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The History of Middle-earth

The History of Middle-earth
The History of Middle-earth é uma série de 12 livros publicados entre 1983 e 1996 que coleta e analisa material relacionado às obras de J. R. R. Tolkien, compilados e editados por seu filho, Christopher Tolkien. Parte do conteúdo consiste em versões antigas de textos já publicados, enquanto outra parta consiste de material inédito. Estes livros são extremamente detalhados, frequentemente analisando um pedaço de papel de forma a propiciar a evolução completa de duas ou mesmo três diferentes versões de uma passagem que foram escritas umas sobre as outras.
Christopher Tolkien documentou a história da escrita das histórias da Terra-média tão detalhadamente quanto seu pai documentou a história ficcional da própria Terra-média. Contudo, sabe-se que existem numerosos textos ainda não publicados nas bibliotecas Bodleian e da Marquette Universitye outros papéis possuídos por indivíduos, como a Elvish Linguistic Fellowship.Os primeiros cinco livros acompanham a história inicial de O Silmarillion e textos relacionados. Livros seis a nove discutem o desenvolvimento de O Senhor dos Anéis; o livro nove também discute a história de Númenor na forma do texto chamado The Notion Club Papers. Os livros dez e onze retornam ao material de O Silmarillion, incluindo os Anais de Beleriand e Anais de Aman. Livro doze discute o desenvolvimento dos Apêndices de O Senhor dos Anéis e mais outros textos diversos, datados dos últimos anos da vida de Tolkien.
Os mais importantes e relevantes textos da série foram traduzidos para o Português e publicados na Valinor, na seção Textos de J. R. R. Tolkien, para satisfazer o fã e o estudioso brasileiro.
Livros:

Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português

Os Anais de Aman – Quarta Seção

The History of Middle-earth X - Morgoth's RingA Valinor tem a honra de publicar a quarta parte de um total de seis que compõem os Anais de Aman,
um longo registro dos acontecimentos desde a criação de Arda até a Criação do Sol e da Lua escrito  pelo próprio J. R. R. Tolkien e publicado no The History of Middle-earth 10. Esta quarta parte (leia também a primeira, a segunda e a terceira) engloba o período desde a Libertação de Melkor até a Destruição das Árvores.
Quarta Seção dos Anais de Aman
[Esta seção dos Anais possui uma grande quantidade de mudanças feitas durante a escrita, e também várias alterações e adições – algumas substanciais – que certamente parecem pertencer basicamente à mesma época. Estas foram incorporadas ao texto fornecido aqui, com detalhes das alterações mais importantes registrados nas notas que se seguem. Algumas poucas adições curtas que são decididamente posteriores estão colocadas nas notas.]
1179

§78 Fëanor, filho mais velho de Finwë, nasceu em Tirion sobre Túna. Sua mãe foi Byrde Míriel (1).


§79 Então os Noldor (2) passaram a apreciar todos os conhecimentos e todos os trabalhos práticos e Aulë e seu povo vinham com freqüência entre eles. Mas tal era a habilidade que Ilúvatar dera a eles que, em muitos aspectos, especialmente naqueles que demandavam destreza e grande qualidade no trabalho manual, eles logo ultrapassaram seus professores. É dito que a este tempo os construtores da Casa de Finwë, escavando as montanhas em busca de pedras para suas construções (pois eles apreciavam a construção de altas torres), descobriram pela primeira vez as gemas da terra, nas quais a Terra de Aman eram, de fato, incrivelmente ricas. E seus artífices desenvolveram ferramentas para cortar e modelar as gemas, as esculpiram em muitas formas de radiante beleza e não as guardavam em tesouros mas as davam livremente para todos que as desejassem, e toda Valinor foi enriquecida por seus trabalhos (3).

§80 Neste ano Rúmil, o mais renomado dos mestres do conhecimento da fala, criou pela primeira vez letras e começou a registrar em escrita os idiomas dos Eldar e suas canções e sabedoria (4).


1190

§81 Neste ano nasceu Fingolfin filho de Finwë, que mais tarde foi Rei dos Exilados.


1230

§82 Finrod filho de Finwë nasceu.


1250

§83 A este tempo começou a se desenvolver a habilidade de Fëanor filho de Finwë, que era dentre todos os Noldor o maior criador e artífice. E ele pensou e desenvolveu novas letras, melhorando os sistemas de Rúmil, e estas letras os Eldar têm usado desde aquele dia. Isto foi senão o início dos trabalhos de Fëanor. Ele amava grandemente as gemas, e ele começou a estudar como, pela habilidade de sua mão e mente, ele poderia fazer outras maiores e mais brilhantes do que aquelas escondidas na terra (5).

§84 [A este tempo também, é dito entre os Sindar, os Naugrim (6) a quem também chamamos os Nornwaith (os Anões) vieram por sobre as montanhas para Beleriand e foram conhecidos pelos Elfos. E os Anões eram grandes ferreiros e construtores, sendo, de fato (assim se acredita) trazidos à existência por Aulë; mas antigamente pouco beleza havia em suas obras. Portanto cada povo teve grande benefício no outro, embora sua amizade sempre tenha sido fria. Mas àquele tempo não havia desavenças entre eles e o Rei Thingol deu-lhes as boas-vindas, e os Barbalongas de Belegost ajudaram-no na escavação e construção dos grandes salões de Menegroth, onde ele passou a morar com Melian, sua Rainha. Assim disse Pengolod] (6)

1280

§85 Neste ano Finrod filho de Finwë casou-se com Ëarwen filha do Rei Olwë de Alqualondë, e houve uma grande desta na terra dos Teleri. Portanto os filhos de Finrod, Inglor e Galadriel, eram parentes do Rei Thingol Capacinzenta em Beleriand.

1350

§86 [A este tempo, parte dos Elfos perdidos do povo de Dân após longas andanças chegaram a Beleriand a partir do Sul.  Seu líder era Denethor filho de Dâ, e ele os conduziu a Ossiriand onde sete rios corriam das Montanhas de Lindon. Estes são os Elfos Verdes. Eles tinham a amizade de Thingol. Quoth Pengolod.](8)

1400

§87 Veio a acontecer que Melkor residiu sozinho sob Mandos forçadamente pelas três eras definidas pelos Valar, e veio ante seu conclave ser julgado. E Melkor implorou por perdão aos pés de Manwë, humilhou-se, jurou seguir suas regras e a ajudar os Valar de todas as formas que pudesse pelo bem de Arda e o benefício dos Valar e dos Eldar, se a ele fosse concedida liberdade e um lugar como o último dentre todos os povos de Valinor.

§88 E Niënna auxiliou no seu pedido (devido ao seu parentesco) e Manwë o concedeu, pois sendo livre de todo o mal ele não viu as profundezas do coração de Melkor, e acreditou em seus juramentos. Porém Mandos ficou em silêncio e o coração de Ulmo ficou em dúvida.

1410

§89 Então Melkor residiu sob vigilância por algum tempo em uma casa humilde em Valmar, e não tinha permissão de andar sozinho livremente. Mas, uma vez que àquele tempo todas as suas palavras e trabalhos eram belos e ele se tornara em todas as formas e aparências como os Valar seus irmãos, Manwë deu a ele liberdade dentro de Valinor. Mas a alegria de Tulkas ficava enevoada sempre que ele via Melkor passar, e as unhas de seus dedos marcavam a palma de suas mãos, devido aos esfoço que fazia para se conter.

§90 E realmente Melkor fora falso e traiu a clemência de Manwë, e usou sua liberdade para espalhar amplamente mentiras e envenenar a paz de Valinor. Então uma sombra caiu sobre a Terra Abençoada e seu Meio Dia dourado passou; mas ainda levaria tempo para que as mentiras de Melkor frutificassem, e os Valar continuaram vivendo em felicidade.

§91 Em seu coração Melkor odiava mais os Eldar, tanto por sua beleza e alegria e porque neles ele via a razão do destaque dos Valar e sua própria queda e humilhação. Portanto mais do que tudo ele fingia amor por eles, procurava suas amizades, e oferecia a eles o serviço de seu conhecimento e trabalho em qualquer grande feito que eles fizessem. E muitos dos Noldor, devido ao seu desejo por todo conhecimento, lhes deram ouvidos e se deliciaram com seus ensinamentos. Mas os Vanyar não se envolveram com ele.

1449

§92 Neste Ano Fëanor começou aquele trabalho que é renomado acima de todos os trabalhos da Eldalië; pois seu coração concebeu as Silmarils, e ele fez muitos estudos e muitos ensaios antes que sua fabricação pudesse começar. E embora Malkor tenha dito mais tarde que Fëanor teve sua instrução naquele trabalho, ele mentiu em seu desejo e sua inveja; pois Fëanor foi conduzido apenas pelo fogo de seu próprio coração, e era ávido e orgulhoso, trabalhando sempre rapidamente e sozinho, não pedindo ajuda e não buscando conselho.

1450



As Silmarilli de Fëanor são feitas

§93 Neste ano as Silmarils ficam completamente prontas, a maravilha de Arda. Como três grandes jóias elas eram em forma. Mas não até o Fim, quando Fëanor deverá retornar, ele que pereceu quando o Sol era jovem e senta-se agora nos Salões da Espera e não virá mais entre sua raça, não antes do Sol passar e a Lua cair, será conhecida a substância com a qual foram feitas. Como o cristal dp diamante ela se parecia mas era mais forte que o adamante, de forma que nenhuma violência dentro dos muros deste mundo pode marcá-la ou quebrá-la. Aquele cristal era para as Silmarils como é o corpo para os Filhos de Ilúvatar: a casa de seu fogo interior, que está dentro dela e também em todas as partes dela, e sua vida. E o fogo interno das Silmarills Fëanor fez com a Luz misturada das Árvores de Valinor que ainda vive nelas, embora as Árvores há muito tenham secado e não brilhem mais. Portanto mesmo na mais completa escuridão as Silmarils brilham por sua própria luz como as estrelas de Varda, e mais, como são de fato coisas vivas, elas se deliciam na luz, a recebem e a dão de volta em tons ainda mais belos que antes.

§94 E todo o povo de Valinor ficou impressionado com o trabalho manual de Fëanor, e ficaram maravilhados e deliciados, e Varda abençoou as Silmarils, de forma que dali em diante nenhum mortal nem coisa maligna ou suja poderia tocá-las, ou seriam marcados e queimados com intolerável dor. E Melkor desejou as Silmarils e a simples memória de sua luz era como um fogo queimando em seu coração.


1450 – 1490

§95 Devido a isso, embora continuasse a dissimular seus propósitos com grande sutileza, Melkor procurava agora ainda mais ansiosamente como poderia destruir Fëanor e encerrar a amizade de Valar e Eldar. Longamente esteve ele trabalhando, e lento e infrutífero era seu esforço inicialmente. Mas aquele que semeia mentiras no final não deixará de ter uma colheita, e de fato logo ele pode descansar do esforço, enquanto outros colhiam e semeavam em seu lugar. Mesmo Melkor encontrou alguns ouvidos que o ouviriam, e algumas línguas que aumentariam o que ouviram. Pois as mentiras de Melkor criavam raízes pela verdade que havia nelas.

§96 Então aconteceu que surgiram murmúrios em Eldamar de que os Valar haviam trazido os Eldar a Valinor por inveja de suas belezas e habilidades, e temendo que eles pudessem crescer fortes demais para serem governados nas terras livres do Leste. E então Melkor predisse a chegada dos Homens, dos quais os Valar ainda não haviam falado aos Elfos, e novamente foi murmurado que os deuses tinham a intenção de reservar os reinos da Terra-média para a raça mais jovem e mais fraca, os quais eles poderiam dominar mais facilmente, destituindo os Elfos da herança de Ilúvatar.

§97 Então finalmente os príncipes dos Noldor começaram a murmurar contra os Valar, e muitos ficaram cheios de orgulho, esquecendo tudo que os Valar os havia ensinado e dado. E naquele tempo (tendo criado ira e orgulho) Melkor falou aos Eldar sobre armas, que antes eles não tinham possuído ou conhecido; pois os arsenais dos Valar foram fechados após o acorrentamento de Melkor. Mas agora os Noldor começaram a fundição de espadas e machados e lanças; e escudos eles fizeram contendo os símbolos de muitas casas e grupos que competiam uns contra os outros.

§98 Um grande ferreiro era Fëanor naqueles dias, e um príncipe orgulhoso e dominante, vigilante de tudo que ele tinha; e Melkor o vigiava. Pois ainda desejava as Silmarils; mas agora raramente Fëanor as trazia à luz, e as mantinha trancadas na escuridão do tesouro de Túna; e ele começou a limitar a visão delas a todos exceto a seu senhor e seus sete filhos. Por isso Melkor lançou novas mentiras de que Fingolfin estava planejando suplantar Fëanor e seu pai aos olhos dos Valar, e conseguiria, pois os Valar estavam aborrecidos pelo fato das Silmarills não terem sido deixadas a seus cuidados. Por essas mentiras disputas surgiram entre os orgulhosos filhos de Finwë e Melkor estava satisfeito; pois tudo ia conforme seu planejamento. E repentinamente os Valar ficaram cientes que a paz de Valinor fora quebrada e as espadas desembainhadas em Eldamar.

1490

§99 Então os Deuses se enfureceram, e eles chamaram Fëanor perante eles. E eles expuseram todas as mentiras de Melkor; mas por ter sido Fëanor o primeiro a quebrar a paz e ameaar violência em Aman ele foi, pelo julgamento deles, banido por vinte (10) anos de Tirion. E ele partiu  e residiu ao norte de Valinor perto dos salões de Mandos, e construiu um novo tesouro e forte em Formenos, e grande riqueza em jóias ele colocou no tesouro, e as Silmarils foram trancadas em uma sala de ferro. E para este lugar veio Finwë, pelo amor que dedicava a Fëanor, e Fingolfin governou os Noldor de Túna. Desta forma as mentiras de Melkor foram aparentemente feitas verdade, e o amargor que ele criou permaneceu por muito tempo entre os filhos de Fingolfin e Fëanor.

§100 Diretamente do Círculo do Destino Tulkas foi rapidamente colocar as mãos em Melkor, mas Melkor sabendo que seus esquemas foram revelados (11) ocultou-se, e uma nuvem estava ao redor dele, e pareceu ao povo de Valinor que a luz das Árvores tornou-se mais fraca do que costumava ser, e as sombras eram mais negras e longas.

1492

§101 E é dito que Melkor não foi visto novamente por algum tempo; mas repentinamente ele apareceu ante as portas da casa de Finwë e Fëanor em Formenos e buscou falar com eles. E disse a eles: Contemplem a verdade de tudo que eu falei, e como você está, de fato, banido injustamente. E não pense que as Silmarils estejam seguram em qualquer tesouro dentro do reino dos deuses. E se o coração de Fëanor ainda é livre e corajoso como suas palavras o foram em Túna, então eu irei ajudá-lo e levá-lo para longe desta terra estreita. Pois não sou eu um Vala tal como eles? Sim, e mais do que eles, e sempre fui um amigo dos Noldor, o mais habilidoso e valoroso de todos os povos de Arda.

§102 Então o amargor aumentou no coração de Fëanor e se encheu com medo pelas Silmarils, e naquele estado de espírito permaneceu. Mas as palavras de Melkor tocaram fundo demais, e despertaram um fogo mais terrível do que ele pretendia; e Fëanor olhou para ele com olhos brilhantes, e veja! viu através da aparência de Melkor e vislumbrou as secritudes de sua mente, percebendo ali o desejo pelas Silmarils. Então o ódio suplantou todo o medo e ele amaldiçoou Melkor e ordenou sua partida. ‘Partais de meu portão, andarilho (12), corvo da prisão de Mandos’, disse ele, e fechou as portas de sua casa no rosto do mais poderoso de todos os habitantes de Ëa.

§103 E àquele tempo, estando ele próprio em perigo, Melkor partiu, consumido pela raiva, e vingança amarga ele planejou por sua humilhação. E Finwë se encheu com grande medo e rapidamente enviou mensageiros a Manwë em Valmar.

§104 Então Oromë e Tulkas partiram em perseguição a Melkor, mas antes que tivessem cavalgado longe mensageiros chegaram de Eldamar, relatando que Melkor fugira através do Kalakiryan (13), passando pela colina de Túna em fúria, como uma nuvem de tempestade. Com a fuga de Melkor a sombra foi retirada de Valinor e por algum tempo toda a terra foi bela novamente. Mas os deuses procuraram em vão por sinais de seu inimigo, e dúvida desceu sobre seus corações sobre qual seria o novo mal que ele poderia tentar.

§105 É dito que Melkor chegou à região escura de Arvalin. Aquela terra estreita ficava ao sul da Baía de Eldamar, mas a leste das montanhas das Pelóri, e seu longo e melancólico litoral se estendia até o Sul do mundo, sem luz e inexplorado. Ali, entre os lisos muros das montanhas e o Mar frio e escuro, as sombras eram as mais profundas do mundo. E ali secretamente Ungoliantë fizera sua morada. De onde viera nenhum dos Eldar sabe, mas talvez ela tenha vindo para o Sul das escuridões de Ëa, no tempo em que Melkor destruiu as luzes de Illuin e Ormal, e devido às suas moradas no Norte a atenção dos Valar foi voltada principalmente para lá e o Sul ter ficado por muito tempo esquecido. Dali ela ela rastejava lentamente em direção ao reino de luz dos Valar. Pois ela ansiava pela luz e a odiava. Em uma fenda profunda das montanhas ela residia, e tomou forma como se fosse uma aranha monstruosa, sugando toda a luz que podia encontrar ou que passava por sobre os muros de Valinor, e a lançava de volta na forma de teias negras de opressiva escuridão, até que nenhuma luz pudesse mais chegar à sua morada e ela estivesse faminta.

§106 Pode muito bem ser que Melkor, se nenhum outro, soubesse dela, sua existência e sua morada, e que ela fosse no início um daqueles que ele corrompeu a seu serviço. E chegando finalmente a Arvalin, procurou por ela e exigiu ajuda em sua vingança. Mas ela estava relutante em enfrentar os perigos de Valinor e a grande fúria  dos deuses, e não partiria de seu esconderijo antes de Melkor ter jurado dar a ela uma recompensa que curaria a persistente dor de sua fome e raiva.

1495

§107 E finalmente tendo organizado bem seus planos Melkor e Ungoliantë partiram. Uma grande escuridão que Ungoliantë tecera estava ao redor deles, e cordas negras ela também lançara e fixara entre as rochas e depois de longo esforço, de teia a teia, ela escalou finalmente até o pico de Hyarantar, que é o mais alto pináculo das montanhas ao sul de Taniquetil. Lá, de fato (exceto por aquela torre de vigia do Sul), as Pelóri era menos imponentes e menor era a vigilância dos Valar, pois eles tinha sempre estado em guarda principalmente contra o Norte.

§108 Então Ungoliantë teceu uma escada de cordas e a lançou para baixo, Melkor a escalou e então chegou àquele local elevado, de onde podia observar o Reino Vigiado abaixo. E abaixo ficavam as verdejantes florestas selvagens de Oromë, e longe no oeste os brilhantes campos e pastos de Yavanna, de um dourado pálido abaixo dos altas plantações de grãos dos deuses. E Melkor olhou para o norte, e viu ao longe a planície radiante, os domos prateados de Valmar reluzindo na junção das luzes de Telperion e Laurelin. Então Melkor gargalhou alto e desceu rapidamente ao longo da encosta oeste; Ungoliantë estava a seu lado e sua escuridão os cobria.

§109 Ora, era um tempo de festival, como Melkor bem sabia. Pois, embora todas as marés e estações estivessem sob a vontade dos Valar e não existisse em Valinor inverno de morte, os deuses residiam então no reino de Arda que não era mais do que um pequeno reino nos salões de Ëa, cuja vida é Tempo, que flui sempre desde a primeira nota ao último acorde de Eru. E era então o prazer dos Valar (como dito no Ainulindalë) vestirem-se nas formas dos Filhos de Ilúvatar, e comiam e eles bebiam e colhiam os frutos de Yavanna, e retiravam força da Terra a qual sob Eru eles fizeram.

§110 Portanto Yavanna fixou tempos para o florescer e a maturação de todas as coisas que crescem: crescimento, florescimento e tempo da semente. E de cada primeiro colher de frutos Manwë fazia um clímax de exaltação a Eru, e todo o povo de Valinor externava sua felicidade em música e canção. E tal era esta hora; e Manwë, esperando de que fato a sombra de Melkor tivesse sido removida da terra, e temendo nada pior do que, talvez, uma nova guerra com Utumno e uma nova vitória para encerrar tudo, decretou que esta comemoração deveria ser mais gloriosa do que qualquer outra feita desde a chegada dos Eldar. Ele também desejou curar o mal que surgiu entre os Noldor, e todos eles foram chamados, por isso, para ir até ele e compartilhar com os Maiar em seus salões sobre o Taniquetil e lá deixar de lado todos os pesares que permaneciam entre seus príncipes e esquecer de uma vez por todas as mentiras de seu Inimigo.

§111 Lá foram os Vanyar, e lá foram os Noldor, e os Maiar estavam reunidos, e os Valar estavam adornados em sua beleza e majestade, e cantaram ante Manwë em seus altos salões, ou se divertiram sobre as encostas gramadas a oeste do Taniquetil , em direção às Árvores. Naquele dia as ruas de Valmar estavam vazias e as escadas de Túna silenciosas, apenas os Teleri além das montanhas continuavam cantando no litoral do Mar, pois eles se importavam pouco com estações ou tempos, e não pensavam nas preocupações dos Regentes de Arda ou na sombra que caíra sobre Valinor, pois ela não os tocara, ainda.

§112 Apenas uma coisa maculou os desígnios de Manwë. Fëanor de fato veio, pois apenas a ele Manwë comandou que viesse; mas Finwë não veio nem nenhum outro dos Noldor de Formenos. Pois disse Finwë, ‘Enquanto o banimento permanecer sobre Fëanor meu filho, que ele não possa ir a Túna, eu me mantenho afastado da coroa, e não encontrarei meu povo, nem aqueles que governam em meu lugar’. E Fëanor não foi em vestimentas de festival, e não usava nenhum ornamento, nem prata nem ouro nem nenhuma gema; e vetou a visão das Silmarils aos Eldar e Valar, e as deixou trancadas nas escuridão de sua sala de ferro. Contudo, ele encontrou Fingolfin ante o trono de Manwë e se reconciliou em palavras, e Fingolfin colocou um fim ao desembainhar da espada.

§113 É dito que enquanto Fëanor e Fingolfin estavam perante Manwë, ocorreu a União das Luzes e ambas as Árvores estavam brilhando e a silenciosa cidade de Valmar foi preenchida com radiância como de prata e ouro, e naquela hora Melkor e Ungoliantë vieram à planície e pararam à frente do Monte Verdejante. Então Melkor veio e com sua lança negra feriu cada Árvore até seu centro, um pouco acima das raízes, e suas seivas escorreram, como se fosse seu sangue, e se esparramaram sobre o chão. E Ungoliantë a sugou, e indo então de Árvore a Árvore ela colocou seus lábios imundos em suas feridas, até que estivessem exauridas; e o veneno que existia nela passou para seus corpos e as murchou; e elas morreram. E Ungoliantë continuava sedenta, e foi aos Vasos de Varda e tomou deles até secarem; e Ungoliantë expelia vapores negros enquanto bebia, e cresceu para uma forma tão vasta e horrível que mesmo Melkor ficou aterrorizado.

§114 Então a Escuridão caiu sobre Valinor. De todos os feitos daquele dia muito é dito no Aldudénië (o Lamento pelas Árvores) que Elemírë dos Vanyar compôs e é conhecido de todos os Eldar. Mas nenhuma canção ou conto poderia conter todo o pesar e terror que então caiu. A Luz falhou, e isto era já era calamidade suficiente, mas a Escuridão que se seguiu era mais do que a perda de luz. Naquela hora foi criada a Escuridão que parecia não ausência mas uma coisa com existência própria: pois era de fato feita por malícia a partir da Luz, e tinha o poder de atingir os olhos, adentrar coração e mente, e estrangular a própria vontade.

§115 Varda olhou para baixo da Montanha Sagrada e contemplou a Sombra subindo em repentinas torres de escuridão; Valmar foi encoberta em um profundo mar de noite. Logo Taniquetil ficou sozinho, como uma última ilha de luz em um mundo que afundara. Toda música cessou. Houve silêncio em Valinor e nenhum som podia ser ouvido, exceto apenas aquele de longe que vinha com o vento através da fenda nas montanhas, o lamento dos Teleri como o grito frio das gaivotas. Pois ventou gelado do Leste naquela hora, e as vastas sombras do Mar se voltaram contra os muros do litoral.

§116 E Manwë de seu alto trono olhou, e apenas seus olhos atravessavam a escuridão, e viu ao longe como uma Escuridão além do escuro se movia para o norte pela terra, e ele soube que Melkor estava lá. Então a perseguição começou, e terra tremeu sob os cavalos da hoste de Oromë, e o fogo que saiu dos cascos de Nahar foi a primeira luz que retornou a Valinor. Mas tão logo quanto chegavam à Nuvem de Ungoliantë os cavaleiros dos Valar eram cegados e desencorajados, e se separaram e não sabiam mais para onde ir; e o som da Valaróma hesitou e falhou.  E Tulkas era como um homem pego em uma teia negra na noite, e ele ficou impotente e golpeava o ar em vão. E quando a Escuridão passou, era tarde demais: Melkor tinha ido para onde queria, e sua vingança estava totalmente realizada.


NOTAS


1.
Este registro é uma substituição antiga, o registro original, referente ao casamento de Finrod e Ëarwen filha de Olwë, reaparece em forma bastante no manuscrito como originalmente escrito sob o ano de 1280. Mais tarde, com caneta esferográfica, meu pai alterou a data deste registro para 1169 e adicionou novos registros para 1170, ‘Míriel adormeceu e passou para Mandar’, e 1172 ‘Julgamento de Manwë com relação aos casamentos dos Eldar’. Sobre estes assuntos ver nota 4 abaixo. os novos registros aparecem na versão datilografada original.


2.
O nome Noldor é aqui escrito com um til, Noldor (representando a nasal posterior, o ng de king, ver HoME IV). Esta se tornou a forma normal em todos os escritos tardios de meu pai, embora frequentemente omitido de maneira casual (nenhum de seus datilógrafos possuía este sinal); ele não é representado na escrita do nome Noldor neste livro.


3.
A parte final deste trecho, referente às gemas, é em grande parte uma adição. Como inicialmente escrito, tudo que foi dito sobre o assunto era:

É dito que a por volta desta época os artífices da Casa de Finwë (de quem Fëanor seu filho mais velho era o mais habilidoso) primeiramente divisaram gemas, e toda Valinor foi enriquecida por seus trabalhos.

Ver nota 5.


4.
Um novo registro foi adicionado aqui ao mesmo tempo daqueles dados na nota 1: ‘1185 Finwë se casa com Indis dos Vanyar’.


5.
Esta sentença (‘Ele amava grandemente as gemas…’) é uma adição acompanhando a mudança e expansão citadas na nota 3.


6.
Naugrim foi escrito a lápis sobre o original Nauglath (o qual, contudo, não foi riscado), e a palavra ‘também’ (em ‘a quem também chamamos’) adicionada ao mesmo tempo.


7.
Esta interpolação feita em Beleriand por Pengolod, entre colchetes no original, foi uma adição ao manuscrito; confira nota 8. Ao lado dela meu pai mais tarde escreveu a lápis: ‘Transferir para os A[nais] de B[eleriand]’.


8.
Esta interpolação de Pengolod, entre colchetes, foi uma adição ao manuscrito; e como aquela citada na nota 7 foi marcada mais tarde para ser transferida para os Anais de Beleriand. O nome do líder dos Nandor foi inicialmente escrito Enadar, alterado imediatamente para Denethor (o nome em AV2, QS e o Lhammas).

Mas tarde meu pai adicionou aqui a lápis um novo registro, para 1362: ‘Aqui nasceu Isfin filha de Fingolfin, a Dama Branca dos Noldor’ (ver nota 9).

9. Uma adição rápida a tinta, subsequentemente riscada, dá um registro para 1469: ‘Aqui nasceu a primeira filha de Fingolfin, a Dama Branca dos Noldor’ (ver nota 8). Não é dito em outro lugar que Fingolfin tinha outra filha além de Isfin.


10.
O manuscrito tem ‘três’ o ‘ten’ > ‘vinte’ (Anos dos Valar).


11.
Do inglês bewrayed: ‘revelado’, ‘traído’.


12.
Do inglês gangrel (‘vagabundo’) substituindo beggarman (‘pedinte’, ‘mendigo’).


13.
Meu pai inicialmente escreveu Kalakilya, a forma antiga, mas alterou-a imediatamente para Kalakirya; -n foi adicionado mais tarde (ver §67).


Comentários sobre a quarta seção dos


Anais de Aman
Esta seção dos Anais corresponde em conteúdo ao Capítulo 4 de QS ‘Das Silmarils e o Escurecimento de Valinor‘ (HoME V), e a AV 2 registros 2500 até o começo de 2990 (HoME V). O registro em AAm não tem comparação com o rápido AV 2, e representa um impulso totalmente diferente; de fato, nesta seção nós vemos a forma de registros desaparecendo enquanto narrativas completas surgem. Com frequentemente no caso dos trabalhos de meu pai, a história toma conta e se amplia seja quais forem as restrições de forma que ele optou. A nova narrativa tem o dobro do tamanho daquela em QS, à qual é relacionada em estrutura. Em expressão é quase inteiramente nova, mas mesmo assim uma comparação entre eles mostrará que AAm tende antes a uma maior definição da narrativa do que a mudanças significativas na estrutura ou novas adições notáveis – embora ambas estejam presentes. Os comentários a seguir de forma alguma têm a intenção de serem uma análise de todas as diferenças de ênfase, sugestão e detalhe entre AAm e QS.


§
78 Cedo no AAm, sob o ano 1115, aparecem inserções rejeitadas (ver a Terceira Seção dos Anais de Aman, notas 3 e 5) nas quais estão registradas o nascimento de Fëanor por Indis esposa de Finwë na Terra-média durante a Grande Jornada, e a subseqüente morte dela numa queda nas Montanhas Nebulosas. Escritas com caneta esferográfica estas inserções parecem ser relativamente tardias; aqui, por outro lado, no que parece ser uma adição antiga (escrita cuidadosamente com tinta, veja nota 1 acima), Fëanor nasceu em Tirion, e sua mãe foi Morial, chamada Byrde Míriel (do Inglês antigo byrde ‘bordadeira’). Em adições tardias (notas 1 e 4 acima) é registrado que em 1170 Míriel ‘adormeceu’ e passou para Mandos e em 1185 Finwë casou-se com Indis dos Vanyar.

§79 Em um ponto do começo de QS (§40) é dito que os Noldor ‘desenvolveram a criação de gemas’; similarmente em AV 2 (HoME V) eles ‘inventaram gemas’ e novamente em Ainulindalë B (HoME V). Esta idéia é encontrada em todos os textos antigos, retrocedendo até o elaborado registro no antigo conto de ‘A Chegada dos Elfos‘ (ver HoME I). No período posterior ela sobreviveu na versão final D do Ainulindalë (§35), e continua presente inicialmente em AAm (ver nota 3 acima). A reescrita deste trecho rejeita a idéia de ‘invenção’: as gemas dos Noldor foram minadas em Aman.


§80 A associação dos Noldor com escrita alfabética retorage até os Contos Perdidos, onde esta arte é associada principalmente a Aulë (HoME I); ‘naqueles dias Aulë auxiliado pelos Gnomos desenvolveu alfabetos e escritas’ (HoME I). No Ainulindalë B (HoME V) os Noldor ‘acrescentaram muito aos ensinamentos [de Aulë] e tinham grande prazer em idiomas e alfabetos’, e isto sobreviveu em versões posteriores. Agora Rúmil e (em §83) Fëanor surgem como os grandes inventores. Confira O Senhor dos Anéis, Apêndice E (II):

Os Tengwar… foram desenvolvidos pelos Noldor, a família dos Eldar mais habilodosa em tais assuntos, muito antes de seu exílio. As letras Eldarin mais antigas, os Tengwar de Rúmil, não foram usadas na Terra-média. As letras posteriores, os Tengwar de Fëanor, foram amplamente uma invenção nova, embora devesse algo às letras de Rúmil.

Se Rúmil foi o autor dos Anais de Aman, como é dito no preâmbulo, ele está aqui se descrevendo com as palavras ‘mais renomado dos mestres de conhecimento de idiomas’.


§82 Finrod: nome inicial de Finarfin (Finarphin).


§84 A forma Nauglath (ver nota 6) é, curiosamente, uma reversão ao nome original em Gnômico para os Anões no Contos Perdidos (ver HoME I), embora Naugrim ocorra como uma forma original em QS em um ponto posterior na narrativa (§122). [A entrada Naugrim foi inadvertidamente excluída do índice para o HoME V. As referências são 273, 277, 405.] – Sobre o nome Sindar veja §74.

Sobre referências antigas aos Anões em Beleriand veja IV.336; como eu comentei lá, a afirmação na segunda versão do primeiro Anais de Beleriand (HoME IV) de que os Anões tinham ‘de antigamente’ uma estrada para Beleriand é o primeiro sinal da idéia posterior de que os Anões tinham estado ativos em Beleriand muito antes do Retorno dos Noldor. Mas o presente trecho é a primeira referência aos Anões ajudando Thingol na escavação e contrução de Menegroth. – A lenda da criação dos Anões por Aulë é citada nos textos do período inicial: AB 2 (HoME V), o Lhammas (HoME V e comentários) e QS (§123 e comentários).


§85 Aqui aparece o importante desenvolvimento de acordo com o qual os príncipes da Terceira Casa dos Noldor se tornaram próximos a Thingol de Doriath (Elwe Singollo, irmão de Olwë de Alqualondë, §58); e Galadriel é introduzida dO Senhor dos Anéis. Confira Apêndice F (I, Dos Elfos): ‘A dama Galadriel da casa real de Finrod, pai de Felagund, Senhor de Nargothrond’ (uma afirmação que foi alterada na Segunda Edição de O Senhor dos Anéis, quando Finrod se tornou Finarphin e Inglor se tornou Finrod (Felagund)).

§86 Em AV 2 (HoME V, também em uma interpolação de Pengolod) e em QS (§115) os Elfos sob Denethor não chegaram a Beleriand ‘a partir do Sul’, mas por sobre as Montanhas Azuis; o significado aqui provavelmente é que eles cruzaram as montanhas em uma região ao sul de Ossiriand. Não haviam sete rios correndo das montanhas, mas seis: o sétimo rio de Ossiriand era o grande rio Gelion, para o qual os seis fluíam.


§88 devido ao seu parentesco: em AAm §3 (assim como em AV 2 e em QS §9) Niënna era ‘irmã de Manwë e Melkor’. Em AAm* ela é dita ser apenas irmã de Manwë.

§92 Em AV 2 duas eras se passaram (A.V. 2500 – 2700) entre a criação das Silmarils e a libertação de Melkor; da maneira similar em QS (§§46-7). Em AAm a relação dos dois é invertida, com a libertação de Melkor colocada no Ano das Árvores 1400 e o término das Silmarils em 1450.

§93 Com o que é dito aqui sobre o destino de Fëanor confira QS §88: ‘tão cheio de fogo era seu espírito que seu corpo se transformou em cinzas assim que seu espírito partiu; e nunca mais apareceu sobre a terra nem deixou o reino de Mandos’.

§87 Sobre a ignorância dos Elfos com relação a armas ver §97.

§98 Nenhuma menção é feita em QS (§52) das dissensões chegando a ponto de desembainhar espadas. Em AAm §112 ‘Fingolfin colocou um fim ao desembainhar da espada’, e na margem do texto datilografado a este ponto meu pai escreveu ‘se refere a que?’. Uma expansão posterior do capítulo no QS, próxima em tempo à escrita de AAm, conta que Fëanor ameaçou Fingolfin com a espada desembainhada (§52); e em vista de §112 parece provável que isto tenha sido inadvertidamente omitido aqui.


§99 O termo do banimento de Fëanor (ver nota 10 acima) não é citado em textos mais antigos. O nome formenos agora aparece, em uma adição ao texto.


§102 o mais poderoso de todos os habitantes de Ëa: ver §2.


§105 O tempo da chegada de Ungoliantë a Arda é colocado (como uma suspeita) junto com a entrada de Melkor e sua hoste antes da derrubada das Lâmpadas (ver §19). Compare ‘talvez ela tenha vindo para o Sul das escuridões de Ëa’ com QS §55: ‘da Escuridão Exterior, talvez, aquela que se estende além das Muralhas do Mundo’.


§106 Embora novamente colocada como uma suspeira, a origem de Ungoliantë é agora encontrada em sua antiga corrupção por Melkor, e é sugerido que ele foi para Arvalin com o próximo definido de encontrá-la.

§107 A alta montanha na cadeia sul das Pelóri agora recebe um nome, Hyarantar (mais tarde substituído por Hyarmentir).

§109 No Contos Perdidos a razão do grande festival era a comemoração da chegada dos Eldar a Valinor (HoME I), mas em textos posteriores sua razão não é especificada. Agora um novo e notável registro é dado, com uma referência à passagem no Ainulindalë (§25) onde as formas visíveis assumidas pelos Valar em Arda são descritas; e aqui a idéia destas ‘formas’ é ampliada (como parece) ao ponto onde os grandes espíritos podem comer, e beber, e ‘retirar força da Terra’. Completamente nova também nesta passagem é o elelemtno do propósito de Manwë em obter concórdia entre os Noldor.

§112 Em QS (§60) Fëanor estava presente ao festival na Taniquetil; agora entra a história de que ele foi sozinho de Formenos, sendo comandado a fazê-lo por Mnwe, em vestimentas sóbrias, que Finwë se recusou a ir enquanto seu Filho vivesse em banimento, e que Fëanor se reconciliou ‘em palavras’ com Fingolfin perante o trono de Manwë. A este ponto, é claro, Fëanor e Fingolfin ainda eram irmãos (e não meio-irmãos).

§114 Não há sinal do texto Aldudénië entre os papéis de meu pai. Compare a passagem relativa à Escuridão que veio com a extinção da Luz das Árvores com o Ainulindalë §19: ‘e pareceu [aos Ainur] que naquele momento eles perceberam uma nova coisa, Escuridão, a qual eles não conheciam antes, exceto em pensamento’.

§116 Sobre o chifre Valaróma de Oromë ver Ainulindalë D, §34.


*

Há um grande número de notas e alterações feitas no texto datilografado, algumas acrescentadas pelo datilógrafo sob a instrução de meu pai; mas apenas algumas poucas precisam ser registradas.


§78 Os dois novos registros dados na nota 1 acima, e aquele na nota 4, aparecem no texto datilografado original.

§81 Após a entrada para 1190 uma nova entrada foi acrescentada para o ano 1200: ‘Luthien nasce’ (com uma interrogação).

§84 Um espaço em branco é deixado no texto datilografado onde o manuscrito tem Naugrim escrito sobre Nauglath, possivelmente porque o datilógrafo não sabia qual forma colocar (ver nota 6). O espaço em branco não foi preenchido, mas o nome Nornwaith que se segue foi riscado.

§85 Após o registro para 1280 as seguintes entradas Beleriândricas foram colocadas:

1300    Daeron, mestre do conhecimento de Thingol, desenvolve as Runas
Turgon, filho de Fingolfin, e Inglor, filho de Finrod, nascem.

1320    Os Orcs aparecem pela primeira vez em Beleriand

§86 Após o registro para 1350 duas entradas foram adicionadas:

1362    Galadriel, filha de Finrod, nasce em Eldamar Isfin, Dama Branca dos Noldor, nasce em Tirion

A segunda destas aparece como uma adição a lápis ao manuscrito (nota 8).

§97 Ao lado das palavras ‘Melkor falou aos Eldar sobre armas, que antes eles não tinham possuído ou conhecido’ meu pai escreveu no texto datilografado: ‘Não! Eles devem ter possuído armas na Grande Jornada’. Compare com a passagem em QS sobre este assunto (nota de rodapé para o §49): ‘Os Elfos antes haviam possuído apenas armas de caça, lanças e arcos e flechas’.

§99 A duração do banimento de Fëanor foi alterado mais uma vez (ver nota 10), de ‘vinte’ para ‘doze’.

§113 Após ‘o Monte Verdejante’ foi adicionado: ‘de Ezellohar’. Este nome foi acrescentado em ocorrências anteriores: §25. ‘Os Vasos de Varda’ se tornaram ‘Os Poços de Varda’; ver §28.

§114 O datilógrafo leu incorretamente Elemírë, e meu pai corrigiu o erro para a forma Elemmírë.

Eu não sei qual intenção está por trás da introdução dos registros Beleriândricos dados sob §§81,85 acima.

Mitos Transformados II

The History of Middle-earth X
E se quase tudo que que você leu no O Silmarillion fosse diferente? É isso que você pode ler abaixo, em um texto de J. R. R. Tolkien datado de 1951 e incluído na seção Mitos Transformados do The History of Middle-earth X . O Sol surge junto com a Terra (e não é fruto das Duas Árvores), Arda se refere a todo o Sistema Solar e há citações sobre os “Filhos de Deus”. Os comentários em itálico e as notas são de Christopher Tolkien.


II

Este é um texto de natureza mais problemática, um manuscrito a tinta que se divide em duas partes, ambas claramente associadas: uma discussão, com propostas para a “regeneração” da mitologia; e uma narrativa abandonada. Nenhuma das duas possui título ou cabeçalho.
A Criação do Sol e da Lua deve ocorrer muito antes da chegada dos Elfos; e não pode acontecer após a morte das Duas Árvores – se isso de alguma forma aconteceu em conexão com a permanência temporária dos Noldor em Valinor. O tempo disponível é curto demais. Tampouco poderiam existir florestas e flores etc. na terra, se não houve luz desde a derrubada das Lâmpadas! (1)

Mas como poderiam, apesar de tudo, os Eldar serem chamados de “Povo da Estrela”?

Uma vez que se supõe que os Eldar são mais sábios e tem um conhecimento mais verdadeiro da história e natureza da Terra do que os Homens (ou os Elfos Selvagens), suas lendas deveriam ter uma relação mais próxima com o conhecimento agora possuído, pelo menos da forma do Sistema Solar (= Reino de Arda) (2); embora ele não precise, é claro, seguir qualquer teoria “científica” de sua criação ou desenvolvimento.

Portanto parece claro que a mitologia cosmogônica deve representar Arda como ela é, mais ou menos: uma ilha no vazio “entre as inumeráveis estrelas”. O Sol deve ser contemporâneo com a Terra, embora seu tamanho relativo não precise ser considerado,  enquanto que a revolução aparente do Sol sobre a terra será aceita. *

(* [nota marginal] É ou seria de qualquer forma um “fato da vida” para qualquer inteligência que escolhesse a Terra como um lugar de vida e trabalho. [Não há indicação de onde isto deveria ir, mas nenhum outro lugar na página parece adequado.])

As Estrelas, portanto, em geral serão partes distintas e mais remotas do Grande Conto de Eä, que não dizem respeito aos Valar de Arda. Contudo, mesmo se não explicitamente, será uma premissa implícita que o Reino de Arda é de importância central, selecionado entre toda a imensurável vastidão de Eä como cenário para o drama principal do conflito de Melkor com Ilúvatar e os Filhos de Eru. Melkor é o supremo espírito de Orgulho e Revolta, não apenas o principal Vala da Terra, que se voltou para o mal (3).

Varda, conseqüentemente, como um dos grandes Valar de Arda, não pode ser dita ter “acendido” as estrelas, como um ato subcriativo original – pelo menos não as estrelas em geral (4).

A História, parece, deve seguir uma linha como esta. A entrada dos Valar em Eä no começo do Tempo. A escolha do Reino de Arda como seu principal local de moradia (? pelos maiores e mais nobres dos Ainur (5), a quem Ilúvatar tinha intenção de encarregar do cuidado do Eruhíni). Manwë e seus companheiros evitam Melkor e começam a ordenação de Arda, mas Melkor procura por eles e afinal encontra Arda (6), e disputa o reinado com Manwë.

Este período irá, grosseiramente, corresponder às supostas épocas primevas antes da Terra se tornar habitável. Um tempo de fogo e cataclismos.  Melkor desordenou o Sol de forma que em certos períodos ele era quente demais, e em outros frio demais. Se isto foi devido ao estado do Sol ou alterações na órbita da Terra, não é necessário ser definido precisamente: ambos são possíveis.

Mas após uma batalha Melkor é expulso da própria Terra. (A Primeira Batalha?).  Ele percebe que pode adentrar apenas com grande secritude. Neste tempo ele começa a se voltar principalmente para o frio e a escuridão. Seu primeiro desejo (e arma) foi fogo e calor. Foi no controle da chama que Tulkas (? originalmente Valar do Sol) o derrotou na Primeira Batalha. Então Melkor vinha principalmente à noite e especialmente ao Norte e no inverno. (Foi após a Primeira Batalha que Varda fixou certas estrelas como sinais ameaçadores para os habitantes de Arda verem).

Para se opor a isto os Valar fizeram a Lua. De matéria terrena ou do Sol? Ela deve ser uma luz subsidiária para mitigar a noite * (como Melkor a havia feito), e também um “veículo de observação e proteção” para circundar o mundo (7). Mas Melkor reuniu no Vazio espíritos de frio etc. e repentinamente a atacou, expulsando o Valar Tirion (8). A Lua ficou, depois disso, por muito tempo sem condutor e sem rumo e foi chamada Rana (neutro) (9).

(* [nota marginal] Mas não para eliminá-la. Era necessário ter uma alternação, “porque em Eä de acordo com o Conto nada pode perdurar eternamente sem cansaço e corrupção”).

[Se Tulkas veio do Sol, então Tulkas foi a forma que este Vala adotou na Terra, sendo em origem Auron (masculino). Mas o Sol é feminino; e é melhor que o Vala seja Áren, uma dama que Melkor pretendeu tornar sua esposa (ou violou) (10); ela se elevou em uma chama de fúria e tormento e seu espírito foi liberado de Eä, mas Melkor foi enegrecido e queimado, e sua forma depois disso foi escura, e ele se associou à escuridão. (O próprio Sol era neutro Anar ou Úr, comparar com Rana, Ithil.)]

O Sol permaneceu um Fogo Solitário, maculado por Melkor, mas após a morte das Duas Árvores Tilion retornou à Lua, que permaneceu portanto um inimigo de Melkor e seus servos e criaturas da noite – e portanto mais tarde amada pelos Elfos etc.

Após a captura da Lua Melkor começou novamente a ser mais corajoso. Ele estabelece moradas permanentes  no Norte, profundamente abaixo da terra. Dessas moradas ele procede à secreta corrupção que perverte os trabalhos dos Valar (especialmente de Aulë e Yavanna).

Os Valar ficam cada vez mais fatigados. Finalmente descobrindo Melkor e onde ele habitava procuram expulsá-lo novamente, mas Utumno se prova forte demais.

Varda preservara um pouco da Luz Primordial (sua principal preocupação original no Grande Conto). As Duas Árvores são criadas. Os Valar fazem seus locais de repouso e moradia em Valinor, no Oeste.

Um dos objetivos das Árvores (como mais tarde das Jóias) era a cura dos ferimentos de Melkor, mas isto poderia facilmente ter um aspecto egoísta: a permanência da história – não indo adiante com o Conto. Este efeito elas tiveram nos Valar. Eles se tornaram mais e mais enamorados de Valinor, e iam para lá mais freqüentemente e ficavam mais tempo. A Terra-média foi deixada com poucos cuidados, e muito pouco protegida contra Melkor.

Ao final dos Dias de Felicidade, os Valar encontraram a mesa virada. Eles foram expulsos da Terra-média por Melkor e seus espíritos malignos e monstros;  e apenas podiam ir para a Terra-média secreta e brevemente (principalmente Oromë e Yavanna).

Este período deve ser breve. Ambos os lados sabem que a chegada dos Filhos de Deus é iminente. Melkor deseja dominá-los imediatamente com medo e escuridão e escravizá-los. Ele escurece o mundo [adicionado na margem: por 7 anos?] eliminando toda a visão do céu tanto quanto pode, e no extremo sul  (é dito) isto não foi efetivo. Desde o extremo Norte (onde [eram] densas) até o meio (Endor) (11) grandes nuvens surgiram. A Lua e as estrelas estão invisíveis. O dia é apenas um pálido crepúsculo quando muito. A única luz [está] em Valinor.

Varda se eleva em poder com Manwë dos Ventos e lutam contra a Nuvem da Não-Visão. Mas tão rápido quanto ela se parte Melkor fecha a cobertura novamente – ao menos sobre a Terra-média. Então vem o Grande Vento de Manwë, e a cobertura é aberta. As estrelas brilham claras mesmo no Norte (Valakirka) e após a longa escuridão parecem terrivelmente brilhantes.

É na escuridão logo antes disso que os Elfos acordam. As primeiras coisas que eles vêem na escuridão são as estrelas. Mas Melkor traz negrumes do Leste e as estrelas desaparecem no oeste. Por isso eles pensaram desde o início da luz e beleza no Oeste.

A Chegada de Oromë.

A Terceira Batalha e o aprisionamento de Melkor. Os Eldar vão para Valinor. As nuvens lentamente se dispersam após a captura de Melkor, embora Utumno ainda as expila. É mais escuro a leste, mais distante do sopro de Manwë.

A Marcha dos Eldar é através de grandes Chuvas?

Homens despertam em uma Ilha em meio às inundações e portanto saúdam o Sol que parece vir do Leste. Apenas quando o mundo está mais seco eles deixam a Ilha e se espalham.

São apenas os Homens que encontraram Elfos e ouvem os rumores sobre o Oeste que vão naquela direção. Pois os Elfos disseram: “Se você se delicia no Sol, deve andar no caminho que ele faz”.

A chegada dos Home portanto seria bem antes (12).

Isto será melhor; pois meros 400 anos são bastante inadequados para produzir a variedade  e os avanços (por exemplo dos Edain) ao tempo de Felagund (13).

Homens devem acordar enquanto Melkor ainda está em Arda? – devido à sua Queda (14). Portanto em algum momento durante a Grande Marcha.


O texto acaba aqui. Agora se segue e a narrativa associada, idêntica em aparência à discussão anterior (ambos estão escritos na mesma caligrafia bastante incomum).

Após os Valar, que antes eram os Ainur da Grande Música, terem entrado em Eä, aqueles que eram os mais nobres entre eles e compreendiam mais a mente de Ilúvatar procuraram em meio as imensuráveis regiões do Início por aquele lugar  onde deveriam estabelecer o Reino de Arda no tempo que viria. E quando eles escolheram aquele ponto e região onde deveria ela deveria existir, começaram os trabalhos que eram necessários. Existiam outros, incontáveis para nosso pensamento mas cada um conhecido e numerado na mente de Ilúvatar, cujos trabalhos ficavam em outros locais e em outras regiões e histórias do Grande Conto, entre estrelas remotas e mundos além do alcance do pensamento mais distante. Mas destes outros não sabemos nada e não podemos saber, embora os Valar de Arda, talvez, lembrem-se de todos eles.

Líder dos Valar de Arda era aquele a quem os Elfos mais tarde chamaram Manwë, o Abençoado: o Rei Mais Antigo, uma vez que ele foi o primeiro de todos os reis em [Arda>] Eä. Irmão dele era Melkor, o poderoso, e ele havia, como fora contado, caído no orgulho e no desejo de seu próprio domínio. Portanto os Valar o evitaram, e começaram a construção e ordenamento de Arda sem ele. Por essa razão é dito que apesar de agora existir grande mal em Arda e muitas coisas dentro dela estarem em discórdia, de forma que o bem para um parece ser o mal para outro, as fundações deste mundo são boas, e se voltam naturalmente para o bem, curando a si mesma com o poder que foi colocada nela em sua criação; e o mal em Arda falharia e desapareceria se não fosse renovado de fora: isto é : aquele que vem de vontades e ser [sic] outros que não a própria Arda.

E como é bem sabido, o primeiro dentre estes é Melkor. Apesar de serem imensuráveis as regiões de Eä, ainda assim no Início, quando ele poderia ter sido Mestre de tudo que fora feito – pois muitos dos Ainur da Música estavam dispostos a segui-lo e servi-lo, se ele os chamasse – mesmo assim ele não estava satisfeito. E ele procurou por Arda e Manwë, seu irmão, desejando seu reinado, embora pequeno ele pudesse parecer ao seu desejo e ao seu poder; pois ele sabia que àquele reino Ilúvatar designou a maior realeza em Eä, e sob o reino daquele trono surgiriam os Filhos de Deus. E em seu pensamento ele se enganava, pois o mentiroso deve mentir para si mesmo, ele acreditava que sobre os Filhos ele deveria ter poder absoluto e ser deles o único senhor e mestre, de maneira como ele não poderia ser para espíritos de sua própria estirpe, mesmo os subservientes a ele. Pois eles sabiam que o Um É, e devem aquiescer com a rebelião de Melkor por sua própria escolha; enquanto que ele planejava esconder dos Filhos este conhecimento e ser para sempre uma sombra entre eles e a luz.

Melkor não concebia a si mesmo como uma sombra. Pois em seu início ele amava e desejava a luz, e a forma que ele assumiu era excessivamente brilhante; e ele disse em seu coração: “Em tal brilho como o que eu sou os Filhos dificilmente suportarão olhar; portanto o conhecimento de algo mais ou além ou mesmo forçar suas pequenas menter a entender isso não seria bom para deles”. Mas o brilho menor que fica perto de um maior se torna uma escuridão. E Melkor estava ciumento, portanto, de todos os outros brilhos, e desejava tomar toda a luz em si mesmo. Por isso Ilúvatar, na entrada dos Valar em Eä, adicionou um tema à Grande Música que não estava no primeiro Cantar, e chamou um dos Ainur a ele. Este era o Espírito que mais tarde se tornou Varda (e tomando forma feminina veio a ser a esposa de Manwë). A Varda Ilúvatar disse: “Eu te darei um presente de despedida. Deverás levar a Eä uma luz que é sagrada, vindo nova de Mim, não maculada pelo pensamento e desejo de Melkor, e contigo ela deverá entrar em Eä, e ser em Eä, mas não de Eä”. Por esta razão Varda é o mais sagrado e mais reverenciado de todos os Valar, e aqueles que dizem o nome da a luz de Varda dão nome ao amor que Eru tem por Eä, e ficam temerosos, menos apenas do que de nomear o Um. Apesar de tudo este presente de Ilúvatar aos Valar tem seu próprio perigo, assim como todos os seu presentes gratuitos: que no final nada mais é do que dizer que eles têm uma parte no Grande Conto, de forma que este possa ser completo; pois sendo sem perigo eles seriam também sem poder e o ato de dar seria vazio.

Quando então finalmente Melkor descobriu a morada de Manwë e seus amigos e foi para lá com grande rapidez, como um fogo ardente. E vendo que grandes trabalhos já haviam sido realizados em o seu conselho, ele se enfureceu, e desejou desfazer tudo que fora feito ou alterar de acordo com sua própria mente.

Mas isto Manwë não iria permitir, e portanto houve guerra em Arda.  Mas, como está escrito em outro lugar, àquele tempo Melkor foi derrotado com a ajuda de Tulkas (que não estava entre aqueles que começaram a construção de Eä) e foi expulso novamente para o Vazio que circunda Arda. Esta foi chamada a Primeira Batalha; e embora Manwë tenha a vitória, grande dano foi feito ao trabalho dos Valar; e o pior dos feitos da fúria de Melkor podia ser visto no Sol. O Sol foi feito para ser o coração de Arda, e os Valar tinham o propósito de que ele deveria dar luz a todo aquele Reino, incessantemente e sem cansaço ou diminuição, e que de sua luz o mundo deveria receber bem estar e vida e crescimento. Por isso Varda colocou lá o mais ardente e belo de todos aqueles espíritos que haviam entrado com ela em Eä, e que era chamada Ar(i) (15), e Varda deixou sob seus cuidados uma porção do presente de Ilúvatar de forma que o Sol pudesse ser permanente e ser abençoado e dar bênçãos. O Sol, os mestres de conhecimento nos dizem, era no princípio chamado As (que pode ser interpretado da melhor forma possível como Calor, ao qual são assemelhados Luz e Conforto), e que o espírito portanto foi chamado Azië (ou mais tarde Arië).

Mas Melkor, como já foi dito, ansiava por toda a luz, desejando-a ciumentamente para si mesmo. Além disso ele logo percebeu que em As havia uma luz que havia sido oculta dele, a qual tinha um poder, e sobre o qual ele não havia pensado. Portanto, imediatamente cheio de desejo e ira, ele foi até Âs [escrito acima: Asa], e falou a Árië, dizendo: “Eu te escolhi, e deverás ser minha esposa, assim como Varda é para Manwë, e juntos iremos empunhar todo o poder e comando. Então o reino de Arda será meu de fato como de direito, e serás a parceira em minha glória”.

Mas Árië rejeitou Melkor e o refutou, dizendo: “Não fales de direito, coisa que há muito esquecestes. Nem para ti nem apenas por ti Eä foi feita; e não serás Rei de Arda. Cuidado, portanto; pois há no coração de As uma luz na qual não tens parte, e um fogo que não te servirás. Não ponhas tua mão nele. Pois embora teu poder possa destruí-lo, ele irá te queimar e teu brilho será transformado em escuridão”.

Melkor não deu ouvidos ao alerta dela, e falou em sua fúria: “O presente que é negado eu tomo!” e ele violentou Árië, desejando tanto humilhá-la quanto tomar para si os poderes dela. Então o espírito de Árië se elevou como uma chama de tormento e fúria, e partiu para sempre de Arda*, e o Sol foi destituído da Luz de Varda, e foi manchado pelo ataque de Melkor. E ficando por longo tempo sem comando ele queimava com calor excessivo ou ficava frio demais, tão sério era o dano feito a Arda e a forma do mundo foi desfigurada e atrasada, até que com grande esforço os Valar estabeleceram uma nova ordem+. Mas assim como Arie previu, Melkor foi queimado e seu brilho escureceu, e ele não brilhava mais, e a luz doía excessivamente nele, e ele a odiava.

Apesar de tudo Melkor não deixaria Arda em paz; e acima de tudo ele invejava aos Valar suas moradas na Terra, e desejava ferir seus trabalhos lá, ou transformá-los em nada, se pudesse. Portanto ele retornou para a Terra, mas por medo do poder dos Valar e de Tulkas acima de tudo ele, desta vez chegou em segredo. E em seu ódio do Sol ele foi para o Norte à noite no inverno. Inicialmente ele partia quando o longo dia do verão chegava; mas após algum tempo, se tornando corajoso novamente, e desejando um local de moradia seu, ele começou a escavação subterrânea de sua grande fortaleza no extremo Norte, que mais tarde foi chamada Utumno (ou Udun).

(* [nota marginal] De fato alguns dizem que ela foi liberta de Eä.)
(+ [nota marginal] Também alguns dos Sábios disseram que a ordenação de Arda, no que se refere ao local e curso de suas partes, foi desorganizada por Melkor, de forma que a Terra algumas vezes chegava perto demais do Sol, e em outras ficava distante demais.)

Então os Valar, quando ficaram cientes através dos sinais malignos que foram vistos sobre a Terra de que Melkor secretamente retornara, procuram por ele em vão, embora Tulcas e Oromë tenham vagado por toda a Terra-média até o extremo Leste. Quando eles perceberam que Melkor agora usava a escuridão e a noite para seus propósitos, assim como ele anteriormente empunhava a chama, eles se entristeceram,  pois era parte de seu planejamento que deveria haver mudanças e alterações na Terra, sem dia perpétuo nem noite sem fim *. Pois através da Noite os Filhos de Arda deverão conhecer o Dia, e descobrir e amar a Luz; e mesmo a Noite deveria a seu próprio modo ser boa e abençoada, sendo um tempo de repouso, e de introspecção, e também uma visão de coisas elevadas e belas que estão além de Arda, mas são ocultas pelo esplendor de Anar. Mas Melkor a transformaria em um tempo de perigos invisíveis, de medo sem forma, uma vigília insegura; ou um sonho assombrado, levando através desespero à sombra da Morte.

(* [nota de rodapé ao texto] Pois isto era demandado pela natureza de Eä e a Grande História de que nada pudesse permanecer imutável no tempo, e coisas que o fizessem, ou parecessem fazê-lo, ou buscassem fazê-lo, se tornariam um cansaço, e não seriam mais amadas (ou, no melhor caso, negligenciadas).)

Por isso Manwë se aconselhou com Varda, e eles chamaram o auxílio de Aulë. E eles resolveram alterar o comportamento de Arda e da Terra, e em seus pensamentos eles conceberam Ithil, a Lua.  De que forma e com quais esforços eles criaram este grande artefato de seus pensamentos, quem poderá dizer: pois quais dentre os Filhos viram os Valar no ápice de seus poderes ou ouviu seus conselhos na flor de suas juventudes? Quem observou seus esforços enquanto trabalhavam, quem viu a novidade do novo?

Alguns dizem que foi da própria Terra (16) que Isil foi feita, e assim Ambar (17) foi diminuída; outros dizem que a Lua foi feita de coisas iguais à da Terra e das quais é feita a própria Eä no Conto (18).

Agora quanto a Luz estava totalmente completa ela foi colocada acima de Ambar, e direcionada para ir sempre ao redor e retornar, trazendo luz a locais escuros dos quais o Sol partira. Mas era uma luz menor, de forma que o luar não era o mesmo que a luz do sol, e mesmo assim havia mudança de luz sobre a Terra; além disso continuava também a noite sob as estrelas, pois a Lua e o Sol em certos tempos estavam ambos ausentes.

Pelo menos é isto que veio a ser pela profecia dita por Ilúvatar….. o mal de Melkor deveria em sua própria malícia trazer coisas mais belas do que o planejado por ele… Pois alguns afirmam que a Lua estava inicialmente em chamas, mas foi mais tarde tornada [?forte] e vida..: mais tarde, mas enquanto Arda estava sem direção e continuava nos tumultos de Melkor.

Tal é conhecido dos Sábios, que Tilion – [sic] e que Melkor se encheu de uma nova fúria com o nascer da Lua. Portanto por algum tempo ele novamente deixou Ambar e foi para a Noite Exterior, e reuniu para si alguns daqueles espíritos que responderam seu chamado.


Uma página de notas rápidas e disconexas obviamente precedeu este texto, mas deve pertencer mais ou menos ao mesmo tempo: idéias encontradas na discussão e sinopse precedendo a narrativa também são encontradas aqui, tais como “grande escuridão de sombra” criada por Melkor que obstruiu o Sol. Nestas notas continuava perguntando a si mesmo se ele deveria “manter o antiga história mitológica da criação do Sol e da Lua, ou alterar o pano de fundo para uma versão ‘terra redonda'”, e observando que neste caso a Lua seria um trabalho de Melkor para propiciar um ‘refúgio seguro’ – dessa forma retornando à idéia da origem da Lua encontrada anos antes no texto C* do Ainulindalë ($31). Dúvidas e ausência de uma direção certa estão fortemente presentes, enquanto ele lutava com os intratáveis problemas colocados pela presença no Sol nocéu sob o qual os Elfos acordaram, e que estava iluminado apenas pelas estrelas (19).

Há certas características no atual texto que claramente o associam com o Comentário sobre o
Athrabeth (ver notas 2 e 3 abaixo), entre eles o uso do nome Arda para significar o Sistema Solar; mas enquanto que a Terra é chamada de Imbar nos Comentários ela tem aqui o nome mais antigo de Ambar (ver nota 17). Não há dúvidas, acho eu, que o presente texto é o mais antigo dos dois. Por outro lado, nenhuma outra apresentação mais completa ou finalizada das novas concepções em geral, a “nova mitologia”, existe; parece razoável que enquanto estava comprometido em mente com o abandono do antigo mito da origem do Sol e da Lua meu pai deixou em suspenso a formulação e expressão do novo. Pode ser que, embora eu não tenha evidência sobre a questão para um ou outro lado, que ele tenha vindo a perceber a partir de tal escrita experimental como este texto que a antiga estrutura era por demais compreensiva, por demais interconectada em todas as suas partes, de fato suas raízes profundas demais, para suportar tal cirurgia devastadora.


NOTAS


1.
No AAm $15 “aconteceu um grande crescimento de árvores e ervas, e bestas e pássaros vieram” à luz das Lâmpadas: aquela foi a Primavera de Arda. Mas depois da destruição das Lâmpadas Yavanna “adormeceu muitas coisas belas que surgiram durante a Primavera, tanto árvore e erva e besta e pássaro, de forma que não envelheceriam mais e aguardariam por um tempo de acordar que ainda estava por vir” ($30).


2.
Sobre o conhecimento astronômico ser presumido entre os Alto-elfos veja Nota 2 do Comentário sobre o Athrabeth – onde, como aqui, Arda é igualada ao Sistema Solar – e o Texto I do Mitos Transformados.


3.
A idéia deste parágrafo é paralelada na Nota 2 do Comentário sobre o Athrabeth, e a sentença final é bastante similar ao que é dito no próprio Comentário (“Melkor não era apenas um Mal local na Terra…”).


4.
No AAm $24 é dito que após a Queda das Lâmpadas a “Terra-média ficou num crepúsculo sob as estrelas que Varda fizera nas eras esquecidas de seus trabalhos em Eä”, e em $34 Varda olho de cima de Taniquetil e “contemplou a escuridão da Terra sob as estrelas inumeráveis, fracas e distantes”, antes de começar a fazer estrelas novas e mais brilhantes; desta forma também é no Quenta Silmarillion ($19): “Então Varda fez novas estrelas e mais brilhantes devido à chegada dos Primogênitos. E por esta razão ele cujo nome vindo das profundezas do tempo e dos trabalhos de Eä era Tintalle, a Acendedora, que mais tarde foi chamada pelos Elfos Elentári, a Rainha das Estrelas”. Mas se ela talvez ainda pudesse ser chamada Elentári, ela não mais poderia ser chamada Tintalle (contudo, ver nota 3).

Na edição posterior do texto final D do Ainulindalë ($36) as palavras relativas a Varda “ela foi quem construiu as Estrelas” foi alterado para “ela foi quem construiu as Grandes Estrelas”; é possível que isso tenha sido feito à luz das idéias apresentadas aqui.


5.
Compare a Nota 2 de Comentário sobre o Athrabeth, com a  note 13 e com este trecho.


6.
Isto é, claro, bastante diferente da forma da lenda no Ainulindalë ($23): “Mas Melkor, também, estava lá desde o início, e ele interferiu em tudo que foi feito”; enquanto que no texto C* Melkor entrou em Arda antes dos demais Ainur.


7.
A lenda em no Ainulindalë C* de que o próprio Melkor fez a Luz de forma que ele “pudesse observar de lá tudo que acontecesse embaixo” ($31) foi abandonada.


8.
No AAm ($172) e no QS ($75) Tilion não era um Vala, mas “um jovem caçador da companhia de Oromë”. Em AAm $179 aparece a história de que Morgoth atacou Tilion, “enviando espíritos de sombra contra ele”, mas sem sucesso.


9.
Sobre os nomes do Sol e da Lua ver QS $75 e o comentário (HoME V) e a revisão posterior daquele trecho; e também AAm $171 e comentário.


10.
No AAm ($179) é dito que “Arien Morgoth temia com grande medo, e não ousava se aproximar dela”.


11.
Sobre o nome Endor ver AAm $38.


12.
Ver Athrabeth Finrod ah Andreth, nota 16.


13.
“ao tempo de Felagund”: isto é, ao tempo em que Finrod Felagund encontrou os Homens, o primeiro dos Alto-elfos a fazê-lo.


14.
“Homens devem acordar enquanto Melkor ainda está em Arda?”: “Arda” deve ser um erro para “Terra-média” (isto é, ante de seu aprisionamento em Aman).


15.
Um s a lápis está sobre o r de Ar(i).


16.
Acima de Terra meu pai escreveu Ambar, então o riscou, e escreveu “Mar = Casa”. Veja a próxima nota.


17.
Na Nota 2 do Comentário sobre o Athrabeth (e veja nota 12 daquele trecho) aparece Imbar, traduzido “a Habitação”, =Terra, “a principal parte de Arda” (= o Sistema Solar).


18.
A partir deste ponto o manuscrito se torna bastante irregular, ilegível em alguns locais, e logo se encerra.


19.
Em outras notas rápidas (escritas ao mesmo tempo em que o texto II e constituindo uma parte do manuscrito) meu pai escreveu que Varda deu a luz sagrada recebida como um presente de Ilúvatar não apenas ao Sol e às Duas Árvores mas também para a “importante Estrela”. O significadodisso nãoé explicado em parte alguma. Abaixo disso ele escreveu Signifer e muitos nomes Élficos experimentais, como Taengyl, Tengyl, Tannacoli ou Tankol, Tainacolli; e também uma raiz verbal tana “mostrar, indicar”; tanna “sinal”; e kolla “usar, vestir, especialmente uma vestimenta ou capa”, com a nota “Sindikoll-o é masculinizado”.

Textos de Apoio

Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português

Os Anais de Aman – Terceira Seção

The History of Middle-earth X - Morgoth's Ring
A Valinor tem a honra de prosseguir com a publicação da tradução dos Anais de Aman,
um longo registro dos acontecimentos desde a criação de Arda até a
Criação do Sol e da Lua escrito  pelo próprio J. R. R. Tolkien e publicado no The History of Middle-earth 10. O texto está dividido em seis partes,
publicadas quinzenalmente na Valinor (a primeira se encontra aqui e a segunda aqui). Esta terceria parte engloba o período desde o Acorrentamento de Melkor até a partida do último Vanyar de Tirion.
 
 

Terceira Seção dos Anais de Aman


1100

 
O Acorrentamento de Melkor


$51    Então os Valar retornaram à Terra de Aman, e Melkor foi levado cativo, com pés e mãos amarrados e olhos vendados; e foi levado ao Círculo do Destino. Lá se atirou sobre o próprio rosto aos pés de Manwë,  pediu perdão e liberdade, relembrando seu parentesco com Manwë. Mas seu pedido foi negado, e é dito que naquela hora os Valar teriam de bom grado o condenado à morte. Mas morte ninguém poderia impor a qualquer um da raça dos Valar, nem ninguém podia, à exceção de Eru, removê-los de Eä, o Mundo que é, eles desejando ou não. Portanto Manwë colocou Melkor na prisão, e ele foi encerrado na fortaleza de Mandos, de onde ninguém pode escapar.

$52    E os Valar condenaram Melkor a permanecer lá por três eras de Valinor, quando então deveria retornar e ser julgado por seus pares, e pedir novamente perdão. E isto foi feito, e a paz retornou ao reino de Arda; e este foi o Meio Dia do Reino Abençoado. Mas muitas coisas malignas que haviam fugido da ira dos Senhores do Oeste ainda vagavam pela Terra-média, ou estavam escondidas nas profundezas da terra. Pois os porões de Utumno eram muitos e dissimuladamente ocultos, e nem todos foram descobertos pelos Valar.

1101

$53    Então os Valar sentaram-se novamente em Conselho e debateram o que deveriam fazer para o conforto e condução dos Filhos de Ilúvatar. E finalmente, devido ao grande amor que os Valar tinham pelos Quendi, enviaram chamados a eles, requisitando que se mudassem e morassem em felicidade em Aman e na Luz das Árvores. E Oromë levou a mensagem dos Valar a Kuiviénen.


1102

$54    Os Quendi ficaram consternados com os chamados dos Valar, e não estavam dispostos a partir da Terra-média. Portanto Oromë foi enviado de novo a eles, e escolheu dentre eles embaixadores que deveriam ir a Valinor e falar por seu povo. Mas apenas três dos líderes dos Quendi estavam dispostos a se aventurar na jornada: Ingwë, Finwë e Elwë, que mais tarde se tornaram reis.


$55
    Os três senhores Élficos foram levados, portanto, a Valmar, e lá falaram com Manwë e os Valar; e ficaram maravilhados, e a beleza e o esplendor da terra de Valinor sobrepujou seus medos, e eles desejaram a Luz das Árvores.


1104

$56    E após terem residido em Valinor por algum tempo Oromë os levou de volta a Kuiviénen, e eles falaram a seus povos e os aconselharam a acatar os chamados dos Valar e mudar para o Oeste.

1105

$57    Então ocorreu a primeira divisão do povo Élfico. Pois o povo de Ingwë e a maior parte dos povos de Finwë e Olwë foram convencidos pelas palavras de seus senhores e estavam dispostos a partir e seguir Oromë. Estes ficaram conhecidos para sempre como os Eldar, o nome que Oromë deu na própria língua deles. Mas os povos de Morwë e Nurwë não estavam dispostos a partir e recusaram os chamados, preferindo a luz das estrelas e os amplos espaços da Terra aos rumores sobre as Árvores. Estes eram os que residiam mais longe das águas de Kuiviénen, vagando pelas colinas, e não haviam visto Oromë em sua primeira vinda e dos Valar eles não sabiam mais do que formas e rumores de fúria e poder enquanto marchavam para a guerra. E possivelmente as mentiras de Melkor sobre Oromë e Nahar (que acima foram relembradas) ainda vivessem entre eles, de forma que eles o temiam como a um demônio que os devoraria (1). Estes são os Avari, os Relutantes, e eles foram separados àquele tempo dos Eldar,  e não mais se encontraram até muitas eras terem passado.


$58
    Os Eldar então se prepararam para sua Grande Marcha, e partiram em três grupos. Primeiro vieram os Vanyar, os mais ávidos pela estrada, o povo de Ingwë. A seguir vieram os Noldor, um grupo maior (embora alguns tenha ficado para trás), o povo de Finwë. Por último vieram os Teleri, e eles eram os menos dispostos. Mesmo assim o grupo deles que começou a Marcha era o maior de todos, e por isso tinham dois senhores: Elwë Singollo e Olwë, seu irmão. E quando tudo foi preparado Oromë cavalgou Nahar à frente deles, branco sob a luz das estrelas. E eles começaram sua longa jornada e passaram pelo Mar de Helkar onde eles viraram um pouco a oeste (2). E é dito que adiante deles ainda havia grandes nuvens negras no Norte, sobre as ruínas da guerra, e as estrelas naquela região estavam ocultas. Então não poucos ficaram com medo e se arrependeram e voltaram e estão esquecidos.

1115

$59    Longa e lenta foi a Marcha dos Eldar para o Oeste, pois as léguas da Terra-média eram incalculáveis,  cansativas e sem caminhos. E os Eldar não desejavam se apressar, pois estavam maravilhados com tudo que viam, e em muitas terras e rios eles de bom grado residiriam; e embora todos ainda estivessem dispostos a vagar, não poucos mais temiam o fim de sua jornada do que a desejavam. Portanto, sempre que Oromë partia, como às vezes ele fazia, tendo outros assuntos a atender, eles paravam e não avançavam mais até que ele retornasse a guiá-los.


$60
    E veio a acontecer que após dez Anos viajando desta forma (que é o mesmo que dizer cerca de cem anos na nossa maneira atual de contar o tempo) os Eldar atravessaram uma floresta e chegaram a um grande rio, maior e mais largo do que todos que já haviam visto. Além dele havia montanhas cujos picos pontiagudos pareciam perfurar o reino das estrelas (3).

$61    Este rio, é dito, era o mesmo rio que mais tarde foi chamado de Anduin o Grande, e foi sempre a fronteira das Terras Ocidentais da Terra-média. E as montanhas eram as Hithaeglir, as Torres de Névoa sobre os limites de Eriador; mas eram mais altas e mais terríveis naqueles dias, pois foram elevadas por Melkor para obstruir as cavalgadas de Oromë (4). Então os Teleri residiram por um longo tempo na margem leste do Rio e desejaram permanecer lá, mas os Vanyar e Noldor atravessaram o Rio com a ajuda de Oromë, e ele os conduziu aos paços das montanhas (5). Mas quando Oromë partiu à frente os Teleri olharam as alturas enevoadas e tiveram medo.


$62
    Então se rebelou um no grupo de Olwë, que sempre foi o mais atrasado na marcha, e seu nome era Nano (ou Dan na língua de seu próprio povo). E ele abandonou a marcha para o oeste, e, conduzindo um povo numeroso, foram para o sul acompanhando o rio e saíram do conhecimento dos Eldar até que muitos anos se passaram. Estes eram os Nandor.


1125

$63    E quando mais dez anos de passaram, os Vanyar e Noldor ultrapassaram finalmente as montanhas que ficavam entre Eriador e a terra mais ocidental da Terra-média, que mais tarde os Elfos chamaram de Beleriand. As companhias mais avançadas passaram sobre o Vale do Sirion e chegaram ao litoral do Grande Mar. Então um grande medo se abateu sobre eles, e muitos se arrependeram amargamente de sua jornada e recuaram para as florestas de Beleriand. E Oromë retornou a Valinor para buscar o conselho de Manwë.


1128

$64    Então o grupo dos Teleri chegou finalmente a Beleriand e residiu na região mais a leste além do Rio Gelion. Eles chegaram a contra-gosto, sendo incentivados por Elwë seu rei; pois ele estava ávido para retornar a Valinor e para a luz que ele vislumbrou (embora seu destino o proibisse); e ele desejou não ser separado dos Noldor, pois tinha grande amizade com Finwë seu senhor.

1130

$65    Há este tempo Elwë se embrenhou nas florestas de Beleriand e se perdeu, e seu povo o procurou longamente em vão. Pois enquanto viajava para casa de um encontro com Finwë, ele passou pelas bordas de Nan Elmoth. Lá ouviu os rouxinóis cantando e foi enfeitiçado, pois eram os pássaros de Melian a Maia, que veio dos jardins de Lórien no Reino Abençoado. E Elwë seguiu os pássaros para dentro de Nan Elmoth, e lá viu Melian parada em uma clareira aberta sob o céu, e uma névoa iluminada pelas estrelas estava ao redor dela. Assim começou o amor de Elwë Capacinzenta e Melian a bela; e ele tomou sua mão e é dito que assim eles permaneceram enquanto as estrelas mediram a passagem de muitos Anos, e as árvores de Nan Elmoth cresceram altas e escuras ao redor deles.


1132

$66    Então Ulmo, pelo conselho dos Valar, veio ao litoral da Terra-média e falou com os Eldar; e devido às suas palavras e à música que fez para eles com suas conchas, seu medo do Mar se transformou em desejo. Então Ulmo e seus servos pegaram uma ilha que por muito permanecera solitária no meio do Mar desde os tumultos com a queda de Illuin, e a moveram, e a trouxeram para a baía cinzenta de Balar, como se fosse um poderoso navio. E os Vanyar e os Noldor embarcaram na ilha, Eressëa, que foi levada sobre o Mar e chegou finalmente à terra de Aman (6). Mas os Teleri permaneceram na Terra-média; pois muitos moravam em Beleriand Leste e não ouviram os chamados de Ulmo até ser tarde demais; e muitos ainda procuravam por Elwë Singollo, seu rei, e não partiriam sem ele. Mas quando os Teleri souberam que Ingwë e Finwë e seus povos haviam partido, eles correram para o litoral e lá residiram desejando estar com seus amigos que partiram. E tomaram Olwë, irmão de Elwë, como seu rei. E Ossë e Uinen foram a eles e fizeram amizade e os ensinaram tudo sobre conhecimento e música do mar. Por isso os Teleri, que desde o início amavam a água e eram os mais belos cantores do povo Élfico, ficaram enamorados dos mares e suas canções eram repletas do som das ondas no litoral.

1133

$67    Neste Ano os Vanyar e os Noldor chegaram a Aman, e a passagem de Kalakiryan (7) foi feita nas Pelóri; e os Elfos tomaram posse de Eldamar, e começaram a construção na colina verdejante de Tuna com vista ao Mar. E sobre Tuna eles levantaram os muros brancos da Cidade Vigilante, Tirion a Sagrada.


1140

$68    Neste ano Tirion estava completamente construída e a Torre de Ingwë foi feita, Mindon Eldaliéva, e sua lâmpada prateada acesa. Mas Ingwë e muitos dos Vanyar ansiavam pela Luz das Árvores, e ele e muitos de sua casa partiram para Valinor, e moraram para sempre com o povo de Manwë. E embora outros dos Vanyar ainda morassem em Tirion por amizade aos Noldor a separação destes grupos e de sua língua começara; pois de tempos em tempos ainda mais dos Vanyar partiam.

1142

$69    Neste ano Yavanna deu aos Noldor a Árvore Branca, Galathilion, imagem da Árvore Telperion, que foi plantada abaixo da Mindon e cresceu e floresceu.

1149

$70    Neste ano Ulmo ouviu aos pedidos de Finwë e voltou à Terra-média para trazer Elwë e seu povo para Aman, se quisessem ir. E a maioria deles de fato agora queria; mas Ossë se entristeceu. Pois seu cuidado era para com os mares da Terra-média e o litoral das Terras de Fora, e ele ia raramente a Aman, a não ser se chamado a conselho; e ele estava descontente que as belas vozes dos Teleri não seriam mais ouvidas na Terra-média. Alguns ele convenceu a ficar, e estes foram os Eldar que por muito habitaram as costas de Beleriand, os primeiros marinheiros sobre a terra e os primeiros construtores de navios. Seus portos eram em Brithombar e Eglarest. Cirdan o Armador era seu senhor.

1150


$71
    Os parentes e amigos de Elwë também não estavam dispostos a partir; mas Olwë estava e finalmente Ulmo tomou a todos que embarcaram em Eressëa e os levou por sobre as profundezas do Mar. E os amigos de Elwë foram deixados para trás e por isso se nomearam, em sua própria língua, os Eglath, o Povo Esquecido. E eles ainda procuravam por Elwë, tristemente. Mas não era seu destino jamais retornar a ver a Luz das Árvores, embora ele desejasse isso grandemente. Mas a Luz de Aman estava na face de Melian a bela, e naquela luz ele estava satisfeito.

1151

$72    Então Ossë seguiu os Teleri e quando eles chegaram à Baía de Eldamar ele os chamou, e eles reconheceram sua voz, e imploraram a Ulmo para interromper sua viagem. E Ulmo permitiu, e a seu comando Ossë fixou a ilha e a enraizou nas fundações do Mar; e lá os Teleri residiriam como quiseram sob a luz das estrelas do céu e ainda assim à vista de Aman e do litoral imortal; e eles podiam ver ao longe a Luz das Árvores ao passar através do Kalakiryan, marcando as ondas escuras com prata e ouro.
                                                                    
$73    Ulmo atendeu o pedido com presteza, pois compreendia o coração dos Teleri, e no conselho dos Valar principalmente ele havia falado contra os chamados, considerando que seria melhor para os Quendi permanecerem na Terra-média. E os Valar ficaram pouco contentes ao saber o que ele havia feito; e Finwë lamentou que os Teleri não viessem e ainda mais quando soube que Elwë fora esquecido, e soube que não o veria novamente, a não ser nos salões de Mandos.


1152

       
$74    A este tempo Elwë Singollo, como é dito, acordou de seu transe, e residiu com Melian nas florestas de Beleriand. E ele era um grande senhor e nobre, o maior em estatura dentre todos os Filhos de Ilúvatar,  como um senhor dos Maiar; e um grande destino estava reservado a ele. Pois ele se tornou um rei renomado, e seu povo era formado por todos os Eldar de Beleriand; eles foram chamados de Sindar, os Elfos Cinzentos, os Elfos do Crepúsculo, e Rei Capacinzenta ele era, Elu Thingol na língua dos Sindar. E Melian era sua Rainha, mais sábia do que qualquer filho da Terra-média; e do amor de Thingol e Melian veio ao mundo o mais belo de todos os Filhos de Ilúvatar que jamais haveria de existir.
                                                            

1161

$75    Veio a acontecer que após os Teleri terem morado na Ilha Solitária por uma centena de anos segundo as nossas contagens seus corações mudaram, e eles foram movidos em direção à Luz que fluía de Aman. Então Ossë (8) ensinou a eles a arte da construção de navios, e quando seus navios estavam prontos ele trouxe, como um presente de despedida, muitos cisnes de asas fortes. E os cisnes puxaram os navios brancos dos Teleri por sobre o mar sem vento. Então finalmente e por último chegaram a Aman e ao litoral de Eldamar, e lá os Noldor os recepcionaram com alegria.

1162

$76    Neste ano Olwë senhor dos Teleri, com a ajuda de Finwë e dos Noldor, começou a construção de Alqualondë, o Porto dos Cisnes, no litoral de Eldamar, a norte do Kalakiryan.


1165

$77    Neste ano o último dos Vanyar partiu de Tirion, e os Noldor residiriam lá sozinhos, e suas conversas e amizade a partir de então foi com os Teleri.

 

NOTAS

1. Esta sentença é uma interpolação no manuscrito, e é uma reescrita de uma interpolação anterior:

    E este, talvez, foi também um dos primeiros resultados das mentiras de Melkor para enganar os Quendi, pois apesar de sua permanência temporária entre eles muitos ainda o temiam e a Nahar sua montaria.

A versão datilografada tem a forma dada no texto.

2. Esta é uma modificação de ‘foram a norte até Helkar ser ultrapassado e depois noroeste’, o texto datilografado tem a sentença modificada.

3. Meu pai acrescentou rapidamente aqui, usando uma caneta esferográfica e portanto aparentemente muito mais tarde (ver p. 102, $78):

    Aqui residiram por um ano, e aqui Indis esposa de Finwë deu a ele um filho, o mais velho de todos da segunda geração dos Eldar. Ele foi inicialmente chamado Minyon Primeiro-nascido, mas depois Curufinwë ou Fëanor.

    Isto foi riscado, talvez tão logo quanto escrito, ver nota 5.

4. ‘e elas foram elevadas por Melkor para obstruir as cavalgadas de Oromë’ é uma adição a lápis que aparece como texto normal na versão datilografado.

5. Adicionado aqui ao texto ao mesmo tempo e da mesma forma que o trecho dado na nota 3 (e riscado ao mesmo tempo em que este):

Aqui Indis esposa de Finwë foi perdida, e caiu de uma grande altura. Seu corpo foi encontrado em uma ravida profunda e lá enterrado. E quando Finwë não queria mais seguir, e desejou permanecer lá, Oromë falou com ele do destino dos Quendi e de como eles poderiam retornar, se desejassem, após um certo tempo.  Pois seus espíritos não morrem e não deixam Arda, e por ordem de Eru um local de residência foi feito para ele em Aman. Então Finwë ficou ávido por seguir adiante.

6. Após isto existe no manuscrito: ‘e Ingwë e sua casa foram a Valinor, e moraram para sempre com o povo de Manwë’. Isto foi riscado e não aparece na versão datilografada, mas reaparece no registro para 1140.

7. Kalakiryan é uma correção a lápis para Kalakirya, e para ocorrências subseqüentes (mas bem ao final dos Anais, p. 133, $180, Kalakiryan é a forma usada no manuscrito).

8. Ulmo no manuscrito como escrito inicialmente, alterado logo para Ossë.


Comentários sobre a terceira seção dos


Anais de Aman

Esta seção de AAm corresponde ao Capítulo 3 do QS Da Chegada dos Elfos (incluindo 3(b) De Thingol e 3(c) De Kôr e Alqualondë) de $22 a $39 e elementos de $$43-5, e até AV 2, Anos dos Valar 1980 – 2111. Estes textos são encontrados em V.213 ff., 112 – 13.

Uma comparação apressada mostra que uma ocorreu uma ampliação extensão geral e em certos detalhes; e apesar de um desenvolvimento concorrente ter ocorrido também na tradição ‘Silmarillion’ (com o qual AAm não tem poucas frases em comum), AAm é uma narrativa bastante distinta, com um grande número de características ausentes em outras tradições e algumas divergências. Aqui, como antes, eu cito os desenvolvimentos mais importantes no AAm com relação às narrativas pré-Senhor dos Anéis; e em muitos casos eu me limito a uma simples referência aos novos elementos que entraram nas lendas, ficando implícito em tais casos que o assunto em questão é completamente novo.

$51    Melkor implorou por perdão no Círculo do Destino, os Valar desejaram condená-lo à morte, mas ninguém pode matar qualquer um da raça dos Valar, nem removê-los de Ea, a não ser Eru.


$52
    Melkor foi condenado por Mandos a três eras (trezentos Anos dos Valar), em AV 2 e em QS ($47) ele foi condenado a sete eras.


$54
    Elwë, o terceiro dos ‘embaixadores’, é agora o próprio Thingol, enquanto que no QS ele era o irmão de Thingol, ver V.217 $ 23, e confira AV 2 (V.112): ‘Thingol, irmão de Elwë, senhor dos Teleri’. O irmão de Elwë-Thingol agora se torna Olwë ($58).


$57
    Apenas ‘a maior parte’ dos povos de Finwë e Olwë desejavam partir. Os Avari eram o povo de Morwë e Nurwë (e presumivelmente aqueles dos outros povos que não partiriam); e uma explicação é dada para sua não partida: eles residiam mais longe de Kuiviénen e não viram Oromë em sua primeira vinda.

$58    O Primeiro Grupo agora recebe o nome Vanyar, e não Lindar com antes (confira p. 34, $36). O Terceiro Grupo, os Teleri, tinham dois senhores, os irmãos Elwë e Olwë, e Elwë é agora chamado Singollo (‘Capacinzenta’, $65, em QS Sindo ‘o Cinzento’, $30). – A rota tomada pelos Eldar na Grande Marcha é descrita (e concorda bastante bem com o caminho mostrado no mapa do Ambarkanta, IV.249). Muitos desistiram com medo das grandes nuvens que ainda permaneciam no Norte.

$59    A lentidão da jornada é descrita: o maravilhamento dos Elfos, a relutância de muitos em completar a jornada, as longas paradas. A jornada tomou vinte Anos dos Valar; em AV 1 ele demora dez (IV.272), e aparentemente o mesmo em AV 2.


$$60-1
    Nomes importantes entram a partir de O Senhor dos Anéis: Anduin, Eriador, Hithaeglir (‘as Torres de Névoa’); a floresta a leste do rio não é nomeada, mas é claro que é a Floresta das Trevas. A origem das Hithaeglir é contada: elas foram elevadas por Melkor para obstruir as cavalgadas de Oromë.  Eu observei (IV. 256-7) em conexão com o mapa do Ambarkanta que não há sinal ali das Montanhas Nebulosas ou do Anduin (que apareceu inicialmente, assim como a Floresta das Trevas, em O  Hobbit, onde o rio é chamado de Grande Rio das Terras Ermas).

    Os Teleri permaneceram na margem leste do Anduin enquanto os Vanyar e os Noldor cruzaram o rio e subiram às passagens das Montanhas Nebulosas.


$63
    É a este ponto da Grande Marcha que os Nandor se separaram, e vão ao sul acompanhando o Anduin; eles eram dos Teleri (do grupo de Olwë), e o nome de seu líder era Nano, ou Dân na fala de seu próprio povo. Em QS ($28) e AV 2 este povo era dos Noldor, e em QS eles eram chamados Danas em sua própria língua, devido ao seu primeiro líder, Dân, similarmente ao Lhammas (V. 175-6). O nome Nandor não aparecer nestes textos, mas veja o Etimologias, raízes DAN e NDAN (V.353, 375), e também V.188.


$63
    O medo do Mar entre os Vanyar e Noldor fez muitos fugirem do litoral para as florestas de Beleriand, e Oromë retornou a Valinor em busca do conselho de Manwë.


$64
    Os Teleri relutantemente chegaram a Beleriand, incentivados por Elwë, e residiram inicialmente no leste, além do Rio Gelion. Elwë tinha grande amizade para com Finwë.


$65
    Elwë estava viajando de volta para casa de um encontro com Finwë quando entrou em Nan Elmoth. Este nome surge inicialmente na re-escrita pós-Senhor dos Anéis da Balada de Leithian (III.346 – 7, 349). Em QS ($32) não é dito onde o encontro de Thingol e Melian ocorreu, em AV 2 ‘Melian o encantou nas florestas de Belerian’. O transe no qual Elwë caiu durou muitos Anos dos Valar (registros 1130, 1152:  o que é mais do que dois séculos medidos pelo Sol).


$66
    Ulmo fez música para os Elfos e tornou seu medo do Mar em desejo. Os Teleri chegaram ao litoral do Mar quando ouviram que os Vanyar e Noldor partiram, e tomaram Olwë como seu rei.


$67
    O nome Kalakilya ‘Fenda de Luz’ é encontrado em QS e no Lhammas; confira Quenya kilya ‘fenda, passo entre colinas, ravina’, no Etimologias, raiz KIL (V.365). A forma no AAm, Kalakiryan, alterado rapidamente para Kalakirya (ver nota 7 acima).

    ‘Os Elfos tomaram posse de Eldamar, e começaram a construção na colina verdejante de Tuna’; confira também $$75-6 ‘o litoral, a costa, de Eldamar’. Isto contradiz a nota de rodapé em QS $39 (nunca alterada subseqüentemente, p. 176), onde Eldamar é um nome da cidade Élfica em si e Eldanor ou Elende a região onde os Elfos residiam (anteriormente, no mapa do Ambarkanta (IV.249), Casadelfos era nomeada Eldaros). O uso aqui (encontrado também na Balada de Leithian reescrita) é de fato uma reversão para o mais antigo significado de Eldamar; ver 1.251.

    A cidade é agora Tirion sobre Tuna, não Tuna sobre Kor, ver QS $39 e comentários, e também 1.258 (Kortirion). Mas meu pai continuou a usar Tuna também como o nome da cidade: por exemplo p. 97, $101, onde Melkor fala das palavras de Feanor ‘em Tuna’. Tirion é chamada aqui Tirion a Sagrada, assim no na canção de Bilbo em Valfenda. (VII.93, 98, 101).

$68    A Torre de Ingwë (Ingwemindon no QS) é agora Mindon Eldaliéva. No AAm Ingwë e ‘muitos de sua casa’ se mudaram de Tirion apenas sete Anos dos Valar depois da chegada dos Vanyar e Noldor a Aman, e no ano do término de Tirion e do acender da lâmpada de Ingwë; e a partida dos demais Vanyar é representado como um longo movimento durante 25 Anos dos Valar (ver $77). No QS ($45) uma impressão diferente é dada, pois é dito que ‘com o passar das eras os Lindar começaram a amar a terra dos Deuses e a luz plena das Árvores, e eles esqueceram a cidade de Tuna’.


$69
    Em QS ($16) Galathilion é o nome Gnômico de Silpion (Telperion), e não há menção de uma ‘imagem’ da Árvore Mais Velha sendo dada por Yavanna aos Noldor de Tirion (ver IX.58).

$70    O retorno de Ulmo ao litoral da Terra-média foi devido aos pedidos de Finwë. A afirmação de que Ossë ‘ia raramente a Aman, a não ser se chamado a conselho’ reflete a preservação no AAm (p. 48, $1) de sua antiga posição como um dos Valar. O meridional Porto de Falar agora reverte para a forma Eglarest, que precedeu o Eglarost de QS e AV 2. Círdan o Armador, senhor dos Portos, aparece do Senhor dos Anéis.


$71
    Embora não seja dito no QS que quaisquer outros dos Teleri, além dos Elfos de Falas, permaneceram na Terra-média quando Ulmo retornou, mas apenas aqueles do povo de Thingol ‘que procuravam por ele em vão’ ($32), é dito no Lhammas $6 (V.174) que Thingol era ‘rei em Beleriand dos muitos Teleri que … permaneceram em Falasse, e de outros que não partiram porque se demoraram procurando por Thingol nas florestas’. Em AAm ‘os parentes e amigos de Elwë também não desejavam partir’, e foram deixados para trás, e chamaram a si mesmo de Eglath, o Povo Esquecido.


$$72-3
    Ulmo concedeu rapidamente o pedido dos Teleri, pois ele tinha se oposto ao chamado dos Quendi a Valinor, e Ossë enraizou Tol Eressea no fundo do mar ao comando de Ulmo; mas os Valar não ficaram satisfeitos, e Finwë se entristeceu (principalmente pelo conhecimento de que Elwë Singollo seu amigo não estava em Tol Eressea). A forma final da lenda está agora, portanto, presente: ver QS $37 e comentários.

$74    O povo de Thingol eram ‘todos os Eldar de Belerind’, e eles foram chamados os Sindar, os Elfos Cinzentos. Esta é a primeira vez que encontramos o nome nos textos (como aqui apresentado); ele não ocorre em O Senhor dos Anéis exceto nos Apêndices. O nome Sindarin de Elwë Singollo é Elu Thingol (ver II.50).

$75    Os Teleri residiram por 100 anos do Sol em Tol Eressea, em QS ($43) e em AV 2 eles residiram lá por 100 Anos dos Valar (ver p. 183, $43).

    Foi Ossë, e não Ulmo como em QS, que ensinou ao Teleri a arte da construção de navios, mas quando o texto foi escrito (nota 8 acima) foi Ulmo quem o fez, e também foi Ulmo quem lhes deu os cisnes (Ossë no QS).

$76    Os Teleri tiveram a ajuda de Finwë e dos Noldor na construção de Alqualondë.

Os dois trechos relativos a Indis esposa de Finwë, escritos com rapidez nos $$60 e 61 (notas 3 e 5 acima) e depois riscados, são notáveis como os primeiros indícios do que teria se tornado um desenvolvimento posterior  importante da lenda Valinoriana, embora as histórias contadas aqui não mantenham relação com a narrativa posterior. Estas breves idéias rascunhadas, podem ter apenas passado, rejeitadas tão logo escritas, mas eles mostram a preocupação de meu pai com relação a Fëanor, sentindo que a grandeza de seus poderes e sua natureza formidável estavam relacionadas a uma origem singular – ele era o primogênito dos Eldar: isto quer dizer, ele não ‘acordou’ em Kuiviénen, mas teve um pai e uma mãe e nasceu na Terra-média. A idéia de que Finwë ficou desconsolado também surge; e esta é a primeira aparição do nome Curufinwë, para Fëanor.

*

Finalmente eu registro umas poucas notas tardias de um ou outro dos textos datilografados (cópia principal e cópia em carbono) dos Anais de Aman:

$65    ‘as árvores de Nan Elmoth’ > ‘as jovens árvores de Nan Elmoth’


$66
    Ao lado da palavra conchas está flauta de conchas em forma de chifre, com uma interrogação


$70
    Na primeira sentença meu pai escreveu ‘Necessita revisão’; mas eu não sei em que aspecto ele pretendia fazê-lo. Em ‘chamado a conselho’ ele escreveu um X e ‘ele [Ossë] não era um Vala, mas um líder dos Maiar, servo de Ulmo’. Ele fora removido dos Valar por uma correção no texto datilografado em $1 (p. 69).

Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português

Mitos Transformados

The History of Middle-earth 10J. R. R. Tolkien começou a rever e reanalisar vários aspectos de seu legendarium, de sua mitologia, principalmente na época pós-Senhor dos Anéis. Estas reconsiderações – embora nunca tenha passado do estágio de rascunhos criativos – são de imenso valor ao revelar a opinião de Tolkien sobre certos aspectos de sua obra.

Os textos originais são do The History of Middle-earth 10, com introdução e comentários de Christopher Tolkien. Este artigo introdutório serve de base para os demais textos bem como de índice para os mesmos, na Valinor.

Nesta última seção do livro eu forneço alguns textos tardios de meuc pai, variados em natureza, mas relacionados a, genericamente falando,  uma reinterpretação de elementos centrais na “mitologia” (ou  legendarium, como ele chamava) de acordo com os imperativos de uma  concepção fundamental grandemente modificada.
Alguns destes papéis (há notáveis exceções) oferecerem uma dificuldade excepcional: fluidez de idéias, expressão ambígua e alusiva, passagens ilegíveis. Mas o maior dos problemas é que existe pouca indicação de data externa ou relativa: ordená-los, mesmo em uma seqüência aproximada de composição, parece impossível (embora eu acredite que virtualmente todos eles vieram dos anos que viram a escrita de Leis e Costumes entre os Eldar, o Athrabeth e revisões tardias de partes do Quenta Silmarillion – o final dos anos de 1950, na pós-publicação de O Senhor dos Anéis)

Nestes textos pode ser lido o registro de um prolongado debate interior. Anos antes deste tempo, os primeiros sinais de idéias emergentes puderem ser vistos, sinais que se perseguidos causariam um distúrbio massivo em O Silmarillion: eu mostrei, como acredito, que quando meu pai começou a revisar e reescrever as narrativas existentes dos Dias Antigos, antes de O Senhor dos Anéis estar completo, ele escreveu uma versão do Ainulindalë na qual introduziu uma transformação radical do mito astronômico, mas àquele tempo ele conteve a mão. Mas agora, como será visto em muitos dos ensaios e notas que se segue, ele veio a acreditar que tal vasta agitação era uma necessidade, e ao mesmo tempo ele foi impelido a tentar construir uma base “teórica” ou “sistemática” mais segura para os elementos no legendarium que não seriam removidos. Com seus questionamentos, suas certezas dando espaço à dúvida, suas resoluções contraditórias, estes escritos devem ser lidos tendo-se consciência do estresse intelectual e imaginativo em face de tal desmantelamento e reconstituição, acreditada ser uma necessidade inescapável, mas nunca alcançada.

Os textos, organizados em uma seqüência frouxamente “temática”, são numerados com numerais Romanos. Quase todos receberam pequenas edições menores (assuntos de pontuação, inserção de palavras omitidas e afins). Notas numeradas (não presentes em todos os casos) seguem os textos individuais.

I

II – Criação do Sol e da Lua

III

IV

V

VI – Melkor Morgoth

VII – Notas sobre os motivos no Silmarillion

VIII – Orcs (i)

IX- Orcs (ii)

X- Orcs (iii)

XI- Aman

Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português

Os Anais de Aman – Segunda Seção

The History of Middle-earth XA Valinor tem a honra de prosseguir com a publicação da tradução dos Anais de Aman, um longo registro dos acontecimentos desde a criação de Arda até a Criação do Sol e da Lua. O texto está dividido em seis partes, publicadas quinzenalmente na Valinor (a primeira se encontra aqui) e esta segunda parte engloba o período dos Anos das Árvores até o Acorrentamento de Melkor.
 
 
 
Aqui começa um novo Registro sob a Luz das Árvores
1*

$30    Por mil anos das Árvores os Valar residiram em felicidade em Valinor além das Montanhas de Aman, e toda a Terra-média estava em um crepúsculo sob as estrelas. Para lá raramente os Valar iam, exceto apenas Yavanna e Oromë, e Yavanna freqüentemente lá andava, nas sombras, lamentando porque todo o crescimento e expectativas da Primeira de Arda foram interrompidos. E ela adormeceu muitas coisas belas que surgiram durante a Primavera, tanto árvore e erva e besta e pássaro, de forma que não envelheceriam mais e aguardariam por um tempo de acordar que ainda estava por vir. Mas Melkor residia em Utumno, e não dormia, mas observava e trabalhava; e as coisas malignas que ele pervertera andavam livremente, e as escuras e dormentes florestas eram assombradas por monstros e formas aterradoras. E em Utumno ele moldou a raça de demônios que os Elfos nomeariam Balrogs. Mas estes ainda não saíam dos portões de Utumno, devido à vigilância de Oromë.

$31    Oromë amava profundamente todas as obras de Yavanna, e ele estava sempre pronto para seu chamado. E por esta razão, e porque ele de vez em quando desejava cavalgar em florestas maiores e mais extensas do que as de Valinor, ele também ia com freqüência para a Terra-média, e lá partia em caçadas sob as estrelas. Então seu cavalo branco, Nahar, brilhava como prata nas sombras; e a terra adormecida tremida sob as batidas de seus cascos dourados. E Oromë soprava seu poderoso chifre, ao som do qual as montanhas tremiam, e as coisas malignas fugiam; e Melkor se acuava em Utumno e não ousava sair. Pois é dito que ao mesmo tempo que sua malícia e a força de seu ódio aumentavam, seu coração diminuía; e com todo seu conhecimento e seu poder e seus muitos servos ele se tornou covarde, dando combate apenas àqueles de pouca força, atormentando os fracos e deixando sempre que seus escravos e criaturas fizessem seu trabalho maligno. Mesmo assim seu domínio espalhou-se para o sul sobre a Terra-média, pois após Oromë passar os servos de Melkor se reuniam novamente; e a Terra estava cheia de sombras e mentiras.

(* A lápis abaixo de "1" está "AA" (Anos das Árvores) e também "AV 3501" (Ano dos Valar). – As datas "AA" foram freqüentemente alteradas no manuscrito, e em alguns lugares é bastante difícil interpretar as mudanças; eu forneço apenas as formas finais.)

1000

$32    Veio a acontecer que os Valar realizaram um conselho, pois ficaram preocupados com as informações que Yavanna e Oromë trouxeram das Terras de Fora. E Yavanna falou ante os Valar, e predisse que a chegada dos Filhos de Ilúvatar estava se aproximando, embora a exata hora e local de suas chegadas fossem conhecidas apenas do próprio Ilúvatar. E Yavanna pediu a Manwë para fornecer luz à Terra-média, para parar os males de Melkor e confortar os Filhos; e Oromë e Tulkas falaram da mesma forma, estando ávidos por guerra com Utumno.

$33    Mas Mandos falou e disse que embora a Chegada estivesse preparada ela ainda não aconteceria por muitos Anos; e os Filhos Mais Velhos deveriam vir na escuridão e olhar primeiro para as Estrelas. Por assim fora ordenado.

$34    Então Varda se retirou do conselho, e das alturas de Taniquetil olhou para longe, e contemplou a escuridão da Terra sob as estrelas inumeráveis, fracas e distantes. Então ela começou um grande trabalho, o maior de todos os trabalhos dos Valar desde sua vinda a Arda.

1000 – 1050

$35    Então Varda pegou a luz que saía de Telperion e estava armazenada em Valinor e fez estrelas novas e mais brilhantes. E muitas das estrelas antigas ela reuniu e colocou como sinais nos céus de Arda. O maior destes era Menelmakar, o Guerreiro do Céu. Este, é dito, era um sinal de Túrin Turambar, que deveria vir ao mundo, e uma previsão da Última Batalha que deverá ocorrer ao fim dos Dias.

1050

$36    Por último Varda fez o sinal de estrelas brilhantes que é chamado de Valakirka, a Foice dos Deuses, e este ela colocou próximo ao Norte como uma ameaça a Utumno e um sinal do destino de Melkor.

$37    Naquela hora, é dito, os Quendi, os Filhos Mais Velhos de Ilúvatar, despertaram: a estes os Homens chamaram de Elfos, e muitos outros nomes. Nas Águas do Despertar, Kuiviénen, ele se levantaram do sono de Ilúvatar e seus olhos viram antes de qualquer outra coisa as estrelas do céu. Devido a isso eles sempre amaram a luz das estrelas, e reverenciaram Varda Elentárië acima de todos os Valar.

$38    Nas mudanças do mundo as formas das terras e dos mares foram quebradas e refeitas; rios não mantiveram seus cursos, nem montanhas permaneceram imóveis; e para Kuiviénen não há retorno. Mas é dito entre os Quendi que ele fica distante na Terra-média, a leste de Endon (que é o ponto central) e ao norte; e era uma baía no Mar Interno de Helkar. E que esse mar ficava onde antes ficavam as raízes da montanha de Illuin antes de Melkor derrubá-la. Muitas águas corriam ali a partir das alturas do Leste, e o primeiro som que foi ouvido pelos Elfos foi o som da água correndo, e o som da água batendo na rocha.

$39    Por longo tempo os Quendi residiram em seu primeiro lar à água sob as estrelas e andavam pela Terra maravilhados; e eles começaram a criar uma língua e dar nomes a todas as coisas que percebiam. E nomearam a si mesmos os Quendi, significando aqueles que falam com vozes; pois ainda não tinham encontrado outros seres vivos que falassem ou cantassem.

$40    A este tempo também, é dito, Melian, a mais bela dos Maiar, desejando olhar as estrelas, subiu ao Taniquetil; e repentinamente ela desejou ver a Terra-média, e deixou Valinor e caminhou ao crepúsculo.

1085

$41    E quando os Elfos já habitavam o mundo por trinta e cinco Anos dos Valar (que é como trezentos e trinta e cinco de nossos anos) aconteceu que por acaso chance que Oromë cavalgou até Endon em sua caçada, e virou para o norte no litoral de Helkar e passou sob as sombras das Orokarni, as Montanhas do Leste. E repentinamente Nahar soltou um grande relincho e estancou. E Oromë se surpreendeu e permaneceu em silêncio, e pareceu a ele que na quietude da terra sob as estrelas ele ouvia ao longe o som de muitas vozes cantando.

$42    Então foi quando os Valar finalmente encontraram, como se fosse por acaso, aqueles a quem por tanto tempo esperavam. E quando Oromë olhou para eles se maravilhou, como se eles fossem coisas imprevistas ou inimaginadas; e ele amou os Quendi, e os nomeou Eldar, o povo das estrelas.

A página do manuscrito original foi interpolada neste ponto, um trecho sendo escrito na margem, como segue:

Mas por conhecimento posterior os mestres de conhecimento dizem que infelizmente Orome não foi, possivelmente, o primeiro dos Grandes a encontrar os Elfos, pois Melkor estava vigiando, e seus espiões eram muitos. E acredita-se que se escondendo furtivamente nas próximidades seus servos desviaram alguns dos Quendi que se aventuraram mais longe, e os levaram como cativos para Utumno, e lá os escravizaram. Destes escravos é dito terem vindo os Orkor que se tornaram os principais inimigos dos Eldar. E as mentiras de Melkor rapidamente estavam espalhadas, de forma que sussurros eram ouvidos entre os Quendi, alertando-os que se algum de sua raça sumisse nas sombras e não fosse mais visto, deveriam tomar cuidado com um cavaleiro sinistro em um grande cavalo, pois era este que os capturava para devorá-los. Foi por esta razão que, com a aproximação de Oromë, muitos dos Quendi fugiram e se esconderam.

O texto original então continua, com uma nova data 1086, "Rapidamente Oromë cavalgou de volta a Valinor e levou as novidades aos Valar" (ver $46 abaixo). Mas o trecho passagem interpolada citado acima foi subseqüentemente substituído em uma nova página pela seguinte passagem longa e importante $$43-5 (encontrada no texto datilografado original):

$43    Contudo muitos dos Quendi ficaram aterrorizados à sua chegada. Isto foi feito por Melkor. Pois por conhecimento posterior os mestres de conhecimento dizem que Melkor, sempre vigilante, soube do acordar dos Quendi primeiro, e enviou sombras e espíritos malignos para vigiá-los e emboscá-los. Então veio a acontecer, alguns anos antes da chegada de Oromë, que se qualquer um dos Elfos vagasse mais longe, sozinho ou em grupo pequeno, freqüentemente sumiam e nunca retornavam; e os Quendi diziam que o Caçador os pegara, e ficavam com medo. Contudo, nas mais antigas canções de nosso povo, das quais alguns ecos ainda são lembrados no Oeste, nós ouvimos das formas de sombra que andavam nas colinas de Kuiviénen, ou que passavam repentinamente em frente às estrelas; e do Cavaleiro negro em seu cavalo selvagem que perseguia aqueles que vagavam para capturá-los e devorá-los. Pois Melkor odiava e temia grandemente as cavalgadas de Oromë, e certamente ou enviava seus servos negros como cavaleiros, ou espalhava rumores mentirosos, com o propósito de que os Quendi deveriam evitar Oromë, se porventura se encontrassem.

$44    Por isso aconteceu que, quando Nahar relinchou e Oromë de fato veio entre eles, alguns dos Quendi se esconderam, e alguns fugiram e se perderam. Mas aqueles que tiveram a coragem de permanecer perceberam rapidamente que o Grande Cavaleiro era nobre e belo e não uma sombra da Escuridão; pois a Luz de Aman estava em sua face, e todos os mais nobres dos Quendi foram atraídos em sua direção.

$45    E daqueles dignos de piedade que foram capturados por Melkor pouco é sabido com certeza. Pois quem dentre os vivos desceu às profundezas de Utumno ou explorou a escuridão dos pensamentos de Melkor? Mesmo assim isto é tido como verdade pelos sábios de Eressëa: que todos aqueles dos Quendi que acabaram nas mãos de Melkor, antes de Utumno ser quebrada, foram lá postos na prisão e por artes lentas de crueldade e maldade foram corrompidos e escravizados. Desta forma Melkor gerou a terrível raça dos Orkor em inveja e paródia aos Eldar, de quem se tornaram após isto os mais amargos inimigos. Pois os Orkor tinham vida e se multiplicavam à maneira dos Filhos de Ilúvatar; e nada do que tem vida por si mesmo, nem a aparência de vida, Melkor jamais poderia criar, desde sua rebelião no Ainulindalë antes do Começo: assim dizem os sábios. E profundamente em seus corações escuros os Orkor detestavam o Mestre a quem serviam por medo, criador apenas de suas misérias. Isto, talvez, seja o ato mais vil de Melkor e o mais odioso a Eru.

1086

$46    Oromë permaneceu por algum tempo entre os Quendi, e então rapidamente cavalgou de volta a Valinor e levou as novidades aos Valar. E ele falou das sombras que perturbavam Kuiviénen. Então os Valar sentaram em conselho e debateram longamente o que seria o melhor a fazer para proteger os Quendi; mas Oromë retornou imediatamente à Terra-média e residiu com os Elfos.

1090

$47    Manwë sentou-se por longo tempo em Taniquetil, pensando, e finalmente resolveu declarar guerra a Melkor, ainda que Arda recebesse ainda mais danos naquela batalha. Pela primeira vez, portanto, os Valar atacaram Melkor e não ele aos Valar, e partiram para a guerra em todo seu poder, e eles o derrotaram completamente. Isto eles fizeram em prol dos Elfos, e Melkor bem o sabia, e não esqueceu.

1090 – 2

$48    Melkor confrontou o ataque dos Valar no Noroeste da Terra-média, e toda aquela região foi muito destruída. E a primeira vitória das hostes do Oeste foi rápida e fácil, e os servos de Melkor fugiram deles para Utumno. Então os Valar marcharam sobre a Terra-média e montaram uma guarda sobre Kuiviénen; por isso os Quendi não souberam nada a Grande Guerra dos Deuses, exceto que a Terra mexia e gemia abaixo deles, e as águas foram movidas; e no Norte ocorriam luzes como poderosos fogos. Mas após dois anos os Valar passaram ao norte distante e começaram o longo cerco a Utumno.

1092 – 1100

$49    Aquele cerco foi longo e terrível, e muitas batalhas foram travadas ante seus portões das quais nada são conhecidas aos Quendi, além de rumores. A Terra-média foi dolorosamente sacudida àquele tempo, e o Grande Mar que a separava de Aman aumentou e se aprofundou. E as terras no Norte distante foram todas desoladas naqueles dias, e assim permaneceram para sempre; pois lá Utumno fora escavada de maneira excepcionalmente profunda, e seus poços e cavernas alcançavam longe abaixo da terra, e estavam cheios de fogos e grandes hordas dos servos de Melkor.

1099

$50    E finalmente os portões de Utumno foram quebrados e seus salões postos a céu aberto, e Melkor se refugiou no poço mais profundo. Então, vendo que tudo estava perdido (àquele tempo), ele enviou repentinamente uma horda de Balrogs, os últimos remanescentes de seus servos, e eles atacaram o estandarte de Manwe como se fossem uma onda de chamas. Mas eles foram dispersos no vento de sua fúria e mortos pelo raio de sua espada; e Melkor finalmente ficou sozinho. Então, uma vez que ele era apenas um contra muitos, Tulkas adiantou-se como campeão dos Valar e lutou com ele e jogou-o de rosto no chão e o atou com a corrente Angainor. Assim terminou a primeira guerra do Oeste no Norte.


 
Comentários sobre a segunda seção dos
Anais de Aman

(Não há notas textuais nesta seção do texto). No trecho dado acima os Anais de Aman correspondem ao início do Capítulo 3 Da Chegada dos Elfos nas outras tradições do "Silmarillion" (QS $$18-21, HoME V). Contemporânea (mais ou menos) à escrita dos Anais de Aman foi a grande revisão do Quenta Silmarillion, mas aqui a comparação deve obviamente ser restrita ao texto pré-Senhor dos Anéis, junto com AV2, registros A.V. 1000- 1990 (HoME V).
 

$30
    No AAm é recontada o colocar, por Yavanna, de um sono sobre as coisas vivas que haviam acordado na Primavera de Arda, do qual não há sinal em QS (ou em reescritas posteriores).

A criação dos Balrogs é então mencionada; e enquanto em AAm ($17) o registro das "hordas" de Melkor, espíritos "dos vazios de Ëa" e "amigos secretos e espiões entre os Maiar" e mais completo do que nas outras tradições em qualquer estágio, os Balrogs ainda continuam firmemente citados como sendo demônios de sua própria criação, e mais, tendo sido feitos em Utumno àquele tempo. Sobre a concepção dos Balrogs em AAm veja além nos $$42-5, 50 neste comentário e especialmente $30.


$31
    Que o cavalo de Oromë era branco e ferrado com ouro é dito em QS ($24) e Q ($2), mas esta é a primeira aparição do nome do Cavalo, Nahar. Oromë é aqui representado como uma presença guardiã na Terra-média, em tal extensão que os Balrogs não foram liberados de Utumno devido a ele ($30); confira com AV2 (HoME V) "Morgoth se recolhia ante seu chifre".


$$34-6
    Sobre a criação das estrelas veja $24. Aqui se encontra a afirmação digna de nota de que Menelmakar (Orion) era "um sinal de Túrin Turambar, que deveria vir ao mundo, e uma previsão da Última Batalha que deverá ocorrer ao fim dos Dias". Isto é uma referência à Segunda Profecia de Mandos (no Quenta, HoME IV):


Então deverá ser travada a última batalha sobre os campos de Valinor. Naquele dia Tulkas lutará com Melkor, e à sua direita estará Fionwë e à sua esquerda estará Túrin Turambar, filho de Húrin, Conquistador do Destino; e será a espada negra de Túrin que trará a Melkor sua morte e fim definitivo; e então os filhos de Húrin e todos os homens estarão vingados.

 
O nome em Quenya Menelmacar é mencionado no Apêndice E (I) dO Senhor dos Anéis; nA Sociedade do Anel aparece a forma Sindarin: "o Guerreiro do Céu, Menelvagor, com seu cinto brilhante".


$37
    Que os Elfos acordaram ao primeiro brilhar da Foice dos Valar é dito em AV2 (HoME V); "ao surgirem as primeiras estrelas", QS $20.


$38
    A referência ao local de Kuiviénen é interessante. Sobre isso nada mais é dito na outra tradição além de que ficava "no Leste da Terra-média" (QS $20, preservado nos textos posteriores). No AAm Kuiviénen fica a Nordeste de Endon, o ponto central. Na lista de nomes acompanhando o Ambarkanta (HoME IV) aparece "ambar-endya ou Terra Média da qual Endor é o ponto central", e Endor está escrito sobre o centro da terra do meio nos diagramas do Ambarkanta (HoME IV) – no mapa (HoME IV) é marcado como um ponto: "Endor meio da Terra", e aqui é corrigido para Endon, a forma na presente passagem do AAm, embora mais tarde tenha voltado novamente para Endor (e da mesma forma na versão datilografada de AAm meu pai corrigiu Endon para Endor e em $41). Ver HoME IV.

No AAm Kuiviénen era "uma baía no Mar Interno de Helkar"; em QS ele é "o lago iluminado por estrelas" (e também no Q), o que é mantido nos textos posteriores. No mapa do Ambarkanta ele é mostrado no Nordeste de Endor (Endon), e está marcado no lado mais a leste do Mar de Helkar; no texto ele está "ao lado das águas de Helkar" (HoME IV). Não está claro se estas várias afirmações mostram uma mesma concepção. Aqui no AAm há a primeira referência ao Mar de Helkar (formado após a queda da Lâmpada do norte) desde o Ambarkanta – em cujo texto a própria Lâmpada é chamada Helkar; ver HoME IV.


$39
    Compare com QS $20: "Por algum tempo [Oromë] residiu entre eles, e ensinou-lhes o idioma dos Deuses, a partir do qual mais tarde fizeram a bela fala Élfica" e o Lhammas (HoME V): "dele [Oromë] aprenderam segundo sua capacidade a fala dos Valar, e todas as línguas que derivaram daí podem ser chamadas Oromianas ou Quendianas". E agora é dito no AAm que os Quendi desenvolveram sua própria linguagem, e que eles deram nomes "a todas as coisas que percebiam", antes mesmo de Oromë chegar até eles (que foi 335 Anos do Sol depois de seu despertar). Confira o Conto de Gilfanon no Livro dos Contos Perdidos (HoME I): "Os Eldar ou Quendi receberam o dom da fala diretamente de Ilúvatar".


$40
    Este parágrafo foi interpolado no manuscrito; ele aparece na versão datilografada original. A datação da partida de Melian a este tempo deriva dos Anais de Valinor (HoME IV, HoME V); no QS ($31) é dito que ela "freqüentemente partia de Valinor em longas jornadas nas Terras Daqui". O significado das palavras do AAm, de que Melian, "desejando olhar as estrelas, subiu ao Taniquetil", presumivelmente é de que ela subiu na encosta leste do Taniquetil, de onde a luz das Árvores ficava oculta.


$41
    Conforme comentado em HoME IV, a afirmação de que Oromë "virou para o norte no litoral de Helkar e passou sob as sombras das Orokarni, as Montanhas do Leste" concorda perfeitamente com o mapa do Ambarkanta (IV.249; no mapa as Orokarni são chamadas Montanhas Vermelhas).

"Ele ouvia ao longe o som de muitas vozes cantando": compare com QS $20: "E Oromë chegou junto a eles… enquanto eles permaneciam ainda silenciosos sob o lago iluminado pelas estrelas, Kuiviénen". Veja $39 acima.


$42
    QS ($20) tem aqui a extraordinária afirmação de que "Oromë ao olhar para os Elfos se encheu de amor e maravilhamento; pois a chegada deles não estava na Música dos Ainur, e estava escondida no pensamento secreto de Ilúvatar"; veja minha discussão sobre este trecho, HoME V.

Sobre a história do significado do nome Eldar veja as referências a isto dadas sob a entrada Eldar no Índice do HoME V


$42-5
    A origem dos Orcs. A primeira aparição da idéia de que suas origens estavam conectadas com os Elfos é no QS $18, e mais tarde em QS ($62) é dito que quando Morgoth retornou à Terra-média após a destruição das Árvores

 
ele trouxe à existência a raça dos Orcs, e eles cresceram e se multiplicaram nas entranhas da terra. Estes Orcs Morgoth fez por inveja e para desdenhar os Elfos, e eles eram feitos de pedra e seus corações de ódio.

(Sobre as visões mutáveis de meu pai com relação ao tempo da origem dos Orcs na cronologia dos Dias Antigos veja HoME IV, HoME V). Na interpolação do manuscrito AAm e na sua subseqüente reescrita e ampliação que aparece, junto com a história do Cavaleiro que os rumores afirmavam carregar os Quendi caso eles se perdessem, a teoria de que Melkor gerou os Orcs (aqui chamados Orkor) "em inveja e paródia aos Eldar" a partir dos Quendi escravizados no leste da Terra-média antes mesmo de Oromë chegar entre eles. É explícito ($45) que Melkor não poderia fazer nada que tivesse vida própria desde sua rebelião; mas isto está em aguda contradição com $30, onde é dito que "Utumno ele moldou a raça de demônios que os Elfos nomeariam Balrogs". Não acredito que a interpolação na qual a primeira destas afirmações aparece foi feita depois de um longo intervalo: as visões de meu pai sobre o assunto parecem ter mudado rapidamente, e um registro diferente da origem dos Balrogs é encontrado no logo abandonado texto datilografado que eu chamei AAM* (ver $30). A retenção da afirmação em $30, apesar de sua contradição com aquela em $45, foi devida sem dúvida a um erro não intencional, e ambas aparecem no texto datilografado principal de AAm – veja mais sobre a questão da origem dos Orcs em $127 e no Mitos Transformados.


$47
    As palavras "Pela primeira vez, portanto, os Valar atacaram Melkor e não ele aos Valar" mostra que a história do Ainulindalë de que os Valar teriam ido contra ele a partir de Valinor após a queda das Lâmpadas foi abandonada ($22)


$49
    Sobre as mudanças na Terra ao tempo da Grande Guerra dos Deuses como descritas no Ambarkanta ver HoME IV. Enquanto os dois textos não são necessariamente contraditórios, é curioso que deva ser dito no AAm que a este tempo "o Grande Mar que a separava [Terra-média] de Aman aumentou e se aprofundou" pois no Ambarkanta (HoME IV e ver também o mapa) a largura muito maior do Mar Ocidental do que o do Oriental veio a acontecer à época da fundação de Valinor:

    Para suas proteções adicionais os Valar lançou a Terra-média do centro para o leste, de forma que ficou desequilibrada, e o grande mar do Oeste é bastante largo no meio, o mais largo de todas as águas da Terra. A forma da Terra no Leste era muito parecida com a do Oeste, exceto pelo estreitamento do Mar Oriental, e o deslocamento da terra para aquele lado.


$50
    É notável que os Balrogs continuassem a este tempo, quando O Senhor dos Anéis já fora completado, a ser concebidos como tendo existido em números muito grandes (Melkor enviou repentinamente "uma horda de Balrogs"); ver $50


*

O texto datilografado (AAm*) que meu pai começou mas logo abandonou continua um pouco além do ponto atingido na primeira seção. Diferenças significativas do AAm são as que se seguem:


$30
    … Mas Melkor residia em Utumno, e não dormia, mas observava e trabalhava; e quaisquer bem que Yavanna trabalhar nas terras ele desfazia se pudesse, e as coisas malignas que ele pervertera andavam livremente, e as escuras e dormentes florestas eram assombradas por monstros e formas aterradoras. E em Utumno ele multiplicou a raça de espíritos malignos que o seguiram, os Úmaiar, de quem o chefe eram aqueles demônios a quem os Elfos mais tarde nomearam os Balrogath. Mas estes ainda não saíram dos portões de Utumno, devido ao seu medo de Oromë.

A parte final deste trecho é de muito interesse pois mostra um destacado desenvolvimento da idéia de que Melkor "fez" os Balrogs a este tempo. Eles agora se tornaram "espíritos malignos (Úmaiar) que o seguiram" – mas ele podia "multiplicá-los". O termo Úmaiar, não visto antes, está para Maiar assim como Úvanimor para Vanimor (ver HoME IV, nota de rodapé).


$31
    … e lá partia em caçadas sob as estrelas. Ele tinha grande amor por cavalos e cães de caça, mas todas as bestas estavam em seu pensamento, e ele caçava apenas os monstros e criaturas caídas de Melkor. Se ele os visualizava de longe ou seus grandes cães de caça os farejavam, então seu cavalo branco, Nahar, brilhava como prata enquanto corria através das sombras, e a terra dormente tremia com as batidas de seus cascos dourados. E ao mort Oromë iria soprar seu grande chifre, até as montanhas tremerem…
mort: o toque soprado na morte da caça

… e deixando que seus escravos fizessem seu trabalho maligno. [seus escravos e criaturas, AAm]


$32
    Veio a acontecer que que Manwë convocou os Valar para um conselho, pois eles ficaram preocupados com as informações que Yavanna e Oromë trouxeram das Terras de Fora, dizendo que se Melkor fosse deixado continuar a trabalhar sua vontade sem ser molestado, toda a Terra-média cairia em ruína irrecuperavelmente; e Manwë sabia que a chegada dos Filhos de Ilúvatar estava se aproximando, embora a exata hora e local de suas chegadas fosse conhecidas apenas do próprio Ilúvatar. E Manwë falou disso aos Valar; e Yavanna que a ele que desse luz à Terra-média, para parar os males de Melkor e dar conforto aos Filhos; e

Aqui o texto datilografado de AAm* acaba, ao pé de uma página. Uma vez mais, o que começou como uma cópia estava mudando com ordenada velocidade em uma nova versão. Mas não vejo razão para pensar que qualquer trecho extra jamais tenha existido.


*

Restam ser consideradas umas poucas alterações tardias rabiscadas e notas feitas em uma ou outra cópia da versão datilografada do texto todo.


$$38, 41
        Endon > Endor (ver $38).


$42
    ‘e os nomeou Eldar, o povo das estrelas’ > ‘e os nomeou o povo das estrelas’. Na margemn meu pai escreveu (isto é, com referência ao texto original): ‘mas ele não podia – [?como isso] era Quenya tardio’.


$43
    Ao lado do meio deste parágrafo há uma nota na margem: ‘Alterar isso. Orcs não são Élficos’. Ver pp. 408 e seguintes.


$50
    ‘uma horda de Balrogs, os últimos remanescentes de seus servos’ > ‘uma horda de Balrogs, os últimos de seus servos que permaneceram fiéis a ele’. Na margem meu pai escreveu: ‘Não se deve supor que mais do que digamos 3 ou no máximo 7 jamais existiram’. Ver $50.

Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português

Os Anais de Aman – Primeira Seção

The History of Middle Earth X - Morgoth's RingOs Anais de Aman são uma cronologia detalhada desde a criação do mundo até o final da Primeira Era, incluindo uma explicação sobre a maneira  de contar Anos dos Valar. Foi publicado no The History of Middle Earth X – Morgoth’s Ring e consiste de seis seções – das quais esta é a primeira – cada uma comentada extensivamente por Christopher Tolkien, das quais aqui publicamos a primeira.
Notas de Tradução: Os tempos verbais e a pontuação foram mantidos no original, o que pode causar alguma estranheza, principalmente quando o uso deles, por Tolkien, não é consistente. E, infelizmente, para este texto ser traduzido fora do contexto geral do livro tivemos que retirar/substituir as citações às páginas dos livros, mas mantivemos referências genéricas aos parágrafos e livros. A perda de entendimento é mínima dentro de um texto que já é complexo por si mesmo, principalmente com relação às Notas de Christopher Tolkien.

 

Os Anais de Aman


A segunda versão (anterior aO Senhor dos Anéis) dos Anais de Valinor (AV2) foi publicada no The History of Middle Earth V (HoME V). Lá mencionei que a primeira parte de AV2 fora – anos depois – coberta de correções e de novos trechos e que este novo trabalho era o rascunho inicial dos Anais de Aman. Neste caso eu não perderei tempo com o rascunho original, exceto por alguns pontos levantados pelo mesmo, comentados nas notas. Ele não se estende muito – nem tão longe quanto o surgimento das Duas Árvores, e até onde vai é extremamente parecido com os Anais de Aman; mas meu pai evidentemente decidiu rapidamente embarcar em um texto novo completamente diferente.

Sobre os Anais de Aman, ao qual eu me referirei pelo resto deste texto pela abreviatura ‘AAm’, existe um manuscrito bom e claro, com uma boa quantidade de correções em diferentes ‘camadas’. Adições pertencendo ao tempo da composição, ou logo depois, foram cuidadosamente feitas; e o manuscrito dá a impressão de ser uma ‘cópia boa’, um segundo texto. Mas enquanto passagens do rascunho podem ter sido perdidas, eu duvido muito que um ‘primeiro texto’ completo dos Anais existiu (ver nota 17). O trabalho certamente pertence ao grande desenvolvimento e recontagem dos Assuntos dos Dias Antigos que meu pai realizou quando O Senhor dos Anéis foi concluído, e ele permanece em correlação próxima às revisões daquele tempo dos trechos correspondentes do Quenta Silmarillion (HoME V, referido a partir de agora como QS), o texto que fora abandonado em 1937. De forma igualmente clara ele segue o último texto do Ainulindalë (D).

Existe uma versão datilografada por um amanuense de AAm contendo algumas correções e notas tardias, junto com uma cópia em carbono contendo muito poucas, mas diferentes, correções; sou inclinado a datar este texto de 1958, embora a evidência disto é mais um assunto de inferência e sugestão. Existe também um interessante e divergente texto datilografado da parte mais antiga do trabalho, feita por meu pai.

Eu forneço o texto completo da narrativa dos Anais, incorporando as correções feitas a ele; quando leituras anteriores às correções são de interesse eu as listo nas notas. Eu numero os parágrafos para subseqüente referência, e sendo o texto longo eu por conveniência o dividi em seis seções. As seções são seguidas por notas textuais numeradas (exceto no caso da seção 2) e em seguida por um comentário referenciando os números de parágrafo.

As datas dos Anos das Árvores nos anais foram alteradas com freqüência – em alguns casos há tantas quanto seis substituições – e eu dou apenas a forma final. Uma vez que o contínuo alterar de datas não parece estar em nenhum caso associado com mudanças na narrativa, e uma vez que a articulação final das datas parece ter sido obtida após a conclusão do manuscrito, acredito ser suficiente apontar que meu pai inicialmente permitiu um número de anos maior entre o surgimento das Árvores e sua destruição. Assim inicialmente as Silmarils foram obtidas por Fëanor no Ano das Árvores 1600 (mais tarde 1450), e Tulkas foi enviado para capturar Melkor em 1700 (mais tarde 1490) – embora outras datas tenham sido propostas e rejeitadas como estas. A partir deste ponto a datação revisada (1490 – 1500) é a única, mas aqui também as datas foram muito alteradas em detalhes, e o resultado final não é perfeitamente claro em todos os pontos.

Primeira Seção dos Anais de Aman

A primeira página do AAm existe em duas formas, ambos bons manuscritos, idênticos em tudo exceto no título e no breve preâmbulo.

O primeiro tem o título Os Anais de Valinor, e começa assim: ‘Aqui começam os Anais de Valinor, e falam da chegada dos Valar a Arda’; além do título foi acrescentado: ‘Estes foram escritos por Quennar i Onótimo que aprendeu muito, e emprestou muito, de Rúmil; e foram ampliados por Pengoloð’. Esta última frase foi riscada, e o título e preâmbulo corrigidos para a forma que têm na segunda cópia, como dada abaixo, com Valinor > Aman e a adição das palavras ‘que Rúmil escreveu (fez)’. Eu imagino que meu pai recopiou esta página porque desejava que ela parecesse bem e a rabiscou com estas mudanças. O título Anais de Aman surge neste ponto, portanto, e muito possivelmente o significado final do nome Aman também: ele ocorre uma vez em Ainulindalë D, mas como uma adição ao texto.

OS ANAIS DE AMAN

Aqui começam os Anais de Aman, que Rúmil fez, e fala da chegada dos Valar a Arda:

$1 No Início Eru Ilúvatar criou Ëa, o Mundo que é (1), e os Valar entraram nele, e eles são os Poderes de Ëa. Estes são os nove líderes dos Valar que residiram em Arda: Manwë, Ulmo, Aulë, Oromë, Tulkas, Ossë, Mandos, Lorien (2) e Melkor.

$2 Destes Manwë e Melkor eram os mais poderosos e eram irmãos. Manwë é o senhor dos Valar, e sagrado; mas Melkor se voltou para o desejo de poder e para o orgulho, e tornou-se mal e violento, e seu nome é amaldiçoado, e não é pronunciado; ele é chamado Morgoth. Oromë e Tulkas eram os mais jovens no pensamento de Eru ao divisar o Mundo, e Tulkas veio rapidamente ao reino de Arda. As rainhas dos Valar são sete: Varda, Yavanna, Niënna, Vairë, Vana, Nessa e Uinen. Não menores em poder e majestade são do que os líderes e sempre se sentam nos conselhos dos Valar.

$3 Varda era a esposa de Manwë desde o início, mas Aulë desposou Yavanna, irmã de Varda, em Ëa (3). Vana a bela, irmã mais nova de Varda, é a mulher de Oromë; e Nessa, a irmã de Oromë, é a mulher de Tulkas; e Uinen, senhora dos mares, é mulher de Ossë. Vairë a tecelã mora com Mandos. Nenhuma esposa possui Ulmo, nem Melkor. Nenhum senhor possui Niënna a cheia de pesar, rainha da sombra, irmã de Manwë e Melkor. A mulher de Lorien é Estë a pálida, mas ela não vai aos conselhos dos Valar e não é registrada entre os regentes de Arda, mas é a senhora dos Maiar.

$4 Com estes grandes poderes vieram muitos outros espíritos de mesmo tipo mas menos poder e autoridade; estes são os Maiar, os Belos (4), o povo dos Valar. E entre eles são contados os Valarindi, os descendentes dos Valar, seus filhos nascidos em Arda, mas ainda assim da raça dos Ainur que existia antes do Mundo; eles são muitos e belos.

Neste ponto meu pai escreveu: Isto é retirado do trabalho de Quennar Onótimo. Estas palavras se referem não ao que precede mais à passagem que se segue, chamada Do Início do Tempo e seu Registro (embora no preâmbulo – riscado – da primeira página rejeitada de AAm Quennar i Onótimo é dito ter sido o autor de todos os Anais).

A seção inteira sob o assunto do Registro do Tempo foi mais tarde anotada com lápis: ‘Transferir para o Conto dos Anos’. O Conto dos Anos, uma lista cronológica do mesmo tipo daquela no Apêndice B de O Senhor dos Anéis, existe em diferentes formas, associadas com os Anais mais antigos e mais tardios; a forma mais tardia, associada de perto com AAm e seu acompanhante os Anais Cinzentos (Anais de Beleriand), é talvez o mais complexo e difícil de todos os textos que meu pai deixou. Isto não precisa nos preocupar aqui; mas associados a ele estão dois belos manuscritos (um deles, o mais tardio dos dois, dentre os mais belos que ele fez: veja o frontispício) dando de forma quase idêntica o mesmo texto de Do Início do Tempo e seu Registro como encontrado aqui no AAm, mas o colocando como o início de O Conto dos Anos e o prelúdio à lista cronológica de eventos. Estes dois manuscritos são, claramente, mais tardios que o texto em AAm, e alguns pontos nos quais diferem são dados nas notas. AAm continua:

Isto é retirado do trabalho de Quennar Onótimo (5).

Do Início do Tempo e seu Registro

$5 O tempo começou de fato com o começo de Ëa, e naquele começo os Valar vieram ao Mundo. Mas a medida que os Valar fizeram das eras de seus trabalhos não é conhecida de nenhum dos Filhos de Ilúvatar, até o primeiro florescer de Telperion em Valinor. Depois disso os Valar contaram o tempo pelas eras de Valinor, onde cada era continha cem dos Anos dos Valar; e cada ano desses era mais longo do que nove anos sob o Sol (6).

$6 Agora medido pelo florescer das Árvores havia doze horas em cada Dia dos Valar, e mil desses dias dos Valar formavam um ano em seu reino. Supõe-se pelos Mestres de Conhecimento que os Valar fizeram desta forma as horas das Árvores de tal forma que cem de tais anos assim medidos seriam a duração de uma era dos Valar (7) (assim como tais eras eram nos dias de seus trabalhos antes da fundação de Valinor) (8).  De qualquer forma isto não é sabido com certeza.

$7 Mas para os Anos das Árvores e aqueles que vieram depois (9), um de tal Ano era mais longo do que nove dos anos como são agora. Pois existiam em cada Ano doze mil horas. E as horas das Árvores eram cada uma sete vezes mais longa do que uma hora  em pleno dia na Terra-média, de nascer a nascer do sol, quando a luz e a escuridão são igualmente divididas (10). Portanto cada Dia dos Valar durava quatro e oitenta de nossas horas, e cada Ano quatro e oitenta mil: o que é tanto quanto três mil e quinhentos dos nossos dias, e é pouco mais do que nove e meio de nossos anos (nove e meio e oito centésimos e ainda mais um pouco) (11).

$8 É registrado pelos Mestres do Conhecimento que isto não é exatamente como os Valar criaram no fazer e ordenar (12) da Lua e do Sol. Pois era a intenção deles que dez anos do Sol, não mais nem menos, tivesse a mesma duração que um Ano das Árvores tivera; e era de seu primeiro intento que cada ano do Sol contivesse setecentas vezes a luz do sol e a luz da lua, e cada uma dessas vezes deveria conter doze horas, cada uma durando um sétimo de uma hora das Árvores. Por esse registro cada ano do Sol conteria trezentos e cinqüenta dias plenos de luz dividida entre luz da lua e luz do sol, o que são oito mil e quatrocentas horas, sendo iguais a mil e duzentas horas das Árvores ou um décimo de um Ano dos Valar. Mas a Lua e o Sol se provaram mais indisciplinados e lentos em sua passagem do que os Valar pretendiam, como dito a seguir (13), e um ano do Sol e um pouco maior do que era um décimo de um Ano em Dias das Árvores.

$9 O ano do Sol mais curto foi assim feito (14) por causa da maior velocidade de todo o crescimento, e da mesma forma de toda mudança e esvaecer, que os Valar sabiam que viria a acontecer após a morte das Árvores. E após aquele mal ter acontecido os Valar registraram o tempo em Arda pelos anos do Sol, e ainda o fazem, mesmo após a Mudança do Mundo e o ocultar de Aman; mas dez anos do Sol eles contam agora como um ano (15), e mil como um século. Isto é retirado do Yénonótië de Quennar: quoth Pengoloð (16).

$10 É registrado pelos mestres de conhecimento que os Valar vieram para o reino de Arda, que é a Terra, cinco mil Anos dos Valar antes do primeiro nascer da Lua, o que é tanto quanto dizer quarenta e sete mil e novecentos e um de nossos anos. Destes, três mil e quinhentos (ou trinta e três mil, cento e trinta em nosso registro) se passaram antes que a primeira medida de tempo conhecida pelos Eldar se iniciasse com o florescer das Árvores. Aqueles foram os Dias antes dos dias. Depois disso mil e quatrocentos e noventa e cinco Anos dos Valar (ou catorze mil e trezentos e vinte e dois de nossos anos) se seguiram durante os quais a Luz das Árvores brilhou em Valinor. Estes foram os Dias de Felicidade. Naqueles dias, no Ano mil e cinqüenta dos Valar, os Elfos acordaram em Kuiviénen e a Primeira Era dos Filhos de Ilúvatar começou (17).

1 O Primeiro Ano dos Valar em Arda

$11 Após eras de trabalho nos grandes salões de Ëa além do conhecimento ou registro os Valar desceram à Arda no começo de sua existência, e começaram lá seus trabalhos pré-divididos dando forma a suas terras e águas, das fundações às mais altas torres do Ar.

$12 Mas seus trabalhos foram frustrados e afastados de seus objetivos, pois Melkor reivindicou o domínio de Arda, e reivindicou o reinado e ficou em discórdia com Manwë. E Melkor provocou grande ruína com fogo e frio mortal e desfigurou tudo que os outros Valar fizeram.

1500

$13 Aconteceu que, ouvindo de longe sobre a guerra em Arda, Tulkas o Forte partiu de distantes regiões de Ëa para o auxílio de Manwë. Então Arda foi preenchida com o som de sua risada, mas ele voltou uma face de fúria a Melkor; e Melkor fugiu ante sua ira e sua felicidade, e abandonou Arda, e existiu uma longa paz.

$14 Então os Valar começaram seus trabalhos novamente; e quando as terras e águas estavam ordenadas os Valar tiveram necessidade de luz, para que as sementes imaginadas por Yavanna pudessem crescer e ter vida. Então Aulë fez duas grandes lâmpadas, como se fossem de prata e ouro mas translúcidas, e Varda preencheu-as com fogo sagrado, para dar luz à Terra. Illuin e Ormal foram chamadas. 1900 E foram colocadas sobre pilares poderosos como montanhas no meio de Arda, ao
norte e ao sul.

$15 Então os Valar continuaram seus trabalhos até todo o reino de Arda estar ordenado e preparado, e aconteceu um grande crescimento de árvores e ervas, e bestas e pássaros vieram e residiram nas planícies e nas águas, e as montanhas eram verdes e belas de se olhar. E os Valar fizeram sua morada sobre uma ilha verdejante no meio de um lago; e aquele lago estava entre Illuin e Ormal bem no centro de Arda; e lá ficava a Ilha de Almaren, e por causa da mistura das luzes, todas as coisas eram mais ricas em crescimento e mais belas em cor. Mas os Valar raramente se reuniam lá, pois sempre viajavam por Arda, cada um em seus afazeres.

$16 E veio a acontecer que finalmente os Valar ficaram satisfeitos, e desejaram descansar um pouco do trabalho e observar o crescimento e desenvolvimento das coisas que tinham imaginado e começado. Então Manwë ordenou uma grande festa e convocou todos os Valar e rainhas dos Valar para Almaren, junto com seus povos. E eles vieram a seu comando; mas Aulë, é dito, e Tulkas estavam cansados; pois o ofício de Aulë e a força de Tulkas estiveram a serviço de todos sem cessar nos dias de seus trabalhos.

$17 Melkor sabia de tudo que fora feito; pois mesmo então ele tinha amigos secretos e espiões entre os Maiar que ele convertera à sua causa, e dentre estes o principal, como mais tarde ficou conhecido, era Sauron, um grande artífice da casa de Aulë. E distante em lugares escuros Melkor estava cheio de ódio, invejoso do trabalho de seus pares, os quais ele desejava tornar sujeitos a si mesmo. Então ele reuniu para si espíritos dos vazios de Ëa que ele pervertera a seu serviço e considerou-se forte. E vendo novamente seu tempo ele se aproximou de Arda e olhou sobre ela, e a beleza da Terra e sua Primavera o encheu ainda com mais ódio.

3400

$18 Então os Valar reunidos em Almaren festejaram e ficaram felizes, não temendo nenhum mal, e devido à luz de Illuin eles não perceberam a sombra no Norte que fora lançada de longe por Melkor; pois ele se tornara escuro como a Noite do Vazio (18). E é cantado que na festa da Primavera de Arda Tulkas desposou Nessa a irmã de Oromë, e Vana cobriu-a de flores e ela dançou perante os Valar sobre a grama verde de Almaren.

$19 Então Tulkas dormiu, estando cansado e satisfeito, e Melkor considerou que sua hora havia chegado. Então ele atravessou as Muralhas da Noite (19) com sua horda, e chegou à Terra-média no Norte; e os Valar não estavam cientes dele.

$20 Melkor começou a escavação e construção de uma vasta fortaleza profundamente sob a Terra, embaixo de montanhas escuras onde a luz de Illuin era fraca (20). Este forte ele chamou Utumno. E embora os Valar não soubessem de nada disso ainda, mesmo assim o mal de Melkor e a destruição causada por seu ódio se espalharam, e a Primavera de Arda foi desfigurada, e as coisas vivas se tornaram doentias e apodrecidas ou foram corrompidas em formas monstruosas.

3450

$21 Então os Valar souberam que de fato Melkor estava agindo novamente, e procuraram por seu esconderijo. Mas Melkor, confiando na força de Utumno e no poder de seus servos, veio repentinamente à guerra, e desferiu o primeiro golpe, antes dos Valar estarem preparados. E ele atacou as luzes de Illuin e Ormal e destruiu seus pilares, e quebrou suas lâmpadas. Então na queda dos poderosos pilares as terras se partiram e os mares se elevaram em tumulto; e quando as lâmpadas se derramaram chamas destruidoras se espalharam sobre a Terra. E a forma de Arda e a simetria de suas águas e terras foi desfigurada àquele tempo, de tal forma que depois os planos iniciais dos Valar nunca foram recuperados.

$22 Na confusão e escuridão Melkor escapou, embora o medo tenha caído sobre ele; pois acima do rugir dos mares ele ouviu a voz de Manwë como um poderoso vento, e a terra tremeu sob os pés de Tulkas. Mas ele chegou a Utumno antes que Tulkas pudesse alcançá-lo, pois a maior parte da força deles foi necessária para refrear os tumultos da  Terra, e para salvar da ruína tudo de seus trabalhos que pudesse ser salvo; e depois disso temeram remexer a Terra novamente, até que soubessem onde os Filhos de Ilúvatar estariam morando, que ainda viriam em um tempo que era escondido dos Valar.

$23 Assim terminou a Primavera de Arda. E a morada dos Valar sobre Almaren foi totalmente destruída, e os deuses não tinha residência na face da terra. Então eles partiram da Terra-média e foram para a Terra de Aman, que era a terra mais ocidental dentre todas, nas bordas do mundo; pois seu litoral oeste olhava sobre o Mar de Fora que englobava o reino de Arda, e além estavam as Muralhas da Noite (21). Mas no litoral leste de Aman ficava o ponto extremo do Grande Mar do Oeste; e uma vez que Melkor retornara a Terra-média, e eles ainda não podiam suplantá-lo, os Valar fortificaram sua moradia, e sobre o litoral do Mar eles elevaram as Pelóri, as Montanhas de Aman, as mais altas sobre a terra. E acima de todas as montanhas da Pelóri estava o pico que foi chamado Taniquetil, sobre cujo topo Manwë colocou seu trono. E atrás das muralhas das Pelóri os Valar estabeleceram suas mansões e seus domínios na região que é chamada Valinor. Lá, no Reino Vigiado eles reuniram grande quantidade de luz e todas as coisas mais belas que salvaram da ruína; e muitas outras ainda mais belas eles fizeram novamente, e Valinor se tornou ainda mais bela do que a Terra-média na Primavera de Arda; e era abençoada e sagrada, pois os deuses moravam ali e lá nada esvaecia ou murchava, nem havia qualquer mancha sobre flores ou folhas naquela terra, nem nenhum corrupção ou doença em nada que vivia; pois mesmo as rochas e águas eram abençoadas.

$24 Então os Valar e todo o seu povo estavam cheios de felicidade novamente e por muito ficaram satisfeitos e raramente passavam sobre as montanhas para as Terras de Fora; e a Terra-média ficou num crepúsculo sob as estrelas que Varda fizera nas eras esquecidas de seus trabalhos em Ëa.

3500

$25 E veio a acontecer que, depois que Valinor estava totalmente terminada e as mansões dos Valar estavam estabelecidas e seus jardins e florestas arrumados, os Valar construíram sua cidade no meio da planície além das Pelóri. A cidade eles chamaram de Valmar a Abençoada. E à frente de seu portal ocidental havia um monte verdejante, que estava vazio a não ser por uma cobertura de grama imutável.

$26 Então Yavanna e Niënna foram ao Grande Monte; e Yavanna o abençoou, e sentou-se por muito tempo na grama verde e cantou uma canção de grande poder, na qual estava contido todo seu pensamento sobre as coisas que cresciam na terra. Mas Niënna pensava em silêncio, e molhava o solo com lágrimas. Então todos os Valar se reuniram para ouvir a canção de Yavanna; e a colina estava no centro do Círculo do Destino ante os portões de Valmar, e os Valar sentaram-se ao redor dele em silêncio sobre seus tronos do conselho, com seus povos a seus pés. E enquanto os deuses observavam, veja! Sobre o monte surgiram dois brotos verdejantes, e eles cresceram e se tornaram belos e altos, e eles vieram a florescer.

$27 Assim nasceram no mundo as Duas Árvores de Valinor, de todas as coisas que crescem as mais belas e renomadas, cujo destino está entrelaçado com o destino de Arda. A mais velha das árvores foi nomeada Telperion, e suas flores eram de um branco brilhante, e um orvalho de luz prateada caía delas. Laurelin a Árvore mais jovem foi chamada; suas folhas verdes tinham uma borda dourada, e suas flores eram como agrupamentos de chamas amarelas, e uma chuva de ouro gotejava delas no chão. Destas Árvores vinha uma grande luz, e toda Valinor foi preenchida com ela. Então a felicidade dos Valar aumentou; pois a luz das Árvores era sagrada e de grande poder, tanto que, se alguma coisa era boa ou adorável ou de valor, naquela luz sua adorabilidade e seu valor eram plenamente revelados; e tudo que andava naquela luz estava contente em seu coração.

$28 E a luz que saía das Árvores permanecia por muito tempo, fosse levada pelos ares ou escorrendo na terra para seu enriquecimento. Então de sua abundância Varda costumava coletar uma grande quantidade, e ficava guardada em grandes vasos próximos ao Monte Verde. De lá os Maiar a retiravam e a levavam aos estuários e aos campos, mesmo aqueles distantes de Valmar, de forma que todas as regiões de Valinor se desenvolveram e cresceram ainda mais belas.

$29 Desta maneira começaram os Dias de Felicidade de Valinor, e começou também a contagem do Tempo. Pois as Árvores se desenvolviam até o florescimento e luz totais, e diminuíam novamente, incessantemente, sem mudança de velocidade ou completude. Telperion foi a primeira a florescer, e um pouco antes dela parar de brilhar Laurelin começou a desabrochar; e quando Laurelin diminuiu Telperion acordou  novamente. A partir daí os Valar tomaram o tempo do florescimento, primeiro de Telperion e depois de Laurelin, para ser para eles um Dia em Valinor; e o tempo em que cada Árvore estava florescendo sozinha eles dividiram em cinco horas, cada uma delas igual ao tempo do esvaecer de suas luzes, duas vezes em cada Dia. Existiam, portanto, doze de tais horas em cada Dia dos Valar; e mil desses Dias foram considerados um Ano, quando então as Árvores cresceriam um novo galho e suas estaturas aumentariam.

A seção inicial dos Anais de Aman termina aqui; é seguida por um título Aqui começa o novo Registro sob a Luz das Árvores com datas começando em A.A.1, o Primeiro Ano das Árvores.

NOTAS

1. A definição de Ëa como ‘o Mundo que É’ é encontrada também no surgimento do nome em uma adição ao texto do Ainulindalë D, $20. Eu a dou na forma que está nos textos, Ea, Ëa, .

2. A forma original do nome era Lórien, mas foi alterado para Lŏrien no manuscrito QS.

3. AV2 tem aqui ‘Yavanna, a quem Aulë desposou depois no mundo, em Valinor’; na versão reescrita do manuscrito AV2 que leva diretamente a AAm isto se tornou ‘Yavanna, a quem Aulë desposou em Arda’, onde AAm tem ‘em Ëa’.

4. AV2 tem aqui ‘estes são os Vanimor, os Belos’, alterado na versão posterior (ver nota 3) para ‘estes são os Mairi…’ e então para ‘estes são os Maiar…’. Este é o local onde a palavra Maiar surgiu pela primeira vez.

5. No mais antigo (e único) dos dois manuscritos do início de O Conto dos Anos o título Do Início dos Tempos e seu Registro foi subseqüentemente ampliado pela adição de Do trabalho de Quennar Onótimo; ver nota 6.

6. Quando esta sentença foi escrita pela primeira vez no rascunho do início de AAm (a versão reescrita de AV2) ela dizia: ‘e cada ano desses era tão longo quanto dez anos do Sol como são hoje’; isto é meu, pai ainda mantinha a antiga e muito mais simples contagem indo de AV2 a AV 1. Isto foi alterado no rascunho para ‘e cada ano desses era mais longo do que nove anos sob o Sol como são hoje’. Na versão mais antiga do Conto dos Anos as palavras ‘como são hoje’ foram escritas a lápis após ‘nove anos sob o Sol’, enquanto na segunda se lê ‘do que nove anos sob o Sol’.

A segunda versão do Conto dos Anos, a qual não se refere a Quennar Onótimo no título de Do Início dos Tempos e seu Registro (nota 5), tem aqui ‘Assim falou Quennar Onótimo sobre este assunto’. O que se segue deste ponto em diante em todos os três textos é um texto nitidamente menor, tanto que a referência a Quennar parece mais apropriada aqui.

7. A versão mais tardia (e única) do Conto dos Anos tem ‘um quinto de uma era dos Valar’ ao invés de ‘uma era dos Valar’.

8. A versão mais antiga do Conto dos Anos acrescenta aqui: ‘e cada era dos Valar é uma parte exata (quão grande ou pequena apenas eles sabem) de toda a história de Ëa. Mas estas coisas não são conhecidas com certeza mesmo para os Eldar’; a versão posterior começa a passagem da mesma forma, mas termina: ‘… de toda a história de Ëa de seu início ao Fim que deve ser. Mas estas coisas não são conhecidas com certeza mesmo para [os] Vanyar’.

9. O Conto dos Anos tem aqui: ‘Mas para os Anos das Árvores em comparação com aqueles que vieram depois’, que torna o sentido claro.

10. Na versão mais antiga do Conto dos Anos ‘do nascer do sol ao pôr do sol’ é alterado a lápis para ‘de pôr a pôr do sol’, e a seguinte frase ‘em tais momentos em que luz e escuridão são igualmente divididas’ foi colocado entre colchetes. A segunda versão tem uma leitura diferente: ‘de pôr a pôr do sol nos Litorais do Grande Mar’.

11. Nas versões do Conto dos Anos as palavras ‘(nove e meio e oito centésimos e mais um pouco) são omitidas.

12. Nas versões do Conto dos Anos as palavras ‘e ordenar’ são omitidas.

13. No lugar de ‘como dito a seguir’ (que se refere a relato do Sol e da Lua, mais tarde no AAm) as versões do Conto dos Anos têm ‘como é contado em outro lugar’.

14. No lugar de ‘foi assim feito’ as versões do Conto dos Anos têm ‘foi definido assim pelos Valar’.

15. ‘como um ano’ torna-se nas versões do Conto dos Anos ‘como um ano para si mesmos’.

16. As versões do Conto dos Anos têm aqui ‘Assim falou o Yénonótië de Quennar’. Para Yénonótië confira Yénië Valinóren ‘Anais de Valinor’ nas páginas-título de QS (HoME V), e o nome próprio nome Onótimo; ver as Etimologias, raízes NOT ‘contar’, YEN ‘ano’ (HoME V).

17. O parágrafo $10 tem a seguinte forma no rascunho do início de AAm:

É registrado pelos Mestres de Conhecimento que os Valar vieram para o Reino de Arda, que é a Terra, cinco mil e quarenta anos de nosso tempo antes do primeiro nascer da Lua. E destes, trinta mil se passaram antes que a medida de tempo se iniciasse com o florescer das Árvores. Aqueles foram os Dias antes dos dias. E quinze mil anos se seguiram durante os quais a Luz das Árvores ainda vivia e cerca de seiscentos mais do Novo Sol e Lua após o assassinato das Árvores. E estes foram chamados os Dias Antigos, e seu fim encerrou a Primeira Era do Tempo, e Melkor foi jogado para for do mundo.

Então em AV 1 e AV2 o registro era, portanto (A.V. = Ano(s) dos Valar, A.S. = Ano(s) do Sol):

A.V. 1000 = A.S. 10000 Primeiro florescer das Árvores

A.V. 3000 = A.S. 20000 Surgimento da Lua a primeira revisão dá A.S. 30000 Primeiro florescer das Árvores

Este registro então é substituído de novo:

A.V. 3500 = A.S. 33530 Primeiro florescer das Árvores

A.V. 5300 = A.S. 50775 Surgimento da Lua

Estes números mostrar uma proporção de 1 A.V. = 9,58 A.S. (veja os comentários $5-10). Este último registro foi a forma escrita inicialmente no AAm, a qual então foi modificada muitas vezes até chegar ao texto impresso aqui.

18. O texto era escrito como ‘escuro como a noite que existia antes de Ëa’, alterado mais tarde para ‘escuro como a Noite do Vazio’.

19. O texto como inicialmente escrito tem ‘além dos limites de Ëa’; isto mais tarde foi alterado para ‘pelas Muralhas da Noite além dos limites de Arda’, e então ‘além dos limites de Arda’ foi riscado.

20. O texto como inicialmente escrito tem ‘longe da luz de Illuin’.

21. O texto como escrito tem ‘a qual é a mais ocidental de todas as terras’ e ‘olha sobre o Mar de Fora que englobava o reino de Arda’; as mudanças para o tempo passado talvez foram feitas no tempo da escrita, uma vez que a próxima frase, ‘além estavam das Muralhas da Noite’, tinha o tempo passado como original. Por outro lado as seguintes sentenças têm o tempo presente (‘Mas no litoral leste de Aman está o ponto extremo do Grande Mar do Oeste’), onde está permaneceu.

Comentários sobre a primeira
seção dos

Anais de Aman

$$1-3 Sobre a ocorrência no nome Eru ver Ainulindalë (NT: ainda não traduzido pela Valinor). O relato das inter-relações entre os Valar e as rainhas dos Valar permanece bem próximo daquele em AV2 (HoME V), e mantém frases antigas (como ‘Manwë e Melkor eram os mais poderosos e eram irmãos’) datando da época dos Anais originais (HoME IV). Existem, contudo, alguns desenvolvimentos nesta seção inicial. Sobre a frase em $2, ‘Oromë e Tulkas eram os mais jovens no pensamento de Eru ao divisar o Mundo’, ver HoME V. Tulkas ter vindo a Arda por último deriva do Ainulindalë reescrito ($31).

Não é mais dito, como era no AV2, que Oromë era o filho de Yavanna. Por outro lado, é agora dito, assim como no Quenta (Q) e QS, que Vana era a irmã de Yavanna (e Varda), coisa que não era dita no AV2. Estas diferenças estão, talvez, conectadas; pois se ambos os relatos são combinados a esposa de Oromë é a irmã de sua mãe. Mas podemos apenas estar tendo uma visão muito convencional das relações divinas.

As citações de que Estë ‘não vai aos conselhos dos Valar e não é registrada entre os regentes de Arda’ e de que ela é a líder dos Maiar (ver nota 4 acima), são completamente novas.

$4 O trecho sobre os ‘espíritos menores’ não mostra desenvolvimento significativo daquele em AV2 (HoME V) exceto pela substituição de Vanimor por Maiar (traduzido ‘os Belos’, assim como Vanimor o fora); os Valarindi, Filhos dos Valar, ‘nascidos em Arda’ serem relacionados entre os Maiar, permanece. Sobre a história anterior destes conceitos ver HoME V.

$5 Telperion apareceu pela primeira vez em QS $16 (HoME V), mas não como o nome principal da Árvore Mais Velha, que permaneceu Silpion. Telperion, utilizado em O Senhor dos Anéis, agora se torna o principal.

$$5-10 O relato do Registro do Tempo à primeira vista parece confuso, mas pode ser
clarificado.

(i)
De acordo com o registro pela Árvores

12 horas (uma florada completa de ambas as Árvores) = 1 dia

1.000 dias (12.000 horas) = 1 ano

100 anos = 1 era dos Valar (como os Valar contagem as eras antes das Árvores, de acordo com uma suposição dos Mestres de Conhecimento dos Elfos; ver notas 7 e 8 do texto)

(ii)
Relação do registro pelas Árvores com o registro pelo Sol

1 hora das Árvores = 7 horas de nosso tempo

1 dia das Árvores = (7 x 12) 84 horas de nosso tempo

1 ano das Árvores = (7 x 12.000) 84.000 horas de nosso tempo

Existem (365,25 x 24) 8.766 horas em um Ano do Sol, portanto: 1 ano das Árvores = (84.000 / 8.766) 9,582 Anos do Sol *

(* confira o texto ($7): ‘nove e meio e oito centésimos e ainda mais um pouco’.)

(iii)
Intenção original dos Valar para o novo registro pelo Sol e Lua

12 horas de luz da luz + 12 horas de luz do sol = 24 horas = 1 dia completo

700 vezes de luz do sol e luz da lua = 350 dias completos = 1 Ano do Sol 1 hora = 1/7 de 1 hora das Árvores. Portanto: 1 Ano do Sol teria (24 x 350) 8.400 horas = (8.400 / 7) 1.200 horas das Árvores = 1/10 de um Ano dos Valar (ver (i) acima); portanto 1 Ano dos Valar seria = 10 Anos do Sol

O assunto pode ser mais concisamente expressado:

1 anos das Árvores = (7 x 1200) 84.000 horas de nosso tempo

84.000 – (350 x 24) 8.400 = 10

mas

84.000 – (365,25 x 24) 8.766 = 9,582

(iv)
As datas do primeiro florescer das Árvores e o primeiro nascer da Lua
($10)

As Árvores floriram inicialmente após 3.500 Anos dos Valar terem se passado, o que é dito ser igual a 33.530 Anos do Sol (isto pressupõe uma equivalência de 9,58; 9,582 daria 33.537). A Lua surgiu inicialmente após 5.000 Anos dos Valar terem se passado, o que é dito ser igual a 47.901 Anos do Sol; se a equivalência é 9,582 o número de Anos do Sol deveria ser 47.910, se fOssë 9,58 o número deveria ser 47.900). As Árvores brilharam por 1.495 Anos dos Valar. que é dito serem iguais a 13.222 Anos do Sol (o que pressupõe uma equivalência de quase exatamente 9,58)

$$11-29 A grande expansão da narrativa pré-Senhor dos Anéis (QS, AV2) é em parte derivada do mais recente Ainulindalë (que o AAm seguiu a última versão, D, daquele trabalho é demonstrado por vários detalhes, como por exemplos os nomes Ëa, Illuin e Ormal, o primeiro deles entrando em D por adição posterior, e aqueles das Lâmpadas substituindo Forontë e Hyarantë por correção). Mas existe muito que é completamente novo: que Manwë realizou uma grande festa na Ilha de Almaren, onde Tulkas desposou Nessa; que Sauron era ‘um grande artífice da casa de Aulë’; que os Valar foram incapazes de se sobrepor a Melkor àquele tempo porque precisaram conter as agitações da Terra e preservar o que pudesse do que tinham realizado; e outras características mencionadas abaixo. – A questão cosmológica é discutida ao final deste comentário.

$15 A afirmação de que sob a luz das Lâmpadas ‘aconteceu um grande crescimento de árvores e ervas, e bestas e pássaros vieram’ (confira também $18, onde Vana vestiu Nessa de flores na festa de Almaren) pertence ao Ainulindalë ($31): ‘flores de muitas cores, e árvores cujas flores eram como neve sobre as montanhas… bestes e pássaros vieram’ – onde, contudo, o texto foi corrigido (‘E ainda nenhuma flor havia florescido nem pássaro cantado’). Ver nota 17 e $31.

$20 Uma diferença estrutural entre AAm e o Ainulindalë é que neste último Melkor não começou a escavação de Utumno até a derrubada das lâmpadas e sua escapada dos Valar ($32) – uma história que volta à épocas dos textos do antigo ‘Rascunho da  Mitologia’. Em AAm, por outro lado, Melkor construiu Utumno, ou pelo menos estava bastante avançado no trabalho, antes dos Valar ficarem cientes dele, e foi de Utumno que o apodrecimento e a corrupção se originaram; os Valar então perceberam sua presença em Arda e ‘procuraram por seu esconderijo’, e foi isso (como parece) que levou à súbita emergência de Melkor em guerra aberta e à derrubada das Lâmpadas.

$22 O ataque a Melkor pelos Valar saindo de Valinor, descrito no Ainulindalë ($32), não é mencionado em AAm, que diz apenas que eles ‘ainda não podiam suplantá-lo’, tomando as palavras de QS $12 (HoME V). Que a idéia fora abandonada pode ser vista subseqüentemente, $47.

$23 Que toda vida em Aman estava livre de qualquer esvaecer ou murchar, e livre de corrupção ou doença, não haviam sido dito em textos anteriores.

$24 Mesmo que nos textos de 1930 a antiga idéia dos Contos Perdidos de que as estrelas foram criadas em dois atos separados (HoME I) tenha sido abandonada, ela agora reaparece: Varda fizera as estrelas ‘nas eras esquecidas de seus trabalhos em Ëa’, e mais tarde em AAm ($35) é dito que ‘ela fez estrelas novas e mais brilhantes’ antes do acordar dos Elfos. Presumivelmente isto deve ser associado com a concepção do tardio Ainulindalë ($$14,28) do estabelecimento de Arda ‘em meio a inumeráveis estrelas’.

$$25-6 Que as Árvores cresceram em um monte verdejante no Círculo do Destino é um novo detalhe, embora a implicação de QS $14 (HoME V) é de que as Árvores estavam no Círculo. O Círculo e o Monte aqui são ditos estar ante o portão ocidental de Valmar; nos Contos Perdidos as Árvores estão ao norte da cidade, e estavam algumas ‘léguas separadas’ uma da outra (HoME I).

$28 Este relato de que a luz que gotejava das Árvores sendo recolhida por Maiar dos poços de Arda para ‘aguar’ todas as terras de Valinor tem sua origem na antiga idéia de que as Árvores ‘devem ser aguadas com luz para brotar e viver’ (HoME I).

$29 Ao final deste parágrafo há um novo detalhe digno de nota, que após mil dias as
Árvores cresceriam um novo galho; e que devido a isso o Ano dos Valar foi constituído dessa forma. Parece – e é dito aqui expressamente – que o dia dos Valar tinha doze horas porque o período de luz misturada era exatamente cinco vezes menor que o período de total florescer tanto de Telperion quanto Laurelin; se tivesse sido três vezes menor o dia teria tido oito horas, e assim por diante. O dia dos Valar era, portanto, da natureza das Árvores. Agora aprendemos que o Ano dos Valar de 1.000 dias também era devida à natureza das Árvores, uma vez que após aquele tempo as Árvores cresceriam um novo galho.

Não há a sugestão aqui de que o cálculo que cem anos das árvores constituíam um Ano dos Valar (o que nos vai de retorno ao mais antigo dos Anais, HoME IV) era relacionado com a estrutura interna das Árvores; mas é dito na seção Do Início do Tempo e seu Registro ($6) que os Mestres de Conhecimento supunham que ‘os Valar fizeram desta forma as horas das Árvores de tal forma que cem de tais anos assim medidos seriam a duração de uma era dos Valar (assim como tais eras eram nos dias de seus trabalhos antes da fundação de Valinor)’ – isto é, antes das Árvores. Uma vez que as duas passagens são separadas por apenas algumas páginas no mesmo manuscrito a presume-se que não sejam contraditórias; e tomadas em conjunto o sentido pode apenas ser que os períodos das Árvores, que eram de suas natureza, de qualquer forma eram relacionados a um modo de medida de tempo de antes das Árvores surgirem. Isto por sua vez parece exigir que os Valar sabiam, ou haviam ‘visto’, mesmo antes de Yavanna e Niënna irem ao Monte Verdejante, a natureza periódica da luz das Árvores.

O problema cosmológico é aqui acrescido de novas evidências. Os trechos relevantes nesta primeira seção do AAm são estes:

$1 Ëa é ‘o Mundo que é’; os Valar são ‘os Poderes de Ëa’.

$11 Após eras de trabalho ‘nos grandes salões de Ëa os Valar desceram à Arda no começo de sua existência’.

$13 Tulkas veio a Arda ‘de distantes regiões de Ëa’.

$17 Melkor reuniu espíritos ‘dos vazios de Ëa’; e ele ‘ele se aproximou de Arda e olhou sobre ela’.

$18 Os Valar não perceberam a sombra escura ‘lançada de longe por Melkor’.

$19 Melkor ‘atravessou os limites de Ëa’ > ‘atravessou as Muralhas da Noite nos limites de Arda’ > ‘atravessou as Muralhas da Noite’ (nota 19).

$23 O Mar de Fora ‘que englobava o reino de Arda, e além estavam as Muralhas da
Noite’.

As Muralhas da Noite não haviam sido nomeadas em nenhum outro lugar: mas é difícil de visualizar, especialmente à vista da sentença citada em $23, como elas não poderiam ser igualadas com as Muralhas do Mundo. Eu disse (página 29) que a partida de Melkor de Arda no Ainulindalë – a nova história que surgiu após O Senhor dos Anéis – levanta a questão da passagem das Muralhas do Mundo e da forma que aquele conceito tomou. A idéia de tal passagem de fato surgiu, e ainda de forma mais intrigante, no período anterior, ao final de Q, onde é dito que alguns acreditam que Melko de vez em quando retorna ao mundo, e que ele ‘rasteja de volta escalando as Muralhas’ (HoME IV). O trecho em AAm $19 (como corrigido) é inequívoco: Melkor passou sobre as Muralhas da Noite. Nós retornamos à mais antiga imaginação das Muralhas: confira meu comentário em 1.227, ‘a implicação parece clara de que as Muralhas eram originalmente concebidas como os muros de cidades terrestres, ou jardins – muros com um topo: uma “cerca em forma de anel”’. Então, podemos supor, Melkor podia ‘olhar para baixo para Arda’ ($17); então sua vasta sombra poderia ser lançada mesmo antes que ele atravessasse as Muralhas ($18); e
portanto Tulkas ($13) e os espíritos convocados por Melkor ($19) puderam entrar a ‘região cercada’ (como Arda é definida, página 7).

Mas a frase ‘ele atravessou as Muralhas da Noite’ foi uma correção do que meu pai escreveu inicialmente: ‘ele atravessou os limites de Ëa’. Isto pode significar outra coisa além de que ao entrar em Arda Melkor deixa Ëa? Nesta conexão pode-se retornar aos dois diagramas Ambarkanta de ‘Ilu’ (HoME IV), sobre os quais muito mais tarde (talvez a este tempo) meu pai fez correções a lápis ao Ilurambar ‘as Muralhas do Mundo’, alterando-a para Ëarambar (‘as Muralhas de Ëa’). (Claro, se as Muralhas não são mais concebidas como uma concha esférica – de onde veio a expressão ‘tomaram a forma de globo em meio ao Vazio’ como usada nas versões mais antigas do Ainulindalë – mas como uma fortificação ultrapassável, o Ëarambar não pode ser tomado na mesma concepção que o Ilurambar, mas apenas como um novo nome para as Muralhas, agora diferentemente concebidas; e a substituição do novo nome em antigos diagramas é, portanto, àquele ponto, enganosa). Da mesma forma é difícil perceber o que Ëarambar poderia significar que não ‘as Muralhas que isolavam para fora as vastidões escuras dos “vazios de Ëa” ‘ (uma expressão utilizada em $17), em contraste a Ilurambar ‘as Muralhas que cercavam Ilu’.

A dificuldade com isso, claro, é que Ëa em outro lugar está definido como ‘Universo daquilo que É’ (página 7), ‘Criação do Universo’ (página 39) e Ëa portanto necessariamente inclui Arda; de qualquer forma é abundantemente claro em todos os textos do período tardio que Arda está em Ëa. Mas também, em todo caso, Arda pode ser dita como separada de Ëa quando Ëa é dita ser “Espaço”.

Dentre todas as ambigüidades (mais especificamente, no uso da palavra ‘Mundo’), a evidência parece ser que nestes textos a imagem de mundo do Ambarkanta sobreviveu ao menos na concepção do Mar de Fora e se estendendo às Muralhas do Mundo, agora chamadas Muralhas da Noite – embora as Muralhas tenham sido concebidas de forma diferente (ver também $168). Agora na revisão de ‘O Silmarillion’ feita em 1951 a frase em QS $12 (HoME V) ‘as Muralhas do Mundo isolavam para fora o Vazio e a Escuridão Mais Antiga’ – uma frase em perfeita concordância, claro, com o Ambarkanta – foi mantida. Esta é uma dificuldade central com relação ao Ainulindalë, onde é feito tão claro quanto se poderia desejar que Ëa veio a existir no Vazio, tomou forma de globo em meio ao Vazio ($$11, 20); como então as Muralhas de Arda ‘isolavam para fora o Vazio e a Escuridão Mais Antiga’?

Uma possível explicação, de certa forma, pode ser deduzida em certas palavras citadas acima, do AAm $17: Melkor reuniu espíritos dos vazios de Ëa. Pode ser que, embora AAm não esteja muito tempo distante da última versão (D) do Ainulindalë, a concepção de meu pai de fato agora não está totalmente de acordo com o que ele escreveu lá; que (como sugeri, página 39) ele estava pensando em Arda como tendo sido ‘colocada dentro de uma vastidão indefinida na qual toda a ‘Criação’ está compreendida’, ao invés de uma Ëa limitada posta ela mesmo ‘em meio ao Vazio’. Então, além das Muralhas da Noite, os limites de Arda, pressionaram ‘os vazios de Ëa’. Mas esta sugestão, claro, não elimina todos os problemas, ambigüidades e contradições aparentes na cosmologia do período tardio, as quais foram discutidas anteriormente.

«

Eu mencionei que existe um texto datilografado da parte mais antiga do AAm que é bastante distinto da cópia datilografada pelo amanuense de todo o trabalho. Eu não estava ciente de sua existência quando o texto de O Silmarillion foi preparado para publicação. Ele foi tomado diretamente de e baseado de perto no manuscrito AAm, e foi com certeza feito por meu pai, que inseriu mudanças do manuscrito à medida que datilografava. Na realidade ele possui uma grande quantidade de tais mudanças, a maioria pequena ou muito pequena, mas também algumas alterações e adições importantes; e ele não inclui a seção Do Início do Tempo e seu Registro. Nenhuma dessas mudanças aparecem nas correções feitas na cópia datilografada pelo amanuense ou sua cópia em carbono, exceto a remoção da seção sobre o Registro do Tempo.

Eu irei me referir a este texto como ‘AAm*’. Aparentemente não há maneiras de determinar com certeza quando ele foi feito, e posso apenas registrar minha intuição de que ele é do mesmo período do manuscrito AAm e não de algum tempo posterior. De qualquer forma meu pai logo o abandonou. Pode ser que o colocando de lado meu pai o tenha esquecido ou o perdido; e quando surgiu a oportunidade de ter o trabalho datilografado por um secretário que era um datilógrafo treinado (como parece ser o caso) ele simplesmente entregou o manuscrito AAm como ele era (incluindo portanto a seção sobre o Registro do Tempo, embora AAm* o tenha cortado).

Eu forneço agora as mudanças dignas de nota no AAm* (que se estende um pouco além do ponto alcançado nesta primeira seção).

O preâmbulo

Aqui começam os ‘Anais de Aman’. Rúmil os fez nos Dias Antigos e eles foram mantidos na memória pelos Exilados. Aquelas partes que aprendemos e lembramos foram, portanto, escritas em Númenor antes que a Sombra caísse sobre ela.

Isto é especialmente interessante uma vez que mostra um modo de transmissão diferente da tradição ‘Pengoloð – Ælfwine’: os Anais foram concebidos como um trabalho escrito feito em Númenor, derivando dos ‘Exilados’, os Noldor na Terra-média, que o derivaram do trabalho de Rúmil. A idéia de que Númenor foi um elemento essencial na transmissão das lendas dos Dias Antigos irá reaparecer.

$1 No lugar de ‘líderes dos Valar’ AAm* tem ‘senhores dos Valar’, também subseqüentemente. Lorien foi alterado a lápis no texto datilografado para Lorion (mas não na passagem citada em $3, abaixo).

$2 Em AAm a antiga frase ’Manwë e Melkor eram os mais poderosos e eram irmãos’ foi preservada, mas AAm* tem no lugar:

Melkor e Manwë eram irmão no pensamento de Eru, e os mais antigos de sua raça, e seus poderes era iguais e maiores do que os de todos os outros que residiam em Arda. Manwë é Rei dos Valar…

É dito no tardio Ainulindalë ($$5,9) que Melkor era o mais poderoso dos Ainur, e isto, de fato, vai ao texto B do Ainulindalë, anterior ao Senhor dos Anéis (ver HoME V nota 4 para as diferentes afirmações feitas sobre o assunto). Mais tarde em AAm ($102) Fëanor ‘fecha as portas de sua casa na cara do mais poderoso de todos os moradores em Ëa’.

Este texto tem ‘Oromë e Tulkas eram os mais jovens no pensamento de Eru’ onde AAm tem ‘mais novos’

$3 Existe uma estranha mistura de presente e passado nesta passagem: há ‘Vana a bela é a mulher de Oromë’, ‘Vairë a tecelã mora com Mandos’ mas ‘Nenhuma esposa possuía Ulmo, nem Melkor’, ‘Nenhum senhor possuía Niënna’, ‘A mulher de Lorien era Estë a pálida’.

Agora não é dito que Vana (marcada Vana na primeira ocorrência mas não
subseqüentemente) era a irmã de Yavanna.

Como datilografada, a passagem começando com ‘Nenhum senhor possuía Niënna’ (escrita assim, não Niënna, em todas as ocorrências em AAm*) segue assim:

Nenhum senhor possuía Niënna, rainha da Sombra, irmã de Manwë. A mulher de Tulkas era Nessa a Jovem; e a mulher de Lorien era Estë a Pálida. Este não se sentavam nos conselhos dos Valar mas eram os maiores dentre os Maiar.

No AAm é dito apenas sobre Estë que ‘ela não vai aos conselhos dos Valar’, e seu nome não aparece na lista das rainhas dos Valar: ela é ‘a líder dos Maiar’. No texto atual, mesmo com a exclusão também de Nessa dos conselhos, e a afirmação de que ela e Estë ‘são as maiores dentre os Maiar’, seu nome continua figurando na lista das rainhas. Emendas contemporâneas ao texto datilografado produziram esta mudança notável:

Nenhum senhor possuía Niënna, irmã de Manwë; nem Nessa a Dama Eterna. A mulher de Tulkas era Lëa a Jovem; a mulher de Lorien era Estë a Pálida…

O texto então continua como antes, então as duas que não se sentam nos conselhos dos Valar e são ‘as maiores dentre os Maiar’ tornam-se Lëa e Estë. Não há vestígios deste desenvolvimento em qualquer outro texto, mas Lëa aparece de novo em AAm* no texto datilografado (ver $18 abaixo).

$4 Este parágrafo foi substancialmente ampliado:

Com estes grandes poderes vieram muitos outros espíritos do mesmo tipo, nascidos no pensamento de Eru antes da criação de Ëa, mas tendo menos poder e autoridade. Este são os Maiar, o povo dos Valar; eles são belos, mas seu número não é conhecido e poucos têm nomes entre os Elfos ou Homens.

Há também aqueles a quem chamamos Valarindi, que são ps Filhos dos Valar, nascidos de seu amor depois de suas entradas em Ëa. Eles são os filhos mais velhos do Mundo; e embora seu existir comece dentro de Ëa, mesmo assim são da raça dos Ainur, que eram antes do mundo, e eles têm poder e nível abaixo apenas dos Valar.

$12 No fim deste parágrafo AAm* acrescenta: ‘E passaram muitos anos dos Valar em conflito’.

$14 A data A.V. 1900 da criação das Lâmpadas é omitida em AAm*.

$15 AAm* mantém as palavras de AAm, ‘e aconteceu um grande crescimento de árvores e ervas, e bestas e pássaros vieram…’ Veja o comentário sobre este trecho: a referência à aparição dos pássaros e flores a este tempo foi removida do Ainulindalë D pelo que parece ter sido uma mudança bem antiga no texto, e nisto está a sugestão de que as duas versões do início dos Anais de Aman pertencem mais ou menos à mesma época.

$17 Este parágrafo sofreu várias alterações:

Melkor sabia de tudo que fora feito pois mesmo então ele tinha amigos secretos entre os Maiar, que ele convertera à sua causa, seja no primeiro cantar do Ainulindalë ou mais tarde em Ëa. Destes o principal, como mais tarde ficou conhecido, era Sauron, um grande artífice da casa de Aulë. E distante em lugares escuros, para onde ele havia recuado, Melkor estava cheio de um novo ódio, invejoso do trabalho de seus pares, os quais ele desejava tornar sujeitos a si mesmo. Então ele reuniu para si espíritos dos vazios de Ëa que o serviam, até que ele considerou que era forte; e vendo novamente seu tempo ele se aproximou de Arda e olhou sobre ela, e a beleza da Terra e sua Primavera o deixou maravilhado, mas por não ser dele, resolveu destruí-la.

$ 18 Aqui Lëa a Jovem, mulher de Tulkas, aparece novamente, no texto datilografado e não por emenda (ver em $3 acima), chamada agora Lëa-vinya (‘Lëa a Jovem’):

É dito que naquela festa da Primavera de Arda Tulkas desposou Lëa-vinya, a mais bela das damas de Yavanna, e Vana cobriu-a com as flores que floresceram primeiro; e ela dançou perante os Valar…

Sobre a referência às primeiras flores ver $15 acima.

$19 AAm* tem ‘as Muralhas de Noite’ ao invés de ‘as Muralhas da Noite’, e de novo em $23.

$20 Melkor começou a escavação e construção de uma vasta fortaleza profundamente sob a Terra, [riscado: abaixo das raízes da] longe da luz de Illuin; e ele criou grandes montanhas sobre seus salões. Aquele forte foi mais tarde chamado Utumno o Esconderijo profundo; e por um longo tempo os Valar não souberam de nada disso…

No AAm Utumno foi escavado ‘embaixo de montanhas escuras’; o novo texto, no qual Melkor cria montanha acima dele (como as Thangorodrim acima de Angband), surgiu no momento da datilografia.

$21 Onde AAm tem ‘E ele atacou as luzes de Illuin e Ormal’ AAm* tem:

E ele veio do Norte como uma tempestade escura, e ele atacou as luzes de Illuin e
Ormal.

$22 A conclusão deste parágrafo em AAm, ‘que ainda viriam em um tempo que era
escondido dos Valar’, é omitida no AAm*.

$23 A palavra ‘deuses’ foi removida em AAm* de ambas as ocorrências: no início do
parágrafo ‘os deuses não tinha residência na face da terra’ tornou-se ‘eles não
tinham’, e perto do final ‘pois os deuses moravam ali’ tornou-se ‘pois os
Servos de Ilúvatar moravam ali’.

A Terra de Aman estava ‘nas bordas do mundo antigo’ (isto é, o mundo antes do Cataclismo); ‘nas bordas do mundo’ em AAm. A passagem a respeito de Taniquetil
foi alterada para :

E acima de todas as montanhas das Pelóri estava o pico que foi chamado Taniquetil Oiolossë, o brilhando pico de Sempibranco, sobre cujo topo Manwë colocou seu trono, ante as portas dos salões do domo de Arda.

$25 Em AAm é dito que ‘os Valar construíram sua cidade’; AAm* trás: …no meio da
planície a oeste das Pelóri Aulë e seu povo construíram para eles uma bela cidade. Aquela cidade eles nomearam Valimar a Abençoada.

Isto é uma reaparição dos Contos Perdidos; confira HoME I: ‘Agora eu recontei o estilo das moradias de todos os grandes Deuses as quais Aulë seu artífice criou em Valinor’. – Esta é a primeira ocorrência da forma Valimar (e novamente em $$26,28 deste texto).

$26 Após as palavras ‘Mas Niënna pensava em silêncio, e molhava o solo com lágrimas’ há uma nota de rodapé na nova versão:

Pois é dito que mesmo na Música Niënna atuou pouco, mas prestou muita atenção a tudo que ouviu. Portanto ela é rica em memória, de grande visão, percebendo como os temas deveriam se desenrolar no Conto de Arda. Mas ela tinha pouca alegria, e todo seu amor era mesclado com piedade, lamentando pelos danos ao mundo e pelas coisas que falharam em atingir a completude. Tão grande era sua comiseração, é dito, que ela não pode suportar até o final da Música. Por isso ela não tem a esperança de Manwë. Ele tem maior visão; mas Piedade é o coração de Niënna.

Sobre esta passagem ver nota 2. A afirmação aqui de que Niënna ‘não pode suportar até o final da Música’ é bastante dramática; mas não é dito no que a esperança de Manwë se baseia. Pode ser relevante relembrar a nota de rodapé de Pengoloð ao Ainulindalë D, $19:

E alguns disseram que a Visão cessou antes da completude do Domínio dos Homens e o esvaecer dos Primogênitos; por isso, embora a Música esteja acabada, os Valar não viram com a visão as Eras Tardias ou o final do Mundo.

$28 Por ‘guardada em grandes vasos’ AAm* tem ‘guardada em poços profundos’.

*

Restam a ser consideradas as poucas emendas feitas nesta seção inicial ao texto de AAm datilografado pelo amanuense, e aquelas (quase completamente diferentes) feitas à cópia em carbono. Estas mudanças são apressadas, e casuais, em nenhum sentido uma revisão real do trabalho. Eras foram feitas em algum momento posterior que eu sou incapaz de definir; mas elas tiveram o efeito de trazer o início de AAm em acordo com a forma mais tardia da outra tradição, procedente do capítulo 1 de QS ‘Dos Valar’ e em última análise refletindo no trabalho curto e independente Valaquenta.

No topo da cópia do texto datilografado não apenas a seção sobre o Registro do Tempo foi mas também o comprimido relato dos Valar no início: uma nota na página de rosto do texto informa que os Anais devem começar no Primeiro Ano dos Valar em Arda ($11). Mas mudanças a lápis foram feitas a $$1-4 antes disso:

$1 ‘nove líderes’ > ‘sete líderes’; Ossë e Melkor foram riscados da lista. Sobre a remoção de Ossë ver $70.

$2 A palavra ‘também’ adicionada a ‘As rainhas dos Valar também eram sete’; Estë
adicionada e Uinen removida, de forma que a lista se torna ‘Varda, Yavanna, Niënna, Estë, Vairë, Vana e Nessa’.

$3 ‘Varda era a esposa de Manwë desde o início’ > ‘Varda era a esposa de Manwë desde o início de Arda’

‘e Uinen, senhora dos mares, é esposa de Ossë’ foi riscado (simplesmente uma
conseqüência de Ossë não ser mais listado entre os ‘líderes’).

‘irmã de Manwë e Melkor’ (sobre Niënna) foi riscado.

‘mas ela não vai aos conselhos dos Valar e não é registrada entre os regentes de Arda, mas é a senhora dos Maiar’ (sobre Estë) foi riscado (uma conseqüência de agora Estë ser incluída entre as ‘rainhas’).

$4 Está riscado de ‘E entre eles são contados os Valarindi…’ até o fim do parágrafo (ver abaixo).

$28 ‘grandes vasos’ > ‘poços brilhantes’ (compare com a mudança feita em AAm*).

Mudanças bastante diferentes foram feitas na cópia em carbono nesta seção sobre os Valar. Em $3 ‘a mulher de Oromë’ e ‘mulher de Tulkas’ foram alteradas para a esposa de Oromë e esposa de Tulkas. ‘Nenhum senhor possui Niënna’ foi alterado para ‘Nenhum companheiro tinha Niënna’; e na margem ao lado destas mudanças meu pai escreveu:

Note que ‘esposa’ significa apenas uma ‘associação’. Os Valar não tinham corpos, mas podiam assumir formas. Após a chegada dos Eldar ele mais freqüentemente usavam formas ‘humanas’, embora mais altas (não gigantes) e mais magnificentes.

Ao mesmo tempo a passagem referente aos Valarindi, os Filhos dos Valar, ao final de $34, foi riscada (assim como no texto principal), uma vez que esta nota é a afirmação mais definitiva de que quaisquer concepções desta forma estavam fora de cogitação.

Algumas poucas outras escritas a lápis foram feitas em pontos subseqüentes da cópia em carbono:

$20 Ao lado de Utumno está escrito a lápis: ‘UtupnÅ­ √TUI? ocultar, esconder’; com isto confira AAm* $20: ‘aquele forte foi mais tarde chamado Utumno o Esconderijo profundo’, e veja as Etimologias (HoME V), raiz TUB, onde a forma original do nome é dada como *Utubnu.

$23 Onde a palavras ‘deuses’ foi substituída por ‘os Servos de Ilúvatar’ em AAm* meu pai corrigiu a cópia em carbono do texto datilografado para ‘os Imortais’. Na ocorrência de ‘deuses’ no início do parágrafo ele fez a mesma mudança (para ‘eles’) que em AAm*.

$25 Após ‘um monte verdejante’ foi adicionado Ezellohar; e em $26 Ezellohar substitui ‘aquele Monte Verdejante’.

Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português

O Diálogo de Manwë e Eru

A ressurreição Élfica foi um dos problemas que gerou mais esforço por parte de Tolkien em sua solução. Milhares de linhas foram escritas, dando origem a textos clássicos e essenciais como Athrabeth Finrod ah Andreth, Comentário do Athrabeth Finrod ah Andreth e Leis e Costumes entre os Eldar. E hoje a Valinor tem a honra de publicar O Diálogo de Manwë e Eru, diretamente do The History of Middle-earth X, o qual trata de muitas particularidade espinhosas da ressurreição e renascimento Élfico.
“O Diálogo de Manwë e Eru”
e concepções tardias da reencarnação Élfica

 

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A afirmação no início da Nota 3 do Comentário sobre o Athrabeth Finrod ah Andreth de que “na tradição élfica sua reencarnação era uma permissão especial concedida por Eru a Manwë, depois que Manwë consultou-O diretamente na época do debate a respeito de Finwë e Míriel” parece muito estranha à luz de Leis e Costumes entre os Eldar, onde é dito bem explicitamente que “Um fëa desabrigado que escolhera, ou ao qual fora permitido retornar à vida, entrava novamente no mundo encarnado através do parto. Somente desse modo ele poderia retornar” (para o que tal ‘raro e estranho caso’ como o de Miriel, que foi ‘retornada a seu próprio corpo’, é registrado como a única exceção). Em Leis e Costumes existe uma pressuposição sobre todo o caso de que Miriel poderia, pela natureza das coisas, retornar da morte se ela quisesse; assim disse Ulmo no Debate dos Valar que “o fea de Miriel pode ter partido por necessidade, mas ele partiu no desejo de não retornar” e que “portanto era falta dela”. Não se pode pensar que o Leis e Costumes foi escrito sobre a base de que o renascimento foi apenas “dado como uma permissão especial” por Eru a Manwë “à época do debate relativo a Finwë e Miriel”, uma idéia sobre a qual não há dica ou sugestão naquele trabalho.A explicação disso é que após a escrita de Leis e Costumes as visões de meu pai com relação ao destino dos Elfos que morreram passaram por uma mudança radical, e a passagem citada da Nota 3 do Comentário sobre o Athrabeth não se refere ao “renascimento”, de forma alguma.Existe um texto intitulado “O Diálogo de Manwë e Eru”, que se segue a Leis e Costumes mas precede o Comentário sobre o Athrabeth. Este trabalho (datilografado) foi planejado para ser duplo, a primeira parte sendo as questões de Manwë e as respostas de Eru, e a segunda uma discussão filosófica elaborada sobre o significado e implicações; mas foi abandonado antes de ter sido terminado, e uma segunda e mais ampla versão do ”Diálogo” foi interrompida após apenas poucas páginas. Eu forneço a primeira parte, o “Diálogo”, apenas, na versão curta revisada original.

Manwë falou a Eru, dizendo: “Veja! um mal apareceu em Arda o qual não estávamos esperando: os Filhos Primogênitos, a quem Vós fizestes imortais, sofrem agora separação de espírito e corpo. Muitos dos fear dos Elfos na Terra-média estão agora desabrigados; e mesmo em Aman há um. Os desabrigados convocamos a Aman, para protegê-los da Escuridão, e todos que ouviram nossa voz residem aqui em espera. O que deve ser feito em seguida? Não há meios pelos quais suas vidas podem ser renovadas, para seguirem os cursos que Vós designastes? E o que fazer com os desapossados que lamentam aqueles que se foram?“Eru respondeu: “Que os desabrigados sejam re-abrigados!”

Manwë perguntou: “Como isto deverá ser feito?”

Eru respondeu: “Que o corpo que foi destruído seja refeito. Ou permita-se ao fea nu renascer como uma criança”.

Manwë disse: “É Vossa vontade que tentemos tais coisas? For tememos interferir com Vossos Filhos”.

Eru respondeu: “Não dei aos Valar o governo de Arda, e o poder sobre todas as substâncias desta, para modelá-la por suas vontades sob Minha vontade? Não sejam relutantes nestas coisas. Com relação aos meus Primogênitos, não removeste grandes números deles para Aman da Terra-média onde eu os coloquei?”

Manwë respondeu: “Isto nós fizemos, por medo de Melkor, e com boa intenção, e não sem apreensão, Mas usar nosso poder sobre a carne que Vós designastes, para abrigar ps espíritos de Vossos Filhos, parece um assunto além de nossa autoridade, mesmo não sendo além de nossas habilidades”.

Eru disse: “Eu dou a vocês a autoridade. As habilidades vocês já possuem, se forem prestarem atenção. Olhem e verão que cada espírito dos Meus Filhos retém em si mesmo a completa impressão e memória de sua antiga moradia; e em sua nudez é aberto a vocês, de forma que podem perceber claramente tudo que está nele. Com base nesta impressão podem criar para ele novamente uma tal casa em todos os particulares como era antes do mal ter caído sobre ele. Então podem mandá-lo de volta às terras dos Viventes”.

Então Manwë perguntou mais: “Ó Iluvatar, não falastes vós também de renascimento? Isto está também dentro de nossos poderes e autoridades?”

Eru respondeu: “Estará sob suas autoridades, mas não sob seus poderes. Aqueles que considerarem aptos a renascer, se eles o desejarem e o compreenderem claramente em que incorrem, mandarão para Mim; e Eu os considerarei”.


Será visto que dimensões completamente novas da questão sobre o retorno dos Mortos aos Viventes são criadas. Meu pai veio a pensar que antes da morte de Miriel não houve nenhum “re-abrigar” dos fear dos Mortos, e que foi apenas em resposta ao apelo de Manwë que Eru decretou tal possibilidade e as maneiras pelas quais poderia ser conduzida. Um de tais modos é o renascimento do fea como uma criança, mas tal Morto que assim o desejar deve ser entregue a Eru para aguardar Seu julgamento do caso. A outra maneira é a criação, pelos Valar, de “uma tal casa em todos os particulares como era antes do mal ter caído sobre ele”: a reencarnação do Morto em um hroa idêntico àquele sobre o qual a Morte veio. A longa discussão que se segue ao “Diálogo” é em sua maior parte preocupada com as idéias de “identidade” e “equivalência” em relação a esta forma de reencarnação,  representada como um comentário feito por Mestres de Conhecimento Eldarin.Um manuscrito escrito rapidamente em pequenos pedaços de papel, intitulado “Reencarnação dos Elfos”, parece mostrar as reflexões de meu pai sobre o assunto entre o abandono dO Diálogo de Manwë e Eru e o Comentário sobre o Athrabeth. Nesta discussão ele se refere com uma expressão rápida e elíptica sobre as dificuldades em cada nível (incluindo práticos e fisiológicos) da idéia de reencarnação do fea em uma criança recém-nascida de novos pais, que ao crescer recupera as memórias de sua vida anterior: “a objeção mais fatal” sendo que “isto contradiz a noção fundamental de que fea e hroa são feitos um para o outro: uma vez que o hroar tem uma continuação física, o corpo de renascimento, que tendo pais diferentes, deve ser diferente”, e isto deve ser uma condição de dor para o fea renascido.

Aqui ele estava abandonando, e definitivamente, a concepção de renascimento de há muito como um modo pelo qual os elfos poderiam retornar à vida encarnada: de seu escrutínio da idéia mítica, questionando sua validade nos termos em que ele a adotara, veio a parecer a ele uma falha séria na metafísica da existência Élfica. Mas, ele disse, isto era um “dilema”, pois a reencarnação dos Elfos “parece um elemento essencial dos contos”. “A única solução”, ele decidiu em sua discussão, era a idéia do refazer em forma idêntica o hroa do morto na maneira declarada por Eru nO Diálogo de Manwë e Eru: o fea mantém uma memória, uma impressão, de seu hroa, sua “antiga moradia”, tão poderosa e precisa que a reconstrução de um corpo idêntico pode seguir dela.

A idéia de um “Diálogo” entre Manwë e Eru não foi abandonado, e de fato é citado no “Reencarnação dos Elfos” (mas o “Diálogo” como dado acima já devia existir, uma vez que Eru expressamente declara o renascimento como um modo de reencarnação aberto ao fea “desabrigado”, uma vez que na presente discussão tal idéia é firmemente rejeitada e não encontra lugar na “única solução” para o “dilema”). A nova concepção procede, delineada, como segue. A Música dos Ainur não contém nenhuma previsão da morte dos Elfos e a existência de seus fear “desabrigados”, uma vez que de acordo com sua natureza eles seriam imortais dentro da existência de Arda. Existiam muitos de tais fear de Elfos que morreram na Terra-média reunidos nos Salões de Mandos, mas não foi antes da morte de Miriel em Aman que Manwë apelou diretamente a Eru por conselho. Eru “aceitou e ratificou a posição” – embora deixando claro a Manwë que os Valar deveriam ter contestado a dominação de Melkor na Terra-média bem mais cedo, e que a eles faltou estel: eles deveriam ter acreditado que em uma guerra legítima Eru não teria permitido a Melkor realizar tão grandes danos a Arda que os Filhos não pudessem surgir ou não pudessem habitá-la (confira  LQ $20: “E Manwë disse aos Valar: “Este é o conselho de Iluvatar em meu coração: que nós devemos retomar o governo de Arda, a qualquer custo, e livrar os Quendi das sombras de Melkor”. Então Tulkas ficou satisfeito; mas Aule lamentou, e é dito que ele (e outros Valar) antes não quiseram disputar com Melkor, prevendo as feridas do mundo que adviriam desta batalha”).

É então dito que “todos os fear dos Mortos vão para Mandos em Aman: ou melhor, eles agora são convocados até lá pela autoridade dada por Eru. Um local é feito para eles”. Isto parece significar que a Mandos foi dado o poder de convocar os espíritos dos Mortos para Aman; as palavras seguintes  “Um local é feito para eles” são difíceis de compreender, uma vez que elas parecem negar até mesmo que os Salões de Espera existiam antes de Manwë falar com Eru (apesar da afirmação anterior em “Reencarnação dos Elfos” de que existiam muitos fear desabrigados reunidos em Mandos antes do “Diálogo” acontecer).

Aos Valar agora foi dada a autoridade para reencarnar os fear dos Elfos que morreram em hroar idênticos àqueles que perderam; e o texto continua: O fea re-abrigado normalmente irá permanecer em Aman. Apenas em casos bastante excepcionais, como Beren e Lúthien,  eles serão transportados de volta à Terra-média… uma vez que a morte na Terra-média tinha muito do mesmo tipo de tristeza e separação para Elfos e Homens. Mas, como Andreth viu, a certeza de viver novamente e fazer coisas em forma encarnada faz uma diferença vital para a morte como um terror pessoal (confira o Athrabeth).

No que parece ser um segundo pensamento meu pai então pergunta se não seria possível que o fea “desabrigado” fosse permitido (sendo instruído) reconstruir seu hroa a partir de sua memória (e isto, como parece do bastante tardio texto sobre o assunto da reencarnação de Glorfindel de Gondolin, tornou-se sua visão firme e estabelecida sobre o assunto). Ele escreve aqui: “A memória de um fea da sua experiência é evidentemente poderosa, vívida e completa. Assim a concepção subjacente é que ‘matéria’ será elevada a ‘espírito’, tornando-se parte de seu  conhecimento – e então tornada imortal e sob o comando do espírito. Como os Elfos remanescentes na Terra-média lentamente ‘consumiam’ seus corpos – ou os tornavam vestimentas da memória? A ressurreição do corpo (pelo menos no que se refere aos Elfos) era em um certo sentido incorpórea.  Mas apesar de poder ultrapassar barreiras físicas a vontade, ele também poderia a vontade opor resistência à matéria. Se você tocasse um corpo ressuscitado você o sentiria. Ou se ele desejasse poderia apenas iludi-lo – desaparecer. Sua posição no espaço era à vontade”.

Nem no trecho sobre a reencarnação contido no Comentário sobre o Athrabeth (parágrafo 6) nem na Nota 3 que se refere a ele há qualquer menção sobre renascimento; enquanto que este último evidentemente ecoa as palavras do “Reencarnação dos Elfos”. Isto fica fortemente visível na Nota 3, mesmo que não expressamente dito, que foi apenas ao tempo do diálogo de Manwë com Eru que a Mandos foi dado o poder  de de fato convocar os fear dos Mortos; e a passagem que se segue a esta na Nota é bastante similar ao que é dito na “Reencarnação dos Elfos”:

“Lá lhes era dada a escolha de permanecerem desabrigados ou (se desejassem) serem re-alojados na mesma forma e aspecto que possuíam. Não obstante, geralmente eles devem permanecer em Aman. Portanto, se habitassem na Terra-média, a sua privação em relação aos amigos e parentes, e a privação destes, não era corrigida. A morte não era completamente curada. Mas como Andreth observou, esta certeza a respeito de seu futuro após a morte, e o conhecimento de que eles pelo menos seriam capazes (caso desejassem), como encarnados, de fazer e criar coisas e continuar sua experiência de Arda, tornava a morte para os elfos algo totalmente diferente da como essa era vista pelos homens.”

Um ponto interessante com respeito à cronologia da composição surge da afirmação encontrada tanto na “Reencarnação dos Elfos” quanto na Nota 3 do Comentário de que a morte dos Elfos e a morte dos Homens eram coisas diferentes, “como Andreth observou”. Portanto o Athrabeth já existia quando o “Reencarnação dos Elfos” foi escrito; mas o Comentário se seguiu ao “Reencarnação”. Isto parece ser uma evidência clara de que existiu um intervalo entre a escrita do Diálogo de Finrod e Andreth e a escrita do Comentário sobre o mesmo.

Uma última passagem do “Reencarnação dos Elfos” deve ser mencionada. Em uma espécie de “à parte” do curso de seus pensamentos, movendo-se (ainda) mais rapidamente do que  sua caneta, meu pai anotou que “a exata natureza da existência em Aman ou Eressea após suas ‘remoções’ deve ser dúbia e inexplicada”, da mesma forma que a questão sobre “como ‘mortais’ poderiam ir até lá, de qualquer forma”. Sobre isto ele observou que Eru tinha “muito antes” deixado os Mortos dos mortais sob responsabilidade de Mandos; confira QS $86:

“O que advinha a seus espíritos após a morte os Elfos não sabiam. Alguns dizem que eles também vão para os salões de Mandos; mas seu local de espera não é aquele dos Elfos; e exceto por Manwë apenas Mandos abaixo de Ilúvatar sabe para onde vão após o tempo de sua permanência naqueles salões silenciosos além do Mar do Oeste. A jornada de Frodo (ele foi) a Eressea – então a Mandos? – foi apenas uma forma estendida disso. Frodo eventualmente iria deixar o mundo (desejando fazê-lo). Então a partida no navio foi equivalente à morte”.

Isto pode contrastar com o que ele escreveu no final de registro sobre O Senhor dos Anéis em sua carta de 1951 a Milton Waldman (uma passagem omitida nas Cartas  mas publicada no HoMe IX):

A Bilbo e Frodo foi concedida a graça especial de partir com os Elfos que eles amavam – um final Arturiano, no qual, claro, não é deixado explícito se é uma “alegoria” da morte ou um modo de cura e restauração levando a um retorno.

Em sua carta a Naomi Mitchison de Setembro  de 1954  (Cartas No. 154), contudo, ele disse:

… a idéia mítica subjacente é de que para os mortais, uma vez que sua ‘raça’ não poderia ser alterada para sempre, esta seria apenas uma recompensa estritamente temporária: uma cura e um remediar do sofrimento. Eles não poderiam residir para sempre, e embora não pudesse retornar à terra mortal, eles podiam e iriam ‘morrer’ – de livre vontade e deixar o mundo. (Neste contexto o retorno de Arthur seria totalmente impossível, uma imaginação vã).

E muito mais tarde, em um rascunho de uma carta de 1963 (Cartas No. 246), ele escreveu:

Frodo foi enviado ou a ele foi permitido passar sobre o mar para curá-lo – se tal poderia ser feito, antes dele morrer.  Eventualmente ele iria ‘morrer’: nenhum mortal poderia, ou pode, residir para sempre na terra, ou no Tempo. Então ele foi tanto ao purgatório quanto a uma recompensa, por algum tempo: um período de reflexão e paz e obtenção de uma compreensão mais verdadeira de sua posição  na pequeneza e na grandeza, passando um Tempo na natureza de ‘Arda Não-Desfigurada’, a Terra intocada pelo mal.

 

Tal-elmar

225px-the_peoples_of_middle-earth.jpgA Valinor tem o orgulho de traduzir e publicar Tal-elmar, que é um dos textos mais “diferentes” de Tolkien, com exceção do “The Notion Club Papers” (que logo veremos aqui na Valinor). É um texto do The History of Middle-earth 12, na verdade o fechamento deste volume e de toda a série The History of Middle-earth. Ele mostra a chegada dos Numenorianos à Terra-média através de um dos “Homens Médios”, um membro da raça dos homens aparentada aos numenorianos, mas não tão imponente quanto estes (os “Alto Homens”) nem tem baixa quanro os “Homens Selvagens”. Espero que gostem! Comentários de Christopher Tolkien em itálico e todas as notas são de Christopher Tolkien.
TAL-ELMAR
O conto de Tal-Elmar, até onde o mesmo vai, está preservado em um papel dobrado, datado de 1968, no qual meu pai escreveu a seguinte nota apressada:
Tal-Elmar.Começo de um conto que vê os Numenorianos do ponto de vista dos Homens Selvagens. Ele começa sem muita consideração com a geografia (ou a situação como imaginada em O Senhor dos Anéis). Mas ele permanecer como um conto em separado apenas vagamente conectado com a história desenvolvida nO Senhor dos Anéis ou – como acredito – deve recontar a chegada dos Numenorianos (Amigos-dos-Elfos) antes da Queda e representar suas escolhas de portos permanentes. Portanto a geografia deve ser alterada para se encaixar àquela da foz do Anduin e do Langstrand.

Mas isto foi escrito treze anos depois dele ter abandonado a história e não há sinais dele ter retornado a ela em seus últimos anos. Curta como é e (como parece) incerta em seu direcionamento, tal distanciamento de todas os outros temas narrativos dentro do compasso da Terra-média servirá, talvez, como uma conclusão adequada a esta História.

O texto se encontra em duas partes. A primeira é formada por seis páginas datilografadas que se encerram no meio de uma sentença; mas a primeira parte deste existe também como uma página rejeitada, parte datilografada parte manuscrita (ver nota 5). Além deste ponto a história inteira está na primeira fase de composição. A segunda parte é um manuscrito no qual meu pai escreveu ‘Continuação de Tal-Elmar’ e a data Janeiro 1955; não há indicação de quanto tempo se passou entre as duas partes, mas eu acredito que o trecho datilografado também pertence à década de 1950. É digno de nota que ele estivesse trabalhando nele durante o período de extrema pressão entre a publicação de As Duas Torres e a de O Retorno do Rei. Este manuscrito retoma a história de onde ela parou no trecho datilografado, mas não completa a sentença deixada sem fim; ele se torna progressivamente mais difícil e em uma seção está no limite da legibilidade, com algumas palavras ininterpretáveis. No final da narrativa há passagens experimentais e questionamentos. A não ser em poucos casos, eu não relatei as alterações realizadas no texto e dou apenas a última versão; e em um ou dois casos eu alterei usos inconsistentes de ‘vós’ e ‘você’.

Nos dias dos Reis da Escuridão, quando um homem poderia andar sem molhar os pés desde o Nascer do Sol até o Mar onde ele se põe, viveu em uma cidade paliçada de seu povo nas colinas verdejantes de Agar um velho homem, de nome Hazad Barbalonga (1). Dois orgulhos ele tinha: no número de seus filhos (dezessete ao todo) e no comprimento de sua barba (cinco pés, sem esticar); mas sua satisfação devido à sua barba era a maior das duas. Pois ela permanecia com ele e era macia e obediente à sua mão, enquanto seus filhos em sua maior parte o deixaram e aquele que permaneciam ou visitavam esporadicamente não eram nem gentis nem obedientes. Eles eram muito como Hazad havia sido nos dias de sua juventude: entroncados, de pele escura, baixos, rígidos, de línguas afiadas, mãos pesadas e rápidos à violência.

Exceto por um deles, o mais jovem. Tal-elmar Hazad o havia nomeado. Ele ainda não tinha dezoito anos de idade e vivia com seu pai e os outros dois filhos mais novos. Ele era alto, de pele clara e havia uma luz em seus olhos cinzentos que se inflamava quando ele se enfurecia; e embora fosse raro e nunca sem uma boa razão, era algo a se recordar e ter cuidado. Aqueles que haviam visto o fogo o chamavam de Olhos-brilhantes e o respeitavam, amassem-no ou não. Pois Tal-elmar parecia, dentre aquele povo entroncado e de pele escura, esbelto e sem a força nos pernas e pescoço que eles prezavam, mas um homem que brigasse com ele logo perceberia ele ser mais forte do que parecia, rápido e ligeiro, difícil de segurar e mais difícil ainda de escapar.

Ele tinha uma bela voz, que fazia até mesmo o idioma rude daquele povo mais suave de se ouvir, mas ele não falava muito; e freqüentemente ele permanecia quieto enquanto os outros conversavam, com um olhar em sua face que os demais corretamente interpretavam como orgulho, embora não fosse o orgulho de um mestre, mas antes o orgulho de alguém de uma raça estrangeira que o destino lançou em meio a um povo ignóbil e lá o manteve em servitude. Pois Tal-elmar trabalhava pesado em tarefas domésticas, não sendo nada além do filho mais novo de um homem velho, que tinha pouca riqueza restando além de sua barba e de uma reputação de sabedoria. Mas estranhamente (para aquela cidade) ele servia a seu pai de boa vontade e o amava, mais do que todos os seus irmãos juntos e mais do que era o costume de qualquer filho naquela terra. De fato era mais comum o brilho ser visto em seus olhos quanto estava defendendo seu pai.

Pois Tal-elmar possuía uma estranha crença (de onde ela viera era um mistério) de que os velhos deveriam ser tratados com carinho e cortesia, e deveria ser permitido viver o resto de seus dias com o máximo de conforto que pudessem. ‘Se precisarmos contrariá-los’, ele dizia, ‘que seja com respeito; pois eles já viram muitos anos e, muitas vezes, talvez, enfrentaram os males que ainda não encontramos. E não se ressinta de sua comida ou seu quarto, pois eles trabalharam mais do que você e não recebem agora, tardiamente, mais do que uma parte do pagamento que lhes é devido’. Tal tolice não tinha efeitos nos costumes de seu povo, mas era lei em sua casa; e já se passaram dois anos desde que qualquer de seus irmãos ousou quebrá-la (2).

Hazad amava bastante seu filho mais jovem, em retorno a seu amor e ainda mais por outra razão que ele mantinha em seu coração: sua face e voz o lembravam de outra pessoa que há muito ele sentia falta. Pois Hazad também havia sido o filho mais jovem de sua mãe e ela morrera quando ele era uma criança; e ela não era de seu povo. Tal era o conto que ele ouvira, não abertamente, pois o mesmo não dava moral à sua casa: ela viera de um povo estranho, cheio de ódio e orgulhoso, do qual se ouvia rumores nas terras do oeste e vinha do Leste, como era dito. Altos, belos e com olhos brilhantes eles eram, com armas brilhantes feitas por demônios em colinas de fogo. Lentamente eles iam em direção ao Mar, expulsando em sua passagem os antigos moradores de suas terras.

Não sem resistência. Ocorreram batalhas nas fronteiras do leste e uma vez que o povo mais antigo ainda era numeroso, os recém-chegados algumas vezes sofriam grandes perdas e eram expulsos. De fato pouco se ouvira deles nas Colinas de Agar, distante no oeste, por mais de uma vida de homem, desde a grande batalha sobre a qual canções ainda eram cantadas. No vale de Ishmalog ela fora travada, contavam os sábios, e lá uma grande horda do povo Bárbaro foi emboscada em um local estreito e assassinada aos montes. E naquele dia muitos foram feitos cativos; por isso não havia mais agitação nas fronteiras ou lutas com guardas avançadas: todo um povo da Raça Bárbara estivera se movendo com suas carroças e gado e mulheres.

Buldar, pai de Hazad, estivera no exército do Rei do Norte (3) que fora enviado para Ishmalog (4), e ele trouxe como espólio de guerra um ferimento, uma espada e uma mulher. E ela era afortunada; pois o destino dos cativos era curto e cruel, e Buldar a tomou como esposa. Pois ela era bela e a tendo visto ele não desejava qualquer mulher de seu próprio povo. Ele era um homem de riqueza e poder naqueles tempos e fez como quis, escarnecendo o escárnio de seus vizinhos. Mas assim que sua esposa, Elmar, aprendeu o suficiente da fala de seu novo grupo um dia ela disse a Buldar: eu tenho muito que te agradecer, senhor; mas não penses que terás meu amor. Pois me tiraste de meu próprio povo e daquele que eu amava e do filho que eu dera a ele. A eles sempre sentirei falta e chorarei, e darei meu amor a mais ninguém. Nunca mais serei satisfeita enquanto for mantida cativa entre um povo estranho que eu vejo como baixo e desagradável.

‘Que assim seja’, disse Buldar. ‘Mas não deves pensar que eu deveria deixá-la livre. Pois és preciosa ao meu olhar. E considere bem: em vão é tentar escapar-me. Longo é o caminho até o restante de teu povo, se algum ainda está vivo; e não irias longe das Colinas de Agar e encontrarias a morte ou uma vida muito pior do que a aquela que terias em minha casa. Baixos e desagradáveis nos chamastes. Com razão, talvez. Mas verdade também é que vosso povo é cruel e sem lei e amigos de demônios. São ladrões. Pois nossas terras o são nossas desde há muito, as quais vocês nos arrancam com suas lâminas cruéis. Peles claras e olhos brilhantes não são desculpas para tais atos’.

‘Não são?’, disse ela. ‘Então também não o são pernas grossas e ombros largos. Ou por que meios ganhastes estas terras de que fala? Não existe, como escutei falarem, um povo selvagem em cavernas nas montanhas, que outrora correram livres por aqui, até que seu povo de pele escura veio e os caçou como lobos? Mas eu não falo de diretos, mas de tristeza e amor. Se eu preciso morar aqui, então morarei, como alguém cujo corpo está aqui à tua vontade, mas meu pensamento longe noutro lugar. E esta vingança eu terei: enquanto meu corpo for mantido aqui em exílio, o quinhão de todo este povo diminuirá e o teu mais do que todos; mas quando meu corpo for para dentro desta terra estrangeira e meu pensamento ficar livre dele, então entre os teus surgirá um que é apenas meu. E com seu surgimento chegará o fim do teu povo e a queda do teu rei’.

Após isto Elmar não falou mais nada sobre este assunto; e ela era de fato uma mulher de poucas palavras enquanto sua vida durou, exceto para seus filhos. Para eles falava muito quando ninguém estava perto e ela cantava para eles muitas canções em uma língua bela e estranha; mas eles não lhe davam atenção ou logo esqueciam. Exceto Hazad, o mais jovem; e embora ele fosse, assim como todos os outros filhos, diferentes em corpo, ele era o mais próximo em coração. As canções e a estranha língua ele também esqueceu quando cresceu, mas sua mãe ele nunca esqueceu; e ele se casou tarde, pois nenhuma mulher de seu povo lhe parecia desejável, ele que conhecera o que a beleza em uma mulher deveria ser (5).

Não que existissem muitas para cortejar, pois como Elmar falara, o povo de Agar diminuiu com os anos, devido a climas ruins e pestes, e mais do que todos foi atingido Buldar e seus filhos; e eles se tornaram pobres e outras famílias tomaram o poder deles.  Mas Hazad não sabia da previsão de sua mãe, e devido à sua memória amava Tal-elmar, e por isso assim o nomeara em seu nascimento.

Por acaso em uma manhã de primavera quando seus outros filhos partiram para o trabalho Hazar manteve Tal-elmar a seu lado, e andaram juntos e se sentaram sobre o verdejante topo da colina acima da cidade de seu povo; e eles olharam para o sul e oeste onde podiam ver ao longe a grande baía onde o Mar adentrava na terra, e brilhava como vidro cinzento. E os olhos de Hazad estavam ficando fracos com a idade, mas os de Tal-elmar eram aguçados e ele viu o que pensou ser três pássaros estranhos sobre as águas, brancos ao sol, e eles estavam deslizando com o vento oeste em direção a terra; e ele pensou no  porque eles ficam no o mar e não voavam.

‘Eu vejo três estranhos pássaros sobre a água, pai’, ele disse. ‘Não são como nenhum outro que eu tenha visto’.

‘Aguçados podem ser teus olhos jovens, meu filho’, disse Hazad, ‘mas pássaros na água não podes ver. Três léguas distantes daqui onde sentamos está o litoral mais próximo. O sol te confunde ou algum sonho está em ti’.

‘Não, o sol está atrás de mim’, disse Tal-elmar. ‘Eu vejo o que vejo. E se não são pássaros então o que são? Muito grandes devem ser, maiores do que os Cisnes de Gorbelgod (6), dos quais falam as lendas. E veja! Vejo agora outro vindo atrás, mas com menos clareza, pois suas asas são negras’.

Então Hazad ficou preocupado. ‘Um sonho está em você, como eu disse, meu filho’, ele respondeu; ‘mas um sonho ruim. Já não é a vida dura o suficiente aqui, que logo que a primavera veio e o inverno finalmente terminou, precisas trazer uma visão de um passado negro?’

‘Esquecestes, pai’, disse Tal-elmar, ‘que sou teu filho mais novo e enquanto ensinastes muitos conhecimentos às orelhas surdas de meus irmãos a mim destes menos de tua reserva. Não sei nada do que se passa em tua mente’.

‘Não conheces?’, disse Hazad, forçando a visão ao olhar para o Mar. ‘Sim, possivelmente já faz muito tempo que falei sobre isto; não é mais do que a sombra de um sonho no fundo de minha memória. Três povos temos como inimigos. Os homens selvagens das montanhas e florestas; mas a estes só quem vaga sozinho precisa temer. O Povo Bárbaro do Leste; e eles ainda estão bem longe e são o povo da minha mãe, embora eu não duvide de que eles não honrariam o parentesco se viessem aqui com suas espadas. E os Altos Homens do Mar. Estes, de fato, podemos temer como à Morte. Pois eles idolatram a Morte e assassinam homens cruelmente em honra à Escuridão. Do Mar eles vêm e se possuem alguma terra deles mesmos, antes de aportaram nos litorais do oeste, não sabemos onde pode ser. Lendas terríveis chegaram a nós dos litorais, norte e sul, onde ele há muito estabeleceram suas fortalezas negras e seus túmulos. Mas aqui eles não vêm desde os dias de meu pai, e então vinham apenas para pilhar e capturar homens e partiam. Este era a modo de agir deles. Eles chegavam em barcos, mas não barcos como alguns de nosso povo utilizam nos grandes rios ou lagos, para transporte ou pesca. Maiores do que grandes casas eram os barcos dos Go-hilleg, e eles mantinham espaços para homens e mercadorias, além de serem empurrados pelos ventos; pois os Homens-do-mar estendiam grandes tecidos como asas para pegar os ventos e os prendiam em postes altos como árvores da floresta. Então eles chegavam ao litoral, onde existisse proteção ou tão próximo quanto conseguissem; e então enviavam barcos menores carregados com mercadorias e coisas estranhas tão belas quanto úteis que nosso povo desejava. Estas coisas eles vendiam por um pequeno preço ou davam como presentes, fingindo amizade e piedade por nossas necessidades; e eles moravam por um tempo e espionavam a terra e o número do povo, e então partiam. E se não retornasse as pessoas deveriam ficar gratas. Pois se viessem novamente seria em outra forma. Vinham então em grande número: dois barcos ou mais, juntos, cheios de homens e não de mercadorias, e sempre um dos malditos navios possuía asas negras. Pois aquele é o Barco da Escuridão, e nele levavam embora a pilhagem maligna, cativos amontoados como bestas, as mais belas mulheres e crianças, ou homens jovens sem defeitos físicos, e este era o fim deles. Alguns dizem que eles eram utilizados como carne; outros que eles eram mortos com tormentos sobre pedras negras em idolatria à Escuridão. Talvez ambos estejam corretos. As horríveis asas dos Homens-do-Mar não foram vistas nestas águas por muitos anos; mas relembrando a sombra do medo no passado eu falei e falo de novo: já não é nossa vida dura o suficiente sem a visão de uma asa negra sobre o mar brilhante?’

‘Dura o bastante, de fato’, disse Tal-elmar, ‘ainda assim não tão dura que eu queira deixá-la ainda. Venha! Se o que você disse é real então devemos correr para a cidade e avisar os homens, e nos preparar-nos para fuga ou defesa’.
or for defence.’

‘Eu irei’, disse Hazad. ‘Mas não te espantes se os homens rirem de mim como se eu estivesse fora do meu juízo. Eles acreditam pouco em coisas que não tenham acontecido durante seus próprios dias. E tenha cuidado, caro filho! Eu corro pouco perigo, além de morrer de fome em uma cidade vazia, só com loucos e velhos. Mas tu estarias dentre os primeiro pegos pelo Barco Negro. Não te coloques na dianteira de nenhum apressado conselho de guerra’.

‘Veremos’, respondeu Tal-elmar. ‘Mas tu és minha principal preocupação nesta cidade, onde tenho e dou pouco amor. Não partirei de teu lado de boa vontade. Mesmo assim esta é a cidade de meu povo e nosso lar, e os aptos estão fadados a defendê-la, assim como eu’.

Então Hazad e seu filho desceram a colina e era meio-dia; e na cidade estavam poucas pessoas além das idosas e crianças, por todos os capazes estavam nos campos, ocupados com o árduo trabalho da primavera. Não havia vigia, pois as Colinas de Agar estavam distantes das fronteiras hostis onde o poder do Quarto Rei (7) terminava. O mestre da cidade sentava à porta de sua casa ao sol, dormindo ou placidamente observando os pequenos pássaros que juntavam pedaços de comida da lama seca e batida do lugar aberto no meio das casas.

‘Saudações! Mestre de Agar!’ disse Hazad, e curvou-se, mas o mestre, um homem gordo com olhos de lagarto, apenas piscou e não retornou o cumprimento.

‘Saudações ao trono, Mestre! E que por muito você possa continuar assim!’ disse Tal-elmar, e havia um brilho em seus olhos. ‘Não devemos perturbar seus pensamentos, ou seu sono, mas há novidades às quais, talvez, você deva dar atenção. Não há vigia posto, mas por acaso estávamos no topo da colina e vimos o mar ao longe e lá – aves de mau agouro sobre a água’.

‘Navios dos Go-hilleg’, disse Hazad, ‘com grandes tecidos-de-vento. Três brancos – e um negro’.

O mestre bocejou. ‘Quanto a tu, ancião de olhos cansados’, ele disse, ‘não podes diferenciar o mar de uma nuvem. E quanto a este rapaz folgado, o que sabe ele de barcos ou tecidos-de-vento, ou todo o resto, exceto por teus loucos ensinamentos? Vá aos quebradores de pedra nômades (8) com suas histórias de bruxa sobre os Go-hilleg e não me incomode mais com tais tolices. Tenho outros assuntos de mais peso a ponderar’.

Hazad engoliu sua fúria, pois o Mestre era poderoso e não gostava dele; mas a ira de Tal-elmar era fria. ‘Os pensamentos de alguém com tão grandes necessidades devem ser pesados’, disse ele suavemente, ‘embora eu não saiba que pensamento de mais peso poderia interromper seu repouso do que o cuidado com sua própria carcaça. Ele será um mestre sem povo, ou um saco de ossos na colina, se zombar da sabedoria de Hazad filho de Buldar. Olhos cansados podem ver mais do que aqueles fechados pelo sono’.

A obesa face de Mogru o Mestre escureceu e seus olhos ficaram injetados de sangue pela raiva. Ele odiava Tal-elmar, embora nunca antes o jovem tivera lhe dado razão, exceto que não demonstrava medo em sua presença. Agora ele deveria pagar por isso e por sua recém-descoberta insolência. Mogru bateu palmas, mas ainda enquanto o fazia lembrou que não havia ninguém próximo que ousaria se atracar com o jovem, não, nem mesmo três juntos; e ao mesmo tempo ele viu o brilho dos olhos de Tal-elmar. Ele empalideceu, e as palavras que ele estava prestes a falar, ‘Filho de escrava e seu moleque’, morreu em seus lábios. ‘Hazad uBuldar, Tal-elmar uHazad, desta  cidade, não fale assim com o mestre de seu povo’, ele disse. ‘Um posto de vigia foi criado, embora tu que não tens o governo da cidade possas não saber. Aguardarei até ter um relato dos vigias, nos quais confio, que algo de ruim foi visto. Mas se estás tão ansioso vá aos campos e chame os homens’.

Tal-elmar observou-o cuidadosamente enquanto ele falava e leu claramente seus pensamentos. ‘Agora devo esperar que meu pai não tenha se enganado’, ele disse em seu coração, ‘pois menos perigo a batalha me trará do que o ódio de Mogru deste dia em diante. Um posto de vigia! Sim, mas apenas para espionar as indas e vindas do povo da cidade. E no momento em que eu for aos campos um corredor irá reunir seus servos e homens com porretes. Causei um mal a meu pai nesta hora. Bem! Aquele que começou com a pá deve empunhá-la até terminar o canteiro’. Sua fala, portanto continuou com raiva e escárnio. ‘Vá aos quebradores de pedra você mesmo’, ele disse, ‘pois você está acostumado a usar aquele povo matreiro, e prestar atenção aos seus contos quando te servem. Mas meu pai você não escorneará enquanto eu estiver por perto. Podemos muito bem estar em perigo. Portanto você deverá vir conosco ao topo da colina, e ver com seus próprios olhos. E se você não vir nada que justifique, você deverá chamar seus homens para a colina-dos-Debates. Eu serei seu mensageiro’.

E Mogru também observava a face de Tal-elmar pela fenda de suas pálpebras enquanto este falava, e considerou que não estaria sob risco de violência se cedesse dessa vez. Mas seu coração estava repleto de veneno; e não o irritava pouco o esforço de subir a colina. Lentamente ele se pôs de pé.

‘Eu irei’, ele disse. ‘Mas se meu tempo e esforço forem desperdiçados, eu não perdoarei. Auxilie meus passos; jovem, pois meus servos estão nos campos’. E ele tomou o braço de Tal-elmar e se apoiou pesadamente sobre ele.

‘Meu pai é o mais ancião,’ disse Tal-elmar; ‘e o caminho não é curto. Deixe que o Mestre lidere, e nós seguiremos. Aqui está teu bastão!’. E soltou-se do aperto de Mogru, e deu a este seu bastão o qual estava à porta de sua casa; e tomando o braço de seu pai ele aguardou até o Mestre estar preparado. De soslaio e escuro foi o olhar dos olhos-de-lagarto, mas o brilho dos olhos de Tal-elmar que eles vislumbraram feria como uma agulha. Há muito que as pernas obesas de Mogru não desenvolviam tal velocidade entre a casa e o portão; e mais tempo ainda que não carregaram sua barriga pela subida escorregadia da colina além do dique. Ele estava respirando pesadamente e bufando como um cachorro velho, quando chegaram ao topo.

Então novamente Tal-elmar olhou ao longe; mas o imenso e distante mar estava agora vazio, e ele ficou em silêncio. Mogru limpou o suor de seus olhos e seguir seu olhar.

‘Por que razão, pergunto, tiraste o Mestre da cidade de sua casa e o trouxeste a este lugar?’, ele rosnou. ‘O mar permanece onde deveria estar, e vazio. O que dizes?’

‘Tenha paciência e olhe mais perto’, disse Tal-elmar. Para o oeste as colinas bloqueiam a visão de tudo, exceto do mar mais distante; mas se elevando até o largo topo da Colina Dourada eles desciam repentinamente, e em uma abertura profunda um relance da grande baía e das águas próximas a seu litoral norte podia ser visto. ‘O tempo passou desde que estivemos aqui, e o vento está forte’, disse Tal-elmar. ‘Eles chegaram mais perto’. Ele apontou. ‘Lá você verá suas asas, ou seus tecidos-de-vento, chame-os como quiser. Mas qual é seu conselho? E não é um assunto que o Mestre deveria ver com seus próprios olhos?’

Mogru olhou, e bufou, agora tanto pelo medo quanto pelo trabalho de subir a colina, pois mesmo arrogante como parecia ele tinha ouvido muitas lendas terríveis sobre os Go-hilled das anciãs, em sua juventude. Mas seu coração era matreiro e negro pela ira. Olhou de soslaio primeiro para Hazad, e então para seu filho; e lambeu os lábios, mas não deixou que seu sorriso fosse visto.

‘Você pediu para ser meu mensageiro’, ele disse, ‘e assim serás. Vá agora com rapidez e convoque os homens para a colina-dos-Debates! Mas isto não encerrará tua missão’, acrescentou enquanto Tal-elmar se preparava para correr. ‘Direto dos campos deverás ir com toda velocidade para a Praia. Pois ali os barcos, se barcos são, provavelmente irão parar, e os homens desembarcarão. Deverás obter notícias e espionar bem quem desembarcar. Não voltes a não ser que tenhas novidades que auxiliarão em nossos conselhos. Vás e não te poupes! Comando-te. É tempo de perigo para a cidade’.

Hazad pareceu pronto a protestar; mas baixou a cabeça, e não disse nada, sabendo ser em vão. Tal-elmar parou por um momento, observando Mogru, como alguém olharia uma cobra no caminho. Mas ele percebeu que a esperteza do Mestre fora maior que a sua. Ele armara sua própria armadilha, e Mogru a utilizou. Ele declarou tempo de perigo para a cidade, e tinha o direito de ordenar qualquer serviço. Seria morte desobedecê-lo. E mesmo que Tal-elmar não tivesse se nomeado mensageiro (tentando evitar que qualquer palavra secreta passasse aos servos do mestre), ele diria que a escolha foi justa. Um batedor deveria ser enviado, e quem melhor do que um jovem forte e corajoso, de pés rápidos? Mas também havia malícia na missão, uma malícia negra, de qualquer forma. O defensor de Hazad deveria partir. Não havia esperança em seus irmãos: tolos fortes, mas sem coração para desafiar, exceto a seu velho pai. E era provável que ele não retornasse. O perigo era grande.

Mais uma vez Tal-elmar olhou para o Mestre, e então para seu pai, e então vislumbrou o bastão de Mogru. O brilho estava em seus olhos, e em seu coração o desejo de matar. Mogru percebeu e recuou com medo.

‘Vá, vá!’ ele gritou. ‘Eu já te ordenei. És mais rápido em gritar lobo do que em começar a caçada. Vá de uma vez!’.

‘Vá, meu filho!’, disse Hazad. ‘Não desafie o Mestre. Não onde ele tem a razão. Pois então desafiarias toda a cidade, e estaria acima do teu poder. E fosse eu o Mestre, eu te escolheria, mesmo me sendo querido; pois tens mais coração e sorte do que qualquer um deste povo. Mas retorne, e não deixe o Barco Negro tê-lo. Não seja corajoso demais! Pois melhores serão más notícias trazidas por ti, vivo, do que pelos Homens-do-Mar sem aviso’.

Tal-elmar se curvou e fez o sinal de submissão para seu pai, mas não para o Mestre, e se afastou dois passos. E então se virou. ‘Ouça, Mogru, a quem um povo inferior em sua tolice nomeou mestre’, ele disse. ‘Talvez eu retorne, contra tuas expectativas. Meu pai eu deixo em teu cuidado. Se eu retornar, seja com uma palavra de paz, seja com o inimigo em meu encalço, então teu tempo como mestre estará encerrado, e tua vida também, se eu descobrir que ele sofreu algum mal ou desonra que poderias ter evitado. Teus homens-de-faca e portadores-de-porretes não te ajudarão. Eu apertarei teu pescoço gordo com minhas mãos vazias, se precisar; ou te caçarei através dos ermos até as poços escuros’.  Então um novo pensamento o acossou e ele se dirigiu ao Mestre, e pegou seu bastão.

Mogru se encolheu, e estendeu um braço gordo, como para se defender de um golpe. ‘Está louco hoje’, coaxou. ‘Não cometas violência contra mim ou a pagarás com tua morte. Não ouviste as palavras de teu pai?’

‘Eu ouvi, e eu obedeço’, disse Tal-elmar. ‘Mas a primeira missão é para os homens, e há necessidade de rapidez. Pouca honra tenho entre eles, pois sabem bem que escarneces de nós. Que atenção prestarão, se os bastardos da Escrava, como nos nomeais quando não estou perto, chegar (9) gritando convocações para a colina-dos-Debates em teu nome e sem prova. Teu bastão servirá. É bem conhecido. Não, não irei bater-te com ele ainda!’

Com isso ele então pegou o bastão das mãos de Mogru e desceu correndo a colina, seu coração ainda quente demais com a ira para pensar no que estaria à sua frente. Mas quando ele convocou os homens nas terras inclinadas do sul e agitou o bastão entre deles, aconselhando que se apressassem, correu para o pé da colina, e além dos grandes gramados, e então chegou ao primeiro caminho estreito das florestas. Escuro ele se estendia ante ele no vale entre Agar e as colinas do litoral.

Ainda era manhã, mais de uma hora antes do meio-dia, mas quando ele chegou embaixo das árvores parou e começou a pensar, e percebeu que estava perturbado de medo. Raramente ele vagava longe das colinas de sua casa, e nunca sozinho, nem muito longe na floresta. Pois todo o seu povo temia a floresta (10).

Aqui o trecho datilografado é interrompido, não ao pé da página, e o manuscrito ‘Continuação de Tal-Elmar’ (como o nome agora é escrito) começa.

É rápido para os olhos viajarem até litoral, mas lento para os pés; e a distância era maior do que parecia. A floresta estava escura e desconfortável, pois ali ficavam águas estagnadas entre as colinas de Agar e as colinas do litoral; e muitas cobras viviam ali. Era silenciosa também, pois embora fosse primavera poucos pássaros construíam ninhos ali ou mesmo pousavam ao passarem em busca de terras mais abertas perto do mar. Também moravam na floresta espíritos escuros que odiavam homens, ou pelo menos assim diziam as lendas do povo. Sobre cobras e pântano e demônios da floresta Tal-Elmar pensava parado sob a sombra; mas precisou pensar pouco para chegar à conclusão que todos os três eram menos perigosos do que retornar, com uma desculpa mentirosa ou sem nenhuma, para a cidade e seu mestre.Então, talvez auxiliado um pouco por seu orgulho, ele seguiu em frente. E o pensamento veio a ele sob a sombra enquanto procurava por um caminho através do pântano e do emaranhado da floresta: O que eu sei, ou qualquer um de meu povo, mesmo meu pai, desses Go-hilleg dos barcos alados? Pode muito bem ser que eu que sou um estrangeiro entre meu próprio povo ache-os mais agradáveis que Mogru e todos os outros como ele.Com este pensamento crescendo nele, ele se sentiu mais como um homem que vai cumprimentar amigos e parentes do que alguém que se esgueira para espiar um inimigo poderoso, ele passou incólume pela floresta das sombras, e chegou às colinas do litoral, e começou a subir. Ele escolheu uma colina, pois os emaranhados da floresta acompanhavam sua encosta e o topo estava coroado com um grupo denso de árvores baixas. A este esconderijo ele foi e se achegando à borda da colina ele olhou para baixo. Havia lhe tomado um longo tempo, pois sua caminhada havia sido lenta, e agora o sol havia passado do meio e estava descendo em direção ao Mar. Ele estava faminto, mas a isto deu pouca atenção, pois estava acostumado à fome, e poderia suportar os trabalhos de um dia inteiro sem comer, quando precisava. A colina era baixa, mas descia acentuadamente até a água. Ante seus pés estavam terras verdejantes terminando em um trecho de cascalho, além dos quais as águas do estuário brilhavam sob o sol que se punha.Em meio à correnteza e além da parte mais rasa três grandes navios – embora Tal-Elmar não tivesse tal palavra em sua língua para nomeá-los – estavam parados imóveis. Estavam ancorados e com as velas abaixadas. Do quarto, o navio negro, não havia sinal. Mas no gramado próximo à pequena praia de cascalhos havia tendas e pequenos barcos. Homens altos estavam parados ou andando entre eles. Além, nos ‘grandes barcos’ Tal-Elmar podia ver [?outros] em vigia; de quando em quando ele vislumbrava um brilho quando uma arma ou armadura se movia no sol. Ele tremeu, pois os contos das ‘lâminas’ dos Homens Cruéis eram familiares à sua infância.

Tal-Elmar observou por longo tempo, e lentamente ele se deu conta do quão sem esperança era sua missão. Ele poderia olhar até que a luz do dia acabasse, mas ele não poderia contar com precisão suficiente para qualquer uso o número de homens que estavam lá; nem podia descobrir seus propósitos ou seus planos. Mesmo se ele tivesse tanto a coragem quanto a sorte de passar pelos guardas ele não poderia fazer nada de útil, pois ele não entenderia uma palavra sequer do idioma deles.

Ele se lembrou de repente – outro dos esquemas de Mogru para se livrar dele, como ele percebia agora, embora à época ele achasse uma honra – como apenas um ano atrás, quando a minguante vila de Agar foi ameaçada por invasores da vila de Udul distante no interior (11), e todos os homens temiam que um ataque ocorresse, pois Agar era mais seca, mais saudável e estava em local mais defensável (ou assim pensavam os homens da cidade). Então Tal-Elmar foi escolhido para ir e espionar a terra de Udul, por ‘ser jovem, corajoso e conhecer melhor o mundo ao redor’. Assim disse Mogru, verdadeiramente, pois o povo da cidade de Agar era tímido e raramente ia muito longe no campo, nunca se arriscando a ser pego pelo escurecer fora de suas casas.  Enquanto que Tal-Elmar freqüentemente, se tivesse a chance ou nenhum trabalho o exigisse (ou mesmo que o fizesse, algumas vezes), andava longe pelo campo, e embora (sendo assim ensinado desde a infância) temesse o escuro, ele mais de uma vez havia passado a noite longe da cidade, e era conhecido até mesmo por ir à colina de vigia sozinho sob as estrelas.

Mas rastejar dentro dos campos inamistosos de Udul durante a noite era uma coisa diferente e muito pior. Mesmo assim ele ousou fazê-lo. E ele chegou tão perto de umas das cabanas dos vigias que pode ouvir os homens dentro conversando – em vão. Ele não podia entender o sentido de suas palavras. O tom parecia cheio de pesar e cheio de medo (12) (como eram as vozes dos homens à noite no mundo que ele conhecia), e umas poucas palavras ele pareceu reconhecer, mas não o suficiente para compreender. E o povo de Udul eram seus vizinhos mais próximos – de fato, embora Tal-Elmar e seu povo tenham esquecido, e eles tinham esquecido tantas coisas, seus parentes próximos, parte do mesmo povo em anos passados e melhores. Que esperança então havia dele reconhecer qualquer simples palavra, ou mesmo interpretar corretamente as entonações, da língua de um povo estrangeiro separado do dele desde o começo do mundo? Estrangeiro de seu próprio? Meu próprio? Mas eles não eram meu povo. Apenas meu pai. E de novo ele teve a estranha sensação, vinda não sabia de onde para este jovem rapaz, nascido e criado em meio a um povo meio-selvagem e declinante: o sentimento de que ele não estava indo encontrar estrangeiros, mas parentes de longe e amigos.

Ainda assim ele era também um menino de sua vila. Ele estava com medo, e demorou muito até se mover. Finalmente ele olhou para cima. O sol à sua direita estava agora se pondo. Entre dois galhos de árvore ele vislumbrou um pedaço de mar enquanto o grande fogo redondo, avermelhado com a leve névoa marinha, ficou à altura de seus olhos, e as águas estavam pintadas de um flamejante dourado.

Ele já havia visto o sol se pôr no mar, mas nunca desse modo. Ele soube em um piscar (como se viesse daquele fogo) que havia visto desta forma, [? ele fora chamado] (13), que isto significava mais do que a chegada da ‘hora do Rei’, o escuro (14). Ele se levantou e como se levado ou impulsionado andou abertamente colina abaixo e cruzou o longo gramado em direção ao cascalho e às tendas.

Pudesse ele ver a si mesmo ficaria tão surpreso quanto aqueles que o viam da praia. Sua pela nua – pois ele usava apenas um pedaço de tecido ao redor da cintura, e um pequeno manto de … pele jogado para trás e preso com uma tira de couro aos seus ombros – brilhava dourada sob a luz [?do pôr do sol], seu cabelo claro também estava iluminado e seus passos eram leves e livres.

‘Olhe!’ gritou um dos vigias para seu companheiro. ‘Você vê o que vejo? Não é um dos Eldar das florestas que vem falar conosco?’

‘Eu vejo, de fato’, disse o outro, ‘mas se não é algum fantasma da borda da escuridão [?que está chegando] [?nesta terra amaldiçoada] um dos Belos ele não pode ser. Estamos muito ao sul e nenhum mora por aqui. Seria de fato se estivéssemos [?longe ao norte, perto dos Portos]’.

‘Quem conhece todos os modos de agir dos Eldar?’, disse o vigia. ‘Silêncio agora! Ele se aproxima. Deixe-o falar primeiro’.

Então eles ficaram parados, e não fizeram nenhum sinal enquanto Tal-Elmar se aproximava. Quando ele estava a uns vinte passos seu medo retornou e ele parou, deixando seus braços caírem à sua frente e abrindo as palmas em direção aos estranhos em um gesto que todos os homens poderiam compreender.

Então, como eles não se moviam, nem colocavam as mãos em nenhuma arma até onde ele podia ver, ele tomou coragem novamente e falou, dizendo: ‘Saudações, Homens do mar e das asas! Por que vieram aqui? Vieram em paz? Eu sou Tal-Elmar uHazad do povo de Agar. Quem são vocês?’

Sua voz era clara e bela, mas a língua que ele usou não era outra senão uma forma do idioma semi-selvagem dos Homens da Escuridão, como os Homens do Navio os chamavam. O vigia se moveu. ‘Elda!’, ele disse. ‘Os Eldar não usam tal língua’. Ele chamou e imediatamente homens saíram de suas tendas. Ele próprio sacou uma espada, enquanto seu companheiro preparava uma flecha no arco. Antes mesmo que Tal-Elmar pudesse se sentir aterrorizado, antes mesmo de se virar e correr – felizmente, pois ele não sabia nada sobre arcos e teria caído muito antes de escapar, acertado por uma flecha – ele estava cercado por homens armados. Eles o pegaram, mas não com maus tratos, quando o viram desarmado e submisso, e o levaram à tenda onde estava alguém com autoridade.

Tal-Elmar sentia que o idioma era conhecido e apenas oculto dele por um véu.

O capitão disse que Tal-Elmar deveria ser de raça Numenoriana ou de um povo aparentado a eles. Ele deveria ser trado com cortesia. Ele supunha que ele havia sido feito cativo ainda bebê ou nascido de cativos. ‘Ele está tentando fugir para nós’, ele disse.

‘Uma pena ele não lembrar nada da língua’. ‘Ele aprenderá’. ‘Talvez, mas depois de um longo tempo. Se ele a falasse agora, ele poderia nos dizer muito, o que aceleraria nossa missão e reduziria nosso perigo’.

Então finalmente fizeram Tal-Elmar entender seu desejo de saber quantos homens moravam perto; eram eles amigáveis, eram como ele era?

O objetivo dos Numenorianos era ocupar esta terra, e em aliança com os ‘Cruéis’ do Norte expulsar o Povo da Escuridão e fazer um acampamento para ameaçar o Rei. (Ou isto seria enquanto Sauron estava ausente em Númenor?)

Este lugar era no estuário de Isen? ou Morthond.

Tal-Elmar podia contar e entendia números grandes, embora sua linguagem fosse deficiente.

Ou ele entendia Numenoriano? [Adicionado posteriormente: Eldarin – estes eram os amigos-dos-Elfos.] Ele disse quando ouviu um homem falar ao outro: ‘É estranho que vocês falem a língua dos meus longos sonhos. E certamente agora estou em minha terra e não dormindo?’ Então eles se assombraram e disseram: ‘Por que você não falou conosco antes? Você falou como os povos da Escuridão que são nossos inimigos, sendo servos do Inimigo’. E Tal-Elmar respondeu: ‘Porque esta língua só retornou à minha mente ouvindo-o falá-la; e como eu poderia saber que você entenderia a linguagem dos meus sonhos? Você não é como aqueles que falam comigo em meus sonhos. Não, um pouco parecido; mas eles eram mais brilhantes e mais belos’.

Então o homem ficou ainda mais impressionado, e disse: ‘Parece que você falou com os Eldar, acordado ou em uma visão.’

‘Quem são os Eldar?’ disse Tal-Elmar. ‘Esse nome eu não ouvi em meu sonho’.

‘Se você vier conosco talvez possa vê-los’.

Então de repente medo e a lembrança de antigas lendas vieram a Tal-Elmar novamente, e ele recuou. ‘O que farão comigo?’, ele disse. ‘Vão me atrair ao barco de asas negras e entregar-me à Escuridão?’

‘Você ou ao menos seu povo já pertencem à Escuridão’, responderam. ‘Mas porque você fala assim das velas negras? As velas negras são para nós um sinal de honra, pois são a bela noite antes da vinda do Inimigo e sobre o negro estão colocadas as estrelas prateadas de Elbereth. As velas negras de nosso capitão foram adiante na água’.

Tal-Elmar continuou com medo, pois ainda não era capaz de imaginar o negro como qualquer coisa a não ser símbolo da noite de medo. Mas ele pareceu tão corajoso quando pôde e respondeu: ‘Nem todo meu povo. Nós tememos a Escuridão, mas não a amamos nem a servimos. Ao menos alguns de nós. Assim é com meu pai. E a ele eu amo. Eu não serei separado dele nem mesmo para ver os Eldar’.

‘Pena!’, eles disseram. ‘Seu tempo de moradia nessas colinas está chegando ao fim. Aqui os homens do Oeste decidiram fazer suas moradas, e o povo da escuridão deve partir – ou ser morto’.

Tal-Elmar oferece-se como refém.

Não há mais. Ao pé da página meu pai escreveu ‘Tal-Elmar’ duas vezes, e seu próprio nome duas vezes; e também ‘Tal-Elmar em Rhovanion’, ‘Terras Ermas’, ‘Anduin o Grande Rio’, ‘Mar de Rhun’ e ‘Pântano de Etten’.

NOTAS.

1. Na versão rejeitada da seção inicial do texto a história começa: ‘Nos dias dos Grandes Reis quando um homem podia andar sem molhar os pés de Roma até York (não que estas cidades tivessem sido construídas ou imaginadas) morava na cidade de seu povo nas colinas de Agar um velho homem, de nome Tal-argan Barbalonga’, e Tal-argan permaneceu o nome sem correção na página rejeitada. A segunda versão manteve ‘os Grandes Reis’, a mudança para ‘os Reis da Escuridão’ sendo feita mais tarde.

2. Este parágrafo mais tarde foi colocado entre colchetes.

3. Ambas as versões têm ‘o Quarto Rei’, alterada na segunda para ‘o Rei do Norte’ ao mesmo tempo em que ‘os Grandes Reis’ foi alterado para ‘os Reis da Escuridão’ (nota 1).

4. Na versão rejeitada o pai de Tal-argan (Hazad) era chamado Tal-Bulda, e o local da batalha era o vale de Rishmalog.

5. Neste ponto a primeira página rejeitada termina, e o texto se torna a composição principal. Uma nota rascunhada a lápis no topo da página substituta propõe que Buldar pai de Hazad fosse eliminado, e que o próprio Hazad tenha casado com a mulher estrangeira Elmar (que não é nomeada na versão rejeitada).

6. O nome datilografado era Dur nor-Belgoth, corrigido para Gorbelgod.

7. ‘o Quarto Rei’, não foi corrigido aqui: ver nota 3.

8. No original ‘knappers’:  um  ‘knapper’  era alguém que quebrava pedras ou rochas. Esta palavra substituiu ‘tinker’ (algo como cigano), aqui e na próxima ocorrência.

9. Eu deixei o texto aqui como ele é.

10. Uma nota marginal aqui diz que Tal-elmar não tinha ‘nenhuma arma além de pedras de arremesso em um saco’.

11. O texto como escrito tinha ‘distante no interior, e todos os homens temiam’, corrigido para ‘distante no interior. Todos os homens temiam’. Eu alterei o texto para propiciar uma sentença completa, mas meu pai (que estava escrevendo com grande rapidez) sem dúvida não pretendia isso, e teria reescrito o trecho  se alguma vez tivesse retornado a ele.

12. Na margem meu pai escreveu que a vila de Udul estava morrendo de peste, e os invasores estavam de fato desesperadamente procurando por comida.

13. A conclusão do texto está em certos trechos em um manuscrito excruciantemente difícil, e as palavras que eu dei como ‘ele foi chamado’ são dúbias: mas eu não consigo imaginar outra interpretação delas.

14. Contra as palavras ‘nunca ousando ser pegos pelo escuro fora de suas casas’ meu pai escreveu: ‘a Escuridão é “a hora do Rei” ‘. Como pode ser visto em passagens seguintes, o Rei é Sauron.

The History of Middle-earth X – Morgoth’s Ring

Para quem já mergulhou fundo nos temas da mitologia tolkieniana mas sente falta de ouvir a voz do autor sobre os grandes personagens e acontecimentos de seu universo ficcional, “Morgoths Ring” (O Anel de Morgoth) é o livro indicado. O décimo livro da série é talvez o mais rico em saborosos ensaios, nos quais o autor amarra a história de Arda numa só visão criativa e analítica.
“Morgoths Ring” documenta uma (rara) fase de criatividade sem travas de Tolkien, logo depois que “O Senhor dos Anéis” foi finalmente completado e o velho Professor se sentiu livre para voltar às lendas dos Dias Antigos da Terra-média, abandonadas desde 1937 (doze anos antes, portanto).

Os textos começam seguindo uma ordem mais ou menos linear, a partir do Ainulindalë, o mito da criação de Arda, e seguindo pela história dos povos élficos até a fatídica rebelião de Fëanor. É nesse momento que “O Silmarillion” que nós conhecemos chega à sua forma quase definitiva (embora volta e meia Christopher Tolkien mostre onde ele precisou mexer para que o texto mantivesse sua coerência interna).

Dá para ver, por exemplo, que o texto final precisou misturar os Anais de Aman (um relato cronológico da história de Valinor) com o Quenta Silmarillion propriamente dito. É possível depreender o tempo que se passou entre o despertar dos Elfos e a chegada dos Noldor à Terra-média (uma bagatela de uns 4.200 anos), além de conferir algumas guloseimas que ficaram de fora do livro, como o Juramento de Fëanor em verso (acreditem, é um show) ou a bela descrição dos povos élficos:

“Os Vanyar são os Elfos Abençoados, e os Elfos da Lança, os Elfos do Ar, os amigos dos Deuses, os Elfos Sagrados e Imortais, e os Filhos de Ingwë; eles são o Belo Povo e o Alvo.

Os Noldor são os Sábios, e os Dourados, os Valentes, os Elfos da Espada, os Elfos da Terra, os Inimigos de Melkor, os de Mão Hábil, os Artífices de Jóias, os Companheiros dos Homens, os Seguidores de Finwë.”

Mas a coisa esquenta mesmo nas partes não-narrativas. Tolkien mergulha nos motivos das tragédias que determinaram a história de Arda e na cultura élfica. Exemplos disso são “Leis e Costumes entre os Eldar” (que pode ser lido aqui na Valinor), relatando a vida élfica do nascimento ao casamento; e “A História de Finwë e Míriel”.

Como cereja do bolo, temos o Athrabeth Finrod ah Andreth (o Diálogo de Finwë e Míriel, também disponível aqui na Valinor). Numa bela e apaixonada discussão filosófica, o rei élfico Finrod e a sábia humana Andreth, o destino final de Elfos e Homens em Arda é esmiuçado, revelando uma surpreendente ligação com a fé de Tolkien.

E não é só isso, como diriam as Organizações Tabajara: na seção Myths Transformed (Mitos Transformados), Tolkien revê os pressupostos básicos de sua mitologia (como a origem dos orcs e a Terra plana antes da Queda de Númenor) e chega a dizer que – pasmem – eles podem estar errados. Ainda bem que ele resistiu a mais essa revisão de seus textos…

 

Índice do Livro

 

Parte Um

Ainulindale

 

Parte Dois

Os Anais de Aman
Sexta Sessão
Parte Três
O Silmarillion tardio
A Primeira Fase
1 Dos Valar
2 De Valinor e das Duas Árvores
3 Do Despertar dos Elfos
4 De Thingol e Melian
5 De Eldanor e os Príncipes dos Eldalië
6 Das Silmarils e o Escurecer de Valinor
7 Da Fuga dos Noldor
8 Do Sol e Lua e o Ocultar de Valinor
Segunda Fase
O Valaquenta
A Mais Antiga Versão da História de Finwë e Míriel
De Fëanor e o Desacorrentar de Melkor
Das Silmarils e o Revolta dos Noldor
Do Escurecimento de Valinor
Do Abuso das Silmarils
Da Disputa de Ladrões
Parte Quatro
Parte Cinco

 

Yiddish Policeman’s Union, O Hobbit, O Senhor dos Anéis, Preacher, O Silmarillion, Cristianismo Puro