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Elfos de Tolkien

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No legendarium de J. R. R. Tolkien, um Elfo é um indivíduo membro de uma das raças que habita as terras de Arda. Eles aparecem em O Hobbit e em O Senhor dos Anéis, mas a sua história mais complexa é descrita por completo apenas em O Silmarillion, editado e publicado após a morte de Tolkien. Mais detalhes sobre eles são dados nos outros trabalhos do autor, editados e publicados desde então, tais como Contos Inacabados e The History of Middle-earth (12 volumes). The History of Middle-earth também revela sua história textual e conceitual, como Tolkien havia escrito sobre os Elfos antes de O Hobbit ser publicado.

Desenvolvimento

 

Primeiras escritas

Tradicionais fadas dançantes da era Vitoriana e Elfos aparecem em muitas das primeiras poesias de Tolkien, e têm influência em seus trabalhos mais recentes em parte devido à influência de uma produção de Peter Pan, de J. M. Barrie em Birmingham em 1910 e sua familiaridade com o trabalho do poeta católico místico, Francis Thompson, que Tolkien adquiriu em 1914. Como filólogo, o interesse de Tolkien em línguas o levou a inventar várias linguagens próprias como passatempo. Ao considerar a natureza de quem virá a falar essas línguas, e que histórias eles venham a contar, Tolkien mais uma vez voltou ao conceito dos Elfos.

 

O Livro dos Contos Perdidos (c. 1917-1927)

Nas primeiras formas das estórias que apersentam contexto para as linguagens Élficas, O Livro dos Contos Perdidos, Tolkien desenvolve um tema no qual a diminuta raça parecida com fadas, os Elfos, foram um grande e poderoso povo, e como os Homens tomaram o mundo e esses Elfos “diminuíram”. Esses Elfos maiores são influenciados por aqueles das mitologias do norte da Europa, especialmente os semi-deuses do tamanho de humanos, Ljósálfar Nórdico, e são derivados de trabalhos medievais como Sir Orfeo, Mabinogion Gaulês, romances Arthurianos e as lendas de Tuatha Dé Danann. John Garth também referenciou o Tuatha Dé Danann ao sugerir que Tolkien estava essencialmente rescrevendo as tradições dos contos Irlandeses.

A mitologia céltica teve grande influência nos escritos de Tolkien sobre Elfos e algumas das estórias que ele escreveu como ‘lendas Élficas’ são diretamente influenciadas por ela. Por exemplo, o “Vôo dos Noldoli” é baseado no Tuatha Dé Danann e Lebor Gabála Érenn, e sua natureza migratória vêm das primeiras histórias Irlandesas/Célticas. O nome ‘Inwe’ (no primeiro rascunho – ‘Ing’), dado por Tolkien para o mais velho dos Elfos e seu clã é similar ao nome encontrado na mitologia Nórdica como “Ingwi-Freyr” (e Ingui-Frea no paganismo Anglo-Saxão), um deus que recebe Álfheim (o mundo Élfico) para governar como presente. Terry Gunnell também diz que a relação entre belos navios e os Elfos é remanescente de Njörðr e Skíðblaðni, navios de Freyr.
Os Elfos maiores também são inspirados pela teologia católica de Tolkien – ao representar o estado do Homem no Eden que ainda não havia caído – similares a humanos, porém mais belos e sábios, com maiores poderes espirituais, sentidos intensificados e uma empatia mais próxima com a natureza.
Tolkien escreveu sobre eles:
Eles são todos feitos pelo homem em sua própria imagem e semelhança; mas libertos daquelas limitaões que ele sente pesarem mais sobre ele. Ele são imortais, e sua vontade é diretamente efetiva para o alcançe de imaginação e desejo.
No Livro dos Contos Perdidos Tolkien inclui os mais sérios tipos ‘medievais’ de Elfos, como Fëanor e Turgon, junto com os Elfos do tipo Jacobino, mais frívolos, como os Solosimpi e Tinúviel. Ele também mantém o uso do termo Céltico e popular ‘fada’ para as mesmas criaturas. Junto com a idéia dos Elfos maiores, Tolkien também desenvolveu a idéia de crianças visitando Valinor, a ilha que é a terra dos Elfos em seu sono. Elfos também visitariam as crianças de noite e as confortariam se tivessem sido reprimidas ou estivessem chateadas. Esse tema, ligando Elfos com sonhos de crianças e viagens noturnas foi completamente abandonado.
O Hobbit (c. 1930-1937)
Junto com o Livro dos Contos Perdidos, Douglas Anderson mostra que em O Hobbit, Tokien novamente inclui os mais sérios tipos ‘medievais’ de Elfos, como Elrond e o rei dos Elfos da Floresta das Trevas, e os mais frívolos, como aqueles de Valfenda.
O Quenta Silmarillion (c. 1937)
Em 1937, tendo o seu manuscrito para O Silmarillion rejeitado por um editor que desprezou todos os nomes “com origens celta” que Tolkien havia dado a seus Elfos, Tolkien negou que os nomes tivessem tal origem:

Não é necessário dizer que não são Celtas! Nem o são os contos. Eu conheço coisas Célticas (muitas em sua linguagem original, Irlandês e Gaulês), e sinto por eles um certo desgosto: mais por sua fundamental falta de razão. Eles têm cores brilhantes, mas são como uma janela com vidros manchados e quebrados, reunidos sem design. Eles são, de fato, ‘loucos’ como o seu leitor diz – mas eu não acredito que eu seja. (Carpenter 1981, 26).

Dimitra Fimi porpõe que esses comentários são um produto de sua Anglofilia mais do que um comentário sobre os textos própriamente ditos ou sua influência atual sobre seus escritos, e cita evidência para esse efeito em seu ensaio Elfos “Loucos” e “beleza esquiva”: algumas vertentes da mitologia Céltica de Tolkien.
O Senhor dos Anéis (c. 1937-1949)
Terry Gunner nota que os títulos dos deuses germânicos Freyr e Freyja (senhor e senhora) também são dados a Cleborn e Galadriel em O Senhor dos Anéis. De acordo com Tom Shippey a diminuição do tema, de Elfo para “Fada” resurge em O Senhor dos Anéis no diálogo de Galadriel. Escrito em 1954, a meio caminho de provar O Senhor dos Anéis, Tolkien assumiu que a linguagem Élfica Sindarin tinha:
… um caráter linguístico muito parecido (embora não seja idêntico) com o Britânico-Gaulês … pois parecia se encaixar mais no tipo ‘Celta’ de lendas e estórias ditas por seus usuários. (Carpenter 1981, 26)”.
Na mesma carta, Tolkien chega a dizer que os Elfos tinham pouco em comum com os elfos europeus ou Fadas, e que eles realmente representam homens com uma maior habilidade artística, beleza e um maior tempo de vida. Tolkien também diz que a linhagem de sangue Élfico era a única afirmação de ‘nobreza’ que os Homens da Terra-média podem ter. Tolkien também escreveu os Elfos de O Senhor dos Anéis como sendo os primeiros culpados por muitas das doenças da Terra-média, tendo criado independentemente os Três Anéis com o intuito de evitar que seus domínios nas terras mortais fossem ‘se acabando’ e a inevitável mudança e novo crescimento.

História

1 – Origens.

Originalmente, nas décadas de 1910 e 1920, Ingwë, Finwë e Elwë (seus nomes finais) eram os mais velhos dos Elfos. Em 1959 ou 1960, Tokien escreveu um relato detalhado do despertar dos Elfos, chamado Cuivienyarna, parte de Quendi e Eldar. Ingwë, Finwë e Elwë agora se tornaram os primeiros embaixadores e Reis dos Elfos. Esse texto somente foi impresso em A Guerra das Jóias, parte da série analítica The History of Middle-earth, em 1994, porém uma versão similar foi incluída em O Silmarillion em 1977. De acordo com o primeiro relato, os primeiros Elfos foram despertados por Eru Ilúvatar perto da baia de Cuiviénen durante os Anos das Árvores na Primeira Era. Eles despertaram sob um céu estelado, pois o Sol e a Lua ainda não haviam sido criados. Os primeiros Elfos a despertarem formaram três pares: Imin (“Primeiro”) e sua esposa Iminyë, Tata(“Segundo”) e sua esposa Tatië e Enel (“Terceiro”) e sua esposa Enelyë.

Imin, Tata e Enel e suas esposas se agruparam e andaram pelas florestas. Eles encontraram seis, nove e doze pares de Elfos, e cada “patriarca” assumiu os pares como seus parentes respectivamente. Os Elfos, agora em um grupo maior, viviam às margens dos rios, e inventaram poesia e música no continente da Terra-média. Fazendo mais longas viajens, eles encontraram dezoito pares de Elfos que observavam as estrelas, cujo grupo Tata assumiu como “seu”. Esses são altos e de cabelos negros, os pais da maioria dos Noldor. Os noventa e seis Elfos inventaram muitas novas palavras. Continuando sua jornada, encontraram vinte e quatro pares de Elfos, cantando sem linguagem, e Enel os incluiu em seu povo. Esses são os ancestrais de muitos dos Lindar ou “cantores”, mais tarde chamados de Teleri. Eles não encontraram mais Elfos; o povo de Imin, o grupo menor, são os ancestrais dos Vanyar. Ao final os Elfos eram 144. Pelo fato de os Elfos terem sido encontrado em grupos de doze, doze se torna a sua base numérica e 144 seu maior número (por um bom tempo), e nenhuma das linguagens Élficas recentes tem um nome comum para um número maior.
Foram descobertos pelo Vala Oromë, quem levou a notícia de seu despertar para Valinor. O Silmarillion afirma que Melkor, o Senhor do Escuro, já havia capturado alfuns Elfos errantes e os desfigurado e mutilado até se tornarem Orcs. Todavia, Tolkien acabou ficando desconfortavel com essa origem Élfica e criou diferentes teorias sobre a origem dos Orcs.
2 – Divisão.
Os Valar decidiram convocar os Elfos para Valinor ao invés de os deixarem morando no lugar onde eles despertaram, perto do Lago Cuiviénen na extremidade oriental da Terra-média. Eles enviaram Oromë, que levou Ingwë, Finwë e Elwë como embaixadores para Valinor. Ao retornarem para a Terra-média Ingwë, Finwë e Elwë convenceram uma grande hoste a fazerem a jornada para Valinor. Nem todos os Elfos aceitaram a convocação, e os que ficaram foram conhecidos como os Avari, “os Relutantes”.
Os outros foram chamados Eldar, o Povo das Estrelas por Oromë, e eles aceitaram Ingwë, Finwë e Elwë como seus líderes, e se tornaram, respectivamente, os Vanyar, Noldor e Teleri. Em sua jornada, alguns dos Teleri temeram as Montanhas Nebulosas e não se atreveram a cruzá-la, voltaram para trás e permaneceram nos vales do Anduin, e foram chamados de Nandor, liderados por Lenwë. Oromë liderou os outros através das Montanhas Nebulosas e Montanhas Azuis até Beleriand. Lá Elwë se perdeu, e os Teleri ficaram para trás procurando por ele. Os Vanyar e Noldor caminharam até uma ilha flutuante que foi rebocada por Ulmo até Valinor.
Após anos, Ulmo voltou para Beleriand para buscar os remanescentes Telei. Como Elwë ainda não havia sido encontrado, uma grande parte dos Teleri elegeram seu irmão, Olwë, como seu líder e foram levados para Valinor. Laguns Teleri ficaram para trás, ainda procurando por Elwë, e outros ficaram nas praias, sendo chamados por Ossë. Eles elegeram Círdan como seu líder e se tornaram os Falathrim. Todos os Teleri que ficaram em Beleriand mais tarde foram chamados de Sindar.
3 – Exílio.
Em Valinor, Fëanor, filho de Finwë, e o maior dos Noldor, criou as Silmarils nas quais ele colocou parte da luz das Duas Árvores que iluminavam Valinor. Após três eras nos Salões de Mandos, Melkor foi libertado. Ele espalhou sua maldade e no final assassinou Finwë e roubou as Silmarils. Fëanor então o chamou de Morgoth (O Inimigo Escuro) e, junto com seus sete filhos, fez um juramento para trazer as Silmarils de volta e liderou um imenso exército dos Noldor até Beleriand.
4 – Guerras de Beleriand
Em Beleriand, Elwë foi finalmente encontrado, e casou-se com Melian, a Maia. Ele se tornou o senhor de Beleriand, renomeando-se Thingol (Manto Cinzento). Após a Primeira Batalha de Beleriand, durante a primeira ascenção da Lua, os Noldor chegaram em Beleriand. Eles fizeram um cerco ao redor de Angband, a fortaleza de Morgoth, mas foram derrotados ao final.
Então Eärendil, o Marinheiro, um meio-Elfo da Casa de Finwë, navegou para Valinor para pedir ajuda aos Valar. Então a Punição dos Elfos foi esquecida e os Valar começaram a Guerra da Ira, na qual Morgoth foi finalmente derrotado.
5 – Segunda e Terceira Eras
Após a Guerra da Ira, os Valar tentaram convocar os Elfos de volta para Valinor. Muitos atenderam à convocação, mas alguns ficaram. Durante a Segunda Era eles fundaram os Reinos de Lindon, Eregion e Floresta das Trevas. Sauron, antigo servo de Morgoth, fez guerra contra eles, porém com o auxílio dos Numenóreanos, os Elfos o derrotaram. Durante o final da Segunda Era e começo da Terceira Era eles mantiveram alguns reinos protegidos com a ajuda dos Anéis de Poder, mas após a Guerra do Anel eles ficaram mais fracos e a maioria dos Elfos deixou a Terra-média indo para Valinor. Os trabalhos publicados de Tolkien apresentam algumas dicas contraditórias sobre o que aconteceu aos Elfos da Terra-média após o Um Anel ter sido destruido ao final da Terceira Era.
Após a destruição do Um Anel, o poder dos Três Anéis dos Elfos também chegou ao fim e a Era dos Homens teve início. Elfos que permaneceram na Terra-média foram condenados a um lento declínio até, nas palavras de Galadriel, sumirem e se tornarem um “povo rústico habitante de cavernas” e diminuíram bastante em poder e nobreza. Enquanto o poder dos Noldor remanescentes foi imediatamente diminuido, o “desaparecimento” de todos os Elfos foi um fenômeno que duriaria centenas e até mesmo milhares de anos; até, de fato, os dias de hoje, quando lampejos ocasionais de Elfos rústicos alimenta nossos contos e fantasias. Existem muitas referências em O Senhor dos Anéis sobre a continuidade da existência dos Elfos na Terra-média durante os primeiros anos da Quarta Era. Elladan e Elrohir, filhos de Elrond, não acompanham seu pai quando o Navio Branco carregando o Portador do Anel e os principais líderes Noldorin navegou dos Portos Cinzentos para Valinor; é dito que eles permaneceram em Lindon por um tempo. É dito também que Celeborn (apêndice A) adicionou a maior parte sul da Floresta das Trevas ao seu reino de Lórien ao final da Terceira Era, porém em algum lugar Tolkien escreveu que Celeborn viveu por um tempo em Lindon antes de finalmente deixar a Terra-média e ir para Valinor.
Tolkien também escreveu que os Elfos se mudaram para Ithilien durante o reinado do Rei Elessar, e auxiliaram na reconstrução de Gondor. Eles moraram primeiro em Ithilien do Sul, perto das praias do Anduin. Também é dito que os Elfos continuaram a morar nos Portos Cinzentos, ao menos por um certo período. Tolkien afirma que Sam Gamgee navegou dos Portos décadas após a partida de Elrond, implicando que alguns Elfos permaneceram em Mithlond naquela época. Legolas também navegou para Valinor após a morte de Elessar, e como é dito em O Senhor dos Anéis, foi o próprio Legolas que construiu o navio.
Em “O Conto de Aragorn e Arwen” que está no Apêndice A, Tolkien descreve uma Terra-média onde muitos Elfos já haviam partido. A maioria daqueles que ficaram viviam na Floresta das Trevas, enquanto apenas uma pequena população havia ficado em Lindon. Aragorn fala do jardim vazio de Elrond em Valfenda. O mais admiravel é que, após a morte natural de Elessar, Arwen vai para uma Lórien descrita como completamente abandonada e desiste de sua vida nesse triste e silencioso cenário.

Ciclo de Vida

Como dito em History of Middle-earth e nas Cartas de Tolkien, Elfos tinham um ciclo de vida diferente do ciclo dos Homens. Muito das informaçõs a seguir refere-se somente aos Eldar, como encontrado em seu ensaio Leis e Costumes entre Eldar, encontrado em O Anel de Morgoth.
1 – Início da Vida.
Elfos nascem após um ano de gestação. O dia de sua concepção é celebrado, não o dia de seu nascimento em si. Suas mentes se desenvolvem mais rápido do que seus corpos; em seu primeiro ano, eles já conseguem falar, andar e até mesmo dançar e o rápido alcance de maturidade mental faz com que os jovens Elfos pareçam, para os Homens, mais velhos do que realmente são. Puberdade física acontece entre seus 50 ou 100 anos (aos 50 eles atingem sua estatura adulta), e aos seus 100 anos de vida fora do ventre todos os Elfos estão completamente desenvolvidos. Os corpos dos Elfos deixam de envelhecer fisicamente enquanto os corpos de Humanos continuam.
2 – Sexualidade, casamento e paternidade.
Elfos se casam livres e por amor logo cedo. Monogamia é praticada e adultério é impensável; eles apenas se casam uma vez (Finwë, primeiro Alto Rei dos Noldor, foi uma exceção ao se casar novamente após a morte de sua primeira esposa) Casais podem escolher seus parceiros mesmo antes de se casarem, se tornando noivos. O noivado é sujeito à aprovação dos pais a menos que os dois sejam adultos e desejem se casar logo, assim o noivado é anunciado. Eles trocam anéis e o noivado dura ao menos um ano e é revogável pela devolução dos anéis; entretanto isso raramente acontece.
Após o noivado formal, o casal indica uma data para o casamento. Apenas as palavras trocadas pela noiva e noivo (incluindo a menção ao nome de Eru Ilúvatar) e a consumação são requisitos para o casamento. Mais formalmente, as famílias do casal celebram o casamento com um banquete. Os dois devolvem seus anéis de noivado e recebem outros para serem usados em seus dedos indicadores. A mãe da noiva dá ao noivo uma jóia para usar (o presente de Galadriel (a Pedra Élfica) para Aragorn reflete essa tradição; ela é a avó de sua noiva, Arwen, pois a mãe dela havia deixado a Terra-média e foi para Valinor após graves abalos  psicológicos quando foi capturada por Orcs e libertada por seus filhos).
Os Elfos vêem o ato sexual como algo extremamente especial e íntimo, pois ele leva à concepção e nascimento de seus filhos. Sexo fora do casamento (mesmo sendo ates) é algo impensável, adultério também nunca houve e a fidelidade entre casais é absoluta. Porém, separação durante a gravidez ou durante os primeiros dias de paternidade (causada por guerra, por exemplo) é tão deprimente para o casal que eles preferem ter filhos em tempos de paz. Elfos vivos não podem ser estuprados ou forçados a manter relações sexuais, antes de isso acontecer eles perderão a vontade de viver e irão para Mandos.
Elfos têm poucos filhos, como regra (Fëanor e Nerdanel foram uma exceção, concebendo sete filhos), e existem intervalos relativamente grandes entre cada filho. Eles logo são preocupados com outros prazeres; sua libido desaparece e eles focam seu interesse em qualquer outra coisa, como artes. Mesmo assim eles sentem grande prazer na união do amor, e eles celebram os dias desde a concepção até a educação dos filhos como sendo os mais felizes de suas vidas. Aparentemente existe apenas um exemplo conhecido de extremo desentendimento entre casais na mitologia de Tolkien. Eöl e Aredhel, no qual Aredhel deixou Eöl sem seu conhecimento, resultando no assassinato dela por Eöl. Todavia, esse casamento estava muito além de ser típico dos Elfos.
3 – Vida Diária.
Os Elfos, particularmente os Noldor, se preocupavam com várias coisas, como trabalho com metais, escultura, música e outras artes, e claro, com o que comer. Os machos e fêmeas podem fazer praticamente as mesmas coisas, entretanto, as fêmeas freqüentemente se especializam nas artes da cura enquanto os machos iam para a guerra. Isso acontece por que eles acreditam que tirar a vida interfere com a habilidade de preservar a vida. Todavia, Elfos não são presos a regras rígidas; fêmeas podem se defender, quando necessário, tão bem quanto os machos, e muitos machos são curadores exímios também, como Elrond.
4 – Vida Adulta.
Eventualmente, se não morrem em batalha ou por alguma outra causa, os Elfos da Terra-média vão se cansando dela e desejam ir para Valinor, onde os Valar originalmente acolheram sua raça. Aqueles que desejam ir para as Terras Imortais geralmente o fazem de barco, que são providenciados nos Portos Cinzentos, onde Círdan, o Armador, vive com seu povo.
5 – “O terceiro ciclo da vida”, envelhecimento e pelos faciais.
Apesar das afirmações de Tolkien em O Hobbit de que Elfos (e Hobbits) não têm barba, Círdan de fato possui barba, o que parece ser uma anomalia. Todavia, Tolkien mais tarde descreveu três “ciclos de vida” para os Elfos, por volta da década de 60; Círdan tinha barba por que ele estava em seu terceiro ciclo de vida. (Mahtan, pai de Nerdanel, tinha barba já em seu segundo ciclo de vida, um raro fenômeno). Não é claro o que são exatamente esses ciclos de vida, pois Tolkien não deixou notas explicando mais detalhadamente. Aparentemente, barbas eram o único sinal de um envelhecimento físico além da maturidade.
Ainda assim, Tolkien deve ter mudado de idéia sobre os Elfos terem pelos faciais. Como Christopher Tolkien afirma em Contos Inacabados, seu pai escreveu, por volta de Dezembro de 1972, que o traço Élfico nos Homens, como Aragorn, era “observável na falta de barba daqueles que deles descendessem”, pois “era uma característica de todos os Elfos não ter barba”. Isso praticamente contradiz a informaçção acima. Algumas vezes os Elfos pareciam envelhecer sobre grande stress. Círdan parecia ter envelhecido bastante, pois é descrito como parecendo velho, salvo pelas estrelas em seus olhos; isso pode ser devido a todo o sofrimento que ele viu e viveu desde a Primeira Era. Também, o povo de Gwindor de Nargothrond teve problemas para reconhecê-lo depois de seu tempo como prisioneiro de Morgoth.
6 – Morte
Elfos são naturalmente imortais, e permanecem imutáveis com a idade. Em adição à sua imortalidade, Elfos podem se recuperar de ferimentos que normalmente matariam um Homem comum. Todavia, Elfos podem ser mortos, ou morrer de tristeza e preocupação. Espíritos de Elfos Mortos vão para os Salões de Mandos em Valinor. Após um certo período de tempo e descanso, que servem como “purificação”, seus espíritos são colocados em corpos idênticos aos seus antigos. Porém, eles quase nunca voltam para a Terra-média e ficam em Valinor. Uma exceção foi Glorfindel em O Senhor dos Anéis; como mostrado em livros mais recentes, Tolkien decidiu que ele “renasceu” como herói em O Silmarillion ao invés de um indivíduo com o mesmo nome. Um exemplo raro e mais incomum ainda de um Elfo voltando dos Salões de Mandos é encontrado no conto de Beren e Lúthien, pois Lúthien foi o segundo membro dessa raça a ir de volta para a Terra-média – porém, como mortal. As palavras de Tolkien para “espírito” e “corpo” são fëa (fëar no plural) e hröa (hröar no plural) respectivamente.
Finalmente, seu espírito imortal irá se apossar e consumir seus corpors, deixando-os sem “forma”, quer eles optem por ir para Valinor ou permanecer na Terra-média. No fim do mundo, todos os Elfos terão de se tornar invisíveis aos olhos mortais, exceto aqueles que desejarem se manifestar. Tolkien chamou os Elfos da Terra-média que escolheram esse processo de “Persistentes”. As vidas dos Elfos apenas duram enquanto o mundo existir. É dito na Segunda Profecia de Mandos que ao final dos tempos os Elfos se juntarão aos outros Filhos de Ilúvatar na canção da Segunda Música dos Ainur. Todavia, é questionável se a Profecia é canônica, e a publicação de O Silmarillion afirma que apenas os Homens deverão participar da Segunda Música, e que o destino final dos Elfos é desconhecido. Porém, eles não acreditam que Eru irá abandoná-los.

Nomes e Convenções de nomeação.

Em O Senhor dos Anéis, Tolkien se faz passar por meramente um tradutor das memórias de Bilbo e Frodo, coletivamente conhecidas como o “Livro Vermelho do Marco Oeste”. Ele diz que aqueles nomes e termos no trabalho (assim como na primeira versão de O Hobbit) que aparecem em Inglês é para serem suas traduções da Língua Comum. Tolkien repetidamente expressou suas dúvidas em relação ao nome “elfo” e suas “associações de um tipo que eu deveria particularmente desejar não estar presente […] e.g. aqueles de Drayton ou de Um Sonho de Uma Noite de Verão“, para o propósito das traduções afirmando sua preferência de que “a forma mais velha disponível do nome a ser usado, e deixar que ele adquirisse suas próprias associações para os leitores do meu conto“. Ele queria evitar as noções Vitorianas de “fadas” ou más impressões associadas à palavra e buscava as mais elevadas noções de seres “que eram supostos a terem formidáveis poderes mágicos na primeira mitologia Teutônica“(OED viz. o Velho Inglês ælf, do Proto-Germânico *albo-z).
Os Elfos também são chamados de “Primogênitos” (em Quenya Minnónar) ou os “Parentes mais Velhos” (como oposto aos Homens, os Sucessores) pois eles foram “despertados” antes dos Homens por Eru Ilúvatar (Deus). Os Elfos se chamaram de Quendi (“os Falantes”), em honra ao fato de que, quando foram criados, eles foram as únicas criaturas vivas capazes de falar. Os Dúnedain os chamaram de Nimîr (“os Belos”), enquanto seu nome comum em Sindarin era Eledhrim. Em outros escritos, parte de The History of Middle-earth, Tolkien detalha as convenções de nomes Élficos. A palavra Quenya para “nome” era essë. Um Elfo de Valinor tipicamente recebia um nome (ataressë) de seu pai ao nascer. Geralmente refletia o nome do pai ou da mãe, indicando a ascendência da pessoa, à qual mais tarde alguns prefixos distintivos poderiam ser adicionados. Com o Elfo ficando mais velho, ele recebia um segundo nome (amilessë), dado pela mãe. Esse nome era extremamente importante e refletia personalidade, habilidade ou destino, algumas vezes era ‘profético’. O terceiro nome (epessë) ou “nome definitivo” era dado em um estágio mais avançado da vida e não necessariamente por algum parente, como um título de admiração e honra. Em algumas circunstâncias, mais um outro nome era escolhido pelos próprios Elfos, chamado de kilmessë que significa “nome-próprio”. Os “nomes verdadeiros” permaneciam como os dois primeiros, embora um Elfo pudesse ser chamado por qualquer um deles. Nomes de mãe geralmente não eram usados por aqueles que não conheciam bem o Elfo. Na história e canção recente qualquer um dos quatro puderia se tornar o mais usado e reconhecido.
Após o seu Exílio na Terra-média e adoção do Sindarin como a fala diária, muitos dos Noldor também escolheram para sí um nome que se encaixava no estilo daquela linguagem, traduzindo ou alterando um de seus nomes Quenya. Um sobrenome patriarquico também é usado – o nome do pai com o sufixo “-ion” sendo adicionado. Dessa forma, Gildor Inglorion significa “Gildor, filho de Inglor”.
Vários exemplos incluem:
  • Galadriel é a tradução Sindarin de Alatáriel, o Telerin Quenya epessë originalmente dado à ela por Celeborn, que significa “Donzela Coroada por uma Grinalda Radiante”. Seu nome-paterno é Artanis (mulher nobre) e seu nome-materno é Nerwen (donzela-homem).
  • Maedhros, o filho mais velho de Fëanor, foi chamado Russandol (cabelo de cobre) por seus irmãos: Ele adquiriu esse epessë por causa de seu cabelo avermelhado. Seu nome-paterno era Nelyafinwë (Finwë Terceiro: o nome-paterno de Fëanor era (Curu)Finwë), e seu nome-materno Maitimo (o de bela forma). Maedhros é uma mistura no Sindarin de partes de seu nome-materno e seu epessë.
  • Finrod é geralmente conhecido como Felagund (cavador de cavernas), um nome que os Anões deram a ele (originalmente Felakgundu) devido à suas moradas em Nargothrond. Finrod adotou o nome, e fez dele um título de honra.
  • Círdan (Armador de Navios) é o epessë de um Elfo Telerin que permaneceu em Beleriand, e mais tarde Lindon, até o fim da Terceira Era. Seu nome original era raramente lembrado, apenas em tradições, como Nowe, e ele era conhecido sempre como Círdan, um título que havia sido dado a ele como Senhor das Falas.
Linguagens Élficas
Tolkien criou muitas linguagens para os Elfos. Seu interesse era primeiramente filológico, e ele disse que suas estórias cresceram a partir de suas linguagens. De fato, as linguagens foram a primeira coisa que Tolkien havia criado para seus mitos, começando com o que ele originalmente chamou “Qenya”, a primeira forma primitiva de Élfico. Essa foi chamada mais tarde de Quenya (Alto Élfico) e, junto com Sindarin (Élfico Cinzento), é uma das mais completas linguagens de Tolkien. Em adição à essas duas ele também criou muitas outras (parcialmente derivadas) linguagens. Elfos também são tidos como os criadores dos escritos rúnicos Tengwar (por Fëanor) e Cirth (Daeron).

Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português

A Lenda do Despertar dos Quendi (Cuivienyarna)

sil-cuivienenEnquanto seus primeiros corpos estavam sendo feitos da “carne de Arda”, os quendi dormiam “no seio da terra”, debaixo  do verde gramado, e despertaram quando tornaram-se adultos. Mas os Primeiros Elfos [também chamados de Não-Nascidos, ou Nascidos de Eru] não acordaram todos ao mesmo tempo. Eru havia então determinado que cada um deveria estar ao lado de seu/sua “parceiro[a] destinado”. Mas três elfos despertaram antes de todos, e eles eram elfos homens, pois elfos homens são mais fortes fisicamente e mais ávidos e aventureiros em lugares estranhos. Estes três pais elfos são chamados nos contos antigos Imin, Tata e Enel. Eles despertaram nessa ordem, mas com pouca diferença de tempo entre cada um; e a partir deles, dizem os eldar, as palavras um, dois e três foram feitas: os mais antigos de todos os numerais.*

* As palavras eldarin a que se refere são min, atta [ou tata] e nel. O oposto é provavelmente histórico. Os Três não possuiam nomes até que desenvolveram uma linguagem, e nomes foram dados [ou tomados] após eles terem desenvolvidos numerais [ou pelo menos os doze primeiros].

Imin, Tata e Enel despertaram antes de suas esposas,e a primeira coisa que eles viram foram as estrelas, pois acordaram no crespúsculo anterior ao amanhecer. E a próxima coisa que viram foram suas esposas destinadas dormindo no gramado verde junto a eles. Eles então ficaram tão encantados com a beleza delas que seu desejo pela fala foi imediatamente acelerado e eles começaram a “pensar em palavras” para falar e cantar. E sendo impacientes, eles não podiam esperar, então acordaram suas esposas. Assim, os eldar dizem, a primeira coisa que cada mulher elfo viu foi seu esposo, e seu amor por ele foi seu primeiro amor; e seu amor e admiração pelas maravilhas de Arda veio posteriormente.

Ora, depois de um tempo, no qual viveram juntos, e inventaram muitas palavras, Imin e Iminyë, Tata e Tatië, Enel e Enelyë caminharam juntos, e deixaram o verde gramado de seu despertar, e logo eles chegaram a outro gramado ainda maior e lá encontraram seis casais de quendi, e as estrelas estavam mais uma vez brilhando no crepúsculo e os elfos homens estavam nesse momento despertando.

Então Imin declarou ser o mais velho e ter o direito da primeira escolha; e ele disse: “Eu escolho estes doze para serem meus companheiros.” E os elfos homens acordaram suas esposas, e tendo vivido juntos por um tempo e aprendido muitas palavras e inventado mais, eles caminharam juntos e logo, em outro vale ainda mais profundo e mais amplo, encontraram nove casais de quendi, e os elfos homens recém haviam acordado sob a luz das estrelas.

Então Tata reclamou o direito da segunda escolha, e ele disse: “Eu escolho estes dezoito para serem meus companheiros.” Então novamente os homens elfos acordaram suas esposas, e eles moraram e falaram juntos, e criaram muitos novos sons e palavras mais longas; e então os trinta e seis caminharam para o exterior juntos, até chegarem a um bosque de bétulas por um rio, e lá eles encontraram doze casais de quendi, e os elfos homens estavam de pé da mesma forma, e olhavam para as estrelas através dos ramos das bétulas.

Então Enel reclamou o direito da terceira escolha, e ele disse: “Eu escolho estes vinte e quatro para serem meus companheiros.” Novamente os elfos homens acordaram suas esposas; e por muitos dias os sessenta elfos moraram à margem do rio, e logo eles começaram a fazer versos e canções para a música da água.

Por fim, mais uma vez todos partiram juntos. Mas Imin notou que cada vez eles encontravam mais quendi do que antes, e ele pensou consigo mesmo: “Eu tenho apenas doze companheiros [embora eu seja o mais velho]; Farei uma nova escolha .” Em pouco tempo eles chegaram a um bosque de abetos na encosta de uma colina, e lá encontraram dezoito casais de quendi, e todos ainda estavam dormindo. Ainda era noite e havia nuvens no céu. Mas antes do amanhecer um vento chegou, e instigou os elfos homens, e eles despertaram e ficaram impressionados com as estrelas; pois todas as nuvens foram sopradas e as estrelas brilhavam de leste a oeste. E por muito tempo os dezoito novos quendi não prestaram atenção aos outros, mas olharam para as luzes de Menel. Mas quando, por fim, voltaram seus olhos novamente para a terra, eles contemplaram suas esposas e acordaram-nas para que olhassem para as estrelas, gritando-lhes elen, elen! E então as estrelas receberam seu nome.

Ora, Imin disse: “Eu ainda não escolherei”; e Tata, então, escolheu estes trinta e seis para serem seus companheiros; e eles eram altos e de cabelos negros e fortes como abetos, e deles a maioria dos noldor posteriormente originou-se.

E os noventa e seis quendi conversaram entre si, e os recém-despertos inventaram muitas palavras novas e belas, e muitos artifícios de linguagem interessantes; e eles riram, e dançaram sobre a encosta da colina, até que finalmente desejaram encontrar mais companheiros. Então todos partiram juntos novamente, até que chegaram a um lago escuro no crepúsculo; e havia um grande penhasco próximo a ele no lado leste, e uma cachoeira descia do alto, e as estrelas reluziam na espuma. Mas os elfos homens já estavam se banhando na cachoeira, e eles haviam despertado suas esposas. Havia vinte e quatro casais; mas até o momento eles não possuiam uma linguagem formada, embora cantassem docemente e suas vozes ecoassem nas pedras, misturando-se com o ímpeto das quedas d’água.

Mas novamente Imin conteve sua escolha, pensando “na próxima vez será uma companhia maior”. Porém Enel disse: “Eu tenho a escolha, e eu escolho estes quarenta e oito para serem meus companheiros.” E os cento e quarenta e quatro quendi por muito tempo moraram próximo ao lago, até que todos adquiriram as mesmas vontades e a mesma linguagem, e estavam alegres.

Por fim Imin disse: “Agora é a hora na qual devemos prosseguir e procurar mais companheiros.” Mas a maior parte dos outros estava satisfeita. Então Imin e Iminyë e seus doze companheiros partiram, e muito vagaram durante o dia e durante o crepúsculo na região ao redor do lago, próximo ao qual todos os quendi haviam despertado – por esta razão ele é chamado Cuiviénen. Mas eles nunca encontraram mais companheiros, pois o conto dos Primeiros Elfos estava completo.

E assim era que os quendi sempre contavam às dúzias, e que 144 foi por muito tempo seu número mais alto, tal que em nenhuma de suas línguas posteriores havia um nome comum para um número maior. E também sucedeu-se que os “Companheiros de Imin” ou a Companhia Mais Velha [da qual vieram os vanyar] eram, apesar de tudo, apenas quatorze ao todo, e a menor companhia; e os “Companheiros de Tata” [dos quais vieram os noldor] eram cinqüenta e seis ao todo; mas os “Companheiros de Enel”, embora fossem a Companhia Mais Jovem, era a maior; deles vieram os teleri [ou lindar], e no início eles eram setenta e quatro ao todo.

Ora, os quendi amavam toda Arda que eles já haviam visto, e coisas verdes que brotavam e o sol de verão eram seu deleite; mas apesar de tudo, eles sempre foram mais tocados no coração pelas estrelas, e as horas de crepúsculo em tempo bom, ao “amanhecer” e ao “anoitecer”, eram as horas de seu maior prazer. Pois nestas horas na primavera do ano, eles despertaram pela primeira vez para a vida em Arda. Mas os lindar, acima de todos os outros quendi, desde o seu princípio eram mais apaixonados pela a água, e cantavam antes que pudessem falar.

Famosa lenda do Despertar dos Elfos, em forma e estilo de Conto de Fadas.

Leis e Costumes entre os Eldar

Leis e costumes entre os Eldar pertinentes ao casamento e a outros assuntos relacionados a isso: junto com o Estatuto de Finwë e Míriel e o debate dos Valar à sua realização

LEIS E COSTUMES ENTRE OS ELDAR PERTINENTES AO CASAMENTO E A OUTROS ASSUNTOS RELACIONADOS A ISSO: JUNTO COM O ESTATUTO DE FINWË E MÍRIEL E O DEBATE DOS VALAR À SUA REALIZAÇÃO


Preâmbulo de Ælfwine


[Os eldar cresciam em forma física mais lentamente que os homens, porém com mais rapidez em mente. Eles aprendiam a falar antes de completarem um ano de idade; e ao mesmo tempo eles aprendiam a andar e dançar, pois suas vontades logo vinham ao domínio de seus corpos. Na verdade, havia poucas diferenças entre as duas Famílias, elfos e homens, na infância; e um homem que observasse crianças élficas brincando, poderia muito bem acreditar que elas fossem filhas de homens, de algum povo belo e feliz. Pois nos seus primeiros dias, as crianças élficas deleitavam-se constantemente com o mundo ao redor delas, e o fogo de seus espíritos não as havia consumido ainda, e o fardo da memória ainda era leve sobre elas.

Este mesmo observador poderia ter se assombrado com a estatura e os pequenos membros destas crianças, ao julgar suas idades por suas habilidades com as palavras e graça ao mover-se. Pois ao final do terceiro ano, as crianças mortais começavam a superar os elfos rapidamente em estatura máxima, enquanto os elfos cresciam lentamente na primeira parte da infância. Os Filhos dos Homens podiam alcançar sua altura máxima enquanto os eldar da mesma idade ainda eram fisicamente como mortais de não mais que sete anos de idade. Os eldar não atingiam a estatura e forma, nas quais suas vidas seriam suportadas posteriormente, até o quinquagésimo ano, e algumas centenas de anos passavam antes que se tornassem adultos.]

1 – Do Casamento

Os eldar casavam-se em sua maioria na juventude e logo após o quinquagésimo ano. Eles tinham poucos filhos, mas estes eram muito caros a eles. Suas famílias, ou casas, eram mantidas unidas por amor e por um sentimento profundo pelo parentesco em mente e corpo; e as crianças necessitavam de pouca supervisão ou ensinamentos. Era raro haver mais de quatro crianças em cada casa, e o número crescia menos com o passar das eras; mas nos dias antigos, enquanto os eldar eram poucos e ansiavam por aumentar sua raça, Fëanor foi renomado por ser pai de sete filhos, e as histórias não mencionam ninguém que o tenha superado.

Os eldar casavam-se apenas uma vez em vida, e por amor ou pelo menos por livre vontade de cada parte. Mesmo quando nos dias posteriores, como as histórias revelam, muitos dos eldar na Terra-média tornaram-se corrompidos, e seus corações escurecidos pela sombra que estedia-se sobre Arda, raramente qualquer conto fala de atos de luxúria entre eles.

O casamento, salvo por raros males ocasionais ou por estranhos destinos, era o curso natural da vida de todos os eldar. Acontecia dessa maneira. Aqueles que posteriormente se casariam podiam escolher um ao outro ainda na juventude, mesmo como crianças [e de fato isto acontecia freqüentemente em dias de paz]; mas a não ser que eles desejassem logo estarem casados e fossem da idade apropriada, o noivado aguardaria o julgamento dos pais de ambas as partes.

A seu devido tempo, o noivado era anunciado em um encontro das duas casas envolvidas, e os noivos entregavam alianças de prata um ao outro. De acordo com as leis dos eldar, este noivado estava então comprometido a durar pelo menos um ano, e freqüentemente durava mais. Durante este período, ele poderia ser anulado por um retorno público das alianças, sendo as alianças então derretidas e não usadas novamente para um noivado. Tal era a lei; mas o direito de anulação era raramente usado, pois os eldar não erravam levianamente em tal escolha. Eles não são enganados facilmente pela sua própria raça; e sendo seus espíritos senhores de seus corpos, eles são raramente dominados apenas pelos desejos do corpo, pois eles são por natureza firmes e inabaláveis.

Apesar de tudo, entre os eldar, mesmo os de Aman, o desejo pelo casamento não era sempre realizado. Amor não era sempre correspondido; e mais de um poderia desejar outra por esposa. Cientes disto, o único motivo pelo qual a mágoa entrou na bem-aventurança de Aman, os valar ficaram em dúvida. Alguns sustentavam que isto vinha do desfiguramento de Arda, e da Sombra sob a qual os eldar despertaram; pois daí [eles diziam] vinha somente pesar e desordem. Alguns sustentavam que isto vinha do próprio amor, e da liberdade de cada fëa, e era um mistério da natureza dos Filhos de Eru.

Após o noivado, cabia aos noivos indicar a época de seu casamento, quando pelo menos um ano tivesse passado. Então em um banquete, novamente compartilhado pelas duas casas, o matrimônio era celebrado. Ao final do banquete, os noivos levantavam-se, e a mãe da noiva e o pai do noivo juntavam as mãos do casal e os abençoavam. Pois esta benção era uma forma solene, mas nenhum mortal jamais a presenciou; contudo, os eldar dizem que Varda era nomeada como testemunha pela mãe e Manwë pelo pai; e que além disso o nome de Eru era pronunciado [como raramente fora feito em outras épocas]. Os noivos então recebiam de volta um do outro suas alianças de prata [e as entesouravam]; mas eles davam em troca finos anéis de ouro, que eram colocados no dedo indicador da mão direita.

2 – Dos Nomes

Esta é a maneira pela qual o nome dos filhos era obtido entre os noldor. Logo após o nascimento, a criança era nomeada. Era o direito do pai escolher este primeiro nome, e era ele que anunciava o nome para os parentes da criança de ambos os lados. Este é chamado, por este motivo, o nome-pai, e este vinha primeiro, se outros nomes fossem adicionados posteriormente. Ele permanecia inalterado*, pois ele não recaia na escolha da criança.

* Exceto por mudanças como as que aconteciam na sua forma falada com o passar dos longos anos; pois [como é contado em outro lugar] mesmo as línguas dos eldar estavam sujeitas à mudanças.

Mas cada criança entre os noldor [neste ponto, talvez, eles diferiam dos outros eldar] tinha também o direito de dar um nome à si mesma. Ora, a primeira cerimônia, o anúncio do nome-pai, era chamada Essecarmë ou “Criação do Nome”. Posteriormente, havia outra cerimônia chamada Essecilmë ou “Escolha do Nome”. Esta acontecia sem uma data fixa após a Essecarmë, mas não podia acontecer antes da criança ser considerada pronta e capaz de lámatyávë, como os noldor chamavam: isto é, de satisfação individual nos sons e formas das palavras. Os noldor eram, de todos os eldar, os que adquiriam mais rapidamente o domínio das palavras; mas mesmo entre eles, poucos, pelo menos antes do sétimo ano, tornavam-se completamente cientes de sua lámatyávë, ou tinham ganho domínio completo da linguagem herdada e sua estrutura, assim como expressar essa tyávë habilmente dentro de seus limites. A Essecilmë, portanto, o objeto o qual era a expressão desta característica pessoal**, geralmente acontecia no, ou próximo do, décimo ano.

** Esta lámatyávë era tida como uma marca de individualidade e, de fato, mais importante do que outras, como estatura, cor, e traços faciais.

Em tempos antigos, o “Nome Escolhido”, ou segundo nome, era geralmente idealizado despreocupadamente e, embora moldado conforme a estrutura da linguagem da época, ele freqüentemente não possuia sentido prévio. Em eras posteriores, quando havia uma grande abundância de nomes já em existência, ele era mais freqüentemente selecionado a partir de nomes que eram conhecidos. Mas, ainda assim, alguma modificação do antigo nome podia ser feita.

Ora, estes dois nomes, o nome-pai e o nome escolhido, eram “nomes verdadeiros”, não apelidos; mas o nome-pai era público, e o nome escolhido era privado, especialmente quando usado sozinho. Privado, não secreto. Os nomes escolhidos eram considerados pelos noldor como parte de sua propriedade pessoal, como [dizem] seus anéis, taças, ou facas, ou outras possessões que eles pudessem emprestar, ou partilhar com a família e amigos, mas que não podiam ser pegos sem permissão. O uso do nome escolhido, exceto por membros da mesma casa [pais, irmãs e irmãos], era um sinal de estreita intimidade e amor, quando permitido. Era, portanto, atrevimento ou um insulto usá-lo sem permissão.***

*** Este sentimento não tinha, assim, nada a ver com “magia” ou com tabus, como são encontrados entre os homens.

Uma vez que, entretanto, os eldar eram por natureza imortais dentro de Arda, mas não eram absolutamente imutáveis, após algum tempo alguém poderia desejar um novo nome.† Ele podia então criar para si mesmo um novo nome escolhido. Mas este não anulava o nome anterior, que permanecia parte do “título completo” de qualquer noldo: esta é a seqüência de todos os nomes que foram adquiridos no decorrer da vida.

† Os eldar sustentavam que, à parte dos casos de doença e da destruição de seus corpos eles podiam, no decorrer de seus anos, exercitar e aproveitar todos os variados talentos de sua raça, de habilidade ou de tradição, embora em ordem e graus diferentes. Com tais mundaças de “modo mental” ou inwisti, sua lámatyávë também podia mudar. Mas tais mudanças ou progressões eram na verdade vistas principalmente entre os neri, pois as nissi, ainda que alcançassem a maturidade mais cedo, permaneciam então mais estáveis e menos desejosas por mudanças. [De acordo com os eldar, a única “marca” de qualquer pessoa que não estava sujeita a mudança era a diferença de sexo. Pois isto eles acreditavam pertencer não somente ao corpo [hröa], mas também à mente [indo] igualmente: isto é, à pessoa como um todo. Esta pessoa ou indivíduo, eles freqüentemente chamavam essë [que é “nome”], mas ela também era chamada erdë, ou “singularidade”. Aqueles que retornavam de Mandos, entretanto, após a morte de seu primeiro corpo, retornavam sempre ao mesmo nome e ao mesmo sexo como anteriormente.]

Estas mudanças deliberadas do nome escolhido não eram freqüentes. Havia outra fonte da variedade de nomes usados por qualquer um dos eldar, que na leitura de suas histórias, pode parecer-nos confusa. Esta era encontrada nos Anessi: os nomes dados ou adicionados]. Destes, os mais importantes eram os chamados “nomes-mãe”. As mães freqüentemente davam aos seus filhos nomes especiais de sua própria escolha. Os mais notáveis destes eram os “nomes de discernimento”, essë tercenyë, ou de “previdência”, apacenyë. Na hora do nascimento, ou em alguma outra ocasião de momento, a mãe podia dar um nome ao seu filho, indicando alguma característica dominante de sua natureza percebida por ela, ou alguma visão de seu destino especial. Estes nomes tinham autoridade, e eram considerados nomes verdadeiros quando conferidos solenemente, e eram públicos, não privados, se postos [como às vezes era feito] imediatamente após o nome-pai.

Todos os outros “nomes dados” não eram nomes autênticos e, de fato, podiam não ser reconhecidos pela pessoa a qual eles eram aplicados, a menos que eles fossem adotados ou dados a si próprio. Nomes, ou apelidos desse tipo, podiam ser dados por qualquer pessoa, não necessariamente por membros da mesma casa ou família, em memória de alguma façanha, ou evento, ou em sinal de alguma característica marcante de corpo ou mente. Eles raramente eram incluídos o “título completo”, mas quando o eram, por causa de seu amplo uso e fama, eles eram postos no final em alguma forma como esta: “por alguns chamado Telcontar” [que é Passolargo]; ou “às vezes conhecido como Mormacil” [que é Espada Negra].

Os amilessi tercenyë, ou nomes-mãe de discernimento, tinham uma posição elevada, e no uso geral substituíam algumas vezes, tanto dentro como fora da família, o nome-pai e o nome escolhido, embora o nome-pai [e o escolhido, entre aqueles dos eldar que tinham o costume da essecilmë] permanecesse sempre o nome verdadeiro ou primário, e uma parte necessária de qualquer “título completo”. Os “nomes de discernimento” eram dados mais frequëntemente nos dias antigos dos eldar, e naquela época eles caiam mais facilmente no uso público, pois ainda era o costume o nome-pai de um filho ser a modificação do nome do pai [como Finwë/Curufinwë] ou um patronímico [como Finwion “filho de Finwë”]. O nome-pai de uma filha era freqüentemente derivado do nome da mãe.

Exemplos célebres destas situações são encontrados nas histórias antigas. Assim Finwë, primeiro senhor dos noldor, primeiramente chamou seu filho mais velho de Finwion; mas posteriormente, quando seu talento foi revelado, este foi modificado para Curufinwë. Mas seu nome de discernimento que sua mãe Míriel lhe deu na hora do nascimento foi Fëanáro, “Espírito de Fogo”††, e por este nome ele tornou-se conhecido por todos, e assim ele é chamado em todas as histórias. [É dito que ele também tomou este nome como seu nome escolhido, em honra de sua mãe, que ele nunca viu.] Elwë, senhor dos teleri, tornou-se muito conhecido pelo anessë ou nome dado Sindicollo,”Manto Cinzento”, e daí em diante, na forma modificada da língua sindarin, ele foi chamado Elu Thingol. Thingol, de fato, era o nome mais usado para ele por outros, embora Elu ou Elu-thingol permanecesse seu título correto no seu próprio reino.

†† Embora a forma Fëanor, que é a mais usada com freqüência, fosse uma combinação do quenya Fëanáro e do sindarin Faenor.

3 – Da Morte e a Separação do Fëa e Hröa

Deve ser compreendido que o que já foi dito a respeito da casamento eldarin refere-se à sua natureza e curso normal em um mundo não-desfigurado, ou aos costumes daqueles não-corrompidos pela Sombra e aos dias de paz e ordem. Mas nada, como foi dito, evita completamente a Sombra sobre Arda ou é completamente intocado, a fim de prosseguir inabalado em seus caminhos naturais. Nos Dias Antigos, e nas eras anteriores ao Domínio dos Homens, houve épocas de grande dificuldade e muitos sofrimentos e acasos malígnos. E a morte atingiu todos os eldar, como o fez a todas as coisas vivas em Arda, salvo apenas os valar: pois a forma visível dos valar origina-se de sua própria vontade e com o intuito de tornar o seu verdadeiro ser mais parecido com as vestimentas de elfos e homens do que aos seus corpos.

Ora, os eldar são imortais dentro de Arda de acordo com sua própria natureza. Mas se um fëa [ou espírito] habita e mantém-se unido a um hröa [ou corpo físico] que não é de sua própria escolha mas sim ordenado, e é feito da carne ou substância da própria Arda, então o sucesso desta união seria vulnerável pelos males que infligem dor à Arda, mesmo se esta união fosse pela natureza e com propósito permanente. Pois a despeito desta união, que é de um tipo que, segundo a natureza não-desfigurada, nenhuma pessoa viva [encarnada] pode existir sem um fëa, nem sem um hröa, mesmo o fëa e o hröa não são a mesma coisa; e embora o fëa não possa ser partido ou desintegrado por qualquer violência exterior, o hröa pode ser ferido e completamente destruído.

Se então o hröa é destruído, ou tão ferido que sua saúde cesse, cedo ou tarde ele “morre”. Isto é: torna-se doloroso para o fëa habitá-lo, não sendo nem um auxílio à vida e à vontade, nem uma satisfação usá-lo, de forma que o fëa abandona-o e, sua função chegando a um fim, a coesão é desfeita, e ele retorna novamente à orma [matéria física] geral de Arda. Então o fëa torna-se, como no início, desabrigado, e fica invisível a olhos físicos [embora claramente perceptível pela consciência por outros fëar].

Esta destruição do hröa, causando a morte ou o desalojamento do fëa, foi logo experimentada pelos imortais eldar, quando despertaram no escurecido e desfigurado reino de Arda. Realmente, nos seus primeiros dias, a morte vinha mais facilmente, pois seus corpos eram então pouco diferentes dos corpos dos homens, e o domínio de seus espíritos sobre seus corpos menos completo.

Este domínio era, apesar de tudo, em qualquer época maior do que já foi entre os homens. Desde o início, a principal diferença entre os elfos e homens está no destino e na natureza de seus espíritos. Os fëar dos elfos eram destinados a habitar Arda por toda a vida de Arda, e a morte da carne não anulava este destino. Seus fëar eram tenazes por causa da vida “na vestimenta de Arda”, e de longe excediam os espíritos dos homens em poder sobre esta “vestimenta”, mesmo desde os primeiros dias, protegendo seus corpos de muitas enfermidades e agressões [tais como doenças], e curando-os rapidamente de ferimentos, de modo que eles recuperavam-se de ferimentos que mostravam-se fatais aos homens.

Com o passar das eras, o domínio de seus fëar sempre aumentava, “consumindo” seus corpos [como já foi mencionado]. O final desse processo é a sua “passagem”, como os homens o chamaram; pois o corpo torna-se finalmente, como o era, uma mera memória mantida pelo fëa; e este fim já foi alcançado em muitas regiões da Terra-média, de modo que os elfos são de fato imortais e não podem ser destruídos ou mudados. Tal o é que, quanto mais longe voltamos nas histórias, mais freqüentemente lemos sobre a morte dos elfos de antigamente; e nos dias quando as mentes dos eldalië eram jovens e ainda não totalmente despertas, a morte entre eles parecia diferir pouco da morte dos homens.

O que acontecia então ao fëa desabrigado? A resposta a esta pergunta os elfos não sabiam por natureza. Nos seus primórdios [assim eles relatam] eles acreditavam, ou imaginavam, que eles “entravam no Nada”, e terminavam como as outras coisas vivas que conheciam, mesmo como uma árvore que fora derrubada e queimada. Outros imaginavam mais sombriamente que eles passavam para o “Reino da Noite” e para o poder do “Senhor da Noite”. Essas opiniões eram claramente derivadas da Sombra sob a qual eles despertaram; e foi para libertá-los desta sombra em suas mentes, mais do que dos perigos de Arda desfigurada, que os valar desejaram levá-los para a luz de Aman.

Foi em Aman que aprenderam de Manwë que cada fëa era imperecível dentro da vida de Arda, e que seu destino era habitar Arda até o seu fim. Aqueles fëar, portanto, que no desfiguramento de Arda sofreram uma separação anormal de seus hröar, ainda permaneciam em Arda e no Tempo. Mas neste estado, eles estavam abertos à instrução e comando direto dos valar. Tão logo estivesem sem corpo, eles eram convocados a deixar os lugares de sua vida e morte e ir para os “Salões da Espera”: Mandos, no reino dos valar.

Se obedecessem a esta convocação, diferentes oportunidades apresentariam-se diante deles. O tempo que eles ficavam na Espera dependia parte da vontade de Námo, o Juiz, senhor de Mandos, parte de sua própria vontade. A maior das felicidades, eles julgavam, era após a Espera, renascer, pois então o mal e a tristeza que sofreram no encurtamento de seu curso natural podia ser reparado.

4 – Renascimento e outros destinos daqueles que vão para Mandos

Ora, os eldar diziam que, para cada criança élfica, um novo fëa é dado, não aparentado aos fëar dos pais [exceto pertencer à mesma ordem e natureza]; e este fëa ou não existia antes do nascimento, ou é o fëa de alguém renascido.

O novo fëa, e portanto no seu início todos os fëar, eles acreditavam vir diretamente de Eru e de além de Ëa. Logo, muitos deles sustentavam que não podia se afirmado que o destino dos elfos é estar confinado em Arda eternamente e com ela cessar sua existência. Esta última opinião eles inferiram de seu próprio pensamento, pois os valar, não tomando parte na concepção dos Filhos de Eru, não sabem completamente os propósitos de Eru a respeito deles, nem os objetivos finais que ele prepara para eles.

Mas eles não chegaram a estas opiniões de uma vez ou sem discordância. Em sua juventude, enquanto seu conhecimento e experiência eram pequenos e ainda não haviam recebido a instrução dos valar [ou não a tinham compreendido completamente], muitos ainda sustentavam que na criação de sua raça, Eru entregou-lhes este poder: gerar crianças iguais a eles em todos os aspectos, corporal e espiritualmente; e que, portanto, o FEA de uma criaça vinha de seus pais, assim como o hröa.

Contudo, alguns sempre discordaram dizendo: “De fato, uma pessoa viva pode parecer-se com os pais e ser vista como uma combinação, em vários graus, destes dois; mas esta semelhança é mais logicamente relacionada ao hröa. Ele é mais forte e mais nítido na juventude, enquanto o corpo é dominante e mais semelhante aos corpos de seus pais.” [Isto é verdadeiro para todas as crianças élficas.] “Visto que em todas as crianças, apesar de que em algumas possa ser mais marcante e logo aparente, existe uma parte da personalidade não compreendida pelo parentesco, ao qual pode ser inteiramente contrária. Esta diferença é mais claramente atribuída ao fëa, novo e não aparentado com os pais; pois ela torna-se mais forte e mais clara enquanto a vida prossegue e o fëa aumenta em supremacia.”

Posteriormente, quando os eldar tornaram-se cientes do renascimento, este argumento foi adicioado: “Se os fëar das crianças fossem normalmente derivados dos pais e a eles aparentados, então o renascimento seria antinatural e injusto. Pois ele privaria os novos pais, sem consentimento, de metade de sua linhagem, colocando em sua família uma criança em parte estranha a eles.”

Apesar de tudo, a opinião mais antiga não foi totalmente invalidada. Pois todos os eldar, estando cientes disto em si próprios, falavam da passagem de muita força, mental e corporal, para suas crianças, na concepção e no nascimento. Logo, eles sustentavam que o fëa, embora não criado, extrai energia dos pais antes do nascimento da criança: diretamente do fëa da mãe enquanto ela carrega e nutre o hröa, e igualmente através do pai, cujo fëa está unido com o da mãe e o suporta.

Era por esta razão que todos os pais desejavam viver juntos no ano da gestação, e consideravam a separação nessa época como uma tristeza e aflição, privando a criança de uma parte de sua família. “Pois”, diziam eles, “apesar da união dos fëar do casal não ser quebrada pela distância de lugares, mesmo em criaturas que vivem como espíritos encarnados, fëa somente comuna com fëa em sua totalidade quando os corpos estão juntos”.

Um fëa desabrigado que escolhera, ou ao qual fora permitido retornar à vida, entrava novamente no mundo encarnado através do parto. Somente desse modo ele poderia retornar.* Pois é evidente que a provisão de um lar corpóreo para o fëa, e a união do fëa com o hröa, era feita por Eru aos Filhos, para ser completada no ato da concepção.

* Salvo em raros e estranhos casos: isto é, onde o corpo que o fëa tivesse abandoado fosse intacto, e ainda permanecesse coeso e incorrupto. Mas isto poderia raramente acontecer; pois a morte contra a vontade somente podia ocorrer quando uma grande violência fosse causada ao corpo; e na morte pela vontade, tal como ocasionalmente acontecera por causa de cansaço absoluto ou grande pesar, o fëa não desejaria retornar, até que o corpo, deixado pelo espírito, estivesse dissolvido. Isto acontecia rapidamente na Terra-média. Somente em Aman não havia deterioração. Assim, Míriel lá foi realojada em seu próprio corpo, como é contado mais adiante.

Quanto a esse renascimento, ele não era uma opinião, mas conhecido e certo. Pois o fëa renascido de fato torna-se uma criança, desfrutando uma vez mais de todas as maravilhas e novidades da infância; mas lentamente, e somente após ter adquirido um conhecimento do mundo e o domínio de si mesmo, sua memória despertaria; até que, quando o elfo renascido fosse adulto, recordasse toda sua vida anterior, e então a antiga vida, e a “espera”, e a nova vida tornassem-se uma identidade e uma história ordenada. Esta memória possuiria assim uma satisfação dobrada pela infância, e também uma experiência e conhecimento maiores do que os anos de seu corpo. Deste modo, a violência ou pesar que o renascido sofrera eram reparados e seu ser era enriquecido. Pois os renascidos são duplamente instruídos e duplamente aparentados**, e possuem duas memórias da alegria de despertar e descobrir o mundo dos vivos e o esplendor de Arda. Sua vida é, portanto, como se um ano tivesse duas primaveras e, embora um frio fora de época seguisse-se após a primeira, a segunda primavera e todos os verões posteriores eram mais belos e abençoados.

** Em alguns casos, um fëa renascido poderia novamente ter os mesmos pais. Por exemplo, se seu primeiro corpo tivesse morrido muito jovem. Mas isto não acontecia freqüentemente; nem um fëa reingressava necessariamente na sua antiga família [ou casa], pois normalmente um grande espaço de tempo passava-se antes que desejasse ou lhe fosse permitido retornar.

Os eldar dizem que o renascimento por mais de uma vez é raramente registrado. Mas as razões para isto eles não sabem completamente. Talvez, seja ordenado pela vontade de Eru; enquanto os renascidos [eles dizem] são mais fortes, possuindo maior domínio de seus corpos e sendo mais resignados quanto ao sofrimento. Mas muitos, sem dúvida, que tenham morrido duas vezes, não desejam retornar.

O renascimento não é o único destino dos fëar desabrigados. A Sombra sobre Arda não causava apenas infortúnios e danos ao corpo. Ela podia corromper a mente; e aqueles entre os eldar que foram escurecidos em espírito realizavam feitos não naturais, e eram capazes de ódio e malícia. Nem todos que morreram sofreram inocentemente. Além disso, alguns fëar pesarosos e cansados abandonavam a esperança e, afastando-se da vida, abdicavam de seus corpos, mesmo que estes pudessem ser curados ou estivessem de fato ilesos.*** Poucos destes posteriormente desejavam renascer, não até que ficassem um longo período na “espera”; alguns nunca retornavam. Dos outros, os culpados, muitos eram mantidos por muito tempo na “espera”, e a alguns não era permitido retomar suas vidas novamente.

*** Apesar das tristezas poderem ser grandes e completamente não merecidas, e a morte [ou particularmente o abandono da vida] pudesse ser, então, compreensível e inocente, dizia-se que a recusa de retornar à vida, após o repouso em Mandos, era um erro, mostrando uma fraqueza ou falta de coragem do fëa.

Pois havia, para todos os fëar dos Mortos, um período de Espera, no qual, como quer que tenham morrido, eles eram corrigidos, instruídos, fortalecidos, ou confortados, de acordo com suas necessidades ou merecimento. Se eles assim o consentissem. Mas o fëa em sua nudez é obstinado, e permanece vinculado à sua memória e aos seus antigos propósitos [especialmente se estes eram malignos].

Aqueles que eram curados poderiam renascer, se o desejassem: ninguém é renascido ou mandado de volta à vida contra a vontade. Os outros permaneciam, por desejo ou por ordem, fëar sem forma, e podiam apenas observar o desenrolar do Conto de Arda de longe, não tendo efeito algum neste. Pois era uma sentença de Mandos que apenas aqueles que retornavam à vida podiam operar em Arda, ou comunicar-se com os fëar dos Vivos, mesmo com aqueles que haviam sido caros a eles.

A respeito do destino de outros elfos. especialmente dos elfos-escuros que recusaram o chamado à Aman, os eldar pouco sabem. Os renascidos relatam que em Mandos existem muitos elfos, e entre eles muitos dos Alamanyar [no Silmarillion, Úmanyar], mas que há, nos Salões da Espera, pouca mistura ou comunicação de raça com raça ou, na verdade, de qualquer fëa com outro. Pois o fëa desabrigado é solitário por natureza, e somente volta-se na direção daqueles com os quais, talvez, tivesse formado fortes laços de amor em vida.

O fëa é único e, no final, impregnável. Ele não pode ser levado a Mandos. Ele é convocado; e a convocação procede apenas da autoridade, e é imperativa; ainda assim, ela pode ser recusada. Entre aqueles que recusaram a convocação [ou melhor dizendo, convite] dos valar à Aman nos primeiros anos dos elfos, recusas às convocações a Mandos e aos Salões da Espera são,os eldar dizem, freqüentes. Isto era menos freqüente, entretanto, nos dias antigos, enquanto Morgoth estava em Arda, ou seu servo Sauron depois dele; pois então o fëa desabrigado fugiria aterrorizado da Sombra para qualquer refúgio – a não ser que já estivesse comprometido com a Escuridão e passado ao seu domínio. De qualquer maneira, mesmo alguns daqueles dos eldar que tornaram-se corrompidos recusavam a convocação, e então possuiam pouco poder para resistir às contraconvocações de Morgoth.

Mas pareceria que nestes dias posteriores mais e mais elfos, sejam eles dos eldalië em origem, sejam de outras raças, que demoram-se agora na Terra-média recusam a convocação de Mandos, e vagam desabrigados no mundo†, negando-se a deixá-lo e incapazes de habitá-lo, assombrando árvores, fontes ou lugares ocultos que conheciam. Nem todos destes são amigáveis ou intocados pela Sombra. De fato, a recusa à convocação é em si um sinal de mácula.

† Pois apenas aqueles que desejavam ir a Mandos podiam renascer. O renascimento é uma graça, e vem do poder que Eru entregou aos valar para governar Arda e a reparação de seu desfiguramento. Ele não situa-se no poder de qualquer fëa em si. Somente retornam aqueles que, após Mandos ter pronunciado a sentença de liberação, Manwë e Varda abençoam.

É, portanto, algo imprudente e arriscado, além de ser um ato errado proibido justamente pelos Governantes de Arda, os vivos tentarem se comunicar com os desencarnados, embora os desabrigados possam desejá-lo, especialmente os mais indignos entre eles. Pois os desencarnados, vagando pelo mundo, são aqueles que no mínimo recusaram a porta da vida e continuaram pesarosos e auto-piedosos. Alguns são preenchidos com rancor, desgosto e inveja. Alguns eram escravizados pelo Senhor do Escuro e ainda fazem o seu trabalho, apesar de ele ter partido. Eles não dirão verdades ou sabedoria. Apelar-lhes é uma tolice. Tentar dominá-los e fazê-los servos da própria vontade de alguém é perversidade. Tais práticas são as de Morgoth; e os necromantes são da hoste de Sauron, seu servo.

Alguns dizem que os desabrigados desejam corpos, apesar de não quererem fazê-lo legalmente pela submissão ao julgamento de Mandos. Os perversos entre eles tomarão corpos, se puderem, contra a lei. O perigo de comunicar-se com eles não é, entretanto, apenas o risco de ser iludido por fantasias ou mentiras: há também o perigo da destruição. Pois algum dos famintos desabrigados, se lhe for permitido a amizade de alguém vivo, pode procurar expulsar o fëa de seu corpo; e no duelo pelo domínio, o corpo pode ser gravemente ferido, mesmo se não for arrancado de seu habitante de direito. Ou o desabrigado pode implorar por abrigo e, se lhe for concedido, então ele procurará escravizar seu hospedeiro e usar tanto sua vontade como seu corpo para seus próprios propósitos. É dito que Sauron realizou tais atos, e ensinou seus seguidores com fazê-los.

[Assim pode ser visto que, aqueles que em dias posteriores acreditam que os elfos são perigosos para os homens e que é estupidez ou reprovável procurar conversar com eles, não o dizem sem razão. Pois como, pode ser perguntado, pode um mortal distinguir as raças? De um lado, os desabrigados, rebelam-se pelo menos contra os Governantes, e talvez mesmo mais profundamente sob a Sombra; do outro, os hesitantes, cujas formas corpóreas não podem mais ser vistas por nós mortais, ou enxergadas apenas vagamente e esporadicamente. Mesmo assim a resposta, na verdade, não é difícil. O mal não é uma coisa entre os elfos e outra entre os homens. Aqueles que dão conselhos malignos, ou pronunciam-se contra os Governantes [ou se ousarem, contra o Uno], são corrompidos, e devem ser evitados, encarnados ou desencarnados. Além disso, os hesitantes não são desabrigados, embora possam parecer. Eles não desejam corpos, nem procuram abrigo, nem aspiram ao domínio sobre corpo ou mente. De fato, eles não procuram conversar com os homens de nenhuma maneira exceto, talvez, raramente, para o feito de algum bem, ou porque percebem no espírito de um homem algum amor pelas coisas antigas e belas. Então eles podem revelar-lhe suas formas [apesar de que talvez sua mente compreenda apenas exteriormente], e ele irá contemplá-los em sua beleza. Destes ele pode não ter medo, embora possa sentir um temor por eles. Pois os desabrigados não possuem formas para revelar, e mesmo se estivesse ao alcance de seus poderes [como alguns homens dizem] imitar formas élficas, iludindo as mentes dos homens com fantasias, tais visões seriam distorcidas pelo mal de seu intento. Pois os corações de homens verdadeiros enchem-se de alegria ao contemplar as verdadeiras imagens dos Primogênitos, sua família mais antiga; e esta alegria nenhum mal pode reproduzir. Assim falou Ælfwine.]

Uma nota sobre o Capí­tulo 22 Da Ruí­na de Doriath do Silmarillion publicado

[Nota do Tradutor: Texto de autoria de Christopher Tolkien, contido
no HoME 10. Junto ao texto “Sobre o parentesco de Gil-galad, já
traduzido e publicado na Valinor, este texto é essencial para o estudo
e quantificação da influência pessoal de Christopher Tolkien em “O
Silmarillion” publicado. O ponto-chave de ambos os textos não são as
minúcias sobre o real parentesco de Gil-galad ou qual a melhor solução
possível para “A Queda de Doriath” e sim a interferência pessoal
inserido por C. Tolkien em todo “O Silmarillion”, que é muito mais
ampla e intrusiva do que costuma-se imaginar. C. Tolkien não se
contenta com sua postura de editor dos textos do pai e assume um
indevido papel de co-autor, mas não vou me alongar sobre o assunto
neste momento pois o mesmo é merecedor de um ensaio especial e bem  mais cuidadoso a ser publicado dentro em breve na Valinor.]
Exceto por uns poucos detalhes em textos e notas não publicados, tudo que meu pai escreveu sobre o assunto da ruína de Doriath já foi
lançado: da história original no “Conto de Turambar” (HoME II.113-15) e no “Conto do Nauglafring” (HoME II.221 e próximas), passando pelo “Rascunho da Mitologia” (HoME IV.32-3, com comentários 61-3) e o “Quenta” (HoME IV. 132-4, com comentários 187-91), junto ao pouco que pode ser visualizado no “O Conto dos Anos” e em algumas poucas referências tardias. Se estes materiais forem comparados à história contada em “O Silmarillion” publicado percebe-se logo de início que este último foi fundalmentalmente alterado, para uma forma que emcertas características essenciais não existe referência alguma mesmo nos próprios escritos de meu pai.

Existem alguns problemas bastante evidentes com a antiga história. Se ele voltasse a trabalhar nela algum dia, meu pai sem dúvida encontraria alguma outra solução que não aquela no “Quenta” para a questão “Como o tesouro de Nargothrond foi levado a Doriath?”. Lá, a maldição que Mîm pôs sobre o ouro à sua morte “caiu sobre os seus possuidores. Cada um dos companheiros de Hurin morreu ou foi morto em lutas na estrada; mas Hurin foi a Thingol e pediu sua ajuda e o povo de Thingol levou o tesouro para as Mil Cavernas”. Como é dito no HoME IV.188, “isto arruína o gesto, se Hurin deve chegar diretamente ao rei para enviar o ouro com o qual então ele foi humilhado”. Parece para mim mais provável (mas isto é mera especulação) que o meu pai reintroduziria os fora-da-lei dos antigos Contos (HoME II.113-15,222-3) como os portadores do tesouro (mas não a dura batalha entre eles o os Elfos da Mil Cavernas): nos escritos desordenados ao final do “As Andanças de Hurin” Asgon e seus companheiros reaparecem após o desastre em Brethil e vão com Hurin a Nargothrond.

Como ele trataria o comportamento de Thingol com relação aos Anões é impossível dizer. A história só foi contada inteiramente uma vez, no Conto do Nauglafring, no qual a conduta de Tinwelint (precursor de Thingol) estava em completo desacordo com a concepção posterior do rei (ver HoME II.245-6). No “Rascunho da Mitologia” nada mais é dito sobre o assunto além de que os Anões foram “expulsos sem pagamento”, enquanto no “Quenta” “Thingol… não cumpriu adequadamente sua prometida recompensa por seus trabalhos; e palavras amargas surgiram entre eles, e houve uma batalha nos Salões de Thingol”. Parece não haver dicas ou pistas nos escritos posteriores (no “Conto dos Anos” a mesma frase é utilizada em todas as versões “Thingol discutiu com os Anões”), exceto uma encontrada nas palavras transcritas do “Sobre Galadriel e Celeborn”: Celeborn em sua versão da destruição de Doriath ignora a parte de Morgoth “e os próprios erros de Thingol”.

No “Conto dos Anos” meu pai parece não ter considerado o problema da passagem de um exército Anão para o interior de Doriath apesar do Cinturão de Melian, mas ao escrever as palavras “não pode” na versão D ele mostrou que ele considerava a história que delineou como impossível, por aquela mesma razão. Em outro local ele rascunhou uma possível solução: “De alguma forma deve ser delineado que Thingol foi atraído para fora ou foi à guerra além de suas bordas e lá foi morto pelos Anões. Então Melian parte e com o cinturão removido Doriath é destruída pelos Anões”.

Na história que aparece em “O Silmarillion” os fora-da-lei que vão a Nargothrond com Hurin foram removidos e também a maldição de Mîm; e o único tesouro que Hurin toma de Nargothrond é o Nauglamir – o qual aqui supõe-se feito para Finrod Felagund pelos Anões e que era o tesouro de Nargothrond ao qual eles davam maior valor. Hurin é representado como finalmente livre das ilusões inspiradas por Morgoth em seu encontro com Melian em Menegroth. Os Anões que incrustaram a Silmaril no Nauglamir já estavam em Menegroth, engajados em outros trabalhos e foram eles que mataram Thingol; e àquele tempo o poder de Melian foi retirado de Neldoreth e Region e ela sumiu da Terra-média, deixando Doriath sem proteção. A emboscada e destruição dos Anões em Sarn Athrad foi dada novamente a Beren e os Elfos da Floresta (seguindo a carta de 1963 de meu pai, citada à página 353, onde os Ents “Pastores de Árvores”, são introduzidos).

Esta história não foi tola ou facilmente concebida, mas foi o resultado de uma longa experimentação entre concepções diversas. Neste trabalho Guy Kay assumiu um grande papel e o capítulo como eu finalmente o escrevi deve muito às minhas discussões com ele. É, e era, óbvio que um estava sendo um Passo de uma ordem diferente de qualquer outra “manipulação” dos escritos de meu pai ao longo do livro: mesmo na história de “A Queda de Gondolin”, para qual meu pai nunca retornou, algo poderia ser deduzido sem introduzir mudanças radicais na narrativa. Pareceu àquele tempo que existiam elementos inerentes à história da Ruína de Doriath como ela exitia que eram radicalmente incompatíveis com “O Silmarillion” como projetado e que havia uma escolha inescapável: ou abandonar aquela concepção projetada ou alterar a história. Eu acho agora que aquela foi uma visão equivocada e que as inegáveis dificuldades poderiam ter sido, e deveriam ter sido, ultrapassadas sem exceder tanto as fronteiras da função editorial.

[Tradução de Fábio ´Deriel´ Bettega]

Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português

Melkor Morgoth

Melkor deve ser feito muito mais poderoso em sua natureza original (cf. “Finrod e Andreth”). O maior poder abaixo de Eru (isto é, o maior poder criado).[1] (Ele devia criar/inventar/começar; Manwë (menos grandioso) devia aperfeiçoar, realizar, completar.

[Nota do tradutor: o uso constante e alternado do futuro e do presente dos tempos verbais no texto dá-se pelo caráter de “esboço ensaístico” do mesmo, pretendido como tal para elucidar a personalidade de Melkor em uma possível versão reescrita do Quenta Silmarillion.]
Posteriormente, ele não deve ser capaz de ser controlado ou “acorrentado” por todos os Valar unidos. Observe-se que, nos primórdios de Arda, ele foi capaz de, sozinho, expulsar os Valar da Terra-média, em retirada.A guerra contra Utumno só foi empreendida pelos Valar com relutância, e sem esperança de vitória real, mas deu-se como uma ação de proteção ou distração, para permitir-lhes retirarem os Quendi de sua esfera de influência. Mas Melkor já havia progredido de algum modo na direção do caminho que o tornaria “o Morgoth, um tirano (ou uma tirania e vontade centrais), mais seus agentes”.[2] Apenas o total continha o antigo poder do Melkor completo; de modo que, se “o Morgoth” pudesse ser alcançado ou separado temporariamente de seus agentes, ele estaria muito mais próximo de ser controlável e em um nível de poder tal como o dos Valar. Os Valar percebem que podem lidar com seus agentes (isto é,
exércitos, Balrogs, etc.) gradualmente. De forma que eles chegam, por fim, à própria Utumno e descobrem que “o Morgoth” não possui no momento “força” suficiente (em qualquer sentido) para defender-se do contato pessoal direto. Manwë finalmente encara Melkor mais uma vez, como ele não havia feito desde que entrou em Arda. Ambos assombram-se: Manwë por perceber o declínio em Melkor como uma pessoa, Melkor por também perceber isto a partir de seu próprio ponto de vista: ele agora possui menos força pessoal do que Manwë, e não pode mais intimidá-lo com seu olhar.Ou Manwë deve contar-lhe isso ou ele mesmo deve perceber repentinamente (ou ambas opções) que isso aconteceu: ele está “disperso”. Mas o desejo de possuir criaturas sujeitas a ele, dominadas, tornou-se habitual e necessário a Melkor de modo que, mesmo se o processo fosse reversível (possivelmente o era apenas pela auto-humilhação e arrependimento absolutos e verdadeiros), ele não pode realizá-lo por si próprio.* Assim como com todos os outros personagens, deve haver um momento de estremecimento no qual isso está em jogo: ele quase se arrepende – e não o faz, e torna-se muito mais cruel e mais tolo.* Uma das razões para esse seu auto-enfraquecimento é a de que ele deu às suas “criaturas”, Orcs, Balrogs, etc., poder de recuperação e multiplicação. De modo que eles irão se reuinir novamente sem ordens específicas adicionais. Parte desse poder criativo nativo perdeu-se ao criar um crescimento maligno independente, fora de seu controle.Possivelmente (e ele acha isso possível) ele poderia, neste momento, ser humilhado contra sua própria vontade e “acorrentado” – se e antes que suas forças dispersas reagrupem-se. Portanto – tão logo tivesse rejeitado mentalmente o arrependimento – ele (assim como Sauron posteriormente do mesmo modo) faz um arremedo de auto-humilhação e arrependimento pelo qual, na verdade, sente um tipo de prazer pervertido como ao profanar algo sagrado – [pois a mera contemplação da possibilidade de arrependimento genuíno, se essa não viesse então especialmente como uma graça direta de Eru, ao menos foi uma última centelha de sua verdadeira natureza primordial.] Ele dissimula remorso e arrependimento. Ele realmente ajoelha-se diante de Manwë e rende-se – em primeiro lugar, para evitar ser acorrentado com a corrente Angainor da qual, uma vez sobre ele, teme jamais libertar-se. Mas ele também subitamente tem a idéia de penetrar na exaltada estabilidade de Valinor e arruiná-la. Assim, ele se oferece para tornar-se “o menor dos Valar” e servo de todos eles, para ajudar (por conselhos e habilidade) a reparar todas as perversidades e ferimentos que causara. É essa oferta que seduz ou ilude Manwë – Manwë deve ser mostrado como tendo sua própria falha inata (embora não seja um pecado)**: ele fica absorto (em parte por medo absoluto de Melkor, em parte pelo desejo de controlá-lo) na correção, cura, reordenamento – até na “manutenção do status quo” – levando à perda de todo o poder criativo e mesmo à fraqueza ao lidar com situações difíceis e perigosas. Contra o conselho de alguns dos Valar (tais como Tulkas), ele atende à súplica de Melkor.

** Cada criatura finita deve possuir alguma fraqueza: que é alguma incapacidade de lidar com algumas situações. Não é pecaminoso quando não ocorre voluntariamente e quando a criatura dá o melhor de si (mesmo se não for o que deveria ser feito) do modo como esta vê a situação – com a intenção consciente de servir a Eru.

Melkor é levado de volta à Valinor, indo por último (exceto por Tulkas***, que o segue carregando Angainor e fazendo-a ressoar para que Melkor lembre-se dela).

*** Tulkas representa o lado bom da “violência” na guerra contra o mal. Essa é uma ausência de todo compromisso que irá confrontar mesmo males aparentes (tais como a guerra) em vez de parlamentar; e não acredita (em qualquer tipo de orgulho) que qualquer um inferior a Eru possa reparar isso, ou reescrever o conto de Arda.

Mas no conselho, não é dada a Melkor liberdade imediata. Os Valar reunidos não tolerarão isso. Melkor é remetido a Mandos (para lá
permanecer em “reclusão” e meditar, e completar seu arrependimento – e também seus planos para a reparação).[3]

Ele começa então a duvidar da sensatez de sua própria política, e teria rejeitado tudo e irromperia em uma rebelião flamejante – mas ele agora está absolutamente isolado de seus agentes e em território inimigo. Ele não pode. Portanto, ele engole o amargo remédio (mas isso aumenta enormemente seu ódio, e posteriormente ele sempre acusou Manwë de ser desleal).

O resto da história, com a libertação de Melkor, e a permissão para estar presente no Conselho, sentando aos pés de Manwë (conforme o
modelo de conselheiros malignos em contos posteriores que, pode-se dizer, deriva desse modelo primordial?), pode então proceder mais ou menos como já contado.

Notas:

[1] Cf. as palavras de Finrod no Athrabeth: “não há poder algum concebivelmente maior que Melkor, salvo apenas Eru”.

[2] A referência mais antiga à essa idéia da “dispersão” do poder original de Melkor é encontrada nos Anais de Aman §179: “Pois ele cresceu em malícia e, transmitindo de si mesmo o mal que concebera em mentiras e criaturas ou perversidade, seu poder passou para elas e foi dispersado, e ele próprio tornou-se ainda mais ligado à terra, negando-se a sair de suas fortalezas sombrias.”

Cf. também Anais §128 – A expressão “o Morgoth” é usada várias vezes por Finrod no Athrabeth.[3] “seus planos para a reparação”: isto é, a reparação dos males que ele produziu.

Comentário sobre o Athrabeth Finrod ah Andreth

[Em um destes documentos, meu pai adicionou: “Deveria ser o último item em um apêndice” (isto é, para O Silmarillion). Ele mesmo datilografou este comentário, no alto de uma cópia e de um carbono, com algumas correções subsequentes quase idênticas em ambos. Após o comentário há notas numeradas que acabam tendo mais importância do que o próprio comentário, uma vez que algumas delas constituem curtos ensaios. Distingo estas das minhas próprias notas numeradas do texto pelas palavras “Nota do Autor”. – Christopher Tolkien]

Este texto não é apresentado como um argumento de qualquer irrefutabilidade para os homens na presente situação destes (ou na que eles acreditam estar), embora possa ter algum interesse para os homens que partem de crenças ou suposições similares àquelas sustentadas pelo rei élfico Finrod.

Ele é, na realidade, simplesmente parte do retrato do mundo imaginário do Silmarillion, e um exemplo do tipo de assunto que, ao indagar as mentes em ambos os lados, o élfico ou o humano, deve ser dito um para outro após se tornarem familiarizados. Vemos aqui a tentativa de uma mente élfica generosa de aprofundar as relações entre elfos e homens e o papel que lhes fora designado representar no que ele teria chamado de Oienkarmë Eruo (A produção perpétua do Um), que pode ser traduzido como “A administração de Deus do Drama”.

Há certas coisas neste mundo que precisam ser aceitas como “fatos”. A existência de elfos: isto é, de uma raça de seres intimamente aparentados com os homens, tão intimamente que eles devem ser considerados pelas características físicas (ou biológicas) simplesmente como ramos da mesma raça. Os elfos apareceram na Terra primeiro, mas não (mitologicamente ou geologicamente) muito antes; eles eram “imortais”, e não “morriam” exceto por acidente. Os homens, quando entraram em cena (isto é, quando encontraram os elfos), eram, contudo, como são agora: eles “morriam”, mesmo se escapassem de todos os acidentes, por volta da idade de 70 a 80 anos. A existência dos Valar: isto é, de certos Seres angelicais (criados, mas no mínimo tão poderosos quanto os “deuses” de mitologias humanas), cujo líder ainda residia em uma parte física real da Terra. Eles eram os agentes e vice-regentes de Eru (Deus). Eles haviam estado ocupados por eras imemoriais com um trabalho demiúrgico finalizando, segundo o propósito de Eru, a estrutura do Universo (Eä); mas estavam agora concentrados na Terra para o principal Drama da Criação: a guerra dos Eruhín (Os Filhos de Deus), elfos e homens, contra Melkor. Melkor, originalmente o mais poderoso dos Valar, tornara-se um rebelde, contra seus irmãos e contra Eru, e foi o primeiro Espírito do Mal.

Com respeito ao rei Finrod, deve-se compreender que ele inicia com certas crenças básicas, as quais ele diria serem derivadas de uma ou mais de uma destas fontes: sua natureza criada; instrução angelical; pensamento; e experiência.

1. Existe Eru (o Um); isto é, Um Deus Criador, que criou (ou mais estritamente, projetou) o Mundo, mas não é Ele próprio o Mundo. Este mundo, ou Universo, ele chama de , uma palavra élfica que significa “É”, ou “Que Seja”.

2. Há na Terra criaturas “encarnadas”, elfos e homens: estes são feitos de uma união de hröa e fëa (aproximadamente, mas não exatamente, equivalentes a “corpo” e “alma”). Este, ele diria, era um fato conhecido a respeito da natureza élfica e, portanto, poderia ser deduzido quanto à natureza humana a partir do parentesco próximo de elfos e homens.

3. Hröa e fëa, diria ele, são completamente distintos, e não no “mesmo plano de derivação de Eru”, (Nota do Autor 1) mas designados um para o outro, para permanecer em harmonia perpétua. O fëa é indestrutível, uma identidade única que não pode ser desintegrada ou absorvida por qualquer outra identidade. O hröa, entretanto, pode ser destruído e dissolvido: este é um fato de experiência. (Em tal caso, ele descreveria o fëa como “exilado” ou “desabrigado”.)

4. A separação de fëa e hröa não é “natural”, e acontece não pelo propósito original, mas pela “Desfiguração de Arda”, que deve-se às operações de Melkor.

5. A “imortalidade” élfica está restringida dentro de uma parte do Tempo (que ele chamaria A História de Arda) e, logo, deveria ser chamada preferencialmente de “longevidade seqüencial”, cujo limite máximo é a extensão da existência de Arda. (Nota do Autor 2) A conseqüência disto é que o fëa élfico também está limitado ao Tempo de Arda ou pelo menos confinado dentro dele e incapaz de deixá-lo enquanto este dure.

6. A partir disto seguiria-se pensando, se não fosse um fato de experiência élfica, que um fëa élfico “desabrigado” deve ter o poder ou oportunidade de retornar à vida encarnada, se ele possui o desejo ou vontade para assim fazê-lo. (Na verdade, os elfos descobriram que seus fëar não possuíam este poder neles próprios, mas que a oportunidade e os meios eram fornecidos pelos Valar, pela permissão especial de Eru para a correção do estado não natural do divórcio. Não era permitido aos Valar forçar um fëa a retornar; mas eles podiam impor condições e julgar se o retorno deveria ser realmente permitido e, em caso afirmativo, de que modo ou após quanto tempo.) (Nota do Autor 3)

7. Visto que os homens morrem, sem acidente e querendo eles ou não fazê-lo, seus fëar devem possuir uma relação diferente com o Tempo. Os elfos acreditavam, embora não possuíssem qualquer informação exata, que os fëar dos homens, caso desencarnados, deixavam o Tempo (mais cedo ou mais tarde), e jamais retornavam. (Nota do Autor 4)

Os elfos notaram que todos os homens morriam (um fato confirmado pelos homens). Deduziram, então, que isto era “natural” aos homens (isto é, o era pelo desígnio de Eru), e supunham que a brevidade da vida humana devia-se à esta característica do fëa humano: que ele não estava destinado à permanecer muito tempo em Arda. Enquanto que seus próprios fëar, estando designados a permanecer em Arda até o fim desta, impunham uma longa resistência sobre seus corpos; pois eles possuíam (como um fato de experiência) um controle muito maior sobre eles. (Nota do Autor 5)

Além do “Fim de Arda”, o pensamento élfico não podia penetrar, e eles ficaram sem qualquer instrução. (Nota do Autor 6) Parecia-lhes claro que seus hröar devem ao final cessar e, portanto, qualquer tipo de reencarnação seria impossível. (Nota do Autor 7) Todos os elfos então “morreriam” no Fim de Arda. O que isto significava eles não sabiam. Diziam, portanto, que os homens possuíam uma sombra atrás de si, mas os elfos possuíam uma sombra à frente de si próprios.

Seu dilema era este: o pensamento da existência apenas como fëar lhes era revoltante, e achavam difícil de acreditar que isto era natural ou designado a eles, uma vez que eram essencialmente “habitantes em Arda” e, por natureza, completamente apaixonados por Arda. A alternativa: que seus fëar também deixariam de existir “ao Fim” parecia ainda mais intolerável. Tanto a aniquilação absoluta como o cessar da identidade consciente eram completamente repugnantes ao pensamento e ao desejo. (Nota do Autor 8 )

Alguns argumentavam que, embora completo e único (como Eru, de quem eles procediam diretamente), cada fëa, estando criado, era finito, e portanto também poderia ser de duração finita. Ele não era destrutível dentro do seu período determinado mas, quando este era alcançado, passava a ser; ou deixava de ter quaisquer outras experiências, e “residia apenas no Passado”.

Mas eles viram que isto não fornecia nenhuma saída. Pois mesmo se um fëa élfico fosse capaz de “conscientemente” de habitar no Passado ou contemplá-lo, esta seria uma condição completamente insatisfatória ao seu desejo. (Referência à Nota do Autor 8 ) Os elfos possuíam (como eles próprios diziam) um “grande talento” para a memória, mas esta tendia para o pesar ao invés da alegria. Por mais longa que a História dos elfos pudesse se tornar antes que terminasse, ela também seria um objeto de alcance muito limitado. Estar eternamente “aprisionado em um conto” (como diziam), mesmo se este fosse um conto muito grande que terminasse de forma triunfante, tornaria-se um tormento. Pois maior do que o talento da memória era o talento élfico para a criação, e para descobertas. O fëa élfico fora, sobretudo, designado a criar coisas em cooperação com seu hröa.

Portanto, em última instância, os elfos eram obrigados a contar com a “estel nua” (como diziam): a confiança em Eru de que, seja o que for que Ele tenha designado para além do Fim, isto seria reconhecido por cada fëa como (no mínimo) completamente satisfatório. Provavelmente inclui-se aí alegrias imprevisíveis. Mas eles mantinham a crença de que isto permaneceria em uma relação inteligível com sua natureza e desejos atuais, partindo deles e incluindo-os.

Por estas razões os elfos eram menos solidários do que os homens esperavam em relação à falta de esperança (ou estel) nos homens diante da morte. Os homens eram, é claro, em geral inteiramente ignorantes quanto à “Sombra Adiante” que condicionava o pensamento e sentimentos élficos, e simplesmente invejavam a “imortalidade” élfica. Mas os elfos eram, por sua vez, geralmente ignorantes quanto à persistente tradição entre os homens de que os homens também eram imortais por natureza.

Como é visto no Athrabeth, Finrod fica profundamente emocionado e impressionado ao descobrir esta tradição. Ele descobre uma tradição concomitante de que a mudança na condição dos homens em relação ao seu desígnio original foi devido a um desastre primordial, sobre o qual a tradição humana é incerta, ou pelo menos Andreth está relutante em dizer mais. (Nota do Autor 9) Ele mantém, entretanto, a opinião de que a condição dos homens antes do desastre (ou, como poderíamos dizer, do homem não caído) não poderia ter sido a mesma dos elfos. Isto é, sua “imortalidade” não poderia ter sido a longevidade dentro de Arda dos elfos; senão eles teriam sido simplesmente elfos, e sua posterior introdução separada no Drama, feita por Eru, não teria qualquer função. Ele pensa que a noção dos homens de que, inalterados, eles não teriam morrido (no sentido de deixar Arda), deve-se à deturpação humana de sua própria tradição, e possivelmente à comparação invejosa de si mesmos com relação aos elfos. Primeiramente, ele não acha que isto se encaixa, como poderíamos dizer, nas “peculiaridades observáveis da psicologia humana”, conforme comparadas com os sentimentos élficos com respeito ao mundo visível.

Logo, ele supõe que é o medo da morte o resultado do desastre. Ela é temida por agora estar ligada com a separação de hröa e fëa. Mas os fëar dos homens devem ter sido designados a deixarem Arda de boa vontade ou de fato pelo desejo de fazê-lo – talvez após um tempo maior do que a atual vida humana média, mas ainda assim em um tempo muito curto comparado às vidas élficas. Assim, baseando seu argumento no axioma de que a separação de hröa e fëa não é natural e é contrária ao seu desígnio, ele chega (ou se preferir, precipita-se) à conclusão de que o fëa de um homem não caído levaria consigo seu hröa ao novo modo de existência (livre do Tempo). Em outras palavras, esta “suposição” era o fim natural de cada vida humana, embora, até onde sabemos, este foi o fim do único membro “não caído” da humanidade.* Ele tem então uma visão dos homens como os agentes da cura da “desfiguração” de Arda, não meramente ao desfazer a desfiguração ou o mal perpetrado por Melkor, mas ao produzir uma terceira coisa, Arda Refeita – pois Eru jamais simplesmente desfaz o passado, mas gera algo novo, mais magnífico do que o “primeiro desígnio”. Em Arda Refeita elfos e homens encontrarão separadamente alegria e contentamento, uma amizade recíproca, um elo que será o Passado.

* A referência é à Virgem Maria.

Andreth diz que, neste caso, o desastre foi aterrador para os homens; pois esta recriação (se esta de fato era a função apropriada dos homens) não pode ser alcançada agora. Finrod evidentemente mantém a esperança de que ela será alcançada, embora ele não diga como isso poderia acontecer. Ele agora vê, porém, que o poder de Melkor era maior do que havia sido compreendido (mesmo pelos elfos, que na verdade viram-no em uma forma encarnada): se ele fora capaz de modificar os homens e assim destruir o plano.

Em um sentido mais exato, ele diria que Melkor não “modificou” os homens, mas os “seduziu” (tornando-os leais a ele) nos primórdios de sua história, de modo que Eru modificou o “destino” deles. Pois Melkor podia seduzir mentes e vontades individuais, mas não podia tornar isso hereditário, ou alterar (contrária à vontade e ao desígnio de Eru) a relação de todo um povo com o Tempo e com Arda. Mas o poder de Melkor sobre as coisas materiais evidentemente era vasto. A totalidade de Arda (e, de fato, provavelmente muitas outras partes de Eä) foi desfigurada por ele. Melkor não era apenas um Mal local na Terra, nem um Anjo Guardião da Terra que desencaminhou-se: ele era o Espírito do Mal, erguendo-se mesmo antes da criação de Eä. Sua tentativa de dominar a estrutura de Eä, e de Arda em particular, e alterar os desígnios de Eru (que regiam todas as atividades dos Valar fiéis), introduziu o mal, ou uma tendência à aberração a partir do desígnio, em toda a matéria física de Arda. Foi por esta razão, sem dúvida, que ele foi totalmente bem sucedido com os homens, mas apenas parcialmente com os elfos (que permaneceram como um povo “não caído”). Seu poder foi exercido sobre a matéria e através dela. (Nota do Autor 10) Mas os fëar dos homens eram por natureza mais fracos no controle de seus hröar, diferente do que acontecia no caso dos elfos. Os elfos como indivíduos poderiam ser seduzidos a um tipo de “melkorismo” menor: desejando serem seus próprios mestres em Arda e possuírem as coisas a seu próprio modo levando, em casos extremos, à uma rebelião contra a tutela dos Valar; mas ninguém jamais ficou a serviço ou tornou-se leal ao próprio Melkor, nem jamais negou a existência e a supremacia absoluta de Eru. Algumas coisas horríveis dessa espécie, Finrod adivinha, os homens devem ter cometido, como um todo; mas Andreth não revela quais eram as tradições dos homens sobre esse assunto. (Referência à Nota do Autor 9)

Finrod, contudo, compreende agora que, do modo como se davam as coisas, nenhuma criatura ou ser criado em Arda, ou em todo Eä, era poderoso o suficiente para contrapor ou curar o Mal: isto é, subjugar Melkor (em sua presente pessoa, reduzida como estava) e o Mal que ele havia dissipado e enviado de si mesmo para o interior da própria estrutura do mundo.

Apenas o próprio Eru poderia fazer isto. Portanto, uma vez que era inconcebível a idéia de que Eru abandonaria o mundo à dominação e triunfo absolutos de Melkor (que poderia significar sua ruína e redução ao caos), Eru deve, em determinado momento, vir a se opor a Melkor. Mas Eru não poderia entrar completamente no mundo e na sua história que, apesar de grande, é apenas um Drama finito. Como Autor, Ele deve permanecer sempre “fora” do Drama, mesmo que esse Drama dependa de Seu desígnio e de Sua vontade para seu início e continuação, em cada detalhe e momento. Finrod, por esse motivo, crê que Ele, quando vier, terá que ficar tanto “fora” como “dentro”; e assim ele vislumbra a possibilidade de complexidade ou de distinções na natureza de Eru que, apesar de tudo, O caracterizam como “O Um”. (Nota do Autor 11)

Uma vez que Finrod já adivinhara que a função redentora fora originalmente designada especialmente aos homens, ele provavelmente prosseguiu para a expectativa de que “a vinda de Eru”, se acontecesse, estaria primeira e especialmente relacionada com os homens: isto é, a uma suposição ou visão imaginativa de que Eru viria encarnado em forma humana. Isto, contudo, não aparece no Athrabeth.

O argumento não é, claro, apresentado no Athrabeth nestes termos, ou nesta ordem, ou tão precisamente. O Athrabeth é uma conversa, na qual muitas suposições e etapas de pensamento têm que fornecidas pelo leitor. Na verdade, embora o texto trate de coisas como a morte e as relações de elfos e homens com o Tempo e Arda, e uns com os outros, seu verdadeiro propósito é dramático: exibir a generosidade da mente de Finrod, seu amor e piedade por Andreth, e as trágicas situações que devem surgir do encontro de elfos e homens (na época da juventude dos elfos). Pois, como finalmente torna-se evidente, Andreth havia se apaixonado na juventude por Aegnor, irmão de Finrod; e embora ela soubesse que ele retribuía seu amor (ou assim poderia ter feito, caso se dignasse a isso), ele não o havia declarado, e a deixara – e ela acreditou que havia sido rejeitada por ser muito inferior a um elfo. Finrod (embora ela não soubesse disso) sabia sobre essa situação. Por esta razão ele compreendeu e não se ofendeu com a amargura com a qual ela falava dos elfos, e mesmo dos Valar. Ele foi bem sucedido no final ao fazer com que ela compreendesse que ela não havia sido “rejeitada” por desprezo ou por arrogância élfica; mas que a partida de Aegnor deu-se por motivos de “sabedoria”, ao custo de grande dor para Aegnor: ele era igualmente vítima da tragédia.

No evento, Aegnor pereceu logo após essa conversa, quando Melkor rompeu o Cerco de Angband na desastrosa Batalha das Chamas Repentinas, e a destruição dos reinos élficos em Beleriand fora iniciada. Finrod refugiou-se na grande fortaleza meridional de Nargothrond; mas não muito depois sacrificou sua vida para salvar Beren Maneta. (É provável, embora não seja afirmado em nenhum lugar, que a própria Andreth tenha perecido nessa época, pois todo o reino do norte, onde Finrod e seus irmãos e o Povo de Bëor habitavam, foi devastado e conquistado por Melkor. Mas ela seria então uma mulher muito idosa.)

Finrod foi assim morto antes que os dois casamentos entre elfos e homens acontecessem, apesar de que, sem sua ajuda, o casamento de Beren e Lúthien não teria ocorrido. O casamento de Beren certamente realizou sua previsão de que tais casamentos ocorreriam apenas por algum propósito elevado do Destino, e que o destino menos cruel seria o fato de que a morte logo os encerraria.

Notas do Autor sobre o “Comentário”

Nota 1

Porque acreditava-se que os fëar foram criados diretamente por Eru, e “enviados para dentro” de Eä; enquanto que Eä fora concluído por intermédio dos Valar.

De acordo com o Ainulindalë, houve cinco estágios na Criação. a) A criação dos Ainur. b) A comunicado de Eru sobre o seu Desígnio aos Ainur. c) A Grande Música, que era como se fosse um ensaio, e que permaneceu no estágio de pensamento ou imaginação. d) A “Visão” de Eru, que era novamente apenas uma amostra de possibilidade e estava incompleta. e) A Realização, que ainda está em andamento.

Os Eldar acreditavam que Eru era e é livre em todos os estágios. Esta liberdade foi mostrada na Música por Sua introdução, após o surgimento das dissonâncias de Melkor, de dois novos temas, representando a chegada de elfos e homens, que não estavam no Seu primeiro comunicado. Portanto Ele pode, no estágio 5, introduzir diretamente coisas que não estavam na Música e que assim não são realizadas através dos Valar. Não obstante, isto continua em geral verdadeiro no que diz respeito a Eä como concluído através da intervenção deles.

As adições de Eru, contudo, não serão “estranhas”; elas serão ajustadas à natureza e ao caráter de Eä e daqueles nele habitam; elas podem realçar o passado e enriquecer seu propósito e sua importância, mas o passado estará contido nelas e não será destruído.

Assim, a “novidade” dos temas dos Filhos de Eru, elfos e homens, consistia da associação dos fëar com (ou da “habitação” deles nos) hröar pertencentes a Eä, de tal modo que os primeiros estariam incompletos sem os últimos e vice-versa. Mas os fëar não eram espíritos de um tipo completamente diferente dos Ainur; enquanto que os corpos eram de um tipo mais parecido com os corpos de seres vivos já na idéia primordial (mesmo se adaptados à sua nova função, ou modificados pelos fëar residentes).

Nota 2

Arda, ou “O Reino de Arda” (como estando diretamente sob o governo do vice-regente de Eru, Manwë) não é fácil de se traduzir, uma vez que nem “terra” nem “mundo” são inteiramente adequadas. Fisicamente Arda era o que chamamos de Sistema Solar. Presumivelmente os Eldar poderiam ter tido informações tão numerosas quanto precisas a respeito disso, de sua estrutura, origem e sua relação com o resto de Eä (o Universo) como podiam compreender. Provavelmente aqueles que se interessavam adquiriram este conhecimento. Nem todos os Eldar se interessavam por tudo; a maioria deles concentrava sua atenção na (ou, como eles diziam, “estavam apaixonados pela”) Terra.

As tradições mencionadas aqui passaram dos Eldar da Primeira Era para os elfos que nunca conheceram diretamente os Valar e para os homens que receberam os “ensinamentos” dos elfos, mas que possuíam mitos, lendas cosmogônicas e suposições astronômicas próprios. Porém não há nada nelas que entre seriamente em conflito com as noções humanas atuais do Sistema Solar e de seu tamanho e posição relativos ao Universo. Deve ser lembrado, contudo, que isto não implica necessariamente que a “Informação Verdadeira” a respeito de Arda (tal como os antigos Eldar podem ter recebido dos Valar) deva condizer com as atuais teorias dos homens. Além disso, os Eldar (e os Valar) não estavam sobrecarregados ou mesmo principalmente impressionados pelas noções de tamanho e distância. Seu interesse, certamente o interesse do Silmarillion e de todas as questões relacionadas, podem ser chamado de “dramático”. Lugares ou mundos eram interessantes ou importantes pelo o que acontecia neles.

Certamente é o caso, com as tradições élficas, de que a parte principal de Arda era a Terra (Imbar, “A Habitação”), como a cena do Drama da guerra dos Valar e dos Filhos de Eru com Melkor: de modo que, usada livremente, Arda parece com freqüência significar a Terra; e que, deste ponto de vista, a função do Sistema Solar era tornar possível a existência de Imbar. Com respeito à relação de Arda com Eä, a afirmação de que os principais Ainur demiúrgicos (os Valar), incluindo o originalmente maior de todos, Melkor, fixaram sua “residência” em Arda desde o seu estabelecimento, também implica que, a todo instante, Arda era dramaticamente o ponto principal em Eä.

Essas visões não são matemáticas ou astronômicas, ou mesmo biológicas, e portanto não se pode dizer que elas necessariamente entram em conflito com as teorias de nossas ciências físicas. Não podemos dizer que “deve” haver em algum outro lugar em Eä outros sistemas solares “como” Arda, e ainda menos que, caso existam, eles ou qualquer um deles possua um paralelo a Imbar. Não podemos sequer dizer que estas coisas são matematicamente muito “prováveis”. Mas mesmo se a presença de “vida” biológica em outro lugar de Eä fosse demonstrável, isto não invalidaria a visão élfica de que Arda (pelo menos enquanto essa durar) é o centro dramático. A demonstração de que existira Encarnados em outro lugar, paralelamente aos Filhos de Eru, certamente modificaria quadro, mas não o invalidaria. A resposta élfica provavelmente seria: “Bem, há outro Conto. Não é o nosso Conto. Eru sem dúvida pode permitir mais de um. Nem tudo é descrito no Ainulindalë; ou o Ainulindalë pode possuir uma referência mais ampla do que conhecemos: outros dramas, semelhantes em gênero mas diferentes em processo e resultado, podem ter continuado em Eä, ou ainda podem continuar”. Mas certamente eles acrescentariam: “Mas eles não estão acontecendo agora. O drama de Arda é o interesse atual de Eä”. De fato a visão élfica é claramente a de que o Drama de Arda é único. Não podemos presentemente afirmar que isto é falso.

Os elfos estavam, é claro, primeira e profundamente (mais profundamente do que os homens) preocupados com Arda, e com Imbar em particular. Eles parecem acreditar que o universo físico, Eä, teve um início e teria um fim: que ele era limitado e finito em todas as dimensões. Eles certamente acreditavam que todas as coisas ou “estruturas”, isto é, construídas (embora simples e incipientemente) a partir da matéria básica, que eles chamavam erma, eram impermanentes dentro de Eä. Logo, eles preocuparam-se muito mais com o “Fim de Arda”. Sabiam que eles próprios estavam limitados à Arda; mas a duração de sua existência eles parecem não terem conhecido. Possivelmente os Valar não sabiam. Muito provavelmente eles não foram informados pela vontade ou desígnio de Eru, que na tradição élfica parece exigir duas coisas de Seus Filhos (de ambas as raças): acreditar Nele e, partindo disto, ter esperança ou confiar Nele (fato que era chamado pelos Eldar de estel).

Mas em qualquer caso, quer descrito na Música ou não, o Fim poderia ser ocasionado por Eru a qualquer momento através de uma intervenção, de modo que ele certamente não poderia ser previsto. (Uma intervenção menor deste tipo e aparentemente prenunciada foi a catástrofe na qual Númenor foi destruída e a residência física dos Valar em Imbar terminou.) A concepção élfica do Fim de fato era catastrófica. Eles não acreditavam que Arda (ou, de qualquer modo, Imbar) iria simplesmente estagnar-se em uma inanição sem vida. Mas esta concepção não foi incorporada por eles em qualquer mito ou lenda. Ver Nota 7.

Nota 3

Na tradição élfica sua reencarnação era uma permissão especial concedida por Eru a Manwë, depois que Manwë consultou-O diretamente na época do debate a respeito de Finwë e Míriel. (Míriel “morreu” em Aman ao se recusar a não mais viver no corpo, e desse modo levantou toda a questão da separação não natural de um fëa élfico e seu hröa, e da privação de elfos que ainda viviam: Finwë, seu esposo, foi deixado solitário.) Os Valar, ou Mandos como o porta-voz de todas as ordens e, em muitos casos, seu executor, receberam poder para convocar, com total autoridade, todos os fëar desabrigados de elfos à Aman. Lá lhes era dada a escolha de permanecerem desabrigados ou (se desejassem) serem realojados na mesma forma e aspecto que possuíam. Não obstante, geralmente eles devem permanecer em Aman. Portanto, se habitassem na Terra-média, a sua privação em relação aos amigos e parentes, e a privação destes, não era corrigida. A morte não era completamente curada. Mas como Andreth observou, esta certeza a respeito de seu futuro após a morte, e o conhecimento de que eles pelo menos seriam capazes (caso desejassem), como encarnados, de fazer e criar coisas e continuar sua experiência de Arda, tornava a morte para os elfos algo totalmente diferente da como essa era vista pelos homens.

A eles era dada uma escolha, pois Eru não permitia que seu livre-arbítrio lhes fosse retirado. De modo similar, os fëar desabrigados eram convocados, e não trazidos, a Mandos. Eles poderiam recusar as invocações, mas isto indicaria que de algum modo eles foram maculados, ou não desejariam recusar a autoridade de Mandos: a recusa tinha graves conseqüências, procedendo inevitavelmente da rebelião contra a autoridade.

Eles “geralmente permaneciam em Aman”. Simplesmente porque eles ficavam, quando realojados, mais uma vez em seus verdadeiros corpos físicos, e retornar à Terra-média era, portanto, muito difícil e arriscado. Além disso, durante o período do Exílio dos Noldor, os Valar haviam momentaneamente cortado todas as comunicações (por meios físicos) entre Aman e a Terra-média. Os Valar certamente poderiam ter arranjado a transferência, se houvesse uma razão suficientemente grave. A privação de amigos e parentes aparentemente não era considerada uma razão suficiente. Provavelmente sob a instrução de Eru. De qualquer forma, no que diz respeito aos Noldor, estes, como um povo, isolaram-se da misericórdia; eles deixaram Aman exigindo liberdade absoluta para serem seus próprios mestres, para prosseguirem com sua guerra contra Melkor com seu próprio valor desassistido, e para enfrentar a morte e suas conseqüências. O único caso de um arranjo especial registrado nas Histórias é o de Beren e Lúthien. Beren foi morto logo após seu casamento, e Lúthien morreu de tristeza. Ambos foram realojados e enviados de volta à Beleriand; mas ambos tornaram-se “mortais” e posteriormente morreram de acordo com a longevidade humana normal. A razão para isso, que deve ter sido realizado por uma permissão expressa de Eru, não ficou completamente aparente até tempos depois, mas certamente fora de um peso único. A tristeza de Lúthien era tão grande que, de acordo com os Eldar, levou à piedade até mesmo Mandos, o Inabalável. Beren e Lúthien juntos realizaram o maior de todos os feitos contra Melkor: a recuperação de uma das Silmarils. Lúthien não era dos Noldor, mas filha de Thingol (dos Teleri), e sua mãe Melian era “divina”, uma Maia (um dos membros inferiores da raça espiritual dos Valar). Desse modo, da união de Lúthien e Beren, que foi possível devido ao seu retorno, ocasionou-se a infusão tanto de uma linhagem “divina” como de uma élfica na humanidade, fornecendo um elo entre a humanidade e o Mundo Antigo, após o estabelecimento do Domínio dos Homens.

Nota 4

Mais cedo ou mais tarde: porque os elfos acreditavam que os fëar dos homens mortos também iam para Mandos (sem escolha quanto a isso: seu livre-arbítrio com respeito à morte era retirado). Lá esperavam até que fossem entregues a Eru. A verdade disto não é assegurada. Nenhum homem vivo tinha permissão de ir a Aman. Nenhum fëa de um homem morto jamais retornou à vida na Terra-média. Para todos os semelhantes decretos e afirmações havia sempre algumas exceções (por causa da “liberdade de Eru”). Eärendil alcançou Aman, mesmo na época do Banimento; mas ele carregava a Silmaril recuperada por sua ancestral Lúthien, e ele era meio-elfo, e não lhe foi permitido retornar à Terra-média. Beren retornou à vida de fato, por pouco tempo; mas ele na verdade jamais foi visto novamente por homens vivos.

A passagem “sobre o mar” para Eressëa (uma ilha à vista de Aman) era permitida, e de fato encorajada, a todos os elfos remanescentes na Terra-média após a queda de Morgoth em Angband. Isto realmente marcou o início do Domínio dos Homens, embora houvesse (na nossa visão) um longo período de crepúsculo entre a queda de Morgoth e a derrocada final de Sauron: isto é, continuando no decorrer da Segunda e Terceira Eras. Mas ao final da Segunda Era veio a grande Catástrofe (por uma intervenção de Eru que prenunciava, aparentemente, o Fim de Arda): a aniquilação de Númenor e a “remoção” de Aman do mundo físico. Portanto, a passagem de mortais “sobre o mar” após a Catástrofe – que é registrada nO Senhor dos Anéis – não é exatamente a mesma coisa. Esta foi, de qualquer modo, uma graça especial. Uma oportunidade para morrer de acordo com o plano original para os não caídos: eles chegavam a um estado onde poderiam adquirir um conhecimento e paz de espírito maiores, e estando curados de todos os ferimentos, tanto de mente como de corpo, por fim poderiam finalmente entregarem-se: morrer de livre vontade, e mesmo de desejo, em estel. Uma coisa que Aragorn alcançou sem qualquer tipo de auxílio.

Nota 5

Eles assim eram capazes de esforços físicos maiores e mais prolongados (em busca de algum objetivo dominante em suas mentes) sem fadiga; não estavam sujeitos à doenças; curavam-se rápida e completamente após ferimentos que teriam se mostrados fatais aos homens; e podiam suportar grandes dores físicas por longos períodos. Seus corpos não podiam, entretanto, sobreviver a ferimentos vitais ou a violentos ataques à sua estrutura; nem podiam substituir membros perdidos (tais como uma mão decepada). Por outro lado, os elfos podiam morrer, e morriam, por vontade própria; como, por exemplo, por causa de grande tristeza ou privação, ou por causa da frustração de seus desejos e propósitos dominantes. Esta morte intencional não era considerada imoral, mas era uma falta que indicava alguma deficiência ou mácula no fëa, e àqueles que chegavam a Mandos por estes meios poderia ser recusado uma outra vida encarnada.

Nota 6

Porque os Valar não possuíam tal informação; ou porque a informação era negada. Ver Nota 2 [quinto parágrafo].

Nota 7

Ver Nota 2. Os elfos esperavam que o Fim de Arda fosse catastrófico. Eles acreditavam que isto aconteceria pelo menos pela dissolução da estrutura de Imbar, se não de todo o sistema. O Fim de Arda não é, obviamente, a mesma coisa que o fim de Eä. Sobre isso sustentavam que nada poderia ser conhecido, exceto que Eä era derradeiramente finito. É digno de nota o fato de que os elfos não possuíam mitos ou lendas que tratassem do fim do mundo. O mito que aparece ao final do Silmarillion é de origem númenoreana; ele evidentemente foi criado por homens, embora os homens tivessem conhecimento da tradição élfica. Todas as tradições élficas são apresentadas como “histórias”, ou como relatos do que acontecera.

Estamos lidando aqui com o pensamento élfico em um período inicial, quando os Eldar ainda eram completamente “físicos” em forma corpórea. Muito mais tarde, quando o processo (já vislumbrado por Finrod) chamado “minguar” ou “desvanecer” tornou-se mais efetivo, suas opiniões a respeito do Fim de Arda, até onde os afetavam, devem ter sido modificadas. Mas existem poucos registros de quaisquer contatos do pensamento humano com o élfico em dias posteriores. Eles finalmente tornaram-se alojados, se isto pode ser assim chamado, não em hröar verdadeiramente visíveis e tangíveis, mas apenas na memória do fëa de sua forma corpórea e de seu desejo por ela; e, portanto, não dependentes da mera existência sobre o material de Arda. Mas eles parecem ter acreditado, e de fato ainda acreditam, que este desejo pelo hröa mostra que sua condição posterior (e atual) não lhes é natural, e permanecem na estel de que Eru irá curá-la. “Não natural”, ou devido completamente, como pensavam inicialmente, ao enfraquecimento do hröa (derivado da debilidade introduzida por Melkor na substância de Arda, sobre a qual ele deve se nutrir), ou devido parcialmente ao trabalho inevitável de um fëa dominante sobre um hröa material no decorrer de muitas eras. (No último caso, “natural” pode referir-se apenas a um estado ideal, no qual a matéria imaculada poderia suportar eternamente a habitação de um fëa perfeitamente adaptado. Não pode referir-se ao real desígnio de Eru, uma vez que os Temas dos Filhos foram introduzidos após o surgimento das dissonâncias de Melkor. O “minguar” dos hröar élficos deve ser, portanto, parte da História de Arda como contemplada por Eru, e modo pelo qual os elfos abririam caminho para o Domínio dos Homens. Os elfos consideravam sua substituição pelos homens um mistério, e um motivo de tristeza; pois eles diziam que os homens, pelo menos quanto a serem amplamente governados pelo mal de Melkor, possuem cada vez menos amor por Arda em si, e estão por demais ocupados em destruí-la na tentativa de dominá-la. Eles acreditam ainda que a cura de Eru de todos os pesares de Arda agora virá pelos ou através dos homens; mas a parte dos elfos na cura ou redenção será principalmente na restauração do amor de Arda, para o qual contribuirão suas memórias do Passado e compreensão do que poderia ter sido. Arda, dizem eles, será destruída pelos homens maliciosos (ou pela malícia nos homens), mas será curada pela bondade nos homens. A malícia, a dominante falta de amor, os elfos compensarão. Pela santidade dos homens bons – a ligação direta destes com Eru, anterior e acima de todas as obras de Eru – os elfos podem ser livrados do último de seus pesares: a tristeza; a tristeza que deve vir mesmo do amor altruísta de qualquer coisa abaixo de Eru.)

Nota 8

Desejo. Os elfos insistiam que os “desejos”, especialmente desejos fundamentais como são tratados aqui, deviam ser considerados como indicações das naturezas reais dos Encarnados, e da direção na qual sua satisfação imaculada deve se situar. Eles faziam distinção entre o desejo do fëa (percepção de que alguma coisa certa ou necessária não está presente, levando ao desejo ou esperança por ele), o desejo, ou vontade pessoal (o sentimento da falta de alguma coisa, a força que primeiramente diz respeito a si próprio, e que pode ter pouca ou nenhuma referência à adequação geral das coisas) e a ilusão, a recusa de reconhecer que as coisas não são como deveriam ser, levando à ilusão de que elas são como alguém desejaria que fossem, quando elas não são dessa forma. (O último poderia ser chamado agora de “pensamento desejoso”, legitimamente; mas este termo, diriam os elfos, é absolutamente ilegítimo quando aplicado ao primeiro. O último pode ser refutado por referência aos fatos. O primeiro não. A não ser que acredite-se que o desejo seja sempre ilusório e a única base para a esperança de correção. Mas os desejos do fëa podem ser freqüentemente mostrados como sendo razoáveis por argumentos não ligados ao desejo pessoal. O fato de que eles estão de acordo com o “desejo”, ou mesmo com a vontade pessoal, não os invalida. De fato, os elfos acreditavam que o “alívio do coração” ou a “instilação da alegria” (à qual eles freqüentemente referem-se), que podem acompanhar a declaração de uma proposição ou de um argumento, não é uma indicação de sua falsidade, mas sim do reconhecimento da parte do fëa de que ele está no caminho da verdade.)

Nota 9

É provável que Andreth na verdade estivesse relutante em dizer mais. Em parte por um tipo de lealdade que impedia os homens de revelarem aos elfos tudo o que sabiam sobre a escuridão em seu passado; e em parte porque ela sentiu-se incapaz de decidir-se quanto às conflitantes tradições humanas. Versões mais longas do Athrabeth, evidentemente editadas sob influência númenoreana, fazem-na dar, sob pressão, uma resposta mais precisa. Algumas são muitos breves, outras são mais longas. Contudo, todas concordam em tornar a causa do desastre a aceitação de Melkor como rei (ou rei e deus) pelos homens. Em uma versão, uma lenda completa (resumida na escala temporal) é fornecida explicitamente como uma tradição númenoreana, pois ela faz Andreth dizer: Este é o Conto que Adanel da Casa de Hador me contou. Os númenoreanos em sua maioria, e suas tradições não élficas principalmente, descendiam do Povo de Marach, do qual a Casa de Hador era líder. A lenda possui certas semelhanças quanto às tradições númenoreanas no que diz respeito ao papel desempenhado por Sauron na queda de Númenor. Mas isto não prova que ela seja completamente uma ficção dos dias pós-queda. Ela sem dúvida é derivada de tradições verdadeiras do Povo de Marach, completamente independente do Athrabeth. [Nota adicionada: Nada é afirmado, por meio desta, a respeito de sua “verdade”, história ou não.] as atividades de Sauron natural e inevitavelmente assemelhavam-se àquelas de seu mestre ou repetiam-nas. É triste que um povo de posse de tal lenda ou tradição tenha sido posteriormente iludido por Sauron mas, geralmente em vista da história humana, não é incrível. De fato, se peixes possuíssem tradições e sábios entre eles, o trabalho dos pescadores provavelmente quase não seria impedido.

Nota 10

A “Matéria” não é considerada má ou oposta ao “Espírito”. A matéria era completamente boa em origem. Ela permaneceu uma “criatura de Eru” e ainda boa em grande parte, e de fato autocurativa, quando não perturbada: isto é, quando o mal latente introduzido por Melkor não era despertado deliberadamente e usado por mentes malignas. Melkor concentrou sua atenção na “matéria” porque os espíritos só podiam ser completamente dominados pelo medo; e o medo era mais facilmente empregado através da matéria (especialmente no caso dos Encarnados, aos quais ele mais desejava subjugar). Por exemplo, pelo medo de que as coisas materiais que eram amadas pudessem ser destruídas, ou o medo (nos Encarnados) de que seus corpos pudessem ser feridos. (Melkor também usou e perverteu para seus propósitos o “medo de Eru”, completa ou vagamente compreendido. Mas isto foi mais difícil e perigoso, e exigiu mais astúcia. Espíritos inferiores poderiam ser atraídos pelo amor ou admiração dele próprio e de seus poderes, e conduzidos assim a uma postura de rebelião contra Eru. Seu medo Dele poderia então ser obscurecido, de modo que eles aderissem a Melkor, como um capitão e protetor, tornando-se por fim aterrorizados demais para retornarem à lealdade a Eru, mesmo após terem descoberto quem Melkor era e terem começado a odiá-lo.)

Nota 11

Na verdade isto já havia sido vislumbrado no Ainulindalë, no qual é feita referência à “Chama Imperecível”. Isto parece querer dizer a atividade Criativa de Eru (em certo sentido distinta Dele ou de dentro Dele), pela qual as coisas poderiam receber uma existência (embora derivativa e criada) “real” e independente. A Chama Imperecível é enviada a partir de Eru, para residir no coração do mundo e o mundo então É, no mesmo plano dos Ainur, e eles podem entrar nele. Mas isto, claro, não é o mesmo que a reentrada de Eru para derrotar Melkor. Isto refere-se ao mistério da “autoria”, pela qual o autor, apesar de permanecer “fora” e independente de seu trabalho, também “reside” nele, em seu plano derivativo, abaixo daquele de seu próprio ser, como a fonte e garantia de seu ser.

As Andanças de Húrin (The Wanderings of Hurin)

As andanças do infeliz Húrin, após ser liberto por Melkor.

E assim terminou o conto de Túrin o infeliz, o pior dos trabalhos de Morgoth entre os Homens no mundo antigo. Mas Morgoth não dormiu nem descansou de sua maldade, e esse não foi o fim de seus negócios com a Casa de Hador, contra a qual sua malícia era insaciável, pois Húrin estava sob seu Olho, e Morwen vagava perturbada pelos ermos.Infeliz era a sina de Húrin. Pois tudo o que Morgoth sabia das maquinações de sua malícia, Húrin sabia também; mas suas mentiras eram misturadas com a verdade, e tudo aquilo que era bom era escondido ou distorcido. Aquele que enxerga através dos olhos de Morgoth, querendo ou não, enxerga todas as coisas corrompidas.

Um dos esforços especiais de Morgoth era lançar uma luz maligna sobre tudo aquilo que Thingol e Melian construíram, pois ele os temia e odiava acima de tudo; e quando, então, considerou ter chegado a hora, no ano após a morte de Túrin, libertou Húrin, permitindo que partisse para onde desejasse.

Ele mentiu que fora movido pela pena de um inimigo completamente derrotado, maravilhado por sua resistência. ‘Tal firmeza’, disse ele, ‘deveria ter se mostrado em uma causa melhor, e teria sido recompensada de outra forma. Mas eu não tenho mais uso para você, Húrin, na sua pálida vidinha.’E ele mentiu, pois seu propósito era que Húrin continuasse a estender a sua malícia contra Elfos e Homens, antes de morrer.

Então, mesmo não acreditando em praticamente nada do que Morgoth dissera ou fizera, sabendo que ele não estava piedoso, ele pegou a sua liberdade e seguiu em pesar, amargado pelos artifícios do Senhor do Escuro. Por vinte e oito anos, Húrin estivera cativo em Angband…

É dito que os caçadores de Lorgan seguiram seus rastros e não abandonaram sua trilha até que ele e seus companheiros subiram pelas montanhas. Quando Húrin chegou novamente aos lugares altos, ele olhou de relance pelas nuvens nos picos da Crisaegrim, e ele lembrou de Turgon; e seu coração desejou retornar para o Reino Escondido, se pudesse, ou ao menos lá ele seria lembrado com honra.

Ele não ouviu nenhuma das coisas que aconteceram em Gondolin, e não sabia que Turgon endurecera seu coração contra a sabedoria e a piedade, e não permitia que ninguém entrasse ou saísse por qualquer motivo. Então, sem saber que todos os caminhos estavam trancados além da esperança, ele resolveu rumar em direção a Crisaegrim, mas ele nada falou aos seus companheiros sobre seus propósitos, pois ele ainda estava ligado ao seu juramento de não revelar a ninguém que conhecesse sequer a região em que Turgon habitava.

Porém ele precisava de ajuda; pois ele nunca vivera nos ermos, onde foras-da-lei estavam há muito acostumados à vida dura de caçadores e ceifeiros, e carregavam consigo tanta comida quanto conseguiam, apesar de o Inverno Mortal ter diminuído seus mantimentos. Assim, Húrin falou a eles: ‘Nós devemos abandonar esta terra agora; pois Lorgan não me deixará mais em paz. Rumemos para os vales do Sirion, onde a primavera finalmente chegou!’

Então Asgon os guiou por um dos antigos caminhos que levavam para o leste de Mithrim, e eles desceram pelas nascentes do Lithir, até que chegaram às cachoeiras que corriam até o Sirion ao final da Terra Estreita. E lá eles chegaram exaustos, pois Húrin confiava pouco na ‘liberdade’ que Morgoth lhe garantira. E ele estava correto: Morgoth tinha notícias de todos os seus movimentos, e o tempo em que esteve escondido nas montanhas, a sua descida foi rapidamente espionada. A partir de então, ele foi seguido e observado com tal astúcia que ele raramente tinha qualquer pista disso. Todas as criaturas de Morgoth evitavam o seu caminho, e ele não foi emboscado ou atacado.

Eles rumaram para o sul, pelo lado oeste do Sirion, e Húrin pensava consigo mesmo como se separar de seus companheiros, ao menos por tempo suficiente para poder procurar por uma entrada para Gondolin sem trair a sua palavra. Finalmente eles alcançaram Brithiach, e lá Asgon disse a Húrin: ‘Para onde iremos agora, Senhor? Além deste vau os caminhos são muito perigosos para os homens mortais, se o que dizem é verdade.’

‘Então rumemos para Brethil, que é perto daqui,’ disse Húrin. ‘Eu tenho uma missão lá. Naquela terra meu filho morreu.’

Então, naquela noite eles se abrigaram em um bosque de árvores, as primeiras da Floresta de Brethil em sua fronteira norte, próxima do sul do Brithiach.

Húrin se deitou separado dos outros; e no dia seguinte antes do Sol nascer, enquanto eles dormiam exaustos, ele os abandonou e cruzou o vau e chegou a Dimbar.

Quando os homens despertaram, ele já estava longe, e havia uma grossa neblina da manhã sobre o rio. O tempo passou e, não tendo retornado nem respondido aos chamados, eles começaram a temer que ele fora atacado por alguma fera ou por algum inimigo que espreitava. ‘Nós fomos negligentes’, disse Asgon. ‘A terra está quieta, quieta demais, mas existem olhos sob as folhas e ouvidos atrás das pedras.’

Eles seguiram o seu rastro quando a neblina se ergueu; mas ele levou para o vau e lá desapareceu, e eles estavam perdidos. ‘Se ele nos deixou, deixe-nos voltar para nossa terra,’ disse Ragnir. Ele era o mais novo na companhia, e pouco recordava dos dias que antecederam a Nirnaeth. ‘O raciocínio do velho é selvagem. Ele fala com com a sombra com vozes estranhas enquanto dorme.’

‘Pouco me espanta se for verdade’, disse Asgon. ‘Mas quem mais poderia permanecer tão forte depois de tanta angústia? Não, ele é nosso senhor, faça o que fizer, e eu jurei segui-lo.’

‘Até mesmo para o leste além do vau?’ perguntaram os outros.

‘Não, existe pouca esperança naquele caminho’, disse Asgon, ‘e eu não creio que Húrin irá muito distante por lá. Tudo o que sabemos de seus propósitos é que ele queria ir o mais cedo possível para Brethil, e que ele tem uma missão lá. Nós estamos exatamente na fronteira. Vamos procurar por ele lá.’

‘Com a permissão de quem?’ disse Ragnir. ‘Os homens de lá não gostam de estranhos.’

‘Bons homens habitam lá,’ disse Asgon, ‘e o Senhor de Brethil é parente dos nossos Senhores.’ Mesmo assim, os outros estavam em dúvidas, pois nenhuma notícia tem saído de Brethil nos últimos anos. ‘Pode ser governado por Orcs, pelo que sabemos,’ disseram eles. ‘Nós logo iremos descobrir como andam as coisas’, disse Asgon. ‘Orcs são pouco piores que o povo do Leste, eu acho. Se foras-da-lei devemos permanecer, eu prefiro espreitar pelas belas florestas em vez das colinas geladas.

Então Asgon foi em direção a Brethil; e os outros o seguiram, pois ele tinha um coração resoluto e os homens diziam que ele nascera com boa sorte. Antes do fim daquele dia eles já estavam nas profundezas da floresta, e a chegada deles estava marcada; pois os Haladin estavam mais atentos do que nunca, e observavam suas fronteiras de perto. Na hora cinza que antecede a manhã, praticamente todos os intrusos dormiam, seu acampamento foi cercado e seus vigias foram amordaçados logo que alertaram os outros.

Então Asgon se levantou, e mandou que seus homens não desembainhassem suas armas. ‘Vejam agora,’disse ele, ‘nós viemos em paz! Nós somos Edain de Dorlomin.’

‘Mas o porquê da sua vinda eu não sei,’disseram os vigias. ‘Mas a manhã ainda está escura. Nosso líder irá fazer melhor julgamento de vocês quando estiver mais claro.’

Então, com muitos homens a menos, Asgon e seus homens foram feitos prisioneiros, e suas armas foram tomadas e suas mãos atadas; e assim foram levados para a frente do novo Senhor dos Haladin.

Ele era Harathor, irmão de Hunthor, que morreu na ravina de Taeglin. Pela a morte de Brandir, que não deixara filhos, ele herdara o comando por descendência de Halad. Ele não tinha amor por aqueles da casa de Hador, e não compartilhava do mesmo sangue; e disse para Asgon, quando os capturados estavam perante ele: ‘De Dorlomin você vem, me disseram, e sua fala comprova isso. Mas o porquê da sua vinda eu não sei.’

‘Então são Edain do norte,’disse ele. ‘Sua fala comprova isso, bem como seus equipamentos. Você busca amizade, talvez. Mas ai de mim! coisas más recaíram sobre nós aqui, e nós vivemos com medo. Manthor, meu senhor, Mestre da Marca do Norte, não está aqui, e eu devo, então, obedecer aos comandos de Halad, o líder de Brethil. Para ele vocês devem ser enviados sem mais perguntas. Lá vocês poderão ter alguma sorte!’

Então Ebor falou cortesmente, mas ele não tinha muitas esperanças. Pois o novo líder era agora Hardang, filho de Hundad. Na morte de Brandir sem filhos, ele foi feito Halad, sendo um dos Haladin, da família de Haleth, de onde todos os capitães eram escolhidos. Ele não amava Túrin, e ele agora não possuía amor nenhum pela Casa de Hador, de cuja linhagem ele não fazia parte. Nem tinha muita amizade por Manthor, que também era dos Haladin.

Para Hardang, Asgon e seus homens seguiam caminhos desonestos, e eles foram vendados. Assim, finalmente chegaram ao salão dos capitães em Obel Halad; e seus olhos foram descobertos, e os guardas os conduziram para dentro. Hardang estava sentado em sua grande cadeira, e ele os encarou com frieza.

‘Vocês vêm de Dor-lómin, segundo me disseram,’ disse ele. ‘Mas porque vocês vieram aqui eu não sei. Poucas coisas boas vêm para Brethil daquela terra, e eu não estou olhando para nenhuma coisa boa agora: é um feudo de Angband. Saudações frias encontrarão aqui, se esgueirando até aqui para nos espionar!’

Asgon controlou sua fúria, mas respondeu, determinado: ‘Nós não nos esgueiramos até aqui, senhor. Nós somos tão hábeis nas florestas quanto seu povo, e nós não teríamos sido capturados tão facilmente se tivéssemos qualquer motivo para temer. Nós somos Edain, e não servimos Angband, mas defendemos a Casa de Hador. Nós pensávamos que os homens de Brethil fossem assim também, e amigáveis a todos os homens de boa-fé.’

‘Para aqueles que provaram a sua fé,’ disse Hardang. ‘Ser simplesmente Edain não é suficiente. E, no que concerne à casa de Hador, pouco amor é tido aqui. Por que o povo dessa casa vem aqui agora?’ Isto Asgon não respondeu; pois, devido à hostilidade do líder, ele achou melhor não mencionar Húrin ainda.

‘Percebo que não falarás tudo o que sabes,’ falou Hardang. ‘Que assim seja. Deverei fazer meu julgamento com o que vejo; mas serei justo. Este é meu julgamento. Aqui Túrin, filho de Húrin permaneceu por um tempo, e ele livrou a nossa terra da Serpente de Angband. Por isto, darei a vocês suas vidas. Mas ele desprezou Brandir, justo líder de Brethil, e ele o matou sem justiça ou piedade. Assim, não os darei abrigo. Vocês deverão sair por onde entraram. Vão agora, e se retornarem, retornarão para a morte!’

‘Não devolverão nossas armas?’ perguntou Asgon. ‘Nos lançarão de volta ao ermo sem arco e sem armadura para morrer entre os animais?’

‘Nenhum homem de Hithlum irá portar armas novamente em Brethil,’ disse Hardang. ‘Não com permissão minha. Tirem-nos daqui.’

Mas enquanto eram arrastados para fora do salão, Asgon gritou: Esta é a justiça dos homens do Leste, não dos Edain! Nós não estivemos aqui com Túrin, para o bem ou para o mal. Nós servimos a Húrin. Ele ainda vive. Espreitando pelas suas florestas não o recorda a Nirnaeth? Vai desonrá-lo também, com seu rancor, se ele vier?’

‘Se Húrin vier, você diz?’ disse Hardang. ‘Quando Morgoth dormir, talvez!’

‘Não,’ disse Asgon. ‘Ele retornou. Com ele nós viemos até suas fronteiras. Ele tem uma missão a cumprir aqui, segundo nos disse. Ele virá!’

‘Então eu estarei aqui para encontrá-lo,’ falou Hardang. ‘Mas vocês não estarão. Agora vão!’ Disse ele em escárnio, mas sua face empalideceu em um medo súbito de que acontecera um presságio de que o pior ainda estaria por vir. Então um grande medo da sombra da Casa de Hador caiu sobre ele, e então seu coração ficou negro. Pois ele não era um homem de grande espírito, como eram Hunthor e Manthor, descendentes de Hiril.

Asgon e sua companhia foram vendados novamente, para que não espionassem os caminhos de Brethil, e foram levados para a fronteira norte. Ebor estava insatisfeito quando ouviu do que aconteceu em Obel Halad, e ele falou a eles com cortesia.

‘Ai de mim!’, disse ele, ‘vocês devem seguir em frente novamente. Mas vejam! Eu devolvo a vocês suas armas e equipamentos. Pois é o que meu senhor Manthor faria, no mínimo. Quem dera ele estivesse aqui! Mas ele é o mais bravo entrenós; e pelo comando de Hardang, é o líder da guarda no vau de Taiglin. Lá nós temos mais medo de investidas, e é onde a maioria dos ataques acontece. Bem, isto é o que farei; mas lhes imploro, não entrem em Brethil novamente, pois se o fizerem, nós seremos obrigados a obedecer à palavra de Hardang que se espalhou por todas as fronteiras: matar vocês assim que os encontrar.’

Então Asgon o agradeceu, e os conduziu até as margens de Brethil, e os desejou uma boa jornada.

‘Bem, sua sorte permanece,’ disse Ragnir, ‘pois ao menos não fomos mortos, apesar disso ter quase acontecido. O que faremos agora?’

‘Eu ainda desejo encontrar meu senhor Húrin,’ disse Asgon, ‘e meu coração me diz que ele ainda virá para Brethil.’

‘Para onde não podemos retornar,’ disse Ragnir, ‘ao menos que procuremos por uma morte mais rápida que a fome.’

‘Se ele vier, ele virá, eu acho, pela fronteira norte, entre o Sirion e Taiglin,’ disse Asgon. É por lá que talvez teremos notícias.’

‘Ou flechas,’ disse Ragnir. Mesmo assim eles seguiram o conselho de Asgon e seguiram para o oeste, cuidando sempre as bordas negras de Brethil.

Mas Ebor estava preocupado, e reportou rapidamente a Manthor sobre a vinda de Asgon e suas palavras estranhas sobre Húrin. Mas rumores correram por Brethil sobre este assunto. E Hardang reuniu-se em Obel Halad e se aconselhou com seus amigos.

Agora Húrin, chegando a Dimbar, reuniu todas suas forças e rumou sozinho em direção aos pés negros de Echoriad. Toda a terra estava fria e desolada; e quando ela finalmente apareceu, imensa, à sua frente, e ele não conseguia encontrar formas de seguir adiante, ele parou e olhou em sua volta com pouca esperança. Ele estava agora no pé de uma grande avalanche sob uma imensa parede de pedras, e ele não sabia que era tudo o que restava do antigo Caminho de Escape: o Rio Seco estava seco e o portão arqueado, enterrado.Então Húrin olhou para o céu, pensando que, por algum lance de sorte, ele poderia avistar novamente as Águias, como vira, há muito tempo, em sua juventude. Mas ele viu apenas as sombras sopradas do Leste, e nuvens formando redemoinhos em volta dos picos inacessíveis; e o vento assobiando por sobre as pedras. Mas a vigília das Grandes Águias, e elas marcaram Húrin, lá em baixo, desamparado sob a luz esvanecente. E rapidamente Sorontar, já que as notícias pareciam importantes, reportou a Turgon. Mas Turgon falou: ‘Não! Isso é uma mentira! A não ser que Morgoth esteja dormindo. Você está errado.’
‘Não, não estou,’ respondeu Sorontar. ‘Se as Águias de Manwë cometessem erros desta forma, Senhor, seu esconderijo teria sido em vão.’
‘Então tuas palavras trazem um mau presságio,’ disse Turgon; ‘pois elas só podem significar que mesmo Húrin Thalion sucumbiu à vontade de Morgoth. Meu coração está fechado.’ Mas quando ele dispensou Sorontar, Turgon sentou e pensou, e ele estava preocupado, relembrando os feitos de Húrin. E ele abriu seu coração, e ordenou que as Águias procurassem por Húrin, a que o trouxessem, se pudessem, para Gondolin. Mas era tarde de mais, e elas nunca mais o viram novamente, seja na luz, seja
na sombra.
Pois Húrin permaneceu em desespero perante o severo silêncio de Echoriad, e o sol poente, rasgando as nuvens, manchando seu cabelo branco com vermelho. Então ele gritou no ermo, negligente aos muitos ouvidos, e ele amaldiçoou a terra impiedosa: ‘dura como os corações de Elfos e Homens’. E ele parou, enfim, em frente a uma grande pedra, e abrindo seus braços, olhando em direção a Gondolin, ele chamou com uma grande voz: ‘Turgon, Turgon! Lembre-se do Pântano de Serech!’ E novamente: ‘Turgon! Húrin chama por você. O Turgon, não irás me ouvir dos teus salões escondidos?’Mas não houve resposta, e tudo o que ele ouviu foi o vento na grama seca. ‘E ainda assim eles sibilam em Serech ao por do Sol’, disse ele. E enquanto ele falava, o Sol passou para trás das Montanhas da Sombra, e a escuridão caiu sobre ele, e o vento cessou, e o ermo ficou em silêncio.Entretanto, ouvidos escutaram as palavras que Húrin falou, e olhos marcaram seus gestos; e o relatório de tudo chegou rápido ao Trono Escuro no Norte. Então Morgoth sorriu, e soube claramente que Turgon habitava naquela região, pois devido as Águias nenhum espião dele podia chegar ao alcance do olho da terra atrás das montanhas circulantes. Esse foi o primeiro mal que a liberdade de Húrin causou.

Enquanto a escuridão caía, Húrin pisou em falso na pedra, e caiu desmaiado, em um profundo sono de pesar. Mas em seu sono ele ouviu a voz de Morwen lamentando, e freqüentemente falou seu nome; e pareceu para ele que aquela voz vinha de Brethil. Então, quando despertou com a chegada do dia, ele se ergueu e retornou; e ele chegou novamente ao vau, e, como se guiado por uma mão invisível, ele passou pelas bordas de Brethil, até que, depois de uma jornada de quatro dias, chegou até Taeglin, e toda sua escassa comida acabou, e ele estava faminto. Mas ele prosseguiu como a sombra de um homem levado por um vento negro, e ele chegou ao vau à noite, e lá ele o atravessou até Brethil. Os sentinelas noturnos o viram, mas eles estavam cheios de medo, então eles não ousaram se mover ou gritar; pois eles pensaram que era um fantasma vindo de uma montanha de mortos em combate que caminhava com a escuridão em sua volta. E por muitos dias após, os homens temeram se aproximar do vau à noite, a não ser com grande companhia e com fogo aceso.Mas Húrin passou, e na noite do sexto dia ele chegou finalmente ao lugar da queima de Glaurung, e viu a pedra alta na beirada de Cabed Naeramarth. Mas Húrin não olhou para a pedra, pois ele sabia o que estava escrito ali, e seus olhos perceberam que não estava sozinho. Sentado na sombra da pedra estava uma figura encurvada sobre seus joelhos. Parecia um andarilho sem lar derrotado pela idade, cansando demais para perceber sua chegada; mas seus farrapos eram retalhos de um traje feminino. Húrin parou por um tempo em silêncio, então ela ergueu seu capuz esfarrapado e levantou seu rosto lentamente, com aparência selvagem e faminta como um lobo que fora caçado por muito tempo. Ela era cinzenta, com o nariz fino e com dentes quebrados, e com uma das mãos em forma de garra ela segurava a sua capa na altura do peito. Mas de repente seus olhos encararam os dele e então Húrin a reconheceu; pois apesar de serem selvagens agora, e cheios de medo uma luz ainda brilhava neles que era difícil de suportar: a luz élfica que há muito lhe dera seu nome, Edelwen, a mais orgulhosa das mulheres mortais nos dias antigos.‘Edelwen! Edelwen!’, gritou Húrin; e ela se levantou e cambaleou em frente, e ele a pegou em seus braços.

‘Finalmente você veio,’ ela disse. ‘Eu esperei por tempo demais.’

‘Foi uma estrada negra. Eu vim da forma que pude,’ respondeu.

‘Mas você está atrasado,’ ela disse, ‘atrasado demais. Eles estão perdidos.’

‘Eu sei,’ disse ele. ‘Mas você não está.’

‘Mas quase,’ disse ela. ‘Eu estou acabada. Eu devo partir com o sol. Eles estão perdidos.’ Ela se segurou no casaco dele. ‘Sobrou pouco tempo,’ ela disse. ‘Se você sabe, me diga! Como ela o encontrou?’ Mas Húrin não respondeu, e ele sentou ao lado da pedra com Morwen em seus braços; e eles não falaram novamente. O sol se pôs, e Morwen suspirou e segurou sua mão e ficou inerte; e Húrin soube então que ela morrera.

E assim morreu Morwen, a orgulhosa e bela; e Húrin olhou para ela no crepúsculo, e pareceu que as marcas de pesar e cruel privação suavizaram. Sua face ficou fria e pálida e triste. ‘Ela não foi conquistada,’ ele disse; e ele fechou os olhos dela, e sentou-se imóvel ao lado dela enquanto a noite caía. As águas de Cabed Naeramarth rugiam, mas ele não ouviu som algum, nem viu nada, nem sentiu nada, pois seu coração estava duro como pedra, e ele pensou em permanecer ali sentado até que também morresse.

Então veio um vendo frio e lançou uma chuva fina em seu rosto; e de repente ele estava desperto, e com uma profunda raiva negra cresceu dentro dele como uma fumaça, superando a razão, então tudo o que desejava era buscar vingança pelos seus erros e pelos erros de sua família, acusando em sua angústia todos aqueles que já tiveram negócios
com eles.

Ele levantou e ergueu Morwen; e de repente percebeu que erguê-la estava além de suas forças. Ele estava faminto e idoso, e cansado como o inverno. ‘Fique aqui mais um pouco, Edelwen,’ ele disse, ‘até que eu retorne. Nem mesmo um lobo machucaria mais você. Mas o povo desta terra dura irá se arrepender do dia em que você morreu aqui!’

Então Húrin se afastou, aos tropeços, e voltou para o vau de Taeglin e lá ele caiu ao lado de Haud-en-Elleth, e uma escuridão se abateu sobre ele, e ele permaneceu como se estivesse adormecido. Ao amanhecer, antes que a luz o despertasse totalmente, ele foi encontrado pelos guardas que Hardang mandara manter uma atenção especial naquele lugar.

Foi um homem chamado Sagroth que o encontrou primeiro, e ele o encarou com espanto e sentiu medo, pois ele pensou que soubesse quem aquele homem velho era. ‘Venham!’ gritou ele para os que o seguiam. ‘Olhem aqui! Deve ser Húrin. Os intrusos falaram a verdade. Ele chegou!’

‘Você encontrou problemas, como sempre, Sagroth!’ disse Forhend.

‘O Halad não ficará satisfeito com o que encontraram. O que deverá ser feito? Talvez Hardang ficaria mais satisfeito em ouvir que nós acabamos com os problemas em suas fronteiras e os empurramos para fora.’

‘Empurramos para fora?’ disse Avranc. Ele era filho de Dorlas, um homem jovem, baixo e escuro, porém forte, parecido com Hardang, como fora também seu pai. ‘Empurramos para fora? Que bem isso causaria? Ele voltaria novamente! Ele pode caminhar – todo o caminho desde Angband, se é o que você está pensando. Veja! Ele é horrível e possui uma espada, mas dorme profundamente. Deve ele despertar para mais angústia? Se você quer satisfazer o líder, Forhend, acabe com ele aqui.’

Tamanha era a sombra que agora caía sobre s corações dos homens, enquanto o poder de Morgoth crescia, e o medo se espalhava por toda a terra; mas nem todos os corações tinham escurecido. ‘Envergonhe-se pelo que disse!’ gritou Manthor, o capitão, que vinha por trás e ouviu o que diziam. ‘E principalmente você, Avranc, que jovem obstinado você é! Ao menos você ouviu sobre os feitos de Húrin de Hithlum, ou apenas as conhece de fábulas contadas ao pé do fogo? O que deve ser feito, então? Matá-lo em seu sono, esse é o seu conselho. Do inferno veio essa idéia!’

‘Assim como ele,’ respondeu Avranc. ‘Se realmente ele é Húrin. Quem pode saber?’

‘Pode ser descoberto em breve,’ disse Manthor; e se aproximou de Húrin deitado, ajoelhando-se próximo a ele, e ergueu a sua mão e a beijou. ‘Acorde!’, ele gritou. ‘A ajuda está próxima. E se você é Húrin, não há ajuda que eu creio ser suficiente.’

‘E nenhuma ajuda que ele não irá retribuir com mal,’ disse Avranc. ‘Ele vem de Angband, digo eu.’

‘O que ele pode vir a fazer nós não sabemos,’ disse Manthor. ‘O que ele fez nós sabemos, e nossa dívida ainda não foi paga.’ Então ele falou novamente, em voz alta: ‘Viva Húrin Thalion! Viva o capitão dos homens!’

Então Húrin abriu os olhos, lembrando de palavras malignas que ouvira durante o sono, antes de acordar, e ele viu homens sobre ele com armas em punho. Ele levantou tenso, tateando a sua espada; e ele olhou para eles com raiva e descaso. ‘Malditos!’ ele gritou. ‘Matariam um velho em seu sono? Vocês se parecem com homens, mas são orcs sob a pele, eu acho. Então venham! Matem-me acordado, se é que ousam fazer isso. Mas eu não irei satisfazer seu senhor negro, eu acho. Eu sou Húrin, filho de Galdor, um nome que orcs ao menos lembrarão.’

‘Não, não,’ disse Manthor. ‘Não sonhe. Nós somos homens. Mas esses são dias malignos e de dúvidas, e nós estamos sobre muita pressão. Esta região é perigosa. Não quer vir conosco? Ao menos nós podemos lhe proporcionar comida e descanso.’

‘Descanso?’ disse Húrin. ‘Vocês não podem me proporcionar isso. Mas, em minha necessidade, eu aceitarei comida.’

Então Manhor deu a ele um pouco de pão e carne e água; mas pareceram engasgá-lo, e ele cuspiu fora. ‘A que distância estamos da casa de seu senhor?’ ele perguntou. ‘Até que eu o veja, a comida que negaram à minha amada não descerá pela minha garganta.’

‘Ele se irrita e nos despreza,’ resmungou Avranc. ‘O que eu disse?’ Mas Manthor olhou para ele com piedade, apesar de não entender suas palavras. ‘É uma longa estrada para os cansados, senhor,’ disse ele; ‘e aqueles da casa de Hardang Halad estão escondidos dos estranhos.’

‘Então me leve para lá!’ disse Húrin. ‘Eu irei da forma que puder. Eu tenho uma missão naquela casa.’

Logo eles seguiram em frente. Da sua forte companhia, Manthor deixou muitos cumprindo sua tarefa, mas ele caminhou com Húrin, e com ele levou Forhend. Húrin caminhava como podia, mas depois de um tempo, começou a tropeçar e a cair; e mesmo que sempre se reerguesse e lutasse para continuar, não permitiria que ninguém o ajudasse.

Depois de muitas paradas pelo caminho, finalmente chegaram aos salões de Hardang em Obel Halad, nas profundezas da floresta; e ele sabia da sua chegada, pois Avrang, espontaneamente, correu na frente deles e levou as notícias antes deles; e ele não esqueceu de reportar as palavras selvagens de Húrin quando despertou e quando cuspiu fora sua comida.

Então eles encontraram os salões bem guardados, com muitos homens na cerca do pátio, e homens nas portas. No portão do pátio, o capitão dos guardas os parou. ‘Entreguem o prisioneiro para mim!’ disse ele.

‘Prisioneiro!’ disse Manthor. ‘Eu não trago um prisioneiro, mas um homem a quem você deveria honrar.’

‘Essas são palavras de Halad, não minhas,’ disse o capitão. ‘Mas você pode vir também. Ele também tem palavras para você.’

Então eles levaram húrin até a presença do líder; e Hardang não o cumprimentou, mas sentado em sua grande cadeira, olhou Húrin da cabeça aos pés. Mas Húrin retornou o seu olhar, e se manteve o mais firme que pode, apesar de estar apoiado em seu cajado. Então ele permaneceu um tempo em silêncio, até que ele tombou no chão. ‘Vejam!’ ele disse. ‘Eu vejo que existem tão poucas cadeiras em Brethil que um convidado deva sentar no chão.’

‘Convidado?’ disse Hardang. ‘Nenhum convidado por mim. Mas tragam um banco para o homem. Se ele não desdenhar dele, pois ele cospe em nossa comida.’

Manthor se ofendeu com a descortesia e ouvindo uma risada nas sombras atrás da grande cadeira, ele olhou e percebeu que era Avranc, e seu rosto se escureceu em fúria.

“Me desculpe, senhor,’ disse ele a Húrin. ‘Existe um mal entendido aqui.’ Então se virou para Hardang e se lançou sobre ele. ‘A minha companhia tem um novo capitão agora, meu Halad?’ disse ele. ‘Pois se não eu não entendo como alguém que abandonou o seu posto e desobedeceu minhas ordens possa ficar aqui sem reprova. Ele trouxe notícias antes de mim, eu vejo; mas parece ter esquecido o nome do convidado, ou Húrin Thalion não teria sido deixado em pé.’

‘O nome foi dito para mim,’ respondeu Hardang, ‘assim como suas palavras malignas. Assim é a casa de Hador. Mas é o papel de um estranho se apresentar pela primeira vez em minha casa, e eu esperei ouvi-lo. Assim como a sua missão, já que diz ter uma. Mas sobre seu dever, tais assuntos não devem ser tratados na presença de estranhos.’

Então ele se virou para Húrin, que estava sentado no banco; seus olhos estavam fechados e ele não parecia dar atenção ao que acontecia. ‘Bem, Húrin de Hithlum,’ disse Hardang, qual é a sua missão? É motivo de pressa? Ou não prefere descansar um pouco e falar sobre isso mais tarde, quando estiver mais à vontade? Enquanto isso, podemos providenciar uma comida menos horrível.’ O tom de Hardang era mais gentil, e ele levantou enquanto falava; pois ele era um homem prudente, e ele percebeu o desagrado no rosto dos outros atrás de Manthor.

Então, de repente, Húrin se levantou. ‘Bem, mestre junco do pântano,’ disse ele. ‘Então você se curva com cada respiração? Cuidado para que a minha não lhe derrube. Vá descansar para se fortalecer, então eu o chamarei de novo! Zombador de cabelos cinzentos, mesquinho em relação à comida, que deixa os errantes famintos. Esse banco servirá melhor para você.’ Com isso, ele lançou o banco em direção a Hardang, acertando-o na testa; e se virou para sair do salão.

Alguns dos homens abriu caminho, seja por pena ou medo de sua ira; mas Avranc correu à sua frente. ‘Não tão rápido, Húrin!’ ele gritou. ‘Ao menos não tenho mais dúvidas em relação ao seu nome. Você traz suas maneiras de Angband. Mas nós não amamos os feitos dos orcs neste salão. Você atacou o líder em sua cadeira, e agora você é nosso prisioneiro, independente do seu nome.’

‘Eu o agradeço, capitão Avranc,’ disse Hardang, que estava sentado em sua cadeira, enquanto tentava estancar o sangue que corria de sua sombrancelha. ‘Agora deixe o velho louco ser algemado e mantido cativo, eu o julgarei mais tarde.’

Então eles colocaram tiras de couro nos braços de Húrin, e um cabresto no seu pescoço, e o levaram embroa; e ele não mostrou resistência, pois a fúria havia acabado, e ele caminhou como alguém dormindo, de olhos fechados. Mas Manthor, apesar de Avranc ter olhado bravo para ele, colocou o braço sobre o ombro do velho e o guiou para que não tropeçasse.

Mas quando Húrin foi trancado em uma caverna e Manthor não podia fazer mais nada para ajudá-lo, retornou para o salão. Lá ele encontrou Avranc falando com Hardang, e, apesar de terem se calado quando chegou, ele ouviu as últimas palavras que Avranc falou, e pareceu que Avranc queria que Húrin fosse executado imediatamente.

‘Então, capitão Avranc,’ ele disse, ‘as coisas foram bem para você hoje! Eu já vi você jogar desta forma: atiçar um velho texugo e matá-lo quando ele o morde. Não tão rápido, capitão Avranc! Nem você, Hardang Halad. Este não é assunto para lidar de maneira arrogante, sem controle. A vinda de Húrin, e a forma com que foi recebido, diz respeito a todo o povo, e eles devem ouvir tudo o que é dito, antes de qualquer julgamento.

‘Você deve ir,’ disse Hardang. ‘Retorne para sua missão na fronteira, até que o capitão Avranc apareça para assumir o comando.’

‘Não, senhor,’ disse Manthor, ‘eu não tenho missão. A partir de hoje não estou mais a seu serviço. Eu deixei Sagroth no comando, um homem da floresta que é mais velho e mais sábio que o que você nomeou. Quando chegar a hora, retornarei para minhas próprias fronteiras*. Mas agora eu reunirei o povo.

Quando saiu pela porta, Avranc armou seu arco para matar Manthor, mas Hardang o impediu. ‘Ainda não,’ ele disse. Mas Manhor não viu isso (apesar de algumas pessoas no salão ter percebido), e saiu, e mandou todos aqueles que se dispuseram a agir como mensageiros para reunir os mestres de todas as terras e qualquer outro que se dispusesse a comparecer.

Agora os rumores corriam pelas árvores, e as lendas cresciam quando eram contadas; e alguns disseram isso, e outros aquilo, e a maioria falou em louvor a Halad e se lançou em direção a Húrin como se fosse um maligno chefe orc; pois Avranc também estava ocupado com mensageiros. Logo tinha uma grande multidão de povos, e a vila próxima ao salão dos líderes estava apinhada com tendas e barracas. Mas todos os homens portavam armas, por medo que um alarme repentino viesse das fronteiras.

Quando ele enviou seus mensageiros, Manthor foi até a prisão de Húrin, mas os guardas não o deixaram entrar. ‘Venham!’ disse Manthor. ‘Vocês sabem muito bem que é do nosso bom costume que qualquer prisioneiro deve ter um amigo que possa visitá-lo e ver como ele está sendo alimentado e aconselhá-lo.’

*Pois Manthor era um descendente de Haldad, e ele possuía uma terra pequena na fronteira leste de Brethil, próximo ao Sirion onde ele atravessa Dimbar. Mas todo o povo de Brethil era formado por homens livres, mantendo suas casas e suas terras, sejam maiores ou menores, de direito. Seu senhor era escolhido entre os descendentes de Haldad, por reverência pelos feitos de Haleth e Haldar; e mesmo que a liderança era dada, como se fosse um domínio ou um reino, para os mais velhos da linhagem mais velha, o povo tinha o direito de colocar qualquer um de lado ou tirá-lo de lá, por uma causa grave. E alguns sabiam o suficiente que Harathor tentara que Brandir o Aleijado tivesse tido abdicado em seu favor.

‘O amigo é escolhido pelo prisioneiro,’ responderam os guardas; ‘mas este homem selvagem não tem amigos.’

‘Ele tem um,’ disse Manthor, ‘e eu peço permissão para me oferecer como sua escolha.’

‘O Halad nos proíbe de admitir qualquer um fora os guardas,’ disseram. Mas Manthor, que era sábio nas leis e costumes de seu povo, respondeu: ‘Sem dúvida. Mas neste caso ele não tem direito. Por que o intruso está preso? Nós não algemamos velhos e errantes por falarem rudemente quando irritados. Este está preso por seu ataque a Hardang, e Hardang não pode julgar seu próprio caso, mas deve levar sua queixa para o julgamento do povo. Enquanto isso, ele não pode negar ao prisioneiro todo conselho e ajuda. Se ele fosse sábio, ele veria que não age desta forma, beneficiaria sua própria causa. Mas talvez alguma outra boca falou pela dele?’

‘Verdade,’ disseram. ‘Avranc trouxe a ordem.’

‘Então esqueça,’ disse Manthor. ‘Pois Avranc estava obedecendo outras ordens, para permanecer em sua missão na fronteira. Escolha então entre um jovem desertor e as leis do povo.’

Então os guardas permitiram sua entrada na caverna; pois Manthor era querido em Brethil, e os homens não gostavam dos líderes que tentaram dominar o povo. Manthor encontrou Húrin sentado em um banco. Tinha algemas em seus tornozelos, mas suas mãos estavam livres; e tinha um pouco de comida à sua frente, intocada. Ele não ergueu o olhar.

‘Salve, senhor!’ disse Manthor. ‘As coisas não aconteceram como deviam, nem como eu ordenei. Mas agora você precisa de um amigo.’

‘Eu não tenho amigos, nem desejo algum nesta terra,’ respondeu Húrin.

‘Um amigo está na sua frente,’ respondeu Manthor. ‘Não me rejeite. Por enquanto, pelo menos! O assunto entre você e Hardang Halad deve ser levado para ser julgado pelo povo, e seria bom, pelo que nossas leis permitem, ter um amigo para aconselhá-lo e defender o seu caso.’

‘Eu não irei me defender, e não preciso de conselhos,’ disse Húrin.

‘Você precisa deste conselho, pelo menos,’ disse Manthor. ‘Controle sua ira por enquanto, e coma um pouco, pra que tenha força perante seus inimigos. Eu não sei qual é sua missão aqui, mas ela seria mais rápida se você não estivesse faminto. Não se mate enquanto existe esperança!’

‘Me matar?’ gritou Húrin, e ele cambaleou e se escorou na parede, e seus olhos estavam vermelhos. ‘Devo ser arrastado algemado perante uma ralé de homens da selva para ouvir que tipo de morte irão me dar? Eu me matarei antes, se minhas mãos estiverem livres.’ Então, de repente, rápido como um velho urso em uma cilada, ele saltou para a frente, e antes que Manthor pudesse evitá-lo, ele puxou uma faca do seu cinto. Então ele afundou no banco.

‘Você poderia ter tido a faca como um presente,’ disse Manthor, ‘porém nós não acreditamos no suicídio como uma saída nobre para aqueles que não enlouqueceram. Esconda a faca e a guarde para um uso melhor! Mas tenha cuidado, pois é uma lâmina maldita, de uma forja dos anões. Agora, senhor, não me considerará como amigo? Não diga nada, mas se você comer comigo, considerarei como um sim.’

Então Húrin olhou para ele e a ira deixou seus olhos; e juntos eles beberam e comeram juntos em silêncio. E quando tudo estava terminado, Húrin falou: ‘Pela sua voz você me derrotou. Nunca desde o Dia do Terror eu ouvi a voz de um homem tão bela. Ai de mim! Ela lembra das vozes na casa de meu pai, muito tempo atrás, quando a sombra parecia estar tão longe.’

‘Isto pode muito bem ser verdade,’ disse Manthor. ‘Hiril, minha primeira mãe era irmã de sua mãe, Hareth.’

‘Então você é amigo e parente,’ disse Húrin.

‘Mas não eu sozinho,’ disse Manthor. ‘Nós somos poucos e temos pouco dinheiro, mas nós também somos Edain, e ligados por muitas formas ao seu povo. Seu nome foi por muito tempo mantido honrado aqui; mas nenhuma notícia de seus feitos teria chegado até nós se Haldir e Hundar não tivessem marchado para a Nirnaeth. Lá eles caíram, mas sete dos seus companheiros retornaram, pois eles foram socorridos por Mablung de Doriath e curados de seus ferimentos.

Os dias tem sido escuros desde então, e muitos corações foram escurecidos, mas não todos.’

‘Mas a voz do seu líder vem das sombras,’ disse Húrin, ‘e seu povo o obedece, mesmo em atos de desonra e crueldade.’

‘A tristeza escurece seus olhos, senhor, se é que ouso dizer tal coisa. Mas que isto fique provado, vamos nos aconselhar juntos. Pois eu vejo perigo de mal à nossa frente, tanto para você quanto para meu povo, apesar de talvez a sabedoria possa evitar isso. De uma coisa eu posso alertá-lo, apesar de não lhe agradar. Hardang é um homem menor que seus pais, mas eu não vi maldade nele desde que ele ouviu da sua chegada. Você carrega uma sombra, Húrin Thalion, na qual sombras menores ficam mais escuras.’

‘Palavras negras de um amigo!’ disse Húrin. ‘Por muito tempo vivi na Sombra, mas eu suportei e não me entreguei. Se existe alguma escuridão em mim, é apenas a dor além da dor que me roubou a luz. Mas não faço parte da Sombra.’

‘Mesmo assim, eu lhe digo,’ disse Manthor. ‘que ela segue seus passos. Eu não sei como ganhaste a liberdade; mas o pensamento de Morgoth não o esqueceu. Tenha cuidado.’

‘Não caduque, velho senil, você diria,’ respondeu Húrin. ‘Eu irei suportar isso de você, pela sua bela voz e nosso parentesco, mas não mais! Vamos falar de outras coisas, ou acabamos por aqui.’

Então Manthor foi paciente, e ficou por longo tempo com Húrin, até que a noite trouxe a escuridão para a caverna; e eles comeram juntos mais uma vez. Então Manthor ordenou que uma luz fosse trazida para Húrin; e ele partiu no dia seguinte, e foi para sua tenda com o coração pesado.

No dia seguinte foi proclamado que o debate para o julgamento aconteceria na manhã seguinte, pois quinhentos homens chefes já se apresentaram e este era por costume, o quorum mínimo que se aceitava para um encontro do povo. Manthor foi cedo encontrar Húrin; mas os guardas mudaram. Três homens da guarda privada de Hardang guardavam a porta, e eles não foram amistosos.

‘O prisioneiro está dormindo,’ o líder deles falou. ‘E isso é bom; pode acalmar seu ânimo.’

‘Mas eu sou o amigo que ele escolheu, como foi declarado ontem,’ disse Manthor.

‘Um amigo o deixaria em paz, enquanto ele pode tê-la. Que bem faria acordá-lo?’

‘Por que a minha vinda o acordaria? Os pés de um carcereiro são mais pesados que os meus.’ falou Manthor. ‘Eu desejo ver como ele dorme.’

‘Você pensa que todos os homens mentem, menos você?’

‘Não, não; mas eu acho que alguém esqueceria as nossas leis de bom grado quando elas não servem o seu propósito,’ respondeu Manthor. Mesmo assim pareceu a ele que pouco ajudaria o caso de Húrin se continuasse a discutir, e ele foi embora. Muitas coisas permaneceram sem serem ditas entre eles até que fosse tarde demais. Pois quando ele retornou o dia estava terminando. Nada impediu a sua entrada, desta vez, e ele encontrou Húrin deitado em uma armação de madeira; e ele notou com fúria que ele tinha agora algemas em seus punhos e uma curta corrente entre eles.

‘Um amigo que se atrasa é a esperança que é negada,’ disse Húrin. ‘Esperei por muito tempo por você, mas agora estou com muito sono e meus olhos estão turvos.’

‘Eu vim no meio da manhã,’ disse Manthor, ‘mas eles disseram que você estava dormindo.’

‘Eu estava cochilando, cochilando em uma esperança pálida,’ disse Húrin; ‘mas a sua voz me acordou. Eu estou assim desde que tive meu desjejum. Aquele seu conselho finalmente o tomei, meu amigo; mas comida me faz mais mal do que bem. Agora eu devo dormir. Mas volte pela manhã!’

Manthor teve pensamentos escuros sobre isto. Ele não pode ver o rosto de Húrin, pois havia pouca luz, mas se curvando para baixo ele pode ouvir a sua respiração. Então com uma expressão severa, ele se levantou e pegou os restos da comida, colocando sob seu casaco, e foi embora.

‘Bem, o que você achou do homem selvagem?’ disse o chefe da guarda.

‘Perturbado com sono,’ respondeu Manthor. ‘Ele deve estar bem desperto amanhã. O desperte cedo. Traga comida para dois, pois eu virei quebrar meu jejum com ele.’

No dia seguinte, muito antes do meio da manhã, o debate teve início. Quase mil pessoas chegaram, a maioria homens velhos, já que a vigília nas fronteiras deve ser mantida. Logo o anel do debate estava cheio. Ele tinha a forma de uma grande crescente, com sete fileiras de bancos saindo de um piso plano escavado na encosta da colina. Uma grade alta ficava em volta dela, e a única entrada era por um portão pesado na cerca que se fechava na parte aberta da crescente. No meio da camada mais baixa estava Angbor, ou a Pedra do Destino, uma grande pedra chata na qual o Halad sentaria. Aqueles que eram trazidos para julgamento ficavam na frente da pedra e voltados para a assembléia.

Havia uma grande babel de vozes; mas com o grito de uma trompa, o silêncio caiu, e o Halad entrou, acompanhado por muitos guarda costas. O portão se fechou atrás dele, e ele caminhou lentamente até a Pedra. Então ele parou, olhando para a assembléia e consagrou o debate como de costume. Primeiro ele citou os nomes de Manwë e Mandos, segundo o costume que os Edain aprenderam com os Eldar, e então, falando na língua antiga do povo, que agora estava fora de uso, e declarou aberto o debate, sendo o tricentésimo primeiro debate de Brethil, convocado para julgar um grave assunto.

Quando, como de costume, toda a assembléia gritou em uníssono e na mesma língua ‘Nós estamos prontos’, ele sentou em Angbor, e chamou na língua de Beleriand para os homens que estavam próximos: ‘Soem as cornetas! Que o prisioneiro seja trazido até nós!’

A corneta soou duas vezes, mas por um tempo ninguém entrou, e o som de vozes irritadas podia ser ouvida fora da cerca. Depois de um tempo, o portão foi empurrado e seis homens saíram com Húrin entre eles.

‘Eu sou trazido sob violência e maus tratos,’ ele gritou. ‘Eu não irei caminhar algemado para nenhum debate na terra, nem se reis élficos estivessem presentes. E enquanto eu estiver preso, eu irei negar toda a autoridade e justiça a que me condenem.’ Mas os homens o colocaram no chão à frente da Pedra e o seguraram ali com força.

Agora era costume do debate que, quando qualquer homem era trazido para ele, o Halad deveria ser o acusador, e deveria primeiramente recitar o delito que acusava. A respeito do que era direito do acusado, por ele mesmo ou pela boca de seu amigo, negar a acusação, ou oferecer uma defesa pelo que fez. E depois dessas coisas serem ditas, se algum ponto restava duvidoso ou era negado por um dos lados, testemunhas eram convocadas.

Hardang, então, estava em pé e virado para a assembléia e começou a recitar a acusação. ‘Este prisioneiro,’ disse ele, ‘que está perante vocês, se auto proclama Húrin, filho de Galdor, que um dia foi de Dor-lómin, mas ele veio de uma longa estada em Angband. Seja isto como for.’

Mas sobre isto Manthor se levantou e se colocou perante a Pedra. ‘Com sua licença, meu senhor Halad e povo!’ ele gritou. ‘Como amigo do prisioneiro eu convoco o direito de perguntar: a acusação contra ele envolve de alguma forma a pessoa do Halad? Ou teria o Halad alguma mágoa em relação a ele?’

‘Mágoa?’ gritou Hardang, e a raiva obscureceu seu raciocínio, pois ele não percebeu as intenções de Manthor. ‘Muitas mágoas! Esta não é a última moda em adereços para cabeça para o debate. Eu venho aqui com ferimentos com curativos.’

‘Oras!’ disse Manthor. ‘Mas se é assim, eu peço que a questão não possa ser tratada desta forma. Na sua lei nenhum homem pode recitar a ofensa feita contra si mesmo; nem ele pode sentar na cadeira do julgamento enquanto a acusação é ouvida. Não é esta a lei?’

‘Esta é a lei,’ respondeu a assembléia.

‘Então,’ disse Manthor, ‘antes que a acusação seja ouvida, outro Hardang, filho de Hundad deve ser apontado para a pedra.’

Assim várias vozes se ergueram, mas a maioria das vozes e as vozes mais altas chamavam por Manthor. ‘Não,’ disse ele, ‘eu estou envolvido com uma das partes e não posso ser o julgador. Além disso, é o direito do Halad neste caso nomear aquele que irá tomar o seu lugar, o que ele com certeza sabe muito bem.’

‘Eu o agradeço,’ disse Hardang, ‘mas eu não preciso de um jurista autodidata para me ensinar.’ Então ele olhou para Manthor, como se considerando quem ele deveria nomear. Mas a sua raiva era negra e toda a sabedoria o abandonou. Se ele tivesse escolhido qualquer dos chefes de casa ali presentes, as coisas poderiam ter tomado um rumo diferente. Mas em um momento maligno ele escolheu, para o espanto de todos, gritou: ‘Avranc, filho de Dorlas! Parece que o Halad também precisa de um amigo hoje, quando os juristas estão tão ousados. Eu o convoco para a Pedra.’

O silêncio caiu. Mas quando Hardang se afastou e Avranc foi até a pedra, um grande murmúrio foi ouvido, como o prenúncio de uma tempestade. Avranc era um jovem casado há pouco, e sua juventude fora tomada como ruim por todos os velhos chefes de casa que estavam lá. Pois ele não era querido pelo que era; pois apesar de ser valente, ele era um zombador, como seu pai Dorlas foi antes dele. E lendas negras sussurravam sobre Dorlas, pois, apesar de nada ser dado como verdadeiro, ele foi encontrado morto na batalha com Glaurung, e a espada ensanguentada que jazia ao seu lado era a espada de Brandir.

Mas Avranc não deu atenção aos murmúrios, e se alegrou, como se fosse um assunto simples, que se tratasse rapidamente.

‘Bem,’ disse ele, ‘se isto está definido, não vamos mais perder tempo! O assunto está claro o suficiente.’ Então, se levantando, ele continuou a acusação. ‘Este prisioneiro, este homem selvagem,’ disse ele, ‘vem de Angband, como vocês bem ouviram. Ele foi encontrado dentro de nossas fronteiras. Não por acaso, pois, como ele mesmo disse, tem uma missão a cumprir aqui. O que seria, ele não revelou, mas não pode ser nada de bom. Ele odeia este povo. Logo que nos viu, nos insultou. Nós lhe demos comida e ele a cuspiu. Eu já vi orcs agirem assim, se fossemos tolos o suficiente para demonstrar-lhes piedade. Está claro que ele vem de Angband, seja lá qual for o seu nome. Mas o pior ainda está por vir. Por requerimento próprio, ele foi levado perante o Halad de Brethil – por este homem que se diz agora seu amigo; mas quando ele chegou ao salão, ele se recusou a dizer seu nome. E quando o Halad o perguntou qual era a sua missão e o pediu que descansasse primeiro e falasse depois, se assim o aprouvesse, ele enlouqueceu, começou a insultar o Halad, e de repente arremessou um banco na sua face e o feriu gravemente. Foi bom que ele não tinha nada mais mortal à mão, ou o Halad teria sido morto. É clara a intenção do prisioneiro, e diminui muito pouco a sua culpa o fato de que o pior não tenha acontecido, para o qual a pena é a da morte. Mas mesmo assim, o Halad senta na grande cadeira no seu salão: insultá-lo lá é um ato de maldade, e atacá-lo é um ultraje.

‘Esta, então, é a acusação contra o prisioneiro: que ele veio para cá com más intenções para conosco, e para com o Halad de Brethil em especial (a pedido de Angband, pode se dizer); que, na presença do Halad, ele o desrespeitou, e então tentou matá-lo em sua cadeira. A penalidade está sob o julgamento do debate, mas poderia ser justamente a da morte.’

Então, para muitos pareceu que Avranc falou justamente, e para todos ele falou com habilidade. Por um tempo, ninguém ergueu a voz de lado algum. Então Avranc, sem esconder seu sorriso, levantou-se novamente e disse: ‘O prisioneiro pode agora responder à acusação, se quiser, mas que seja breve e não enlouqueça!’

Mas Húrin não falou, apesar de fazer força contra aqueles que o seguravam. ‘Prisioneiro, não vai falar?’ disse Avranc, e Húrin não lhe respondeu. ‘Que assim seja,’ disse Avranc. ‘Se ele não vai falar, nem para negar a acusação, então não há mais nada a fazer. A acusação é justa, e aquele que está de frente para a Pedra pode propor uma pena que lhe pareça justa para o Debate.’

Mas agora Manthor se levantou e disse: ‘Primeiro devem perguntar a ele por que não falará. E a resposta deverá ser dada por seu amigo.’

‘A questão está feita,’ disse Avranc, dando de ombros. ‘Se você sabe a resposta, fale.’

‘Porque seus pés e mãos estão presos,’ disse Manthor. ‘Nunca antes nós arrastamos algemado para o Debate alguém que ainda não tenha sido condenado. Mas mesmo que seja um Edain, cujo nome merece honra, isso nunca deveria ter acontecido. Sim, não condenado digo eu; pois o acusado deixou muito sem ser dito que este Debate deve ouvir antes de dar o julgamento.’

‘Mas isto é uma tolice,’ disse Avranc. ‘Adan ou não, e qualquer que seja seu nome, o prisioneiro é incontrolável e malicioso. As algemas são uma precaução necessária. Aqueles que se aproximam dele devem estar protegidos da sua violência.’

‘Se deseja criar a violência,’ respondeu Manthor, ‘o que seria mais óbvio do que abertamente desonrar um homem orgulhoso, carregando o peso da tristeza de muitos anos nas costas. A aqui está um, enfraquecido pela fome e por uma longa jornada desarmado em meio a uma hoste. Eu pergunto ao povo aqui reunido: vocês consideram esta precaução digna dos homens livres de Brethil, ou prefeririam que tivéssemos usado a cortesia dos antigos?’

‘As algemas foram colocadas no prisioneiro por ordem do Halad,’ disse Avranc. ‘Para isto nós usamos seu direito de evitar a violência em seu salão. Assim, esta ordem não pode ser impugnada, salvo por toda a assembléia.’

Assim, um grande grito se ergueu na multidão ‘Soltem-no, soltem-no! Húrin Thalion! Soltem H‎úrin Thalion!’ Nem todos tomaram parte neste grito, pois nenhuma voz foi ouvida do outro lado.

‘Não, não!’ disse Avranc. ‘Gritar não irá adiantar nada. Neste caso, devemos votar na forma correta.’

Agora, por hábito, em assuntos graves ou duvidosos, os votos do debate eram dados mostrando cristais, e todos os que entraram portavam consigo dois cristais, um preto e um branco, para sim e para não. Mas juntar e contar os cristais tomava tempo, e enquanto isso, Manthor percebeu que o humor de Húrin piorava cada vez mais.

‘Existe uma forma mais fácil,’ disse ele. ‘Não há perigo aqui para justificar as algemas, pois assim pensam todos aqueles que usaram a voz. O Halad está no anel do debate, e ele pode cancelar sua própria ordem, se assim desejar.’

‘Ele ira,’ disse Hardang, pois pareceu para ele que a assembléia estava impaciente, e ele pensou que agir assim os levaria para seu lado. ‘Que o prisioneiro seja solto, e fique perante você.’

Então as algemas foram retiradas das mãos e dos pés de Húrin. Imediatamente ele se pôs de pé e, dando as costas para Avranc, ele encarou a assembléia. ‘Eu estou aqui,’ disse ele. ‘E vou responder o meu nome. Eu sou Húrin Thalion, filho de Galdor Orchal, senhor de Dor-lómin e uma vez alto capitão do exército do rei Fingon do reino do norte. Que nenhum homem negue isto! E isto deverá ser o suficiente. Eu não vou implorar perante vocês. Façam como quiserem! Também não irei rebater as palavras daquele que abriu o debate e que vocês permitem que sente na cadeira mais alta. Deixe-o mentir da forma que quiser!

‘Em nome dos Senhores do Oeste, que maneiras são estas deste povo, ou o que vocês se tornaram? Enquanto a ruína da Escuridão está sobre vocês, vocês sentam aqui pacientemente e escutam este guarda desertor perguntar sobre o destino da morte sobre mim – porque eu quebrei a cabeça de um jovem insolente, seja em sua cadeira ou fora dela? Ele deveria ter aprendido como tratar os mais velhos antes que vocês o tornassem seu líder.

‘Morte? ‘Perante Manwë, se eu não tivesse suportado tormentos por vinte e oito anos, se eu estivesse como na Nirnaeth, vocês não ousariam sentar aqui e me encarar. Mas eu não sou mais perigoso, pelo que ouvi. Então vocês são bravos. Eu posso ficar aqui, sem algemas para ser usado como isca. Eu fui derrotado na guerra e domado. Domado! Mas não tenham tanta certeza disso!’ Ele ergueu os braços e cerrou os punhos.

Mas nesta hora, Manthor o acalmou, colocando a mão no seu ombro e falou suavemente em seu ouvido. ‘Meu senhor, está se enganando em relação a eles. Muitos são seus amigos, ou o seriam. Mas aqui há homens livres orgulhosos também. Deixe-me falar com eles agora.’

Hardang e Avranc nada disseram, mas sorriram um para o outro, pelo discurso de Húrin, pois pensaram que ele não tinha feito a sua parte de maneira correta. Mas Manthor gritou: ‘Dêem ao Senhor Húrin uma cadeira enquanto eu falo. Vocês compreenderão melhor sua ira, e talvez até perdoar, quando tiverem me ouvido.

‘Ouçam me agora, povo de Brethil. Meu amigo não nega a acusação principal, mas diz que foi abusado e provocado além da conta. Meus senhores, eu era capitão dos vigias da fronteira que encontrou este homem dormindo perto de Haud-en-Elleth. Ou parecia estar dormindo, mas ele estava muito cansado e perto de despertar, e, enquanto estava deitado ele ouviu, temo eu, as palavras que foram ditas.

‘Havia um homem chamado Avranc, filho de Dorlas, eu me lembro, como membro da minha companhia, e ele deveria estar lá agora, pois esta foi a minha ordem. Quando cheguei a Brethil, descobri que Avranc havia dado conselhos ao homem que encontrou Húrin primeiro e adivinhou seu nome. Povo de Brethil, eu o ouvi dizer o seguinte: “Seria melhor matar o velho enquanto dormia e evitar problemas futuros. E isso agradaria ao Halad,” disse ele.

‘Talvez agora vocês irão pensar melhor sobre o fato de que quando o despertei, e ele encontrou homens armados sobre ele, ele disparou palavras amargas para nós. Ao menos um de nós as mereceu. E sobre desprezar nossa comida: ele a pegou de minhas mãos e não cuspiu nela. Ele a cuspiu fora, pois se engasgou com ela. Nunca viram, meus senhores, homens famintos que não conseguiam engolir comida devido à pressa que tinham em fazê-lo? E este homem também estava muito deprimido e cheio de raiva.

‘Não, ele não desdenhou de nossa comida. Se bem que ele o teria feito, se ele soubesse dos esquemas que alguns dos que habitam aqui armaram! Ouçam-me agora e acreditem, se quiserem, pois testemunhas podem ser trazidas. Em sua prisão, o Senhor Húrin comeu comigo, pois eu o tratei com cortesia. Isso foi dois dias atrás. Mas ontem, ele estava sonolento, e não conseguia falar claramente, nem se aconselhar comigo sobre o julgamento de hoje.’‘Isto pouco quer dizer!’ gritou Hardang.Manthor parou e olhou para Hardang. ‘Pouco quer dizer realmente, meu senhor Halad,’ ele disse; ‘pois essa comida foi envenenada.’Então Hardang, irado, gritou: ‘Os sonhos deste preguiçoso tem que ser recitados para nos entediar?’

‘Não falo de sonhos,’ respondeu Manthor. ‘As testemunhas irão falar agora. Eu levei um pouco da comida que Húrin comeu. Perante testemunhas, eu dei para um cão, e ele está dormindo como se estivesse morto. Talvez o Halad de Brethil não planejou isso, mas alguém que está ávido para agradá-lo. Mas com que propósito? Para evitar que ele use da violência, certamente, já que ele estava algemado na prisão? Existe malícia entre nós, povo de Brethil, e eu espero que a assembléia corrija isto!’

Neste momento, uma grande agitação e murmúrios se ergueram no anel do debate e quando Avranc se levantou pedindo silêncio, o clamor aumentou. Finalmente, quando a assembléia se acalmou um pouco, Manthor disse: ‘Posso continuar agora, pois há mais coisas a serem ditas?’

‘Proceda!’ disse Avranc. ‘Mas seja breve. E eu aviso a todos, meus senhores, para que escutem este homem com cautela. Sua boa fé não pode ser confiada. O prisioneiro e ele são parentes.’

Estas palavras não foram sábias, pois Manthor as respondeu imediatamente: ‘Realmente. A mãe de Húrin era Hereth, filha de Halmir, outrora Halad de Brethil, e Hiril, sua irmã era a mãe da minha mãe. Mas sua linhagem não faz de mim um mentiroso. E digo mais, se Húrin de Dor-lómin é meu parente, ele é parente de todos da casa de Haleth. Sim, e de todo este povo. E mesmo assim ele é tratado como um fora da lei, um ladrão, um homem selvagem e sem honra!

‘Vamos continuar com a acusação principal, que o acusador diz que pode ter uma pena próxima daquela da morte. Vocês vêm perante vocês a cabeça quebrada, apresar que parece que está firme sobre seus ombros e que pode usar a língua muito bem. Pois foi ferida com o arremesso de um pequeno banco. Um ato de maldade, vocês diriam. E muito pior quando feito contra o Halad de Brethil enquanto senta em sua grande cadeira.

‘Mas meus senhores, atos malignos podem ser provocados. Que vocês se imaginem no lugar de Hardang, filho de Hundad. Bem, aí vem Húrin, senhor de Dor-lómin, seu parente, perante você: o chefe de uma grande casa, um homem cujos atos são cantados por Elfos e Homens. Mas ele agora está envelhecido, indisposto, cheio de pesar, cansado de viajar. Ele pede para ver você. Lá está você, confortável em sua cadeira. Você não se levanta. Você não fala com ele. Mas você o olha de cima a baixo, enquanto ele está de pé, até que ele cai no chão. Então, cheio de piedade e cortesia, você grita: “Tragam um banco para o homem!”

‘Oh, vergonha e espanto! Ele arremessa o banco na sua cabeça. Oh, vergonha e espanto eu digo, pois você também desonra sua cadeira, que você também desonra o seu salão, que você também desonra o povo de Brethil!‘Meus senhores, eu admito livremente que teria sido melhor se o Senhor Húrin tivesse sido paciente, inacreditavelmente paciente. Por que ele não esperou para ver que futuros desprezos ele deveria suportar? E mesmo assim, enquanto eu estava no salão e vi isso, tudo o que eu conseguia pensar, e é tudo que eu consigo pensar ainda agora e peço que me respondam: O que vocês acham dessas maneiras que possui o homem que tornamos Halad de Brethil?’Muitas vozes se ergueram nesta questão, mas até que Manthor erguesse sua mão, e de repente tudo estava em silêncio novamente. Mas sob a proteção do barulho, Hardang se aproximou de Avranc para falar com ele, e surpreendido pelo silêncio, eles foram pegos falando alto demais, então Manthor e outros também ouviram Hardang falar: ‘Eu me arrependo de ter atrapalhado sua tentativa de matá-lo!’ E Avranc respondeu: ‘Eu vou encontrar tempo para isto.’Mas Manthor continuou. ‘Minhas dúvidas foram sanadas. Estas maneiras não os agrada, eu vejo. Então o que teriam feito com o arremessador do banco? Teriam amarrado-o, colocariam uma coleira em seu pescoço, prenderiam-no em uma caverna, teriam algemado-o, envenenado sua comida, e por fim, arrastado ele até aqui e pedido pela sua morte? Ou teriam libertado-o? Ou teriam, talvez, pedido desculpas, ou ordenado a este Halad que o fizesse?

Assim, mais vozes ainda se ergueram, e homens se levantaram nas bancadas, batendo palmas e gritando: ‘Libertem! Libertem! Libertem ele!’ E muitas vozes foram ouvidas gritando: ‘Fora com este Halad! Coloquem-no nas cavernas!’

Muitos dos homens mais velhos que sentavam nas fileiras de baixo correram e se ajoelharam perante Húrin e pediram o seu perdão; e um ofereceu a ele uma bengala, outro deu a ele um belo manto e um grande cinto de prata. E quando Húrin estava todo vestido, e com uma bengala em sua mão, ele foi até a Pedra e subiu nela, não como um suplicante, mas como um rei; e encarando a assembléia, ele gritou em uma grande voz: ‘Eu agradeço a vocês, mestres de Brethil aqui presentes, que me libertaram da desonra. Ainda existe justiça em sua terra, mas ela estava adormecida e demorou a despertar. Mas agora eu tenho uma acusação a fazer.

‘Qual é minha missão aqui, é o que foi perguntado? O que acham? Túrin, meu filho, e Nienor, minha filha, não morreram nesta terra? Ai de mim! De longe eu fiquei sabendo das dores que aconteceram aqui. É então um espanto que um pai vá procurar as tumbas dos seus filhos? Maior espanto é, pelo que me parece, que ninguém aqui, em momento algum, falou seus nomes para mim.

‘Estão envergonhados que deixaram meu filho Túrin morrer por vocês? Que apenas dois tiveram coragem de ir com ele encarar o terror do verme? Que ninguém ousou ir até lá para socorrê-lo quando a batalha havia terminado, apesar de que o maior dos males havia sido impedido?

‘Envergonhados vocês devem estar. Mas esta não é a minha acusação. Eu não peço que nenhum nesta terra se equipare ao filho de Húrin em valor. Mas se eu perdoar esta dor, devo perdoar isto? Escutem-me, homens de Brethil! Lá está, junto à Pedra Parada que vocês ergueram, uma mendiga. Por muito tempo ela ficou em sua terra, sem fogo, sem comida, sem piedade. Agora ela está morta. Morta. Ela era Morwen, minha esposa. Morwen Edelwen, a dama bela como os elfos que deu vida a Túrin, o matador de Glaurung. Ela está morta.

‘Se vocês, que têm um pouco de piedade, gritarem para mim que não possuem culpa, então eu pergunto quem é o culpado? Por quem no comando ela foi deixada fora para morrer de fome em suas portas como um cão expulso?

‘O seu líder contribuiu para isto? Acredito que sim. Ou ele não teria agido assim comigo, se tivesse a chance? Estas são os seus presentes: desonra, fome, veneno. Vocês não tem parte nisto? Vocês não trabalhariam conforme sua vontade? Então, por quanto tempo, senhores de Brethil, vocês o suportarão? Por quanto tempo vocês irão permitir que este homem chamado Hardang sente em sua cadeira?’

Agora Hardang estava aterrorizado, quando chegou a sua vez, e seu rosto ficou branco com medo e espanto. Mas antes que pudesse falar, Húrin apontou uma longa mão a ele. ‘Vejam!’ ele gritou. ‘Ali ele está com um sorriso de escárnio em seus lábios! Será que se considera a salvo? Pois roubaram minha espada; e eu sou velho e estou cansado, ele pensa. Não, por muitas vezes me chamou de homem selvagem. Ele verá um então! Apenas mãos, mãos, são necessárias para esmagar sua garganta cheia de mentiras.’

Com isto, Húrin deixou a pedra e caminhou a passadas largas em direção a Hardang; mas este se afastou perante Húrin, chamando seus guarda-costas para protegê-lo; e eles foram em direção ao portão. Para muitos isto pareceu que Hardang admitira sua culpa, e eles puxaram suas armas, e desceram da bancada, gritando em direção a ele.

Agora o perigo da batalha estava no interior do anel sagrado. Pois outros se aliaram a Hardang, alguns por amor por ele ou pelos seus atos, que, acima de tudo, eram leais a ele e ao menos o defenderiam da violência, até que pudesse se defender perante o debate.

Manthor estava entre os dois grupos, e gritou para que segurassem suas mãos e que não derramassem sangue no anel do debate; mas a fagulha que ele mesmo criou agora explodiu em chamas além do seu controle, e uma onda de homens o colocou para o lado. ‘Fora com este Halad!’ eles gritavam. ‘Fora com Hardang, levem-no para as cavernas! Abaixo Hardang! Viva Manthor! Nós queremos Manthor!’ E eles se lançaram sobre os homens que barravam o caminho para o portão, para que Hardang tivesse tempo para escapar.

Mas Manthor voltou até Húrin, que agora estava sozinho, perto da Pedra. ‘Ai de mim, Senhor!’ disse ele, ‘eu temia que esse dia guardasse grande perigo para nós. Há pouco que posso fazer, mas ainda eu devo tentar evitar o mal maior. Eles logo sairão, e eu devo segui-los. Você virá comigo?’

Muitos caíram no portão, de ambos os lados, mas ele foi tomado. Lá Avranc lutou bravamente, e ele foi o último a fugir. Mas quando ele se virou para correr, ele de repente puxou seu arco e atirou em Manthor, que estava próximo da Pedra. Mas, devido à sua pressa, ele errou o tiro, e a flecha acertou a pedra, lançando fagulhas atrás de Manthor enquanto quebrava. ‘Da próxima vez será mais perto!’ gritou Avranc, enquanto fugia com Hardang.

Então os rebeldes saíram do anel e perseguiram os homens de Hardang até Obel Halad, quase há meia milha de distância. Mas antes de chegarem lá, o Hardang havia tomado conta do salão e o trancou; e ele agora estava cercado. O salão dos líderes ficava num jardim com uma parede de terra redonda em volta, se erguendo de um dique externo seco. Na parede havia apenas um portão, do qual uma trilha de pedras levava até grandes portas. Os perseguidores passaram pelo portão e rapidamente cercaram todo o salão, e tudo ficou quieto por um tempo.

Mas Manthor e Húrin chegaram até o portão; e Manthor queria negociar, mas os homens disseram: ‘De que servem palavras? Ratos não sairão enquanto cães estão perto.’ E alguns gritaram: ‘Nossos parentes foram assassinados, e nós os vingaremos!’

‘Muito bem’, disse Manthor, ‘permitam ao menos que eu faça o que eu posso!’

‘Então faça!’ disseram eles. ‘Mas não se aproxime demais, ou poderá receber uma resposta afiada.’

Assim, Manthor ficou próximo ao portão e ergueu sua grande voz, gritando para ambos os lados que eles deveriam parar com este fraticídio. E para aqueles que ele estavam dentro, prometeu que aqueles que se apresentassem desarmados poderiam sair livremente, até mesmo Hardang, se ele desse sua palavra de comparecer perante o Debate no dia seguinte. ‘E nenhum homem irá levar armas também,’ disse ele.

Mas enquanto falava, uma flecha saiu de uma janela, que passou perto da orelha de Manthor, e cravou fundo em um dos marcos do portão. Então a voz de Avranc foi ouvida, gritando: ‘A terceira vez será certeira!’

Agora a raiva daqueles que estavam fora se inflamou novamente, e muitos correram até as grandes portas e tentaram quebrá-las; mas lá havia uma surtida, e muitos foram feridos ou mortos, e muitos outros no pátio foram feridos por flechas das janelas. Então os assaltantes, agora cheios de ira, trouxeram galhos e gravetos e muita madeira, e colocaram no portão; e gritaram para aqueles que estavam dentro:

‘Vejam! O Sol está se pondo. Nós lhe daremos até o cair da noite. Se vocês não saírem então, nós iremos queimar o salão com vocês dentro!’

Então todos se afastaram do pátio, para evitar flechadas, mas formaram um anel de homens em volta do dique externo.

O Sol se pôs e ninguém saiu do salão. E quando estava escuro, os assaltantes voltaram ao pátio carregando a madeira, e as empilharam em volta das paredes do salão. Então, alguns carregando tochas acesas, correram pelo pátio para colocar fogo nas madeiras. Um foi morto por uma flechada, mas os outros chegaram às pilhas e logo começaram a queimar.

Manthor ficou horrorizado na ruína do salão e o ato maligno dos homens de queimá-lo. ‘Dos dias escuros do nosso passado isso vem,’ disse ele, ‘antes de virarmos nossos rostos para o oeste. Uma sombra está sobre nós.’ E ele sentiu uma mão no seu ombro, e ele se virou e viu Húrin, que estava atrás dele, com uma expressão austera; e Húrin riu.

‘Vocês são um povo estranho,’ disse ele. ‘Uma hora frios, outra quente. Primeiro ira, então piedade. Sob os pés de seu líder e agora na sua garganta. Abaixo Hardang! Viva Manthor! Você irá aceitar isso?’

‘O povo deve escolher,’ disse Manthor. ‘E Hardang ainda vive.’

‘Não por muito tempo, espero,’ disse Húrin.

Agora as chamas cresceram e logo o salão do Haladin estava queimando em muitos lugares. Os homens de dentro jogaram terra e água sobre a lenha, tudo o que tinham, e uma grande fumaça se ergueu. Então alguns tentaram fugir sob sua proteção, mas poucos passaram pelo anel de homens; a maioria foi preso, ou morto, se tentaram lutar.

Havia uma pequena porta nos fundos do salão com uma varanda arqueada que se aproximava mais da parede do pátio do que as grandes portas na frente; e a parede atrás era mais baixa, porque o salão fora construído nas encostas de uma colina. Quando o telhado pegou fogo, Hardang e Avranc fugiram pela porta dos fundos, alcançaram o topo da parede e rolaram para o dique, e não foram avistados até que tentaram escalar para fora. Mas então, com gritos, homens correram até eles, mas não sabiam quem eram. Avranc se lançou aos pés de um deles, e o derrubou, e Avranc se levantou e fugiu pela escuridão. Mas outro arremessou uma lança nas costas de Hardang enquanto fugia, e ele caiu com um grande ferimento.

Quando descobriram quem ele era, os homens o levantaram e o colocaram aos pés de Manthor. ‘Não o coloque aos meus pés,’ disse Manthor, mas aos pés daquele que ele maltratou. Não tenho nada contra ele.’

‘Não tem?’ disse Hardang. ‘Então deve ter certeza da minha morte. Eu acho que você sempre terá algo contra aquele que foi escolhido pelo povo para ocupar a cadeira em vez de você.’

‘Pense o que quiser!’ disse Manthor, e se afastou. Então Hardang percebeu que Húrin estava ali. E Húrin ficou olhando para Hardang, uma forma escura na penumbra, mas a luz do fogo estava em seu rosto, e ali Hardang não viu piedade.

‘Você é um homem mais forte que eu, Húrin de Hithlum,’ ele disse. ‘Eu tinha tanto medo da sua sombra que toda a sabedoria e generosidade me abandonou. Mas agora eu não acho que nenhuma sabedoria ou piedade me salvaria de você, pois você não tem nem uma coisa nem outra. Você veio me destruir, ao menos nunca negou isto. Mas sua última mentira contra mim, eu a rebato antes de morrer. Nunca’ – mas com um engasgo de sangue em sua garganta, ele caiu para traz e não falou mais nada.

Então Manthor falou: ‘Ai de mim! Ele não devia ter morrido desta forma. A maldade que ele criou não lhe dava o direito de morrer assim.’

‘Por que não?’ disse Húrin. ‘Ele falou palavras odiosas de uma boca podre no final. Que mentiras falei contra ele?’

Manthor suspirou. ‘Nenhuma mentira intencional, talvez,’ ele disse. ‘Mas a última acusação que você apresentou era falsa, eu acho; e ele não teve chance de negá-la. Eu preferiria que tivesse falado para mim antes do Debate!’

Húrin cerrou os punhos. ‘Não é falsa!’ ele gritou. ‘Ela está onde eu falei. Morwen! Ela está morta!’

‘Ai de mim! Senhor, onde ela morreu eu não duvido. Mas disso eu acho que o Hardang não sabia mais do que eu, antes de você falar. Diga-me, senhor: ela alguma vez caminhou mais profundamente nesta terra?’

‘Eu não sei. Eu a encontrei como falei. Ela está morta.’

‘Mas senhor, se ela não caminhou mais, mas, ao encontrar a pedra, lá se sentou, triste e desesperada, no túmulo de seu filho, pelo que posso crer, então…’

‘Então o que?’ disse Húrin.

‘Então, Húrin Hadorion, pela escuridão de sua angústia, saiba disso! Meu senhor, cujo sofrimento é imenso, tão imenso quanto as coisas que vieram a acontecer conosco que nenhum homem e nenhuma mulher se aproximou daquela pedra desde que ela está lá. Não! O senhor Oromë em pessoa pode sentar naquela pedra, com toda a sua caça em sua volta, e não saberíamos. E mesmo que soprasse sua grande corneta, nós não atenderíamos àquele chamado!’

‘Mas e se Mandos, o Justo, falasse, não o ouviria?’ disse Húrin. ‘Agora alguns devem ir para lá, se você possui alguma piedade! Ou irá deixá-la lá, até que seus ossos fiquem brancos? Isto purificaria a sua terra?’

‘Não, não!’ disse Manthor. ‘Eu irei encontrar alguns homens de coração forte e mulheres piedosas, e você nos levará até lá, e faremos o que pede. Mas é uma longa estrada, e este dia está acabando em toda a sua malícia. Um novo dia é necessário.’

No dia seguinte, quando as notícias da morte de Hardang se espalharam, uma grande multidão de pessoas procurou Manthor, implorando para que se tornasse líder. Mas ele disse: ‘Não, isto deve ser apresentado perante o Debate. E não pode ser agora, pois o anel foi maculado, e existem outras coisas que são mais urgentes. Primeiro eu tenho uma missão. Eu devo ir ao campo do verme e até a Pedra dos Infelizes, onde Morwen, sua mãe está abandonada. Alguém irá comigo?’

Então a piedade afetou alguns corações dos que o ouviram; e apesar de alguns terem se afastado com medo, muitos estavam dispostos a ir, mas entre estes, havia mais mulheres do que homens.

Assim, mais tarde, partiram em silêncio, trilhando o caminho que levava pela cachoeira de Celebros. Após oito milhas, a escuridão caiu sobre Nen Girith, e eles passaram a noite da forma que puderam. E na manhã seguinte, eles chegaram ao Campo da Queimada, e eles encontraram o corpo de Morwen ao lado da Pedra Parada. Então olharam para ela com piedade e espanto; pois parecia que olhavam para uma grande rainha cuja dignidade nem a idade nem toda a miséria nem toda a angústia do mundo conseguiria tirar dela.

Então eles desejaram honrá-la em morte; e alguns disseram: ‘Este é um lugar negro. Vamos erguê-la, e levar a Senhora Morwen até o pátio dos túmulos e colocá-la entre os da Casa de Haleth com quem possui parentesco.’

Mas Húrin disse: ‘Não, Nienor não está aqui, mas é melhor que ela fique aqui, próxima de seu filho, em vez de com estranhos. É o que ela teria escolhido.’ Então eles fizeram uma tumba para Morwen sobre Cabed Naeramarth, no lado oeste da Pedra; e quando a terra foi jogada sobre ela, eles escreveram na Pedra: Aqui jaz também Morwen Edelwen, enquanto alguns cantavam na língua antiga os lamentos que há muito foram feitos para aqueles do seu povo que caíram na Marcha além das Montanhas.

E enquanto cantavam, começou uma chuva cinzenta, e todo aquele lugar desolado se encheu de pesar, e o rugir do rio era como o lamento de muitas vozes. E quando tudo terminou, eles se afastaram, e Húrin foi apoiado em sua bengala. Mas dizem que depois deste dia o medo abandonou aquele lugar, mas a tristeza permaneceu, e ficou para sempre sem folhas e descoberto. Mas até o fim de Beleriand, as mulheres de Brethil iriam com flores na primavera, e bacíferos no outono, e cantariam ali por um tempo, para a Senhora Cinzenta que procurou em vão por seu filho. E um vidente e um harpista de Brethil, Glirhuin, fez uma canção falando que a Pedra dos Infelizes não poderia ser maculada por Morgoth, nem nunca derrubada, nem que o Mar engolisse toda a terra. O que de fato aconteceu depois, e ainda a Tol Morwen está sozinha na água, além das novas costas que foram criadas nos dias da ira dos Valar. Mas Húrin não está enterrado lá, pois seu destino o levou adiante, e a Sombra continuou seguindo-o.

Agora, quando a companhia retornou para Nen Girith, eles pararam, e Húrin olhou para trás, além de Taeglin, em direção ao Sol poente que aparecia através das nuvens; e ele estava relutante em retornar para a Floresta. Mas Manthor olhou para o leste e estava preocupado, pois havia um brilho vermelho no céu daquele lado também.

‘Senhor,’ disse ele, ‘fique aqui se quiser, assim como todos os outros que estiverem cansados. Mas eu sou o último dos Haladin, e eu temo que o fogo que foi aceso ainda não tenha se apagado. Devo retornar rapidamente, para que a loucura dos homens não leve Brethil inteira à ruína.’

Mas enquanto ele falava isto, uma flecha saiu do meio das árvores, e ele tropeçou e caiu no chão. Então os homens correram para procurar pelo arqueiro; e eles viram um homem correndo como um cervo pelo caminho até Obel, e ele não foi alcançado; mas eles viram que era Avranc.

Manthor sentou-se, ofegante, encostado em uma árvore. ‘Só um arqueiro ruim erraria o alvo no terceiro tiro,’ ele disse.

Húrin se curvou em sua bengala e olhou para Manthor. ‘Mas você também errou seu alvo, parente,’ ele disse. ‘Você foi um amigo valoroso, e eu acho que você foi com muita vontade na causa que também era sua. Manthor teria sentado de forma mais merecedora na cadeira dos líderes.’

‘Você possui um olho forte, Húrin, para perfurar todos os corações, menos o seu,’ disse Manthor. ‘Sim, sua escuridão também me tocou. Agora ai de mim! Os Haladin se acabaram; pois este ferimento é mortal. Esta não era sua verdadeira missão, homem do norte: levar a ruína a nós para contrapesar com a sua? A Casa de Hador nos conquistou, e quatro de nós caíram sob sua sombra: Brandir, e Hunthor, e Hardang e Mantho. Não é o suficiente? Não partirás e deixar esta terra que morre?’

‘Eu irei,’ disse Húrin. ‘Mas se o poço das minhas lágrimas não estivesse totalmente seco, eu choraria por você, Manthor, pois você me salvou da desonra, e eu o amo como a um filho.’

‘Então, senhor, use em paz o pouco mais de vida que eu ganhei para você,’ disse Manthor. ‘Não leve sua sombra para outros!’

‘Por quê? Não posso mais caminhar pelo mundo?’ disse Húrin. ‘Eu irei continuar até que a sombra de derrube. Adeus!’

E assim Húrin se separou de Manthor. Quando os homens foram medicar seus ferimentos, descobriram que era grave, pois a flecha entrara fundo em seu flanco; e eles quiseram carregar Manthor rapidamente de volta para o Obel, para que fosse cuidado por curandeiros habilidosos. ‘Tarde demais,’ disse Manthor, e ele arrancou fora a flecha, e deu um grande grito, e ficou imóvel. Assim terminou a Casa de Haleth, e homens menores governaram Brethil no tempo que restou.

Mas Húrin ficou em silêncio, e quando a companhia partiu, carregando o corpo de Manthor, ele não se virou. Ele olhou sempre para o oeste até que o Sol caísse na escuridão e a luz falhasse; e então partiu sozinho em direção à Haud-em-Elleth.

* Pois Manthor era um descendente de Haldad, e ele possuía uma terra pequena na fronteira leste de Brethil, próximo ao Sirion onde ele atravessa Dimbar. Mas todo o povo de Brethil era formado por homens livres, mantendo suas casas e suas terras, sejam maiores ou menores, de direito. Seu senhor era escolhido entre os descendentes de Haldad, por reverência pelos feitos de Haleth e Haldar; e mesmo que a liderança era dada, como se fosse um domínio ou um reino, para os mais velhos da linhagem mais velha, o povo tinha o direito de colocar qualquer um de lado ou tirá-lo de lá, por uma causa grave. E alguns sabiam o suficiente que Harathor tentara que Brandir o Aleijado tivesse tido abdicado em seu favor.

O Conto de Adanel

[O “Conto de Adanel” era é uma versão da história da “Queda dos Homens” como contada na Terra-média entre os Edain da Primeira Era. Está contido no volume 10 da série The History of Middle-earth X, Morgoth’s Ring]

Então Andreth, encorajada por Finrod, disse por fim: “- Este é o conto que Adanel, da Casa de Hador, contou-me”.

Alguns dizem que o Desastre aconteceu no início da história de nosso povo, antes que qualquer um houvesse morrido. A Voz falara a nós, e nós ouvíramos. A Voz disse: “- Vós sois meus filhos. Enviei-vos para aqui habitardes. No devido tempo herdareis toda esta Terra, mas primeiro deveis ser crianças e aprender. Pedi a mim e ouvirei, pois velo por vós”.

Compreendemos a Voz em nossos corações, embora ainda não possuíssemos palavras. Então o desejo pelas palavras despertou em nós, e começamos a criá-las. Mas éramos poucos, e o mundo era vasto e estranho. Embora muito desejássemos compreender, aprender era difícil, e a criação das palavras era lenta.

Naquele tempo com freqüência chamávamos e a Voz respondia. Mas ela raramente respondia nossas perguntas, dizendo apenas: “- Primeiro procurai encontrar a resposta por vós mesmos. Pois tereis alegria na descoberta, e assim saireis da infância e tornar-vos-eis sábios. Não procureis deixar a infância antes de vosso tempo”.

Mas tínhamos pressa, e desejávamos ordenar as coisas à nossa vontade; e as formas de muitas coisas que desejávamos criar despertaram em nossas mentes. Portanto, falávamos cada vez menos à Voz.

Então alguém apareceu entre nós em nossa própria forma visível, mas maior e mais belo, e ele disse que viera por piedade. “Vós não deveríeis ser deixados sozinhos e sem instrução” disse ele. “O mundo está repleto de riquezas maravilhosas que o conhecimento pode revelar. Vós poderíeis ter alimentos mais abundantes e mais deliciosos do que comeis agora. Vós poderíeis ter tranqüilas habitações, nas quais poderíeis manter a luz e afastar a noite. Poderíeis inclusive vestir-vos igual a mim.”

Então olhamos e vede, ele usava vestes que brilhavam como prata e ouro, e tinha uma coroa em sua cabeça e jóias em seu cabelo. “Se desejais ser como eu” disse ele “, ensinar-vos-ei”. Então aceitamo-lo como mestre.

Ele era menos rápido do que esperávamos a ensinar-nos como encontrar, ou criar por nós mesmos, as coisas que desejávamos, embora ele houvesse despertado muitos desejos em nossos corações. Mas se qualquer um duvidasse ou ficasse impaciente, ele trazia e colocava diante de nós tudo o que havíamos desejado. “Sou o Provedor de Presentes” disse ele “, e os presentes nunca faltarão enquanto vós confiardes em mim”.

Por conseguinte, reverenciamo-lo, e por ele fomos cativados, e dependíamos de seus presentes, temendo retornar a uma vida sem eles que agora parecia-nos pobre e dura. E acreditamos em tudo que ele ensinou. Pois estávamos ávidos para saber sobre o mundo e sua existência: sobre as feras e pássaros, e as plantas que cresciam na Terra; sobre nossa própria criação; e sobre as luzes do céu, sobre as estrelas incontáveis, e a Escuridão na qual elas estão.

Tudo o que ele ensinava parecia bom, pois ele possuía um grande conhecimento. Mas cada vez mais ele falava da Escuridão. “Maior de todas é a Escuridão” disse ele “, pois Ela não tem limites. Vim da Escuridão, mas sou Seu mestre. Pois eu criei a Luz. Criei o Sol e a Lua e as incontáveis estrelas. Proteger-vos-ei da Escuridão, que de outro modo devorar-vos-ia”.

Então falamos-lhe da Voz. Mas sua face tornou-se terrível, pois ele enfurecera-se. “Tolos!” disse ele. “Aquela era a Voz da Escuridão. Ela deseja afastar-vos de mim, pois Ela está faminta por vós”.

Ele então foi embora, e não o vimos por um longo tempo, e sem seus presentes éramos pobres. E então chegou um dia no qual a luz do Sol repentinamente começou a falhar, até que foi apagada, e uma grande sombra caiu sobre o mundo, e todas as feras e pássaros temeram. Então ele veio novamente, caminhando através da sombra como um fogo brilhante.

Prostramo-nos. “Há alguns entre vós que ainda estão dando ouvidos à Voz da Escuridão” disse ele “e, portanto, Ela aproxima-se. Escolhei agora! Podeis ter a Escuridão como Senhor, ou podeis ter a Mim. Mas a menos que tomeis a Mim por Senhor e jureis servir-Me, partirei e deixar-vos-ei, pois possuo outros reinos e moradias, e não preciso da Terra, nem vós”.

Então em medo falamos conforme ele ordenara, dizendo: “- Vós sois o Senhor. Apenas a Ti serviremos. À Voz renunciamos e não mais escuta-la-emos”.

“- Que assim seja!” disse ele. “Agora construí a Mim uma casa sobre um local elevado e chamai-na Casa do Senhor. Para lá irei quando desejar. Lá visitar-Me-eis e fazer-Me-eis vossas súplicas”.

E quando tínhamos construído uma grande casa, ele veio e colocou-se diante do alto assento, e a casa foi iluminada como que por fogo. “Agora” disse ele “apareça qualquer um que ainda dê ouvidos à Voz!”

Havia alguns, mas por medo eles permaneceram imóveis e nada disseram. “Então curvai-vos diante de Mim e reconhecei-Me!” disse ele. E todos curvavam-se ao solo diante dele, dizendo: “- Vós sois o Único Grande, e somos Vossos”.

Com isso, ele ergueu-se como em uma grande chama e fumaça, e fomos queimados pelo calor. Mas repentinamente ele partira, e estava mais escuro que a noite, e fugimos da Casa.

Posteriormente sempre íamos com um grande pavor da Escuridão, mas ele raramente aparecia novamente entre nós em uma forma bela, e trazia poucos presentes. Se em grande necessidade ousávamos ir à Casa e orar-lhe para que ajudasse-nos, escutávamos sua voz, e recebíamos suas ordens. Mas agora ele sempre ordenava-nos a executar alguma tarefa ou dar-lhe algum presente antes de ouvir a nossa prece; e as tarefas tornavam-se sempre piores, e mais difícil abrir mão dos presentes.

A primeira Voz nunca mais ouvimos, exceto uma vez. No silêncio da noite Ela falou, dizendo: “- Renunciastes a Mim, mas vós permaneceis Meus. Dei-vos a vida. Agora ela encurtar-se-á, e cada um de vós em pouco tempo virá a Mim, para aprender quem é vosso Senhor: aquele que idolatrais ou Eu que criei-o”.

Então nosso terror pela Escuridão aumento, pois acreditávamos que a Voz era da Escuridão por trés das estrelas. E alguns de nós começaram a morrer em horror e angústia, temendo sair para a Escuridão. Chamamos então por nosso Mestre para que salvasse-nos da morte, mas ele não respondeu. Mas quando fomos à Casa e todos lá curvaram-se, ele por fim veio, grande e majestoso, mas seu rosto era cruel e orgulhoso.

“- Agora sois Meus e deveis fazer Minha vontade” disse ele. “Não preocupo-me que alguns de vós morrais e vades para aplacar a fome da Escuridão, pois de outro modo logo haveria muitos de vós, rastejando como parasitas sobre a Terra. Mas se não fizerdes Minha vontade, sentireis Minha ira, e morrereis mais cedo, pois matar-vos-ei”.

Com isso fomos dolorosamente afligidos, pelo cansaço, fome e enfermidades; e a Terra e todas as coisas nela viraram-se contra nós. Fogo e água rebelaram-se contra nós. Os pássaros e feras evitavam-nos ou, se eram fortes, atacavam-nos. Plantas deram-nos veneno, e temíamos as sombras sob as árvores.

Então ansiamos pela nossa vida como fora antes que nosso Mestre chegasse; e nós o odiamos, mas o temíamos não menos que a Escuridão. E cumprimos sua ordem, e mais do que sua ordem; pois tudo que pensávamos que agradar-lhe-ia, embora maligno, fazíamo-lo, na esperança de que ele aliviaria nossas aflições e que ao menos não mataria-nos.

Para a maioria de nós isso foi em vão. Mas a alguns ele começara a favorecer: os mais fortes e mais cruéis, e aqueles que iam com maior freqüência à Casa. Deu-lhes presentes e conhecimentos que mantiveram em segredo; e eles tornaram-se poderosos e orgulhosos, e escravizaram-nos, de modo que não tínhamos descanso do nosso trabalho no meio de nossas aflições.

Então ergueram-se alguns dentre nós que diziam abertamente em seu desespero: “- Agora finalmente sabemos quem mentiu e quem desejava devorar-nos. não a primeira Voz. É o Mestre que tomamos a Escuridão; e ele não veio dela, como disse, mas nela habita. não mais servi-lo-emos! Ele é nosso Inimigo”.

Então com medo, para que ele não ouvisse-os e punisse a todos nós, matávamo-los se pudéssemos; e aqueles que fugiam nós caçávamos; e, se quaisquer eram pegos, nossos mestres, amigos dele, ordenavam que eles fossem levados à Casa e lá mandados para a morte pelo fogo. Isso agradava-lhe enormemente, seus amigos diziam; e, de fato, por um tempo parecia que nossas aflições foram aliviadas.

Mas conta-se que houve alguns que escaparam-nos, e partiram para países longínquos, fugindo da sombra. Ainda assim eles não escaparam da ira da Voz, pois eles haviam construído a Casa e curvaram-se nela. E por fim chegaram ao final da terra e às praias da água intransponível; e vede, o Inimigo estava lá diante deles.

Ambarkanta

Ao redor de todo o Mundo estão as Ilurambar [1], ou as Muralhas do Mundo. Elas são como gelo, vidro e aço, estando acima de toda a imaginação dos Filhos da Terra, frias, transparentes e duras. Elas não podem ser vistas, nem podem ser transpostas, exceto pela Porta da Noite.

Dentro destas muralhas a Terra está situada: acima, abaixo e em todos os lados está Vaiya, o Oceano Envolvente. Mas ele é mais como o mar abaixo da Terra e mais como o ar acima dela. Em Vaiya abaixo da Terra mora Ulmo. Acima da Terra situa-se o Ar, que é chamado Vista, e sustenta pássaros e nuvens. Por esse motivo ele é chamado acima Fanyamar, ou Casa de Nuvens; e abaixo Aiwenórë ou Terra dos Pássaros. Mas este ar situa-se apenas sobre a Terra-média e os Mares Interiores, e seus limites são as Montanhas de Valinor no Oeste e as Muralhas do Sol no Leste. Por este motivo as nuvens raramente chegam a Valinor, e os pássaros mortais não passam para além dos picos de suas montanhas. Mas no Sul, onde há principalmente frio e escuridão, e a Terra-média extende-se próxima às Muralhas do Mundo, Vaiya, Vista e Ilmen sopram juntos e confundem-se mutuamente.

Ilmen é aquele ar que, sendo límpido e puro, é impregnado de luz, embora não a emane. Ilmen fica acima de Vista, e não é grande em profundidade, porém é mais profundo no Oeste e no Leste, e menor no Norte e no Sul. Em Valinor o ar é Ilmen, mas Vista sopra ocasionalmente, especialmente em Casadelfos, parte da qual está na base oriental das Montanhas; e se Valinor é obscurecida e seu ar não é purificado pela luz do Reino Abençoado, ele toma a forma de sombras e névoas cinzentas. Mas Ilmen e Vista misturar-se-ão como sendo um só, porém Ilmen é respirado pelos Deuses, e purificado pela passagem astros; pois em Ilmen Varda decretou o curso das estrelas, e mais tarde do Sol e da Lua.

De Vista não há como sair nem como fugir, exceto para os servos de Manwë, ou para aqueles aos quais ele concede poderes como os de seu povo, que podem sustentar-se em Ilmen ou mesmo em Vaiya superior, que é muito tênue e frio. De Vista pode-se descer para a Terra-média. De Ilmen, pode-se descer para Valinor. Ora, a terra de Valinor estende-se quase até Vaiya, que é mais estreito no Oeste e Leste do Mundo, mas mais profundo no Norte e no Sul. As costas ocidentais de Valinor não estão, portanto, muito longe das Muralhas do Mundo. Contudo, há um abismo que separa Valinor de Vaiya, e ele é preenchido por Ilmen, e por este caminho pode-se descer de Ilmen acima da terra para as regiões inferiores, às raizes da Terra, e para as cavernas e grutas que estão nas fundações das terras e mares. Lá é o lugar de permanência de Ulmo. De lá originam-se as águas da Terra-média. Pois estas águas são compostas por Ilmen, Vaiya e Ambar [que significa Terra], uma vez que Ulmo funde Ilmen e Vaiya e envia-os através dos veios do Mundo para purificar e renovar os mares e rios, os lagos e as fontes da Terra-média. E as águas correntes possuem assim a memória das profundezas e das alturas, e guardam um pouco da sabedoria e música de Ulmo, e da luz dos astros do céu.

Nas regiões de Ulmo as estrelas algumas vezes estão escondidas, e lá a Lua frequentemente vaga e não é vista da Terra-média. Mas o Sol não se demora lá. Ela [2] passa sob a terra às pressas, a fim de que a noite não se prolongue e o mal se fortaleça; ela é puxada através do Vaiya inferior pelos servos de Ulmo, sendo aquecida e preenchida com vida. Assim os dias são medidos pelas rotas do Sol, que navega de Leste a Oeste através do Ilmen inferior, ocultando as estrelas; ela passa sobre o centro da Terra-média sem se deter, e muda seu curso em direção ao norte ou para o sul, não caprichosamente, mas devido à rota e à estação. E quando ela ergue-se acima das Muralhas do Sol é a Aurora, e quando mergulha atrás das Montanhas de Valinor, é o Anoitecer.

Mas os dias em Valinor são diferentes dos da Terra-média. Pois lá a hora de maior luz é o Anoitecer. Então o Sol desce e repousa por algum tempo na Terra Abençoada, deitando-se no seio de Vaiya. E quando ela penetra em Vaiya, o mesmo torna-se ardente e fulgura com um fogo róseo, e por um longo tempo ilumina aquela terra. Mas a medida em que ela passa em direção ao Leste o fulgor desvanece, e Valinor é privada de luz, e é iluminada apenas pelas estrelas; e então os Deuses muito se lamentam pela morte de Laurelin. Ao amanhecer, a escuridão é profunda em Valinor, e as sombras de suas montanhas estendem-se pesadamente sobre as mansões dos Deuses. Mas a Lua não se demora em Valinor, e passa rapidamente sobre ela para mergulhar no abismo de Ilmen, pois ele sempre persegue o Sol, e raramente a alcança, quando então é consumido e obscurecido em sua chama. Mas às vezes acontece de ele chegar sobre Valinor antes de o Sol ter partido, e então desce e encontra sua amada, e Valinor é preenchida com uma luz mesclada tal qual prata e ouro; e os Deuses sorriem lembrando-se da fusão da Laurelin e Silpion há muito tempo atrás.

A Terra de Valinor inclina-se para baixo a partir do sopé das Montanhas, e sua costa ocidental está no nível do fundo dos mares interiores. E não longe dali, como foi dito, estão as Muralhas do Mundo; e no sentido oposto à costa mais ocidental no centro de Valinor está Ando Lómen, a Porta da Noite Eterna que penetra as Muralhas e abre-se para o Vazio. Pois o Mundo encontra-se em meio a Kúma, o Vazio, a Noite sem forma ou tempo. Mas ninguém pode ultrapassar o abismo e a região de Vaiya e chegar àquela Porta, exceto unicamente os grandes Valar. E eles fizeram aquela porta quando Melko foi sobrepujado e colocado na Escuridão Exterior; e ela é guardada por Eärendel [3].

A Terra-média situa-se no meio do Mundo, e é composta de terra e água; sua superfície é o centro do mundo, das fronteiras do Vaiya superior aos confins do inferior. Antigamente assim era a sua forma. Era mais elevada no centro, decaindo de cada lado em vastos vales, mas ergue-se novamente no Leste e Oeste, mais uma vez decaindo para o abismo em suas bordas. Os dois vales eram preenchidos com a água primordial, e as costas destes antigos mares eram no Oeste as regiões montanhosas mais ocidentais e a borda da grande terra, e no Leste as regiões montanhosas e a borda da grande terra sobre o outro lado. Mas ao Norte e ao Sul ela não decaía, e podia-se ir por terra do extremo Sul do abismo de Ilmen ao extremo Norte do mesmo. Os mares antigos, portanto, situam-se em canais, e suas águas não vertiam para o Leste ou Oeste; mas eles não possuíam costas tanto ao Norte como ao Sul, vertiam para o abismo, e suas cachoeiras tornavam-se gelo e pontes de gelo por causa do frio; de forma que o abismo de Ilmen era aqui fechado e pontificado, e o gelo estendia-se ao Vaiya, e até as Muralhas do Mundo.

Ora, é dito que os Valar, entrando no Mundo, desceram primeiro sobre a Terra-média no seu centro, exceto Melko, que desceu no Norte distante. Mas os Valar pegaram uma porção de terra e criaram uma ilha, consagrando-a, e a colocaram no Mar Ocidental e permaneceram nela, enquanto estavam ocupados na exploração e na primeira disposição do Mundo. Como é contado, eles desejaram criar lamparinas, e Melko ofereceu-se para desenvolver uma nova substância de grande força e beleza para seus pilares. Ele levantou estes grandes pilares ao norte e ao sul do centro da Terra, mesmo assim mais perto dele do que o abismo; os Deuses colocaram lamparinas sobre eles, e a Terra teve luz durante algum tempo.

Mas os pilares foram criados com falsidade, sendo talhados em gelo; eles derreteram e as lamparinas caíram em ruína, e sua luz foi derramada. Mas o derretimento do gelo criou dois pequenos mares interiores, ao norte e sul do centro da Terra, e havia uma terra setentrional, uma terra central e uma terra meridional. Então os Valar retiraram-se para o Oeste e abandonaram a ilha; sobre a região montanhosa na margem ocidental do Mar do Oeste, eles elevaram grandes montanhas, e atrás delas criaram a terra de Valinor. Mas as montanhas de Valinor curvam-se para trás, e Valinor é mais ampla no centro da Terra, onde as montanhas andam ao lado do mar; e ao norte e ao sul, as montanhas nivelam-se em direção ao abismo. Há duas regiões da Terra Ocidental que não pertencem à Terra-média e, apesar disso, são exteriores às montanhas: elas são sombrias e vazias. A situada ao Norte é Eruman, e aquela ao Sul é Arvalin [4]; há apenas um desfiladeiro estreito entre elas e as extremidades da Terra-média, mas este desfiladeiro é preenchido com gelo.

Para sua proteção posterior, os Valar empurraram a Terra-média no seu centro e comprimiram-na em direção ao leste, de forma que ela foi encurvada, e o grande mar do Oeste é muito amplo no centro, a mais vasta de todas as águas da Terra. A forma da Terra no Leste era muito semelhante àquela no Oeste, exceto pelo estreitamento do Mar Oriental, e o deslocamento da terra naquela direção. E além do Mar Oriental situa-se a Terra Oriental, da qual pouco sabemos, e é chamada a Terra do Sol; ela possui
montanhas, menores do que as de Valinor, mas ainda assim muito grandes, que são as Muralhas do Sol. Em razão da queda da terra, estas montanhas não podem ser vistas, exceto pelos pássaros que voam às maiores altitudes, através dos mares que as divide das costas da Terra-média.

E o afastamento da terra também ocasionou o aparecimento de montanhas em quatro direções, duas na Terra do Norte e duas na Terra do Sul; aquelas no Norte eram as Montanhas Azuis no lado ocidental, e as Montanhas Vermelhas no lado oriental; e no Sul eram as Montanhas Cinzentas e as Amarelas. Porém Melko fortificou o Norte e lá ergueu as Torres Setentrionais, que também são chamadas de Montanhas de Ferro, e elas voltavam-se para o sul. E na terra central havia as Montanhas de Vento, pois lá um vento fortemente soprava vindo do Leste antes do Sol; e Hildórien, a terra onde os Homens primeiro despertaram, situa-se entre estas montanhas e o Mar Oriental. Mas Kuiviénen [5], onde Oromë encontrou os Elfos, está ao Norte junto às águas de Helkar.

Mas a simetria da antiga Terra foi mudada e partida na primeira Batalha dos Deuses, quando Valinor marchou contra Utumno, que era a fortaleza de Melko, e Melko foi acorrentado. Então o mar de Helkar [que era a lâmpada setentrional] tornou-se um mar interior ou grande lago, mas o mar de Ringil [6] [que era a lâmpada meridional] tornou-se um grande mar fluindo de norte a leste e unindo por canais tanto o Mar Ocidental como o Oriental.

E a Terra foi novamente partida na segunda batalha, quando Melko foi mais uma vez deposto, e ela modificou-se ainda mais pela a deterioração e o passar de muitas eras. Mas a maior mudança ocorreu quando a Forma Primordial foi destruída, e a Terra foi arredondada e separada de Valinor. Isto aconteceu nos dias do ataque dos Númenoreanos sobre a terra dos Deuses, como é contado nas Histórias. E desde aquele tempo o mundo tem esquecido as coisas que haviam anteriormente, e os nomes e as lembranças das terras e águas de antigamente pereceram.

Notas:

[1] O presente texto pertence aos primórdios da mitologia tolkieniana, sendo escrito por volta de 1930. Muito foi modificado pelo próprio Tolkien [alguns pontos mais de uma vez] antes da publicação do Silmarillion, em 1977, editado por seu filho Christopher. Muitos nomes foram deixados de lado, outros sofreram alterações, como é o caso de Ilurambar, forma primitiva de Eärambar. [N. do T.] [2] No decorrer do texto, Tolkien refere-se ocasionalmente ao sol como “ela” e à lua como “ele”, por ambos serem conduzidos por seus respectivos maiar: Arien [a maia do sol], e Tilion [o maia da lua]. [N. do T.] [3] Formas primitivas de Melkor e Eärendil respectivamente. [N. do T.] [4] Formas primitivas de Araman e Avathar respectivamente. [N. do T.] [5] Forma primitiva de Cuiviénen. [N. do T.] [6] Formas primitivas de Illuin e Ormal respectivamente. [N. do T.]

FAQ Sobre Tolkien e o Racismo

Tenho estado envolvido em várias discussões com amigos que estão genuinamentee preocupados com os percebidos elementos raciais de Tolkien. Vendo o volume de posts sobre esse assunto, achei que seria aconselhável compilar todos os argumentos num simples FAQ (Frequently Asked Questions ou Perguntas Feitas Freqüentemente) para evitar futuros esforços e reciclagem redundante de argumentos.

Da próxima vez que alguém perguntar se Tolkien era racista ou não, posso simplesmente copiar esse texto e passá-lo. Levou um tempo até que eu conseguisse achar todos os comentários, mas eles foram encontrados mais facilmente depois que utilizei o que foi dito por Stuart Jensen em http://tolkien.slimy.com/faq/External.html#Racist e o FAQ de Mike Brinza como pontos de partida.

Sendo um fã parcial, e considerando que eu posso ter deixado de citar vários pontos, apreciaria quaisquer outros argumentos, de ambos os lados. De qualquer forma, aqui está:

1. Não há humanos africanos, hindus, japoneses (…etc) na história. Tolkien é culpado de racismo por causa disso?

Conforme já foi repetidamente mencionado por membros daqui, a história foi escrita como uma mitologia para a Europa setentrional, e mais especificamente para a Inglaterra. Tolkien declara de forma explícita sua motivação na Carta # 131;

“Desde cedo eu sofri com a pobreza de meu próprio amado país; não possui histórias próprias (ligadas com sua língua e solo), com a qualidade que eu buscava e encontrei em lendas de outras terras. Havia lendas gregas, celtas, e romanas, e germânicas, e escandinavas, e finlandesas; mas nada inglês; e nada substituía o que eu achava que estava faltando.”

Isso explicaria porque a maioria das raças humanas na história são brancas. Você não esperaria ver muitos caucasianos num mito hindu, chinês ou africano, não é mesmo? Outro fator é que Tolkien usara mitos celtas e teutônicos e os mitos dos anglo-saxões da Inglaterra pré-medieval como inspiração para sua história. Uma resposta interna seria dizer que a Terra-média se assemelha às descrições do interior da Inglaterra e as regiões norte da Escandinávia, Irlanda e Escócia; portanto comprometeria a autenticidade destas localizações geográficas se raças de outras partes do mundo habitassem essas terras.

Como um testemunho do quão “inclusivo” ele era, pode ser que valha a pena (mesmo se for irrelevante) mencionar que ele havia considerado sociedades não-européias quando construiu algumas de suas culturas. Evidências a respeito disso podem ser encontradas na Carta #211, onde Tolkien comparou vários aspectos significativos da sociedade de Gondor com alguns do antigo Egito.

2. Por que ele estava tão interessado pela Inglaterra e Europa do norte, em comparação à outras partes do mundo? Será que ele não estava preocupado demais com regiões nórdicas?

Pessoalmente, eu acho que esta pergunta é contra-intuitiva, mas eu a ouvi sendo perguntada com veemência várias vezes, portanto vou respondê-la usando o seguinte comentário da Carta #294:

“Auden afirmou que para mim o norte é uma direção sagrada. Isto não é verdade. O nordeste da Europa, onde eu (e a maioria de meus ancestrais) viveram, tem minha afeição, como o lar de um homem deve ter.”

Ele também se ofende com o uso da palavra “nórdico”, como sendo”uma palavra que eu pessoalmente não gosto; está associada com teorias raciais”. E de qualquer forma, “a ação da história se situa no nordeste da ‘Terra-média’, equivalente em latitude às terras costeiras da Europa e as margens norte do Mediterrâneo. Mas isto não é, em nenhum sentido, uma área puramente ‘nórdica’.

Se a Vila dos Hobbits e Valfenda são consideradas (conforme é a intenção) como estando em latitude semelhante à de Oxford, então Minas Tirith, 600 milhas ao sul, está em latitude semelhante à de Florença. A Foz do Anduin e a antiga cidade de Pelargir estão por volta da latitude da antiga Tróia.”

3. Orcs são negros e elfos são brancos. Isso não é mostrar que negro representa o mal e branco representa o bem?

Sim; mas eu não acredito que isto seja uma distinção racial. Quase toda a mitologia e histórias imaginadas da história humana, não importando a cultura ou sociedade, fizeram a associação de “Escuridão” com o Mal e “Luz” com o Bem. Isto não deveria ser confundido com distinção baseada na cor da pele. O sol é a fonte primária de energia para todas as coisas que vivem. Humanos são criaturas diurnas e sempre temeram a noite. Portanto, não é muito difícil de ver porque luz e escuridão criaram estas associações em nossa psique histórica. As razões são óbvias, Segundo Tolkien expressa na Carta #131;

“Luz é um símbolo tão primitivo na natureza do universo, que mal pode ser analisado.”

4. Orcs são maus, elfos são nobres, anões são egoístas e ambiciosos. Isto não é mostrar que traços de caráter estão predeterminados pela raça?

É importante lembrar que orcs, elfos e anões são espécies completamente diferentes, e não diferentes raças humanas. É mais ou menos como comparar um cão domesticado com um tigre selvagem. De fato, orcs nem mesmo são seres “naturais”, mas foram de fato “fabricados” pelo inimigo.

5. E quanto às diferentes classes de humanos que são definidas por seu sangue e ancestralidade? Na sociedade gondoriana, porque os homens descendentes de númenorianos são considerados mais nobres do que homens de sangue misto?

Esta provavelmente é a questão que tem a resposta menos satisfatória. Durante a época de Tolkien, havia um conceito comumente considerado de que o sangue carregava um grupo de direitos com ele. Até mesmo hoje em dia, os britânicos (e várias outras sociedades) têm um monarca e uma aristocracia. Isto tem mais a ver com o direito de herança material do que com as qualidades inerentes no sangue. Podemos encontrar uma resposta mais plausível na história dos Edain, ancestrais dos númenorianos, que “eram os únicos da raça dos homens que lutaram pelos Valar (deuses), enquanto que vários outros lutaram por Morgoth.”

E por essa razão foram recompensados com “sabedoria e poder e vida mais duradoura do que qualquer outra raça mortal possuía” (tirado do Akallabeth). Acho que todas as três características não foram apenas aprendidas, mas sim permanentemente inseridas na biologia deles, para serem passadas a seus herdeiros. Além disso, os descendentes de Elros enriqueceram ainda mais o sangue númenoriano. (Elros sendo o Elfo que escolheu ser humano, um dos únicos dois elfos a receber essa chance). Mesmo com essas bênçãos, sabemos que os númenorianos cometeram crimes graves, resultando em grande catástrofe no fim. Os danos causados devido à sua arrogância e sede de poder foram bem maiores do que quaisquer outros cometidos desde então por humanos ou elfos.

6. Ok, então vamos dar uma olhada nas diferentes raças de humanos. Os Haradrim e os Orientais foram descritos como morenos e de olhos puxados. Tolkien mencionou em As duas Torres que “eles estavam sempre prontos para a vontade dele (de Sauron)”. Isto não é dizer que eles estão racialmente predispostos ao mal?

Esta afirmação foi feita pelo personagem Damrod, um Guardião de Ithilien e, portanto, você deve levar em conta a visão parcial dele a respeito dos inimigos históricos de sua terra. É verdade que naquela época da Guerra do Anel, os Haradrim e os Orientais estavam aliados ao Inimigo, mas isso não foi sempre assim.

Durante as Nirnaeth Arnoediad, Bór, o Capitão dos Homens do Leste esteve aliado, junto com muitos de seu povo, com os Filhos de Fëanor contra as forças de Morgoth. Também temos que considerar posição geográfica particular deles. Os homens do Oeste têm acesso à experiência dos elfos e númenorianos, que tiveram extensivas relações anteriores com Morgoth e Sauron. Os sulistas e orientais, por outro lado, tem que lidar com as coisas sozinhos, sem tais informações.

Também pode ser verdade que os homens do Oeste são mais tecnologicamente avançados do que aqueles no Sul ou Leste, porque eles tiveram várias conexões com Númenor em seu auge. Somado a isto, os exilados de Númenor formaram reinos e colônias no oeste. Infelizmente para os sulistas e orientais, eles não possuíam vantagens tecnológicas disponíveis, tornando-os oponentes mais fracos. Eles simplesmente tiveram que acatar os desejos de Mordor.

Em SDA, Tolkien fez questão de garantir que o leitor considere a terrível situação em que estes homens “estranhos” estavam. Ele quer que entendamos o que os levou a fazer o que fizeram. Sam, depois de testemunhar a morte de um oriental em uma escaramuça, pergunta “qual era o nome dele e de onde ele vinha; e se ele era realmente mau por dentro, ou quais as mentiras ou ameaças que o haviam tirado de casa para essa longa marcha; e se ele realmente teria preferido ficar em paz em seu lar.” Além disso, conforme já mencionei, até mesmo os númenorianos, que são considerados os mais nobres dos humanos, cometeram grandes crimes. Também sabemos que alguns dos homens de Gondor e Bri têm pele escura.

7. Não é verdade que os personagens maus são predominantemente negros ou “morenos”, como por exemplo Melkor, Sauron, Bill Samambaia?

E quanto a Saruman, Grima, Gollum, Boromir, e Denethor?(*) Há exceções demais quando você considera o caráter individual. De qualquer forma, Melkor é um Valar e Sauron é Maia.

8. Esta afirmação foi feita por Tolkien na Carta #210: “Orcs são atarracados, largos, com nariz achatado, de pele amarelada, com bocas largas e olhos tortos: de fato, versões degradantes e repulsivas dos menos agradáveis (para europeus) tipos mongóis.” Como isso não é racista?

Esta afirmação inicialmente me trouxe muito sofrimento. À primeira vista, pode ser tomada como evidência de racismo. No entanto, conforme um membro deste fórum (infelizmente esqueci quem era) mencionou há bastante tempo, a qualificadora “para europeus” na verdade prova o contrário. Ela mostra que ele declara a existência de diferentes medidas de beleza presentes em diferentes culturas. Ele mostra que beleza não é uma qualidade absoluta, mas está mais no olho de quem a vê, cujas opiniões são moldadas por restrições sociais.

Tenho que admitir que nos padrões de hoje, esta declaração é altamente aviltante e insensível e pode ser tomada como prova dos preconceitos subconscientes de Tolkien.

9. Ele também declarou na Carta #45 (9 de junho de 1941) que: “Há muito mais força (e verdade) do que os ignorantes imaginam no “Ideal Germânico”.” Não é admitir que apóia as políticas da Alemanha nazista?

O termo Ideal Germânico tem sido usado na literatura histórica moderna, erroneamente e de forma muito prolífica, para descrever os ideais da Alemanha nazista. Esta identificação é racista em si mesma. O termo poderá muito facilmente significar os ideais de Kant, Hegel, Heidegger ou Schopenhauer; todos bem mais influentes do que aquele “pequeno ignorante rosado”. (palavras de Tolkien); Hitler. “Você deve compreender as coisas boas para detector o verdadeiro mal”.

Estas palavras seguem quase que diretamente a frase acima. Para mim, isto demonstra uma mente bem mais consciente da importância da empatia e compreensão daqueles que são diferentes de nós. E ele continua, dizendo que os nazistas estão “arruinando, pervertendo, aplicando mal e tornando para sempre amaldiçoado aquele nobre espírito do norte, que eu sempre amei e apresentei em sua verdadeira luz.” Tolkien admite sentir que obediência e patriotismo são virtudes, mas que muitas pessoas sentem-se assim hoje em dia.

Aqui estão mais declarações feitas por ele que demonstram claramente que ele está de fato adiantado no tempo no que diz respeito às idéias de pluralismo e equidade:

“Havia um artigo solene no jornal local incentivando o extermínio sistemático de toda a nação alemã como sendo o único caminho certo após vitória militar….Os alemães têm tanto direito de declarar que poloneses e judeus são vermes extermináveis quanto nós temos de selecionar alemães; em outras palavras, nenhum direito.” – Carta #81

Para mim, isto comunica a habilidade de perceber além das névoas predominantes de antagonismo nacionalista, chegando à uma observação racional de todo o assunto. Se apenas os líderes políticos do tempo dele e do nosso tivesse visão tão clara…

Esta próxima carta severa foi escrita para editores alemães que perguntaram se Tolkien era “arisch (ariano)” ou judeu. As leis da Alemanha naquele tempo exigiam que se fizesse essa pergunta antes que qualquer trabalho fosse publicado.

“…Lamento que eu não tenha entendido o que vocês querem dizer com arisch. Não tenho ascendência Aryana(*), ou seja, Indo-Iraniana; até onde sei, nenhum dos meus ancestrais falava hindu, persa, cigano ou qualquer dialeto relativo. Mas se devo entender que você estão perguntando se sou ou não de origem judaica, posso apenas responder que lamento não possuir ancestrais deste povo talentoso. Meu trisavô chegou à Inglaterra no Século XVIII, vindo da Alemanha:…Me acostumei a considerar meu nome alemão com orgulho… não posso, no entanto, deixar de comentar que caso perguntas irrelevantes e impertinentes deste tipo forem se tornar regra geral na literatura, então não está distante o tempo em que um nome alemão não mais será fonte de orgulho.” – Carta #30 (25 de julho de 1938: Infelizmente, seus agentes de Londres não enviaram a carta para os editores alemães, temendo repercussões financeiras).

Na minha mente, esta carta elimina qualquer dúvida a respeito dos valores de Tolkien. Ele não é apenas extraordinariamente moderno e racional, mas também tem a coragem de defender seus valores pluralísticos. Seu tom e sarcasmo seco mostram o quão profundamente ofendido ele está com as atitudes racistas dos editores alemães. Conforme Aule disse um tempo atrás (em um post que eu salvei por sorte); “Um dos maiores temas de SDA é a união das raças para uma causa comum. Acontece que as raças são elfos, anões, homens em vez de brancos, negros, orientais, etc.”

O ponto central da questão é que a maioria de nós tem preconceitos e pré-julgamentos em nossas mentes. Tolkien não é exceção. Mas ao considerar a retórica dele no contexto social, acho que podemos afirmar com segurança que ele estava à frente de seu tempo com sua perspectiva inclusiva e pluralística do mundo. A chave para lidar com racismo é aceitar que ele existe dentro de cada um de nós e que devemos fazer todo o possível para derrotá-lo dentro de nós.

Cuidem-se, TC PS: Esta é uma cópia de um ensaio que eu escrevi originalmente para o fórum de Tolkien no IMDB (Internet Movie Database): aqui. A resposta de BB para meu post foi bastante reveladora e eu gostaria de trazê-la aqui num futuro próximo. Mas até lá, por favor sigam o link acima para acessá-la.

(*) Nota da tradutora: como tradutora, não posso alterar o original… mas não posso deixar de manifestar que não concordo quando o autor do texto coloca Boromir como “personagem mau”; nem mesmo para Denethor.

(**)Nota da tradutora: Acredito que, quando Tolkien fala de ascendência “Aryan”, deve estar fazendo um trocadilho irônico e mordaz, querendo fazer parecer que ele não entendeu o que os editores quiseram dizer com “arisch”… seria “árabe”? Seria “ariano”? Tolkien sabia muito bem o que eles queriam dizer, mas quis ser sarcástico e disse que não tinha ascendência árabe ou hindu. Acredito que o termo “Aryan” tenha algo a ver com ascendência árabe ou hindu.

 

Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português