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Roteiro do Hobbit: queime depois de ler

Em entrevista à TV neozelandesa, Peter Jackson contou o seguinte: 

"Levamos uma cópia do roteiro para Ian McKellen, que o leu — porque obviamente nós queremos que Ian volte como Gandalf. Nós literalmente fizemos com que alguém voasse para Londres com o roteiro na bagagem de mão. Essa pessoa foi até a casa dele, passou o roteiro para que ele lesse e, assim que terminou, ele devolveu o texto. A pessoa levou o roteiro até uma máquina de descarte de papel e rasgou o roteiro. A segurança é muito rigorosa".

Sinistro, hein?

PJ também disse que a intenção, bastante lógica, é trazer de volta Hugo Weaving e Cate Blanchett para viverem Elrond e Galadriel nos dois novos filmes.

Resenha de Os Filhos de Húrin na Folha

Obra póstuma de criador do "Senhor dos Anéis" foge de heróis e final feliz

REINALDO JOSÉ LOPES
da Folha de S.Paulo

Não há o menor sinal de finais felizes ou hobbits ingênuos e heróicos em "Os Filhos de Húrin", obra póstuma de J.R.R. Tolkien (1892-1973) que acaba de chegar ao Brasil. A "nova" saga tolkieniana se passa 6.500 anos antes de "O Senhor dos Anéis", livro mais famoso do autor, e tem como herói um guerreiro culpado de incesto, traição e assassinato.

Tolkien, filólogo da Universidade de Oxford e especialista nas línguas e literaturas da Europa Medieval, mergulhou no ambiente trágico das sagas escandinavas para escrever o livro. As primeiras versões da trama vieram à tona quando o autor servia o Exército britânico na Primeira Guerra. Após décadas de revisão, o texto (ou melhor, o complexo de textos, já que o filólogo nunca decidiu explicitamente qual era a versão final) continuava engavetado quando o escritor morreu. Coube a Christopher Tolkien, 85, filho caçula e testamenteiro literário do autor, a tarefa de transformar o labirinto de versões numa narrativa coerente.

O resultado funciona, embora quem só conheça "O Senhor dos Anéis" provavelmente sinta a estranheza de um texto que foi deliberadamente construído para não parecer moderno.

"Sem dúvida, O Senhor dos Anéis é mais acessível ao público. E mesmo assim há aqueles que não o compreendem, vêem o livro como um fracasso como romance. Imagine então essas pessoas tendo o primeiro contato tolkieniano com essa obra, cuja complexidade e caráter de não romance são gritantes", diz o tradutor Gabriel Oliva Brum, especialista na obra de Tolkien que verteu as cartas do autor para o português.

Uma das cartas, aliás, explicita os modelos mitológicos que inspiraram a criação de Túrin Turambar, herói da narrativa (e um dos "filhos de Húrin" do título): o grego Édipo, o finlandês Kullervo e o escandinavo Sigurd, um matador de dragões.

A sombra de Morgoth
O trio de personagens inspiradores é, em parte, empurrado pelo destino rumo a um fim trágico, mas também dá uma mãozinha à má sorte ao não controlar seus piores instintos e esse é justamente um dos temas centrais de "Os Filhos de Húrin".

Na trama, Húrin, patriarca da malfadada família, é um guerreiro da raça humana que se alia aos monarcas dos elfos na luta contra Morgoth, o Inimigo do Mundo. Morgoth é, literalmente, o Demônio encarnado como imperador na Terra (Tolkien, católico praticante, via sua mitologia como uma recriação das "verdades" teológicas cristãs), e seus exércitos triunfam, capturando Húrin.

O guerreiro se recusa a trair seus aliados élficos, zomba de Morgoth e, por isso, ele e sua família são amaldiçoados.

O interessante, porém, é que Tolkien mantém o tempo todo a ambiguidade sobre as desgraças que dilaceram o clã de Húrin. A maldição pode até ser poderosa, mas a cabeça-dura e o gosto pela violência de Túrin são essenciais para que a profecia de perdição se realize.

A contraparte da maldição, no entanto, é a determinação de resistir, mesmo sem a menor esperança de triunfar, outro tema da mitologia escandinava caro a Tolkien. É que, para os antigos escandinavos, no fim dos tempos as forças das trevas, e não os deuses "do bem", é que iriam triunfar.

Os deuses sabiam disso, mas mesmo assim se preparavam para a batalha final. Tolkien chamava esse conceito de "teoria da coragem do Norte", e o opunha à obsessão pelo realismo político que, para o autor, tinha desembocado nas grandes tragédias do século 20. "Os Filhos de Húrin" talvez seja a expressão definitiva da "teoria da coragem" em sua obra.

OS FILHOS DE HÚRIN
Autor: J.R.R. Tolkien
Tradução: Ronald Eduard Kyrmse
Editora: WMF Martins Fontes
Quanto: R$ 69 (338 págs.)

O Hobbit: roteiro pronto e Stephen Fry

"Teremos dois filmes de O Hobbit, e já escrevemos o primeiro roteiro e o enviamos para o estúdio, que parece estar bastante contente com ele", declarou Peter Jackson, produtor dos dois filmes e diretor da Saga do Anel. "Já estamos a meio caminho andado do segundo script e Philippa [Boyens, também roteirista do SdA], Fran [Walsh, mulher de Jackson e também roteirista], Guillermo [del Toro, diretor dos futuros filmes] e eu estamos fazendo o roteiro e nos divertindo muito."

E do mundo do Twitter vem a menção entre um encontro entre Stephen Fry (famoso por sua excelente representação do escritor Oscar Wilde), Peter Jackson e Fran Walsh. Sinceramente, acho que Fry daria um ótimo Balin, mas só o tempo dirá.

A história de "O Hobbit": Beren e Lúthien?!

O que está em jogo, na verdade, é como Tolkien concebia o mundo de "O Hobbit" desde o começo. Lembra-se de que, quando o livro começou a ser escrito, ele já estava trabalhando nos textos que dariam origem a "O Silmarillion" havia quase 20 anos.

Já vimos há alguns dias que o Professor citou até o deserto de Gobi nas primeiras versões do capítulo inicial do livro. Será, então, que a história ocorreria numa época bem mais próxima da nossa?

Não se levarmos em conta uma das versões seguintes do capítulo. Conversa vai, conversa vem, Gandalf (ou melhor, Bladorthin, que era o nome original do mago) menciona sua visita às masmorras do Necromante (que viria a ser identificado com Sauron). E diz mais.

Castelo destruído
"De qualquer maneira, o castelo dele não existe mais, e ele fugiu para outro lugar mais sombrio – Beren e Tinúviel destruíram o poder dele, mas essa é uma outra história."

Ahn? Deixa eu repetir, mais devagar, pra ficar claro. O mago Bladorthin teria visitado as masmorras do Necromante ANTES de ele ser derrotado por Beren e (Lúthien) Tinúviel. Mas isso faz relativamente pouco tempo na trama da história — algumas décadas, já que nessas masmorras nosso amigo encontrou o pai de Gandalf (anão cujo nome na edição atual é Thorin; eu sei, pusta confusão).

ora, se a coisa é mesmo da maneira que parece, tudo indica que Tolkien estaria desde o começo tentando integrar o mundo de "O Hobbit" com as lendas de "O Silmarillion". É uma espécie de autoplágio, no sentido de que ele tenta usar elementos do que já escreveu pra ajudar na ambientação da nova obra.

Outra pista sobre isso é o fato de ele ter reutilizado os desenhos da Taur-nu-Fuin, a floresta "assombrada" do Silma, para ilustrar a Floresta das Trevas de "O Hobbit". A localização geográfica também parece corresponder inicialmente. A questão é: trata-se da MESMA floresta? Pode ser que sim, no começo — até Tolkien começar a ampliar a história da Terra-média. Isso porque só existia a Primeira Era no começo — só mais tarde é que Segunda e Terceira Eras foram emergindo.

Veremos mais pistas dessas nos próximos capítulos da série.

A história de "O Hobbit" – O que há num nome?

Quem já leu a biografia de Tolkien escrita por Humphrey Carpenter talvez já tenha ouvido a história.
Resumindo, originalmente o nome de Thorin Escudo de Carvalho era…
Gandalf. Boa. Já o mago cinzento era conhecido como Bladorthin. O
dragão Smaug era Pryftan, Beorn era Medwed, e por aí vai.

Até aí, nada a surpreender, aparentemente. Tolkien era famoso por
refinar e refinar até a exaustão dos seus personagens. O engraçado, no
entanto, é perceber como esses nomes DURARAM nos rascunhos de "O
Hobbit". Pode-se dizer que Gandalf só virou Gandalf mesmo de última
hora, quando o texto já estava perto de alcançar a versão que teria na
forma impressa.

Em retrospecto, na verdade, não é esquisito que o chefe dos anões fosse
chamado de Gandalf. É que "Gandalfr" (assim mesmo, com R no final) é um
nome de anão no antigo poema islandês Dvergatal ("a lista dos anões"),
fonte de todos os nomes de Thorin e companhia. Ali, inclusive, "Escudo
de Carvalho" parece ser uma pessoa e "Thorin" é outra. Mas a aparente
tradução de Gandalfr (Elfo do Cajado) talvez tenha finalmente levado
Tolkien a decidir que aquele era um nome melhor para um mago que
portava um cajado.

Urratouros
O mais esquisito, porém, é a aparente viagem de Tolkien ao usar,
originalmente, um nome altamente nobre da mitologia de "O Silmarillion"
(que na época já existia) para batizar um personagem totalmente
escroto. Lembra-se da famosa batalha entre orcs e hobbits, estes
liderados por Bandobras Tûk? Pois o chefe dos orcs nessa peleja foi
chamado originalmente de Fingolfin — ele mesmo, o mais heroico dos
reis élficos da Casa de Finwë.

O nome aparentemente foi usado por causa da associação sonora com
"golfe" (lembre-se, Bandobras teria inventado o jogo ao arrancar a
cabeça do orc com um bastão e a lançado num buraco). No fim, Tolkien
acabou trocando o nome para "Golfimbul".

Um último momento cômico dessa versão inicial da história: Bilbo
menciona "o deserto de Gobi" e o "Hindu Kush", dois acidentes
geográficos da Ásia do nosso mundo — mas certamente desconhecidos na
Terra-média. Taí uma amostra de como a história era descompromissada
nessa época.

Ciência da Terra-média: as terras debaixo das ondas

Ocorre que, na época em que Tolkien escrevia "O Senhor dos Anéis", havia uma lacuna importantíssima no conhecimento geológico. É que a comunidade científica não aceitava a tese da deriva continental, que postula que os continentes navegam lentamente pela crosta terrestre, na velocidade em que as unhas da sua mão crescem, boiando sobre "balsas" — as chamadas placas tectônicas. A deriva dessas placas explica porque um dia Brasil e África estiveram ligados no pedaço onde hoje existe o oceano Atlântico.

Ora, sem o conhecimento desse fato, os geólogos eram obrigados a postular, entre outras coisas, inundações catastróficas para explicar por que as conexões entre os continentes (indicadas pela presença de faunas parecidas, por exemplo) desapareceram. Desse ponto de vista, inúmeras "pontes de terra" teriam sido soterradas mundo afora na mais remota antiguidade.

Ora, se pararmos para pensar um pouquinho, veremos que é justamente esse tipo de fenômeno que explica o desaparecimento de terras que foram parar "debaixo das ondas", como Beleriand, o continente da Primeira Era, ou a grande ilha de Númenor no fim da Segunda Era. Noves fora a intervenção dos Valar e de Ilúvatar, Tolkien estava modelando a modificação da Terra-média nos cataclismas que os geólogos andavam propondo.

Meneltarma da vida real
O mais engraçado é que, embora, esse cenário não seja mais crível, geólogos como David G. Roberts decidiram render suas homenagens ao professor ao descrever a esquisitíssima ilhota de Rockall, um pedacinho de pedra perdido no Atlântico, a mais de 300 km da costa da Escócia. Lembra-se da história do Meneltarma, a maior montanha de Númenor, cuja pontinha emergiu mesmo depois da destruição da ilha? Pois Rockall é exatamente isso — uma ponta de um platô submarino mais ou menos do tamanho da Irlanda inteira.

Ao descrever características geológicas do platô de Rockall, Roberts resolveu usar nomes da obra tolkieniana. Temos, portanto, as encostas de Lórien, Fangorn e Edoras, as elevações de Rohan, Gondor, Eriador e Espora de Gandalf; e até um Abismo de Helm — um grande canyon submarino que lembra vagamente a região onde ficava a fortaleza de Rohan. Taí um lugar pra visitar se você for um fã de Tolkien e um aficcionado por pesca oceânica. 

Os Filhos de Húrin: a maldição dos ananos. Ananos?!

Sim, essa é a nova forma de traduzir "anões" (dwarves) no universo tolkieniano, segundo um padrão que já tinha aparecido na nova tradução (por enquanto engavetada) de "O Senhor dos Anéis".

A justificativa é simples: Tolkien usava um plural diferenciado do padrão inglês para dwarf, que seria simplesmente dwarves. (Algumas vezes ele comenta que a forma histórica correta da palavra, segundo padrões filológicos, seria dwarrow-dwarrows). Daí a opção do tradutor Ronald Kyrmse por usar "ananos" — mas a palavra também ficou "anano" no singular.

O termo também aparece na forma composta como "ananos-miúdos" (em inglês petty dwarves, o povo do traiçoeiro Mîm). Resta saber como os leitores já habituados à obra vão reagir à escolha ousada. Mais detalhes sobre a tradução em breve.