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Yiddish Policeman's Union, O Hobbit, O Senhor dos Anéis, Preacher, O Silmarillion, Cristianismo Puro

O novo Silmarillion está chegando – e aqui está a Nota do Tradutor!

Como vocês sabem, tive a imensa alegria de traduzir a nova edição de O Silmarillion que está prestes a chegar a todas as livrarias do Brasil. Aqui vai um dos “Easter eggs” do livro: a nota sobre a tradução que escrevi. Espero que atice o interesse do pessoal da Valinor pelo novo Silma!

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NOTA DE TRADUÇÃO

Quando publicou O Hobbit, sua primeira obra de ficção, J.R.R. Tolkien decidiu incluir no livro uma nota introdutória que começava dizendo o seguinte: “Esta é uma história de muito tempo atrás”. Se essa afirmação vale para as aventuras de Bilbo, ela é incomensuravelmente mais verdadeira para O Silmarillion, uma narrativa que começa com as origens de Eä, o Universo, e de Arda, o Reino da Terra, e narra “as estranhas histórias antes do princípio da História”, como diz, de novo, o narrador de O Hobbit. A linguagem usada por Tolkien nos textos que compõem este livro reflete esse fato de modo muito claro. O narrador e os personagens da obra falam uma língua que está muito longe de ser o inglês coloquial – ou mesmo literário – do século XX. Em muitos aspectos, o estilo e o vocabulário se aproximam do idioma formal de uns 500 anos atrás.

Na presente tradução, tentei refletir ao máximo essa ambição de Tolkien – a de contar uma história do passado primevo numa linguagem que ecoa esse mesmo passado – usando equivalentes que temos à nossa disposição em língua portuguesa. No vocabulário, a opção central foi pelo arcaísmo ou, para ser mais preciso, para palavras que possuem uma história relativamente longa no nosso idioma. De fato, Tolkien em geral não usa palavras esquecidas que ninguém mais entende, mas sim vocábulos “clássicos”, que um inglês da época de Shakespeare (1564-1616) teria tanta facilidade de compreender quanto uma pessoa comum na Oxford dos anos 1960.

Para alcançar esse objetivo, usei apenas termos que estão presentes em português pelo menos desde os séculos XVI e XVII, o que equivale de modo bastante preciso ao vocabulário moderadamente arcaico, mas sempre compreensível, de O Silmarillion. Também procurei usar palavras que respeitem as origens (majoritariamente) latinas do português, mas que, ao mesmo tempo, são da língua corrente das últimas centenas de anos. Evitei neologismos eruditos forjados diretamente a partir do latim e do grego. Elfos e Homens, por exemplo, são “as Duas Gentes”, não “As Duas Etnias”.

A influência da Bíblia e do cristianismo medieval, tanto nas ideias quanto no estilo, é inegável neste volume. Por isso, busquei levar em conta boas traduções da Bíblia para o português no meu trabalho. Os reflexos bíblicos (e o de outros autores pré-modernos) em O Silmarillion aparecem também na estrutura peculiar das frases do livro, seja nas frases construídas com várias conjunções “e” (como no Ainulindalë), seja na ordem inversa das palavras (Tolkien adora começar um parágrafo com um objeto indireto, por exemplo). Tentei manter esses detalhes saborosos ao máximo em português.

Os trechos poéticos da Balada de Leithian que constam do livro foram traduzidos pelo colega Ronald Kyrmse como parte de seu trabalho em Beren e Lúthien, pelo qual eu e todos os entusiastas da obra de Tolkien no Brasil somos muito gratos. Boa leitura!

Entrevista exclusiva com Ricky Whittle, o Shadow de Deuses Americanos!

Tem coisas que só o Valinor faz pra vocês 😉 No ano passado, bati um papo muito interessante com Ricky Whittle, o Shadow da série American Gods/Deuses Americanos, baseada no livro de mesmo nome do mestre Neil Gaiman. Eis aqui o áudio da conversa, em inglês. Temos legendas automáticas em inglês e também em português feitas “no braço”. Confira no canal do YouTube abaixo.

Você também pode acompanhar a íntegra da entrevista em formato de texto abaixo. O resumo está na reportagem publicada aqui no site da Folha. 

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REINALDO – Imagino como deve ser difícil enfrentar esse monte de entrevistas num dia só.

RICKY – Não tem problema, estou cheio de energia, então vai dar tudo certo!

REINALDO – Que bom! Bom, já que você está cheio de energia, posso começar com a pergunta mais chata?

RICKY – Claro!

REINALDO – Você certamente sabe que houve vários relatos sobre problemas quando vocês estavam filmando a segunda temporada. Resumindo, por que você acha que filmar essa segunda temporada foi tão complexo e tão difícil?

RICKY – Há problemas na filmagem de qualquer programa de TV, qualquer filme, de qualquer tamanho. É só a produção, é o que acontece, e não é diferente de qualquer outro programa. O que é diferente é que temos nas mãos um programa que é um monstro, que é enorme.

Então, para nós, o importante é que cada um faça seu trabalho. Nós, atores, decoramos nossas falas, gente como eu e como Pablo Schreiber precisa malhar, temos de comer nossas 5.000 calorias por dia e chegar a um certo peso porque temos de ficar com uma certa aparência, aparecemos no set de filmagem e somos profissionais.

Tenho a benção de fazer parte de um elenco incrível que rala pra caramba, que aparece todo dia para o trabalho com uma ética de trabalho incrível. Eles continuam a elevar os patamares e continuam a ser o melhor elenco conjunto da TV, é incrível. E cabe a nós manter essa responsabilidade para os nossos personagens. Na temporada 1, desenvolvemos esses personagens com Bryan Fuller e Michael Green e estabelecemos esses personagens.

E isso realmente criou raízes em nós e se desenvolveu, e agora eles são parte de nós. Então não importa quem acaba chegando à série. Quando Jesse Alexander veio para a temporada 2, ele não precisou se preocupar com os personagens, porque era nossa responsabilidade manter essa consistência. Assim, se algo não estava muito bem, havia essa enorme colaboração para termos certeza de que tudo prosseguiria sem problemas.

Vai ser a mesma coisa no futuro. Quem quer que se integre à equipe, cabe a nós, atores individuais, manter a consistência e a continuidade dos personagens. Se Shadow diz alguma coisa que não soa certa, cabe a mim dizer “Não acho que ele diria isso, acho que diria algo mais desse jeito”, e aí temos uma conversa a respeito e achamos a melhor solução para seguir em frente.

REINALDO – OK. Falando sobre o próprio Shadow, é um papel difícil, certo? Por que, ao menos no livro, ele é um cara muito taciturno, você raramente sabe o que ele está pensando por meio do que ele fala, tudo acontece dentro da cabeça dele. Como você faz isso na série, onde é preciso ter diálogos, sem mudar demais essa característica do Shadow?

RICKY – Sinto que talvez essa seja a parte mais difícil como ator, para mim, essa coisa de retratar as emoções de Shadow sem falar. Muito da história de Shadow no livro é retratado como monólogo interno, que temos no programa, mas sem palavras. Então meu papel é ter esse monólogo interno na cabeça e mostrar para o público o que ele está pensando por meio das expressões, das reações dele.

Shadow está sempre pensando, em todos momentos e todas as cenas, seja na temporada 1, quando ele fica pensando se o Sr. Wednesday é um velho pervertido, ou um sujeito misterioso, ou um mocinho ou um vilão, ele está sempre pensando em alguma coisa. Sabe, de fato é um grande desafio, mas fica mais fácil com a ajuda de atores como Ian McShane, que é incrível, e eu estou apenas reagindo ao seu trabalho fantástico.

Então às vezes há momentos em que podemos acrescentar uma voz para retratar algo que não está sendo passado diretamente, em outras horas é meu papel transmitir tudo de maneira visual, como reação de atuação. Mas é muito difícil transmitir as nuances desses monólogos internos lindos que Neil Gaiman escreveu no livro e, como ator, minha tarefa muitas vezes é deixá-los “tocando” na minha cabeça para entender o que Gaiman quis dizer e mostrar o que Shadow estava tentando pensar ou está pensando em algum momento específico. Sim, essa é provavelmente a parte mais difícil de representar Shadow.

REINALDO – Outra coisa que as pessoas provavelmente te perguntam muito: você era um leitor de livros sobre mitologia ou folclore antes da série, era algo que te interessava?

RICKY – Não, não me interessava nem um pouco…

REINALDO – De jeito nenhum?

RICKY – De jeito nenhum! Nunca foi uma coisa minha. Quando eu era criança, adorava biografias, adorava ler sobre meus heróis esportivos favoritos, suas lutas e dificuldades e coisas assim, astros do futebol ou Michael Jordan, ou comediantes, como Billy Connolly, que eu adorava. Então eu comecei a estudar mitologia quando a série começou, e passei a descobrir coisas muito interessantes que talvez eu devesse ter aproveitado antes.

Neil Gaiman já escreveu tantos livros do gênero, sobre esses assuntos, mas, tal como Shadow, eu vou aprendendo ao longo do caminho. A série é uma plataforma fantástica, um jeito de educar o mundo sobre várias religiões, mitologias, raças, fés, e é algo capaz de mostrar todas elas em sua verdadeira beleza, de mostrar como cada cultura é bela.

Não é algo que mostre que uma é verdadeira e outra falsa, que meu deus é verdadeiro e o seu é de mentira, mas mostra que eles podem coexistir, que todos existem juntos, contanto que você acredite neles – o importante é acreditar. Nesta nova temporada, temos uma nova personagem, Sam Crow, que é interpretada por Devery Jacobs. Sam Crow é uma lésbica e membro das Primeiras Nações [indígenas americanos]…

REINALDO – É uma personagem muito divertida no livro!

RICKY – Ela é fodona! Pois é, e na vida real Devery Jacobs é uma lésbica e membro das Primeiras Nações! Continuamos esse processo de escolher o elenco a partir do livro. Os fãs estão felizes, mas estamos também representando o máximo possível de pessoas, este é o elenco mais etnicamente diverso da TV e o melhor conjunto de atores da TV. Tomara que continue! Ainda não chegamos lá, mas estamos cobrindo bastante coisa. Espero que no futuro todo mundo seja representado, porque estamos retratando o mundo da maneira como ele é hoje.

Quando Salim e o Gênio apareceram naquela cena de sexo, foi a primeira vez que personagens muçulmanos do mesmo sexo apareceram tendo um relacionamento numa tela de TV. Não deveria ser a primeira vez, porque isso é uma coisa de todo dia, é a vida hoje em dia, então a ideia é retratar o mundo como ele realmente é, sabe, fazer com que todas as pessoas sejam vistas o máximo possível e mostrando a beleza de cada pessoa. Por isso, tenho muito orgulho da série, do que ela representa e do que estamos nos esforçando para fazer, e que isso tenha uma vida longa.

REINALDO – Já que você mencionou a religião, você pessoalmente é religioso ou não?

RICKY – Sim, eu acredito em alguma coisa.

Fui criado como católico, frequentei uma escola católica e tive freiras como professoras, o que foi uma ótima experiência, elas eram adoráveis e muito assustadoras às vezes. Mas agora eu tendo a lidar com a crença da maneira como a mostramos na série.

Eu dou graças antes de cada refeição, mas é mais como um “obrigado”, não é necessariamente para alguém ou algo, é mais como a minha maneira de dizer obrigado a quem quer que seja pela vida que estou levando, porque toda vez que a gente acorda, respira o ar e fica de pé, estou cercado por amigos e familiares lindo, eu amo meu trabalho em “American Gods”, sinto-me muito sortudo e abençoado nessa vida, e por isso sou grato. E sinto que devo dar graças por isso, que a gente não deveria simplesmente existir nesta vida.

Devíamos realmente vivê-la, e sinto que estou vivendo minha vida. Estou vivendo uma boa vida. E por isso sou muito grato, e muito agradecido, e me sinto muito abençoado. Assim, todo dia vou dar graças e sempre agradecer a quem quer que seja por tudo isso.

REINALDO – Legal. É uma bela atitude. Bom, você já falou um pouco sobre o tema dessa próxima pergunta, mas queria saber o que acha. Quando a série estreou, foi um pouco esquisito, mas também muito legal, ver as pessoas dizendo como ela era politicamente relevante, especialmente na Era Trump – considerando que no fundo é uma série sobre imigrantes. Esse tipo de relevância política é algo que é confortável pra você, é algo que traz uma dimensão interessante pro seu trabalho?

RICKY – Eu acho isso incrivelmente importante – e incrivelmente impressionante, porque Neil Gaiman escreveu isso em 2001. E agora virou a série mais politicamente relevante da TV!

Na pré-estreia da série em Los Angeles, ele me disse que daria todo o dinheiro, toda a riqueza, a fama, o reconhecimento, para que esse show continuasse a ser só uma fantasia. Mas infelizmente toda essa fantasia a respeito da qual ele escreveu agora é a vida real.

Todos esses temas – homofobia, racismo, misoginia, controle de armas – todos esses temas que há na série foram jogados por Trump nas primeiras páginas de todos os jornais ao fazer seus comentários ultrajantes para obter algum tipo de marca política.

Então, sinto que é nossa oportunidade e nossa responsabilidade fazer com que a conversa sobre esses temas continue acontecendo, porque minha sensação é que às vezes pessoas negativas vão continuar a dividir nações e oprimir outras pessoas quando o foco deveria ser a positividade, o estímulo para que as pessoas sejam as melhores versões de si mesmas.

E não segregar as pessoas, empurrá-las para longe por causa de sua raça, seu sexo, religião ou o país de onde vêm, isso não tem nada a ver, não passa de uma agenda pessoal. Do meu ponto de vista, o importante é criar um mundo positivo, uma pessoa de cada vez – se eu continuo sendo positivo, é possível que eu consiga transformar você numa pessoa positiva também.

Você não precisa acreditar no que eu acredito, isso não me incomoda. Nós dois podemos vir de países diferentes – é o nosso caso –, podemos ter raças diferentes, ter interesses sexuais diferentes, religiões e crenças diferentes, que seja. Eu julgo as pessoas com base no seguinte: se elas são pessoas boas ou más. E, quanto mais pessoas boas continuarem assim, e quanto mais pessoas más pudemos converter, melhor o mundo será, e vamos poder parar de dividir as pessoas o máximo possível, que é o que aquele homem está tentando fazer.

E não é uma boa estratégia. Os EUA são um grande país por causa de todos os sabores de diferentes culturas. O país inteiro é construído com base na imigração. A não ser que você seja das Primeiras Nações, um nativo americano, todos são imigrantes naquele país, tal como o próprio Trump e suas muitas esposas. Então, acho importante abraçar a riqueza das outras pessoas em vez de provocar o medo, que é um método de controle.

Essa é a minha opinião – mantenha essa positividade e mantenha a grandeza dos EUA do jeito que deveria ser, com diferentes culturas e religiões e fés e crenças, e todo mundo ascendendo como uma coisa só.

REINALDO – Última pergunta, prometo! Em termos de história – se é que você pode contar, se não for spoiler demais –, qual é o núcleo narrativo mais importante da temporada 2? É a House on The Rock/Casa na Pedra?

RICKY – Nós começamos onde tínhamos parado na temporada 1. Na primeira temporada, Laura foi contar a seu marido, Shadow, que ela foi morta pelo Sr. Wednesday, ou por Mad Sweeney por ordem do Sr. Wednesday. Então, quanto e como ela contou a Shadow?

Começamos então com os quatro dentro de um carro – Laura, Shadow, Wednesday e Sweeney –, e as tensões já ficam altas desde a cena 1 do episódio 1. E essa tensão continua a subir até culminar no maior final de temporada possível. É enorme. Os últimos dois episódios são épicos. Seguindo o ímpeto da temporada 1, a segunda temporada só vai ficando cada vez maior.

Continuamos seguindo a linha do tempo do livro, vamos nos encaminhando para a Casa na Pedra, temos alguns momentos incríveis nesse lugar e depois vamos para o salão funerário…

REINALDO – Com o Sr. Ibis…

RICKY – Isso, Shadow vai encontrar o Sr. Ibis e também Bast, que é conhecida dos fãs do livro…

REINALDO – Há uma cena bastante sexy com Bast…

RICKY – Foi uma cena sexy de filmar, não vou mentir, foi bem interessante, para dizer o mínimo. E vamos continuar nessa linha com cenas que não necessariamente estão no livro, então fãs do livro terão um material novo, sobre o qual não sabem nada, que poderão curtir. E isso vai nos levar finalmente até Lakeside.

Neil Gaiman disse, na ComicCon de Nova York, que não chegamos a Lakeside, e que essa seria a temporada 3, e isso está correto, a temporada 3 vai ser em Lakeside. Mas vamos seguir o livro até lá, e vai ser uma temporada ainda melhor que a primeira. Como eu disse, preste atenção no final da temporada, vai ser épico. Se a temporada 1 foi de apresentações, foi “olá”, a temporada 2 vai ser “adeus”.

REINALDO – E vocês conseguiram filmar dentro da verdadeira House on The Rock, ou foi mais no set?

RICKY – Filmamos praticamente tudo na House on the Rock. Mandaram a maioria dos atores até o Wisconsin e… É um lugar de verdade.

REINALDO – Eu sei, eu sei!

RICKY – As pessoas costumam comentar como a casa é maluca no livro. Neil Gaiman na verdade deu uma maneirada…

REINALDO – … em quão maluca a casa é…

RICKY – … em quão maluca a casa é, porque as pessoas não iam acreditar.

Depois de ter estado lá eu mesmo, agora entendo o que ele quis dizer, porque o lugar é MALUCO. A coisa chega a este ponto: nossa série é cheia de efeitos especiais, temos uma equipe maravilhosa de efeitos especiais. Mas com a mágica da House on the Rock, a gente não precisou de efeitos especiais, porque a mágica já é trazida pelo fato de essa casa ser tão incrível. É uma locação de fazer você pirar.

Chris Burn, que é nosso produtor-executivo e diretor, filmou a primeira e a última cena do episódio final, não precisou usar efeitos especiais. Só de filmar no carrossel já foi um negócio mágico. Só de filmar as diferentes salas você já pira e começa a pensar em como eles fizeram isso aqui, como carregaram isso aqui pra cá, por que esse negócio está no meio do nada – a casa é insana, é maluca, recomendo fortemente que as pessoas vão até lá conhecer, é bizarro.

Mas economizou muito dinheiro do orçamento, já que não precisamos de efeitos especiais por causa da insanidade da casa.

REINALDO – OK. Ótimo, maravilhoso, maravilhoso.

Nova tradução de “O Hobbit” CONCLUÍDA!

É com prazer que comunico à comunidade Valinor que, dez minutos atrás, concluí a tradução do último capítulo de “O Hobbit” para a HarperCollins Brasil. Leiam mais em julho, quando sair a nova edição do livro no Brasil. Estou tão feliz que prometo gravar a versão em português das duas canções dos Anãos que apareceram nos filmes de Peter Jackson — no dia em que o livro sair, para não termos spoilers, é claro. Que venha a série The History of Middle-earth (não, ainda não sei quando, mas virá)!

A teologia e filosofia de “O Senhor dos Anéis” no podcast Estado da Arte

Já faz um tempinho, no ano passado, eu e dois colegas estudiosos da obra de J.R.R. Tolkien, Cristina Casagrande e Diego Klautau, fomos convidados para participar do podcast Estado da Arte, num episódio sobre “O Senhor dos Anéis”. Este “videocast” contém a íntegra da conversa, na qual vocês podem ouvir como eu me embanano tentando resumir a trama de mais de mil páginas do livro em menos de um minuto. Tentamos abordar vários aspectos teológicos e filosóficos da obra, muito ligados à fé católica de Tolkien. Confira.

Você também pode acessar a página do podcast para ouvi-lo sem precisar do vídeo.

Minha posição definitiva sobre Orques e Gobelins

A treta sobre o uso de termos como Orques e Gobelins nas novas edições da obra de Tolkien, publicadas pela editora HarperCollins Brasil, voltou com toda a força nos últimos dias. Eduardo Oliferr, do site Tolkien Brasil, que já tinha escrito uma série monumental (embora profundamente equivocada; stay tuned) de artigos sobre o tema condenando as novas traduções, iniciou uma verdadeira campanha em sua página do Facebook, conclamando outros fãs a manifestar sua contrariedade e praticamente exigindo que a editora altere os termos. Há uma ameaça mal-disfarçada de boicote no ar.

Bem, como vocês sabem, eu sou parte interessada nessa história. Sou o tradutor de A Queda de Gondolin, O Silmarillion e O Hobbit e membro do Conselho de Tradução da HarperCollins Brasil junto com os colegas tradutores Gabriel Brum (também aqui da Valinor) e Ronald Kyrmse. Creio firmemente, porém, que temos argumentos muito bons do nosso lado. E me parece claríssimo que a análise feita pelo Eduardo é parcial, enviesada e, em última instância, errada. Abaixo, explico o porquê disso ponto a ponto, aproveitando para citar várias críticas ou dúvidas das pessoas que estão atacando as novas traduções.

1)“Tolkien odiava/não aceitava adaptações fonéticas de qualquer tipo nos termos de suas obras”

Isso é, no máximo, sendo muito generoso, uma meia-verdade. O problema é tomar como verdade absoluta uma “fotografia” de UM momento específico citado nas Cartas de Tolkien, nos anos 1950, e extrapolar isso pra todos os lugares e todas as épocas em que foram feitas traduções da obra tolkieniana.

Não sei se vocês sabem, mas Tolkien era… gente. Um ser humano, que mudava de ideia, negociava, avançava e recuava, esquecia as coisas. Isso tem de ser levado em consideração.

Sim, Tolkien ficou chocado quando tradutores holandeses e suecos, nos anos 1950, resolveram traduzir ou adaptar a nomenclatura inglesa do Condado e dos nomes dos hobbits. A primeira reação dele foi vetar tudo, e aí teremos edições totalmente anglicizadas por aí. Mas lentamente ele foi levando em consideração que suas obras são, em tese, supostas traduções de manuscritos antigos em línguas que não têm nada a ver com o inglês, e que, portanto, tudo o que está em inglês – segundo essa teoria – seria “traduzível” ou adaptável foneticamente, em alguma medida.

Ele continuou meio infeliz com a ideia num nível visceral, mas sabia que era o certo a fazer.

E ele próprio sugere a possibilidade de adaptações ortográficas e fonéticas na Nomenclatura de O Senhor dos Anéis, documento que preparou para os tradutores nos anos 1960. Dois exemplos claros são os nomes Sharkey (o apelido de Saruman, traduzido como Charcote na edição da Martins Fontes) e Maggot, sobrenome do fazendeiro Magote.

Sobre Sharkey, Tolkien escreve: “A palavra, portanto, com uma modificação de ortografia para se adequar à LT [língua de tradução]; a alteração do sufixo diminutivo e quase afetuoso –ey para se adequar à LT também seria adequada”. Daí “Charcote” (a terminação lembra “mascote”, “filhote” em português).

Eis um trecho do verbete sobre Maggot: “A ideia é que seja um nome ‘sem significado’ (…) provavelmente é melhor deixá-lo intacto, embora alguma assimilação ao estilo da LT também fosse adequada”. Isso explica a remoção do “g” duplo e a vogal no final em “Magote”.

(Aliás, notem o “provavelmente”. Tolkien sabia que o trabalho de tradução comporta incertezas e soluções que variam – diferentemente de alguns de seus fãs…)

2)Mas ele jamais permitiria esse tipo de coisa com as palavras mais importantes de sua obra!!!

Errado. Um dos volumes da obra “The J.R.R. Tolkien Companion & Guide”, obra de referência organizada por Christina Scull e Wayne Hammond, mostra Tolkien totalmente aberto a negociar mudanças sutis e mesmo brutais para o termo “hobbit”. Sim, “hobbit”.

Em 1962, a editora Fabril, de Buenos Aires, estava negociando a publicação de uma tradução de O Hobbit, e Tolkien disse o seguinte: “Numa língua latina, o termo ‘hobbits’ parece horroroso e, se eu tivesse sido consultado antes, teria concordado imediatamente com alguma naturalização da forma: p. ex. ‘hobitos’, que combina melhor com ‘elfos’, palavra adotada há muito, além da boa sorte de conter o sufixo normal diminutivo do espanhol [-ito, no caso].”

A editora chegou a propor ‘jobitos’, uma vez que, como em português, o “h” do espanhol é mudo, enquanto o “j” do castelhano é aspirado. Tolkien disse que preferia “hobitos” e acrescentou que muitos hobbits provavelmente abandonavam o “h” aspirado no começo das palavras, tal como os camponeses da Inglaterra. Ou seja, alguns hobbits diziam ser “óbits”!

Em outra negociação, desta vez em 1968, com a editora francesa Editions Stock, a empresa propôs alterar “hobbit” para “hopin” porque “hobbit” parecia um palavrão francês (eles não dizem qual). Tolkien fez birra, jogou-se no chão e chamou os franceses de bobos, feios e chatos. Né?

Não. Tolkien embarcou na ideia.

“De qualquer modo, ‘hopin’ me parece uma solução apropriada e engenhosa: ‘hopin’ está para ‘lapin’ [“coelho” em francês] assim como ‘hobbit’ está para ‘rabbit’ [“coelho” em inglês].” Para quem não se lembra, essa comparação entre hobbits e coelhos aparece várias vezes no livro. Ele só pediu para os ilustradores não desenharem Bilbo com cara de coelho por causa disso.

Mas fiquem tranquilos – estamos sendo conservadores e não vamos mexer em “hobbit”. Mais conservadores que o próprio Tolkien, pelo visto…

3)Ah, mas nenhuma tradução europeia acabou seguindo essas ideias. Dois grandes especialistas em Tolkien também são contra elas. Vocês querem saber mais que eles?

Verdadeiro, porém irrelevante. Esse raciocínio parte de uma visão binária: se a nossa escolha de tradução é boa, a deles é ruim, e vice-versa.

Bom, em tradução isso é relativamente raro. A não ser que a gente estivesse errando o significado ou o tom de uma palavra (trocando um termo formal por gíria, por exemplo), não existe 100% errado ou certo nessa área. O que existe são ESCOLHAS que podem ser defensáveis ou não, por diferentes motivos.

Manter o termo original é defensável? Totalmente. Ligeiras adaptações ao estilo da língua de tradução são defensáveis? A resposta, como o próprio Tolkien deixou entrever, também é SIM.

Ah, e só pra arrematar, isso é, no fundo, argumento de autoridade. Ou seja, uma falácia lógica.

4)Vocês não estão traduzindo, estão só inventando palavra!

Bom, não sei se vocês sabem, mas palavras são inventadas o tempo todo. Tipo “futebol”, “upar”, e “shippar”. Isso normalmente acontece quando a língua de tradução não tem equivalentes considerados precisos para o termo designado na chamada língua de partida (o idioma original).

“Duendes”, em português, são entidades com associações fofinhas e naturebas que não dão conta dos “goblins” de Tolkien – daí a opção por “gobelim/gobelins”. Quanto a “Orc”, nunca tivemos uma palavra que sequer se aproximasse em sentido ou tom no nosso idioma.

A opção mais lógica é abraçá-las como neologismos – desde que a adaptação fonética necessária seja feita. Aliás, no caso de “Orc” a adaptação fica na fronteira entre o fonético e o gráfico. Ou você conhece algum brasileiro que pronunciasse “Orc” de um jeito que não soasse como “Orque” (aliás, “orqui”, né)?

5)O próximo passo vai ser “robitos” e “Tomás Bombadinho”! É um absurdo!

Temer essa possibilidade é simples falta de atenção com a maneira como temos trabalhado. As mudanças só afetaram essas palavras porque elas não foram criadas por Tolkien nem são nomes pessoais, mas estão em uso na língua inglesa faz tempo e, portanto, podem ser pensadas como substantivos comuns “adaptáveis”. E, de novo, Tolkien ressalta que o importante é o SOM de “Orc”, não a grafia.

Aliás, nota de rodapé: “hobbit” também tinha registro em certos compêndios antes da obra de Tolkien, mas parece que era o termo usado para falar de um ente sobrenatural que não tem nada a ver com Bilbo e companhia. Para todos os efeitos, faz mais sentido tratá-la como invenção de Tolkien e, portanto, mais “intocável”.

6)Mas gobelim é nome de tapeçaria!

Meia-verdade, mas irrelevante. Na verdade o termo preferido pelos dicionários, como o Houaiss, é “gobelino”.

Mas e daí? Será que, a esta altura do campeonato, preciso mesmo apresentar a alguém supostamente tão douto quanto o Eduardo o conceito de homófono e homógrafo?

“Pena” pode ser de galinha, de dó ou de tempo passado na prisão. Isso por acaso faz a palavra ser proibida em português? De mais a mais, quantas pessoas com nível superior que você conhece vão imediatamente gritar “tapete!” quando você diz “gobelim”?

7)Vocês estão fugindo do debate!

Parafraseando Bilbo, parece que tem gente que sabe mais do que acontece dentro da minha própria casa do que eu mesmo (ou da casa dos demais membros do Conselho de Tradução).

O convite para o debate veio em janeiro, o mês em que eu tenho duas crianças pequenas de férias em casa o dia todo, quando eu também preciso trabalhar como repórter, atualizar meu blog (que sou pago pra fazer), escrever meu próprio livro (que tá atrasado…), traduzir O Hobbit, cozinhar, arrumar a casa, cuidar das porquinhas-da-índia… e eu ainda não defini data pra debater com o rapaz porque estou com medo. Então tá.

Debato com a maior tranquilidade – quando eu tiver tempo, e quando houver honestidade intelectual e um mínimo de cortesia pra debater. Nem um minuto antes disso.

Essa história toda me lembra a obra do psicólogo Jonathan Haidt sobre como as decisões humanas são tomadas. Ele resume os achados dele da seguinte maneira: “As intuições vêm primeiro, o raciocínio estratégico vem depois”.

A estranheza inicial de “Orques” e “Gobelins”, a “feiura”, fez com que intuitivamente muita gente achasse que as traduções estavam erradas. Correram, então, atrás de todo tipo de argumento para tentar justificar racionalmente essa intuição.

Faltou, porém, olhar os argumentos por todos os lados possíveis. Tudo bem você achar as palavras feias ou, em termos tolkienianos, “pouco eufônicas”. Tudo bem você achar que outra solução seria melhor. Mas dizer que as nossas opções estão “erradas” e “contrariam Tolkien” não é opinião, meu amigo. É puro autoengano.

E agora, se vocês me dão licença, tenho de entregar a tradução de O Hobbit até o dia 10 de fevereiro.

Jair Bolsonaro e a Síndrome de Boromir na política

(AVISO: este texto representa apenas a minha opinião pessoal, e não a da Equipe Valinor)

Já faz alguns dias, vi a frase mais famosa do Faramir em “O Senhor dos Anéis” (a clássica sobre “não amar a espada luzente por sua agudeza, nem o guerreiro por sua glória”, mas “amar apenas o que eles defendem”) usada num meme do Bolsonaro. Achei curioso, porque, dos dois filhos de Denethor, é difícil associar o Capitão ao mais novo. Do meu ponto de vista, pensando em termos tolkienianos, o problema do candidato (um deles, ao menos) é sofrer de Síndrome de Boromir.

Reparem: Boromir não é um vilão. Pode até ser considerado um herói trágico, segundo a tradição clássica. (Não sei se Bolsonaro tem as virtudes de Boromir. Se, como diz o Senhor, a boca fala do que o coração está cheio, parece que não, mas não sou Deus pra julgar o que está no coração do cara.) O problema do Boromir está muito claro no que ele diz no texto de “O Senhor dos Anéis”, no entanto:

“A coragem precisa de força e, depois, de uma arma. Que o Anel seja vossa arma, se tem tal poder como dizeis. Tomai-o e avançai para a vitória!”

Ou, na conversa fatídica com o Frodo:

“É loucura não usá-lo, não usar o poder do Inimigo contra ele. Os indômitos, os impiedosos, apenas esses alcançarão a vitória. O que não poderia um guerreiro fazer nesta hora, um grande líder?”

E então ele começa um monólogo sobre “muralhas e armas, e a reunião de homens; e fez planos para grandes alianças e vitórias gloriosas que viriam; e derrotou Mordor, e se tornou ele próprio um grande rei, benevolente e sábio.”

A resposta do Elrond?

“Ai de nós, não. (…) O mero desejo do Anel corrompe o coração.”

Chamo a atenção de vocês para o ponto que me parece crucial: o desejo que move o Boromir é “mau”? NÃO! É perfeitamente legítimo (fora a parte em que ele, sem querer, usurpa o trono do Aragorn na cabeça dele, mas deixa pra lá…). A questão são os MEIOS. A ideia de que é possível “derrotar o mal” na base da força superior, sem levar em conta as consequências do uso dessa força, é que “corrompe o coração”.

E outra força corruptora poderosa é justamente a crença de que, estando disposto a ir até as últimas consequências para impor o “bem”, você não corre o risco de se transformar naquilo que está combatendo. É justamente o contrário: é quando você está nessa posição que você corre o maior risco imaginável.

É essa crença “boromiriana” inabalável na própria bondade e justiça que vejo no Bolsonaro e numa parcela significativa de seus apoiadores. (Uma crença que, paradoxalmente, também está presente em muitos na esquerda.) O que eu sugeriria a eles (não me perguntaram, mas como alguns são meus amigos e outros são colegas fãs de Tolkien, digo assim mesmo): duvidem mais dos seus próprios motivos antes de agir. Se vocês acham que “sabem” o que fariam quando chegassem às Sammath Naur, é porque não se olharam direito no espelho.

O paradoxo da política é esse mesmo. Com frequência, a fé excessiva na própria virtude é que produz os males. Sujeitos levemente venais, mas que têm crença menos ferrenha na capacidade de produzir o bem absoluto, às vezes causam menos estrago.

Um último ponto: acho difícil questionar o fato de que o centro de gravidade ético da obra de Tolkien é a compaixão. Poder sem compaixão é tirania. Independentemente de quem vença o atual certame, essa é a verdadeira medida da vitória.

Informações importantes sobre as novas traduções de Tolkien

Como muitos que acessam a Valinor já sabem, sou o tradutor de “A Queda de Gondolin”, que acabou de sair no Brasil, e também de “O Silmarillion” e “O Hobbit”. O uso de termos como “Orques” e “Gobelins” nessas novas traduções tem causado polêmica entre os fãs do Professor. Então, trago alguns esclarecimentos no texto abaixo, ponto por ponto. Vários deles também estão presentes neste vídeo recente do canal Tolkien Talk:

1)Lembrem-se de que as decisões sobre as traduções de Tolkien agora estão sendo tomadas não de modo individual, mas por um conselho, formado pelo gerente editorial Samuel Coto e por três tradutores: eu, Ronald Kyrmse e Gabriel Brum.

2)Todas as decisões importantes são discutidas formalmente, votadas (e às vezes desempatadas pelo Samuel, que tem a palavra final). Portanto, são decisões coletivas, não idiossincrasias individuais.

3)De modo geral, Tolkien deixou bastante claro o que se podia ou devia traduzir da nomenclatura de seus livros e o que ele queria que ficasse intacto. Boa parte disso está no texto “Nomenclatura de O Senhor dos Anéis” ou “Guia Para os Nomes de O Senhor dos Anéis”, publicado em diferentes coletâneas.

4)Os termos “Orc” e “goblin” fazem parte dessa categoria que admite tradução ou adaptação para a fonética da língua de tradução segundo o próprio Tolkien.

5)O próprio Tolkien usa a expressão francesa “des Orques” (alguns Orques) para se referir à essa espécie em suas cartas, outro sinal de que ele admitia esse tipo de adaptação fonética.

6)A orientação geral de Tolkien era: se a palavra faz parte da língua inglesa corrente, ela pode ou até deve ser traduzida ou adaptada para a língua de tradução. Foi o padrão que seguimos no caso de “Orque”, “Gobelim” e “Trol” (com um L só).

7)Imaginamos como seria se há séculos as palavras “orc” e goblin” fossem incorporadas ao português e sofressem a evolução fonética natural dentro da língua. “Orque” e “Gobelim” seriam resultados plausíveis desse processo. “Trol” perde o L duplo inexistente em português.

8)É importante lembrar também que tanto orc quanto goblin são palavras, em última instância, de origem latina, e portanto não é absurdo adaptá-las à fonética do português.

9)“Anãos” é estranho, mas ESTÁ CORRETO. Confiram bons dicionários. É um plural alternativo ao “anões”, mais comum. Ora, o plural padrão de dwarf em inglês é dwarfs, mas Tolkien preferia usar “dwarves”, o que explica nossa opção pela forma alternativa.

10)O termo hobbit NÃO MUDA, por ter sido introduzido no inglês pelo próprio Tolkien (embora haja outros usos mais antigos com sentido bem diferente).

11)Tudo o que é de origem élfica também não muda: Balrog continua sendo Balrog, Silmaril continua sendo Silmaril etc.

12)A maioria dos textos de “A Queda de Gondolin” são dos anos 1910 e 1920, uma fase “imatura” da escrita do Tolkien. São textos que soam bem estranhos e arcaicos e inglês e por isso mesmo precisam soar assim em português.

13)Por que fazer isso agora? Por que não manter os termos consagrados? A resposta é uma só: coerência. Ter uma nomenclatura para a obra toda, de cabo a rabo, que realmente leve em conta toda a lógica da nomenclatura tolkieniana conforme expressa pelo autor e conforme ela se casa com a estrutura e a história do português brasileiro. É isso que estamos buscando.

14) A visão de que o tradutor não deve aparecer na tradução é a visão tradicional. Só que ela não é a única. Aliás, há muitos teóricos que consideram a ideia de “invisibilidade do tradutor” ultrapassada. E eu concordo com eles. Um texto traduzido veio DE OUTRA LÍNGUA. De outra cultura, de outra tradição literária, que pode ser bem diferente da língua de tradução. O tradutor que deixa isso claro com honestidade na verdade melhora a experiência do leitor ao trazer pra ele, na medida do possível, essa estranheza do texto original. E outra: Tolkien — e outros autores importantes — são estranhos NA PRÓPRIA LÍNGUA DELES. Quando alguém “nem percebe que está lendo uma tradução”, na verdade está comprando gato por lebre, porque o tradutor está simplesmente reescrevendo o estilo original de um jeito que não assuste o leitor que não deseja ser desafiado.

É isso. Estamos à disposição pra outros esclarecimentos.

Tudo sobre “A Queda de Gondolin”, que sai hoje no Brasil!!!

Pela primeira vez um livro inédito de J.R.R. Tolkien sai ao mesmo tempo em inglês e no Brasil!!! Momento histórico para os fãs do Professor, que eu brindo neste vídeo contando algumas das principais novidades de “A Queda de Gondolin” e lendo trechinhos do livro, que eu mesmo traduzi para a HarperCollins Brasil.

Trechos do livro lidos aqui:

– Gondolin comparada à Babilônia e a Troia: “A glória habitava naquela cidade de Gondolin dos Sete Nomes, e sua ruína foi a mais horrenda de todos os saques de cidades na face da Terra. Nem Bablon, nem Ninwi, nem as torres de Trui, nem todas as muitas capturas de Rûm, que é a maior entre os Homens, viram tal terror como o que caiu aquele dia sobre o Amon Gwareth da gente dos Gnomos.”

– Ulmo vai ao encontro de Tuor: “Chegando então ao longo do rio ele se sentou entre os caniços no crepúsculo e tocou seu instrumento de conchas; e era perto desses lugares que Tuor se demorava. E Tuor escutou e emudeceu. Lá ficou, com a grama até os joelhos, e não ouviu mais o zumbido dos insetos, nem o murmúrio das beiras do rio, e o odor das flores não mais entrou em suas narinas; mas ele ouvia o som das ondas e o grito das aves do mar, e sua alma saltava pelos lugares rochosos e pelas escarpas que cheiram a peixe, pelo espirrar d’água do cormorão que mergulha e por aqueles lugares onde o mar escava os penhascos negros e urra em alta voz.”

Tolkien, Lewis e criação de mitos na Flip deste ano!

Participei no mês passado, junto com os manos Samuel Coto, editor da HarperCollins Brasil, e Cesar Machado, do Tolkien Talk, de uma mesa-redonda sobre Tolkien, C.S. Lewis e a arte de criação de mitos na Flip. Minha querida esposa Tania Mara Antonietti Lopes gravou um trecho de fala que compartilho aqui com vocês. Gravei também o áudio completo, que será publicado no meu canal em breve.

Curso sobre Tolkien na USP a partir de agosto com participação da Valinor

Sim, eu estarei lá, junto com Cris Casagrande, Ronald Kyrmse e grande elenco! Confiram o release abaixo, espero vocês por lá! Inscrições neste link: http://sce.fflch.usp.br/node/2605

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Com o intuito de alavancar os estudos acadêmicos sobre o criador de O Senhor dos Anéis no Brasil, o Serviço de Cultura e Extensão da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP) promove um curso de difusão dos estudos tolkienianos no mês de agosto e início de setembro. A proposta contará com um time altamente gabaritado de tolkienistas nacionais, desde os estritamente acadêmicos aos mais midiáticos.

O curso “A Subcriação de Mundos – estudos sobre a literatura de J.R.R. Tolkien” visa o aprofundamento dos estudos sobre Tolkien, mostrando suas referências em textos antigos e contemporâneos; sua composição narrativa, envolvendo épica, novelas de cavalaria e romance; seu entendimento sobre mito, fantasia e contos de fadas; além de trazer discussões sobre temas atuais como o diálogo de suas obras com as massas e o papel da mulher na literatura e na sociedade.

Na matéria “Tolkien e suas referências” (04/08), ministrada pelo Professor Dr. Diego Klautau (FEI-SP), veremos como as obras do legendário de Tolkien conversa com diversas obras, sejam acadêmicas, mitológicas, filosóficas, teológicas, entre outras. Em “Tolkien Hoje” (11/08), Cesar Machado e Sérgio Ramos, do canal do YouTube Tolkien Talk, falarão sobre o diálogo entre o universo tolkieniano e as massas – sejam leitores dedicados da obra do Professor de Oxford, sejam expectadores ou usuários de suas adaptações literárias. Na disciplina “A composição narrativa nas obras tolkienianas” (18/08), o Prof. Dr. Cido Rossi e o Prof. Me. Stéfano Stainle falarão sobre a composição narrativa das obras do legendário de Tolkien, sua conversa com a épica clássica e medieval e o romance, além das novelas de cavalaria e os contos de fadas.

Reinaldo José Lopes e Ronald Kyrmse, ambos tradutores das novas edições das obras de J.R.R. Tolkien pela HarperCollins Brasil, falarão sobre “A mythopoeia e a fantasia no legendário tolkieniano” (25/08), discutindo sobre o coração do curso: Tolkien como o fabricador de mitos. Para concluir, teremos “O feminino em Tolkien” (01º/09), em que Cristina Casagrande discutirá sobre a presença das personagens femininas no legendário e quais são suas implicações sobre a figura da mulher na sociedade.

O curso é coordenado pela Professora Doutora Maria Zilda da Cunha, líder do Grupo de Pesquisa de Produções Culturais e Literárias para Crianças e Jovens (CNPq) da Faculdade de Letras da USP (FFLCH-USP) e conta com a organização de Cristina Casagrande de Figueiredo Semmelmann, Diego Genu Klautau.