The History of Middle-earth X

Comentário sobre o Athrabeth Finrod ah Andreth

[Em um destes papéis meu pai adicionou: "Deveria ser o último item em um apêndice" (isto é, para O Silmarillion). Este comentário ele mesmo datilografou, no alto de uma cópia e de um carbono, com algumas correções subseqüentes quase idênticas em ambos. Após o comentário estão notas numeradas que acabam tendo mais importância do que o próprio comentário, uma vez que algumas delas constituem curtos ensaios. Distingo estas das minhas próprias notas numeradas do texto pelas palavras "Nota do Autor". – Christopher Tolkien]

Este texto não é apresentado como um argumento de qualquer irrefutabilidade para os homens na presente situação destes (ou na que eles acreditam estar), embora possa ter algum interesse para os homens que partem de crenças ou suposições similares àquelas sustentadas pelo rei élfico Finrod.

Ele é, na realidade, simplesmente parte do retrato do mundo imaginário do Silmarillion, e um exemplo da espécie de assunto que, ao indagar as mentes em ambos os lados, o élfico ou o humano, deve ser dito um para outro após tornarem-se familiarizados. Vemos aqui a tentativa de uma mente élfica generosa de aprofundar as relações entre elfos e homens e o papel que lhes fora designado representar no que ele teria chamado de Oienkarmë Eruo (A produção perpétua do Um), que pode ser traduzido como “A administração de Deus do Drama”.

Há certas coisas neste mundo que precisam ser aceitas como “fatos”. A existência de elfos: isto é, de uma raça de seres intimamente aparentados com os homens, tão intimamente que eles devem ser considerados pelas características físicas (ou biológicas) simplesmente como ramos da mesma raça. Os elfos apareceram na Terra primeiro, mas não (mitologicamente ou geologicamente) muito antes; eles eram “imortais”, e não “morriam” exceto por acidente. Os homens, quando entraram em cena (isto é, quando encontraram os elfos), eram, contudo, como são agora: eles “morriam”, mesmo se escapassem de todos os acidentes, por volta da idade de 70 a 80 anos. A existência dos Valar: isto é, de certos Seres angelicais (criados, mas no mínimo tão poderosos quanto os “deuses” de mitologias humanas), cujo líder ainda residia em uma parte física real da Terra. Eles eram os agentes e vice-regentes de Eru (Deus). Eles haviam estado ocupados por eras imemoriais com um trabalho demiúrgico finalizando, segundo o propósito de Eru, a estrutura do Universo (Eä); mas estavam agora concentrados na Terra para o principal Drama da Criação: a guerra dos Eruhín (Os Filhos de Deus), elfos e homens, contra Melkor. Melkor, originalmente o mais poderoso dos Valar, tornara-se um rebelde, contra seus irmãos e contra Eru, e foi o primeiro Espírito do Mal.

Com respeito ao rei Finrod, deve-se compreender que ele inicia com certas crenças básicas, as quais ele diria serem derivadas de uma ou mais de uma destas fontes: sua natureza criada; instrução angelical; pensamento; e experiência.

1. Existe Eru (o Um); isto é, Um Deus Criador, que criou (ou mais estritamente, projetou) o Mundo, mas não é Ele próprio o Mundo. Este mundo, ou Universo, ele chama de , uma palavra élfica que significa “É”, ou “Que Seja”.

2. Há na Terra criaturas “encarnadas”, elfos e homens: estes são feitos de uma união de hröa e fëa (aproximadamente, mas não exatamente, equivalentes a “corpo” e “alma”). Este, ele diria, era um fato conhecido a respeito da natureza élfica e, portanto, poderia ser deduzido quanto à natureza humana a partir do parentesco próximo de elfos e homens.

3. Hröa e fëa, diria ele, são completamente distintos, e não no “mesmo plano de derivação de Eru”, (Nota do Autor 1) mas designados um para o outro, para permanecer em harmonia perpétua. O fëa é indestrutível, uma identidade única que não pode ser desintegrada ou absorvida por qualquer outra identidade. O hröa, entretanto, pode ser destruído e dissolvido: este é um fato de experiência. (Em tal caso, ele descreveria o fëa como “exilado” ou “desabrigado”.)

4. A separação de fëa e hröa não é “natural”, e acontece não pelo propósito original, mas pela “Desfiguração de Arda”, que deve-se às operações de Melkor.

5. A “imortalidade” élfica está restringida dentro de uma parte do Tempo (que ele chamaria A História de Arda) e, logo, deveria ser chamada preferencialmente de “longevidade seqüencial”, cujo limite máximo é a extensão da existência de Arda. (Nota do Autor 2) A conseqüência disto é que o fëa élfico também está limitado ao Tempo de Arda ou pelo menos confinado dentro dele e incapaz de deixá-lo enquanto este dure.

6. A partir disto seguiria-se pensando, se não fosse um fato de experiência élfica, que um fëa élfico “desabrigado” deve ter o poder ou oportunidade de retornar à vida encarnada, se ele possui o desejo ou vontade para assim fazê-lo. (Na verdade, os elfos descobriram que seus fëar não possuíam este poder neles próprios, mas que a oportunidade e os meios eram fornecidos pelos Valar, pela permissão especial de Eru para a correção do estado não natural do divórcio. Não era permitido aos Valar forçar um fëa a retornar; mas eles podiam impor condições e julgar se o retorno deveria ser realmente permitido e, em caso afirmativo, de que modo ou após quanto tempo.) (Nota do Autor 3)

7. Visto que os homens morrem, sem acidente e querendo eles ou não fazê-lo, seus fëar devem possuir uma relação diferente com o Tempo. Os elfos acreditavam, embora não possuíssem qualquer informação exata, que os fëar dos homens, caso desencarnados, deixavam o Tempo (mais cedo ou mais tarde), e jamais retornavam. (Nota do Autor 4)

Os elfos notaram que todos os homens morriam (um fato confirmado pelos homens). Deduziram, então, que isto era “natural” aos homens (isto é, o era pelo desígnio de Eru), e supunham que a brevidade da vida humana devia-se à esta característica do fëa humano: que ele não estava destinado à permanecer muito tempo em Arda. Enquanto que seus próprios fëar, estando designados a permanecer em Arda até o fim desta, impunham uma longa resistência sobre seus corpos; pois eles possuíam (como um fato de experiência) um controle muito maior sobre eles. (Nota do Autor 5)

Além do “Fim de Arda”, o pensamento élfico não podia penetrar, e eles ficaram sem qualquer instrução. (Nota do Autor 6) Parecia-lhes claro que seus hröar devem ao final cessar e, portanto, qualquer tipo de reencarnação seria impossível. (Nota do Autor 7) Todos os elfos então “morreriam” no Fim de Arda. O que isto significava eles não sabiam. Diziam, portanto, que os homens possuíam uma sombra atrás de si, mas os elfos possuíam uma sombra à frente de si próprios.

Seu dilema era este: o pensamento da existência apenas como fëar lhes era revoltante, e achavam difícil de acreditar que isto era natural ou designado a eles, uma vez que eram essencialmente “habitantes em Arda” e, por natureza, completamente apaixonados por Arda. A alternativa: que seus fëar também deixariam de existir “ao Fim” parecia ainda mais intolerável. Tanto a aniquilação absoluta como o cessar da identidade consciente eram completamente repugnantes ao pensamento e ao desejo. (Nota do Autor 8 )

Alguns argumentavam que, embora completo e único (como Eru, de quem eles procediam diretamente), cada fëa, estando criado, era finito, e portanto também poderia ser de duração finita. Ele não era destrutível dentro do seu período determinado mas, quando este era alcançado, passava a ser; ou deixava de ter quaisquer outras experiências, e “residia apenas no Passado”.

Mas eles viram que isto não fornecia nenhuma saída. Pois mesmo se um fëa élfico fosse capaz de “conscientemente” de habitar no Passado ou contemplá-lo, esta seria uma condição completamente insatisfatória ao seu desejo. (Referência à Nota do Autor 8 ) Os elfos possuíam (como eles próprios diziam) um “grande talento” para a memória, mas esta tendia para o pesar ao invés da alegria. Por mais longa que a História dos elfos pudesse se tornar antes que terminasse, ela também seria um objeto de alcance muito limitado. Estar eternamente “aprisionado em um conto” (como diziam), mesmo se este fosse um conto muito grande que terminasse de forma triunfante, tornaria-se um tormento. Pois maior do que o talento da memória era o talento élfico para a criação, e para descobertas. O fëa élfico fora, sobretudo, designado a criar coisas em cooperação com seu hröa.

Portanto, em última instância, os elfos eram obrigados a contar com a “estel nua” (como diziam): a confiança em Eru de que, seja o que for que Ele tenha designado para além do Fim, isto seria reconhecido por cada fëa como (no mínimo) completamente satisfatório. Provavelmente inclui-se aí alegrias imprevisíveis. Mas eles mantinham a crença de que isto permaneceria em uma relação inteligível com sua natureza e desejos atuais, partindo deles e incluindo-os.

Por estas razões os elfos eram menos solidários do que os homens esperavam em relação à falta de esperança (ou estel) nos homens diante da morte. Os homens eram, é claro, em geral inteiramente ignorantes quanto à “Sombra Adiante” que condicionava o pensamento e sentimentos élficos, e simplesmente invejavam a “imortalidade” élfica. Mas os elfos eram, por sua vez, geralmente ignorantes quanto à persistente tradição entre os homens de que os homens também eram imortais por natureza.

Como é visto no Athrabeth, Finrod fica profundamente emocionado e impressionado ao descobrir esta tradição. Ele descobre uma tradição concomitante de que a mudança na condição dos homens em relação ao seu desígnio original foi devido a um desastre primordial, sobre o qual a tradição humana é incerta, ou pelo menos Andreth está relutante em dizer mais. (Nota do Autor 9) Ele mantém, entretanto, a opinião de que a condição dos homens antes do desastre (ou, como poderíamos dizer, do homem não caído) não poderia ter sido a mesma dos elfos. Isto é, sua “imortalidade” não poderia ter sido a longevidade dentro de Arda dos elfos; senão eles teriam sido simplesmente elfos, e sua posterior introdução separada no Drama, feita por Eru, não teria qualquer função. Ele pensa que a noção dos homens de que, inalterados, eles não teriam morrido (no sentido de deixar Arda), deve-se à deturpação humana de sua própria tradição, e possivelmente à comparação invejosa de si mesmos com relação aos elfos. Primeiramente, ele não acha que isto se encaixa, como poderíamos dizer, nas “peculiaridades observáveis da psicologia humana”, conforme comparadas com os sentimentos élficos com respeito ao mundo visível.

Logo, ele supõe que é o medo da morte o resultado do desastre. Ela é temida por agora estar ligada com a separação de hröa e fëa. Mas os fëar dos homens devem ter sido designados a deixarem Arda de boa vontade ou de fato pelo desejo de fazê-lo – talvez após um tempo maior do que a atual vida humana média, mas ainda assim em um tempo muito curto comparado às vidas élficas. Assim, baseando seu argumento no axioma de que a separação de hröa e fëa não é natural e é contrária ao seu desígnio, ele chega (ou se preferir, precipita-se) à conclusão de que o fëa de um homem não caído levaria consigo seu hröa ao novo modo de existência (livre do Tempo). Em outras palavras, esta “suposição” era o fim natural de cada vida humana, embora, até onde sabemos, este foi o fim do único membro “não caído” da humanidade.* Ele tem então uma visão dos homens como os agentes da cura da “desfiguração” de Arda, não meramente ao desfazer a desfiguração ou o mal perpetrado por Melkor, mas ao produzir uma terceira coisa, Arda Refeita – pois Eru jamais simplesmente desfaz o passado, mas gera algo novo, mais magnífico do que o “primeiro desígnio”. Em Arda Refeita elfos e homens encontrarão separadamente alegria e contentamento, uma amizade recíproca, um elo que será o Passado.

* A referência é à Virgem Maria.

Andreth diz que, neste caso, o desastre foi aterrador para os homens; pois esta recriação (se esta de fato era a função apropriada dos homens) não pode ser alcançada agora. Finrod evidentemente mantém a esperança de que ela será alcançada, embora ele não diga como isso poderia acontecer. Ele agora vê, porém, que o poder de Melkor era maior do que havia sido compreendido (mesmo pelos elfos, que na verdade viram-no em uma forma encarnada): se ele fora capaz de modificar os homens e assim destruir o plano.

Em um sentido mais exato, ele diria que Melkor não “modificou” os homens, mas os “seduziu” (tornando-os leais a ele) nos primórdios de sua história, de modo que Eru modificou o “destino” deles. Pois Melkor podia seduzir mentes e vontades individuais, mas não podia tornar isso hereditário, ou alterar (contrária à vontade e ao desígnio de Eru) a relação de todo um povo com o Tempo e com Arda. Mas o poder de Melkor sobre as coisas materiais evidentemente era vasto. A totalidade de Arda (e, de fato, provavelmente muitas outras partes de Eä) foi desfigurada por ele. Melkor não era apenas um Mal local na Terra, nem um Anjo Guardião da Terra que desencaminhou-se: ele era o Espírito do Mal, erguendo-se mesmo antes da criação de Eä. Sua tentativa de dominar a estrutura de Eä, e de Arda em particular, e alterar os desígnios de Eru (que regiam todas as atividades dos Valar fiéis), introduziu o mal, ou uma tendência à aberração a partir do desígnio, em toda a matéria física de Arda. Foi por esta razão, sem dúvida, que ele foi totalmente bem sucedido com os homens, mas apenas parcialmente com os elfos (que permaneceram como um povo “não caído”). Seu poder foi exercido sobre a matéria e através dela. (Nota do Autor 10) Mas os fëar dos homens eram por natureza mais fracos no controle de seus hröar, diferente do que acontecia no caso dos elfos. Os elfos como indivíduos poderiam ser seduzidos a um tipo de “melkorismo” menor: desejando serem seus próprios mestres em Arda e possuírem as coisas a seu próprio modo levando, em casos extremos, à uma rebelião contra a tutela dos Valar; mas ninguém jamais ficou a serviço ou tornou-se leal ao próprio Melkor, nem jamais negou a existência e a supremacia absoluta de Eru. Algumas coisas horríveis dessa espécie, Finrod adivinha, os homens devem ter cometido, como um todo; mas Andreth não revela quais eram as tradições dos homens sobre esse assunto. (Referência à Nota do Autor 9)

Finrod, contudo, compreende agora que, do modo como se davam as coisas, nenhuma criatura ou ser criado em Arda, ou em todo Eä, era poderoso o suficiente para contrapor ou curar o Mal: isto é, subjugar Melkor (em sua presente pessoa, reduzida como estava) e o Mal que ele havia dissipado e enviado de si mesmo para o interior da própria estrutura do mundo.

Apenas o próprio Eru poderia fazer isto. Portanto, uma vez que era inconcebível a idéia de que Eru abandonaria o mundo à dominação e triunfo absolutos de Melkor (que poderia significar sua ruína e redução ao caos), Eru deve, em determinado momento, vir a se opor a Melkor. Mas Eru não poderia entrar completamente no mundo e na sua história que, apesar de grande, é apenas um Drama finito. Como Autor, Ele deve permanecer sempre “fora” do Drama, mesmo que esse Drama dependa de Seu desígnio e de Sua vontade para seu início e continuação, em cada detalhe e momento. Finrod, por esse motivo, crê que Ele, quando vier, terá que ficar tanto “fora” como “dentro”; e assim ele vislumbra a possibilidade de complexidade ou de distinções na natureza de Eru que, apesar de tudo, O caracterizam como “O Um”. (Nota do Autor 11)

Uma vez que Finrod já adivinhara que a função redentora fora originalmente designada especialmente aos homens, ele provavelmente prosseguiu para a expectativa de que “a vinda de Eru”, se acontecesse, estaria primeira e especialmente relacionada com os homens: isto é, a uma suposição ou visão imaginativa de que Eru viria encarnado em forma humana. Isto, contudo, não aparece no Athrabeth.

O argumento não é, claro, apresentado no Athrabeth nestes termos, ou nesta ordem, ou tão precisamente. O Athrabeth é uma conversa, na qual muitas suposições e etapas de pensamento têm que fornecidas pelo leitor. Na verdade, embora o texto trate de coisas como a morte e as relações de elfos e homens com o Tempo e Arda, e uns com os outros, seu verdadeiro propósito é dramático: exibir a generosidade da mente de Finrod, seu amor e piedade por Andreth, e as trágicas situações que devem surgir do encontro de elfos e homens (na época da juventude dos elfos). Pois, como finalmente torna-se evidente, Andreth havia se apaixonado na juventude por Aegnor, irmão de Finrod; e embora ela soubesse que ele retribuía seu amor (ou assim poderia ter feito, caso se dignasse a isso), ele não o havia declarado, e a deixara – e ela acreditou que havia sido rejeitada por ser muito inferior a um elfo. Finrod (embora ela não soubesse disso) sabia sobre essa situação. Por esta razão ele compreendeu e não se ofendeu com a amargura com a qual ela falava dos elfos, e mesmo dos Valar. Ele foi bem sucedido no final ao fazer com que ela compreendesse que ela não havia sido “rejeitada” por desprezo ou por arrogância élfica; mas que a partida de Aegnor deu-se por motivos de “sabedoria”, ao custo de grande dor para Aegnor: ele era igualmente vítima da tragédia.

No evento, Aegnor pereceu logo após essa conversa, quando Melkor rompeu o Cerco de Angband na desastrosa Batalha das Chamas Repentinas, e a destruição dos reinos élficos em Beleriand fora iniciada. Finrod refugiou-se na grande fortaleza meridional de Nargothrond; mas não muito depois sacrificou sua vida para salvar Beren Maneta. (É provável, embora não seja afirmado em nenhum lugar, que a própria Andreth tenha perecido nessa época, pois todo o reino do norte, onde Finrod e seus irmãos e o Povo de Bëor habitavam, foi devastado e conquistado por Melkor. Mas ela seria então uma mulher muito idosa.)

Finrod foi assim morto antes que os dois casamentos entre elfos e homens acontecessem, apesar de que, sem sua ajuda, o casamento de Beren e Lúthien não teria ocorrido. O casamento de Beren certamente realizou sua previsão de que tais casamentos ocorreriam apenas por algum propósito elevado do Destino, e que o destino menos cruel seria o fato de que a morte logo os encerraria.

Notas do Autor sobre o “Comentário”

Nota 1

Porque acreditava-se que os fëar foram criados diretamente por Eru, e “enviados para dentro” de Eä; enquanto que Eä fora concluído por intermédio dos Valar.

De acordo com o Ainulindalë, houve cinco estágios na Criação. a) A criação dos Ainur. b) A comunicado de Eru sobre o seu Desígnio aos Ainur. c) A Grande Música, que era como se fosse um ensaio, e que permaneceu no estágio de pensamento ou imaginação. d) A “Visão” de Eru, que era novamente apenas uma amostra de possibilidade e estava incompleta. e) A Realização, que ainda está em andamento.

Os Eldar acreditavam que Eru era e é livre em todos os estágios. Esta liberdade foi mostrada na Música por Sua introdução, após o surgimento das dissonâncias de Melkor, de dois novos temas, representando a chegada de elfos e homens, que não estavam no Seu primeiro comunicado. Portanto Ele pode, no estágio 5, introduzir diretamente coisas que não estavam na Música e que assim não são realizadas através dos Valar. Não obstante, isto continua em geral verdadeiro no que diz respeito a Eä como concluído através da intervenção deles.

As adições de Eru, contudo, não serão “estranhas”; elas serão ajustadas à natureza e ao caráter de Eä e daqueles nele habitam; elas podem realçar o passado e enriquecer seu propósito e sua importância, mas o passado estará contido nelas e não será destruído.

Assim, a “novidade” dos temas dos Filhos de Eru, elfos e homens, consistia da associação dos fëar com (ou da “habitação” deles nos) hröar pertencentes a Eä, de tal modo que os primeiros estariam incompletos sem os últimos e vice-versa. Mas os fëar não eram espíritos de um tipo completamente diferente dos Ainur; enquanto que os corpos eram de um tipo mais parecido com os corpos de seres vivos já na idéia primordial (mesmo se adaptados à sua nova função, ou modificados pelos fëar residentes).

Nota 2

Arda, ou “O Reino de Arda” (como estando diretamente sob o governo do vice-regente de Eru, Manwë) não é fácil de se traduzir, uma vez que nem “terra” nem “mundo” são inteiramente adequadas. Fisicamente Arda era o que chamamos de Sistema Solar. Presumivelmente os Eldar poderiam ter tido informações tão numerosas quanto precisas a respeito disso, de sua estrutura, origem e sua relação com o resto de Eä (o Universo) como podiam compreender. Provavelmente aqueles que se interessavam adquiriram este conhecimento. Nem todos os Eldar se interessavam por tudo; a maioria deles concentrava sua atenção na (ou, como eles diziam, “estavam apaixonados pela”) Terra.

As tradições mencionadas aqui passaram dos Eldar da Primeira Era para os elfos que nunca conheceram diretamente os Valar e para os homens que receberam os “ensinamentos” dos elfos, mas que possuíam mitos, lendas cosmogônicas e suposições astronômicas próprios. Porém não há nada nelas que entre seriamente em conflito com as noções humanas atuais do Sistema Solar e de seu tamanho e posição relativos ao Universo. Deve ser lembrado, contudo, que isto não implica necessariamente que a “Informação Verdadeira” a respeito de Arda (tal como os antigos Eldar podem ter recebido dos Valar) deva condizer com as atuais teorias dos homens. Além disso, os Eldar (e os Valar) não estavam sobrecarregados ou mesmo principalmente impressionados pelas noções de tamanho e distância. Seu interesse, certamente o interesse do Silmarillion e de todas as questões relacionadas, podem ser chamado de “dramático”. Lugares ou mundos eram interessantes ou importantes pelo o que acontecia neles.

Certamente é o caso, com as tradições élficas, de que a parte principal de Arda era a Terra (Imbar, “A Habitação”), como a cena do Drama da guerra dos Valar e dos Filhos de Eru com Melkor: de modo que, usada livremente, Arda parece com freqüência significar a Terra; e que, deste ponto de vista, a função do Sistema Solar era tornar possível a existência de Imbar. Com respeito à relação de Arda com Eä, a afirmação de que os principais Ainur demiúrgicos (os Valar), incluindo o originalmente maior de todos, Melkor, fixaram sua “residência” em Arda desde o seu estabelecimento, também implica que, a todo instante, Arda era dramaticamente o ponto principal em Eä.

Essas visões não são matemáticas ou astronômicas, ou mesmo biológicas, e portanto não se pode dizer que elas necessariamente entram em conflito com as teorias de nossas ciências físicas. Não podemos dizer que “deve” haver em algum outro lugar em Eä outros sistemas solares “como” Arda, e ainda menos que, caso existam, eles ou qualquer um deles possua um paralelo a Imbar. Não podemos sequer dizer que estas coisas são matematicamente muito “prováveis”. Mas mesmo se a presença de “vida” biológica em outro lugar de Eä fosse demonstrável, isto não invalidaria a visão élfica de que Arda (pelo menos enquanto essa durar) é o centro dramático. A demonstração de que existira Encarnados em outro lugar, paralelamente aos Filhos de Eru, certamente modificaria quadro, mas não o invalidaria. A resposta élfica provavelmente seria: “Bem, há outro Conto. Não é o nosso Conto. Eru sem dúvida pode permitir mais de um. Nem tudo é descrito no Ainulindalë; ou o Ainulindalë pode possuir uma referência mais ampla do que conhecemos: outros dramas, semelhantes em gênero mas diferentes em processo e resultado, podem ter continuado em Eä, ou ainda podem continuar”. Mas certamente eles acrescentariam: “Mas eles não estão acontecendo agora. O drama de Arda é o interesse atual de Eä”. De fato a visão élfica é claramente a de que o Drama de Arda é único. Não podemos presentemente afirmar que isto é falso.

Os elfos estavam, é claro, primeira e profundamente (mais profundamente do que os homens) preocupados com Arda, e com Imbar em particular. Eles parecem acreditar que o universo físico, Eä, teve um início e teria um fim: que ele era limitado e finito em todas as dimensões. Eles certamente acreditavam que todas as coisas ou “estruturas”, isto é, construídas (embora simples e incipientemente) a partir da matéria básica, que eles chamavam erma, eram impermanentes dentro de Eä. Logo, eles preocuparam-se muito mais com o “Fim de Arda”. Sabiam que eles próprios estavam limitados à Arda; mas a duração de sua existência eles parecem não terem conhecido. Possivelmente os Valar não sabiam. Muito provavelmente eles não foram informados pela vontade ou desígnio de Eru, que na tradição élfica parece exigir duas coisas de Seus Filhos (de ambas as raças): acreditar Nele e, partindo disto, ter esperança ou confiar Nele (fato que era chamado pelos Eldar de estel).

Mas em qualquer caso, quer descrito na Música ou não, o Fim poderia ser ocasionado por Eru a qualquer momento através de uma intervenção, de modo que ele certamente não poderia ser previsto. (Uma intervenção menor deste tipo e aparentemente prenunciada foi a catástrofe na qual Númenor foi destruída e a residência física dos Valar em Imbar terminou.) A concepção élfica do Fim de fato era catastrófica. Eles não acreditavam que Arda (ou, de qualquer modo, Imbar) iria simplesmente estagnar-se em uma inanição sem vida. Mas esta concepção não foi incorporada por eles em qualquer mito ou lenda. Ver Nota 7.

Nota 3

Na tradição élfica sua reencarnação era uma permissão especial concedida por Eru a Manwë, depois que Manwë consultou-O diretamente na época do debate a respeito de Finwë e Míriel. (Míriel “morreu” em Aman ao se recusar a não mais viver no corpo, e desse modo levantou toda a questão da separação não natural de um fëa élfico e seu hröa, e da privação de elfos que ainda viviam: Finwë, seu esposo, foi deixado solitário.) Os Valar, ou Mandos como o porta-voz de todas as ordens e, em muitos casos, seu executor, receberam poder para convocar, com total autoridade, todos os fëar desabrigados de elfos à Aman. Lá lhes era dada a escolha de permanecerem desabrigados ou (se desejassem) serem realojados na mesma forma e aspecto que possuíam. Não obstante, geralmente eles devem permanecer em Aman. Portanto, se habitassem na Terra-média, a sua privação em relação aos amigos e parentes, e a privação destes, não era corrigida. A morte não era completamente curada. Mas como Andreth observou, esta certeza a respeito de seu futuro após a morte, e o conhecimento de que eles pelo menos seriam capazes (caso desejassem), como encarnados, de fazer e criar coisas e continuar sua experiência de Arda, tornava a morte para os elfos algo totalmente diferente da como essa era vista pelos homens.

A eles era dada uma escolha, pois Eru não permitia que seu livre-arbítrio lhes fosse retirado. De modo similar, os fëar desabrigados eram convocados, e não trazidos, a Mandos. Eles poderiam recusar as invocações, mas isto indicaria que de algum modo eles foram maculados, ou não desejariam recusar a autoridade de Mandos: a recusa tinha graves conseqüências, procedendo inevitavelmente da rebelião contra a autoridade.

Eles “geralmente permaneciam em Aman”. Simplesmente porque eles ficavam, quando realojados, mais uma vez em seus verdadeiros corpos físicos, e retornar à Terra-média era, portanto, muito difícil e arriscado. Além disso, durante o período do Exílio dos Noldor, os Valar haviam momentaneamente cortado todas as comunicações (por meios físicos) entre Aman e a Terra-média. Os Valar certamente poderiam ter arranjado a transferência, se houvesse uma razão suficientemente grave. A privação de amigos e parentes aparentemente não era considerada uma razão suficiente. Provavelmente sob a instrução de Eru. De qualquer forma, no que diz respeito aos Noldor, estes, como um povo, isolaram-se da misericórdia; eles deixaram Aman exigindo liberdade absoluta para serem seus próprios mestres, para prosseguirem com sua guerra contra Melkor com seu próprio valor desassistido, e para enfrentar a morte e suas conseqüências. O único caso de um arranjo especial registrado nas Histórias é o de Beren e Lúthien. Beren foi morto logo após seu casamento, e Lúthien morreu de tristeza. Ambos foram realojados e enviados de volta à Beleriand; mas ambos tornaram-se “mortais” e posteriormente morreram de acordo com a longevidade humana normal. A razão para isso, que deve ter sido realizado por uma permissão expressa de Eru, não ficou completamente aparente até tempos depois, mas certamente fora de um peso único. A tristeza de Lúthien era tão grande que, de acordo com os Eldar, levou à piedade até mesmo Mandos, o Inabalável. Beren e Lúthien juntos realizaram o maior de todos os feitos contra Melkor: a recuperação de uma das Silmarils. Lúthien não era dos Noldor, mas filha de Thingol (dos Teleri), e sua mãe Melian era “divina”, uma Maia (um dos membros inferiores da raça espiritual dos Valar). Desse modo, da união de Lúthien e Beren, que foi possível devido ao seu retorno, ocasionou-se a infusão tanto de uma linhagem “divina” como de uma élfica na humanidade, fornecendo um elo entre a humanidade e o Mundo Antigo, após o estabelecimento do Domínio dos Homens.

Nota 4

Mais cedo ou mais tarde: porque os elfos acreditavam que os fëar dos homens mortos também iam para Mandos (sem escolha quanto a isso: seu livre-arbítrio com respeito à morte era retirado). Lá esperavam até que fossem entregues a Eru. A verdade disto não é assegurada. Nenhum homem vivo tinha permissão de ir a Aman. Nenhum fëa de um homem morto jamais retornou à vida na Terra-média. Para todos os semelhantes decretos e afirmações havia sempre algumas exceções (por causa da “liberdade de Eru”). Eärendil alcançou Aman, mesmo na época do Banimento; mas ele carregava a Silmaril recuperada por sua ancestral Lúthien, e ele era meio-elfo, e não lhe foi permitido retornar à Terra-média. Beren retornou à vida de fato, por pouco tempo; mas ele na verdade jamais foi visto novamente por homens vivos.

A passagem “sobre o mar” para Eressëa (uma ilha à vista de Aman) era permitida, e de fato encorajada, a todos os elfos remanescentes na Terra-média após a queda de Morgoth em Angband. Isto realmente marcou o início do Domínio dos Homens, embora houvesse (na nossa visão) um longo período de crepúsculo entre a queda de Morgoth e a derrocada final de Sauron: isto é, continuando no decorrer da Segunda e Terceira Eras. Mas ao final da Segunda Era veio a grande Catástrofe (por uma intervenção de Eru que prenunciava, aparentemente, o Fim de Arda): a aniquilação de Númenor e a “remoção” de Aman do mundo físico. Portanto, a passagem de mortais “sobre o mar” após a Catástrofe – que é registrada nO Senhor dos Anéis – não é exatamente a mesma coisa. Esta foi, de qualquer modo, uma graça especial. Uma oportunidade para morrer de acordo com o plano original para os não caídos: eles chegavam a um estado onde poderiam adquirir um conhecimento e paz de espírito maiores, e estando curados de todos os ferimentos, tanto de mente como de corpo, por fim poderiam finalmente entregarem-se: morrer de livre vontade, e mesmo de desejo, em estel. Uma coisa que Aragorn alcançou sem qualquer tipo de auxílio.

Nota 5

Eles assim eram capazes de esforços físicos maiores e mais prolongados (em busca de algum objetivo dominante em suas mentes) sem fadiga; não estavam sujeitos à doenças; curavam-se rápida e completamente após ferimentos que teriam se mostrados fatais aos homens; e podiam suportar grandes dores físicas por longos períodos. Seus corpos não podiam, entretanto, sobreviver a ferimentos vitais ou a violentos ataques à sua estrutura; nem podiam substituir membros perdidos (tais como uma mão decepada). Por outro lado, os elfos podiam morrer, e morriam, por vontade própria; como, por exemplo, por causa de grande tristeza ou privação, ou por causa da frustração de seus desejos e propósitos dominantes. Esta morte intencional não era considerada imoral, mas era uma falta que indicava alguma deficiência ou mácula no fëa, e àqueles que chegavam a Mandos por estes meios poderia ser recusado uma outra vida encarnada.

Nota 6

Porque os Valar não possuíam tal informação; ou porque a informação era negada. Ver Nota 2 [quinto parágrafo].

Nota 7

Ver Nota 2. Os elfos esperavam que o Fim de Arda fosse catastrófico. Eles acreditavam que isto aconteceria pelo menos pela dissolução da estrutura de Imbar, se não de todo o sistema. O Fim de Arda não é, obviamente, a mesma coisa que o fim de Eä. Sobre isso sustentavam que nada poderia ser conhecido, exceto que Eä era derradeiramente finito. É digno de nota o fato de que os elfos não possuíam mitos ou lendas que tratassem do fim do mundo. O mito que aparece ao final do Silmarillion é de origem númenoreana; ele evidentemente foi criado por homens, embora os homens tivessem conhecimento da tradição élfica. Todas as tradições élficas são apresentadas como “histórias”, ou como relatos do que acontecera.

Estamos lidando aqui com o pensamento élfico em um período inicial, quando os Eldar ainda eram completamente “físicos” em forma corpórea. Muito mais tarde, quando o processo (já vislumbrado por Finrod) chamado “minguar” ou “desvanecer” tornou-se mais efetivo, suas opiniões a respeito do Fim de Arda, até onde os afetavam, devem ter sido modificadas. Mas existem poucos registros de quaisquer contatos do pensamento humano com o élfico em dias posteriores. Eles finalmente tornaram-se alojados, se isto pode ser assim chamado, não em hröar verdadeiramente visíveis e tangíveis, mas apenas na memória do fëa de sua forma corpórea e de seu desejo por ela; e, portanto, não dependentes da mera existência sobre o material de Arda. Mas eles parecem ter acreditado, e de fato ainda acreditam, que este desejo pelo hröa mostra que sua condição posterior (e atual) não lhes é natural, e permanecem na estel de que Eru irá curá-la. “Não natural”, ou devido completamente, como pensavam inicialmente, ao enfraquecimento do hröa (derivado da debilidade introduzida por Melkor na substância de Arda, sobre a qual ele deve se nutrir), ou devido parcialmente ao trabalho inevitável de um fëa dominante sobre um hröa material no decorrer de muitas eras. (No último caso, “natural” pode referir-se apenas a um estado ideal, no qual a matéria imaculada poderia suportar eternamente a habitação de um fëa perfeitamente adaptado. Não pode referir-se ao real desígnio de Eru, uma vez que os Temas dos Filhos foram introduzidos após o surgimento das dissonâncias de Melkor. O “minguar” dos hröar élficos deve ser, portanto, parte da História de Arda como contemplada por Eru, e modo pelo qual os elfos abririam caminho para o Domínio dos Homens. Os elfos consideravam sua substituição pelos homens um mistério, e um motivo de tristeza; pois eles diziam que os homens, pelo menos quanto a serem amplamente governados pelo mal de Melkor, possuem cada vez menos amor por Arda em si, e estão por demais ocupados em destruí-la na tentativa de dominá-la. Eles acreditam ainda que a cura de Eru de todos os pesares de Arda agora virá pelos ou através dos homens; mas a parte dos elfos na cura ou redenção será principalmente na restauração do amor de Arda, para o qual contribuirão suas memórias do Passado e compreensão do que poderia ter sido. Arda, dizem eles, será destruída pelos homens maliciosos (ou pela malícia nos homens), mas será curada pela bondade nos homens. A malícia, a dominante falta de amor, os elfos compensarão. Pela santidade dos homens bons – a ligação direta destes com Eru, anterior e acima de todas as obras de Eru – os elfos podem ser livrados do último de seus pesares: a tristeza; a tristeza que deve vir mesmo do amor altruísta de qualquer coisa abaixo de Eru.)

Nota 8

Desejo. Os elfos insistiam que os “desejos”, especialmente desejos fundamentais como são tratados aqui, deviam ser considerados como indicações das naturezas reais dos Encarnados, e da direção na qual sua satisfação imaculada deve se situar. Eles faziam distinção entre o desejo do fëa (percepção de que alguma coisa certa ou necessária não está presente, levando ao desejo ou esperança por ele), o desejo, ou vontade pessoal (o sentimento da falta de alguma coisa, a força que primeiramente diz respeito a si próprio, e que pode ter pouca ou nenhuma referência à adequação geral das coisas) e a ilusão, a recusa de reconhecer que as coisas não são como deveriam ser, levando à ilusão de que elas são como alguém desejaria que fossem, quando elas não são dessa forma. (O último poderia ser chamado agora de “pensamento desejoso”, legitimamente; mas este termo, diriam os elfos, é absolutamente ilegítimo quando aplicado ao primeiro. O último pode ser refutado por referência aos fatos. O primeiro não. A não ser que acredite-se que o desejo seja sempre ilusório e a única base para a esperança de correção. Mas os desejos do fëa podem ser freqüentemente mostrados como sendo razoáveis por argumentos não ligados ao desejo pessoal. O fato de que eles estão de acordo com o “desejo”, ou mesmo com a vontade pessoal, não os invalida. De fato, os elfos acreditavam que o “alívio do coração” ou a “instilação da alegria” (à qual eles freqüentemente referem-se), que podem acompanhar a declaração de uma proposição ou de um argumento, não é uma indicação de sua falsidade, mas sim do reconhecimento da parte do fëa de que ele está no caminho da verdade.)

Nota 9

É provável que Andreth na verdade estivesse relutante em dizer mais. Em parte por um tipo de lealdade que impedia os homens de revelarem aos elfos tudo o que sabiam sobre a escuridão em seu passado; e em parte porque ela sentiu-se incapaz de decidir-se quanto às conflitantes tradições humanas. Versões mais longas do Athrabeth, evidentemente editadas sob influência númenoreana, fazem-na dar, sob pressão, uma resposta mais precisa. Algumas são muitos breves, outras são mais longas. Contudo, todas concordam em tornar a causa do desastre a aceitação de Melkor como rei (ou rei e deus) pelos homens. Em uma versão, uma lenda completa (resumida na escala temporal) é fornecida explicitamente como uma tradição númenoreana, pois ela faz Andreth dizer: Este é o Conto que Adanel da Casa de Hador me contou. Os númenoreanos em sua maioria, e suas tradições não élficas principalmente, descendiam do Povo de Marach, do qual a Casa de Hador era líder. A lenda possui certas semelhanças quanto às tradições númenoreanas no que diz respeito ao papel desempenhado por Sauron na queda de Númenor. Mas isto não prova que ela seja completamente uma ficção dos dias pós-queda. Ela sem dúvida é derivada de tradições verdadeiras do Povo de Marach, completamente independente do Athrabeth. [Nota adicionada: Nada é afirmado, por meio desta, a respeito de sua "verdade", história ou não.] as atividades de Sauron natural e inevitavelmente assemelhavam-se àquelas de seu mestre ou repetiam-nas. É triste que um povo de posse de tal lenda ou tradição tenha sido posteriormente iludido por Sauron mas, geralmente em vista da história humana, não é incrível. De fato, se peixes possuíssem tradições e sábios entre eles, o trabalho dos pescadores provavelmente quase não seria impedido.

Nota 10

A “Matéria” não é considerada má ou oposta ao “Espírito”. A matéria era completamente boa em origem. Ela permaneceu uma “criatura de Eru” e ainda boa em grande parte, e de fato autocurativa, quando não perturbada: isto é, quando o mal latente introduzido por Melkor não era despertado deliberadamente e usado por mentes malignas. Melkor concentrou sua atenção na “matéria” porque os espíritos só podiam ser completamente dominados pelo medo; e o medo era mais facilmente empregado através da matéria (especialmente no caso dos Encarnados, aos quais ele mais desejava subjugar). Por exemplo, pelo medo de que as coisas materiais que eram amadas pudessem ser destruídas, ou o medo (nos Encarnados) de que seus corpos pudessem ser feridos. (Melkor também usou e perverteu para seus propósitos o “medo de Eru”, completa ou vagamente compreendido. Mas isto foi mais difícil e perigoso, e exigiu mais astúcia. Espíritos inferiores poderiam ser atraídos pelo amor ou admiração dele próprio e de seus poderes, e conduzidos assim a uma postura de rebelião contra Eru. Seu medo Dele poderia então ser obscurecido, de modo que eles aderissem a Melkor, como um capitão e protetor, tornando-se por fim aterrorizados demais para retornarem à lealdade a Eru, mesmo após terem descoberto quem Melkor era e terem começado a odiá-lo.)

Nota 11

Na verdade isto já havia sido vislumbrado no Ainulindalë, no qual é feita referência à “Chama Imperecível”. Isto parece querer dizer a atividade Criativa de Eru (em certo sentido distinta Dele ou de dentro Dele), pela qual as coisas poderiam receber uma existência (embora derivativa e criada) “real” e independente. A Chama Imperecível é enviada a partir de Eru, para residir no coração do mundo e o mundo então É, no mesmo plano dos Ainur, e eles podem entrar nele. Mas isto, claro, não é o mesmo que a reentrada de Eru para derrotar Melkor. Isto refere-se ao mistério da “autoria”, pela qual o autor, apesar de permanecer “fora” e independente de seu trabalho, também “reside” nele, em seu plano derivativo, abaixo daquele de seu próprio ser, como a fonte e garantia de seu ser.

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