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Brasil ganha novo livro sobre Tolkien nesta sexta

Qual é o significado e a importância da obra de Tolkien? Como a profunda fé cristã do autor moldou sua obra? Eu sei, eu sei, perguntinhas nada modestas, mas um pequeno porém corajoso grupo de especialistas em Tolkien, incluindo este Cisne que vos fala, tentam respondê-las em “O Evangelho da Terra-média – Leituras Teológico-Literárias da Obra de J.R.R. Tolkien” (organização do professor Carlos Ribeiro Caldas Filho), livro que está sendo lançado nesta sexta, 15/06, em São Paulo. Tenho orgulho de dizer que sou o autor do capítulo sobre filologia.

A obra de 206 págs. é um lançamento da Editora da Universidade Presbiteriana Mackenzie e custa R$ 35. É claro que todos os valinoreanos estão mais do que convidados – confiram o convite oficial. Vai haver um breve  bate-papo com os autores durante o lançamento. O local é a Livraria da Vila do Shopping Higienópolis e o horário, a partir das 18h30. Espero vocês por lá!

 

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Por que Tolkien é mitologia

Relendo “Os Filhos de Húrin” pela enésima vez (não leu ainda?! Vassuncê tá esperando o quê, mizifi?), pus-me a refletir porque, em seus melhores momentos, o texto de Tolkien é tããão parecido com mitologia “de verdade”, da legítima, da pura. (Reflexão que só podia ser coisa de doutorando em Letras veadinho feito eu, veja você.)

A pista para matar a charada estava nas minhas fuças, no emaranhado de frases de “Os Filhos de Húrin”. Tolkien é mitologia porque SOA COMO mitologia, porque a trama do estilo do Professor é construída de maneira inerentemente mitológica. Tentarei explicar melhor.

Ao contrário do que a gente vê no cinema comercial moderno — por exemplo –, as narrativas míticas tradicionais estão cagando solenemente para coisas como ordem cronológica estrita ou suspense. Essa coisa de sair da fila do cinema se alguém da sessão anterior te contar o final soaria como um absurdo sem tamanho para um narrador tradicional de mitos.

Para sujeitos como eles, o que realmente contava era a conexão das histórias com TODAS as outras histórias, como a narrativa se encaixava na saga mais ampla de seu povo ou de sua cultura. Tem algo de ritual sagrado nesse processo todo: o fato de você saber de antemão o que vai acontecer com os personagens aumenta o “pathos” (ê palavrinha veada), ou seja, a força emocional da história, em vez de diminuí-la.

Rohan e Túrin
Um exemplo bobinho está em “O Senhor dos Anéis”. Lá pelas tantas, quando Pippin ouve ao longe as trompas dos cavaleiros de Rohan soando e vindo em socorro de Minas Tirith, o narrador diz que, pelo resto de sua vida, o hobbit nunca mais conseguiu ouvir berrantes (desculpem a licença poética, mas eu sou caipira, e trompas nada mais são que berrantes) soando ao longe sem que lágrimas aparecessem em seus olhos.

Pronto, Tolkien já contou, na prática, que o livro vai ter um final feliz, já que Pippin vai, afinal, viver para se lembrar da chegada dos guerreiros de Rohan ao Pelennor. Pergunta se Tolkien esquentou a cabeça com isso. Claro que não — no que faz muito bem, aliás.

A saga dos Filhos de Húrin, porém, usa muito mais esse recurso, como, aliás, fazem todas as demais narrativas da Primeira Era. É só pensar no fato de que, ao contar a participação de Húrin nas Nirnaeth Arnoediad, o livro REPRODUZ quase letra a letra um relato de batalha que o leitor do Quenta Silmarillion, “O Silmarillion” propriamente dito, JÁ leu.

E ainda coloca o floreio retórico: “Se todas [as histórias sobre a batalha] fossem contadas, a vida de um homem não seria suficiente para ouvi-las”. Recurso, aliás, empregado pelo Evangelho de João no Novo Testamento, de forma quase idêntica.

Outro exemplo: “Essa foi a primeira das tristezas de Túrin”; “Essa foi a segunda das tristezas de Túrin”. O crescendo de tristeza sobre tristeza deixa claro que aquele narrador está olhando para a frente, vendo a história como um todo de tragédia, e não como algo contado de forma descompromissada naquele momento.

Só o contato e o conhecimento íntimo com as grandes mitologias antigas permitiu que Tolkien pudesse usar as características mais sutis delas para encorpar a sua própria. Não é tarefa para qualquer um, ladies and gents.

Faça amor, não faça guerra? O caso de Númenor

Uma das críticas mais manjadas (e infundadas) contra a obra de Tolkien é que ela seria “unidimensional”. Em linguagem de homem: tudo estaria preto no branco demais. Bonzinhos são muito bonzinho, mauzinhos são muito mauzinhos, enquanto “todos nós” (aquele “nós” malandrinho que inclui todas as pessoas tão inteligentes quanto o sábio que está falando) sabemos que “no mundo real” a coisa é mais complicada, com inúmeros tons de cinza.

Pode até ser — embora às vezes eu desconfie que essa conversa seja a desculpa perfeita pra lavar as mãos quando a situação exige uma forma de clareza moral semelhante à tolkieniana. De qualquer maneira, quem vem com esse papinho talvez devesse ler “Contos Inacabados” direito.

Exemplo esquisito, eu sei — talvez a personalidade de Gollum ou a de Boromir fosse um exemplo melhor de como Tolkien é perfeitamente capaz de enxergar os tais tons de cinza. Mas a passagem dos “Contos” à qual me refiro é exemplar por tratar do tema da guerra.

Os críticos do Professor costumam descer a lenha na suposta sanção à violência na obra tolkieniana. Os “bonzinhos” recebem licença ilimitada para trucidar os “malvados”, afirmam eles. Tá na cara que eles nunca prestaram atenção no que Tar-Meneldur tem a dizer.

A Sombra de volta
Tar-Meneldur, vocês se lembram, é o rei de Númenor, pai do príncipe-navegador Aldarion, que recebe uma carta sobre o retorno da Sombra na Terra-média, assinada por ninguém menos que o rei élfico Gil-galad (pronuncia-se GUIL-gálad, meninos e meninas, não “jil-galád”, pelamordeEru).

O rei de Númenor, ao hesitar a respeito do envio de tropas para ajudar Gil-galad, coloca a coisa em termos claríssimos.

Será que é preciso matar outros seres humanos, mesmo em nome da justiça? “Dirão eles [os numenoreanos] a Eru: ao menos [os mortos] eram Teus inimigos?”. E se a decisão for de não lutar, e os aliados de Sauron se tornarem tão fortes que destruirão Númenor? “Dirão eles a Eru: pelo menos não derrubamos sangue?”

Esse é o eterno dilema de qualquer guerra. A não-violência é um caminho nobre, mas ela não leva em conta as vidas de quem depende dos responsáveis por tomar a decisão de não resistir ao mal. E o uso da força para proteger os indefesos do mal está a apenas um passo da tirania, como os próprios numenoreanos mostrariam de forma tão amarga nos séculos seguintes na Terra-média.

Então, você, manezão, que fica aí dizendo que Tolkien não conseguia ver a complexidade do problema: chupa. É lógico que ele conseguia — e melhor do que muita gente por aí.

A história de "O Hobbit" – Gollum bonzinho

Os leitores atuais da Saga do Anel sabem que Bilbo inicialmente disse que Gollum havia dado o Anel “de presente” após o desafio das adivinhas. Só depois, prensado (oops! no bom sentido!) por Gandalf, é que o hobbit finalmente contou a verdade sobre o misterioso artefato.

O que pouca gente sabe é que essa mudança se deve ao texto original, da primeira edição de “O Hobbit”, no qual Gollum, incrivelmente, de fato estava disposto A CEDER O ANEL (oops! de novo, no bom sentido!) a Bilbo. Assim mesmo, na boa, sem luta.

Após escrever “O Senhor dos Anéis”, quando o Anel se tornou muito mais perigoso e sinistro do que a obra original sugeria, Tolkien se viu compelido a modificar o capítulo em que Bilbo confronta Gollum, numa segunda edição de “O Hobbit”. John Rateliff, que teve acesso ao manuscrito original da aventura de Bilbo, mostra em detalhes como a imagem e o comportamento de Sméagol (que não tinha esse nome nessa época, claro) era menos pesada.

Isso não quer dizer que Gollum nunca pretendeu devorar o pobre Bilbo. Os desejos canibais da criatura estão lá desde o princípio, e ele fica salivando só de pensar na carne do hobbit. Mas, quando o jogo de adivinhas termina, Gollum se põe diligentemente a cumprir sua promessa – no caso, dar “um presente” para Bilbo. O presente é nada menos que o Anel. “Devemos dá-lo, precioso; sim, devemos, devemos pegá-lo, precioso, e dar à coisa [Bilbo] o presente que prometemos.”

Presente de aniversário

Eis como Tolkien explica a situação toda:

“Gollum tinha um anel, um anel maravilhoso e muito bonito, um anel que ele tinha ganhado de presente de aniversário eras e eras atrás, em dias antigos quando tais anéis eram menos incomuns.”

Tal como na versão da história que conhecemos hoje, Bilbo, porém, já tinha pegado o anel do chão. Gollum fica nervoso ao descobrir que o objeto sumiu, mas a impressão que fica é que ele está irritado principalmente por não poder cumprir sua palavra. “Não sei quantas vezes Gollum pediu desculpas a Bilbo. E ele ofereceu peixe fresco para comer no lugar do anel (Bilbo estremeceu só de pensar nisso, mas disse não, obrigado, educadamente.”

Esperto, o hobbit disse que poderia substituir o anel pela ajuda de Gollum em sair do fundo das montanhas. E, acredite ou não, a criatura leva Bilbo até as proximidades do portão. Os dois se despedem relativamente na boa. Afinal, “o Gollum [assim mesmo, com artigo definido] tinha aprendido muito tempo atrás a nunca trapacear no jogo de adivinhas”.

É incrível como, no fim das contas, não havia nada de inevitável na história que tornar-se-ia mundialmente famosa.

Tolkien reimagina mitologia escandinava em novo livro

Como você deve ter depreendido do parágrafo acima, “The Legend” não tem nada a ver com a Terra-média, em princípio. Não é um livro pra qualquer um, no melhor dos sentidos. São estrofes e mais estrofes, com oito linhas cada uma, da esquisitíssima (pros nossos ouvidos) rima aliterativa germânica, aquela na qual o que importa é a presença dos mesmos sons (consonantais ou de vogais) nas sílabas tônicas das principais palavras do verso. (É, é complicado, mas a sonoridade pode ser belíssima, como é nesse caso ou nos poemas/canções de Rohan no SdA.)

A intenção de Tolkien era recontar alguns dos episódios mais importantes da mitologia e da lenda escandinavas na Idade Média, que aparecem — de forma truncada, fragmentada e frequentemente inconsistente — em poemas como o Edda Antigo ou nas sagas islandesas em prosa. Começando com a criação do mundo, os poemas logo partem para abordar a história trágica de Sigurd, o herói que matou o dragão Fáfnir, e a perdição que se abate sobre sua família por causa da maldição que o tesouro do bicho carrega.

Nesse ponto você deve ter pensado, quiçá, que há aí uma relação com Túrin, outro célebre matador de dragões. De fato, em uma de suas cartas, Tolkien cita Sigurd como uma das influências diretas de Turambar, junto com o finlandês Kullervo e o grego Édipo. (Incesto, manja?) Mas a coisa vai mais fundo que isso, e na direção contrária — uma influência da saga de Túrin na maneira inovadora como Sigurd é retratado.

Cadê o Thor?

É que Tolkien introduz no “novo” livro a ideia de que o humano Sigurd foi escolhido pelo senhor dos deuses, Odin, como o matador da Serpente de Midgard (“Terra-média”, ou seja, as terras mortais, em islandês antigo), Jormungand, na batalha final do Ragnarok, o Apocalipse nórdico. E, ao derrotar a Serpente, Sigurd possibilitaria o surgimento de um novo mundo depois da catástrofe.

Ora, na mitologia escandinava “oficial”, o responsável pela derrota da Serpente é o deus Thor, que acaba morrendo também. Mas, Tolkien deve ter pensado, nada como um matador de dragões para acabar com o maior deles (já que dragões não passam de serpentes supercrescidas, enfim). Ocorre que uma profecia parecida está ligada a Túrin no legendarium tolkieniano.

Conhecida como a Segunda Profecia de Mandos, ela diz, numa das versões, que Túrin vai matar o próprio Melkor/Morgoth, o primeiro Senhor do Escuro, com sua espada negra, e na outra a vítima é mesmo um dragão, Ancalagon, o Negro, aparentemente renascido pelos poderes malévolos de Morgoth no fim dos tempos. (Tudo isso está fragmentado nos livros da série The History of Middle-earth).

Christopher Tolkien sugere que a profecia sobre Túrin provavelmente influenciou a inovação na história tradicional de Sigurd. Aliás, especula ele, os traços de Odin nos poemas de Tolkien também teriam sido modificados, deixando-o mais parecido com Manwë, o senhor dos Valar em “O Silmarillion”.

A história de "O Hobbit": Beren e Lúthien?!

O que está em jogo, na verdade, é como Tolkien concebia o mundo de "O Hobbit" desde o começo. Lembra-se de que, quando o livro começou a ser escrito, ele já estava trabalhando nos textos que dariam origem a "O Silmarillion" havia quase 20 anos.

Já vimos há alguns dias que o Professor citou até o deserto de Gobi nas primeiras versões do capítulo inicial do livro. Será, então, que a história ocorreria numa época bem mais próxima da nossa?

Não se levarmos em conta uma das versões seguintes do capítulo. Conversa vai, conversa vem, Gandalf (ou melhor, Bladorthin, que era o nome original do mago) menciona sua visita às masmorras do Necromante (que viria a ser identificado com Sauron). E diz mais.

Castelo destruído
"De qualquer maneira, o castelo dele não existe mais, e ele fugiu para outro lugar mais sombrio – Beren e Tinúviel destruíram o poder dele, mas essa é uma outra história."

Ahn? Deixa eu repetir, mais devagar, pra ficar claro. O mago Bladorthin teria visitado as masmorras do Necromante ANTES de ele ser derrotado por Beren e (Lúthien) Tinúviel. Mas isso faz relativamente pouco tempo na trama da história — algumas décadas, já que nessas masmorras nosso amigo encontrou o pai de Gandalf (anão cujo nome na edição atual é Thorin; eu sei, pusta confusão).

ora, se a coisa é mesmo da maneira que parece, tudo indica que Tolkien estaria desde o começo tentando integrar o mundo de "O Hobbit" com as lendas de "O Silmarillion". É uma espécie de autoplágio, no sentido de que ele tenta usar elementos do que já escreveu pra ajudar na ambientação da nova obra.

Outra pista sobre isso é o fato de ele ter reutilizado os desenhos da Taur-nu-Fuin, a floresta "assombrada" do Silma, para ilustrar a Floresta das Trevas de "O Hobbit". A localização geográfica também parece corresponder inicialmente. A questão é: trata-se da MESMA floresta? Pode ser que sim, no começo — até Tolkien começar a ampliar a história da Terra-média. Isso porque só existia a Primeira Era no começo — só mais tarde é que Segunda e Terceira Eras foram emergindo.

Veremos mais pistas dessas nos próximos capítulos da série.

A história de "O Hobbit" – O que há num nome?

Quem já leu a biografia de Tolkien escrita por Humphrey Carpenter talvez já tenha ouvido a história.
Resumindo, originalmente o nome de Thorin Escudo de Carvalho era…
Gandalf. Boa. Já o mago cinzento era conhecido como Bladorthin. O
dragão Smaug era Pryftan, Beorn era Medwed, e por aí vai.

Até aí, nada a surpreender, aparentemente. Tolkien era famoso por
refinar e refinar até a exaustão dos seus personagens. O engraçado, no
entanto, é perceber como esses nomes DURARAM nos rascunhos de "O
Hobbit". Pode-se dizer que Gandalf só virou Gandalf mesmo de última
hora, quando o texto já estava perto de alcançar a versão que teria na
forma impressa.

Em retrospecto, na verdade, não é esquisito que o chefe dos anões fosse
chamado de Gandalf. É que "Gandalfr" (assim mesmo, com R no final) é um
nome de anão no antigo poema islandês Dvergatal ("a lista dos anões"),
fonte de todos os nomes de Thorin e companhia. Ali, inclusive, "Escudo
de Carvalho" parece ser uma pessoa e "Thorin" é outra. Mas a aparente
tradução de Gandalfr (Elfo do Cajado) talvez tenha finalmente levado
Tolkien a decidir que aquele era um nome melhor para um mago que
portava um cajado.

Urratouros
O mais esquisito, porém, é a aparente viagem de Tolkien ao usar,
originalmente, um nome altamente nobre da mitologia de "O Silmarillion"
(que na época já existia) para batizar um personagem totalmente
escroto. Lembra-se da famosa batalha entre orcs e hobbits, estes
liderados por Bandobras Tûk? Pois o chefe dos orcs nessa peleja foi
chamado originalmente de Fingolfin — ele mesmo, o mais heroico dos
reis élficos da Casa de Finwë.

O nome aparentemente foi usado por causa da associação sonora com
"golfe" (lembre-se, Bandobras teria inventado o jogo ao arrancar a
cabeça do orc com um bastão e a lançado num buraco). No fim, Tolkien
acabou trocando o nome para "Golfimbul".

Um último momento cômico dessa versão inicial da história: Bilbo
menciona "o deserto de Gobi" e o "Hindu Kush", dois acidentes
geográficos da Ásia do nosso mundo — mas certamente desconhecidos na
Terra-média. Taí uma amostra de como a história era descompromissada
nessa época.