Todos os posts de Reinaldo José Lopes

Yiddish Policeman's Union, O Hobbit, O Senhor dos Anéis, Preacher, O Silmarillion, Cristianismo Puro

Jair Bolsonaro e a Síndrome de Boromir na política

(AVISO: este texto representa apenas a minha opinião pessoal, e não a da Equipe Valinor)

Já faz alguns dias, vi a frase mais famosa do Faramir em “O Senhor dos Anéis” (a clássica sobre “não amar a espada luzente por sua agudeza, nem o guerreiro por sua glória”, mas “amar apenas o que eles defendem”) usada num meme do Bolsonaro. Achei curioso, porque, dos dois filhos de Denethor, é difícil associar o Capitão ao mais novo. Do meu ponto de vista, pensando em termos tolkienianos, o problema do candidato (um deles, ao menos) é sofrer de Síndrome de Boromir.

Reparem: Boromir não é um vilão. Pode até ser considerado um herói trágico, segundo a tradição clássica. (Não sei se Bolsonaro tem as virtudes de Boromir. Se, como diz o Senhor, a boca fala do que o coração está cheio, parece que não, mas não sou Deus pra julgar o que está no coração do cara.) O problema do Boromir está muito claro no que ele diz no texto de “O Senhor dos Anéis”, no entanto:

“A coragem precisa de força e, depois, de uma arma. Que o Anel seja vossa arma, se tem tal poder como dizeis. Tomai-o e avançai para a vitória!”

Ou, na conversa fatídica com o Frodo:

“É loucura não usá-lo, não usar o poder do Inimigo contra ele. Os indômitos, os impiedosos, apenas esses alcançarão a vitória. O que não poderia um guerreiro fazer nesta hora, um grande líder?”

E então ele começa um monólogo sobre “muralhas e armas, e a reunião de homens; e fez planos para grandes alianças e vitórias gloriosas que viriam; e derrotou Mordor, e se tornou ele próprio um grande rei, benevolente e sábio.”

A resposta do Elrond?

“Ai de nós, não. (…) O mero desejo do Anel corrompe o coração.”

Chamo a atenção de vocês para o ponto que me parece crucial: o desejo que move o Boromir é “mau”? NÃO! É perfeitamente legítimo (fora a parte em que ele, sem querer, usurpa o trono do Aragorn na cabeça dele, mas deixa pra lá…). A questão são os MEIOS. A ideia de que é possível “derrotar o mal” na base da força superior, sem levar em conta as consequências do uso dessa força, é que “corrompe o coração”.

E outra força corruptora poderosa é justamente a crença de que, estando disposto a ir até as últimas consequências para impor o “bem”, você não corre o risco de se transformar naquilo que está combatendo. É justamente o contrário: é quando você está nessa posição que você corre o maior risco imaginável.

É essa crença “boromiriana” inabalável na própria bondade e justiça que vejo no Bolsonaro e numa parcela significativa de seus apoiadores. (Uma crença que, paradoxalmente, também está presente em muitos na esquerda.) O que eu sugeriria a eles (não me perguntaram, mas como alguns são meus amigos e outros são colegas fãs de Tolkien, digo assim mesmo): duvidem mais dos seus próprios motivos antes de agir. Se vocês acham que “sabem” o que fariam quando chegassem às Sammath Naur, é porque não se olharam direito no espelho.

O paradoxo da política é esse mesmo. Com frequência, a fé excessiva na própria virtude é que produz os males. Sujeitos levemente venais, mas que têm crença menos ferrenha na capacidade de produzir o bem absoluto, às vezes causam menos estrago.

Um último ponto: acho difícil questionar o fato de que o centro de gravidade ético da obra de Tolkien é a compaixão. Poder sem compaixão é tirania. Independentemente de quem vença o atual certame, essa é a verdadeira medida da vitória.

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Informações importantes sobre as novas traduções de Tolkien

Como muitos que acessam a Valinor já sabem, sou o tradutor de “A Queda de Gondolin”, que acabou de sair no Brasil, e também de “O Silmarillion” e “O Hobbit”. O uso de termos como “Orques” e “Gobelins” nessas novas traduções tem causado polêmica entre os fãs do Professor. Então, trago alguns esclarecimentos no texto abaixo, ponto por ponto. Vários deles também estão presentes neste vídeo recente do canal Tolkien Talk:

1)Lembrem-se de que as decisões sobre as traduções de Tolkien agora estão sendo tomadas não de modo individual, mas por um conselho, formado pelo gerente editorial Samuel Coto e por três tradutores: eu, Ronald Kyrmse e Gabriel Brum.

2)Todas as decisões importantes são discutidas formalmente, votadas (e às vezes desempatadas pelo Samuel, que tem a palavra final). Portanto, são decisões coletivas, não idiossincrasias individuais.

3)De modo geral, Tolkien deixou bastante claro o que se podia ou devia traduzir da nomenclatura de seus livros e o que ele queria que ficasse intacto. Boa parte disso está no texto “Nomenclatura de O Senhor dos Anéis” ou “Guia Para os Nomes de O Senhor dos Anéis”, publicado em diferentes coletâneas.

4)Os termos “Orc” e “goblin” fazem parte dessa categoria que admite tradução ou adaptação para a fonética da língua de tradução segundo o próprio Tolkien.

5)O próprio Tolkien usa a expressão francesa “des Orques” (alguns Orques) para se referir à essa espécie em suas cartas, outro sinal de que ele admitia esse tipo de adaptação fonética.

6)A orientação geral de Tolkien era: se a palavra faz parte da língua inglesa corrente, ela pode ou até deve ser traduzida ou adaptada para a língua de tradução. Foi o padrão que seguimos no caso de “Orque”, “Gobelim” e “Trol” (com um L só).

7)Imaginamos como seria se há séculos as palavras “orc” e goblin” fossem incorporadas ao português e sofressem a evolução fonética natural dentro da língua. “Orque” e “Gobelim” seriam resultados plausíveis desse processo. “Trol” perde o L duplo inexistente em português.

8)É importante lembrar também que tanto orc quanto goblin são palavras, em última instância, de origem latina, e portanto não é absurdo adaptá-las à fonética do português.

9)“Anãos” é estranho, mas ESTÁ CORRETO. Confiram bons dicionários. É um plural alternativo ao “anões”, mais comum. Ora, o plural padrão de dwarf em inglês é dwarfs, mas Tolkien preferia usar “dwarves”, o que explica nossa opção pela forma alternativa.

10)O termo hobbit NÃO MUDA, por ter sido introduzido no inglês pelo próprio Tolkien (embora haja outros usos mais antigos com sentido bem diferente).

11)Tudo o que é de origem élfica também não muda: Balrog continua sendo Balrog, Silmaril continua sendo Silmaril etc.

12)A maioria dos textos de “A Queda de Gondolin” são dos anos 1910 e 1920, uma fase “imatura” da escrita do Tolkien. São textos que soam bem estranhos e arcaicos e inglês e por isso mesmo precisam soar assim em português.

13)Por que fazer isso agora? Por que não manter os termos consagrados? A resposta é uma só: coerência. Ter uma nomenclatura para a obra toda, de cabo a rabo, que realmente leve em conta toda a lógica da nomenclatura tolkieniana conforme expressa pelo autor e conforme ela se casa com a estrutura e a história do português brasileiro. É isso que estamos buscando.

14) A visão de que o tradutor não deve aparecer na tradução é a visão tradicional. Só que ela não é a única. Aliás, há muitos teóricos que consideram a ideia de “invisibilidade do tradutor” ultrapassada. E eu concordo com eles. Um texto traduzido veio DE OUTRA LÍNGUA. De outra cultura, de outra tradição literária, que pode ser bem diferente da língua de tradução. O tradutor que deixa isso claro com honestidade na verdade melhora a experiência do leitor ao trazer pra ele, na medida do possível, essa estranheza do texto original. E outra: Tolkien — e outros autores importantes — são estranhos NA PRÓPRIA LÍNGUA DELES. Quando alguém “nem percebe que está lendo uma tradução”, na verdade está comprando gato por lebre, porque o tradutor está simplesmente reescrevendo o estilo original de um jeito que não assuste o leitor que não deseja ser desafiado.

É isso. Estamos à disposição pra outros esclarecimentos.

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Tudo sobre “A Queda de Gondolin”, que sai hoje no Brasil!!!

Pela primeira vez um livro inédito de J.R.R. Tolkien sai ao mesmo tempo em inglês e no Brasil!!! Momento histórico para os fãs do Professor, que eu brindo neste vídeo contando algumas das principais novidades de “A Queda de Gondolin” e lendo trechinhos do livro, que eu mesmo traduzi para a HarperCollins Brasil.

Trechos do livro lidos aqui:

– Gondolin comparada à Babilônia e a Troia: “A glória habitava naquela cidade de Gondolin dos Sete Nomes, e sua ruína foi a mais horrenda de todos os saques de cidades na face da Terra. Nem Bablon, nem Ninwi, nem as torres de Trui, nem todas as muitas capturas de Rûm, que é a maior entre os Homens, viram tal terror como o que caiu aquele dia sobre o Amon Gwareth da gente dos Gnomos.”

– Ulmo vai ao encontro de Tuor: “Chegando então ao longo do rio ele se sentou entre os caniços no crepúsculo e tocou seu instrumento de conchas; e era perto desses lugares que Tuor se demorava. E Tuor escutou e emudeceu. Lá ficou, com a grama até os joelhos, e não ouviu mais o zumbido dos insetos, nem o murmúrio das beiras do rio, e o odor das flores não mais entrou em suas narinas; mas ele ouvia o som das ondas e o grito das aves do mar, e sua alma saltava pelos lugares rochosos e pelas escarpas que cheiram a peixe, pelo espirrar d’água do cormorão que mergulha e por aqueles lugares onde o mar escava os penhascos negros e urra em alta voz.”

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Tolkien, Lewis e criação de mitos na Flip deste ano!

Participei no mês passado, junto com os manos Samuel Coto, editor da HarperCollins Brasil, e Cesar Machado, do Tolkien Talk, de uma mesa-redonda sobre Tolkien, C.S. Lewis e a arte de criação de mitos na Flip. Minha querida esposa Tania Mara Antonietti Lopes gravou um trecho de fala que compartilho aqui com vocês. Gravei também o áudio completo, que será publicado no meu canal em breve.

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Curso sobre Tolkien na USP a partir de agosto com participação da Valinor

Sim, eu estarei lá, junto com Cris Casagrande, Ronald Kyrmse e grande elenco! Confiram o release abaixo, espero vocês por lá! Inscrições neste link: http://sce.fflch.usp.br/node/2605

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Com o intuito de alavancar os estudos acadêmicos sobre o criador de O Senhor dos Anéis no Brasil, o Serviço de Cultura e Extensão da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP) promove um curso de difusão dos estudos tolkienianos no mês de agosto e início de setembro. A proposta contará com um time altamente gabaritado de tolkienistas nacionais, desde os estritamente acadêmicos aos mais midiáticos.

O curso “A Subcriação de Mundos – estudos sobre a literatura de J.R.R. Tolkien” visa o aprofundamento dos estudos sobre Tolkien, mostrando suas referências em textos antigos e contemporâneos; sua composição narrativa, envolvendo épica, novelas de cavalaria e romance; seu entendimento sobre mito, fantasia e contos de fadas; além de trazer discussões sobre temas atuais como o diálogo de suas obras com as massas e o papel da mulher na literatura e na sociedade.

Na matéria “Tolkien e suas referências” (04/08), ministrada pelo Professor Dr. Diego Klautau (FEI-SP), veremos como as obras do legendário de Tolkien conversa com diversas obras, sejam acadêmicas, mitológicas, filosóficas, teológicas, entre outras. Em “Tolkien Hoje” (11/08), Cesar Machado e Sérgio Ramos, do canal do YouTube Tolkien Talk, falarão sobre o diálogo entre o universo tolkieniano e as massas – sejam leitores dedicados da obra do Professor de Oxford, sejam expectadores ou usuários de suas adaptações literárias. Na disciplina “A composição narrativa nas obras tolkienianas” (18/08), o Prof. Dr. Cido Rossi e o Prof. Me. Stéfano Stainle falarão sobre a composição narrativa das obras do legendário de Tolkien, sua conversa com a épica clássica e medieval e o romance, além das novelas de cavalaria e os contos de fadas.

Reinaldo José Lopes e Ronald Kyrmse, ambos tradutores das novas edições das obras de J.R.R. Tolkien pela HarperCollins Brasil, falarão sobre “A mythopoeia e a fantasia no legendário tolkieniano” (25/08), discutindo sobre o coração do curso: Tolkien como o fabricador de mitos. Para concluir, teremos “O feminino em Tolkien” (01º/09), em que Cristina Casagrande discutirá sobre a presença das personagens femininas no legendário e quais são suas implicações sobre a figura da mulher na sociedade.

O curso é coordenado pela Professora Doutora Maria Zilda da Cunha, líder do Grupo de Pesquisa de Produções Culturais e Literárias para Crianças e Jovens (CNPq) da Faculdade de Letras da USP (FFLCH-USP) e conta com a organização de Cristina Casagrande de Figueiredo Semmelmann, Diego Genu Klautau.

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“A Queda de Gondolin”: tradução CONCLUÍDA!

É oficial, senhoras e senhores: está concluída a tradução de “A Queda de Gondolin” para o português do Brasil, realizada por este escriba que vos fala. Cansei, mas até que não doeu muito 😉

Por razões contratuais, ainda não posso encher vocês de spoilers sobre o conteúdo do livro, mas posso garantir uma coisa: a publicação do livro vai ser um marco para os fãs brasileiros de Tolkien. Não apenas porque, pela primeira vez, um livro do Professor sai simultaneamente aqui e nos países de língua inglesa (no final de agosto, no caso), mas também porque, pela primeira vez DE NOVO, fãs do Brasil terão acesso a textos sobre a Terra-média que jamais saíram por aqui, nem na maioria das nações não-anglófonas. O texto já está passando por preparação, revisão ortográfica e gramatical e revisão técnica (nesse caso feita pelo nosso competente valinoreano Gabriel “Tilion” Brum). Estamos tranquilamente dentro do prazo, portanto.

Assim que eu puder analisar diretamente o conteúdo do livro, vocês serão os primeiros a saber.

Obrigado ao chefinho Samuel Coto pela confiança e pela equipe da Harper Collins Brasil (André Lodos, Brunna Andrade) sempre pronta a ajudar, e à minha adorada esposa Tania “Aredhel” Antonietti Lopes, que está terminando a preparação do texto.

E agora com licença que eu tenho um encontro com um tal de Silmarillion e um livro sobre evolução humana pra escrever 😉

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“O Hobbit” TAMBÉM é nosssso, preciosssso!

Sim, meus gentis-hobbits, a equipe de Istari da editora Harper Collins Brasil continua trabalhando a todo o vapor e já definimos como serão as coisas para 2019. Anote aí: eu serei o tradutor de “O Hobbit”, enquanto o mestre Ronald Kyrmse merecidamente ficará com “O Senhor dos Anéis”. Ainda não temos datas oficiais, mas com certeza as novas traduções sairão no ano que vem.

E, só para fazer um roundup do que já teremos para este ano, a previsão é:

AGOSTO: A biografia oficial de Tolkien escrita por Humphrey Carpenter

AGOSTO: “A Queda de Gondolin”

NOVEMBRO: “Beren e Lúthien”

FINAL DO ANO: “A Balada de Aotrou e Itroun”

Mais notícias sobre “A Queda de Gondolin” em breve!

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A relação entre “O Silmarillion” e o Antigo Testamento — palestra na íntegra

Todo mundo sempre pergunta sobre os paralelos entre a Bíblia, em especial o Antigo Testamento, e os textos de “O Silmarillion”. Bom, resolvi sistematizar ao menos parte dos paralelos entre os dois na palestra que dei na Universidade Presbiteriana Mackenzie na semana passada, durante a jornada de estudos sobre Tolkien organizada por meus colegas lá. Filmei tudo, não consegui editar o arquivo, mas deu pra salvar o áudio, que eu transformei em vídeo de novo para o YouTube.

Para acompanhar tintim por tintim os textos citados em inglês e português, é só baixar o arquivo PowerPoint clicando aqui. Espero que se divirtam e consigam entender este palestrante toscão!

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Aragorn e o Ragnarok: inspiração nórdica em “O Retorno do Rei”

Você já se perguntou de onde veio o célebre discurso de Aragorn diante do Portão Negro de Mordor no filme “O Retorno do Rei”? Pois é, não veio do livro de Tolkien — e, em parte, nem da cabeça dos roteiristas. Na verdade a grande inspiração foi diretamente da mitologia nórdica, de um dos textos do chamado Edda Poético, num trecho que fala do Ragnarok, o Apocalipse escandinavo. Explico tudo isso no vídeo! E, para quem quer saber muito mais sobre mitologia nórdica e celta, bem como sua influência sobre Tolkien e Game of Thrones, vale conferir meu livro lançado pela Superinteressante, que tá baratinho, baratinho. 

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