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Mitos Transformados VII – Notas sobre os motivos no Silmarillion

The Histoy of Middle-earth XEste ensaio é encontrado em duas formas. A mais antiga (‘A’) é um texto bastante curto, manuscrito, contendo quatro páginas, entitulado ‘Algumas notas sobre a ”filosofia” do Silmarillion’; é rapidamente expresso e não possui um final claro. O segundo (‘B’) é uma versão grandemente ampliada contendo doze páginas, também manuscritas, de uma expressão mais cuidadosa e iniciando com uma bela caligrafia, mas encerrado também sem um fim, de fato no meio de uma frase. Este é entitulado ‘Notas sobre os motivos no Silmarillion’.

A relação entre as duas formas é tal que em sua maior parte não é necessário fornecer nenhum trecho de A pois todo seu conteúdo é encontrado inserido em B. A partir do ponto onde os Valar são condenados pela elevação das Pelori, contudo, os textos divergem. Em B meu pai insere uma longa amenização da conduta dos Valar, e o ensaio se encerra antes do assunto da seção que encerra A fosse atingida (ver nota 6); esta, portanto, é fornecida no final de B.

O texto de B é subsequentemente dividido e marcado como três seções distintas, sendo elas (i), (ii) e (iii).

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Os Anais de Aman – Quinta Seção

A Valinor tem a honra de publicar a quinta parte de um total de seis que compõem os Anais de Aman, um longo registro dos acontecimentos desde a criação de Arda até a Criação do Sol e da Lua escrito  pelo próprio J. R. R. Tolkien e publicado no The History of Middle-earth 10. Esta quinta parte (leia também a primeira, a segunda, a terceira e a quarta) engloba a morte de Finwë, o roubo das Silmarils, o Juramento de Fëanor e a Fuga dos Noldor..

Quinta Seção dos Anais de Aman

§117      Então veio a acontecer que após algum tempo uma grande aglomeração de pessoas seu juntou ao redor do Círculo do Destino; e os deuses sentaram nas sombras, pois era noite. Mas noite como apenas pode ser em algumas terras do mundo quando as estrelas brilham fracas e intermitentemente através de fendas em grandes nuvens, e nevoeiros frios chegam de um escuro litoral do mar. Então Yavanna pôs de pé no Monte Verdejante, e este agora estava vazio e enegrecido, e ela olhou para as Árvores e estavam ambas mortas e negras. Então muitas vozes se levantaram em lamentação, pois pareceu àqueles que lamentavam que eles haviam sorvido até o fim a taça de sofrimento que Melkor havia enchido para eles. Mas não era verdade.

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Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português

Leis e Costumes entre os Eldar

Leis e costumes entre os Eldar pertinentes ao casamento e a outros assuntos relacionados a isso: junto com o Estatuto de Finwë e Míriel e o debate dos Valar à sua realização

LEIS E COSTUMES ENTRE OS ELDAR PERTINENTES AO CASAMENTO E A OUTROS ASSUNTOS RELACIONADOS A ISSO: JUNTO COM O ESTATUTO DE FINWË E MÍRIEL E O DEBATE DOS VALAR À SUA REALIZAÇÃO


Preâmbulo de Ælfwine


[Os eldar cresciam em forma física mais lentamente que os homens, porém com mais rapidez em mente. Eles aprendiam a falar antes de completarem um ano de idade; e ao mesmo tempo eles aprendiam a andar e dançar, pois suas vontades logo vinham ao domínio de seus corpos. Na verdade, havia poucas diferenças entre as duas Famílias, elfos e homens, na infância; e um homem que observasse crianças élficas brincando, poderia muito bem acreditar que elas fossem filhas de homens, de algum povo belo e feliz. Pois nos seus primeiros dias, as crianças élficas deleitavam-se constantemente com o mundo ao redor delas, e o fogo de seus espíritos não as havia consumido ainda, e o fardo da memória ainda era leve sobre elas.

Este mesmo observador poderia ter se assombrado com a estatura e os pequenos membros destas crianças, ao julgar suas idades por suas habilidades com as palavras e graça ao mover-se. Pois ao final do terceiro ano, as crianças mortais começavam a superar os elfos rapidamente em estatura máxima, enquanto os elfos cresciam lentamente na primeira parte da infância. Os Filhos dos Homens podiam alcançar sua altura máxima enquanto os eldar da mesma idade ainda eram fisicamente como mortais de não mais que sete anos de idade. Os eldar não atingiam a estatura e forma, nas quais suas vidas seriam suportadas posteriormente, até o quinquagésimo ano, e algumas centenas de anos passavam antes que se tornassem adultos.]

1 – Do Casamento

Os eldar casavam-se em sua maioria na juventude e logo após o quinquagésimo ano. Eles tinham poucos filhos, mas estes eram muito caros a eles. Suas famílias, ou casas, eram mantidas unidas por amor e por um sentimento profundo pelo parentesco em mente e corpo; e as crianças necessitavam de pouca supervisão ou ensinamentos. Era raro haver mais de quatro crianças em cada casa, e o número crescia menos com o passar das eras; mas nos dias antigos, enquanto os eldar eram poucos e ansiavam por aumentar sua raça, Fëanor foi renomado por ser pai de sete filhos, e as histórias não mencionam ninguém que o tenha superado.

Os eldar casavam-se apenas uma vez em vida, e por amor ou pelo menos por livre vontade de cada parte. Mesmo quando nos dias posteriores, como as histórias revelam, muitos dos eldar na Terra-média tornaram-se corrompidos, e seus corações escurecidos pela sombra que estedia-se sobre Arda, raramente qualquer conto fala de atos de luxúria entre eles.

O casamento, salvo por raros males ocasionais ou por estranhos destinos, era o curso natural da vida de todos os eldar. Acontecia dessa maneira. Aqueles que posteriormente se casariam podiam escolher um ao outro ainda na juventude, mesmo como crianças [e de fato isto acontecia freqüentemente em dias de paz]; mas a não ser que eles desejassem logo estarem casados e fossem da idade apropriada, o noivado aguardaria o julgamento dos pais de ambas as partes.

A seu devido tempo, o noivado era anunciado em um encontro das duas casas envolvidas, e os noivos entregavam alianças de prata um ao outro. De acordo com as leis dos eldar, este noivado estava então comprometido a durar pelo menos um ano, e freqüentemente durava mais. Durante este período, ele poderia ser anulado por um retorno público das alianças, sendo as alianças então derretidas e não usadas novamente para um noivado. Tal era a lei; mas o direito de anulação era raramente usado, pois os eldar não erravam levianamente em tal escolha. Eles não são enganados facilmente pela sua própria raça; e sendo seus espíritos senhores de seus corpos, eles são raramente dominados apenas pelos desejos do corpo, pois eles são por natureza firmes e inabaláveis.

Apesar de tudo, entre os eldar, mesmo os de Aman, o desejo pelo casamento não era sempre realizado. Amor não era sempre correspondido; e mais de um poderia desejar outra por esposa. Cientes disto, o único motivo pelo qual a mágoa entrou na bem-aventurança de Aman, os valar ficaram em dúvida. Alguns sustentavam que isto vinha do desfiguramento de Arda, e da Sombra sob a qual os eldar despertaram; pois daí [eles diziam] vinha somente pesar e desordem. Alguns sustentavam que isto vinha do próprio amor, e da liberdade de cada fëa, e era um mistério da natureza dos Filhos de Eru.

Após o noivado, cabia aos noivos indicar a época de seu casamento, quando pelo menos um ano tivesse passado. Então em um banquete, novamente compartilhado pelas duas casas, o matrimônio era celebrado. Ao final do banquete, os noivos levantavam-se, e a mãe da noiva e o pai do noivo juntavam as mãos do casal e os abençoavam. Pois esta benção era uma forma solene, mas nenhum mortal jamais a presenciou; contudo, os eldar dizem que Varda era nomeada como testemunha pela mãe e Manwë pelo pai; e que além disso o nome de Eru era pronunciado [como raramente fora feito em outras épocas]. Os noivos então recebiam de volta um do outro suas alianças de prata [e as entesouravam]; mas eles davam em troca finos anéis de ouro, que eram colocados no dedo indicador da mão direita.

2 – Dos Nomes

Esta é a maneira pela qual o nome dos filhos era obtido entre os noldor. Logo após o nascimento, a criança era nomeada. Era o direito do pai escolher este primeiro nome, e era ele que anunciava o nome para os parentes da criança de ambos os lados. Este é chamado, por este motivo, o nome-pai, e este vinha primeiro, se outros nomes fossem adicionados posteriormente. Ele permanecia inalterado*, pois ele não recaia na escolha da criança.

* Exceto por mudanças como as que aconteciam na sua forma falada com o passar dos longos anos; pois [como é contado em outro lugar] mesmo as línguas dos eldar estavam sujeitas à mudanças.

Mas cada criança entre os noldor [neste ponto, talvez, eles diferiam dos outros eldar] tinha também o direito de dar um nome à si mesma. Ora, a primeira cerimônia, o anúncio do nome-pai, era chamada Essecarmë ou “Criação do Nome”. Posteriormente, havia outra cerimônia chamada Essecilmë ou “Escolha do Nome”. Esta acontecia sem uma data fixa após a Essecarmë, mas não podia acontecer antes da criança ser considerada pronta e capaz de lámatyávë, como os noldor chamavam: isto é, de satisfação individual nos sons e formas das palavras. Os noldor eram, de todos os eldar, os que adquiriam mais rapidamente o domínio das palavras; mas mesmo entre eles, poucos, pelo menos antes do sétimo ano, tornavam-se completamente cientes de sua lámatyávë, ou tinham ganho domínio completo da linguagem herdada e sua estrutura, assim como expressar essa tyávë habilmente dentro de seus limites. A Essecilmë, portanto, o objeto o qual era a expressão desta característica pessoal**, geralmente acontecia no, ou próximo do, décimo ano.

** Esta lámatyávë era tida como uma marca de individualidade e, de fato, mais importante do que outras, como estatura, cor, e traços faciais.

Em tempos antigos, o “Nome Escolhido”, ou segundo nome, era geralmente idealizado despreocupadamente e, embora moldado conforme a estrutura da linguagem da época, ele freqüentemente não possuia sentido prévio. Em eras posteriores, quando havia uma grande abundância de nomes já em existência, ele era mais freqüentemente selecionado a partir de nomes que eram conhecidos. Mas, ainda assim, alguma modificação do antigo nome podia ser feita.

Ora, estes dois nomes, o nome-pai e o nome escolhido, eram “nomes verdadeiros”, não apelidos; mas o nome-pai era público, e o nome escolhido era privado, especialmente quando usado sozinho. Privado, não secreto. Os nomes escolhidos eram considerados pelos noldor como parte de sua propriedade pessoal, como [dizem] seus anéis, taças, ou facas, ou outras possessões que eles pudessem emprestar, ou partilhar com a família e amigos, mas que não podiam ser pegos sem permissão. O uso do nome escolhido, exceto por membros da mesma casa [pais, irmãs e irmãos], era um sinal de estreita intimidade e amor, quando permitido. Era, portanto, atrevimento ou um insulto usá-lo sem permissão.***

*** Este sentimento não tinha, assim, nada a ver com “magia” ou com tabus, como são encontrados entre os homens.

Uma vez que, entretanto, os eldar eram por natureza imortais dentro de Arda, mas não eram absolutamente imutáveis, após algum tempo alguém poderia desejar um novo nome.† Ele podia então criar para si mesmo um novo nome escolhido. Mas este não anulava o nome anterior, que permanecia parte do “título completo” de qualquer noldo: esta é a seqüência de todos os nomes que foram adquiridos no decorrer da vida.

† Os eldar sustentavam que, à parte dos casos de doença e da destruição de seus corpos eles podiam, no decorrer de seus anos, exercitar e aproveitar todos os variados talentos de sua raça, de habilidade ou de tradição, embora em ordem e graus diferentes. Com tais mundaças de “modo mental” ou inwisti, sua lámatyávë também podia mudar. Mas tais mudanças ou progressões eram na verdade vistas principalmente entre os neri, pois as nissi, ainda que alcançassem a maturidade mais cedo, permaneciam então mais estáveis e menos desejosas por mudanças. [De acordo com os eldar, a única “marca” de qualquer pessoa que não estava sujeita a mudança era a diferença de sexo. Pois isto eles acreditavam pertencer não somente ao corpo [hröa], mas também à mente [indo] igualmente: isto é, à pessoa como um todo. Esta pessoa ou indivíduo, eles freqüentemente chamavam essë [que é “nome”], mas ela também era chamada erdë, ou “singularidade”. Aqueles que retornavam de Mandos, entretanto, após a morte de seu primeiro corpo, retornavam sempre ao mesmo nome e ao mesmo sexo como anteriormente.]

Estas mudanças deliberadas do nome escolhido não eram freqüentes. Havia outra fonte da variedade de nomes usados por qualquer um dos eldar, que na leitura de suas histórias, pode parecer-nos confusa. Esta era encontrada nos Anessi: os nomes dados ou adicionados]. Destes, os mais importantes eram os chamados “nomes-mãe”. As mães freqüentemente davam aos seus filhos nomes especiais de sua própria escolha. Os mais notáveis destes eram os “nomes de discernimento”, essë tercenyë, ou de “previdência”, apacenyë. Na hora do nascimento, ou em alguma outra ocasião de momento, a mãe podia dar um nome ao seu filho, indicando alguma característica dominante de sua natureza percebida por ela, ou alguma visão de seu destino especial. Estes nomes tinham autoridade, e eram considerados nomes verdadeiros quando conferidos solenemente, e eram públicos, não privados, se postos [como às vezes era feito] imediatamente após o nome-pai.

Todos os outros “nomes dados” não eram nomes autênticos e, de fato, podiam não ser reconhecidos pela pessoa a qual eles eram aplicados, a menos que eles fossem adotados ou dados a si próprio. Nomes, ou apelidos desse tipo, podiam ser dados por qualquer pessoa, não necessariamente por membros da mesma casa ou família, em memória de alguma façanha, ou evento, ou em sinal de alguma característica marcante de corpo ou mente. Eles raramente eram incluídos o “título completo”, mas quando o eram, por causa de seu amplo uso e fama, eles eram postos no final em alguma forma como esta: “por alguns chamado Telcontar” [que é Passolargo]; ou “às vezes conhecido como Mormacil” [que é Espada Negra].

Os amilessi tercenyë, ou nomes-mãe de discernimento, tinham uma posição elevada, e no uso geral substituíam algumas vezes, tanto dentro como fora da família, o nome-pai e o nome escolhido, embora o nome-pai [e o escolhido, entre aqueles dos eldar que tinham o costume da essecilmë] permanecesse sempre o nome verdadeiro ou primário, e uma parte necessária de qualquer “título completo”. Os “nomes de discernimento” eram dados mais frequëntemente nos dias antigos dos eldar, e naquela época eles caiam mais facilmente no uso público, pois ainda era o costume o nome-pai de um filho ser a modificação do nome do pai [como Finwë/Curufinwë] ou um patronímico [como Finwion “filho de Finwë”]. O nome-pai de uma filha era freqüentemente derivado do nome da mãe.

Exemplos célebres destas situações são encontrados nas histórias antigas. Assim Finwë, primeiro senhor dos noldor, primeiramente chamou seu filho mais velho de Finwion; mas posteriormente, quando seu talento foi revelado, este foi modificado para Curufinwë. Mas seu nome de discernimento que sua mãe Míriel lhe deu na hora do nascimento foi Fëanáro, “Espírito de Fogo”††, e por este nome ele tornou-se conhecido por todos, e assim ele é chamado em todas as histórias. [É dito que ele também tomou este nome como seu nome escolhido, em honra de sua mãe, que ele nunca viu.] Elwë, senhor dos teleri, tornou-se muito conhecido pelo anessë ou nome dado Sindicollo,”Manto Cinzento”, e daí em diante, na forma modificada da língua sindarin, ele foi chamado Elu Thingol. Thingol, de fato, era o nome mais usado para ele por outros, embora Elu ou Elu-thingol permanecesse seu título correto no seu próprio reino.

†† Embora a forma Fëanor, que é a mais usada com freqüência, fosse uma combinação do quenya Fëanáro e do sindarin Faenor.

3 – Da Morte e a Separação do Fëa e Hröa

Deve ser compreendido que o que já foi dito a respeito da casamento eldarin refere-se à sua natureza e curso normal em um mundo não-desfigurado, ou aos costumes daqueles não-corrompidos pela Sombra e aos dias de paz e ordem. Mas nada, como foi dito, evita completamente a Sombra sobre Arda ou é completamente intocado, a fim de prosseguir inabalado em seus caminhos naturais. Nos Dias Antigos, e nas eras anteriores ao Domínio dos Homens, houve épocas de grande dificuldade e muitos sofrimentos e acasos malígnos. E a morte atingiu todos os eldar, como o fez a todas as coisas vivas em Arda, salvo apenas os valar: pois a forma visível dos valar origina-se de sua própria vontade e com o intuito de tornar o seu verdadeiro ser mais parecido com as vestimentas de elfos e homens do que aos seus corpos.

Ora, os eldar são imortais dentro de Arda de acordo com sua própria natureza. Mas se um fëa [ou espírito] habita e mantém-se unido a um hröa [ou corpo físico] que não é de sua própria escolha mas sim ordenado, e é feito da carne ou substância da própria Arda, então o sucesso desta união seria vulnerável pelos males que infligem dor à Arda, mesmo se esta união fosse pela natureza e com propósito permanente. Pois a despeito desta união, que é de um tipo que, segundo a natureza não-desfigurada, nenhuma pessoa viva [encarnada] pode existir sem um fëa, nem sem um hröa, mesmo o fëa e o hröa não são a mesma coisa; e embora o fëa não possa ser partido ou desintegrado por qualquer violência exterior, o hröa pode ser ferido e completamente destruído.

Se então o hröa é destruído, ou tão ferido que sua saúde cesse, cedo ou tarde ele “morre”. Isto é: torna-se doloroso para o fëa habitá-lo, não sendo nem um auxílio à vida e à vontade, nem uma satisfação usá-lo, de forma que o fëa abandona-o e, sua função chegando a um fim, a coesão é desfeita, e ele retorna novamente à orma [matéria física] geral de Arda. Então o fëa torna-se, como no início, desabrigado, e fica invisível a olhos físicos [embora claramente perceptível pela consciência por outros fëar].

Esta destruição do hröa, causando a morte ou o desalojamento do fëa, foi logo experimentada pelos imortais eldar, quando despertaram no escurecido e desfigurado reino de Arda. Realmente, nos seus primeiros dias, a morte vinha mais facilmente, pois seus corpos eram então pouco diferentes dos corpos dos homens, e o domínio de seus espíritos sobre seus corpos menos completo.

Este domínio era, apesar de tudo, em qualquer época maior do que já foi entre os homens. Desde o início, a principal diferença entre os elfos e homens está no destino e na natureza de seus espíritos. Os fëar dos elfos eram destinados a habitar Arda por toda a vida de Arda, e a morte da carne não anulava este destino. Seus fëar eram tenazes por causa da vida “na vestimenta de Arda”, e de longe excediam os espíritos dos homens em poder sobre esta “vestimenta”, mesmo desde os primeiros dias, protegendo seus corpos de muitas enfermidades e agressões [tais como doenças], e curando-os rapidamente de ferimentos, de modo que eles recuperavam-se de ferimentos que mostravam-se fatais aos homens.

Com o passar das eras, o domínio de seus fëar sempre aumentava, “consumindo” seus corpos [como já foi mencionado]. O final desse processo é a sua “passagem”, como os homens o chamaram; pois o corpo torna-se finalmente, como o era, uma mera memória mantida pelo fëa; e este fim já foi alcançado em muitas regiões da Terra-média, de modo que os elfos são de fato imortais e não podem ser destruídos ou mudados. Tal o é que, quanto mais longe voltamos nas histórias, mais freqüentemente lemos sobre a morte dos elfos de antigamente; e nos dias quando as mentes dos eldalië eram jovens e ainda não totalmente despertas, a morte entre eles parecia diferir pouco da morte dos homens.

O que acontecia então ao fëa desabrigado? A resposta a esta pergunta os elfos não sabiam por natureza. Nos seus primórdios [assim eles relatam] eles acreditavam, ou imaginavam, que eles “entravam no Nada”, e terminavam como as outras coisas vivas que conheciam, mesmo como uma árvore que fora derrubada e queimada. Outros imaginavam mais sombriamente que eles passavam para o “Reino da Noite” e para o poder do “Senhor da Noite”. Essas opiniões eram claramente derivadas da Sombra sob a qual eles despertaram; e foi para libertá-los desta sombra em suas mentes, mais do que dos perigos de Arda desfigurada, que os valar desejaram levá-los para a luz de Aman.

Foi em Aman que aprenderam de Manwë que cada fëa era imperecível dentro da vida de Arda, e que seu destino era habitar Arda até o seu fim. Aqueles fëar, portanto, que no desfiguramento de Arda sofreram uma separação anormal de seus hröar, ainda permaneciam em Arda e no Tempo. Mas neste estado, eles estavam abertos à instrução e comando direto dos valar. Tão logo estivesem sem corpo, eles eram convocados a deixar os lugares de sua vida e morte e ir para os “Salões da Espera”: Mandos, no reino dos valar.

Se obedecessem a esta convocação, diferentes oportunidades apresentariam-se diante deles. O tempo que eles ficavam na Espera dependia parte da vontade de Námo, o Juiz, senhor de Mandos, parte de sua própria vontade. A maior das felicidades, eles julgavam, era após a Espera, renascer, pois então o mal e a tristeza que sofreram no encurtamento de seu curso natural podia ser reparado.

4 – Renascimento e outros destinos daqueles que vão para Mandos

Ora, os eldar diziam que, para cada criança élfica, um novo fëa é dado, não aparentado aos fëar dos pais [exceto pertencer à mesma ordem e natureza]; e este fëa ou não existia antes do nascimento, ou é o fëa de alguém renascido.

O novo fëa, e portanto no seu início todos os fëar, eles acreditavam vir diretamente de Eru e de além de Ëa. Logo, muitos deles sustentavam que não podia se afirmado que o destino dos elfos é estar confinado em Arda eternamente e com ela cessar sua existência. Esta última opinião eles inferiram de seu próprio pensamento, pois os valar, não tomando parte na concepção dos Filhos de Eru, não sabem completamente os propósitos de Eru a respeito deles, nem os objetivos finais que ele prepara para eles.

Mas eles não chegaram a estas opiniões de uma vez ou sem discordância. Em sua juventude, enquanto seu conhecimento e experiência eram pequenos e ainda não haviam recebido a instrução dos valar [ou não a tinham compreendido completamente], muitos ainda sustentavam que na criação de sua raça, Eru entregou-lhes este poder: gerar crianças iguais a eles em todos os aspectos, corporal e espiritualmente; e que, portanto, o FEA de uma criaça vinha de seus pais, assim como o hröa.

Contudo, alguns sempre discordaram dizendo: “De fato, uma pessoa viva pode parecer-se com os pais e ser vista como uma combinação, em vários graus, destes dois; mas esta semelhança é mais logicamente relacionada ao hröa. Ele é mais forte e mais nítido na juventude, enquanto o corpo é dominante e mais semelhante aos corpos de seus pais.” [Isto é verdadeiro para todas as crianças élficas.] “Visto que em todas as crianças, apesar de que em algumas possa ser mais marcante e logo aparente, existe uma parte da personalidade não compreendida pelo parentesco, ao qual pode ser inteiramente contrária. Esta diferença é mais claramente atribuída ao fëa, novo e não aparentado com os pais; pois ela torna-se mais forte e mais clara enquanto a vida prossegue e o fëa aumenta em supremacia.”

Posteriormente, quando os eldar tornaram-se cientes do renascimento, este argumento foi adicioado: “Se os fëar das crianças fossem normalmente derivados dos pais e a eles aparentados, então o renascimento seria antinatural e injusto. Pois ele privaria os novos pais, sem consentimento, de metade de sua linhagem, colocando em sua família uma criança em parte estranha a eles.”

Apesar de tudo, a opinião mais antiga não foi totalmente invalidada. Pois todos os eldar, estando cientes disto em si próprios, falavam da passagem de muita força, mental e corporal, para suas crianças, na concepção e no nascimento. Logo, eles sustentavam que o fëa, embora não criado, extrai energia dos pais antes do nascimento da criança: diretamente do fëa da mãe enquanto ela carrega e nutre o hröa, e igualmente através do pai, cujo fëa está unido com o da mãe e o suporta.

Era por esta razão que todos os pais desejavam viver juntos no ano da gestação, e consideravam a separação nessa época como uma tristeza e aflição, privando a criança de uma parte de sua família. “Pois”, diziam eles, “apesar da união dos fëar do casal não ser quebrada pela distância de lugares, mesmo em criaturas que vivem como espíritos encarnados, fëa somente comuna com fëa em sua totalidade quando os corpos estão juntos”.

Um fëa desabrigado que escolhera, ou ao qual fora permitido retornar à vida, entrava novamente no mundo encarnado através do parto. Somente desse modo ele poderia retornar.* Pois é evidente que a provisão de um lar corpóreo para o fëa, e a união do fëa com o hröa, era feita por Eru aos Filhos, para ser completada no ato da concepção.

* Salvo em raros e estranhos casos: isto é, onde o corpo que o fëa tivesse abandoado fosse intacto, e ainda permanecesse coeso e incorrupto. Mas isto poderia raramente acontecer; pois a morte contra a vontade somente podia ocorrer quando uma grande violência fosse causada ao corpo; e na morte pela vontade, tal como ocasionalmente acontecera por causa de cansaço absoluto ou grande pesar, o fëa não desejaria retornar, até que o corpo, deixado pelo espírito, estivesse dissolvido. Isto acontecia rapidamente na Terra-média. Somente em Aman não havia deterioração. Assim, Míriel lá foi realojada em seu próprio corpo, como é contado mais adiante.

Quanto a esse renascimento, ele não era uma opinião, mas conhecido e certo. Pois o fëa renascido de fato torna-se uma criança, desfrutando uma vez mais de todas as maravilhas e novidades da infância; mas lentamente, e somente após ter adquirido um conhecimento do mundo e o domínio de si mesmo, sua memória despertaria; até que, quando o elfo renascido fosse adulto, recordasse toda sua vida anterior, e então a antiga vida, e a “espera”, e a nova vida tornassem-se uma identidade e uma história ordenada. Esta memória possuiria assim uma satisfação dobrada pela infância, e também uma experiência e conhecimento maiores do que os anos de seu corpo. Deste modo, a violência ou pesar que o renascido sofrera eram reparados e seu ser era enriquecido. Pois os renascidos são duplamente instruídos e duplamente aparentados**, e possuem duas memórias da alegria de despertar e descobrir o mundo dos vivos e o esplendor de Arda. Sua vida é, portanto, como se um ano tivesse duas primaveras e, embora um frio fora de época seguisse-se após a primeira, a segunda primavera e todos os verões posteriores eram mais belos e abençoados.

** Em alguns casos, um fëa renascido poderia novamente ter os mesmos pais. Por exemplo, se seu primeiro corpo tivesse morrido muito jovem. Mas isto não acontecia freqüentemente; nem um fëa reingressava necessariamente na sua antiga família [ou casa], pois normalmente um grande espaço de tempo passava-se antes que desejasse ou lhe fosse permitido retornar.

Os eldar dizem que o renascimento por mais de uma vez é raramente registrado. Mas as razões para isto eles não sabem completamente. Talvez, seja ordenado pela vontade de Eru; enquanto os renascidos [eles dizem] são mais fortes, possuindo maior domínio de seus corpos e sendo mais resignados quanto ao sofrimento. Mas muitos, sem dúvida, que tenham morrido duas vezes, não desejam retornar.

O renascimento não é o único destino dos fëar desabrigados. A Sombra sobre Arda não causava apenas infortúnios e danos ao corpo. Ela podia corromper a mente; e aqueles entre os eldar que foram escurecidos em espírito realizavam feitos não naturais, e eram capazes de ódio e malícia. Nem todos que morreram sofreram inocentemente. Além disso, alguns fëar pesarosos e cansados abandonavam a esperança e, afastando-se da vida, abdicavam de seus corpos, mesmo que estes pudessem ser curados ou estivessem de fato ilesos.*** Poucos destes posteriormente desejavam renascer, não até que ficassem um longo período na “espera”; alguns nunca retornavam. Dos outros, os culpados, muitos eram mantidos por muito tempo na “espera”, e a alguns não era permitido retomar suas vidas novamente.

*** Apesar das tristezas poderem ser grandes e completamente não merecidas, e a morte [ou particularmente o abandono da vida] pudesse ser, então, compreensível e inocente, dizia-se que a recusa de retornar à vida, após o repouso em Mandos, era um erro, mostrando uma fraqueza ou falta de coragem do fëa.

Pois havia, para todos os fëar dos Mortos, um período de Espera, no qual, como quer que tenham morrido, eles eram corrigidos, instruídos, fortalecidos, ou confortados, de acordo com suas necessidades ou merecimento. Se eles assim o consentissem. Mas o fëa em sua nudez é obstinado, e permanece vinculado à sua memória e aos seus antigos propósitos [especialmente se estes eram malignos].

Aqueles que eram curados poderiam renascer, se o desejassem: ninguém é renascido ou mandado de volta à vida contra a vontade. Os outros permaneciam, por desejo ou por ordem, fëar sem forma, e podiam apenas observar o desenrolar do Conto de Arda de longe, não tendo efeito algum neste. Pois era uma sentença de Mandos que apenas aqueles que retornavam à vida podiam operar em Arda, ou comunicar-se com os fëar dos Vivos, mesmo com aqueles que haviam sido caros a eles.

A respeito do destino de outros elfos. especialmente dos elfos-escuros que recusaram o chamado à Aman, os eldar pouco sabem. Os renascidos relatam que em Mandos existem muitos elfos, e entre eles muitos dos Alamanyar [no Silmarillion, Úmanyar], mas que há, nos Salões da Espera, pouca mistura ou comunicação de raça com raça ou, na verdade, de qualquer fëa com outro. Pois o fëa desabrigado é solitário por natureza, e somente volta-se na direção daqueles com os quais, talvez, tivesse formado fortes laços de amor em vida.

O fëa é único e, no final, impregnável. Ele não pode ser levado a Mandos. Ele é convocado; e a convocação procede apenas da autoridade, e é imperativa; ainda assim, ela pode ser recusada. Entre aqueles que recusaram a convocação [ou melhor dizendo, convite] dos valar à Aman nos primeiros anos dos elfos, recusas às convocações a Mandos e aos Salões da Espera são,os eldar dizem, freqüentes. Isto era menos freqüente, entretanto, nos dias antigos, enquanto Morgoth estava em Arda, ou seu servo Sauron depois dele; pois então o fëa desabrigado fugiria aterrorizado da Sombra para qualquer refúgio – a não ser que já estivesse comprometido com a Escuridão e passado ao seu domínio. De qualquer maneira, mesmo alguns daqueles dos eldar que tornaram-se corrompidos recusavam a convocação, e então possuiam pouco poder para resistir às contraconvocações de Morgoth.

Mas pareceria que nestes dias posteriores mais e mais elfos, sejam eles dos eldalië em origem, sejam de outras raças, que demoram-se agora na Terra-média recusam a convocação de Mandos, e vagam desabrigados no mundo†, negando-se a deixá-lo e incapazes de habitá-lo, assombrando árvores, fontes ou lugares ocultos que conheciam. Nem todos destes são amigáveis ou intocados pela Sombra. De fato, a recusa à convocação é em si um sinal de mácula.

† Pois apenas aqueles que desejavam ir a Mandos podiam renascer. O renascimento é uma graça, e vem do poder que Eru entregou aos valar para governar Arda e a reparação de seu desfiguramento. Ele não situa-se no poder de qualquer fëa em si. Somente retornam aqueles que, após Mandos ter pronunciado a sentença de liberação, Manwë e Varda abençoam.

É, portanto, algo imprudente e arriscado, além de ser um ato errado proibido justamente pelos Governantes de Arda, os vivos tentarem se comunicar com os desencarnados, embora os desabrigados possam desejá-lo, especialmente os mais indignos entre eles. Pois os desencarnados, vagando pelo mundo, são aqueles que no mínimo recusaram a porta da vida e continuaram pesarosos e auto-piedosos. Alguns são preenchidos com rancor, desgosto e inveja. Alguns eram escravizados pelo Senhor do Escuro e ainda fazem o seu trabalho, apesar de ele ter partido. Eles não dirão verdades ou sabedoria. Apelar-lhes é uma tolice. Tentar dominá-los e fazê-los servos da própria vontade de alguém é perversidade. Tais práticas são as de Morgoth; e os necromantes são da hoste de Sauron, seu servo.

Alguns dizem que os desabrigados desejam corpos, apesar de não quererem fazê-lo legalmente pela submissão ao julgamento de Mandos. Os perversos entre eles tomarão corpos, se puderem, contra a lei. O perigo de comunicar-se com eles não é, entretanto, apenas o risco de ser iludido por fantasias ou mentiras: há também o perigo da destruição. Pois algum dos famintos desabrigados, se lhe for permitido a amizade de alguém vivo, pode procurar expulsar o fëa de seu corpo; e no duelo pelo domínio, o corpo pode ser gravemente ferido, mesmo se não for arrancado de seu habitante de direito. Ou o desabrigado pode implorar por abrigo e, se lhe for concedido, então ele procurará escravizar seu hospedeiro e usar tanto sua vontade como seu corpo para seus próprios propósitos. É dito que Sauron realizou tais atos, e ensinou seus seguidores com fazê-los.

[Assim pode ser visto que, aqueles que em dias posteriores acreditam que os elfos são perigosos para os homens e que é estupidez ou reprovável procurar conversar com eles, não o dizem sem razão. Pois como, pode ser perguntado, pode um mortal distinguir as raças? De um lado, os desabrigados, rebelam-se pelo menos contra os Governantes, e talvez mesmo mais profundamente sob a Sombra; do outro, os hesitantes, cujas formas corpóreas não podem mais ser vistas por nós mortais, ou enxergadas apenas vagamente e esporadicamente. Mesmo assim a resposta, na verdade, não é difícil. O mal não é uma coisa entre os elfos e outra entre os homens. Aqueles que dão conselhos malignos, ou pronunciam-se contra os Governantes [ou se ousarem, contra o Uno], são corrompidos, e devem ser evitados, encarnados ou desencarnados. Além disso, os hesitantes não são desabrigados, embora possam parecer. Eles não desejam corpos, nem procuram abrigo, nem aspiram ao domínio sobre corpo ou mente. De fato, eles não procuram conversar com os homens de nenhuma maneira exceto, talvez, raramente, para o feito de algum bem, ou porque percebem no espírito de um homem algum amor pelas coisas antigas e belas. Então eles podem revelar-lhe suas formas [apesar de que talvez sua mente compreenda apenas exteriormente], e ele irá contemplá-los em sua beleza. Destes ele pode não ter medo, embora possa sentir um temor por eles. Pois os desabrigados não possuem formas para revelar, e mesmo se estivesse ao alcance de seus poderes [como alguns homens dizem] imitar formas élficas, iludindo as mentes dos homens com fantasias, tais visões seriam distorcidas pelo mal de seu intento. Pois os corações de homens verdadeiros enchem-se de alegria ao contemplar as verdadeiras imagens dos Primogênitos, sua família mais antiga; e esta alegria nenhum mal pode reproduzir. Assim falou Ælfwine.]

Melkor Morgoth

Melkor deve ser feito muito mais poderoso em sua natureza original (cf. “Finrod e Andreth”). O maior poder abaixo de Eru (isto é, o maior poder criado).[1] (Ele devia criar/inventar/começar; Manwë (menos grandioso) devia aperfeiçoar, realizar, completar.

[Nota do tradutor: o uso constante e alternado do futuro e do presente dos tempos verbais no texto dá-se pelo caráter de “esboço ensaístico” do mesmo, pretendido como tal para elucidar a personalidade de Melkor em uma possível versão reescrita do Quenta Silmarillion.]
Posteriormente, ele não deve ser capaz de ser controlado ou “acorrentado” por todos os Valar unidos. Observe-se que, nos primórdios de Arda, ele foi capaz de, sozinho, expulsar os Valar da Terra-média, em retirada.A guerra contra Utumno só foi empreendida pelos Valar com relutância, e sem esperança de vitória real, mas deu-se como uma ação de proteção ou distração, para permitir-lhes retirarem os Quendi de sua esfera de influência. Mas Melkor já havia progredido de algum modo na direção do caminho que o tornaria “o Morgoth, um tirano (ou uma tirania e vontade centrais), mais seus agentes”.[2] Apenas o total continha o antigo poder do Melkor completo; de modo que, se “o Morgoth” pudesse ser alcançado ou separado temporariamente de seus agentes, ele estaria muito mais próximo de ser controlável e em um nível de poder tal como o dos Valar. Os Valar percebem que podem lidar com seus agentes (isto é,
exércitos, Balrogs, etc.) gradualmente. De forma que eles chegam, por fim, à própria Utumno e descobrem que “o Morgoth” não possui no momento “força” suficiente (em qualquer sentido) para defender-se do contato pessoal direto. Manwë finalmente encara Melkor mais uma vez, como ele não havia feito desde que entrou em Arda. Ambos assombram-se: Manwë por perceber o declínio em Melkor como uma pessoa, Melkor por também perceber isto a partir de seu próprio ponto de vista: ele agora possui menos força pessoal do que Manwë, e não pode mais intimidá-lo com seu olhar.Ou Manwë deve contar-lhe isso ou ele mesmo deve perceber repentinamente (ou ambas opções) que isso aconteceu: ele está “disperso”. Mas o desejo de possuir criaturas sujeitas a ele, dominadas, tornou-se habitual e necessário a Melkor de modo que, mesmo se o processo fosse reversível (possivelmente o era apenas pela auto-humilhação e arrependimento absolutos e verdadeiros), ele não pode realizá-lo por si próprio.* Assim como com todos os outros personagens, deve haver um momento de estremecimento no qual isso está em jogo: ele quase se arrepende – e não o faz, e torna-se muito mais cruel e mais tolo.* Uma das razões para esse seu auto-enfraquecimento é a de que ele deu às suas “criaturas”, Orcs, Balrogs, etc., poder de recuperação e multiplicação. De modo que eles irão se reuinir novamente sem ordens específicas adicionais. Parte desse poder criativo nativo perdeu-se ao criar um crescimento maligno independente, fora de seu controle.Possivelmente (e ele acha isso possível) ele poderia, neste momento, ser humilhado contra sua própria vontade e “acorrentado” – se e antes que suas forças dispersas reagrupem-se. Portanto – tão logo tivesse rejeitado mentalmente o arrependimento – ele (assim como Sauron posteriormente do mesmo modo) faz um arremedo de auto-humilhação e arrependimento pelo qual, na verdade, sente um tipo de prazer pervertido como ao profanar algo sagrado – [pois a mera contemplação da possibilidade de arrependimento genuíno, se essa não viesse então especialmente como uma graça direta de Eru, ao menos foi uma última centelha de sua verdadeira natureza primordial.] Ele dissimula remorso e arrependimento. Ele realmente ajoelha-se diante de Manwë e rende-se – em primeiro lugar, para evitar ser acorrentado com a corrente Angainor da qual, uma vez sobre ele, teme jamais libertar-se. Mas ele também subitamente tem a idéia de penetrar na exaltada estabilidade de Valinor e arruiná-la. Assim, ele se oferece para tornar-se “o menor dos Valar” e servo de todos eles, para ajudar (por conselhos e habilidade) a reparar todas as perversidades e ferimentos que causara. É essa oferta que seduz ou ilude Manwë – Manwë deve ser mostrado como tendo sua própria falha inata (embora não seja um pecado)**: ele fica absorto (em parte por medo absoluto de Melkor, em parte pelo desejo de controlá-lo) na correção, cura, reordenamento – até na “manutenção do status quo” – levando à perda de todo o poder criativo e mesmo à fraqueza ao lidar com situações difíceis e perigosas. Contra o conselho de alguns dos Valar (tais como Tulkas), ele atende à súplica de Melkor.

** Cada criatura finita deve possuir alguma fraqueza: que é alguma incapacidade de lidar com algumas situações. Não é pecaminoso quando não ocorre voluntariamente e quando a criatura dá o melhor de si (mesmo se não for o que deveria ser feito) do modo como esta vê a situação – com a intenção consciente de servir a Eru.

Melkor é levado de volta à Valinor, indo por último (exceto por Tulkas***, que o segue carregando Angainor e fazendo-a ressoar para que Melkor lembre-se dela).

*** Tulkas representa o lado bom da “violência” na guerra contra o mal. Essa é uma ausência de todo compromisso que irá confrontar mesmo males aparentes (tais como a guerra) em vez de parlamentar; e não acredita (em qualquer tipo de orgulho) que qualquer um inferior a Eru possa reparar isso, ou reescrever o conto de Arda.

Mas no conselho, não é dada a Melkor liberdade imediata. Os Valar reunidos não tolerarão isso. Melkor é remetido a Mandos (para lá
permanecer em “reclusão” e meditar, e completar seu arrependimento – e também seus planos para a reparação).[3]

Ele começa então a duvidar da sensatez de sua própria política, e teria rejeitado tudo e irromperia em uma rebelião flamejante – mas ele agora está absolutamente isolado de seus agentes e em território inimigo. Ele não pode. Portanto, ele engole o amargo remédio (mas isso aumenta enormemente seu ódio, e posteriormente ele sempre acusou Manwë de ser desleal).

O resto da história, com a libertação de Melkor, e a permissão para estar presente no Conselho, sentando aos pés de Manwë (conforme o
modelo de conselheiros malignos em contos posteriores que, pode-se dizer, deriva desse modelo primordial?), pode então proceder mais ou menos como já contado.

Notas:

[1] Cf. as palavras de Finrod no Athrabeth: “não há poder algum concebivelmente maior que Melkor, salvo apenas Eru”.

[2] A referência mais antiga à essa idéia da “dispersão” do poder original de Melkor é encontrada nos Anais de Aman §179: “Pois ele cresceu em malícia e, transmitindo de si mesmo o mal que concebera em mentiras e criaturas ou perversidade, seu poder passou para elas e foi dispersado, e ele próprio tornou-se ainda mais ligado à terra, negando-se a sair de suas fortalezas sombrias.”

Cf. também Anais §128 – A expressão “o Morgoth” é usada várias vezes por Finrod no Athrabeth.[3] “seus planos para a reparação”: isto é, a reparação dos males que ele produziu.

Uma nota sobre o Capí­tulo 22 Da Ruí­na de Doriath do Silmarillion publicado

[Nota do Tradutor: Texto de autoria de Christopher Tolkien, contido
no HoME 10. Junto ao texto “Sobre o parentesco de Gil-galad, já
traduzido e publicado na Valinor, este texto é essencial para o estudo
e quantificação da influência pessoal de Christopher Tolkien em “O
Silmarillion” publicado. O ponto-chave de ambos os textos não são as
minúcias sobre o real parentesco de Gil-galad ou qual a melhor solução
possível para “A Queda de Doriath” e sim a interferência pessoal
inserido por C. Tolkien em todo “O Silmarillion”, que é muito mais
ampla e intrusiva do que costuma-se imaginar. C. Tolkien não se
contenta com sua postura de editor dos textos do pai e assume um
indevido papel de co-autor, mas não vou me alongar sobre o assunto
neste momento pois o mesmo é merecedor de um ensaio especial e bem  mais cuidadoso a ser publicado dentro em breve na Valinor.]
Exceto por uns poucos detalhes em textos e notas não publicados, tudo que meu pai escreveu sobre o assunto da ruína de Doriath já foi
lançado: da história original no “Conto de Turambar” (HoME II.113-15) e no “Conto do Nauglafring” (HoME II.221 e próximas), passando pelo “Rascunho da Mitologia” (HoME IV.32-3, com comentários 61-3) e o “Quenta” (HoME IV. 132-4, com comentários 187-91), junto ao pouco que pode ser visualizado no “O Conto dos Anos” e em algumas poucas referências tardias. Se estes materiais forem comparados à história contada em “O Silmarillion” publicado percebe-se logo de início que este último foi fundalmentalmente alterado, para uma forma que emcertas características essenciais não existe referência alguma mesmo nos próprios escritos de meu pai.

Existem alguns problemas bastante evidentes com a antiga história. Se ele voltasse a trabalhar nela algum dia, meu pai sem dúvida encontraria alguma outra solução que não aquela no “Quenta” para a questão “Como o tesouro de Nargothrond foi levado a Doriath?”. Lá, a maldição que Mîm pôs sobre o ouro à sua morte “caiu sobre os seus possuidores. Cada um dos companheiros de Hurin morreu ou foi morto em lutas na estrada; mas Hurin foi a Thingol e pediu sua ajuda e o povo de Thingol levou o tesouro para as Mil Cavernas”. Como é dito no HoME IV.188, “isto arruína o gesto, se Hurin deve chegar diretamente ao rei para enviar o ouro com o qual então ele foi humilhado”. Parece para mim mais provável (mas isto é mera especulação) que o meu pai reintroduziria os fora-da-lei dos antigos Contos (HoME II.113-15,222-3) como os portadores do tesouro (mas não a dura batalha entre eles o os Elfos da Mil Cavernas): nos escritos desordenados ao final do “As Andanças de Hurin” Asgon e seus companheiros reaparecem após o desastre em Brethil e vão com Hurin a Nargothrond.

Como ele trataria o comportamento de Thingol com relação aos Anões é impossível dizer. A história só foi contada inteiramente uma vez, no Conto do Nauglafring, no qual a conduta de Tinwelint (precursor de Thingol) estava em completo desacordo com a concepção posterior do rei (ver HoME II.245-6). No “Rascunho da Mitologia” nada mais é dito sobre o assunto além de que os Anões foram “expulsos sem pagamento”, enquanto no “Quenta” “Thingol… não cumpriu adequadamente sua prometida recompensa por seus trabalhos; e palavras amargas surgiram entre eles, e houve uma batalha nos Salões de Thingol”. Parece não haver dicas ou pistas nos escritos posteriores (no “Conto dos Anos” a mesma frase é utilizada em todas as versões “Thingol discutiu com os Anões”), exceto uma encontrada nas palavras transcritas do “Sobre Galadriel e Celeborn”: Celeborn em sua versão da destruição de Doriath ignora a parte de Morgoth “e os próprios erros de Thingol”.

No “Conto dos Anos” meu pai parece não ter considerado o problema da passagem de um exército Anão para o interior de Doriath apesar do Cinturão de Melian, mas ao escrever as palavras “não pode” na versão D ele mostrou que ele considerava a história que delineou como impossível, por aquela mesma razão. Em outro local ele rascunhou uma possível solução: “De alguma forma deve ser delineado que Thingol foi atraído para fora ou foi à guerra além de suas bordas e lá foi morto pelos Anões. Então Melian parte e com o cinturão removido Doriath é destruída pelos Anões”.

Na história que aparece em “O Silmarillion” os fora-da-lei que vão a Nargothrond com Hurin foram removidos e também a maldição de Mîm; e o único tesouro que Hurin toma de Nargothrond é o Nauglamir – o qual aqui supõe-se feito para Finrod Felagund pelos Anões e que era o tesouro de Nargothrond ao qual eles davam maior valor. Hurin é representado como finalmente livre das ilusões inspiradas por Morgoth em seu encontro com Melian em Menegroth. Os Anões que incrustaram a Silmaril no Nauglamir já estavam em Menegroth, engajados em outros trabalhos e foram eles que mataram Thingol; e àquele tempo o poder de Melian foi retirado de Neldoreth e Region e ela sumiu da Terra-média, deixando Doriath sem proteção. A emboscada e destruição dos Anões em Sarn Athrad foi dada novamente a Beren e os Elfos da Floresta (seguindo a carta de 1963 de meu pai, citada à página 353, onde os Ents “Pastores de Árvores”, são introduzidos).

Esta história não foi tola ou facilmente concebida, mas foi o resultado de uma longa experimentação entre concepções diversas. Neste trabalho Guy Kay assumiu um grande papel e o capítulo como eu finalmente o escrevi deve muito às minhas discussões com ele. É, e era, óbvio que um estava sendo um Passo de uma ordem diferente de qualquer outra “manipulação” dos escritos de meu pai ao longo do livro: mesmo na história de “A Queda de Gondolin”, para qual meu pai nunca retornou, algo poderia ser deduzido sem introduzir mudanças radicais na narrativa. Pareceu àquele tempo que existiam elementos inerentes à história da Ruína de Doriath como ela exitia que eram radicalmente incompatíveis com “O Silmarillion” como projetado e que havia uma escolha inescapável: ou abandonar aquela concepção projetada ou alterar a história. Eu acho agora que aquela foi uma visão equivocada e que as inegáveis dificuldades poderiam ter sido, e deveriam ter sido, ultrapassadas sem exceder tanto as fronteiras da função editorial.

[Tradução de Fábio ´Deriel´ Bettega]

Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português

Comentário sobre o Athrabeth Finrod ah Andreth

[Em um destes documentos, meu pai adicionou: “Deveria ser o último item em um apêndice” (isto é, para O Silmarillion). Ele mesmo datilografou este comentário, no alto de uma cópia e de um carbono, com algumas correções subsequentes quase idênticas em ambos. Após o comentário há notas numeradas que acabam tendo mais importância do que o próprio comentário, uma vez que algumas delas constituem curtos ensaios. Distingo estas das minhas próprias notas numeradas do texto pelas palavras “Nota do Autor”. – Christopher Tolkien]

Este texto não é apresentado como um argumento de qualquer irrefutabilidade para os homens na presente situação destes (ou na que eles acreditam estar), embora possa ter algum interesse para os homens que partem de crenças ou suposições similares àquelas sustentadas pelo rei élfico Finrod.

Ele é, na realidade, simplesmente parte do retrato do mundo imaginário do Silmarillion, e um exemplo do tipo de assunto que, ao indagar as mentes em ambos os lados, o élfico ou o humano, deve ser dito um para outro após se tornarem familiarizados. Vemos aqui a tentativa de uma mente élfica generosa de aprofundar as relações entre elfos e homens e o papel que lhes fora designado representar no que ele teria chamado de Oienkarmë Eruo (A produção perpétua do Um), que pode ser traduzido como “A administração de Deus do Drama”.

Há certas coisas neste mundo que precisam ser aceitas como “fatos”. A existência de elfos: isto é, de uma raça de seres intimamente aparentados com os homens, tão intimamente que eles devem ser considerados pelas características físicas (ou biológicas) simplesmente como ramos da mesma raça. Os elfos apareceram na Terra primeiro, mas não (mitologicamente ou geologicamente) muito antes; eles eram “imortais”, e não “morriam” exceto por acidente. Os homens, quando entraram em cena (isto é, quando encontraram os elfos), eram, contudo, como são agora: eles “morriam”, mesmo se escapassem de todos os acidentes, por volta da idade de 70 a 80 anos. A existência dos Valar: isto é, de certos Seres angelicais (criados, mas no mínimo tão poderosos quanto os “deuses” de mitologias humanas), cujo líder ainda residia em uma parte física real da Terra. Eles eram os agentes e vice-regentes de Eru (Deus). Eles haviam estado ocupados por eras imemoriais com um trabalho demiúrgico finalizando, segundo o propósito de Eru, a estrutura do Universo (Eä); mas estavam agora concentrados na Terra para o principal Drama da Criação: a guerra dos Eruhín (Os Filhos de Deus), elfos e homens, contra Melkor. Melkor, originalmente o mais poderoso dos Valar, tornara-se um rebelde, contra seus irmãos e contra Eru, e foi o primeiro Espírito do Mal.

Com respeito ao rei Finrod, deve-se compreender que ele inicia com certas crenças básicas, as quais ele diria serem derivadas de uma ou mais de uma destas fontes: sua natureza criada; instrução angelical; pensamento; e experiência.

1. Existe Eru (o Um); isto é, Um Deus Criador, que criou (ou mais estritamente, projetou) o Mundo, mas não é Ele próprio o Mundo. Este mundo, ou Universo, ele chama de , uma palavra élfica que significa “É”, ou “Que Seja”.

2. Há na Terra criaturas “encarnadas”, elfos e homens: estes são feitos de uma união de hröa e fëa (aproximadamente, mas não exatamente, equivalentes a “corpo” e “alma”). Este, ele diria, era um fato conhecido a respeito da natureza élfica e, portanto, poderia ser deduzido quanto à natureza humana a partir do parentesco próximo de elfos e homens.

3. Hröa e fëa, diria ele, são completamente distintos, e não no “mesmo plano de derivação de Eru”, (Nota do Autor 1) mas designados um para o outro, para permanecer em harmonia perpétua. O fëa é indestrutível, uma identidade única que não pode ser desintegrada ou absorvida por qualquer outra identidade. O hröa, entretanto, pode ser destruído e dissolvido: este é um fato de experiência. (Em tal caso, ele descreveria o fëa como “exilado” ou “desabrigado”.)

4. A separação de fëa e hröa não é “natural”, e acontece não pelo propósito original, mas pela “Desfiguração de Arda”, que deve-se às operações de Melkor.

5. A “imortalidade” élfica está restringida dentro de uma parte do Tempo (que ele chamaria A História de Arda) e, logo, deveria ser chamada preferencialmente de “longevidade seqüencial”, cujo limite máximo é a extensão da existência de Arda. (Nota do Autor 2) A conseqüência disto é que o fëa élfico também está limitado ao Tempo de Arda ou pelo menos confinado dentro dele e incapaz de deixá-lo enquanto este dure.

6. A partir disto seguiria-se pensando, se não fosse um fato de experiência élfica, que um fëa élfico “desabrigado” deve ter o poder ou oportunidade de retornar à vida encarnada, se ele possui o desejo ou vontade para assim fazê-lo. (Na verdade, os elfos descobriram que seus fëar não possuíam este poder neles próprios, mas que a oportunidade e os meios eram fornecidos pelos Valar, pela permissão especial de Eru para a correção do estado não natural do divórcio. Não era permitido aos Valar forçar um fëa a retornar; mas eles podiam impor condições e julgar se o retorno deveria ser realmente permitido e, em caso afirmativo, de que modo ou após quanto tempo.) (Nota do Autor 3)

7. Visto que os homens morrem, sem acidente e querendo eles ou não fazê-lo, seus fëar devem possuir uma relação diferente com o Tempo. Os elfos acreditavam, embora não possuíssem qualquer informação exata, que os fëar dos homens, caso desencarnados, deixavam o Tempo (mais cedo ou mais tarde), e jamais retornavam. (Nota do Autor 4)

Os elfos notaram que todos os homens morriam (um fato confirmado pelos homens). Deduziram, então, que isto era “natural” aos homens (isto é, o era pelo desígnio de Eru), e supunham que a brevidade da vida humana devia-se à esta característica do fëa humano: que ele não estava destinado à permanecer muito tempo em Arda. Enquanto que seus próprios fëar, estando designados a permanecer em Arda até o fim desta, impunham uma longa resistência sobre seus corpos; pois eles possuíam (como um fato de experiência) um controle muito maior sobre eles. (Nota do Autor 5)

Além do “Fim de Arda”, o pensamento élfico não podia penetrar, e eles ficaram sem qualquer instrução. (Nota do Autor 6) Parecia-lhes claro que seus hröar devem ao final cessar e, portanto, qualquer tipo de reencarnação seria impossível. (Nota do Autor 7) Todos os elfos então “morreriam” no Fim de Arda. O que isto significava eles não sabiam. Diziam, portanto, que os homens possuíam uma sombra atrás de si, mas os elfos possuíam uma sombra à frente de si próprios.

Seu dilema era este: o pensamento da existência apenas como fëar lhes era revoltante, e achavam difícil de acreditar que isto era natural ou designado a eles, uma vez que eram essencialmente “habitantes em Arda” e, por natureza, completamente apaixonados por Arda. A alternativa: que seus fëar também deixariam de existir “ao Fim” parecia ainda mais intolerável. Tanto a aniquilação absoluta como o cessar da identidade consciente eram completamente repugnantes ao pensamento e ao desejo. (Nota do Autor 8 )

Alguns argumentavam que, embora completo e único (como Eru, de quem eles procediam diretamente), cada fëa, estando criado, era finito, e portanto também poderia ser de duração finita. Ele não era destrutível dentro do seu período determinado mas, quando este era alcançado, passava a ser; ou deixava de ter quaisquer outras experiências, e “residia apenas no Passado”.

Mas eles viram que isto não fornecia nenhuma saída. Pois mesmo se um fëa élfico fosse capaz de “conscientemente” de habitar no Passado ou contemplá-lo, esta seria uma condição completamente insatisfatória ao seu desejo. (Referência à Nota do Autor 8 ) Os elfos possuíam (como eles próprios diziam) um “grande talento” para a memória, mas esta tendia para o pesar ao invés da alegria. Por mais longa que a História dos elfos pudesse se tornar antes que terminasse, ela também seria um objeto de alcance muito limitado. Estar eternamente “aprisionado em um conto” (como diziam), mesmo se este fosse um conto muito grande que terminasse de forma triunfante, tornaria-se um tormento. Pois maior do que o talento da memória era o talento élfico para a criação, e para descobertas. O fëa élfico fora, sobretudo, designado a criar coisas em cooperação com seu hröa.

Portanto, em última instância, os elfos eram obrigados a contar com a “estel nua” (como diziam): a confiança em Eru de que, seja o que for que Ele tenha designado para além do Fim, isto seria reconhecido por cada fëa como (no mínimo) completamente satisfatório. Provavelmente inclui-se aí alegrias imprevisíveis. Mas eles mantinham a crença de que isto permaneceria em uma relação inteligível com sua natureza e desejos atuais, partindo deles e incluindo-os.

Por estas razões os elfos eram menos solidários do que os homens esperavam em relação à falta de esperança (ou estel) nos homens diante da morte. Os homens eram, é claro, em geral inteiramente ignorantes quanto à “Sombra Adiante” que condicionava o pensamento e sentimentos élficos, e simplesmente invejavam a “imortalidade” élfica. Mas os elfos eram, por sua vez, geralmente ignorantes quanto à persistente tradição entre os homens de que os homens também eram imortais por natureza.

Como é visto no Athrabeth, Finrod fica profundamente emocionado e impressionado ao descobrir esta tradição. Ele descobre uma tradição concomitante de que a mudança na condição dos homens em relação ao seu desígnio original foi devido a um desastre primordial, sobre o qual a tradição humana é incerta, ou pelo menos Andreth está relutante em dizer mais. (Nota do Autor 9) Ele mantém, entretanto, a opinião de que a condição dos homens antes do desastre (ou, como poderíamos dizer, do homem não caído) não poderia ter sido a mesma dos elfos. Isto é, sua “imortalidade” não poderia ter sido a longevidade dentro de Arda dos elfos; senão eles teriam sido simplesmente elfos, e sua posterior introdução separada no Drama, feita por Eru, não teria qualquer função. Ele pensa que a noção dos homens de que, inalterados, eles não teriam morrido (no sentido de deixar Arda), deve-se à deturpação humana de sua própria tradição, e possivelmente à comparação invejosa de si mesmos com relação aos elfos. Primeiramente, ele não acha que isto se encaixa, como poderíamos dizer, nas “peculiaridades observáveis da psicologia humana”, conforme comparadas com os sentimentos élficos com respeito ao mundo visível.

Logo, ele supõe que é o medo da morte o resultado do desastre. Ela é temida por agora estar ligada com a separação de hröa e fëa. Mas os fëar dos homens devem ter sido designados a deixarem Arda de boa vontade ou de fato pelo desejo de fazê-lo – talvez após um tempo maior do que a atual vida humana média, mas ainda assim em um tempo muito curto comparado às vidas élficas. Assim, baseando seu argumento no axioma de que a separação de hröa e fëa não é natural e é contrária ao seu desígnio, ele chega (ou se preferir, precipita-se) à conclusão de que o fëa de um homem não caído levaria consigo seu hröa ao novo modo de existência (livre do Tempo). Em outras palavras, esta “suposição” era o fim natural de cada vida humana, embora, até onde sabemos, este foi o fim do único membro “não caído” da humanidade.* Ele tem então uma visão dos homens como os agentes da cura da “desfiguração” de Arda, não meramente ao desfazer a desfiguração ou o mal perpetrado por Melkor, mas ao produzir uma terceira coisa, Arda Refeita – pois Eru jamais simplesmente desfaz o passado, mas gera algo novo, mais magnífico do que o “primeiro desígnio”. Em Arda Refeita elfos e homens encontrarão separadamente alegria e contentamento, uma amizade recíproca, um elo que será o Passado.

* A referência é à Virgem Maria.

Andreth diz que, neste caso, o desastre foi aterrador para os homens; pois esta recriação (se esta de fato era a função apropriada dos homens) não pode ser alcançada agora. Finrod evidentemente mantém a esperança de que ela será alcançada, embora ele não diga como isso poderia acontecer. Ele agora vê, porém, que o poder de Melkor era maior do que havia sido compreendido (mesmo pelos elfos, que na verdade viram-no em uma forma encarnada): se ele fora capaz de modificar os homens e assim destruir o plano.

Em um sentido mais exato, ele diria que Melkor não “modificou” os homens, mas os “seduziu” (tornando-os leais a ele) nos primórdios de sua história, de modo que Eru modificou o “destino” deles. Pois Melkor podia seduzir mentes e vontades individuais, mas não podia tornar isso hereditário, ou alterar (contrária à vontade e ao desígnio de Eru) a relação de todo um povo com o Tempo e com Arda. Mas o poder de Melkor sobre as coisas materiais evidentemente era vasto. A totalidade de Arda (e, de fato, provavelmente muitas outras partes de Eä) foi desfigurada por ele. Melkor não era apenas um Mal local na Terra, nem um Anjo Guardião da Terra que desencaminhou-se: ele era o Espírito do Mal, erguendo-se mesmo antes da criação de Eä. Sua tentativa de dominar a estrutura de Eä, e de Arda em particular, e alterar os desígnios de Eru (que regiam todas as atividades dos Valar fiéis), introduziu o mal, ou uma tendência à aberração a partir do desígnio, em toda a matéria física de Arda. Foi por esta razão, sem dúvida, que ele foi totalmente bem sucedido com os homens, mas apenas parcialmente com os elfos (que permaneceram como um povo “não caído”). Seu poder foi exercido sobre a matéria e através dela. (Nota do Autor 10) Mas os fëar dos homens eram por natureza mais fracos no controle de seus hröar, diferente do que acontecia no caso dos elfos. Os elfos como indivíduos poderiam ser seduzidos a um tipo de “melkorismo” menor: desejando serem seus próprios mestres em Arda e possuírem as coisas a seu próprio modo levando, em casos extremos, à uma rebelião contra a tutela dos Valar; mas ninguém jamais ficou a serviço ou tornou-se leal ao próprio Melkor, nem jamais negou a existência e a supremacia absoluta de Eru. Algumas coisas horríveis dessa espécie, Finrod adivinha, os homens devem ter cometido, como um todo; mas Andreth não revela quais eram as tradições dos homens sobre esse assunto. (Referência à Nota do Autor 9)

Finrod, contudo, compreende agora que, do modo como se davam as coisas, nenhuma criatura ou ser criado em Arda, ou em todo Eä, era poderoso o suficiente para contrapor ou curar o Mal: isto é, subjugar Melkor (em sua presente pessoa, reduzida como estava) e o Mal que ele havia dissipado e enviado de si mesmo para o interior da própria estrutura do mundo.

Apenas o próprio Eru poderia fazer isto. Portanto, uma vez que era inconcebível a idéia de que Eru abandonaria o mundo à dominação e triunfo absolutos de Melkor (que poderia significar sua ruína e redução ao caos), Eru deve, em determinado momento, vir a se opor a Melkor. Mas Eru não poderia entrar completamente no mundo e na sua história que, apesar de grande, é apenas um Drama finito. Como Autor, Ele deve permanecer sempre “fora” do Drama, mesmo que esse Drama dependa de Seu desígnio e de Sua vontade para seu início e continuação, em cada detalhe e momento. Finrod, por esse motivo, crê que Ele, quando vier, terá que ficar tanto “fora” como “dentro”; e assim ele vislumbra a possibilidade de complexidade ou de distinções na natureza de Eru que, apesar de tudo, O caracterizam como “O Um”. (Nota do Autor 11)

Uma vez que Finrod já adivinhara que a função redentora fora originalmente designada especialmente aos homens, ele provavelmente prosseguiu para a expectativa de que “a vinda de Eru”, se acontecesse, estaria primeira e especialmente relacionada com os homens: isto é, a uma suposição ou visão imaginativa de que Eru viria encarnado em forma humana. Isto, contudo, não aparece no Athrabeth.

O argumento não é, claro, apresentado no Athrabeth nestes termos, ou nesta ordem, ou tão precisamente. O Athrabeth é uma conversa, na qual muitas suposições e etapas de pensamento têm que fornecidas pelo leitor. Na verdade, embora o texto trate de coisas como a morte e as relações de elfos e homens com o Tempo e Arda, e uns com os outros, seu verdadeiro propósito é dramático: exibir a generosidade da mente de Finrod, seu amor e piedade por Andreth, e as trágicas situações que devem surgir do encontro de elfos e homens (na época da juventude dos elfos). Pois, como finalmente torna-se evidente, Andreth havia se apaixonado na juventude por Aegnor, irmão de Finrod; e embora ela soubesse que ele retribuía seu amor (ou assim poderia ter feito, caso se dignasse a isso), ele não o havia declarado, e a deixara – e ela acreditou que havia sido rejeitada por ser muito inferior a um elfo. Finrod (embora ela não soubesse disso) sabia sobre essa situação. Por esta razão ele compreendeu e não se ofendeu com a amargura com a qual ela falava dos elfos, e mesmo dos Valar. Ele foi bem sucedido no final ao fazer com que ela compreendesse que ela não havia sido “rejeitada” por desprezo ou por arrogância élfica; mas que a partida de Aegnor deu-se por motivos de “sabedoria”, ao custo de grande dor para Aegnor: ele era igualmente vítima da tragédia.

No evento, Aegnor pereceu logo após essa conversa, quando Melkor rompeu o Cerco de Angband na desastrosa Batalha das Chamas Repentinas, e a destruição dos reinos élficos em Beleriand fora iniciada. Finrod refugiou-se na grande fortaleza meridional de Nargothrond; mas não muito depois sacrificou sua vida para salvar Beren Maneta. (É provável, embora não seja afirmado em nenhum lugar, que a própria Andreth tenha perecido nessa época, pois todo o reino do norte, onde Finrod e seus irmãos e o Povo de Bëor habitavam, foi devastado e conquistado por Melkor. Mas ela seria então uma mulher muito idosa.)

Finrod foi assim morto antes que os dois casamentos entre elfos e homens acontecessem, apesar de que, sem sua ajuda, o casamento de Beren e Lúthien não teria ocorrido. O casamento de Beren certamente realizou sua previsão de que tais casamentos ocorreriam apenas por algum propósito elevado do Destino, e que o destino menos cruel seria o fato de que a morte logo os encerraria.

Notas do Autor sobre o “Comentário”

Nota 1

Porque acreditava-se que os fëar foram criados diretamente por Eru, e “enviados para dentro” de Eä; enquanto que Eä fora concluído por intermédio dos Valar.

De acordo com o Ainulindalë, houve cinco estágios na Criação. a) A criação dos Ainur. b) A comunicado de Eru sobre o seu Desígnio aos Ainur. c) A Grande Música, que era como se fosse um ensaio, e que permaneceu no estágio de pensamento ou imaginação. d) A “Visão” de Eru, que era novamente apenas uma amostra de possibilidade e estava incompleta. e) A Realização, que ainda está em andamento.

Os Eldar acreditavam que Eru era e é livre em todos os estágios. Esta liberdade foi mostrada na Música por Sua introdução, após o surgimento das dissonâncias de Melkor, de dois novos temas, representando a chegada de elfos e homens, que não estavam no Seu primeiro comunicado. Portanto Ele pode, no estágio 5, introduzir diretamente coisas que não estavam na Música e que assim não são realizadas através dos Valar. Não obstante, isto continua em geral verdadeiro no que diz respeito a Eä como concluído através da intervenção deles.

As adições de Eru, contudo, não serão “estranhas”; elas serão ajustadas à natureza e ao caráter de Eä e daqueles nele habitam; elas podem realçar o passado e enriquecer seu propósito e sua importância, mas o passado estará contido nelas e não será destruído.

Assim, a “novidade” dos temas dos Filhos de Eru, elfos e homens, consistia da associação dos fëar com (ou da “habitação” deles nos) hröar pertencentes a Eä, de tal modo que os primeiros estariam incompletos sem os últimos e vice-versa. Mas os fëar não eram espíritos de um tipo completamente diferente dos Ainur; enquanto que os corpos eram de um tipo mais parecido com os corpos de seres vivos já na idéia primordial (mesmo se adaptados à sua nova função, ou modificados pelos fëar residentes).

Nota 2

Arda, ou “O Reino de Arda” (como estando diretamente sob o governo do vice-regente de Eru, Manwë) não é fácil de se traduzir, uma vez que nem “terra” nem “mundo” são inteiramente adequadas. Fisicamente Arda era o que chamamos de Sistema Solar. Presumivelmente os Eldar poderiam ter tido informações tão numerosas quanto precisas a respeito disso, de sua estrutura, origem e sua relação com o resto de Eä (o Universo) como podiam compreender. Provavelmente aqueles que se interessavam adquiriram este conhecimento. Nem todos os Eldar se interessavam por tudo; a maioria deles concentrava sua atenção na (ou, como eles diziam, “estavam apaixonados pela”) Terra.

As tradições mencionadas aqui passaram dos Eldar da Primeira Era para os elfos que nunca conheceram diretamente os Valar e para os homens que receberam os “ensinamentos” dos elfos, mas que possuíam mitos, lendas cosmogônicas e suposições astronômicas próprios. Porém não há nada nelas que entre seriamente em conflito com as noções humanas atuais do Sistema Solar e de seu tamanho e posição relativos ao Universo. Deve ser lembrado, contudo, que isto não implica necessariamente que a “Informação Verdadeira” a respeito de Arda (tal como os antigos Eldar podem ter recebido dos Valar) deva condizer com as atuais teorias dos homens. Além disso, os Eldar (e os Valar) não estavam sobrecarregados ou mesmo principalmente impressionados pelas noções de tamanho e distância. Seu interesse, certamente o interesse do Silmarillion e de todas as questões relacionadas, podem ser chamado de “dramático”. Lugares ou mundos eram interessantes ou importantes pelo o que acontecia neles.

Certamente é o caso, com as tradições élficas, de que a parte principal de Arda era a Terra (Imbar, “A Habitação”), como a cena do Drama da guerra dos Valar e dos Filhos de Eru com Melkor: de modo que, usada livremente, Arda parece com freqüência significar a Terra; e que, deste ponto de vista, a função do Sistema Solar era tornar possível a existência de Imbar. Com respeito à relação de Arda com Eä, a afirmação de que os principais Ainur demiúrgicos (os Valar), incluindo o originalmente maior de todos, Melkor, fixaram sua “residência” em Arda desde o seu estabelecimento, também implica que, a todo instante, Arda era dramaticamente o ponto principal em Eä.

Essas visões não são matemáticas ou astronômicas, ou mesmo biológicas, e portanto não se pode dizer que elas necessariamente entram em conflito com as teorias de nossas ciências físicas. Não podemos dizer que “deve” haver em algum outro lugar em Eä outros sistemas solares “como” Arda, e ainda menos que, caso existam, eles ou qualquer um deles possua um paralelo a Imbar. Não podemos sequer dizer que estas coisas são matematicamente muito “prováveis”. Mas mesmo se a presença de “vida” biológica em outro lugar de Eä fosse demonstrável, isto não invalidaria a visão élfica de que Arda (pelo menos enquanto essa durar) é o centro dramático. A demonstração de que existira Encarnados em outro lugar, paralelamente aos Filhos de Eru, certamente modificaria quadro, mas não o invalidaria. A resposta élfica provavelmente seria: “Bem, há outro Conto. Não é o nosso Conto. Eru sem dúvida pode permitir mais de um. Nem tudo é descrito no Ainulindalë; ou o Ainulindalë pode possuir uma referência mais ampla do que conhecemos: outros dramas, semelhantes em gênero mas diferentes em processo e resultado, podem ter continuado em Eä, ou ainda podem continuar”. Mas certamente eles acrescentariam: “Mas eles não estão acontecendo agora. O drama de Arda é o interesse atual de Eä”. De fato a visão élfica é claramente a de que o Drama de Arda é único. Não podemos presentemente afirmar que isto é falso.

Os elfos estavam, é claro, primeira e profundamente (mais profundamente do que os homens) preocupados com Arda, e com Imbar em particular. Eles parecem acreditar que o universo físico, Eä, teve um início e teria um fim: que ele era limitado e finito em todas as dimensões. Eles certamente acreditavam que todas as coisas ou “estruturas”, isto é, construídas (embora simples e incipientemente) a partir da matéria básica, que eles chamavam erma, eram impermanentes dentro de Eä. Logo, eles preocuparam-se muito mais com o “Fim de Arda”. Sabiam que eles próprios estavam limitados à Arda; mas a duração de sua existência eles parecem não terem conhecido. Possivelmente os Valar não sabiam. Muito provavelmente eles não foram informados pela vontade ou desígnio de Eru, que na tradição élfica parece exigir duas coisas de Seus Filhos (de ambas as raças): acreditar Nele e, partindo disto, ter esperança ou confiar Nele (fato que era chamado pelos Eldar de estel).

Mas em qualquer caso, quer descrito na Música ou não, o Fim poderia ser ocasionado por Eru a qualquer momento através de uma intervenção, de modo que ele certamente não poderia ser previsto. (Uma intervenção menor deste tipo e aparentemente prenunciada foi a catástrofe na qual Númenor foi destruída e a residência física dos Valar em Imbar terminou.) A concepção élfica do Fim de fato era catastrófica. Eles não acreditavam que Arda (ou, de qualquer modo, Imbar) iria simplesmente estagnar-se em uma inanição sem vida. Mas esta concepção não foi incorporada por eles em qualquer mito ou lenda. Ver Nota 7.

Nota 3

Na tradição élfica sua reencarnação era uma permissão especial concedida por Eru a Manwë, depois que Manwë consultou-O diretamente na época do debate a respeito de Finwë e Míriel. (Míriel “morreu” em Aman ao se recusar a não mais viver no corpo, e desse modo levantou toda a questão da separação não natural de um fëa élfico e seu hröa, e da privação de elfos que ainda viviam: Finwë, seu esposo, foi deixado solitário.) Os Valar, ou Mandos como o porta-voz de todas as ordens e, em muitos casos, seu executor, receberam poder para convocar, com total autoridade, todos os fëar desabrigados de elfos à Aman. Lá lhes era dada a escolha de permanecerem desabrigados ou (se desejassem) serem realojados na mesma forma e aspecto que possuíam. Não obstante, geralmente eles devem permanecer em Aman. Portanto, se habitassem na Terra-média, a sua privação em relação aos amigos e parentes, e a privação destes, não era corrigida. A morte não era completamente curada. Mas como Andreth observou, esta certeza a respeito de seu futuro após a morte, e o conhecimento de que eles pelo menos seriam capazes (caso desejassem), como encarnados, de fazer e criar coisas e continuar sua experiência de Arda, tornava a morte para os elfos algo totalmente diferente da como essa era vista pelos homens.

A eles era dada uma escolha, pois Eru não permitia que seu livre-arbítrio lhes fosse retirado. De modo similar, os fëar desabrigados eram convocados, e não trazidos, a Mandos. Eles poderiam recusar as invocações, mas isto indicaria que de algum modo eles foram maculados, ou não desejariam recusar a autoridade de Mandos: a recusa tinha graves conseqüências, procedendo inevitavelmente da rebelião contra a autoridade.

Eles “geralmente permaneciam em Aman”. Simplesmente porque eles ficavam, quando realojados, mais uma vez em seus verdadeiros corpos físicos, e retornar à Terra-média era, portanto, muito difícil e arriscado. Além disso, durante o período do Exílio dos Noldor, os Valar haviam momentaneamente cortado todas as comunicações (por meios físicos) entre Aman e a Terra-média. Os Valar certamente poderiam ter arranjado a transferência, se houvesse uma razão suficientemente grave. A privação de amigos e parentes aparentemente não era considerada uma razão suficiente. Provavelmente sob a instrução de Eru. De qualquer forma, no que diz respeito aos Noldor, estes, como um povo, isolaram-se da misericórdia; eles deixaram Aman exigindo liberdade absoluta para serem seus próprios mestres, para prosseguirem com sua guerra contra Melkor com seu próprio valor desassistido, e para enfrentar a morte e suas conseqüências. O único caso de um arranjo especial registrado nas Histórias é o de Beren e Lúthien. Beren foi morto logo após seu casamento, e Lúthien morreu de tristeza. Ambos foram realojados e enviados de volta à Beleriand; mas ambos tornaram-se “mortais” e posteriormente morreram de acordo com a longevidade humana normal. A razão para isso, que deve ter sido realizado por uma permissão expressa de Eru, não ficou completamente aparente até tempos depois, mas certamente fora de um peso único. A tristeza de Lúthien era tão grande que, de acordo com os Eldar, levou à piedade até mesmo Mandos, o Inabalável. Beren e Lúthien juntos realizaram o maior de todos os feitos contra Melkor: a recuperação de uma das Silmarils. Lúthien não era dos Noldor, mas filha de Thingol (dos Teleri), e sua mãe Melian era “divina”, uma Maia (um dos membros inferiores da raça espiritual dos Valar). Desse modo, da união de Lúthien e Beren, que foi possível devido ao seu retorno, ocasionou-se a infusão tanto de uma linhagem “divina” como de uma élfica na humanidade, fornecendo um elo entre a humanidade e o Mundo Antigo, após o estabelecimento do Domínio dos Homens.

Nota 4

Mais cedo ou mais tarde: porque os elfos acreditavam que os fëar dos homens mortos também iam para Mandos (sem escolha quanto a isso: seu livre-arbítrio com respeito à morte era retirado). Lá esperavam até que fossem entregues a Eru. A verdade disto não é assegurada. Nenhum homem vivo tinha permissão de ir a Aman. Nenhum fëa de um homem morto jamais retornou à vida na Terra-média. Para todos os semelhantes decretos e afirmações havia sempre algumas exceções (por causa da “liberdade de Eru”). Eärendil alcançou Aman, mesmo na época do Banimento; mas ele carregava a Silmaril recuperada por sua ancestral Lúthien, e ele era meio-elfo, e não lhe foi permitido retornar à Terra-média. Beren retornou à vida de fato, por pouco tempo; mas ele na verdade jamais foi visto novamente por homens vivos.

A passagem “sobre o mar” para Eressëa (uma ilha à vista de Aman) era permitida, e de fato encorajada, a todos os elfos remanescentes na Terra-média após a queda de Morgoth em Angband. Isto realmente marcou o início do Domínio dos Homens, embora houvesse (na nossa visão) um longo período de crepúsculo entre a queda de Morgoth e a derrocada final de Sauron: isto é, continuando no decorrer da Segunda e Terceira Eras. Mas ao final da Segunda Era veio a grande Catástrofe (por uma intervenção de Eru que prenunciava, aparentemente, o Fim de Arda): a aniquilação de Númenor e a “remoção” de Aman do mundo físico. Portanto, a passagem de mortais “sobre o mar” após a Catástrofe – que é registrada nO Senhor dos Anéis – não é exatamente a mesma coisa. Esta foi, de qualquer modo, uma graça especial. Uma oportunidade para morrer de acordo com o plano original para os não caídos: eles chegavam a um estado onde poderiam adquirir um conhecimento e paz de espírito maiores, e estando curados de todos os ferimentos, tanto de mente como de corpo, por fim poderiam finalmente entregarem-se: morrer de livre vontade, e mesmo de desejo, em estel. Uma coisa que Aragorn alcançou sem qualquer tipo de auxílio.

Nota 5

Eles assim eram capazes de esforços físicos maiores e mais prolongados (em busca de algum objetivo dominante em suas mentes) sem fadiga; não estavam sujeitos à doenças; curavam-se rápida e completamente após ferimentos que teriam se mostrados fatais aos homens; e podiam suportar grandes dores físicas por longos períodos. Seus corpos não podiam, entretanto, sobreviver a ferimentos vitais ou a violentos ataques à sua estrutura; nem podiam substituir membros perdidos (tais como uma mão decepada). Por outro lado, os elfos podiam morrer, e morriam, por vontade própria; como, por exemplo, por causa de grande tristeza ou privação, ou por causa da frustração de seus desejos e propósitos dominantes. Esta morte intencional não era considerada imoral, mas era uma falta que indicava alguma deficiência ou mácula no fëa, e àqueles que chegavam a Mandos por estes meios poderia ser recusado uma outra vida encarnada.

Nota 6

Porque os Valar não possuíam tal informação; ou porque a informação era negada. Ver Nota 2 [quinto parágrafo].

Nota 7

Ver Nota 2. Os elfos esperavam que o Fim de Arda fosse catastrófico. Eles acreditavam que isto aconteceria pelo menos pela dissolução da estrutura de Imbar, se não de todo o sistema. O Fim de Arda não é, obviamente, a mesma coisa que o fim de Eä. Sobre isso sustentavam que nada poderia ser conhecido, exceto que Eä era derradeiramente finito. É digno de nota o fato de que os elfos não possuíam mitos ou lendas que tratassem do fim do mundo. O mito que aparece ao final do Silmarillion é de origem númenoreana; ele evidentemente foi criado por homens, embora os homens tivessem conhecimento da tradição élfica. Todas as tradições élficas são apresentadas como “histórias”, ou como relatos do que acontecera.

Estamos lidando aqui com o pensamento élfico em um período inicial, quando os Eldar ainda eram completamente “físicos” em forma corpórea. Muito mais tarde, quando o processo (já vislumbrado por Finrod) chamado “minguar” ou “desvanecer” tornou-se mais efetivo, suas opiniões a respeito do Fim de Arda, até onde os afetavam, devem ter sido modificadas. Mas existem poucos registros de quaisquer contatos do pensamento humano com o élfico em dias posteriores. Eles finalmente tornaram-se alojados, se isto pode ser assim chamado, não em hröar verdadeiramente visíveis e tangíveis, mas apenas na memória do fëa de sua forma corpórea e de seu desejo por ela; e, portanto, não dependentes da mera existência sobre o material de Arda. Mas eles parecem ter acreditado, e de fato ainda acreditam, que este desejo pelo hröa mostra que sua condição posterior (e atual) não lhes é natural, e permanecem na estel de que Eru irá curá-la. “Não natural”, ou devido completamente, como pensavam inicialmente, ao enfraquecimento do hröa (derivado da debilidade introduzida por Melkor na substância de Arda, sobre a qual ele deve se nutrir), ou devido parcialmente ao trabalho inevitável de um fëa dominante sobre um hröa material no decorrer de muitas eras. (No último caso, “natural” pode referir-se apenas a um estado ideal, no qual a matéria imaculada poderia suportar eternamente a habitação de um fëa perfeitamente adaptado. Não pode referir-se ao real desígnio de Eru, uma vez que os Temas dos Filhos foram introduzidos após o surgimento das dissonâncias de Melkor. O “minguar” dos hröar élficos deve ser, portanto, parte da História de Arda como contemplada por Eru, e modo pelo qual os elfos abririam caminho para o Domínio dos Homens. Os elfos consideravam sua substituição pelos homens um mistério, e um motivo de tristeza; pois eles diziam que os homens, pelo menos quanto a serem amplamente governados pelo mal de Melkor, possuem cada vez menos amor por Arda em si, e estão por demais ocupados em destruí-la na tentativa de dominá-la. Eles acreditam ainda que a cura de Eru de todos os pesares de Arda agora virá pelos ou através dos homens; mas a parte dos elfos na cura ou redenção será principalmente na restauração do amor de Arda, para o qual contribuirão suas memórias do Passado e compreensão do que poderia ter sido. Arda, dizem eles, será destruída pelos homens maliciosos (ou pela malícia nos homens), mas será curada pela bondade nos homens. A malícia, a dominante falta de amor, os elfos compensarão. Pela santidade dos homens bons – a ligação direta destes com Eru, anterior e acima de todas as obras de Eru – os elfos podem ser livrados do último de seus pesares: a tristeza; a tristeza que deve vir mesmo do amor altruísta de qualquer coisa abaixo de Eru.)

Nota 8

Desejo. Os elfos insistiam que os “desejos”, especialmente desejos fundamentais como são tratados aqui, deviam ser considerados como indicações das naturezas reais dos Encarnados, e da direção na qual sua satisfação imaculada deve se situar. Eles faziam distinção entre o desejo do fëa (percepção de que alguma coisa certa ou necessária não está presente, levando ao desejo ou esperança por ele), o desejo, ou vontade pessoal (o sentimento da falta de alguma coisa, a força que primeiramente diz respeito a si próprio, e que pode ter pouca ou nenhuma referência à adequação geral das coisas) e a ilusão, a recusa de reconhecer que as coisas não são como deveriam ser, levando à ilusão de que elas são como alguém desejaria que fossem, quando elas não são dessa forma. (O último poderia ser chamado agora de “pensamento desejoso”, legitimamente; mas este termo, diriam os elfos, é absolutamente ilegítimo quando aplicado ao primeiro. O último pode ser refutado por referência aos fatos. O primeiro não. A não ser que acredite-se que o desejo seja sempre ilusório e a única base para a esperança de correção. Mas os desejos do fëa podem ser freqüentemente mostrados como sendo razoáveis por argumentos não ligados ao desejo pessoal. O fato de que eles estão de acordo com o “desejo”, ou mesmo com a vontade pessoal, não os invalida. De fato, os elfos acreditavam que o “alívio do coração” ou a “instilação da alegria” (à qual eles freqüentemente referem-se), que podem acompanhar a declaração de uma proposição ou de um argumento, não é uma indicação de sua falsidade, mas sim do reconhecimento da parte do fëa de que ele está no caminho da verdade.)

Nota 9

É provável que Andreth na verdade estivesse relutante em dizer mais. Em parte por um tipo de lealdade que impedia os homens de revelarem aos elfos tudo o que sabiam sobre a escuridão em seu passado; e em parte porque ela sentiu-se incapaz de decidir-se quanto às conflitantes tradições humanas. Versões mais longas do Athrabeth, evidentemente editadas sob influência númenoreana, fazem-na dar, sob pressão, uma resposta mais precisa. Algumas são muitos breves, outras são mais longas. Contudo, todas concordam em tornar a causa do desastre a aceitação de Melkor como rei (ou rei e deus) pelos homens. Em uma versão, uma lenda completa (resumida na escala temporal) é fornecida explicitamente como uma tradição númenoreana, pois ela faz Andreth dizer: Este é o Conto que Adanel da Casa de Hador me contou. Os númenoreanos em sua maioria, e suas tradições não élficas principalmente, descendiam do Povo de Marach, do qual a Casa de Hador era líder. A lenda possui certas semelhanças quanto às tradições númenoreanas no que diz respeito ao papel desempenhado por Sauron na queda de Númenor. Mas isto não prova que ela seja completamente uma ficção dos dias pós-queda. Ela sem dúvida é derivada de tradições verdadeiras do Povo de Marach, completamente independente do Athrabeth. [Nota adicionada: Nada é afirmado, por meio desta, a respeito de sua “verdade”, história ou não.] as atividades de Sauron natural e inevitavelmente assemelhavam-se àquelas de seu mestre ou repetiam-nas. É triste que um povo de posse de tal lenda ou tradição tenha sido posteriormente iludido por Sauron mas, geralmente em vista da história humana, não é incrível. De fato, se peixes possuíssem tradições e sábios entre eles, o trabalho dos pescadores provavelmente quase não seria impedido.

Nota 10

A “Matéria” não é considerada má ou oposta ao “Espírito”. A matéria era completamente boa em origem. Ela permaneceu uma “criatura de Eru” e ainda boa em grande parte, e de fato autocurativa, quando não perturbada: isto é, quando o mal latente introduzido por Melkor não era despertado deliberadamente e usado por mentes malignas. Melkor concentrou sua atenção na “matéria” porque os espíritos só podiam ser completamente dominados pelo medo; e o medo era mais facilmente empregado através da matéria (especialmente no caso dos Encarnados, aos quais ele mais desejava subjugar). Por exemplo, pelo medo de que as coisas materiais que eram amadas pudessem ser destruídas, ou o medo (nos Encarnados) de que seus corpos pudessem ser feridos. (Melkor também usou e perverteu para seus propósitos o “medo de Eru”, completa ou vagamente compreendido. Mas isto foi mais difícil e perigoso, e exigiu mais astúcia. Espíritos inferiores poderiam ser atraídos pelo amor ou admiração dele próprio e de seus poderes, e conduzidos assim a uma postura de rebelião contra Eru. Seu medo Dele poderia então ser obscurecido, de modo que eles aderissem a Melkor, como um capitão e protetor, tornando-se por fim aterrorizados demais para retornarem à lealdade a Eru, mesmo após terem descoberto quem Melkor era e terem começado a odiá-lo.)

Nota 11

Na verdade isto já havia sido vislumbrado no Ainulindalë, no qual é feita referência à “Chama Imperecível”. Isto parece querer dizer a atividade Criativa de Eru (em certo sentido distinta Dele ou de dentro Dele), pela qual as coisas poderiam receber uma existência (embora derivativa e criada) “real” e independente. A Chama Imperecível é enviada a partir de Eru, para residir no coração do mundo e o mundo então É, no mesmo plano dos Ainur, e eles podem entrar nele. Mas isto, claro, não é o mesmo que a reentrada de Eru para derrotar Melkor. Isto refere-se ao mistério da “autoria”, pela qual o autor, apesar de permanecer “fora” e independente de seu trabalho, também “reside” nele, em seu plano derivativo, abaixo daquele de seu próprio ser, como a fonte e garantia de seu ser.

O Conto de Adanel

[O “Conto de Adanel” era é uma versão da história da “Queda dos Homens” como contada na Terra-média entre os Edain da Primeira Era. Está contido no volume 10 da série The History of Middle-earth X, Morgoth’s Ring]

Então Andreth, encorajada por Finrod, disse por fim: “- Este é o conto que Adanel, da Casa de Hador, contou-me”.

Alguns dizem que o Desastre aconteceu no início da história de nosso povo, antes que qualquer um houvesse morrido. A Voz falara a nós, e nós ouvíramos. A Voz disse: “- Vós sois meus filhos. Enviei-vos para aqui habitardes. No devido tempo herdareis toda esta Terra, mas primeiro deveis ser crianças e aprender. Pedi a mim e ouvirei, pois velo por vós”.

Compreendemos a Voz em nossos corações, embora ainda não possuíssemos palavras. Então o desejo pelas palavras despertou em nós, e começamos a criá-las. Mas éramos poucos, e o mundo era vasto e estranho. Embora muito desejássemos compreender, aprender era difícil, e a criação das palavras era lenta.

Naquele tempo com freqüência chamávamos e a Voz respondia. Mas ela raramente respondia nossas perguntas, dizendo apenas: “- Primeiro procurai encontrar a resposta por vós mesmos. Pois tereis alegria na descoberta, e assim saireis da infância e tornar-vos-eis sábios. Não procureis deixar a infância antes de vosso tempo”.

Mas tínhamos pressa, e desejávamos ordenar as coisas à nossa vontade; e as formas de muitas coisas que desejávamos criar despertaram em nossas mentes. Portanto, falávamos cada vez menos à Voz.

Então alguém apareceu entre nós em nossa própria forma visível, mas maior e mais belo, e ele disse que viera por piedade. “Vós não deveríeis ser deixados sozinhos e sem instrução” disse ele. “O mundo está repleto de riquezas maravilhosas que o conhecimento pode revelar. Vós poderíeis ter alimentos mais abundantes e mais deliciosos do que comeis agora. Vós poderíeis ter tranqüilas habitações, nas quais poderíeis manter a luz e afastar a noite. Poderíeis inclusive vestir-vos igual a mim.”

Então olhamos e vede, ele usava vestes que brilhavam como prata e ouro, e tinha uma coroa em sua cabeça e jóias em seu cabelo. “Se desejais ser como eu” disse ele “, ensinar-vos-ei”. Então aceitamo-lo como mestre.

Ele era menos rápido do que esperávamos a ensinar-nos como encontrar, ou criar por nós mesmos, as coisas que desejávamos, embora ele houvesse despertado muitos desejos em nossos corações. Mas se qualquer um duvidasse ou ficasse impaciente, ele trazia e colocava diante de nós tudo o que havíamos desejado. “Sou o Provedor de Presentes” disse ele “, e os presentes nunca faltarão enquanto vós confiardes em mim”.

Por conseguinte, reverenciamo-lo, e por ele fomos cativados, e dependíamos de seus presentes, temendo retornar a uma vida sem eles que agora parecia-nos pobre e dura. E acreditamos em tudo que ele ensinou. Pois estávamos ávidos para saber sobre o mundo e sua existência: sobre as feras e pássaros, e as plantas que cresciam na Terra; sobre nossa própria criação; e sobre as luzes do céu, sobre as estrelas incontáveis, e a Escuridão na qual elas estão.

Tudo o que ele ensinava parecia bom, pois ele possuía um grande conhecimento. Mas cada vez mais ele falava da Escuridão. “Maior de todas é a Escuridão” disse ele “, pois Ela não tem limites. Vim da Escuridão, mas sou Seu mestre. Pois eu criei a Luz. Criei o Sol e a Lua e as incontáveis estrelas. Proteger-vos-ei da Escuridão, que de outro modo devorar-vos-ia”.

Então falamos-lhe da Voz. Mas sua face tornou-se terrível, pois ele enfurecera-se. “Tolos!” disse ele. “Aquela era a Voz da Escuridão. Ela deseja afastar-vos de mim, pois Ela está faminta por vós”.

Ele então foi embora, e não o vimos por um longo tempo, e sem seus presentes éramos pobres. E então chegou um dia no qual a luz do Sol repentinamente começou a falhar, até que foi apagada, e uma grande sombra caiu sobre o mundo, e todas as feras e pássaros temeram. Então ele veio novamente, caminhando através da sombra como um fogo brilhante.

Prostramo-nos. “Há alguns entre vós que ainda estão dando ouvidos à Voz da Escuridão” disse ele “e, portanto, Ela aproxima-se. Escolhei agora! Podeis ter a Escuridão como Senhor, ou podeis ter a Mim. Mas a menos que tomeis a Mim por Senhor e jureis servir-Me, partirei e deixar-vos-ei, pois possuo outros reinos e moradias, e não preciso da Terra, nem vós”.

Então em medo falamos conforme ele ordenara, dizendo: “- Vós sois o Senhor. Apenas a Ti serviremos. À Voz renunciamos e não mais escuta-la-emos”.

“- Que assim seja!” disse ele. “Agora construí a Mim uma casa sobre um local elevado e chamai-na Casa do Senhor. Para lá irei quando desejar. Lá visitar-Me-eis e fazer-Me-eis vossas súplicas”.

E quando tínhamos construído uma grande casa, ele veio e colocou-se diante do alto assento, e a casa foi iluminada como que por fogo. “Agora” disse ele “apareça qualquer um que ainda dê ouvidos à Voz!”

Havia alguns, mas por medo eles permaneceram imóveis e nada disseram. “Então curvai-vos diante de Mim e reconhecei-Me!” disse ele. E todos curvavam-se ao solo diante dele, dizendo: “- Vós sois o Único Grande, e somos Vossos”.

Com isso, ele ergueu-se como em uma grande chama e fumaça, e fomos queimados pelo calor. Mas repentinamente ele partira, e estava mais escuro que a noite, e fugimos da Casa.

Posteriormente sempre íamos com um grande pavor da Escuridão, mas ele raramente aparecia novamente entre nós em uma forma bela, e trazia poucos presentes. Se em grande necessidade ousávamos ir à Casa e orar-lhe para que ajudasse-nos, escutávamos sua voz, e recebíamos suas ordens. Mas agora ele sempre ordenava-nos a executar alguma tarefa ou dar-lhe algum presente antes de ouvir a nossa prece; e as tarefas tornavam-se sempre piores, e mais difícil abrir mão dos presentes.

A primeira Voz nunca mais ouvimos, exceto uma vez. No silêncio da noite Ela falou, dizendo: “- Renunciastes a Mim, mas vós permaneceis Meus. Dei-vos a vida. Agora ela encurtar-se-á, e cada um de vós em pouco tempo virá a Mim, para aprender quem é vosso Senhor: aquele que idolatrais ou Eu que criei-o”.

Então nosso terror pela Escuridão aumento, pois acreditávamos que a Voz era da Escuridão por trés das estrelas. E alguns de nós começaram a morrer em horror e angústia, temendo sair para a Escuridão. Chamamos então por nosso Mestre para que salvasse-nos da morte, mas ele não respondeu. Mas quando fomos à Casa e todos lá curvaram-se, ele por fim veio, grande e majestoso, mas seu rosto era cruel e orgulhoso.

“- Agora sois Meus e deveis fazer Minha vontade” disse ele. “Não preocupo-me que alguns de vós morrais e vades para aplacar a fome da Escuridão, pois de outro modo logo haveria muitos de vós, rastejando como parasitas sobre a Terra. Mas se não fizerdes Minha vontade, sentireis Minha ira, e morrereis mais cedo, pois matar-vos-ei”.

Com isso fomos dolorosamente afligidos, pelo cansaço, fome e enfermidades; e a Terra e todas as coisas nela viraram-se contra nós. Fogo e água rebelaram-se contra nós. Os pássaros e feras evitavam-nos ou, se eram fortes, atacavam-nos. Plantas deram-nos veneno, e temíamos as sombras sob as árvores.

Então ansiamos pela nossa vida como fora antes que nosso Mestre chegasse; e nós o odiamos, mas o temíamos não menos que a Escuridão. E cumprimos sua ordem, e mais do que sua ordem; pois tudo que pensávamos que agradar-lhe-ia, embora maligno, fazíamo-lo, na esperança de que ele aliviaria nossas aflições e que ao menos não mataria-nos.

Para a maioria de nós isso foi em vão. Mas a alguns ele começara a favorecer: os mais fortes e mais cruéis, e aqueles que iam com maior freqüência à Casa. Deu-lhes presentes e conhecimentos que mantiveram em segredo; e eles tornaram-se poderosos e orgulhosos, e escravizaram-nos, de modo que não tínhamos descanso do nosso trabalho no meio de nossas aflições.

Então ergueram-se alguns dentre nós que diziam abertamente em seu desespero: “- Agora finalmente sabemos quem mentiu e quem desejava devorar-nos. não a primeira Voz. É o Mestre que tomamos a Escuridão; e ele não veio dela, como disse, mas nela habita. não mais servi-lo-emos! Ele é nosso Inimigo”.

Então com medo, para que ele não ouvisse-os e punisse a todos nós, matávamo-los se pudéssemos; e aqueles que fugiam nós caçávamos; e, se quaisquer eram pegos, nossos mestres, amigos dele, ordenavam que eles fossem levados à Casa e lá mandados para a morte pelo fogo. Isso agradava-lhe enormemente, seus amigos diziam; e, de fato, por um tempo parecia que nossas aflições foram aliviadas.

Mas conta-se que houve alguns que escaparam-nos, e partiram para países longínquos, fugindo da sombra. Ainda assim eles não escaparam da ira da Voz, pois eles haviam construído a Casa e curvaram-se nela. E por fim chegaram ao final da terra e às praias da água intransponível; e vede, o Inimigo estava lá diante deles.