O novo Silmarillion está chegando – e aqui está a Nota do Tradutor!

Como vocês sabem, tive a imensa alegria de traduzir a nova edição de O Silmarillion que está prestes a chegar a todas as livrarias do Brasil. Aqui vai um dos “Easter eggs” do livro: a nota sobre a tradução que escrevi. Espero que atice o interesse do pessoal da Valinor pelo novo Silma!

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NOTA DE TRADUÇÃO

Quando publicou O Hobbit, sua primeira obra de ficção, J.R.R. Tolkien decidiu incluir no livro uma nota introdutória que começava dizendo o seguinte: “Esta é uma história de muito tempo atrás”. Se essa afirmação vale para as aventuras de Bilbo, ela é incomensuravelmente mais verdadeira para O Silmarillion, uma narrativa que começa com as origens de Eä, o Universo, e de Arda, o Reino da Terra, e narra “as estranhas histórias antes do princípio da História”, como diz, de novo, o narrador de O Hobbit. A linguagem usada por Tolkien nos textos que compõem este livro reflete esse fato de modo muito claro. O narrador e os personagens da obra falam uma língua que está muito longe de ser o inglês coloquial – ou mesmo literário – do século XX. Em muitos aspectos, o estilo e o vocabulário se aproximam do idioma formal de uns 500 anos atrás.

Na presente tradução, tentei refletir ao máximo essa ambição de Tolkien – a de contar uma história do passado primevo numa linguagem que ecoa esse mesmo passado – usando equivalentes que temos à nossa disposição em língua portuguesa. No vocabulário, a opção central foi pelo arcaísmo ou, para ser mais preciso, para palavras que possuem uma história relativamente longa no nosso idioma. De fato, Tolkien em geral não usa palavras esquecidas que ninguém mais entende, mas sim vocábulos “clássicos”, que um inglês da época de Shakespeare (1564-1616) teria tanta facilidade de compreender quanto uma pessoa comum na Oxford dos anos 1960.

Para alcançar esse objetivo, usei apenas termos que estão presentes em português pelo menos desde os séculos XVI e XVII, o que equivale de modo bastante preciso ao vocabulário moderadamente arcaico, mas sempre compreensível, de O Silmarillion. Também procurei usar palavras que respeitem as origens (majoritariamente) latinas do português, mas que, ao mesmo tempo, são da língua corrente das últimas centenas de anos. Evitei neologismos eruditos forjados diretamente a partir do latim e do grego. Elfos e Homens, por exemplo, são “as Duas Gentes”, não “As Duas Etnias”.

A influência da Bíblia e do cristianismo medieval, tanto nas ideias quanto no estilo, é inegável neste volume. Por isso, busquei levar em conta boas traduções da Bíblia para o português no meu trabalho. Os reflexos bíblicos (e o de outros autores pré-modernos) em O Silmarillion aparecem também na estrutura peculiar das frases do livro, seja nas frases construídas com várias conjunções “e” (como no Ainulindalë), seja na ordem inversa das palavras (Tolkien adora começar um parágrafo com um objeto indireto, por exemplo). Tentei manter esses detalhes saborosos ao máximo em português.

Os trechos poéticos da Balada de Leithian que constam do livro foram traduzidos pelo colega Ronald Kyrmse como parte de seu trabalho em Beren e Lúthien, pelo qual eu e todos os entusiastas da obra de Tolkien no Brasil somos muito gratos. Boa leitura!

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