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Os Anais de Aman – Segunda Seção

The History of Middle-earth XA Valinor tem a honra de prosseguir com a publicação da tradução dos Anais de Aman, um longo registro dos acontecimentos desde a criação de Arda até a Criação do Sol e da Lua. O texto está dividido em seis partes, publicadas quinzenalmente na Valinor (a primeira se encontra aqui) e esta segunda parte engloba o período dos Anos das Árvores até o Acorrentamento de Melkor.
 
 
 
Aqui começa um novo Registro sob a Luz das Árvores
1*

$30    Por mil anos das Árvores os Valar residiram em felicidade em Valinor além das Montanhas de Aman, e toda a Terra-média estava em um crepúsculo sob as estrelas. Para lá raramente os Valar iam, exceto apenas Yavanna e Oromë, e Yavanna freqüentemente lá andava, nas sombras, lamentando porque todo o crescimento e expectativas da Primeira de Arda foram interrompidos. E ela adormeceu muitas coisas belas que surgiram durante a Primavera, tanto árvore e erva e besta e pássaro, de forma que não envelheceriam mais e aguardariam por um tempo de acordar que ainda estava por vir. Mas Melkor residia em Utumno, e não dormia, mas observava e trabalhava; e as coisas malignas que ele pervertera andavam livremente, e as escuras e dormentes florestas eram assombradas por monstros e formas aterradoras. E em Utumno ele moldou a raça de demônios que os Elfos nomeariam Balrogs. Mas estes ainda não saíam dos portões de Utumno, devido à vigilância de Oromë.

$31    Oromë amava profundamente todas as obras de Yavanna, e ele estava sempre pronto para seu chamado. E por esta razão, e porque ele de vez em quando desejava cavalgar em florestas maiores e mais extensas do que as de Valinor, ele também ia com freqüência para a Terra-média, e lá partia em caçadas sob as estrelas. Então seu cavalo branco, Nahar, brilhava como prata nas sombras; e a terra adormecida tremida sob as batidas de seus cascos dourados. E Oromë soprava seu poderoso chifre, ao som do qual as montanhas tremiam, e as coisas malignas fugiam; e Melkor se acuava em Utumno e não ousava sair. Pois é dito que ao mesmo tempo que sua malícia e a força de seu ódio aumentavam, seu coração diminuía; e com todo seu conhecimento e seu poder e seus muitos servos ele se tornou covarde, dando combate apenas àqueles de pouca força, atormentando os fracos e deixando sempre que seus escravos e criaturas fizessem seu trabalho maligno. Mesmo assim seu domínio espalhou-se para o sul sobre a Terra-média, pois após Oromë passar os servos de Melkor se reuniam novamente; e a Terra estava cheia de sombras e mentiras.

(* A lápis abaixo de "1" está "AA" (Anos das Árvores) e também "AV 3501" (Ano dos Valar). – As datas "AA" foram freqüentemente alteradas no manuscrito, e em alguns lugares é bastante difícil interpretar as mudanças; eu forneço apenas as formas finais.)

1000

$32    Veio a acontecer que os Valar realizaram um conselho, pois ficaram preocupados com as informações que Yavanna e Oromë trouxeram das Terras de Fora. E Yavanna falou ante os Valar, e predisse que a chegada dos Filhos de Ilúvatar estava se aproximando, embora a exata hora e local de suas chegadas fossem conhecidas apenas do próprio Ilúvatar. E Yavanna pediu a Manwë para fornecer luz à Terra-média, para parar os males de Melkor e confortar os Filhos; e Oromë e Tulkas falaram da mesma forma, estando ávidos por guerra com Utumno.

$33    Mas Mandos falou e disse que embora a Chegada estivesse preparada ela ainda não aconteceria por muitos Anos; e os Filhos Mais Velhos deveriam vir na escuridão e olhar primeiro para as Estrelas. Por assim fora ordenado.

$34    Então Varda se retirou do conselho, e das alturas de Taniquetil olhou para longe, e contemplou a escuridão da Terra sob as estrelas inumeráveis, fracas e distantes. Então ela começou um grande trabalho, o maior de todos os trabalhos dos Valar desde sua vinda a Arda.

1000 – 1050

$35    Então Varda pegou a luz que saía de Telperion e estava armazenada em Valinor e fez estrelas novas e mais brilhantes. E muitas das estrelas antigas ela reuniu e colocou como sinais nos céus de Arda. O maior destes era Menelmakar, o Guerreiro do Céu. Este, é dito, era um sinal de Túrin Turambar, que deveria vir ao mundo, e uma previsão da Última Batalha que deverá ocorrer ao fim dos Dias.

1050

$36    Por último Varda fez o sinal de estrelas brilhantes que é chamado de Valakirka, a Foice dos Deuses, e este ela colocou próximo ao Norte como uma ameaça a Utumno e um sinal do destino de Melkor.

$37    Naquela hora, é dito, os Quendi, os Filhos Mais Velhos de Ilúvatar, despertaram: a estes os Homens chamaram de Elfos, e muitos outros nomes. Nas Águas do Despertar, Kuiviénen, ele se levantaram do sono de Ilúvatar e seus olhos viram antes de qualquer outra coisa as estrelas do céu. Devido a isso eles sempre amaram a luz das estrelas, e reverenciaram Varda Elentárië acima de todos os Valar.

$38    Nas mudanças do mundo as formas das terras e dos mares foram quebradas e refeitas; rios não mantiveram seus cursos, nem montanhas permaneceram imóveis; e para Kuiviénen não há retorno. Mas é dito entre os Quendi que ele fica distante na Terra-média, a leste de Endon (que é o ponto central) e ao norte; e era uma baía no Mar Interno de Helkar. E que esse mar ficava onde antes ficavam as raízes da montanha de Illuin antes de Melkor derrubá-la. Muitas águas corriam ali a partir das alturas do Leste, e o primeiro som que foi ouvido pelos Elfos foi o som da água correndo, e o som da água batendo na rocha.

$39    Por longo tempo os Quendi residiram em seu primeiro lar à água sob as estrelas e andavam pela Terra maravilhados; e eles começaram a criar uma língua e dar nomes a todas as coisas que percebiam. E nomearam a si mesmos os Quendi, significando aqueles que falam com vozes; pois ainda não tinham encontrado outros seres vivos que falassem ou cantassem.

$40    A este tempo também, é dito, Melian, a mais bela dos Maiar, desejando olhar as estrelas, subiu ao Taniquetil; e repentinamente ela desejou ver a Terra-média, e deixou Valinor e caminhou ao crepúsculo.

1085

$41    E quando os Elfos já habitavam o mundo por trinta e cinco Anos dos Valar (que é como trezentos e trinta e cinco de nossos anos) aconteceu que por acaso chance que Oromë cavalgou até Endon em sua caçada, e virou para o norte no litoral de Helkar e passou sob as sombras das Orokarni, as Montanhas do Leste. E repentinamente Nahar soltou um grande relincho e estancou. E Oromë se surpreendeu e permaneceu em silêncio, e pareceu a ele que na quietude da terra sob as estrelas ele ouvia ao longe o som de muitas vozes cantando.

$42    Então foi quando os Valar finalmente encontraram, como se fosse por acaso, aqueles a quem por tanto tempo esperavam. E quando Oromë olhou para eles se maravilhou, como se eles fossem coisas imprevistas ou inimaginadas; e ele amou os Quendi, e os nomeou Eldar, o povo das estrelas.

A página do manuscrito original foi interpolada neste ponto, um trecho sendo escrito na margem, como segue:

Mas por conhecimento posterior os mestres de conhecimento dizem que infelizmente Orome não foi, possivelmente, o primeiro dos Grandes a encontrar os Elfos, pois Melkor estava vigiando, e seus espiões eram muitos. E acredita-se que se escondendo furtivamente nas próximidades seus servos desviaram alguns dos Quendi que se aventuraram mais longe, e os levaram como cativos para Utumno, e lá os escravizaram. Destes escravos é dito terem vindo os Orkor que se tornaram os principais inimigos dos Eldar. E as mentiras de Melkor rapidamente estavam espalhadas, de forma que sussurros eram ouvidos entre os Quendi, alertando-os que se algum de sua raça sumisse nas sombras e não fosse mais visto, deveriam tomar cuidado com um cavaleiro sinistro em um grande cavalo, pois era este que os capturava para devorá-los. Foi por esta razão que, com a aproximação de Oromë, muitos dos Quendi fugiram e se esconderam.

O texto original então continua, com uma nova data 1086, "Rapidamente Oromë cavalgou de volta a Valinor e levou as novidades aos Valar" (ver $46 abaixo). Mas o trecho passagem interpolada citado acima foi subseqüentemente substituído em uma nova página pela seguinte passagem longa e importante $$43-5 (encontrada no texto datilografado original):

$43    Contudo muitos dos Quendi ficaram aterrorizados à sua chegada. Isto foi feito por Melkor. Pois por conhecimento posterior os mestres de conhecimento dizem que Melkor, sempre vigilante, soube do acordar dos Quendi primeiro, e enviou sombras e espíritos malignos para vigiá-los e emboscá-los. Então veio a acontecer, alguns anos antes da chegada de Oromë, que se qualquer um dos Elfos vagasse mais longe, sozinho ou em grupo pequeno, freqüentemente sumiam e nunca retornavam; e os Quendi diziam que o Caçador os pegara, e ficavam com medo. Contudo, nas mais antigas canções de nosso povo, das quais alguns ecos ainda são lembrados no Oeste, nós ouvimos das formas de sombra que andavam nas colinas de Kuiviénen, ou que passavam repentinamente em frente às estrelas; e do Cavaleiro negro em seu cavalo selvagem que perseguia aqueles que vagavam para capturá-los e devorá-los. Pois Melkor odiava e temia grandemente as cavalgadas de Oromë, e certamente ou enviava seus servos negros como cavaleiros, ou espalhava rumores mentirosos, com o propósito de que os Quendi deveriam evitar Oromë, se porventura se encontrassem.

$44    Por isso aconteceu que, quando Nahar relinchou e Oromë de fato veio entre eles, alguns dos Quendi se esconderam, e alguns fugiram e se perderam. Mas aqueles que tiveram a coragem de permanecer perceberam rapidamente que o Grande Cavaleiro era nobre e belo e não uma sombra da Escuridão; pois a Luz de Aman estava em sua face, e todos os mais nobres dos Quendi foram atraídos em sua direção.

$45    E daqueles dignos de piedade que foram capturados por Melkor pouco é sabido com certeza. Pois quem dentre os vivos desceu às profundezas de Utumno ou explorou a escuridão dos pensamentos de Melkor? Mesmo assim isto é tido como verdade pelos sábios de Eressëa: que todos aqueles dos Quendi que acabaram nas mãos de Melkor, antes de Utumno ser quebrada, foram lá postos na prisão e por artes lentas de crueldade e maldade foram corrompidos e escravizados. Desta forma Melkor gerou a terrível raça dos Orkor em inveja e paródia aos Eldar, de quem se tornaram após isto os mais amargos inimigos. Pois os Orkor tinham vida e se multiplicavam à maneira dos Filhos de Ilúvatar; e nada do que tem vida por si mesmo, nem a aparência de vida, Melkor jamais poderia criar, desde sua rebelião no Ainulindalë antes do Começo: assim dizem os sábios. E profundamente em seus corações escuros os Orkor detestavam o Mestre a quem serviam por medo, criador apenas de suas misérias. Isto, talvez, seja o ato mais vil de Melkor e o mais odioso a Eru.

1086

$46    Oromë permaneceu por algum tempo entre os Quendi, e então rapidamente cavalgou de volta a Valinor e levou as novidades aos Valar. E ele falou das sombras que perturbavam Kuiviénen. Então os Valar sentaram em conselho e debateram longamente o que seria o melhor a fazer para proteger os Quendi; mas Oromë retornou imediatamente à Terra-média e residiu com os Elfos.

1090

$47    Manwë sentou-se por longo tempo em Taniquetil, pensando, e finalmente resolveu declarar guerra a Melkor, ainda que Arda recebesse ainda mais danos naquela batalha. Pela primeira vez, portanto, os Valar atacaram Melkor e não ele aos Valar, e partiram para a guerra em todo seu poder, e eles o derrotaram completamente. Isto eles fizeram em prol dos Elfos, e Melkor bem o sabia, e não esqueceu.

1090 – 2

$48    Melkor confrontou o ataque dos Valar no Noroeste da Terra-média, e toda aquela região foi muito destruída. E a primeira vitória das hostes do Oeste foi rápida e fácil, e os servos de Melkor fugiram deles para Utumno. Então os Valar marcharam sobre a Terra-média e montaram uma guarda sobre Kuiviénen; por isso os Quendi não souberam nada a Grande Guerra dos Deuses, exceto que a Terra mexia e gemia abaixo deles, e as águas foram movidas; e no Norte ocorriam luzes como poderosos fogos. Mas após dois anos os Valar passaram ao norte distante e começaram o longo cerco a Utumno.

1092 – 1100

$49    Aquele cerco foi longo e terrível, e muitas batalhas foram travadas ante seus portões das quais nada são conhecidas aos Quendi, além de rumores. A Terra-média foi dolorosamente sacudida àquele tempo, e o Grande Mar que a separava de Aman aumentou e se aprofundou. E as terras no Norte distante foram todas desoladas naqueles dias, e assim permaneceram para sempre; pois lá Utumno fora escavada de maneira excepcionalmente profunda, e seus poços e cavernas alcançavam longe abaixo da terra, e estavam cheios de fogos e grandes hordas dos servos de Melkor.

1099

$50    E finalmente os portões de Utumno foram quebrados e seus salões postos a céu aberto, e Melkor se refugiou no poço mais profundo. Então, vendo que tudo estava perdido (àquele tempo), ele enviou repentinamente uma horda de Balrogs, os últimos remanescentes de seus servos, e eles atacaram o estandarte de Manwe como se fossem uma onda de chamas. Mas eles foram dispersos no vento de sua fúria e mortos pelo raio de sua espada; e Melkor finalmente ficou sozinho. Então, uma vez que ele era apenas um contra muitos, Tulkas adiantou-se como campeão dos Valar e lutou com ele e jogou-o de rosto no chão e o atou com a corrente Angainor. Assim terminou a primeira guerra do Oeste no Norte.


 
Comentários sobre a segunda seção dos
Anais de Aman

(Não há notas textuais nesta seção do texto). No trecho dado acima os Anais de Aman correspondem ao início do Capítulo 3 Da Chegada dos Elfos nas outras tradições do "Silmarillion" (QS $$18-21, HoME V). Contemporânea (mais ou menos) à escrita dos Anais de Aman foi a grande revisão do Quenta Silmarillion, mas aqui a comparação deve obviamente ser restrita ao texto pré-Senhor dos Anéis, junto com AV2, registros A.V. 1000- 1990 (HoME V).
 

$30
    No AAm é recontada o colocar, por Yavanna, de um sono sobre as coisas vivas que haviam acordado na Primavera de Arda, do qual não há sinal em QS (ou em reescritas posteriores).

A criação dos Balrogs é então mencionada; e enquanto em AAm ($17) o registro das "hordas" de Melkor, espíritos "dos vazios de Ëa" e "amigos secretos e espiões entre os Maiar" e mais completo do que nas outras tradições em qualquer estágio, os Balrogs ainda continuam firmemente citados como sendo demônios de sua própria criação, e mais, tendo sido feitos em Utumno àquele tempo. Sobre a concepção dos Balrogs em AAm veja além nos $$42-5, 50 neste comentário e especialmente $30.


$31
    Que o cavalo de Oromë era branco e ferrado com ouro é dito em QS ($24) e Q ($2), mas esta é a primeira aparição do nome do Cavalo, Nahar. Oromë é aqui representado como uma presença guardiã na Terra-média, em tal extensão que os Balrogs não foram liberados de Utumno devido a ele ($30); confira com AV2 (HoME V) "Morgoth se recolhia ante seu chifre".


$$34-6
    Sobre a criação das estrelas veja $24. Aqui se encontra a afirmação digna de nota de que Menelmakar (Orion) era "um sinal de Túrin Turambar, que deveria vir ao mundo, e uma previsão da Última Batalha que deverá ocorrer ao fim dos Dias". Isto é uma referência à Segunda Profecia de Mandos (no Quenta, HoME IV):


Então deverá ser travada a última batalha sobre os campos de Valinor. Naquele dia Tulkas lutará com Melkor, e à sua direita estará Fionwë e à sua esquerda estará Túrin Turambar, filho de Húrin, Conquistador do Destino; e será a espada negra de Túrin que trará a Melkor sua morte e fim definitivo; e então os filhos de Húrin e todos os homens estarão vingados.

 
O nome em Quenya Menelmacar é mencionado no Apêndice E (I) dO Senhor dos Anéis; nA Sociedade do Anel aparece a forma Sindarin: "o Guerreiro do Céu, Menelvagor, com seu cinto brilhante".


$37
    Que os Elfos acordaram ao primeiro brilhar da Foice dos Valar é dito em AV2 (HoME V); "ao surgirem as primeiras estrelas", QS $20.


$38
    A referência ao local de Kuiviénen é interessante. Sobre isso nada mais é dito na outra tradição além de que ficava "no Leste da Terra-média" (QS $20, preservado nos textos posteriores). No AAm Kuiviénen fica a Nordeste de Endon, o ponto central. Na lista de nomes acompanhando o Ambarkanta (HoME IV) aparece "ambar-endya ou Terra Média da qual Endor é o ponto central", e Endor está escrito sobre o centro da terra do meio nos diagramas do Ambarkanta (HoME IV) – no mapa (HoME IV) é marcado como um ponto: "Endor meio da Terra", e aqui é corrigido para Endon, a forma na presente passagem do AAm, embora mais tarde tenha voltado novamente para Endor (e da mesma forma na versão datilografada de AAm meu pai corrigiu Endon para Endor e em $41). Ver HoME IV.

No AAm Kuiviénen era "uma baía no Mar Interno de Helkar"; em QS ele é "o lago iluminado por estrelas" (e também no Q), o que é mantido nos textos posteriores. No mapa do Ambarkanta ele é mostrado no Nordeste de Endor (Endon), e está marcado no lado mais a leste do Mar de Helkar; no texto ele está "ao lado das águas de Helkar" (HoME IV). Não está claro se estas várias afirmações mostram uma mesma concepção. Aqui no AAm há a primeira referência ao Mar de Helkar (formado após a queda da Lâmpada do norte) desde o Ambarkanta – em cujo texto a própria Lâmpada é chamada Helkar; ver HoME IV.


$39
    Compare com QS $20: "Por algum tempo [Oromë] residiu entre eles, e ensinou-lhes o idioma dos Deuses, a partir do qual mais tarde fizeram a bela fala Élfica" e o Lhammas (HoME V): "dele [Oromë] aprenderam segundo sua capacidade a fala dos Valar, e todas as línguas que derivaram daí podem ser chamadas Oromianas ou Quendianas". E agora é dito no AAm que os Quendi desenvolveram sua própria linguagem, e que eles deram nomes "a todas as coisas que percebiam", antes mesmo de Oromë chegar até eles (que foi 335 Anos do Sol depois de seu despertar). Confira o Conto de Gilfanon no Livro dos Contos Perdidos (HoME I): "Os Eldar ou Quendi receberam o dom da fala diretamente de Ilúvatar".


$40
    Este parágrafo foi interpolado no manuscrito; ele aparece na versão datilografada original. A datação da partida de Melian a este tempo deriva dos Anais de Valinor (HoME IV, HoME V); no QS ($31) é dito que ela "freqüentemente partia de Valinor em longas jornadas nas Terras Daqui". O significado das palavras do AAm, de que Melian, "desejando olhar as estrelas, subiu ao Taniquetil", presumivelmente é de que ela subiu na encosta leste do Taniquetil, de onde a luz das Árvores ficava oculta.


$41
    Conforme comentado em HoME IV, a afirmação de que Oromë "virou para o norte no litoral de Helkar e passou sob as sombras das Orokarni, as Montanhas do Leste" concorda perfeitamente com o mapa do Ambarkanta (IV.249; no mapa as Orokarni são chamadas Montanhas Vermelhas).

"Ele ouvia ao longe o som de muitas vozes cantando": compare com QS $20: "E Oromë chegou junto a eles… enquanto eles permaneciam ainda silenciosos sob o lago iluminado pelas estrelas, Kuiviénen". Veja $39 acima.


$42
    QS ($20) tem aqui a extraordinária afirmação de que "Oromë ao olhar para os Elfos se encheu de amor e maravilhamento; pois a chegada deles não estava na Música dos Ainur, e estava escondida no pensamento secreto de Ilúvatar"; veja minha discussão sobre este trecho, HoME V.

Sobre a história do significado do nome Eldar veja as referências a isto dadas sob a entrada Eldar no Índice do HoME V


$42-5
    A origem dos Orcs. A primeira aparição da idéia de que suas origens estavam conectadas com os Elfos é no QS $18, e mais tarde em QS ($62) é dito que quando Morgoth retornou à Terra-média após a destruição das Árvores

 
ele trouxe à existência a raça dos Orcs, e eles cresceram e se multiplicaram nas entranhas da terra. Estes Orcs Morgoth fez por inveja e para desdenhar os Elfos, e eles eram feitos de pedra e seus corações de ódio.

(Sobre as visões mutáveis de meu pai com relação ao tempo da origem dos Orcs na cronologia dos Dias Antigos veja HoME IV, HoME V). Na interpolação do manuscrito AAm e na sua subseqüente reescrita e ampliação que aparece, junto com a história do Cavaleiro que os rumores afirmavam carregar os Quendi caso eles se perdessem, a teoria de que Melkor gerou os Orcs (aqui chamados Orkor) "em inveja e paródia aos Eldar" a partir dos Quendi escravizados no leste da Terra-média antes mesmo de Oromë chegar entre eles. É explícito ($45) que Melkor não poderia fazer nada que tivesse vida própria desde sua rebelião; mas isto está em aguda contradição com $30, onde é dito que "Utumno ele moldou a raça de demônios que os Elfos nomeariam Balrogs". Não acredito que a interpolação na qual a primeira destas afirmações aparece foi feita depois de um longo intervalo: as visões de meu pai sobre o assunto parecem ter mudado rapidamente, e um registro diferente da origem dos Balrogs é encontrado no logo abandonado texto datilografado que eu chamei AAM* (ver $30). A retenção da afirmação em $30, apesar de sua contradição com aquela em $45, foi devida sem dúvida a um erro não intencional, e ambas aparecem no texto datilografado principal de AAm – veja mais sobre a questão da origem dos Orcs em $127 e no Mitos Transformados.


$47
    As palavras "Pela primeira vez, portanto, os Valar atacaram Melkor e não ele aos Valar" mostra que a história do Ainulindalë de que os Valar teriam ido contra ele a partir de Valinor após a queda das Lâmpadas foi abandonada ($22)


$49
    Sobre as mudanças na Terra ao tempo da Grande Guerra dos Deuses como descritas no Ambarkanta ver HoME IV. Enquanto os dois textos não são necessariamente contraditórios, é curioso que deva ser dito no AAm que a este tempo "o Grande Mar que a separava [Terra-média] de Aman aumentou e se aprofundou" pois no Ambarkanta (HoME IV e ver também o mapa) a largura muito maior do Mar Ocidental do que o do Oriental veio a acontecer à época da fundação de Valinor:

    Para suas proteções adicionais os Valar lançou a Terra-média do centro para o leste, de forma que ficou desequilibrada, e o grande mar do Oeste é bastante largo no meio, o mais largo de todas as águas da Terra. A forma da Terra no Leste era muito parecida com a do Oeste, exceto pelo estreitamento do Mar Oriental, e o deslocamento da terra para aquele lado.


$50
    É notável que os Balrogs continuassem a este tempo, quando O Senhor dos Anéis já fora completado, a ser concebidos como tendo existido em números muito grandes (Melkor enviou repentinamente "uma horda de Balrogs"); ver $50


*

O texto datilografado (AAm*) que meu pai começou mas logo abandonou continua um pouco além do ponto atingido na primeira seção. Diferenças significativas do AAm são as que se seguem:


$30
    … Mas Melkor residia em Utumno, e não dormia, mas observava e trabalhava; e quaisquer bem que Yavanna trabalhar nas terras ele desfazia se pudesse, e as coisas malignas que ele pervertera andavam livremente, e as escuras e dormentes florestas eram assombradas por monstros e formas aterradoras. E em Utumno ele multiplicou a raça de espíritos malignos que o seguiram, os Úmaiar, de quem o chefe eram aqueles demônios a quem os Elfos mais tarde nomearam os Balrogath. Mas estes ainda não saíram dos portões de Utumno, devido ao seu medo de Oromë.

A parte final deste trecho é de muito interesse pois mostra um destacado desenvolvimento da idéia de que Melkor "fez" os Balrogs a este tempo. Eles agora se tornaram "espíritos malignos (Úmaiar) que o seguiram" – mas ele podia "multiplicá-los". O termo Úmaiar, não visto antes, está para Maiar assim como Úvanimor para Vanimor (ver HoME IV, nota de rodapé).


$31
    … e lá partia em caçadas sob as estrelas. Ele tinha grande amor por cavalos e cães de caça, mas todas as bestas estavam em seu pensamento, e ele caçava apenas os monstros e criaturas caídas de Melkor. Se ele os visualizava de longe ou seus grandes cães de caça os farejavam, então seu cavalo branco, Nahar, brilhava como prata enquanto corria através das sombras, e a terra dormente tremia com as batidas de seus cascos dourados. E ao mort Oromë iria soprar seu grande chifre, até as montanhas tremerem…
mort: o toque soprado na morte da caça

… e deixando que seus escravos fizessem seu trabalho maligno. [seus escravos e criaturas, AAm]


$32
    Veio a acontecer que que Manwë convocou os Valar para um conselho, pois eles ficaram preocupados com as informações que Yavanna e Oromë trouxeram das Terras de Fora, dizendo que se Melkor fosse deixado continuar a trabalhar sua vontade sem ser molestado, toda a Terra-média cairia em ruína irrecuperavelmente; e Manwë sabia que a chegada dos Filhos de Ilúvatar estava se aproximando, embora a exata hora e local de suas chegadas fosse conhecidas apenas do próprio Ilúvatar. E Manwë falou disso aos Valar; e Yavanna que a ele que desse luz à Terra-média, para parar os males de Melkor e dar conforto aos Filhos; e

Aqui o texto datilografado de AAm* acaba, ao pé de uma página. Uma vez mais, o que começou como uma cópia estava mudando com ordenada velocidade em uma nova versão. Mas não vejo razão para pensar que qualquer trecho extra jamais tenha existido.


*

Restam ser consideradas umas poucas alterações tardias rabiscadas e notas feitas em uma ou outra cópia da versão datilografada do texto todo.


$$38, 41
        Endon > Endor (ver $38).


$42
    ‘e os nomeou Eldar, o povo das estrelas’ > ‘e os nomeou o povo das estrelas’. Na margemn meu pai escreveu (isto é, com referência ao texto original): ‘mas ele não podia – [?como isso] era Quenya tardio’.


$43
    Ao lado do meio deste parágrafo há uma nota na margem: ‘Alterar isso. Orcs não são Élficos’. Ver pp. 408 e seguintes.


$50
    ‘uma horda de Balrogs, os últimos remanescentes de seus servos’ > ‘uma horda de Balrogs, os últimos de seus servos que permaneceram fiéis a ele’. Na margem meu pai escreveu: ‘Não se deve supor que mais do que digamos 3 ou no máximo 7 jamais existiram’. Ver $50.

Os Anais de Aman – Primeira Seção

The History of Middle Earth X - Morgoth's RingOs Anais de Aman são uma cronologia detalhada desde a criação do mundo até o final da Primeira Era, incluindo uma explicação sobre a maneira  de contar Anos dos Valar. Foi publicado no The History of Middle Earth X – Morgoth’s Ring e consiste de seis seções – das quais esta é a primeira – cada uma comentada extensivamente por Christopher Tolkien, das quais aqui publicamos a primeira.
Notas de Tradução: Os tempos verbais e a pontuação foram mantidos no original, o que pode causar alguma estranheza, principalmente quando o uso deles, por Tolkien, não é consistente. E, infelizmente, para este texto ser traduzido fora do contexto geral do livro tivemos que retirar/substituir as citações às páginas dos livros, mas mantivemos referências genéricas aos parágrafos e livros. A perda de entendimento é mínima dentro de um texto que já é complexo por si mesmo, principalmente com relação às Notas de Christopher Tolkien.

 

Os Anais de Aman


A segunda versão (anterior aO Senhor dos Anéis) dos Anais de Valinor (AV2) foi publicada no The History of Middle Earth V (HoME V). Lá mencionei que a primeira parte de AV2 fora – anos depois – coberta de correções e de novos trechos e que este novo trabalho era o rascunho inicial dos Anais de Aman. Neste caso eu não perderei tempo com o rascunho original, exceto por alguns pontos levantados pelo mesmo, comentados nas notas. Ele não se estende muito – nem tão longe quanto o surgimento das Duas Árvores, e até onde vai é extremamente parecido com os Anais de Aman; mas meu pai evidentemente decidiu rapidamente embarcar em um texto novo completamente diferente.

Sobre os Anais de Aman, ao qual eu me referirei pelo resto deste texto pela abreviatura ‘AAm’, existe um manuscrito bom e claro, com uma boa quantidade de correções em diferentes ‘camadas’. Adições pertencendo ao tempo da composição, ou logo depois, foram cuidadosamente feitas; e o manuscrito dá a impressão de ser uma ‘cópia boa’, um segundo texto. Mas enquanto passagens do rascunho podem ter sido perdidas, eu duvido muito que um ‘primeiro texto’ completo dos Anais existiu (ver nota 17). O trabalho certamente pertence ao grande desenvolvimento e recontagem dos Assuntos dos Dias Antigos que meu pai realizou quando O Senhor dos Anéis foi concluído, e ele permanece em correlação próxima às revisões daquele tempo dos trechos correspondentes do Quenta Silmarillion (HoME V, referido a partir de agora como QS), o texto que fora abandonado em 1937. De forma igualmente clara ele segue o último texto do Ainulindalë (D).

Existe uma versão datilografada por um amanuense de AAm contendo algumas correções e notas tardias, junto com uma cópia em carbono contendo muito poucas, mas diferentes, correções; sou inclinado a datar este texto de 1958, embora a evidência disto é mais um assunto de inferência e sugestão. Existe também um interessante e divergente texto datilografado da parte mais antiga do trabalho, feita por meu pai.

Eu forneço o texto completo da narrativa dos Anais, incorporando as correções feitas a ele; quando leituras anteriores às correções são de interesse eu as listo nas notas. Eu numero os parágrafos para subseqüente referência, e sendo o texto longo eu por conveniência o dividi em seis seções. As seções são seguidas por notas textuais numeradas (exceto no caso da seção 2) e em seguida por um comentário referenciando os números de parágrafo.

As datas dos Anos das Árvores nos anais foram alteradas com freqüência – em alguns casos há tantas quanto seis substituições – e eu dou apenas a forma final. Uma vez que o contínuo alterar de datas não parece estar em nenhum caso associado com mudanças na narrativa, e uma vez que a articulação final das datas parece ter sido obtida após a conclusão do manuscrito, acredito ser suficiente apontar que meu pai inicialmente permitiu um número de anos maior entre o surgimento das Árvores e sua destruição. Assim inicialmente as Silmarils foram obtidas por Fëanor no Ano das Árvores 1600 (mais tarde 1450), e Tulkas foi enviado para capturar Melkor em 1700 (mais tarde 1490) – embora outras datas tenham sido propostas e rejeitadas como estas. A partir deste ponto a datação revisada (1490 – 1500) é a única, mas aqui também as datas foram muito alteradas em detalhes, e o resultado final não é perfeitamente claro em todos os pontos.

Primeira Seção dos Anais de Aman

A primeira página do AAm existe em duas formas, ambos bons manuscritos, idênticos em tudo exceto no título e no breve preâmbulo.

O primeiro tem o título Os Anais de Valinor, e começa assim: ‘Aqui começam os Anais de Valinor, e falam da chegada dos Valar a Arda’; além do título foi acrescentado: ‘Estes foram escritos por Quennar i Onótimo que aprendeu muito, e emprestou muito, de Rúmil; e foram ampliados por Pengoloð’. Esta última frase foi riscada, e o título e preâmbulo corrigidos para a forma que têm na segunda cópia, como dada abaixo, com Valinor > Aman e a adição das palavras ‘que Rúmil escreveu (fez)’. Eu imagino que meu pai recopiou esta página porque desejava que ela parecesse bem e a rabiscou com estas mudanças. O título Anais de Aman surge neste ponto, portanto, e muito possivelmente o significado final do nome Aman também: ele ocorre uma vez em Ainulindalë D, mas como uma adição ao texto.

OS ANAIS DE AMAN

Aqui começam os Anais de Aman, que Rúmil fez, e fala da chegada dos Valar a Arda:

$1 No Início Eru Ilúvatar criou Ëa, o Mundo que é (1), e os Valar entraram nele, e eles são os Poderes de Ëa. Estes são os nove líderes dos Valar que residiram em Arda: Manwë, Ulmo, Aulë, Oromë, Tulkas, Ossë, Mandos, Lorien (2) e Melkor.

$2 Destes Manwë e Melkor eram os mais poderosos e eram irmãos. Manwë é o senhor dos Valar, e sagrado; mas Melkor se voltou para o desejo de poder e para o orgulho, e tornou-se mal e violento, e seu nome é amaldiçoado, e não é pronunciado; ele é chamado Morgoth. Oromë e Tulkas eram os mais jovens no pensamento de Eru ao divisar o Mundo, e Tulkas veio rapidamente ao reino de Arda. As rainhas dos Valar são sete: Varda, Yavanna, Niënna, Vairë, Vana, Nessa e Uinen. Não menores em poder e majestade são do que os líderes e sempre se sentam nos conselhos dos Valar.

$3 Varda era a esposa de Manwë desde o início, mas Aulë desposou Yavanna, irmã de Varda, em Ëa (3). Vana a bela, irmã mais nova de Varda, é a mulher de Oromë; e Nessa, a irmã de Oromë, é a mulher de Tulkas; e Uinen, senhora dos mares, é mulher de Ossë. Vairë a tecelã mora com Mandos. Nenhuma esposa possui Ulmo, nem Melkor. Nenhum senhor possui Niënna a cheia de pesar, rainha da sombra, irmã de Manwë e Melkor. A mulher de Lorien é Estë a pálida, mas ela não vai aos conselhos dos Valar e não é registrada entre os regentes de Arda, mas é a senhora dos Maiar.

$4 Com estes grandes poderes vieram muitos outros espíritos de mesmo tipo mas menos poder e autoridade; estes são os Maiar, os Belos (4), o povo dos Valar. E entre eles são contados os Valarindi, os descendentes dos Valar, seus filhos nascidos em Arda, mas ainda assim da raça dos Ainur que existia antes do Mundo; eles são muitos e belos.

Neste ponto meu pai escreveu: Isto é retirado do trabalho de Quennar Onótimo. Estas palavras se referem não ao que precede mais à passagem que se segue, chamada Do Início do Tempo e seu Registro (embora no preâmbulo – riscado – da primeira página rejeitada de AAm Quennar i Onótimo é dito ter sido o autor de todos os Anais).

A seção inteira sob o assunto do Registro do Tempo foi mais tarde anotada com lápis: ‘Transferir para o Conto dos Anos’. O Conto dos Anos, uma lista cronológica do mesmo tipo daquela no Apêndice B de O Senhor dos Anéis, existe em diferentes formas, associadas com os Anais mais antigos e mais tardios; a forma mais tardia, associada de perto com AAm e seu acompanhante os Anais Cinzentos (Anais de Beleriand), é talvez o mais complexo e difícil de todos os textos que meu pai deixou. Isto não precisa nos preocupar aqui; mas associados a ele estão dois belos manuscritos (um deles, o mais tardio dos dois, dentre os mais belos que ele fez: veja o frontispício) dando de forma quase idêntica o mesmo texto de Do Início do Tempo e seu Registro como encontrado aqui no AAm, mas o colocando como o início de O Conto dos Anos e o prelúdio à lista cronológica de eventos. Estes dois manuscritos são, claramente, mais tardios que o texto em AAm, e alguns pontos nos quais diferem são dados nas notas. AAm continua:

Isto é retirado do trabalho de Quennar Onótimo (5).

Do Início do Tempo e seu Registro

$5 O tempo começou de fato com o começo de Ëa, e naquele começo os Valar vieram ao Mundo. Mas a medida que os Valar fizeram das eras de seus trabalhos não é conhecida de nenhum dos Filhos de Ilúvatar, até o primeiro florescer de Telperion em Valinor. Depois disso os Valar contaram o tempo pelas eras de Valinor, onde cada era continha cem dos Anos dos Valar; e cada ano desses era mais longo do que nove anos sob o Sol (6).

$6 Agora medido pelo florescer das Árvores havia doze horas em cada Dia dos Valar, e mil desses dias dos Valar formavam um ano em seu reino. Supõe-se pelos Mestres de Conhecimento que os Valar fizeram desta forma as horas das Árvores de tal forma que cem de tais anos assim medidos seriam a duração de uma era dos Valar (7) (assim como tais eras eram nos dias de seus trabalhos antes da fundação de Valinor) (8).  De qualquer forma isto não é sabido com certeza.

$7 Mas para os Anos das Árvores e aqueles que vieram depois (9), um de tal Ano era mais longo do que nove dos anos como são agora. Pois existiam em cada Ano doze mil horas. E as horas das Árvores eram cada uma sete vezes mais longa do que uma hora  em pleno dia na Terra-média, de nascer a nascer do sol, quando a luz e a escuridão são igualmente divididas (10). Portanto cada Dia dos Valar durava quatro e oitenta de nossas horas, e cada Ano quatro e oitenta mil: o que é tanto quanto três mil e quinhentos dos nossos dias, e é pouco mais do que nove e meio de nossos anos (nove e meio e oito centésimos e ainda mais um pouco) (11).

$8 É registrado pelos Mestres do Conhecimento que isto não é exatamente como os Valar criaram no fazer e ordenar (12) da Lua e do Sol. Pois era a intenção deles que dez anos do Sol, não mais nem menos, tivesse a mesma duração que um Ano das Árvores tivera; e era de seu primeiro intento que cada ano do Sol contivesse setecentas vezes a luz do sol e a luz da lua, e cada uma dessas vezes deveria conter doze horas, cada uma durando um sétimo de uma hora das Árvores. Por esse registro cada ano do Sol conteria trezentos e cinqüenta dias plenos de luz dividida entre luz da lua e luz do sol, o que são oito mil e quatrocentas horas, sendo iguais a mil e duzentas horas das Árvores ou um décimo de um Ano dos Valar. Mas a Lua e o Sol se provaram mais indisciplinados e lentos em sua passagem do que os Valar pretendiam, como dito a seguir (13), e um ano do Sol e um pouco maior do que era um décimo de um Ano em Dias das Árvores.

$9 O ano do Sol mais curto foi assim feito (14) por causa da maior velocidade de todo o crescimento, e da mesma forma de toda mudança e esvaecer, que os Valar sabiam que viria a acontecer após a morte das Árvores. E após aquele mal ter acontecido os Valar registraram o tempo em Arda pelos anos do Sol, e ainda o fazem, mesmo após a Mudança do Mundo e o ocultar de Aman; mas dez anos do Sol eles contam agora como um ano (15), e mil como um século. Isto é retirado do Yénonótië de Quennar: quoth Pengoloð (16).

$10 É registrado pelos mestres de conhecimento que os Valar vieram para o reino de Arda, que é a Terra, cinco mil Anos dos Valar antes do primeiro nascer da Lua, o que é tanto quanto dizer quarenta e sete mil e novecentos e um de nossos anos. Destes, três mil e quinhentos (ou trinta e três mil, cento e trinta em nosso registro) se passaram antes que a primeira medida de tempo conhecida pelos Eldar se iniciasse com o florescer das Árvores. Aqueles foram os Dias antes dos dias. Depois disso mil e quatrocentos e noventa e cinco Anos dos Valar (ou catorze mil e trezentos e vinte e dois de nossos anos) se seguiram durante os quais a Luz das Árvores brilhou em Valinor. Estes foram os Dias de Felicidade. Naqueles dias, no Ano mil e cinqüenta dos Valar, os Elfos acordaram em Kuiviénen e a Primeira Era dos Filhos de Ilúvatar começou (17).

1 O Primeiro Ano dos Valar em Arda

$11 Após eras de trabalho nos grandes salões de Ëa além do conhecimento ou registro os Valar desceram à Arda no começo de sua existência, e começaram lá seus trabalhos pré-divididos dando forma a suas terras e águas, das fundações às mais altas torres do Ar.

$12 Mas seus trabalhos foram frustrados e afastados de seus objetivos, pois Melkor reivindicou o domínio de Arda, e reivindicou o reinado e ficou em discórdia com Manwë. E Melkor provocou grande ruína com fogo e frio mortal e desfigurou tudo que os outros Valar fizeram.

1500

$13 Aconteceu que, ouvindo de longe sobre a guerra em Arda, Tulkas o Forte partiu de distantes regiões de Ëa para o auxílio de Manwë. Então Arda foi preenchida com o som de sua risada, mas ele voltou uma face de fúria a Melkor; e Melkor fugiu ante sua ira e sua felicidade, e abandonou Arda, e existiu uma longa paz.

$14 Então os Valar começaram seus trabalhos novamente; e quando as terras e águas estavam ordenadas os Valar tiveram necessidade de luz, para que as sementes imaginadas por Yavanna pudessem crescer e ter vida. Então Aulë fez duas grandes lâmpadas, como se fossem de prata e ouro mas translúcidas, e Varda preencheu-as com fogo sagrado, para dar luz à Terra. Illuin e Ormal foram chamadas. 1900 E foram colocadas sobre pilares poderosos como montanhas no meio de Arda, ao
norte e ao sul.

$15 Então os Valar continuaram seus trabalhos até todo o reino de Arda estar ordenado e preparado, e aconteceu um grande crescimento de árvores e ervas, e bestas e pássaros vieram e residiram nas planícies e nas águas, e as montanhas eram verdes e belas de se olhar. E os Valar fizeram sua morada sobre uma ilha verdejante no meio de um lago; e aquele lago estava entre Illuin e Ormal bem no centro de Arda; e lá ficava a Ilha de Almaren, e por causa da mistura das luzes, todas as coisas eram mais ricas em crescimento e mais belas em cor. Mas os Valar raramente se reuniam lá, pois sempre viajavam por Arda, cada um em seus afazeres.

$16 E veio a acontecer que finalmente os Valar ficaram satisfeitos, e desejaram descansar um pouco do trabalho e observar o crescimento e desenvolvimento das coisas que tinham imaginado e começado. Então Manwë ordenou uma grande festa e convocou todos os Valar e rainhas dos Valar para Almaren, junto com seus povos. E eles vieram a seu comando; mas Aulë, é dito, e Tulkas estavam cansados; pois o ofício de Aulë e a força de Tulkas estiveram a serviço de todos sem cessar nos dias de seus trabalhos.

$17 Melkor sabia de tudo que fora feito; pois mesmo então ele tinha amigos secretos e espiões entre os Maiar que ele convertera à sua causa, e dentre estes o principal, como mais tarde ficou conhecido, era Sauron, um grande artífice da casa de Aulë. E distante em lugares escuros Melkor estava cheio de ódio, invejoso do trabalho de seus pares, os quais ele desejava tornar sujeitos a si mesmo. Então ele reuniu para si espíritos dos vazios de Ëa que ele pervertera a seu serviço e considerou-se forte. E vendo novamente seu tempo ele se aproximou de Arda e olhou sobre ela, e a beleza da Terra e sua Primavera o encheu ainda com mais ódio.

3400

$18 Então os Valar reunidos em Almaren festejaram e ficaram felizes, não temendo nenhum mal, e devido à luz de Illuin eles não perceberam a sombra no Norte que fora lançada de longe por Melkor; pois ele se tornara escuro como a Noite do Vazio (18). E é cantado que na festa da Primavera de Arda Tulkas desposou Nessa a irmã de Oromë, e Vana cobriu-a de flores e ela dançou perante os Valar sobre a grama verde de Almaren.

$19 Então Tulkas dormiu, estando cansado e satisfeito, e Melkor considerou que sua hora havia chegado. Então ele atravessou as Muralhas da Noite (19) com sua horda, e chegou à Terra-média no Norte; e os Valar não estavam cientes dele.

$20 Melkor começou a escavação e construção de uma vasta fortaleza profundamente sob a Terra, embaixo de montanhas escuras onde a luz de Illuin era fraca (20). Este forte ele chamou Utumno. E embora os Valar não soubessem de nada disso ainda, mesmo assim o mal de Melkor e a destruição causada por seu ódio se espalharam, e a Primavera de Arda foi desfigurada, e as coisas vivas se tornaram doentias e apodrecidas ou foram corrompidas em formas monstruosas.

3450

$21 Então os Valar souberam que de fato Melkor estava agindo novamente, e procuraram por seu esconderijo. Mas Melkor, confiando na força de Utumno e no poder de seus servos, veio repentinamente à guerra, e desferiu o primeiro golpe, antes dos Valar estarem preparados. E ele atacou as luzes de Illuin e Ormal e destruiu seus pilares, e quebrou suas lâmpadas. Então na queda dos poderosos pilares as terras se partiram e os mares se elevaram em tumulto; e quando as lâmpadas se derramaram chamas destruidoras se espalharam sobre a Terra. E a forma de Arda e a simetria de suas águas e terras foi desfigurada àquele tempo, de tal forma que depois os planos iniciais dos Valar nunca foram recuperados.

$22 Na confusão e escuridão Melkor escapou, embora o medo tenha caído sobre ele; pois acima do rugir dos mares ele ouviu a voz de Manwë como um poderoso vento, e a terra tremeu sob os pés de Tulkas. Mas ele chegou a Utumno antes que Tulkas pudesse alcançá-lo, pois a maior parte da força deles foi necessária para refrear os tumultos da  Terra, e para salvar da ruína tudo de seus trabalhos que pudesse ser salvo; e depois disso temeram remexer a Terra novamente, até que soubessem onde os Filhos de Ilúvatar estariam morando, que ainda viriam em um tempo que era escondido dos Valar.

$23 Assim terminou a Primavera de Arda. E a morada dos Valar sobre Almaren foi totalmente destruída, e os deuses não tinha residência na face da terra. Então eles partiram da Terra-média e foram para a Terra de Aman, que era a terra mais ocidental dentre todas, nas bordas do mundo; pois seu litoral oeste olhava sobre o Mar de Fora que englobava o reino de Arda, e além estavam as Muralhas da Noite (21). Mas no litoral leste de Aman ficava o ponto extremo do Grande Mar do Oeste; e uma vez que Melkor retornara a Terra-média, e eles ainda não podiam suplantá-lo, os Valar fortificaram sua moradia, e sobre o litoral do Mar eles elevaram as Pelóri, as Montanhas de Aman, as mais altas sobre a terra. E acima de todas as montanhas da Pelóri estava o pico que foi chamado Taniquetil, sobre cujo topo Manwë colocou seu trono. E atrás das muralhas das Pelóri os Valar estabeleceram suas mansões e seus domínios na região que é chamada Valinor. Lá, no Reino Vigiado eles reuniram grande quantidade de luz e todas as coisas mais belas que salvaram da ruína; e muitas outras ainda mais belas eles fizeram novamente, e Valinor se tornou ainda mais bela do que a Terra-média na Primavera de Arda; e era abençoada e sagrada, pois os deuses moravam ali e lá nada esvaecia ou murchava, nem havia qualquer mancha sobre flores ou folhas naquela terra, nem nenhum corrupção ou doença em nada que vivia; pois mesmo as rochas e águas eram abençoadas.

$24 Então os Valar e todo o seu povo estavam cheios de felicidade novamente e por muito ficaram satisfeitos e raramente passavam sobre as montanhas para as Terras de Fora; e a Terra-média ficou num crepúsculo sob as estrelas que Varda fizera nas eras esquecidas de seus trabalhos em Ëa.

3500

$25 E veio a acontecer que, depois que Valinor estava totalmente terminada e as mansões dos Valar estavam estabelecidas e seus jardins e florestas arrumados, os Valar construíram sua cidade no meio da planície além das Pelóri. A cidade eles chamaram de Valmar a Abençoada. E à frente de seu portal ocidental havia um monte verdejante, que estava vazio a não ser por uma cobertura de grama imutável.

$26 Então Yavanna e Niënna foram ao Grande Monte; e Yavanna o abençoou, e sentou-se por muito tempo na grama verde e cantou uma canção de grande poder, na qual estava contido todo seu pensamento sobre as coisas que cresciam na terra. Mas Niënna pensava em silêncio, e molhava o solo com lágrimas. Então todos os Valar se reuniram para ouvir a canção de Yavanna; e a colina estava no centro do Círculo do Destino ante os portões de Valmar, e os Valar sentaram-se ao redor dele em silêncio sobre seus tronos do conselho, com seus povos a seus pés. E enquanto os deuses observavam, veja! Sobre o monte surgiram dois brotos verdejantes, e eles cresceram e se tornaram belos e altos, e eles vieram a florescer.

$27 Assim nasceram no mundo as Duas Árvores de Valinor, de todas as coisas que crescem as mais belas e renomadas, cujo destino está entrelaçado com o destino de Arda. A mais velha das árvores foi nomeada Telperion, e suas flores eram de um branco brilhante, e um orvalho de luz prateada caía delas. Laurelin a Árvore mais jovem foi chamada; suas folhas verdes tinham uma borda dourada, e suas flores eram como agrupamentos de chamas amarelas, e uma chuva de ouro gotejava delas no chão. Destas Árvores vinha uma grande luz, e toda Valinor foi preenchida com ela. Então a felicidade dos Valar aumentou; pois a luz das Árvores era sagrada e de grande poder, tanto que, se alguma coisa era boa ou adorável ou de valor, naquela luz sua adorabilidade e seu valor eram plenamente revelados; e tudo que andava naquela luz estava contente em seu coração.

$28 E a luz que saía das Árvores permanecia por muito tempo, fosse levada pelos ares ou escorrendo na terra para seu enriquecimento. Então de sua abundância Varda costumava coletar uma grande quantidade, e ficava guardada em grandes vasos próximos ao Monte Verde. De lá os Maiar a retiravam e a levavam aos estuários e aos campos, mesmo aqueles distantes de Valmar, de forma que todas as regiões de Valinor se desenvolveram e cresceram ainda mais belas.

$29 Desta maneira começaram os Dias de Felicidade de Valinor, e começou também a contagem do Tempo. Pois as Árvores se desenvolviam até o florescimento e luz totais, e diminuíam novamente, incessantemente, sem mudança de velocidade ou completude. Telperion foi a primeira a florescer, e um pouco antes dela parar de brilhar Laurelin começou a desabrochar; e quando Laurelin diminuiu Telperion acordou  novamente. A partir daí os Valar tomaram o tempo do florescimento, primeiro de Telperion e depois de Laurelin, para ser para eles um Dia em Valinor; e o tempo em que cada Árvore estava florescendo sozinha eles dividiram em cinco horas, cada uma delas igual ao tempo do esvaecer de suas luzes, duas vezes em cada Dia. Existiam, portanto, doze de tais horas em cada Dia dos Valar; e mil desses Dias foram considerados um Ano, quando então as Árvores cresceriam um novo galho e suas estaturas aumentariam.

A seção inicial dos Anais de Aman termina aqui; é seguida por um título Aqui começa o novo Registro sob a Luz das Árvores com datas começando em A.A.1, o Primeiro Ano das Árvores.

NOTAS

1. A definição de Ëa como ‘o Mundo que É’ é encontrada também no surgimento do nome em uma adição ao texto do Ainulindalë D, $20. Eu a dou na forma que está nos textos, Ea, Ëa, .

2. A forma original do nome era Lórien, mas foi alterado para Lŏrien no manuscrito QS.

3. AV2 tem aqui ‘Yavanna, a quem Aulë desposou depois no mundo, em Valinor’; na versão reescrita do manuscrito AV2 que leva diretamente a AAm isto se tornou ‘Yavanna, a quem Aulë desposou em Arda’, onde AAm tem ‘em Ëa’.

4. AV2 tem aqui ‘estes são os Vanimor, os Belos’, alterado na versão posterior (ver nota 3) para ‘estes são os Mairi…’ e então para ‘estes são os Maiar…’. Este é o local onde a palavra Maiar surgiu pela primeira vez.

5. No mais antigo (e único) dos dois manuscritos do início de O Conto dos Anos o título Do Início dos Tempos e seu Registro foi subseqüentemente ampliado pela adição de Do trabalho de Quennar Onótimo; ver nota 6.

6. Quando esta sentença foi escrita pela primeira vez no rascunho do início de AAm (a versão reescrita de AV2) ela dizia: ‘e cada ano desses era tão longo quanto dez anos do Sol como são hoje’; isto é meu, pai ainda mantinha a antiga e muito mais simples contagem indo de AV2 a AV 1. Isto foi alterado no rascunho para ‘e cada ano desses era mais longo do que nove anos sob o Sol como são hoje’. Na versão mais antiga do Conto dos Anos as palavras ‘como são hoje’ foram escritas a lápis após ‘nove anos sob o Sol’, enquanto na segunda se lê ‘do que nove anos sob o Sol’.

A segunda versão do Conto dos Anos, a qual não se refere a Quennar Onótimo no título de Do Início dos Tempos e seu Registro (nota 5), tem aqui ‘Assim falou Quennar Onótimo sobre este assunto’. O que se segue deste ponto em diante em todos os três textos é um texto nitidamente menor, tanto que a referência a Quennar parece mais apropriada aqui.

7. A versão mais tardia (e única) do Conto dos Anos tem ‘um quinto de uma era dos Valar’ ao invés de ‘uma era dos Valar’.

8. A versão mais antiga do Conto dos Anos acrescenta aqui: ‘e cada era dos Valar é uma parte exata (quão grande ou pequena apenas eles sabem) de toda a história de Ëa. Mas estas coisas não são conhecidas com certeza mesmo para os Eldar’; a versão posterior começa a passagem da mesma forma, mas termina: ‘… de toda a história de Ëa de seu início ao Fim que deve ser. Mas estas coisas não são conhecidas com certeza mesmo para [os] Vanyar’.

9. O Conto dos Anos tem aqui: ‘Mas para os Anos das Árvores em comparação com aqueles que vieram depois’, que torna o sentido claro.

10. Na versão mais antiga do Conto dos Anos ‘do nascer do sol ao pôr do sol’ é alterado a lápis para ‘de pôr a pôr do sol’, e a seguinte frase ‘em tais momentos em que luz e escuridão são igualmente divididas’ foi colocado entre colchetes. A segunda versão tem uma leitura diferente: ‘de pôr a pôr do sol nos Litorais do Grande Mar’.

11. Nas versões do Conto dos Anos as palavras ‘(nove e meio e oito centésimos e mais um pouco) são omitidas.

12. Nas versões do Conto dos Anos as palavras ‘e ordenar’ são omitidas.

13. No lugar de ‘como dito a seguir’ (que se refere a relato do Sol e da Lua, mais tarde no AAm) as versões do Conto dos Anos têm ‘como é contado em outro lugar’.

14. No lugar de ‘foi assim feito’ as versões do Conto dos Anos têm ‘foi definido assim pelos Valar’.

15. ‘como um ano’ torna-se nas versões do Conto dos Anos ‘como um ano para si mesmos’.

16. As versões do Conto dos Anos têm aqui ‘Assim falou o Yénonótië de Quennar’. Para Yénonótië confira Yénië Valinóren ‘Anais de Valinor’ nas páginas-título de QS (HoME V), e o nome próprio nome Onótimo; ver as Etimologias, raízes NOT ‘contar’, YEN ‘ano’ (HoME V).

17. O parágrafo $10 tem a seguinte forma no rascunho do início de AAm:

É registrado pelos Mestres de Conhecimento que os Valar vieram para o Reino de Arda, que é a Terra, cinco mil e quarenta anos de nosso tempo antes do primeiro nascer da Lua. E destes, trinta mil se passaram antes que a medida de tempo se iniciasse com o florescer das Árvores. Aqueles foram os Dias antes dos dias. E quinze mil anos se seguiram durante os quais a Luz das Árvores ainda vivia e cerca de seiscentos mais do Novo Sol e Lua após o assassinato das Árvores. E estes foram chamados os Dias Antigos, e seu fim encerrou a Primeira Era do Tempo, e Melkor foi jogado para for do mundo.

Então em AV 1 e AV2 o registro era, portanto (A.V. = Ano(s) dos Valar, A.S. = Ano(s) do Sol):

A.V. 1000 = A.S. 10000 Primeiro florescer das Árvores

A.V. 3000 = A.S. 20000 Surgimento da Lua a primeira revisão dá A.S. 30000 Primeiro florescer das Árvores

Este registro então é substituído de novo:

A.V. 3500 = A.S. 33530 Primeiro florescer das Árvores

A.V. 5300 = A.S. 50775 Surgimento da Lua

Estes números mostrar uma proporção de 1 A.V. = 9,58 A.S. (veja os comentários $5-10). Este último registro foi a forma escrita inicialmente no AAm, a qual então foi modificada muitas vezes até chegar ao texto impresso aqui.

18. O texto era escrito como ‘escuro como a noite que existia antes de Ëa’, alterado mais tarde para ‘escuro como a Noite do Vazio’.

19. O texto como inicialmente escrito tem ‘além dos limites de Ëa’; isto mais tarde foi alterado para ‘pelas Muralhas da Noite além dos limites de Arda’, e então ‘além dos limites de Arda’ foi riscado.

20. O texto como inicialmente escrito tem ‘longe da luz de Illuin’.

21. O texto como escrito tem ‘a qual é a mais ocidental de todas as terras’ e ‘olha sobre o Mar de Fora que englobava o reino de Arda’; as mudanças para o tempo passado talvez foram feitas no tempo da escrita, uma vez que a próxima frase, ‘além estavam das Muralhas da Noite’, tinha o tempo passado como original. Por outro lado as seguintes sentenças têm o tempo presente (‘Mas no litoral leste de Aman está o ponto extremo do Grande Mar do Oeste’), onde está permaneceu.

Comentários sobre a primeira
seção dos

Anais de Aman

$$1-3 Sobre a ocorrência no nome Eru ver Ainulindalë (NT: ainda não traduzido pela Valinor). O relato das inter-relações entre os Valar e as rainhas dos Valar permanece bem próximo daquele em AV2 (HoME V), e mantém frases antigas (como ‘Manwë e Melkor eram os mais poderosos e eram irmãos’) datando da época dos Anais originais (HoME IV). Existem, contudo, alguns desenvolvimentos nesta seção inicial. Sobre a frase em $2, ‘Oromë e Tulkas eram os mais jovens no pensamento de Eru ao divisar o Mundo’, ver HoME V. Tulkas ter vindo a Arda por último deriva do Ainulindalë reescrito ($31).

Não é mais dito, como era no AV2, que Oromë era o filho de Yavanna. Por outro lado, é agora dito, assim como no Quenta (Q) e QS, que Vana era a irmã de Yavanna (e Varda), coisa que não era dita no AV2. Estas diferenças estão, talvez, conectadas; pois se ambos os relatos são combinados a esposa de Oromë é a irmã de sua mãe. Mas podemos apenas estar tendo uma visão muito convencional das relações divinas.

As citações de que Estë ‘não vai aos conselhos dos Valar e não é registrada entre os regentes de Arda’ e de que ela é a líder dos Maiar (ver nota 4 acima), são completamente novas.

$4 O trecho sobre os ‘espíritos menores’ não mostra desenvolvimento significativo daquele em AV2 (HoME V) exceto pela substituição de Vanimor por Maiar (traduzido ‘os Belos’, assim como Vanimor o fora); os Valarindi, Filhos dos Valar, ‘nascidos em Arda’ serem relacionados entre os Maiar, permanece. Sobre a história anterior destes conceitos ver HoME V.

$5 Telperion apareceu pela primeira vez em QS $16 (HoME V), mas não como o nome principal da Árvore Mais Velha, que permaneceu Silpion. Telperion, utilizado em O Senhor dos Anéis, agora se torna o principal.

$$5-10 O relato do Registro do Tempo à primeira vista parece confuso, mas pode ser
clarificado.

(i)
De acordo com o registro pela Árvores

12 horas (uma florada completa de ambas as Árvores) = 1 dia

1.000 dias (12.000 horas) = 1 ano

100 anos = 1 era dos Valar (como os Valar contagem as eras antes das Árvores, de acordo com uma suposição dos Mestres de Conhecimento dos Elfos; ver notas 7 e 8 do texto)

(ii)
Relação do registro pelas Árvores com o registro pelo Sol

1 hora das Árvores = 7 horas de nosso tempo

1 dia das Árvores = (7 x 12) 84 horas de nosso tempo

1 ano das Árvores = (7 x 12.000) 84.000 horas de nosso tempo

Existem (365,25 x 24) 8.766 horas em um Ano do Sol, portanto: 1 ano das Árvores = (84.000 / 8.766) 9,582 Anos do Sol *

(* confira o texto ($7): ‘nove e meio e oito centésimos e ainda mais um pouco’.)

(iii)
Intenção original dos Valar para o novo registro pelo Sol e Lua

12 horas de luz da luz + 12 horas de luz do sol = 24 horas = 1 dia completo

700 vezes de luz do sol e luz da lua = 350 dias completos = 1 Ano do Sol 1 hora = 1/7 de 1 hora das Árvores. Portanto: 1 Ano do Sol teria (24 x 350) 8.400 horas = (8.400 / 7) 1.200 horas das Árvores = 1/10 de um Ano dos Valar (ver (i) acima); portanto 1 Ano dos Valar seria = 10 Anos do Sol

O assunto pode ser mais concisamente expressado:

1 anos das Árvores = (7 x 1200) 84.000 horas de nosso tempo

84.000 – (350 x 24) 8.400 = 10

mas

84.000 – (365,25 x 24) 8.766 = 9,582

(iv)
As datas do primeiro florescer das Árvores e o primeiro nascer da Lua
($10)

As Árvores floriram inicialmente após 3.500 Anos dos Valar terem se passado, o que é dito ser igual a 33.530 Anos do Sol (isto pressupõe uma equivalência de 9,58; 9,582 daria 33.537). A Lua surgiu inicialmente após 5.000 Anos dos Valar terem se passado, o que é dito ser igual a 47.901 Anos do Sol; se a equivalência é 9,582 o número de Anos do Sol deveria ser 47.910, se fOssë 9,58 o número deveria ser 47.900). As Árvores brilharam por 1.495 Anos dos Valar. que é dito serem iguais a 13.222 Anos do Sol (o que pressupõe uma equivalência de quase exatamente 9,58)

$$11-29 A grande expansão da narrativa pré-Senhor dos Anéis (QS, AV2) é em parte derivada do mais recente Ainulindalë (que o AAm seguiu a última versão, D, daquele trabalho é demonstrado por vários detalhes, como por exemplos os nomes Ëa, Illuin e Ormal, o primeiro deles entrando em D por adição posterior, e aqueles das Lâmpadas substituindo Forontë e Hyarantë por correção). Mas existe muito que é completamente novo: que Manwë realizou uma grande festa na Ilha de Almaren, onde Tulkas desposou Nessa; que Sauron era ‘um grande artífice da casa de Aulë’; que os Valar foram incapazes de se sobrepor a Melkor àquele tempo porque precisaram conter as agitações da Terra e preservar o que pudesse do que tinham realizado; e outras características mencionadas abaixo. – A questão cosmológica é discutida ao final deste comentário.

$15 A afirmação de que sob a luz das Lâmpadas ‘aconteceu um grande crescimento de árvores e ervas, e bestas e pássaros vieram’ (confira também $18, onde Vana vestiu Nessa de flores na festa de Almaren) pertence ao Ainulindalë ($31): ‘flores de muitas cores, e árvores cujas flores eram como neve sobre as montanhas… bestes e pássaros vieram’ – onde, contudo, o texto foi corrigido (‘E ainda nenhuma flor havia florescido nem pássaro cantado’). Ver nota 17 e $31.

$20 Uma diferença estrutural entre AAm e o Ainulindalë é que neste último Melkor não começou a escavação de Utumno até a derrubada das lâmpadas e sua escapada dos Valar ($32) – uma história que volta à épocas dos textos do antigo ‘Rascunho da  Mitologia’. Em AAm, por outro lado, Melkor construiu Utumno, ou pelo menos estava bastante avançado no trabalho, antes dos Valar ficarem cientes dele, e foi de Utumno que o apodrecimento e a corrupção se originaram; os Valar então perceberam sua presença em Arda e ‘procuraram por seu esconderijo’, e foi isso (como parece) que levou à súbita emergência de Melkor em guerra aberta e à derrubada das Lâmpadas.

$22 O ataque a Melkor pelos Valar saindo de Valinor, descrito no Ainulindalë ($32), não é mencionado em AAm, que diz apenas que eles ‘ainda não podiam suplantá-lo’, tomando as palavras de QS $12 (HoME V). Que a idéia fora abandonada pode ser vista subseqüentemente, $47.

$23 Que toda vida em Aman estava livre de qualquer esvaecer ou murchar, e livre de corrupção ou doença, não haviam sido dito em textos anteriores.

$24 Mesmo que nos textos de 1930 a antiga idéia dos Contos Perdidos de que as estrelas foram criadas em dois atos separados (HoME I) tenha sido abandonada, ela agora reaparece: Varda fizera as estrelas ‘nas eras esquecidas de seus trabalhos em Ëa’, e mais tarde em AAm ($35) é dito que ‘ela fez estrelas novas e mais brilhantes’ antes do acordar dos Elfos. Presumivelmente isto deve ser associado com a concepção do tardio Ainulindalë ($$14,28) do estabelecimento de Arda ‘em meio a inumeráveis estrelas’.

$$25-6 Que as Árvores cresceram em um monte verdejante no Círculo do Destino é um novo detalhe, embora a implicação de QS $14 (HoME V) é de que as Árvores estavam no Círculo. O Círculo e o Monte aqui são ditos estar ante o portão ocidental de Valmar; nos Contos Perdidos as Árvores estão ao norte da cidade, e estavam algumas ‘léguas separadas’ uma da outra (HoME I).

$28 Este relato de que a luz que gotejava das Árvores sendo recolhida por Maiar dos poços de Arda para ‘aguar’ todas as terras de Valinor tem sua origem na antiga idéia de que as Árvores ‘devem ser aguadas com luz para brotar e viver’ (HoME I).

$29 Ao final deste parágrafo há um novo detalhe digno de nota, que após mil dias as
Árvores cresceriam um novo galho; e que devido a isso o Ano dos Valar foi constituído dessa forma. Parece – e é dito aqui expressamente – que o dia dos Valar tinha doze horas porque o período de luz misturada era exatamente cinco vezes menor que o período de total florescer tanto de Telperion quanto Laurelin; se tivesse sido três vezes menor o dia teria tido oito horas, e assim por diante. O dia dos Valar era, portanto, da natureza das Árvores. Agora aprendemos que o Ano dos Valar de 1.000 dias também era devida à natureza das Árvores, uma vez que após aquele tempo as Árvores cresceriam um novo galho.

Não há a sugestão aqui de que o cálculo que cem anos das árvores constituíam um Ano dos Valar (o que nos vai de retorno ao mais antigo dos Anais, HoME IV) era relacionado com a estrutura interna das Árvores; mas é dito na seção Do Início do Tempo e seu Registro ($6) que os Mestres de Conhecimento supunham que ‘os Valar fizeram desta forma as horas das Árvores de tal forma que cem de tais anos assim medidos seriam a duração de uma era dos Valar (assim como tais eras eram nos dias de seus trabalhos antes da fundação de Valinor)’ – isto é, antes das Árvores. Uma vez que as duas passagens são separadas por apenas algumas páginas no mesmo manuscrito a presume-se que não sejam contraditórias; e tomadas em conjunto o sentido pode apenas ser que os períodos das Árvores, que eram de suas natureza, de qualquer forma eram relacionados a um modo de medida de tempo de antes das Árvores surgirem. Isto por sua vez parece exigir que os Valar sabiam, ou haviam ‘visto’, mesmo antes de Yavanna e Niënna irem ao Monte Verdejante, a natureza periódica da luz das Árvores.

O problema cosmológico é aqui acrescido de novas evidências. Os trechos relevantes nesta primeira seção do AAm são estes:

$1 Ëa é ‘o Mundo que é’; os Valar são ‘os Poderes de Ëa’.

$11 Após eras de trabalho ‘nos grandes salões de Ëa os Valar desceram à Arda no começo de sua existência’.

$13 Tulkas veio a Arda ‘de distantes regiões de Ëa’.

$17 Melkor reuniu espíritos ‘dos vazios de Ëa’; e ele ‘ele se aproximou de Arda e olhou sobre ela’.

$18 Os Valar não perceberam a sombra escura ‘lançada de longe por Melkor’.

$19 Melkor ‘atravessou os limites de Ëa’ > ‘atravessou as Muralhas da Noite nos limites de Arda’ > ‘atravessou as Muralhas da Noite’ (nota 19).

$23 O Mar de Fora ‘que englobava o reino de Arda, e além estavam as Muralhas da
Noite’.

As Muralhas da Noite não haviam sido nomeadas em nenhum outro lugar: mas é difícil de visualizar, especialmente à vista da sentença citada em $23, como elas não poderiam ser igualadas com as Muralhas do Mundo. Eu disse (página 29) que a partida de Melkor de Arda no Ainulindalë – a nova história que surgiu após O Senhor dos Anéis – levanta a questão da passagem das Muralhas do Mundo e da forma que aquele conceito tomou. A idéia de tal passagem de fato surgiu, e ainda de forma mais intrigante, no período anterior, ao final de Q, onde é dito que alguns acreditam que Melko de vez em quando retorna ao mundo, e que ele ‘rasteja de volta escalando as Muralhas’ (HoME IV). O trecho em AAm $19 (como corrigido) é inequívoco: Melkor passou sobre as Muralhas da Noite. Nós retornamos à mais antiga imaginação das Muralhas: confira meu comentário em 1.227, ‘a implicação parece clara de que as Muralhas eram originalmente concebidas como os muros de cidades terrestres, ou jardins – muros com um topo: uma “cerca em forma de anel”’. Então, podemos supor, Melkor podia ‘olhar para baixo para Arda’ ($17); então sua vasta sombra poderia ser lançada mesmo antes que ele atravessasse as Muralhas ($18); e
portanto Tulkas ($13) e os espíritos convocados por Melkor ($19) puderam entrar a ‘região cercada’ (como Arda é definida, página 7).

Mas a frase ‘ele atravessou as Muralhas da Noite’ foi uma correção do que meu pai escreveu inicialmente: ‘ele atravessou os limites de Ëa’. Isto pode significar outra coisa além de que ao entrar em Arda Melkor deixa Ëa? Nesta conexão pode-se retornar aos dois diagramas Ambarkanta de ‘Ilu’ (HoME IV), sobre os quais muito mais tarde (talvez a este tempo) meu pai fez correções a lápis ao Ilurambar ‘as Muralhas do Mundo’, alterando-a para Ëarambar (‘as Muralhas de Ëa’). (Claro, se as Muralhas não são mais concebidas como uma concha esférica – de onde veio a expressão ‘tomaram a forma de globo em meio ao Vazio’ como usada nas versões mais antigas do Ainulindalë – mas como uma fortificação ultrapassável, o Ëarambar não pode ser tomado na mesma concepção que o Ilurambar, mas apenas como um novo nome para as Muralhas, agora diferentemente concebidas; e a substituição do novo nome em antigos diagramas é, portanto, àquele ponto, enganosa). Da mesma forma é difícil perceber o que Ëarambar poderia significar que não ‘as Muralhas que isolavam para fora as vastidões escuras dos “vazios de Ëa” ‘ (uma expressão utilizada em $17), em contraste a Ilurambar ‘as Muralhas que cercavam Ilu’.

A dificuldade com isso, claro, é que Ëa em outro lugar está definido como ‘Universo daquilo que É’ (página 7), ‘Criação do Universo’ (página 39) e Ëa portanto necessariamente inclui Arda; de qualquer forma é abundantemente claro em todos os textos do período tardio que Arda está em Ëa. Mas também, em todo caso, Arda pode ser dita como separada de Ëa quando Ëa é dita ser “Espaço”.

Dentre todas as ambigüidades (mais especificamente, no uso da palavra ‘Mundo’), a evidência parece ser que nestes textos a imagem de mundo do Ambarkanta sobreviveu ao menos na concepção do Mar de Fora e se estendendo às Muralhas do Mundo, agora chamadas Muralhas da Noite – embora as Muralhas tenham sido concebidas de forma diferente (ver também $168). Agora na revisão de ‘O Silmarillion’ feita em 1951 a frase em QS $12 (HoME V) ‘as Muralhas do Mundo isolavam para fora o Vazio e a Escuridão Mais Antiga’ – uma frase em perfeita concordância, claro, com o Ambarkanta – foi mantida. Esta é uma dificuldade central com relação ao Ainulindalë, onde é feito tão claro quanto se poderia desejar que Ëa veio a existir no Vazio, tomou forma de globo em meio ao Vazio ($$11, 20); como então as Muralhas de Arda ‘isolavam para fora o Vazio e a Escuridão Mais Antiga’?

Uma possível explicação, de certa forma, pode ser deduzida em certas palavras citadas acima, do AAm $17: Melkor reuniu espíritos dos vazios de Ëa. Pode ser que, embora AAm não esteja muito tempo distante da última versão (D) do Ainulindalë, a concepção de meu pai de fato agora não está totalmente de acordo com o que ele escreveu lá; que (como sugeri, página 39) ele estava pensando em Arda como tendo sido ‘colocada dentro de uma vastidão indefinida na qual toda a ‘Criação’ está compreendida’, ao invés de uma Ëa limitada posta ela mesmo ‘em meio ao Vazio’. Então, além das Muralhas da Noite, os limites de Arda, pressionaram ‘os vazios de Ëa’. Mas esta sugestão, claro, não elimina todos os problemas, ambigüidades e contradições aparentes na cosmologia do período tardio, as quais foram discutidas anteriormente.

«

Eu mencionei que existe um texto datilografado da parte mais antiga do AAm que é bastante distinto da cópia datilografada pelo amanuense de todo o trabalho. Eu não estava ciente de sua existência quando o texto de O Silmarillion foi preparado para publicação. Ele foi tomado diretamente de e baseado de perto no manuscrito AAm, e foi com certeza feito por meu pai, que inseriu mudanças do manuscrito à medida que datilografava. Na realidade ele possui uma grande quantidade de tais mudanças, a maioria pequena ou muito pequena, mas também algumas alterações e adições importantes; e ele não inclui a seção Do Início do Tempo e seu Registro. Nenhuma dessas mudanças aparecem nas correções feitas na cópia datilografada pelo amanuense ou sua cópia em carbono, exceto a remoção da seção sobre o Registro do Tempo.

Eu irei me referir a este texto como ‘AAm*’. Aparentemente não há maneiras de determinar com certeza quando ele foi feito, e posso apenas registrar minha intuição de que ele é do mesmo período do manuscrito AAm e não de algum tempo posterior. De qualquer forma meu pai logo o abandonou. Pode ser que o colocando de lado meu pai o tenha esquecido ou o perdido; e quando surgiu a oportunidade de ter o trabalho datilografado por um secretário que era um datilógrafo treinado (como parece ser o caso) ele simplesmente entregou o manuscrito AAm como ele era (incluindo portanto a seção sobre o Registro do Tempo, embora AAm* o tenha cortado).

Eu forneço agora as mudanças dignas de nota no AAm* (que se estende um pouco além do ponto alcançado nesta primeira seção).

O preâmbulo

Aqui começam os ‘Anais de Aman’. Rúmil os fez nos Dias Antigos e eles foram mantidos na memória pelos Exilados. Aquelas partes que aprendemos e lembramos foram, portanto, escritas em Númenor antes que a Sombra caísse sobre ela.

Isto é especialmente interessante uma vez que mostra um modo de transmissão diferente da tradição ‘Pengoloð – Ælfwine’: os Anais foram concebidos como um trabalho escrito feito em Númenor, derivando dos ‘Exilados’, os Noldor na Terra-média, que o derivaram do trabalho de Rúmil. A idéia de que Númenor foi um elemento essencial na transmissão das lendas dos Dias Antigos irá reaparecer.

$1 No lugar de ‘líderes dos Valar’ AAm* tem ‘senhores dos Valar’, também subseqüentemente. Lorien foi alterado a lápis no texto datilografado para Lorion (mas não na passagem citada em $3, abaixo).

$2 Em AAm a antiga frase ’Manwë e Melkor eram os mais poderosos e eram irmãos’ foi preservada, mas AAm* tem no lugar:

Melkor e Manwë eram irmão no pensamento de Eru, e os mais antigos de sua raça, e seus poderes era iguais e maiores do que os de todos os outros que residiam em Arda. Manwë é Rei dos Valar…

É dito no tardio Ainulindalë ($$5,9) que Melkor era o mais poderoso dos Ainur, e isto, de fato, vai ao texto B do Ainulindalë, anterior ao Senhor dos Anéis (ver HoME V nota 4 para as diferentes afirmações feitas sobre o assunto). Mais tarde em AAm ($102) Fëanor ‘fecha as portas de sua casa na cara do mais poderoso de todos os moradores em Ëa’.

Este texto tem ‘Oromë e Tulkas eram os mais jovens no pensamento de Eru’ onde AAm tem ‘mais novos’

$3 Existe uma estranha mistura de presente e passado nesta passagem: há ‘Vana a bela é a mulher de Oromë’, ‘Vairë a tecelã mora com Mandos’ mas ‘Nenhuma esposa possuía Ulmo, nem Melkor’, ‘Nenhum senhor possuía Niënna’, ‘A mulher de Lorien era Estë a pálida’.

Agora não é dito que Vana (marcada Vana na primeira ocorrência mas não
subseqüentemente) era a irmã de Yavanna.

Como datilografada, a passagem começando com ‘Nenhum senhor possuía Niënna’ (escrita assim, não Niënna, em todas as ocorrências em AAm*) segue assim:

Nenhum senhor possuía Niënna, rainha da Sombra, irmã de Manwë. A mulher de Tulkas era Nessa a Jovem; e a mulher de Lorien era Estë a Pálida. Este não se sentavam nos conselhos dos Valar mas eram os maiores dentre os Maiar.

No AAm é dito apenas sobre Estë que ‘ela não vai aos conselhos dos Valar’, e seu nome não aparece na lista das rainhas dos Valar: ela é ‘a líder dos Maiar’. No texto atual, mesmo com a exclusão também de Nessa dos conselhos, e a afirmação de que ela e Estë ‘são as maiores dentre os Maiar’, seu nome continua figurando na lista das rainhas. Emendas contemporâneas ao texto datilografado produziram esta mudança notável:

Nenhum senhor possuía Niënna, irmã de Manwë; nem Nessa a Dama Eterna. A mulher de Tulkas era Lëa a Jovem; a mulher de Lorien era Estë a Pálida…

O texto então continua como antes, então as duas que não se sentam nos conselhos dos Valar e são ‘as maiores dentre os Maiar’ tornam-se Lëa e Estë. Não há vestígios deste desenvolvimento em qualquer outro texto, mas Lëa aparece de novo em AAm* no texto datilografado (ver $18 abaixo).

$4 Este parágrafo foi substancialmente ampliado:

Com estes grandes poderes vieram muitos outros espíritos do mesmo tipo, nascidos no pensamento de Eru antes da criação de Ëa, mas tendo menos poder e autoridade. Este são os Maiar, o povo dos Valar; eles são belos, mas seu número não é conhecido e poucos têm nomes entre os Elfos ou Homens.

Há também aqueles a quem chamamos Valarindi, que são ps Filhos dos Valar, nascidos de seu amor depois de suas entradas em Ëa. Eles são os filhos mais velhos do Mundo; e embora seu existir comece dentro de Ëa, mesmo assim são da raça dos Ainur, que eram antes do mundo, e eles têm poder e nível abaixo apenas dos Valar.

$12 No fim deste parágrafo AAm* acrescenta: ‘E passaram muitos anos dos Valar em conflito’.

$14 A data A.V. 1900 da criação das Lâmpadas é omitida em AAm*.

$15 AAm* mantém as palavras de AAm, ‘e aconteceu um grande crescimento de árvores e ervas, e bestas e pássaros vieram…’ Veja o comentário sobre este trecho: a referência à aparição dos pássaros e flores a este tempo foi removida do Ainulindalë D pelo que parece ter sido uma mudança bem antiga no texto, e nisto está a sugestão de que as duas versões do início dos Anais de Aman pertencem mais ou menos à mesma época.

$17 Este parágrafo sofreu várias alterações:

Melkor sabia de tudo que fora feito pois mesmo então ele tinha amigos secretos entre os Maiar, que ele convertera à sua causa, seja no primeiro cantar do Ainulindalë ou mais tarde em Ëa. Destes o principal, como mais tarde ficou conhecido, era Sauron, um grande artífice da casa de Aulë. E distante em lugares escuros, para onde ele havia recuado, Melkor estava cheio de um novo ódio, invejoso do trabalho de seus pares, os quais ele desejava tornar sujeitos a si mesmo. Então ele reuniu para si espíritos dos vazios de Ëa que o serviam, até que ele considerou que era forte; e vendo novamente seu tempo ele se aproximou de Arda e olhou sobre ela, e a beleza da Terra e sua Primavera o deixou maravilhado, mas por não ser dele, resolveu destruí-la.

$ 18 Aqui Lëa a Jovem, mulher de Tulkas, aparece novamente, no texto datilografado e não por emenda (ver em $3 acima), chamada agora Lëa-vinya (‘Lëa a Jovem’):

É dito que naquela festa da Primavera de Arda Tulkas desposou Lëa-vinya, a mais bela das damas de Yavanna, e Vana cobriu-a com as flores que floresceram primeiro; e ela dançou perante os Valar…

Sobre a referência às primeiras flores ver $15 acima.

$19 AAm* tem ‘as Muralhas de Noite’ ao invés de ‘as Muralhas da Noite’, e de novo em $23.

$20 Melkor começou a escavação e construção de uma vasta fortaleza profundamente sob a Terra, [riscado: abaixo das raízes da] longe da luz de Illuin; e ele criou grandes montanhas sobre seus salões. Aquele forte foi mais tarde chamado Utumno o Esconderijo profundo; e por um longo tempo os Valar não souberam de nada disso…

No AAm Utumno foi escavado ‘embaixo de montanhas escuras’; o novo texto, no qual Melkor cria montanha acima dele (como as Thangorodrim acima de Angband), surgiu no momento da datilografia.

$21 Onde AAm tem ‘E ele atacou as luzes de Illuin e Ormal’ AAm* tem:

E ele veio do Norte como uma tempestade escura, e ele atacou as luzes de Illuin e
Ormal.

$22 A conclusão deste parágrafo em AAm, ‘que ainda viriam em um tempo que era
escondido dos Valar’, é omitida no AAm*.

$23 A palavra ‘deuses’ foi removida em AAm* de ambas as ocorrências: no início do
parágrafo ‘os deuses não tinha residência na face da terra’ tornou-se ‘eles não
tinham’, e perto do final ‘pois os deuses moravam ali’ tornou-se ‘pois os
Servos de Ilúvatar moravam ali’.

A Terra de Aman estava ‘nas bordas do mundo antigo’ (isto é, o mundo antes do Cataclismo); ‘nas bordas do mundo’ em AAm. A passagem a respeito de Taniquetil
foi alterada para :

E acima de todas as montanhas das Pelóri estava o pico que foi chamado Taniquetil Oiolossë, o brilhando pico de Sempibranco, sobre cujo topo Manwë colocou seu trono, ante as portas dos salões do domo de Arda.

$25 Em AAm é dito que ‘os Valar construíram sua cidade’; AAm* trás: …no meio da
planície a oeste das Pelóri Aulë e seu povo construíram para eles uma bela cidade. Aquela cidade eles nomearam Valimar a Abençoada.

Isto é uma reaparição dos Contos Perdidos; confira HoME I: ‘Agora eu recontei o estilo das moradias de todos os grandes Deuses as quais Aulë seu artífice criou em Valinor’. – Esta é a primeira ocorrência da forma Valimar (e novamente em $$26,28 deste texto).

$26 Após as palavras ‘Mas Niënna pensava em silêncio, e molhava o solo com lágrimas’ há uma nota de rodapé na nova versão:

Pois é dito que mesmo na Música Niënna atuou pouco, mas prestou muita atenção a tudo que ouviu. Portanto ela é rica em memória, de grande visão, percebendo como os temas deveriam se desenrolar no Conto de Arda. Mas ela tinha pouca alegria, e todo seu amor era mesclado com piedade, lamentando pelos danos ao mundo e pelas coisas que falharam em atingir a completude. Tão grande era sua comiseração, é dito, que ela não pode suportar até o final da Música. Por isso ela não tem a esperança de Manwë. Ele tem maior visão; mas Piedade é o coração de Niënna.

Sobre esta passagem ver nota 2. A afirmação aqui de que Niënna ‘não pode suportar até o final da Música’ é bastante dramática; mas não é dito no que a esperança de Manwë se baseia. Pode ser relevante relembrar a nota de rodapé de Pengoloð ao Ainulindalë D, $19:

E alguns disseram que a Visão cessou antes da completude do Domínio dos Homens e o esvaecer dos Primogênitos; por isso, embora a Música esteja acabada, os Valar não viram com a visão as Eras Tardias ou o final do Mundo.

$28 Por ‘guardada em grandes vasos’ AAm* tem ‘guardada em poços profundos’.

*

Restam a ser consideradas as poucas emendas feitas nesta seção inicial ao texto de AAm datilografado pelo amanuense, e aquelas (quase completamente diferentes) feitas à cópia em carbono. Estas mudanças são apressadas, e casuais, em nenhum sentido uma revisão real do trabalho. Eras foram feitas em algum momento posterior que eu sou incapaz de definir; mas elas tiveram o efeito de trazer o início de AAm em acordo com a forma mais tardia da outra tradição, procedente do capítulo 1 de QS ‘Dos Valar’ e em última análise refletindo no trabalho curto e independente Valaquenta.

No topo da cópia do texto datilografado não apenas a seção sobre o Registro do Tempo foi mas também o comprimido relato dos Valar no início: uma nota na página de rosto do texto informa que os Anais devem começar no Primeiro Ano dos Valar em Arda ($11). Mas mudanças a lápis foram feitas a $$1-4 antes disso:

$1 ‘nove líderes’ > ‘sete líderes’; Ossë e Melkor foram riscados da lista. Sobre a remoção de Ossë ver $70.

$2 A palavra ‘também’ adicionada a ‘As rainhas dos Valar também eram sete’; Estë
adicionada e Uinen removida, de forma que a lista se torna ‘Varda, Yavanna, Niënna, Estë, Vairë, Vana e Nessa’.

$3 ‘Varda era a esposa de Manwë desde o início’ > ‘Varda era a esposa de Manwë desde o início de Arda’

‘e Uinen, senhora dos mares, é esposa de Ossë’ foi riscado (simplesmente uma
conseqüência de Ossë não ser mais listado entre os ‘líderes’).

‘irmã de Manwë e Melkor’ (sobre Niënna) foi riscado.

‘mas ela não vai aos conselhos dos Valar e não é registrada entre os regentes de Arda, mas é a senhora dos Maiar’ (sobre Estë) foi riscado (uma conseqüência de agora Estë ser incluída entre as ‘rainhas’).

$4 Está riscado de ‘E entre eles são contados os Valarindi…’ até o fim do parágrafo (ver abaixo).

$28 ‘grandes vasos’ > ‘poços brilhantes’ (compare com a mudança feita em AAm*).

Mudanças bastante diferentes foram feitas na cópia em carbono nesta seção sobre os Valar. Em $3 ‘a mulher de Oromë’ e ‘mulher de Tulkas’ foram alteradas para a esposa de Oromë e esposa de Tulkas. ‘Nenhum senhor possui Niënna’ foi alterado para ‘Nenhum companheiro tinha Niënna’; e na margem ao lado destas mudanças meu pai escreveu:

Note que ‘esposa’ significa apenas uma ‘associação’. Os Valar não tinham corpos, mas podiam assumir formas. Após a chegada dos Eldar ele mais freqüentemente usavam formas ‘humanas’, embora mais altas (não gigantes) e mais magnificentes.

Ao mesmo tempo a passagem referente aos Valarindi, os Filhos dos Valar, ao final de $34, foi riscada (assim como no texto principal), uma vez que esta nota é a afirmação mais definitiva de que quaisquer concepções desta forma estavam fora de cogitação.

Algumas poucas outras escritas a lápis foram feitas em pontos subseqüentes da cópia em carbono:

$20 Ao lado de Utumno está escrito a lápis: ‘UtupnÅ­ √TUI? ocultar, esconder’; com isto confira AAm* $20: ‘aquele forte foi mais tarde chamado Utumno o Esconderijo profundo’, e veja as Etimologias (HoME V), raiz TUB, onde a forma original do nome é dada como *Utubnu.

$23 Onde a palavras ‘deuses’ foi substituída por ‘os Servos de Ilúvatar’ em AAm* meu pai corrigiu a cópia em carbono do texto datilografado para ‘os Imortais’. Na ocorrência de ‘deuses’ no início do parágrafo ele fez a mesma mudança (para ‘eles’) que em AAm*.

$25 Após ‘um monte verdejante’ foi adicionado Ezellohar; e em $26 Ezellohar substitui ‘aquele Monte Verdejante’.

O Diálogo de Manwë e Eru

A ressurreição Élfica foi um dos problemas que gerou mais esforço por parte de Tolkien em sua solução. Milhares de linhas foram escritas, dando origem a textos clássicos e essenciais como Athrabeth Finrod ah Andreth, Comentário do Athrabeth Finrod ah Andreth e Leis e Costumes entre os Eldar. E hoje a Valinor tem a honra de publicar O Diálogo de Manwë e Eru, diretamente do The History of Middle-earth X, o qual trata de muitas particularidade espinhosas da ressurreição e renascimento Élfico.
“O Diálogo de Manwë e Eru”
e concepções tardias da reencarnação Élfica

 

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A afirmação no início da Nota 3 do Comentário sobre o Athrabeth Finrod ah Andreth de que “na tradição élfica sua reencarnação era uma permissão especial concedida por Eru a Manwë, depois que Manwë consultou-O diretamente na época do debate a respeito de Finwë e Míriel” parece muito estranha à luz de Leis e Costumes entre os Eldar, onde é dito bem explicitamente que “Um fëa desabrigado que escolhera, ou ao qual fora permitido retornar à vida, entrava novamente no mundo encarnado através do parto. Somente desse modo ele poderia retornar” (para o que tal ‘raro e estranho caso’ como o de Miriel, que foi ‘retornada a seu próprio corpo’, é registrado como a única exceção). Em Leis e Costumes existe uma pressuposição sobre todo o caso de que Miriel poderia, pela natureza das coisas, retornar da morte se ela quisesse; assim disse Ulmo no Debate dos Valar que “o fea de Miriel pode ter partido por necessidade, mas ele partiu no desejo de não retornar” e que “portanto era falta dela”. Não se pode pensar que o Leis e Costumes foi escrito sobre a base de que o renascimento foi apenas “dado como uma permissão especial” por Eru a Manwë “à época do debate relativo a Finwë e Miriel”, uma idéia sobre a qual não há dica ou sugestão naquele trabalho.A explicação disso é que após a escrita de Leis e Costumes as visões de meu pai com relação ao destino dos Elfos que morreram passaram por uma mudança radical, e a passagem citada da Nota 3 do Comentário sobre o Athrabeth não se refere ao “renascimento”, de forma alguma.Existe um texto intitulado “O Diálogo de Manwë e Eru”, que se segue a Leis e Costumes mas precede o Comentário sobre o Athrabeth. Este trabalho (datilografado) foi planejado para ser duplo, a primeira parte sendo as questões de Manwë e as respostas de Eru, e a segunda uma discussão filosófica elaborada sobre o significado e implicações; mas foi abandonado antes de ter sido terminado, e uma segunda e mais ampla versão do ”Diálogo” foi interrompida após apenas poucas páginas. Eu forneço a primeira parte, o “Diálogo”, apenas, na versão curta revisada original.

Manwë falou a Eru, dizendo: “Veja! um mal apareceu em Arda o qual não estávamos esperando: os Filhos Primogênitos, a quem Vós fizestes imortais, sofrem agora separação de espírito e corpo. Muitos dos fear dos Elfos na Terra-média estão agora desabrigados; e mesmo em Aman há um. Os desabrigados convocamos a Aman, para protegê-los da Escuridão, e todos que ouviram nossa voz residem aqui em espera. O que deve ser feito em seguida? Não há meios pelos quais suas vidas podem ser renovadas, para seguirem os cursos que Vós designastes? E o que fazer com os desapossados que lamentam aqueles que se foram?“Eru respondeu: “Que os desabrigados sejam re-abrigados!”

Manwë perguntou: “Como isto deverá ser feito?”

Eru respondeu: “Que o corpo que foi destruído seja refeito. Ou permita-se ao fea nu renascer como uma criança”.

Manwë disse: “É Vossa vontade que tentemos tais coisas? For tememos interferir com Vossos Filhos”.

Eru respondeu: “Não dei aos Valar o governo de Arda, e o poder sobre todas as substâncias desta, para modelá-la por suas vontades sob Minha vontade? Não sejam relutantes nestas coisas. Com relação aos meus Primogênitos, não removeste grandes números deles para Aman da Terra-média onde eu os coloquei?”

Manwë respondeu: “Isto nós fizemos, por medo de Melkor, e com boa intenção, e não sem apreensão, Mas usar nosso poder sobre a carne que Vós designastes, para abrigar ps espíritos de Vossos Filhos, parece um assunto além de nossa autoridade, mesmo não sendo além de nossas habilidades”.

Eru disse: “Eu dou a vocês a autoridade. As habilidades vocês já possuem, se forem prestarem atenção. Olhem e verão que cada espírito dos Meus Filhos retém em si mesmo a completa impressão e memória de sua antiga moradia; e em sua nudez é aberto a vocês, de forma que podem perceber claramente tudo que está nele. Com base nesta impressão podem criar para ele novamente uma tal casa em todos os particulares como era antes do mal ter caído sobre ele. Então podem mandá-lo de volta às terras dos Viventes”.

Então Manwë perguntou mais: “Ó Iluvatar, não falastes vós também de renascimento? Isto está também dentro de nossos poderes e autoridades?”

Eru respondeu: “Estará sob suas autoridades, mas não sob seus poderes. Aqueles que considerarem aptos a renascer, se eles o desejarem e o compreenderem claramente em que incorrem, mandarão para Mim; e Eu os considerarei”.


Será visto que dimensões completamente novas da questão sobre o retorno dos Mortos aos Viventes são criadas. Meu pai veio a pensar que antes da morte de Miriel não houve nenhum “re-abrigar” dos fear dos Mortos, e que foi apenas em resposta ao apelo de Manwë que Eru decretou tal possibilidade e as maneiras pelas quais poderia ser conduzida. Um de tais modos é o renascimento do fea como uma criança, mas tal Morto que assim o desejar deve ser entregue a Eru para aguardar Seu julgamento do caso. A outra maneira é a criação, pelos Valar, de “uma tal casa em todos os particulares como era antes do mal ter caído sobre ele”: a reencarnação do Morto em um hroa idêntico àquele sobre o qual a Morte veio. A longa discussão que se segue ao “Diálogo” é em sua maior parte preocupada com as idéias de “identidade” e “equivalência” em relação a esta forma de reencarnação,  representada como um comentário feito por Mestres de Conhecimento Eldarin.Um manuscrito escrito rapidamente em pequenos pedaços de papel, intitulado “Reencarnação dos Elfos”, parece mostrar as reflexões de meu pai sobre o assunto entre o abandono dO Diálogo de Manwë e Eru e o Comentário sobre o Athrabeth. Nesta discussão ele se refere com uma expressão rápida e elíptica sobre as dificuldades em cada nível (incluindo práticos e fisiológicos) da idéia de reencarnação do fea em uma criança recém-nascida de novos pais, que ao crescer recupera as memórias de sua vida anterior: “a objeção mais fatal” sendo que “isto contradiz a noção fundamental de que fea e hroa são feitos um para o outro: uma vez que o hroar tem uma continuação física, o corpo de renascimento, que tendo pais diferentes, deve ser diferente”, e isto deve ser uma condição de dor para o fea renascido.

Aqui ele estava abandonando, e definitivamente, a concepção de renascimento de há muito como um modo pelo qual os elfos poderiam retornar à vida encarnada: de seu escrutínio da idéia mítica, questionando sua validade nos termos em que ele a adotara, veio a parecer a ele uma falha séria na metafísica da existência Élfica. Mas, ele disse, isto era um “dilema”, pois a reencarnação dos Elfos “parece um elemento essencial dos contos”. “A única solução”, ele decidiu em sua discussão, era a idéia do refazer em forma idêntica o hroa do morto na maneira declarada por Eru nO Diálogo de Manwë e Eru: o fea mantém uma memória, uma impressão, de seu hroa, sua “antiga moradia”, tão poderosa e precisa que a reconstrução de um corpo idêntico pode seguir dela.

A idéia de um “Diálogo” entre Manwë e Eru não foi abandonado, e de fato é citado no “Reencarnação dos Elfos” (mas o “Diálogo” como dado acima já devia existir, uma vez que Eru expressamente declara o renascimento como um modo de reencarnação aberto ao fea “desabrigado”, uma vez que na presente discussão tal idéia é firmemente rejeitada e não encontra lugar na “única solução” para o “dilema”). A nova concepção procede, delineada, como segue. A Música dos Ainur não contém nenhuma previsão da morte dos Elfos e a existência de seus fear “desabrigados”, uma vez que de acordo com sua natureza eles seriam imortais dentro da existência de Arda. Existiam muitos de tais fear de Elfos que morreram na Terra-média reunidos nos Salões de Mandos, mas não foi antes da morte de Miriel em Aman que Manwë apelou diretamente a Eru por conselho. Eru “aceitou e ratificou a posição” – embora deixando claro a Manwë que os Valar deveriam ter contestado a dominação de Melkor na Terra-média bem mais cedo, e que a eles faltou estel: eles deveriam ter acreditado que em uma guerra legítima Eru não teria permitido a Melkor realizar tão grandes danos a Arda que os Filhos não pudessem surgir ou não pudessem habitá-la (confira  LQ $20: “E Manwë disse aos Valar: “Este é o conselho de Iluvatar em meu coração: que nós devemos retomar o governo de Arda, a qualquer custo, e livrar os Quendi das sombras de Melkor”. Então Tulkas ficou satisfeito; mas Aule lamentou, e é dito que ele (e outros Valar) antes não quiseram disputar com Melkor, prevendo as feridas do mundo que adviriam desta batalha”).

É então dito que “todos os fear dos Mortos vão para Mandos em Aman: ou melhor, eles agora são convocados até lá pela autoridade dada por Eru. Um local é feito para eles”. Isto parece significar que a Mandos foi dado o poder de convocar os espíritos dos Mortos para Aman; as palavras seguintes  “Um local é feito para eles” são difíceis de compreender, uma vez que elas parecem negar até mesmo que os Salões de Espera existiam antes de Manwë falar com Eru (apesar da afirmação anterior em “Reencarnação dos Elfos” de que existiam muitos fear desabrigados reunidos em Mandos antes do “Diálogo” acontecer).

Aos Valar agora foi dada a autoridade para reencarnar os fear dos Elfos que morreram em hroar idênticos àqueles que perderam; e o texto continua: O fea re-abrigado normalmente irá permanecer em Aman. Apenas em casos bastante excepcionais, como Beren e Lúthien,  eles serão transportados de volta à Terra-média… uma vez que a morte na Terra-média tinha muito do mesmo tipo de tristeza e separação para Elfos e Homens. Mas, como Andreth viu, a certeza de viver novamente e fazer coisas em forma encarnada faz uma diferença vital para a morte como um terror pessoal (confira o Athrabeth).

No que parece ser um segundo pensamento meu pai então pergunta se não seria possível que o fea “desabrigado” fosse permitido (sendo instruído) reconstruir seu hroa a partir de sua memória (e isto, como parece do bastante tardio texto sobre o assunto da reencarnação de Glorfindel de Gondolin, tornou-se sua visão firme e estabelecida sobre o assunto). Ele escreve aqui: “A memória de um fea da sua experiência é evidentemente poderosa, vívida e completa. Assim a concepção subjacente é que ‘matéria’ será elevada a ‘espírito’, tornando-se parte de seu  conhecimento – e então tornada imortal e sob o comando do espírito. Como os Elfos remanescentes na Terra-média lentamente ‘consumiam’ seus corpos – ou os tornavam vestimentas da memória? A ressurreição do corpo (pelo menos no que se refere aos Elfos) era em um certo sentido incorpórea.  Mas apesar de poder ultrapassar barreiras físicas a vontade, ele também poderia a vontade opor resistência à matéria. Se você tocasse um corpo ressuscitado você o sentiria. Ou se ele desejasse poderia apenas iludi-lo – desaparecer. Sua posição no espaço era à vontade”.

Nem no trecho sobre a reencarnação contido no Comentário sobre o Athrabeth (parágrafo 6) nem na Nota 3 que se refere a ele há qualquer menção sobre renascimento; enquanto que este último evidentemente ecoa as palavras do “Reencarnação dos Elfos”. Isto fica fortemente visível na Nota 3, mesmo que não expressamente dito, que foi apenas ao tempo do diálogo de Manwë com Eru que a Mandos foi dado o poder  de de fato convocar os fear dos Mortos; e a passagem que se segue a esta na Nota é bastante similar ao que é dito na “Reencarnação dos Elfos”:

“Lá lhes era dada a escolha de permanecerem desabrigados ou (se desejassem) serem re-alojados na mesma forma e aspecto que possuíam. Não obstante, geralmente eles devem permanecer em Aman. Portanto, se habitassem na Terra-média, a sua privação em relação aos amigos e parentes, e a privação destes, não era corrigida. A morte não era completamente curada. Mas como Andreth observou, esta certeza a respeito de seu futuro após a morte, e o conhecimento de que eles pelo menos seriam capazes (caso desejassem), como encarnados, de fazer e criar coisas e continuar sua experiência de Arda, tornava a morte para os elfos algo totalmente diferente da como essa era vista pelos homens.”

Um ponto interessante com respeito à cronologia da composição surge da afirmação encontrada tanto na “Reencarnação dos Elfos” quanto na Nota 3 do Comentário de que a morte dos Elfos e a morte dos Homens eram coisas diferentes, “como Andreth observou”. Portanto o Athrabeth já existia quando o “Reencarnação dos Elfos” foi escrito; mas o Comentário se seguiu ao “Reencarnação”. Isto parece ser uma evidência clara de que existiu um intervalo entre a escrita do Diálogo de Finrod e Andreth e a escrita do Comentário sobre o mesmo.

Uma última passagem do “Reencarnação dos Elfos” deve ser mencionada. Em uma espécie de “à parte” do curso de seus pensamentos, movendo-se (ainda) mais rapidamente do que  sua caneta, meu pai anotou que “a exata natureza da existência em Aman ou Eressea após suas ‘remoções’ deve ser dúbia e inexplicada”, da mesma forma que a questão sobre “como ‘mortais’ poderiam ir até lá, de qualquer forma”. Sobre isto ele observou que Eru tinha “muito antes” deixado os Mortos dos mortais sob responsabilidade de Mandos; confira QS $86:

“O que advinha a seus espíritos após a morte os Elfos não sabiam. Alguns dizem que eles também vão para os salões de Mandos; mas seu local de espera não é aquele dos Elfos; e exceto por Manwë apenas Mandos abaixo de Ilúvatar sabe para onde vão após o tempo de sua permanência naqueles salões silenciosos além do Mar do Oeste. A jornada de Frodo (ele foi) a Eressea – então a Mandos? – foi apenas uma forma estendida disso. Frodo eventualmente iria deixar o mundo (desejando fazê-lo). Então a partida no navio foi equivalente à morte”.

Isto pode contrastar com o que ele escreveu no final de registro sobre O Senhor dos Anéis em sua carta de 1951 a Milton Waldman (uma passagem omitida nas Cartas  mas publicada no HoMe IX):

A Bilbo e Frodo foi concedida a graça especial de partir com os Elfos que eles amavam – um final Arturiano, no qual, claro, não é deixado explícito se é uma “alegoria” da morte ou um modo de cura e restauração levando a um retorno.

Em sua carta a Naomi Mitchison de Setembro  de 1954  (Cartas No. 154), contudo, ele disse:

… a idéia mítica subjacente é de que para os mortais, uma vez que sua ‘raça’ não poderia ser alterada para sempre, esta seria apenas uma recompensa estritamente temporária: uma cura e um remediar do sofrimento. Eles não poderiam residir para sempre, e embora não pudesse retornar à terra mortal, eles podiam e iriam ‘morrer’ – de livre vontade e deixar o mundo. (Neste contexto o retorno de Arthur seria totalmente impossível, uma imaginação vã).

E muito mais tarde, em um rascunho de uma carta de 1963 (Cartas No. 246), ele escreveu:

Frodo foi enviado ou a ele foi permitido passar sobre o mar para curá-lo – se tal poderia ser feito, antes dele morrer.  Eventualmente ele iria ‘morrer’: nenhum mortal poderia, ou pode, residir para sempre na terra, ou no Tempo. Então ele foi tanto ao purgatório quanto a uma recompensa, por algum tempo: um período de reflexão e paz e obtenção de uma compreensão mais verdadeira de sua posição  na pequeneza e na grandeza, passando um Tempo na natureza de ‘Arda Não-Desfigurada’, a Terra intocada pelo mal.

 

Tal-elmar

225px-the_peoples_of_middle-earth.jpgA Valinor tem o orgulho de traduzir e publicar Tal-elmar, que é um dos textos mais “diferentes” de Tolkien, com exceção do “The Notion Club Papers” (que logo veremos aqui na Valinor). É um texto do The History of Middle-earth 12, na verdade o fechamento deste volume e de toda a série The History of Middle-earth. Ele mostra a chegada dos Numenorianos à Terra-média através de um dos “Homens Médios”, um membro da raça dos homens aparentada aos numenorianos, mas não tão imponente quanto estes (os “Alto Homens”) nem tem baixa quanro os “Homens Selvagens”. Espero que gostem! Comentários de Christopher Tolkien em itálico e todas as notas são de Christopher Tolkien.
TAL-ELMAR
O conto de Tal-Elmar, até onde o mesmo vai, está preservado em um papel dobrado, datado de 1968, no qual meu pai escreveu a seguinte nota apressada:
Tal-Elmar.Começo de um conto que vê os Numenorianos do ponto de vista dos Homens Selvagens. Ele começa sem muita consideração com a geografia (ou a situação como imaginada em O Senhor dos Anéis). Mas ele permanecer como um conto em separado apenas vagamente conectado com a história desenvolvida nO Senhor dos Anéis ou – como acredito – deve recontar a chegada dos Numenorianos (Amigos-dos-Elfos) antes da Queda e representar suas escolhas de portos permanentes. Portanto a geografia deve ser alterada para se encaixar àquela da foz do Anduin e do Langstrand.

Mas isto foi escrito treze anos depois dele ter abandonado a história e não há sinais dele ter retornado a ela em seus últimos anos. Curta como é e (como parece) incerta em seu direcionamento, tal distanciamento de todas os outros temas narrativos dentro do compasso da Terra-média servirá, talvez, como uma conclusão adequada a esta História.

O texto se encontra em duas partes. A primeira é formada por seis páginas datilografadas que se encerram no meio de uma sentença; mas a primeira parte deste existe também como uma página rejeitada, parte datilografada parte manuscrita (ver nota 5). Além deste ponto a história inteira está na primeira fase de composição. A segunda parte é um manuscrito no qual meu pai escreveu ‘Continuação de Tal-Elmar’ e a data Janeiro 1955; não há indicação de quanto tempo se passou entre as duas partes, mas eu acredito que o trecho datilografado também pertence à década de 1950. É digno de nota que ele estivesse trabalhando nele durante o período de extrema pressão entre a publicação de As Duas Torres e a de O Retorno do Rei. Este manuscrito retoma a história de onde ela parou no trecho datilografado, mas não completa a sentença deixada sem fim; ele se torna progressivamente mais difícil e em uma seção está no limite da legibilidade, com algumas palavras ininterpretáveis. No final da narrativa há passagens experimentais e questionamentos. A não ser em poucos casos, eu não relatei as alterações realizadas no texto e dou apenas a última versão; e em um ou dois casos eu alterei usos inconsistentes de ‘vós’ e ‘você’.

Nos dias dos Reis da Escuridão, quando um homem poderia andar sem molhar os pés desde o Nascer do Sol até o Mar onde ele se põe, viveu em uma cidade paliçada de seu povo nas colinas verdejantes de Agar um velho homem, de nome Hazad Barbalonga (1). Dois orgulhos ele tinha: no número de seus filhos (dezessete ao todo) e no comprimento de sua barba (cinco pés, sem esticar); mas sua satisfação devido à sua barba era a maior das duas. Pois ela permanecia com ele e era macia e obediente à sua mão, enquanto seus filhos em sua maior parte o deixaram e aquele que permaneciam ou visitavam esporadicamente não eram nem gentis nem obedientes. Eles eram muito como Hazad havia sido nos dias de sua juventude: entroncados, de pele escura, baixos, rígidos, de línguas afiadas, mãos pesadas e rápidos à violência.

Exceto por um deles, o mais jovem. Tal-elmar Hazad o havia nomeado. Ele ainda não tinha dezoito anos de idade e vivia com seu pai e os outros dois filhos mais novos. Ele era alto, de pele clara e havia uma luz em seus olhos cinzentos que se inflamava quando ele se enfurecia; e embora fosse raro e nunca sem uma boa razão, era algo a se recordar e ter cuidado. Aqueles que haviam visto o fogo o chamavam de Olhos-brilhantes e o respeitavam, amassem-no ou não. Pois Tal-elmar parecia, dentre aquele povo entroncado e de pele escura, esbelto e sem a força nos pernas e pescoço que eles prezavam, mas um homem que brigasse com ele logo perceberia ele ser mais forte do que parecia, rápido e ligeiro, difícil de segurar e mais difícil ainda de escapar.

Ele tinha uma bela voz, que fazia até mesmo o idioma rude daquele povo mais suave de se ouvir, mas ele não falava muito; e freqüentemente ele permanecia quieto enquanto os outros conversavam, com um olhar em sua face que os demais corretamente interpretavam como orgulho, embora não fosse o orgulho de um mestre, mas antes o orgulho de alguém de uma raça estrangeira que o destino lançou em meio a um povo ignóbil e lá o manteve em servitude. Pois Tal-elmar trabalhava pesado em tarefas domésticas, não sendo nada além do filho mais novo de um homem velho, que tinha pouca riqueza restando além de sua barba e de uma reputação de sabedoria. Mas estranhamente (para aquela cidade) ele servia a seu pai de boa vontade e o amava, mais do que todos os seus irmãos juntos e mais do que era o costume de qualquer filho naquela terra. De fato era mais comum o brilho ser visto em seus olhos quanto estava defendendo seu pai.

Pois Tal-elmar possuía uma estranha crença (de onde ela viera era um mistério) de que os velhos deveriam ser tratados com carinho e cortesia, e deveria ser permitido viver o resto de seus dias com o máximo de conforto que pudessem. ‘Se precisarmos contrariá-los’, ele dizia, ‘que seja com respeito; pois eles já viram muitos anos e, muitas vezes, talvez, enfrentaram os males que ainda não encontramos. E não se ressinta de sua comida ou seu quarto, pois eles trabalharam mais do que você e não recebem agora, tardiamente, mais do que uma parte do pagamento que lhes é devido’. Tal tolice não tinha efeitos nos costumes de seu povo, mas era lei em sua casa; e já se passaram dois anos desde que qualquer de seus irmãos ousou quebrá-la (2).

Hazad amava bastante seu filho mais jovem, em retorno a seu amor e ainda mais por outra razão que ele mantinha em seu coração: sua face e voz o lembravam de outra pessoa que há muito ele sentia falta. Pois Hazad também havia sido o filho mais jovem de sua mãe e ela morrera quando ele era uma criança; e ela não era de seu povo. Tal era o conto que ele ouvira, não abertamente, pois o mesmo não dava moral à sua casa: ela viera de um povo estranho, cheio de ódio e orgulhoso, do qual se ouvia rumores nas terras do oeste e vinha do Leste, como era dito. Altos, belos e com olhos brilhantes eles eram, com armas brilhantes feitas por demônios em colinas de fogo. Lentamente eles iam em direção ao Mar, expulsando em sua passagem os antigos moradores de suas terras.

Não sem resistência. Ocorreram batalhas nas fronteiras do leste e uma vez que o povo mais antigo ainda era numeroso, os recém-chegados algumas vezes sofriam grandes perdas e eram expulsos. De fato pouco se ouvira deles nas Colinas de Agar, distante no oeste, por mais de uma vida de homem, desde a grande batalha sobre a qual canções ainda eram cantadas. No vale de Ishmalog ela fora travada, contavam os sábios, e lá uma grande horda do povo Bárbaro foi emboscada em um local estreito e assassinada aos montes. E naquele dia muitos foram feitos cativos; por isso não havia mais agitação nas fronteiras ou lutas com guardas avançadas: todo um povo da Raça Bárbara estivera se movendo com suas carroças e gado e mulheres.

Buldar, pai de Hazad, estivera no exército do Rei do Norte (3) que fora enviado para Ishmalog (4), e ele trouxe como espólio de guerra um ferimento, uma espada e uma mulher. E ela era afortunada; pois o destino dos cativos era curto e cruel, e Buldar a tomou como esposa. Pois ela era bela e a tendo visto ele não desejava qualquer mulher de seu próprio povo. Ele era um homem de riqueza e poder naqueles tempos e fez como quis, escarnecendo o escárnio de seus vizinhos. Mas assim que sua esposa, Elmar, aprendeu o suficiente da fala de seu novo grupo um dia ela disse a Buldar: eu tenho muito que te agradecer, senhor; mas não penses que terás meu amor. Pois me tiraste de meu próprio povo e daquele que eu amava e do filho que eu dera a ele. A eles sempre sentirei falta e chorarei, e darei meu amor a mais ninguém. Nunca mais serei satisfeita enquanto for mantida cativa entre um povo estranho que eu vejo como baixo e desagradável.

‘Que assim seja’, disse Buldar. ‘Mas não deves pensar que eu deveria deixá-la livre. Pois és preciosa ao meu olhar. E considere bem: em vão é tentar escapar-me. Longo é o caminho até o restante de teu povo, se algum ainda está vivo; e não irias longe das Colinas de Agar e encontrarias a morte ou uma vida muito pior do que a aquela que terias em minha casa. Baixos e desagradáveis nos chamastes. Com razão, talvez. Mas verdade também é que vosso povo é cruel e sem lei e amigos de demônios. São ladrões. Pois nossas terras o são nossas desde há muito, as quais vocês nos arrancam com suas lâminas cruéis. Peles claras e olhos brilhantes não são desculpas para tais atos’.

‘Não são?’, disse ela. ‘Então também não o são pernas grossas e ombros largos. Ou por que meios ganhastes estas terras de que fala? Não existe, como escutei falarem, um povo selvagem em cavernas nas montanhas, que outrora correram livres por aqui, até que seu povo de pele escura veio e os caçou como lobos? Mas eu não falo de diretos, mas de tristeza e amor. Se eu preciso morar aqui, então morarei, como alguém cujo corpo está aqui à tua vontade, mas meu pensamento longe noutro lugar. E esta vingança eu terei: enquanto meu corpo for mantido aqui em exílio, o quinhão de todo este povo diminuirá e o teu mais do que todos; mas quando meu corpo for para dentro desta terra estrangeira e meu pensamento ficar livre dele, então entre os teus surgirá um que é apenas meu. E com seu surgimento chegará o fim do teu povo e a queda do teu rei’.

Após isto Elmar não falou mais nada sobre este assunto; e ela era de fato uma mulher de poucas palavras enquanto sua vida durou, exceto para seus filhos. Para eles falava muito quando ninguém estava perto e ela cantava para eles muitas canções em uma língua bela e estranha; mas eles não lhe davam atenção ou logo esqueciam. Exceto Hazad, o mais jovem; e embora ele fosse, assim como todos os outros filhos, diferentes em corpo, ele era o mais próximo em coração. As canções e a estranha língua ele também esqueceu quando cresceu, mas sua mãe ele nunca esqueceu; e ele se casou tarde, pois nenhuma mulher de seu povo lhe parecia desejável, ele que conhecera o que a beleza em uma mulher deveria ser (5).

Não que existissem muitas para cortejar, pois como Elmar falara, o povo de Agar diminuiu com os anos, devido a climas ruins e pestes, e mais do que todos foi atingido Buldar e seus filhos; e eles se tornaram pobres e outras famílias tomaram o poder deles.  Mas Hazad não sabia da previsão de sua mãe, e devido à sua memória amava Tal-elmar, e por isso assim o nomeara em seu nascimento.

Por acaso em uma manhã de primavera quando seus outros filhos partiram para o trabalho Hazar manteve Tal-elmar a seu lado, e andaram juntos e se sentaram sobre o verdejante topo da colina acima da cidade de seu povo; e eles olharam para o sul e oeste onde podiam ver ao longe a grande baía onde o Mar adentrava na terra, e brilhava como vidro cinzento. E os olhos de Hazad estavam ficando fracos com a idade, mas os de Tal-elmar eram aguçados e ele viu o que pensou ser três pássaros estranhos sobre as águas, brancos ao sol, e eles estavam deslizando com o vento oeste em direção a terra; e ele pensou no  porque eles ficam no o mar e não voavam.

‘Eu vejo três estranhos pássaros sobre a água, pai’, ele disse. ‘Não são como nenhum outro que eu tenha visto’.

‘Aguçados podem ser teus olhos jovens, meu filho’, disse Hazad, ‘mas pássaros na água não podes ver. Três léguas distantes daqui onde sentamos está o litoral mais próximo. O sol te confunde ou algum sonho está em ti’.

‘Não, o sol está atrás de mim’, disse Tal-elmar. ‘Eu vejo o que vejo. E se não são pássaros então o que são? Muito grandes devem ser, maiores do que os Cisnes de Gorbelgod (6), dos quais falam as lendas. E veja! Vejo agora outro vindo atrás, mas com menos clareza, pois suas asas são negras’.

Então Hazad ficou preocupado. ‘Um sonho está em você, como eu disse, meu filho’, ele respondeu; ‘mas um sonho ruim. Já não é a vida dura o suficiente aqui, que logo que a primavera veio e o inverno finalmente terminou, precisas trazer uma visão de um passado negro?’

‘Esquecestes, pai’, disse Tal-elmar, ‘que sou teu filho mais novo e enquanto ensinastes muitos conhecimentos às orelhas surdas de meus irmãos a mim destes menos de tua reserva. Não sei nada do que se passa em tua mente’.

‘Não conheces?’, disse Hazad, forçando a visão ao olhar para o Mar. ‘Sim, possivelmente já faz muito tempo que falei sobre isto; não é mais do que a sombra de um sonho no fundo de minha memória. Três povos temos como inimigos. Os homens selvagens das montanhas e florestas; mas a estes só quem vaga sozinho precisa temer. O Povo Bárbaro do Leste; e eles ainda estão bem longe e são o povo da minha mãe, embora eu não duvide de que eles não honrariam o parentesco se viessem aqui com suas espadas. E os Altos Homens do Mar. Estes, de fato, podemos temer como à Morte. Pois eles idolatram a Morte e assassinam homens cruelmente em honra à Escuridão. Do Mar eles vêm e se possuem alguma terra deles mesmos, antes de aportaram nos litorais do oeste, não sabemos onde pode ser. Lendas terríveis chegaram a nós dos litorais, norte e sul, onde ele há muito estabeleceram suas fortalezas negras e seus túmulos. Mas aqui eles não vêm desde os dias de meu pai, e então vinham apenas para pilhar e capturar homens e partiam. Este era a modo de agir deles. Eles chegavam em barcos, mas não barcos como alguns de nosso povo utilizam nos grandes rios ou lagos, para transporte ou pesca. Maiores do que grandes casas eram os barcos dos Go-hilleg, e eles mantinham espaços para homens e mercadorias, além de serem empurrados pelos ventos; pois os Homens-do-mar estendiam grandes tecidos como asas para pegar os ventos e os prendiam em postes altos como árvores da floresta. Então eles chegavam ao litoral, onde existisse proteção ou tão próximo quanto conseguissem; e então enviavam barcos menores carregados com mercadorias e coisas estranhas tão belas quanto úteis que nosso povo desejava. Estas coisas eles vendiam por um pequeno preço ou davam como presentes, fingindo amizade e piedade por nossas necessidades; e eles moravam por um tempo e espionavam a terra e o número do povo, e então partiam. E se não retornasse as pessoas deveriam ficar gratas. Pois se viessem novamente seria em outra forma. Vinham então em grande número: dois barcos ou mais, juntos, cheios de homens e não de mercadorias, e sempre um dos malditos navios possuía asas negras. Pois aquele é o Barco da Escuridão, e nele levavam embora a pilhagem maligna, cativos amontoados como bestas, as mais belas mulheres e crianças, ou homens jovens sem defeitos físicos, e este era o fim deles. Alguns dizem que eles eram utilizados como carne; outros que eles eram mortos com tormentos sobre pedras negras em idolatria à Escuridão. Talvez ambos estejam corretos. As horríveis asas dos Homens-do-Mar não foram vistas nestas águas por muitos anos; mas relembrando a sombra do medo no passado eu falei e falo de novo: já não é nossa vida dura o suficiente sem a visão de uma asa negra sobre o mar brilhante?’

‘Dura o bastante, de fato’, disse Tal-elmar, ‘ainda assim não tão dura que eu queira deixá-la ainda. Venha! Se o que você disse é real então devemos correr para a cidade e avisar os homens, e nos preparar-nos para fuga ou defesa’.
or for defence.’

‘Eu irei’, disse Hazad. ‘Mas não te espantes se os homens rirem de mim como se eu estivesse fora do meu juízo. Eles acreditam pouco em coisas que não tenham acontecido durante seus próprios dias. E tenha cuidado, caro filho! Eu corro pouco perigo, além de morrer de fome em uma cidade vazia, só com loucos e velhos. Mas tu estarias dentre os primeiro pegos pelo Barco Negro. Não te coloques na dianteira de nenhum apressado conselho de guerra’.

‘Veremos’, respondeu Tal-elmar. ‘Mas tu és minha principal preocupação nesta cidade, onde tenho e dou pouco amor. Não partirei de teu lado de boa vontade. Mesmo assim esta é a cidade de meu povo e nosso lar, e os aptos estão fadados a defendê-la, assim como eu’.

Então Hazad e seu filho desceram a colina e era meio-dia; e na cidade estavam poucas pessoas além das idosas e crianças, por todos os capazes estavam nos campos, ocupados com o árduo trabalho da primavera. Não havia vigia, pois as Colinas de Agar estavam distantes das fronteiras hostis onde o poder do Quarto Rei (7) terminava. O mestre da cidade sentava à porta de sua casa ao sol, dormindo ou placidamente observando os pequenos pássaros que juntavam pedaços de comida da lama seca e batida do lugar aberto no meio das casas.

‘Saudações! Mestre de Agar!’ disse Hazad, e curvou-se, mas o mestre, um homem gordo com olhos de lagarto, apenas piscou e não retornou o cumprimento.

‘Saudações ao trono, Mestre! E que por muito você possa continuar assim!’ disse Tal-elmar, e havia um brilho em seus olhos. ‘Não devemos perturbar seus pensamentos, ou seu sono, mas há novidades às quais, talvez, você deva dar atenção. Não há vigia posto, mas por acaso estávamos no topo da colina e vimos o mar ao longe e lá – aves de mau agouro sobre a água’.

‘Navios dos Go-hilleg’, disse Hazad, ‘com grandes tecidos-de-vento. Três brancos – e um negro’.

O mestre bocejou. ‘Quanto a tu, ancião de olhos cansados’, ele disse, ‘não podes diferenciar o mar de uma nuvem. E quanto a este rapaz folgado, o que sabe ele de barcos ou tecidos-de-vento, ou todo o resto, exceto por teus loucos ensinamentos? Vá aos quebradores de pedra nômades (8) com suas histórias de bruxa sobre os Go-hilleg e não me incomode mais com tais tolices. Tenho outros assuntos de mais peso a ponderar’.

Hazad engoliu sua fúria, pois o Mestre era poderoso e não gostava dele; mas a ira de Tal-elmar era fria. ‘Os pensamentos de alguém com tão grandes necessidades devem ser pesados’, disse ele suavemente, ‘embora eu não saiba que pensamento de mais peso poderia interromper seu repouso do que o cuidado com sua própria carcaça. Ele será um mestre sem povo, ou um saco de ossos na colina, se zombar da sabedoria de Hazad filho de Buldar. Olhos cansados podem ver mais do que aqueles fechados pelo sono’.

A obesa face de Mogru o Mestre escureceu e seus olhos ficaram injetados de sangue pela raiva. Ele odiava Tal-elmar, embora nunca antes o jovem tivera lhe dado razão, exceto que não demonstrava medo em sua presença. Agora ele deveria pagar por isso e por sua recém-descoberta insolência. Mogru bateu palmas, mas ainda enquanto o fazia lembrou que não havia ninguém próximo que ousaria se atracar com o jovem, não, nem mesmo três juntos; e ao mesmo tempo ele viu o brilho dos olhos de Tal-elmar. Ele empalideceu, e as palavras que ele estava prestes a falar, ‘Filho de escrava e seu moleque’, morreu em seus lábios. ‘Hazad uBuldar, Tal-elmar uHazad, desta  cidade, não fale assim com o mestre de seu povo’, ele disse. ‘Um posto de vigia foi criado, embora tu que não tens o governo da cidade possas não saber. Aguardarei até ter um relato dos vigias, nos quais confio, que algo de ruim foi visto. Mas se estás tão ansioso vá aos campos e chame os homens’.

Tal-elmar observou-o cuidadosamente enquanto ele falava e leu claramente seus pensamentos. ‘Agora devo esperar que meu pai não tenha se enganado’, ele disse em seu coração, ‘pois menos perigo a batalha me trará do que o ódio de Mogru deste dia em diante. Um posto de vigia! Sim, mas apenas para espionar as indas e vindas do povo da cidade. E no momento em que eu for aos campos um corredor irá reunir seus servos e homens com porretes. Causei um mal a meu pai nesta hora. Bem! Aquele que começou com a pá deve empunhá-la até terminar o canteiro’. Sua fala, portanto continuou com raiva e escárnio. ‘Vá aos quebradores de pedra você mesmo’, ele disse, ‘pois você está acostumado a usar aquele povo matreiro, e prestar atenção aos seus contos quando te servem. Mas meu pai você não escorneará enquanto eu estiver por perto. Podemos muito bem estar em perigo. Portanto você deverá vir conosco ao topo da colina, e ver com seus próprios olhos. E se você não vir nada que justifique, você deverá chamar seus homens para a colina-dos-Debates. Eu serei seu mensageiro’.

E Mogru também observava a face de Tal-elmar pela fenda de suas pálpebras enquanto este falava, e considerou que não estaria sob risco de violência se cedesse dessa vez. Mas seu coração estava repleto de veneno; e não o irritava pouco o esforço de subir a colina. Lentamente ele se pôs de pé.

‘Eu irei’, ele disse. ‘Mas se meu tempo e esforço forem desperdiçados, eu não perdoarei. Auxilie meus passos; jovem, pois meus servos estão nos campos’. E ele tomou o braço de Tal-elmar e se apoiou pesadamente sobre ele.

‘Meu pai é o mais ancião,’ disse Tal-elmar; ‘e o caminho não é curto. Deixe que o Mestre lidere, e nós seguiremos. Aqui está teu bastão!’. E soltou-se do aperto de Mogru, e deu a este seu bastão o qual estava à porta de sua casa; e tomando o braço de seu pai ele aguardou até o Mestre estar preparado. De soslaio e escuro foi o olhar dos olhos-de-lagarto, mas o brilho dos olhos de Tal-elmar que eles vislumbraram feria como uma agulha. Há muito que as pernas obesas de Mogru não desenvolviam tal velocidade entre a casa e o portão; e mais tempo ainda que não carregaram sua barriga pela subida escorregadia da colina além do dique. Ele estava respirando pesadamente e bufando como um cachorro velho, quando chegaram ao topo.

Então novamente Tal-elmar olhou ao longe; mas o imenso e distante mar estava agora vazio, e ele ficou em silêncio. Mogru limpou o suor de seus olhos e seguir seu olhar.

‘Por que razão, pergunto, tiraste o Mestre da cidade de sua casa e o trouxeste a este lugar?’, ele rosnou. ‘O mar permanece onde deveria estar, e vazio. O que dizes?’

‘Tenha paciência e olhe mais perto’, disse Tal-elmar. Para o oeste as colinas bloqueiam a visão de tudo, exceto do mar mais distante; mas se elevando até o largo topo da Colina Dourada eles desciam repentinamente, e em uma abertura profunda um relance da grande baía e das águas próximas a seu litoral norte podia ser visto. ‘O tempo passou desde que estivemos aqui, e o vento está forte’, disse Tal-elmar. ‘Eles chegaram mais perto’. Ele apontou. ‘Lá você verá suas asas, ou seus tecidos-de-vento, chame-os como quiser. Mas qual é seu conselho? E não é um assunto que o Mestre deveria ver com seus próprios olhos?’

Mogru olhou, e bufou, agora tanto pelo medo quanto pelo trabalho de subir a colina, pois mesmo arrogante como parecia ele tinha ouvido muitas lendas terríveis sobre os Go-hilled das anciãs, em sua juventude. Mas seu coração era matreiro e negro pela ira. Olhou de soslaio primeiro para Hazad, e então para seu filho; e lambeu os lábios, mas não deixou que seu sorriso fosse visto.

‘Você pediu para ser meu mensageiro’, ele disse, ‘e assim serás. Vá agora com rapidez e convoque os homens para a colina-dos-Debates! Mas isto não encerrará tua missão’, acrescentou enquanto Tal-elmar se preparava para correr. ‘Direto dos campos deverás ir com toda velocidade para a Praia. Pois ali os barcos, se barcos são, provavelmente irão parar, e os homens desembarcarão. Deverás obter notícias e espionar bem quem desembarcar. Não voltes a não ser que tenhas novidades que auxiliarão em nossos conselhos. Vás e não te poupes! Comando-te. É tempo de perigo para a cidade’.

Hazad pareceu pronto a protestar; mas baixou a cabeça, e não disse nada, sabendo ser em vão. Tal-elmar parou por um momento, observando Mogru, como alguém olharia uma cobra no caminho. Mas ele percebeu que a esperteza do Mestre fora maior que a sua. Ele armara sua própria armadilha, e Mogru a utilizou. Ele declarou tempo de perigo para a cidade, e tinha o direito de ordenar qualquer serviço. Seria morte desobedecê-lo. E mesmo que Tal-elmar não tivesse se nomeado mensageiro (tentando evitar que qualquer palavra secreta passasse aos servos do mestre), ele diria que a escolha foi justa. Um batedor deveria ser enviado, e quem melhor do que um jovem forte e corajoso, de pés rápidos? Mas também havia malícia na missão, uma malícia negra, de qualquer forma. O defensor de Hazad deveria partir. Não havia esperança em seus irmãos: tolos fortes, mas sem coração para desafiar, exceto a seu velho pai. E era provável que ele não retornasse. O perigo era grande.

Mais uma vez Tal-elmar olhou para o Mestre, e então para seu pai, e então vislumbrou o bastão de Mogru. O brilho estava em seus olhos, e em seu coração o desejo de matar. Mogru percebeu e recuou com medo.

‘Vá, vá!’ ele gritou. ‘Eu já te ordenei. És mais rápido em gritar lobo do que em começar a caçada. Vá de uma vez!’.

‘Vá, meu filho!’, disse Hazad. ‘Não desafie o Mestre. Não onde ele tem a razão. Pois então desafiarias toda a cidade, e estaria acima do teu poder. E fosse eu o Mestre, eu te escolheria, mesmo me sendo querido; pois tens mais coração e sorte do que qualquer um deste povo. Mas retorne, e não deixe o Barco Negro tê-lo. Não seja corajoso demais! Pois melhores serão más notícias trazidas por ti, vivo, do que pelos Homens-do-Mar sem aviso’.

Tal-elmar se curvou e fez o sinal de submissão para seu pai, mas não para o Mestre, e se afastou dois passos. E então se virou. ‘Ouça, Mogru, a quem um povo inferior em sua tolice nomeou mestre’, ele disse. ‘Talvez eu retorne, contra tuas expectativas. Meu pai eu deixo em teu cuidado. Se eu retornar, seja com uma palavra de paz, seja com o inimigo em meu encalço, então teu tempo como mestre estará encerrado, e tua vida também, se eu descobrir que ele sofreu algum mal ou desonra que poderias ter evitado. Teus homens-de-faca e portadores-de-porretes não te ajudarão. Eu apertarei teu pescoço gordo com minhas mãos vazias, se precisar; ou te caçarei através dos ermos até as poços escuros’.  Então um novo pensamento o acossou e ele se dirigiu ao Mestre, e pegou seu bastão.

Mogru se encolheu, e estendeu um braço gordo, como para se defender de um golpe. ‘Está louco hoje’, coaxou. ‘Não cometas violência contra mim ou a pagarás com tua morte. Não ouviste as palavras de teu pai?’

‘Eu ouvi, e eu obedeço’, disse Tal-elmar. ‘Mas a primeira missão é para os homens, e há necessidade de rapidez. Pouca honra tenho entre eles, pois sabem bem que escarneces de nós. Que atenção prestarão, se os bastardos da Escrava, como nos nomeais quando não estou perto, chegar (9) gritando convocações para a colina-dos-Debates em teu nome e sem prova. Teu bastão servirá. É bem conhecido. Não, não irei bater-te com ele ainda!’

Com isso ele então pegou o bastão das mãos de Mogru e desceu correndo a colina, seu coração ainda quente demais com a ira para pensar no que estaria à sua frente. Mas quando ele convocou os homens nas terras inclinadas do sul e agitou o bastão entre deles, aconselhando que se apressassem, correu para o pé da colina, e além dos grandes gramados, e então chegou ao primeiro caminho estreito das florestas. Escuro ele se estendia ante ele no vale entre Agar e as colinas do litoral.

Ainda era manhã, mais de uma hora antes do meio-dia, mas quando ele chegou embaixo das árvores parou e começou a pensar, e percebeu que estava perturbado de medo. Raramente ele vagava longe das colinas de sua casa, e nunca sozinho, nem muito longe na floresta. Pois todo o seu povo temia a floresta (10).

Aqui o trecho datilografado é interrompido, não ao pé da página, e o manuscrito ‘Continuação de Tal-Elmar’ (como o nome agora é escrito) começa.

É rápido para os olhos viajarem até litoral, mas lento para os pés; e a distância era maior do que parecia. A floresta estava escura e desconfortável, pois ali ficavam águas estagnadas entre as colinas de Agar e as colinas do litoral; e muitas cobras viviam ali. Era silenciosa também, pois embora fosse primavera poucos pássaros construíam ninhos ali ou mesmo pousavam ao passarem em busca de terras mais abertas perto do mar. Também moravam na floresta espíritos escuros que odiavam homens, ou pelo menos assim diziam as lendas do povo. Sobre cobras e pântano e demônios da floresta Tal-Elmar pensava parado sob a sombra; mas precisou pensar pouco para chegar à conclusão que todos os três eram menos perigosos do que retornar, com uma desculpa mentirosa ou sem nenhuma, para a cidade e seu mestre.Então, talvez auxiliado um pouco por seu orgulho, ele seguiu em frente. E o pensamento veio a ele sob a sombra enquanto procurava por um caminho através do pântano e do emaranhado da floresta: O que eu sei, ou qualquer um de meu povo, mesmo meu pai, desses Go-hilleg dos barcos alados? Pode muito bem ser que eu que sou um estrangeiro entre meu próprio povo ache-os mais agradáveis que Mogru e todos os outros como ele.Com este pensamento crescendo nele, ele se sentiu mais como um homem que vai cumprimentar amigos e parentes do que alguém que se esgueira para espiar um inimigo poderoso, ele passou incólume pela floresta das sombras, e chegou às colinas do litoral, e começou a subir. Ele escolheu uma colina, pois os emaranhados da floresta acompanhavam sua encosta e o topo estava coroado com um grupo denso de árvores baixas. A este esconderijo ele foi e se achegando à borda da colina ele olhou para baixo. Havia lhe tomado um longo tempo, pois sua caminhada havia sido lenta, e agora o sol havia passado do meio e estava descendo em direção ao Mar. Ele estava faminto, mas a isto deu pouca atenção, pois estava acostumado à fome, e poderia suportar os trabalhos de um dia inteiro sem comer, quando precisava. A colina era baixa, mas descia acentuadamente até a água. Ante seus pés estavam terras verdejantes terminando em um trecho de cascalho, além dos quais as águas do estuário brilhavam sob o sol que se punha.Em meio à correnteza e além da parte mais rasa três grandes navios – embora Tal-Elmar não tivesse tal palavra em sua língua para nomeá-los – estavam parados imóveis. Estavam ancorados e com as velas abaixadas. Do quarto, o navio negro, não havia sinal. Mas no gramado próximo à pequena praia de cascalhos havia tendas e pequenos barcos. Homens altos estavam parados ou andando entre eles. Além, nos ‘grandes barcos’ Tal-Elmar podia ver [?outros] em vigia; de quando em quando ele vislumbrava um brilho quando uma arma ou armadura se movia no sol. Ele tremeu, pois os contos das ‘lâminas’ dos Homens Cruéis eram familiares à sua infância.

Tal-Elmar observou por longo tempo, e lentamente ele se deu conta do quão sem esperança era sua missão. Ele poderia olhar até que a luz do dia acabasse, mas ele não poderia contar com precisão suficiente para qualquer uso o número de homens que estavam lá; nem podia descobrir seus propósitos ou seus planos. Mesmo se ele tivesse tanto a coragem quanto a sorte de passar pelos guardas ele não poderia fazer nada de útil, pois ele não entenderia uma palavra sequer do idioma deles.

Ele se lembrou de repente – outro dos esquemas de Mogru para se livrar dele, como ele percebia agora, embora à época ele achasse uma honra – como apenas um ano atrás, quando a minguante vila de Agar foi ameaçada por invasores da vila de Udul distante no interior (11), e todos os homens temiam que um ataque ocorresse, pois Agar era mais seca, mais saudável e estava em local mais defensável (ou assim pensavam os homens da cidade). Então Tal-Elmar foi escolhido para ir e espionar a terra de Udul, por ‘ser jovem, corajoso e conhecer melhor o mundo ao redor’. Assim disse Mogru, verdadeiramente, pois o povo da cidade de Agar era tímido e raramente ia muito longe no campo, nunca se arriscando a ser pego pelo escurecer fora de suas casas.  Enquanto que Tal-Elmar freqüentemente, se tivesse a chance ou nenhum trabalho o exigisse (ou mesmo que o fizesse, algumas vezes), andava longe pelo campo, e embora (sendo assim ensinado desde a infância) temesse o escuro, ele mais de uma vez havia passado a noite longe da cidade, e era conhecido até mesmo por ir à colina de vigia sozinho sob as estrelas.

Mas rastejar dentro dos campos inamistosos de Udul durante a noite era uma coisa diferente e muito pior. Mesmo assim ele ousou fazê-lo. E ele chegou tão perto de umas das cabanas dos vigias que pode ouvir os homens dentro conversando – em vão. Ele não podia entender o sentido de suas palavras. O tom parecia cheio de pesar e cheio de medo (12) (como eram as vozes dos homens à noite no mundo que ele conhecia), e umas poucas palavras ele pareceu reconhecer, mas não o suficiente para compreender. E o povo de Udul eram seus vizinhos mais próximos – de fato, embora Tal-Elmar e seu povo tenham esquecido, e eles tinham esquecido tantas coisas, seus parentes próximos, parte do mesmo povo em anos passados e melhores. Que esperança então havia dele reconhecer qualquer simples palavra, ou mesmo interpretar corretamente as entonações, da língua de um povo estrangeiro separado do dele desde o começo do mundo? Estrangeiro de seu próprio? Meu próprio? Mas eles não eram meu povo. Apenas meu pai. E de novo ele teve a estranha sensação, vinda não sabia de onde para este jovem rapaz, nascido e criado em meio a um povo meio-selvagem e declinante: o sentimento de que ele não estava indo encontrar estrangeiros, mas parentes de longe e amigos.

Ainda assim ele era também um menino de sua vila. Ele estava com medo, e demorou muito até se mover. Finalmente ele olhou para cima. O sol à sua direita estava agora se pondo. Entre dois galhos de árvore ele vislumbrou um pedaço de mar enquanto o grande fogo redondo, avermelhado com a leve névoa marinha, ficou à altura de seus olhos, e as águas estavam pintadas de um flamejante dourado.

Ele já havia visto o sol se pôr no mar, mas nunca desse modo. Ele soube em um piscar (como se viesse daquele fogo) que havia visto desta forma, [? ele fora chamado] (13), que isto significava mais do que a chegada da ‘hora do Rei’, o escuro (14). Ele se levantou e como se levado ou impulsionado andou abertamente colina abaixo e cruzou o longo gramado em direção ao cascalho e às tendas.

Pudesse ele ver a si mesmo ficaria tão surpreso quanto aqueles que o viam da praia. Sua pela nua – pois ele usava apenas um pedaço de tecido ao redor da cintura, e um pequeno manto de … pele jogado para trás e preso com uma tira de couro aos seus ombros – brilhava dourada sob a luz [?do pôr do sol], seu cabelo claro também estava iluminado e seus passos eram leves e livres.

‘Olhe!’ gritou um dos vigias para seu companheiro. ‘Você vê o que vejo? Não é um dos Eldar das florestas que vem falar conosco?’

‘Eu vejo, de fato’, disse o outro, ‘mas se não é algum fantasma da borda da escuridão [?que está chegando] [?nesta terra amaldiçoada] um dos Belos ele não pode ser. Estamos muito ao sul e nenhum mora por aqui. Seria de fato se estivéssemos [?longe ao norte, perto dos Portos]’.

‘Quem conhece todos os modos de agir dos Eldar?’, disse o vigia. ‘Silêncio agora! Ele se aproxima. Deixe-o falar primeiro’.

Então eles ficaram parados, e não fizeram nenhum sinal enquanto Tal-Elmar se aproximava. Quando ele estava a uns vinte passos seu medo retornou e ele parou, deixando seus braços caírem à sua frente e abrindo as palmas em direção aos estranhos em um gesto que todos os homens poderiam compreender.

Então, como eles não se moviam, nem colocavam as mãos em nenhuma arma até onde ele podia ver, ele tomou coragem novamente e falou, dizendo: ‘Saudações, Homens do mar e das asas! Por que vieram aqui? Vieram em paz? Eu sou Tal-Elmar uHazad do povo de Agar. Quem são vocês?’

Sua voz era clara e bela, mas a língua que ele usou não era outra senão uma forma do idioma semi-selvagem dos Homens da Escuridão, como os Homens do Navio os chamavam. O vigia se moveu. ‘Elda!’, ele disse. ‘Os Eldar não usam tal língua’. Ele chamou e imediatamente homens saíram de suas tendas. Ele próprio sacou uma espada, enquanto seu companheiro preparava uma flecha no arco. Antes mesmo que Tal-Elmar pudesse se sentir aterrorizado, antes mesmo de se virar e correr – felizmente, pois ele não sabia nada sobre arcos e teria caído muito antes de escapar, acertado por uma flecha – ele estava cercado por homens armados. Eles o pegaram, mas não com maus tratos, quando o viram desarmado e submisso, e o levaram à tenda onde estava alguém com autoridade.

Tal-Elmar sentia que o idioma era conhecido e apenas oculto dele por um véu.

O capitão disse que Tal-Elmar deveria ser de raça Numenoriana ou de um povo aparentado a eles. Ele deveria ser trado com cortesia. Ele supunha que ele havia sido feito cativo ainda bebê ou nascido de cativos. ‘Ele está tentando fugir para nós’, ele disse.

‘Uma pena ele não lembrar nada da língua’. ‘Ele aprenderá’. ‘Talvez, mas depois de um longo tempo. Se ele a falasse agora, ele poderia nos dizer muito, o que aceleraria nossa missão e reduziria nosso perigo’.

Então finalmente fizeram Tal-Elmar entender seu desejo de saber quantos homens moravam perto; eram eles amigáveis, eram como ele era?

O objetivo dos Numenorianos era ocupar esta terra, e em aliança com os ‘Cruéis’ do Norte expulsar o Povo da Escuridão e fazer um acampamento para ameaçar o Rei. (Ou isto seria enquanto Sauron estava ausente em Númenor?)

Este lugar era no estuário de Isen? ou Morthond.

Tal-Elmar podia contar e entendia números grandes, embora sua linguagem fosse deficiente.

Ou ele entendia Numenoriano? [Adicionado posteriormente: Eldarin – estes eram os amigos-dos-Elfos.] Ele disse quando ouviu um homem falar ao outro: ‘É estranho que vocês falem a língua dos meus longos sonhos. E certamente agora estou em minha terra e não dormindo?’ Então eles se assombraram e disseram: ‘Por que você não falou conosco antes? Você falou como os povos da Escuridão que são nossos inimigos, sendo servos do Inimigo’. E Tal-Elmar respondeu: ‘Porque esta língua só retornou à minha mente ouvindo-o falá-la; e como eu poderia saber que você entenderia a linguagem dos meus sonhos? Você não é como aqueles que falam comigo em meus sonhos. Não, um pouco parecido; mas eles eram mais brilhantes e mais belos’.

Então o homem ficou ainda mais impressionado, e disse: ‘Parece que você falou com os Eldar, acordado ou em uma visão.’

‘Quem são os Eldar?’ disse Tal-Elmar. ‘Esse nome eu não ouvi em meu sonho’.

‘Se você vier conosco talvez possa vê-los’.

Então de repente medo e a lembrança de antigas lendas vieram a Tal-Elmar novamente, e ele recuou. ‘O que farão comigo?’, ele disse. ‘Vão me atrair ao barco de asas negras e entregar-me à Escuridão?’

‘Você ou ao menos seu povo já pertencem à Escuridão’, responderam. ‘Mas porque você fala assim das velas negras? As velas negras são para nós um sinal de honra, pois são a bela noite antes da vinda do Inimigo e sobre o negro estão colocadas as estrelas prateadas de Elbereth. As velas negras de nosso capitão foram adiante na água’.

Tal-Elmar continuou com medo, pois ainda não era capaz de imaginar o negro como qualquer coisa a não ser símbolo da noite de medo. Mas ele pareceu tão corajoso quando pôde e respondeu: ‘Nem todo meu povo. Nós tememos a Escuridão, mas não a amamos nem a servimos. Ao menos alguns de nós. Assim é com meu pai. E a ele eu amo. Eu não serei separado dele nem mesmo para ver os Eldar’.

‘Pena!’, eles disseram. ‘Seu tempo de moradia nessas colinas está chegando ao fim. Aqui os homens do Oeste decidiram fazer suas moradas, e o povo da escuridão deve partir – ou ser morto’.

Tal-Elmar oferece-se como refém.

Não há mais. Ao pé da página meu pai escreveu ‘Tal-Elmar’ duas vezes, e seu próprio nome duas vezes; e também ‘Tal-Elmar em Rhovanion’, ‘Terras Ermas’, ‘Anduin o Grande Rio’, ‘Mar de Rhun’ e ‘Pântano de Etten’.

NOTAS.

1. Na versão rejeitada da seção inicial do texto a história começa: ‘Nos dias dos Grandes Reis quando um homem podia andar sem molhar os pés de Roma até York (não que estas cidades tivessem sido construídas ou imaginadas) morava na cidade de seu povo nas colinas de Agar um velho homem, de nome Tal-argan Barbalonga’, e Tal-argan permaneceu o nome sem correção na página rejeitada. A segunda versão manteve ‘os Grandes Reis’, a mudança para ‘os Reis da Escuridão’ sendo feita mais tarde.

2. Este parágrafo mais tarde foi colocado entre colchetes.

3. Ambas as versões têm ‘o Quarto Rei’, alterada na segunda para ‘o Rei do Norte’ ao mesmo tempo em que ‘os Grandes Reis’ foi alterado para ‘os Reis da Escuridão’ (nota 1).

4. Na versão rejeitada o pai de Tal-argan (Hazad) era chamado Tal-Bulda, e o local da batalha era o vale de Rishmalog.

5. Neste ponto a primeira página rejeitada termina, e o texto se torna a composição principal. Uma nota rascunhada a lápis no topo da página substituta propõe que Buldar pai de Hazad fosse eliminado, e que o próprio Hazad tenha casado com a mulher estrangeira Elmar (que não é nomeada na versão rejeitada).

6. O nome datilografado era Dur nor-Belgoth, corrigido para Gorbelgod.

7. ‘o Quarto Rei’, não foi corrigido aqui: ver nota 3.

8. No original ‘knappers’:  um  ‘knapper’  era alguém que quebrava pedras ou rochas. Esta palavra substituiu ‘tinker’ (algo como cigano), aqui e na próxima ocorrência.

9. Eu deixei o texto aqui como ele é.

10. Uma nota marginal aqui diz que Tal-elmar não tinha ‘nenhuma arma além de pedras de arremesso em um saco’.

11. O texto como escrito tinha ‘distante no interior, e todos os homens temiam’, corrigido para ‘distante no interior. Todos os homens temiam’. Eu alterei o texto para propiciar uma sentença completa, mas meu pai (que estava escrevendo com grande rapidez) sem dúvida não pretendia isso, e teria reescrito o trecho  se alguma vez tivesse retornado a ele.

12. Na margem meu pai escreveu que a vila de Udul estava morrendo de peste, e os invasores estavam de fato desesperadamente procurando por comida.

13. A conclusão do texto está em certos trechos em um manuscrito excruciantemente difícil, e as palavras que eu dei como ‘ele foi chamado’ são dúbias: mas eu não consigo imaginar outra interpretação delas.

14. Contra as palavras ‘nunca ousando ser pegos pelo escuro fora de suas casas’ meu pai escreveu: ‘a Escuridão é “a hora do Rei” ‘. Como pode ser visto em passagens seguintes, o Rei é Sauron.

As Andanças de Húrin

As andanças do infeliz Húrin, após ser liberto por Melkor.
E assim terminou o conto de Túrin o infeliz, o
pior dos trabalhos de Morgoth entre os Homens no mundo antigo. Mas
Morgoth não dormiu nem descansou de sua maldade, e esse não foi o fim
de seus negócios com a Casa de Hador, contra a qual sua malícia era
insaciável, pois Húrin estava sob seu Olho, e Morwen vagava perturbada
pelos ermos.Infeliz era a sina de Húrin.

Pois tudo o que Morgoth sabia das maquinações de sua malícia, Húrin
sabia também; mas suas mentiras eram misturadas com a verdade, e tudo
aquilo que era bom era escondido ou distorcido. Aquele que enxerga
através dos olhos de Morgoth, querendo ou não, enxerga todas as coisas
corrompidas.

Um dos esforços especiais de Morgoth era lançar uma luz maligna sobre
tudo aquilo que Thingol e Melian construíram, pois ele os temia e
odiava acima de tudo; e quando, então, considerou ter chegado a hora,
no ano após a morte de Túrin, libertou Húrin, permitindo que partisse
para onde desejasse.

Ele mentiu que fora movido pela pena de um inimigo completamente
derrotado, maravilhado por sua resistência. ‘Tal firmeza’, disse ele,
‘deveria ter se mostrado em uma causa melhor, e teria sido recompensada
de outra forma. Mas eu não tenho mais uso para você, Húrin, na sua
pálida vidinha.’E ele mentiu, pois seu propósito era que Húrin
continuasse a estender a sua malícia contra Elfos e Homens, antes de
morrer.

Então, mesmo não acreditando em praticamente nada do que Morgoth
dissera ou fizera, sabendo que ele não estava piedoso, ele pegou a sua
liberdade e seguiu em pesar, amargado pelos artifícios do Senhor do
Escuro. Por vinte e oito anos, Húrin estivera cativo em Angband…

É dito que os caçadores de Lorgan seguiram seus rastros e não
abandonaram sua trilha até que ele e seus companheiros subiram pelas
montanhas. Quando Húrin chegou novamente aos lugares altos, ele olhou
de relance pelas nuvens nos picos da Crisaegrim, e ele lembrou de
Turgon; e seu coração desejou retornar para o Reino Escondido, se
pudesse, ou ao menos lá ele seria lembrado com honra.

Ele não ouviu nenhuma das coisas que aconteceram em Gondolin, e não
sabia que Turgon endurecera seu coração contra a sabedoria e a piedade,
e não permitia que ninguém entrasse ou saísse por qualquer motivo.
Então, sem saber que todos os caminhos estavam trancados além da
esperança, ele resolveu rumar em direção a Crisaegrim, mas ele nada
falou aos seus companheiros sobre seus propósitos, pois ele ainda
estava ligado ao seu juramento de não revelar a ninguém que conhecesse
sequer a região em que Turgon habitava.

Porém ele precisava de ajuda; pois ele nunca vivera nos ermos, onde
foras-da-lei estavam há muito acostumados à vida dura de caçadores e
ceifeiros, e carregavam consigo tanta comida quanto conseguiam, apesar
de o Inverno Mortal ter diminuído seus mantimentos. Assim, Húrin falou
a eles: ‘Nós devemos abandonar esta terra agora; pois Lorgan não me
deixará mais em paz. Rumemos para os vales do Sirion, onde a primavera
finalmente chegou!’

Então Asgon os guiou por um dos antigos caminhos que levavam para o
leste de Mithrim, e eles desceram pelas nascentes do Lithir, até que
chegaram às cachoeiras que corriam até o Sirion ao final da Terra
Estreita. E lá eles chegaram exaustos, pois Húrin confiava pouco na
‘liberdade’ que Morgoth lhe garantira. E ele estava correto: Morgoth
tinha notícias de todos os seus movimentos, e o tempo em que esteve
escondido nas montanhas, a sua descida foi rapidamente espionada. A
partir de então, ele foi seguido e observado com tal astúcia que ele
raramente tinha qualquer pista disso. Todas as criaturas de Morgoth
evitavam o seu caminho, e ele não foi emboscado ou atacado.

Eles rumaram para o sul, pelo lado oeste do Sirion, e Húrin pensava
consigo mesmo como se separar de seus companheiros, ao menos por tempo
suficiente para poder procurar por uma entrada para Gondolin sem trair
a sua palavra. Finalmente eles alcançaram Brithiach, e lá Asgon disse a
Húrin: ‘Para onde iremos agora, Senhor? Além deste vau os caminhos são
muito perigosos para os homens mortais, se o que dizem é verdade.’

‘Então rumemos para Brethil, que é perto daqui,’ disse Húrin. ‘Eu tenho uma missão lá. Naquela terra meu filho morreu.’

Então, naquela noite eles se abrigaram em um bosque de árvores, as
primeiras da Floresta de Brethil em sua fronteira norte, próxima do sul
do Brithiach.

Húrin se deitou separado dos outros; e no dia seguinte antes do Sol
nascer, enquanto eles dormiam exaustos, ele os abandonou e cruzou o vau
e chegou a Dimbar.

Quando os homens despertaram, ele já estava longe, e havia uma grossa
neblina da manhã sobre o rio. O tempo passou e, não tendo retornado nem
respondido aos chamados, eles começaram a temer que ele fora atacado
por alguma fera ou por algum inimigo que espreitava. ‘Nós fomos
negligentes’, disse Asgon. ‘A terra está quieta, quieta demais, mas
existem olhos sob as folhas e ouvidos atrás das pedras.’

Eles seguiram o seu rastro quando a neblina se ergueu; mas ele levou
para o vau e lá desapareceu, e eles estavam perdidos. ‘Se ele nos
deixou, deixe-nos voltar para nossa terra,’ disse Ragnir. Ele era o
mais novo na companhia, e pouco recordava dos dias que antecederam a
Nirnaeth. ‘O raciocínio do velho é selvagem. Ele fala com com a sombra
com vozes estranhas enquanto dorme.’

‘Pouco me espanta se for verdade’, disse Asgon. ‘Mas quem mais poderia
permanecer tão forte depois de tanta angústia? Não, ele é nosso senhor,
faça o que fizer, e eu jurei segui-lo.’

‘Até mesmo para o leste além do vau?’ perguntaram os outros.

‘Não, existe pouca esperança naquele caminho’, disse Asgon, ‘e eu não
creio que Húrin irá muito distante por lá. Tudo o que sabemos de seus
propósitos é que ele queria ir o mais cedo possível para Brethil, e que
ele tem uma missão lá. Nós estamos exatamente na fronteira. Vamos
procurar por ele lá.’

‘Com a permissão de quem?’ disse Ragnir. ‘Os homens de lá não gostam de estranhos.’

‘Bons homens habitam lá,’ disse Asgon, ‘e o Senhor de Brethil é parente
dos nossos Senhores.’ Mesmo assim, os outros estavam em dúvidas, pois
nenhuma notícia tem saído de Brethil nos últimos anos. ‘Pode ser
governado por Orcs, pelo que sabemos,’ disseram eles. ‘Nós logo iremos
descobrir como andam as coisas’, disse Asgon. ‘Orcs são pouco piores
que o povo do Leste, eu acho. Se foras-da-lei devemos permanecer, eu
prefiro espreitar pelas belas florestas em vez das colinas geladas.

Então Asgon foi em direção a Brethil; e os outros o seguiram, pois ele
tinha um coração resoluto e os homens diziam que ele nascera com boa
sorte. Antes do fim daquele dia eles já estavam nas profundezas da
floresta, e a chegada deles estava marcada; pois os Haladin estavam
mais atentos do que nunca, e observavam suas fronteiras de perto. Na
hora cinza que antecede a manhã, praticamente todos os intrusos
dormiam, seu acampamento foi cercado e seus vigias foram amordaçados
logo que alertaram os outros.

Então Asgon se levantou, e mandou que seus homens não desembainhassem
suas armas. ‘Vejam agora,’disse ele, ‘nós viemos em paz! Nós somos
Edain de Dorlomin.’

‘Mas o porquê da sua vinda eu não sei,’disseram os vigias. ‘Mas a manhã
ainda está escura. Nosso líder irá fazer melhor julgamento de vocês
quando estiver mais claro.’

Então, com muitos homens a menos, Asgon e seus homens foram feitos
prisioneiros, e suas armas foram tomadas e suas mãos atadas; e assim
foram levados para a frente do novo Senhor dos Haladin.

Ele era Harathor, irmão de Hunthor, que morreu na ravina de Taeglin.
Pela a morte de Brandir, que não deixara filhos, ele herdara o comando
por descendência de Halad. Ele não tinha amor por aqueles da casa de
Hador, e não compartilhava do mesmo sangue; e disse para Asgon, quando
os capturados estavam perante ele: ‘De Dorlomin você vem, me disseram,
e sua fala comprova isso. Mas o porquê da sua vinda eu não sei.’

‘Então são Edain do norte,’disse ele. ‘Sua fala comprova isso, bem como
seus equipamentos. Você busca amizade, talvez. Mas ai de mim! coisas
más recaíram sobre nós aqui, e nós vivemos com medo. Manthor, meu
senhor, Mestre da Marca do Norte, não está aqui, e eu devo, então,
obedecer aos comandos de Halad, o líder de Brethil. Para ele vocês
devem ser enviados sem mais perguntas. Lá vocês poderão ter alguma
sorte!’

Então Ebor falou cortesmente, mas ele não tinha muitas esperanças. Pois
o novo líder era agora Hardang, filho de Hundad. Na morte de Brandir
sem filhos, ele foi feito Halad, sendo um dos Haladin, da família de
Haleth, de onde todos os capitães eram escolhidos. Ele não amava Túrin,
e ele agora não possuía amor nenhum pela Casa de Hador, de cuja
linhagem ele não fazia parte. Nem tinha muita amizade por Manthor, que
também era dos Haladin.

Para Hardang, Asgon e seus homens seguiam caminhos desonestos, e eles
foram vendados. Assim, finalmente chegaram ao salão dos capitães em
Obel Halad; e seus olhos foram descobertos, e os guardas os conduziram
para dentro. Hardang estava sentado em sua grande cadeira, e ele os
encarou com frieza.

‘Vocês vêm de Dor-lómin, segundo me disseram,’ disse ele. ‘Mas porque
vocês vieram aqui eu não sei. Poucas coisas boas vêm para Brethil
daquela terra, e eu não estou olhando para nenhuma coisa boa agora: é
um feudo de Angband. Saudações frias encontrarão aqui, se esgueirando
até aqui para nos espionar!’

Asgon controlou sua fúria, mas respondeu, determinado: ‘Nós não nos
esgueiramos até aqui, senhor. Nós somos tão hábeis nas florestas quanto
seu povo, e nós não teríamos sido capturados tão facilmente se
tivéssemos qualquer motivo para temer. Nós somos Edain, e não servimos
Angband, mas defendemos a Casa de Hador. Nós pensávamos que os homens
de Brethil fossem assim também, e amigáveis a todos os homens de
boa-fé.’

‘Para aqueles que provaram a sua fé,’ disse Hardang. ‘Ser simplesmente
Edain não é suficiente. E, no que concerne à casa de Hador, pouco amor
é tido aqui. Por que o povo dessa casa vem aqui agora?’ Isto Asgon não
respondeu; pois, devido à hostilidade do líder, ele achou melhor não
mencionar Húrin ainda.

‘Percebo que não falarás tudo o que sabes,’ falou Hardang. ‘Que assim
seja. Deverei fazer meu julgamento com o que vejo; mas serei justo.
Este é meu julgamento. Aqui Túrin, filho de Húrin permaneceu por um
tempo, e ele livrou a nossa terra da Serpente de Angband. Por isto,
darei a vocês suas vidas. Mas ele desprezou Brandir, justo líder de
Brethil, e ele o matou sem justiça ou piedade. Assim, não os darei
abrigo. Vocês deverão sair por onde entraram. Vão agora, e se
retornarem, retornarão para a morte!’

‘Não devolverão nossas armas?’ perguntou Asgon. ‘Nos lançarão de volta
ao ermo sem arco e sem armadura para morrer entre os animais?’

‘Nenhum homem de Hithlum irá portar armas novamente em Brethil,’ disse Hardang. ‘Não com permissão minha. Tirem-nos daqui.’

Mas enquanto eram arrastados para fora do salão, Asgon gritou: Esta é a
justiça dos homens do Leste, não dos Edain! Nós não estivemos aqui com
Túrin, para o bem ou para o mal. Nós servimos a Húrin. Ele ainda vive.
Espreitando pelas suas florestas não o recorda a Nirnaeth? Vai
desonrá-lo também, com seu rancor, se ele vier?’

‘Se Húrin vier, você diz?’ disse Hardang. ‘Quando Morgoth dormir, talvez!’

‘Não,’ disse Asgon. ‘Ele retornou. Com ele nós viemos até suas
fronteiras. Ele tem uma missão a cumprir aqui, segundo nos disse. Ele
virá!’

‘Então eu estarei aqui para encontrá-lo,’ falou Hardang. ‘Mas vocês não
estarão. Agora vão!’ Disse ele em escárnio, mas sua face empalideceu em
um medo súbito de que acontecera um presságio de que o pior ainda
estaria por vir. Então um grande medo da sombra da Casa de Hador caiu
sobre ele, e então seu coração ficou negro. Pois ele não era um homem
de grande espírito, como eram Hunthor e Manthor, descendentes de Hiril.

Asgon e sua companhia foram vendados novamente, para que não
espionassem os caminhos de Brethil, e foram levados para a fronteira
norte. Ebor estava insatisfeito quando ouviu do que aconteceu em Obel
Halad, e ele falou a eles com cortesia.

‘Ai de mim!’, disse ele, ‘vocês devem seguir em frente novamente. Mas
vejam! Eu devolvo a vocês suas armas e equipamentos. Pois é o que meu
senhor Manthor faria, no mínimo. Quem dera ele estivesse aqui! Mas ele
é o mais bravo entrenós; e pelo comando de Hardang, é o líder da guarda
no vau de Taiglin. Lá nós temos mais medo de investidas, e é onde a
maioria dos ataques acontece. Bem, isto é o que farei; mas lhes
imploro, não entrem em Brethil novamente, pois se o fizerem, nós
seremos obrigados a obedecer à palavra de Hardang que se espalhou por
todas as fronteiras: matar vocês assim que os encontrar.’

Então Asgon o agradeceu, e os conduziu até as margens de Brethil, e os desejou uma boa jornada.

‘Bem, sua sorte permanece,’ disse Ragnir, ‘pois ao menos não fomos
mortos, apesar disso ter quase acontecido. O que faremos agora?’

‘Eu ainda desejo encontrar meu senhor Húrin,’ disse Asgon, ‘e meu coração me diz que ele ainda virá para Brethil.’

‘Para onde não podemos retornar,’ disse Ragnir, ‘ao menos que procuremos por uma morte mais rápida que a fome.’

‘Se ele vier, ele virá, eu acho, pela fronteira norte, entre o Sirion e
Taiglin,’ disse Asgon. É por lá que talvez teremos notícias.’

‘Ou flechas,’ disse Ragnir. Mesmo assim eles seguiram o conselho de
Asgon e seguiram para o oeste, cuidando sempre as bordas negras de
Brethil.

Mas Ebor estava preocupado, e reportou rapidamente a Manthor sobre a
vinda de Asgon e suas palavras estranhas sobre Húrin. Mas rumores
correram por Brethil sobre este assunto. E Hardang reuniu-se em Obel
Halad e se aconselhou com seus amigos.

Agora Húrin, chegando a Dimbar, reuniu todas suas forças e rumou
sozinho em direção aos pés negros de Echoriad. Toda a terra estava fria
e desolada; e quando ela finalmente apareceu, imensa, à sua frente, e
ele não conseguia encontrar formas de seguir adiante, ele parou e olhou
em sua volta com pouca esperança. Ele estava agora no pé de uma grande
avalanche sob uma imensa parede de pedras, e ele não sabia que era tudo
o que restava do antigo Caminho de Escape: o Rio Seco estava seco e o
portão arqueado, enterrado.Então Húrin olhou para o céu, pensando que, por algum lance de sorte,
ele poderia avistar novamente as Águias, como vira, há muito tempo, em
sua juventude. Mas ele viu apenas as sombras sopradas do Leste, e
nuvens formando redemoinhos em volta dos picos inacessíveis; e o vento
assobiando por sobre as pedras. Mas a vigília das Grandes Águias, e
elas marcaram Húrin, lá em baixo, desamparado sob a luz esvanecente. E
rapidamente Sorontar, já que as notícias pareciam importantes, reportou
a Turgon.
Mas Turgon falou: ‘Não! Isso é uma mentira! A não ser que Morgoth esteja dormindo. Você está errado.’

‘Não, não estou,’ respondeu Sorontar. ‘Se as Águias de Manwë cometessem
erros desta forma, Senhor, seu esconderijo teria sido em vão.’
‘Então tuas palavras trazem um mau presságio,’ disse Turgon; ‘pois elas
só podem significar que mesmo Húrin Thalion sucumbiu à vontade de
Morgoth. Meu coração está fechado.’ Mas quando ele dispensou Sorontar,
Turgon sentou e pensou, e ele estava preocupado, relembrando os feitos
de Húrin. E ele abriu seu coração, e ordenou que as Águias procurassem
por Húrin, a que o trouxessem, se pudessem, para Gondolin. Mas era
tarde de mais, e elas nunca mais o viram novamente, seja na luz, seja
na sombra.
Pois Húrin permaneceu em desespero perante o severo silêncio de
Echoriad, e o sol poente, rasgando as nuvens, manchando seu cabelo
branco com vermelho. Então ele gritou no ermo, negligente aos muitos
ouvidos, e ele amaldiçoou a terra impiedosa: ‘dura como os corações de
Elfos e Homens’. E ele parou, enfim, em frente a uma grande pedra, e
abrindo seus braços, olhando em direção a Gondolin, ele chamou com uma
grande voz: ‘Turgon, Turgon! Lembre-se do Pântano de Serech!’ E
novamente: ‘Turgon! Húrin chama por você. O Turgon, não irás me ouvir
dos teus salões escondidos?’Mas não houve resposta, e tudo o que ele ouviu foi o vento na grama
seca. ‘E ainda assim eles sibilam em Serech ao por do Sol’, disse ele.
E enquanto ele falava, o Sol passou para trás das Montanhas da Sombra,
e a escuridão caiu sobre ele, e o vento cessou, e o ermo ficou em
silêncio.

Entretanto, ouvidos escutaram as palavras que Húrin falou, e olhos
marcaram seus gestos; e o relatório de tudo chegou rápido ao Trono
Escuro no Norte. Então Morgoth sorriu, e soube claramente que Turgon
habitava naquela região, pois devido as Águias nenhum espião dele podia
chegar ao alcance do olho da terra atrás das montanhas circulantes.
Esse foi o primeiro mal que a liberdade de Húrin causou.

Enquanto a escuridão caía, Húrin pisou em falso na pedra, e caiu
desmaiado, em um profundo sono de pesar. Mas em seu sono ele ouviu a
voz de Morwen lamentando, e freqüentemente falou seu nome; e pareceu
para ele que aquela voz vinha de Brethil. Então, quando despertou com a
chegada do dia, ele se ergueu e retornou; e ele chegou novamente ao
vau, e, como se guiado por uma mão invisível, ele passou pelas bordas
de Brethil, até que, depois de uma jornada de quatro dias, chegou até
Taeglin, e toda sua escassa comida acabou, e ele estava faminto. Mas
ele prosseguiu como a sombra de um homem levado por um vento negro, e
ele chegou ao vau à noite, e lá ele o atravessou até Brethil.Os sentinelas noturnos o viram, mas eles estavam cheios de medo, então
eles não ousaram se mover ou gritar; pois eles pensaram que era um
fantasma vindo de uma montanha de mortos em combate que caminhava com a
escuridão em sua volta. E por muitos dias após, os homens temeram se
aproximar do vau à noite, a não ser com grande companhia e com fogo
aceso.

Mas Húrin passou, e na noite do sexto dia ele chegou finalmente ao
lugar da queima de Glaurung, e viu a pedra alta na beirada de Cabed
Naeramarth. Mas Húrin não olhou para a pedra, pois ele sabia o que
estava escrito ali, e seus olhos perceberam que não estava sozinho.
Sentado na sombra da pedra estava uma figura encurvada sobre seus
joelhos. Parecia um andarilho sem lar derrotado pela idade, cansando
demais para perceber sua chegada; mas seus farrapos eram retalhos de um
traje feminino. Húrin parou por um tempo em silêncio, então ela ergueu
seu capuz esfarrapado e levantou seu rosto lentamente, com aparência
selvagem e faminta como um lobo que fora caçado por muito tempo. Ela
era cinzenta, com o nariz fino e com dentes quebrados, e com uma das
mãos em forma de garra ela segurava a sua capa na altura do peito. Mas
de repente seus olhos encararam os dele e então Húrin a reconheceu;
pois apesar de serem selvagens agora, e cheios de medo uma luz ainda
brilhava neles que era difícil de suportar: a luz élfica que há muito
lhe dera seu nome, Edelwen, a mais orgulhosa das mulheres mortais nos
dias antigos.

‘Edelwen! Edelwen!’, gritou Húrin; e ela se levantou e cambaleou em frente, e ele a pegou em seus braços.

‘Finalmente você veio,’ ela disse. ‘Eu esperei por tempo demais.’

‘Foi uma estrada negra. Eu vim da forma que pude,’ respondeu.

‘Mas você está atrasado,’ ela disse, ‘atrasado demais. Eles estão perdidos.’

‘Eu sei,’ disse ele. ‘Mas você não está.’

‘Mas quase,’ disse ela. ‘Eu estou acabada. Eu devo partir com o sol.
Eles estão perdidos.’ Ela se segurou no casaco dele. ‘Sobrou pouco
tempo,’ ela disse. ‘Se você sabe, me diga! Como ela o encontrou?’ Mas
Húrin não respondeu, e ele sentou ao lado da pedra com Morwen em seus
braços; e eles não falaram novamente. O sol se pôs, e Morwen suspirou e
segurou sua mão e ficou inerte; e Húrin soube então que ela morrera.

E assim morreu Morwen, a orgulhosa e bela; e Húrin olhou para ela no
crepúsculo, e pareceu que as marcas de pesar e cruel privação
suavizaram. Sua face ficou fria e pálida e triste. ‘Ela não foi
conquistada,’ ele disse; e ele fechou os olhos dela, e sentou-se imóvel
ao lado dela enquanto a noite caía. As águas de Cabed Naeramarth
rugiam, mas ele não ouviu som algum, nem viu nada, nem sentiu nada,
pois seu coração estava duro como pedra, e ele pensou em permanecer ali
sentado até que também morresse.

Então veio um vendo frio e lançou uma chuva fina em seu rosto; e de
repente ele estava desperto, e com uma profunda raiva negra cresceu
dentro dele como uma fumaça, superando a razão, então tudo o que
desejava era buscar vingança pelos seus erros e pelos erros de sua
família, acusando em sua angústia todos aqueles que já tiveram negócios
com eles.

Ele levantou e ergueu Morwen; e de repente percebeu que erguê-la estava
além de suas forças. Ele estava faminto e idoso, e cansado como o
inverno. ‘Fique aqui mais um pouco, Edelwen,’ ele disse, ‘até que eu
retorne. Nem mesmo um lobo machucaria mais você. Mas o povo desta terra
dura irá se arrepender do dia em que você morreu aqui!’

Então Húrin se afastou, aos tropeços, e voltou para o vau de Taeglin e
lá ele caiu ao lado de Haud-en-Elleth, e uma escuridão se abateu sobre
ele, e ele permaneceu como se estivesse adormecido. Ao amanhecer, antes
que a luz o despertasse totalmente, ele foi encontrado pelos guardas
que Hardang mandara manter uma atenção especial naquele lugar.

Foi um homem chamado Sagroth que o encontrou primeiro, e ele o encarou
com espanto e sentiu medo, pois ele pensou que soubesse quem aquele
homem velho era. ‘Venham!’ gritou ele para os que o seguiam. ‘Olhem
aqui! Deve ser Húrin. Os intrusos falaram a verdade. Ele chegou!’

‘Você encontrou problemas, como sempre, Sagroth!’ disse Forhend.

‘O Halad não ficará satisfeito com o que encontraram. O que deverá ser
feito? Talvez Hardang ficaria mais satisfeito em ouvir que nós acabamos
com os problemas em suas fronteiras e os empurramos para fora.’

‘Empurramos para fora?’ disse Avranc. Ele era filho de Dorlas, um homem
jovem, baixo e escuro, porém forte, parecido com Hardang, como fora
também seu pai. ‘Empurramos para fora? Que bem isso causaria? Ele
voltaria novamente! Ele pode caminhar – todo o caminho desde Angband,
se é o que você está pensando. Veja! Ele é horrível e possui uma
espada, mas dorme profundamente. Deve ele despertar para mais angústia?
Se você quer satisfazer o líder, Forhend, acabe com ele aqui.’

Tamanha era a sombra que agora caía sobre s corações dos homens,
enquanto o poder de Morgoth crescia, e o medo se espalhava por toda a
terra; mas nem todos os corações tinham escurecido. ‘Envergonhe-se pelo
que disse!’ gritou Manthor, o capitão, que vinha por trás e ouviu o que
diziam. ‘E principalmente você, Avranc, que jovem obstinado você é! Ao
menos você ouviu sobre os feitos de Húrin de Hithlum, ou apenas as
conhece de fábulas contadas ao pé do fogo? O que deve ser feito, então?
Matá-lo em seu sono, esse é o seu conselho. Do inferno veio essa idéia!’

‘Assim como ele,’ respondeu Avranc. ‘Se realmente ele é Húrin. Quem pode saber?’

‘Pode ser descoberto em breve,’ disse Manthor; e se aproximou de Húrin
deitado, ajoelhando-se próximo a ele, e ergueu a sua mão e a beijou.
‘Acorde!’, ele gritou. ‘A ajuda está próxima. E se você é Húrin, não há
ajuda que eu creio ser suficiente.’

‘E nenhuma ajuda que ele não irá retribuir com mal,’ disse Avranc. ‘Ele vem de Angband, digo eu.’

‘O que ele pode vir a fazer nós não sabemos,’ disse Manthor. ‘O que ele
fez nós sabemos, e nossa dívida ainda não foi paga.’ Então ele falou
novamente, em voz alta: ‘Viva Húrin Thalion! Viva o capitão dos homens!’

Então Húrin abriu os olhos, lembrando de palavras malignas que ouvira
durante o sono, antes de acordar, e ele viu homens sobre ele com armas
em punho. Ele levantou tenso, tateando a sua espada; e ele olhou para
eles com raiva e descaso. ‘Malditos!’ ele gritou. ‘Matariam um velho em
seu sono? Vocês se parecem com homens, mas são orcs sob a pele, eu
acho. Então venham! Matem-me acordado, se é que ousam fazer isso. Mas
eu não irei satisfazer seu senhor negro, eu acho. Eu sou Húrin, filho
de Galdor, um nome que orcs ao menos lembrarão.’

‘Não, não,’ disse Manthor. ‘Não sonhe. Nós somos homens. Mas esses são
dias malignos e de dúvidas, e nós estamos sobre muita pressão. Esta
região é perigosa. Não quer vir conosco? Ao menos nós podemos lhe
proporcionar comida e descanso.’

‘Descanso?’ disse Húrin. ‘Vocês não podem me proporcionar isso. Mas, em minha necessidade, eu aceitarei comida.’

Então Manhor deu a ele um pouco de pão e carne e água; mas pareceram
engasgá-lo, e ele cuspiu fora. ‘A que distância estamos da casa de seu
senhor?’ ele perguntou. ‘Até que eu o veja, a comida que negaram à
minha amada não descerá pela minha garganta.’

‘Ele se irrita e nos despreza,’ resmungou Avranc. ‘O que eu disse?’ Mas
Manthor olhou para ele com piedade, apesar de não entender suas
palavras. ‘É uma longa estrada para os cansados, senhor,’ disse ele; ‘e
aqueles da casa de Hardang Halad estão escondidos dos estranhos.’

‘Então me leve para lá!’ disse Húrin. ‘Eu irei da forma que puder. Eu tenho uma missão naquela casa.’

Logo eles seguiram em frente. Da sua forte companhia, Manthor deixou
muitos cumprindo sua tarefa, mas ele caminhou com Húrin, e com ele
levou Forhend. Húrin caminhava como podia, mas depois de um tempo,
começou a tropeçar e a cair; e mesmo que sempre se reerguesse e lutasse
para continuar, não permitiria que ninguém o ajudasse.

Depois de muitas paradas pelo caminho, finalmente chegaram aos salões
de Hardang em Obel Halad, nas profundezas da floresta; e ele sabia da
sua chegada, pois Avrang, espontaneamente, correu na frente deles e
levou as notícias antes deles; e ele não esqueceu de reportar as
palavras selvagens de Húrin quando despertou e quando cuspiu fora sua
comida.

Então eles encontraram os salões bem guardados, com muitos homens na
cerca do pátio, e homens nas portas. No portão do pátio, o capitão dos
guardas os parou. ‘Entreguem o prisioneiro para mim!’ disse ele.

‘Prisioneiro!’ disse Manthor. ‘Eu não trago um prisioneiro, mas um homem a quem você deveria honrar.’

‘Essas são palavras de Halad, não minhas,’ disse o capitão. ‘Mas você pode vir também. Ele também tem palavras para você.’

Então eles levaram húrin até a presença do líder; e Hardang não o
cumprimentou, mas sentado em sua grande cadeira, olhou Húrin da cabeça
aos pés. Mas Húrin retornou o seu olhar, e se manteve o mais firme que
pode, apesar de estar apoiado em seu cajado. Então ele permaneceu um
tempo em silêncio, até que ele tombou no chão. ‘Vejam!’ ele disse. ‘Eu
vejo que existem tão poucas cadeiras em Brethil que um convidado deva
sentar no chão.’

‘Convidado?’ disse Hardang. ‘Nenhum convidado por mim. Mas tragam um
banco para o homem. Se ele não desdenhar dele, pois ele cospe em nossa
comida.’

Manthor se ofendeu com a descortesia e ouvindo uma risada nas sombras
atrás da grande cadeira, ele olhou e percebeu que era Avranc, e seu
rosto se escureceu em fúria.

“Me desculpe, senhor,’ disse ele a Húrin. ‘Existe um mal entendido
aqui.’ Então se virou para Hardang e se lançou sobre ele. ‘A minha
companhia tem um novo capitão agora, meu Halad?’ disse ele. ‘Pois se
não eu não entendo como alguém que abandonou o seu posto e desobedeceu
minhas ordens possa ficar aqui sem reprova. Ele trouxe notícias antes
de mim, eu vejo; mas parece ter esquecido o nome do convidado, ou Húrin
Thalion não teria sido deixado em pé.’

‘O nome foi dito para mim,’ respondeu Hardang, ‘assim como suas
palavras malignas. Assim é a casa de Hador. Mas é o papel de um
estranho se apresentar pela primeira vez em minha casa, e eu esperei
ouvi-lo. Assim como a sua missão, já que diz ter uma. Mas sobre seu
dever, tais assuntos não devem ser tratados na presença de estranhos.’

Então ele se virou para Húrin, que estava sentado no banco; seus olhos
estavam fechados e ele não parecia dar atenção ao que acontecia. ‘Bem,
Húrin de Hithlum,’ disse Hardang, qual é a sua missão? É motivo de
pressa? Ou não prefere descansar um pouco e falar sobre isso mais
tarde, quando estiver mais à vontade? Enquanto isso, podemos
providenciar uma comida menos horrível.’ O tom de Hardang era mais
gentil, e ele levantou enquanto falava; pois ele era um homem prudente,
e ele percebeu o desagrado no rosto dos outros atrás de Manthor.

Então, de repente, Húrin se levantou. ‘Bem, mestre junco do pântano,’
disse ele. ‘Então você se curva com cada respiração? Cuidado para que a
minha não lhe derrube. Vá descansar para se fortalecer, então eu o
chamarei de novo! Zombador de cabelos cinzentos, mesquinho em relação à
comida, que deixa os errantes famintos. Esse banco servirá melhor para
você.’ Com isso, ele lançou o banco em direção a Hardang, acertando-o
na testa; e se virou para sair do salão.

Alguns dos homens abriu caminho, seja por pena ou medo de sua ira; mas
Avranc correu à sua frente. ‘Não tão rápido, Húrin!’ ele gritou. ‘Ao
menos não tenho mais dúvidas em relação ao seu nome. Você traz suas
maneiras de Angband. Mas nós não amamos os feitos dos orcs neste salão.
Você atacou o líder em sua cadeira, e agora você é nosso prisioneiro,
independente do seu nome.’

‘Eu o agradeço, capitão Avranc,’ disse Hardang, que estava sentado em
sua cadeira, enquanto tentava estancar o sangue que corria de sua
sombrancelha. ‘Agora deixe o velho louco ser algemado e mantido cativo,
eu o julgarei mais tarde.’

Então eles colocaram tiras de couro nos braços de Húrin, e um cabresto
no seu pescoço, e o levaram embroa; e ele não mostrou resistência, pois
a fúria havia acabado, e ele caminhou como alguém dormindo, de olhos
fechados. Mas Manthor, apesar de Avranc ter olhado bravo para ele,
colocou o braço sobre o ombro do velho e o guiou para que não
tropeçasse.

Mas quando Húrin foi trancado em uma caverna e Manthor não podia fazer
mais nada para ajudá-lo, retornou para o salão. Lá ele encontrou Avranc
falando com Hardang, e, apesar de terem se calado quando chegou, ele
ouviu as últimas palavras que Avranc falou, e pareceu que Avranc queria
que Húrin fosse executado imediatamente.

‘Então, capitão Avranc,’ ele disse, ‘as coisas foram bem para você
hoje! Eu já vi você jogar desta forma: atiçar um velho texugo e matá-lo
quando ele o morde. Não tão rápido, capitão Avranc! Nem você, Hardang
Halad. Este não é assunto para lidar de maneira arrogante, sem
controle. A vinda de Húrin, e a forma com que foi recebido, diz
respeito a todo o povo, e eles devem ouvir tudo o que é dito, antes de
qualquer julgamento.

‘Você deve ir,’ disse Hardang. ‘Retorne para sua missão na fronteira,
até que o capitão Avranc apareça para assumir o comando.’

‘Não, senhor,’ disse Manthor, ‘eu não tenho missão. A partir de hoje
não estou mais a seu serviço. Eu deixei Sagroth no comando, um homem da
floresta que é mais velho e mais sábio que o que você nomeou. Quando
chegar a hora, retornarei para minhas próprias fronteiras*. Mas agora
eu reunirei o povo.

Quando saiu pela porta, Avranc armou seu arco para matar Manthor, mas
Hardang o impediu. ‘Ainda não,’ ele disse. Mas Manhor não viu isso
(apesar de algumas pessoas no salão ter percebido), e saiu, e mandou
todos aqueles que se dispuseram a agir como mensageiros para reunir os
mestres de todas as terras e qualquer outro que se dispusesse a
comparecer.

Agora os rumores corriam pelas árvores, e as lendas cresciam quando
eram contadas; e alguns disseram isso, e outros aquilo, e a maioria
falou em louvor a Halad e se lançou em direção a Húrin como se fosse um
maligno chefe orc; pois Avranc também estava ocupado com mensageiros.
Logo tinha uma grande multidão de povos, e a vila próxima ao salão dos
líderes estava apinhada com tendas e barracas. Mas todos os homens
portavam armas, por medo que um alarme repentino viesse das fronteiras.

Quando ele enviou seus mensageiros, Manthor foi até a prisão de Húrin,
mas os guardas não o deixaram entrar. ‘Venham!’ disse Manthor. ‘Vocês
sabem muito bem que é do nosso bom costume que qualquer prisioneiro
deve ter um amigo que possa visitá-lo e ver como ele está sendo
alimentado e aconselhá-lo.’

*Pois Manthor era um descendente de Haldad, e ele possuía uma
terra pequena na fronteira leste de Brethil, próximo ao Sirion onde ele
atravessa Dimbar. Mas todo o povo de Brethil era formado por homens
livres, mantendo suas casas e suas terras, sejam maiores ou menores, de
direito. Seu senhor era escolhido entre os descendentes de Haldad, por
reverência pelos feitos de Haleth e Haldar; e mesmo que a liderança era
dada, como se fosse um domínio ou um reino, para os mais velhos da
linhagem mais velha, o povo tinha o direito de colocar qualquer um de
lado ou tirá-lo de lá, por uma causa grave. E alguns sabiam o
suficiente que Harathor tentara que Brandir o Aleijado tivesse tido
abdicado em seu favor.

‘O amigo é escolhido pelo prisioneiro,’ responderam os guardas; ‘mas este homem selvagem não tem amigos.’

‘Ele tem um,’ disse Manthor, ‘e eu peço permissão para me oferecer como sua escolha.’

‘O Halad nos proíbe de admitir qualquer um fora os guardas,’ disseram.
Mas Manthor, que era sábio nas leis e costumes de seu povo, respondeu:
‘Sem dúvida. Mas neste caso ele não tem direito. Por que o intruso está
preso? Nós não algemamos velhos e errantes por falarem rudemente quando
irritados. Este está preso por seu ataque a Hardang, e Hardang não pode
julgar seu próprio caso, mas deve levar sua queixa para o julgamento do
povo. Enquanto isso, ele não pode negar ao prisioneiro todo conselho e
ajuda. Se ele fosse sábio, ele veria que não age desta forma,
beneficiaria sua própria causa. Mas talvez alguma outra boca falou pela
dele?’

‘Verdade,’ disseram. ‘Avranc trouxe a ordem.’

‘Então esqueça,’ disse Manthor. ‘Pois Avranc estava obedecendo outras
ordens, para permanecer em sua missão na fronteira. Escolha então entre
um jovem desertor e as leis do povo.’

Então os guardas permitiram sua entrada na caverna; pois Manthor era
querido em Brethil, e os homens não gostavam dos líderes que tentaram
dominar o povo. Manthor encontrou Húrin sentado em um banco. Tinha
algemas em seus tornozelos, mas suas mãos estavam livres; e tinha um
pouco de comida à sua frente, intocada. Ele não ergueu o olhar.

‘Salve, senhor!’ disse Manthor. ‘As coisas não aconteceram como deviam,
nem como eu ordenei. Mas agora você precisa de um amigo.’

‘Eu não tenho amigos, nem desejo algum nesta terra,’ respondeu Húrin.

‘Um amigo está na sua frente,’ respondeu Manthor. ‘Não me rejeite. Por
enquanto, pelo menos! O assunto entre você e Hardang Halad deve ser
levado para ser julgado pelo povo, e seria bom, pelo que nossas leis
permitem, ter um amigo para aconselhá-lo e defender o seu caso.’

‘Eu não irei me defender, e não preciso de conselhos,’ disse Húrin.

‘Você precisa deste conselho, pelo menos,’ disse Manthor. ‘Controle sua
ira por enquanto, e coma um pouco, pra que tenha força perante seus
inimigos. Eu não sei qual é sua missão aqui, mas ela seria mais rápida
se você não estivesse faminto. Não se mate enquanto existe esperança!’

‘Me matar?’ gritou Húrin, e ele cambaleou e se escorou na parede, e
seus olhos estavam vermelhos. ‘Devo ser arrastado algemado perante uma
ralé de homens da selva para ouvir que tipo de morte irão me dar? Eu me
matarei antes, se minhas mãos estiverem livres.’ Então, de repente,
rápido como um velho urso em uma cilada, ele saltou para a frente, e
antes que Manthor pudesse evitá-lo, ele puxou uma faca do seu cinto.
Então ele afundou no banco.

‘Você poderia ter tido a faca como um presente,’ disse Manthor, ‘porém
nós não acreditamos no suicídio como uma saída nobre para aqueles que
não enlouqueceram. Esconda a faca e a guarde para um uso melhor! Mas
tenha cuidado, pois é uma lâmina maldita, de uma forja dos anões.
Agora, senhor, não me considerará como amigo? Não diga nada, mas se
você comer comigo, considerarei como um sim.’

Então Húrin olhou para ele e a ira deixou seus olhos; e juntos eles
beberam e comeram juntos em silêncio. E quando tudo estava terminado,
Húrin falou: ‘Pela sua voz você me derrotou. Nunca desde o Dia do
Terror eu ouvi a voz de um homem tão bela. Ai de mim! Ela lembra das
vozes na casa de meu pai, muito tempo atrás, quando a sombra parecia
estar tão longe.’

‘Isto pode muito bem ser verdade,’ disse Manthor. ‘Hiril, minha primeira mãe era irmã de sua mãe, Hareth.’

‘Então você é amigo e parente,’ disse Húrin.

‘Mas não eu sozinho,’ disse Manthor. ‘Nós somos poucos e temos pouco
dinheiro, mas nós também somos Edain, e ligados por muitas formas ao
seu povo. Seu nome foi por muito tempo mantido honrado aqui; mas
nenhuma notícia de seus feitos teria chegado até nós se Haldir e Hundar
não tivessem marchado para a Nirnaeth. Lá eles caíram, mas sete dos
seus companheiros retornaram, pois eles foram socorridos por Mablung de
Doriath e curados de seus ferimentos.

Os dias tem sido escuros desde então, e muitos corações foram escurecidos, mas não todos.’

‘Mas a voz do seu líder vem das sombras,’ disse Húrin, ‘e seu povo o obedece, mesmo em atos de desonra e crueldade.’

‘A tristeza escurece seus olhos, senhor, se é que ouso dizer tal coisa.
Mas que isto fique provado, vamos nos aconselhar juntos. Pois eu vejo
perigo de mal à nossa frente, tanto para você quanto para meu povo,
apesar de talvez a sabedoria possa evitar isso. De uma coisa eu posso
alertá-lo, apesar de não lhe agradar. Hardang é um homem menor que seus
pais, mas eu não vi maldade nele desde que ele ouviu da sua chegada.
Você carrega uma sombra, Húrin Thalion, na qual sombras menores ficam
mais escuras.’

‘Palavras negras de um amigo!’ disse Húrin. ‘Por muito tempo vivi na
Sombra, mas eu suportei e não me entreguei. Se existe alguma escuridão
em mim, é apenas a dor além da dor que me roubou a luz. Mas não faço
parte da Sombra.’

‘Mesmo assim, eu lhe digo,’ disse Manthor. ‘que ela segue seus passos.
Eu não sei como ganhaste a liberdade; mas o pensamento de Morgoth não o
esqueceu. Tenha cuidado.’

‘Não caduque, velho senil, você diria,’ respondeu Húrin. ‘Eu irei
suportar isso de você, pela sua bela voz e nosso parentesco, mas não
mais! Vamos falar de outras coisas, ou acabamos por aqui.’

Então Manthor foi paciente, e ficou por longo tempo com Húrin, até que
a noite trouxe a escuridão para a caverna; e eles comeram juntos mais
uma vez. Então Manthor ordenou que uma luz fosse trazida para Húrin; e
ele partiu no dia seguinte, e foi para sua tenda com o coração pesado.

No dia seguinte foi proclamado que o debate para o julgamento
aconteceria na manhã seguinte, pois quinhentos homens chefes já se
apresentaram e este era por costume, o quorum mínimo que se aceitava
para um encontro do povo. Manthor foi cedo encontrar Húrin; mas os
guardas mudaram. Três homens da guarda privada de Hardang guardavam a
porta, e eles não foram amistosos.

‘O prisioneiro está dormindo,’ o líder deles falou. ‘E isso é bom; pode acalmar seu ânimo.’

‘Mas eu sou o amigo que ele escolheu, como foi declarado ontem,’ disse Manthor.

‘Um amigo o deixaria em paz, enquanto ele pode tê-la. Que bem faria acordá-lo?’

‘Por que a minha vinda o acordaria? Os pés de um carcereiro são mais
pesados que os meus.’ falou Manthor. ‘Eu desejo ver como ele dorme.’

‘Você pensa que todos os homens mentem, menos você?’

‘Não, não; mas eu acho que alguém esqueceria as nossas leis de bom
grado quando elas não servem o seu propósito,’ respondeu Manthor. Mesmo
assim pareceu a ele que pouco ajudaria o caso de Húrin se continuasse a
discutir, e ele foi embora. Muitas coisas permaneceram sem serem ditas
entre eles até que fosse tarde demais. Pois quando ele retornou o dia
estava terminando. Nada impediu a sua entrada, desta vez, e ele
encontrou Húrin deitado em uma armação de madeira; e ele notou com
fúria que ele tinha agora algemas em seus punhos e uma curta corrente
entre eles.

‘Um amigo que se atrasa é a esperança que é negada,’ disse Húrin.
‘Esperei por muito tempo por você, mas agora estou com muito sono e
meus olhos estão turvos.’

‘Eu vim no meio da manhã,’ disse Manthor, ‘mas eles disseram que você estava dormindo.’

‘Eu estava cochilando, cochilando em uma esperança pálida,’ disse
Húrin; ‘mas a sua voz me acordou. Eu estou assim desde que tive meu
desjejum. Aquele seu conselho finalmente o tomei, meu amigo; mas comida
me faz mais mal do que bem. Agora eu devo dormir. Mas volte pela manhã!’

Manthor teve pensamentos escuros sobre isto. Ele não pode ver o rosto
de Húrin, pois havia pouca luz, mas se curvando para baixo ele pode
ouvir a sua respiração. Então com uma expressão severa, ele se levantou
e pegou os restos da comida, colocando sob seu casaco, e foi embora.

‘Bem, o que você achou do homem selvagem?’ disse o chefe da guarda.

‘Perturbado com sono,’ respondeu Manthor. ‘Ele deve estar bem desperto
amanhã. O desperte cedo. Traga comida para dois, pois eu virei quebrar
meu jejum com ele.’

No dia seguinte, muito antes do meio da manhã, o debate teve início.
Quase mil pessoas chegaram, a maioria homens velhos, já que a vigília
nas fronteiras deve ser mantida. Logo o anel do debate estava cheio.
Ele tinha a forma de uma grande crescente, com sete fileiras de bancos
saindo de um piso plano escavado na encosta da colina. Uma grade alta
ficava em volta dela, e a única entrada era por um portão pesado na
cercaque se fechava na parte aberta da crescente. No meio da camada
mais baixa estava Angbor, ou a Pedra do Destino, uma grande pedra chata
na qual o Halad sentaria. Aqueles que eram trazidos para julgamento
ficavam na frente da pedra e voltados para a assembléia.

Havia uma grande babel de vozes; mas com o grito de uma trompa, o
silêncio caiu, e o Halad entrou, acompanhado por muitos guarda costas.
O portão se fechou atrás dele, e ele caminhou lentamente até a Pedra.
Então ele parou, olhando para a assembléia e consagrou o debate como de
costume. Primeiro ele citou os nomes de Manwë e Mandos, segundo o
costume que os Edain aprenderam com os Eldar, e então, falando na
língua antiga do povo, que agora estava fora de uso, e declarou aberto
o debate, sendo o tricentésimo primeiro debate de Brethil, convocado
para julgar um grave assunto.

Quando, como de costume, toda a assembléia gritou em uníssono e na
mesma língua ‘Nós estamos prontos’, ele sentou em Angbor, e chamou na
língua de Beleriand para os homens que estavam próximos: ‘Soem as
cornetas! Que o prisioneiro seja trazido até nós!’

A corneta soou duas vezes, mas por um tempo ninguém entrou, e o som de
vozes irritadas podia ser ouvida fora da cerca. Depois de um tempo, o
portão foi empurrado e seis homens saíram com Húrin entre eles.

‘Eu sou trazido sob violência e maus tratos,’ ele gritou. ‘Eu não irei
caminhar algemado para nenhum debate na terra, nem se reis élficos
estivessem presentes. E enquanto eu estiver preso, eu irei negar toda a
autoridade e justiça a que me condenem.’ Mas os homens o colocaram no
chão à frente da Pedra e o seguraram ali com força.

Agora era costume do debate que, quando qualquer homem era trazido para
ele, o Halad deveria ser o acusador, e deveria primeiramente recitar o
delito que acusava. A respeito do que era direito do acusado, por ele
mesmo ou pela boca de seu amigo, negar a acusação, ou oferecer uma
defesa pelo que fez. E depois dessas coisas serem ditas, se algum ponto
restava duvidoso ou era negado por um dos lados, testemunhas eram
convocadas.

Hardang, então, estava em pé e virado para a assembléia e começou a
recitar a acusação. ‘Este prisioneiro,’ disse ele, ‘que está perante
vocês, se auto proclama Húrin, filho de Galdor, que um dia foi de
Dor-lómin, mas ele veio de uma longa estada em Angband. Seja isto como
for.’

Mas sobre isto Manthor se levantou e se colocou perante a Pedra. ‘Com
sua licença, meu senhor Halad e povo!’ ele gritou. ‘Como amigo do
prisioneiro eu convoco o direito de perguntar: a acusação contra ele
envolve de alguma forma a pessoa do Halad? Ou teria o Halad alguma
mágoa em relação a ele?’

‘Mágoa?’ gritou Hardang, e a raiva obscureceu seu raciocínio, pois ele
não percebeu as intenções de Manthor. ‘Muitas mágoas! Esta não é a
última moda em adereços para cabeça para o debate. Eu venho aqui com
ferimentos com curativos.’

‘Oras!’ disse Manthor. ‘Mas se é assim, eu peço que a questão não possa
ser tratada desta forma. Na sua lei nenhum homem pode recitar a ofensa
feita contra si mesmo; nem ele pode sentar na cadeira do julgamento
enquanto a acusação é ouvida. Não é esta a lei?’

‘Esta é a lei,’ respondeu a assembléia.

‘Então,’ disse Manthor, ‘antes que a acusação seja ouvida, outro Hardang, filho de Hundad deve ser apontado para a pedra.’

Assim várias vozes se ergueram, mas a maioria das vozes e as vozes mais
altas chamavam por Manthor. ‘Não,’ disse ele, ‘eu estou envolvido com
uma das partes e não posso ser o julgador. Além disso, é o direito do
Halad neste caso nomear aquele que irá tomar o seu lugar, o que ele com
certeza sabe muito bem.’

‘Eu o agradeço,’ disse Hardang, ‘mas eu não preciso de um jurista
autodidata para me ensinar.’ Então ele olhou para Manthor, como se
considerando quem ele deveria nomear. Mas a sua raiva era negra e toda
a sabedoria o abandonou. Se ele tivesse escolhido qualquer dos chefes
de casa ali presentes, as coisas poderiam ter tomado um rumo diferente.
Mas em um momento maligno ele escolheu, para o espanto de todos, griou:
‘Avranc, filho de Dorlas! Parece que o Halad também precisa de um amigo
hoje, quando os juristas estão tão ousados. Eu o convoco para a Pedra.’

O silêncio caiu. Mas quando Hardang se afastou e Avranc foi até a
pedra, um grande murmúrio foi ouvido, como o prenúncio de uma
tempestade. Avranc era um jovem casado há pouco, e sua juventude fora
tomada como ruim por todos os velhos chefes de casa que estavam lá.
Pois ele não era querido pelo que era; pois apesar de ser valente, ele
era um zombador, como seu pai Dorlas foi antes dele. E lendas negras
sussurravam sobre Dorlas, pois, apesar de nada ser dado como
verdadeiro, ele foi encontrado morto na batalha com Glaurung, e a
espada ensangüentada que jazia ao seu lado era a espada de Brandir.

Mas Avranc não deu atenção aos murmúrios, e se alegrou, como se fosse um assunto simples, que se tratasse rapidamente.

‘Bem,’ disse ele, ‘se isto está definido, não vamos mais perder tempo!
O assunto está claro o suficiente.’ Então, se levantando, ele continuou
a acusação. ‘Este prisioneiro, este homem selvagem,’ disse ele, ‘vem de
Angband, como vocês bem ouviram. Ele foi encontrado dentro de nossas
fronteiras. Não por acaso, pois, como ele mesmo disse, tem uma missão a
cumprir aqui. O que seria, ele não revelou, mas não pode ser nada de
bom. Ele odeia este povo. Logo que nos viu, nos insultou. Nós lhe demos
comida e ele a cuspiu. Eu já vi orcs agirem assim, se fossemos tolos o
suficiente para demonstrar-lhes piedade. Está claro que ele vem de
Angband, seja lá qual for o seu nome. Mas o pior ainda está por vir.
Por requerimento próprio, ele foi levado perante o Halad de Brethil –
por este homem que se diz agora seu amigo; mas quando ele chegou ao
salão, ele se recusou a dizer seu nome. E quando o Halad o perguntou
qual era a sua missão e o pediu que descansasse primeiro e falasse
depois, se assim o aprouvesse, ele enlouqueceu, começou a insultar o
Halad, e de repente arremessou um banco na sua face e o feriu
gravemente. Foi bom que ele não tinha nada mais mortal à mão, ou o
Halad teria sido morto. É clara a intenção do prisioneiro, e diminui
muito pouco a sua culpa o fato de que o pior não tenha acontecido, para
o qual a pena é a da morte. Mas mesmo assim, o Halad senta na grande
cadeira no seu salão: insultá-lo lá é um ato de maldade, e atacá-lo é
um ultraje.

‘Esta, então, é a acusação contra o prisioneiro: que ele veio para cá
com más intenções para conosco, e para com o Halad de Brethil em
especial (a pedido de Angband, pode se dizer); que, na presença do
Halad, ele o desrespeitou, e então tentou matá-lo em sua cadeira. A
penalidade está sob o julgamento do debate, mas poderia ser justamente
a da morte.’

Então, para muitos pareceu que Avranc falou justamente, e para todos
ele falou com habilidade. Por um tempo, ninguém ergueu a voz de lado
algum. Então Avranc, sem esconder seu sorriso, levantou-se novamente e
disse: ‘O prisioneiro pode agora responder à acusação, se quiser, mas
que seja breve e não enlouqueça!’

Mas Húrin não falou, apesar de fazer força contra aqueles que o
seguravam. ‘Prisioneiro, não vai falar?’ disse Avranc, e Húrin não lhe
respondeu. ‘Que assim seja,’ disse Avranc. ‘Se ele não vai falar, nem
para negar a acusação, então não há mais nada a fazer. A acusação é
justa, e aquele que está de frente para a Pedra pode propor uma pena
que lhe pareça justa para o Debate.’

Mas agora Manthor se levantou e disse: ‘Primeiro devem perguntar a ele
por que não falará. E a resposta deverá ser dada por seu amigo.’

‘A questão está feita,’ disse Avranc, dando de ombros. ‘Se você sabe a resposta, fale.’

‘Porque seus pés e mãos estão presos,’ disse Manthor. ‘Nunca antes nós
arrastamos algemado para o Debate alguém que ainda não tenha sido
condenado. Mas mesmo que seja um Edain, cujo nome merece honra, isso
nunca deveria ter acontecido. Sim, não condenado digo eu; pois o
acusado deixou muito sem ser dito que este Debate deve ouvir antes de
dar o julgamento.’

‘Mas isto é uma tolice,’ disse Avranc. ‘Adan ou não, e qualquer que
seja seu nome, o prisioneiro é incontrolável e malicioso. As algemas
são uma precaução necessária. Aqueles que se aproximam dele devem estar
protegidos da sua violência.’

‘Se deseja criar a violência,’ respondeu Manthor, ‘o que seria mais
óbvio do que abertamente desonrar um homem orgulhoso, carregando o peso
da tristeza de muitos anos nas costas. A aqui está um, enfraquecido
pela fome e por uma longa jornada desarmado em meio a uma hoste. Eu
pergunto ao povo aqui reunido: vocês consideram esta precaução digna
dos homens livres de Brethil, ou prefeririam que tivéssemos usado a
cortesia dos antigos?’

‘As algemas foram colocadas no prisioneiro por ordem do Halad,’ disse
Avranc. ‘Para isto nós usamos seu direito de evitar a violência em seu
salão. Assim, esta ordem não pode ser impugnada, salvo por toda a
assembléia.’

Assim, um grande grito se ergueu na multidão ‘Soltem-no, soltem-no!
Húrin Thalion! Soltem H‎úrin Thalion!’ Nem todos tomaram parte neste
grito, pois nenhuma voz foi ouvida do outro lado.

‘Não, não!’ disse Avranc. ‘Gritar não irá adiantar nada. Neste caso, devemos votar na forma correta.’

Agora, por hábito, em assuntos graves ou duvidosos, os votos do debate
eram dados mostrando cristais, e todos os que entraram portavam consigo
dois cristais, um preto e um branco, para sim e para não. Mas juntar e
contar os cristais tomava tempo, e enquanto isso, Manthor percebeu que
o humor de Húrin piorava cada vez mais.

‘Existe uma forma mais fácil,’ disse ele. ‘Não há perigo aqui para
justificar as algemas, pois assim pensam todos aqueles que usaram a
voz. O Halad está no anel do debate, e ele pode cancelar sua própria
ordem, se assim desejar.’

‘Ele ira,’ disse Hardang, pois pareceu para ele que a assembléia estava
impaciente, e ele pensou que agir assim os levaria para seu lado. ‘Que
o prisioneiro seja solto, e fique perante você.’

Então as algemas foram retiradas das mãos e dos pés de Húrin.
Imediatamente ele se pôs de pé e, dando as costas para Avranc, ele
encarou a assembléia. ‘Eu estou aqui,’ disse ele. ‘E vou responder o
meu nome. Eu sou Húrin Thalion, filho de Galdor Orchal, senhor de
Dor-lómin e uma vez alto capitão do exército do rei Fingon do reino do
norte. Que nenhum homem negue isto! E isto deverá ser o suficiente. Eu
não vou implorar perante vocês. Façam como quiserem! Também não irei
rebater as palavras daquele que abriu o debate e que vocês permitem que
sente na cadeira mais alta. Deixe-o mentir da forma que quiser!

‘Em nome dos Senhores do Oeste, que maneiras são estas deste povo, ou o
que vocês se tornaram? Enquanto a ruína da Escuridão está sobre vocês,
vocês sentam aqui pacientemente e escutam este guarda desertor
perguntar sobre o destino da morte sobre mim – porque eu quebrei a
cabeça de um jovem insolente, seja em sua cadeira ou fora dela? Ele
deveria ter aprendido como tratar os mais velhos antes que vocês o
tornassem seu líder.

‘Morte? ‘Perante Manwë, se eu não tivesse suportado tormentos por vinte
e oito anos, se eu estivesse como na Nirnaeth, vocês não ousariam
sentar aqui e me encarar. Mas eu não sou mais perigoso, pelo que ouvi.
Então vocês são bravos. Eu posso ficar aqui, sem algemas para ser usado
como isca. Eu fui derrotado na guerra e domado. Domado! Mas não tenham
tanta certeza disso!’ Ele ergueu os braços e cerrou os punhos.

Mas nesta hora, Manthor o acalmou, colocando a mão no seu ombro e falou
suavemente em seu ouvido. ‘Meu senhor, está se enganando em relação a
eles. Muitos são seus amigos, ou o seriam. Mas aqui há homens livres
orgulhosos também. Deixe-me falar com eles agora.’

Hardang e Avranc nada disseram, mas sorriram um para o outro, pelo
discurso de Húrin, pois pensaram que ele não tinha feito a sua parte de
maneira correta. Mas Manthor gritou: ‘Dêem ao Senhor Húrin uma cadeira
enquanto eu falo. Vocês compreenderão melhor sua ira, e talvez até
perdoar, quando tiverem me ouvido.

‘Ouçam me agora, povo de Brethil. Meu amigo não nega a acusação
principal, mas diz que foi abusado e provocado além da conta. Meus
senhores, eu era capitão dos vigias da fronteira que encontrou este
homem dormindo perto de Haud-en-Elleth. Ou parecia estar dormindo, mas
ele estava muito cansado e perto de despertar, e, enquanto estava
deitado ele ouviu, temo eu, as palavras que foram ditas.

‘Havia um homem chamado Avranc, filho de Dorlas, eu me lembro, como
membro da minha companhia, e ele deveria estar lá agora, pois esta foi
a minha ordem. Quando cheguei a Brethil, descobri que Avranc havia dado
conselhos ao homem que encontrou Húrin primeiro e adivinhou seu nome.
Povo de Brethil, eu o ouvi dizer o seguinte: “Seria melhor matar o
velho enquanto dormia e evitar problemas futuros. E isso agradaria ao
Halad,” disse ele.

‘Talvez agora vocês irão pensar melhor sobre o fato de que quando o
despertei, e ele encontrou homens armados sobre ele, ele disparou
palavras amargas para nós. Ao menos um de nós as mereceu. E sobre
desprezar nossa comida: ele a pegou de minhas mãos e não cuspiu nela.
Ele a cuspiu fora, pois se engasgou com ela. Nunca viram, meus
senhores, homens famintos que não conseguiam engolir comida devido à
pressa que tinham em fazê-lo? E este homem também estava muito
deprimido e cheio de raiva.
‘Não, ele não desdenhou de nossa comida. Se bem que ele o teria feito,
se ele soubesse dos esquemas que alguns dos que habitam aqui armaram!
Ouçam-me agora e acreditem, se quiserem, pois testemunhas podem ser
trazidas. Em sua prisão, o Senhor Húrin comeu comigo, pois eu o tratei
com cortesia. Isso foi dois dias atrás. Mas ontem, ele estava
sonolento, e não conseguia falar claramente, nem se aconselhar comigo
sobre o julgamento de hoje.’‘Isto pouco quer dizer!’ gritou Hardang.

Manthor parou e olhou para Hardang. ‘Pouco quer dizer realmente, meu
senhor Halad,’ ele disse; ‘pois essa comida foi envenenada.’

Então Hardang, irado, gritou: ‘Os sonhos deste preguiçoso tem que ser recitados para nos entediar?’

‘Não falo de sonhos,’ respondeu Manthor. ‘As testemunhas irão falar
agora. Eu levei um pouco da comida que Húrin comeu. Perante
testemunhas, eu dei para um cão, e ele está dormindo como se estivesse
morto. Talvez o Halad de Brethil não planejou isso, mas alguém que está
ávido para agradá-lo. Mas com que propósito? Para evitar que ele use da
violência, certamente, já que ele estava algemado na prisão? Existe
malícia entre nós, povo de Brethil, e eu espero que a assembléia
corrija isto!’

Neste momento, uma grande agitação e murmúrios se ergueram no anel do
debate e quando Avranc se levantou pedindo silêncio, o clamor aumentou.
Finalmente, quando a assembléia se acalmou um pouco, Manthor disse:
‘Posso continuar agora, pois há mais coisas a serem ditas?’

‘Proceda!’ disse Avranc. ‘Mas seja breve. E eu aviso a todos, meus
senhores, para que escutem este homem com cautela. Sua boa fé não pode
ser confiada. O prisioneiro e ele são parentes.’

Estas palavras não foram sábias, pois Manthor as respondeu
imediatamente: ‘Realmente. A mãe de Húrin era Hereth, filha de Halmir,
outrora Halad de Brethil, e Hiril, sua irmã era a mãe da minha mãe. Mas
sua linhagem não faz de mim um mentiroso. E digo mais, se Húrin de
Dor-lómin é meu parente, ele é parente de todos da casa de Haleth. Sim,
e de todo este povo. E mesmo assim ele é tratado como um fora da lei,
um ladrão, um homem selvagem e sem honra!

‘Vamos continuar com a acusação principal, que o acusador diz que pode
ter uma pena próxima daquela da morte. Vocês vêm perante vocês a cabeça
quebrada, apresar que parece que está firme sobre seus ombros e que
pode usar a língua muito bem. Pois foi ferida com o arremesso de um
pequeno banco. Um ato de maldade, vocês diriam. E muito pior quando
feito contra o Halad de Brethil enquanto senta em sua grande cadeira.

‘Mas meus senhores, atos malignos podem ser provocados. Que vocês se
imaginem no lugar de Hardang, filho de Hundad. Bem, aí vem Húrin,
senhor de Dor-lómin, seu parente, perante você: o chefe de uma grande
casa, um homem cujos atos são cantados por Elfos e Homens. Mas ele
agora está envelhecido, indisposto, cheio de pesar, cansado de viajar.
Ele pede para ver você. Lá está você, confortável em sua cadeira. Você
não se levanta. Você não fala com ele. Mas você o olha de cima a baixo,
enquanto ele está de pé, até que ele cai no chão. Então, cheio de
piedade e cortesia, você grita: “Tragam um banco para o homem!”

‘Oh, vergonha e espanto! Ele arremessa o banco na sua cabeça. Oh,
vergonha e espanto eu digo, pois você também desonra sua cadeira, que
você também desonra o seu salão, que você também desonra o povo de
Brethil!‘Meus senhores, eu admito livremente que teria sido melhor se o Senhor
Húrin tivesse sido paciente, inacreditavelmente paciente. Por que ele
não esperou para ver que futuros desprezos ele deveria suportar? E
mesmo assim, enquanto eu estava no salão e vi isso, tudo o que eu
conseguia pensar, e é tudo que eu consigo pensar ainda agora e peço que
me respondam: O que vocês acham dessas maneiras que possui o homem que
tornamos Halad de Brethil?’

Muitas vozes se ergueram nesta questão, mas até que Manthor erguesse
sua mão, e de repente tudo estava em silêncio novamente. Mas sob a
proteção do barulho, Hardang se aproximou de Avranc para falar com ele,
e surpreendido pelo silêncio, eles foram pegos falando alto demais,
então Manthor e outros também ouviram Hardang falar: ‘Eu me arrependo
de ter atrapalhado sua tentativa de matá-lo!’ E Avranc respondeu: ‘Eu
vou encontrar tempo para isto.’

Mas Manthor continuou. ‘Minhas dúvidas foram sanadas. Estas maneiras
não os agrada, eu vejo. Então o que teriam feito com o arremessador do
banco? Teriam amarrado-o, colocariam uma coleira em seu pescoço,
prenderiam-no em uma caverna, teriam algemado-o, envenenado sua comida,
e por fim, arrastado ele até aqui e pedido pela sua morte? Ou teriam
libertado-o? Ou teriam, talvez, pedido desculpas, ou ordenado a este
Halad que o fizesse?

Assim, mais vozes ainda se ergueram, e homens se levantaram nas
bancadas, batendo palmas e gritando: ‘Libertem! Libertem! Libertem
ele!’ E muitas vozes foram ouvidas gritando: ‘Fora com este Halad!
Coloquem-no nas cavernas!’

Muitos dos homens mais velhos que sentavam nas fileiras de baixo
correram e se ajoelharam perante Húrin e pediram o seu perdão; e um
ofereceu a ele uma bengala, outro deu a ele um belo manto e um grande
cinto de prata. E quando Húrin estava todo vestido, e com uma bengala
em sua mão, ele foi até a Pedra e subiu nela, não como um suplicante,
mas como um rei; e encarando a assembléia, ele gritou em uma grande
voz: ‘Eu agradeço a vocês, mestres de Brethil aqui presentes, que me
libertaram da desonra. Ainda existe justiça em sua terra, mas ela
estava adormecida e demorou a despertar. Mas agora eu tenho uma
acusação a fazer.

‘Qual é minha missão aqui, é o que foi perguntado? O que acham? Túrin,
meu filho, e Nienor, minha filha, não morreram nesta terra? Ai de mim!
De longe eu fiquei sabendo das dores que aconteceram aqui. É então um
espanto que um pai vá procurar as tumbas dos seus filhos? Maior espanto
é, pelo que me parece, que ninguém aqui, em momento algum, falou seus
nomes para mim.

‘Estão envergonhados que deixaram meu filho Túrin morrer por vocês? Que
apenas dois tiveram coragem de ir com ele encarar o terror do verme?
Que ninguém ousou ir até lá para socorrê-lo quando a batalha havia
terminado, apesar de que o maior dos males havia sido impedido?

‘Envergonhados vocês devem estar. Mas esta não é a minha acusação. Eu
não peço que nenhum nesta terra se equipare ao filho de Húrin em valor.
Mas se eu perdoar esta dor, devo perdoar isto? Escutem-me, homens de
Brethil! Lá está, junto à Pedra Parada que vocês ergueram, uma mendiga.
Por muito tempo ela ficou em sua terra, sem fogo, sem comida, sem
piedade. Agora ela está morta. Morta. Ela era Morwen, minha esposa.
Morwen Edelwen, a dama bela como os elfos que deu vida a Túrin, o
matador de Glaurung. Ela está morta.

‘Se vocês, que têm um pouco de piedade, gritarem para mim que não
possuem culpa, então eu pergunto quem é o culpado? Por quem no comando
ela foi deixada fora para morrer de fome em suas portas como um cão
expulso?

‘O seu líder contribuiu para isto? Acredito que sim. Ou ele não teria agido assim comigo, se tivesse a chance? Estas são os seus presentes: desonra, fome, veneno. Vocês não tem parte nisto? Vocês não trabalhariam conforme sua vontade? Então, por quanto tempo, senhores de Brethil, vocês o suportarão? Por quanto tempo vocês irão permitir que este homem chamado Hardang sente em sua cadeira?’

Agora Hardang estava aterrorizado, quando chegou a sua vez, e seu rosto ficou branco com medo e espanto. Mas antes que pudesse falar, Húrin apontou uma longa mão a ele. ‘Vejam!’ ele gritou. ‘Ali ele está com um sorriso de escárnio em seus lábios! Será que se considera a salvo? Pois roubaram minha espada; e eu sou velho e estou cansado, ele pensa. Não, por muitas vezes me chamou de homem selvagem. Ele verá um então! Apenas mãos, mãos, são necessárias para esmagar sua garganta cheia de mentiras.’

Com isto, Húrin deixou a pedra e caminhou a passadas largas em direção a Hardang; mas este se afastou perante Húrin, chamando seus guarda-costas para protegê-lo; e eles foram em direção ao portão. Para muitos isto pareceu que Hardang admitira sua culpa, e eles puxaram suas armas, e desceram da bancada, gritando em direção a ele.

Agora o perigo da batalha estava no interior do anel sagrado. Pois outros se aliaram a Hardang, alguns por amor por ele ou pelos seus atos, que, acima de tudo, eram leais a ele e ao menos o defenderiam da violência, até que pudesse se defender perante o debate.

Manthor estava entre os dois grupos, e gritou para que segurassem suas mãos e que não derramassem sangue no anel do debate; mas a fagulha que ele mesmo criou agora explodiu em chamas além do seu controle, e uma onda de homens o colocou para o lado. ‘Fora com este Halad!’ eles gritavam. ‘Fora com Hardang, levem-no para as cavernas! Abaixo Hardang! Viva Manthor! Nós queremos Manthor!’ E eles se lançaram sobre os homens que barravam o caminho para o portão, para que Hardang tivesse tempo para escapar.

Mas Manthor voltou até Húrin, que agora estava sozinho, perto da Pedra. ‘Ai de mim, Senhor!’ disse ele, ‘eu temia que esse dia guardasse grande perigo para nós. Há pouco que posso fazer, mas ainda eu devo tentar evitar o mal maior. Eles logo sairão, e eu devo segui-los. Você virá comigo?’

Muitos caíram no portão, de ambos os lados, mas ele foi tomado. Lá Avranc lutou bravamente, e ele foi o último a fugir. Mas quando ele se virou para correr, ele de repente puxou seu arco e atirou em Manthor, que estava próximo da Pedra. Mas, devido à sua pressa, ele errou o tiro, e a flecha acertou a pedra, lançando fagulhas atrás de Manthor enquanto quebrava. ‘Da próxima vez será mais perto!’ gritou Avranc, enquanto fugia com Hardang.

Então os rebeldes saíram do anel e perseguiram os homens de Hardang até Obel Halad, quase há meia milha de distância. Mas antes de chegarem lá, o Hardang havia tomado conta do salão e o trancou; e ele agora estava cercado. O salão dos líderes ficava num jardim com uma parede de terra redonda em volta, se erguendo de um dique externo seco. Na parede havia apenas um portão, do qual uma trilha de pedras levava até grandes portas. Os perseguidores passaram pelo portão e rapidamente cercaram todo o salão, e tudo ficou quieto por um tempo.

Mas Manthor e Húrin chegaram até o portão; e Manthor queria negociar, mas os homens disseram: ‘De que servem palavras? Ratos não sairão enquanto cães estão perto.’ E alguns gritaram: ‘Nossos parentes foram assassinados, e nós os vingaremos!’

‘Muito bem’, disse Manthor, ‘permitam ao menos que eu faça o que eu posso!’

‘Então faça!’ disseram eles. ‘Mas não se aproxime demais, ou poderá receber uma resposta afiada.’

Assim, Manthor ficou próximo ao portão e ergueu sua grande voz, gritando para ambos os lados que eles deveriam parar com este fraticídio. E para aqueles que ele estavam dentro, prometeu que aqueles que se apresentassem desarmados poderiam sair livremente, até mesmo Hardang, se ele desse sua palavra de comparecer perante o Debate no dia seguinte. ‘E nenhum homem irá levar armas também,’ disse ele.

Mas enquanto falava, uma flecha saiu de uma janela, que passou perto da orelha de Manthor, e cravou fundo em um dos marcos do portão. Então a voz de Avranc foi ouvida, gritando: ‘A terceira vez será certeira!’

Agora a raiva daqueles que estavam fora se inflamou novamente, e muitos correram até as grandes portas e tentaram quebrá-las; mas lá havia uma surtida, e muitos foram feridos ou mortos, e muitos outros no pátio foram feridos por flechas das janelas. Então os assaltantes, agora cheios de ira, trouxeram galhos e gravetos e muita madeira, e colocaram no portão; e gritaram para aqueles que estavam dentro:

‘Vejam! O Sol está se pondo. Nós lhe daremos até o cair da noite. Se vocês não saírem então, nós iremos queimar o salão com vocês dentro!’

Então todos se afastaram do pátio, para evitar flechadas, mas formaram um anel de homens em volta do dique externo.

O Sol se pôs e ninguém saiu do salão. E quando estava escuro, os assaltantes voltaram ao pátio carregando a madeira, e as empilharam em volta das paredes do salão. Então, alguns carregando tochas acesas, correram pelo pátio para colocar fogo nas madeiras. Um foi morto por uma flechada, mas os outros chegaram às pilhas e logo começaram a queimar.

Manthor ficou horrorizado na ruína do salão e o ato maligno dos homens de queimá-lo. ‘Dos dias escuros do nosso passado isso vem,’ disse ele, ‘antes de virarmos nossos rostos para o oeste. Uma sombra está sobre nós.’ E ele sentiu uma mão no seu ombro, e ele se virou e viu Húrin, que estava atrás dele, com uma expressão austera; e Húrin riu.

‘Vocês são um povo estranho,’ disse ele. ‘Uma hora frios, outra quente. Primeiro ira, então piedade. Sob os pés de seu líder e agora na sua garganta. Abaixo Hardang! Viva Manthor! Você irá aceitar isso?’

‘O povo deve escolher,’ disse Manthor. ‘E Hardang ainda vive.’

‘Não por muito tempo, espero,’ disse Húrin.

Agora as chamas cresceram e logo o salão do Haladin estava queimando em muitos lugares. Os homens de dentro jogaram terra e água sobre a lenha, tudo o que tinham, e uma grande fumaça se ergueu. Então alguns tentaram fugir sob sua proteção, mas poucos passaram pelo anel de homens; a maioria foi preso, ou morto, se tentaram lutar.

Havia uma pequena porta nos fundos do salão com uma varanda arqueada que se aproximava mais da parede do pátio do que as grandes portas na frente; e a parede atrás era mais baixa, porque o salão fora construído nas encostas de uma colina. Quando o telhado pegou fogo, Hardang e Avranc fugiram pela porta dos fundos, alcançaram o topo da parede e rolaram para o dique, e não foram avistados até que tentaram escalar para fora. Mas então, com gritos, homens correram até eles, mas não sabiam quem eram. Avranc se lançou aos pés de um deles, e o derrubou, e Avranc se levantou e fugiu pela escuridão. Mas outro arremessou uma lança nas costas de Hardang enquanto fugia, e ele caiu com um grande ferimento.

Quando descobriram quem ele era, os homens o levantaram e o colocaram aos pés de Manthor. ‘Não o coloque aos meus pés,’ disse Manthor, mas aos pés daquele que ele maltratou. Não tenho nada contra ele.’

‘Não tem?’ disse Hardang. ‘Então deve ter certeza da minha morte. Eu acho que você sempre terá algo contra aquele que foi escolhido pelo povo para ocupar a cadeira em vez de você.’

‘Pense o que quiser!’ disse Manthor, e se afastou. Então Hardang percebeu que Húrin estava ali. E Húrin ficou olhando para Hardang, uma forma escura na penumbra, mas a luz do fogo estava em seu rosto, e ali Hardang não viu piedade.

‘Você é um homem mais forte que eu, Húrin de Hithlum,’ ele disse. ‘Eu tinha tanto medo da sua sombra que toda a sabedoria e generosidade me abandonou. Mas agora eu não acho que nenhuma sabedoria ou piedade me salvaria de você, pois você não tem nem uma coisa nem outra. Você veio me destruir, ao menos nunca negou isto. Mas sua última mentira contra mim, eu a rebato antes de morrer. Nunca’ – mas com um engasgo de sangue em sua garganta, ele caiu para traz e não falou mais nada.

Então Manthor falou: ‘Ai de mim! Ele não devia ter morrido desta forma. A maldade que ele criou não lhe dava o direito de morrer assim.’

‘Por que não?’ disse Húrin. ‘Ele falou palavras odiosas de uma boca podre no final. Que mentiras falei contra ele?’

Manthor suspirou. ‘Nenhuma mentira intencional, talvez,’ ele disse. ‘Mas a última acusação que você apresentou era falsa, eu acho; e ele não teve chance de negá-la. Eu preferiria que tivesse falado para mim antes do Debate!’

Húrin cerrou os punhos. ‘Não é falsa!’ ele gritou. ‘Ela está onde eu falei. Morwen! Ela está morta!’

‘Ai de mim! Senhor, onde ela morreu eu não duvido. Mas disso eu acho que o Hardang não sabia mais do que eu, antes de você falar. Diga-me, senhor: ela alguma vez caminhou mais profundamente nesta terra?’

‘Eu não sei. Eu a encontrei como falei. Ela está morta.’

‘Mas senhor, se ela não caminhou mais, mas, ao encontrar a pedra, lá se sentou, triste e desesperada, no túmulo de seu filho, pelo que posso crer, então…’

‘Então o que?’ disse Húrin.

‘Então, Húrin Hadorion, pela escuridão de sua angústia, saiba disso! Meu senhor, cujo sofrimento é imenso, tão imenso quanto as coisas que vieram a acontecer conosco que nenhum homem e nenhuma mulher se aproximou daquela pedra desde que ela está lá. Não! O senhor Oromë em pessoa pode sentar naquela pedra, com toda a sua caça em sua volta, e não saberíamos. E mesmo que soprasse sua grande corneta, nós não atenderíamos àquele chamado!’

‘Mas e se Mandos, o Justo, falasse, não o ouviria?’ disse Húrin. ‘Agora alguns devem ir para lá, se você possui alguma piedade! Ou irá deixá-la lá, até que seus ossos fiquem brancos? Isto purificaria a sua terra?’

‘Não, não!’ disse Manthor. ‘Eu irei encontrar alguns homens de coração forte e mulheres piedosas, e você nos levará até lá, e faremos o que pede. Mas é uma longa estrada, e este dia está acabando em toda a sua malícia. Um novo dia é necessário.’

No dia seguinte, quando as notícias da morte de Hardang se espalharam, uma grande multidão de pessoas procurou Manthor, implorando para que se tornasse líder. Mas ele disse: ‘Não, isto deve ser apresentado perante o Debate. E não pode ser agora, pois o anel foi maculado, e existem outras coisas que são mais urgentes. Primeiro eu tenho uma missão. Eu devo ir ao campo do verme e até a Pedra dos Infelizes, onde Morwen, sua mãe está abandonada. Alguém irá comigo?’

Então a piedade afetou alguns corações dos que o ouviram; e apesar de alguns terem se afastado com medo, muitos estavam dispostos a ir, mas entre estes, havia mais mulheres do que homens.

Assim, mais tarde, partiram em silêncio, trilhando o caminho que levava pela cachoeira de Celebros. Após oito milhas, a escuridão caiu sobre Nen Girith, e eles passaram a noite da forma que puderam. E na manhã seguinte, eles chegaram ao Campo da Queimada, e eles encontraram o corpo de Morwen ao lado da Pedra Parada. Então olharam para ela com piedade e espanto; pois parecia que olhavam para uma grande rainha cuja dignidade nem a idade nem toda a miséria nem toda a angústia do mundo conseguiria tirar dela.

Então eles desejaram honrá-la em morte; e alguns disseram: ‘Este é um lugar negro. Vamos erguê-la, e levar a Senhora Morwen até o pátio dos túmulos e colocá-la entre os da Casa de Haleth com quem possui parentesco.’

Mas Húrin disse: ‘Não, Nienor não está aqui, mas é melhor que ela fique aqui, próxima de seu filho, em vez de com estranhos. É o que ela teria escolhido.’ Então eles fizeram uma tumba para Morwen sobre Cabed Naeramarth, no lado oeste da Pedra; e quando a terra foi jogada sobre ela, eles escreveram na Pedra: Aqui jaz também Morwen Edelwen, enquanto alguns cantavam na língua antiga os lamentos que há muito foram feitos para aqueles do seu povo que caíram na Marcha além das Montanhas.

E enquanto cantavam, começou uma chuva cinzenta, e todo aquele lugar desolado se encheu de pesar, e o rugir do rio era como o lamento de muitas vozes. E quando tudo terminou, eles se afastaram, e Húrin foi apoiado em sua bengala. Mas dizem que depois deste dia o medo abandonou aquele lugar, mas a tristeza permaneceu, e ficou para sempre sem folhas e descoberto. Mas até o fim de Beleriand, as mulheres de Brethil iriam com flores na primavera, e bacíferos no outono, e cantariam ali por um tempo, para a Senhora Cinzenta que procurou em vão por seu filho. E um vidente e um harpista de Brethil, Glirhuin, fez uma canção falando que a Pedra dos Infelizes não poderia ser maculada por Morgoth, nem nunca derrubada, nem que o Mar engolisse toda a terra. O que de fato aconteceu depois, e ainda a Tol Morwen está sozinha na água, além das novas costas que foram criadas nos dias da ira dos Valar. Mas Húrin não está enterrado lá, pois seu destino o levou adiante, e a Sombra continuou seguindo-o.

Agora, quando a companhia retornou para Nen Girith, eles pararam, e Húrin olhou para trás, além de Taeglin, em direção ao Sol poente que aparecia através das nuvens; e ele estava relutante em retornar para a Floresta. Mas Manthor olhou para o leste e estava preocupado, pois havia um brilho vermelho no céu daquele lado também.

‘Senhor,’ disse ele, ‘fique aqui se quiser, assim como todos os outros que estiverem cansados. Mas eu sou o último dos Haladin, e eu temo que o fogo que foi aceso ainda não tenha se apagado. Devo retornar rapidamente, para que a loucura dos homens não leve Brethil inteira à ruína.’

Mas enquanto ele falava isto, uma flecha saiu do meio das árvores, e ele tropeçou e caiu no chão. Então os homens correram para procurar pelo arqueiro; e eles viram um homem correndo como um cervo pelo caminho até Obel, e ele não foi alcançado; mas eles viram que era Avranc.

Manthor sentou-se, ofegante, encostado em uma árvore. ‘Só um arqueiro ruim erraria o alvo no terceiro tiro,’ ele disse.

Húrin se curvou em sua bengala e olhou para Manthor. ‘Mas você também errou seu alvo, parente,’ ele disse. ‘Você foi um amigo valoroso, e eu acho que você foi com muita vontade na causa que também era sua. Manthor teria sentado de forma mais merecedora na cadeira dos líderes.’

‘Você possui um olho forte, Húrin, para perfurar todos os corações, menos o seu,’ disse Manthor. ‘Sim, sua escuridão também me tocou. Agora ai de mim! Os Haladin se acabaram; pois este ferimento é mortal. Esta não era sua verdadeira missão, homem do norte: levar a ruína a nós para contrapesar com a sua? A Casa de Hador nos conquistou, e quatro de nós caíram sob sua sombra: Brandir, e Hunthor, e Hardang e Mantho. Não é o suficiente? Não partirás e deixar esta terra que morre?’

‘Eu irei,’ disse Húrin. ‘Mas se o poço das minhas lágrimas não estivesse totalmente seco, eu choraria por você, Manthor, pois você me salvou da desonra, e eu o amo como a um filho.’

‘Então, senhor, use em paz o pouco mais de vida que eu ganhei para você,’ disse Manthor. ‘Não leve sua sombra para outros!’

‘Por quê? Não posso mais caminhar pelo mundo?’ disse Húrin. ‘Eu irei continuar até que a sombra de derrube. Adeus!’

E assim Húrin se separou de Manthor. Quando os homens foram medicar seus ferimentos, descobriram que era grave, pois a flecha entrara fundo em seu flanco; e eles quiseram carregar Manthor rapidamente de volta para o Obel, para que fosse cuidado por curandeiros habilidosos. ‘Tarde demais,’ disse Manthor, e ele arrancou fora a flecha, e deu um grande grito, e ficou imóvel. Assim terminou a Casa de Haleth, e homens menores governaram Brethil no tempo que restou.

Mas Húrin ficou em silêncio, e quando a companhia partiu, carregando o corpo de Manthor, ele não se virou. Ele olhou sempre para o oeste até que o Sol caísse na escuridão e a luz falhasse; e então partiu sozinho em direção à Haud-em-Elleth.

* Pois Manthor era um descendente de Haldad, e ele possuía uma terra pequena na fronteira leste de Brethil, próximo ao Sirion onde ele atravessa Dimbar. Mas todo o povo de Brethil era formado por homens livres, mantendo suas casas e suas terras, sejam maiores ou menores, de direito. Seu senhor era escolhido entre os descendentes de Haldad, por reverência pelos feitos de Haleth e Haldar; e mesmo que a liderança era dada, como se fosse um domínio ou um reino, para os mais velhos da linhagem mais velha, o povo tinha o direito de colocar qualquer um de lado ou tirá-lo de lá, por uma causa grave. E alguns sabiam o suficiente que Harathor tentara que Brandir o Aleijado tivesse tido abdicado em seu favor.

The History of Middle-earth II – The Book of Lost Tales II

Em The Book Lost Tales II, Christopher Tolkien termina de apresentar aos leitores a primeira fase do trabalho de seu pai, que foi até o início dos anos 20 e gerou as primeiras versões da mitologia do Silmarillion. Neste segundo livro dos Lost Tales, as histórias avançam para a chegada dos Noldoli ou Gnomos (os futuros Noldor) às Grandes Terras e sua guerra com Melkor.

 

A primeira história é a de Tinúviel e Beren, e o leitor já é confrontado com o abismo entre a versão de O Silmarillion e a antiga: Beren é um elfo, um dos Noldor, e toda a complicada relação entre Nargothrond e Doriath, envolvendo Celegorm, Curufin e Finrod Felagund, ainda não havia aparecido. Mas o mais impressionante é a figura de Tevildo, o Príncipe dos Gatos, um espirito maligno em forma felina que, nessa versão do mito, desempenha um papel muito semelhante ao que Sauron desempenharia posteriormente.

A seguir, temos a primeira versão da história de Túrin Turambar, e a história da queda de Gondolin na versão mais completa que chegou a ser escrita por Tolkien. É interessante notar que, nesse estágio, Gondolin havia sido fundada apenas depois da Batalha das Lágrimas Incontáveis, e Tuor não tinha nenhuma relação com a casa de Hador; na verdade, as três casas dos amigos-dos-elfos ainda não tinham sido criadas.

Outra grande surpresa dos Lost Tales é o papel dos anões na história do Nauglafring (o futuro Nauglamír do Silmarillion). Os anões dessa versão são seres envelhecidos, soturnos e perversos, que se unem a um Noldo da corte de Tinwelint (Thingol) para se apoderar da Silmaril.

Encerrando os Lost Tales, temos os fragmentos da História de Eärendel (Eärendil) e de Eriol ou Aelfwine, o marinheiro humano que teria escrito os Lost Tales. Mais diferenças fascinantes aparecem: a princípio, a Guerra da Ira havia sido iniciada sem a permissão dos Valar, e Eärendel não tinha o papel de salvador que desempenhou depois na mitologia. E, através da história de Eriol, sentimos qual era o projeto inicial de Tolkien: Tol Eressëa, a Ilha Solitária, teria se aproximado das Terras Mortais e se tornado a ilha de Leithien (a Inglaterra). E a tradição dos elfos teria sido preservada em solo inglês, inspirando a mitologia que Tolkien criaria.

Conteúdo do Livro

Contos – "The Tale of Tinúviel", "Turambar and the Foalókë", "The Fall of Gondolin", "The Bauglafring", "The Tale of Eärendel" e "The History of Eriol or AElfwine and the End of the Tales"
Poemas – "Éala Éarendel Engla Beorhtast", "The Bidding of the Minstrel", "The Shores of Faëry", "The Happy Mariners", "The Town of Dreams and the City of Present Sorrow" e "The Song of Eriol"
Escritos datam de 1916 – 1920

Appendix – Names in the Lost Tales Part II:
Retirado dos primeiros "lexicons" das línguas Élficas e também inclui palavras em "Qenya" e "Goldogrin or Gnomish". Também inclui palavras da "The Namelist to the Fall of Gondolin"
Escritos datam de 1915

A Segunda Profecia de Mandos

Luthiens_Lament_Before_MandosExiste uma referência no Contos Inacabados, na seção Os Istari, que diz o seguinte: “Manwë não descerá da Montanha até a Dagor Dagorath, e a Chegada do Fim, quando Melkor retornará“. Christopher Tolkien fez um comentário no pé da página, ao leitor: “Esta é uma referência à Segunda Profecia de Mandos, que não aparece no Silmarillion; sua elucidação não pode ser tentada aqui, uma vez que necessita de algum explicação da história da mitologia em relação à versão publicada”.

Unfinished Tales foi publicado em 1980, e, afortunadamente, com a publicação, em 1986 do quarto volume da The History of Middle-earth, entitulado The Shaping of Middle-earth, pode-se ententer mais sobre a Segunda  Profecia de Mandos. Elas aparecem neste volume de duas formas, no primeiro Silmarillion, o Sketch of the Mythology como escrito para o primeiro professor de Tolkien, R. W. Reynolds por volta de 1926, e também no Quenta Silmarillion propriamente escrito por volta de 1930. Para a versão do primeiro Silmarillion, veja section 19, pp. 40-1 de The Shaping of Middle-earth. A segunda versão, da qual alguns trechos abaixo foram retirados, encontra-se em section 19 , pp. 163-5 do mesmo volume:”Após o triunfo dos Deuses, Earendel continuou a navegar nos mares do céu, mas o Sol o queimava e a Lua o caçava no céu… Então os Valar desceram de seu navio branco, Wingelot, para a terra de Valinor, e o enxeram com brilho e o consagraram, e o lançaram através da Porta da Noite. E por muito tempo Earendel navegou na vastidão sem estrelas, Elwing a seu lado, a Silmaril à sua fronte, navegando o Escuro atrás do mundo, uma brilhante e fugitiva estrela. E algumas vezes ele retornava e brilhava atrás dos cursos do Sol e da Lua sob a proteção dos Deuses, mais brilhante que todas as outras estrelas, o marinheiro do céu, mantendo guarda a Morgoth até os confins do mundo. Dessa forma deverá navegar até que veja a Última Batalha sendo lutada nas planícies de Valinor.

Dessa forma falou a profecia de Mandos, que ele declarou em Valmar durante o julgamento dos Deuses, e rumores dele são sussurrados por todos os Elfos do Oeste: quando o mundo estiver velho e os Poderes cansarem-se, então Morgoth deverá retornar através da Porta para fora da Noite Eterna; e ele deverá destruir o Sol e a Lua, mas Earendel virá até ele como uma chama branca e o derrubará dos ares. Então deverá ser travada a última batalha sobre os campos de Valinor. Naquele dia Tulkas lutará com Melkor, e à sua direita estará Fionwe e à sua esquerda estará Turin Turambar, filho de Hurin, Conquistador do Destino; e será a espada negra de Turin que trará a Melkor sua morte e fim definitivo; e então as Crianças de Hurin e todos os homens estarão vingados.

 

Então as Silmarilli serão recuperadas do mar, da terra e do céu; pois Eärendil descerá e dará aquela chama a qual mantinha posse. Então Feanor utilizará as Três e com seu fogo reacenderá as Duas Árvores, e uma grande luz surgirá; a as Montanhas de Valinor serão rebaixadas, para que a luz possa atingir todo o mundo. Naquela luz os Deuses novamente sentir-se jovens, e os Elfos despertão e todos os mortos levantarão, e o propósito de Ilúvatar estará completo em relação a eles. Mas dos Homens naquele dia a profecia não fala, com excessão de  Turin apenas, e a ele o nomeia entre os Deuses.