Uma nota sobre o Capí­tulo 22 Da Ruí­na de Doriath do Silmarillion publicado

[Nota do Tradutor: Texto de autoria de Christopher Tolkien, contido
no HoME 10. Junto ao texto "Sobre o parentesco de Gil-galad, já
traduzido e publicado na Valinor, este texto é essencial para o estudo
e quantificação da influência pessoal de Christopher Tolkien em "O
Silmarillion" publicado. O ponto-chave de ambos os textos não são as
minúcias sobre o real parentesco de Gil-galad ou qual a melhor solução
possível para "A Queda de Doriath" e sim a interferência pessoal
inserido por C. Tolkien em todo "O Silmarillion", que é muito mais
ampla e intrusiva do que costuma-se imaginar. C. Tolkien não se
contenta com sua postura de editor dos textos do pai e assume um
indevido papel de co-autor, mas não vou me alongar sobre o assunto
neste momento pois o mesmo é merecedor de um ensaio especial e bem mais
cuidadoso a ser publicado dentro em breve na Valinor.]
 
 
 
Exceto por uns poucos detalhes em textos e notas não publicados, tudo
que meu pai escreveu sobre o assunto da ruína de Doriath já foi
lançado: da história original no "Conto de Turambar" (HoME II.113-15) e
no "Conto do Nauglafring" (HoME II.221 e próximas), passando pelo
"Rascunho da Mitologia" (HoME IV.32-3, com comentários 61-3) e o
"Quenta" (HoME IV. 132-4, com comentários 187-91), junto ao pouco que
pode ser visualizado no "O Conto dos Anos" e em algumas poucas
referências tardias. Se estes materiais forem comparados à história
contada em "O Silmarillion" publicado percebe-se logo de início que
este último foi fundalmentalmente alterado, para uma forma que em
certas características essenciais não existe referência alguma mesmo
nos próprios escritos de meu pai.

Existem alguns problemas bastante evidentes com a antiga história. Se
ele voltasse a trabalhar nela algum dia, meu pai sem dúvida encontraria
alguma outra solução que não aquela no "Quenta" para a questão "Como o
tesouro de Nargothrond foi levado a Doriath?". Lá, a maldição que Mîm
pôs sobre o ouro à sua morte "caiu sobre os seus possuidores. Cada um
dos companheiros de Hurin morreu ou foi morto em lutas na estrada; mas
Hurin foi a Thingol e pediu sua ajuda e o povo de Thingol levou o
tesouro para as Mil Cavernas". Como é dito no HoME IV.188, "isto
arruína o gesto, se Hurin deve chegar diretamente ao rei para enviar o
ouro com o qual então ele foi humilhado". Parece para mim mais provável
(mas isto é mera especulação) que o meu pai reintroduziria os
fora-da-lei dos antigos Contos (HoME II.113-15,222-3) como os
portadores do tesouro (mas não a dura batalha entre eles o os Elfos da
Mil Cavernas): nos escritos desordenados ao final do "The Wanderings of
Hurin" Asgon e seus companheiros reaparecem após o desastre em Brethil
e vão com Hurin a Nargothrond.

Como ele trataria o comportamente de Thingol com relação aos Anões é
impossível dizer. A história só foi contada inteiramente uma vez, no
Conto do Nauglafring, no qual a conduta de Tinwelint (precursor de
Thingol) estava em completo desacordo com a concepção posterior do rei
(ver HoME II.245-6). No "Rascunho da Mitologia" nada mais é dito sobre
o assunto além de que os Anões foram "expulsos sem pagamento", enquanto
no "Quenta" "Thingol… não cumpriu adequadamente sua prometida
recompensa por seus trabalhos; e palavras amargas surgiram entre eles,
e houve uma batalha nos Salões de Thingol". Parece não haver dicas ou
pistas nos escritos posteriores (no "Conto dos Anos" a mesma frase é
utilizada em todas as versões "Thingol discutiu com os Anões"), exceto
uma encontrada nas palavras transcritas do "Sobre Galadriel e
Celeborn": Celeborn em sua versão da destruição de Doriath ignora a
parte de Morgoth "e os próprios erros de Thingol".

No "Conto dos Anos" meu pai parece não ter considerado o problema da
passagem de um exército Anão para o interior de Doriath apesar do
Cinturão de Melian, mas ao escrever as palavras "não pode" na versão D
ele mostrou que ele considerava a história que delineou como
impossível, por aquela mesma razão. Em outro local ele rascunhou uma
possível solução: "De alguma forma deve ser delineado que Thingol foi
atráido para fora ou foi à guerra além de suas bordas e lá foi morto
pelos Anões. Então Melian parte e com o cinturação removido Doriath é
destruída pelos Anões".

Na história que aparece em "O Silmarillion" os fora-da-lei que vão a
Nargothrond com Hurin foram removidos e também a maldição de Mîm; e o
único tesouro que Hurin toma de Nargothrond é o Nauglamir – o qual aqui
supõe-se feito para Finrod Felagund pelos Anões e que era o tesouro de
Nargothrond ao qual eles davam maior valor. Hurin é representado como
finalmente livre das ilusões inspiradas por Morgoth em seu encontro com
Melian em Menegroth. Os Anões que incrustaram a Silmaril no Nauglamir
já estavam em Menegroth, engajados em outros trabalhos e foram eles que
mataram Thingol; e àquele tempo o poder de Melian foi retirado de
Neldoreth e Region e ela sumiu da Terra-média, deixando Doriath sem
proteção. A emboscada e destruição dos Anões em Sarn Athrad foi dada
novamente a Beren e os Elfos da Floresta (seguindo a carta de 1963 de
meu pai, citada à página 353, onde os Ents "Pastores de �?rvores", são
introduzidos).

Esta história não foi tola ou facilmente concebida, mas foi o resultado
de uma longa experimentação entre concepções diversas. Neste trabalho
Guy Kay assumiu um grande papel e o capítulo como eu finalmente o
escrevi deve muito às minhas discussões com ele. É, e era, óbvio que um
estava sendo um Passo de uma ordem diferente de qualquer outra
"manipulação" dos escritos de meu pai ao longo do livro: mesmo na
história de "A Queda de Gondolin", para qual meu pai nunca retornou,
algo poderia ser deduzido sem introduzir mudanças radicais na
narrativa. Pareceu àquele tempo que existiam elementos inerentes à
história da Ruína de Doriath como ela exitia que eram radicalmente
incompatíveis com "O Silmarillion" como projetado e que havia uma
escolha inescapável: ou abandonar aquela concepção projetada ou alterar
a história. Eu acho agora que aquela foi uma visão equivocada e que as
inegáveis dificuldades poderiam ter sido, e deveriam ter sido,
ultrapassadas sem exceder tanto as fronteiras da função editorial.

 
[Tradução de Fábio ´Deriel´ Bettega]