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Tal-elmar

225px-the_peoples_of_middle-earth.jpgA Valinor tem o orgulho de traduzir e publicar Tal-elmar, que é um dos textos mais “diferentes” de Tolkien, com exceção do “The Notion Club Papers” (que logo veremos aqui na Valinor). É um texto do The History of Middle-earth 12, na verdade o fechamento deste volume e de toda a série The History of Middle-earth. Ele mostra a chegada dos Numenorianos à Terra-média através de um dos “Homens Médios”, um membro da raça dos homens aparentada aos numenorianos, mas não tão imponente quanto estes (os “Alto Homens”) nem tem baixa quanro os “Homens Selvagens”. Espero que gostem! Comentários de Christopher Tolkien em itálico e todas as notas são de Christopher Tolkien.
TAL-ELMAR
O conto de Tal-Elmar, até onde o mesmo vai, está preservado em um papel dobrado, datado de 1968, no qual meu pai escreveu a seguinte nota apressada:
Tal-Elmar.Começo de um conto que vê os Numenorianos do ponto de vista dos Homens Selvagens. Ele começa sem muita consideração com a geografia (ou a situação como imaginada em O Senhor dos Anéis). Mas ele permanecer como um conto em separado apenas vagamente conectado com a história desenvolvida nO Senhor dos Anéis ou – como acredito – deve recontar a chegada dos Numenorianos (Amigos-dos-Elfos) antes da Queda e representar suas escolhas de portos permanentes. Portanto a geografia deve ser alterada para se encaixar àquela da foz do Anduin e do Langstrand.

Mas isto foi escrito treze anos depois dele ter abandonado a história e não há sinais dele ter retornado a ela em seus últimos anos. Curta como é e (como parece) incerta em seu direcionamento, tal distanciamento de todas os outros temas narrativos dentro do compasso da Terra-média servirá, talvez, como uma conclusão adequada a esta História.

O texto se encontra em duas partes. A primeira é formada por seis páginas datilografadas que se encerram no meio de uma sentença; mas a primeira parte deste existe também como uma página rejeitada, parte datilografada parte manuscrita (ver nota 5). Além deste ponto a história inteira está na primeira fase de composição. A segunda parte é um manuscrito no qual meu pai escreveu ‘Continuação de Tal-Elmar’ e a data Janeiro 1955; não há indicação de quanto tempo se passou entre as duas partes, mas eu acredito que o trecho datilografado também pertence à década de 1950. É digno de nota que ele estivesse trabalhando nele durante o período de extrema pressão entre a publicação de As Duas Torres e a de O Retorno do Rei. Este manuscrito retoma a história de onde ela parou no trecho datilografado, mas não completa a sentença deixada sem fim; ele se torna progressivamente mais difícil e em uma seção está no limite da legibilidade, com algumas palavras ininterpretáveis. No final da narrativa há passagens experimentais e questionamentos. A não ser em poucos casos, eu não relatei as alterações realizadas no texto e dou apenas a última versão; e em um ou dois casos eu alterei usos inconsistentes de ‘vós’ e ‘você’.

Nos dias dos Reis da Escuridão, quando um homem poderia andar sem molhar os pés desde o Nascer do Sol até o Mar onde ele se põe, viveu em uma cidade paliçada de seu povo nas colinas verdejantes de Agar um velho homem, de nome Hazad Barbalonga (1). Dois orgulhos ele tinha: no número de seus filhos (dezessete ao todo) e no comprimento de sua barba (cinco pés, sem esticar); mas sua satisfação devido à sua barba era a maior das duas. Pois ela permanecia com ele e era macia e obediente à sua mão, enquanto seus filhos em sua maior parte o deixaram e aquele que permaneciam ou visitavam esporadicamente não eram nem gentis nem obedientes. Eles eram muito como Hazad havia sido nos dias de sua juventude: entroncados, de pele escura, baixos, rígidos, de línguas afiadas, mãos pesadas e rápidos à violência.

Exceto por um deles, o mais jovem. Tal-elmar Hazad o havia nomeado. Ele ainda não tinha dezoito anos de idade e vivia com seu pai e os outros dois filhos mais novos. Ele era alto, de pele clara e havia uma luz em seus olhos cinzentos que se inflamava quando ele se enfurecia; e embora fosse raro e nunca sem uma boa razão, era algo a se recordar e ter cuidado. Aqueles que haviam visto o fogo o chamavam de Olhos-brilhantes e o respeitavam, amassem-no ou não. Pois Tal-elmar parecia, dentre aquele povo entroncado e de pele escura, esbelto e sem a força nos pernas e pescoço que eles prezavam, mas um homem que brigasse com ele logo perceberia ele ser mais forte do que parecia, rápido e ligeiro, difícil de segurar e mais difícil ainda de escapar.

Ele tinha uma bela voz, que fazia até mesmo o idioma rude daquele povo mais suave de se ouvir, mas ele não falava muito; e freqüentemente ele permanecia quieto enquanto os outros conversavam, com um olhar em sua face que os demais corretamente interpretavam como orgulho, embora não fosse o orgulho de um mestre, mas antes o orgulho de alguém de uma raça estrangeira que o destino lançou em meio a um povo ignóbil e lá o manteve em servitude. Pois Tal-elmar trabalhava pesado em tarefas domésticas, não sendo nada além do filho mais novo de um homem velho, que tinha pouca riqueza restando além de sua barba e de uma reputação de sabedoria. Mas estranhamente (para aquela cidade) ele servia a seu pai de boa vontade e o amava, mais do que todos os seus irmãos juntos e mais do que era o costume de qualquer filho naquela terra. De fato era mais comum o brilho ser visto em seus olhos quanto estava defendendo seu pai.

Pois Tal-elmar possuía uma estranha crença (de onde ela viera era um mistério) de que os velhos deveriam ser tratados com carinho e cortesia, e deveria ser permitido viver o resto de seus dias com o máximo de conforto que pudessem. ‘Se precisarmos contrariá-los’, ele dizia, ‘que seja com respeito; pois eles já viram muitos anos e, muitas vezes, talvez, enfrentaram os males que ainda não encontramos. E não se ressinta de sua comida ou seu quarto, pois eles trabalharam mais do que você e não recebem agora, tardiamente, mais do que uma parte do pagamento que lhes é devido’. Tal tolice não tinha efeitos nos costumes de seu povo, mas era lei em sua casa; e já se passaram dois anos desde que qualquer de seus irmãos ousou quebrá-la (2).

Hazad amava bastante seu filho mais jovem, em retorno a seu amor e ainda mais por outra razão que ele mantinha em seu coração: sua face e voz o lembravam de outra pessoa que há muito ele sentia falta. Pois Hazad também havia sido o filho mais jovem de sua mãe e ela morrera quando ele era uma criança; e ela não era de seu povo. Tal era o conto que ele ouvira, não abertamente, pois o mesmo não dava moral à sua casa: ela viera de um povo estranho, cheio de ódio e orgulhoso, do qual se ouvia rumores nas terras do oeste e vinha do Leste, como era dito. Altos, belos e com olhos brilhantes eles eram, com armas brilhantes feitas por demônios em colinas de fogo. Lentamente eles iam em direção ao Mar, expulsando em sua passagem os antigos moradores de suas terras.

Não sem resistência. Ocorreram batalhas nas fronteiras do leste e uma vez que o povo mais antigo ainda era numeroso, os recém-chegados algumas vezes sofriam grandes perdas e eram expulsos. De fato pouco se ouvira deles nas Colinas de Agar, distante no oeste, por mais de uma vida de homem, desde a grande batalha sobre a qual canções ainda eram cantadas. No vale de Ishmalog ela fora travada, contavam os sábios, e lá uma grande horda do povo Bárbaro foi emboscada em um local estreito e assassinada aos montes. E naquele dia muitos foram feitos cativos; por isso não havia mais agitação nas fronteiras ou lutas com guardas avançadas: todo um povo da Raça Bárbara estivera se movendo com suas carroças e gado e mulheres.

Buldar, pai de Hazad, estivera no exército do Rei do Norte (3) que fora enviado para Ishmalog (4), e ele trouxe como espólio de guerra um ferimento, uma espada e uma mulher. E ela era afortunada; pois o destino dos cativos era curto e cruel, e Buldar a tomou como esposa. Pois ela era bela e a tendo visto ele não desejava qualquer mulher de seu próprio povo. Ele era um homem de riqueza e poder naqueles tempos e fez como quis, escarnecendo o escárnio de seus vizinhos. Mas assim que sua esposa, Elmar, aprendeu o suficiente da fala de seu novo grupo um dia ela disse a Buldar: eu tenho muito que te agradecer, senhor; mas não penses que terás meu amor. Pois me tiraste de meu próprio povo e daquele que eu amava e do filho que eu dera a ele. A eles sempre sentirei falta e chorarei, e darei meu amor a mais ninguém. Nunca mais serei satisfeita enquanto for mantida cativa entre um povo estranho que eu vejo como baixo e desagradável.

‘Que assim seja’, disse Buldar. ‘Mas não deves pensar que eu deveria deixá-la livre. Pois és preciosa ao meu olhar. E considere bem: em vão é tentar escapar-me. Longo é o caminho até o restante de teu povo, se algum ainda está vivo; e não irias longe das Colinas de Agar e encontrarias a morte ou uma vida muito pior do que a aquela que terias em minha casa. Baixos e desagradáveis nos chamastes. Com razão, talvez. Mas verdade também é que vosso povo é cruel e sem lei e amigos de demônios. São ladrões. Pois nossas terras o são nossas desde há muito, as quais vocês nos arrancam com suas lâminas cruéis. Peles claras e olhos brilhantes não são desculpas para tais atos’.

‘Não são?’, disse ela. ‘Então também não o são pernas grossas e ombros largos. Ou por que meios ganhastes estas terras de que fala? Não existe, como escutei falarem, um povo selvagem em cavernas nas montanhas, que outrora correram livres por aqui, até que seu povo de pele escura veio e os caçou como lobos? Mas eu não falo de diretos, mas de tristeza e amor. Se eu preciso morar aqui, então morarei, como alguém cujo corpo está aqui à tua vontade, mas meu pensamento longe noutro lugar. E esta vingança eu terei: enquanto meu corpo for mantido aqui em exílio, o quinhão de todo este povo diminuirá e o teu mais do que todos; mas quando meu corpo for para dentro desta terra estrangeira e meu pensamento ficar livre dele, então entre os teus surgirá um que é apenas meu. E com seu surgimento chegará o fim do teu povo e a queda do teu rei’.

Após isto Elmar não falou mais nada sobre este assunto; e ela era de fato uma mulher de poucas palavras enquanto sua vida durou, exceto para seus filhos. Para eles falava muito quando ninguém estava perto e ela cantava para eles muitas canções em uma língua bela e estranha; mas eles não lhe davam atenção ou logo esqueciam. Exceto Hazad, o mais jovem; e embora ele fosse, assim como todos os outros filhos, diferentes em corpo, ele era o mais próximo em coração. As canções e a estranha língua ele também esqueceu quando cresceu, mas sua mãe ele nunca esqueceu; e ele se casou tarde, pois nenhuma mulher de seu povo lhe parecia desejável, ele que conhecera o que a beleza em uma mulher deveria ser (5).

Não que existissem muitas para cortejar, pois como Elmar falara, o povo de Agar diminuiu com os anos, devido a climas ruins e pestes, e mais do que todos foi atingido Buldar e seus filhos; e eles se tornaram pobres e outras famílias tomaram o poder deles.  Mas Hazad não sabia da previsão de sua mãe, e devido à sua memória amava Tal-elmar, e por isso assim o nomeara em seu nascimento.

Por acaso em uma manhã de primavera quando seus outros filhos partiram para o trabalho Hazar manteve Tal-elmar a seu lado, e andaram juntos e se sentaram sobre o verdejante topo da colina acima da cidade de seu povo; e eles olharam para o sul e oeste onde podiam ver ao longe a grande baía onde o Mar adentrava na terra, e brilhava como vidro cinzento. E os olhos de Hazad estavam ficando fracos com a idade, mas os de Tal-elmar eram aguçados e ele viu o que pensou ser três pássaros estranhos sobre as águas, brancos ao sol, e eles estavam deslizando com o vento oeste em direção a terra; e ele pensou no  porque eles ficam no o mar e não voavam.

‘Eu vejo três estranhos pássaros sobre a água, pai’, ele disse. ‘Não são como nenhum outro que eu tenha visto’.

‘Aguçados podem ser teus olhos jovens, meu filho’, disse Hazad, ‘mas pássaros na água não podes ver. Três léguas distantes daqui onde sentamos está o litoral mais próximo. O sol te confunde ou algum sonho está em ti’.

‘Não, o sol está atrás de mim’, disse Tal-elmar. ‘Eu vejo o que vejo. E se não são pássaros então o que são? Muito grandes devem ser, maiores do que os Cisnes de Gorbelgod (6), dos quais falam as lendas. E veja! Vejo agora outro vindo atrás, mas com menos clareza, pois suas asas são negras’.

Então Hazad ficou preocupado. ‘Um sonho está em você, como eu disse, meu filho’, ele respondeu; ‘mas um sonho ruim. Já não é a vida dura o suficiente aqui, que logo que a primavera veio e o inverno finalmente terminou, precisas trazer uma visão de um passado negro?’

‘Esquecestes, pai’, disse Tal-elmar, ‘que sou teu filho mais novo e enquanto ensinastes muitos conhecimentos às orelhas surdas de meus irmãos a mim destes menos de tua reserva. Não sei nada do que se passa em tua mente’.

‘Não conheces?’, disse Hazad, forçando a visão ao olhar para o Mar. ‘Sim, possivelmente já faz muito tempo que falei sobre isto; não é mais do que a sombra de um sonho no fundo de minha memória. Três povos temos como inimigos. Os homens selvagens das montanhas e florestas; mas a estes só quem vaga sozinho precisa temer. O Povo Bárbaro do Leste; e eles ainda estão bem longe e são o povo da minha mãe, embora eu não duvide de que eles não honrariam o parentesco se viessem aqui com suas espadas. E os Altos Homens do Mar. Estes, de fato, podemos temer como à Morte. Pois eles idolatram a Morte e assassinam homens cruelmente em honra à Escuridão. Do Mar eles vêm e se possuem alguma terra deles mesmos, antes de aportaram nos litorais do oeste, não sabemos onde pode ser. Lendas terríveis chegaram a nós dos litorais, norte e sul, onde ele há muito estabeleceram suas fortalezas negras e seus túmulos. Mas aqui eles não vêm desde os dias de meu pai, e então vinham apenas para pilhar e capturar homens e partiam. Este era a modo de agir deles. Eles chegavam em barcos, mas não barcos como alguns de nosso povo utilizam nos grandes rios ou lagos, para transporte ou pesca. Maiores do que grandes casas eram os barcos dos Go-hilleg, e eles mantinham espaços para homens e mercadorias, além de serem empurrados pelos ventos; pois os Homens-do-mar estendiam grandes tecidos como asas para pegar os ventos e os prendiam em postes altos como árvores da floresta. Então eles chegavam ao litoral, onde existisse proteção ou tão próximo quanto conseguissem; e então enviavam barcos menores carregados com mercadorias e coisas estranhas tão belas quanto úteis que nosso povo desejava. Estas coisas eles vendiam por um pequeno preço ou davam como presentes, fingindo amizade e piedade por nossas necessidades; e eles moravam por um tempo e espionavam a terra e o número do povo, e então partiam. E se não retornasse as pessoas deveriam ficar gratas. Pois se viessem novamente seria em outra forma. Vinham então em grande número: dois barcos ou mais, juntos, cheios de homens e não de mercadorias, e sempre um dos malditos navios possuía asas negras. Pois aquele é o Barco da Escuridão, e nele levavam embora a pilhagem maligna, cativos amontoados como bestas, as mais belas mulheres e crianças, ou homens jovens sem defeitos físicos, e este era o fim deles. Alguns dizem que eles eram utilizados como carne; outros que eles eram mortos com tormentos sobre pedras negras em idolatria à Escuridão. Talvez ambos estejam corretos. As horríveis asas dos Homens-do-Mar não foram vistas nestas águas por muitos anos; mas relembrando a sombra do medo no passado eu falei e falo de novo: já não é nossa vida dura o suficiente sem a visão de uma asa negra sobre o mar brilhante?’

‘Dura o bastante, de fato’, disse Tal-elmar, ‘ainda assim não tão dura que eu queira deixá-la ainda. Venha! Se o que você disse é real então devemos correr para a cidade e avisar os homens, e nos preparar-nos para fuga ou defesa’.
or for defence.’

‘Eu irei’, disse Hazad. ‘Mas não te espantes se os homens rirem de mim como se eu estivesse fora do meu juízo. Eles acreditam pouco em coisas que não tenham acontecido durante seus próprios dias. E tenha cuidado, caro filho! Eu corro pouco perigo, além de morrer de fome em uma cidade vazia, só com loucos e velhos. Mas tu estarias dentre os primeiro pegos pelo Barco Negro. Não te coloques na dianteira de nenhum apressado conselho de guerra’.

‘Veremos’, respondeu Tal-elmar. ‘Mas tu és minha principal preocupação nesta cidade, onde tenho e dou pouco amor. Não partirei de teu lado de boa vontade. Mesmo assim esta é a cidade de meu povo e nosso lar, e os aptos estão fadados a defendê-la, assim como eu’.

Então Hazad e seu filho desceram a colina e era meio-dia; e na cidade estavam poucas pessoas além das idosas e crianças, por todos os capazes estavam nos campos, ocupados com o árduo trabalho da primavera. Não havia vigia, pois as Colinas de Agar estavam distantes das fronteiras hostis onde o poder do Quarto Rei (7) terminava. O mestre da cidade sentava à porta de sua casa ao sol, dormindo ou placidamente observando os pequenos pássaros que juntavam pedaços de comida da lama seca e batida do lugar aberto no meio das casas.

‘Saudações! Mestre de Agar!’ disse Hazad, e curvou-se, mas o mestre, um homem gordo com olhos de lagarto, apenas piscou e não retornou o cumprimento.

‘Saudações ao trono, Mestre! E que por muito você possa continuar assim!’ disse Tal-elmar, e havia um brilho em seus olhos. ‘Não devemos perturbar seus pensamentos, ou seu sono, mas há novidades às quais, talvez, você deva dar atenção. Não há vigia posto, mas por acaso estávamos no topo da colina e vimos o mar ao longe e lá – aves de mau agouro sobre a água’.

‘Navios dos Go-hilleg’, disse Hazad, ‘com grandes tecidos-de-vento. Três brancos – e um negro’.

O mestre bocejou. ‘Quanto a tu, ancião de olhos cansados’, ele disse, ‘não podes diferenciar o mar de uma nuvem. E quanto a este rapaz folgado, o que sabe ele de barcos ou tecidos-de-vento, ou todo o resto, exceto por teus loucos ensinamentos? Vá aos quebradores de pedra nômades (8) com suas histórias de bruxa sobre os Go-hilleg e não me incomode mais com tais tolices. Tenho outros assuntos de mais peso a ponderar’.

Hazad engoliu sua fúria, pois o Mestre era poderoso e não gostava dele; mas a ira de Tal-elmar era fria. ‘Os pensamentos de alguém com tão grandes necessidades devem ser pesados’, disse ele suavemente, ‘embora eu não saiba que pensamento de mais peso poderia interromper seu repouso do que o cuidado com sua própria carcaça. Ele será um mestre sem povo, ou um saco de ossos na colina, se zombar da sabedoria de Hazad filho de Buldar. Olhos cansados podem ver mais do que aqueles fechados pelo sono’.

A obesa face de Mogru o Mestre escureceu e seus olhos ficaram injetados de sangue pela raiva. Ele odiava Tal-elmar, embora nunca antes o jovem tivera lhe dado razão, exceto que não demonstrava medo em sua presença. Agora ele deveria pagar por isso e por sua recém-descoberta insolência. Mogru bateu palmas, mas ainda enquanto o fazia lembrou que não havia ninguém próximo que ousaria se atracar com o jovem, não, nem mesmo três juntos; e ao mesmo tempo ele viu o brilho dos olhos de Tal-elmar. Ele empalideceu, e as palavras que ele estava prestes a falar, ‘Filho de escrava e seu moleque’, morreu em seus lábios. ‘Hazad uBuldar, Tal-elmar uHazad, desta  cidade, não fale assim com o mestre de seu povo’, ele disse. ‘Um posto de vigia foi criado, embora tu que não tens o governo da cidade possas não saber. Aguardarei até ter um relato dos vigias, nos quais confio, que algo de ruim foi visto. Mas se estás tão ansioso vá aos campos e chame os homens’.

Tal-elmar observou-o cuidadosamente enquanto ele falava e leu claramente seus pensamentos. ‘Agora devo esperar que meu pai não tenha se enganado’, ele disse em seu coração, ‘pois menos perigo a batalha me trará do que o ódio de Mogru deste dia em diante. Um posto de vigia! Sim, mas apenas para espionar as indas e vindas do povo da cidade. E no momento em que eu for aos campos um corredor irá reunir seus servos e homens com porretes. Causei um mal a meu pai nesta hora. Bem! Aquele que começou com a pá deve empunhá-la até terminar o canteiro’. Sua fala, portanto continuou com raiva e escárnio. ‘Vá aos quebradores de pedra você mesmo’, ele disse, ‘pois você está acostumado a usar aquele povo matreiro, e prestar atenção aos seus contos quando te servem. Mas meu pai você não escorneará enquanto eu estiver por perto. Podemos muito bem estar em perigo. Portanto você deverá vir conosco ao topo da colina, e ver com seus próprios olhos. E se você não vir nada que justifique, você deverá chamar seus homens para a colina-dos-Debates. Eu serei seu mensageiro’.

E Mogru também observava a face de Tal-elmar pela fenda de suas pálpebras enquanto este falava, e considerou que não estaria sob risco de violência se cedesse dessa vez. Mas seu coração estava repleto de veneno; e não o irritava pouco o esforço de subir a colina. Lentamente ele se pôs de pé.

‘Eu irei’, ele disse. ‘Mas se meu tempo e esforço forem desperdiçados, eu não perdoarei. Auxilie meus passos; jovem, pois meus servos estão nos campos’. E ele tomou o braço de Tal-elmar e se apoiou pesadamente sobre ele.

‘Meu pai é o mais ancião,’ disse Tal-elmar; ‘e o caminho não é curto. Deixe que o Mestre lidere, e nós seguiremos. Aqui está teu bastão!’. E soltou-se do aperto de Mogru, e deu a este seu bastão o qual estava à porta de sua casa; e tomando o braço de seu pai ele aguardou até o Mestre estar preparado. De soslaio e escuro foi o olhar dos olhos-de-lagarto, mas o brilho dos olhos de Tal-elmar que eles vislumbraram feria como uma agulha. Há muito que as pernas obesas de Mogru não desenvolviam tal velocidade entre a casa e o portão; e mais tempo ainda que não carregaram sua barriga pela subida escorregadia da colina além do dique. Ele estava respirando pesadamente e bufando como um cachorro velho, quando chegaram ao topo.

Então novamente Tal-elmar olhou ao longe; mas o imenso e distante mar estava agora vazio, e ele ficou em silêncio. Mogru limpou o suor de seus olhos e seguir seu olhar.

‘Por que razão, pergunto, tiraste o Mestre da cidade de sua casa e o trouxeste a este lugar?’, ele rosnou. ‘O mar permanece onde deveria estar, e vazio. O que dizes?’

‘Tenha paciência e olhe mais perto’, disse Tal-elmar. Para o oeste as colinas bloqueiam a visão de tudo, exceto do mar mais distante; mas se elevando até o largo topo da Colina Dourada eles desciam repentinamente, e em uma abertura profunda um relance da grande baía e das águas próximas a seu litoral norte podia ser visto. ‘O tempo passou desde que estivemos aqui, e o vento está forte’, disse Tal-elmar. ‘Eles chegaram mais perto’. Ele apontou. ‘Lá você verá suas asas, ou seus tecidos-de-vento, chame-os como quiser. Mas qual é seu conselho? E não é um assunto que o Mestre deveria ver com seus próprios olhos?’

Mogru olhou, e bufou, agora tanto pelo medo quanto pelo trabalho de subir a colina, pois mesmo arrogante como parecia ele tinha ouvido muitas lendas terríveis sobre os Go-hilled das anciãs, em sua juventude. Mas seu coração era matreiro e negro pela ira. Olhou de soslaio primeiro para Hazad, e então para seu filho; e lambeu os lábios, mas não deixou que seu sorriso fosse visto.

‘Você pediu para ser meu mensageiro’, ele disse, ‘e assim serás. Vá agora com rapidez e convoque os homens para a colina-dos-Debates! Mas isto não encerrará tua missão’, acrescentou enquanto Tal-elmar se preparava para correr. ‘Direto dos campos deverás ir com toda velocidade para a Praia. Pois ali os barcos, se barcos são, provavelmente irão parar, e os homens desembarcarão. Deverás obter notícias e espionar bem quem desembarcar. Não voltes a não ser que tenhas novidades que auxiliarão em nossos conselhos. Vás e não te poupes! Comando-te. É tempo de perigo para a cidade’.

Hazad pareceu pronto a protestar; mas baixou a cabeça, e não disse nada, sabendo ser em vão. Tal-elmar parou por um momento, observando Mogru, como alguém olharia uma cobra no caminho. Mas ele percebeu que a esperteza do Mestre fora maior que a sua. Ele armara sua própria armadilha, e Mogru a utilizou. Ele declarou tempo de perigo para a cidade, e tinha o direito de ordenar qualquer serviço. Seria morte desobedecê-lo. E mesmo que Tal-elmar não tivesse se nomeado mensageiro (tentando evitar que qualquer palavra secreta passasse aos servos do mestre), ele diria que a escolha foi justa. Um batedor deveria ser enviado, e quem melhor do que um jovem forte e corajoso, de pés rápidos? Mas também havia malícia na missão, uma malícia negra, de qualquer forma. O defensor de Hazad deveria partir. Não havia esperança em seus irmãos: tolos fortes, mas sem coração para desafiar, exceto a seu velho pai. E era provável que ele não retornasse. O perigo era grande.

Mais uma vez Tal-elmar olhou para o Mestre, e então para seu pai, e então vislumbrou o bastão de Mogru. O brilho estava em seus olhos, e em seu coração o desejo de matar. Mogru percebeu e recuou com medo.

‘Vá, vá!’ ele gritou. ‘Eu já te ordenei. És mais rápido em gritar lobo do que em começar a caçada. Vá de uma vez!’.

‘Vá, meu filho!’, disse Hazad. ‘Não desafie o Mestre. Não onde ele tem a razão. Pois então desafiarias toda a cidade, e estaria acima do teu poder. E fosse eu o Mestre, eu te escolheria, mesmo me sendo querido; pois tens mais coração e sorte do que qualquer um deste povo. Mas retorne, e não deixe o Barco Negro tê-lo. Não seja corajoso demais! Pois melhores serão más notícias trazidas por ti, vivo, do que pelos Homens-do-Mar sem aviso’.

Tal-elmar se curvou e fez o sinal de submissão para seu pai, mas não para o Mestre, e se afastou dois passos. E então se virou. ‘Ouça, Mogru, a quem um povo inferior em sua tolice nomeou mestre’, ele disse. ‘Talvez eu retorne, contra tuas expectativas. Meu pai eu deixo em teu cuidado. Se eu retornar, seja com uma palavra de paz, seja com o inimigo em meu encalço, então teu tempo como mestre estará encerrado, e tua vida também, se eu descobrir que ele sofreu algum mal ou desonra que poderias ter evitado. Teus homens-de-faca e portadores-de-porretes não te ajudarão. Eu apertarei teu pescoço gordo com minhas mãos vazias, se precisar; ou te caçarei através dos ermos até as poços escuros’.  Então um novo pensamento o acossou e ele se dirigiu ao Mestre, e pegou seu bastão.

Mogru se encolheu, e estendeu um braço gordo, como para se defender de um golpe. ‘Está louco hoje’, coaxou. ‘Não cometas violência contra mim ou a pagarás com tua morte. Não ouviste as palavras de teu pai?’

‘Eu ouvi, e eu obedeço’, disse Tal-elmar. ‘Mas a primeira missão é para os homens, e há necessidade de rapidez. Pouca honra tenho entre eles, pois sabem bem que escarneces de nós. Que atenção prestarão, se os bastardos da Escrava, como nos nomeais quando não estou perto, chegar (9) gritando convocações para a colina-dos-Debates em teu nome e sem prova. Teu bastão servirá. É bem conhecido. Não, não irei bater-te com ele ainda!’

Com isso ele então pegou o bastão das mãos de Mogru e desceu correndo a colina, seu coração ainda quente demais com a ira para pensar no que estaria à sua frente. Mas quando ele convocou os homens nas terras inclinadas do sul e agitou o bastão entre deles, aconselhando que se apressassem, correu para o pé da colina, e além dos grandes gramados, e então chegou ao primeiro caminho estreito das florestas. Escuro ele se estendia ante ele no vale entre Agar e as colinas do litoral.

Ainda era manhã, mais de uma hora antes do meio-dia, mas quando ele chegou embaixo das árvores parou e começou a pensar, e percebeu que estava perturbado de medo. Raramente ele vagava longe das colinas de sua casa, e nunca sozinho, nem muito longe na floresta. Pois todo o seu povo temia a floresta (10).

Aqui o trecho datilografado é interrompido, não ao pé da página, e o manuscrito ‘Continuação de Tal-Elmar’ (como o nome agora é escrito) começa.

É rápido para os olhos viajarem até litoral, mas lento para os pés; e a distância era maior do que parecia. A floresta estava escura e desconfortável, pois ali ficavam águas estagnadas entre as colinas de Agar e as colinas do litoral; e muitas cobras viviam ali. Era silenciosa também, pois embora fosse primavera poucos pássaros construíam ninhos ali ou mesmo pousavam ao passarem em busca de terras mais abertas perto do mar. Também moravam na floresta espíritos escuros que odiavam homens, ou pelo menos assim diziam as lendas do povo. Sobre cobras e pântano e demônios da floresta Tal-Elmar pensava parado sob a sombra; mas precisou pensar pouco para chegar à conclusão que todos os três eram menos perigosos do que retornar, com uma desculpa mentirosa ou sem nenhuma, para a cidade e seu mestre.Então, talvez auxiliado um pouco por seu orgulho, ele seguiu em frente. E o pensamento veio a ele sob a sombra enquanto procurava por um caminho através do pântano e do emaranhado da floresta: O que eu sei, ou qualquer um de meu povo, mesmo meu pai, desses Go-hilleg dos barcos alados? Pode muito bem ser que eu que sou um estrangeiro entre meu próprio povo ache-os mais agradáveis que Mogru e todos os outros como ele.Com este pensamento crescendo nele, ele se sentiu mais como um homem que vai cumprimentar amigos e parentes do que alguém que se esgueira para espiar um inimigo poderoso, ele passou incólume pela floresta das sombras, e chegou às colinas do litoral, e começou a subir. Ele escolheu uma colina, pois os emaranhados da floresta acompanhavam sua encosta e o topo estava coroado com um grupo denso de árvores baixas. A este esconderijo ele foi e se achegando à borda da colina ele olhou para baixo. Havia lhe tomado um longo tempo, pois sua caminhada havia sido lenta, e agora o sol havia passado do meio e estava descendo em direção ao Mar. Ele estava faminto, mas a isto deu pouca atenção, pois estava acostumado à fome, e poderia suportar os trabalhos de um dia inteiro sem comer, quando precisava. A colina era baixa, mas descia acentuadamente até a água. Ante seus pés estavam terras verdejantes terminando em um trecho de cascalho, além dos quais as águas do estuário brilhavam sob o sol que se punha.Em meio à correnteza e além da parte mais rasa três grandes navios – embora Tal-Elmar não tivesse tal palavra em sua língua para nomeá-los – estavam parados imóveis. Estavam ancorados e com as velas abaixadas. Do quarto, o navio negro, não havia sinal. Mas no gramado próximo à pequena praia de cascalhos havia tendas e pequenos barcos. Homens altos estavam parados ou andando entre eles. Além, nos ‘grandes barcos’ Tal-Elmar podia ver [?outros] em vigia; de quando em quando ele vislumbrava um brilho quando uma arma ou armadura se movia no sol. Ele tremeu, pois os contos das ‘lâminas’ dos Homens Cruéis eram familiares à sua infância.

Tal-Elmar observou por longo tempo, e lentamente ele se deu conta do quão sem esperança era sua missão. Ele poderia olhar até que a luz do dia acabasse, mas ele não poderia contar com precisão suficiente para qualquer uso o número de homens que estavam lá; nem podia descobrir seus propósitos ou seus planos. Mesmo se ele tivesse tanto a coragem quanto a sorte de passar pelos guardas ele não poderia fazer nada de útil, pois ele não entenderia uma palavra sequer do idioma deles.

Ele se lembrou de repente – outro dos esquemas de Mogru para se livrar dele, como ele percebia agora, embora à época ele achasse uma honra – como apenas um ano atrás, quando a minguante vila de Agar foi ameaçada por invasores da vila de Udul distante no interior (11), e todos os homens temiam que um ataque ocorresse, pois Agar era mais seca, mais saudável e estava em local mais defensável (ou assim pensavam os homens da cidade). Então Tal-Elmar foi escolhido para ir e espionar a terra de Udul, por ‘ser jovem, corajoso e conhecer melhor o mundo ao redor’. Assim disse Mogru, verdadeiramente, pois o povo da cidade de Agar era tímido e raramente ia muito longe no campo, nunca se arriscando a ser pego pelo escurecer fora de suas casas.  Enquanto que Tal-Elmar freqüentemente, se tivesse a chance ou nenhum trabalho o exigisse (ou mesmo que o fizesse, algumas vezes), andava longe pelo campo, e embora (sendo assim ensinado desde a infância) temesse o escuro, ele mais de uma vez havia passado a noite longe da cidade, e era conhecido até mesmo por ir à colina de vigia sozinho sob as estrelas.

Mas rastejar dentro dos campos inamistosos de Udul durante a noite era uma coisa diferente e muito pior. Mesmo assim ele ousou fazê-lo. E ele chegou tão perto de umas das cabanas dos vigias que pode ouvir os homens dentro conversando – em vão. Ele não podia entender o sentido de suas palavras. O tom parecia cheio de pesar e cheio de medo (12) (como eram as vozes dos homens à noite no mundo que ele conhecia), e umas poucas palavras ele pareceu reconhecer, mas não o suficiente para compreender. E o povo de Udul eram seus vizinhos mais próximos – de fato, embora Tal-Elmar e seu povo tenham esquecido, e eles tinham esquecido tantas coisas, seus parentes próximos, parte do mesmo povo em anos passados e melhores. Que esperança então havia dele reconhecer qualquer simples palavra, ou mesmo interpretar corretamente as entonações, da língua de um povo estrangeiro separado do dele desde o começo do mundo? Estrangeiro de seu próprio? Meu próprio? Mas eles não eram meu povo. Apenas meu pai. E de novo ele teve a estranha sensação, vinda não sabia de onde para este jovem rapaz, nascido e criado em meio a um povo meio-selvagem e declinante: o sentimento de que ele não estava indo encontrar estrangeiros, mas parentes de longe e amigos.

Ainda assim ele era também um menino de sua vila. Ele estava com medo, e demorou muito até se mover. Finalmente ele olhou para cima. O sol à sua direita estava agora se pondo. Entre dois galhos de árvore ele vislumbrou um pedaço de mar enquanto o grande fogo redondo, avermelhado com a leve névoa marinha, ficou à altura de seus olhos, e as águas estavam pintadas de um flamejante dourado.

Ele já havia visto o sol se pôr no mar, mas nunca desse modo. Ele soube em um piscar (como se viesse daquele fogo) que havia visto desta forma, [? ele fora chamado] (13), que isto significava mais do que a chegada da ‘hora do Rei’, o escuro (14). Ele se levantou e como se levado ou impulsionado andou abertamente colina abaixo e cruzou o longo gramado em direção ao cascalho e às tendas.

Pudesse ele ver a si mesmo ficaria tão surpreso quanto aqueles que o viam da praia. Sua pela nua – pois ele usava apenas um pedaço de tecido ao redor da cintura, e um pequeno manto de … pele jogado para trás e preso com uma tira de couro aos seus ombros – brilhava dourada sob a luz [?do pôr do sol], seu cabelo claro também estava iluminado e seus passos eram leves e livres.

‘Olhe!’ gritou um dos vigias para seu companheiro. ‘Você vê o que vejo? Não é um dos Eldar das florestas que vem falar conosco?’

‘Eu vejo, de fato’, disse o outro, ‘mas se não é algum fantasma da borda da escuridão [?que está chegando] [?nesta terra amaldiçoada] um dos Belos ele não pode ser. Estamos muito ao sul e nenhum mora por aqui. Seria de fato se estivéssemos [?longe ao norte, perto dos Portos]’.

‘Quem conhece todos os modos de agir dos Eldar?’, disse o vigia. ‘Silêncio agora! Ele se aproxima. Deixe-o falar primeiro’.

Então eles ficaram parados, e não fizeram nenhum sinal enquanto Tal-Elmar se aproximava. Quando ele estava a uns vinte passos seu medo retornou e ele parou, deixando seus braços caírem à sua frente e abrindo as palmas em direção aos estranhos em um gesto que todos os homens poderiam compreender.

Então, como eles não se moviam, nem colocavam as mãos em nenhuma arma até onde ele podia ver, ele tomou coragem novamente e falou, dizendo: ‘Saudações, Homens do mar e das asas! Por que vieram aqui? Vieram em paz? Eu sou Tal-Elmar uHazad do povo de Agar. Quem são vocês?’

Sua voz era clara e bela, mas a língua que ele usou não era outra senão uma forma do idioma semi-selvagem dos Homens da Escuridão, como os Homens do Navio os chamavam. O vigia se moveu. ‘Elda!’, ele disse. ‘Os Eldar não usam tal língua’. Ele chamou e imediatamente homens saíram de suas tendas. Ele próprio sacou uma espada, enquanto seu companheiro preparava uma flecha no arco. Antes mesmo que Tal-Elmar pudesse se sentir aterrorizado, antes mesmo de se virar e correr – felizmente, pois ele não sabia nada sobre arcos e teria caído muito antes de escapar, acertado por uma flecha – ele estava cercado por homens armados. Eles o pegaram, mas não com maus tratos, quando o viram desarmado e submisso, e o levaram à tenda onde estava alguém com autoridade.

Tal-Elmar sentia que o idioma era conhecido e apenas oculto dele por um véu.

O capitão disse que Tal-Elmar deveria ser de raça Numenoriana ou de um povo aparentado a eles. Ele deveria ser trado com cortesia. Ele supunha que ele havia sido feito cativo ainda bebê ou nascido de cativos. ‘Ele está tentando fugir para nós’, ele disse.

‘Uma pena ele não lembrar nada da língua’. ‘Ele aprenderá’. ‘Talvez, mas depois de um longo tempo. Se ele a falasse agora, ele poderia nos dizer muito, o que aceleraria nossa missão e reduziria nosso perigo’.

Então finalmente fizeram Tal-Elmar entender seu desejo de saber quantos homens moravam perto; eram eles amigáveis, eram como ele era?

O objetivo dos Numenorianos era ocupar esta terra, e em aliança com os ‘Cruéis’ do Norte expulsar o Povo da Escuridão e fazer um acampamento para ameaçar o Rei. (Ou isto seria enquanto Sauron estava ausente em Númenor?)

Este lugar era no estuário de Isen? ou Morthond.

Tal-Elmar podia contar e entendia números grandes, embora sua linguagem fosse deficiente.

Ou ele entendia Numenoriano? [Adicionado posteriormente: Eldarin – estes eram os amigos-dos-Elfos.] Ele disse quando ouviu um homem falar ao outro: ‘É estranho que vocês falem a língua dos meus longos sonhos. E certamente agora estou em minha terra e não dormindo?’ Então eles se assombraram e disseram: ‘Por que você não falou conosco antes? Você falou como os povos da Escuridão que são nossos inimigos, sendo servos do Inimigo’. E Tal-Elmar respondeu: ‘Porque esta língua só retornou à minha mente ouvindo-o falá-la; e como eu poderia saber que você entenderia a linguagem dos meus sonhos? Você não é como aqueles que falam comigo em meus sonhos. Não, um pouco parecido; mas eles eram mais brilhantes e mais belos’.

Então o homem ficou ainda mais impressionado, e disse: ‘Parece que você falou com os Eldar, acordado ou em uma visão.’

‘Quem são os Eldar?’ disse Tal-Elmar. ‘Esse nome eu não ouvi em meu sonho’.

‘Se você vier conosco talvez possa vê-los’.

Então de repente medo e a lembrança de antigas lendas vieram a Tal-Elmar novamente, e ele recuou. ‘O que farão comigo?’, ele disse. ‘Vão me atrair ao barco de asas negras e entregar-me à Escuridão?’

‘Você ou ao menos seu povo já pertencem à Escuridão’, responderam. ‘Mas porque você fala assim das velas negras? As velas negras são para nós um sinal de honra, pois são a bela noite antes da vinda do Inimigo e sobre o negro estão colocadas as estrelas prateadas de Elbereth. As velas negras de nosso capitão foram adiante na água’.

Tal-Elmar continuou com medo, pois ainda não era capaz de imaginar o negro como qualquer coisa a não ser símbolo da noite de medo. Mas ele pareceu tão corajoso quando pôde e respondeu: ‘Nem todo meu povo. Nós tememos a Escuridão, mas não a amamos nem a servimos. Ao menos alguns de nós. Assim é com meu pai. E a ele eu amo. Eu não serei separado dele nem mesmo para ver os Eldar’.

‘Pena!’, eles disseram. ‘Seu tempo de moradia nessas colinas está chegando ao fim. Aqui os homens do Oeste decidiram fazer suas moradas, e o povo da escuridão deve partir – ou ser morto’.

Tal-Elmar oferece-se como refém.

Não há mais. Ao pé da página meu pai escreveu ‘Tal-Elmar’ duas vezes, e seu próprio nome duas vezes; e também ‘Tal-Elmar em Rhovanion’, ‘Terras Ermas’, ‘Anduin o Grande Rio’, ‘Mar de Rhun’ e ‘Pântano de Etten’.

NOTAS.

1. Na versão rejeitada da seção inicial do texto a história começa: ‘Nos dias dos Grandes Reis quando um homem podia andar sem molhar os pés de Roma até York (não que estas cidades tivessem sido construídas ou imaginadas) morava na cidade de seu povo nas colinas de Agar um velho homem, de nome Tal-argan Barbalonga’, e Tal-argan permaneceu o nome sem correção na página rejeitada. A segunda versão manteve ‘os Grandes Reis’, a mudança para ‘os Reis da Escuridão’ sendo feita mais tarde.

2. Este parágrafo mais tarde foi colocado entre colchetes.

3. Ambas as versões têm ‘o Quarto Rei’, alterada na segunda para ‘o Rei do Norte’ ao mesmo tempo em que ‘os Grandes Reis’ foi alterado para ‘os Reis da Escuridão’ (nota 1).

4. Na versão rejeitada o pai de Tal-argan (Hazad) era chamado Tal-Bulda, e o local da batalha era o vale de Rishmalog.

5. Neste ponto a primeira página rejeitada termina, e o texto se torna a composição principal. Uma nota rascunhada a lápis no topo da página substituta propõe que Buldar pai de Hazad fosse eliminado, e que o próprio Hazad tenha casado com a mulher estrangeira Elmar (que não é nomeada na versão rejeitada).

6. O nome datilografado era Dur nor-Belgoth, corrigido para Gorbelgod.

7. ‘o Quarto Rei’, não foi corrigido aqui: ver nota 3.

8. No original ‘knappers’:  um  ‘knapper’  era alguém que quebrava pedras ou rochas. Esta palavra substituiu ‘tinker’ (algo como cigano), aqui e na próxima ocorrência.

9. Eu deixei o texto aqui como ele é.

10. Uma nota marginal aqui diz que Tal-elmar não tinha ‘nenhuma arma além de pedras de arremesso em um saco’.

11. O texto como escrito tinha ‘distante no interior, e todos os homens temiam’, corrigido para ‘distante no interior. Todos os homens temiam’. Eu alterei o texto para propiciar uma sentença completa, mas meu pai (que estava escrevendo com grande rapidez) sem dúvida não pretendia isso, e teria reescrito o trecho  se alguma vez tivesse retornado a ele.

12. Na margem meu pai escreveu que a vila de Udul estava morrendo de peste, e os invasores estavam de fato desesperadamente procurando por comida.

13. A conclusão do texto está em certos trechos em um manuscrito excruciantemente difícil, e as palavras que eu dei como ‘ele foi chamado’ são dúbias: mas eu não consigo imaginar outra interpretação delas.

14. Contra as palavras ‘nunca ousando ser pegos pelo escuro fora de suas casas’ meu pai escreveu: ‘a Escuridão é “a hora do Rei” ‘. Como pode ser visto em passagens seguintes, o Rei é Sauron.

The History of Middle-earth VI – The Return of the Shadow

The Return of the Shadow, sexto livro da série The History of Middle-earth, inicia uma nova fase no relato da evolução da mitologia tolkieniana. Até então, Christopher Tolkien havia apresentado os textos de seu pai que lidavam com as lendas dos Dias Antigos e da Segunda Era. Entretanto, como todos sabemos, a elaboração dessas lendas foi interrompida em 1937, quando Tolkien começou a escrever a "seqüência de O Hobbit", tão pedida por seus leitores e editores, e que iria se transformar em O Senhor dos Anéis.
 

Assim, The Return of the Shadow (A Volta da Sombra), título que chegou a ser cogitado para o primeiro volume de O Senhor dos Anéis, mostra os primeiros anos da composição da obra-prima de Tolkien, durante os quais o tom grandiloqüente e épico do livro ainda não se havia firmado, e Tolkien lutava para definir o escopo da obra.

Basta dizer que a própria natureza da missão de Frodo (no início chamado Bingo Baggins, e filho de Bilbo) ainda estava incerta, e Tolkien chegou a cogitar um ataque de dragões no Condado ou até mesmo uma viagem por Mar até o Antigo Oeste como aventuras para os hobbits. Mesmo depois que o anel mágico de Bilbo se tornou o Um Anel do Senhor do Escuro, as coisas ainda estavam longe de se definir. Um exemplo é que toda a história da Última Aliança de Gil-galad e Elendil não aparece a princípio, e é um elfo anônimo que se apodera do Um Anel e acaba morto pelos orcs no Grande Rio.

Personagens que iriam se tornar importantíssimos quando o livro alcançasse sua versão final aparecem sob as formas mais insuspeitas em The Return of the Shadow. Um exemplo é Trotter (o futuro Strider ou Passolargo), a princípio um hobbit de aparência estranha, rosto moreno e que usava sapatos de madeira! O Fazendeiro Magote é um sujeito intolerante e violento, que quase tinha matado Bingo (Frodo) por invadir sua fazenda, e o próprio Barbárvore é um gigante traiçoeiro e secretamente aliado a Sauron.

O livro cobre um período que vai mais ou menos de 1937 a 1939, quando a primeira das grandes "paradas" na narrativa aconteceu; nesse momento, a história já havia chegado a Moria e ao túmulo de Balin, mas a Companhia do Anel era formada por SETE membros, dos quais cinco eram hobbits (Bingo, Sam, Merry, Odo, o futuro Pippin, e Trotter) e os demais eram Gandalf e Boromir, então "filho do rei de Ond". O Senhor dos Anéis ainda iria passar por transformações radicais antes de que alcançar sua forma definitiva.

The Return of the Shadow também inclui reproduções de alguns dos primeiros manuscritos da obra-prima de Tolkien e do primeiro mapa do Condado a ser feito pelo Professor.

Conteúdo do Livro

The First Phase O começo do Senhor dos Anéis, até "Em Valfenda". Inclui alguns rascunhos da Estrada entre o Topo dos Ventos e Valfenda. dez 1937 – outuno 1938

The Second Phase Reescrita de "Uma Festa Há Muito Esperada" até "Tom Bombadil". Outono 1938.

The Third Phase Primeira aparição de "Sobre os Hobbits" daí vai de "Uma Festa Há Muito Esperada" até a festa em Valfenda. "News uncertainties and New Projects" contém planos, questões e vários fragmentos de textos. Inverno 1938/39 e outono 1939

The Story Continued Inicia em "Na Casa de Elrond" e segue até "As Minas de Moria". Poemas incluem "Elbereth Gilthoniel" em Élfico. O mais antigo mapa das terras do sul também é incluso. Final de 1939.

The History of Middle-earth III – The Lays of Beleriand

Os leitores mais atentos de O Silmarillion provavelmente se recordam dos belos fragmentos de poesia que aparecem no capítulo De Beren e Lúthien. No terceiro livro da série The History of Middle-earth, entitulado The Lays of Beleriand (As Baladas de Beleriand), temos a oportunidade de conhecer na íntegra a Balada de Leithian, texto do qual foram extraídos esses versos, bem como a Balada dos Filhos de Húrin, que reconta em forma de poema a história de Túrin Turambar.
 

Na verdade, nenhum dos dois poemas chegou a ser terminado por Tolkien: a Balada dos Filhos de Húrin, embora tenha 2000 versos, termina logo depois da chegada de Túrin a Nargothrond, enquanto a Balada de Leithian, com catorze cantos, foi interrompida no momento em que Carcharoth, o lobo de Angband, arranca a mão de Beren que segurava a Silmaril.

O estilo das duas baladas é bastante diferente: enquanto a Balada de Leithian é composta por versos octassílabos que rimam em pares (os chamados dísticos), a Balada dos Filhos de Húrin foi escrita em versos aliterativos, um tipo de rima utilizado na poesia medieval anglo-saxã, muito apreciada por Tolkien.

Os dois longos poemas foram escritos por Tolkien durante os anos 20 e começo dos anos 30, e representam uma fase importante para a evolução da mitologia tolkieniana. Para citar alguns exemplos, é neles que aparece pela primeira vez a fortaleza subterrânea de Nargothrond, personagens como Finrod (então chamado apenas Felagund) e o próprio Sauron (então chamado Thû). É impressionante perceber também que a Balada de Leithian praticamente definiu a história de Beren e Lúhien como a conhecemos hoje. Até trechos de poemas publicados em outros livros, como a história de Tinúviel contada por Aragorn aos hobbits em O Senhor dos Anéis, foram fortemente baseados na Balada de Leithian.

Além dos dois poemas principais, The Lays of Beleriand também contou fragmentos de outros poemas abandonados por Tolkien: The Flight of the Noldoli (A Fuga dos Noldor), The Lay of Earendel (A Balada de Earendel) e The Lay of the Fall of Gondolin (A Balada da Queda de Gondolin).

Conteúdo do Livro

The Lay of the Children of Húrin A história de Húrin e seus filhos, em versos aliterativos. Acaba com Túrin chegando em Nargothrond. 1920 – 1925

Poems early abandoned Poemas breves. Inclui "The Flight of the Noldoli", um fragmento aliterativo de "Lay of Eärendel" e "Lay of the Fall of Gondolin". 1920 – 1925

The Lay of Leithian História de Beren e Lúthien em cupletos octosilábicos. Termina com Carcharoth engolindo a mão de Beren. 1925 – 1931

The Lay of Leithian recommenced
Reescrita de "The Lay of Leithian", em parte extensivo. Termina no mesmo local. 1949 u 1950, revisado depois de 1955

The History of Middle-earth I – The Book of Lost Tales

Quem vê O Silmarillion em sua forma atual talvez não imagine o gigantesco trabalho de transformação e carpintaria literária necessário para que a mitologia dos Dias Antigos tomasse a forma que conhecemos hoje. The Book of Lost Tales I (O Livro dos Contos Perdidos I), o primeiro da série The History of Middle-earth, traz para os leitores as versões mais antigas do universo tolkieniano, algumas datando de 1916.

 

As histórias do livro são relatadas a partir do ponto de vista de Eriol, um marinheiro humano que, após muitas viagens pelos Mares Ocidentais, chega a Tol Eressëa, a Ilha Solitária onde vivem os elfos. Lá, Eriol torna-se amigo dos Eldar e se hospeda em Mar Vanwa Tyaliéva, o lar de Lindo e sua esposa Vairë. Os elfos de Eressëa, a pedido de Eriol, começam a contar toda a história de Valinor e das Terras Exteriores (o nome "Terra-média" ainda não havia sido incorporado à mitologia), desde a criação do Mundo.

Exceto a história da Canção dos Ainur, que essencialmente permaneceu com poucas mudanças até a versão "final" do Silmarillion, quase tudo é diferente do que conhecemos hoje. Ossë e Uinen, por exemplo, são Valar; o conceito dos Maiar ainda não havia sido criado. Os Valar têm filhos: Fionwë Úrion (que depois se tornaria o Maia Eonwë) é filho de Manwë e Varda, assim como Oromë – pasmem! – é filho de Yavanna.

O próprio Morgoth é um inimigo muito mais malicioso, com um senso de humor insolente e cruel, diferente do Senhor do Escuro posterior. A importância das Silmarils para a narrativa ainda não havia aparecido: Melko (assim mesmo, sem "r") rouba todas as jóias dos Noldoli (os futuros Noldor), entre elas as Silmarils. Aliás, o Fëanor que aparece aqui já é um grande artífice, mas não pertence à casa real dos Noldoli. O único filho do rei Finwë Nólemë é Turondo, o futuro Turgon de Gondolin.

A linguagem empregada também é muito mais arcaica e solene que a do atual Silmarillion (se é que isso é possível). E as próprias línguas élficas são bem diferentes, até em termos históricos: o quenya aqui já é o alto-élfico, mas a língua que depois se tornaria o sindarin é na verdade o noldorin ou gnômico (de gnomos, nome que designava os Noldor neste estágio da mitologia). A idéia era que os Noldor, durante seu exílio nas Terras Exteriores, teriam sua língua muito modificada em relação ao quenya.

Fica claro também, para quem lê o Lost Tales, a intenção de Tolkien: criar uma "mitologia para a Inglaterra". Isso aparece tanto na associação dos elfos com os fadas do folclore inglês – Eldamar é também chamada de Faëry ou "Terra das Fadas" – quanto na idéia de que Tol Eressëa, em tempos futuros, se tornaria a Grã-Bretanha. Seja como for, The Book of Lost Tales fornece inúmeras chaves para compreender o desenvolvimento do rico universo criativo de Tolkien.

Conteúdo do Livro

Contos – "The Cottage of Lost Play", "The Music of the Ainur", "The Coming of the Valar and the Building of Valinor", "The Chainin of Melko", "The Coming of the Elves and the Making of Kôr", "The Theft of Melko and the Darkening of Valinor", "The Flight of the Noldoli", "The Tale of Sun and Moon", "The Hiding of Valinor" e "Gilfanon´s Tale: The Travail of the Noldoli and the Coming of Mankind"
Poemas – "You and Me", "Kortirion", "Habannan", "Tinfang Warble", "Over Old Hills", "Kôr", "A Song of Aryador" e "Why the Man in the Moon came down too soon"
Mapas – "The earlist map" e "The World Ship"
Escritos datam de 1916 – 1918

Appendix – Names in the Lost Tales Part I:
Retirado dos primeiros "lexicons" das línguas Élficas e também inclui palavras em "Qenya" e "Goldogrin or Gnomish". Palavras etimologicamente conectadas são dadas tomando como base nomes importantes que as contém.
Escritos datam de 1915

Athrabeth Finrod ah Andreth

O famoso Diálogo de Finrod e Andreth, através do qual muito se sabe do relacionamento entre os Filhos de Eru, seus passados e futuros.

Da Morte e dos Filhos de Eru, e da Desfiguração dos Homens – O Diálogo [1] de Finrod e Andreth

Ora, os Eldar descobriram que, de acordo com a tradição dos Edain, os Homens acreditavam que seus hröar não eram por natureza justa de vida curta, mas haviam se tornado assim pela malícia de Melkor. Não estava claro para os Eldar o que os Homens queriam dizer: se pela desfiguração em geral de Arda [a qual eles próprios sustentavam ser a causa do desvanecimento de seus próprios hröar]; ou por alguma malícia especial contra os Homens enquanto Homens que havia sido perpetrada nas eras escuras antes que os Edain e os Eldar se encontrassem em Beleriand; ou por ambos. Mas aos Eldar parecia que, se a mortalidade dos Homens viera por malícia especial, a natureza dos Homens havia sido tristemente modificada em relação ao desígnio primeiro de Eru; e isto era matéria de assombro e terror para eles pois, se assim de fato era, então o poder de Melkor devia ser [ou deveria ter sido no princípio] muito maior do que até mesmo os Eldar haviam compreendido; enquanto a natureza original dos Homens devia ter sido de fato estranha, e diferente da de qualquer um dos outros habitantes de Arda.

A respeito dessas coisas está registrado na antiga tradição dos Eldar que certa vez Finrod Felagund e Andreth, a mulher-sábia, debateram em Beleriand há muito tempo. Essa história, que os Eldar chamam de Athrabeth Finrod ah Andreth, é aqui dada numa das formas em que foi preservada.

Finrod [filho de Finarfin, filho de Finwë] era o mais sábio dos Noldor exilados, estando mais preocupado que todos os outros com assuntos do pensamento [ao invés de com a criação ou a habilidade das mãos]; e ele era ávido, além disso, por descobrir tudo o que pudesse a respeito da raça humana. Foi ele o primeiro a encontrar os Homens em Beleriand e travar amizade com eles; e por essa razão era muitas vezes chamado pelos Eldar Edennil, “o Amigo dos Homens”. Seu maior amor era dado ao povo de Bëor, o Velho, pois foram estes os que ele primeiro encontrou nos bosques de Beleriand Oriental.

Andreth era uma mulher da Casa de Bëor, a irmã de Bregor, pai de Barahir [cujo filho foi Beren Uma-mão, o renomado]. Ela era sábia em pensamento, e versada nas tradições dos Homens e em suas histórias; razão pela qual os Eldar a chamavam Saelind, “Coração-sábio”.

Entre os Sábios alguns eram mulheres, e elas eram grandemente estimadas entre os Homens, especialmente por seu conhecimento das lendas dos dias antigos. Outra mulher-sábia era Adanel, irmã de Hador Lórindol, em certa época Senhor do Povo de Marach, cujos conhecimentos e tradições, e também cuja língua, eram diferentes dos do Povo de Bëor. Mas Adanel era casada com um parente de Andreth, Belemir da Casa de Bëor: ele era avô de Emeldir, mãe de Beren. Em sua juventude Andreth habitara por longo tempo na casa de Belemir, e assim aprendera de Adanel muito da tradição do Povo de Marach, além da tradição de seu próprio povo.

Nos anos de paz antes que Melkor quebrasse o Cerco de Angband, Finrod visitava freqüentemente Andreth, a quem amava em grande amizade, pois ele a achava mais pronta a compartilhar seu conhecimento com ele do que a maioria dos Sábios entre os Homens. Uma sombra parecia jazer sobre eles, e havia uma escuridão atrás deles, sobre a qual eram avessos a falar mesmo entre eles próprios. E eles se intimidavam com a majestade dos Eldar, e não revelariam facilmente a estes seu pensamento ou suas lendas. De fato, os Sábios entre os Homens [que eram poucos] em sua maioria mantinham sua sabedoria secreta, e a revelavam apenas àqueles a quem escolhiam.

Ora, aconteceu que num tempo de primavera [2] Finrod era hóspede na casa de Belemir; e ele passou a conversar com Andreth, a mulher-sábia, sobre os Homens e seus destinos. Pois naquele tempo Boron, Senhor do Povo de Bëor, tinha acabado de morrer logo depois de Yule, e Finrod estava entristecido.

“Triste para mim, Andreth”, ele disse, “é a passagem rápida de vosso povo. Pois agora Boron, pai de vosso pai [3], partiu; e embora ele fosse velho, como dizeis, conforme são as idades entre os Homens [4], eu o conheci, contudo, brevemente demais. De fato, me parece ter sido há pouco tempo que vi [5] Bëor no leste desta terra, e contudo agora ele se foi, e seus filhos, e também o filho de seu filho.”

“Agora já faz mais de cem anos”, disse Andreth, “desde que viemos do outro lado das Montanhas; e Bëor e Baran e Boron viveram cada um além de seu nonagésimo ano. Nossa passagem era mais rápida antes que encontrássemos esta terra.”

“Então estais contentes aqui?”, disse Finrod.

“Contentes?”, disse Andreth. “Nenhum coração dos Homens está contente. Toda passagem e morte é uma dor para ele; mas, se o murchar não acontece tão cedo, então isso é alguma melhora, uma pequena suspensão da Sombra”.

“O que quereis dizer com isso?”, disse Finrod.

“Certamente o sabeis bem!”, disse Andreth. “A Escuridão que está agora confinada no Norte, mas que uma vez”; e aqui ela parou e seus olhos se escureceram, como se sua mente tivesse voltado para anos negros que estariam melhor esquecidos. “Mas que uma vez jazeu sobre toda a Terra-média, enquanto vivíeis em vosso contentamento”.

“Não foi acerca da Sombra que perguntei”, disse Finrod. “O que quereis dizer, eu pergunto, com a suspensão dela? Ou como o destino rápido dos Homens está ligado a ela? Vós também, sustentamos [sendo instruídos pelos Grandes que sabem], sois Filhos de Eru, e vosso destino e natureza vêm Dele”.

“Vejo”, disse Andreth, “que nisto vós dos Altos-elfos não sois diferentes de vossos parentes inferiores que encontramos no mundo, embora eles não tenham vivido na Luz. Todos vós, os Elfos, acreditais que morremos rapidamente por nossa verdadeira natureza. Que somos frágeis e breves, e vós sois fortes e duradouros. Podemos ser “Filhos de Eru”, como dizeis em vossa tradição; mas somos filhos e crianças também para vós: para ser amados um pouco, talvez, e contudo criaturas de menor valor, para as quais podeis olhar do alto do vosso poder e do vosso conhecimento, com um sorriso, ou com pena, ou com um sacudir de cabeças”.

“Ah, o que dizeis está perto da verdade”, disse Finrod. “Pelo menos para muitos de meu povo; mas não para todos, e certamente não para mim. Mas considerai bem isto, Andreth: quando vos chamamos “Filhos de Eru” não falamos levianamente; pois tal nome nós jamais pronunciamos por troça ou sem plena intenção. Quando assim falamos, falamos por conhecimento, e não por mera tradição élfica; e proclamamos que sois nossos parentes, num parentesco muito mais próximo [tanto de hröa como de fëa] do que o que une todas as outras criaturas de Arda, e nós a elas.

Outras criaturas na Terra-média nós também amamos em sua medida e espécie: os animais e pássaros que são nossos amigos, as árvores, e mesmo as belas flores que passam mais rapidamente que os Homens. A passagem delas nós lamentamos; mas acreditamos que ela seja uma parte de sua natureza, tanto quanto são suas formas e cores.

Mas por vós, que sois nossos parentes mais próximos, nosso lamento é muito maior. Porém, se considerarmos a brevidade da vida em toda a Terra-média, não devemos acreditar que vossa brevidade é também parte de vossa natureza? Vosso próprio povo não acredita nisso também? E contudo, de vossas palavras e da amargura nelas depreendo que achais que erramos”.

“Acho que errais, e todos os que assim pensam”, disse Andreth; “e que esse mesmo erro vem da Sombra. Mas para falar dos Homens. Alguns dirão isto e outros aquilo; mas a maioria, pouco pensando, irá sempre sustentar que seu breve tempo no mundo sempre foi assim, e assim sempre há de permanecer, gostem ou não. Mas há alguns que pensam de outra forma; os Homens chamam a esses de “Sábios”, mas pouco lhes dão ouvidos. Pois eles não falam com certeza ou em uma voz, não tendo conhecimento certo como o de que vos vangloriais, mas por força dependendo de “tradição”, na qual a verdade [se puder ser encontrada] deve ser vislumbrada. E em cada vislumbre há joio com o trigo que é escolhido, e sem dúvida também trigo com o joio que é rejeitado.

Contudo, entre meu povo, de Sábio para Sábio desde a escuridão, vem a voz dizendo que os Homens não são agora como eram, nem como era sua verdadeira natureza no princípio. E mais claramente ainda isso é dito pelos Sábios do Povo de Marach, que preservaram na memória um nome para Ele que vós chamais Eru, embora no meu povo ele tenha sido quase esquecido. Assim eu aprendi com Adanel. Eles dizem claramente que os Homens não são por natureza de vida curta, mas assim se tornaram pela malícia do Senhor da Escuridão que eles não nomeiam”.

“Nisso eu bem posso acreditar”, disse Finrod: “que vossos corpos sofrem em alguma medida a malícia de Melkor. Pois viveis em Arda Desfigurada, como nós vivemos, e toda a matéria de Arda foi maculada por ele, antes que vós ou nós viéssemos e retirássemos nossos hröar e nosso sustento dela; toda Arda salvo, talvez, apenas Aman antes que ele fosse para lá. Pois sabei que não é de outra forma com os próprios Quendi: a saúde e a estatura deles está diminuída. Já aqueles de nós que habitam a Terra-média, e mesmo nós que retornamos a ela, descobrem que a mudança de seus corpos é mais rápida do que no início. E isso, julgo eu, deve pressagiar que eles provar-se-ão ser menos fortes para durar do que foram designados a ser, embora isto possa não ser revelado claramente por muitos e longos anos.

E da mesma maneira com os hröar dos Homens, eles são mais fracos do que deveriam ser. Assim vem a acontecer que aqui no Oeste, para onde o poder dele antigamente pouco se estendia, eles têm mais saúde, como dizeis”.

“Não, não!” disse Andreth. “Não compreendeis minhas palavras. Pois sois sempre de uma só opinião, meu senhor: os Elfos são os Elfos, e os Homens são Homens, e embora tenham um Inimigo comum, por quem ambos são feridos, ainda assim o intervalo ordenado permanece entre os senhores e os humildes, os primogênitos nobres e duradouros, e os seguidores simples e de breve serviço.

Essa não é a voz que os Sábios escutam desde a escuridão e de além dela. Não, senhor, os Sábios entre os Homens dizem: “Não fomos feitos para a morte, nem sempre nascidos para morrer. A morte foi imposta sobre nós”. E eis que o medo dela está conosco sempre, e fugimos dela para sempre como o cervo do caçador. Mas, quanto a mim, creio que não podemos escapar dela dentro deste mundo, não, nem se pudéssemos chegar à Luz além do Mar, ou àquela Aman da qual falais. Nessa esperança nós partimos, e viajamos durante muitas vidas de Homens; mas a esperança era vã. Assim dizem os Sábios, mas isso não parou a marcha pois, como eu disse, eles são pouco ouvidos. E eis que fugimos da Sombra até as últimas costas da Terra-média, para descobrir apenas que ela está aqui diante de nós!”

Então Finrod ficou em silêncio; mas depois de algum tempo ele disse: “Essas palavras são estranhas e terríveis. E vós falais com a amargura de alguém cujo orgulho foi humilhado, e procura então ferir aqueles com quem fala. Se todos os Sábios entre os Homens falam assim, então bem posso acreditar que sofrestes alguma grande ferida. Mas não pelas mãos de meu povo, Andreth, nem por nenhum dos Quendi. Se nós somos como somos, e vós sois como vos encontramos, isso não é por nenhuma ação nossa, nem por nosso desejo; e vossa tristeza não nos regozija nem alimenta nosso orgulho. Só um diria o contrário: aquele Inimigo que vós não nomeais.

Cuidado com o joio entre vosso trigo, Andreth! Pois pode ser mortal: mentiras do Inimigo que da inveja irão gerar ódio. Nem todas as vozes que vêm da escuridão dizem a verdade para aquelas mentes que escutam estranhas novas.

Mas quem vos fez essa ferida? Quem impôs a morte sobre vós? Melkor, parece claro que diríeis, ou qualquer que seja o nome que tendes para ele em segredo. Pois falais da morte e da sombra dele, como se fossem a mesma e uma só coisa; e como se escapar da Sombra fosse também escapar da Morte.

Mas essas duas coisas não são a mesma, Andreth. Assim julgo, ou a morte não seria encontrada em absoluto neste mundo que ele não concebeu, mas Outro. Não, morte é apenas o nome que damos a algo que ele maculou, e portanto nos parece mau; mas imaculado o seu nome seria bom”.

“O que sabeis da morte? Não a temeis porque não a conheceis”, disse Andreth.

“Nós a vimos, e a tememos”, respondeu Finrod. “Também nós podemos morrer, Andreth; e temos morrido. O pai de meu pai foi cruelmente assassinado, e muitos o seguiram, exilados na noite, no gelo cruel, no mar insaciável. E na Terra-média temos morrido, por fogo e por fumaça, por veneno e pelas cruéis lâminas da batalha. Fëanor está morto, e Fingolfin foi pisoteado [6] sob os pés do Morgoth [7].

Para que fim? Para derrotar a Sombra ou, se isso não puder ser, para impedi-la de espalhar-se uma vez mais por toda a Terra-média – para defender os Filhos de Eru, Andreth, todos os Filhos, e não apenas os orgulhosos Eldar!”

“Eu tinha ouvido”, disse Andreth, “que era para recuperar vosso tesouro, que vosso Inimigo roubara; mas talvez a Casa de Finarfin não pense como os Filhos de Fëanor. Mesmo assim, apesar de todo o vosso valor, digo outra vez: “O que sabeis da morte?”. Para vós ela pode ser em dores, pode ser amarga e uma perda – mas apenas por algum tempo, um pequeno revés na abundância, a menos que me tenham dito uma inverdade. Pois sabeis que, morrendo, não deixais o mundo, e que podeis retornar à vida.

De outra forma é conosco: morrendo nós morremos, e partimos para não voltar. A morte é um fim último, uma perda irremediável. E é abominável; pois também é uma injustiça que é feita contra nós”.

“Tal diferença eu percebo”, disse Finrod. “Diríeis que há duas mortes: uma que é uma ferida e uma perda mas não um fim, e outra que é um fim sem retorno; e os Quendi sofrem apenas a primeira?”

“Sim, mas há outra diferença também “, disse Andreth. “Uma é apenas um ferimento nos acasos do mundo, que os bravos, os fortes ou os afortunados podem esperar evitar. A outra é morte inelutável; e a morte o caçador que no fim não pode ser eludido. Seja um homem forte, ou rápido, ou ousado; seja sábio ou um tolo; seja ele mau, ou seja em todos os atos de sua vida justo e misericordioso, ame ele o mundo ou o abomine, deve morrer e deixá-lo – e se tornar carniça, que os Homens com prazer queimam ou escondem”.

“E, sendo assim perseguidos, os Homens não têm nenhuma esperança?”, disse Finrod.

“Eles não têm nenhuma certeza e nenhum conhecimento, apenas medos, ou sonhos no escuro”, respondeu Andreth. “Mas esperança? Esperança, isso é outro assunto, do qual mesmo os Sábios raramente falam”. A voz dela então se tornou mais suave. “Entretanto, Senhor Finrod da Casa de Finarfin, dos nobres e altivos Elfos, talvez possamos falar dela neste momento, vós e eu”.

“Podemos”, disse Finrod, “mas por enquanto caminhamos nas sombras do medo. Até agora, então, percebo que a grande diferença entre Elfos e Homens está na velocidade do fim. Nisso apenas. Pois se julgais que para os Quendi não há morte inelutável, errais.

Ora, nenhum de nós sabe, embora os Valar possam saber, o futuro de Arda, ou quanto tempo ela foi prescrita para durar. Mas não durará para sempre. Foi feita por Eru, mas Ele não está nela. Apenas o Único não tem limites. Arda, e mesmo Eä, devem portanto ser limitadas. Vós nos vedes, aos Quendi, ainda nas primeiras eras de nosso ser, e o fim está distante. Como talvez entre vós a morte possa parecer a um jovem em seu vigor; salvo que nós temos já longas eras de vida e pensamento atrás de nós. Mas o fim virá. Isso nós todos sabemos. E então deveremos morrer; deveremos perecer completamente, parece, pois pertencemos a Arda [em hröa e em fëa]. E para além disso o quê? “A partida para não retornar”, como dizeis, “o fim último, a perda irremediável”?

Nosso caçador é de pés lentos, mas nunca perde a trilha. Além do dia em que ele soprar sua trombeta, não temos nenhuma certeza, nenhum conhecimento. E ninguém nos fala de esperança.”

“Eu não sabia disso”, disse Andreth, “e contudo…”

“E contudo ao menos o nosso caçador é de pés lentos, diríeis?”, disse Finrod. “É verdade. Mas não está claro que um fado pressagiado e por muito tempo adiado seja de todas as maneiras um peso mais leve do que um que vem logo. Mas se entendi vossas palavras até aqui, não acreditais que essa diferença foi assim concebida no início. Não éreis no princípio condenados à morte rápida.

Muito poderia ser dito acerca dessa crença [seja ela uma suposição verdadeira ou não]. Mas primeiro eu desejaria perguntar: como dizeis que isso veio a acontecer? Pela malícia de Melkor, eu supus, e vós não o negastes. Mas vejo agora que não falais da diminuição que todos em Arda Desfigurada sofrem; mas de algum golpe especial de inimizade contra vosso povo, contra os Homens enquanto Homens. É assim?”

“De fato é”, respondeu Andreth.

“Então isso é matéria de horror”, disse Finrod. “Conhecemos Melkor, o Morgoth, e o sabemos ser poderoso. Sim, eu o vi, e ouvi sua voz; e estive cego na noite que está no coração de sua sombra, da qual vós, Andreth, nada sabeis salvo por ouvir dizer e pela memória de vosso povo. Mas nunca, mesmo na noite, acreditamos que ele pudesse prevalecer contra os Filhos de Eru. Este ele poderia iludir, ou aquele ele poderia corromper; mas mudar o destino de todo um povo dos Filhos, roubá-los de sua herança: se ele pudesse fazer tal coisa à revelia de Eru, então de longe maior e mais terrível é ele do que imaginávamos; então todo o valor dos Noldor é apenas presunção e insensatez – não, Valinor e as montanhas dos Pelóri estão construídas sobre a areia”.

“Vede!”, disse Andreth. “Eu não disse que não conheceis a morte? Eis que quando sois forçados a encará-la em pensamento apenas, como a conhecemos em ato e em pensamento todas as nossas vidas, logo caís em desespero. Nós sabemos, se vós não o sabeis, que o Inominável é o Senhor deste Mundo, e que o vosso valor, e também o nosso, é insensatez; ou pelo menos é infrutífero”.

“Cuidado!”, disse Finrod. “Cuidado para que não digais o impronunciável, conscientemente ou em ignorância, confundindo Eru com o Inimigo, que comprazer-se-ia em ver-vos fazer isso. O Senhor deste Mundo não é ele, mas o Único que o fez, e seu Vice-regente é Manwë, o Rei Mais Velho de Arda que é abençoado.

Não, Andreth, a mente obscurecida e em confusão; curvar-se e contudo abominar; fugir e contudo não rejeitar; amar o corpo e contudo desprezá-lo, o asco do carniceiro: tais coisas podem vir do Morgoth, de fato. Mas condenar os imortais à morte, de pai para filho, e ainda deixar-lhes a memória de uma herança roubada, e o desejo pelo que foi perdido: poderia o Morgoth fazer isso? Não, eu digo. E por essa razão eu disse que, se vossa história é verdadeira, então tudo em Arda é vão, do pináculo de Oiolossë até o mais recôndito abismo. Pois não acredito em vossa história. Ninguém poderia ter feito isso além do Único.

Portanto eu vos digo, Andreth, o que fizestes, vós, os Homens, há muito tempo atrás na escuridão? Como enraivecestes Eru? Pois do contrário todas as vossas histórias são apenas sonhos escuros numa Mente Escura. Direis o que sabeis ou escutastes?”

“Não o farei”, disse Andreth. “Não falamos disso para aqueles de outra raça. Mas na verdade os Sábios são incertos e falam com vozes contrárias; pois o que quer que tenha acontecido há muito tempo, nós fugimos; temos tentado esquecer, e tão longamente tentamos que agora não conseguimos recordar nenhum tempo em que não fôssemos como agora somos – exceto apenas lendas de dias em que a morte vinha menos rapidamente e nosso tempo era muito maior, mas já havia morte”.

“Não conseguis recordar?”, disse Finrod. “Não há histórias de vossos dias antes da morte, ainda que não as desejeis contar a estranhos?”

“Talvez”, disse Andreth. “Se não entre meu povo, então quiçá entre o povo de Adanel”. Ela ficou em silêncio, e fitou o fogo.

“Achais que ninguém sabe exceto vós próprios?”, disse Finrod enfim. “Os Valar não sabem?”

Andreth olhou para cima e seus olhos escureceram. “Os Valar?”, ela disse. “Como deveria eu saber, ou qualquer homem? Vossos Valar não nos importunam com cuidado ou com instrução. Não mandaram nenhuma convocação para nós”.

“O que sabeis deles?”, disse Finrod. “Eu os vi, e habitei no meio deles, e na presença de Manwë e Varda estive na Luz. Não faleis deles assim, nem de nada que está muito acima de vós. Tais palavras vieram primeiro da Boca Mentirosa.

Nunca entrou em vosso pensamento, Andreth, que lá fora em eras há muito passadas podeis ter colocado a vós próprios fora do cuidado dos Valar, e além do alcance de sua ajuda? Ou mesmo que vós, os Filhos dos Homens, não eram um assunto que eles pudessem governar? Pois éreis grandes demais. Sim, é isso que quero dizer, e não apenas lisonjeio vosso orgulho: grandes demais. Os únicos mestres de vós próprios dentro de Arda, sob a mão do Único. Cuidado então com a maneira como falais! Se não desejais falar com outros de vosso ferimento ou de como o sofrestes, prestai atenção antes que [como médicos inábeis] julgueis erradamente a ferida, ou em orgulho coloqueis a culpa em lugar errado.

Mas voltemo-nos agora para outros assuntos, já que não desejais falar mais disso. Gostaria de considerar vosso primeiro estado antes do ferimento. Pois o que dizeis disso é também para mim um assombro, e difícil de entender. Dizeis: “não fomos feitos para a morte, nem sempre nascidos para morrer”. O que quereis dizer: que éreis como nós somos, ou de outra maneira?”

“Esta tradição não vos leva em conta”, disse Andreth, “pois nada sabíamos dos Eldar. Considerávamos apenas morrer e não morrer. De vida tão longa quanto a do mundo, mas não mais longa, não tínhamos ouvido; de fato, até agora tal coisa não havia entrado em minha mente”.

“Para falar com franqueza”, disse Finrod, “eu havia pensado que essa vossa crença de que vós também não fostes feitos para a morte era apenas um sonho de vosso orgulho, gerado em inveja dos Quendi, para igualá-los ou superá-los. Não é assim, dizeis. Contudo, muito antes de chegardes a esta terra, encontrastes outros povos dos Quendi, e recebestes a amizade de alguns. Já não éreis então mortais? E nunca falastes com eles acerca da vida e da morte? Embora sem quaisquer palavras eles logo descobririam vossa mortalidade, e antes de muito tempo perceberíeis que eles não morriam”.

“Não é assim, digo em verdade”, respondeu Andreth. “Podemos ter sido mortais quando encontramos os Elfos pela primeira vez longe daqui, ou talvez não o fôssemos; nossa tradição não o diz, ao menos a tradição que aprendi. Mas já tínhamos nossa tradição, e não precisávamos de nenhuma vinda dos Elfos: sabíamos que em nosso princípio havíamos nascido para nunca morrer. E com isso, meu senhor, queríamos dizer: nascidos para a vida eterna, sem qualquer sombra de qualquer fim”.

“Então os Sábios entre vós já consideraram como é estranha a natureza que eles atribuem aos Atani?”, disse Finrod.

“É assim tão estranho?”, perguntou Andreth. “Muitos dos Sábios sustentam que em sua verdadeira natureza nenhuma das coisas vivas morreria”.

“Nisso os Eldar diriam que eles erram”, disse Finrod. “Para nós vossa afirmação sobre os Homens é estranha, e de fato difícil de aceitar, por duas razões. Afirmais, se entendeis completamente vossas próprias palavras, que tivestes corpos imperecíveis, não restringidos pelos limites de Arda, e mesmo assim derivados de sua matéria e sustentados por ela. E afirmais também [embora isto possais não ter percebido] que tivestes hröar e fëar que estavam desde o princípio em desarmonia. Contudo, a harmonia de hröa e fëa é, acreditamos, essencial para a natureza verdadeira e incorrupta de todos os Encarnados: os Mirröanwi, como chamamos os Filhos de Eru”.

“A primeira dificuldade eu percebo”, disse Andreth, “e para ela nossos Sábios têm sua própria resposta. A segunda, como adivinhastes, eu não percebo”.

“Não?”, disse Finrod. “Então não vedes a vós próprios claramente. Mas pode acontecer com freqüência que amigos e parentes vejam com clareza algumas coisas que estão ocultas de seu próprio amigo.

Ora, os Eldar somos vossos parentes, e vossos amigos também [se puderdes crê-lo], e já vos observamos por três vidas de Homens com amor e preocupação, e muito pensamento. Disto então estamos certos sem debate, ou do contrário toda a nossa sabedoria é vã: os fëar dos Homens, embora de fato estreitamente aparentados aos fëar dos Quendi, não são contudo iguais. Pois, embora o consideremos estranho, vemos claramente que os fëar dos Homens não estão, como os nossos, confinados em Arda, nem Arda é seu lar.

Podeis negar isso? Nós, os Eldar, não negamos que amais Arda e tudo que está nela [na medida em que estejais livres da Sombra] talvez tão grandemente quanto nós. Mas de outra maneira. Cada uma de nossas famílias percebe Arda diferentemente, e se regozija em suas belezas em modo e grau diversos. Como dizê-lo? Para mim a diferença é como a que existe entre aquele que visita um país estranho, e lá habita por algum tempo [mas não precisa fazê-lo], e aquele que sempre viveu nessa terra e precisa viver ali]. Para o primeiro todas as coisas que vê são novas e estranhas, e nesse grau adoráveis. Para o outro todas as coisas lhe são familiares, as únicas coisas que existem, suas, e nesse grau preciosas”.

“Se quereis dizer que os Homens são os Estrangeiros”, disse Andreth.

“Dissestes a palavra”, disse Finrod, “esse nome o demos a vós”.

“Altivamente, como sempre”, disse Andreth. “Mas se somos apenas estrangeiros numa terra em que tudo é vosso, meus senhores, como afirmais, dizei-me: que outra terra ou coisas conhecemos?”

“Não, dizei-me!”, disse Finrod. “Pois se não o sabeis, como podemos sabê-lo? Mas sabeis que os Eldar dizem dos Homens que estes não olham para coisa alguma pelo que ela é; que se eles a estudam, é para descobrir algo mais; que se eles a amam, é somente [assim parece] por que ela lhes lembra de outra coisa mais cara? Mas com o que fazem tal comparação? Onde estão essas outras coisas?

Todos, Elfos e Homens, estamos em Arda e dela somos; e qualquer conhecimento que os Homens possuam é derivado de Arda [ou assim pareceria]. De onde então vem essa memória que tendes convosco, mesmo antes que comeceis a aprender?

Não vem de outras regiões em Arda das quais viestes. Nós também viemos de longe. Mas se vós e eu fôssemos até vossos antigos lares no leste, eu reconheceria as coisas lá como parte de meu lar, mas veria em vossos olhos a mesma admiração e comparação que vejo nos olhos dos Homens em Beleriand, que nasceram aqui”.

“Falais palavras estranhas, Finrod”, disse Andreth, “que eu não ouvi antes. Contudo, meu coração se comove como se por alguma verdade que ele reconhece, mesmo que não a entenda. Mas passageira é essa memória, e parte antes que possa ser agarrada; e então nos tornamos cegos. E aqueles dentre nós que conheceram os Eldar, e talvez os tenham amado, dizem por nossa vez: “Não há cansaço nos olhos dos Elfos”. E descobrimos que eles não compreendem o ditado que existe entre os Homens: o que é visto demais não é mais visto. E eles se admiram muito de que nas línguas dos Homens a mesma palavra possa significar tanto “velho conhecido” quanto “apodrecido”.

Pensamos que era assim apenas porque os Elfos têm vida duradoura e vigor inquebrantável. “Crianças crescidas” nós, os estrangeiros, às vezes vos chamamos, meu senhor. E contudo – e contudo, se para nós nada em Arda mantém seu sabor por muito tempo, e todas as coisas belas se tornam remotas, o que isso significa? Isso não vem da Sombra sobre nossos corações? Ou dizeis que não é assim, mas que essa era nossa verdadeira natureza, mesmo antes do ferimento?”

“Digo que é assim, de fato”, respondeu Finrod. “A Sombra pode ter escurecido vossa inquietação, trazendo cansaço mais célere e logo o transformando em desdém, mas a inquietação sempre esteve lá, creio. E se isso é assim, não podeis agora perceber a desarmonia de que falei? Se de fato vossa Sabedoria tivesse uma tradição como a nossa, ensinando que os Mirröanwi são feitos de uma união de corpo e mente, de hröa e fëa, ou como dizemos em imagem a Casa e o Habitante.

Pois o que é a “morte” que lamentais se não a separação desses dois? E o que é a “imortalidade” que perdestes se não o fato de que os dois deveriam permanecer unidos para sempre?

Mas o que então deveríamos pensar da união no Homem: de um Habitante, que é apenas um estrangeiro aqui em Arda e não está em seu lar aqui, com uma Casa que é feita da matéria de Arda e deve portanto [suporíamos] aqui permanecer?

Ao menos não esperar-se-ia para essa Casa uma vida maior que a de Arda, da qual ela é parte. Contudo, afirmais que a Casa também era imortal, não? Eu preferiria acreditar que tal fëa, por sua própria natureza, iria em algum momento de livre vontade abandonar a casa de sua habitação aqui, ainda que a habitação pudesse ter sido mais longa do que é agora permitido. Então a “morte” [como eu disse] soaria de maneira diversa para vós: como uma libertação, ou um retorno – não, como ir para casa! Mas nisso não acreditais, parece?”

“Não, não acredito nisso”, disse Andreth. “Pois isso seria desprezo pelo corpo, e é um pensamento da Escuridão não-natural em qualquer dos Encarnados, cuja vida incorrupta é uma união de amor mútuo. Mas o corpo não é uma estalagem que mantém um viajante aquecido por uma noite, antes que ele siga seu caminho, e depois recebe outro. É uma casa feita para um habitante apenas, e de fato não apenas casa mas também vestimenta; e não está claro para mim se deveríamos neste caso dizer que a vestimenta é adequada ao usuário e não que o usuário é adequado à vestimenta.

Sustento então que não se deve pensar que a separação destes dois poderia ser de acordo com a verdadeira natureza dos Homens. Pois se fosse “natural” para o corpo ser abandonado e morrer, mas “natural” para o fëa continuar a viver, então de fato haveria uma desarmonia no Homem, e suas partes não estariam unidas por amor. Seu corpo seria na melhor das hipóteses um impedimento, ou uma cadeia. De fato uma imposição, e não uma dádiva. Mas há alguém que impõe, e que concebe cadeias, e se tal fosse a nossa natureza no princípio, então deveríamos derivá-la dele – mas isto, dizeis, não se deve ser falado.

Ai de nós! Lá fora na escuridão os homens o dizem mesmo assim, mas não os Atani como os conheceis, não agora. Sustento que nisto somos como vós sois, verdadeiramente Encarnados, e que não vivemos em nosso ser correto e em sua plenitude salvo numa união de amor e paz entre a Casa e o Habitante. De onde a morte, que os divide, é um desastre para ambos”.

“Cada vez mais assombrais meu pensamento, Andreth”, disse Finrod. “Pois se vossa afirmação é verdadeira, então eis que um fëa que aqui é apenas um viajante está casado indissoluvelmente com um hröa de Arda; dividi-los é um ferimento doloroso, e contudo cada um precisa cumprir sua justa natureza sem tirania do outro. Então a conseqüência deve ser certamente esta: o fëa, quando parte, deve levar consigo o hröa. E o que pode isso significar a não ser que o fëa deverá ter o poder de reerguer o hröa, como seu eterno esposo e companheiro, numa existência [8] eterna além de Eä, e além do Tempo? Assim Arda, ou parte dela, seria curada não apenas da mácula de Melkor, mas libertada até dos limites impostos a ela na “Visão de Eru” da qual os Valar falam.

Portanto eu digo que se é possível crer nisso, então realmente poderosos sob Eru foram os Homens criados em seu princípio; e terrível além de todas as calamidades foi a mudança em seu estado.

É então com uma visão daquilo que fora designado a existir quando Arda estivesse completa – das coisas vivas e mesmo das próprias terras e mares de Arda feitos eternos e indestrutíveis, para sempre belos e novos – que os fëar dos Homens comparam o que vêem aqui? Ou existe em algum outro lugar um mundo do qual todas as coisas que vemos, todas as coisas que tanto Elfos quanto Homens conhecem, são apenas sinais ou lembranças?”

“Se existe, isso reside na mente de Eru, julgo eu”, disse Andreth. “Para tais perguntas como podemos achar as respostas, aqui nas névoas de Arda Desfigurada? De outra forma poderia ter sido, se não tivéssemos sido mudados; mas sendo como somos, mesmo os Sábios entre nós dedicaram pouco pensamento à própria Arda, ou a outras coisas que aqui habitam. Temos pensado principalmente sobre nós mesmos: sobre como nossos hröar e fëar deveriam ter habitado juntos para sempre em júbilo, e sobre a escuridão impenetrável que agora nos espera”.

“Então não apenas os nobres Eldar se esquecem de seus parentes!”, disse Finrod. “Mas isso é estranho para mim, e mesmo como vosso coração o fez quando falei de vossa inquietação, assim agora o meu salta como ao ouvir de boas novas.

Esta então, proponho, era a missão dos Homens, não os seguidores, mas os herdeiros e completadores de tudo: curar a Desfiguração de Arda, já pressagiada antes da concepção deles; e fazer mais, como agentes da magnificência de Eru: alargar a Música e ultrapassar a Visão do Mundo!

Pois essa Arda Curada não será Arda Não-desfigurada, mas uma terceira e maior coisa, e contudo a mesma. Eu conversei com os Valar que estavam presentes no criar da Música antes que o ser do mundo começasse. E agora me pergunto: eles ouviram o fim da Música? Não havia algo dentro dos acordes finais de Eru ou além deles que, estando arrebatados pela Música, eles não perceberam?

Ou novamente, uma vez que Eru é livre para sempre, talvez ele não tenha feito nenhuma Música nem mostrado nenhuma visão além de um certo ponto. Além desse ponto não podemos ver ou saber, até que por nossas próprias estradas cheguemos até lá, Valar ou Eldar ou Homens.

Como um mestre no contar de histórias pode manter oculto o mais grandioso momento até que ele venha no tempo devido. Tal momento pode ser de fato imaginado, em alguma medida, por aqueles que ouviram com coração e mente plenos; mas assim o contador o desejaria. De forma alguma a surpresa e o assombro de sua arte são assim diminuídos, pois dessa maneira nós como que partilhamos de sua autoria. Mas não seria assim, se tudo nos fosse contado num prefácio antes que entrássemos!”

“Qual então diríeis que é o momento supremo que Eru reservou?”, perguntou  Andreth.

“Ah, dama sábia!”, disse Finrod. “Sou um Elda, e novamente estava pensando em meu próprio povo. Mas não, em todos os Filhos de Eru. Eu estava pensando que através dos Sucessores nós poderíamos ter sido libertados da morte. Pois durante todo o tempo em que faláveis da morte como sendo uma divisão dos que estão unidos, pensei em meu coração numa morte que não é assim, mas o fim de ambos juntos. Pois é isso que jaz diante de nós, até onde nossa razão pode ver: o completar de Arda e seu fim, e portanto também o fim de nós, filhos de Arda; o fim quando todas as longas vidas dos Elfos estarão totalmente no passado.

E de repente contemplei como numa visão Arda Refeita; e lá os Eldar completos mas não terminados poderiam habitar no presente para sempre, e lá caminhar, talvez, com os Filhos dos Homens, seus libertadores, e cantar para eles canções tais que, mesmo na Alegria além da alegria, fariam os vales verdes ressoarem e os topos eternos das montanhas reverberarem como harpas”.

Andreth então olhou para Finrod por baixo de suas sobrancelhas: “E o que, quando não estivésseis cantando, diríeis a nós?”, perguntou.

Finrod riu. “Só posso tentar adivinhar”, disse. “Ora, dama sábia, acho que vos contaríamos histórias do Passado e da Arda que fora antes, dos perigos e grandes feitos e da criação das Silmarils! Nós éramos os altivos então! Mas vós, vós estaríeis então em casa, olhando para todas as coisas atentamente, como vossas próprias. Vós seríeis os altivos. “Os olhos dos Elfos estão sempre pensando em alguma outra coisa”, diríeis. Mas vós então saberíeis do que éramos lembrados: dos dias em que primeiro nos encontramos, e nossas mãos se tocaram no escuro. Além do Fim do Mundo nós não mudaremos; pois na memória está o nosso maior talento, como será visto cada vez mais claramente conforme as eras desta Arda passarem: um fardo pesado a ser, temo eu; mas nos Dias dos quais ora falamos uma grande riqueza”. E então ele parou, pois viu que Andreth estava chorando baixinho.

“Ai de nós, senhor!”, disse Andreth. “O que então se pode fazer agora? Pois falamos como se essas coisas o fossem, ou como se certamente fossem ser. Mas os Homens foram diminuídos e seu poder retirado. Não esperamos por nenhuma Arda Refeita: a escuridão jaz diante de nós, e dentro dela fitamos em vão. Se por nossa ajuda vossas mansões eternas devem ser preparadas, elas não serão construídas agora”.

“Não tendes então esperança alguma?”, disse Finrod.

“O que é esperança?”, ela disse. “Uma expectativa do bem, que embora incerta tem algum fundamento no que é conhecido? Então não temos nenhuma”.

“Essa é a coisa que os Homens chamam de “esperança””, disse Finrod. “Amdir nós a chamamos, “olhar para o alto”. Mas existe outra, que é fundada mais solidamente. Estel nós a chamamos, que é “confiança”. Ela não é derrotada pelos caminhos do mundo, pois não vem da experiência, mas de nossa natureza e primeiro ser. Se somos de fato os Eruhin, os Filhos do Único, então Ele não permitir-Se-á ser privado do que é Seu, nem por Inimigo algum, nem mesmo por nós próprios. Este é o último fundamento de Estel, que mantemos mesmo quando contemplamos o Fim: de todos os Seus desígnios o objetivo deve ser para a alegria de Seus Filhos. Amdir não tendes, dizeis. Será que Estel não sobrevive enfim?”

“Talvez”, ela disse. “Mas não! Não percebeis que é parte de nosso ferimento que Estel falhe e suas fundações sejam sacudidas? Somos os Filhos do Único? Não estamos finalmente derrotados? Ou o fomos alguma vez? Não é o Inominável o Senhor do Mundo?”

“Não o digais mesmo em pergunta!”, disse Finrod.

“Isso não pode ser desdito”, disse Andreth, “se desejais entender o desespero no qual caminhamos. Ou no qual a maioria dos Homens caminha. Entre os Atani, como nos chamais, ou os Viajantes [9], como dizemos – os que deixaram as terras do desespero e dos Homens da escuridão e rumaram para o oeste em esperança vã – acredita-se que a cura ainda possa ser encontrada, ou que haja algum caminho de fuga. Mas será isso de fato Estel? Não será, ao contrário, Amdir, mas sem razão; mera fuga num sonho daquilo que despertos eles sabem: que não há escapatória da escuridão e da morte?”

“Mera fuga num sonho, dizeis”, respondeu Finrod. “Nos sonhos muitos desejos são revelados; e o desejo pode ser o último bruxulear de Estel. Mas não quereis dizer sonho, Andreth. Confundis sonho e despertar com esperança e crença, de maneira a fazer um mais duvidoso e o outro mais certo. Será que estão adormecidos os que falam de fuga e cura?”

“Adormecidos ou despertos, eles nada falam claramente”, respondeu Andreth. “Como ou quando a cura virá? Em que forma de ser serão refeitos os que virem esse tempo? E quanto a nós, que antes disso partiremos para a escuridão sem ser curados? Para tais questões apenas os da “Antiga Esperança” [como eles chamam a si próprios] têm alguma idéia de resposta”.

“Os da Antiga Esperança?”, disse Finrod. “Quem são eles?”

“Uns poucos”, disse ela, “mas seu número tem crescido desde que viemos para esta terra, e eles vêem que o Inominável pode [como pensam] ser desafiado. Contudo, essa não é uma boa razão. Desafiá-lo não desfaz sua obra de outrora. E se o valor dos Eldar falhar aqui, então o desespero deles será mais profundo. Pois não era no poder dos Homens, nem no de nenhum dos povos de Arda, que a antiga esperança estava fundada”.

“O que então era essa esperança, se o sabeis?”, Finrod perguntou.

“Eles dizem”, respondeu Andreth, “eles dizem que o próprio Único entrará em Arda, e curará os Homens e toda a Desfiguração do princípio até o fim. Isso, eles dizem também, ou fingem, é um rumor que veio através de anos incontáveis, mesmo dos dias de nosso ferimento”.

“Dizem, fingem?”, disse Finrod. “Não sois então um deles?”

“Como posso sê-lo, senhor? Toda sabedoria está contra eles. Quem é o Único, a quem chamais Eru? Se colocarmos de lado os Homens que servem o Inominável, como muitos o fazem na Terra-média, ainda assim muitos Homens percebem o mundo apenas como uma guerra entre a Luz e a Escuridão equipotentes. Mas direis: não, isso é Melkor e Manwë; Eru está acima deles. É então Eru somente o maior dos Valar, um grande deus entre deuses, como a maioria dos Homens dirá, mesmo entre os Atani: um rei que vive longe de seu reino e deixa que príncipes menores façam lá o que lhes aprouver? Novamente dizeis: não, Eru é Único, sozinho e sem-par, e ele fez Eä, e está além dela; e os Valar são maiores que nós, e contudo não mais próximos de Sua majestade. Não é assim?”

“Sim”, disse Finrod, “dizemos isso, e os Valar nós conhecemos, e eles dizem o mesmo, todos exceto um. Mas qual destes, pensais, é mais passível de mentir: aqueles que se humilham, ou aquele que se exalta?”

“Não tenho dúvidas”, disse Andreth. “E por essa razão o dizer da Esperança ultrapassa meu entendimento. Como Eru poderia entrar na coisa que Ele fez, e da qual Ele é imesuravelmente maior? O cantor é capaz de entrar em sua história ou o desenhista em sua figura?”

“Ele já está dentro dela, assim como está fora”, disse Finrod. “Mas em verdade o “habitar-dentro” e o “viver-fora” não estão no mesmo modo”.

“Realmente”, disse Andreth. “Assim Eru pode, nesse modo, estar presente em Eä, que procedeu dele. Mas eles falam do próprio Eru entrando em Arda, e essa é uma coisa completamente diferente. Como Ele, o maior, poderia fazê-lo? Isso não estraçalharia Arda, ou de fato toda Eä?”

“Não me pergunteis”, disse Finrod. “Essas coisas estão além do alcance da sabedoria dos Eldar, ou talvez da dos Valar. Mas desconfio que nossas palavras podem nos confundir, e que quando dizeis “maior” pensais nas dimensões de Arda, na qual o recipiente maior não pode ser contido no menor.

Mas tais palavras não podem ser usadas a respeito do Imensurável. Se Eru desejasse fazer isso, não duvido que Ele encontraria uma maneira, embora eu não possa prevê-la. Pois, como me parece, ainda que Ele próprio tenha que entrar, Ele deve também permanecer como é: o Autor fora. E contudo, Andreth, para falar com humildade, não consigo conceber de que outra maneira essa cura pudesse ser realizada. Uma vez que Eru certamente não permitirá que Melkor dirija o mundo para sua própria vontade e triunfe no fim. Contudo, não há poder algum concebivelmente maior que Melkor, salvo apenas Eru. Portanto Eru, se não desejar entregar sua obra a Melkor, que do contrário chegaria à vitória, deve entrar para derrotá-lo.

E mais: mesmo se Melkor [ou o Morgoth no qual se tornou] pudesse de alguma forma ser sobrepujado ou lançado fora de Arda, sua Sombra ainda permaneceria, e o mal que ele perpetrou e plantou como uma semente cresceria e multiplicar-se-ia. E se algum remédio para isso deve ser encontrado, antes que tudo esteja terminado, alguma luz nova para se opor à sombra, ou algum lenitivo para os ferimentos, então ele deve, julgo eu, vir de fora”.

“Então, senhor”, disse Andreth, e ela ergueu seu olhar em assombro, “credes  nessa Esperança?”

“Não me pergunteis ainda”, ele respondeu. “Pois ela ainda é para mim como uma estranha nova que vem de longe. Nenhuma esperança como essa foi jamais dita aos Quendi. Para vós apenas ela foi mandada. E contudo através de vós nos podemos ouvi-la e levantar nossos corações”. Ele parou por um momento e então, olhando gravemente para Andreth, disse: “Sim, mulher-sábia, talvez tenha sido ordenado que nós, os Quendi, e vós, os Atani, antes que o mundo envelheça, nós encontrássemos e trouxéssemos novas uns para os outros, e assim soubéssemos da Esperança através de vós: ordenado, de fato, que tu [10] e eu, Andreth, sentássemos aqui e conversássemos, através do golfo que divide nossas gentes, para que enquanto a Sombra ainda paira no Norte nós não estivéssemos de todo amedrontados”.

“Através do golfo que divide nossas gentes!”, disse Andreth. “Não há ponte alguma além de palavras?”. E então ela chorou outra vez.

“Talvez haja. Para alguns. Eu não sei”, ele disse. “O golfo, talvez, está mais entre nossos destinos, pois de resto somos parentes próximos, mais próximos do que quaisquer outras criaturas no mundo. Contudo, perigoso é cruzar um golfo imposto pelo destino; e os que se arriscassem a fazê-lo não encontrariam alegria do outro lado, mas a tristeza para ambos. Assim julgo eu.

Mas por que dizes “meras palavras”? Palavras não ultrapassam o golfo entre uma vida e outra? Entre ti e mim certamente passou mais do que som vazio? Não nos aproximamos de forma alguma? Mas isso é, creio, pouco conforto para ti”.

“Não pedi conforto”, disse Andreth. “Por que preciso dele?”

“Pelo destino dos Homens que te tocou como mulher”, disse Finrod. “Pensas que não sei? Não é ele meu irmão muito amado? Aegnor: Aikanár, a Chama Afiada, célere e sôfrego. E não faz muitos anos desde que vos encontrastes pela primeira vez, e vossas mãos se tocaram neste escuro. Contudo, eras então apenas uma donzela, valente e sôfrega, na manhã sobre os altos montes de Dorthonion”.

“Continuai!”, disse Andreth. “Continuai: e és agora apenas uma mulher-sábia, sozinha, e a idade que não o tocará já pôs o cinza do inverno em teu cabelo! Mas não digais tu para mim, pois assim ele uma vez o fez!”

“Ai de nós!”, disse Finrod. “É esta a amargura, amada adaneth, mulher dos Homens, não é? que perpassou todas as tuas palavras. Se eu tentasse dar-te algum conforto, julgá-lo-ias arrogante vindo de alguém do meu lado do destino que nos separa. Mas o que posso dizer, salvo lembrar-te da Esperança que tu mesma revelaste?”

“Eu não disse que alguma vez ela fora a minha esperança”, respondeu Andreth. “E mesmo que assim fosse, ainda assim eu gritaria: por que esse ferimento deveria vir aqui e agora? Por que deveríamos amar-vos, e por que vós deveríeis amar-nos [se é que nos amais] e ainda assim colocar o golfo entre nós?”

“Porque assim fomos feitos, parentes próximos”, disse Finrod.
“Mas não fizemos a nós mesmos, Andreth, e portanto nós, os Eldar, não colocamos esse golfo. Não, adaneth, não somos altivos nisto, mas cheios de compaixão. Tal palavra pode desagradar-te. Contudo, a compaixão é de dois tipos: uma vem do parentesco reconhecido, e é próxima do amor; a outra vem da diferença de sorte percebida, e é próxima do orgulho. Falo da primeira”.

“Não faleis de nenhuma para mim!”, disse Andreth. “Não desejo nenhuma. Eu era jovem e olhei para a chama dele, e agora estou velha e perdida. Ele era jovem, e sua chama saltou na minha direção, mas ele se afastou, e é jovem ainda. Velas se compadecem de mariposas?”

“Ou mariposas de velas, quando o vento as apaga?”, disse Finrod. “Adaneth, eu te digo, Aikanár, a Chama Afiada, te amava. Por tua causa ele jamais tomará a mão de qualquer noiva de sua própria gente, mas viverá sozinho até o fim, lembrando-se da manhã nos montes de Dorthonion. Mas cedo demais no Vento Norte a chama dele apagar-se-á! Previsão é dada aos Eldar em muitas coisas que não estão distantes, embora raramente de alegria, e digo a ti que viverás muito na medida de tua gente, e ele sairá diante de ti e não desejará retornar”.

Então Andreth se levantou e esticou suas mãos na direção do fogo. “Por que então ele se afastou? Por que deixar-me se eu ainda tinha alguns bons anos para gastar?”

“Ai de nós!”, disse Finrod. “Temo que a verdade não te irá satisfazer. Os Eldar são de uma maneira, e vós de outra; e cada um julga os outros por si mesmo – até que aprenda, o que poucos fazem. Este é um tempo de guerra, Andreth, e em tais dias os Elfos não se casam nem concebem criança, mas preparam-se para a morte – ou para a fuga. Aegnor não tem confiança alguma [nem eu tenho] que este cerco de Angband dure muito; e então o que será desta terra? Se seu coração o governasse, ele teria desejado tomar-te consigo e fugir para longe, para o leste ou o sul, abandonando sua gente, e a tua. Amor e lealdade o prendem à gente dele. E quanto a ti à tua? Tu mesma disseste que não há escapatória por fuga dentro dos limites do mundo”.

“Por um ano, um dia da chama, eu teria dado tudo: parentesco, juventude e a própria esperança; adaneth eu sou”, disse Andreth.

“Isso ele sabia”, disse Finrod; “e ele se retirou e não tomou aquilo que estava diante de sua mão: elda ele é. Pois tais barganhas são pagas em angústia que não pode ser imaginada até que venha, e em ignorância, e não em coragem, os Elfos crêem que elas são feitas”.

Não, adaneth, se algum casamento pode acontecer entre nossa gente e a tua, então será por algum alto propósito do Destino. Breve será e duro no fim. Sim, o fado menos cruel que poderia suceder-lhe seria que a morte logo o encerrasse”.

“Mas o fim é sempre cruel – para os Homens”, disse Andreth. “Eu não o teria importunado, quando minha curta juventude estivesse esgotada. Eu não teria me arrastado como um fardo atrás de seus pés brilhantes, quando eu não mais pudesse correr ao lado dele!”

“Talvez não”, disse Finrod. “Assim o sentes agora. Mas pensas nele? Ele não teria corrido diante de ti. Ele teria ficado a teu lado para te levantar. Então compaixão terias a toda hora, compaixão inescapável. Ele não consentiria em ver-te humilhada.

Andreth adaneth, a vida e o amor dos Eldar repousa muito na memória; e nós [se não vós] preferimos antes ter uma memória que é bela mas inacabada do que uma que continua até um fim triste. Agora ele sempre lembrar-se-á de ti no sol da manhã, e daquela última noite perto da água do Aeluin, na qual ele viu teu rosto espelhado com uma estrela presa entre teus cabelos – sempre, até que o Vento Norte traga a noite de sua chama. Sim, e depois disso, sentar-se na Casa de Mandos nos Salões da Espera até o fim de Arda”.

“E do que me lembrarei?”, disse ela. “E quando eu partir, para que salões irei? Para uma escuridão na qual mesmo a memória da chama afiada será apagada? Mesmo a memória da rejeição. Pelo menos essa”.

Finrod suspirou e se levantou. “Os Eldar não têm palavras de cura para tais pensamentos, adaneth”, disse. “Mas desejarias que Elfos e Homens jamais tivessem se encontrado? A luz da chama, que de outra forma nunca terias visto, não tem valor mesmo agora? Tu te acreditas desprezada? Afasta de ti ao menos esse pensamento, que vem da Escuridão, e então nossa conversa juntos não terá sido totalmente em vão. Adeus!”

A escuridão caiu sobre o aposento. Ele tomou a mão dela na luz do fogo. “Para onde ides?”, ela disse.

“Para o Norte”, ele disse: “para as espadas, e o cerco, e os muros de defesa – para que por ainda algum tempo em Beleriand os rios possam correr limpos, as folhas possam brotar e os pássaros possam construir seus ninhos, antes que a Noite venha.

“Ele estará lá, brilhante e alto, e o vento em seu cabelo? Dizei-lhe. Dizei-lhe para não ser descuidado. Para não buscar o perigo sem necessidade!”

“Direi isso a ele”, disse Finrod. “Mas poderia também dizer-te para não chorar. Ele é um guerreiro, Andreth, e um espírito de ira. Em cada golpe que dá ele vê o Inimigo que há muito te fez este ferimento.

Mas vós não sois de Arda. Para onde fordes, que possais encontrar luz. Espera por nós lá, a meu irmão – e a mim”.

Notas

[1] O sindarin athrabeth [athra = através, peth = palavra] corresponde exatamente ao grego diálogos; por isso optei pelo título “O Diálogo de Finrod e Andreth”. [N. do T.] [2] Isto seria por volta do ano 409 da Longa Paz [260-455]. Nesse época Belemir e Adanel eram idosos na medida dos Homens, tendo cerca de 70 anos de idade; mas Andreth estava na plenitude do vigor, ainda não tendo 50 [48]. Ela era solteira, como não era incomum entre as sábias humanas. [N. do A.] [3] No texto do Athrabeth, Tolkien faz a distinção [arcaica no inglês] entre o pronome de tratamento formal singular you e o pronome de tratamento familiar singular thou. Como essa distinção é relevante para o texto, optei por reproduzi-la utilizando respectivamente vós e tu em português, ainda que a princípio isso possa causar certa confusão com o pronome inglês ye [vós, plural]. [N. do T.] [4] Ele tinha 93 anos. [N. do A.] [5] No ano 310, cerca de 90 anos antes destes fatos. [N. do A.] [6] Erro de cronologia. Fingolfin só viria a morrer durante a Dagor Bragollach, quase cinqüenta anos depois desta conversa. [N. do T.] [7] É interessante o uso que Finrod faz do termo “o Morgoth”, colocando o artigo definido. Aparentemente isso é feito para salientar que Morgoth, “Inimigo Escuro”, é só o epíteto de Melkor, e não seu nome verdadeiro. [N. do T.] [8] O texto original tem endurance, “resistência”. Não me foi possível encontrar uma solução satisfatória que mantivesse o equivalente do original. [N. do T.] [9] Seekers, no original. Mais uma vez a tradução literal não funcionaria. [N. do T.] [10] Aqui Finrod muda para o pronome familiar ou afetivo tu [no original, thou]. O uso do tu e vós no texto em inglês é um tanto inconsistente, mas decidi mantê-lo até o final da narrativa. [N. do T.]

The History of Middle-earth V – The Lost Road and Other Writings

O leitor que deseja conhecer a fundo as origens da lenda de Númenor e de todas as histórias da Segunda Era da Terra-média terá uma fonte das mais importantes em The Lost Road and other writings (A Estrada Perdida e outros escritos), o quinto livro da série The History of Middle-earth.
 

A Estrada Perdida, texto que dá nome ao livro, é uma das obras mais originais de Tolkien, embora infelizmente incompleta. A idéia do livro surgiu das discussões literárias entre Tolkien e seu grande amigo C.S. Lewis, também professor em Oxford. Os dois combinaram que Lewis iria escrever uma história de viagem espacial, enquanto Tolkien escreveria um história de viagem no tempo.

No fim das contas, apenas Lewis conseguiu terminar e publicar seu livro, com o título Out of the Silent Planet, em 1937. É uma pena que Tolkien não tenha conseguido fazer o mesmo com A Estrada Perdida: a história, cheia de fortes elementos autobiográficos, tem como personagem principal Alboin Errol, um professor universitário com uma paixão pelas línguas do norte da Europa e que, em estranhos sonhos, ouvia fragmentos de idiomas desconhecidos: o eressëano (quenya) e o beleriândico (sindarin). Alboin e seu filho Audoin acabam transportados para Númenor, na pele de Elendil e seu filho Herendil (Isildur e Anárion ainda não haviam surgido), e têm que enfrentar a ameaça de Sauron.

The Lost Road traz também as mais antigas versões das histórias da Segunda Era, como o relato do surgimento e queda de Númenor e da fundação dos reinos numenoreanos na Terra-média. Para citar apenas uma das diferenças nessas versões antigas, Gil-galad era a princípio descendente de Fëanor!

Para os interessados na evolução das línguas élficas, The Lost Road encerra dois tesouros. Em primeiro lugar, as Etimologias, uma lista com centenas de raízes élficas primitivas, seus significados e as palavras derivadas delas existentes em quenya, noldorin (o ancestral do sindarin) e outros línguas élficas. Em segundo lugar, o Lhammas ou "Relato das Línguas", em que as características e parentesco das línguas élficas, como eram imaginadas nesse momento (por volta de 1937), eram concebidas.

Finalmente, The Lost Road também apresenta o Quenta Silmarillion de 1937, novas versões dos Anais de Valinor, Anais de Beleriand e do Ainulindalë, bem como o mapa de Beleriand que serviu de base para os mapas publicados em O Silmarillion.

Conteúdo do Livro

The Fall of Númenor O início do conto de Númenor em várias versões. 1936 – 1937

The Lost Road Um novela viagem no tempo com capítulos sobre Númenor, Scyld e AElfwine. Fragmentado e nunca concluído. Poemas incluem "Ilu Ilúvatar", "King Sheave", "The Nameless Land" e "The Song of Aelfwine". 1936 – 1937

The Later Annals of Valinor Anais de Valinor e outro local desde o início das coisas até o nascimento do Sol. Não muda muito de "The Earliest Annals of Valinor". Meados/final de 1930

The Later Annals of Beleriand Anais dos eventos em Beleriand até a Grande Batalha e a destruição de Beleriand. Muito mais completo e terminado que "The Earliest Annals of Beleriand". Meados/final de 1930

Ainulindalë O mito cosmológico. Segue o "The Lost Tales", mas foi completamente reescrito. Meados/final de 1930

The Lhammas Um texto sobre as línguas Élficas (e algumas outras) e seus inter-ralacionamentos.

Quenta Silmarillion Termina com Turin virando um fora-da-lei, mas inclui o final da chegada de Eärendel em Valinor e a Grande Batalha. Depois deste foi escrito o "History of the Elder Days" que permaneceu esquecido por muito tempo. Final de 1930, revisado em 1937-1938.

The Etymologies Um dicionário etimológico do Élfico. Meados de 1930, grandes revisões em 1938

The Genealogies Árvores genealógicas dos príncipes Élficos e das três casas dos Pais dos Homens e uma tabela de divisões do Quendi. Início de 1930.

The List of Names Origens e definições dos nomes encontrados no "Annals of Beleriand" e "Genealogies". 1930

The Second Silmarillion Map Mapa final de Beleriand, no qual o mapa publicado foi baseado. Impresso como originalmente foi desenhado e escrito.

The History of Middle-earth IV – The Shaping of Middle-earth

The Shaping of Middle-earth (A Formação da Terra-média), quarto livro da série The History of Middle-earth, revela aos leitores uma fase fundamental da evolução da mitologia tolkieniana. Com efeito, é nos textos desse livro, escritos em geral no decorrer dos anos 30, que o ciclo de lendas que hoje conhecemos como parte de O Silmarillion assumiu, em linhas gerais, a forma atual.

 

Um dos primeiros textos a ser apresentado é o chamado "Rascunho da mitologia", um esboço feito por Tolkien de seu projeto para transformar e completar as histórias dos Lost Tales. Baseando-se nesse esboço, Tolkien escreveu, em 1930, o Quenta Noldorinwa ou "A História dos Noldoli", a única versão das lendas dos Dias Antigos que chegou a ser efetivamente completada. Para se ter uma idéia, a versão da queda de Gondolin publicada em O Silmarillion foi fortemente baseada no relato do Quenta Noldorinwa.

Ao mesmo tempo, é nessa versão que povos e personagens importantes ganham um caráter mais definido, e outros fazem sua primeira aparição, como a Casa de Haleth (que era chamado de Haleth, o Caçador – pasmem, Haleth era um homem!). O Quenta Noldorinwa se encerra com a misteriosa Segunda Profecia de Mandos, na qual é pressagiado o Final dos Tempos.

Outros textos muito interessantes também integram The Shaping of Middle-earth: um dos melhores é o Ambarkanta ou "A Forma do Mundo", uma bela descrição cosmológica que mostra como Tolkien concebia a estrutura de seu mundo nesse momento.

Muito interessantes são também os Anais de Valinor e os Anais de Beleriand, que dão uma estrutura cronológica aos acontecimentos do Quenta. Um fato curioso é que, nesse estágio da mitologia, Tolkien havia definido um período muito curto, de cerca de 200 anos, entre a chegada dos Noldoli (Noldor) e o fim do Cerco de Angband. The Shaping of Middle-earth contém também o primeiro mapa detalhado de Beleriand desenhado por Tolkien.

Conteúdo do Livro

Prose fragments following the Lost Tales Três breves textos sobre Tuor e Gondolin e sobre a partida dos Noldor de Aman e sua chegada na Terra-média. 1920

The Earliest Silmarillion (The Sketch of the Mitology) Uma sinopse breve e condensada da mitologia escrita para acompanhar "The Lay of the Children of Húrin". 1926

The Quenta [Noldorinwa] Um versão retrabalhada e expandida do "Sketch". Inclui o poema "The Horns of Ylmir". Também inclui "AElfwines translation of the Quenta into Old English". c. 1930

The First Silmarillion Map Mapa de trabalho por muitos anos, foi muito trabalhado e alterado. 1926

The Ambarkanta Um pequeno tratado sobre a forma do munedo, acompanhado de mapsa. Meados dos anos 1930.

The Earliest Annals of Valinor
Anais dos eventos de Valinor e outro local do começo das coisas até a chegada dos Noldor na Terra-média. Inclui "AElfwines translation of the Annals of Valinor into Old English". 1930

The Earliest Annals of Beleriand Anais dos eventos de Beleriand desde o surgimento do Sol e da Lua até a grande batalha contra Morgoth. Inclui "AElfwines translation of the Annals of Beleriand into Old English". 1930

Mitos Transfomados – Parte VIII – Orcs!!!

Sua natureza e origem requerem mais reflexão ((Este texto corresponde ao Mitos Transformados, partes VIII a X, publicado no The History of Middle Earth 10  – maiores detalhes aqui )). Elas não são fáceis de se trabalhar na sua teoria e o seu sistema.
[1] Como o caso de Aulë e os Anões mostra, somente Eru poderia fazer criaturas com vontades independentes, e com capacidade de raciocínio. Mas os orcs parecem ter ambas: eles podem tentar enganar Morgoth/Sauron, rebelar-se contra ele, ou criticá-lo.
[2] Entretanto, eles devem ser corrupções de alguma coisa pré-existente.

[3] Mas os homens não haviam aparecido ainda, quando os orcs já existiam. Aulë construiu os anões de sua memória da Música; mas Eru não sancionaria o trabalho de Melkor a fim de permitir a independência dos orcs. [A não ser que os orcs fossem ao final remediáveis, ou pudessem ser corrigidos e “salvos”?]

Também parece claro que embora Melkor pudesse corromper e arruinar indivíduos completamente, não é possível contemplar sua perversão absoluta de um povo inteiro, ou grupo de pessoas, e sua criação que afirma hereditariedade [Adicionado posteriormente: Este último deve[se um fato] ser um ato de Eru].

Neste caso os elfos, como uma fonte, são muito improváveis. E os orcs são “imortais” no sentido élfico? Ou os trolls? Parece claramente implícito no Senhor dos Anéis que os trolls existiam no seu próprio direito, mas foram “consertados” por Melkor.

[4] E o que dizer de feras falantes e pássaros com raciocínio e linguagem? Estes têm sido adotados levianamente por mitologias menos “sérias”, mas representam um papel que agora não pode ser cortado. Eles são certamente “exceções” e não muito usados, mas suficientemente para mostrar que eles são uma faceta reconhecida do mundo. Todas as criaturas aceitam-os como naturais, se não comuns. Mas criaturas “racionais” verdadeiras, “povos falantes”, são todas de forma humana/”humanóide”. Somente os Valar e Maiar são inteligências que podem assumir formas de Arda à vontade. Huan e Sorontar poderiam ser Maiar – emissários de Manwë. Mas, infelizmente, no Senhor dos Anéis é dito que Gwaehir e Landroval são descendentes de Sorontar [Thorondor].

Em qualquer caso, é provável ou possível que mesmo os menores dos Maiar tornariam-se orcs? Sim: tanto fora de Arda como dentro dela, antes da queda de Utumno. Melkor corrompeu muitos espíritos – alguns grandes, como Sauron, ou menores, como balrogs. Os menores poderiam ter sido primitivos [e muito mais poderosos e perigosos] orcs; mas, por procriar quando encarnados, eles [como Melian][tornariam-se] cada vez mais ligados à terra, incapazes de retornar ao estado de espírito [mesmo forma demoníaca], até serem libertados pela morte [assassinato], e eles definhariam em força. Quando libertados eles seriam, claro, como Sauron, “condenados”: isto é, reduzidos à impotência, infinitamente recessiva: ainda odiando, mas incapazes cada vez mais de fazê-lo fisicamente eficaz. [ou não seria o estado órquico muito definhado de morte um poltergeist?]

Mas novamente – Eru proveria fëa [espírito] a tais criaturas? Para as águias etc., talvez. Mas não para os orcs.

Entretanto, parece melhor ver o poder de corrupção de Melkor como sempre começando, pelo menos, no nível moral ou teológico. Qualquer criatura que o tomou por Senhor [e especialmente aquelas que blasfemamente chamaram-o de Pai ou Criador] logo tornou-se corrompida em todas as partes de seu ser, o fëa arrastando o hröa [corpo] em sua queda ao Morgothismo: ódio e destruição. Como para os elfos serem “imortais”: eles, na verdade, possuiam vidas excepcionalmente longas, e foram “cansando-se” fisicamente, e sofrendo um enfraquecimento lento e progressivo de seus corpos.

Em resumo: eu acho que deve-se assumir que “falar” não é necessáriamente o sinal da posse de uma “alma racional” ou fëa. Os orcs eram bestas de forma humanizada [para zombar de homens e elfos] deliberadamente pervertidos/convertidos em uma semelhança mais próxima dos homens. Sua “fala” era na verdade “gravações” recitadas, colocadas neles por Melkor. Melkor ensinou-lhes a fala e ao reproduzirem-se, eles herdaram isto; e eles tinham tanta independência como têm cães ou cavalos de seus mestres humanos. Sua fala era largamente ecoada [como papagaios]. No Senhor dos Anéis é dito que Sauron inventou uma linguagem para eles.

O mesmo tipo de coisa pode ser dito de Huan e as águias: eles aprenderam uma linguagem à partir dos Valar – e elevaram-na a um nível superior – mas eles ainda não tinham fëa. Mas Finrod provavelmente foi muito longe na sua afirmação de que Melkor não poderia corromper completamente qualquer obra de Eru, ou que Eru [necessariamente] interferiria para anular a corrupção ou para cessar a existência de Suas próprias criaturas, pois elas teriam sido corrompidas e voltadas para o mal.

Permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem élfica nos orcs. Estes podem então ter sido cruzados com feras [estéreis!] – e posteriormente homens. Seu tempo de vida seria diminuído. E morrendo eles iriam para Mandos e mantidos aprisionados até o Fim.

…as vontades dos orcs e balrogs etc., são parte do poder de Melkor “dispersado”. O espírito deles é de ódio. Mas o ódio é não-cooperativo [exceto sob medo direto]. Daí as rebeliões, motins, etc., quando Morgoth parecia estar distante. Orcs são feras e balrogs Maiar corrompidos. Também, Morgoth, não Sauron, é a fonte das vontades dos orcs. Sauron é apenas outro [senão maior] agente. Orcs podem rebelar-se contra ele sem perder sua própria fidelidade irremediável ao mal [Morgoth]. Aulë queria amor. Mas, claro, não pensava em dispersar seu poder. Apenas Eru pode dar amor e independência. Se um sub-criador finito tenta fazer isto, ele na verdade quer ardorosa obediência absoluta, mas ela vira servidão robótica e torna-se mal.

Isto sugere – embora não seja explícito – que os “orcs” eram de origem élfica. Sua origem é tratada mais claramente em outro lugar. Um ponto apenas é certo: Melkor não poderia “criar criaturas” vivas de vontades independentes.

Ele [e todos os “espíritos” dos “Criados–primeiro”, conforme seus limites] poderia assumir formas corpóreas; e ele [e eles] poderia dominar as mentes de outras criaturas, incluíndo elfos e homens, pela força, medo, ou por engôdos, ou por pura magnificência. Os elfos de épocas remotas inventaram e usaram uma palavra ou palavras com uma base [o]rok para indicar qualquer coisa que causasse medo e/ou terror. Isto teria sido originalmente aplicado a “fantasmas” [espíritos assumindo formas visíveis] tão bem quanto a quaisquer criaturas existindo independentemente. Sua aplicação [em todas as línguas élficas] especificamente às criaturas chamadas orcs – assim devo escrevê-la no Silmarillion – foi posterior.

Uma vez que Melkor não poderia “criar” espécies independentes, mas tinha imensos poderes de corrupção e distorção daquelas que caíam em seu poder, é provável que estes orcs tivessem uma origem mista. A maioria deles claramente [e biologicamente] eram corrupções de elfos [e, posteriormente, de homens provavelmente também]. Mas sempre entre eles [como servos especiais e espiões de Melkor, e como líderes] deviam haver numerosos espíritos menores corrompidos que assumiram formas corpóreas semelhantes. [Estes apresentariam personalidades aterrorizantes e demoníacas]

Os elfos teriam classificado as criaturas chamadas “trolls” [no Hobbit e Senhor dos Anéis] como orcs – em personalidade e origem – mas eles eram maiores e mais lentos. Pareceria evidente que os orcs eram corrupções de tipos humanos primitivos.

A origem dos orcs é matéria de debate. Alguns chamavam-os de Melkorohíni, os Filhos de Melkor; mas os mais sábios diziam: não, os escravos de Melkor,  mas não seus filhos; pois Melkor não tinha filhos. De qualquer modo, foi pela malícia de Melkor que os orcs surgiram, e eles foram claramente pretendidos por ele para serem um escárnio dos Filhos de Eru, sendo criados para serem completamente subservientes à sua vontade e cheios de ódio implacável por elfos e homens.

Ora, os orcs das guerras posteriores, depois da fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-média, não eram “espíritos”, nem fantasmas, mas criaturas vivas, capazes de falar e de algumas habilidades e organização; ou pelo menos capazes de aprender estas coisas de criaturas superiores e de seu mestre. Eles procriavam e multiplicavam-se rapidamente, sempre quando deixados imperturbados. Até onde pode-se compilar das lendas que chegaram até nossos dias de antigamente, parece que os Quendi não haviam encontrado nenhum orc desse tipo antes da chegada de Oromë a Cuiviénen.

Aqueles que acreditam que os orcs surgiram de alguma espécie de homens, capturados e pervertidos por Melkor, afirmam que era impossível para os Quendi terem conhecido os orcs antes da Separação e da partida dos Eldar. Pois embora o momento do despertar dos homens não fosse conhecido, mesmo os cálculos dos mestres de tradição que determinavam-no o mais próximo possível, não designaram uma data antes da Grande Marcha começar, certamente não uma suficiente para permitir a corrupção dos homens em orcs. Por outro lado, é evidente que logo após seu retorno, Morgoth tinha sob seu comando um grande número dessas criaturas, com as quais ele começara a atacar os elfos. Havia ainda menos tempo entre o seu retorno e esses ataques para a procriação dos orcs e para a transferência de seus exércitos para o oeste.

Esta visão da origem dos orcs depara-se com dificuldades de cronologia. Mas, embora os homens possam encontrar conforto nisto, a teoria permanece de qualquer modo a mais provável. Ela concorda com tudo que é sabido sobre Morgoth, e da natureza e comportamento dos orcs – e dos homens. Melkor era impotente para produzir qualquer coisa viva, mas hábil na corrupção de coisas que não originaram-se dele, se pudesse dominá-las. Mas se ele tivesse de fato tentado fazer criaturas por sua própria conta em imitação ou zombaria dos Encarnados, ele teria, como Aulë, sido apenas bem sucedido em produzir fantoches: suas criaturas teriam agido apenas enquanto a atenção de sua vontade estivesse sobre elas, e elas não teriam mostrado relutância em executar qualquer comando seu, ainda que fosse para destruírem a si mesmas.

Mas os orcs não eram desse tipo. Eles eram certamente dominados pelo seu mestre, mas sua dominação era por medo, e eles estavam cientes desse medo e o odiavam. Eles eram de fato tão corruptos que eram impiedosos, e não havia crueldade ou perversão que eles não cometessem; mas esta foi a corrupção de suas vontades independentes, e eles tinham satisfação nos seus atos. Eles eram capazes de agir por si próprios, cometendo atos malignos para seu próprio divertimento; ou se Morgoth e seus agentes estivessem distantes, eles poderiam negligenciar seus comandos. Eles às vezes lutavam entre si, para o detrimento dos planos de Morgoth.

Além disso, os orcs continuaram a viver e se reproduzir, e prosseguiram no seu trabalho de destruição e pilhagem após Morgoth ter sido destronado. Eles também possuiam outras características dos Encarnados. Eles tinham linguagens próprias, e falavam entre si várias línguas de acordo com as diferenças de linhagem que eram discerníveis entre eles. Eles precisavam de comida e bebida, e descanso, embora muitos fossem treinados tão duros como os anões para suportar as adversidades. Eles podiam ser mortos, e eram alvos de doenças; mas à parte desses males, eles morriam e não eram imortais, mesmo de acordo com o modo dos Quendi; de fato, eles pareciam ter por natureza vidas curtas comparadas com a longevidade dos homens de raças superiores, tais como os Edain.

Este último ponto não era bem compreendido nos Dias Antigos. Pois Morgoth possuía muitos servos, dos quais os mais velhos e mais potentes eram imortais, pertencendo de fato, no seu início, aos Maiar; e estes espíritos malígnos, como seu mestre, podiam tomar formas visíveis. Aqueles cujo trabalho era comandar os orcs frequentemente tomavam formas órquicas, porém eram maiores e mais terríveis. Assim as histórias falavam de Grandes Orcs ou capitães-orcs que não eram mortos, e que reapareciam em batalha através dos anos muito mais longos que os períodos das vidas dos homens.

Finalmente, há um ponto irrefutável, embora horrível de se relatar. Tornou-se claro com o tempo que indubitavelmente os homens podiam, em poucas gerações, sob a dominação de Morgoth ou de seus agentes, ser reduzidos quase ao nível órquico em mente e hábitos; e então eles estariam, ou poderiam estar, prontos para cruzar com orcs, produzindo novas linhagens, frequentemente maiores e mais astutas. Não há dúvida de que muito mais tarde, na Terceira Era, Saruman redescobriu isto, ou aprendeu sobre isto em estudo, e em sua sede pela supremacia, praticou isto, seu ato mais maligno: o cruzamento de orcs e homens, produzindo tanto homens-orc, grandes e astutos, como orcs-homens, traiçoeiros e desprezíveis.

Mas mesmo antes dessa perversão de que Morgoth era suspeito, os sábios nos Dias Antigos sempre ensinaram que os orcs não foram feitos por Melkor e, portanto, não eram malignos na sua origem. Eles podiam ter se tornado irredimíveis [pelo menos por elfos e homens], mas eles continuavam dentro da Lei. Isto é, que embora sendo necessário [sendo os dedos da mão de Morgoth] serem enfrentados com a maior severidade, eles não deveriam ser tratados com os seus próprios termos de crueldade e traição. Cativos, não deviam ser atormentados, nem mesmo para descobrir informações para a defesa das casas de elfos e homens. Se quaisquer orcs se rendessem e clamassem por misericórdia, ela seria concedida, a qualquer preço. Este era o ensinamento dos sábios, embora no horror da guerra isto não fosse sempre considerado.

É verdade, claro, que Morgoth mantinha os orcs em horrenda escravidão; pois em sua corrupção, eles haviam perdido quase toda a possibilidade de resistir à dominação de sua vontade. De fato, tão grande era a sua pressão sobre eles que, antes de Angband cair, se direcionasse seu pensamento na direção deles, eles ficariam conscientes de seu “olho” onde quer que estivessem; e quando Morgoth finalmente foi removido de Arda, os orcs que sobreviveram no oeste se dispersaram, sem liderança e quase sem sagacidade, e estiveram por um longo tempo sem controle ou propósito.

Esta servidão à uma vontade central que reduziu os orcs a uma vida quase como a de formigas, foi vista mais claramente na Segunda e Terceira Eras sob a tirania de Sauron, tenente-comandante de Morgoth. Sauron realmente alcançou maior controle sobre seus orcs do que Morgoth jamais havia conseguido. Ele estava, claro, operando em uma escala menor, e ele não tinha inimigos tão grandes e tão ferozes como os noldor no auge de seu poder nos Dias Antigos. Mas ele também herdou destes dias dificuldades, tais como a diversidade de orcs em linguagem e linhagem, e as hostilidades entre eles; enquanto em muitos lugares da Terra-média, após a queda das Thangorodrim e durante a ocultação de Sauron, os orcs, recuperando-se de sua impotência, ergueram pequenos reinos por si próprios e tornaram-se acostumados à independência. Mas Sauron conseguiu em tempo unir a todos em ódio irracional a elfos e aos homens que associaram-se a eles; enquanto que os orcs de seus próprios exércitos treinados estavam tão completamente sob sua vontade que sacrificariam a si mesmos, sem hesitação, ao seu comando.

[Mas havia uma falha no seu controle, inevitável. No reino do ódio e do medo, a coisa mais forte é o ódio. Todos os seus orcs odiavam-se uns aos outros, e precisavam ser mantidos sempre em guerra contra algum “inimigo” para evitar que se matassem entre si] E ele mostrou-se também mais habilidoso do que seu mestre na corrupção dos homens que estavam além do alcance dos sábios, e em reduzí-los à vassalagem, na qual eles marchariam com os orcs, e rivalizariam com eles em crueldade e destruição.

É dessa maneira que provavelmente devemos olhar para Sauron para encontrar uma solução do problema da cronologia. Embora de poder natural imensamente menor do que seu mestre, ele permaneceu menos corrupto, mais audacioso e mais apto à prudência. Pelo menos nos Dias Antigos, e antes de ser privado de seu senhor e cair na insensatez de imitá-lo, e esforçando-se para tornar-se Senhor Supremo da Terra-média. Enquanto Morgoth ainda governava, Sauron não procurou sua própria supremacia, mas trabalhou e planejou para outro, desejando o triunfo de Melkor, que no início ele venerava. Ele, assim, foi frequentemente capaz de concluir coisas, primeiramente concebidas por Melkor, que seu mestre não completou ou não podia completar na pressa furiosa de sua malícia.

Podemos supor, então, que a idéia do cruzamento de orcs partiu de Melkor, a princípio talvez não tanto pela provisão de servos ou da infantaria de suas guerras de destruição, como pela profanação dos Filhos e escárnio blasfemo dos desígnios de Eru. Os detalhes da realização dessa depravação foram, entretanto, deixados principalmente às sutilezas de Sauron. Neste caso, a concepção [em pensamento] dos orcs deve ter surgido há muito tempo, na noite do pensamento de Melkor, embora o início da sua atual reprodução devesse esperar pelo despertar dos homens.

Quando Melkor foi feito prisioneiro, Sauron escapou e permaneceu escondido na Terra-média; e desse modo pode ser compreendido como a reprodução dos orcs [sem dúvida já iniciada] continuou com velocidade crescente durante a era em que os noldor habitavam Aman; então quando retornaram à Terra-média, econtraram-na já infestada por esta praga, para o tormento de todos que lá habitavam, elfos, homens ou anões. Foi Sauron, também, que secretamente reparou Angband para o auxílio de seu mestre quando este retornasse; e lá, os escuros lugares subterrâneos já estavam guarnecidos com exércitos de orcs antes de Melkor por fim voltar, como Morgoth, o Sinistro Inimigo, e os enviou para trazer ruína a tudo que era belo. E embora Angband tenha caído e Morgoth tenha sido removido, eles ainda saem dos lugares sem luz na escuridão de seus corações, e a terra é destruída sob seus pés impiedosos.

History of Middle-earth IX – Sauron Defeated

"Sauron Defeated" ou "Sauron Derrotado", o nono livro da monumental série History, recebeu esse título um tanto genérico meio por falta de opção, admite Christopher Tolkien. É que a obra teve de reunir material um tanto díspar, que vai desde a continuação da história textual de "O Senhor dos Anéis" até um romance (abortado) de viagem no tempo, altamente experimental. A diversidade de temas e estilos mostra que, além de genial, Tolkien podia ser muito versátil, enveredando inclusive pela ficção científica tradicional.
 

O início do livro fecha o desenvolvimento de "O Senhor dos Anéis" com as versões preliminares dos capítulos que hoje compõem o Livro VI da Saga do Anel. Alguns detalhes interessantes são a aparição do velho Ghân-buri-Ghân para a coroação de Aragorn e o papel ativo e guerreiro que Frodo, inicialmente, teve durante o Expurgo do Condado.

Mas emocionante mesmo é o Epílogo do livro (que acabou sendo retirado da edição final) em que Sam, já mais velho e rodeado de seus filhos, conta aos pequenos sobre o destino final dos companheiros da Sociedade do Anel e da visita do rei Elessar ao Condado. Abraçado com Rosinha, Sam contempla o céu estrelado da Terra-média e volta para o aconchego do Bolsão, não sem antes ouvir ao longe o barulho do Mar – um prelúdio de sua partida para as Terras Imortais. Como guloseima para os que se interessam pelas línguas élficas, a Carta do Rei no original sindarin também está disponível.

O tom muda bastante na segunda parte do livro, voltando-se para a história de Númenor. É quando surgem os "The Notion Club Papers" (As Palestras do Clube Notion), um romance ousado e infelizmente inacabado no qual Tolkien retoma o antigo "The Lost Road": um grupo de eruditos de Oxford, que se reúne durante os anos 80 do século XX (logo, no que era o futuro para Tolkien), discute as possibilidades da viagem espacial e temporal e acaba redescobrindo o mundo perdido da Segunda Era e da ameaça de Sauron sobre Númenor.

Finalmente, a terceira parte traça a evolução do texto "The Drowning of Anadûnê", uma das principais fontes para o Akallabêth, a Queda de Númenor. Como bônus, temos o início de uma gramática histórica do adûnaico, o idioma numenoreano, feita por um dos membros do Clube Notion – que termina, infelizmente, antes de chegar ao verbo.

Dos Anões e Homens

Importante texto da série HoME que trata dos Anões, seus clãs, suas alianças com os Homens e também relata sobre os Homens do Norte.
[Christopher Tolkien:Este longo ensaio não possui título, mas em uma página de rosto meu pai escreveu:

“Uma história e comentário extenso sobre a inter-relação das linguagens em O Silmarillion e em O Senhor dos Anéis, originadas de considerações sobre o Livro de Mazarbul, mas tentando clarificar e onde necessário corrigir ou explicar as referências a tais assuntos espalhadaos por O Senhor dos Anéis, especialmente no Apêndice F e na Fala de Faramir no SdA II”

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Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português