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O Conto de Um Hobbit Caí­do (Sméagol/Gollum)

“Nas profundezas da água escura viveu o velho
Gollum, uma criatura pequena e repugnante. Eu não sei da onde veio, nem
o que era. Ele era um Gollum tão escuro quanto a própria escuridão,
exceto pelos grandes olhos pálidos na sua face magra. Ele tinha um
barquinho, e ele navegava silenciosamente pelo lago, já que esse lago
era grande, fundo e mortalmente frio. Ele remava com seus pés grandes
pendendo pelos lados do barco, mas ele nunca criou uma onda sequer…"?
 
 
 
A nossa primeira impressão de Gollum não nos
remete à fisionomia dos Hobbits. Quando nós o conhecemos, ele nos
pareceu um monstrinho horrível, predando peixes cegos e goblins nas
profundezas escuras da terra, determinado a matar o respeitável Bilbo
Bolseiro. J.R.R. Tolkien diz, “Eu não sei da onde ele veio, nem quem ou o que ele era." A criatura, ele continua, é um “Gollum". Dali por diante, O Gollum se tornou, simplesmente “Gollum".


“…e lá vivia nas margens do Grande Rio perto de uma terra selvagem
pessoas de mãos leves e pés silenciosos. Eu acho que eles eram da
espécie dos Hobbits: parentes dos pais dos pais dos Stoors, “Gandalf
diz ao sobrinho e herdeiro de Bilbo, Frodo Bolseiro muitos anos depois:
“Havia entre eles uma família de alta reputação,"
ele continua. “Os
mais inquisidores e curiosos daquela família era chamado Sméagol. Ele
estava interessado nas raízes e no início de tudo; ele cavava poços
profundos; se enfiava sob árvores e plantas crescidas; criava túneis em
barragens; se recusava a olhar para os topos das montanhas, ou para as
folhas nas árvores, ou para as flores desabrochando no ar: sua cabeça e
olhos miravam sempre para baixo."

Smeágol era uma criatura
miserável enquanto viveu: ninguém o queria, era infeliz, amargo e
invejoso. Ele virou as costas para o mundo e seu próprio povo muito
tempo antes de ser gravemente expulso. As profundezas de seu coração se
tornaram negras de cheias de ódio muito antes de sua aparência externa
se tornar hedionda. Seu espírito pouco lembrava o de um Hobbit.

Existiam três grandes tribos Hobbit: Harfoots, os mais numerosos;
Fallowhides, os mais aventureiros; e os Stoors. Os Stoors viviam nas
margens dos rios, mas eles eram muito mais dedicados ao comércio e à
viagens. Eles freqüentemente se associavam aos anões e aprenderam muito
com eles. Os Stoors eram os mais duros e territorialistas dentre os
Hobbits, isso antes deles encontrarem um lar seguro.

Os
Hobbits viveram nos vales do Anduin por muito tempo. Eles provavelmente
se instalaram por lá perto do fim da Segunda Era, errantes ou
refugiados vindos de terras orientais distantes nos dias em que os
exércitos de Sauron conquistavam vastas regiões no oriente da
Terra-Média. Os Hobbits fizeram amigos entre os Edain de Rhovanion, os
Homens Livres do Norte, de onde depois veio a linhagem dos Beornings,
os Homens do Vale e Long Lake, e os Rohirrim. Nesses primeiros anos os
Hobbits procuraram pelos homens e se instalaram perto de suas cidades,
ou compartilharam cidades, como Bri na Terceira Era.

Muitos
Hobbits – Harfoots e Fallowhides – devem ter migrado para o norte, pois
os Edain foram empurrados para as montanhas e terras distantes durante
a grande guerra entre os elfos e Sauron. Isso deve ter ocorrido muitos
e muitos anos antes deles se tornarem suficientemente numerosos para
colonizar as terras do sul próximas a Lothlórien. Mas enquanto os
homens se multiplicavam e migravam lentamente para o sul, aparentemente
foram deixando os Hobbits para trás. Exceto os Stoors. Esse povo
parecia ter se estabelecido perto do Rio Gladden, originalmente, onde
eles poderiam estar próximos dos anões de Khazad-dûm, onde estariam
relativamente protegidos pelo poder de Khazad-dûm e Lothlórien.

Perto do ano 1000 da Terceira Era, Sauron começou a tomar forma
novamente, e descobriu que Mordor estava suficientemente fortificada
para o seu retorno que se deu nas planícies de Amon Lanc no sul da
grande Greenwood. A colina um dia foi o coração de um reino élfico, mas
desde que os elfos migraram para o norte não há nada na floresta que se
oponha a Sauron. Ele construiu uma grande fortaleza na colina, que
passou a ser conhecida como Dol Guldur [a colina da bruxaria]. E Sauron
começou a colonizar as terras do sul de Greenwood e os vales do sul do
Anduin com as suas criaturas: Orcs, Trolls, Lobisomens, Wargs e homens.
Criaturas orientais sempre foram fontes de problemas para o grande
reino de Gondor, mas agora as tribos chegaram e se assentaram nos vales
do Anduin e os rumores da força negra no sul se espalharam pelo norte.

Os Harfoots, talvez lembrando seu passado ou histórias contadas sobre
as guerras entre os elfos e os antigos poderes negros, passaram pelas
montanhas sombrias indo para Eriador, para nunca mais retornar. Os
Fallowhides os seguiram 100 anos depois, e ao mesmo tempo que os Stoors
abandonaram sua terra natal no rio Gladden atravessando Redhorn para o
antigo reinado élfico de Eregion. De lá os Stoors foram para o norte,
para uma terra chamada Angle, que ficava entre os rios Mitheithel e
Bruinen, ou passaram para o sudoeste até as fronteiras de Dunland.

Os Stoors do Angle viviam sob as leis dos Dunadain de Rhudaur. Os
Hobbits aumentaram o poder desse reino, mas menos de 200 anos depois o
reino de Angmar cresceu nonorte e ameaçou Rhudaur. Os Hobbits deixaram
seus lares mais uma vez. Os Stoors do Angle se dividiram: alguns
migraram de volta pelas montanhas sombrias para os vales do Anduin. O
terror de Angmar parecia maior que o de Dol Guldur. E ao menos nos
vales do Anduin eles estariam próximos de reinos poderosos dos anões e
elfos.

Então, por mais de 1000 anos os Stoors viveram
relativamente em paz. Os Edain que viviam nas proximidades aparentavam
ser amistosos com relação à eles, ou simplesmente não queriam arrumar
problemas com esse povo. Durante esses anos remanescentes de um reino
dos homens ao norte do que hoje seria Mirkwood se alojaram no vale do
Anduin próximo aos Stoors. Esses eram os pais do Éothéod, o povo
cavalo, que migrou para extremo norte anos depois. Mas esse povo
lembrava os Stoors, a quem chamavam cava-buracos, e eles levaram
memórias como essa com eles quando Lord Eorl os levou para o sul e
fundou o reino de Rohan.

No 25o. século da Terceira Era, não
muito depois do nascimento de Eorl, Sméagol o Stoor e seu primo Déagol
foram fazer uma expedição de barco. Era o aniversário de Sméagol.
Déagol pulou na água, talvez para pegar um peixe e achou um anel
dourado caído no meio da lama. Ao emergir, mostrou o anel para Sméagol,
que o ordenou que o desse como presente. “Mas eu já lhe dei o meu presente", Déagol respondeu. “Eu o encontrei e vou ficar com ele."

Mas o desejo pelo anel consumou Sméagol, pois era o Um Anel, o anel
mestre de Sauron, que há muito tempo atrás Isildur cortou da mão de
Sauron e o manteve para si. No final, o anel traiu Isildur, que
resultou na sua morte nas águas do Anduin, e agora o anel foi desperto
pela malícia de Sauron e desejava retornar para seu mestre. Sméagol
matou seu primo e pegou para si o anel. Com o tempo ele aprendeu que,
enquanto usasse o anel ele não poderia ser visto. Ele passou a usar o
anel para benefício próprio e logo se tornou impopular entre seu povo.
Foi então que ele começou a resmungar consigo mesmo “gollum….
gollum", e os Stoors o apelidaram de Gollum.

Um dia, os Stoors
expulsaram Gollum e ele nunca mais foi visto entre seu povo. Ele vagou
pelas terras, só e miserável, até que resolveu ir para as montanhas e
descobrir suas raízes e segredos. Assim ele desapareceu do mundo da luz
e se perdeu na escuridão da terra e levou consigo o Um Anel. Por mais
de 500 anos ele vagou na escuridão, predando Orcs e peixes. O anel
extendeu a vida de Gollum, mas ao invés de garantir-lhe mais vigor,
lentamente o drenou e o escravisou. Ele estava consumido pelo anel, com
quem ele falava constantemente e o chamava de Precioso. Na sua mente, o
Precioso era seu por direito, não por assassinato. O anel o procurou. E
mesmo assim, não lhe deu nenhuma alegria, e não tinha nenhum conforto
ou consolo na sua solidão.

Quando Bilbo entrou na caverna de
Gollum por acidente, os primeiros pensamentos que vieram à mente de
Gollum foram de comida e assassinato, porém, logo depois vieram
memórias de sua juventude, de coisas que costumava gostar. Por uns
momentos, Gollum chegou a gostar do jogo de charadas que mantinha com
Bilbo, até que ele confundiu a preocupação de Bilbo com o que havia em
seu bolso com uma charada de verdade. Nas regras do jogo, Gollum
perdeu, e aceitou a derrota. Mas ao retornar à sua ilha, descobriu que
o se querido anel havia desaparecido.

Bilbo encontrara o anel,
e Gollum descobriu que era ele que estava no bolso do Hobbit. A partir
daquele momento, Gollum foi tomado pela necessidade de reaver o anel.
Ele caçou Bilbo sem sucesso, pois o Hobbit descobriu o poder do anel e
se escondeu da vil criatura. Depois da saída de Bolseiro, Gollum brigou
consigo mesmo na escuridão, com medo da luz, mas com a dor de ter
perdido seu Precioso. Com o tempo ele se lançou ao ar livre e começou a
procura por seu tesouro perdido.

Muitos anos passaram até que
Gollum finalmente encontrou o Um anel. Na época Sauron envocou todas as
criaturas malignas, pois o Senhor do Escuro havia retornado para seu
antigo domínio e começou a reconstruir Barad-dûr. E Gollum, que até
então estava obstinado em sua caça por Bilbo Bolseiro e pelo Anel
acabou por obedecer ao chamado. Ele rumou em direção a Mordor, onde foi
aprisionado e levado à frente de Sauron, onde falou tudo o que ocorrera
com o anel após a morte de Isildur.

Solto por Sauron por algum
propósito oculto, Gollum se tornou um peão num jogo mortal entre os
poderes da Terra Média. Ele logo foi capturado por Aragorn, capitão dos
Dúnedais do norte e levado aos elfos de Mirkwood. Lá ele foi
interrogado por Gandalf, que aprendeu com ele tanto quanto Sauron
havia. Mas, com o tempo, Gollum escapou e rumou para o sudoeste, até
chegar a Moria. Incapaz de escapar, Gollum permaneceu lá na miséria e
esperando morrer [ou talvez querendo morrer]. Em vez disso, a sorte
pareceu sorrir para ele, pois um dia os portões do oeste, que ele não
tinha forças para abrir, se abriram e nove aventureiros entraram: o
mago Gandalf, Aragorn e seus companheiros: a sociedade do anel.

Daquele momento em diante, Gollum perseguiu o anel desesperadamente,
levado por sua malícia e poder. Quando a sociedade foi dividida no
ataque dos orcs, Gollum seguiu Frodo e Sam pelo Anduin, e no vale de
Emyn Muil os interceptou. Mas Frodo e Sam o derrotaram, e o fizeram
prisioneiro, e forjaram uma perigosa parceria com ele.

A
jornada de Gollum com Frodo praticamente o redimiu. Com a gentileza e
sabedoria de Frodo, Gollum passou a se ver novamente como um indivíduo,
e se lembrou de quando ainda era Sméagol, e como era viver e amar
outras criaturas.Mas o servo de Frodo, Sam, impediu sua total redenção.
No momento crucial da redenção de Gollum, Sam não quis ajuda-lo, dando
suas costas para ele. Em retorno, Gollum endureceu seu coração e traiu
Frodo e Sam.

Ainda assim, havia uma grande maldição associada
ao anel e a todos que o desejasse. Escravizado pelo anel, e seguindo
Frodo para onde quer que ele fosse, Gollum não pode dar as costas e
procurar por terras mais seguras. Ele caminhou pelo coração de Mordor e
tentou novamente recuperar o anel. Mas agora ele estava fraco, e o
espírito de Frodo estava muito forte. Mas além disso, o poder do anel
havia crescido também, já que se aproximava da mão de seu mestre e do
local de sua forja.

“Saia!" gritou uma voz vinda do anel.
“E não me importune mais! Se você me tocar novamente, será lançado no
fogo da Montanha da Perdição!"

E era no fogo da perdição,
o Sammath Naur, onde um milênio antes Sauron forjara o anel, que Frodo
pretendia joga-lo. Lá ele esperava lança-lo nas chamas e então
destruí-lo e acabar com as forças de Sauron, pois esse depositou grande
parte de seu poder no anel. Gollum agora entendera o objetivo de Frodo,
e ao tentar desesperadamente impedir a destruição de seu Precioso, ele
passou por cima de Sam na Montanha da Perdição e seguiu Frodo até a
borda. Lá ele atacou Frodo novamente e, na briga, arrancou o dedo e o
anel de Frodo.

No júbilo de sua vitória, Gollum pulou alto e
dançou em êxtase, mas errou ao não notar a proximidade que estava da
borda, e assim, tropeçou e caiu nas profundezas do vulcão. E com ele
foi o anel, e quando o fogo destruiu o anel do poder de Sauron, seu
reino maligno caiu. Sauron ficou tão fraco que seu corpo foi destruído
quando as ruínas de sua fortaleza negra ruiu sobre ele, e seu espírito
negro desapareceu, impotente.

A história da relação de Gollum com Frodo é longa e comovedora. “Para mim," Tolkien escreveu para seu filho Christopher, “eu
estava particularmente comovido pela descrença de Sam na história, e,
na cena em que Frodo adormece em seu colo, e a tragédia de Gollum que,
naquela hora veio com um sinal de arrependimento, freado por uma
palavra dura proferida por Sam."

A história de Gollum e
seu relacionamento com o anel é trágica e patética, ainda que Tolkien
nota que o anel não era a causa da natureza ruim de Gollum:


“A dominação do anel foi muito forte para a alma má de Sméagol. Mas ele
não teria sentido-a se não tivesse se tornado um ladrão quando o anel
chegou até ele. A necessidade nunca havia cruzado o seu caminho? A
necessidade de algo perigoso nunca atravessou nenhum de nossos
caminhos? A resposta para isso pode ser encontrada ao tentar imaginar
Gollum superando a tentação. A história teria sido bem diferente!
Contemporizando, sem arrumar a semi-corrompida vontade de Sméagol, ele
ruma para a bondade com os bons tratos de Frodo e se enfraquece,
perdendo a chance, quando o amor dirigido a ele por Frodo é amargado
pela inveja de Sam na cova de Laracna. Depois disso ele se perdeu."

Existe uma dualidade na natureza da tragédia: Gollum se redime porque
existe algo nele que pode ser redimido, e Sam falha ao perceber ou
apreciar esse fato. “Para mim o momento mais trágico na história é quando Sam falha ao notar a completa mudança no tom de voz e aspecto de Gollum",
Tolkien escreveu para um fã. Sua recuperação é interrompida e toda a
piedade de Frodo é [de certa forma] desperdiçada. A toca de Laracna
parecia inevitável.

Isso é devido, claro, ao curso lógico da
história. Sam dificilmente teria agido de forma diferente. [Ele chega
ao ponto da piedade, mas tarde demais para Gollum.] Se tivesse sido
antes, o que teria acontecido? O caminho da entrada para Mordor e a
luta para chegar à Montanha da Perdição teria sido diferente, assim
como o final. O interesse teria sido redirecionado à Gollum, eu creio,
e a batalha seria travada entre seu arrependimento e seu novo amor de
um lado, e o anel de outro. Apesar de que o amor seria fortificado
dia-a-dia, ele não seria páreo para a vontade de ser o senhor do anel.
Eu acho que de alguma forma Gollum teria tentado [talvez não
conscientemente] satisfazer os dois lados. Certamente em algum ponto
não muito antes do fim, ele teria roubado o anel, ou tomado-o por meios
violentos [como acontece na história original]. Mas tendo satisfeita a
necessidade da “posse", eu creio que ele teria se sacrificado em nome
de Frodo e voluntariamente se jogado nas chamas do vulcão.

Mas
da forma como ocorreu, a redenção de Gollum nunca aconteceu. Sam
endureceu seu coração, destruindo com uma palavra toda a mudança que
Frodo operou em Gollum. Frodo perdeu todo o interesse pela Terra Média
por causa do Um anel, mas apesar de que, através de seu sacrifício a
Terra Média foi salva e Frodo encontrou a paz no extremo oeste. Gollum,
por sua vez, fez o maior dos sacrifícios: ele perdeu sua alma.

valinor

Caro Gandalf…

Em um dos muitos ensaios que ele escreveu sobre os Istari, J.R.R. Tolkien disse: "Entre os Homens (inicialmente), aqueles que tratavam com eles supunham que eram homens que haviam adquirido tradições e artes através de estudos longos e secretos". Essa é uma observação interessante, uma vez que muitas pessoas geralmente citam uma parte rejeitada de uma carta que Tolkien escrevera, na qual ele pensava que os Homens não poderiam ganhar magia através de tradução e estudos (ele se deu conta de que O Senhor dos Anéis invalidara esse ponto de vista, e escreveu "Mas os Númenoreanos usaram feitiços para forjar espadas?" na margem e decidiu não mandar esta parte da carta).

 

 

 

Tolkien provavelmente escreveu o ensaio sobre os Istari um pouco antes da carta a Naomi Mitcheson (Letters 154 e 155). Ele abandonou o ensaio, que seria uma parte de um catálogo extendido de O Senhor dos Anéis nunca publicado, quando se deu conta de que o projeto era muito pesado para a publicação inicial da estória (ele já tinha adaptado os apêndices propostos para obedecer à necessidade de espaço). A carta a Naomi Mitcheson representa um ponto tangencial, que ascendera rapidamente e perecera nas rochas do cânone publicado – uma ocorrência incomum nos meandros filosóficos de Tolkien através da Terra-Média. Mas o abandono do discurso sobre magia é, provavelmente, a melhor justificativa que os Tolkienologistas têm para argumentar a validade do ensaio sobre os Istari (que se contradisse a escritos posteriores). Mas o ensaio é, pelo menos, consistente em tema e contexto com a versão original de O Senhor dos Anéis.

Continuando a análise do ensaio, Tolkien disse: "(Os Istari) Apareceram pela primeira vez na Terra-Média por volta do ano 1000 da Terceira Era, mas por muito tempo andaram com aparência simples, como de homens já velhos, mas sãos de corpo, viajantes e caminhantes, adquirindo conhecimento da Terra-Média e de todos os que ali habitavam, porém sem revelar a ninguém seus poderes e propósitos".

Assim, os Istari foram inicialmente ignorados pelos Homens, até que a Sombra aumentou e a Terra-Média passou a ficar perigosa, ocasião em que eles começaram a se "intrometer" nos assuntos dos Elfos e dos Homens. Os Homens, por fim, perceberam que os Istari não morriam, então concluíram que eles deveriam ser Elfos. Essa conclusão só poderia ter sido elaborada após a Guerra de 1409. Nessa altura do campeonato, os Istari (provavelmente Gandalf e Saruman) que estavam envolvidos com os Dunedain e os Elfos de Eriador deveriam se tornar conhecidos, pelo menos para os líderes dos Elfos e Homens, e parece razoável supor que precisariam alguns séculos até que os Homens percebessem que aqueles dois caras não eram apenas Númenoreanos de vida longa, e sim, que eram alguma outra coisa.

Quando Faramir perguntou a Gandalf sobre ele próprio em Gondor, o Mago diz: "Tenho muitos nomes em diferentes lugares. Mithrandir entre os Elfos, Tharkûn para os Anões; eu era Olórin em minha juventude no Ocidente que está esquecido; no sul, Incánus, no norte, Gandalf…" Gandalf era o nome que os Homens do Norte deram a ele, e Tolkien tirou esse nome do Norueguês antigo, da Elder Edda, onde "Gandalfr" é o nome de um anão. O nome significa "Elfo da Peregrinação".

Outro nome entre os Homens nórdicos era Orald, o nome que deram a Tom Bombadil, um nome Anglo-Saxão que significa "Muito velho". O Anglo-Saxão e o Norueguês antigo já foram línguas intimamente associadas, até que uma mudança na fonética dividiu os diálogos do mundo nórdico. É, portanto, interessante notar que Tolkien dá nomes em Norueguês Antigo (o idioma que representava a língua de Valle e da Cidade do Lago) aos Istari mais associados a Eriador, e dá a Bombadil um nome Anglo-Saxão (idioma que representava a língua dos Rohirrim).

Podemos inferir que, talvez, ou o Westron de Eriador nos meados da Terceira Era estava mesclado com mais palavras nórdicas do que o Westron de Gondor, ou Gandalf e Bombadil passaram um bocado de tempo a mais nas Terras Selvagens. E vice-versa. O nome de Gandalf indica que ele não tinha negócios casuais com os Homens quando ele começou a ser notado significativamente entre eles. Eles decidiram que ele era um Elfo.

Às vezes eu penso que Gandalf estava à altura de um Elfo antes dele ser mencionado no Conto dos Anos. Ele provavelmente se encontrou com os Reis de Arthedain e Arnor em tempos de perigo – isso seria, provavelmente, durante a Guerra de 1409, a Grande Praga de 1636, a guerra de Araval com Angmar em 1851, e provavelmente no último século da existência de Arthedain, quando Araphant e Ostoher de Gondor restabeleceram as relações entre os dois reinos.

Pode-se apenas palpitar se Gandalf passara algum tempo entre os Éothed de outros Homens do Vale do Anduin. Será que ele inspirou Fram a encarregar-se de qualquer aventura que aparecesse, resultando na escravidão de Scatha, o Verme? Talvez não. É difícil imaginar Gandalf permitindo que um guerreiro valente e orgulhoso como Fram mandasse uma mensagem insultando os Anões como ele fez, a menos que a troca de descortesias tenha ocorrido após Gandalf ter se mudado.

Suas opiniões, no entanto, deveriam ser altamente respeitadas entre os Elfos e os Senhores Mortais, e pode-se facilmente ter a impressão de que Gandalf vagava de reino a reino nos meados da Terceira Era, distribuindo conselhos como uma espécie de "Caro Fulano" ambulante. Sua feroz espirituosidade e sarcasmo não poupariam rei ou príncipe que, imprudentemente, o procurassem para obter conselhos mundanos.

Caro Gandalf,

Há rumores de que o Rei-Bruxo de Angmar está movimentando seus exércitos pelas colinas. O que o povo de Arthedain deve fazer?

Argeleb.


Caro Argeleb,

Você já pensou em deixar alguns barris de cidra forte para os Orcs? Você poderia emboscar todos, uma vez que estarão caindo de bêbados. Se isso falhar, então eu sugiro que você mande um mensageiro veloz até Círdan nos Portos, para ver se ele pode dispensar alguns marinheiros para uma expedição por terra. Não há nada que um Orc ame mais do que um barril de cidra élfica forte.

Gandalf.


Caro Gandalf,

Estamos em dificuldades aqui. Um mensageiro chegou de Minas Anor com uma gripe atemorizante. Parece que todo o interior contraiu essa praga maldita. Você por um acaso não teria alguns pós mágicos para nos ajudar?

Argeleb II


Caro Argeleb,


Conheci brevemente seu bisavô. Desagradável aquele negócio com os Angmarianos, mas no fim tudo ficou bem. Quanto aos pós – sinto muito não poder ajuda-lo. Estão em falta, pois acabei de borrifar o último nos Homens dos Vales do Sul do Anduin. No entanto, você deveria pensar em mandar todos para as colinas para trocar estórias até que tudo passe. O quer que você faça, não aceite mais mensageiros de Gondor por um tempo! Boa sorte e aqueça-se. Beba muito Miruvor! Estarei em Bri no próximo Yule, se é que até lá restará Bri.


Gandalf.



Caro Gandalf,

Estávamos começando a tentar recolonizar Gondor, mas agora parece que Criaturas Tumulares malignas infestaram as antigas colinas e não há ninguém capaz de enfrenta-las. Você estaria disponível para nos dar uma mão?

Araval.


Caro Araval,

Sinto muito saber dos seus novos vizinhos. Essas Criaturas podem ser muito irritantes e problemáticas. Infelizmente, eu estou esperando um longo tempo pela manicure em Lothlórien e não estarei disponível pelos próximos cem anos, mais ou menos. No entanto, estou mandando um camarada que não se importará em ter as Criaturas como vizinhos e fará o melhor para que o mal não se espalhe. Você acha, no entanto, que pode arranjar uma bela donzela jovem para ele, que não dê bola para nenúfares e canções bobinhas?

Gandalf.



Caro Gandalf,

Não tenho certeza se podemos resistir a Angmar por muito tempo. Ouvi dizer que Gondor teve problemas, mas eles não parecem estar tão mal. Você acha que podemos pedir ajuda a eles?

Araphant.

P.S.: Ainda estamos procurando por uma bela donzela. Infelizmente, todas parecem estar prometidas, quando as apresentamos ao velho Bombadil.



Caro Araphant,

Não se preocupe quanto a Bombadil. Ele é do tipo paciente e saberá quando encontrar a garota certa. Quanto as suas relações com Gondor, bem, me parece que você poderia pedir ajuda um pouco parcialmente. Ouvi dizer que eles têm uma donzela de personalidade forte que recusou cada pretendente. Arrume o jovem Arvedui e mande ele lá para pedir sua mão em casamento.

Gandalf.



Caro Gandalf,

Apenas queria escrever para dizer: "Muito Obrigado!" Firiel é a melhor coisa que já aconteceu comigo, e não digo isso apenas porque seu pai tem alguns exércitos realmente grandes. Eu posso prever coisas ótimas para Arnor.

Arvedui, futuro rei de Arnor e Gondor.


Caro Arvedui,

Bom saber que o casamento anda bem. Mas deixe as previsões para Malbeth e os Elfos, se possível. Eles estão nesse barco há um pouquinho de tempo há mais que você, e possuem melhor dom para isso.

Gandalf.


Caro Gandalf,

Isto é para informa-lo de que Arnor não necessitará mais de seus serviços. Nada pessoal, velho camarada, mas estivemos fora da cidade e não temos previsão para voltar. Obrigado por séculos de bons conselhos e felicidades em todos seus futuros esforços. Vença uma para os Dunedain!

Arvedui.

P.S.: Acho que agora entendo o que você tentava dizer. Preciso ir. Tenho que tratar com um homem sobre um cavalo.


Caro Arvedui,

Conforme esperado, sua carta chegou atrasada devido à sorte da guerra. Gostaria que você não a tivesse mandado pelo caminho de Bri. Eu fiz uma checagem em Fornost Erain, mas não achei ninguém, exceto alguns milhares de Orcs e Trolls. Tentarei ver se você está em Lindon. O que quer que você faça, não rume para o norte. Ouvi dizer que há um inverno terrível por vir.

Gandalf.



Caro Gandalf,

Dizem que você não está mais trabalhando em Eriador. Eu estava pensando se você não poderia dar uma passadinha aqui em Lothlórien no próximo século. Tenho um pequeno trabalho que eu gostaria que você fizesse e que seria um verdadeiro estímulo para sua carreira. Diga Olá para Elrond e Círdan, e estou ansiosa para ver vocês.

Galadriel.

P.S.: Como está a espera pela manicure?

valinor

Quem foram os verdadeiros heróis da Terra-Média?

Provavelmente a história mais tocante em todo o legendário de Tolkien é aquela de Beren e Lúthien. Eles são os verdadeiros heróis da Terra-Média, os primeiros e únicos dentre os Elfos e Homens a conseguirem qualquer resultado palpável contra Morgoth na nefasta Guerra das Silmarils. Eles também são os únicos heróis da Primeira Guerra a serem atribuídas quaisquer considerações significativas nas páginas de O Senhor dos Anéis.

Muitos fãs de Tolkien sabem que Beren e Lúthien eram uma metáfora para o relacionamento romântico de Ronald Tolkien e Edith Bratt, mas é raro o impacto da realidade de seu romance sobre as estórias de Tolkien tomados em total consideração pelos críticos ou eruditos. Tolkien era três anos mais novo que Edith, assim como Beren era equivalente em milhares de anos mais novo que Lúthien. O tutor de Tolkien, Padre Francis Morgan, cultivou a educação de Ronald e pretendia que ele alcançasse algo maior na vida do que apenas se juntar com uma garota e ter uma família. Ele parecia sentir que o relacionamento de Tolkien com Edith ameaçava o alcance de uma educação superior. Thingol achava que Lúthien merecia um melhor companheiro do que um simples Homem, especialmente um cuja casa havia sido destruída na guerra.

O Padre Francis obteve sucesso ao separar Ronald e Edith por um período de três anos, mas quando o jovem alcançou a maioridade, ele escreveu a Edith e garantiu que seus sentimentos eram fortes como sempre. Humphrey Carpenter, biógrafo de Tolkien, escreve “Houve declarações e promessas … que Ronald achava que não seriam fáceis de quebrar. Além do mais, Edith havia sido seu ideal nesses últimos três anos, sua inspiração e sua esperança para o futuro. Ele alimentou e cultivou seu amor por ela de forma que cresceu em segredo, mesmo tendo sido alimentado unicamente em suas memórias de adolescência e fotos de Edith em sua infância..” (Carpenter, “Biography”, p.68).

Seu romance inicial incluía excursões secretas e confidenciais, assim como Beren e Lúthien, que se encontravam secretamente em Doriath, principalmente após Padre Francis ter descoberto pela primeira vez o relacionamento deles e ter demandado que Ronald terminasse-o. Como Beren nos bosques de Doriath, Ronald começou seu “pagamento de angústia pelo destino que foi dado a ele” quando ele teve que se despedir de Edith por três anos. “Três anos é algo terrível”, escrevera Ronald em um diário que manteve em períodos que se sentia mal.

O relacionamento de Beren e Lúthien trouxe imensas mudanças pessoais as suas vidas, assim como às vidas das pessoas que os cercavam. Apesar de que alguns paralelos podem ser encontrados no relacionamento de Ronald e Edith, seria fantástico e poético identificá-los fortemente. Beren era um guerreiro, mas também um fora-da-lei e crescera para a humanidade com seu pai, e perdera sua mãe quando Emeldir levou as últimas mulheres e crianças de Dorthonion.

A Guerra ofuscara o início da vida de ambos os casais. O povo de Beren foi assassinado ou levado na Dagor Bragollach e seus resultados, e o povo de Lúthien foi finalmente levado para a periferia da longa guerra entre os Noldor e Morgoth quando os Orcs começaram a atacar as fronteiras de Doriath. Tolkien partira para servir o exército britânico durante a Primeira Guerra Mundial, e, enquanto se recuperava de um caso atípico de Febre das Trincheiras, o que o levou a voltar para a Inglaterra, Tolkien começou a escrever os Lost Tales. Nessa altura, todos seus antigos amigos de Oxford, menos um, haviam sido mortos na guerra, tal como Beren, cujos companheiros, em sua maioria, morreram em Dorthonion. Tolkien estava isolado de seu passado.

Talvez a morte mais comovente dentro do pequeno círculo de amigos do Tolkien foi a de Geoffrey Bach Smith, que se uniu ao grupo de amigos de Ronald no colégio, conhecido informalmente como T.C., B.S. (Tea Club, Barrovian Society). Com a influência de Smith e o amor de Ronald por grandes épicos, o grupo começou a desenvolver um total apreço por poesia, e perto do fim de sua breve vida, Smith escreveu a Tolkien: “O meu consolo é que se falhei hoje – estarei indo descansar em alguns minutos – ainda haverá um membro do grande T.C.B.S. para divulgar o que sonhava e naquilo em que todos concordávamos. Pois a morte de um de seus membros não pode, de maneira alguma, desfazer o T.C.B.S. A morte pode nos deixar relutantes e incompetentes como indivíduos, mas não pode pôr um fim aos quatro imortais!…” (Ibid., p. 97).

Em muitas maneiras eu acho que Tolkien manteve vivo o sonho divulgado por Smith, e ele provou as palavras de Smith profeticamente, pois muitos anos após a morte do próprio Tolkien, seu “Lay of Leithian”, apesar de incompleto, é idolatrado pelos muitos fãs que foram privilegiados ao lê-lo. O poema é rico e comovente, romântico e épico em tema e estilo. E ele detalha o amor de Beren e Lúthien com uma paixão que nunca morrerá.

Nós conhecemos apenas um vislumbre do fogo e profundidade da estória, quando Aragorn procura confortar os Hobbits do Condado na escuridão do Topo do Vento. “Vou contar-lhes a história de Tinúviel – disse Passolargo. – Resumida, pois essa é uma longa história da qual não se sabe o fim; e ninguém atualmente, com exceção de Elrond, pode lembrá-la exatamente como era contada há tempos…” (Tolkien, “Sociedade do Anel”, p.203). O mesmo pode ser dito sobre a estória de Ronald e Edith, pois na época que ele escrevera essa passagem, eles tinham ainda muitos anos pela frente, e ele não sabia como seu conto terminaria.

As palavras de Aragorn foram pronunciadas, no entanto, na observação do próprio Sam muitos capítulos (e meses) depois em “As escadarias de Cirith Ungol” onde ele e Frodo estavam no mesmo conto que Beren e Lúthien, pois eles estavam carregando parte da luz da Silmaril resgatada por Beren e Lúthien em um frasco preparado por Galadriel, e eles estavam perseguindo a destruição de Sauron, que havia lutado com o casal eras antes, quando ele mesmo era um servo do grande Senhor do Escuro.

E na vida real, as palavras de Aragorn se refletiram no fato de que Tolkien nunca completara seu conto. Ele sabia, mais ou menos, como as vidas de Beren e Lúthien terminariam, mas os detalhes não foram escritos. Aragorn não poderia ter contado o fim da estória, independentemente de quão relevante fosse a estória para o Senhor dos Anéis. Mas como muitos apontaram, a própria estória de Aragorn é muito similar àquela de Beren. Assim como Beren, Aragorn perdeu seu pai para os servidores do inimigo, mas o pai de Aragorn morreu quando ele ainda era uma criança e Aragorn nunca o conhecera. Aqui o paralelo é mais próximo entre Aragorn e Tolkien, cujo pai morrera quando ele tinha apenas 3 anos de idade, a mesma idade em que Aragorn perdera seu pai.

O patrimônio de Aragorn nunca fora realmente polido, apesar de ter diminuído através dos séculos. Ele era um descendente de reis cujos herdeiros se tornaram capitães de um misterioso povo vagante. Os Tolkiens emigraram da Alemanha para a Inglaterra no século XVIII. Eles construíram um negócio familiar na indústria de pianos, mas o pai de Arthur Reuel Tolkien falira, e foi forçado a procurar sua fortuna em outro lugar, aceitando um cargo na “frica do Sul, onde seus filhos John Ronald e Hillary nasceram. Arthur nunca vira a Inglaterra novamente e sua esposa Mabel retornou a Inglaterra com seus filhos um pouco antes de sua morte.

Aragorn crescera com sua mãe, Gilraen, cujo pai se opusera ao seu casamento com Arathorn II de maneira similar ao modo como o pai de Mabel, John Suffield se opôs ao seu casamento com Arthur Tolkien. Aragorn crescera com seu padrasto, Elrond, que era sábio e desenvolvera uma profunda afeição pelo garoto. O tutor de Tolkien após a morte de sua mãe, Padre Francis, não era de fato sábio, mas ele e Ronald tinham uma afeição um pelo outro e Ronald respeitava as decisões de Padre Francis, apesar de discordar de algumas delas. Portanto, há uma ressonância do problema entre Ronald e Padre Francis em relação ao seu relacionamento com Edith, quando Elrond convoca Aragorn e o avisa que ele está sonhando muito alto, e também o proíbe de ter uma esposa até que haja provas de ele ser digno de tal.

Através dos longos anos em que Aragorn e Arwen trabalharam constantemente para seu objetivo, ela parece ter contribuído pouco, aos olhos de muitos fãs de Tolkien, exceto pelo misterioso estandarte que proclamava o patrimônio de Aragorn ao povo de Gondor. Mas nos raros vislumbres de Arwen, Tolkien nos mostra algo de uma sabedoria mais profunda e uma força e fé que são tão duradouras quanto o amor de Aragorn. Ela é a primeira pessoa que percebe a profundidade do ferimento espiritual de Frodo, e em uma de suas cartas, Tolkien credita a Arwen o papel de pôr em ação os eventos que levam Frodo a embarcar para o Mar a fim de encontrar descanso e cura antes que ele morra.

A luta de Aragorn no amplo mundo é longa e difícil, mas sua luta pessoal é mais profunda e mais comprometida do que a maioria daqueles que o rodeiam. Pode ser que somente os Sábios, assim como Gandalf, Elrond, Galadriel e Arwen (e seus irmãos) entenderam o quanto que o futuro de Aragorn estava comprometido devido a sua escolha. A linhagem de Isildur não continuaria se ele não guiasse o Oeste à vitória sobre Sauron. Não foi simplesmente um modo da linhagem direta de herdeiros acabar com Aragorn. Seu povo era pequeno em número e se perderiam na tempestade se Sauron tivesse sucesso ao recuperar o Um Anel.

A vida de Tolkien nunca alcançou aposta tão grande, mas ele viveu através da Segunda Guerra Mundial e há épocas em que as pessoas se imaginam como tudo se finalizará. Quando Londres e outras cidades estavam sendo bombardeadas, os Ingleses certamente se justificavam sobre o quanto demoraria para os Alemães chegarem em suas praias. Dois dos filhos de Tolkien serviram nas Forças Armadas Britânicas durante a guerra e, tendo visto as devastações provocadas por grandes nações em sua juventude, ele sabia muito bem sobre os perigos que seus filhos enfrentavam na batalha.

Há um certo eco sobre a Segunda Guerra Mundial na estória de Tolkien, mas a Primeira Guerra Mundial parece ter deixado um senso indelével de perseverança determinada, mas desesperada em seu espírito. A futilidade dos ofensivos anéis é claramente mostrada na desesperançosa guerra dos Noldor contra Morgoth. A matança sem sentido e o gradual abandono da civilização sobre a paisagem severa e desnuda de Eriador como no “Conto dos Anos” de Tolkien registra o gradual desaparecimento dos domínios Dúnadan na Terra-Média. E, no entanto, os Dúnedain sobreviveram. Os Dúnedain de Arnor não sumiram ou morreram quando seus reinos chegaram ao fim. Eles passaram pelos ermos, continuando sua antiga guerra contra as criaturas do mal e, através de dez séculos, preservaram a linhagem de seus líderes, mesmo com circunstâncias desfavoráveis a eles.

O sucesso da família sobre as adversidades da vida é o centro da força na personagem de Aragorn, e é um tributo silencioso à perseverança familiar do próprio Tolkien. Arthur Tolkien e Mabel Suffield Tolkien fizeram o melhor que puderam para si próprios e seus filhos, e Ronald foi deixado aos cuidados de um guardião austero, porém preocupado, que tinha certeza que o garoto conseguiria algo como Homem.

Aragorn é uma reflexão tardia sobre Tolkien, assim como Beren é uma reflexão precoce. Beren é um tanto quanto esperto e fora-da-lei, opondo-se aos limites impostos sobre ele pela autoridade, sem realmente contestar a autoridade, atitude esta intensificada devido a sua resolução ao firme amor por Lúthien. Aragorn não é um fora-da-lei, mas sim um homem desprovido de seu patrimônio e que constrói um novo patrimônio para seus descendentes, encorajado e sustentado pelo amor e fé de Arwen.

A estória de Aragorn e Arwen é, em certas maneiras, uma continuação da estória de Beren e Lúthien. Ao invés de deixar Doriath para a solidão quieta de Ossiriand, os heróis permaneceram no norte e ajudaram a conter as forças da escuridão. O último casal não corresponde ao primeiro em ousadia e feitos, mas sua realização provou ser a mais duradoura. A coroação e o subseqüente casamento de Aragorn é, talvez, uma reconciliação de Tolkien com suas paixões mais profundas. Ele passou a compreender que ele, de fato, alcançou seu potencial, que talvez não fora o que Padre Francis via, mas que é de qualquer forma, extremamente válido.

valinor

Algo Perverso vem nessa direção.

A inesperada migração dos clãs dos Pequenos moradores dos vales altos do Anduin através das Montanhas Sombrias, começando no ano de 1050 da terceira era, avisados da grande sombra que se erguia em direção ao sul da Grande Floresta Verde. O Sábio não podia ter certeza de quem ou o que havia se instalado na floresta, mas eles compreendiam que algo que não tinha vivido por ali previamente tornou-se então ativo.

 

 

Em todas suas obras publicadas, JRR Tolkien apontou apenas uma observação curiosa sobre o evento intrigante. No ensaio "Anões e Homens" publicado em "As pessoas da Terra Media", Tolkien notificou: " Claramente os Hobbits tinham percebido, mesmo antes que Magos e os Eldar tivessem total conhecimento sobre isso, o despertar de Sauron e sua ocupação em Dol Guldur." Os Hobbits não eram exatamente conhecidos por terem habilidade com as coisas do mundo. O que eles poderiam ter percebido, que os recém chegados Istari e os senhores Eldar haviam deixado passar?

Por essa causa. Por que, então Sauron decidiu acomodar-se em Amon Lanc? Gondor havia ocupado Mordor com a intenção de prevenir seu retorno ao seu velho reino. Mas Sauron poderia ter se estabelecido no extremo leste ou sul, mas ele escolheu perdurar na sulista Grande Floresta Verde, perto dos inimigos. Por quê?

Embora possa parecer obvio que ele tenha sido atraído pelo anel, que na época (o 11º século da Terceira Era) ainda permanecia inexplorado algum lago ao logo do Anduin próximo aos Campos de Lis. Foi dito que primeiramente Sauron acreditava que O Um Anel havia sido destruído. Sua ressurreição nas proximidades onde se encontrava o Um Anel pode ter sido uma conseqüência natural da afinidade que Sauron retinha com o Anel, mas ele não tinha conhecimento do fato. Então o que o compelia na permanecer perto do Anel?

Se aceitarmos que o espírito de Sauron tomou forma física algum lugar próximo ao Anel, então ele deveria aparecer primeiramente ao longo dos bancos do Anduin, talvez mesmo no rio. Ou se o poder de Ulmo era muito grande para ele, repelindo a malicia de Sauron e prevenindo que ele não reconhecesse que o Anel ainda existia, então Sauron pode ter assumido sua nova forma corpórea, nas terras baixas próximas ao rio. E não necessariamente alguém deveria ter visto Sauron. Melhor que sua ressurreição tenha ocorrido em segredo fora da visão dos Elfos, Homens do Oeste e todos q eram inimigos a ele.

Mas já havia outros homens vivendo na região. Embora os primeiros 1000 anos da Terceira Era tenha provado ser relativamente estável na região Oeste da Terra Media. No ano de 1050, Anor, havia sido dividida em 3 reinos em guerra e Gondor estava preso em um conflito mortal com seus vizinhos sulistas. O ano de 1050 foi, de fato, o ano em que Hyarmendacil I derrotou os Reis de Harad (e conquistou Umbar). Todos os olhos do mundo se voltaram a Gondor, o qual atingiu o sua maior dimensão naquela época, e chegou perto de todas as nações para competir com o, há muito perdido, quase esquecido, poder de Numenor.

Numenor tinha afundado no mar há quase 1200 antes de Hyarmendacil I ganhar sua vitória final. Foi há quase 1230 anos desde que Ar-Pharazon humilhou Sauron perto de Umbar trazendo, o que foi na época, o mais forte posto do exercito de Beleriand para a Terra Media. A memória de Numenor deve ter sido ofuscada entre as outras nações, pelo (um tanto), mais recente memória da Ultima Aliança de Homens e Elfos, o qual tinha assumido o posto de maior exercito de todos os tempos e destruído o poder militar de Sauron completamente. Sauron também foi morto e seu império totalmente derrubado, o qual, efetivamente nunca mais se ergueu.

Como resultado da derrubada de Sauron, três esferas de influência emergiram ao noroeste da Terra Media. O reino Elfico antigo de Gil Galad de Lindon ainda existe, mas se tornou tão fraco que muitos de seu povo ou velejaram pelo mar ou migraram leste para viver perto de Elrond em Imladris. Os Reis Supremos de Arnor se tornaram os poderes dominantes da região norte do mundo. Mas ao leste das Montanhas Sombrias ainda perduraram ali pelo menos dois reinos Elficos, e o vasto reino dos Anões BardaComprida. E Gondor anexada, mas nunca colonizou Mordor eventualmente expandindo-se externamente.

O poder de Arnor diminuiu, e o poder de Gondor cresceu. Mas e o poder dos Anões BarbaComprida? Seu capitólio de Khazad-dum era sua cidade chefe, mas eles reivindicaram toda a Montanhas Sombrias e as Montanhas Cinzentas até ao leste das Colinas de Ferro. Aparentemente eles tinham mais que uma cidade ou colônia. Eles mantiveram o antigo Homem-i-Naugrim, a grande estrada ao leste, a qual corrida desde a Passagem Alta até o Anduin, atravessando o rio por uma ponte de pedra viajando lesta pela Floresta Verde, e então virando noroeste estendendo-se até as Colinas de Ferro. Aquela estrada deveria servir para algum propósito útil. Não foi feita simplesmente porque os BardaComprida queriam ocupar-se de um oficio. Eles precisavam manter e a paz e estabilidade que nutria o comércio.

Lothlorien o pequeno reino Elfíco que se encontra entre Khazad-dum e o Anduin era a casa para os Elfos Noldor, Sindar e Silvan. Mas embora mantivessem um vínculo intimo com Khazad-dum e Imladris, Lothlorien parecia estar muito fraca para dominar a região. Havia Homens de descendência dos Edainic vivendo nas proximidades em ambos os lados do Anduin. Os homens da Floresta Verde tinham, de acordo com "O Desastre dos Campos de Lis", juntado-se, ou ao menos se tornaram simpatizantes, da Ultima Aliança. Eles, assim como seus parentes no norte próximos a Erebor aparentemente prosperaram nos séculos de paz, que seguiram após a ruína de Sauron.

Mas o sul da Floresta Verde não estava totalmente a salvo. Durante a Guerra da Ultima Aliança, Saurou tinha ocupado uma ou mais regiões da Floresta. Os dois mil ou mais Orcs que armaram uma emboscada para Isildur na Terceira Era, eram restantes daquelas forças ocupantes. Embora os Homens da Floresta tivessem dito que dispersaram os Orcs que sobreviveram à batalha de Isildur, alguns dos Orcs sobreviveram o ataque neutralizador dos Homens da Floresta.

Em um dos seus ensaios, Tolkien apontou que a maioria dos Orcs seria dificilmente capaz de defenderem-se após a derrubada de Sauron. O ataque a Isildur foi compelido, ele sugeriu em "O Desastre nos Campos de Lis", pela proximidade que Orcs estavam do Um Anel, os quais na época ainda estavam esperando pela volta de Sauron (obviamente pela sua impossibilidade de se juntar a ele fisicamente). Portanto depois do ataque a Isildur, aqueles poucos Orcs com habilidade de sobreviver por conta própria, devem ter retirado-se para as profundezas da floresta. Lá eles viveram sozinhos, vagarosamente desenvolvendo seu próprio senso de independência e comunidade.

Às vezes nos séculos após a morte de Sauron, os Hobbits fizeram seus caminhos até os Vales do Anduin. Eles instalaram-se próximos
a casas e vilas dos Edain e gradualmente foram se adentrando em uma co-exitência de Bri com aqueles Homens (de acordo com "Anões e Homens"). A chegado dos hobbits deve ter sido anterior a primeira invasão de Gondor pelos Easterlings no ano de 490 da Terceira Era. Naquela época Gondor teria se estendido ao longo do Anduin até os Undeeps (próximos aos Campos de Celebrant). As terras entre a Floresta Verde e Mordor não faziam parte do reino.

Estes mais prematuros Easterlings (na experiência da Terceira Era de Gondor), aparentemente viveram nas terras entre Mordo e a floresta de Turambar, filho de Romendacil I, conquistou aquelas terras algum tempo depois da morte de seu pai no ano de 541 da Terceira Era. A região inteira deve ter sido completamente hostil e impassível para os Hobbits. E embora eles possam ter passado pela Floresta Verde para atingir os Vales do Anduin, os ancestrais dos Stoods e dos Harfoots podem ter passado pela borda sulista da floresta. Os Follohides sendo o grupo do norte, são os mais cogitados em terem passado pela Floresta Verde.

Uma migração Hobbit pode ter encorajado os Homens da Floresta Verde a colonizar as terras abertas de campo ao longo do Anduin, e atravessar o rio. Os anões proveriam aos homens oportunidades de ofícios e trabalhos habilidosos em construir estradas e fortalezas. A amizade entre os Homens da Floresta e o povo de Thranduil (então morando em Emyn Duir, as montanhas no meio da floresta) assegurou uma fronteira norte para expandir população mortal. Os Homens tornaram-se uma comunidade importante na parte superior do Anduin.

E como os Homens da Floresta expandiram em direção as montanhas, eles também devem ter feito contato com Gondor. Havia muitas tribos de Homens do Norte (e um desses grupos eram os Homens da Floresta), espalhando-se ao sul, leste e oeste naqueles séculos. Eles se mudaram da Floresta Verde em ambas as direções. Após a atenção de Gondor ser direcionada ao leste, os Dunedain fizeram contato com os Homens do Norte. Amizade surgiu entre Gondor e os Homens do Norte e embora Tolkien não fale muito a respeito de sua relação, ele dá atenção ao desenvolvimento metódico dos Homens nas terras norte onde Arnor e Gondor detinham influencias.

Contudo como alguns Orcs sobreviveram durante a Terceira Era na região sul da Floresta Verde, por volta da metade do século Seis, havia Easterlings – cujos ancestrais serviram ou foram amigos de Sauron – Também vivendo dentro ou perto da região sul da floresta. E ao longe no norte perdurou Laracna, que havia se estabelecido em Ephel Duath, antes de Sauron construir Barad-Dur. De seu covil sua prole se espalhou pelo norte das montanhas. Sem duvida a Ultima Aliança de Elfos e Homens lutaram com as aranhas gigantes, as quais seriam guardiãs naturais das marchas de Sauron. Mas embora Gondor tenha assistido a marcha por mil anos, algumas aranhas manejaram-se e alcançaram a Floresta Verde ao mesmo tempo em que Sauron se instalou em Dol Guldur. Talvez ele mesmo tenha arranjado para que elas tenham sido trazidas ao norte.

Orcs, Easterlings e aranhas devem ter servido a fundação do novo reino de Sauron. Ele teria ido a floresta para revelar-se para os descendentes de seus escravos formados. Incapazes de resistir a sua vontade, os Orcs e os Easterlings (alguns mais rápidos que outros), teriam voltado a servi-lo. E eles teriam construído a fortaleza de Dol Guldur em segredo, longe dos olhos intrometidos dos Elfos, Anões, Homens, Hobbits e Magos.

Os Magos, Istari, enviados de Valinor, seriam muito novos para a Terra Media. Eles sabiam porque eles estavam lá. Eles estavam mantendo um olhar cauteloso para sinais do retorno da sombra. Mas eles não sabiam onde Sauron surgiria e se manifestaria, ou se algum outro mal antigo se ergueria em seu lugar. Eles sabiam que o mal estava vindo, mas não de onde ou quando. As grandes guerras no sul, talvez tenham levado todos a pensar que a ascendência de Gondor significaria que Sauron não poeria ainda retornar. Poderia ainda haver tempo para preparar-se.

O surgimento de Dol Guldur não poderia ter ocorrido da noite para o dia. Um pequeno castelo ou fortaleza consistindo em um pouco mais que uma torre e uma parede externa podem ser construído no espaço de alguns meses, com material e trabalhadores suficientes. Mas Dol Guldur era provavelmente uma enorme fortaleza, uma pequena cidade, desde o principio Sauron teria necessitado de uma base segura da qual lançaria suas varias campanhas. Mas ele também perseguia uma estratégia diferente da qual ele tinha na Segunda Era. Ao invés de conquistar um grande império e construir sua força militar em confrontos diretos com sos Eldar e Dunedain, Sauron, atacou seus inimigos por procuradoria.

Isto é, ele estabeleceu sua base em Dol Guldur e a fez segura o suficiente para desencorajar visitantes casuais e pequenos ataques. Mas ele também se privou de usar Dol Guldur para ativamente participar em eventos desdobrando-se em terras próximas a região sul da Floresta Verde. Em vez disso ele aumentou a população de Easterlings. "Anões e Homens" nos diz que os Hobbits começaram a fugir dos Vales do Anduin após "constante crescimento invasores do Leste … importunando os velhos ‘Atanic’ inabitados, e mesmo nos lugares ocupados, a Floresta e entrando no vale do Anduin.".

Claro, deve ter algum outro mau envolvido. Trolls podem ter sobrevivido por mil anos em Ettenmoors norte de Imladris, mas parece mais provável que eles tenham sido dirigidos para o leste de Mordor no final da Segunda Era. Como Sauron recrutou Easterlings para sua causa, ele teria trazido Troll de volta para o oeste. E como ele era conhecido como Necromante, Sauron dever ter consorciado com espíritos sem corpos. Ele deve ter criado Wargs e convocou antigos lobisomens e vampiros para servir a ele novamente.

Homens devem ter permanecido na Floresta das Trevas por uma razão muito boa. Ela tinha que se transformar rapidamente num lugar de pavor e ameaça, uma terra onde somente as tribos mais corajosas teriam ousado a viver e lutar com criaturas uma vez relegadas aos contos de fadas e folclore. Monstros tinham que andar pela terra novamente repugnando as arvores e escurecendo a floresta com uma sombra depressiva, que não tinha nada a ver com a luz do sol.

Mas o que os Hobbits, com sua falta de curiosidade mágica (exceto "o tipo comum") tinham notado, que até os Istari não tinham? Os animais do norte da Floresta Verde migraram em massa, procurando novas casas longe do mal? A chegada dos Easterlings, levou a constantes rixas e ataques entre as pessoas? Fantasmas e lobisomens caçaram nas colinas e nas margens do rio, onde os Hobbits viviam quietos e sozinhos?

O Prólogo de "O Senhor dos Anéis" nos diz que os Pés Peludos "tinham muito em comum com anões nos tempos antigos, e por muito tempo viveram nos pés das montanhas". Eles devem ter ouvido rumores de mudanças na Floresta de ambos, anões e Stoors. Os Stoors tinham permanecido perto do Anduin e provavelmente viviam mais próximos dos Campos de Lis. Os Campos de Lis haviam sido originalmente um lago que se estendia até as montanhas onde Isildur foi atacado. Através do tempo o lago se transform
ou em pântano e gradualmente o pântano secou e escasseou até o curso normal do Anduin.

Os Stoors teriam notado alguma coisa estranha acontecendo na mata além dessas montanhas. Os homens que viviam na floresta teriam se mudado quando os Homens da Floresta foram afastados pelos Easterlings, Trools, Orcs, Wargs e outras criaturas peçonhentas que iriam gradualmente sair dos contos das esposas para entrarem diretamente em suas fazendas. No espaço entre uma ou duas gerações Gaffers e Gammers, os quais lembravam de tempos melhores reclamariam de plantações perdidas, escassez de peixes, e numa má situação criada por homens desagradáveis. Seria uma transição gradual dos bons dias antigos para os maus tempos novos. A cada ano, vida se tornaria cada vez mais ansiosa. Clãs circulariam novas historias de medonhos encontros todas as temporadas.

O repertorio dos rumores e das incertezas iriam se acumular gradualmente enquanto as influncias de Sauron ocuparam as terras tranqüilas de Hobbits e Homens. O Elfos e Anões concentravam-se em suas próprias preocupações, prestariam pouca atenção a ô que aconteceu. Talvez um dia eles saberiam que uma cidade ou vila amiga tinha sido abandonada ou ocupada por forças inimigas. Mas os homens estavam sempre brigando entre si. O mapa político não mudaria muito como o mapa social. Clãs de Homens, Hobbits devem ter, simplesmente tentado mudar a algumas milhas mais ao longe. Seria um pouco diferente das outras eras, velhas tradições de cidades mandando colonizadores para construir novas cidades. Clãs teriam que, ocasionalmente, separar-se e procurar novas terras.

Mas um dia alguém importante o suficiente para ser ouvido para notar que havia Algo de Errado. Parentes não viviam mais onde eles costumavam viver. As pessoas agora olhavam através do Rio com receio. Talvez um ataque de muitos tenha saído da escuridão da floresta. Talvez o perigo de Orcs, Wargs tenha se tornado muito real e as tribos ao longo do Anduin tenham se tornado mais simpatizante da guerra e mais vigilantes do que seus avôs precisavam ser em sua juventude. Deveria haver um tipo de conselho, uma decisão em comum de o processo a seguir.

Talvez ele meramente tenha começado com um clã ficando muito assustador para ficar nos Vales do Anduin por mais tempo. Eles teriam ouvido historias sobre terras fartas além das montanhas. Um único líder de um clã levantou e disse: "Atenção todos! Estamos deixando essas terras, empacotem o que quiserem, deixem o resto." E quando seus visinhos viu o que ele estava fazendo, Eles disseram: "Nós também nos cansamos. Estamos indo com você".

Famílias, cidades, indivíduos solitários, casais jovens aventureiros fugindo do ódio de seus pais que teriam atravessado as montanhas. Isso pode ter começado como uma marcha de vagantes, atraindo alguns olhares curiosos das pessoas locais em Eriador. "Quem são essas estranhas pessoas pequenas?" Os homens devem ter se perguntado "Eles parecem crianças. Onde estão seus pais?".

E onde os Hobbits entraram Rhudaur e Cardolan, procurando novas terras para morar, Homens teriam perguntado porque eles deixaram suas terras antigas. "Há algo escuro e mal por lá". Eles responderiam. "É como se uma grande nuvem escura tivesse se desferido na floresta. Terras onde nossos antepassados se sentiam seguros, já não são livres para nós. Homens maus do leste perturbaram nossos amigos. Criaturas horríveis ameaçando nossas famílias. É como se uma grande ameaça tivesse surgido".

Rumores passariam de hospedaria para hospedaria, de cidade para cidade. Soldados, mercantes e vagantes iriam escutar igualmente, historias da transformação da Grande Floresta Verde em Floresta das Trevas. Eventualmente, príncipes, reis e magos também acabariam ouvindo sobre as mudanças no leste, na verdade isso ocorreria cinqüenta anos após os primeiros hobbits chegassem em Eriador, até o Sábio averiguar que Dol Guldur tinha se tornado um baluarte do mal.

Imagine o conselho que pode ter sido realizado. Istari, Senhores dos Eldar e talvez Reis dos Dunedain teriam juntado-se. Um relatório completo dos eventos seria dado. Batedores retornariam da Floresta das Trevas para confirmar os contos. E haveria rostos severos, trocas de olhares austeros entre os Sábios e seus amigos. E apesar de toda a vigilância que eles tinham mantido ao longo dos anos, eles não sabiam que algo estava acontecendo até ser tarde demais. Apenas os Hobbits tinha sentido algo de errado. E ironicamente somente os Hobbits iram proferir uma solução final para o problema

Tradução de Tais"Linda Sacola" Bachega

valinor

Estratégias de Sauron – Passos para a Derrota (Parte II)

Na Primeira Era, Morgoth tentou
derrotar seus inimigos Eldarin jogando tudo o que fosse possível contra
eles. Logo, seus exércitos conseguiam sucesso misto. Mesmo a Nirnaeth
Arnoediad provou ser uma vitória tão cara que Morgoth não pode
conseguir a vitória definitiva dos exércitos élficos e seus aliados.
Ele tomou controle de Hithlum e da Marcha de Maedhros, restaurou suas
tropas em Dorthonion, e tomou controle total sobre a parte superior do
Sirion. Mas Falas, Nargothrond, Doriath (e Brethil, que tecnicamente
era parte de Doriath), e Gondolin tiveram que ser tratadas
separadamente.

 

 

 
Na Segunda Era, Sauron tentou duplicar os sucessos
dúbios de Morgoth com ataques repentinos, tentando adquirir grandes
vitórias militares. Ainda, ele não tinha as vantagens de Morgoth.
Apesar de que muito da Terra-Média esteve sobre o controle de Morgoth,
Sauron teve que continuar a manter seu império. E apesar de que a
fortaleza-chefe de Morgoth, Angband, estava perto de seus aliados,
Sauron posicionou-se em Mordor com a intenção de lançar agentes que
trabalhassem ao mesmo tempo para os eldar no norte e os numenoreanos no
sul.

A colonização numenoreana não avançou para o extremo
norte já que Sauron forjou o Um Anel por volta do ano 1600. As grandes
fortalezas do Pelargir, no baixo Anduin, e Umbar não seriam
estabelecidas em menos de 600 anos. O poder numenoreano era no máximo
uma ameaça futura distante de conflito. Mas quando Gil-galad chamou
Númenor para ajudar na guerra iminente, os numenoreanos investiram
perto de 100 anos fortificando posições perto dos rios Gwathlo e Lhûn.
Enquanto Sauron começava a mover suas forças para o Norte, seus
inimigos tinham linhas múltiplas de defesa.

Mas não quer dizer
que Sauron foi derrotado. As histórias deixam claro que Sauron dominou
Tharbad e abriu caminho sobre Eregion com relativa facilidade.
Ost-en-Edhil foi possuída por algum tempo, possivelmente em torno de um
ano. Os esforços de Elrond de reforçar Eregion falharam e ele teve que
se retirar para o norte. Sauron mandou em exército para tirar Elrond do
caminho. E, aparentemente, ao mesmo tempo em que ele estava destruindo
Eregion, sauron mandou um exército para o leste das Montanhas Nevoentas
para expulsar os povos Eldar e Edain, o último desses que foram grandes
aliados dos anões Barbalonga.

Então, Sauron não somente deu a
seus inimigos grande tempo para se preparar para a guerra, ele espalhou
bem suas forças quando lançou a guerra. Gil-galad foi capaz de
consolidar muitas de suas forças sobreviventes no Lhûn depois de ser
empurrado do rio Baranduin. Sauron derrotou Eriador, mas Tolkien nota
que Sauron matou ou expulsou os homens e elfos vivendo na região. Os
expulsos alcançaram o acampamento de Elrond em Imladris ou o reino de
Gil-galad. As duas regiões foram reforçadas pela campanha crescente de
Sauron.

No final das contas, foi precisa uma intervenção
massiva de Númenor para derrotar Sauron, mas a lição que ele aprendeu
da guerra foi que Númenor ia dar mais trabalho que Lindon. Tolkien nos
diz que a guerra entre os elfos e Sauron nunca acabou depois daquele
dia, apesar de Sauron ter alterado seus objetivos estratégicas. Ele
começou conquistando mais territórios no leste. E, gradualmente,
enquanto Sauron estendia seu poder para o sul ele entrou em confronto
com colônias numenoreanas ao longo das costas meridionais da
Terra-Média. Númenor vinha colonizando a Terra-Média desde o ano 1200,
mas por todo o ano 1800 os numenoreanos começaram a estabelecer
fortalezas, cobrar tributo dos povos locais, e conquistando terras
ocupadas. Númenor virou um poder rival que Sauron tinha que conter. Em
fato, provou-se ser impossível para este derrotar Númenor no campo de
batalha, e ele finalmente os derrotou através de um subterfúgio que
trouxe destruição para Númenor e a morte de grande parte de seu povo.

E ainda, apesar da queda de Númenor, Sauron não tinha se livrado ainda
da ameaça numenoreana. Elendil e seus Dunedain Fiéis exilados
estabeleceram reinos em Arnor e Gondor, na Terra-Média setentrional.
Apesar de ser apenas um resto da nação poderosa que fora e que
humilhava Sauron militarmente, os Dunedain Fiéis eram poderosos demais
para serem aniquilados rapidamente. Sauron entendeu isso quando tomou
Minas Ithil e foi empurrado para fora de Osgiliath. Vocês podem até
ouvi-lo pensando: "Opa, isto estava fora dos planos". Se ele esperasse
mais 100 anos, Arnor e Gondor teriam ficado mais poderosos, mas Sauron
teria restabelecido total controle sobre sua rede de aliados e assuntos
de estado. Ele teria muito mais recursos à disposição do que possuía
quando atacou Gondor em 3429.

Esperando demais, atuando cedo
demais — esses eram os erros que Sauron cometeu na Segunda Era. Ele
permitiu a seus inimigos o tempo para crescer fortes enquanto ele mesmo
dispersou suas forças e criou guerra em muitas frentes. Depois de sua
derrota, Sauron teve 1000 anos para refletir sobre suas falhas e
fraquezas. E quando ele ficou forte o bastante para reencarnar, ele
entendeu que para conseguir tomar controle da Terra-Média, ele tinha
que trabalhar vagarosa e cuidadosamente. Ele tinha que aumentar seus
poderes enquanto acabava com seus inimigos.

O primeiro passo
era escolher um porto seguro. Mordor foi ocupada por Gondor, que no 11º
século da Terceira Era quase chegou ao topo de sue poder. Não tinha
chance de lutar pelo controle de Mordor com os Dunedain nesta era. E
ainda, Sauron precisava estar perto de seus inimigos. A Grande Floresta
Verde, porém, oferecia uma posição atrativa. As densas florestas
ofereciam uma privacidade relativa e alguma defesa, e a região de Amon
Lanc, por muito tempo abandonada pelos elfos, seria fácil de se
fortificar.

Sendo o Necromante de Dol Guldur (o novo nome que
os elfos deram para Amon Lanc), Sauron construiu um grupo de servos do
mal que se espalharam pela floresta. A Grande Floresta Verde ficou tão
aterrorizante que os homens a renomearam Floresta das Trevas. E à
medida que Orcs, Trolls, Wargs, aranhas e outras criaturas se juntavam
em Dol Guldur, Sauron renovou seus contatos com alguns servos orientais
que serviram a ele no passado. Induzindo alguns dos Orientais a migrar
para o sul da Floresta das Trevas, Sauron começou uma onda de migrações
que aconteceram em Eriador. Os Hobbits, criando moradia nos Vales do
Anduin por muitos anos, cresceram com medo já que o influxo de
Orientais ameaçava seus vizinhos, e começaram a ir para terras mais
seguras, no oeste.

Perto do ano 1300, Sauron mandou o Rei dos
Nazgûl para o norte, a fim de estabelecer o reino de Angmar. Angmar
serviu a dois propósitos. Primeiro, era uma base remota de operações
que trabalhava contra os povos de Arnor que viviam nas proximidades.
Sauron não precisava se preocupar em estabelecer e proteger longas
linhas de suprimentos. Segundo, Angmar pareceria somente mais uma terra
inimiga aos elfos e dunedain. Um único inimigo implacável traria muita
atenção. Mas se reinos hostis surgissem em vários lugares, ninguém
teria certeza do que estaria acontecendo. Havia Sauron retornado, ou
seus servos apenas ficaram mais ambiciosos e poderosos? Inspirar a
dúvida e a demora em seus inimigos deu tempo para que Sauron crescesse
em força.

Mas apesar de Angmar ter vantagem sobre as divisões
que nasceram em Arnor (dividida em três reinos menores pelos Dunedain
em 863), Dol Guldur ficou isolada do leste. Enquanto Sauron contemplava
o que poderia fazer com os reinos do norte, Minalcar estabeleceu as
diferenças entre os homens do Norte e os Orientais atacando as terras
perto do lado sul da Floresta Das Trevas, terras que Gondor clamou há
muito tempo, mas viraram moradia dos Orientais e de muitos homens do
Norte. Minalcar destruiu ou mandou embora os Orientais perto do mar de
Rhûn, e se aliou com o reino de Rhovanion, leste da Floresta das
Trevas, comandado por Vidugavia.

A falha de Minalcar em atacar
Dol Guldur é curiosa. Possivelmente, Sauron estava usando seus
Orientais como uma farsa, e o Necromante de Dol Guldur acabou com
Minalcar como se fosse uma pequena ameaça (ou ameaça nenhuma) para
Gondor. Ainda, Sauron tinha que esperar que seus Orientais recuperassem
seus números. Mas pode ser que ele sentiu que um novo tipo de cultura
oriental foi criada. Nos últimos séculos, Tolkien nos disse, haveria
guerras entre os Orientais. O controle de Sauron sobre os povos do
leste poderia não estar completo, ou então ele sentiu que os melhores
guerreiros seriam aqueles que sobreviveram a grandes contendas e
guerras.

Mas Gondor também era poderosa. Mesmo quando os
Fratricidas morreram, e os Eldacar levaram seus inimigos para o sul,
Sauron não tinha como ter vantagem no conflito. Estava muito longe de
Umbar, onde os rebeldes procuraram abrigo, para fazer contato com os
dissidentes. Apesar de ser um porto seguro, Dol Guldur era bem
confinante. A Grande Praga de 1636, que Sauron lançou no leste e
direcionou para o oeste, abriu novas oportunidades para ele. Gondor
perdeu tanta gente que não poderia mais sustentar os exércitos em
Mordor. Quando os dunedain saíram, orcs e outras criaturas entraram.
Mas ao invés de se mudar para lá, Sauron meramente usou Mordor como
corredor para expansão. Ele provavelmente mandou agentes para o sul
para fazer alianças com os haradrim.

200 anos após a Grande
Praga, os Carroceiros atacaram os homens do norte e Gondor. Os povos do
oeste foram derrotados e Sauron conseguiu domínio da Floresta das
Trevas e de Mordor. O Lorde dos Nazgûl trouxe então a derrota final à
Arthedain, o últimos dos reinos dos Dunedain. Mas apesar de Lindon e
Imladris continuarem no norte, e os dois terem papéis significantes na
derrota de Angmar, Sauron tornou sua atenção para Gondor, suja
intervenção foi responsável pela derrota de Angmar. Os reinos do norte
foram destruídos, mas eles eram a menor das ameaças.

Assim,
quando os anões de Khazad-dûm acordaram o Balrog em 1980, eles
inesperadamente mudaram o balanço de poder no norte. Apesar de
Khazad-dûm não ter tido (aparentemente) um papel importante nas guerras
contra Angmar, ele estava na Última Aliança de Homens e Elfos contra
Sauron, e então enfrentou Sauron novamente. A destruição da civilização
anã efetuada pelo Balrog, e a fuga subseqüente de muitos elfos de
Lothlórien, virtualmente asseguraram que Sauron não tinha quase nenhum
inimigo de poder significante no norte. Tolkien sugere que foi por
causa da presença do Necromante no sul da Floresta das Trevas que
Galadriel resolveu intervir em Lothlórien. Se ela e Celeborn não
tivessem restaurado a ordem ao reino élfico, não teria ninguém para
opor Dol Guldur exceto por alguns homens das florestas e alguns povos
pequenos chamados Eotheod, o restante do outrora poderoso reino de
Rhovanion, Vidugavia. O reino de Thranduil no norte da Floresta das
Trevas continuou forte, mas ele não participou de nenhuma grande guerra
desde a Segunda Era.

O século XX da Terceira Era provou ser um
período tumultuado para Sauron e seus aliados. A perda de Arthedain e
Khazad-dûm deveria ter alarmado os eldar e os Istari. As perdas de
Gondor para os Orientais e a fuga final dos Eotheod para os Vales do
Anduin assegurou que o oeste não tinha força para impulsionar o fluxo
de guerreiros para a Floresta das Trevas e Mordor. E o problema com os
Nazgûl em 2002, quando eles atacaram Minas Ithil, que durou apenas dois
anos, foi um sinal que o mal derrotado no norte sofreu pouco.

Apesar de tudo, Dol Guldur, mesmo com má reputação, parece não ter
feito muito neste período. Os reis de Arnor e Gondor concluíram no meio
do século XX que uma vontade única estava orquestrando suas quedas para
um propósito desconhecido. Pelo século XXI, os Sábios (lordes dos Eldar
e Istari) concluíram que o poder de Dol Guldur era o candidato mais
provável para Inimigo-Mor. Mas quem era o Necromante? Os Sábios
suspeitavam ser um Nazgûl. Apesar de tudo, o Lorde dos Nazgûl era o Rei
Bruxo de Angmar. Os Nazgûl dominaram Minas Ithil. Nazgûl obviamente
estavam ativos na Terra-Média. Mas alguns, provavelmente incluindo
Galadriel e Gandalf, temiam que o Necromante fosse Sauron. Logo, em
2063, Gandalf investigou Dol Guldur e Sauron fugiu para o leste.

Pelos próximos 400 anos, que os Sábios diziam ser a Paz Vigilante,
Sauron preparou novas forças. Os Balchoth, parecidos com os
Carroceiros, cresceram em proeminência no leste. Os Uruks nasceram em
Mordor. Umbar, destruída por Gondor no século XIX, foi recriada com
novas forças totalmente leais a Sauron, e ele finalmente começou a
desafiar o controle numenoreano dos mares. A influência de Sauron entre
os Haradrim aumentou.

Quando ele viu ser a hora certa, em 2460
Sauron retornou para Dol Guldur com novas forças, e Minas Ithil lançou
os Uruks contra Ithilien. Sauron mandou Orcs e Trolls para colonizar as
Montanhas Nevoentas. E os Corsários de Umbar começaram a atacar Gondor.
O retorno à Dol Guldur, porém, implica que Sauron ainda temia a união
de seus inimigos. Os Anões Barbalonga estavam fortes novamente. Os
Eotheod ficaram mais numerosos, e havia outros povos humanos nos Vales
do Anduin que se aliavam com Gondor. Lothlórien virou uma marca do
poderio élfico, e Thranduil controlava o norte da Floresta das Trevas.
Sauron provavelmente procurou deixar seus inimigos do norte
desbalanceados enquanto o Nazgûl, os Balchoth e Corsários acabavam com
os recursos de Gondor.

Mas Sauron também voltou para Dol
Guldur por outro motivo: o Um Anel. Ele acreditava que este fora
destruído. Até ele perceber que não era bem assim. Ele investiu grande
parte de sua força no Anel. Se ele fosse destruído, provavelmente ele
teria ficado fraco demais para ficar poderoso de novo. Sua força
continuou a voltar, porém, e século após século ele conseguiu enxertar
sua vontade sobre mais pessoas e criaturas. Em alguns pontos, a
sobrevivência do Anel virou um fato óbvio para Sauron. Sauron não
apenas sobreviveu à derrota, como estava se recuperando do anel.

E então virou um dever de Sauron recuperar o Anel antes que seus
inimigos o encontrassem e o usassem contra ele. Ele nunca imaginou que
alguém pudesse destruir o Anel, mas havia na Terra-Média Eldar
poderosos que, se viessem a ter o Anel, poderiam usá-lo para construir
exércitos contra ele novamente: Círdan, Elrond, Galadriel, Celeborn.
Eram todos parentes dos antigos reis elfos, e tinham alto conhecimento
e força. E o que Sauron sabia ou suspeitava dos Istari? Com certeza
eles eram imortais. Eles já vagueavam por mais de 1000 anos.

Quando Sauron soube do fim de Isildur, ele se posicionou em Dol Guldur
para ganhar controle sobre os Campos de Lis para que seus servos
pudessem procurar pelo Anel. Mas Sauron não entenderia por muitos
séculos que o Anel estava bem do outro lado do rio, ou que ele foi
encontrado, muito antes dele ter começado a procurar, por um Grado
chamado Déagol, cujo primo Sméagol o assassinou e roubou o Anel.

O ataque dos Balchoth contra o norte de Gondor em 2510 teve dois
propósitos: primeiro, acabar com as forças de Gondor; segundo, limpar o
caminho para a procura de Sauron pelo Anel. A borda norte de Gondor
ficava perto demais de Dol Guldur para que eles mantivessem o segredo.
Os objetivos de Sauron sofreram um revés, porém, quando Eorl liderou um
exército de Eotheod para o norte, em auxílio de Gondor. A Batalha nos
Campos de Celebrant não foi uma derrota ameaçadora para os Balchoth.
Eles continuaram uma efetiva força guerreira para Sauron, mas o
controle sobre os Meandros passou de Gondor para os Eotheod, ao invés
de para Sauron. Gondor e Lothlórien continuaram, então, a ser uma
grande ameaça aos seus planos.

Ainda, quando Cirion cedeu
Calernadhon para Eorl e seu povo, Sauron teve que alterar sua
estratégia uma vez mais. Cirion consolidou suas forças em Anórien e
Ithilien, e Calenardhon veio a ser controlada por um forte povo do
norte, que Sauron percebeu não poder controlar. Os Rohirrim, como o
povo de Eorl veio a ser chamado, não poderia ser simplesmente ignorado.
E a oportunidade de cuidar deles veio no 28º século. Helm, rei de Rohan
(como Calernadhon veio a ser chamado), consolidou seu poder sobre as
terras ocidentais matando Lorde Freca e destruindo sua família. O filho
de Freca, Wulf, se aliou com os Terrapardenses, cujos ancestrais
serviram Sauron na Segunda Era.

Em 2758, Wulf lançou um ataque
à Rohan de Dunland. Ao mesmo tempo, Corsários de Umbar e outras partes
de Harad atacaram o lado oeste de Rohan, e os Balchoth ou outros
Orientais atacaram Rohan do leste. Até mesmo Gondor foi atacada,
ficando então bloqueada de ajudar Rohan. Os Rohirrim foram derrotados
em campo aberto e fugiram para as montanhas. Wulf tomou posse da
maioria das terras. Sauron com certeza planejou o ataque, e o extenso
período de frio, chamado o Longo Inverno, assegurou que o povo de Rohan
(e Eriador) sofreriam terrivelmente. Mas se o objetivo de Sauron era
destruir os Rohirrim neste conflito, ele falhou. Apesar de Helm ter
perecido no Longo Inverno, seu sobrinho Frealaf derrotou Wulf e seus
aliados, na primavera, com a ajuda de Gondor, que reprimiu os ataques
do sul. Mas o conflito produziu outro problema, que Sauron preferiu
ignorar.

Em 2590, os Anões Barbalonga re-estabeleceram o Reino
sobre a montanha de Erebor, que ficava a leste da parte norte da
Floresta Das Trevas. Enquanto Erebor não era ameaça para Dol Guldur,
ele se aliou ao Reino de Valle. Os dois reinos cresceram em riqueza,
fama e poder. Em 2770 o dragão Smaug veio do distante norte e destruiu
Erebor e Dale. Os anões sobreviventes se exilaram e a família real foi
parar em Terra Parda. Em 2990, Thror, que era rei sobre a Montanha,
decidiu retornar para o leste. Foi assassinado por Azog, chefe dos Orcs
em Khazad-Dûm, que decapitou Thror e mutilou a cabeça do Rei-Anão.

Thrain, filho de Thror, fez uma aliança entre todos os povos anões por
uma guerra de 7 anos contra os Orcs das Montanhas Nevoentas. Apesar dos
anões sofrerem grandes perdas, eles quase exterminaram os Orcs. O
controle de Sauron sobre as Montanhas Nevoentas foi efetivamente
destruído na guerra. Junto com sua falha de destruir ou tomar controle
sobre Rohan, perder as Montanhas Nevoentas diminuiu as chances de
Sauron de destruir Lothlórien ou achar o Um Anel.

Para não
ficar totalmente frustrado, Sauron começou então a recuperar os outros
Anéis do Poder que ele cedeu na Segunda Era. Os Anões tinham os Sete e
os Nazgûl tinham os Nove. Mandar os Nazgûl devolverem seus anéis não
era problema. Mas Sauron tinha que caçar os Reis-Anões um a um e pegar
os Anéis deles. E, desses reis, apenas três tinham anéis. Quatro dos
Anéis foram aparentemente destruídos por dragões. Thrain foi o último
Portador Do Anel a cair nas mãos de Sauron. Apesar de Tolkien não
explicar porque Sauron pegou os Anéis de volta, podemos concluir que
era para aumentar sua própria força. Ou então pretendia, futuramente,
distribuí-los para novos escravos. Glóin reportou para o Conselho de
Elrond em 3018 que Sauron ofereceu 3 Anéis para o Rei Dain II, apesar
de não podermos dizer que Sauron devolveu os Anéis para os anões.

Ao que o Conselho Branco corria, no qual Galadriel se juntou aos Istari
e lordes elfos depois que a Paz Vigilante acabou, Gandalf retornou para
Dol Guldur em 2851. Foi lá, então, confirmado que o Necromante
realmente era Sauron, e Gandalf descobriu que Sauron estava juntando os
Anéis de Poder novamente, assim como procurava pelo Um Anel. Tais
notícias alarmaram Saruman, que tinha ido morar na fortaleza gondoriana
de Isengard depois do Longo Inverno. Saruman, neste momento, percebeu
que o Um Anel poderia, sim, ser encontrado, e ele o queria para si. Ele
começou a recrutar Orcs e Terrapardenses para servi-lo, e mandou
espiões para procurar pelo Anel nos Campos de Lis.

Apesar de
Saruman apresentar uma ameaça pequena para Sauron, a procura pelo Anel
descobriu outro problema. Enquanto Arnor foi completamente destruída
(ou assim Sauron acreditava – ele não percebeu que descendentes de
Isildur sobreviveram no norte), Gondor provava ser muito mais forte e
resiliente, graças à aliança com os Rohirrim. O crescimento de um poder
rival em Isengard poderia complicar, mas se Sauron pudesse encontrar o
Um Anel ele poderia rapidamente conseguir controle sobre muitas pessoas.

Em 2941, Sauron provavelmente se convenceu que o Um Anel não estava
mais na região dos Campos de Lis. O Conselho Branco moveu-se contra ele
e ele fugiu de Dol Guldur. Dizem que a Floresta das Trevas ficou um
lugar mais calmo por um tempo. Tal transição implica que Sauron não
fugiu simplesmente de Dol Guldur. Ele sugere que foi uma grande
migração de orcs, homens e outras criaturas sobre seu controle.
Enquanto alguns argumentam que a ação do Conselho Branco foi um tipo de
ataque mágico, é mais provável que Lothlórien mandou um exército contra
a Floresta das Trevas. Os Istari e os senhores elfos desafiaram o poder
de Necromante diretamente, mas Sauron retraiu-se e então preservou
grande parte de suas forças.

A fuga sugere que Sauron não
estava mais a fim de arriscar seus exércitos principais em combate
aberto. Por outro lado, no norte, Bolg (filho de Azog) lançou uma
campanha contra um pequeno grupo de anões liderados por Thorin, filho
de Thrain, que retornou a Erebor. Após a morte de Smaug, elfos, homens,
anões e orcs se convergiram para a montanha, para recuperar o tesouro
que Smaug guardou à 170 anos. Estava Bolg seguindo ordens de Sauron, ou
Sauron perdeu o controle sobre os orcs das Montanhas Nevoentas? Se
Sauron aprovasse ou permitisse à Bolg lançar o ataque, então ele o
supriria com recursos o suficiente para executar uma ação que, além de
segurar uma base no norte, poderia ser usada para atacar Thranduil. Mas
isso também deixaria Sauron sem ajuda próxima das Montanhas Nevoentas.
Se Bolg ganhasse controle sobre Erebor, Sauron estaria em posição para
acabar com Thranduil e trazer reforços para atacar Lothlórien num
minuto. Mas quando Bolg retirou os exércitos órquicos, Lothlórien tinha
uma oportunidade única de ação.

Se Bolg fosse o comandante de
Sauron no norte, Sauron poderia retornar para Mordor com todas as
forças de Dol Guldur. Ao invés de espalhar seus recursos pelas três
maiores bases (Mordor, Dol Guldur e Erebor), Sauron poderia consolidar
sua força em duas regiões bem protegidas, que poderiam ser suprimidas e
reforçadas pelo leste. Então, por não ter arriscado tudo, a derrota de
Bolg em Erebor somente atrasou os planos de Sauron. Tolkien diz que
três quartos dos Orcs do norte pereceram na Batalha dos Cinco
Exércitos. Levaria décadas para que eles pudessem se recuperar
totalmente. Enquanto isso, enquanto os homens do Norte refaziam o Reino
de Dale e os Anões Barbalonga reconstruíam o reino de Erebor, Sauron
retornou para Mordor.

Sauron se declarou abertamente em 2951.
Ele agora se sentia confiante o bastante, apesar de sua falha em
recuperar o Anel, para agüentar qualquer ataque que o Oeste lançasse
sobre ele. O efeito psicológico do "Estou de volta" sobre os elfos não
deve ser subestimado. Muitos dos elfos simplesmente perderam a fé.
Talvez muitos deles acreditassem que Sauron tinha recuperado o Um Anel,
ou que estava quase encontrando. Pelo ano 3000 anões começaram a se
mover para o oeste, e trouxeram do leste relatos de movimentos de
povos, guerras predatórias e o poder crescente de Sauron. Muitos dos
eldar restantes fizeram uma onda massiva de migração para o Mar,
deixando a Terra-Média para sempre. Os Elfos Silvan continuaram
decididos, mas Lindon e Imladris nunca mais puderam reconstruir
exércitos.

À medida que os orcs das Montanhas Nevoentas
recuperavam seus números, novos inimigos ameaçavam a borda leste de
Dale. Mordor forjou novas alianças com os Orientais e os Haradrim, e
Saruman caiu no encanto de Sauron quando o mago usou o Palantír que
encontrou em Isengard para espiar Mordor. Apesar da fidelidade de
Saruman para com o oeste já ter se esvaecido, até agora ele se opunha a
Sauron. Foi útil para Saruman ajudar o Conselho Branco a livrar Dol
Guldur em 2941. Ele queria procurar pelo Anel livremente. Perto da
Guerra do Anel, Saruman encontrou os restos de Isildur, mas não o Anel
(que, com certeza, foi levado para o Condado).

Gondor
continuava a decair ante os repetidos ataques de Mordor e Harad, mas a
força militar de Gondor já não era vital para a estratégia de Sauron. O
Anel virou a prioridade-mor de Sauron. Ele finalmente soube de Sméagol
do destino do Anel, e em 3018 ele mandou os Nazgûl para o Condado para
recuperar o Anel e trazê-lo de volta. Apesar dele estar se preparando
para a guerra, e que ninguém acreditava que ele podia perder, Sauron
precisava ter certeza que seus inimigos não usariam o Anel contra ele
antes que ele lançasse a guerra. Seus capitães poderiam mudar de lado
caso alguém poderoso o bastante para usar o Anel aparecesse e tomasse
posse deste.

A grande lista de reinos e tribos que Sauron
juntou assegurava-o de qualquer vitória em qualquer guerra em que
ninguém usasse o Anel. A recuperação do Anel o assegurava, então, de um
controle indisputável sobre a Terra-Média. Os elfos que sobraram não
eram fortes o bastante para desafiá-lo. Os Dunedain definharam e eram
poucos demais para chegar a ter os poderosos exércitos que comandavam
no auge de seu poder. E os homens do norte, apesar de fortes em lugares
como Dale, os Vales do Anduin, e Rohan, estavam divididos em reinos
demais e incapazes de formar uma aliança forte o bastante para
desafiá-los.

Em 3018, Sauron esteve preste a atacar Dale e
Erebor, passando pela Floresta das Trevas, e limpar os Vales do Anduin
dos homens, elfos e anões. Mesmo Lothlórien provavelmente não
sobreviveria por muito tempo. Gondor, por outro lado, possuía força o
suficiente, especialmente se reforçado por Rohan, para agüentar ao
menos um ataque massivo. O dever de Saruman ele prevenir ou adiar o
reforço de Rohan. Os orcs das Montanhas Nevoentas poderiam atacar os
Beornings, os Homens das Florestas, Lothlórien, e sem dúvida alguma
Imladris e Eriador. Dol Guldur, agora reconstruída, poderia deixar
Thranduil dificultado. Não tinha chance dos povos do norte formarem uma
aliança no último minuto e chegar em auxílio de Gondor. Todas as peças
estavam no lugar. Vitória era certa. O Senhor do Escuro estava se
divertindo.

A análise de Gandalf das intenções e prioridades
de Sauron (revelada no Conselho de Elrond em 3018 e no último debate
dos capitães do Oeste em 3019) oferece um discernimento das estratégias
mutantes de Sauron na Terceira Era. Quando ele acordou e assumiu uma
força física uma vez mais, Sauron acreditou que ele fora ferido pela
destruição do Um Anel. Determinado a se vingar de seus inimigos, e
talvez reconquistar o controle sobre a Terra-Média, ele começou o
trabalho de dividir e enfraquecer seus inimigos. Seus tenentes
trouxeram a destruição de Arnor. O Balrog (direcionado por Sauron, ou
mesmo por pura sorte) destruiu Khazad-dûm e grande parte de Lothlórien.
Os Orientais e Haradrim enfraqueceram Gondor, reduzindo-o de um império
extremamente poderoso a um estado murcho, ainda orgulhoso mas temeroso
e com uma paranóia de ameaça e derrota. E muitos dos elfos restantes
fugiram da Terra-Média quando viram que a batalha final estava para
começar

Descartando problemas ocasionais, em 3019 Sauron
estava confiante de sua habilidade de adquirir vitória suprema sobre a
oposição. Ele sabia que o Um Anel ainda existia, e ele sabia quem o
possuía. Ele temia que alguém mais tomasse o Anel e usasse contra ele.
O grande perigo, ao ver de Sauron, estava na possibilidade que a
divisão e as brigas poderiam surgir entre seus exércitos. As forças que
ele conseguiu poderiam se virar contra ele. Aragorn e Gandalf
concluíram, então, que a chance de Frodo em concluir a sua missão
dependia do medo de Sauron. Eles fizeram Sauron acreditam que um novo
Senhor do Anel, presumavelmente Aragorn, estava aparecendo.
Penetrantemente atento ao que o atraso custou a ele na Segunda Era (e
talvez fazendo-o sentir que não estava agindo tão cedo), Sauron lançou
um ataque massivo contra Gondor na esperança de capturar o Anel. E
quando esse ataque falhou, ele lançou tudo o que ele tinha num assalto
selvagem que ele acreditava que iria trazer rapidamente o Anel para ele.

Como deve ter sido devastante para Sauron a verdade, quando Frodo
clamou o Anel na cova de Sammath Naur, que ele, o mestre da
manipulação, foi um tolo. Todo seu planejamento cuidadoso e manobras
sagazes por dois mil anos foram para nada. Força massiva, poder
impressionante, e as estratégias mais sutis foram sabotados pela
completa equivocação de Sauron quanto aos fatos que ele descobriu. Ele
acreditava que seus inimigos queriam ser como ele. Se ele entendesse
que eles simplesmente queriam se livrar dele e de todos os Lordes
Negros para sempre, ele teria ficado mais retraído. Em tal mundo,
Sauron estaria sem ação por um tempo. Ele ainda teria que temer que
alguém tomasse o Anel e o usasse contra ele. Mas ele também temeria que
eles o destruíssem. Ele teria que refazer sua estratégia. Não devemos
duvidar que ele deveria ter feito isso, e que o Conselho de Elrond
acertou no ponto quando concluiu que eles tinham uma única chance de
derrotar Sauron.

Michael Martinez

Cânones

Até agora eu tenho dado apenas uma pequena ajuda ao esforço dos fãs destinado a estabelecer um cânone para as discussões sobre Tolkien. Não “O” cânone, veja você, nem o cânone decisivo, ou o cânone atual ou mesmo o melhor cânone. Simplesmente um cânone. Minha pequena ajuda consistiu apenas em conceder permissão para as pessoas mencionarem o projeto para o “White Council”.

A verdadeira discussão canônica recomeçou no site The Barrowdowns, mas parece que parou. Eu acho que posso entender porque parou. Parte do problema é que um projeto como este requerirá muito tempo, e isso é ameaçador.

Mas deixe-me começar do início, tanto quanto eu consiga voltar no tempo. A questão do “cânone” tem frequentemente surgido em vários fórums de discussão pela Internet. Duas ou mais pessoas irão discordar acerca de algo nos livros e irão começar a fornecer citações para provar as suas afirmações. Graças à Deus, as citações são completas e relevantes, mas quase sempre alguém se opõe à fonte de informação do outro. A citação pode até estar completa, mas ela não parece relevante para todos os grupos.

Por exemplo, é relevante citar “O Livro dos Contos Perdidos” quando se discute “O Silmarillion”? Os dois trabalhos estão separados por mais de 50 anos. Muitas pessoas sentem que “O Livros dos Contos Perdidos” é apenas um “Silmarillion” mais atual [e não é!]. Muitas pessoas apontam que Christopher Tolkien usou “O Livro dos Contos Perdidos” para escrever partes de “O Silmarillion” [o que realmente fez!]. Então, “O Livro dos Contos Perdidos” é uma fonte relevante de informação.

Oh, que dores de cabeça aquela questão criou! Ninguém pode fornecer uma resposta definitiva. A melhor resposta que até agora eu consegui dar é, “Depende”. Algumas pessoas têm [erroneamente] suposto que significa: “Depende se [Michael Martinez] quer usá-la”. O que depende é se você está falando sobre os trabalhos de J.R.R. Tolkien ou o mundo retratado por “O Silmarillion”. “O Livro dos Contos Perdidos” é centrado na Inglaterra. Determinavelmente, honestamente e inegavelmente. Tolkien regularmente trabalhou a geografia da Inglaterra nas suas estórias. A Inglaterra seria aquela porção de Tol Eressëa que foi restaurada ao mundo mortal. “O Livro dos Contos Perdidos” foi uma mitologia que Tolkien escreveu para a Inglaterra.

Em algum lugar dos anos 20 Tolkien desistiu de escrever a mitologia da Inglaterra, mas ele não desistiu de escrever mitologia. Quer dizer, ela não era mais destinada à Inglaterra. Ela se tornou a mitologia de J.R.R Tolkien. Eu penso que ele sempre quis publicá-la, mas percebeu, de alguma forma, que não era algo que se esperasse que os editores perseguissem. Apesar de tudo, falsas mitologias não inundavam as livrarias naqueles dias.

Suas mitologias são linguisticamente dirigidas. Ou seja, as estórias são frequentemente ligadas com as linguagens Élficas construídas por Tolkien. Ele foi guiado por três paixões: a paixão por sua amada esposa, Edith [quem ele quase perdeu para outro homem antes que se casassem]; a paixão pela linguagem; e a paixão por contar estórias. Foi esta última paixão que eventualmente garantiu que Tolkien fosse publicado, mas foi a primeira paixão que resultou na melhor estória de Tolkien, o conto de Beren e Lúthien. E ainda ele atribuiu grande parte das suas estórias à segunda paixão, seu amor à linguagem. Ele queria saber as histórias por detrás de simples palavras; e juntou-as todas e criou uma fantástica história imaginária.

Nós podemos mostrar os livros “The History Of Middle Earth” [ainda sem tradução no Brasil] e dizer, “Este [livro] documenta este período” e assim por diante, mas estas divisões arbitrárias que Christopher Tolkien impôs sobre a história devem-se muito mais às suas próprias limitações humanas. O reuso de estórias, idéias, personagens e linguagens através dos anos feneceram as diferenças para J.R.R Tolkien, e essas diferenças nebulosas foram preservadas para nós. Agora nós as achamos nebulosas, também.

Tenho certeza de que sempre houve um mundo na mente de Tolkien, no qual suas personagens viveram e atuaram. Ele chamava-o de mundo secundário, ou um mundo sub-criacional [sua sub-criação]. Christopher continuou a chamá-lo de mundo secundário, posto junto ao mundo primário [nosso mundo] e consistindo de eras imaginárias no passado, antes que a história mundana começasse.

O mundo secundário de Tolkien primeiramente incluía Gnomos, Homens e Anões [malvados]. Mas com a publicação de O Hobbit ele teve que se confrontar com a preocupação real de fornecer um sequência para uma estória a que ele somente tinha designado uma importância secundária. Nesta época, Tolkien estava tirando outras criaturas do seu mundo secundário, que não mais se adaptavam a ele: duendes, fadas e outros tipos dos contos de fadas. Os gnomos eram Elfos, Elfos de uma espécie diferente, somente vislumbrada nas mitologias nórdicas, talvez levemente melhoradas com um toque de Tolkien

Para satisfazer sua necessidade íntima de ver mitologia publicada, e assim criar uma “realidade” à sua maneira, e para satisfazer os editores e leitores que queriam mais sobre Hobbits, Tolkien uniu o mundo de O Hobbit com o mundo de “Quenta Silmarillion”, que veio para substituir “O Livro dos Contos Perdidos” como “a mitologia”. “Quenta Silmarillion” já era um trabalho bem diferente do Contos Perdidos, mas ainda se parecia com os contos de muitas formas.

Hobbits, por outro lado, eram uma criação completamente nova. Eles não tinham lugar na velha mitologia [agora com mais de 20 anos de idade]. Eles de fato não tinham lugar real no mundo secundário de Tolkien; então, ele criou um lugar para eles e assim, mudou seu mundo radicalmente. A mudança forçou Tolkien a dispensar algumas convenções que ele tinha adotado anteriormente. Hobbits eram criaturas informais. E a mudança forçou Tolkien a procurar ver como essas criaturas poderiam compartilhar um mundo com Gnomos e Homens heróicos, trágicos e poderosos, sem se tornar confuso.

Tolkien produziu “O Senhor dos Anéis”, que milhões de pessoas já leram. E ele sugeriu algumas revisões a “O Hobbit” ao seu editor, que foram entendidas, de fato, como mudanças na estória. Quando Tolkien descobriu que as suas sugestões viraram realidade, teve que se virar para revisar o material histórico que já estava preparando para o ainda não publicado “Senhor dos Anéis”. Quando o livro foi finalmente publicado, Tolkien teve que revisar toda a base de informação histórica novamente, condensando-a e reorganizando-a consideravelmente. Muito do que ele pretendia que fosse publicado nunca viu a luz do dia durante seus dias de vida.

“O Hobbit” e o “Senhor dos Anéis” foram revisados novamente anos depois quando a Ace Books, aproveitando-se de um furo na lei de copyright, publicou uma edição não autorizada dos trabalhos de Tolkien. Para combater os livros não autorizados, foi pedido a ele que apresentasse mudanças suficientes em ambos os livros para justificar a nova edição “oficial”. Estas mudanças alteraram invariável e novamente o mundo em desenvolvimento na mente de Tolkien, e introduziram controvérsias acerca da progressão da história imaginária.

Então, muitos anos depois, as pessoas na Internet descobriram Michael Martinez e suas longas citações sobre Tolkien. Eu tenho refletido muito e pontificado nos mundos de “O Hobbit”, de “O Senhor dos Anéis” e o de “O Silmarillion”. E ocasionalmente [quando me convém, diriam uns] eu pego algum volume do “The History of Middle-Earth” e incluo seu conteúdo nas minhas reflexões e pontificações.

Mas, há alguma emoção ou razão para fazer tudo isso? Quase sempre minhas citações parecem confusas para muitas pessoas. Eu irei mencionar “O Livro dos Contos Perdidos” aqui quando discuto “A Queda de Gondolin”, mas eu irei excluí-lo lá quando discuto a queda de Gondolin [do Silmarillion]. “O Silmarillion não é canônico.” eu direi para as pessoas, e então eu continuarei a mencioná-lo para afirmar qualquer coisa que eu achar que posso.

“Como você acha e escolhe seus textos?” me perguntam, às vezes.

Eu digo: “Cuidadosamente.”

“Por que o Silmarillion não é canônico?”

Esta é a pergunta mais complicada de todas. Não é relevante para os outros livros porque Christopher Tolkien removeu-o de tal relevância. No prefácio de O Silmarillion, Christopher avisa ao leitor que “uma consistência completa [tanto dentro do próprio O Silmarillion como em comparação com outros escritos publicados de meu pai] não é para ser almejada, e poderia apenas ser alcançada, se o for, com um grande e inútil esforço.”

Christopher tinha anteriormente repudiado algumas de suas decisões editoriais em O Silmarillion, entretanto, das mudanças críticas que ele introduziu na estória da queda de Doriath ele continuou a dizer: “

“Esta estória não foi ligeiramente e facilmente aceita, mas foi o resultado de uma longa reflexão entre concepções alternativas. É, e era, óbvio que um passo estava sendo dado de uma forma diferente de qualquer “manipulação” dos próprios escritos do meu pai…pareceu naquele tempo, que haviam elementos inerentes na estória da Ruína de Doriath como estavam que eram radicalmente incompatíveis com “O Silmarillion” como foi projetado, e que havia aqui uma escolha impossível de escapar: abandonar aquela concepção, ou então alterar a estória. Eu acho agora que esta foi uma visão errada, e que as indubitáveis dificuldades poderiam e deveriam ter sido, superadas sem que se ultrapassem, de tão longe, os limites da função editorial.”

Esta confissão em nada invalida O Silmarillion como uma representação da obra de J.R.R. Tolkien. De fato, não há Silmarillion que represente uma realização autoral direta de J.R.R. Tolkien. Até mesmo “Quenta Simarillion”, dos findos anos 30, não é parte de um trabalho muito maior e mais completo que se tornaria O Silmarillion.

Não tenha dúvida: a maior parte do material em O Silmarillion foi escrita por J.R.R. Tolkien…em uma hora ou outra. Entretanto, o material não foi escrito para ser parte deste livro. Não foi a intenção de Tolkien. Christopher Tolkien escreveu O Silmarillion definitivo, e depois de gastar perto de 20 anos analisando o trabalho de seu pai e comparando-o com o livro publicado, ele chegou à conclusão que ele não tinha sido tão fiel à obra de seu pai quanto esperava.

Então quando as pessoas me vêem repudiar O Silmarillion de Christopher eles invariavelmente perguntam como eu poderia rearranjar o livro, fosse-me dada a tarefa de revisá-lo. Eu nunca serei capaz de responder esta questão. Eu acho que é inevitável que novas edições de O Silmarillion sejam publicadas. Uma vez que os direitos autorais das obras de Tolkien um dia virão a expirar, e as estórias se tornarão de domínio público, as pessoas irão dar a si mesmas a tarefa de escrever novos Silmarillions.

Alguns esforços serão ao mesmo tempo lastimados e saudados com grande louvor. Auto-intitulados puristas de Tolkien irão argumentar que apenas um dos dois Tokiens é qualificado para corrigir o texto de O Silmarillion, se tal texto pode ser idealizado. Qualquer outra pessoa está meramente passando por um falsificador. Talvez, mas Christopher Tolkien está aposentado, e ele indicou que não irá mais escrever. Suas realizações em documentar os trabalhos do pai são incomparáveis, e ele revelou a árvore que traz os frutos disformes que teremos que distribuir entre nós.

O gosto d”O Silmarillion é ao mesmo tempo amargo e doce, e desta forma deve servir para o propósito dos autores melhor que qualquer futura publicação. Mas ele não consegue uma consistência com O Hobbit e O Senhor dos Anéis, que seria necessária. E para obter tal consistência, alguém precisa reescrever não só O Silmarillion, mas também cada um dos outros dois livros. A idéia de reescrever O Silmarillion é dificilmente confortável para a maioria dos fãs de Tolkien. Agora ninguém ousaria reescrever os outros dois livros.

E mesmo assim, a proeza já foi feita, nos dois livros, por editores ávidos por trazer os textos “corretos” de Tolkien para impressão. Veja bem, J.R.R.T. indicou algumas correções que deveriam ser feitas nos textos e que não foram incorporadas até a sua morte. Estas são a “quarta” edição d”O Hobbit e a “terceira” edição d”O Senhor dos Anéis, dificilmente distinguíveis das suas predecessoras, mas diferentes o bastante para que alguns leitores encontrassem profunda significância na sua existência.

E há uma grande distância entre corrigir textos e realmente revisar a estória em cada livro. Além do mais, isto também já foi feito, aos dois livros de novo, e mais de uma vez. Ambos foram adaptados para o cinema e televisão, e para o rádio. O Hobbit também foi adaptado para o teatro. As estórias passaram por mais mudanças que, talvez, qualquer pessoa pudesse esperar ver.

Então não é grande coisa, exceto em termos emocionais, considerar uma revisão formal de, digamos, O Hobbit, para trazê-lo para uma forma mais consistente com O Senhor dos Anéis. O próprio J.R.R. Tolkien escreveu: “Eu acho que O Hobbit pode ser visto como início de algo que pode ser chamado de modo “caprichoso”, e de alguma forma até mais humorístico [do que O Senhor dos Anéis]…mas eu me arrependo disso do mesmo jeito.”

Humphrey Carpenter diz em sua biografia que quando Tolkien revisou O Hobbit para diferenciá-lo da edição não autorizada da Ace Books “ele achou grande parte dele “muito pobre” e teve se conter para não reescrever o livro inteiro.”

Os Vulcanos têm um ditado, de acordo com o Sr. Spock: Somente Nixon pode ir à China. A maioria dos fãs podem dizer: somente Tolkien pode reescrever Tolkien. É verdade, muito provavelmente ninguém seria capaz de reescrever O Hobbit como J.R.R. Tolkien o faria. Qualquer autor publicado atualmente produziria, sem dúvida, um tipo profundamente diferente de estória, fornecendo um tom diferente, novos personagens, detalhes “não-canônicos” adicionais, prenúncios e empréstimos de O Senhor dos Anéis, e tudo mais de pior. Esta é a forma dos pastiches. O novo escritor pode não ser de ajuda, mas deixar suas próprias digitais na obra.

O que é solicitado é um mestre das falsificações, alguém que queira produzir outro Rembrandt, não uma pintura tão boa quanto Rembrandt. Um falsificador imergiria a si mesmo no estilo e prosa de Tolkien, não adicionaria nada que Tolkien não teria adicionado, não usaria palavras que próprio Tolkien não escreveria. Entretanto, o perigo de contar com uma falsificação é que o falsificador poderia, apesar de tudo, produzir uma obra banal e desinteressante. Pareceria que Tolkien teria escrito o livro, mas ele seria um fracasso. Somente um mestre da falsificação com o dom de um contador de estórias similar ao de Tolkien teria alguma chance de ter sucesso. Mas…tal pessoa existe?

Invariavelmente milhões de fãs diriam: Não!

Muito bem. Eu não tentarei ser esta pessoa.

Porém, em resposta à questão irrespondível, se eu tentasse revisar O Silmarillion, eu tentaria também revisar O Hobbit. Eu não tenho idéia do que eu faria no último, mas ele requereria mudanças. Uma nova edição de O Hobbit libertaria o autor do novo O Silmarillion de obrigações de honrar inconsistências. Estas obrigações atrasaram Christopher Tolkien, que reduziu seriamente alguns pontos históricos de forma a alcançar um nível modesto de consistência com O Senhor dos Anéis. Ele nunca levou O Hobbit em consideração.

Para o meu Silmarillion, eu revisaria as estórias de Maeglin, Béren e Lúthien, Túrin, a queda de Gondolin e Eärendil. Eu reafirmaria o número de passagens que foram abandonadas dos textos. Mas eu também teria que escrever novo material para trazer às estórias de O Silmarillion consistência com O Senhor dos Anéis. Eu não iria, por outro lado, introduzir os Hobbits em O Silmarillion. Eles não têm lugar nas histórias Élficas. Eles têm suas próprias histórias, perdidas, esquecidas, enterradas nas tradições insondáveis que não têm sido preservadas. A falta dos Hobbits em O Silmarillion tem sido lembrada com uma fraqueza do livro para os fãs de O Hobbit. Talvez, mas não há evidências que J.R.R. Tolkien já tenha se inclinado alguma vez a incluir os Hobbits nas histórias Élficas. Ele provavelmente incluiria os Druedain.

Portanto, um bom falsificador não pode colocar Hobbits em Beleriand. Quantas pessoas poderiam resistir à tentação, de qualquer forma, se lhes fossem dada a tarefa? A retumbante promessa inicial da campanha do Presidente George Bush vem à mente: “Leia meus lábios: nenhum novo imposto.” Dois anos depois, ele aprovou novos impostos. Para ter sucesso, um novo O Silmarillion simplesmente não pode incluir Hobbits. Ele não seria compatível com a visão de Tolkien. Nós sabemos bastante sobre aquela visão, então poderíamos fingir sermos falsificadores competentes se fôssemos discutir a idéia de “cânone”. Somente Tolkien poderia definir seu cânone, e desde que ele não se incomodava, se rudemente insistíssemos em fazer por ele, deveríamos nos tornar falsificadores.

Pode ser argumentado que para que um novo Silmarillion tenha “sucesso”, ele deve apelar para sua audiência moderna, especialmente se. Não deve levar outros 50 ou 70 anos para ser reescrito. Os livros velhos compartilham uma visão de uma audiência há muito perdida. Mas, quando falsifica-se um Rembrandt não se pinta com o estilo de Picasso. Deve-se pintar com o estilo de Rembrandt. Para alcançar a perfeição, deve-se usar os mesmos tipos de tinta e pincéis, canvas e a mesma iluminação de Rembrandt. Deve-se tornar Rembrandt em cada detalhe possível, viver no seu mundo e produzir uma obra de arte que deveria vir do seu mundo. O mesmo princípio serve para falsificar literatura. Se alguém adicionar um novo livro para os comentários Gálicos de César, deve-se escrevê-lo como César o faria [e ignorar, de qualquer modo, a controvérsia se o último livro era uma falsificação pobre]. Deve-se buscar consistência com o que é conhecido e aceito pelos experts como o carimbo do artesão cujo trabalho está sendo forjado.

É por isso que eu escolho os meus textos rigorosamente. O que é consistente com o cânone de Tolkien? Se alguém puxar um tópico de um livro, eu procuro pelas passagens em outros livros [se elas existirem]. O cânone da Terra-Média, como foi definido por J.R.R. Tolkien, já existe. Ele o estabeleceu na terceira edição de O Hobbit, na segunda edição de O Senhor dos Anéis, no The Road Goes Ever On e nas Aventuras de Tom Bombadil. Poderia até ser afirmado que o mapa da Terra-média de Pauline Baynes também faça parte do cânone.

Estes livros são, na sua maior parte, consistentes entre si. O Silmarillion trata de um monte de material não incluído naqueles livros, daí as oportunidades para consistência [ou para erros que desviem da consistência] serem tantas. O próprio Tolkien não disse: “Estes livros são o cânone; eles definem as leis do meu mundo.” Ele simplesmente os publicou. Ele os aprovou, escreveu-os, revisou-os. Eles são os enunciados formais, de J.R.R. Tolkien, para o que é e não é Terra-Média. E há inconsistências pequenas entre eles, mas nada como as inconsistências que aparecem entre esses livros e O Silmarillion de Christopher.

Mas se alguém começar a revisar o texto de O Silmarillion, esse alguém deve ter uma fonte para o novo material, que é indistinguível do material de J.R.R. Tolkien. E isso, é claro, é onde os The History of Middle-Earth e Os Contos Inacabados se tornam importantes. Christopher Tolkien já havia publicado muitos dos trabalhos de seu pai, previamente não publicados. Ele utilizou algum material de Os Contos Inacabados para escrever partes de O Silmarillion. E as fontes diretas da maior parte do livro têm sido publicadas nos The History of Middle-Earth.

O que um falsificador moderno [ou futuro] pode contar é com um cânone secundário publicado por Christopher para consultar. Quando ele estava compondo O Silmarillion, Christopher não teve este extensivo corpo de pesquisa disponível. Ele estava apenas nos primeiros estágios da pesquisa. Se ele soubesse antes o que ele sabe agora, ele teria escrito um O Silmarillion diferente. E se Christopher Tolkien poderia ter escrito um livro baseado no conhecimento que nós todos temos hoje disponível, então por que outra pessoa não? Bem, esta é outra questão irrespondível, daí nós iríamos apenas falsificar adiante e assumir que a questão foi respondida satisfatoriamente [e este ensaio termina aqui, mas eu não estou pronto para finalizá-lo].

Há questões difíceis que devem ser mencionadas. O conteúdo total de “Quenta Simarillion” deve ser considerado, por exemplo. Ele nunca teve a intenção de cobrir todos os detalhes das estórias completas. Ele é um resumo, uma camada de interpretação, se você preferir, que fica entre o leitor e os contos “verdadeiros”. Portanto, ninguém pode simplesmente encaixar o “Narn i Chin Húrin” inteiro no texto. Por outro lado, “The Wanderings of Húrin” é uma importante extensão da estória de Túrin e seu pai, e ela não deveria ser excluída, sendo que estava na forma na qual Christopher a encontrou [na realidade, a versão publicada é muito diferente dos manuscritos não editados, pela explicação dada pelo próprio Christopher]. A estória de Túrin deve retornar para Doriath, o que acontece de forma inadequada no Silmarillion publicado, e por isso Christopher literalmente cortou o final da estória e fabricou um final inteiramente novo.

Outro assunto que preocupa é como os velhos parágrafos que Christopher usou devem ser reescritos. Eles devem ser reescritos, porque são muito inconsistentes com as coisas que J.R.R. Tolkien incluiu posteriormente no cânone. Seguidores do “Grande Debate dos Balrogs” sabem que as pessoas frequentemente defendem que os Balrogs não poderiam ter voado, porque em Dagor Bragollach, Glaurung veio saindo de Angband com os Balrogs nas suas costas. Esqueça o fato de que “nas suas costas” poderia incluir criaturas voadoras, o parágrafo é tecnicamente inapropriado para inclusão no Silmarillion porque foi escrito antes que Tolkien alterasse radicalmente a descrição física dos Balrogs [nos anos 40, enquanto escrevia “A Ponte de Khazad-dum”] e seu número [no anos 50, reduzindo eles de centenas ou milhares para não mais que 7], e antes que os Balrogs se tornassem Maiar corruptos.

Existem fortes emoções ligadas à passagem “nas suas costas”. Ela tem sido frequentemente usada para provar [sem sucesso] que os Balrogs não têm asas e não podem voar. Bem, os Balrogs para os quais J.R.R. Tolkien escreveu aquelas palavras não tinham asas e não podiam voar, eram em número de 1000 e viajavam nas costas de dragões e/ou outras criaturas. Eles eram uma tropa de cavalaria assustadora, e eram um pouco diferentes do Balrog de Moria.

Não pretendo redebater o assunto Balrog aqui, mas minha opinião é que algumas coisas nas quais fortes sentimentos [e lealdades] foram atados simplesmente teriam que desaparecer. Não para provar que Balrogs tinham asas e voavam, mas porque elas eram inconsistentes com o cânone publicado por Tolkien, ou com as decisões de Tolkien que eram contemporâneas com o cânone publicado.

E então se levanta outro assunto espinhoso. É justo que se utilizem decisões feitas durante os anos entre 1950 – 1966, quando foi estabelecido o cânone publicado, mas quais não estariam incluídas nele? Pegue a passagem de Gil-galad, por exemplo. Christopher agora admite com prazer que ele nunca deveria ter declarado Gil-galad como sendo filho de Fingon em O Silmarillion. Ele baseou aquilo em uma nota de rodapé que ele depois percebeu ser apenas uma “idéia efêmera”. Gil-galad era um tipo de “batata quente” genealógica, pulando em torno da Casa de Finwë de pai para pai, começando com Inglor [adivinhe, Finrod] e passando para Fingon e de volta para Finrod e finalmente para Orodreth. E lá ele ficou, como filho de Orodreth, perdido nas genealogias.

É inapropriado usar a conexão Fingon –> Gil-galad em O Silmarillion. Christopher diz que teria sido melhor deixar o parentesco de Gil-galad incerto, dizendo nada. Eu acredito que seria melhor declarar que Gil-galad era o filho de Orodreth, e descobrir um alguma maneira para ele evitar a Queda de Nargothrond, tal como Galadriel a evitou. As pessoas querem saber quem foi o pai [e mãe] de Finrod. Pelo menos parte da informação está estabelecida em material publicado postumamente.

Algumas pessoas no Barrowdowns estavam perguntando se a seção “Mitos Transformados” do Anel de Morgoth poderia ou deveria ser usada para estabelecer um cânone. Eles se baseiam no revisado mito do Sol e da Lua. Eu não faria isso. Ele é completamente inconsistente com todo o mais publicado. Tolkien, nos seus últimos anos, ficou preocupado, talvez até alarmado, que O Silmarillion [quando publicado] estabeleceria o antigo mito [em termos da sua vida] sobre a criação do Sol e da Lua a partir das últimas folhas de Laurelin e Telperion nas histórias Élficas. Mas os Elfos, ele pensou, particularmente os Eldar, cujas histórias eram essas, foram instruídos diretamente pelos Valar e Maiar, os seres angelicais que existiam antes do Tempo. Eles não deveriam ser tão rápidos a inventar baboseiras falsas e pseudo-religiosas sobre como o Sol e a Lua eram folhas das árvores.

Por um instante, Tolkien brincou com a idéia que talvez o Homem, recordando e passando as histórias Élficas, tivesse estragado as estórias. Mas no final das contas, ele rejeitou aquela idéia e chegou à conclusão que a história inteira deveria ser reescrita. Esta é a razão real para o porquê Tolkien nunca publicou, ele mesmo, O Silmarillion. Ele simplesmente não existia, exceto na forma de comentários estranhos e notas para ele mesmo sobre o que funcionava e o que não funcionava. Tudo estava a ponto de mudar de novo.

Ninguém pode simplesmente reconciliar O Hobbit, O Senhor dos Anéis, As Aventuras de Tom Bombadil com a história humana atual, e nossas deduções sobre o que veio depois. Se alguém deve reescrever O Silmarillion, então alguém deve reescrever todos os outros livros também. E isso é exatamente o que o falsificador deve fazer? Seria como repor todos os Rembrandts por novas pinturas apenas para justificar uma falsificação menos coerente. No caso de Tolkien, ele não tinha como proceder muito mais com as suas extrapolações para perceber as implicações mais amplas, e talvez tenha sido um alívio para ele que não tenha conseguido ver onde as revisões deveriam acabar.

Então, inevitavelmente, alguém deve permanecer fiel aos mitos mais antigos, e produzir um Silmarillion que viva no mundo imaginário do cânone publicado. Neste mundo, Galadriel não poderia se juntar com os Teleri em Alqualondë contra os Noldor [uma das decisões que Tolkien tomou tarde em vida]. Nem pode Celeborn ser um Elda de Aman, neto de Olwë [um relacionamento que o faria primo de primeiro grau de Galadriel e, portanto, violando um tabu sobre tais uniões que Tolkien tinha previamente estabelecido e depois esquecido]. A história de Galadriel deveria ser planejada para o Silmarillion forjado. Não há história real para Galadriel. Existem muitas tentativas de Tolkien para inventar uma, mas cada uma delas termina logo, e introduz seus próprios problemas no enredo da estória.

Pelo menos, eu permaneceria fiel aos mitos mais antigos. Sim, os Elfos deveriam ter maior conhecimento do que pensar que Eärendil é Vênus, que o Sol e a Lua foram só criadas cerca de 11.000 anos atrás, e o mundo era plano mas foi encurvado quando os Numenorianos se rebelaram. Mas, eu não posso pensar em reescrever o Senhor dos Anéis, sendo que o propósito de reescrever o Silmarillion é necessário para fazê-lo consistente com o livro mencionado.

E eu acho que é onde as pessoas que querem definir um cânone para as discussões devem ir. Há uma riqueza de material que pode ser usado para descrever o que é necessário para a consistência com o Senhor dos Anéis. Mas se alguém está pensando em reescrever os mitos, esse alguém está pensando em reescrever O Senhor dos Anéis, e então a intenção de definir um novo cânone de Tolkien perde todo o valor. Você não seria capaz de discutir Tolkien de acordo com um novo cânone, você seria capaz apenas de discutir o novo mundo que você criou.

Claro, alguns fãs de Tolkien diriam: “Por que apenas não criamos novos mundos e deixamos Tolkien em paz?”

Esta também é uma questão sem resposta.

[Tradução de Daniel. A. Sant’Ana]

valinor

Celeborn Unplugged

Constantemente alguém pede para que eu fale sobre Celeborn. Ele é, talvez, o mais mal-falado e incompreendido dentre todos os personagens de Tolkien. Muitas pessoas consideram o Senhor de Cabelos Prateados de Lórien como sendo tolo ou mesmo ridículo. Por que? Basicamente por uma frase proferida por Galadriel.

E agora os sabres da racionalização começam a censurar em suas bainhas: “Oh, mas ele não faz realmente nada no livro!” dizem os seus detratores. Da mesma forma, Galadriel deixa o seu capacho real e faz alguma coisa? Perdão. Nesse mato não tem Warg. Nenhum dos dois personagens faz muito na história. Os dois realizam muitíssimo no segundo plano: Galadriel ajuda Gandalf e Celeborn ajuda a derrotar as forças de Dol Guldur. Juntos, eles lideram os Elfos de Lórien. A principal reclamação que muitos parecem ter contra Galadriel é perguntar o que ela está fazendo com um idiota como Celeborn. Francamente, pelo meu livro, qualquer um que consegue se casar com uma Galadriel é um vencedor, mas isso é apenas a minha opinião. Chame isso de uma interpretação do texto. Diga que eu estou lendo algo no texto que não está lá. Isto não é como se ninguém houvesse feito isso antes.

O principal problema com Celeborn é que Tolkien nunca se decidiu sobre ele. Por exemplo, Tolkien o chamou “Celeborn o Sábio” e pessoas perguntaram: “Por que?” O único comentário de Robert Foster no verbete em The Complete Guide to Middle-earth é dizer que Celeborn não parece especialmente claro em O Senhor dos Anéis. Ora, quem parece? Alguém pretender questionar se Samwise Gamgi (cujo primeiro nome significa “meio-inteligente”) é um modelo de inteligência? Ou que tal Gimli, filósofo-anão que ele é, exaltando as virtudes das rochas?

Mesmo o personagem mais inteligente na Sociedade, Gandalf, não se deu conta de que Saruman o havia traído. Qual foi a última vez que Celeborn foi capturado por agentes do Inimigo? Ok, talvez isso não seja justo com Gandalf. Entretanto, alguém deve ser capturado, e ele é um prisioneiro conveniente. Ele é astuto e reservado – é admirável que Saruman não o tenha aprisionado mil anos antes.

É claro, a definição de Tolkien para “sábio” parece diferir da definição da maioria das pessoas atualmente. Tolkien não quis dizer “Celeborn o Sabe-tudo”. Quando a Sociedade aparece em Lórien, eles não estavam de olhos vendados, amordaçados, amarrados, arremessados na mala de um Lincoln Town Car e rodaram por aí durante três horas, e então forçados a confrontar o Senhor élfico mau-humorado na escuridão de um armazém. “Se vocês aí pensam que vão conseguir alguma ajuda de nós, se enganaram vindo até aqui! Oh, droga. Lá vem a patroa. Todos aí peguem uma harpa e se comportem como ELFOS!”

Tolkien também não quis dizer “Celeborn o Sábio espirituoso”. “Ei, Gimli! Com quantos anões se troca uma lâmpada?”

Mas quando se fala “os Sábios”, geralmente eu fico com a sensação de que interpreta-se “os Sábios” como os elfos mais inteligentes. E qual seria a justificativa para esse tipo de pensamento? Fëanor foi o elfo mais inteligente de seu tempo, e vejam onde o seu cérebro o levou. Ter inteligência confere algum tipo de sabedoria? Certamente que não. Nsa verdade, pessoas inteligentes cometem os mais estúpidos e tolos erros. A História é marcado pelos erros dos mais brilhantes.

Sabedoria é uma combinação de conhecimento, experiência e intuição. E todos os elfos de Tolkien possuem conhecimento, experiência, e intuição. Até mesmo Legolas, que parece ser jovem para um elfo (provavelmente não teria mais do que algumas poucas centenas de anos), tem conhecimento, experiência e intuição. Ele é sábio além dos anos de qualquer mortal, certamente. Entretanto, ele é um dos Elfos-Sábios? Aparentemente não. Ainda assim, ele aceita partir na missão para a Montanha da Perdição e termina por encontrar seu destino além do Mar. Adeus, Terra-Média. Olá, aposentadoria forçada em Aman.

Alguns parecem acreditar que uma boa capacidade de dedução é um aspecto da sabedoria. De fato, uma pessoa sábia iria colher todas as provas e concluir que Moriarty é mesmo o culpado. Mas Celeborn não é Sherlock Holmes, meu caro Watson. E nem deveria ser. Entretanto, Celeborn sabe quem é o seu inimigo. Ele não é questionado com dúvidas graves ou tentações, tal qual sua esposa. Ele tem um personalidade bastante sólida a esse respeito.

A credibilidade de Celeborn enquanto um sábio é normalmente questionada em três pontos: por que ele é repreendido por Galadriel perante a sua côrte e da Sociedade; por que ele não pertence ao Conselho Branco; e por que ele não quer o Um Anel? É evidente, a razão pela qual ele é repreendido é que Tolkien quer explicar algo ao leitor. E o que o autor está tentando nos dizer?

Celeborn está tão espantado quanto todos os outros quando das (prematuras) notícias da morte de Gandalf. Quando Celeborn diz, “E se isso fosse possível, talvez se pudesse dizer que Gandalf, no último momento, da sabedoria caiu na loucura, entrando sem necessidade nas entranhas de Moria”, muitos leitores reclamam. Ei, não fale assim do nosso Mago favorito!

Mas a reserva de Celeborn é um restabelecimento necessário da advertência anterior de Aragorn para Gandalf não entrar em Moria. A credibilidade de Gandalf como um dos Sábios foi severamente enfraquecida. Ele não pôde encontrar um caminho através de seus obstáculos, e quando prosseguiram ele foi frustrado pelo Balrog (que o arrastou para dentro do abismo). Muitos assumem que o Balrog desejava o Um Anel. Bem, quando nos é dito que ele sabia sobre o Um Anel? Eu acho que Gandalf tinha um Balrog bem por fora de tudo em suas mãos, e isso era tudo. O velhinho arremessou parte da montanha jovialmente no Balrog quando ele não sabia mais o que fazer. Eu tenho certeza de que Balrogs, sendo criaturas tão inflamadas como são, não apreciam ter montanhas arremessadas neles.

O meu ponto é que geralmente os leitores focam demais sua leitura na linha principal da história. Tolkien introduziu um conflito pessoal para Gandalf portanto ele poderia ser removido convenientemente da ação. A queda de Gandalf em Moria é, na verdade, um artifício literário não diferente dos seus negócios urgentes no sul distante em O Hobbit. Ele é um personagem muito poderoso para o autor mantê-lo com a Sociedade do Anel, então ele deve partir.

Mas se livrar de Gandalf diminui a sua credibilidade. Então, alguém que não tenha parecido fraco e tolo deve restabelecer a credibilidade de Gandalf. Agora podemos todos concordar que Galadriel restabelece a reputação de Gandalf ao refutar que contestem as suas decisões. Alguém deve arriscar sua própria credibilidade para que possa colocar Galadriel em posição de defender Gandalf.

A expressão de dúvida não soaria bem vindo de Aragorn ou outro membro da Sociedade. Nem seria apropriado a um dos elfos inferiores no salão que dissessem, “Ei, o Gandalf deu mole dessa vez, chefe!”. A inquietação do leitor acerca da sabedoria e propriedade das escolhas de Gandalf devem vir de alguém com autoridade. E Celeborn tem a autoridade apropriada.

Ao sacrificar (temporariamente) a credibilidade de Celeborn, Tolkien oferece ao leitor um caminho diferente de um enigma literário. Ninguém deve criticar o pobre e velho Gandalf por fazer o que parece uma decisão estúpida. Afinal de contas, a Comitiva poderia apenas ter cruzado o Passo Alto por sobre Valfenda, que era protegido pelos Beornings, e viajado para o sul por terras ameaçadas por orcs nos Vales do Anduin, certo? Ou eles poderiam ter ido através do Desfiladeiro de Rohan quando todos os Orcs estivessem cochilando durante o dia. A parte mais fraca da história é a afirmação de Tolkien (através de Gandalf) que o único caminho para sair de Eriador (e Azevim) com o Anel é ir por Moria até Lórien.

Gandalf, é claro, queria alcançar Lórien. Ele sabia que encontraria ajuda lá. Então, ir através do Desfiladeiro de Rohan não faz sentido, realmente. Foi bom que Gandalf não tenha desperdiçado tempo discutindo com Boromir sobre a validade de se levar o Anel para Gondor. De fato, aprecia-se um pouco mais a sabedoria de Gandalf quando se considera o fato de ele ter desconsiderado este argumento.

É claro, outra reclamação contra Celeborn diz respeito à sua má liderança vez ou outra. As pessoas encaram sua retração em dar as boas-vindas a Gimli (e a todos que vão com Gimli – que são a Comitiva como um todo) como um sinal de estupidez. Deve-se questionar o argumento por trás deste julgamento, entretanto. Afinal de contas, Celeborn reconhece que ele (e, presumivelmente, Galadriel) suspeitavam há muito de que algo poderoso e terrível habitava em Moria. Agora seu maior medo foi confirmado, e ele conclui que seu reino não é ameaçado apenas por Dol Guldur, mas também pelo poder em Moria. E não é apenas um poder qualquer, é um Balrog.

Muitos olham para O Silmarillion e pensam, “Ah, Elfos matavam balrogs a torto e a direito. Então por que Celeborn deveria se preocupar acerca de um só?” Bem, O Silmarillion é enganador. O único conto onde Elfos matam Balrogs é a história sobre Tuor e a queda de Gondolin, e Christopher Tolkien teve que sintetizar um texto muito antigo, um conto pré-Silmarillion de O Livro dos Contos Perdidos para criar aquele capítulo. Na realidade, caso J.R.R. Tolkien houvesse vivido tempo suficiente para reescrever a história para O Silmarillion, ele provavelmente não teria tantos Balrogs sendo assassinados. Ele teria mantido o sacrifício heróico de Glorfindel e seria desse jeito.

Celeborn havia de se preocupar em como manter Lothlórien no mapa tanto tempo quanto fosse possível. A desvantagem de Lothlórien para uma longa sobrevivência era, na verdade, muito grande. Então por que deveria uma pessoa sábia (especialmente um dos Sábios Elfos, que, de qualquer modo, têm suas próprias preocupações) não ficar preocupada nem um pouco ao saber que um balrog mora logo ao lado? O coração de Galadriel deve ter batido mais forte também, e ela foi cautelosa ao ter que expressar sua preocupação com o descontrole de Celeborn.

De fato, a retratação de Celeborn mostrou que ele e Galadriel nem sempre tinham as mesmas opiniões. Suas rápidas desculpas a Gimli, que seguiram a breve repreensão de Galadriel, demonstram uma força de caráter que ela não via em si mesma.Celeborn foi capaz de mudar de direção mesmo no meio da tempestade. Ele não foi compelido pelas suas escolhas do passado em direção a um curso dos acontecimentos. Galadriel, diferentemente, havia mantido a si mesma na Terra-Média por suas próprias escolhas (ou assim somos levados a crer em The Road Goes Ever On). O temperamento de Celeborn é flexível a aberto à persuasão.

Além disso, ele também tem conhecimentos sobre o mundo em geral. Quando Aragorn revela que ele não havia decidido por qual caminho a Comitiva deveria prosseguir, Celeborn lhe poupa um bom tempo dando a Comitiva alguns barcos. Os barcos permitem que Aragorn deixe as opções em aberto. Mas também acelera o grupo no sentido das inevitáves escolhas que eles devem tomar. Aragorn não compreende isso, ele não tem plena noção de quão rápido eles prosseguem pelo rio.

Quando Celeborn convoca a Comitiva uma última vez antes que partam, ele lhes diz: “Pois chegamos agora ao limiar do nosso destino. Aqui, aqueles que desejarem podem esperar a aproximação da hora em que ou os caminhos do mundo se abrirão de novo, ou os convocaremos para a luta suprema de Lórien.” Há um senso de urgência em suas palavras que é enterrado abaixo da dúvida de Aragorn e da habilidade de Celeborn ao lidar com essa dúvida. Enquanto Celeborn evita fazer escolhas pela Comitiva, ele sabiamente limita as suas escolhas.

Vamos supor que a Sociedade estivesse para deixar Lothlórien à pé. Para onde eles iriam? Celeborn os avisa para evitarem a floresta da Fangorn. Então eles poderiam tanto retornar para as montanhas quanto tentar passar por Isengard, ou eles deveriam seguir o rio — talvez ainda tentar cruzar o rio pelas passagens mais rasas. A doação dos botes guia a Comitiva para longe das montanhas e de cruzar o rio muito cedo. O cruzamento será feito no sul como uma conseqüência da decisão de Celeborn.

É claro, considerando-se como os acontecimentos sucederam-se em Fangorn, é natural que perguntemos por que Celeborn deveria alertar a Comitiva para que ficassem longe da floresta. Merry e Pippin, depois de encontrarem Barbárvore pessoalmente, perguntam a ele por que Celeborn os havia advertido para não entrar na floresta. De sua parte, Barbárvore responde, “Hm, ele disse, é? E eu poderia ter dito o mesmo, se vocês estivessem indo daqui para lá.”. Ele reconhece que tanto a sua terra quanto a de Celeborn são muito perigosas para estrangeiros. Gandalf sugere algo similar, também, quando conta a Aragorn, Legolas, e Gimli que eles próprios são perigosos cada qual da sua maneira, exatamente como Barbárvore e os Ents são perigosos.

A advertência de Celeborn é suficiente para provocar a precaução dos viajantes. Ele não pode preveni-los de entrar na Floresta da Fangorn, e nem compeli-los de fazê-lo. Mas em face das dúvidas de Boromir acerca dos velhos contos de avós, Celeborn relembra ao viajantes que “talvez as velhas avós guardem na memória relatos sobre coisas que alguma vez foram úteis para o conhecimento dos sábios.”

Sua observação é curiosamente refletida no próprio epitáfio de Tolkien ao legado de Celeborn, dado no Prólogo: “mas não há registros do dia em que ele finalmente se dirigiu aos Portos Cinzentos, e com ele partiu a última memória dos Dias Antigos da Terra-Média.” Quando Celeborn o Sábio deixa a Terra-Média, muito do que um dia foi útil para o conhecimento dos sábios se foi com ele. De certa forma, Tolkien estava advertindo o leitor a não ter Celeborn como certo. Ele era uma mina de ouro de experiência e conhecimento, e por conseguinte sabedoria. Ele era muito perspicaz and poderia prever a corrente do rio tão bem quanto qualquer outro.

Portanto, quando diz “Adeus” a Aragorn, Celeborn permite que ele possa logo afastar-se de Galadriel. Ele estava inclinado a aceitar a separação, sabedor de que ao tempo certo ele iria segui-la através do Mar. Muitos freqüentemente questionam por que Celeborn deveria permitir que Galadriel o deixasse daquela forma. Mas eu penso que Tolkien explicou bem as razões de Celeborn em várias oportunidades.

Primeiramente, era provável que Galadriel precisasse que alguma cura. Ela não apenas foi uma Portadora de um dos Anéis de Poder, e por essa razão sujeita ao poder do Um Anel (ainda que indiretamente), como também era a última sobrevivente dos líderes da rebelião dos Noldor na Primeira Era. Galadriel havia se fatigado por seu exílio de longos anos, cujo regresso ela havia expressado na canção que ela compôs para a Comitiva ao deixar Lothlórien. Ela necessitava de um tempo até estar novamente em empatia com os Valar. Ela e Elrond eram ainda os últimos Portadores dos Anéis Élficos, e os Anéis de Poder eram originalmente um segundo ato da rebelião élfica. Galadriel, assim, deveria absolver a si mesma da falta em dois casos de “Queda”. Nenhum outro elfo precisou desse tipo de conciliação.

A separação de Celeborn seria ainda a oportunidade de Celeborn de dizer adeus a Terra-Média. Ele estava emocionalmente envolvido com a terra de modo que Galadriel não poderia estar. Agora, há quem acredite fervorosamente que Celeborn veio de Aman exatamente como Galadriel. De qualquer forma, no último ano de sua vida, Tolkien pessoalmente fez sua decisão. Mas à época, Tolkien se esqueceu de muito do que havia escrito, que teria sido útil para si. Em Contos Inacabados, Christopher nos diz:

“Assim, de início, é certo que a concepção mais antiga era que Galadriel atravessou sozinha as montanhas desde Beleriand para o leste, antes do fim da Primeira Era, e encontrou Celeborn em sua própria terra de Lórien. Isso está explicitamente afirmado em escritos inéditos, e a mesma idéia forma a base das palavras de Galadriel a Frodo, em A Sociedade do Anel, II, VII, onde ela diz de Celeborn que Ele mora no Oeste desde os dias da aurora, e eu moro com ele há anos sem conta; pois, antes da queda de Nargothrond ou Gondolin, atravessei as montanhas, e juntos, através de eras do do mundo, combatemos a longa derrota. É muito provável que Celeborn nessa concepção fosse um elfo nandorin (isto é, um dos elfos que se recusaram a atravessar as Montanhas da Névoa na Grande Viagem a partir de Cuiviénen).”

Lembra-se agora como eu disse acima que Tolkien não poderia parecer ter se decidido sobre Celeborn? A origem Nandorin para Celeborn não durou muito. Eventualmente, ele se tornou um príncipe sindarin — parente de Thingol Capa-cinzenta — que à época morava em Doriath, e mais tarde em Harlindon como senhor dos Sindar sob Gil-Galad. A transição foi feita em alguma época dentre os anos de 1956 a 1965, e provavelmente ocorreu em 1965, quando Tolkien modificou O Senhor dos Anéis para estipular a tradição Sindarin.

As mudanças feitas por Tolkien em 1965 para a segunda edição de O Senhor dos Anéis devem ser aceitas como canônicas, sobrepondo-se ao que está na Primeira Edição (assim como a Segunda Edição de O Hobbit trouxe aquela história para a Terra-Média). Celeborn é dessa forma indiscutivelmente um elfo Sindarin. mas as palavras de Galadriel de fato não fazem sentido, a não ser que se invente uma quase incrível história para Celeborn, ou interprete livremente sua fala para Frodo como uma passagem incorreta ou implicando que tanto ela quando Celeborn viajaram pelas Montanhas juntos.

Há, é claro, algum embasamento para a interpretação mais tardia. Nas histórias não publicadas de Galadriel e Celeborn, eles adentram Eriador juntos. Mas assim as coisas se tornam complicadas. Tolkien deixa o papel de Celeborn em Eregion duvidoso, e ele não está certo de quando Celeborn foi para Lórien, ou como, ou por que. Ao tratarmos de Celeborn como um elfo de Doriath, Tolkien cria uma razão para fazê-lo não-amigável aos Anões. Celeborn recorda-se do ataque a Doriath e da morte de Thingol (agora seu parente próximo).

Celeborn não é exatamente hostil aos Anões em O Senhor dos Anéis. Mas se aceitarmos a visão de Tolkien de que Celeborn nãoé afeiçoado a eles, então a antiga lei que Celeborn deixa de lado para permitir que Gimli caminhe livremente em Lothlórien faz sentido. Amroth, rei original de Lothlórien, parece ter sido amigável aos Anões. Ele e seu pai foram indubitavelmente aliados dos Anões Barbas-longas de Khazad-dum. Mas quando os Anões despertaram o Balrog e fugiram, eles despertaram um grande medo no povo de Amroth. Seu reino teve efetivamente um fim no ano de 1981.

Galadriel e Celeborn então se estabeleceram em Lothlórien para restabelecer alguma estabilidade ao reino élfico. Como Lothlórien teve sua população muito diminuída devido ao êxodo, eles iniciaram novas políticas. Lothlórien cessou praticamente todas as relações com outros povos. Eles até mesmo interromperam a comunicação com o reino de Thranduil no norte da Floresta das Trevas. Eles permaneceram amigáveis apenas com Valfenda, possivelmente Cirdan nos Portos, e talvez com os senhores de Gondor. Observando que os anões causaram o êxodo, Celeborn deve ter decidido que que eles não deveriam mais ser considerados bem-vindos em Lothlórien com a intenção de evitar contato com seja lá o que tenham despertado.

Então, sua decisão de deixar de lado a velha lei quando a Comitiva chega é um outro sinal da natureza flexível de Celeborn. Os tempos haviam mudado, e as necessidades de seu povo eram diferente daquelas de há mil anos. Lothlórien havia indubitavelmente crescido em população, e era óbvio naquele momento que os Anões não eram uma ameaça a Lothlórien. Celeborn poderia, por conseqüencia, parecer perigoso. Sua dúvida repentina, após descobrir que um Balrog morava em Moria, é compreensível. Ele havia então mudado o status quo. Gimli deve ser o primeiro de muitos Anões a retornar para Lothlórien depois de um milênio de isolamento. As novas sobre o Balrog eram uma infeliz confirmação da decisão que Celeborn havia então feito.

Desta forma foi para seu crédito que Celeborn pôde considerar verdadeiramente a advertência de Galadriel sobre sua retratação às boas-vindas de Gimli. Celeborn era sábio o suficiente para compreender que as suas considerações não eram as únicas no mundo. Galadriel é tida como tendo sido favorável aos Anões devido a sua origem Noldorin. Seu povo havia sido mais amistoso aos Anões do que o de Celeborn (tanto os Nandor quandos os Sindar). Mas Celeborn era resoluto e guiado pela necessidade. O Balrog tinha saído da toca, por assim dizer. Barrar Gimli e todos que foram com ele não teria realmente nenhum propósito. Celeborn deveria se focar nas suas necessidades presentes, e as palavras de Galadriel o relembraram de que aquelas necessidades eram tão importantes porque os Elfos e seus aliados estavam empenhados em preservar tudo que eles apreciavam.

Galadriel o mostrou bem sutilmente como encontrar uma empatia com Gimli: “Se nosso povo estivesse exilado longe de Lothlórien há muito tempo, quem dos Galadhrim, até mesmo Celeborn o Sábio, passando perto daqui, não desejaria rever seu antigo lar, mesmo que tivesse se tornado um covil de dragões?”

Essas são palavras muito proféticas, e Celeborn deve ter refletido sobre a sua relevância para o futuro. O dia em que Galadriel havia de deixá-lo estava chegando, e eventualmente seguiria-se que ele mesmo deveria deixar a Terra-Média um dia. Saudades do passado e pesar eram sentimentos que Elfos, todos os Elfos, podiam entender e aceitar.Galadriel falou a Celeborn, Elfo para Elfo, e fez a ele exatamente o tipo de questionamento que um Elfo iria concordar. Ele entendeu o que ela estava dizendo sem hesitação, e suas palavras conciliadoras mostram que ele estava desejoso de aceitar a amizade com Gimli.

De todos os senhores élficos mencionados no livro, Celeborn parece ser o menos aturdido pelos acontecimentos. Gildor Inglorion contem-se de ajudar Frodo diretamente contra os Nazgûl. Ele provavelmente teme que desafiando abertamente os agentes de Sauron irá atrair muita atenção. Ele se comunica com Bombadil, Aragorn, e Valfenda a favor de Frodo — e também muitos freqüentemente questionam o que o bondoso Gildor pode fazer por Frodo. Celeborn socorre Frodo prontamente, quase com avidez. Ele vive na fronteira e sabe o que está em jogo.

Mas Gildor era provavelmente também um dos senhores de Eregion, ou ta,vez um senhor de Lindon, que havia se tornado profundamente enredado na política dos Anéis. Os Noldor, ainda que com toda sua sabedoria e amizade com outras raças, cometeram um grande pecado ao criarem os Anéis de Poder e ao falharem em descobrir todos os fatos acerca dos Anéis. Celeborn, ainda que provavelmente sabendo que Galadriel tem um Anel de Poder, era praticamente desprovido de culpa. Enquanto que Elrond foi quase paralisado de medo do Um Anel, Celeborn fez suas escolhas rapida e facilmente. Sim, nós vamos ajudar o Portador do Anel. Sim, nós vamos enfrentar Dol Guldur e qualquer outra ameaça de Sauron.

Se a única dúvida que Celeborn manifesta relaciona-se às suas calorosas boas-vindas a Gimli, uma dúvida tão facilmente posta de lado pelo encorajamento de Galadriel, então ele é seguramente o elfo de vontade mais forte no livro. Mesmo Legolas parece um pouco fraco às vezes. Elrond, com toda sua sabedoria, aparentemente não podia imaginar o que fazer com Frodo. É apenas após a oferta de levar o Anel a Mordor que Elrond junta todas as indicações e conclui que é essa a missão apontada para o Hobbit. Celeborn, por outro lado, enxergando como todos estão pensando no quefazer em seguida, imagina um caminho para ajudá-los a prosseguir em direção a seus objetivos enquanto deixa as opções deles em aberto.

É evidente, há uma outra passagem quando Celeborn parece um pouco incerto. E isso foi para com o final do livro, quando ele e Galadriel estão conversando com Barbárvore. “Eu não acho que iremos nos encontrar novamente”, Barbárvore lhes diz. “Eu não sei, Maisvelho.”, Celeborn diz respeitosamente. Na verdade, eu penso que é um pouco mais tato pessoal do que respeito. É assim, Celeborn provavelmente entende que eles três nunca estarão mais juntos. Muitos apontam a resposta florida de Galadriel “nos prados de salgueiros de Tasarinan” como ligando a lacuna entre estupidez e a física de Einstein.

para mim, o grande significado dessa passagem é que o leitor está sendo preparado para ainda outro vislumbre de uma dessas histórias que Tolkien nunca encontrou tempo para contar. Se você voltar e reler a observação de Barbárvore a Merry e Pippin acerca da floresta de Fangorn e Lothlórien, e então olhar para sua doce despedida deles em “Muitas Despedidas”, torna-se óbvio que Celeborn, Barbárvore e Galadriel têm uma história. O que teriam eles feito em eras passadas? Quantas vezes eles teriam estado juntos?

Quando Tolkien traduziu a saudação em élfico de Barbárvore a Celeborn e Galadriel (A vinimar vanimalion nostari!), ele escreveu: “O cumprimento de Barbárvore a Celeborn e Galadriel significava Ó belos, pais de belas crianças.” Enquanto é de conhecimento comum que Celebrian era filha de Celeborn e Galadriel, não é tão sabido que – por um instante – Tolkien considerou Amroth seu filho, também. Amroth, eventualmente, se tornou filho de Amdir (ou Malgalad), mas as palavras de Barbárvore implicam que ele sabia (e amava) os filhos de Galadriel e Celeborn. Evidentemente, havia mais na conexão Barbárvore/Galadriel/Celeborn do que Tolkien revelara em O Senhor dos Anéis.

E o mesmo é verdade sobre Celeborn pessoalmente. Nós vemos apenas breves cenas das muitas facetas de Celeborn. Ele não é um diamante bruto tanto quanto uma jóia brilhante que jaz meio-enterrada entre outras jóias, algumas mais brilhantes ou menos cobertas. Como o próprio Tolkien poderia ter dito, não há recordação do conto completo de Celeborn, mas seu conto estava selado no coração de Tolkien, e quando Tolkien por fim viu os Portos Cinzentos de sua própria maneira, com ele se foram as últimas memórias não reveladas dos dias de Celeborn na Terra-Média.