Todos os posts de Reinaldo José Lopes

Yiddish Policeman's Union, O Hobbit, O Senhor dos Anéis, Preacher, O Silmarillion, Cristianismo Puro

TATIANA FELTRIN CONTINUA ERRADA SOBRE O SILMARILLION

E lá vamos nós de novo. Saiu o vídeo da booktuber Tatiana Feltrin sobre “O Silmarillion” e, conforme o esperado, as críticas dela à tradução feita pelo Reinaldo José Lopes, membro da Equipe Valinor, são o puro suco da desinformação. Aqui está o vídeo do Reinaldo rebatendo as críticas dela. Na descrição do vídeo dele vocês podem encontrar as fontes e o link para o vídeo da Tatiana. É lamentável que uma booktuber como ela seja tão limitada do ponto de vista teórico e literário.

caca no silmarillion? resposta a tatiana feltrin

A booktuber Tatiana Feltrin criticou a nova tradução de “O Silmarillion” em comentários de um de seus vídeos recentes, dizendo que não há arcaísmo no texto e que parágrafos inteiros foram traduzidos ao pé da letra e não fazem sentido em português. O Reinaldo José Lopes, da Equipe Valinor e tradutor do livro, explica neste vídeo por que ela não disse coisa com coisa em suas críticas.

UM TRIBUTO A CHRISTOPHER TOLKIEN

A pedido dos amigos do Clube Literário Tolkieniano de Brasília, faço aqui meu devido tributo ao trabalho hercúleo de Christopher Tolkien, o filho caçula de J.R.R. Tolkien que foi o grande arqueólogo literário da Terra-média. Para mais detalhes sobre as origens da lenda de Númenor, confira os volumes V e IX da série The History of Middle-earth, chamados “The Lost Road” e “Sauron Defeated”, respectivamente. Confira o vídeo.

Diversidade no elenco de “o senhor dos anéis”? Sim, é possível — e desejável

A presença de pessoas com origem asiática, latino-americana e africana no elenco da nova série “O Senhor dos Anéis”, que está sendo produzida pela Amazon, gerou acusações de “lacração” por parte de alguns fãs. O vídeo abaixo tem o objetivo de mostrar que, pelo contrário, a presença desses atores ressalta alguns aspectos importantes e menos maniqueístas da obra, em especial nos textos mais maduros de Tolkien. Discuto isso com base em trechos dos livros “O Silmarillion”, “Contos Inacabados” e “O Senhor dos Anéis”. Discuto também aspectos do pensamento ambiental e antropológico da obra de J.R.R. Tolkien. Confira.

as origens da mitologia de tolkien no sesc!

Mais uma passada rápida por aqui pra fazer um novo convite: quem estiver em Jundiaí e adjacências amanhã, quarta-feira, dia 17/07, está convidadíssimo a vir bater um papo com este humilde escriba sobre as origens do mundo de J.R.R. Tolkien, o autor de “O Senhor dos Anéis”, “O Hobbit”, “O Silmarillion” e muitas outras obras. Minha ideia é contar como a mitologia, a linguística e a arqueologia do mundo real inspiraram a nova mitologia moderna engendrada pelo Professor Tolkien.

O bate-papo acontece às 19h30 no Sesc Jundiaí e a entrada é franca. O endereço é Av. Antônio Frederico Ozanam, 6600, Jardim Botânico. Ah, e teremos livros de Tolkien para quem quiser adquiri-los. Espero a todos por lá!

A INVENÇÃO DA TRADIÇÃO NA TERRA-MÉDIA

Por que a obra de Tolkien tem uma complexidade literária tão superior à de praticamente todas as outras obras de fantasia? Do meu ponto de vista, a resposta passa pela maneira como ele inventou a tradição cultural de seu próprio mundo, em especial fingindo ser o tradutor de manuscritos antigos que chegaram até ele em diferentes versões.

É o que explico no vídeo acima, que é uma gravação da palestra que dei a convite do pessoal da Toca-RJ e da Unirio. Pra quem quiser ver muitos mais detalhes do mesmo raciocínio, é possível baixar gratuitamente minha tese de doutorado clicando aqui.

5 livros para começar a curtir fantasia

O pessoal do jornal online Nexo me pediu para sugerir 5 livros essenciais (e, acrescento, não óbvios) para gostar de fantasia. Montei uma lista bem idiossincrática, obviamente incluindo Tolkien em um de seus livros menos conhecidos e mais belos. E é claro que faço referência ao professor na introdução do texto. Confira abaixo ou, se preferir, acesse o texto no site do Nexo clicando aqui:
https://www.nexojornal.com.br/estante/favoritos/2019/5-livros-instigantes-para-conhecer-o-g%C3%AAnero-fantasia

J.R.R. Tolkien (1892-1973), o autor de “O Senhor dos Anéis”, definia a fantasia como a arte da “subcriação” de um Mundo Secundário — um mundo ficcional cheio de encantamento pelo qual as mentes do público podem viajar e que, com sorte e engenho, chega a soar quase tão crível quanto o mundo real. Raros são os autores de fantasia que chegam perto da complexidade do Mundo Secundário tolkieniano, mas muitos de seus seguidores (e adversários) conseguem usar artifícios literários similares aos dele para deleitar seus leitores e lançar luzes insuspeitas sobre a condição humana (mesmo quando estão falando de elfos) e a natureza da realidade por meio desses outros universos possíveis. Abaixo, alguns dos livros mais instigantes do gênero segundo este escriba, vários dos quais ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros.

Trilogia Terramar Ursula K. Le Guin

No mundo-arquipélago da história (daí o nome Terramar), predominam os seres humanos de tez acobreada ou negra (os brancos são bárbaros), e a filosofia dos magos da saga é influenciada pelo taoísmo. Le Guin recria tradições orais com habilidade no pano de fundo das histórias. Da trilogia original, temos edições brasileiras recentes dos livros um e dois, “O Feiticeiro de Terramar” e “As Tumbas de Atuan” — ainda falta sair “The Farthest Shore” (A Costa Mais Distante).

The once and future king T.H.White

A história começa de modo a lembrar uma releitura infanto-juvenil da lenda do rei Arthur, mas se transforma aos poucos numa meditação comovente sobre a natureza da violência e do poder e o lugar do ser humano na natureza, com diálogos entre o jovem Arthur e diferentes espécies de animais. Talvez seja a única versão das histórias arturianas nas quais o cavaleiro Lancelot, mais famoso dos guerreiros da Távola Redonda, é feioso e luta contra suas próprias tendências à psicopatia. Atenção: a obra completa contém cinco livros, às vezes lançados em volumes separados.

Estação Perdido China Miéville

Sexo entre humanos e mulheres-besouros, intrigas trabalhistas e um clima de pesadelo pseudovitoriano fazem deste romance britânico uma experiência visceral e assustadora. A menção a “trabalhismo” se explica, em parte, pelos pendores políticos de Miéville, um dos poucos escritores de fantasia a se engajar diretamente na política pelo lado da esquerda — ele chegou a fundar um partido no Reino Unido e escreveu ainda um livro de não ficção sobre a Revolução Russa.

Summerland Michael Chabon

Um menino que odeia beisebol e seus amigos precisam aprender a dominar uma versão mágica do jogo para salvar o pai dele e todo o Cosmos do Apocalipse. Lírico e bem-humorado, o livro cativa até quem, como eu, não faz ideia das regras do beisebol. Chabon também escreve ficção realista, mas mesmo suas obras não fantásticas sempre trazem referências, ainda que oblíquas, oriundas do mundo dos quadrinhos de super-heróis e da cultura pop.

Ferreiro de Bosque Grande J.R.R.Tolkien

Pouco maior que um conto, a história se passa na Inglaterra medieval, e não na Terra-Média. Seu protagonista descobre a glória e a tristeza de vislumbrar a magia que está além dos olhos mortais ao ganhar, ainda criança, uma estrela de prata que lhe serve de passaporte para Feéria, o Reino das Fadas. É o último livro publicado por Tolkien ainda em vida, em 1967, que ele descrevia como “a obra de um homem idoso, cheia de presságios de luto”.

Reinaldo José Lopes é jornalista de ciência do jornal Folha de S.Paulo, autor de oito livros e tradutor de três obras de J.R.R.Tolkien: “A queda de Gondolin”, “O Silmarillion” e “O Hobbit”. Tem títulos de mestre e doutor pela Universidade de São Paulo por estudos sobre a obra de Tolkien.

Mais uma espécie de “hobbit” é descoberta no sudeste asiático

Agora virou festa: apareceu mais uma espécie extinta de hominídeo nanico, desta vez nas Filipinas. Conto a história na minha reportagem de hoje na Folha de S.Paulo. Confiram abaixo.

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Há 67 mil anos, a ilha de Luzon, onde hoje fica a capital das Filipinas, era habitada por um misterioso parente dos seres humanos que parece ter combinado traços similares aos do Homo sapiens com outros bem mais primitivos.

A criatura, batizada de Homo luzonensis, acaba de ser apresentada à comunidade científica internacional em artigo na revista especializada Nature. O trabalho é assinado por Florent Détroit, do Museu do Homem de Paris, e Armand Salvador Mijares, da Universidade das Filipinas.

Se a análise dos parcos restos mortais do H. luzonensis descobertos até agora estiver correta, a descoberta indica que as ilhas do Sudeste Asiático funcionaram como um grande laboratório da evolução dos hominídeos (ancestrais e parentes próximos do homem) até épocas muito recentes do ponto de vista geológico.

Com efeito, a espécie filipina não é o primeiro caso de hominídeo peculiar a dar as caras nessa região do planeta. Na década passada, os estudiosos da evolução humana foram pegos de surpresa com a descoberta do chamado “hobbit” da ilha de Flores, na Indonésia.

Tal como a raça de seres diminutos de O Senhor dos Anéis, o “hobbit” indonésio media apenas 1,10 m, segundo seus descobridores. Batizado de Homo floresiensis, ele teria vivido entre 200 mil e 50 mil anos atrás, fabricando instrumentos de pedra e caçando parentes anões dos elefantes.

Os achados em Flores não foram aceitos de modo unânime – alguns pesquisadores passaram a defender a ideia de que os indivíduos da ilha não passavam de seres humanos modernos com alguma deficiência grave, como microcefalia. Mas os novos fósseis filipinos parecem indicar que a situação na Indonésia se repetiu em outras ilhas do Pacífico tropical.   

Isso porque, tal como os “hobbits”, os sujeitos achados na caverna de Callao parecem ter sido pequeninos. Até agora, foram desenterrados apenas 13 pedaços da anatomia da espécie – principalmente dentes, além de ossos das mãos e dos pés e um pedaço do osso da coxa. Já é o suficiente, no entanto, para estimar que os restos correspondem a pelo menos três indivíduos.

Comparados com os nossos, os dentes supracitados são minúsculos, apesar de compartilharem algumas características com os do Homo sapiens e de uma espécie ancestral, o H. erectus, que viveu a partir de 1,8 milhão de anos atrás. O detalhe anatômico que mais chama a atenção, no entanto, é o formato de um osso dos dedos dos pés (veja infográfico).

Ocorre que esse osso é curvado, e não relativamente reto, como acontece com os seres humanos modernos. Na verdade, a estrutura é semelhante ao que se vê em esqueletos de australopitecos, os “homens-macacos” africanos mais primitivos que, pelo que sabemos, acabaram dando origem ao nosso gênero, o Homo.

Acredita-se que tais ossos fossem curvados porque os australopitecos ainda eram capazes de passar certo tempo nas árvores, tal como os grandes símios dos quais descendiam, ou então simplesmente porque tinham retido parte das características anatômicas ancestrais.

É bem mais estranho, no entanto, encontrar esse mesmo traço, bem como o peculiar mosaico de anatomia moderna e primitiva, nos ossos do H. luzonensis – e coisas parecidas também são vistas no esqueleto do “hobbit” da ilha de Flores, embora os detalhes de cada espécie sejam bem diferentes entre si.  

Como explicar, então, a convergência entre as duas versões “de bolso” dos hominídeos? Em tese, o tamanho diminuto é o mais fácil de entender. Animais de grande porte costumam ser “miniaturizados” em ilhas após milhares de anos, já que os recursos mais limitados desse tipo de ambiente levam a seleção natural a favorecer corpos menores e que exigem menos alimento. Existiram diversas espécies de elefantes pequeninos nas ilhas do Mediterrâneo, por exemplo. Assim, isolados, ambos os hominídeos teriam se tornado nanicos.

O mais difícil é saber qual forma ancestral deu origem aos dois. O candidato mais óbvio é o H. erectus, que já foi encontrado em boa parte da Ásia e, inclusive, na própria Indonésia. Pelo que se sabe, ele foi o primeiro hominídeo a deixar o berço africano do grupo. Mas os traços primitivos das formas anãs, que lembram australopitecos, poderiam sugerir que alguma espécie menor e mais antiga poderia ter feito a jornada rumo à Ásia de forma independente. Só mais estudos – e, de preferência, mais fósseis – permitirão desfazer o mistério.

Tolkien, as motosserras e o clima do Brasil

Não sei se vocês sabem, mas tenho um plano maligno de espalhar a palavra de Tolkien por todos os aspectos da cultura nacional. (Tá, na verdade eu só tento falar de Tolkien toda vez que tenho uma brecha mesmo). Resolvi citar o professor numa das minhas colunas recentes da página de Ciência da Folha de S.Paulo, sobre o efeito do desmatamento no clima do Brasil. Confiram o texto abaixo.

Sem árvores, o Brasil torra


“O som selvagem da motosserra nunca silencia onde quer que árvores ainda sejam encontradas crescendo”, escreveu J.R.R. Tolkien, o filólogo e autor de “O Senhor dos Anéis”, em carta datada de 30 de junho de 1972, no ano anterior à sua morte. Nisso, e ao classificar as máquinas que queimam combustíveis fósseis de “motores de combustão inferna” (um trocadilho com “interna”), o criador dos hobbits ainda é uma voz profética. Afinal, é bem possível que o tal som selvagem nos carregue um pouquinho mais para perto do Inferno nos próximos 30 anos.

Chame-me de alarmista se assim o desejar, gentil leitor, mas um estudo publicado na semana que passou por cientistas brasileiros aponta justamente nessa direção calorosa (no mau sentido). Ao analisar como o desmatamento tem afetado o clima local no Brasil e no mundo, eles calculam que uma derrubada sem freios pode aumentar a temperatura média do país em 1,45°C até 2050. Como já disse aquele sábio do jornalismo esportivo, 2050 é logo ali, amigo.

Repare que eu disse “clima local” ali em cima. A análise, que está na revista científica de acesso livre Plos One, levou em conta não a quantidade de gases causadores do aquecimento global emitidos pelo desmatamento —algo que vai para a atmosfera e acaba afetando a temperatura média do mundo todo, em certa medida. No lugar disso, o estudo considera as mudanças climáticas de pequena escala geradas quando uma área antes florestada perde sua cobertura de árvores.

A equipe do estudo, que inclui Gisele Winck, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e Jayme Prevedello, da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), explica didaticamente que o efeito climático local das florestas depende principalmente de duas variáveis.

A primeira é o albedo –grosso modo, uma medida de quanto o solo reflete ou absorve a luz. A folhagem escura das florestas corresponde a um albedo relativamente baixo, que absorve a radiação solar e, portanto, tende a esquentar.

Entretanto, é preciso a considerar a segunda variável, a evapotranspiração –grosso modo, a maneira como as florestas “suam”. E, nesse caso, a seta aponta para o outro lado: ao transpirar, as florestas refrescam mais a superfície da Terra do que a vegetação mais aberta, como pastagens.

Com esses princípios em mente e com dados sobre cobertura florestal e clima no mundo todo, Winck, Prevedello e seus colegas se puseram a fazer as contas. Acabaram concluindo que a presença de florestas tem efeitos variados dependendo da região do mundo onde se encontram.

Nas regiões tropicais e, em menor grau, nas zonas temperadas, florestas tendem a ter um efeito local de ar-condicionado, diminuindo a temperatura. Perto dos polos, a situação se inverte – basicamente porque, quando não há a folhagem escura da mata, temos chão coberto por neve, que tem um albedo elevado – o branco, afinal de contas, reflete toda a luz solar.

Bem, como você sabe, moramos num país tropical (a parte do “abençoado por Deus e bonito por natureza” tem ficado menos verossímil). Pelos cálculos da equipe, se o desmatamento não for controlado com seriedade, enfrentaremos o calorzinho nada agradável descrito acima daqui a 30 anos. Parece-me uma razão mais do que suficiente para botar uma focinheira nas motosserras selvagens.

por que traduzir os nomes na obra de tolkien?

Além de todas as tretas das traduções novas, existe um ponto mais básico que muita gente ainda questiona: por que, afinal, traduzir nomes próprios na obra de Tolkien? Em nome próprio a gente não mexe, certo? Errado! Neste vídeo, explico em detalhes a lógica por trás dessa decisão, as mudanças de posição de Tolkien sobre o tema e por que, embora necessária, essa abordagem quase nunca dá um resultado perfeito. Bônus: você pode rir da minha cara de mané enquanto eu quase quebro a câmera (e o iPad).