que ensinaram a eles novos conhecimentos. Mas os Edain haviam sido tutelados , também por Eonwë na Terra Média.

De fato, os Edain viveram em Lindon p
or cerca de 35 anos antes deles começarem a viajar através do Oceano, e em The Peoples of Middle Earth é dito que a migração para Númenor demorou pelo menos 50 anos.. Então os Edain de Lindon migraram através do Oceano entre o ano 32 da Segunda Era e o ano 82, aproximadamente. Durante esse tempo ele foram tutelados pelos Valar e ensinados por Eonwë e talvez por outros Maiar. .Mas eles parecem não ter tido contato com seus parentes no leste.

A primeira frota a rumar para Númenor consistiu de pelo menos 150 navios, talvez contasse até mesmo 300.Cada um era comandado por um dos marinheiros de Círdan, que, presumivelmente, retornaram para Lindon quando sua viagem foi concluída. Alquém pode se perguntar o que teria sido feito dos navios quando os Elfos terminaram de transportar os Edain através do mar .Alguns , sem dúvida, foram usados para viajar para Tol Erëssea, mas o restante deve ter sido incorporado à nova economia de Lindon Os navios eram pequenos, comportando entre 30 e 40 passageiros com utensílios e animais. Pode-se indagar quanto tempo terá levado para os Elfos contruírem os barcos? Círdan teve que treinar novos marinheiros?

Como os Edain deixaram Lindon os Anões de Belegost começaram a abandonar Ered Luin e a migrar para Khazâd-dum. Estes Anões muito possivelmente reforçaram os Anões Barbaslongas [ O povo de Durin] em suas novas guerras com os Orcs, que vindos da ruína de Angband , pareciam numerosos para o Povo de Durin .Se uma razão para a migração dos Anões deve ser procurada, é de se supor que os Barbaslongas convidaram os Anões de Belegost a se lhes juntarem como resultado das invasões dos Orcs.

Contudo,a migração dos Anões deve ter empobrecido Eriador, Os Edain devem ter tido Elfos Nandor para comerciar, mas poucos Anões. Então pode ser que seu desenvolvimento cultural tenha prosseguido através de diferentes caminhos em relação àqueles dos Edain das Terras Selvagens muitos dos quais se tornaram aliados dos Anões e se beneficiaram do comércio feito por eles. Ao que tudo indica uma diferença entre os [ principalmente ] Edain “Beorianos” de Eriador e os [ em sua maioria ] Edain “Marachianos” das Terras Selvagens foi o uso de cavalos. Os Marachianos usaram cavalos ainda em Beleriand, mas os Beorianos parecem não tê-los utilizado. Os Edain de Eriador fixaram residência nos Montes de Evendim, nas Colinas Setentrionais, nos Montes do Tempo, e nas terras entre eles tão distante para o oeste quanto o rio Baranduin. De acordo, tanto com o Contos Inacabados quanto com o The Peoples of Middle Earth, os Edain algumas vezes vagaram nas terras além do Baranduin mas aquele era um país élfico e eles não permaneceram lá.

Os Elfos que residiam entre Baranduin e Lhun devem ter sido Nandor em sua maioria. Os Noldor se fixaram em Forlindon com Gil-galad e Elrond . Esses eram provavelmente em sua maioria descendiam dos Noldor de Gondolin e do povo de Angrod [ da região setentrional de Nargothrond], muitos dos quais tinham fugido para Balar. Quase nenhum dos Noldor de Hithlum deve ter sobrevivido à Nirnaeth Arnoediad, ou, se eles o fizeram, devem ter sido escravizados. Então os Noldor restantes devem ter derivado do punhado de Feanorianos que sobreviveram à terceira Matança entre Famílias e de quaisquer refugiados que escaparam à queda de Nargothrond.

Muito embora o povo de Círdan tenha se estabelecido nos portos gêmeos de Mithlond, os Sindar de Doriath e os Elfos verdes de Ossiriand fixaram-se em Harlindon. Mas muitos desses Elfos eventualmente migraram para o leste , para os Vales do Anduin. Tolkien diz apenas que eles partiram " antes da contrução da Barad-dûr" [ que Sauron iniciou por volta do ano 1000]. Muitas pessoas acreditam que a migração sindarin deve ter ocorrido antes dos Noldor fundarem Eregion [ circa 700-750] . Porque Sauron começara a agir contra os Elfos por volta do ano 500[ aparentemente instigando homens do leste a molestarem os Elfos]. É possível que as migrações sindarin o levaram a fazer alguma coisa.[ é de se notar que em um esboço primitivo do Conto dos Anos da Segunda Era , a migração Sindarin coincidiu com a migração Noldorim para Inladris e Eregion.]

As populações em Lindon aumentaram e elas provavelmente cresceram tão rapidamente quanto as populações de Beleriand haviam crescido. Quer dizer, entre a reconciliação dos Noldor em Beleriand no início da Primeira Era e a Dagor Bragollach, os Noldor e Sindar aumentaram consideravelmente suas populações. Um período comparável de tempo sem qualquer intrusão dos Orcs como os que ocorreram ocasionalmente durante o Cerco de Angband teve lugar entre a partida e o retorno dos Numenoreanos.

O reino de Gil-galad, consequentemente, deve ter se tornado mais rico e poderoso. Os marinheiros de Círdan devem ter continuado a singrar os mares. Por que não? Eles tinham os navios, tinham a perícia. Tolkien nunca disse que eles visitaram Aman, mas a região norte de Aman, pelo menos teria estado facilmente dentro do seu alcance. E não teria sido uma jornada muito longa viajar de Númenor para Tol Erëssea enquanto eles estavam conduzindo os Edain através do Oceano .Em algum ponto o povo de Gil-galad travou contato com os Edain de Eriador. Esses homens , pensando que seus primos ocidentais tinham sido destruídos, nunca perguntaram a respeito deles quando visitavam os elfos. E os Elfos , tendo perdido contato com os Numenoreanos, nunca pensaram em informar o povo de Eriador que alguns dos seus parentes haviam sobrevivido. Se nós supormos que em média uma geração dos Edain, durava 25-30 anos, então houve cerca de 24 a 29 gerações entre o povo de Eriador depois que Estolad foi abandonada até os Numenoreanos retornarem para a Terra Média.

Aparentemente não houve interação entre esses Edain e os Homens de Minhiriath, os quais os Numenoreanos vieram a chamar os Gwathuirim .O povo de Haleth em Brethil tinha se originado desse povo, e eles também eram pertencentes aos Edain, mas falavam uma língua diferente daquela dos Beorianos e Marachianos. Os homens de Bree, muitos milhares de anos depois, descenderam dos Gwathuirim, mas parece que Bree não foi fundada até algum tempo depois da Guerra dos Elfos e Sauron. Os povos de Eriador devem ter estado relativamente isolados durante os primeiros séculos da Segunda Era. Os Elfos se mantiveram principalmente além do Baranduin mas eles eram amigáveis com os Edain. Gil-galad seguiu a política dos reis Eldarin de Beleriand em manter uma separação entre Elfos e Homens. Não havia uma Guerra da qual se falar que poderia tê-los unido. Os Elfos devem ter se tornado mais internalizados, aprimorando sua civilização até que a população e a perspectiva de comercio com Khazâd-dum se tornaram grandes o suficiente para desencadear as migrações para o leste.. Os Gwathuirim viveram sossegados em suas florestas. No Leste, os Anões e seus aliados Edain erigiram uma grande civilização. Mas a menção ocasional de interação sugere qu
e uma vasta rede de comunicação de algum tipo existiu entre todos esses povos. Gil -galad, eventualmente, ouviu rumores de algum poder negro que era hostil a Elfos e Homens .Quando os Barbaslongas descobriram Mithril os Noldor decidiram estabelecer uma colônia em Eregion para iniciar o comércio com Khazâd dum, e o relacionamento entre os dois povos foi tão forte que os Anões escavaram um túnel por todo o caminho através das montanhas para criar um portal ocidental para o uso dos Elfos.

A questão de quando esta rede se formou pode nunca ser solucionada. É possível que os Anões sempre preservaram seus antigos contatos, e que pelos primeiros séculos da Segunda Era eles trouxeram notícias entre o leste e o oeste, Elfos, Anões e Homens. Pode ser que os Nandor que perambulavam por Eriador eventualmente fizeram contato com o reino de Gil-galad e levaram notícias em direção ao oeste. E, talvez, os próprios Edain comerciaram livremente uns com os outros e com os Anões trazendo notícias e riqueza para o oeste proveniente de Khazâd-dum.

Nós sabemos que doze Edain foram corajosos o suficiente para encontrar Vëantur e seus Numenoreanos no ano 600. E nós sabemos que os Edain de Beleriand tinham mantido pelo menos um grande conselho onde seus líderes se reuniam para debater a guerra com Angband. Pode ser que conselhos similares fossem ocasionalmente feitos entre o povo de Eriador, e que os doze homens fossem líderes ou chefes de diversas tribos ou clãs. Um conselho de chefes de Eriador pode implicar que os Beorianos e Marachianos tinham desenvolvido uma cultura sofisticada, cooperando uns com os outros em tempos de necessidade. Tal confedereção de povos teria sido suficientemente forte para desencorajar ou rechaçar invasões e pode explicar por que os Easterlingues e Orcs não se fixaram no centro de Eriador, e por que os Gwathuirim não foram mais para o norte do que a orla das suas florestas.

O encontro com Vëantur sugere que o povo de Eriador falava a mesma língua ainda que essa língua, em mais de 700 anos tivesse se distanciado do Adunaic dos Numenoreanos. Então a inferência de que os Edain de Eriador tivessem mantido ou desenvolvido uma unidade cultural é forte. Eles teriam trocado livremente estórias e canções, retiveram as mesmas tradições e memórias, praticavam os mesmos costumes, e provavelmente continuaram com o antigo costume dos Edain de casarem seus filhos e filhas [ aos menos entre seus chefes com famílias de outras comunidades a fim de estabeler ou preservar vínculos fortes.

Esse Edain enterravam seus mortos em montes, e muito possivelmente, residiam em cidades e vilas fortificadas, criando ovelhas e bois e [ muito provavelmente, no caso dos poucos Marachianos em Eriador] cavalos. Eles devem ter sido principalmente fazendeiros e lenhadores, conservando um pequeno grupo de manufatureiros. Eles deveriam ter sido ávidos por conhecerem novas técnicas e artigos para o comércio através dos Numenoreanos. Aos Numenoreanos eles devem ter parecido muito com seus ancestrais em Beleriand, e Eriador deve ter proporcionado a aventureiros como Aldarion um vislumbre do passado.

Notas do tradutor:

[1] Ao contrário do que Michael Martinez sugere, os Valar não vieram eles próprios para a Terra Média na época da Guerra da Fúria como o haviam feito no tempo da Guerra dos Valar quando Utumno foi destruído e Melkor levado cativo pela primeira vez. Nessa ocasião, eles optaram por enviar um grande grupo de Maiar [cujo número não pode ser estimado mas que poderia corresponder ao de um exército], que era liderado pelo arauto de Manwë, Eonwë [ muito provavelmente o mais poderoso de todos os Maiar] e contando com o auxílio dos elfos Vanyar e dos Noldor que ficaram em Beleriand.

[2] Estas notas esclarecem muitas das sugestões e idéias feitas por Tolkien no capítulo da Narn i Hîm Húrin do Contos Inacabados [ a ser publicado este ano no Brasil], "As Palavras de Húrin e Morgoth".

[3] O mar de Helcar foi criado no fim da Era das Lâmpadas com a destruição causada pela queda de Iluin e uma das suas baías era justamente o lago de Cuiviénen onde os elfos despertaram.

Os mapas encontrados nos seguintes links darão uma idéia aproximada da sua localização relativa na Primeira e Segunda Eras, sendo que, no caso do segundo mapa, ele fornecerá uma noção das terras então existentes nas regiões outrora situadas em Helcar.

A comparação entre os mapas elucidará ao leitor a natureza das transformações ocorridas entre a Primeira e a Segunda Era [ tornando o texto traduzido mais transparente] e fornecerá dados para o cálculo aproximado das posições relativas de todas as localidades geográficas da mitologia tolkieniana.

Primeira Era de Arda

 

Tradução de Paulo ´Ilmarinen´ Lages

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Shhhhhh! É um Anel Secreto!

Eu sou questionado sobre muitas perguntas a respeito do mundo de Tolkien e certas vezes, eu apenas arquivo as mais interessantes para futura referência. Mas outro dia alguém me perguntou algo que eu não acreditava nunca ter passado pela minha cabeça. Quem sabia sobre os anéis? Um leitor muito astuto ressaltou a mim que Boromir reconheceu o Anel imediatamente, Faramir compreendeu que havia um Anel que envolvia Gandalf e Denethor parecia saber de tudo sobre o Anel…Quando se trata exatamente disso, todos que entram em contato com Frodo parecem saber sobre o “Anel precioso” (como Bombadil o chamou).

 

Se eu puder pegar emprestada uma das comparações que Tolkien tanto detestava, é quase equivalente para todo frentista de posto de gasolina da Rota 66 pedindo a J. Robert Oppenheimer se ele pode dar uma olhada no Fat Man e Little Boy enquanto ele dirige para Los Alamos. O Anel de Sauron era para ser um grande segredo, no entanto, muitas pessoas que Frodo encontrou pareciam saber sobre ele. Gildor Inglorion compreendeu o que estava acontecendo (e como ele sabia que Frodo estava “suportando um grande fardo sem conselhos“, como Glorfindel diz, não é explicado em nenhum lugar).

Como poderia ser que tantas pessoas soubessem algo sobre o Um Anel ao fim da Terceira Era, principalmente considerando-se que estava limitado ao conhecimento daqueles que estavam mais envolvidos com ele por três mil anos?

A resposta deve estar nos dias de Elendil e Gil-Galad, quando eles primeiro formaram sua grande aliança. Tolkien escreveu muito pouco sobre o que realmente aconteceu, mas sabemos que Sauron atacou Gondor e tomou Minas Ithil. Isildur escapou com sua mulher e filhos. Anárion fortificou o Anduin e repeliu as forças de Sauron enquanto Isildur navegava para Arnor. Ali Isildur consultou-se com Elendil, que em troca, consultou-se com Gil-Galad.

Até esse tempo, podemos ter certeza, o total conhecimento dos Anéis de Poder estava limitado somente aos Elfos. Mas o quanto eles sabiam em geral? Qualquer Elfo mais velho saberia que existiam Anéis de Poder, ou o conhecimento era confinado a um grupo seleto? Bom, não há fatos para responder a essas questões. Isto é, não há nenhum ensaio ou nota de Tolkien já publicados que expliquem como o conhecimento sobre os Anéis se espalhou. Elrond contou às pessoas em seu conselho a história completa dos Anéis. “Uma parte de sua lenda era conhecida por alguns aqui, mas a lenda completa por nenhum”, Tolkien escreve no “Conselho de Elrond”.

Isso parece extraordinário. Nem mesmo Gandalf saberia toda a história dos Anéis? Bem, Gandalf não sabia da tradição do Anel até Bilbo aparecer, então talvez ele estava ainda alcançando o conhecimento. Mas a impressão é que a estória de Elrond foi rotulada como: “Segredo de Estado, Necessidade de saber e VOCÊ não precisa saber!” Exceto para ele, Galadriel e Círdan (e talvez Celeborn, mas todos sabem que ele era um forasteiro).

Quando Sauron primeiro se aproximou dos Elfos na Segunda Era, muitos suspeitaram dele, de acordo com a história descartada de Celeborn e Galadriel em Contos Inacabados. Galadriel não reconheceu Sauron (que se nomeou Aulendil por conta própria, apesar de que em outro lugar dizem que ele se nomeou Annatar). Ela desconfiou de um Maia que apareceu de repente e afirmou estar agindo em prol dos interesses dos Valar. É interessante que nenhuma tentativa foi feita para confirmar essa história com Valinor. Os Númenoreanos retornaram a Terra-Média em 600 da Segunda Era e Sauron começou a procurar por alguns bons trouxas alguns séculos depois. Devido a tal questão, os Eldar deveriam ter sido capazes de rezar para os Valar por algum tipo de conselho.

Então parece estranho começar com o fato de que as credenciais de Aulendil/Annatar nunca foram checadas. Talvez alguém tentou espiona-lo, mas talvez havia tantos Maiar que os antigos Noldor coçaram suas cabeças e falaram: “Bom, talvez…” Eu não posso deixar de pensar no prefeito em “The Music Man”, mandando os quatro conselheiros da cidade para descobrir quais eram as credenciais do Professor, e ele os transforma em um quarteto de barbeadores. Talvez Sauron era bastante como Robert Preston, especialmente dada à propensão dos Elfos para canções. Talvez Maglor foi mandado para verificar as credenciais e Sauron o perguntou por que parecia tão deprimido e…

O fato é que Sauron meneou seu caminho em Eregion numa época em que havia muitos Elfos por todos os lados da Terra-Média. O reinado de Gil-Galad se estendeu das costas de Lindon até o rio Brandevin. Os Nandor, Sindar e Noldor estavam aparentemente vagando ao redor do resto de Eriador. Muitos dos Noldor e Sindar estava vivendo alegremente em Eregion, comercializando com os Anões, construindo cidades e fazendo o que quer que os Elfos façam. No outro lado das Montanhas Sombrias os Sindar estabeleceram dois ou mais reinos entre os Elfos Silvan. E Edhellond era um canto calmo e refúgio ao sul das Ered Nimrais (Montanhas Brancas). Era, sobretudo, um mundo muito Élfico. Os Homens apenas por acaso andavam por ali, mas à parte dos numenoreanos, os Homens não faziam muito.

Sauron supostamente visitou mais de uma terra élfica em sua jornada por mentes élficas sugestionáveis. Presumivelmente os Elfos Silvan teriam tido pouco interesse na preservação da Terra-Média. E quanto a morrer? O que é a morte para eles? Talvez Eönwë tenha mencionado a probabilidade da morte dos Elfos, quando ele viajou convocando todos a Valinor, ou talvez não.

Em Lindon, Elrond e Gil-Galad recusaram-se a tratar com Sauron. Eles nem ao menos admitiriam ele no reino. Sauron deve ter mandado uma carta ou mensagem oferecendo-se para ensinar os Eldar em questões elevadas e nobres. Talvez foi um pouco de arrogância da parte de Sauron em fazer tal oferta, mas a reação de Gil-Galad deve ter sido de surpresa. Ele era apenas um rapaz quando Beleriand estava sendo invadida pelo mar pelos Valar. O que ele sabia sobre Valinor e sua felicidade?

Então pode ser que o povo de Gil-Galad era de fato composto, em sua maior parte, por Elfos mais jovens. Poucos dos Exilados originais realmente sobreviveram às Guerras de Beleriand. Destes, muitos aparentemente retornaram para o Oeste após a Interdição dos Valar foi dissipada. Então somente um punhado dos reais antigos Elfos deve ter permanecido na Terra-Média. Destes, a maior e mais bem conhecida era Galadriel, e por alguma razão, ela não ficou em Lindon por muito tempo; Então Galadriel devia estar em Eregion quando Sauron chegou farejando ao redor. De fato, é isso o que a história descartada conta, desde que ela e Celeborn eram (de acordo com esse relato) os soberanos originais de Eregion.

Sauron dedicou sua atenção a “Celebrimbor e seus companheiros ferreiros, que formaram uma sociedade ou irmandade, muito poderosa em Eregi
on, a Gwaith-i-Mirdain; mas ele trabalhou em segredo, desconhecido à Galadriel e Celeborn
”. Nesse relato, o sumário de Christopher Tolkien de um esboço que nunca foi totalmente publicado, Celebrimbor e a Gwaith-i-Mirdain tinham muitos segredos profissionais. Eles não dividiam seu conhecimento livremente com outros Noldor.

Os Noldor, os Fëanorianos em particular, eram muito sigilosos, até mesmo em Valinor. Eles eram de um tipo que não pareciam se dar bem uns com os outros. Até mesmo seus primos Avari, os Tatyar, parecem ter sido mais divididos que os Nelyarin Avari (que eram relacionados com os Teleri, os Eldar que vieram dos Sindar). Fëanor nunca chegou a revelar muitos de seus segredos para os outros Elfos. Então quando ele morreu, muito da sua sabedoria morreu com ele. É claro que muito da sabedoria antiga foi perdida nas Guerras de Beleriand de qualquer maneira. Celebrimbor e seus companheiros devem ter sido os últimos herdeiros dos grandes segredos da Primeira Era. Ou eles podem ter sido um grupo de renascimento, pegando emprestado tudo o que podiam dos Anões e descobrindo coisas por conta própria.

O resultado final foi que os Anéis de Poder eram um projeto originalmente secreto. A maioria dos Elfos não sabia nada sobre eles. As primeiras propostas de Sauron devem ter parecido um tanto quanto vagas, tirando proveito de suas dúvidas e preocupações de uma maneira geral. Não seriam vagas até que Sauron pudesse ter uma longa e sincera conversa de ambas as partes com Celebrimbor sobre o futuro dos Elfos que Sauron estaria apto para lançar o Grande Plano sobre o senhor Élfico. E não é provável que Celebrimbor tenha sido idiota. De fato, ele era provavelmente um dos Elfos mais inteligentes do início da Segunda Era. Sua penetrante sabedoria e insight se juntaram ao seu brilho. Isso teria feito dele um alvo crucial para a fraude de Sauron.

E essa fraude deve ter requerido séculos de trabalho. Sauron deve ter ensinado muito pacientemente aos Gwaith-i-Mirdain muitos segredos sobre a manufatura de várias coisas antes de ganharem sua total confiança. Tolkien nos oferece apenas um vislumbre dos tipos de artefatos que os Elfos eram capazes de fazer: os barcos de Lórien, as cordas e mantos dos Elfos Silvan e a bacia da Galadriel. Esses eram os mais modestos, aparentemente, assim como encantamentos diários, coisas de pouco interesse para os mestres ferreiros. Os Palantíri, criados em Valinor, devem ter sido o tipo de artefato que os Gwaith-i-Mirdain devem ter perseguido. Ou talvez eles se esforçaram para recriar as Silmarils, mesmo porque a Luz das Duas Árvores estava preservada somente na luz do Sol, da Lua e da Estrela de Eärendil.

A explicação de Elrond sobre os motivos dos fazedores de anéis implica que eles eram muito nobres em seus objetivos: “Aqueles que os fizeram não desejariam força, ou dominação, ou acúmulo de riquezas; mas entendimento, ações e curas, para preservar todas as coisas imaculadas.” Nós compreendemos o desejo de “preservar todas as coisas imaculadas”. Os Elfos quiseram criar um pouco de Valinor na Terra-Média através da retenção dos efeitos do Tempo. Mas “entendimento, ações e curas” parece um pouco desnecessário. O que precisaria ser entendido, o que precisaria ser curado, que todos os talentos naturais dos Elfos não seriam suficientes para entender ou curar?

Tolkien dá a entender em um ensaio que era a própria Terra-Média que precisava de cura. Estava poluída, manchada por Melkor, e danificada pela Guerra da Ira. Talvez os Gwaith-i-Mirdain tinham a esperança de criar algo que purificasse o elemento Melkor da Terra-Média. Irônica e tragicamente, eles confiaram nesse mesmo elemento para a criação dos Anéis.

Há uma outra estória envolvendo Galadriel e Celebrimbor. Esse é o conto de Elessar, a pedra élfica que Galadriel deu a Aragorn em nome da Arwen. A estória é, certamente, inacabada, e Tolkien mudou de idéia sobre muitos detalhes. No final, Celebrimbor era para se tornar um ferreiro de Gondolin (mas a estória foi composta antes de Celebrimbor estar incorporado à família de Fëanor) e fez duas Elessar. Uma foi levada para o Oeste por Eärendil e a segunda repôs a primeira e chegou até Aragorn.

O poder das Elessar estava envolvido com a cura e a preservação, e a segunda Elessar é dita como ter sido a maior criação de Celebrimbor depois dos Anéis de Poder. Deve ter sido um objeto muito potente, e a habilidade de Aragorn de curar muitas pessoas em Gondor deve, portanto, ser atribuída em certa medida pela sua posse de uma Elessar.

Desta maneira, parece que os Gwaith-i-Mirdain passavam a maior parte do seu tempo construindo itens mágicos que os Elfos usavam para curar ou preservar pequenas partes da Terra-Média, ou, de outra forma, aumentar seus talentos naturais. A ajuda de Sauron deve ter aumentado a efetividade de seus objetos. Por um tempo eles devem ter transformado os Anéis menores meros “ensaios na arte antes de estar totalmente crescido”, como Gandalf diz. Ele os descreve como sendo “de vários tipos, alguns mais potentes e outros menos”. A frase “vários tipos” é curiosa. Talvez dê a entender que os Anéis menores tinham apenas poderes e propriedades específicas, enquanto os Grandes Anéis, os Anéis de Poder, possuíam muitas propriedades.

Uma preocupação com a preservação e a cura teria dado a Sauron uma linha interna com os Elfos. Ele poderia introduzir mais e mais idéias e ajuda-los em avançar suas metas ao frustrar pequenos saltos. E então, um dia, ele seria capaz de implantar a idéia de criar artefatos poderosos novamente. Eu não acho que Sauron deva ter proposto essa idéia diretamente. Os elfos parecem ter se entusiasmado com tal projeto e, portanto, eles devem ter acreditado que era uma idéia deles mesmos. Uma fraude seria mais engenhosa desse modo. Mas também a fraude pareceria menos manipulativa na superfície, se Sauron estivesse meramente suportanto os Elfos em seus próprios esforços, ao invés de apenas dar a eles instruções explícitas sobre o que deveria ser feito.

E então deve ter ocorrido um razoável número de conversas e planejamentos. Analisar os objetivos do projeto sozinho poderia ter levado meses ou anos. E Por quê? Porque os Gwaith-i-Mirdain provavelmente não queriam que ninguém soubessem o que eles estavam fazendo. As implicações morais do que eles esperavam tentar para retardar os efeitos do Tempo não seriam totalmente compreendidas. Os Anéis de Poder representavam uma nova tecnologia, cujo impacto sobre a sociedade ainda não havia sido medido – uma sociedade que, naquele momento, era dominada pelos Elfos.

Além disso, a natureza secreta do projeto deve ter exigido o menor número de pessoas quanto fosse possível para estar inteiradas a ele. Pode ser que não mais qu
e dezessete Elfos sabiam sobre os Anéis: Celebrimbor e dezesseis outros Gwaith-i-Mirdain, talvez constituindo todos os membros da sociedade. Muitas pessoas dizem que é melhor procurar pelo perdão que pedir. Os Noldor em particular parecem ter favorecido essa filosofia. Quando chegou o tempo de decidir se deviam fazer a tentativa, Celebrimbor e seus companheiros devem ter tido longas discussões sobre as conseqüências morais de fazer qualquer coisa. Talvez no fim eles justificaram sua decisão final ao pesar todo o bem que eles esperavam alcançar contra o possível dano que eles estavam arriscando. Afinal ninguém nunca suspeitou que Sauron pudesse traí-los.

Então, antes dos Anéis serem feitos, os Gwaith-i-Mirdain devem ter tido boas razões para não revelar o que estava acontecendo a ninguém além da própria sociedade. Os Anéis, enquanto iam sendo produzidos, devem ter parecido anéis normais para os outros Elfos, se eles pudessem ser de fato notados. O véu de sigilo deve ter sido sobrecarregado com vergonha e culpa, assim que os Elfos perceberam a traição de Sauron. Imaginem como Celebrimbor deve ter se sentido, sabendo que ele forjou os Anéis em segredo, sabendo agora que Sauron era um antigo servidor de Melkor, agora com o seu próprio Anel Mestre. Quer Tolkien preservasse a rebelião de Celebrimbor (que foi registrada na história descartada de Galadriel e Celeborn) ou mudasse a estória, Celebrimbor teria que confrontar Galadriel com a verdade. Algo terrível havia acontecido, mas algo ainda pior estava para recair sobre os Elfos.

Então, uma vez que Galadriel soube sobre os Anéis, ela aconselhou Celebrimbor a esconde-los. Os Elfos não aceitavam em seus corações o fato de ter que destruir seus próprios trabalhos. Dois anéis foram dados a Gil-Galad, que deve ter sido informado sobre tudo. Quaisquer que tenham sido os sentimentos sobre a imprudência de Celebrimbor, ele também escolheu não destruir os Anéis. O medo de desaparecer deve ter sido muito impregnante na sociedade Noldorin. Então devemos nos perguntar a quem foi contado primeiramente, Elrond ou Círdan? Por um lado, Celebrimbor, Galadriel e Gil-Galad deviam saber que haveria uma guerra. Sauron tinha acabado de tentar escravizar os maiores e mais poderosos dos Noldor. Ele falhou, sua cobertura foi arrancada, e os Elfos souberam que a Terra-Média tinha um Senhor do Escuro novamente. Não era o tipo de situação que exigia que Sauron se escondesse até que a tempestade acalmasse.

De sua parte, Gil-Galad pediu ajuda aos Númenoreanos, mas não contou a eles sobre os Anéis. Tolkien menciona essa omissão nas relações Elfo-Dúnadan na Carta 211 (Letter211): “Eu não creio que Ar-Pharazon soubesse algo sobre o Um Anel. Os Elfos mantinham a questão dos Anéis bastante secreta, conforme podiam…" Então o apelo de Gil-Galad a Númenor deve ter sido muito cuidadosamente escrito. Ele tinha previamente requerido a ajuda de Númenor, enquanto Sauron estava atrapalhando toda a Terra-Média, incitando criaturas maléficas. Antes de Sauron decidir se estabelecer em Mordor, Gil-Galad estava apenas consciente de que algum poder maléfico estava organizando homens e antigos servidores de Morgoth. Mas ele não conseguia achar a fonte de suas preocupações. A revelação de Sauron como o forjador do Um Anel confirmou os piores medos de Gil-Galad. No mínimo ele tinha uma justificativa para começar uma guerra com Sauron.

Númenor mandou homens e mantimentos à Terra-Média, e durante o curso de 100 anos, os Númenoreanos construíram fortes e estoques ao longo dos rios Lhun e Gwathlo. A estratégia total parece ter sido defensiva. Os Elfos sabiam que uma guerra estava se aproximando, mas não sabiam quando. Sauron era poderoso, mas ele não controlou a Terra-Média do jeito que Morgoth fez. E Númenor ainda não comandava os enormes exércitos e navios que um dia iria formar. Um ataque prematuro ainda não havia sido considerado, aparentemente. Talvez Gil-Galad ainda não soubesse onde se estabelecia o domínio de Sauron. Mordor não parecia tão longe de Eriador quando olhamos no mapa, mas havia uma grande distância de cerca de 1000 milhas entre Barad-Dûr e Lindon. E Gil-Galad podia ainda não saber até mesmo em que direção começar a procurar.

Então os Elfos não falaram nada aos seus aliados sobre os Anéis de Poder, ou sobre o que a guerra era realmente. Isso pode ter sido apropriado para a política de sigilo deles de deixar Sauron atacar primeiro. Depois do ataque, justificaria o fato chamar Númenor para mais ajuda. Os Elfos seriam o grupo aflito. Eles já eram, considerando que Sauron havia tentado escravizar os Gwaith-i-Mirdain. Mas o motivo de queixa era moralmente fraco. Que interesse os Noldor tinham ao brincar com o Tempo de qualquer maneira? Porém, mais importante ainda, Gil-Galad parece não ter compartilhado a verdade com o seu povo. Eu duvido que muitos de seus conselheiros teriam conhecimento sobre os Anéis. Alguns dos Noldor podem apenas ter decidido jogar Celebrimbor e os Gwaith-i-Mirdain aos wargs que gastar seu sangue em outra guerra insana.

É claro, quanto mais pessoas descobrem um segredo, menos secreto ele é. Gil-Galad tinha capitães com potencial para mandar ao leste a fim de reforçar Eregion. Por que ele escolheu Elrond? Círdan era um antigo senhor dos Eldar, tendo como experiência as guerras de Beleriand (de fato, ele era o único comandante de campo que sobrevivera às guerras). Glorfindel havia retornado a Terra-Média para ajudar na guerra, de acordo com um breve ensaio que Tolkien escreveu tarde em sua vida. Ele também seria uma boa opção para mandar a Eregion. Mas foi Elrond quem Gil-Galad mandou. Eu acharia que Elrond devia estar presente quando Celebrimbor contou a Gil-Galad sobre os Anéis. Não que os nobres de Gil-Galad teriam se rebelado, mas para que sobrecarregá-los com uma culpa que não era deles?

Mas se o silêncio de Gil-Galad estaria condenando, o que Celebrimbor poderia ou deveria contar aos Elfos de Eregion? Muitos deles parecem ter escapado, por Moria ou fugindo por terra. No entanto, será que eles sabiam sobre o que era a guerra? Eu não acho que a tragédia da loucura de Celebrimbor seria aumentada se sua vergonha o tivesse proibido de confessar o que ele e os Gwaith-i-Mirdain haviam feito. Se eles não estavam contando nada aos Dúnedain pelo bem do sigilo, então também seria melhor não contar nada ao povo de Eregion. E então isso significa que os Anões de Moria não podiam saber sobre o que era a guerra. Tudo o que ia ser falado a todos era que o grande Senhor do Escuro estava chegando.

E ele chegou. Sauron espalhou-se para o norte e atacou tudo o que viu. Ele não apenas invadiu Eregion, como também foi para os Vales do Anduin e as terras ao leste da Grande Floresta Verde. Os Homens do Norte se dirigiram para as florestas e montanhas. Sua cultura foi virtualmente apagada. Muitos Elfos também devem ter perecido. Eregion tombou rapidamente e Sauron a destruiu. Assim como muitos Elfos
escaparam, muitos outros sofreram mortes horríveis enquanto Sauron procurava desesperadamente os Anéis de Poder. Se ele não podia ter os Elfos, ele certamente não queria que os Elfos tivessem sua Valinor na Terra-Média.

A defesa de Ost-Em-Edhil (Fortaleza dos Eldar) deve ter sido particularmente amarga. Na história descartada de Galadriel e Celeborn, conta-se que Celeborn liderou um ataque. O propósito do ataque não é de fato estabelecido, mas pode indicar que Celeborn havia reconhecido a falta de esperança na situação. Celeborn pode ter comandado os Elfos mais inocentes, enquanto os Gwaith-i-Mirdain e seus seguidores teriam ficado para trás para dar resistência à cidade. A última posição de Celebrimbor pode ter sido uma tentativa de reparar o que ele havia feito. Mas ao invés de morrer em batalha e guardar os segredos dos Anéis para sempre com ele, foi dirigido novamente para os degraus da Casa dos Mirdain. Sauron deve ter dado ordens para captura-lo vivo a todo custo. Imaginem os orcs sacrificando a si mesmos, assim como seus ancestrais fizeram ao levar Húrin após a Nirnaeth.

A perda de Eregion mais provavelmente significou que todos os Gwaith-i-Mirdain haviam perecido, e seu segredo vergonhoso foi preservado apenas pelos poucos senhores Eldarin que conheciam a contagem total. Os Gwaith nunca são mencionados novamente, em nenhum escrito. É interessante notar que outra sociedade, ou “escola”, os Lambengolmor (mestres de Línguas), sobreviveram à Guerra. Seu último membro foi Pengolod, que viveu em Eregion. Ele escapou, e após a guerra ele pegou um navio e deixou a Terra-Média. A destruição de Eregion parece indicar que muitos outros grupos antigos e eruditos também pereceram, ou sofreram tão terrivelmente que seus sobreviventes fugiram quando puderam. Numa nota encontrada no apêndice de “O Senhor dos Anéis”, Tolkien diz que os Eldar não tentaram nada de novo na Terceira Era. Pode simplesmente ser que não restou ninguém suficientemente talentoso nas artes sub-criativas para criar novos artefatos.

No despertar da guerra, Gil-Galad teve que reconstruir seu reino. Lindon sobreviveu, mas, sem sombra de dúvidas, sofreu muitos danos. Elrond também sobreviveu. Ele nunca teve sucesso ao reforçar Celebrimbor, mas ao invés disso ele foi dirigido para o norte (talvez com Celeborn). Elrond havia reunido tantos Homens e Elfos quanto pode e resistiu em Imladris. Naquele tempo muitas pessoas aflitas teriam perguntado: “Por quê? Por que essa guerra aconteceu?” E Elrond não seria capaz de responde-las. No entanto, ele tinha que saber a verdade. Sua defesa foi leal e valente, mas foi talvez fortalecida por uma solução nascida da culpa e do desejo de reparar as decisões terríveis que Celebrimbor – seu amigo – havia feito. De certo modo, a Guerra dos Elfos e Sauron marca uma perda final da inocência dos Noldor. Na Primeira Era, aqueles Noldor que eram nascidos em Beleriand conheciam sua história e patrimônio. Na Segunda Era, nenhum realmente sabia a contagem. Era muito perigoso contar a qualquer um. Os Anéis parecem ter tido um efeito muito debilitante no julgamento das pessoas que sabiam sobre eles. Nem Galadriel ou Gil-Galad, que não tinham nada a ver com a forja dos Anéis, conseguiam achar forças para destruir os Três.

Depois da guerra Gil-Galad convocou um Conselho em Imladris. Talvez ali ele finalmente revelou aos outros senhores Élficos o que realmente havia acontecido. Tolkien não nos conta quem compareceu, mas é possível que até mesmo os Númenoreanos foram excluídos do Conselho. Númenor ainda não estava realmente envolvida com a Terra-Média. Gil-Galad teria agradecido e recompensado os Númenoreanos profusamente, com certeza, mas ele não os contou sobre os Anéis de Poder. Seria presumido que Sauron teria achado os Nove e os Sete, uma vez que nenhum dos Elfos sobreviventes os possuíam. Não parece provável que os Elfos pudessem prever o que Sauron pretendia fazer com os Anéis. Por que eles permaneceriam calados se eles sabiam que os Homens e os Elfos poderiam estar sendo pressionados? E ainda, Gil-Galad e seus conselheiros devem ter percebido que Sauron poderia adquirir coisas terríveis com aparatos tão potentes. Então eles devem ter tomado uma postura do tipo “esperar para ver”.

Mas a decisão dos Eldar de não contar a ninguém sobre o Anel dificultou os erros dos Gwaith-i-Mirdain. Pois agora Sauron era capaz de influenciar Anões e Homens com impunidade. Certamente, muitas pessoas perguntam como Sauron ainda podia se locomover sem ser rotulado como inimigo público número 1. Ele deve ter assumido uma nova aparência. Tolkien escreveu que sua forma real era de esplendor, humanóide, embora mais largo que um Homem. Ele parecia gigantesco. E ainda ele poderia ter tomado a forma de um Anão ou de um modesto Drúadan Ele poderia se aproximar virtualmente de qualquer um no disfarce perfeito, ganhar sua confiança, e, finalmente, dado um Anel a eles. Ou pior, ele pode ter incitado tentado as pessoas a procurar os tesouros perdidos dos Elfos. Ambos os Homens e Anões estavam querendo procurar tesouros. Eles provaram isso antes. Então os Dezesseis Anéis de Poder capturados podem ter sido bem engenhosamente deixados em lugares secretos, para um punhado escolhido de Homens e Anões acharem. E eles não te
riam contado a ninguém sobre suas descobertas.

O véu de sigilo, portanto, trabalhou para os fins de Sauron. Ele pode ter falhado ao tentar escravizar os senhores Anões que pegaram os Sete Anéis, mas ele ainda era capaz de corromper seus corações. Os Nove Homens que pegaram os Anéis de Poder se transformaram em espectros e se tornaram os servidores mais terríveis de Sauron. Os Homens que se espalharam pela Terra-Média não imaginariam o que eram esses espectros do Anel, mas os Númenoreanos teriam se lembrado que Sauron era um antigo mestre de fantasmas e feitiçaria. Os servidores do Escuro não necessariamente deviam ser chamados de espectros do Anel. Eles podem ser percebidos como espectros, demônios, ou alguma outra coisa.

Ao passo que a Segunda Era avançara, os Númenoreanos se tornaram mais poderosos, mas então eles tornaram-se divididos. Então mesmo se Gil-Galad pudesse ter considerado revelar o segredo dos Anéis aos seus aliados, a crescente antipatia para com os Elfos entre os Reis e seus seguidores teria desencorajado tal política. Para que jogar lenha no fogo crescente? Os Númenoreanos podiam apenas tão facilmente ter culpado os Elfos por seus problemas como não.

E, no entanto, os fiéis Númenoreanos ficaram ao lado dos Elfos. Eles até mesmo colonizaram terras próximas ao reino de Gil-Galad a fim de continuar a aproveitar a companhia dos Elfos. Quão freqüentemente poderia Gil-Galad e Elrond ter olhado nos olhos dos Homens que os acolheram com total confiança e amizade, e que nada sabiam sobre os Anéis? Séculos de tal amizade deve ter provado ser um grande fardo a eles.

Finalmente, após Númenor ter sido
destruída e todos esperarem que Sauron pudesse estar morto por algum tempo, ele reapareceu com um exército e atacou Gondor. E Isildur espalhou as notícias sobre o ataque a Arnor, e ali Elendil se consultou com Gil-Galad. Obviamente, Sauron não ia ser fácil de se matar, mas os Dúnedain conheciam sua história. Aparentemente, não havia registro de nenhum Maia retornando à vida na Primeira Era. A morte para eles também era uma experiência muito potente. Como Sauron poderia ter sobrevivido? Imaginem as faces culpadas que devem ter confrontado Elendil e Isildur se eles tivessem feito essas questões a Gil-Galad e seus conselheiros. “Ei, caras, vocês não estão nos contando tudo, estão?”.

Então a Última Aliança dos Elfos e Homens teve que ser formada na base da absolvição.Isto é, Gil-Galad teria que contar a Elendil e Isildur o que estava acontecendo. E da parte deles, Elendil e Isildur tinham que perdoar Gil-Galad. Não apenas por si próprios, mas por incontáveis gerações de Homens que não podiam falar por si próprios. Em adição, eles tinham que se dar conta do que aconteceu com os Anéis de Poder perdidos. Os Nazgûl eram conhecidos por aproximadamente mil anos. Naquele tempo, os senhores Eldarin que sabiam sobre os Anéis de Poder devem ter imaginado se havia alguma conexão. De fato, quando os Nove Homens que se tornaram os espectros ainda estavam vivos, Tolkien conta que eles eram grandes reis e feiticeiros. Se eles foram famosos, será que os Elfos ouviram falar sobre seus estranhos poderes? Havia alguma curiosidade sobre eles?

Deve ter sido difícil para Gil-Galad saber tanto sobre os Anéis de Poder. Se Galadriel e ele não conseguiam achar o conhecimento que eles precisavam através de algum tipo de visão (como ela fez com o espelho em Lórien na Terceira Era), eles teriam que falar aos seus espiões e batedores o que procurar, ou eles apenas teriam que esperar e juntar bocados e pedaços de informações ao longo dos séculos.

Alguns leitores são da opinião que a rima do Anel em “O Senhor dos Anéis” deve ter sido composta logo após a Guerra dos Elfos e Sauron. Mas quem quer tenha composto a rima teria que saber quais eram os destinos dos Sete e dos Nove. Até então, não há como demonstrar que os Elfos sabiam algo sobre os Sete antes de estarem livres para falar com os Anões. Os Anões certamente não estavam andando por aí contando às pessoas que eles tinham Anéis mágicos. Então os Nove reis-bruxos que surgiram entre os Homens devem ter sido conspícuos somente em sua longevidade e sua aproximada expectativa contemporânea de vida. E ainda, se os Elfos estavam procurando por sinais dos Anéis de Poder, eles estavam procurando por Dezesseis, não Nove, ou Sete Anéis. O fato de Sauron ter pervertido os Anéis antes de distribuí-los iria, mais para frente, complicar as coisas para os Elfos. Gil-Galad pode não ter realmente entendido o que estava acontecendo até Durin IV ser convidado para a aliança.

Não sabemos com certeza se Durin IV era o Rei dos Longbeards no final da Segunda Era, mas há uma pequena evidência apontando para o seu nome. E a questão dele entrando na aliança não é fornecida. Parece que Gil-Galad e Elendil formaram sua aliança e então marcharam para Imladris. Dali, eles parecem ter mandado mensageiros para a Grande Floresta Verde, Lórien, Khazad-dûm e talvez outras regiões. Eu diria que é mais provável que Gil-Galad teria um segundo “conselho branco” em Imladris. Seria momentâneo como o Conselho de Elrond 3000 anos depois, ou talvez até mais. Nesse Conselho devem ter comparecido reis em atendimento e muitos senhores e príncipes. E seria a primeira vez que os Elfos falariam abertamente sobre os Anéis de Poder para todos os seus aliados.

Seria natural para os convidados querer saber por que eles deveriam se unir à aliança. Sauron vinha aterrorizando a Terra-Média por um longo período de tempo. Mas a sua morte em Númenor e reaparecimento 100 anos depois indicou que ele não estava apenas indo embora. E devido ao fato do problema dos Anéis ter se originado na Terra-Média, pode ser que quaisquer apelos a Valinor tenham chegado em ouvidos surdos. Os Elfos criaram o problema e precisavam resolve-lo. Mas eles não poderiam fazer isso sozinhos. E não serviria para nenhum propósito para os vários reis não-Eldarin proferir recriminação após recriminação. Principalmente uma vez que Celebrimbor e os forjadores dos Anéis estavam todos mortos. As pessoas verdadeiramente responsáveis pelo problema já haviam pagado com as suas vidas, e seu legado estava se tornando um fardo equivalente para todos.

Mas se os Elfos podiam enfrentar e admitir o que eles haviam feito, talvez os Anões fossem convencidos a confessar que foram dados Anéis aos seus ancestrais. Pode ser que Gil-Galad foi capaz, junto com a ajuda de Durin, trazer todos os Sete senhores dos Anões a Imladris. E ao ouvir que os Elfos tinham traído todos não uma vez, mas duas, a maioria dos Anões deve ter escolhido se afastar. Eles manteriam seus Anéis, que obviamente não iam prolongar suas vidas, ou transforma-los em espectros. E eles deixariam o mundo decidir seus próprios assuntos. Isso parece uma atitude bem típica dos Anões. Somente os Longbeards desenvolveram alguma real afinidade com os Eldar, mas os Nogrodians tinham um antigo motivo de rancor para com os Eldar. Os Quatro grupos do leste devem ter sido a minoria, mas eles certamente tinham pouca, senão nenhuma, conexão com os Elfos e os Dúnedain.

Então, deve ser que a rima dos Anéis foi criada nos anos iniciais da Última Aliança. Mais provavelmente foi composta em Imladris, logo após (senão durante) qualquer outro conselho que Gil-Galad realizara com os outros soberanos da Terra-Média. A natureza dos Nazgûl e a possessão dos Nove Anéis desaparecidos deveriam ser inferidas, mas era, a essa altura do tempo, certeza de quem estava com os Anéis. E o melhor segredo guardado da Terra-Média já não era mais de fato um segredo. No entanto, Gil-Galad não teria divulgado quem possuía os Três Anéis. Para mantê-los em segurança, ele deu seus dois Anéis a Elrond e Círdan. No entanto, a rima dos Anéis diz que os Três foram concedidos aos reis Élficos. O compositor da rima, portanto, não poderia ter sabido onde os Três estavam. Ele (ou ela) deve ter acreditado que Gil-Galad, Oropher e Amdir possuíam os Três. Convenientemente, todos os Três morreram em guerra, e ninguém reinvidicou os Três de seus corpos. Então os Elfos e seus aliados devem ter ficado em dúvida sobre quem tinha os Três logo após a morte de Gil-Galad. E essa dúvida seria refletida na rima do Anel se tivesse sido composta após a morte de Gil-Galad.

E isso nos traz à Terceira Era. A Última Aliança foi vitoriosa, e os vencedores semp
re escrevem as histórias das guerras. Sábios em Arnor, Gondor, Khazad-dûm e outras terras devem ter registrado muitas coisas sobre guerras. As bibliotecas de Arnor foram eventualmente perdidas ou destruídas. A sabedoria de Gondor declinou, e a maioria de seu povo esqueceu a maior parte de sua história. Khazad-dûm foi tomada por um balrog, e a maioria do povo de Durin se dispersou ou foi morta. No entanto, algumas pessoas preservaram a sabedoria de antigos eventos aqui e ali. Se a maioria dos homens de Arnor e Gondor em certa época entendeu sobre o que era a Guerra da Última Aliança, eles teriam passado a sabedoria para frente. Pois ainda havia Anéis de Poder ali, e eles eram coisas perigosas.

No fim da Terceira Era, Gandalf tinha poucos recursos para consultar em questões da sabedoria dos Anéis, mas Saruman havia sido o especialista. Ele pode ter achado muitos arquivos que Gandalf não tinha acesso. E Elrond deve ter tido muitas conversas com Saruman sobre os Anéis e aqueles que os fizeram. Ele, sem sombra de dúvidas, conhecera Celebrimbor pessoalmente, e deve ter conhecido alguns outros ferreiros do Anel. Outros membros da casa de Elrond, ou talvez senhores Élficos próximos, assim como Gildor Inglorion, podem ter sido capazes de contar a Saruman sobre a estada de Sauron em Eregion. Algo que Tolkien não nos conta é se Saruman acumulou sua própria biblioteca em Orthanc, após ele ter se estabelecido lá, com cópias de livros e pergaminhos, preservando o conto do Anel.

Deve ter sido útil estudar o conto dos Anéis, para ser capaz de imaginar quem poderiam ser os próximos “caras maus”. Saruman (e os Eldar) não poderiam saber se Sauron pegou os Anéis de volta dos Nazgûl. Não até Gandalf descobrir que Sauron estava reunindo todos os Anéis, em 2851. Mas os Reis Anões estavam desaparecendo. Estavam eles sendo consumidos por dragões, ou caindo nas mãos de aventureiros? O conhecimento de Saruman teria sido muito útil para os Eldar e Istari, uma vez que eles precisavam entender o que Sauron havia feito com os Anéis. E eles precisavam saber quem podia brandi-los também.

No final, o conhecimento dos Anéis deve ter escasseado nos cantos mofados da elite. Os sábios da Terra-Média tinham a tendência de vir de famílias abastadas. E assuntos de contos antigos, que poderiam um dia afetar o bem estar das nações, seriam cuidadosamente acumulados e cultivados pelos senhores dessas nações. Denethor era mestre de muitos segredos, e ele parecia estar totalmente consciente do que o Anel era. O intercâmbio que Gandalf comunica no Conselho de Elrond dá a impressão que Denethor não sabia sobre o pergaminho de Isildur, mas eu não estou convencido. Gandalf não estava exatamente dividindo suas preocupações com Denethor, então por que Denethor deveria ter dividido o que ele sabia sobre os Anéis? Denethor não tinha nenhuma razão para dar informações voluntárias, informações que ele não sabia que Gandalf estava procurando.

Faramir, certamente, era leal a Gandalf, e pôde muito bem ter estado com Gandalf quando o mago estava remexendo entre os antigos registros. Se Gandald confiou em Faramir para ser discreto, então o príncipe pode muito bem ter visto o pergaminho em que Gandalf estava mais interessado, e, portanto, ele pode tê-lo estudado. Então quando Faramir conheceu Frodo e Sam, ele foi capaz de conversar sabiamente sobre o Um Anel. Ele não necessariamente divulgou tudo o que sabia de prontidão, mas Faramir parece ter concordado muito rapidamente com o plano de Gandlaf. Por que isso? Ao menos que tenham contado a ele a história completa da guerra da Última Aliança, Faramir deveria ser bem leigo. Boromir revela que ele sabia sobre o Anel no Conselho de Elrond, mas se surpreende ao saber que Isildur o pegou. É dele a declaração que “se alguma vez tal conto foi contado no Sul, já foi esquecido há tempos”, o que nos leva a crer que ninguém em Gondor lembra do Um Anel.

A resposta deve ser que Boromir somente prestou atenção aos fatos do caso. Isto é, ele estava, provavelmente, somente interessado nos detalhes do poder, e não nas motivações que levavam à criação, nem nos eventos que o cercavam. Boromir era um guerreiro de coração e não muito um sábio de fato. Então Boromir passa uma primeira impressão pobre no leitor até então, enquanto os sábios de Gondor estão preocupados. Faramir conta a Frodo e Sam que a ele e seu irmão foi contada a estória de sua cidade e condados, e que os Stewards preservaram muita sabedoria antiga que somente poucas pessoas acessaram.

O fato da existência do Um Anel (e a existência de um grupo geral de “Anéis de Poder” mágicos) era assim, se não parte da sabedoria comum, então um fato ainda bem conhecido aos soberanos e as classes elitistas da Terra-Média de uma época. Até mesmo Glóin parece saber algo sobre os Anéis quando ele fala no Conselho de Elrond, embora ele saiba menos sobre os Anéis Élficos do que ele indica saber. Pode ser que Dáin tinha aberto a biblioteca de Erebor e havia dado informações a Glóin. Mas Glóin era primo de Dáin, um membro da família real. Parece pouco provável que ele seria completamente excluído dos registros de família. Ele provavelmente sabia tanto sobre a história geral dos Anéis de Poder quanto os mais sábios nobres de seus dias.

O conhecimento dos Anéis de Poder não estaria disponível entre as pessoas mais novas e nações. Os Homens do Norte eram antigos, mas suas culturas haviam evoluído e divergido através dos longos anos da Terceira Era. Os Rohirrim não mantiveram registros escritos, e eles não estavam interessados em questões antigas, exceto quando seus ancestrais figuravam como heróis de canções. Os Homens de Dale e os Woodmen de Mirkwood, mesmo se mantivessem alguns registros, não tinham de fato uma história antiga para sustentar um total relato sobre os Anéis de Poder. Arnor e seus reinos sucessores, Arthedain, Rhudaur e Cardolan, havían caído. Todos os que permaneceram foram os habitantes de Bri, os Hobbits do Condado e o povo de Aragorn. E os Hobbits não estavam muito preocupados com a história em absoluto, quanto mais com história antiga!

E assim que os séculos passaram, os Anéis se tornaram menos e menos importantes para os povos da Terra-Média. Sauron os queria, e o Conselho Branco sabia que eles ainda causariam uma ameaça para os Povos Livres. Mas não havia novas buscas para encontra-los, pois as pessoas que sabiam dos Anéis sabiam que eles eram perigosos. Ou ao menos elas deviam saber que grandes e terríveis guerras foram travadas devido aos Anéis no passado. A história completa provavelmente era conhecida somente por Elrond, Galadriel e Círdan, e mais provavelmente, por Saruman e Gandalf. Talvez alguns outros membros do Conselho Branco conheceram o relato completo também.
Para todos os outros, havia pedacinhos do conto passados de geração em geração.

Então, quando o primeiro ataque de Mordor foi derrotado e Aragorn e Gandalf se encontraram com Éomer e os senhores de Gondor e Rohan, eles foram capazes de falar abertamente sobre o Um Anel. Gandalf parece até mesmo ter confidenciado a Theóden um pouco sobre a jornada do portador do Anel, quando ele trouxe o rei envelhecido ao seu lado e falou com ele. Já era suficiente mencionar o Um Anel. Os Senhores sabiam sobre o que Gandalf estava falando. Eles entenderam que um grande e poderoso talismã estava sendo arriscado. Eles entenderam, essencialmente, que a guerra toda estava realmente sendo travada devido ao Anel.

Poderia-se dizer que gerações de nobres devem ter passado para frente o conhecimento mais básico sobre os Anéis de Poder de uma forma quase religiosamente dedicada. Quando todos os outros contos de dias antigos estavam perdidos ou esquecidos em meio a pergaminhos ilegíveis, os Homens se lembrariam de contar a seus filhos que, em uma certa época, havia um Senhor do Escuro que tinha um Anel terrível. E esse Anel era diferente de todas as outras coisas mágicas na Terra-Média. O conhecimento persistiu onde era mais preciso, então quando o dia chegou, serviu para aumentar a resolução dos Homens que tinham que enfrentar o Senhor do Escuro e rir na sua cara enquanto alguns Hobbits saíam correndo ao lado do Orodruin. Ninguém realmente precisava entender a história dos Anéis para lembrar que eles existiam. As pessoas estavam conscientes de que eles existiam, de uma forma geral e vaga. Mas os longos anos e as devastações arruinaram os Homens, Elfos e Anões que serviram para guardar o segredo contra a antiga vergonha dos Eldar.

Tradução de Helena ´Aredhel´ Felts

legolas

Legolas

Decidi fazer um desafio a mim mesmo e escrever algo a respeito de Legolas, que não tivesse sido dito antes. Parece haver muitas curiosidades acerca desse Elfo. As pessoas querem saber todo tipo de coisas a seu respeito, como a cor de seus cabelos, quem era sua mãe, quando ele nasceu, se ele estava presente na Batalha dos Cinco Exércitos.

Se alguém fosse produzir uma série de TV baseada na Companhia do Anel [a Companhia, não o livro], eles teriam de inventar sua própria história de Legolas. A inevitável exploração do background de cada personagem resultaria em episódios onde Gandalf primeiramente descobre que a Terra Média é perigosa mesmo para os Maiar [digamos, dentro de um ano após ele sair do barco]; onde Aragorn rastreia seu primeiro Orc; onde Gimli aprende a lidar com o fato de ser o filho de Glóin; onde Frodo se lembra do dia em que seus pais se afogaram; onde Pippin observa sua irmã Pearl levar Lalia the Fat para seu último raio de sol; onde Merry entra na Velha Floresta pela primeira vez; onde Sam brinca com Rosie Cotton e os irmãos dela, e quando se dá conta de que a ama, e onde Boromir tenta aceitar o fato de que nunca será Rei de Gondor.Quais seriam os conflitos passados de Legolas? Que tipo de experiência teria um Elfo das Florestas, imortal, para ajudar a definir o caráter de Legolas conforme ele se revelava à Companhia? Há na realidade apenas um momento de dúvida para Legolas na história que Tolkien nos contou, e foi quando ele reconheceu o Balrog. Isso não quer dizer que Legolas tivesse sempre certeza quanto ao que fazer. À maneira típica dos elfos, ele não dá um conselho claro a Aragorn sobre o que fazer quando eles e Gimli estão perseguindo os Orcs que haviam capturado Merry e Pippin. “Meu coração manda seguir em frente,” ele diz. “Mas devemos permanecer juntos. Eu seguirei seu conselho.”O momento de hesitação de Legolas ante o Balrog foi um evento definitivo. Ele entrou em pânico; reconheceu o Balrog pelo que ele realmente era e perdeu a coragem. “Ai! Ai!” gemeu Legolas. “Um Balrog! Um Balrog está vindo!” Ele deixou sua flecha cair no chão ao invés de atirar na coisa. Porém, o encontro pode tê-lo preparado melhor para confrontar o Nazgul alado sobre o Anduin. Legolas tinha pulado sobre o banco e armado uma flecha, procurando um alvo. “Elbereth Gilthoniel!” Ele gritou quando sentiu a aproximação do Nazgul alado. Ele estava assustado e movido pelo medo, mas agora tinha maior coragem.Tal crescimento no caráter de Legolas é bom, mas me lembra de uma premissa tola [engraçada] que foi atribuída ao Tenente Comandante Data na história de “Encounter at Farpoint”. Supostamente, ele estaria servindo à Frota Estelar por coisa de 27 anos; em todo esse tempo, ele não aprendeu virtualmente nada sobre os humanos e suas emoções. O que eles fizeram, designaram-no para servir apenas Vulcanos até que o Capitão Picard o recrutou para a Enterprise?Legolas refere-se a seus companheiros como crianças, e quando ele, Gimli, Aragorn, e Gandalf estão se aproximando de Meduseld, diz que as folhas haviam caído quinhentas vezes em Mirkwood desde que os Rohirrim vieram do norte. Ele também faz esse comentário soar como se ele próprio tivesse vivido por todos estes quinhentos anos. Em outro trecho, ele diz que já havia visto muitas nozes crescerem e morrerem como um carvalho muito velho. Em se tratando de elfos, Legolas provavelmente não é antigo, mas ele parece ter já uma certa idade. E ainda assim, Lórien é um lugar misterioso para ele; Legolas jamais estivera lá. Parece estranho que ele não saiba nada sobre uma terra dos Elfos da Floresta.

Assim, podemos sugerir que Legolas talvez tenha nascido depois que seu pai deixou as Emyn Duir [as Montanhas de Mirkwood] e liderou seu povo para o Norte para fixar-se ao longo do Rio da Floresta. Isso teria sido logo depois de que Sauron se reergueu e estabeleceu-se na colina de Amon Lanc, construindo a fortaleza de Dol Guldur. E ainda assim, uma das inconsistências peculiares da personagem de Legolas é que ele conhece a Balada de Nimrodel. A balada em si tinha de ter sido composta algum tempo depois de 1981, o ano em que Nimrodel e Amroth deixaram Lórien. Quem a escreveu? Como a história chegou a Mirkwood de modo que Legolas pudesse aprendê-la?

A explicação mais cabível parece ser que durante a ausência de Sauron de Dol Guldur [os anos da Paz Vigilante, TA 2063 – 2460], os Elfos de Mirkwood saíram de seu país e viajaram até Gondor. A população de Calenardhon estava em declínio durante estes anos, mas Gondor ainda podia proteger o Anduin de seus inimigos. Celeborn e Galadriel subiram ao trono em Lórien depois da partida de Amroth, e pode ser que não tenham decretado sua política de segredo logo de início. Então alguns Elfos do povo de Thranduil pode de fato ter viajado a Lórien durante esses anos e aprendido a Balada. Legolas diz simplesmente: “Há muito que ninguém de meu povo retornou à terra por que passamos há eras atrás, mas ouvimos que Lórien ainda não foi desertada.”

É algo curioso de se dizer. De quem ouviram que a terra não estava desertada? Provavelmente do povo de Elrond, e Legolas aparentemente aprendeu a tradução Westron da balada em Rivendell. Então, parece que ele era jovem o bastante para nunca ter estado em Lórien, e nem mesmo se aproxinado de lá enquanto seus habitantes ainda eram ativos no resto do mundo. Pode ser, assim sendo, que Legolas tenha nascido durante a Paz Vigilante, e talvez perto de seu fim. Assim, ele seria relativamente velho, mesmo comparado com os vividos Gimli e Aragorn.

E novamente Tolkien coloca uma aparente inconsistência diante de nós. Quando Aragorn e Legolas discutem o aviso de Celeborn sobre a Floresta de Fangorn, Legolas declara não saber de nada, a não ser que antigas canções falam sobre os Onodrim, os Entes. Ele não viajou tão longe quanto Aragorn. Porém, mais tarde, quando adentram Fangorn em busca dos hobbits desaparecidos, Legolas diz: “Ela é velha, muito velha. Tanto que quase me sinto jovem novamente, como não me sentia desde que viajei com vocês, crianças.”

É um comentário bastante estranho para um Elfo que não tenha viajado muito. Mirkwood é uma floresta antiga por si só – mas Mirkwood, ao contrário de Fangorn, tornou-se o lar de criaturas que cortam árvores, abrem caminhos e outras coisas que retiram os anos de uma floresta. Elfos, Homens, Orcs, e mesmo as aranhas gigantes fazem de Mirkwood uma floresta muito diferente. Talvez Legolas estivesse experimentando o sentimento de maravilha que qualquer criança sentiria na primeira vez que visita o mundo lá fora.

Legolas pode ter ido a Rivendell mais de uma vez, pois ele parece se sentir familiarizado com o povo de Elrond. A jornada de Mirkwood a Rivendell não seria muito perigosa por muitos anos após a Batalha dos Cinco Exércitos [haja visto que a maioria dos Orcs das Montanhas Nebulosas foram mortos naquela batalha]. Algumas pessoas já questionaram se Legolas não seria um filho mais jovem de Thranduil; seu papel como mensageiro para Elrond, e mais tarde a permissão de Thranduil para que ele liderasse parte de seu povo para Gondor parece indicar que Legolas talvez não seja o herdeiro de seu pai. É claro que Thranduil pode ter apenas se curvado ao inevitável, a ponto de permitir que Elfos partissem para Gondor.

Se ele tivesse pouco mais de 500 anos na época da Guerra do Anel, Legolas teria vivido vários eventos significativos. Ele se lembraria da chegada de Smaug a Erebor, e da destruição dos reinos de Dale e Erebor. Ele se lembraria do Longo Inverno, e provavelmente teria sido um dos Lordes élficos defendendo Thranduil na Batalha dos Cinco Exércitos. Assim, ele teria conhecido alguns perigos e dificuldades, e seria perfeitamente capaz de cuidar de si mesmo. Ele parece enfrentar os Orcs muito bem em Parth Galen, e depois no Abismo de Helm, para mostrar que é um guerreiro formado; ele também ameaça a vida de Éomer em defesa de Gimli com a segurança de um veterano.

Como Tolkien não menciona Legolas nos escassos relatos da Guerra da Última Aliança, muitos parecem aceitar que ele tenha nascido na Terceira Era, mas pode soar radical para alguns afirmar que ele tenha provavelmente nascido no fim da Terceira Era, ou talvez até durante a Paz Vigilante. Porém, há um precedente para um Elfo “relativamente jovem” chegar à proeminência – quando os Noldor partiram em exílio, Turgon e sua esposa Elenwë provavelmenta não tinham filhos. Sua filha Idril ainda era uma criança quando Elenwë perdeu-se durante a travessia do Helcaraxë; portanto, Idril cresceu na Terra-média.

Orodreth também aparentemente nasceu e foi criado na Terra-média, filho de Angrod e uma Elfa Sindarin [de acordo com a última informação publicada em The Peoples of Middle-earth]. Os filhos de Orodreth eram Finduilas e Gil-galad que seriam ainda mais jovens durante a queda de Nargothrond do que Legolas parece ter sido durante a Guerra do Anel. Voronwë, amigo de Tuor, era filho de Aranwë dos Noldor e uma Elfa Sindarin aparentada de Círdan. E Maeglin, o filho de Eöl e Aredhel, contava apenas duas centenas de anos quando morreu na queda de Gondolin

Thranduil pode ter tido três ou quatro filhos, e Legolas pode muito bem ter sido o caçula da prole. Assim, para ele os eventos da Primeira Era e mesmo a história de Nimrodel e Amroth pareceriam distantes no tempo. Ele seria um estranho em Lórien, e devido aos perigos habitando a Terra-média ele pode não ter começado a se afastar do reino de seu pai antes da Batalha dos Cinco Exércitos. É possível que a Batalha dos Cinco Exércitos tenha sido o primeiro evento de impacto na carreira de Legolas.

Certamente quando o Rei Élfico dO Hobbit parte com seu exército ele não espera por uma batalha. Smaug estava morto e havia muito pouca gente para disputar o tesouro do dragão. Exceto pelo fato de que ele era um Rei em busca de um enorme tesouro de ouro e jóias, ele sequer sentiria a necessidade de um exército. Assim, faria sentido se levasse seu filho caçula com ele.

E depois de tudo isso, ainda temos dúvidas quanto a Legolas. Não podemos afirmar, infelizmente, certeza de nada a respeito de seu passado. Ele provavelmente conhecia Aragorn e Gandalf antes do Conselho de Elrond, mas não há sinal de reconhecimento. Ele provavelmente esteve em Dale e Erebor, mas ele e Gimli não parecem ter se conhecido antes do Conselho de Elrond. É claro, eles viajaram juntos por algumas semanas antes de começarem a se tornar amigos. Legolas parece ter feito os primeiros pasos de amizade quando tentou suavizar suas palavras sobre a história do Balrog na fronteira de Lórien.

É claro que Legolas também perdeu a paciência quando Gimli se recusou a entrar sozinho vendado em Lórien. Aquela foi a única vez em que Legolas jamais foi duro com alguém. Ele estava falando como um orgulhoso Príncipe Élfico ou como um jovem Lord Elfo que ainda não queimara todo o fogo de sua juventude? Legolas ainda tinha curiosidade sobre o mundo, seguindo Aragorn por todo o caminho até Gondor, buscando os caminhos secretos de Fangorn e se deixando envolver pela beleza de Aglarond.

Talvez muitos Elfos tivessem apreciado as vistas que Legolas encontrou  em sua jornada, mas há algo de jovem e revigorante na maneira com que ele olha para trás, aos espíritos seguindo a companhia de Aragorn: “…Legolas, voltando-se para falar a Gimli olhou para trás e o Anão viu diante de si o brilho nos olhos do Elfo….”

Há algo de brincalhão no modo com que Legolas se empenha em um jogo mortal com Gimli no Abismo de Helm. Alguém consegue imaginar Elrond fazendo apostas sobre Orcs no meio de uma séria batalha que decidiria o destino de Rohan? Ou Feanor nessa situação? Embora cheio de fúria como estava, no fim de sua vida ele ainda era o pai severo e controlador; qualquer jovialidade que tenha apresentado em sua juventude há muito tinha se acabado. Assim também foi quanto à jovialidade de Fingolfin, há muito afastada de si quando ele cavalgou para desafiar Morgoth para um duelo. E o Maedhros que repreendeu seus irmãos irados com risosquanto à cessão de Thingol de terras vazias aos Noldor, tornou-se um Lord austero e determinado que, ao término da Terceira Era, estava consumido pelo cansaço e pelo legado da culpa.

Legolas parece muito mais impetuoso quando ele e Gimli estão cavalgando através da massa de Huorns e Entes que salvaram Rohirrim no Abismo de Helm. Ele mal pode se conter enquanto cavalgam por entre as árvores e descobre olhos os observando; dá as costas para a estrada e começa a adentrar a estranha mata. Apenas o cuidado de Gandalf pode trazê-lo de volta de sua curiosa euforia Élfica. É difícil imaginar Celeborn ou Galadriel sendo tão tomados pela curiosidade a ponto de abandonarem sua missão para descobrir mais sobre os olhos na mata.

A personagem Legolas não é tão atraente quanto confusa. Creio que muitas pessoas se questionam a seu respeito porque ele parece um tremendo paradoxo, tão velho quanto jovem, sábio e inexplicavelmente ignorante quanto ao mundo que o cerca. Legolas é um súbito toque de juvetude Élfica no fim dos Dias Antigos. Pode ser que tenha havido poucos Elfos jovens na época, e essa pode ter sido a última grande aventura de um Elfo jovem na Terra-média. Quando Celeborn finalmente cruzou o Mar, Tolkien observa,a última memória viva dos Dias Antigos foi com ele. Mas quando Legolas construiu seu navio e partiu, pode ser que a última fagulha de juventude Élfica tenha desaparecido da Terra-média também.

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A ponta do iceberg: novas informações sobre a Terra-Média

Por aproximadamente um ano, discussões online sobre o mundo de Tolkien vem sido apimentadas — em alguns lugares — com referências a um obscuro estudo chamado "Osanwë-Kenta". Este ensaio foi publicado pela primeira vez em Vinyar Tengwar Mº 39, o exemplar de Julho de 1998 do jornal oficial da Elvish Linguistic Fellowship (Sociedade Da Linguística Élfica), um grupo de interesse da Mythopoeic Society. "Osanwë-Kenta" ("Acerca da comunicação de pensamentos") foi premiada como um dos textos de Tolkien mais reveladores daqueles que não foram publicados. Eu acho que "Osanwë-Kenta" deve ser colocado de lado, pois há um texto mais interessante. Se chama "Os Rios e Vales de Gondor".
 

Os dois estudos são importantes na pesquisa sobre Tolkien, e os aspectos linguísticos não são necessariamente primários. Você pode perceber detalhes interessantes sobre a filosofia e história do povo de Aman em "Osanwë-Kenta". "Rios e Vales de Gondor" também nos fornecem nova informação e revelações sobre a história de Gondor e os povos que lá moram. Supondo que mais pessoas querem saber sobre os eventos na Terceira Era que eventos do começo de Aman, eu acho que "Rios e Vales de Gondor" prova ser o mais importante.

Vinyar Tengwar é primeiramente preocupado com material linguístico, de onde restam um imenso número de ensaios e notas não publicados. As reflexões linguísticas de Tolkien porém, geralmente incluem apartes, muitas vezes grandes ensaios sobre as histórias e filosofias das principais raças. O material linguístico é então de interesse especial para pesquisadores que estudam a construção do mundo de Tolkien, sua pseudo-história e filosofias artificiais.

 
Christopher Tolkien publicou fragmentos do "Rios e Vales de Gondor" no Contos Inacabados. Infelizmente, Vinyar Tengwar também publica apenas fragmentos. Assim como a situação com "Narn i Hîn Húrin" (A História dos Filhos de Húrin), que foi publicado em pedaços no Contos Inacabados e no Silmarillion, precisamos juntar o trabalho inteiro junto. Se o suficiente das duas escrituras foram publicadas nessas duas partes, cabe à HarperCollins publicar um volume com os Trabalhos Completos de JRR Tolkien, combinando-os. Tal livro seria uma marca na tentativa de fazer uma representação coerente de algo escrito fora o Hobbit e o Senhor dos Anéis.

As passagens relevantes do Contos Inacabados são encontrados no capítulo da história de Galadriel e Celeborn, especificamente nos apêndices tratando de Amroth e Nimrodel, e o porto de Lond Daer. Algum material também foi publicado na seção "Notas sobre os Druedain" no capítulo sobre os Druedain. Aquela seção do Contos Inacabados também começa com um fragmento sobre os Druedain que Christopher Tolkien tirou do "Sobre os Anões e os Homens", cuja maioria foi publicada no Peoples of Middle-Earth (Povos da Terra-Média). Na maioria dos casos, não veremos os textos inteiros publicados juntos, mas ainda podemos sonhar com a oportunidade.

Na carta que acompanha o "Rios e Vales de Gondor", Vinyar Tengwar lança uma cascata de minúsculas revelações que vai nos forçar a refazer muitas teorias sobre a Terra-Média. Por exemplo, Tolkien escreve:

"…No primeiros séculos dos Dois Reinos Enedwaith foi uma região entre o reino de Gondor e o pequeno reino de Arnor (originalmente incluía Minhiriath (Mesopotâmia)). Os dois reinos tinham interesse na região, mas eram mais preocupados com a manutenção, sua principal fonte de informação exceto pelo mar e pela ponte de Tharbad. Povos de origem numenoreana não viviam ali, exceto em Tharbad, onde um grande número de soldados e guardiões do rio era mantido. Naqueles dias eles praticavam drenagem, e as margens do Hoarwell e Greyflood eram reforçados. Mas nos dias do Senhor dos Anéis a região tinha sido arruinada e voltou para um estado primitico: um rio largo e lento que corria por uma rede de pântanos e lagos: um lugar assombrado por cisnes mortos e outros pássaros aquáticos."

"Mesopotâmia" é uma velha palavra para "terra entre rios", e Tolkien estava sem dúvida fazendo uma pequena piada sugerindo a tradução de "Mesopotamia" para "Minhiriath" (que significa a mesma coisa"). Vocês podem imaginar o quanto essa tradução vai chatear os geógrafos que fazem correlações precisas entre o mapa da Terra-Média de Tolkien e mapas da Europa e Ásia.

Mas, para mim, o comentário mais interessante é a referência indireta para "guardiões do rio". A que Tolkien estaria se referindo? Seriam aqueles homens que atravessavam os rios para cima e para baixo, prendendo piratas e ladrões? Ou seriam aqueles que faziam viagens de um lado para outro do rio? Seriam os guardiões de Tharbad os engenheiros que mantinham os trabalhos de drenagem" e as margens reforçadas dos rios Hoarwell e Greyflood? E, se não haviam numenoreanos na região, porque as margens eram reforçadas?

Tharbad já é um lugar curioso. No Contos Inacabados aprendemso que a grande ponte e os cais da cidade foram construídos por Arnor e Gondor, aparentemente para substituir o destruído porto de Lond Daer Ened. E ainda, Tar-Aldarion diz que encontra Galadriel em Tharbad numa nota acompanhando o texto "Aldarion e Erendis". Em outro lugar, a segunda história de Galadriel e Celeborn, Tharbad diz ter defendido Eriador contra a invasão de Sauron em 1695 SE. Pode ser que Tharbad seja originalmente uma colônia élfica, talvez um entreposto estabelecido por Círdan para facilitar o comércio e comunicação com Eregion. Os numenoreanos também podem ter sido o primeiro povo a fortificar Tharbad (em preparação para a guerra contra Sauron, eles também fortificaram os rios Baranduin/Brandevin e Luin).

Outro nome que merece atenção especial é "Gilrain", o nome de um rio em Gondor. Tolkien o compara a "Gilraen", o nome da mãe de Aragorn. "O significado de Gilraen é um nome feminino sem dúvida. Significava ´Aquela que é decorada com um conjunto de pequenas jóias em uma malha´, como o tesouro de Arwen descrito no SdA I 239." (Este tesouro é a "touca de renda prateada, enredada com pequenas pedras, de um brilho branco" que Arwen usa no banquete dado em honra de Frodo em Valfenda.)

Tolkien sugere que Gilraen poderia ter conseguido esse nome como um apelido, mas "provavelmente era seu verdadeiro nome, já que tornou-se um nome dado às mulheres de seu povo, as remanescentes dos numenoreanos do Reino do Norte, de sangue puro. As mulheres dos Eldar estavam acostumadas a usar tais jóias; mas entre os outros povos, eram usadas apenas por mulheres de alto nível entre os Guardiões, descendentes d
e Elros, como diziam. Nomes como Gilraen, e outros de significado similar, virariam então nomes pessoais dados às crianças nobres da família dos ´Senhores dos Dunedain´
".

Uma forte implicação dessa passagem é que os Guardiões eram um subgrupo de um povo maior, e que eles eram todos de sangue nobre, descendendo de Elros, e provavelmente os únicos Dunedain de sangue puro restantes em Arnor. Mas se aquele foi o intento de Tolkien ou uma nota mal-escrita, não podemos dizer.

Numa nota secundária, Tolkien revela que a raiz de -raen, em Gilraen, vinha do trabalho de tricô e que o adorno que Arwen e outras donzelas élficas — assim como as mulheres nobres do povo de Aragorn — usavam foi feita com um único fio.

A história de Amroth e Nimrodel é um pouco mais elaborada, também. E descobrimos a extensão completa da nota que sugere que Edhellond pode ter sido estabelecida por antigos Doriathrim que deixaram Mithlond (Portos Cinzentos). Foi abandonado no meio pois, como Christopher Tolkien opinou, seu pai percebeu que, sua dissertação sobre Círdan ser um Noldo do qual os Sindar queriam se afastar, era totalmente inconsistente com os outros textos. Então, a lenda de Edhellond ter sido fundada pelos primeiros elfos de Doriath deve ser descartada. O porto deve ter sido fundado por outros motivos, e talvez a lenda a respeiro de Brithombar e Eglarest é a mais provável de todas.

Apesar de tudo, a nota abandonada concorda com outra fonte publicada no Silmarillion dizendo onde os Nandor se estabeleceram em Eriador. Quer dizer, o fragmento de nota diz que os Eldar de Lindon "encontraram acampamentos abandonados dos Nandor" nos dois lados das Montanhas Nevoentas. O Silmarillion inclui um passagem em "Dos Sindar´ onde os anões dizem à Thingol que "seu antigo povo que lá mora [na terra à leste das montanhas] estão voando das planícies para os vales." Parece, então, que as criaturas de Melkor mandaram os Nandor em direção ao leste e para as Montanhas Nevoentas antes que Melkor retornasse para a Terra-Média.

Muitos pedaços situam-se além desses, e as implicações para os historiadores de Tolkien são extensivos. A Terra-Média revela mais uma face — aliás, muitas outras — para nós. O significado do tesouro de Arwen pode implicar em algum tipo de referência à Varda. É Arwen, afinal, que aparentemente canta o hino a Elbereth à medida que Frodo e Bilbo saem do Salão do Fogo em Valfenda. Gilraen e outras mulheres de sua família devem ter dividido tal reverência élfica à Varda.

A idéia de que povos com apenas parte do sangue numenoreano continuaram a viver em Eriador é aterrorizante. Apesar de sabermos que não poderíamos ter comunidades dos homens a oeste de Mitheithel, isto não dá novo sentido às palavras de Elrond no conselho, onde ele diz que poucos do povo de Aragorn ainda vivem? Estava Elrond talvez omitindo alguma referência á um povo maior governado pelo clã de Aragorn? Aquelas pessoas que se perguntavam onde Aragorn achou tantos guerreiros para retomar Eriador têm agora razão o suficiente para argumentar que um grande povo vivia perto de Valfenda no Ângulo.

Mais revelações nos aguardam, especialmente sobre os primeiros anos de Arnor e Gondor. Também veremos que os elfos tinham um sistema decimal e duodecimal. Então, todos estão certos. Todos nós ganhamos de novo. E é só a ponta do iceberg…

Tradução de Aarakocra
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Uma História da Última Aliança de Elfos e Homens, Parte 1

A lenda da guerra de Gil-galad e Elendil contra Sauron no final da Segunda Era da Terra-média tem sido assunto de muita pesquisa e especulação entre os fãs de Tolkien. Assim como com todos os aspectos de sua mitologia, as poucas menções desta grande luta implicam uma profundidade que direciona a imaginação à uma descrição completa que certamente deve ter existido na mente do autor, se não em alguma de suas obras existentes. A maioria de nós está familiarizada com linhas gerais da guerra, e muitos podem traçar os eventos em uma progressão geral a partir do primeiro ataque à Minas Ithil até o combate final em Orodruin.

Mesmo assim muitas questões permanecem, as quais alguém pode imaginar se Tolkien não as fez a si mesmo. Quem eram os grandes príncipes e capitães, cuja lembrança de seus estandartes fez Elrond parar e suspirar em seu conselho uma Era mais tarde? De onde vieram estes exércitos, e quais eram suas razões para se unirem à Aliança? Se não sabemos os números deles, sabemos realmente algo da sua ordem e progressos de batalha?Talvez.

Muito do que se segue é necessariamente especulativo. Não pode ser de outra forma, pois existem lacunas no que está registrado. Mesmo Tolkien espalhou aqui e ali partes de informações a respeito desta grande guerra na qual “todos os seres vivos estavam divididos…à única exceção dos elfos” (O Silmarillion, p. 374).

A guerra final da Segunda Era reuniu muitos povos em ambos os lados para um combate cataclísmico que rivalizou com a grande Guerra da Ira no final da Primeira Era do Sol. Apesar de os Valar não terem participado nesta guerra, o conflito culminou em uma série longa e pendente de disputas entre Sauron, os Elfos e os Homens de Númenor. A guerra representou a última ação desesperada de Sauron pelo poder na Terra-média na sua antiga campanha para ganhar controle sobre os Elfos e Homens.

As sementes da guerra foram estabelecidas um milênio antes, quando Sauron, na aparência de “Aulendil” (“Annatar”), começou a se aproximar dos Elfos em uma tentativa de seduzi-los [1]. Galadriel não confiou nele, afirmando não ter conhecido tal Maia em Valinor [2], e Gil-galad desconfiou dele, tendo há muito sentido que algum poder maligno havia se erguido na Terra-média [3]. De fato, a maioria dos senhores élficos recusou-se a tratar com Sauron, exceto pelo ferreiro Celebrimbor, cujas razões para recusar o conselho de Gil-galad não são dadas. Mas talvez ele tivesse herdado o grande orgulho de sua casa, e como o último herdeiro sobrevivente de Fëanor, tenha rejeitado o aviso de Gil-galad em um ato de rebelião.

Celebrimbor não viveu para ver os frutos das sementes que ele ajudou Sauron plantar e nutrir nos Anéis de Poder. Embora ele tenha vindo a entender sua tolice ates da Guerra dos Elfos e Sauron, Celebrimbor pereceu quando Sauron tomou Ost-in-Edhil [4]. Como Fëanor antes dele, Celebrimbor conduziu os Noldor a um caminho cujo final ele nunca viu, e a trágica história deles tanto foi enriquecida como reduzida por causa das escolhas que ele fez.

Por terem auxiliado Gil-galad durante a Guerra dos Elfos e Sauron, os Dúnedain ficaram enredados de maneira irrevogável nos acontecimentos da Terra-média, obtendo a inimizade eterna de Sauron. Dentro de 100 anos da guerra, os Dúnedain começaram a construir portos permanentes a Terra-média: Lond Daer Ened, Pelargir, Umbar, e outros agora esquecidos [5]. Destes portos vieram pelo menos três dos Nazgûl, os Espectros do Anel que por volta do ano 2251 revelaram-se pela primeira vez, conduzindo os exércitos de Sauron contra seus inimigos [6].

Os conflitos entre os Dúnedain e Sauron eventualmente diminuíram a progressiva luta entre Sauron e os Elfos. Enquanto muitos dos Eldar abandonavam a Terra-média, mais e mais Dúnedain lá se assentavam, vindos de ambas as facções de Númenor: os Homens do Rei e os Fiéis. Os Dúnedain buscaram conquistas próprias, confrontando-se com os tenentes de Sauron e obtendo seu imenso ódio [7]. A rivalidade de Sauron com os Dúnedain levou ao seu aprisionamento voluntário em Númenor, onde ele seduziu a maior parte dos Dúnedain para sua causa. Suas fortalezas na Terra-média ao sul de Pelargir estenderam assim o verdadeiro poder de Sauron, onde antes eles o haviam contestado.

Sobrevivendo à destruição de Númenor, Sauron retornou para a Terra-média muito transformado. Gil-galad havia recuperado seu antigo poder e estendido seu poder à novas terras [8]. Todos os Elfos estavam agora aparentemente unidos em propósitos e fortalecidos pelo longo período de paz que sua ausência lhes havia dado. Os Dúnedain que sobreviveram à Queda de Númenor ainda estavam divididos em dois grupos, mas os Fiéis haviam agora estabelecido dois reinos que, embora cultivados pelo poder de Gil-galad, guarneceram Lindon com uma barreira mais poderosa contra a invasão do que Eregion ou Imladris jamais tiveram.

O reino de Elendil em Arnor era maior em tamanho e força do que o reino de Gondor de seus filhos. Os Dúnedain e os povos que lá se assentaram entre eles viviam entre os rios Lhûn e Gwathló [9]. O povo de Elendil vivia principalmente entre os rios Lhûn e Baranduin, e entre as Colinas de Vesperturvo e as Colinas do Norte [10]. Alguns também se assentaram em Tyrn Gorthad e nas Colinas do Sul. Tharbad, um antigo porto e posto avançado Dúnadan no rio Gwathló, tornou-se um elo entre os dois reinos com uma fortaleza dos dois lados do Gwathló e uma ponte atravessando o rio [11].

Outros Homens viviam em Eriador além dos Dúnedain. Os Homens de Bri, a maioria representantes nortistas de sua raça, possuíam parentesco com a maior parte dos povos de Minhiriath e Enedwaith, assim como com as tribos selvagens das Ered Nimrais e Calenardhon que viviam na fronteira ocidental de Gondor [12]. As tribos das colinas que viviam entre o Bruinen e o Mithieithel podem ter sido amigáveis aos Elfos, mas parece que não reconheciam a autoridade de Elendil. Nem o fazia as tribos que viviam no norte, membros de Forodwaith que mais tarde deram origem a Lossoth e talvez aos Homens de Carn Dum [13]. Entretanto, o povo de Elendil provavelmente também incluía descendentes dos clãs relacionados ao Povo de Bór e Ulfang na Primeira Era [14].

O povo de Gondor vinha principalmente dos Dúnedain e seus parentes que viviam em e próximo a Pelargir, assim como ao longo da costa de Belfalas. Eles construíram as novas cidades de Osgiliath, Minas Anor, e Minas Ithil, imaginando que Sauron não era mais uma ameaça [15]. Os filhos de Elendil também estenderam seus domínios para o norte em direção a Calenardhon.

Mas a escolha da localização para suas novas cidades indica que os Númenoreanos Negros do sul eram motivo de preocupação [16]. E embora o antigo porto élfico de Edhellond se situasse a oeste do coração de Gondor, os vales das Ered Nimrais de Lamedon até as nascentes dos rios Lefnui e Adorn eram o lar de uma raça de homens que havia servido Sauron em séculos anteriores [17]. Quando se tornou evidente que Sauron havia sobrevivido à Queda de Númenor, Isildur concluiu uma aliança com pelo menos um grupo destes homens, mas seu rei temia demais Sauron para cumprir seu juramento.

Havia outros homens em Enedwaith, aparentados com o povo das montanhas das Ered Nimrais e com os Homens de Bri, que por muito se opuseram às incursões Númenoreanas. Sua antipatia forçou Gondor a construir as fortalezas gêmeas de Angrenost e Aglarond, que guardavam o passo de Calenardhon contra o oeste, ao invés do leste [18]. Desse modo, a necessidade de uma forte guarnição em Tharbad foi ressaltada pela necessidade de uma forte guarda na própria Enedwaith.

Embora Sauron fosse um Maia de grande poder e sabedoria, ele parece ter subestimado a determinação e a habilidade de seus adversários. Gil-galad, nascido em Beleriand na Primeira Era [19], era um filho nativo da Terra-média, governando seu povo no último vestígio da própria Beleriand, agora chamada de Lindon. Ele pode ter parecido fraco a Sauron, não tendo feito algo contra Morgoth na Primeira Era, e incapaz ou não disposto a derrotar os exércitos do próprio Sauron em Eriador sem o auxílio dos Dúnedain. Mas a estratégia que os Eldar usaram na sua guerra com Sauron era de Gil-galad, que liderou o exército vitorioso de Lindon e Númenor, varrendo as forças de Sauron do norte. Como Alto Rei dos Elfos do Oeste, ele enviou Elrond contra Sauron nos primeiros anos da Guerra dos Elfos contra este [20].

Ao lado de Gil-galad ficou Círdan, o mais velho dos senhores Élficos e sábio pelas amargas lições aprendidas na longa guerra contra Morgoth. Círdan havia sido o único senhor Élfico Sindarin a se aliar com os Noldor contra Morgoth na Guerra das Jóias [21]. Uma vez que Gil-galad viveu com Círdan desde uma idade prematura, o rei Noldorin deve ter sido grandemente influenciado por Círdan, que era tão corajoso e valente quanto qualquer rei Élfico. Na Segunda Era ele auxiliou os Dúnedain, ensinando-lhes como construir e navegar navios, e como administrar os portos que eles construíram na Terra-média [22]. Círdan, também, via profundamente nos corações dos outros, e ele nunca se absteve da necessidade de se opor tanto a Morgoth quanto a Sauron. Círdan parece ter sido um oponente formidável a Sauron.

Elrond, sendo meio-elfo, não esquecera seus laços com os Dúnedain. Ele marchou com os pais deles contra Thangorodrim na Guerra da Ira [23], e ele estava em Lindon quando Veantur velejou primeiro para a Terra-média. Ele teria conhecido Aldarion em sua juventude, o grande rei navegador de Númenor. Apesar de ter falhado em abrir caminho através das forças de Sauron para socorrer Eregion, Elrond salvou muitos Elfos e Homens da morte ou captura na Guerra dos Elfos e Sauron, e ele impôs um cerco prolongado. Descendendo de uma poderosa Maia e tanto de reis Sindarin quanto Noldorin, Elrond foi educado por um filho de Fëanor, permaneceu com o Exército de Valinor na destruição das Thangorodrim e, ao escolher ser da raça Élfica, teve aumentadas sua sabedoria e suas habilidades por Eönwë. Come ele era o vice-regente de Gil-galad em Eriador [24], Elrond pode então ter representado o Alto Rei dos Elfos do Oeste nas suas relações com outros senhores élficos.

Oropher era provavelmente o maior dos outros senhores Élficos. Orgulhoso e independente, um sobrevivente de Doriath, seu reino dominava a Floresta Verde, a Grande, além do Anduin. Embora não amigável tanto aos Noldor como aos Anões [25], ele pode ter reverenciado a linhagem Sindarin de Elrond, e evidentemente viu a necessidade de se unir à aliança contra Sauron. Oropher, porém, era resoluto e orgulhoso, e ele se recusou a marchar sob o estandarte de Gil-galad, pois via a si mesmo como um igual [26].

Amdir, também conhecido como Malgalad [27], era provavelmente o menos poderoso dos reis Élficos da Segunda Era. Ele governava um povo menor do que o de Oropher, ainda que fosse favorável aos Noldor, recebendo muitos refugiados de Eregion em seu reino. Ele também deve ter mantido termos amigáveis com os Anões de Khazad-dûm, seus vizinhos e, talvez, às vezes aliados [28].

Isildur era o mais imprudente dos reis Dúnedain. Ele era orgulhoso e bravo, renomado por salvar uma muda de Nimloth, a Árvore Branca de Númenor, a despeito das precauções de Sauron contra tal tentativa [29]. Ele ousadamente estabeleceu-se (e plantou a muda) nas Ephel Dúath, na fronteira de Sauron. Mas Isildur pode não ter sido um capitão na guerra como o eram seu pai e irmão, e talvez não fosse o líder de Homens que Elendil era. Ainda assim, foi a cidade de Isildur que Sauron escolheu para o primeiro ataque, talvez buscando vingança contra o senhor Dúnadan por seus feitos em Númenor.

Elendil, o Alto, era um poderoso capitão marítimo, um mestre de tradição e, como Alto Rei dos Dúnedain-em-Exílio, reuniu um grande exército de Homens em Arnor. Ele parece não ter tido disputas com subalternos e aliados, diferente de Isildur, apesar de que a distância entre Sauron e os povos de Eriador certamente fez sua influência lá bastante fraca. Elendil foi profundamente afetado pela destruição de Númenor, e pela perda de seu pai, Amandil.

Após Isildur partir para Arnor, Anarion governou Gondor sozinho, defendendo-o contra as forças de Sauron [30]. Anárion parece ter comandado a campanha meridional inteira para a Aliança. Ele não apenas empurrou os exércitos de Sauron de volta a Mordor: ele mesmo, eventualmente, atravessou as montanhas.

Dúrin IV de Khazad-dûm também se uniu à Aliança [31]. Uma vez que seu reino situava-se tão perto de Lorinand, ele deve ter reunido seu exército próximo ao de Amdir. E ainda, a conhecida antipatia de Oropher pelos Anões pode ter forçado Dúrin a marchar ao lado do exército de Gil-galad, talvez ainda para se colocar como um quarto igual entre os líderes da aliança completa: Gil-galad, como senhor dos Elfos do Oeste; Elendil, como senhor dos Homens do Oeste; Oropher, como senhor dos Elfos do Leste; e Dúrin, como senhor dos anões de Khazad-dûm (abrangendo duas ou três casas de Anões). Pelos Anões de Nogrod e Belegost terem há muito tempo aumentado os números de Khazad-dûm, o exército de Dúrin pode ter sido a maior hoste de Anões reunida naquele tempo ou em qualquer outro.

[Fim da parte 1]

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Uma História da Última Aliança de Elfos e Homens, Parte 2

A guerra real começou com o ataque à Minas Ithil, em 3429 S.E. [32]. Quando a cidade foi perdida, Isildur e sua família escaparam para Osgiliath [33]. De lá eles navegaram, deixando Anárion para defender o reino. Pode ser que nessa hora Isildur tenha parado em Edhellond, e passado para o norte em direção a Erech pra convocar o Rei das Montanhas para cumprir o juramento feito por seus predecessores; ou, pode ser que nesse momento Isildur tenha tomado o juramento do Rei, para ser cumprido posteriormente, quando o Oeste estivesse pronto para marchar contra Sauron [34].

Em todo caso, Anárion aparentemente não foi incomodado pelos homens das Ered Nimrais, embora ele possa ter prudentemente montado uma vigília contra uma traição do oeste. De qualquer forma, a presença do porto élfico em Edhellond pode ter sido um conforto para os Dúnedain. Além disso, visto que Sauron havia reunido seus aliados em Mordor, os exércitos de Herumor e Fuinur não atacaram vindos do sul. Eles devem ter passado para o norte e para Mordor através do Passo de Nargil [35], se não eles marcharam para o norte ao longo das Ephel Dúath para ajudar no ataque a Osgiliath.
Elendil e Gil-galad convocaram um conselho em 3430 S.E., onde a Aliança foi oficialmente criada [36]. O conselho deve ter sido uma grande reunião de senhores de Arnor, Gondor, Lindon, e outras terras. Além de Gil-galad e Elendil, podemos supor que Isildur e Círdan estavam presentes, e talvez também Elrond, Celeborn, Galadriel, Gildor Inglorion, e Glorfindel [37]. Os filhos de Isildur, Elendur, Aratan, e Ciryon podem ter estado presentes também; pelo menos Elendur provavelmente estava lá.

Podem ter havido também emissários dos Vales do Anduin (se não dos próprios Durin IV, Oropher, e Amdír). Possíveis emissários dos Elfos incluiriam Thranduil e Amroth. Entretanto, é possível que a Aliança originalmente incluísse apenas Lindon, Arnor, Gondor, e Imladris.

A Aliança só poderia ter um único propósito militar: marchar sobre Mordor e alcançar uma vitória completa e total contra Sauron. Eles sabiam que podiam derrotá-lo no campo de batalha, conforme isto fora realizado em mais de uma ocasião em guerras passadas. O verdadeiro problema deve ter sido sobre o que eles fariam uma vez rompidas as defesas de Sauron. Até quando ele poderia resistir à Aliança, e o que ele seria capaz de tramar contra seus inimigos enquanto sitiado em Barad-dûr? As forças de Sauron eram consideráveis, pois ele comandava não somente os Orcs e Trolls, mas também muitos homens, e seus principais servidores eram os Nazgûl.

Gil-galad e Círdan marcharam para o leste saindo de Lindon em 3431 [38]. Elendil já havia reunido seu exército em Amon Sûl e ele esperou lá pela hoste élfica [39]. Mas eles pararam em Imladris por três anos, aparentemente para treinar e equipar seus exércitos, e talvez também para persuadir Oropher, Amdír, e Durin a unirem-se à Aliança, se eles ainda não o tinham feito [40]. Naquela época, Sauron deve ter estabelecido um exército nas terras entre a Floresta Verde e Mordor [41]. Tal expansão certamente teria sido persuasiva para com Oropher. pode ser que nessa época Elendil tenha mandado um exército a Gondor para fortalecer Anárion [42].

Havia duas linhas de marcha prováveis para os exércitos da Aliança quando eles finalmente começaram a se mover em 3434. Pode ser que Oropher e Amdír tenham avançado pela costa oriental do Anduin, enquanto Gil-galad, Elendil, e Durin passavam a oeste de Lorinand em direção ao Parth Celebrant. Ou talvez Gil-galad e Elendil tenham atravessado o rio pela Men-I-Naugrim, usando o vau onde houve uma vez uma antiga ponte. Oropher pode ter precedido ou seguido eles em sua estrada para o sul, e Amdír e Durin teriam atravessado o Anduin com barcos (assim como Celeborn milhares de anos mais tarde quando ele atacou Dol Guldur).

Sauron provavelmente encontrou as forças da Aliança em algum lugar próximo aos Meandros mas, vendo que era superado em número, ele recuou, destruindo o antigo domínio Entesco ao norte das Emyn Muil (posteriormente conhecido como “As Terras Castanhas”) em uma tentativa de retardar o avanço da Aliança [43]. A retirada para Mordor deve ter sido rápida, ainda sim a Aliança foi capaz de surpreender o exército de Sauron em Dagorlad. É possível que a força de cavalaria de Lindon [44] tenha forçado o exército de Sauron a parar e se reorganizar no norte de Udûn, e que as duas forças se prepararam para a batalha ao curso de um ou mais dias que se seguiram.

Ainda que não tenhamos registro da Batalha de Dagorlad em si, podemos deduzir algumas prováveis formações. Gil-galad, sendo o líder da Aliança (ou, o mais provável, o mais velho dos quatro “iguais”), provavelmente comandava o centro. Visto que Elrond era o arauto de Gil-galad nesta campanha, é possível que os flancos de Gil-galad fossem comandados por Celeborn e Círdan (Glorfindel ou Gildor Inglorion podem ter comandado um flanco “Noldorin”).

Sabemos que no curso da batalha, o exército de Amdír foi isolado da hoste principal e feito em pedaços nos pântanos [45]. Entretanto, podemos supor que Oropher tomou a face direita do campo, com Amdír guardando o outro flanco. Deste modo, os Elfos Silvestres de “idéias próprias” estariam em uma posição para apoiar Gil-galad sem serem cercados pelas próprias forças dele. Elendil e Durin podem ter, então, permanecido na face esquerda (leste) do campo.

O que não podemos supor é se Anárion, com o exército de Gondor, estava presente na Batalha de Dagorlad. Teria Sauron dividido suas forças durante os anos anteriores para manter Anárion ocupado? Os únicos aliados possíveis que Anárion poderia ter convocado seriam os Elfos de Edhellond, dito serem na maioria de origem Nandorin ou Sindarin [46]. Eles não teriam constituído de modo algum uma grande força, e podem ter sido apenas um contingente do exército de Anárion.

As forças de Sauron teriam sido retiradas dos Orcs e Trolls, provavelmente vivendo em sua maioria em Mordor naquela época; os Orientais, talvez muito primitivos; os Haradrim, governados por Númenorianos Negros e incluindo um grande número dos mesmos; e quaisquer Homens que possam ter vivido em Mordor (se algum). Conta-se que uns poucos Anões também lutaram por ele, embora nada seja mencionado de suas moradas ou casas [47].

Se Anárion foi impedido de se unir imediatamente a Gil-galad por um exército no sul, Sauron pode ter tido somente alguns Haradrim na Batalha de Dagorlad. Assim, ele teria apenas dois exércitos: os Orientais e suas próprias forças de Mordor e Harad. O flanco esquerdo de Sauron pode ter sido a parte mais forte de seu exército, uma vez que ele foi capaz de impelir os Elfos Silvestres de Amdír, empurrando-os para os pântanos [48]. É possível que os Orientais não tenham ficado à direita de Sauron, mas talvez tenham ido contra o flanco oriental da hoste da Aliança (onde podem ter permanecido os exércitos de Arnor e Khazad-dûm). Esta estratégia teria ao menos dado uma oportunidade ao flanco esquerdo de esmagar os Elfos Silvestres enquanto o exército principal mantinha a atenção de Gil-galad no centro.

Gil-galad pode ter usado uma estratégia cautelosa, contendo-se de atacar a fileira de Sauron. Talvez Sauron tenha repelido Amdír com um ataque e talvez tenha ele mesmo lançado o ataque. A vantagem em lançar o ataque estaria na chance de Sauron de dividir a hoste élfica e destruir os Elfos Silvestres. Uma vez que Amdír e mais da metade de seu exército foram mortos, as forças de Sauron nesta área foram bastante efetivas. Mas visto que Sauron, por fim, abandonou o campo [49], seu flanco direito deve ter desmoronado sob o ataque dos outros exércitos da Aliança. É possível que a força inteira que combateu Amdír nos pântanos tenha sido abandonada por Sauron na retirada.

Embora não saibamos se partes do exército de Sauron sobreviveram à Batalha de Dagorlad, podemos estar certos de que suas forças foram muito diminuídas. Ele ainda aparentemente foi capaz de manter mais uma resistência fora de Barad-dûr, pois Oropher liderou um ataque prematuro a Mordor [50]. Os Elfos Silvestres podem ter se enfurecido com o massacre que ocorrera nos pântanos, e talvez Oropher tenha pensado que as forças de Sauron eram mais fracas do que realmente eram.

Mas embora os Elfos Silvestres tenham novamente sofrido graves perdas [51], Gil-galad e a Aliança penetraram em Mordor, empurrando Sauron de Udûn por todo o caminho de volta a Barad-dûr, onde eles começaram o cerco de sete anos. Nessa hora Anárion deve ter levado o exército de Gondor para Mordor, talvez passando através das Ephel Dúath para assegurar que Sauron não pudesse escapar para o sul.

A defesa de Sauron de Barad-dûr não foi passiva. Ele enviou muitos ataques [52]. A própria fortaleza usava armas de projéteis para infligir grandes perdas aos exércitos da Aliança, incluindo a tomada da vida de Anárion em 3440 [53].

A breve descrição de Elrond da última luta entre Sauron e seus adversários indica que Gil-galad fixara uma posição em Orodruin. Esta parece ser uma distância bem grande de Barad-dûr, mas pode ser que, durante os anos do cerco, Gil-galad tivesse que lidar com forças fora de Barad-dûr, nas terras ao leste e ao sul. Sendo assim, então Orodruin teria se tornado um excelente posto de comando, mas isto também significaria que os exércitos da Aliança (enfraquecidos pelas batalhas no norte) deviam estar pouco espalhados.

Desse modo, parece que, ou Sauron foi capaz de pegar Gil-galad de surpresa, ou ele liderou uma última e massiva investida contra Orodruin. Logo que Sauron alcançou as encostas da montanha de fogo, apenas Elendil permaneceu próximo o suficiente para ajudar diretamente o rei élfico, embora Elrond, Círdan, e Isildur estivessem mais próximos do que outros. Como Sauron conseguiu chegar tão perto de Gil-galad? Teria talvez o rei élfico oferecido a Sauron um desafio para um combate único (assim como seu avô Fingolfin desafiou Morgoth)? Sauron esperava matar Gil-galad e assim desencorajar seus inimigos?

No evento, Gil-galad caiu ante o ataque de Sauron e foi Elendil quem desferiu o golpe “mortal” que derrubou o Senhor do Escuro. Sauron, apesar disso, devia ter guardado força suficiente e presença de espírito para se projetar sobre Elendil, uma vez que fora o calor de seu corpo que matou o rei Dúnadan. Isildur então subiu a encosta para cortar o Anel da mão de Sauron, mas ele fez isso sabendo que o espírito de Sauron escaparia ou ele foi atraído imediatamente pelo poder do Anel?

O combate final deve ter resultado em uma perda de força de vontade quase completa entre os Orcs e Trolls sobreviventes [54]. Se quaisquer Orientais ou Haradrim continuaram a existir fora de Barad-dûr, eles ou fugiram ou lutaram até serem destruídos, como aconteceu com as forças de Sauron no final da Terceira Era [55]. Mas a própria Barad-dûr teve que ser demolida, e fortalezas foram construídas nas Ephel Dúath e em Udûn para manter uma vigilância sobre [56].

A maioria dos líderes originais da Aliança nunca viu o final que eles se esforçaram tanto para atingir: Gil-galad, Elendil, Oropher, Amdír, e Anárion: todos pereceram. As forças élficas sofreram perdas terríveis, como aparentemente também sofreu o exército de Arnor. Nada é dito do que aconteceu com o exército e o rei de Khazad-dûm.

Um dos prováveis benefícios da guerra para os Povos Livres foi a diminuição de Númenorianos Negros que, embora não destruídos, foram incapazes de estabelecer um grande reino como Gondor ou Arnor (a menos que este fosse Umbar, que eventualmente foi conquistado). Mas um dos grandes custos da guerra teria sido a virtual ruína da antiga civilização Beleriândica em Lindon. O povo de Círdan incorporou o restante do povo de Gil-galad em Mithlond e alguns podem ter se assentado em ou próximo a Imladris, mas a maioria dos sobreviventes abandonou a Terra-média [57].

Arnor emergiu da luta enormemente enfraquecido. Gondor, entretanto, cresceu em poder daquela época em diante, e por mais de 1600 anos manteve uma vigília sobre Mordor contra o eventual retorno de Sauron. A Aliança falhou em atingir uma vitória permanente sobre Sauron, em grande parte porque no final Isildur falhou em destruir o Um Anel quando teve a chance. E ainda assim, tivesse ele seguido o conselho de Círdan e Elrond, o que seria dos Elfos na Terra-média? A tolice de Isildur foi o triunfo da Aliança, pois os Eldar foram assim capazes de usar seus três Anéis de Poder remanescentes por mais de 3000 anos para melhorar seu mundo.

Tolkien escreveu que a Terceira Era era “os últimos anos dos Eldar. Viveram em paz por um longo tempo, controlando os Três Anéis, enquanto Sauron dormia e o Um Anel estava perdido; mas não tentaram nada de novo, vivendo de recordações do passado”. (O Retorno do Rei, p. 1148). Eles talvez não estabeleceram novos reinos, mas as canções élficas relatando as trágicas histórias de Nimrodel e a busca dos Ents pelas Entesposas mostram que os Elfos continuaram a prosperar e interagir com outros povos ao redor deles, muito após a guerra ter terminado.

Fim da parte 2.

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Está tudo em famí­lia: Os Finwënianos

O papel central da mitologia de Tolkien está designado à família de Finwë, o primeiro rei dos Noldor. Ao contrário dos Minyar (Primeiros), todos aqueles que migraram para Valinor e se tornaram conhecidos como os Vanyar, os Tatyar (segundos) e Nelyar (Terceiros), se dividiram em dois grupos. Aqueles Tatyar que se comprometeram a realizar a Grande Jornada se tornaram os Teleri, e Elwë e Olwë eram seus líderes. Portanto, Finwë, Elwë e Olwë eram somente reis dos membros de seus clãs que os seguiram na Grande Jornada. Os Elfos remanescentes, conhecidos coletivamente como os Avari, eram chefiados por outros (inominados) capitães.

O significado dessa distinção é que o isolamento de Finwë dos Tatyarin Avari fortalece a visão emergente de Tolkien que Finwë deveria ser um Elfo da primeira geração. Apesar de Tolkien nunca ter afirmado isso, deveria ser respeitável por parte da primazia de Fimwë, se todos os Tatyar aceitaram sua decisão de ir a Aman. Uma vez que Ingwë, Finwë e Elwë tiveram que persuadir seu povo para realizar a jornada, nós sabemos que eles não tinham o poder autocrático dos reis Eldarin, enquanto todos os Elfos viviam em Cuiviénen. A estrutura social da primitiva cultura élfica deve, portanto, ter sido substancialmente diferente daquela dos reinados Eldarin em eras posteriores. Fëanor também tentou persuadir os Noldor a segui-lo, mas ele estava fazendo um apelo emocional durante um tempo de crise, enquanto ele ainda estava sob a banição dos Valar. Sua legitimidade como rei era questionável, uma vez que Fingolfin ainda estava agindo tecnicamente como rei em Tirion. Na Terra-Média, Turgon não parece ter tido que persuadir seu povo para segui-lo quando ele se deslocou de Nevrast para Gondolin. Ele simplesmente fez essa decisão e todo o reino se mudou.

É desta maneira evidente que havia ali um processo de evolução na autoridade dos líderes Eldarin. É certamente discutível que uma sociedade menos sofisticada pode não ter providenciado aos Elfos mais velhos o poder dos monarcas. Mas se é esse o caso, então a suposição de que Finwë deve ter se identificado com Tata, o mais velho dos Tatyar, é mais adiante enfraquecida. Tal identificação não necessita ser limitada com a identificação de caráter com caráter. Não é aparente que Finwë deve ser um descendente de Tata e Tatië. Ele poderia ter vindo de qualquer família e ascendido à proeminência através de sua coragem e sabedoria.

No entanto, os Noldor, mais que qualquer outro povo élfico cuja cultura Tolkien escrevera, mantiveram um sistema muito patriarcal. Os reis Noldorin alcançaram uma autoridade quase absoluta sobre seu povo, bem como a autoridade que Melkor exercera sobre seus próprios assuntos. De um modo, os Noldor se tornaram uma paródia daquilo que eles mais desprezavam: o reino de Morgoth. Sua estrutura social deve ter sido compelida para tal autocracia por antigos costumes mais do que por experimentação. De fato, é sensato inferir a partir dos nomes de vários grupos Avarin que os Tatyar eram mais propensos a divisões que os Nelyar. Se for assim, então a habilidade de Finwë em reter a total lealdade de seu povo em Aman foi extraordinária. Fëanor era bem menos popular que seu pai.

Então, a autoridade autocrática dos últimos reis Noldorin indica que eles devem ter herdado uma autoridade primária de Tata. A personalidade de Finwë deve ter participado de um papel maior em estabelecer a autoridade, mais do que sua herança. Isto é, para os Noldor, descender de Finwë seria mais importante do que descender de Tata. Sem falar que os capitães originais dos Tatyar não devem ter descendido de Tata. Faz sentido que, se Ilúvatar selecionou Tata para ser o primeiro a acordar entre os Elfos, ele deveria ter as qualidades de um líder natural que Ilúvatar sentira que os Tatyar necessitariam. Tata deveria (se ele fosse um bom pai) criar seus filhos para serem bons líderes também. Liderança deveria ter se tornado o papel natural da família simplesmente porque a família exercia liderança. Portanto, se Finwë teve irmãos ou primos que decidiram não ir para Valinor, eles devem ter se tornado os líderes dos Tatyarin Avari.

A questão se Finwë tinha outros parentes é interessante, apesar de não ser necessariamente crucial para o entendimento da cultura Noldorin. Havia outras casas principescas entre os Noldor. Elas devem ter compartilhado uma aliança com a casa real através de descendência comum de Tata, mas Tolkien nunca explora o assunto em nenhuma obra publicada. Havia príncipes em Gondolin, como Glorfindel (de quem Gandalf comenta com Frodo que Glorfindel descende de uma casa de príncipes). Infelizmente, a história dos textos de Gondolin faz com que seja impossível determinar quantos príncipes havia em Gondolin, ou qual deveria ter sido sua relação (se é que havia) com os Finwënianos. Voronwë reinvidicou aliança com a Casa de Fingolfin. Um descendente comum de Tata pode explicar essa aparente discrepância. Um descendente através de uma filha de Fingolfin (um daqueles que foi ao exílio) deve também explicar a reinvidicação de Voronwë. Mas algumas pessoas discutem que a declaração de Voronwë pode somente explicar uma relação entre sua família e a família de Fingolfin.

Então Gondolin não nos oferece qualquer insight sobre as complexas hierarquias sociais dos Noldor. No entanto, Nargothrond é uma história diferente. Há pelo menos uma casa de príncipes que (aparentemente) não reinvidica aliança com os Finwënianos. Essa é a família de Guilin, cujo filho Gwindor iniciou a responsabilidade de chefe por lançar o desastroso ataque que iniciou a Nirnaeth Arnoediad. Gwindor também trouxe Túrin a Nargothrond, o que posteriormente levou ao fim daquele reino. Tolkien fala que Gwindor é “um príncipe muito valioso”. Em qualquer outro lugar, Gwindor é “um senhor de Nargothrond”. Seu posto é, no entanto, nobre, mas ele não é um Finwëaniano. Se a família de Guilin foi considerada nobre de tempos antigos ou foi elevada a esse status por Finwë ou um dos reis de Nargothrond, é um mistério.

O que podemos ter certeza é que, no entanto, os Finwënianos derivaram seu status especial do próprio Finwë. A monarquia Noldorin começou com Finwë e todos os reis legítimos dos Noldor exigiram a descendência dele. Mais ainda, nenhum príncipe Noldorin de fora da família já tinha estabelecido um domínio próprio. A estima cuja família de Finwë teve por seu povo foi forte o suficiente, tanto que eles limitaram sua escolha de reis somente para seus descendentes. Portanto, até mesmo se todos os capitães Tatyarin fossem descendentes de Tata, tal patrimônio era insuficiente para justificar um prestígio real.

O carisma de Finwë é também evidente pelo fato de que mais de uma mulher élfica o amava. Em “Leis e Costumes entre os Eldar” (“Morgoth’s Ring”, pg 207-253), Tolkien escreve: “Os Eldar casavam somente uma vez na vida, e por amor, ou pelo menos por livre arbítrio de ambas as partes…Casamento, exceto por raras chances ou destinos estranhos, era o curso natural da vida de todos os Eldar…Aqueles que deveriam depois se tornar casados, deveriam se escolher cedo na juventude, até mesmo quando crianças (e de fato isso acontecia de vez em quando em dias de paz)…”

Se o curso natural dos Eldar os levou a se casar somente uma vez na vida, então a habilidade de Finwë de atrair e amar mais que uma mulher era extremamente fora do comum. Sua personalidade deveria ser extremamente carismática. Não é justo falar que alguma coisa deva ter acontecido para Indis amar Finwë até mesmo quando ele estava casado com Míriel. Seu amor era sem dúvida puro e natural. Não há nunca uma dica de qualquer sinal de sombra ou corrupção em ambos Finwë ou Indis nas estórias relacionadas ao seu casamento. Até certo ponto, seu casamento é reconhecido como um sinal de cura para o pesar de Finwë sobre a morte de Míriel e a recusa de retornar à vida. Apesar da narrativa dizer que as coisas seriam melhores para os Noldor em geral se Finwë não se casasse novamente, o amor que ele e Indis compartilhavam parece ter sido tão forte e natural como o amor que seria encontrado em qualquer primeiro casamento entre os Eldar.

A personalidade distinta de Finwë deve, portanto, ter sido expressada em todos os seus filhos de uma maneira ou outra. Crescer em uma família de um líder que as pessoas devem ter idolatrado deve ter imbuído as crianças de Finwë com um senso de prestígio. Mas ver seu pai interagir com seu povo como um líder, e sem dúvida ouvi-lo palestrar sobre como governar ou liderar o povo deve ter providenciado uma educação espetacular a Fëanor, Fingolfin e Finarfin no equivalente Noldorin de uma pessoa culta. Finwë deve ter sido muito bom em julgar os humores dos outros e descobrir o que ele queria. Os Noldor assim desenvolveram um relacionamento muito próximo com seu rei, muito mais próximo (parecia) do que aquele entre os Vanyar e Ingwë ou entre os Teleri e Elwë e Olwë.

No entanto, Tolkien adicionou um pouco de divisão política lingüisticamente inspirada ao ambiente que produziu os Finwënianos. Isto é, em “The Shibboleth of Fëanor”, Tolkien documenta a transição consciente que a maioria dos Noldor incumbiram em seu diálogo entre o uso de um som (chamado Thorn, foneticamente relacionado à th) e outro (que tomava o lugar do som antigo). Os Vanyar, que aderiram à prática antiga, retiveram o antigo som. Fëanor aderiu ao antigo som como um símbolo de seu amor para com sua mãe. Finwë, por outro lado, tomou a nova pronúncia, talvez como um sinal de que ele estaria prosseguindo com sua vida. Indis também tomou a nova pronúncia, pois ela sentiu que estando unida aos Noldor, deveria falar como eles.

A intransigência de Fëanor derivou-se em parte da natureza teimosa que ele tinha herdado de sua mãe. Mas a decisão dos Valar de proibir o retorno de Míriel à vida para permitir que Finwë e Indis se casassem levou Fëanor a concluir que Indis era a fonte de sua infelicidade. Ele aparentemente não comparecera ao conselho onde os Valar debateram sobre os prós e contras de permitir que Finwë tivesse uma segunda esposa, então ele não entendia que foi a intransigência de Míriel que levou ao grande problema. Os Valar queriam somente o que era justo, e à vista deles (particularmente de Manwë), Míriel estava sendo muito egoísta. Ela tinha, portanto, perdido seus direitos como um ser vivo encarnado. Tudo o que Fëanor vira era o fato de que ele nunca falaria com sua mãe novamente, o que pareceria (em seu luto e raiva) uma promessa quebrada dos Valar. Apesar de tudo, os Elfos supostamente viveriam com a vida de Arda. Míriel deveria ter sido restaurada à vida por fim. Esse era o natural a acontecer com um Elfo.

Assim, quando Finwë e Indis se casaram, o ressentimento de Fëanor da intrusão de Indis na família assegurou que ele iria se isolar da família de Finwë. Quando Fëanor criou seus filhos, estes questionaram por que seus tios e tias falavam de uma maneira diferente da deles. Ele e sua família respeitavam a língua de sua amada mãe. Fëanor fez disso uma questão pessoal, e dessa forma alienou os contadores de estória Noldorin que iriam de outra forma ter aceitado e suportado seus argumentos contra a mudança lingüística. Como comparação, considere como (no idioma americano), muitas pessoas hoje utilizam o pronome “myself” incorretamente (de acordo com as regras antigas). Quando falamos de outra pessoa e de si mesmo, devemos usar “me” no objetivo e “I” no subjetivo. No entanto, muitas pessoas têm sido repreendidas por professores e parentes por usar “me” quando deveriam usar “I”, então acabaram substituindo “myself” por “me”.

Em outras palavras, ao invés de falar “They were speaking to my sister and me”, a maioria das pessoas fala “They were speaking to my sister and myself”. “Myself” é, de acordo com as regras gramaticais, um pronome reflexivo. Deve ser precedido somente por “I” ou “me”, e não utilizado sozinho. Agora, imaginem se o Príncipe Charles fosse lançar uma cruzada pessoal para corrigir cada pessoa que utiliza o “myself” incorretamente! Quanto tempo levaria antes que as pessoas decidissem que ele é arrogante o bastante para se respeitar? E imagine que enquanto o Príncipe Charles faz campanha contra o idioma vulgar, sua mãe, a Rainha, começa a usar o “myself” incorretamente. O amor e o respeito do povo para com uma monarca popular continuará intacto, porque ela estaria falando como eles e não faria tempestade em copo d´água acerca de uma questão tão pequena. No entanto, esse amor e respeito não seriam transferidos ao seu filho.

Fëanor assim elevou um desentendimento erudito ao status de ordem política. Todos aqueles Noldor que usavam a pronúncia nova eram contra ele, e todos aqueles que retiveram a pronúncia Thorn o apoiavam. Ironicamente, Fëanor ignorou os Vanyar, que eram praticantes da pronúncia Thorn, enquanto ele possuía uma aliança com os teleri, cuja fala era radicalmente diferente do Quenya falado pelos Noldor e Vanyar. Mais ainda, Finarfin reteve a pronúncia Thorn por motivos próprios. O “Shibboleth” diz que Galadriel mudou para a nova pronúncia, em parte devido a sua animosidade para com Fëanor.

Todas essas mudanças ameaçadoras de vida na pronúncia, desta maneira, simbolizavam a polarização das lealdades dos Noldorin. Porém, ainda mais importante, elas enfatizaram a transição entre a autoridade primitiva dos capitães Élficos e a autocracia dos reis Noldorin. Fëanor estava fazendo sua linguagem de seu modo, e ele reuniu com ele todos aqueles que se sentiram reunidos. Mas devido ao fato de ele ter sido uma pessoa tão maestral, ele chegou a dominar as decisões de seus seguidores. A transição de seus seguidores a quase autômatos políticos foi completada por suas participações voluntárias no ataque de Alqualondë. Eles devem ter pensado que estavam apenas roubando navios, mas quando a luta começou a ficar sangrenta, nenhum dos Fëanorianos pareceu ficar de lado e falado: “Esperem um pouco! O que estamos fazendo?”.

Em uma menor extensão, a divisão sobre a pronúncia deve ter influenciado os outros Noldor, não meramente para suportar Finwë e Fingolfin. A divisão deve tê-los forçado a ter um pensamento do tipo “nós e eles”. Alguns seguiram Fëanor e outros seguiram Finwë e Fingolfin. Subseqüentemente, o prestígio de Finwë entre os Noldor deve ter diminuído. Ele tinha, apesar de tudo, desonrado seu próprio filho ao não apoiar Fëanor. Deve ter sido um momento de orgulho para os Fëanorianos quando Finwë partira de Tirion para viver com seu filho em exílio. Apesar do papel de Finwë na disputa entre Fëanor e Fingolfin ser silencioso, seria somente um pequeno salto de imaginação retrata-lo controvertido, como quando ele tenta restaurar a paz entre seus filhos e descobre que os Valar tinham chegado para proferir sua própria justiça. Então, para adicionar ferida ao insulto, eles exilaram seu filho, não considerando tudo o que ele possa ter falado em nome de Fëanor (sem mencionar a tentativa de reconciliação de Fingolfin). Evidentemente, empunhar uma espada contra seu irmão em público é algo bem desagradável. Mas a autoridade de Finwë estava comprometida. Ele não podia dispensar a justiça dentro de sua família, muito menos entre seu próprio povo.

O ato da rebelião de Finwë foi o começo real da rebelião de Fëanor, apesar de todos os conflitos que precederam tal rebelião. A intromissão de Melkor deve ter inflamado o orgulho dos Noldor, mas era, no fim, a própria decisão de exilar Fëanor de Tirion, que ocasionou a seqüência final dos eventos em andamento. O que não é dizer que a rebelião deva ter ocorrido de outra forma. Fëanor deve, por fim, ter sido empurrado da beira apesar do que aconteceu. O assassinato de Finwë por Melkor jogou Fëanor numa profunda depressão final, que resultou no que pode ser caracterizado como sua loucura. Fëanor perdera toda a sua perspectiva racional, e devido a ele ter aperfeiçoado seus poderes de persuasão durante anos e devido ao fato de que os Noldor eram uma nação em luto pela morte inesperada de seu Rei e pela perda das Duas “rvores, Fëanor tinha esse como o momento perfeito para infectar seu povo com sua loucura.

A dinâmica da personalidade culta dos Finwënianos do modo como era, foi assim, fundada sobre um forte laço emocional entre os reis e o povo. Fëanor havia alienado a maioria dos Noldor quando Melkor assassinara Finwë, mas a miséria ama companhia, e Fëanor tinha muita companhia após Melkor e Ungoliant terem matado as Duas “rvores e atacaram Formenos. Todas as decisões justas e populares de Finwë através do equivalente de centenas de anos haviam preparado o caminho para o apelo emocional de Fëanor. Ele deve ter tido os poderes de um incrível locutor motivador para começar, mas Fëanor provavelmente não poderia ter influenciado os Noldor a unirem-se a ele em qualquer outra época da história. A morte de Finwë e o modo como Melkor capturara os Valar completamente sem guarda em seu próprio reino deve ter abalado a fé dos Noldor em Manwë e Varda.

No entanto, Fëanor não tinha nada a seu favor. Fingolfin, igualmente em luta por seu pai, e muito amado e respeitado pelos Noldor, discutiu contra Fëanor. O debate durou um longo tempo. Deveriam ter trocado palavras amargas e duras. O sarcasmo e ridicularização devem ter sido jorrados da língua de Fëanor rápida e furiosamente. Fingolfin deve ter parado de se conter por um tempo, e simplesmente descarregou tudo em Fëanor. Tudo o que nos é contado é que palavras violentas despertaram, e então mais uma vez a ira chegou próxima a beira das espadas. O que estava em jogo não era simplesmente o destino da nação Noldorin, nem mesmo a aliança dos Noldor. Questões pessoais estavam pressionando para frente e ambos Fëanor e Fingolfin estavam investigando (ou tinham investigado) eles próprios em questões de prestígio e poder pessoal. Isto é, Fingolfin nessa época sentia que ele deveria ser rei dos Noldor. Ele era, de certa maneira, quase orgulhoso e arrogante como seu irmão.

As ambições maquiavélicas de Fingolfin foram despertadas pelas mentiras de Melkor, que gerou dissensão entre os Noldor. Foi quando Fingolfin fez um apelo emocional ao seu pai para reprimir Fëanor por ter empunhado sua espada sobre Fingolfin. Fëanor acusou Fingolfin de abrigar ambição real. Pode ser que Fëanor estava lendo os desejos de seu irmão corretamente. Fingolfin, apesar de tudo, não falava estranhamente como Fëanor falava. Ele também não ficava por aí com espadas, ameaçando parentes na frente do rei e seu povo. Ele deve ter se julgado um candidato melhor para o reinado que seu irmão (apesar de que, naquela época, não havia razão para ninguém ficar pensando sobre quem deveria suceder ao seu pai). “Deixem que o melhor príncipe governe” era a ordem do dia, mas Fingolfin não era aparentemente melhor em evitar as manipulações de Melkor que Fëanor. Portanto, quando Finwë desistiu de sua coroa para compartilhar do exílio de Fëanor, Fingolfin não tinha outra escolha a não ser aceitar humildemente a pesada responsabilidade de governar a maioria dos Noldor em Tirion.

Dez anos de reinado devem representar uma estabilidade muito dependente. Fingolfin deve ter restituído a coroa para seu pai, mas ele não desejava renunciá-la a Fëanor. Quando Melkor assassinou Finwë, o reinado Noldorin entrou em disputa imediata. Apesar dos Valar não terem ainda restabelecido seu local entre os Noldor, Fëanor entrou em Tirion e convocou Finwë. Tal intimação era uma clara usurpação da autoridade real. Mais encolerado, Fëanor se declarou como o legítimo Rei dos Noldor. Fingolfin não abdicara sua própria autoridade, embora temporariamente isso era destinado a ocorrer. Como Finwë havia enfrentado os Tatyar muito tempo atrás e ofereceu a eles uma nova vida em Aman, Fëanor agora enfrentava os Noldor e propunha uma oferta similar de vida nova na Terra-Média. A antiga estrutura social não estava trazendo sentido. Fingolfin tinha que responder a Fëanor, mas se sua esperança era restaurar o reinado de Finwë através de suas próprias leis, isso provou ser inútil. A maioria dos Noldor não queria mais nada com os Valar e Valinor. Alguns deles foram convencidos a se unir à rebelião, apesar da afeição por Valinor. E uma menor parte da nação recusou a aceitar ambos Fëanor ou Fingolfin se eles estavam determinados a liderar os Noldor ao exílio, mesmo se Fingolfin somente concordasse em ir apenas para ter certeza de que Fëanor não deixaria que ninguém fosse morto.

No fim, Finarfin provou ser o único filho de Finwë com qualquer bom senso real. Ele aparentemente nunca caiu nas mentiras que Melkor semeara entre os Noldor. Quando um grande mentiroso espalha confusão, normalmente há algumas pessoas que ficam acima da discórdia, e Finarfin era esse tipo de indivíduo. Ele, também, tentou persuadir os Noldor a não seguir Fëanor ao exílio. E assim como Fingolfin, ele concordou em ir relutantemente, em maior parte porque seus filhos queriam tentar a sorte na Terra-Média, e porque ele temia o que poderia acontecer com as pessoas se elas fossem deixadas à mercê da liderança de Fëanor. Quando os Noldor atacaram Alqualondë e os Valar os condenaram a um destino terrível, Finarfin silenciosamente retirou-se da rebelião e procurou o perdão dos Valar (e, esperançosamente, dos Teleri, seu povo por casamento). No fim, o reinado foi outorgado a Finarfin, cujas mãos não eram manchadas de sangue e cujo coração tinha a menor ambição dentre os filhos de Finwë.

Outros membros da família de Finwë que receberam praticamente nenhuma atenção ao longo dos anos foram as filhas de Finwë com Indis. Finwë tinha filhas? Bem, isso é o que “The Shibolleth of Fëanor” nos passa. Findis foi, de fato, a filha primogênita de Finwë e Indis. Ela era aparentemente muito parecida com a sua mãe em temperamento. Indis ficou em Tirion quando Finwë se uniu a Fëanor em Formenos. Ela não participou de nenhuma parte no governo dos Noldor, parecia, e Findis parece ter permanecido próxima de sua mãe. Quando a notícia da morte de Finwë chegou a elas, ambas partiram e retornaram aos Vanyar.

Originalmente, Finwë teria três filhas com Indis. Christopher Tolkien menciona que, de 1959 até 1968, foi a época que seu pai preparara várias genealogias para os Finwënianos. No entanto, a segunda filha, Faniel, nunca é mencionada em “The Shibboleth”, e pode ser que Tolkien pretendia tira-la da família. Como dito no Shiboleth, Irien (originalmente chamada Irimë, a terceira filha) nasceu entre Fingolfin e Finarfin. Ela era também chamada de Lalwendë, e foi o nome que em Sindarin se tornou Lalwen. Fingolfin e Lalwen eram muito próximos, e ela o acompanhou no exílio. Não sabemos mais nada sobre ela, mas algumas pessoas se perguntavam se Aranwë, pai de Voronwë, não poderia ser o marido ou filho de Lalwen. Presumivelmente, Lalwen permaneceu em Hithlum e deve ter sido morta ou capturada após a Nirnaeth. E uma vez que ela era próxima a Fingolfin, ela deve ter ativamente apoiado suas reinvidicações para o reinado.

Fingolfin afirmou sua realeza ao usar seu nome paterno. Finwë nomeou seus três filhos a partir de seu nome: Curufinwë (Fëanor), Nolofinwë (Fingolfin) e Aranfinwë (Finarfin). Fingolfin, ao que parece, iniciou o costume de usar o nome de seu pai como um símbolo de autoridade real. Portanto, ele se autodenominava Finwë Nolofinwë, talvez durante o debate com Fëanor em Tirion, mais provavelmente após o ataque em Alqualondë. O Shibboleth diz: “Fingolfin prefixou o nome Finwë a Nolofinwë antes dos Exílios alcançar a Terra-Média. Isto foi devido a dedicação a sua reinvidicação de ser o capitão de todos os Noldor após a morte de Finwë, e então enraiveceu Fëanor de tal forma que essa foi sem dúvida uma das razões para de sua traição ao abandonar Fingolfin a roubar todos os navios.”

Finafin não usou o nome Finwë. Curiosamente, o Shibboleth fala que Finrod criou o nome “Finwë Arafinwë”, ou Finarfin, após a morte de Fingolfin, numa época em que os Noldor se dividiram em reinados separados. Apesar de que essa afirmação pareceria contradizer “O Silmarillion” (que menciona explicitamente os reis dos Noldor anteriores à morte de Fingolfin), as intenções de Tolkien não são claras. Contudo, o uso do nome de Finwë como um prefixo se tornou uma prerrogativa real. De alguma forma, o nome de Finwë deve ter se tornado um sinônimo da palavra-título rei, e seria apropriado falar do governador dos Noldor como “O Finwë”. Após a Primeira Era, Gil-Galad teria sido o “Finwë” na Terra-Média.

As esposas dos filhos de Finwë receberam pouca atenção de Tolkien. A esposa de Fëanor, Nerdanel, era filha de um ferreiro chamado Mahtan em “O Silmarillion”. A família de Mahtan possuía cabelo castanho-avermelhado e ele deve ter sido o líder de uma comunidade de Noldor que morava perto dos salões de Aulë. Nerdanel tinha uma tez avermelhada, cujo filho Caranthir herdara. Numa nota adicionada ao “The Shibboleth of Fëanor”, o pai de Nerdanel é chamado Aulendur e Urundil, e fala-se que Aulendur suplantou Mahtan, que, no entanto, foi o nome que Christopher utilizou para ele em “O Silmarillion”. Outro nome para sua personagem, do qual Christopher não tem muita certeza, deve ter sido “Sarmo”. Ele usava uma auréola de cobre em volta de sua cabeça e gostava muito de cobre. Maedhros era aparentemente muito parecido com ele em temperamento e aparência, e também usava uma auréola de cobre. Quando Fëanor se tornou beligerante demais a ponto de Nerdanel não suporta-lo mais, ela retornou para a casa de seu pai. Aulë persuadiu Aulendur e sua família para não seguir Fëanor ao exílio. Nerdanel pediu que Fëanor deixasse os filhos mais novos em Aman, mas ele recusara. Ela então previu que os mais novos nunca chegariam a Terra-Média.

A esposa de Fingolfin era Anairë. Ela era uma Noldo, mas tudo o que sabemos é que ela era amiga de Eärwen (esposa de Finarfin) e que ela recusou a seguir Fingolfin ao exílio “em grande parte devido a sua amizade com Earwën”. Earwën era filha de Olwë de Alqualondë. Ela tinha cabelos prateados como outros membros de sua família. Numa primitiva história de Galadriel publicada em “Contos Inacabados”, Tolkien escreveu que Finrod “tinha também de sua mãe Teleri um amor pelo mar e sonhos de terras longínquas que ele jamais vira” Não está claro se Eärwen era antiga o bastante para ter nascido na Terra-Média, mas o texto parece dar a entender que os Teleri de Alqualondë (ou pelo menos Eärwen), não eram totalmente alheios a Terra-Média. Os Teleri haviam passado grande parte de seu tempo vivendo na ilha de Tol Eresseä antes de Ulmo comandar Ossë a ensina-los a arte da construção de barcos para que eles pudessem finalmente navegar até Aman e se unir aos Eldar ali.

Fëanor e Nerdanel tiveram sete filhos, como O Silmarillion nos fala: Maedhros, Maglor, Celgorm, Curufin, Caranthir, Amrod e Amras. O Shibboleth fala que seus nomes paternos (dados em Quenya) eram Nelyafinwë (“Finwë Terceiro”, como em Finwë III, Finwë o Terceiro), Karafinwë, Kurufinwë (Curufinwë no Silmarillion), Morifinwë, Pityafinwë (“Pequeno Finwë”) e Telunfinwë (“Último Finwë”). Fala-se que Maedros era o mais belo dos filhos, e Curufin era o favorito do pai porque ele era o mais parecido com Fëanor em espírito e habilidade. Curufin também parecia com sua mãe mais do que os outros filhos. Seus nomes maternos eram Maitimo, Makalaure, Tyelkormo, Atarinke (“Pequeno Pai”), Carnistir (“Cara Avermelhada”), Ambarusso e Ambarusso. Os dois Ambarussos eram gêmeos e Fëanor pedira a Nerdanel para dar a um deles um nome diferente. Ela escolhera Umbarto (“Destinado”), que Fëanor mudara para Ambarto (“Exaltado”), e ele deu esse nome ao mais novo.

“The Shibboleth of Fëanor” conta que Nerdanel pedira a Fëanor para deixar os gêmeos com ela, ou pelo menos um deles, quando ele estava preparando para a liderança dos Noldor ao exílio. Ele recusou, repreendendo-a por seguir o conselho de Aulë ao invés da vontade de seu marido, e Nerdanel profetizou que um de seus filhos não chegaria a Terra-Média. Quando Fëanor queimou os navios roubados em Losgar, ele reuniu seus filhos na costa e encontrou somente seis deles. Então Ambarussa contou a ele que Ambarto havia dormido em seu navio. “Aquele navio eu destruí primeiro”, Fëanor respondeu. “Então certo você estava em nomear o mais novo dos seus filhos”, Ambarussa respondeu, “e Umbarto o Destinado era a sua forma verdadeira”. Uma nota final diz que o nome de Ambarussa se tornou Amros em Sindarin (e não Amrod, como registrado no Silmarillion). Onde quer que o Silmarillion fale de Amros e Amras após a queima em Losgar, é mais correto entender que somente Amros estava presente.

Dos filhos de Fëanor e Nerdanel, somente três tiveram esposas: Maglor, Curufin e Caranthir. Na nota sete, adicionada ao ensaio “Dos Anões e Homens” (“The Peoples of Middle-Earth”, pp. 295-330), Christopher cita uma nota que seu pai fez em 1966 após a segunda edição de Senhor dos Anéis ter sido publicada. Nela, Tolkien decidiu que Celebrimbor (chamado senhor de Eregion nos apêndices) deve ser o filho de Curufin, pois Maedhros e os gêmeos não tiveram esposas. Curufin, herdando a maior parte da habilidade paterna dentre os sete, passou sua habilidade (e provavelmente muita história) para Celebrimbor, que desaprovou o comportamento de seu pai em Nargothrond. Celebrimbor ficou para trás. A mulher de Curufin escolheu não seguir seu marido no exílio, então ela permaneceu em Aman dentre as pessoas governadas por Finarfin (e era, portanto, provavelmente uma Noldo). Não há menção de quaisquer outros netos de Fëanor e Nerdanel, e os destinos das esposas de Maglor e Caranthir não são dados.

Fingolfin e Anairë tiveram quatro filhos: Findekano (Fingon), Turukano (Turgon), Irissë (Aredhel) e Arakano (Argon). Apesar de Anairë ter permanecido em Valinor quando Fingolfin foi ao exílio, todos seus filhos seguiram Fingolfin. Fingon liderou a vanguarda da multidão de Fingolfin, e ele foi acompanhado de sua mulher, Elenwë dos Vanyar. Irissë era próxima a Turgon como sua tia Irien (Lalwen) era próxima a Fingolfin. Irissë permanecera com o povo de Turgon até persuadir que ele a deixasse visitar Fingon em Hithlum. Em vez disso, após deixar Gondolin, ela fugiu de sua escolta e vagou ao leste em Nan Elmoth. Ali ela casou-se com Eöl e teve um filho, Maeglin, com quem ela retornou a Gondolin muitos anos depois.

Arakano surgiu relativamente atrasado, provavelmente após a segunda edição de Senhor dos Anéis ter sido publicada. Ele é descrito como “o mais alto dos irmãos e o mais impetuoso”. Tolkien achou difícil designa-lo um papel na história completa em geral, e primeiro ele criou mortes para Arakano em Aman. Mas por fim Tolkien decidiu que a multidão de Fingolfin seria atacada por um exército de Orcs quando os Noldor passassem ao sul ao longo da costa da Terra-Média. Ali Arakano distinguiria e se sacrificaria por seu povo:

Quando o começo do ataque dos Orcs pegou a multidão desprevenida como se ela estivesse marchando ao sul e as fileiras dos Eldar estavam abrindo caminho, ele saltou e cortou um caminho através dos inimigos, amedrontando por sua estatura e pela terrível luz de seus olhos, até chegar o capitão Orc e ele render-se. Então apesar de estar cercado e morto, os Orcs estavam consternados, e os Noldor os perseguiram com matança.

O nome de Arakano assim nunca foi formalmente transformado para o Sindarin, “mas a forma Sindarim Argon foi mais para frente por vezes utilizada como um nome pelos Noldor e Sindar em memória de seu valor” (“Peoples of Middle-Earth”, p.345).

Fingon também era impetuoso. Ele não apenas se apressou para ajudar Fëanor, ele liderou os ataques opostos contra as forças de Morgoth, quando quer que Hithlum fosse atacada. E quando Gwindor liderou sua companhia de soldados Nargothrondianos contra o exército de Morgoth na Nirnaeth, Fingon não podia mais se conter. Ao invés de esperar por Maedhros, como ele devia, ele pôs seu capacete, montou em seu cavalo, e encarregou-se para a glória, morte e derrota. Fingon era sem dúvida um dos maiores guerreiros dos Eldar, pois foi preciso mais do que um Balrog para mata-lo no fim, e suas realizações pessoais registradas no campo de batalha superaram àquelas de outros príncipes Élficos.

Turgon era sem dúvida o mais sábio dos filhos de Fingolfin, e por uma razão não revelada, ele era um dos favoritos de Ulmo entre os príncipes Noldorin. Pode ser que, uma vez que Turgon tomou o governo sobre os Elfos Sindarin de Nevrast, Ulmo sentiu que Turgon seria o único rei Noldorin a encomendar a construção de navios com o propósito de procurar ajuda para Aman. O Shibboleth registra que a mulher de Turgon, Elenwë, pereceu em Helcaraxë. Ela e sua filha, Itaril se renderam, e Turgon resgatara Itaril, mas Elenwë foi esmagada pelo gelo. Parecia, através de uma observação enigmática no Shibboleth, que Irissë e Elenwë eram amigas muito próximas.

Quando Fingolfin nomeou Findekano, ele não necessariamente usou o termo originário de “Finwë”, um antigo nome Élfico dado em uma época quando nomes eram outorgados a alguém conforme eles soavam. Nem, o Shibboleth nos conta, deve ter sido necessário. O uso de uma palavra similar honrava o nome ancestral. Findekano é descrito usando “seu longo cabelo escuro em grandes tranças amarradas com ouro”. Tolkien tinha várias considerações sobre a vida pessoal de Findekano. Apesar do Silmarillion nos contar que Gil-Galad era seu filho, Christopher Tolkien admite em ambas as obras “The War of The Jewels” e “The Peoples of Middle-Earth” que ele estava errado quando incorporou Gil-Galad no livro como um filho de Fingon. Christopher menciona que todas as tabelas genealógicas mostram Fingon com uma esposa não nomeada e dois filhos: Ernis (mais tarde Erien) e Finbor. Mas sua família foi retirada da genealogia final e Tolkien escreveu uma nota dizendo que Fingon “não tivera mulher ou filhos”.

Deveria ser, sem dúvida, necessário interpretar algum destino deprimente para ambos Erien e Finbor, uma vez que Finbor seria o herdeiro de Fingon. Serviu para o propósito de Tolkien mover Gil-Galad para a família de Finarfin. Então, o Alto Reinado passou de Fingon, que não tinha filhos, para Turgon, e então para a família de Fingolfin (a linhagem masculina que terminava com Turgon) para a família de Finarfin.

Os filhos de Finarfin e Eärwen eram Findarato Ingoldo (Finrod), Angarato (Angrod), e Newendë Artanis (mais tarde chamada Altariel, Galadriel). O Silmarillion coloca Orodreth (Artaher ou Arothir) entre os filhos de Finarfin, mas a decisão final foi que ele fosse filho de Angrod e Eldalote (Edhellos em Sindarin). Ela era uma Noldo, e Arothir nascera em Aman. O Silmarillion fala que Orodreth ficou ao lado de Finarfin quando este defendeu com os Noldor a decisão de não seguir Fëanor para o exílio.Seria totalmente inconsistente com a genealogia final para Arothir manter esse papel. Ele era um rei guerreiro relutante e somente gradualmente ele se permitiu influenciar pelas medidas agressivas de Túrin.

A decisão final de Tolkien acerca de Finrod é intrigante. Em agosto de 1965, ele escreveu uma breve explicação sobre a descendência de Gil-Galad. O texto diz “Finrod deixou sua mulher em valinor e não teve nenhum filho no exílio”. A esposa de Finrod (não nomeada aqui) deve ser Amarie dos Vanyar. Mas a frase pode significar uma das três coisas: que Finrod e Amarië tiveram filhos que permaneceram em Valinor, que eles não tiveram filhos, ou que eles tiveram filhos após os Valar terem restaurado sua vida. É tentador racionalizar a afirmação de Gildor Inglorion, quem Frodo, Sam e Pippin conheceram no Condado, com sua declaração um tanto quanto ambígua. Isto é, Gildor contou a Frodo que ele era “da casa de Finrod”. Até aonde sabemos, havia somente um Finrod. Originalmente, o nome Finrod foi dado ao pai, e o príncipe que fundou o reino de Nargothrond foi chamado de Inglor. Mas ao revisar O Senhor dos Anéis para a segunda edição, Tolkien modificou Finrod para Finarphir (mais tarde se tornou Finarphin, Finarfin) e Inglor para Finrod. Mas ele não mudou o nome de Gildor.

Se Gildor é realmente um descendente de Finrod, ele deve ter nascido em Valinor. Mas se é esse o caso, como ele chegou na Terra-Média, e quando? Tolkien parece ter omitido Gildor completamente. E as pessoas são rápidas a notar que Gildor nomeia a si mesmo como um Exilado (ou, melhor, ele diz, “Nós somos Exilados”). Como Gildor poderia ser um Exilado se ele nasceu após Finrod ter sua vida restaurada? A resposta para essa questão é simples: qualquer filho dos Noldor que foi para o exílio, e que estava vivendo na Terra-Média, seria um Exilado (um subgrupo dos Noldor) tanto quanto ainda era um Noldor. No entanto não há nenhum texto que associa Gildor com o renomeado Finrod/Finarfin ou o renomeado Inglor/Finrod (exceto seu próprio nome, que significa “parente de Inglor”).

Uma nova dificuldade surgindo da conexão de Gildor com Finrod é que, se ele estava vivo na Terra-Média quando Gil-Galad perecera, não deveria ele ser apto para reinvidicar a Alta Soberania sobre os Noldor? Pode ser que tal reinvidicação seria julgada inválida, uma vez que o reinado passara para a linhagem de Orodreth (assim como passara da linhagem de Fëanor para a de Fingolfin e depois para a de Finarfin). O reinado poderia descer, mas não subir. No entanto isso é insatisfatório. Poderia ser também que Gildor tenha chegado com um dos Istari, apesar de ser falado que apenas Glorfindel chegou a Terra-Média após a Queda de Númenor. De fato, há uma frase associada ao Shibboleth que afirma que “pouco foi ouvido na Terra Média sobre Aman após a partida dos Noldor. Aqueles que retornaram para aquela direção nunca mais voltaram, desde a mudança do mundo. Eles foram para Númenor muitas vezes em seus primeiros dias, mas pequena parte das lendas e histórias de Númenor sobreviveram a sua Queda”.

Novamente temos aqui uma frustrante frase ambígua. “Aqueles que retornaram (para Aman) nunca voltaram, desde a mudança do mundo”. O que seria a mudança do mundo, senão o evento no qual Ilúvatar transformara o mundo, removendo Aman dos círculos do mundo e destruindo Númenor? A frase a seguir parece indicar que os Noldor (de Tol Eressëa) somente navegaram para o leste como para Númenor em seus anos primordiais. Mais ainda, a passagem não descarta completamente uma travessia para o leste por alguém de uma geração mais nova. De fato, em uma de suas últimas notas sobre Glorfindel, Tolkien decidiu que ele realmente retornou a Terra-Média por meio de Númenor em meados da Segunda Era, quando Gil-Galad estava se preparando para o ataque de Sauron no século XVII (A Guerra entre os Elfos e Sauron durou de 1695 a 1701).

Qualquer que seja a verdadeira relação de Gildor com os Finwënianos, ele não pode ser um descendente de Finwë que passou para o exílio com Fëanor e Fingolfin. Ele também nem pode ser um filho de Finrod nascido na Terra-Média. Se ele fosse um descendente de Finrod, apesar de que ele pode originalmente ter sido um filho de Finrod, seu nome, como preservado no cânone de Senhor dos Anéis indica que deveria haver um Inglor, que poderia talvez ser filho de Finrod e Amarië, nascido em Valinor após Finrod ter voltado à vida. Mas tais especulações não vão longe, faltando apoio textual.

A história de Galadriel é tão intrigante e complicada quanto à ancestralidade de Gildor. Tolkien mudou sua história mais de uma vez e, fazendo tais mudanças, Tolkien alterou suas relações com ambos Celebrimbor e Celeborn. Celeborn era originalmente um elfo da floresta, mas como o tempo ele foi modificado para ser um Elfo Sindarin com parentesco com Elwë, através de um irmão mais novo, Elmo. Porém, no último ano de sua vida, Tolkien decidiu que Celeborn deveria ser um neto de Olwë, nascido em Alqualondë. Parece que Tolkien esqueceu (em períodos de sua vida) as antigas restrições Eldarin contra o casamento entre dois primos de primeiro grau. (cujo princípio é referido na estória de Maeglin, apesar de, como publicado em “O Silmarillion”, essa estória é em maior parte trabalho de edição de Christopher e redução de materiais mais antigos).

Apesar disso, podemos ter certeza de que Galadriel era filha de Finarfin e Eärwen, e que ela nunca se deu bem com Fëanor. No entanto, ela compartilhou dos sonhos de Finrod de outras terras, e ela era ambiciosa. Ela desejava governar seu próprio reino. Apesar de quer ela tenha seguido para o exílio com Fëanor ou (como conta a última estória de 1972) precedeu ele com Celeborn, Galadriel foi levada para o destino dos Noldor. Como seu povo, ela estava proibida de retornar a Aman. Também permanece certo que Galadriel, de alguma forma, se tornou proximamente ligada a Melian em Doriath por um tempo, e que ela e Celeborn passaram por Ered Lindon antes de Nargothrond e Gondolin terem sido destruídas.

A partida de Galadriel de Beleriand não é mencionada no Silmarillion. Eu suspeito que isso teria acontecido em alguma ocasião entre a Dagor Bragollach (455) e a Nirnaeth Arnoediad (473). Muitos Sindar do norte fugiram para o leste através de Ered Lindon durante ou imediatamente em seguida a Dagor Bragollach. A melhor oportunidade para Galadriel e Celeborn de partir seria quando esses Sindar estavam abandonando a guerra. Galadriel e Celeborn teriam sido acolhidos entre eles, e a desaprovação de Galadriel das medidas Noldorin deve ter induzindo-a a sair de Beleriand enquanto estava tudo bem.

Angarato (Angrod) trouxe sua esposa, Eldalote, e seu filho, Arothir (Orodreth), para o exílio. Eles se estabeleceram em Dorthonion com Aikanaro (Aegnor), que nunca se casou. Angrod possuía uma grande força e ele ganhou o apelido de “Angamaite” (mãos de ferro). Angrod pereceu na Dagor Bragollach, mas Arothir escapou e fugiu para o sul para se juntar a Finrod na Nargothrond.

Conta-se que Aikanaro (Aegnor) foi “renomado como um dos mais valentes dos guerreiros, muito temido pelos Orcs: em ira ou batalha a luz de seus olhos eram como chamas, apesar de que, de outra maneira, ele era de natureza generosa e nobre. Mas no começo da juventude a luz ardente podia ser observada; enquanto seu cabelo era notável: dourado como o de seus irmãos e irmãs, mas forte e duro, erguendo-se de sua cabeça como chamas”. Aegnor não teve esposa, mas emerge em “Athrabeth Finrod ah Andreth” (“Morgoth´s Ring) que ele se apaixonou por Andreth, uma sábia mulher Beoriana, enquanto ela era um tanto jovem. Apesar de ele desejar casar com ela, ele aparentemente confiou a Finrod (ou Finrod entendeu implicitamente) o fato de que ele previra sua própria morte em batalha, e ele não desejava deixa-la viúva, ou qualquer criança que ela poderia ter com ele órfã. Andreth viveu até envelhecer e deve ter vivido até a Dagor Bragollach, apesar da data de sua morte não ser registrada.

A genealogia dos Finwënianos envolve alguns nomes espalhados nas gerações seguintes: Celebrimbor, filho de Curufin; Idril (Itaril), filha de Turgon; Arothir (Orodreth), filho de Angrod e Eldalote; e Celebrian, filha de Galadriel e Celeborn. Idril se casou com Tuor e teve um filho dele, Eärendil. Ela era sábia o bastante para prever a necessidade de um caminho escondido para escapar de Gondolin, e seu cabelo era tão dourado quanto o de sua mãe Vanyarin. Arothir (Orodreth) permaneceu próximo de Finrod e estava entre os poucos nobres que apoiaram Finrod quando ele se sentiu obrigado a pagar sua dívida a Beren. Finrod fez de Arothir seu capataz em Nargothrond, e quando se ouviu falar da morte de Finrod, Arothir guiou Celegorm e Curufin fora do reino.

Arothir casou com uma dama Sindarin do norte, apesar de seu nome não ser registrado. Seus filhos foram Erenion (descendente de reis) e Finduilas. Finduilas era loira, e o próprio Arothir devia ter sido loiro. Apesar de que ela amava Gwindor, quando ela conheceu Túrin, ela não podia fazer nada além de se apaixonar por ele. E, no entanto, Túrin não correspondera aos seus sentimentos. Finduilas foi aprisionada quando Nargothrond rendeu-se a Glaurung e seus Orcs, mas os Orcs mataram-na e também os outros prisioneiros quando eles caíram numa cilada armada pelos Homens de Brethil.

Ereinion escapou do saque de Nargothrond e seguiu seu caminho ao sul para a desembocadura do Sirion. Dali ele chegou a Círdan na ilha de Balar e foi nomeado Alto Rei dos Noldor no Exílio. Sua mãe nomeou-o Gil-Galad.

A autoridade real de Finwë terminou com Gil-Galad. Mas a ambição dos príncipes Finwënianos parece ter parado com Gil-Galad também. Pois apesar dele ter estabelecido um reino poderoso em Lindon, que durara mais de 3000 anos, ele, aparentemente não teve uma esposa. Eärendil deixara a Terra-Média para sempre, e as ambições de seus ancestrais parecem somente ter sido realizadas por seu filho Elros, quem dada a oportunidade entre escolher a mortalidade e o reino dos Elfos, escolheu ser Rei de Númenor, porém mortal. Seu irmão Elrond escolheu ser do povo dos Elfos, mas nunca estabelecera seu próprio reino. Ele governara Imladris como um posto avançado do reino de Gil-Galad na Segunda Era e manteve-o como uma fortaleza do poder Eldarin na Terra-Média. Mas Elrond nunca teve o título de rei. Pode ser que, legalmente, ele sentia que não podia exigir um reinado, uma vez que Eärendil era filho de um homem mortal e não de um Rei Élfico.

Mas talvez Elrond reconheceu que o tempo dos Finwënianos Élficos tinha vindo e acabado. Por quatro mil anos eles governaram reinos poderosos na Terra-Média, e opuseram-se aos seus inimigos. Apesar de suas falhas, os Finwënianos forneceram grande sabedoria aos Homens, e através do casamento de Idril com Tuor eles outorgaram um antigo e nobre patrimônio às grandes casas de Númenor e seus reinos sucessores. Enquanto os príncipes Eldarin desapareciam, um por um, seus primos Númenoreanos ascenderam à cena principal e assumiram o papel central na obra em andamento da história da Terra-Média.

[Tradução de Helena ´Aredhel´ Felts]