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Mitos Transformados VII – Notas sobre os motivos no Silmarillion

The Histoy of Middle-earth XEste ensaio é encontrado em duas formas. A mais antiga (‘A’) é um texto bastante curto, manuscrito, contendo quatro páginas, entitulado ‘Algumas notas sobre a ”filosofia” do Silmarillion’; é rapidamente expresso e não possui um final claro. O segundo (‘B’) é uma versão grandemente ampliada contendo doze páginas, também manuscritas, de uma expressão mais cuidadosa e iniciando com uma bela caligrafia, mas encerrado também sem um fim, de fato no meio de uma frase. Este é entitulado ‘Notas sobre os motivos no Silmarillion’.

A relação entre as duas formas é tal que em sua maior parte não é necessário fornecer nenhum trecho de A pois todo seu conteúdo é encontrado inserido em B. A partir do ponto onde os Valar são condenados pela elevação das Pelori, contudo, os textos divergem. Em B meu pai insere uma longa amenização da conduta dos Valar, e o ensaio se encerra antes do assunto da seção que encerra A fosse atingida (ver nota 6); esta, portanto, é fornecida no final de B.

O texto de B é subsequentemente dividido e marcado como três seções distintas, sendo elas (i), (ii) e (iii).

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Os Anais de Aman – Quarta Seção

The History of Middle-earth X - Morgoth's RingA Valinor tem a honra de publicar a quarta parte de um total de seis que compõem os Anais de Aman,
um longo registro dos acontecimentos desde a criação de Arda até a Criação do Sol e da Lua escrito  pelo próprio J. R. R. Tolkien e publicado no The History of Middle-earth 10. Esta quarta parte (leia também a primeira, a segunda e a terceira) engloba o período desde a Libertação de Melkor até a Destruição das Árvores.
Quarta Seção dos Anais de Aman
[Esta seção dos Anais possui uma grande quantidade de mudanças feitas durante a escrita, e também várias alterações e adições – algumas substanciais – que certamente parecem pertencer basicamente à mesma época. Estas foram incorporadas ao texto fornecido aqui, com detalhes das alterações mais importantes registrados nas notas que se seguem. Algumas poucas adições curtas que são decididamente posteriores estão colocadas nas notas.]
1179

§78 Fëanor, filho mais velho de Finwë, nasceu em Tirion sobre Túna. Sua mãe foi Byrde Míriel (1).


§79 Então os Noldor (2) passaram a apreciar todos os conhecimentos e todos os trabalhos práticos e Aulë e seu povo vinham com freqüência entre eles. Mas tal era a habilidade que Ilúvatar dera a eles que, em muitos aspectos, especialmente naqueles que demandavam destreza e grande qualidade no trabalho manual, eles logo ultrapassaram seus professores. É dito que a este tempo os construtores da Casa de Finwë, escavando as montanhas em busca de pedras para suas construções (pois eles apreciavam a construção de altas torres), descobriram pela primeira vez as gemas da terra, nas quais a Terra de Aman eram, de fato, incrivelmente ricas. E seus artífices desenvolveram ferramentas para cortar e modelar as gemas, as esculpiram em muitas formas de radiante beleza e não as guardavam em tesouros mas as davam livremente para todos que as desejassem, e toda Valinor foi enriquecida por seus trabalhos (3).

§80 Neste ano Rúmil, o mais renomado dos mestres do conhecimento da fala, criou pela primeira vez letras e começou a registrar em escrita os idiomas dos Eldar e suas canções e sabedoria (4).


1190

§81 Neste ano nasceu Fingolfin filho de Finwë, que mais tarde foi Rei dos Exilados.


1230

§82 Finrod filho de Finwë nasceu.


1250

§83 A este tempo começou a se desenvolver a habilidade de Fëanor filho de Finwë, que era dentre todos os Noldor o maior criador e artífice. E ele pensou e desenvolveu novas letras, melhorando os sistemas de Rúmil, e estas letras os Eldar têm usado desde aquele dia. Isto foi senão o início dos trabalhos de Fëanor. Ele amava grandemente as gemas, e ele começou a estudar como, pela habilidade de sua mão e mente, ele poderia fazer outras maiores e mais brilhantes do que aquelas escondidas na terra (5).

§84 [A este tempo também, é dito entre os Sindar, os Naugrim (6) a quem também chamamos os Nornwaith (os Anões) vieram por sobre as montanhas para Beleriand e foram conhecidos pelos Elfos. E os Anões eram grandes ferreiros e construtores, sendo, de fato (assim se acredita) trazidos à existência por Aulë; mas antigamente pouco beleza havia em suas obras. Portanto cada povo teve grande benefício no outro, embora sua amizade sempre tenha sido fria. Mas àquele tempo não havia desavenças entre eles e o Rei Thingol deu-lhes as boas-vindas, e os Barbalongas de Belegost ajudaram-no na escavação e construção dos grandes salões de Menegroth, onde ele passou a morar com Melian, sua Rainha. Assim disse Pengolod] (6)

1280

§85 Neste ano Finrod filho de Finwë casou-se com Ëarwen filha do Rei Olwë de Alqualondë, e houve uma grande desta na terra dos Teleri. Portanto os filhos de Finrod, Inglor e Galadriel, eram parentes do Rei Thingol Capacinzenta em Beleriand.

1350

§86 [A este tempo, parte dos Elfos perdidos do povo de Dân após longas andanças chegaram a Beleriand a partir do Sul.  Seu líder era Denethor filho de Dâ, e ele os conduziu a Ossiriand onde sete rios corriam das Montanhas de Lindon. Estes são os Elfos Verdes. Eles tinham a amizade de Thingol. Quoth Pengolod.](8)

1400

§87 Veio a acontecer que Melkor residiu sozinho sob Mandos forçadamente pelas três eras definidas pelos Valar, e veio ante seu conclave ser julgado. E Melkor implorou por perdão aos pés de Manwë, humilhou-se, jurou seguir suas regras e a ajudar os Valar de todas as formas que pudesse pelo bem de Arda e o benefício dos Valar e dos Eldar, se a ele fosse concedida liberdade e um lugar como o último dentre todos os povos de Valinor.

§88 E Niënna auxiliou no seu pedido (devido ao seu parentesco) e Manwë o concedeu, pois sendo livre de todo o mal ele não viu as profundezas do coração de Melkor, e acreditou em seus juramentos. Porém Mandos ficou em silêncio e o coração de Ulmo ficou em dúvida.

1410

§89 Então Melkor residiu sob vigilância por algum tempo em uma casa humilde em Valmar, e não tinha permissão de andar sozinho livremente. Mas, uma vez que àquele tempo todas as suas palavras e trabalhos eram belos e ele se tornara em todas as formas e aparências como os Valar seus irmãos, Manwë deu a ele liberdade dentro de Valinor. Mas a alegria de Tulkas ficava enevoada sempre que ele via Melkor passar, e as unhas de seus dedos marcavam a palma de suas mãos, devido aos esfoço que fazia para se conter.

§90 E realmente Melkor fora falso e traiu a clemência de Manwë, e usou sua liberdade para espalhar amplamente mentiras e envenenar a paz de Valinor. Então uma sombra caiu sobre a Terra Abençoada e seu Meio Dia dourado passou; mas ainda levaria tempo para que as mentiras de Melkor frutificassem, e os Valar continuaram vivendo em felicidade.

§91 Em seu coração Melkor odiava mais os Eldar, tanto por sua beleza e alegria e porque neles ele via a razão do destaque dos Valar e sua própria queda e humilhação. Portanto mais do que tudo ele fingia amor por eles, procurava suas amizades, e oferecia a eles o serviço de seu conhecimento e trabalho em qualquer grande feito que eles fizessem. E muitos dos Noldor, devido ao seu desejo por todo conhecimento, lhes deram ouvidos e se deliciaram com seus ensinamentos. Mas os Vanyar não se envolveram com ele.

1449

§92 Neste Ano Fëanor começou aquele trabalho que é renomado acima de todos os trabalhos da Eldalië; pois seu coração concebeu as Silmarils, e ele fez muitos estudos e muitos ensaios antes que sua fabricação pudesse começar. E embora Malkor tenha dito mais tarde que Fëanor teve sua instrução naquele trabalho, ele mentiu em seu desejo e sua inveja; pois Fëanor foi conduzido apenas pelo fogo de seu próprio coração, e era ávido e orgulhoso, trabalhando sempre rapidamente e sozinho, não pedindo ajuda e não buscando conselho.

1450



As Silmarilli de Fëanor são feitas

§93 Neste ano as Silmarils ficam completamente prontas, a maravilha de Arda. Como três grandes jóias elas eram em forma. Mas não até o Fim, quando Fëanor deverá retornar, ele que pereceu quando o Sol era jovem e senta-se agora nos Salões da Espera e não virá mais entre sua raça, não antes do Sol passar e a Lua cair, será conhecida a substância com a qual foram feitas. Como o cristal dp diamante ela se parecia mas era mais forte que o adamante, de forma que nenhuma violência dentro dos muros deste mundo pode marcá-la ou quebrá-la. Aquele cristal era para as Silmarils como é o corpo para os Filhos de Ilúvatar: a casa de seu fogo interior, que está dentro dela e também em todas as partes dela, e sua vida. E o fogo interno das Silmarills Fëanor fez com a Luz misturada das Árvores de Valinor que ainda vive nelas, embora as Árvores há muito tenham secado e não brilhem mais. Portanto mesmo na mais completa escuridão as Silmarils brilham por sua própria luz como as estrelas de Varda, e mais, como são de fato coisas vivas, elas se deliciam na luz, a recebem e a dão de volta em tons ainda mais belos que antes.

§94 E todo o povo de Valinor ficou impressionado com o trabalho manual de Fëanor, e ficaram maravilhados e deliciados, e Varda abençoou as Silmarils, de forma que dali em diante nenhum mortal nem coisa maligna ou suja poderia tocá-las, ou seriam marcados e queimados com intolerável dor. E Melkor desejou as Silmarils e a simples memória de sua luz era como um fogo queimando em seu coração.


1450 – 1490

§95 Devido a isso, embora continuasse a dissimular seus propósitos com grande sutileza, Melkor procurava agora ainda mais ansiosamente como poderia destruir Fëanor e encerrar a amizade de Valar e Eldar. Longamente esteve ele trabalhando, e lento e infrutífero era seu esforço inicialmente. Mas aquele que semeia mentiras no final não deixará de ter uma colheita, e de fato logo ele pode descansar do esforço, enquanto outros colhiam e semeavam em seu lugar. Mesmo Melkor encontrou alguns ouvidos que o ouviriam, e algumas línguas que aumentariam o que ouviram. Pois as mentiras de Melkor criavam raízes pela verdade que havia nelas.

§96 Então aconteceu que surgiram murmúrios em Eldamar de que os Valar haviam trazido os Eldar a Valinor por inveja de suas belezas e habilidades, e temendo que eles pudessem crescer fortes demais para serem governados nas terras livres do Leste. E então Melkor predisse a chegada dos Homens, dos quais os Valar ainda não haviam falado aos Elfos, e novamente foi murmurado que os deuses tinham a intenção de reservar os reinos da Terra-média para a raça mais jovem e mais fraca, os quais eles poderiam dominar mais facilmente, destituindo os Elfos da herança de Ilúvatar.

§97 Então finalmente os príncipes dos Noldor começaram a murmurar contra os Valar, e muitos ficaram cheios de orgulho, esquecendo tudo que os Valar os havia ensinado e dado. E naquele tempo (tendo criado ira e orgulho) Melkor falou aos Eldar sobre armas, que antes eles não tinham possuído ou conhecido; pois os arsenais dos Valar foram fechados após o acorrentamento de Melkor. Mas agora os Noldor começaram a fundição de espadas e machados e lanças; e escudos eles fizeram contendo os símbolos de muitas casas e grupos que competiam uns contra os outros.

§98 Um grande ferreiro era Fëanor naqueles dias, e um príncipe orgulhoso e dominante, vigilante de tudo que ele tinha; e Melkor o vigiava. Pois ainda desejava as Silmarils; mas agora raramente Fëanor as trazia à luz, e as mantinha trancadas na escuridão do tesouro de Túna; e ele começou a limitar a visão delas a todos exceto a seu senhor e seus sete filhos. Por isso Melkor lançou novas mentiras de que Fingolfin estava planejando suplantar Fëanor e seu pai aos olhos dos Valar, e conseguiria, pois os Valar estavam aborrecidos pelo fato das Silmarills não terem sido deixadas a seus cuidados. Por essas mentiras disputas surgiram entre os orgulhosos filhos de Finwë e Melkor estava satisfeito; pois tudo ia conforme seu planejamento. E repentinamente os Valar ficaram cientes que a paz de Valinor fora quebrada e as espadas desembainhadas em Eldamar.

1490

§99 Então os Deuses se enfureceram, e eles chamaram Fëanor perante eles. E eles expuseram todas as mentiras de Melkor; mas por ter sido Fëanor o primeiro a quebrar a paz e ameaar violência em Aman ele foi, pelo julgamento deles, banido por vinte (10) anos de Tirion. E ele partiu  e residiu ao norte de Valinor perto dos salões de Mandos, e construiu um novo tesouro e forte em Formenos, e grande riqueza em jóias ele colocou no tesouro, e as Silmarils foram trancadas em uma sala de ferro. E para este lugar veio Finwë, pelo amor que dedicava a Fëanor, e Fingolfin governou os Noldor de Túna. Desta forma as mentiras de Melkor foram aparentemente feitas verdade, e o amargor que ele criou permaneceu por muito tempo entre os filhos de Fingolfin e Fëanor.

§100 Diretamente do Círculo do Destino Tulkas foi rapidamente colocar as mãos em Melkor, mas Melkor sabendo que seus esquemas foram revelados (11) ocultou-se, e uma nuvem estava ao redor dele, e pareceu ao povo de Valinor que a luz das Árvores tornou-se mais fraca do que costumava ser, e as sombras eram mais negras e longas.

1492

§101 E é dito que Melkor não foi visto novamente por algum tempo; mas repentinamente ele apareceu ante as portas da casa de Finwë e Fëanor em Formenos e buscou falar com eles. E disse a eles: Contemplem a verdade de tudo que eu falei, e como você está, de fato, banido injustamente. E não pense que as Silmarils estejam seguram em qualquer tesouro dentro do reino dos deuses. E se o coração de Fëanor ainda é livre e corajoso como suas palavras o foram em Túna, então eu irei ajudá-lo e levá-lo para longe desta terra estreita. Pois não sou eu um Vala tal como eles? Sim, e mais do que eles, e sempre fui um amigo dos Noldor, o mais habilidoso e valoroso de todos os povos de Arda.

§102 Então o amargor aumentou no coração de Fëanor e se encheu com medo pelas Silmarils, e naquele estado de espírito permaneceu. Mas as palavras de Melkor tocaram fundo demais, e despertaram um fogo mais terrível do que ele pretendia; e Fëanor olhou para ele com olhos brilhantes, e veja! viu através da aparência de Melkor e vislumbrou as secritudes de sua mente, percebendo ali o desejo pelas Silmarils. Então o ódio suplantou todo o medo e ele amaldiçoou Melkor e ordenou sua partida. ‘Partais de meu portão, andarilho (12), corvo da prisão de Mandos’, disse ele, e fechou as portas de sua casa no rosto do mais poderoso de todos os habitantes de Ëa.

§103 E àquele tempo, estando ele próprio em perigo, Melkor partiu, consumido pela raiva, e vingança amarga ele planejou por sua humilhação. E Finwë se encheu com grande medo e rapidamente enviou mensageiros a Manwë em Valmar.

§104 Então Oromë e Tulkas partiram em perseguição a Melkor, mas antes que tivessem cavalgado longe mensageiros chegaram de Eldamar, relatando que Melkor fugira através do Kalakiryan (13), passando pela colina de Túna em fúria, como uma nuvem de tempestade. Com a fuga de Melkor a sombra foi retirada de Valinor e por algum tempo toda a terra foi bela novamente. Mas os deuses procuraram em vão por sinais de seu inimigo, e dúvida desceu sobre seus corações sobre qual seria o novo mal que ele poderia tentar.

§105 É dito que Melkor chegou à região escura de Arvalin. Aquela terra estreita ficava ao sul da Baía de Eldamar, mas a leste das montanhas das Pelóri, e seu longo e melancólico litoral se estendia até o Sul do mundo, sem luz e inexplorado. Ali, entre os lisos muros das montanhas e o Mar frio e escuro, as sombras eram as mais profundas do mundo. E ali secretamente Ungoliantë fizera sua morada. De onde viera nenhum dos Eldar sabe, mas talvez ela tenha vindo para o Sul das escuridões de Ëa, no tempo em que Melkor destruiu as luzes de Illuin e Ormal, e devido às suas moradas no Norte a atenção dos Valar foi voltada principalmente para lá e o Sul ter ficado por muito tempo esquecido. Dali ela ela rastejava lentamente em direção ao reino de luz dos Valar. Pois ela ansiava pela luz e a odiava. Em uma fenda profunda das montanhas ela residia, e tomou forma como se fosse uma aranha monstruosa, sugando toda a luz que podia encontrar ou que passava por sobre os muros de Valinor, e a lançava de volta na forma de teias negras de opressiva escuridão, até que nenhuma luz pudesse mais chegar à sua morada e ela estivesse faminta.

§106 Pode muito bem ser que Melkor, se nenhum outro, soubesse dela, sua existência e sua morada, e que ela fosse no início um daqueles que ele corrompeu a seu serviço. E chegando finalmente a Arvalin, procurou por ela e exigiu ajuda em sua vingança. Mas ela estava relutante em enfrentar os perigos de Valinor e a grande fúria  dos deuses, e não partiria de seu esconderijo antes de Melkor ter jurado dar a ela uma recompensa que curaria a persistente dor de sua fome e raiva.

1495

§107 E finalmente tendo organizado bem seus planos Melkor e Ungoliantë partiram. Uma grande escuridão que Ungoliantë tecera estava ao redor deles, e cordas negras ela também lançara e fixara entre as rochas e depois de longo esforço, de teia a teia, ela escalou finalmente até o pico de Hyarantar, que é o mais alto pináculo das montanhas ao sul de Taniquetil. Lá, de fato (exceto por aquela torre de vigia do Sul), as Pelóri era menos imponentes e menor era a vigilância dos Valar, pois eles tinha sempre estado em guarda principalmente contra o Norte.

§108 Então Ungoliantë teceu uma escada de cordas e a lançou para baixo, Melkor a escalou e então chegou àquele local elevado, de onde podia observar o Reino Vigiado abaixo. E abaixo ficavam as verdejantes florestas selvagens de Oromë, e longe no oeste os brilhantes campos e pastos de Yavanna, de um dourado pálido abaixo dos altas plantações de grãos dos deuses. E Melkor olhou para o norte, e viu ao longe a planície radiante, os domos prateados de Valmar reluzindo na junção das luzes de Telperion e Laurelin. Então Melkor gargalhou alto e desceu rapidamente ao longo da encosta oeste; Ungoliantë estava a seu lado e sua escuridão os cobria.

§109 Ora, era um tempo de festival, como Melkor bem sabia. Pois, embora todas as marés e estações estivessem sob a vontade dos Valar e não existisse em Valinor inverno de morte, os deuses residiam então no reino de Arda que não era mais do que um pequeno reino nos salões de Ëa, cuja vida é Tempo, que flui sempre desde a primeira nota ao último acorde de Eru. E era então o prazer dos Valar (como dito no Ainulindalë) vestirem-se nas formas dos Filhos de Ilúvatar, e comiam e eles bebiam e colhiam os frutos de Yavanna, e retiravam força da Terra a qual sob Eru eles fizeram.

§110 Portanto Yavanna fixou tempos para o florescer e a maturação de todas as coisas que crescem: crescimento, florescimento e tempo da semente. E de cada primeiro colher de frutos Manwë fazia um clímax de exaltação a Eru, e todo o povo de Valinor externava sua felicidade em música e canção. E tal era esta hora; e Manwë, esperando de que fato a sombra de Melkor tivesse sido removida da terra, e temendo nada pior do que, talvez, uma nova guerra com Utumno e uma nova vitória para encerrar tudo, decretou que esta comemoração deveria ser mais gloriosa do que qualquer outra feita desde a chegada dos Eldar. Ele também desejou curar o mal que surgiu entre os Noldor, e todos eles foram chamados, por isso, para ir até ele e compartilhar com os Maiar em seus salões sobre o Taniquetil e lá deixar de lado todos os pesares que permaneciam entre seus príncipes e esquecer de uma vez por todas as mentiras de seu Inimigo.

§111 Lá foram os Vanyar, e lá foram os Noldor, e os Maiar estavam reunidos, e os Valar estavam adornados em sua beleza e majestade, e cantaram ante Manwë em seus altos salões, ou se divertiram sobre as encostas gramadas a oeste do Taniquetil , em direção às Árvores. Naquele dia as ruas de Valmar estavam vazias e as escadas de Túna silenciosas, apenas os Teleri além das montanhas continuavam cantando no litoral do Mar, pois eles se importavam pouco com estações ou tempos, e não pensavam nas preocupações dos Regentes de Arda ou na sombra que caíra sobre Valinor, pois ela não os tocara, ainda.

§112 Apenas uma coisa maculou os desígnios de Manwë. Fëanor de fato veio, pois apenas a ele Manwë comandou que viesse; mas Finwë não veio nem nenhum outro dos Noldor de Formenos. Pois disse Finwë, ‘Enquanto o banimento permanecer sobre Fëanor meu filho, que ele não possa ir a Túna, eu me mantenho afastado da coroa, e não encontrarei meu povo, nem aqueles que governam em meu lugar’. E Fëanor não foi em vestimentas de festival, e não usava nenhum ornamento, nem prata nem ouro nem nenhuma gema; e vetou a visão das Silmarils aos Eldar e Valar, e as deixou trancadas nas escuridão de sua sala de ferro. Contudo, ele encontrou Fingolfin ante o trono de Manwë e se reconciliou em palavras, e Fingolfin colocou um fim ao desembainhar da espada.

§113 É dito que enquanto Fëanor e Fingolfin estavam perante Manwë, ocorreu a União das Luzes e ambas as Árvores estavam brilhando e a silenciosa cidade de Valmar foi preenchida com radiância como de prata e ouro, e naquela hora Melkor e Ungoliantë vieram à planície e pararam à frente do Monte Verdejante. Então Melkor veio e com sua lança negra feriu cada Árvore até seu centro, um pouco acima das raízes, e suas seivas escorreram, como se fosse seu sangue, e se esparramaram sobre o chão. E Ungoliantë a sugou, e indo então de Árvore a Árvore ela colocou seus lábios imundos em suas feridas, até que estivessem exauridas; e o veneno que existia nela passou para seus corpos e as murchou; e elas morreram. E Ungoliantë continuava sedenta, e foi aos Vasos de Varda e tomou deles até secarem; e Ungoliantë expelia vapores negros enquanto bebia, e cresceu para uma forma tão vasta e horrível que mesmo Melkor ficou aterrorizado.

§114 Então a Escuridão caiu sobre Valinor. De todos os feitos daquele dia muito é dito no Aldudénië (o Lamento pelas Árvores) que Elemírë dos Vanyar compôs e é conhecido de todos os Eldar. Mas nenhuma canção ou conto poderia conter todo o pesar e terror que então caiu. A Luz falhou, e isto era já era calamidade suficiente, mas a Escuridão que se seguiu era mais do que a perda de luz. Naquela hora foi criada a Escuridão que parecia não ausência mas uma coisa com existência própria: pois era de fato feita por malícia a partir da Luz, e tinha o poder de atingir os olhos, adentrar coração e mente, e estrangular a própria vontade.

§115 Varda olhou para baixo da Montanha Sagrada e contemplou a Sombra subindo em repentinas torres de escuridão; Valmar foi encoberta em um profundo mar de noite. Logo Taniquetil ficou sozinho, como uma última ilha de luz em um mundo que afundara. Toda música cessou. Houve silêncio em Valinor e nenhum som podia ser ouvido, exceto apenas aquele de longe que vinha com o vento através da fenda nas montanhas, o lamento dos Teleri como o grito frio das gaivotas. Pois ventou gelado do Leste naquela hora, e as vastas sombras do Mar se voltaram contra os muros do litoral.

§116 E Manwë de seu alto trono olhou, e apenas seus olhos atravessavam a escuridão, e viu ao longe como uma Escuridão além do escuro se movia para o norte pela terra, e ele soube que Melkor estava lá. Então a perseguição começou, e terra tremeu sob os cavalos da hoste de Oromë, e o fogo que saiu dos cascos de Nahar foi a primeira luz que retornou a Valinor. Mas tão logo quanto chegavam à Nuvem de Ungoliantë os cavaleiros dos Valar eram cegados e desencorajados, e se separaram e não sabiam mais para onde ir; e o som da Valaróma hesitou e falhou.  E Tulkas era como um homem pego em uma teia negra na noite, e ele ficou impotente e golpeava o ar em vão. E quando a Escuridão passou, era tarde demais: Melkor tinha ido para onde queria, e sua vingança estava totalmente realizada.


NOTAS


1.
Este registro é uma substituição antiga, o registro original, referente ao casamento de Finrod e Ëarwen filha de Olwë, reaparece em forma bastante no manuscrito como originalmente escrito sob o ano de 1280. Mais tarde, com caneta esferográfica, meu pai alterou a data deste registro para 1169 e adicionou novos registros para 1170, ‘Míriel adormeceu e passou para Mandar’, e 1172 ‘Julgamento de Manwë com relação aos casamentos dos Eldar’. Sobre estes assuntos ver nota 4 abaixo. os novos registros aparecem na versão datilografada original.


2.
O nome Noldor é aqui escrito com um til, Noldor (representando a nasal posterior, o ng de king, ver HoME IV). Esta se tornou a forma normal em todos os escritos tardios de meu pai, embora frequentemente omitido de maneira casual (nenhum de seus datilógrafos possuía este sinal); ele não é representado na escrita do nome Noldor neste livro.


3.
A parte final deste trecho, referente às gemas, é em grande parte uma adição. Como inicialmente escrito, tudo que foi dito sobre o assunto era:

É dito que a por volta desta época os artífices da Casa de Finwë (de quem Fëanor seu filho mais velho era o mais habilidoso) primeiramente divisaram gemas, e toda Valinor foi enriquecida por seus trabalhos.

Ver nota 5.


4.
Um novo registro foi adicionado aqui ao mesmo tempo daqueles dados na nota 1: ‘1185 Finwë se casa com Indis dos Vanyar’.


5.
Esta sentença (‘Ele amava grandemente as gemas…’) é uma adição acompanhando a mudança e expansão citadas na nota 3.


6.
Naugrim foi escrito a lápis sobre o original Nauglath (o qual, contudo, não foi riscado), e a palavra ‘também’ (em ‘a quem também chamamos’) adicionada ao mesmo tempo.


7.
Esta interpolação feita em Beleriand por Pengolod, entre colchetes no original, foi uma adição ao manuscrito; confira nota 8. Ao lado dela meu pai mais tarde escreveu a lápis: ‘Transferir para os A[nais] de B[eleriand]’.


8.
Esta interpolação de Pengolod, entre colchetes, foi uma adição ao manuscrito; e como aquela citada na nota 7 foi marcada mais tarde para ser transferida para os Anais de Beleriand. O nome do líder dos Nandor foi inicialmente escrito Enadar, alterado imediatamente para Denethor (o nome em AV2, QS e o Lhammas).

Mas tarde meu pai adicionou aqui a lápis um novo registro, para 1362: ‘Aqui nasceu Isfin filha de Fingolfin, a Dama Branca dos Noldor’ (ver nota 9).

9. Uma adição rápida a tinta, subsequentemente riscada, dá um registro para 1469: ‘Aqui nasceu a primeira filha de Fingolfin, a Dama Branca dos Noldor’ (ver nota 8). Não é dito em outro lugar que Fingolfin tinha outra filha além de Isfin.


10.
O manuscrito tem ‘três’ o ‘ten’ > ‘vinte’ (Anos dos Valar).


11.
Do inglês bewrayed: ‘revelado’, ‘traído’.


12.
Do inglês gangrel (‘vagabundo’) substituindo beggarman (‘pedinte’, ‘mendigo’).


13.
Meu pai inicialmente escreveu Kalakilya, a forma antiga, mas alterou-a imediatamente para Kalakirya; -n foi adicionado mais tarde (ver §67).


Comentários sobre a quarta seção dos


Anais de Aman
Esta seção dos Anais corresponde em conteúdo ao Capítulo 4 de QS ‘Das Silmarils e o Escurecimento de Valinor‘ (HoME V), e a AV 2 registros 2500 até o começo de 2990 (HoME V). O registro em AAm não tem comparação com o rápido AV 2, e representa um impulso totalmente diferente; de fato, nesta seção nós vemos a forma de registros desaparecendo enquanto narrativas completas surgem. Com frequentemente no caso dos trabalhos de meu pai, a história toma conta e se amplia seja quais forem as restrições de forma que ele optou. A nova narrativa tem o dobro do tamanho daquela em QS, à qual é relacionada em estrutura. Em expressão é quase inteiramente nova, mas mesmo assim uma comparação entre eles mostrará que AAm tende antes a uma maior definição da narrativa do que a mudanças significativas na estrutura ou novas adições notáveis – embora ambas estejam presentes. Os comentários a seguir de forma alguma têm a intenção de serem uma análise de todas as diferenças de ênfase, sugestão e detalhe entre AAm e QS.


§
78 Cedo no AAm, sob o ano 1115, aparecem inserções rejeitadas (ver a Terceira Seção dos Anais de Aman, notas 3 e 5) nas quais estão registradas o nascimento de Fëanor por Indis esposa de Finwë na Terra-média durante a Grande Jornada, e a subseqüente morte dela numa queda nas Montanhas Nebulosas. Escritas com caneta esferográfica estas inserções parecem ser relativamente tardias; aqui, por outro lado, no que parece ser uma adição antiga (escrita cuidadosamente com tinta, veja nota 1 acima), Fëanor nasceu em Tirion, e sua mãe foi Morial, chamada Byrde Míriel (do Inglês antigo byrde ‘bordadeira’). Em adições tardias (notas 1 e 4 acima) é registrado que em 1170 Míriel ‘adormeceu’ e passou para Mandos e em 1185 Finwë casou-se com Indis dos Vanyar.

§79 Em um ponto do começo de QS (§40) é dito que os Noldor ‘desenvolveram a criação de gemas’; similarmente em AV 2 (HoME V) eles ‘inventaram gemas’ e novamente em Ainulindalë B (HoME V). Esta idéia é encontrada em todos os textos antigos, retrocedendo até o elaborado registro no antigo conto de ‘A Chegada dos Elfos‘ (ver HoME I). No período posterior ela sobreviveu na versão final D do Ainulindalë (§35), e continua presente inicialmente em AAm (ver nota 3 acima). A reescrita deste trecho rejeita a idéia de ‘invenção’: as gemas dos Noldor foram minadas em Aman.


§80 A associação dos Noldor com escrita alfabética retorage até os Contos Perdidos, onde esta arte é associada principalmente a Aulë (HoME I); ‘naqueles dias Aulë auxiliado pelos Gnomos desenvolveu alfabetos e escritas’ (HoME I). No Ainulindalë B (HoME V) os Noldor ‘acrescentaram muito aos ensinamentos [de Aulë] e tinham grande prazer em idiomas e alfabetos’, e isto sobreviveu em versões posteriores. Agora Rúmil e (em §83) Fëanor surgem como os grandes inventores. Confira O Senhor dos Anéis, Apêndice E (II):

Os Tengwar… foram desenvolvidos pelos Noldor, a família dos Eldar mais habilodosa em tais assuntos, muito antes de seu exílio. As letras Eldarin mais antigas, os Tengwar de Rúmil, não foram usadas na Terra-média. As letras posteriores, os Tengwar de Fëanor, foram amplamente uma invenção nova, embora devesse algo às letras de Rúmil.

Se Rúmil foi o autor dos Anais de Aman, como é dito no preâmbulo, ele está aqui se descrevendo com as palavras ‘mais renomado dos mestres de conhecimento de idiomas’.


§82 Finrod: nome inicial de Finarfin (Finarphin).


§84 A forma Nauglath (ver nota 6) é, curiosamente, uma reversão ao nome original em Gnômico para os Anões no Contos Perdidos (ver HoME I), embora Naugrim ocorra como uma forma original em QS em um ponto posterior na narrativa (§122). [A entrada Naugrim foi inadvertidamente excluída do índice para o HoME V. As referências são 273, 277, 405.] – Sobre o nome Sindar veja §74.

Sobre referências antigas aos Anões em Beleriand veja IV.336; como eu comentei lá, a afirmação na segunda versão do primeiro Anais de Beleriand (HoME IV) de que os Anões tinham ‘de antigamente’ uma estrada para Beleriand é o primeiro sinal da idéia posterior de que os Anões tinham estado ativos em Beleriand muito antes do Retorno dos Noldor. Mas o presente trecho é a primeira referência aos Anões ajudando Thingol na escavação e contrução de Menegroth. – A lenda da criação dos Anões por Aulë é citada nos textos do período inicial: AB 2 (HoME V), o Lhammas (HoME V e comentários) e QS (§123 e comentários).


§85 Aqui aparece o importante desenvolvimento de acordo com o qual os príncipes da Terceira Casa dos Noldor se tornaram próximos a Thingol de Doriath (Elwe Singollo, irmão de Olwë de Alqualondë, §58); e Galadriel é introduzida dO Senhor dos Anéis. Confira Apêndice F (I, Dos Elfos): ‘A dama Galadriel da casa real de Finrod, pai de Felagund, Senhor de Nargothrond’ (uma afirmação que foi alterada na Segunda Edição de O Senhor dos Anéis, quando Finrod se tornou Finarphin e Inglor se tornou Finrod (Felagund)).

§86 Em AV 2 (HoME V, também em uma interpolação de Pengolod) e em QS (§115) os Elfos sob Denethor não chegaram a Beleriand ‘a partir do Sul’, mas por sobre as Montanhas Azuis; o significado aqui provavelmente é que eles cruzaram as montanhas em uma região ao sul de Ossiriand. Não haviam sete rios correndo das montanhas, mas seis: o sétimo rio de Ossiriand era o grande rio Gelion, para o qual os seis fluíam.


§88 devido ao seu parentesco: em AAm §3 (assim como em AV 2 e em QS §9) Niënna era ‘irmã de Manwë e Melkor’. Em AAm* ela é dita ser apenas irmã de Manwë.

§92 Em AV 2 duas eras se passaram (A.V. 2500 – 2700) entre a criação das Silmarils e a libertação de Melkor; da maneira similar em QS (§§46-7). Em AAm a relação dos dois é invertida, com a libertação de Melkor colocada no Ano das Árvores 1400 e o término das Silmarils em 1450.

§93 Com o que é dito aqui sobre o destino de Fëanor confira QS §88: ‘tão cheio de fogo era seu espírito que seu corpo se transformou em cinzas assim que seu espírito partiu; e nunca mais apareceu sobre a terra nem deixou o reino de Mandos’.

§87 Sobre a ignorância dos Elfos com relação a armas ver §97.

§98 Nenhuma menção é feita em QS (§52) das dissensões chegando a ponto de desembainhar espadas. Em AAm §112 ‘Fingolfin colocou um fim ao desembainhar da espada’, e na margem do texto datilografado a este ponto meu pai escreveu ‘se refere a que?’. Uma expansão posterior do capítulo no QS, próxima em tempo à escrita de AAm, conta que Fëanor ameaçou Fingolfin com a espada desembainhada (§52); e em vista de §112 parece provável que isto tenha sido inadvertidamente omitido aqui.


§99 O termo do banimento de Fëanor (ver nota 10 acima) não é citado em textos mais antigos. O nome formenos agora aparece, em uma adição ao texto.


§102 o mais poderoso de todos os habitantes de Ëa: ver §2.


§105 O tempo da chegada de Ungoliantë a Arda é colocado (como uma suspeita) junto com a entrada de Melkor e sua hoste antes da derrubada das Lâmpadas (ver §19). Compare ‘talvez ela tenha vindo para o Sul das escuridões de Ëa’ com QS §55: ‘da Escuridão Exterior, talvez, aquela que se estende além das Muralhas do Mundo’.


§106 Embora novamente colocada como uma suspeira, a origem de Ungoliantë é agora encontrada em sua antiga corrupção por Melkor, e é sugerido que ele foi para Arvalin com o próximo definido de encontrá-la.

§107 A alta montanha na cadeia sul das Pelóri agora recebe um nome, Hyarantar (mais tarde substituído por Hyarmentir).

§109 No Contos Perdidos a razão do grande festival era a comemoração da chegada dos Eldar a Valinor (HoME I), mas em textos posteriores sua razão não é especificada. Agora um novo e notável registro é dado, com uma referência à passagem no Ainulindalë (§25) onde as formas visíveis assumidas pelos Valar em Arda são descritas; e aqui a idéia destas ‘formas’ é ampliada (como parece) ao ponto onde os grandes espíritos podem comer, e beber, e ‘retirar força da Terra’. Completamente nova também nesta passagem é o elelemtno do propósito de Manwë em obter concórdia entre os Noldor.

§112 Em QS (§60) Fëanor estava presente ao festival na Taniquetil; agora entra a história de que ele foi sozinho de Formenos, sendo comandado a fazê-lo por Mnwe, em vestimentas sóbrias, que Finwë se recusou a ir enquanto seu Filho vivesse em banimento, e que Fëanor se reconciliou ‘em palavras’ com Fingolfin perante o trono de Manwë. A este ponto, é claro, Fëanor e Fingolfin ainda eram irmãos (e não meio-irmãos).

§114 Não há sinal do texto Aldudénië entre os papéis de meu pai. Compare a passagem relativa à Escuridão que veio com a extinção da Luz das Árvores com o Ainulindalë §19: ‘e pareceu [aos Ainur] que naquele momento eles perceberam uma nova coisa, Escuridão, a qual eles não conheciam antes, exceto em pensamento’.

§116 Sobre o chifre Valaróma de Oromë ver Ainulindalë D, §34.


*

Há um grande número de notas e alterações feitas no texto datilografado, algumas acrescentadas pelo datilógrafo sob a instrução de meu pai; mas apenas algumas poucas precisam ser registradas.


§78 Os dois novos registros dados na nota 1 acima, e aquele na nota 4, aparecem no texto datilografado original.

§81 Após a entrada para 1190 uma nova entrada foi acrescentada para o ano 1200: ‘Luthien nasce’ (com uma interrogação).

§84 Um espaço em branco é deixado no texto datilografado onde o manuscrito tem Naugrim escrito sobre Nauglath, possivelmente porque o datilógrafo não sabia qual forma colocar (ver nota 6). O espaço em branco não foi preenchido, mas o nome Nornwaith que se segue foi riscado.

§85 Após o registro para 1280 as seguintes entradas Beleriândricas foram colocadas:

1300    Daeron, mestre do conhecimento de Thingol, desenvolve as Runas
Turgon, filho de Fingolfin, e Inglor, filho de Finrod, nascem.

1320    Os Orcs aparecem pela primeira vez em Beleriand

§86 Após o registro para 1350 duas entradas foram adicionadas:

1362    Galadriel, filha de Finrod, nasce em Eldamar Isfin, Dama Branca dos Noldor, nasce em Tirion

A segunda destas aparece como uma adição a lápis ao manuscrito (nota 8).

§97 Ao lado das palavras ‘Melkor falou aos Eldar sobre armas, que antes eles não tinham possuído ou conhecido’ meu pai escreveu no texto datilografado: ‘Não! Eles devem ter possuído armas na Grande Jornada’. Compare com a passagem em QS sobre este assunto (nota de rodapé para o §49): ‘Os Elfos antes haviam possuído apenas armas de caça, lanças e arcos e flechas’.

§99 A duração do banimento de Fëanor foi alterado mais uma vez (ver nota 10), de ‘vinte’ para ‘doze’.

§113 Após ‘o Monte Verdejante’ foi adicionado: ‘de Ezellohar’. Este nome foi acrescentado em ocorrências anteriores: §25. ‘Os Vasos de Varda’ se tornaram ‘Os Poços de Varda’; ver §28.

§114 O datilógrafo leu incorretamente Elemírë, e meu pai corrigiu o erro para a forma Elemmírë.

Eu não sei qual intenção está por trás da introdução dos registros Beleriândricos dados sob §§81,85 acima.

Mitos Transformados X – Orcs

The History of Middle-earth 10

Forneço aqui ((Christopher Tolkien escrevendo em primeira pessoa)) um texto de um tipo completamente diferente, um ensaio praticamente finalizado sobre a origem dos Orcs (( Este é o terceiro dos três artigos (numerados de VIII a X) sobre Orcs contidos no Mitos Transformados do The History of Middle-earth X e que a Valinor tem a honra de publicar. Os dois anteriores podem ser vistos em VIII e IX. )). É necessário explicar algo sobre as relações deste texto.

 

Existe um trabalho maior, o qual eu espero publicar no The History of Middle-earth, chamado Essekenta Eldarinwa ou Quendi e Eldar. Ele existe em uma boa cópia datilografada feita por meu pai em sua última máquina de datilografia, tanto a cópia principal quanto a cópia em carbono; e é precedido em ambas as cópias por uma página manuscrita descrevendo o conteúdo do trabalho:Questionamento sobre as origens dos nomes Élficos para os Elfos e seus variados clãs e divisões: com Apêndices sobre seus nomes por outros Encarnados: Homens, Anões e Orcs; e sobre a análise de sua própria língua, Quenya: com uma nota sobre a “Língua dos Valar”.Contando com os apêndices, Quendi e Eldar ocupa perto de cinqüenta páginas datilografadas, e sendo um trabalho altamente finalizado e lúcido do maior interesse.A uma das páginas de rosto meu pai acrescentou o seguinte:Ao qual está acrescentado um resumo do Ósanwë-kenta ou “Comunicação de Pensamento” que Pengolodh colocou ao final de seu Lammas ou “Registro das Línguas”Este é um trabalho em separado ocupando oito páginas datilografadas, paginadas separadamente, mas encontrado junto com ambas as cópias de Quendi e Eldar. Em adição, e não citado nas páginas de rosto, existe ainda outro texto datilografado de quatro páginas (também encontrada com ambas as cópias de Quendi e Eldar) intitulado Orcs; e este é o texto fornecido aqui.Todos os três elementos são idênticos em aparência geral, mas Orcs fica à parte dos demais, não tendo nenhuma relação lingüística; e em vista disso eu pensei que seria legítimo resumi-lo e imprimi-lo neste livro junto com as outras discussões sobre a origem dos Orcs dadas como os textos VIII e IX.Para datar este grupo de textos, uma das cópias está preservada em um jornal dobrado de Março de 1960. Neste meu pai escreveu: “’Quendi e Eldar’ com Apêndices”, e abaixo há uma breve lista dos Apêndices, todos os itens escritos à mesma época, e incluem tanto o Ósanwë quanto Origem dos Orcs (o mesmo é verdade com relação à capa da outra cópia do grupo de textos Quendi e Eldar). Todo o material, portanto já existia quando o jornal foi utilizado para este propósito, e embora, como em outros casos similares, não forneça um terminus ad quem perfeitamente certo, não há razão para duvidar que ele pertença a 1959 – 60.O Apêndice C de Quendi e Eldar, “Nomes Élficos para os Orcs”, é primariamente relacionado com etimologia, mas inicia-se com o seguinte trecho:

Não é aqui o lugar para debater a questão da origem dos Orcs. Eles foram engendrados por Melkor, seu engendramento era o mais maligno e lamentável de seus trabalhos em Arda, mas não o mais terrível. Pois claramente eles, em sua malícia, representariam um escárnio aos Filhos de Ilúvatar, mas completamente subservientes à sua vontade, e criados com um implacável ódio a Elfos e Homens.

Os Orcs das guerras tardias, após a fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-média, não eram nem espíritos nem fantasmas, mas criaturas vivas, capazes de falar e de algumas habilidades e organização, ou pelo menos capazes de aprender tais coisas de criaturas superiores ou de seu Mestre. Eles procriavam e se multiplicavam rapidamente sempre que deixados imperturbados. É improvável, como uma consideração da origem última desta raça deixará claro, que os Quendi tenham encontrado quaisquer Orcs deste tipo, antes de serem encontrados por Oromë e da separação entre Eldar e Avari.

Mas é sabido que Melkor tornara-se ciente dos Quendi antes dos Valar terem começado sua guerra contra ele, e a felicidade dos Elfos na Terra-média já havia sido escurecida pelas sombras do medo. Formas terríveis começaram a assombrar os limites de suas moradias, e alguns de seu povo desapareceram na escuridão e deles não se ouviu mais nada. Algumas dessas coisas podem ter sido fantasmas e ilusões, mas algumas eram, sem dúvida, formas assumidas pelos servos de Melkor, escarneando e degradando as próprias formas dos Filhos. Pois Melkor tinha a seu serviço um grande número de Maiar, que tinham o poder, assim como seu Mestre, de tomar forma visível e tangível em Arda.

Sem dúvida meu pai foi levado por suas próprias palavras “É improvável, como uma consideração da origem última desta raça deixará claro, que os Quendi tenham encontrado quaisquer Orcs deste tipo, antes de serem encontrados por Oromë” e escrever aquela “consideração”, que segue abaixo. Será visto que uma passagem desta afirmação inicial foi re-utilizada.

 


Orcs ((a partir deste ponto, o texto é do próprio J. R. R. Tolkien))

A origem dos Orcs é um assunto de discussões. Alguns os chamaram de Melkorohíni, os Filhos de Melkor; mas os mais sábios dizem: não, os escravos de Melkor, mas não seus filhos; pois Melkor não tinha filhos (( E uma cópia do texto meu pai escreveu a lápis ao lado desta sentença os nomes Eruseni, Melkorseni. )). Contudo, foi pela malícia de Melkor que os Orcs surgiram, e claramente eles representariam um escárnio aos Filhos de Ilúvatar, sendo gerados para ser completamente subservientes à sua vontade e cheios de um implacável ódio a Elfos e Homens.Os Orcs das guerras tardias, após a fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-média, não eram nem espíritos nem fantasmas, mas criaturas vivas, capazes de falar e de algumas habilidades e organização, ou pelo menos capazes de aprender tais coisas de criaturas superiores ou de seu Mestre. Eles procriavam e se multiplicavam rapidamente sempre que deixados imperturbados. Tanto quanto pode ser vislumbrado a partir das lendas que chegaram até nós de nossos dias mais antigos (( ‘lendas que chegaram até nós de nossos dias mais antigos’; isto tinha a intenção de ser um texto Élfico. Sauron é citado subseqüentemente como estando no passado; mas na última sentença do ensaio os Orcs são uma praga que ainda aflige o mundo )), parece que os Quendi ainda não haviam encontrado nenhum Orc deste tipo antes da chegada de Oromë a Cuiviénen.Aqueles que acreditam que os Orcs foram gerados a partir de alguma raça de Homens, capturados e pervertidos por Melkor, afirmam que seria impossível para os Quendi ter conhecimento dos Orcs antes da Separação e da partida dos Eldar. Pois, embora o tempo do acordar dos Homens não ser conhecido, mesmo os cálculos dos mestres de conhecimento que o colocam mais cedo não dão a ele uma data muito anterior ao início da Grande Marcha (( O tempo do Acordar dos Homens é agora colocado bem para trás; compare com o texto II, A Marcha dos Eldar atravessa grandes Chuvas? Homens despertam em uma ilha em meio à enchente’; ‘A chegada dos Homens será, portanto, muito anterior’; ‘Homens devem acordar enquanto Melkor ainda está [na Terra-média] – por causa de sua Queda. Portanto em algum período durante a Grande Marcha’. Na cronologia dos Anais de Aman e Anais Cinzentos a Grande Marcha começa no Ano das Árvores 1105, e as companhias mais avançadas de Elfos chegaram ao litoral do Mar em 1125; Homens acordaram em Hildorien no ano do primeiro nascer do Sol, que foi no Ano das Árvores 1500. Portanto, se o Acordar dos Homens está colocado mesmo na parte final do período da Grande Marcha dos Eldar ele terá sido trazido mais de 3500 Anos do Sol para trás. )), certamente não suficiente antes dela de forma a permitir a corrupção de Homens em Orcs. Por outro lado, é claro que logo após seu retorno Morgoth tinha a seu comando um grande número dessas criaturas, com as quais ele sem demora começou a atacar os Elfos.  Houve ainda menos tempo entre seu retorno e esses ataques para a geração dos Orcs e para a transferência de suas hordas para o oeste.Esta visão das origens dos Orcs, portanto, encontra dificuldades de cronologia. Mas embora Homens possam se confortar com isso, a teoria ainda permanece como a mais provável.

Ela está de acordo com tudo que é conhecido de Melkor, e da natureza e comportamento dos Orcs – e dos Homens. Melkor era impotente para produzir qualquer coisa viva, mas habilidoso na corrupção de coisas que não procediam de si mesmo, se ele pudesse dominá-las. Mas se ele de fato tivesse tentado fazer criaturas de si mesmo em imitação ou escárnio dos Encarnados, ele teria, como Aule, tido sucesso em produzir apenas títeres: suas criaturas agiriam apenas enquanto a atenção de sua vontade estivesse sobre elas, e elas não mostrariam nenhuma relutância em executar qualquer comando dele, mesmo se fosse para destruírem a si mesmas.Mas os Orcs não eram desse tipo. Eles certamente eram dominados por seu Mestre, mas seu domínio era pelo medo, e eles estavam cientes desse medo e o odiavam. Eles eram, de fato, tão corrompidos que eram impiedosos, e não havia crueldade ou vileza que eles não cometeriam; mas esta era a corrupção de vontades independentes, e eles tinha  prazer em seus feitos. Eles eram capazes de agir por si mesmos, realizando feitos malignos para seu próprio divertimento, sem terem sido ordenados; ou se Morgoth ou seus agentes estivesse longe, eles poderiam negligenciar seus comandos. Eles algumas vezes lutavam [> Eles odiavam uns aos outros e freqüentemente lutavam] entre eles mesmos, em detrimento dos planos de Morgoth.Além disso, os Orcs continuavam a viver e se reproduzir e a continuar com seus próprios atos destrutivos e saques após Morgoth ter sido derrubado. Eles possuíam também outras características dos Encarnados. Eles tinham idiomas próprios, e falavam entre eles em várias línguas de acordo com as diferenças de linhagem que eram dicerníveis entre eles. Eles precisavam de comida e bebida, e descanso, embora muitos fossem, por treinamento, tão resistentes quando os Anões em resistir a interpéries. Eles poderiam ser mortos, e estavam sujeitos a doenças; mas mesmo sem doenças eles morriam e não eram imortais, nem mesmo de acordo com as maneiras dos Quendi; de fato eles parecem naturalmente ter vidas curtas comparadas com Homens de raça superior, como os Edain.Este último ponto não era bem compreendido nos Dias Antigos. Pois Morgoth tinha muitos servos, dos quais os mais antigos e mais poderosos eram imortais, pertencendo aos Maiar, inicialmente; e estes espíritos malignos, assim como seu Mestre, podiam assumir formas visíveis. Aqueles cujas responsabilidades eram comandar os Orcs freqüentemente assumiam formas Órquicas, embora fossem maiores e mais terríveis ((  Confira com o texto IX: ‘Mas sempre entre eles [Orcs] (como servidores especiais e espiões de Melkor, e como líderes) devem ter existido numerosos espíritos menores corrompidos que assumiram formas corpóreas similares; e também o texto VIII. )). Por isso que as histórias contam de Grandes Orcs ou capitães-Orc que nunca eram mortos, e que reapareciam em batalhas através de períodos muito maiores do que a duração das vidas dos Homens (( A nota de rodapé neste ponto, iniciando com ‘Boldog, por exemplo, é um nome que ocorre muitas vezes nos contos da Guerra’ e ‘é possível que não seja um nome pessoal’, é curiosa. Boldog aparece inúmeras vezes na Balada de Leithian como o nome do capitão-Orc que lidera um ataque a Doriath (referência no Índice para As Baladas de Beleriand); ele reaparece no Quenta (HoME IV), mas não é mencionado depois. Eu não conheço nenhuma outra referência a um Orc chamado Boldog. )). ((* [nota de rodapé ao texto] Boldog, por exemplo, é um nome que ocorre muitas vezes nos contos da Guerra. Mas é possível que Boldog não seja um nome pessoal e sim um título ou mesmo o nome de um tipo de criatura: os Maiar em forma de Orc, apenas menos formidáveis do que os Balrogs)) 

E finalmente, há um ponto relevante, embora horrível de se relatar. Com o tempo ficou claro que os Homens poderiam, sob a dominação de Morgoth ou de seus agentes, em algumas poucas gerações ser reduzidos quase a um nível Órquico em mente e hábitos; e então eles iriam ou poderiam ser induzidos a cruzar com Orcs, produzindo novas linhagens, freqüentemente maiores e mais espertos. Não há dúvida de que muito mais tarde, na Terceira Era, Saruman redescobriu isto, ou aprendeu sobre isso no conhecimento passado, e em seu desejo por comando ele o cometeu, eu feito mais vil: o intercruzamento de Orcs e Homens, produzindo tanto Homens-orc grandes e espertos quanto Orcs-homens traiçoeiros e vis.

Mas mesmo antes de existirem suspeitas quanto a esta maldade de Morgoth os Sábios dos Dias ensinavam que os Orcs não foram ‘feitos’ por Morgoth, e, portanto, não eram originalmente malignos. Eles podem ter se tornado irredimíveis (ao menos para Elfos e Homens), mas eles permaneciam dentro da Lei. Ou seja, embora por necessidade, sendo os dedos da mão de Morgoth, eles devessem sem combatidos com a máxima severidade, eles não poderiam ser lidados nos próprios termos de crueldade e traição. Cativos não deveriam ser torturados, nem mesmo para descobri informação para a defesa das casas dos Elfos e Homens. E se qualquer Orc se rendesse e pedisse misericórdia, isso lhe deveria sem concedido, mesmo a um custo. ((  [nota de rodapé ao texto] Poucos Orcs o fizeram nos Dias Antigos, e em qualquer época nenhum Orc trataria com um Elfo. Pois uma coisa que Morgoth conseguira fora convencer os Orcs além de refutação que os Elfos era mais cruéis que eles mesmos, fazendo prisioneiros apenas para ‘divertimento’ ou para comê-los (como os Orcs faziam, em caso de necessidade)  )) Este era o ensinamento dos Sábios, embora no horror da Guerra ele nem sempre fosse seguido.

É verdade, claro, que Morgoth mantinha os Orcs em selvagem servidão; pois em suas corrupções eles tinham perdido quase toda a possibilidade de resistir à dominação de suas vontades. Tão grande, de fato, esta pressão sobre eles se tornou antes da queda de Angband que, se ele colocasse seu pensamento em direção a eles, eles estariam conscientes de seu ‘olho’ seja lá onde estivesse; e quando Morgoth foi finalmente removido de Arda os Orcs que sobreviveram no Oeste se espalharam, sem líder e quase sem juízo, e estiveram por um longo tempo sem controle ou propósito.

Esta servidão a uma vontade central que quase reduziu os Orcs a uma vida parecida com a de formigas foi vista ainda mais claramente na Segunda e Terceira Era sob a tirania de Sauron, segundo-em-comando de Morgoth. Na verdade Sauron conseguiu um controle ainda maior sobre seus Orcs do que Morgoth conseguira. Ele estava, claro, operando em um escala menor, e ele não tinha inimigos tão grandes e tão sinistros quanto os Noldor em ápice nos Dias Antigos. Mas ele também tinha herdado daqueles dias  algumas dificuldades, como a diversidade de linhagens e línguas dos Orcs, e a disputas entre eles;e em muitos lugares da Terra-média, após a queda de Thangorodrim e durante o tempo de ocultamento de Sauron, os Orcs, recuperando-se de sua impotência, estabeleceram pequenos reinos próprios e se tornaram acostumados à independência. Apesar disso Sauron conseguiu uni-los todos em um ódio sem limites a Elfos e a Homens que se unissem a eles; e os Orcs de seus próprios exércitos treinados estavam tão completamente sobre sua vontade que se sacrificariam sem hesitação a seu comando.* E ele também se provou ainda mais habilidoso do que seu Mestre na corrupção de Homens que estavam além do alcance dos Sábios, e em reduzi-los à vassalagem, na qual eles marchariam com os Orcs, e competiriam com eles em crueldade e destruição.

É, portanto, provavelmente a Sauron que devemos olhar em busca da solução do problema de cronologia. Embora imensamente menor em poder nativo do que seu Mestre, ele permaneceu menos corrupto, mais frio e mais calculista. Isso ao menos nos Dias Antigos e antes dele ter sido afastado de seu mestre e cair na tolice de imitá-lo, se esforçando para tornar a si mesmo supremo Senhor da Terra-média. Enquanto Morgoth continuava, Sauron não buscou sua própria supremacia, mas trabalhou e manipulou para outro, desejando o triunfo de Melkor, a quem no começou ele adorou. Então ele era freqüentemente capaz de obter coisas, inicialmente escondido de Melkor, as quais seu mestre não concluía ou não podia concluir na furiosa velocidade de sua malícia.

(* [nota de rodapé ao texto] Mas restou uma falha em seu controle, inevitável. No reino de ódio e medo, a coisa mais forte é o ódio. Todos os seus Orcs odiavam uns aos outros, e deveriam ser mantidos em guerra com algum ‘inimigo’ para prevenir que se matassem uns aos outros.)

Nós podemos assumir, então, que a idéia da geração dos Orcs veio de Melkor, inicialmente não tanto para a provisão de servos ou infantaria para suas guerras de destruição, como para a desecração dos Filhos e o blasfemo escárnio dos desígnios de Eru. Os detalhes da realização desta vilania foram, contudo, deixados principalmente à sutileza de Sauron. Neste caso a concepção mental dos Orcs pode ter sido muito antes na noite dos pensamentos de Melkor, embora o começo de sua geração de fato devesse esperar o acordas dos Homens.

Quando Melkor foi feito cativo, Sauron fugiu e se escondeu na Terra-média; desta forma pode-se compreender como o cruzamento de Orcs (sem dúvida já iniciado) seguiu em frente com velocidade acelerada durante a era que Noldor residiram em Aman; de tal forma que quando eles retornaram à Terra-média encontraram-na já infestada com esta praga para o tormento de todos que ali residiam, Elfos ou Homens ou Anões. Também foi Sauron que secretamente reparou Angband para o auxílio de seu mestre quando ele retornasse (( Sobre a história posterior de que Angband fora construída por Melkor nos dias antigos e que esta era comandada por Sauron ver HoMe 10, “The Later Quenta Silmarillion”. Lá não há referência a uma reparação de Angband ao retorno de Morgoth, e confira o último desenvolvimento da narrativa no Quenta Silmarillion da história de seu retorno: Morgoth e Ungoliant ‘estavam chegando perto das ruínas de Angband onde sua grande fortaleza ocidental havia estado’ )); e lá os escuros lugares subterrâneos já estariam povoados com hordas de Orcs antes de Melkor finalmente retornar, como Morgoth o Inimigo Negro, e enviá-los para trazer ruína sobre tudo quer fosse belo. E embora Angband tenha caído e Morgoth removido, eles continuam a surgir de locais sem luz e com a escuridão em seus corações, e a terra murchava sob seus pés impiedosos.

Esta então, como parece, foi a visão final de meu pai sobre o assunto: Orcs foram gerados dos Homens, e se ‘a concepção mental dos Orcs pode ter sido muito antes na noite dos pensamentos de Melkor’ foi Sauron quem, durante as eras de prisão de Melkor em Aman, trouxe à existência os exércitos negros que estavam disponíveis a seu Mestre quando este retornou.

Mas, como sempre, não é assim tão simples. Acompanhando uma cópia do texto datilografado deste ensaio estão algumas páginas manuscritas das quais meu pai usou o reverso em branco de papéis dados pelos editores, datado de 10 de Novembro de 1969. Estas páginas possuem duas notas sobre o ensaio ‘Orcs’: uma discutindo a grafia da palavra orc; a outra é uma nota surgida de algo do ensaio que não está citado, mas que obviamente é a passagem discutindo a natureza de títeres das criaturas trazidas à existência por algum dos próprios grandes Poderes: a note tinha a intenção de estar relacionadas às palavras ‘Mas os Orcs não eram desse tipo’.

Os orks, é verdade, algumas vezes pereciam ter sido reduzido a uma condição bastante similar, embora continue a existir uma diferença profunda. Aqueles orks que por muito tempo viveram sob a atenção imediata de sua vontade – como vigias de suas fortalezas ou elementos dos exércitos treinados para propósitos especiais em seus desígnios de guerra – agiriam como rebanhos, obedecendo instantaneamente, como tendo uma única vontade, seus comandos mesmo se ordenados a sacrificar suas vidas a seu serviço. E como foi visto quando Morgoth foi finalmente subjugado e excluído, aqueles orks que haviam sido assim absorvidos se espalharam impotentes, sem propósito a não ser fugir ou lutar, e logo morreram ou se mataram.

Outras criaturas originalmente independentes, e Homens entre elas (mas não Elfos ou Anões), também poderiam ser reduzidas a uma condição semelhante. Mas ‘títeres’, sem vida ou vontade independentes,  iria simplesmente parar de se mover  ou fazer qualquer coisa quando a vontade de seu criador fosse reduzida a nada. Em qualquer caso o número de orks que era de tal forma ‘absorvida’ sempre foi uma pequena parte de seu total. Mantê-los em absoluta servidão requeria um grande esforço de vontade. O poder possuído por Morgoth no início era vasto, mas finito; e foi este gasto de vontade nos orks, e ainda mais sobre as outras e muito mais poderosas criaturas a seu serviço, que eventualmente dissiparam tanto seus poderes mentais que a derrubada de Morgoth. Então a maior parte dos orks, embora sob suas ordens e com a sombra escura de seus medos dele, eram apenas intermitentemente objetos de seu pensamento e preocupações imediatas, e quando este era removido eles retornavam à independência e se tornavam consciente de seu ódio dele e de sua tirania. Então eles poderiam negligenciar suas ordens ou se engajar em

 


Aqui o texto é interrompido. Mas a coisa curiosa é que um rascunho para o segundo parágrafo desta nota (escrito no mesmo papel, tendo a mesma data) assim começa:

Mas Homens podiam (e ainda podem) ser reduzidos a tal condição. ‘Títeres’ simplesmente parariam de se mover ou ‘viver’, quando não colocados em movimento pela vontade direta de seu criador. De qualquer forma, embora o número de orks no ápice do poder de Morgoth, e ainda após o retorno dele da prisão, pareça ter sido muito grande, aqueles que eram ‘absorvidos’ foram sempre uma pequena parte do total.

As palavras que eu coloquei em itálico refutam uma concepção essencial do ensaio.A outra nota diz assim:

Orcs
Esta grafia foi retirada do Inglês Antigo. A palavra parecia, por si mesma, bastante adequada às criaturas que eu tinha em mente. Mas o significado de orc no Inglês Antigo – tanto quanto é sabido – não se encaixava (( Ver os Comentários à Quinta Seção dos Anais de Aman. )). Também a grafia do que, na situação lingüística posterior mais organizada deve ter sido uma forma na Língua Comum de uma palavra ou grupo de palavras similares, deveria ser ork. Se nenhuma outra razão então pelas dificuldades de grafia no Inglês moderno: um adjetivo orc + ish se torna necessário, e orcish não satisfaria (( ‘orcish não satisfaria’: porque seria pronunciado ‘orsish’. A língua Orkish (Órquica) foi grafada dessa forma em O Senhor dos Anéis desde a Primeira Edição. )). Em qualquer publicação futura eu usarei ork.
No texto IX (a texto breve no qual meu pai declarou a teoria da origem Élfica ser correta) ele grafou a palavra Orks, e disse ‘dessa forma eu deverei grafar em O Silmarillion’. No atual ensaio, obviamente posterior ao texto IX, está gravado Orcs; mas então, em 1969 ou mais tarde, ele afirmou novamente que deveria ser Orks.
Notas

O Diálogo de Manwë e Eru

A ressurreição Élfica foi um dos problemas que gerou mais esforço por parte de Tolkien em sua solução. Milhares de linhas foram escritas, dando origem a textos clássicos e essenciais como Athrabeth Finrod ah Andreth, Comentário do Athrabeth Finrod ah Andreth e Leis e Costumes entre os Eldar. E hoje a Valinor tem a honra de publicar O Diálogo de Manwë e Eru, diretamente do The History of Middle-earth X, o qual trata de muitas particularidade espinhosas da ressurreição e renascimento Élfico.
“O Diálogo de Manwë e Eru”
e concepções tardias da reencarnação Élfica

 

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A afirmação no início da Nota 3 do Comentário sobre o Athrabeth Finrod ah Andreth de que “na tradição élfica sua reencarnação era uma permissão especial concedida por Eru a Manwë, depois que Manwë consultou-O diretamente na época do debate a respeito de Finwë e Míriel” parece muito estranha à luz de Leis e Costumes entre os Eldar, onde é dito bem explicitamente que “Um fëa desabrigado que escolhera, ou ao qual fora permitido retornar à vida, entrava novamente no mundo encarnado através do parto. Somente desse modo ele poderia retornar” (para o que tal ‘raro e estranho caso’ como o de Miriel, que foi ‘retornada a seu próprio corpo’, é registrado como a única exceção). Em Leis e Costumes existe uma pressuposição sobre todo o caso de que Miriel poderia, pela natureza das coisas, retornar da morte se ela quisesse; assim disse Ulmo no Debate dos Valar que “o fea de Miriel pode ter partido por necessidade, mas ele partiu no desejo de não retornar” e que “portanto era falta dela”. Não se pode pensar que o Leis e Costumes foi escrito sobre a base de que o renascimento foi apenas “dado como uma permissão especial” por Eru a Manwë “à época do debate relativo a Finwë e Miriel”, uma idéia sobre a qual não há dica ou sugestão naquele trabalho.A explicação disso é que após a escrita de Leis e Costumes as visões de meu pai com relação ao destino dos Elfos que morreram passaram por uma mudança radical, e a passagem citada da Nota 3 do Comentário sobre o Athrabeth não se refere ao “renascimento”, de forma alguma.Existe um texto intitulado “O Diálogo de Manwë e Eru”, que se segue a Leis e Costumes mas precede o Comentário sobre o Athrabeth. Este trabalho (datilografado) foi planejado para ser duplo, a primeira parte sendo as questões de Manwë e as respostas de Eru, e a segunda uma discussão filosófica elaborada sobre o significado e implicações; mas foi abandonado antes de ter sido terminado, e uma segunda e mais ampla versão do ”Diálogo” foi interrompida após apenas poucas páginas. Eu forneço a primeira parte, o “Diálogo”, apenas, na versão curta revisada original.

Manwë falou a Eru, dizendo: “Veja! um mal apareceu em Arda o qual não estávamos esperando: os Filhos Primogênitos, a quem Vós fizestes imortais, sofrem agora separação de espírito e corpo. Muitos dos fear dos Elfos na Terra-média estão agora desabrigados; e mesmo em Aman há um. Os desabrigados convocamos a Aman, para protegê-los da Escuridão, e todos que ouviram nossa voz residem aqui em espera. O que deve ser feito em seguida? Não há meios pelos quais suas vidas podem ser renovadas, para seguirem os cursos que Vós designastes? E o que fazer com os desapossados que lamentam aqueles que se foram?“Eru respondeu: “Que os desabrigados sejam re-abrigados!”

Manwë perguntou: “Como isto deverá ser feito?”

Eru respondeu: “Que o corpo que foi destruído seja refeito. Ou permita-se ao fea nu renascer como uma criança”.

Manwë disse: “É Vossa vontade que tentemos tais coisas? For tememos interferir com Vossos Filhos”.

Eru respondeu: “Não dei aos Valar o governo de Arda, e o poder sobre todas as substâncias desta, para modelá-la por suas vontades sob Minha vontade? Não sejam relutantes nestas coisas. Com relação aos meus Primogênitos, não removeste grandes números deles para Aman da Terra-média onde eu os coloquei?”

Manwë respondeu: “Isto nós fizemos, por medo de Melkor, e com boa intenção, e não sem apreensão, Mas usar nosso poder sobre a carne que Vós designastes, para abrigar ps espíritos de Vossos Filhos, parece um assunto além de nossa autoridade, mesmo não sendo além de nossas habilidades”.

Eru disse: “Eu dou a vocês a autoridade. As habilidades vocês já possuem, se forem prestarem atenção. Olhem e verão que cada espírito dos Meus Filhos retém em si mesmo a completa impressão e memória de sua antiga moradia; e em sua nudez é aberto a vocês, de forma que podem perceber claramente tudo que está nele. Com base nesta impressão podem criar para ele novamente uma tal casa em todos os particulares como era antes do mal ter caído sobre ele. Então podem mandá-lo de volta às terras dos Viventes”.

Então Manwë perguntou mais: “Ó Iluvatar, não falastes vós também de renascimento? Isto está também dentro de nossos poderes e autoridades?”

Eru respondeu: “Estará sob suas autoridades, mas não sob seus poderes. Aqueles que considerarem aptos a renascer, se eles o desejarem e o compreenderem claramente em que incorrem, mandarão para Mim; e Eu os considerarei”.


Será visto que dimensões completamente novas da questão sobre o retorno dos Mortos aos Viventes são criadas. Meu pai veio a pensar que antes da morte de Miriel não houve nenhum “re-abrigar” dos fear dos Mortos, e que foi apenas em resposta ao apelo de Manwë que Eru decretou tal possibilidade e as maneiras pelas quais poderia ser conduzida. Um de tais modos é o renascimento do fea como uma criança, mas tal Morto que assim o desejar deve ser entregue a Eru para aguardar Seu julgamento do caso. A outra maneira é a criação, pelos Valar, de “uma tal casa em todos os particulares como era antes do mal ter caído sobre ele”: a reencarnação do Morto em um hroa idêntico àquele sobre o qual a Morte veio. A longa discussão que se segue ao “Diálogo” é em sua maior parte preocupada com as idéias de “identidade” e “equivalência” em relação a esta forma de reencarnação,  representada como um comentário feito por Mestres de Conhecimento Eldarin.Um manuscrito escrito rapidamente em pequenos pedaços de papel, intitulado “Reencarnação dos Elfos”, parece mostrar as reflexões de meu pai sobre o assunto entre o abandono dO Diálogo de Manwë e Eru e o Comentário sobre o Athrabeth. Nesta discussão ele se refere com uma expressão rápida e elíptica sobre as dificuldades em cada nível (incluindo práticos e fisiológicos) da idéia de reencarnação do fea em uma criança recém-nascida de novos pais, que ao crescer recupera as memórias de sua vida anterior: “a objeção mais fatal” sendo que “isto contradiz a noção fundamental de que fea e hroa são feitos um para o outro: uma vez que o hroar tem uma continuação física, o corpo de renascimento, que tendo pais diferentes, deve ser diferente”, e isto deve ser uma condição de dor para o fea renascido.

Aqui ele estava abandonando, e definitivamente, a concepção de renascimento de há muito como um modo pelo qual os elfos poderiam retornar à vida encarnada: de seu escrutínio da idéia mítica, questionando sua validade nos termos em que ele a adotara, veio a parecer a ele uma falha séria na metafísica da existência Élfica. Mas, ele disse, isto era um “dilema”, pois a reencarnação dos Elfos “parece um elemento essencial dos contos”. “A única solução”, ele decidiu em sua discussão, era a idéia do refazer em forma idêntica o hroa do morto na maneira declarada por Eru nO Diálogo de Manwë e Eru: o fea mantém uma memória, uma impressão, de seu hroa, sua “antiga moradia”, tão poderosa e precisa que a reconstrução de um corpo idêntico pode seguir dela.

A idéia de um “Diálogo” entre Manwë e Eru não foi abandonado, e de fato é citado no “Reencarnação dos Elfos” (mas o “Diálogo” como dado acima já devia existir, uma vez que Eru expressamente declara o renascimento como um modo de reencarnação aberto ao fea “desabrigado”, uma vez que na presente discussão tal idéia é firmemente rejeitada e não encontra lugar na “única solução” para o “dilema”). A nova concepção procede, delineada, como segue. A Música dos Ainur não contém nenhuma previsão da morte dos Elfos e a existência de seus fear “desabrigados”, uma vez que de acordo com sua natureza eles seriam imortais dentro da existência de Arda. Existiam muitos de tais fear de Elfos que morreram na Terra-média reunidos nos Salões de Mandos, mas não foi antes da morte de Miriel em Aman que Manwë apelou diretamente a Eru por conselho. Eru “aceitou e ratificou a posição” – embora deixando claro a Manwë que os Valar deveriam ter contestado a dominação de Melkor na Terra-média bem mais cedo, e que a eles faltou estel: eles deveriam ter acreditado que em uma guerra legítima Eru não teria permitido a Melkor realizar tão grandes danos a Arda que os Filhos não pudessem surgir ou não pudessem habitá-la (confira  LQ $20: “E Manwë disse aos Valar: “Este é o conselho de Iluvatar em meu coração: que nós devemos retomar o governo de Arda, a qualquer custo, e livrar os Quendi das sombras de Melkor”. Então Tulkas ficou satisfeito; mas Aule lamentou, e é dito que ele (e outros Valar) antes não quiseram disputar com Melkor, prevendo as feridas do mundo que adviriam desta batalha”).

É então dito que “todos os fear dos Mortos vão para Mandos em Aman: ou melhor, eles agora são convocados até lá pela autoridade dada por Eru. Um local é feito para eles”. Isto parece significar que a Mandos foi dado o poder de convocar os espíritos dos Mortos para Aman; as palavras seguintes  “Um local é feito para eles” são difíceis de compreender, uma vez que elas parecem negar até mesmo que os Salões de Espera existiam antes de Manwë falar com Eru (apesar da afirmação anterior em “Reencarnação dos Elfos” de que existiam muitos fear desabrigados reunidos em Mandos antes do “Diálogo” acontecer).

Aos Valar agora foi dada a autoridade para reencarnar os fear dos Elfos que morreram em hroar idênticos àqueles que perderam; e o texto continua: O fea re-abrigado normalmente irá permanecer em Aman. Apenas em casos bastante excepcionais, como Beren e Lúthien,  eles serão transportados de volta à Terra-média… uma vez que a morte na Terra-média tinha muito do mesmo tipo de tristeza e separação para Elfos e Homens. Mas, como Andreth viu, a certeza de viver novamente e fazer coisas em forma encarnada faz uma diferença vital para a morte como um terror pessoal (confira o Athrabeth).

No que parece ser um segundo pensamento meu pai então pergunta se não seria possível que o fea “desabrigado” fosse permitido (sendo instruído) reconstruir seu hroa a partir de sua memória (e isto, como parece do bastante tardio texto sobre o assunto da reencarnação de Glorfindel de Gondolin, tornou-se sua visão firme e estabelecida sobre o assunto). Ele escreve aqui: “A memória de um fea da sua experiência é evidentemente poderosa, vívida e completa. Assim a concepção subjacente é que ‘matéria’ será elevada a ‘espírito’, tornando-se parte de seu  conhecimento – e então tornada imortal e sob o comando do espírito. Como os Elfos remanescentes na Terra-média lentamente ‘consumiam’ seus corpos – ou os tornavam vestimentas da memória? A ressurreição do corpo (pelo menos no que se refere aos Elfos) era em um certo sentido incorpórea.  Mas apesar de poder ultrapassar barreiras físicas a vontade, ele também poderia a vontade opor resistência à matéria. Se você tocasse um corpo ressuscitado você o sentiria. Ou se ele desejasse poderia apenas iludi-lo – desaparecer. Sua posição no espaço era à vontade”.

Nem no trecho sobre a reencarnação contido no Comentário sobre o Athrabeth (parágrafo 6) nem na Nota 3 que se refere a ele há qualquer menção sobre renascimento; enquanto que este último evidentemente ecoa as palavras do “Reencarnação dos Elfos”. Isto fica fortemente visível na Nota 3, mesmo que não expressamente dito, que foi apenas ao tempo do diálogo de Manwë com Eru que a Mandos foi dado o poder  de de fato convocar os fear dos Mortos; e a passagem que se segue a esta na Nota é bastante similar ao que é dito na “Reencarnação dos Elfos”:

“Lá lhes era dada a escolha de permanecerem desabrigados ou (se desejassem) serem re-alojados na mesma forma e aspecto que possuíam. Não obstante, geralmente eles devem permanecer em Aman. Portanto, se habitassem na Terra-média, a sua privação em relação aos amigos e parentes, e a privação destes, não era corrigida. A morte não era completamente curada. Mas como Andreth observou, esta certeza a respeito de seu futuro após a morte, e o conhecimento de que eles pelo menos seriam capazes (caso desejassem), como encarnados, de fazer e criar coisas e continuar sua experiência de Arda, tornava a morte para os elfos algo totalmente diferente da como essa era vista pelos homens.”

Um ponto interessante com respeito à cronologia da composição surge da afirmação encontrada tanto na “Reencarnação dos Elfos” quanto na Nota 3 do Comentário de que a morte dos Elfos e a morte dos Homens eram coisas diferentes, “como Andreth observou”. Portanto o Athrabeth já existia quando o “Reencarnação dos Elfos” foi escrito; mas o Comentário se seguiu ao “Reencarnação”. Isto parece ser uma evidência clara de que existiu um intervalo entre a escrita do Diálogo de Finrod e Andreth e a escrita do Comentário sobre o mesmo.

Uma última passagem do “Reencarnação dos Elfos” deve ser mencionada. Em uma espécie de “à parte” do curso de seus pensamentos, movendo-se (ainda) mais rapidamente do que  sua caneta, meu pai anotou que “a exata natureza da existência em Aman ou Eressea após suas ‘remoções’ deve ser dúbia e inexplicada”, da mesma forma que a questão sobre “como ‘mortais’ poderiam ir até lá, de qualquer forma”. Sobre isto ele observou que Eru tinha “muito antes” deixado os Mortos dos mortais sob responsabilidade de Mandos; confira QS $86:

“O que advinha a seus espíritos após a morte os Elfos não sabiam. Alguns dizem que eles também vão para os salões de Mandos; mas seu local de espera não é aquele dos Elfos; e exceto por Manwë apenas Mandos abaixo de Ilúvatar sabe para onde vão após o tempo de sua permanência naqueles salões silenciosos além do Mar do Oeste. A jornada de Frodo (ele foi) a Eressea – então a Mandos? – foi apenas uma forma estendida disso. Frodo eventualmente iria deixar o mundo (desejando fazê-lo). Então a partida no navio foi equivalente à morte”.

Isto pode contrastar com o que ele escreveu no final de registro sobre O Senhor dos Anéis em sua carta de 1951 a Milton Waldman (uma passagem omitida nas Cartas  mas publicada no HoMe IX):

A Bilbo e Frodo foi concedida a graça especial de partir com os Elfos que eles amavam – um final Arturiano, no qual, claro, não é deixado explícito se é uma “alegoria” da morte ou um modo de cura e restauração levando a um retorno.

Em sua carta a Naomi Mitchison de Setembro  de 1954  (Cartas No. 154), contudo, ele disse:

… a idéia mítica subjacente é de que para os mortais, uma vez que sua ‘raça’ não poderia ser alterada para sempre, esta seria apenas uma recompensa estritamente temporária: uma cura e um remediar do sofrimento. Eles não poderiam residir para sempre, e embora não pudesse retornar à terra mortal, eles podiam e iriam ‘morrer’ – de livre vontade e deixar o mundo. (Neste contexto o retorno de Arthur seria totalmente impossível, uma imaginação vã).

E muito mais tarde, em um rascunho de uma carta de 1963 (Cartas No. 246), ele escreveu:

Frodo foi enviado ou a ele foi permitido passar sobre o mar para curá-lo – se tal poderia ser feito, antes dele morrer.  Eventualmente ele iria ‘morrer’: nenhum mortal poderia, ou pode, residir para sempre na terra, ou no Tempo. Então ele foi tanto ao purgatório quanto a uma recompensa, por algum tempo: um período de reflexão e paz e obtenção de uma compreensão mais verdadeira de sua posição  na pequeneza e na grandeza, passando um Tempo na natureza de ‘Arda Não-Desfigurada’, a Terra intocada pelo mal.

 

Uma Carta de Tolkien

Tolkien escreve a Elsie Honeybourne à mão em uma carta datada de 21 de dezembro de 1967, papel de 5,25 x 7 polegadas (13,3 x 17,8 cm – pouco mais que a página de um livro de bolso), cujo mais interessante não é o teor da mesma mas sim as imagens, permitindo visualizar com exatidão a letra e o estilo de Tolkien. Esta carta não se encontro no livro As Cartas de J.R.R. Tolkien (afinal, tem pouco ou nenhum interesse no geral da obra).
Abaixo segue a carta no original em inglês, completa, para facilitar o acompanhamento pela imagem da mesma, já que a letra de Tolkien não é tão legível assim:1967-december_21-honeybourne.jpg“Thank you so much for writing such kind and appreciative letters, brevity is not necessarily a virtue. I am interested in what you say of your name. I think it still probable that your father’s name nonetheless comes from near Evesham. It must be derived from a place-name; and though -Bourne (stream) is widespread in England, and occurs in Kentish names, Honeybourne is found only in Cow H. and Church H. near Evesham. There was a considerable movement and interchange between Kent and Worcestershire, largely because of the industries of fruit-growing. I shall certainly put Honeybourne on the Shire Map as soon as an opportunity of revision (much needed) occurs. I was deeply interested in your choice of passages, and quite agree about Pippin’s ride. An easing of tension was needed at the end of the ‘Book’ (but of course provided instinctively and not by planning). To ride with Gandalf must have been like being borne by a Guardian Angel, with stern gentleness a most comforting combination to children (as we all are).

I am sending you a copy of my recently published story. Not addressed to children (reached by age). An old man’s tale, mainly concerned with ‘retirement’ and bereavement.”

Em português temos:

“Muito obrigado por escrever tais cartas gentis e apreciativas, brevidade não é necessariamente uma virtude. Eu estou interessado no que você diz sobre seu nome. Eu acredito ainda ser provável que o nome de seu pai tenha vindo de perto de Evesham. Ele deve ser derivado de um nome de lugar; e embora -Bourne (córrego) seja espalhado pela Inglaterra, e ocorra em nomes de Kent, Honeybourne é encontrado apenas em Cow H. e Church H. perto de Evesham. Ocorreram movimentos e trocas consideráveis entre Kent e Worcestershire, principalmente devido às indústrias de cultivo de frutas.

Com certeza eu colocarei Honeybourne no Mapa do Condado tão logo uma oportunidade de revisão (muito necessitada) apareça.

1967-december_21-honeybourne_2.jpgEu fiquei profundamente interessado em suaescolha de trechos, e concordo sobre a cavalgada de Pippin. Um relaxamento de tensão era necessário ao final do ‘Livro’ (mas, claro, feita instintivamente e não planejada). Cavalgar com Gandalf deve ter sido como ser carregado por um Anjo da Guarda, com austera gentileza uma combinação das mais confortantes para crianças (como todos somos).

Estou enviando uma cópia de minha história recentemente publicada. Não direcionada a crianças (em idade). Um conto de um velho, principalmente relacionado com ‘aposentadoria’ e a tristeza da perda.”

Na carta Tolkien se refere à sua história “Smith of Wooton Major”, publicada pela primeira vez na revista Redbook em 23 de novembro de 1967. Tolkien também acrescenta uma breve nota a lápis no topo da primeira página com relação a seu atraso em ler a correspondência. Podemos ver aqui as maiores características pessoais de Tolkien, explorando idiomas e encontrando raízes para palavras e nomes. Línguas eram sua fonte de inspiração e aqui pela segunda vez ele diz que poderia adicionar Honeybource (algo como “riacho de mel”) ao mapa dO Hobbit.

Tal-elmar

225px-the_peoples_of_middle-earth.jpgA Valinor tem o orgulho de traduzir e publicar Tal-elmar, que é um dos textos mais “diferentes” de Tolkien, com exceção do “The Notion Club Papers” (que logo veremos aqui na Valinor). É um texto do The History of Middle-earth 12, na verdade o fechamento deste volume e de toda a série The History of Middle-earth. Ele mostra a chegada dos Numenorianos à Terra-média através de um dos “Homens Médios”, um membro da raça dos homens aparentada aos numenorianos, mas não tão imponente quanto estes (os “Alto Homens”) nem tem baixa quanro os “Homens Selvagens”. Espero que gostem! Comentários de Christopher Tolkien em itálico e todas as notas são de Christopher Tolkien.
TAL-ELMAR
O conto de Tal-Elmar, até onde o mesmo vai, está preservado em um papel dobrado, datado de 1968, no qual meu pai escreveu a seguinte nota apressada:
Tal-Elmar.Começo de um conto que vê os Numenorianos do ponto de vista dos Homens Selvagens. Ele começa sem muita consideração com a geografia (ou a situação como imaginada em O Senhor dos Anéis). Mas ele permanecer como um conto em separado apenas vagamente conectado com a história desenvolvida nO Senhor dos Anéis ou – como acredito – deve recontar a chegada dos Numenorianos (Amigos-dos-Elfos) antes da Queda e representar suas escolhas de portos permanentes. Portanto a geografia deve ser alterada para se encaixar àquela da foz do Anduin e do Langstrand.

Mas isto foi escrito treze anos depois dele ter abandonado a história e não há sinais dele ter retornado a ela em seus últimos anos. Curta como é e (como parece) incerta em seu direcionamento, tal distanciamento de todas os outros temas narrativos dentro do compasso da Terra-média servirá, talvez, como uma conclusão adequada a esta História.

O texto se encontra em duas partes. A primeira é formada por seis páginas datilografadas que se encerram no meio de uma sentença; mas a primeira parte deste existe também como uma página rejeitada, parte datilografada parte manuscrita (ver nota 5). Além deste ponto a história inteira está na primeira fase de composição. A segunda parte é um manuscrito no qual meu pai escreveu ‘Continuação de Tal-Elmar’ e a data Janeiro 1955; não há indicação de quanto tempo se passou entre as duas partes, mas eu acredito que o trecho datilografado também pertence à década de 1950. É digno de nota que ele estivesse trabalhando nele durante o período de extrema pressão entre a publicação de As Duas Torres e a de O Retorno do Rei. Este manuscrito retoma a história de onde ela parou no trecho datilografado, mas não completa a sentença deixada sem fim; ele se torna progressivamente mais difícil e em uma seção está no limite da legibilidade, com algumas palavras ininterpretáveis. No final da narrativa há passagens experimentais e questionamentos. A não ser em poucos casos, eu não relatei as alterações realizadas no texto e dou apenas a última versão; e em um ou dois casos eu alterei usos inconsistentes de ‘vós’ e ‘você’.

Nos dias dos Reis da Escuridão, quando um homem poderia andar sem molhar os pés desde o Nascer do Sol até o Mar onde ele se põe, viveu em uma cidade paliçada de seu povo nas colinas verdejantes de Agar um velho homem, de nome Hazad Barbalonga (1). Dois orgulhos ele tinha: no número de seus filhos (dezessete ao todo) e no comprimento de sua barba (cinco pés, sem esticar); mas sua satisfação devido à sua barba era a maior das duas. Pois ela permanecia com ele e era macia e obediente à sua mão, enquanto seus filhos em sua maior parte o deixaram e aquele que permaneciam ou visitavam esporadicamente não eram nem gentis nem obedientes. Eles eram muito como Hazad havia sido nos dias de sua juventude: entroncados, de pele escura, baixos, rígidos, de línguas afiadas, mãos pesadas e rápidos à violência.

Exceto por um deles, o mais jovem. Tal-elmar Hazad o havia nomeado. Ele ainda não tinha dezoito anos de idade e vivia com seu pai e os outros dois filhos mais novos. Ele era alto, de pele clara e havia uma luz em seus olhos cinzentos que se inflamava quando ele se enfurecia; e embora fosse raro e nunca sem uma boa razão, era algo a se recordar e ter cuidado. Aqueles que haviam visto o fogo o chamavam de Olhos-brilhantes e o respeitavam, amassem-no ou não. Pois Tal-elmar parecia, dentre aquele povo entroncado e de pele escura, esbelto e sem a força nos pernas e pescoço que eles prezavam, mas um homem que brigasse com ele logo perceberia ele ser mais forte do que parecia, rápido e ligeiro, difícil de segurar e mais difícil ainda de escapar.

Ele tinha uma bela voz, que fazia até mesmo o idioma rude daquele povo mais suave de se ouvir, mas ele não falava muito; e freqüentemente ele permanecia quieto enquanto os outros conversavam, com um olhar em sua face que os demais corretamente interpretavam como orgulho, embora não fosse o orgulho de um mestre, mas antes o orgulho de alguém de uma raça estrangeira que o destino lançou em meio a um povo ignóbil e lá o manteve em servitude. Pois Tal-elmar trabalhava pesado em tarefas domésticas, não sendo nada além do filho mais novo de um homem velho, que tinha pouca riqueza restando além de sua barba e de uma reputação de sabedoria. Mas estranhamente (para aquela cidade) ele servia a seu pai de boa vontade e o amava, mais do que todos os seus irmãos juntos e mais do que era o costume de qualquer filho naquela terra. De fato era mais comum o brilho ser visto em seus olhos quanto estava defendendo seu pai.

Pois Tal-elmar possuía uma estranha crença (de onde ela viera era um mistério) de que os velhos deveriam ser tratados com carinho e cortesia, e deveria ser permitido viver o resto de seus dias com o máximo de conforto que pudessem. ‘Se precisarmos contrariá-los’, ele dizia, ‘que seja com respeito; pois eles já viram muitos anos e, muitas vezes, talvez, enfrentaram os males que ainda não encontramos. E não se ressinta de sua comida ou seu quarto, pois eles trabalharam mais do que você e não recebem agora, tardiamente, mais do que uma parte do pagamento que lhes é devido’. Tal tolice não tinha efeitos nos costumes de seu povo, mas era lei em sua casa; e já se passaram dois anos desde que qualquer de seus irmãos ousou quebrá-la (2).

Hazad amava bastante seu filho mais jovem, em retorno a seu amor e ainda mais por outra razão que ele mantinha em seu coração: sua face e voz o lembravam de outra pessoa que há muito ele sentia falta. Pois Hazad também havia sido o filho mais jovem de sua mãe e ela morrera quando ele era uma criança; e ela não era de seu povo. Tal era o conto que ele ouvira, não abertamente, pois o mesmo não dava moral à sua casa: ela viera de um povo estranho, cheio de ódio e orgulhoso, do qual se ouvia rumores nas terras do oeste e vinha do Leste, como era dito. Altos, belos e com olhos brilhantes eles eram, com armas brilhantes feitas por demônios em colinas de fogo. Lentamente eles iam em direção ao Mar, expulsando em sua passagem os antigos moradores de suas terras.

Não sem resistência. Ocorreram batalhas nas fronteiras do leste e uma vez que o povo mais antigo ainda era numeroso, os recém-chegados algumas vezes sofriam grandes perdas e eram expulsos. De fato pouco se ouvira deles nas Colinas de Agar, distante no oeste, por mais de uma vida de homem, desde a grande batalha sobre a qual canções ainda eram cantadas. No vale de Ishmalog ela fora travada, contavam os sábios, e lá uma grande horda do povo Bárbaro foi emboscada em um local estreito e assassinada aos montes. E naquele dia muitos foram feitos cativos; por isso não havia mais agitação nas fronteiras ou lutas com guardas avançadas: todo um povo da Raça Bárbara estivera se movendo com suas carroças e gado e mulheres.

Buldar, pai de Hazad, estivera no exército do Rei do Norte (3) que fora enviado para Ishmalog (4), e ele trouxe como espólio de guerra um ferimento, uma espada e uma mulher. E ela era afortunada; pois o destino dos cativos era curto e cruel, e Buldar a tomou como esposa. Pois ela era bela e a tendo visto ele não desejava qualquer mulher de seu próprio povo. Ele era um homem de riqueza e poder naqueles tempos e fez como quis, escarnecendo o escárnio de seus vizinhos. Mas assim que sua esposa, Elmar, aprendeu o suficiente da fala de seu novo grupo um dia ela disse a Buldar: eu tenho muito que te agradecer, senhor; mas não penses que terás meu amor. Pois me tiraste de meu próprio povo e daquele que eu amava e do filho que eu dera a ele. A eles sempre sentirei falta e chorarei, e darei meu amor a mais ninguém. Nunca mais serei satisfeita enquanto for mantida cativa entre um povo estranho que eu vejo como baixo e desagradável.

‘Que assim seja’, disse Buldar. ‘Mas não deves pensar que eu deveria deixá-la livre. Pois és preciosa ao meu olhar. E considere bem: em vão é tentar escapar-me. Longo é o caminho até o restante de teu povo, se algum ainda está vivo; e não irias longe das Colinas de Agar e encontrarias a morte ou uma vida muito pior do que a aquela que terias em minha casa. Baixos e desagradáveis nos chamastes. Com razão, talvez. Mas verdade também é que vosso povo é cruel e sem lei e amigos de demônios. São ladrões. Pois nossas terras o são nossas desde há muito, as quais vocês nos arrancam com suas lâminas cruéis. Peles claras e olhos brilhantes não são desculpas para tais atos’.

‘Não são?’, disse ela. ‘Então também não o são pernas grossas e ombros largos. Ou por que meios ganhastes estas terras de que fala? Não existe, como escutei falarem, um povo selvagem em cavernas nas montanhas, que outrora correram livres por aqui, até que seu povo de pele escura veio e os caçou como lobos? Mas eu não falo de diretos, mas de tristeza e amor. Se eu preciso morar aqui, então morarei, como alguém cujo corpo está aqui à tua vontade, mas meu pensamento longe noutro lugar. E esta vingança eu terei: enquanto meu corpo for mantido aqui em exílio, o quinhão de todo este povo diminuirá e o teu mais do que todos; mas quando meu corpo for para dentro desta terra estrangeira e meu pensamento ficar livre dele, então entre os teus surgirá um que é apenas meu. E com seu surgimento chegará o fim do teu povo e a queda do teu rei’.

Após isto Elmar não falou mais nada sobre este assunto; e ela era de fato uma mulher de poucas palavras enquanto sua vida durou, exceto para seus filhos. Para eles falava muito quando ninguém estava perto e ela cantava para eles muitas canções em uma língua bela e estranha; mas eles não lhe davam atenção ou logo esqueciam. Exceto Hazad, o mais jovem; e embora ele fosse, assim como todos os outros filhos, diferentes em corpo, ele era o mais próximo em coração. As canções e a estranha língua ele também esqueceu quando cresceu, mas sua mãe ele nunca esqueceu; e ele se casou tarde, pois nenhuma mulher de seu povo lhe parecia desejável, ele que conhecera o que a beleza em uma mulher deveria ser (5).

Não que existissem muitas para cortejar, pois como Elmar falara, o povo de Agar diminuiu com os anos, devido a climas ruins e pestes, e mais do que todos foi atingido Buldar e seus filhos; e eles se tornaram pobres e outras famílias tomaram o poder deles.  Mas Hazad não sabia da previsão de sua mãe, e devido à sua memória amava Tal-elmar, e por isso assim o nomeara em seu nascimento.

Por acaso em uma manhã de primavera quando seus outros filhos partiram para o trabalho Hazar manteve Tal-elmar a seu lado, e andaram juntos e se sentaram sobre o verdejante topo da colina acima da cidade de seu povo; e eles olharam para o sul e oeste onde podiam ver ao longe a grande baía onde o Mar adentrava na terra, e brilhava como vidro cinzento. E os olhos de Hazad estavam ficando fracos com a idade, mas os de Tal-elmar eram aguçados e ele viu o que pensou ser três pássaros estranhos sobre as águas, brancos ao sol, e eles estavam deslizando com o vento oeste em direção a terra; e ele pensou no  porque eles ficam no o mar e não voavam.

‘Eu vejo três estranhos pássaros sobre a água, pai’, ele disse. ‘Não são como nenhum outro que eu tenha visto’.

‘Aguçados podem ser teus olhos jovens, meu filho’, disse Hazad, ‘mas pássaros na água não podes ver. Três léguas distantes daqui onde sentamos está o litoral mais próximo. O sol te confunde ou algum sonho está em ti’.

‘Não, o sol está atrás de mim’, disse Tal-elmar. ‘Eu vejo o que vejo. E se não são pássaros então o que são? Muito grandes devem ser, maiores do que os Cisnes de Gorbelgod (6), dos quais falam as lendas. E veja! Vejo agora outro vindo atrás, mas com menos clareza, pois suas asas são negras’.

Então Hazad ficou preocupado. ‘Um sonho está em você, como eu disse, meu filho’, ele respondeu; ‘mas um sonho ruim. Já não é a vida dura o suficiente aqui, que logo que a primavera veio e o inverno finalmente terminou, precisas trazer uma visão de um passado negro?’

‘Esquecestes, pai’, disse Tal-elmar, ‘que sou teu filho mais novo e enquanto ensinastes muitos conhecimentos às orelhas surdas de meus irmãos a mim destes menos de tua reserva. Não sei nada do que se passa em tua mente’.

‘Não conheces?’, disse Hazad, forçando a visão ao olhar para o Mar. ‘Sim, possivelmente já faz muito tempo que falei sobre isto; não é mais do que a sombra de um sonho no fundo de minha memória. Três povos temos como inimigos. Os homens selvagens das montanhas e florestas; mas a estes só quem vaga sozinho precisa temer. O Povo Bárbaro do Leste; e eles ainda estão bem longe e são o povo da minha mãe, embora eu não duvide de que eles não honrariam o parentesco se viessem aqui com suas espadas. E os Altos Homens do Mar. Estes, de fato, podemos temer como à Morte. Pois eles idolatram a Morte e assassinam homens cruelmente em honra à Escuridão. Do Mar eles vêm e se possuem alguma terra deles mesmos, antes de aportaram nos litorais do oeste, não sabemos onde pode ser. Lendas terríveis chegaram a nós dos litorais, norte e sul, onde ele há muito estabeleceram suas fortalezas negras e seus túmulos. Mas aqui eles não vêm desde os dias de meu pai, e então vinham apenas para pilhar e capturar homens e partiam. Este era a modo de agir deles. Eles chegavam em barcos, mas não barcos como alguns de nosso povo utilizam nos grandes rios ou lagos, para transporte ou pesca. Maiores do que grandes casas eram os barcos dos Go-hilleg, e eles mantinham espaços para homens e mercadorias, além de serem empurrados pelos ventos; pois os Homens-do-mar estendiam grandes tecidos como asas para pegar os ventos e os prendiam em postes altos como árvores da floresta. Então eles chegavam ao litoral, onde existisse proteção ou tão próximo quanto conseguissem; e então enviavam barcos menores carregados com mercadorias e coisas estranhas tão belas quanto úteis que nosso povo desejava. Estas coisas eles vendiam por um pequeno preço ou davam como presentes, fingindo amizade e piedade por nossas necessidades; e eles moravam por um tempo e espionavam a terra e o número do povo, e então partiam. E se não retornasse as pessoas deveriam ficar gratas. Pois se viessem novamente seria em outra forma. Vinham então em grande número: dois barcos ou mais, juntos, cheios de homens e não de mercadorias, e sempre um dos malditos navios possuía asas negras. Pois aquele é o Barco da Escuridão, e nele levavam embora a pilhagem maligna, cativos amontoados como bestas, as mais belas mulheres e crianças, ou homens jovens sem defeitos físicos, e este era o fim deles. Alguns dizem que eles eram utilizados como carne; outros que eles eram mortos com tormentos sobre pedras negras em idolatria à Escuridão. Talvez ambos estejam corretos. As horríveis asas dos Homens-do-Mar não foram vistas nestas águas por muitos anos; mas relembrando a sombra do medo no passado eu falei e falo de novo: já não é nossa vida dura o suficiente sem a visão de uma asa negra sobre o mar brilhante?’

‘Dura o bastante, de fato’, disse Tal-elmar, ‘ainda assim não tão dura que eu queira deixá-la ainda. Venha! Se o que você disse é real então devemos correr para a cidade e avisar os homens, e nos preparar-nos para fuga ou defesa’.
or for defence.’

‘Eu irei’, disse Hazad. ‘Mas não te espantes se os homens rirem de mim como se eu estivesse fora do meu juízo. Eles acreditam pouco em coisas que não tenham acontecido durante seus próprios dias. E tenha cuidado, caro filho! Eu corro pouco perigo, além de morrer de fome em uma cidade vazia, só com loucos e velhos. Mas tu estarias dentre os primeiro pegos pelo Barco Negro. Não te coloques na dianteira de nenhum apressado conselho de guerra’.

‘Veremos’, respondeu Tal-elmar. ‘Mas tu és minha principal preocupação nesta cidade, onde tenho e dou pouco amor. Não partirei de teu lado de boa vontade. Mesmo assim esta é a cidade de meu povo e nosso lar, e os aptos estão fadados a defendê-la, assim como eu’.

Então Hazad e seu filho desceram a colina e era meio-dia; e na cidade estavam poucas pessoas além das idosas e crianças, por todos os capazes estavam nos campos, ocupados com o árduo trabalho da primavera. Não havia vigia, pois as Colinas de Agar estavam distantes das fronteiras hostis onde o poder do Quarto Rei (7) terminava. O mestre da cidade sentava à porta de sua casa ao sol, dormindo ou placidamente observando os pequenos pássaros que juntavam pedaços de comida da lama seca e batida do lugar aberto no meio das casas.

‘Saudações! Mestre de Agar!’ disse Hazad, e curvou-se, mas o mestre, um homem gordo com olhos de lagarto, apenas piscou e não retornou o cumprimento.

‘Saudações ao trono, Mestre! E que por muito você possa continuar assim!’ disse Tal-elmar, e havia um brilho em seus olhos. ‘Não devemos perturbar seus pensamentos, ou seu sono, mas há novidades às quais, talvez, você deva dar atenção. Não há vigia posto, mas por acaso estávamos no topo da colina e vimos o mar ao longe e lá – aves de mau agouro sobre a água’.

‘Navios dos Go-hilleg’, disse Hazad, ‘com grandes tecidos-de-vento. Três brancos – e um negro’.

O mestre bocejou. ‘Quanto a tu, ancião de olhos cansados’, ele disse, ‘não podes diferenciar o mar de uma nuvem. E quanto a este rapaz folgado, o que sabe ele de barcos ou tecidos-de-vento, ou todo o resto, exceto por teus loucos ensinamentos? Vá aos quebradores de pedra nômades (8) com suas histórias de bruxa sobre os Go-hilleg e não me incomode mais com tais tolices. Tenho outros assuntos de mais peso a ponderar’.

Hazad engoliu sua fúria, pois o Mestre era poderoso e não gostava dele; mas a ira de Tal-elmar era fria. ‘Os pensamentos de alguém com tão grandes necessidades devem ser pesados’, disse ele suavemente, ‘embora eu não saiba que pensamento de mais peso poderia interromper seu repouso do que o cuidado com sua própria carcaça. Ele será um mestre sem povo, ou um saco de ossos na colina, se zombar da sabedoria de Hazad filho de Buldar. Olhos cansados podem ver mais do que aqueles fechados pelo sono’.

A obesa face de Mogru o Mestre escureceu e seus olhos ficaram injetados de sangue pela raiva. Ele odiava Tal-elmar, embora nunca antes o jovem tivera lhe dado razão, exceto que não demonstrava medo em sua presença. Agora ele deveria pagar por isso e por sua recém-descoberta insolência. Mogru bateu palmas, mas ainda enquanto o fazia lembrou que não havia ninguém próximo que ousaria se atracar com o jovem, não, nem mesmo três juntos; e ao mesmo tempo ele viu o brilho dos olhos de Tal-elmar. Ele empalideceu, e as palavras que ele estava prestes a falar, ‘Filho de escrava e seu moleque’, morreu em seus lábios. ‘Hazad uBuldar, Tal-elmar uHazad, desta  cidade, não fale assim com o mestre de seu povo’, ele disse. ‘Um posto de vigia foi criado, embora tu que não tens o governo da cidade possas não saber. Aguardarei até ter um relato dos vigias, nos quais confio, que algo de ruim foi visto. Mas se estás tão ansioso vá aos campos e chame os homens’.

Tal-elmar observou-o cuidadosamente enquanto ele falava e leu claramente seus pensamentos. ‘Agora devo esperar que meu pai não tenha se enganado’, ele disse em seu coração, ‘pois menos perigo a batalha me trará do que o ódio de Mogru deste dia em diante. Um posto de vigia! Sim, mas apenas para espionar as indas e vindas do povo da cidade. E no momento em que eu for aos campos um corredor irá reunir seus servos e homens com porretes. Causei um mal a meu pai nesta hora. Bem! Aquele que começou com a pá deve empunhá-la até terminar o canteiro’. Sua fala, portanto continuou com raiva e escárnio. ‘Vá aos quebradores de pedra você mesmo’, ele disse, ‘pois você está acostumado a usar aquele povo matreiro, e prestar atenção aos seus contos quando te servem. Mas meu pai você não escorneará enquanto eu estiver por perto. Podemos muito bem estar em perigo. Portanto você deverá vir conosco ao topo da colina, e ver com seus próprios olhos. E se você não vir nada que justifique, você deverá chamar seus homens para a colina-dos-Debates. Eu serei seu mensageiro’.

E Mogru também observava a face de Tal-elmar pela fenda de suas pálpebras enquanto este falava, e considerou que não estaria sob risco de violência se cedesse dessa vez. Mas seu coração estava repleto de veneno; e não o irritava pouco o esforço de subir a colina. Lentamente ele se pôs de pé.

‘Eu irei’, ele disse. ‘Mas se meu tempo e esforço forem desperdiçados, eu não perdoarei. Auxilie meus passos; jovem, pois meus servos estão nos campos’. E ele tomou o braço de Tal-elmar e se apoiou pesadamente sobre ele.

‘Meu pai é o mais ancião,’ disse Tal-elmar; ‘e o caminho não é curto. Deixe que o Mestre lidere, e nós seguiremos. Aqui está teu bastão!’. E soltou-se do aperto de Mogru, e deu a este seu bastão o qual estava à porta de sua casa; e tomando o braço de seu pai ele aguardou até o Mestre estar preparado. De soslaio e escuro foi o olhar dos olhos-de-lagarto, mas o brilho dos olhos de Tal-elmar que eles vislumbraram feria como uma agulha. Há muito que as pernas obesas de Mogru não desenvolviam tal velocidade entre a casa e o portão; e mais tempo ainda que não carregaram sua barriga pela subida escorregadia da colina além do dique. Ele estava respirando pesadamente e bufando como um cachorro velho, quando chegaram ao topo.

Então novamente Tal-elmar olhou ao longe; mas o imenso e distante mar estava agora vazio, e ele ficou em silêncio. Mogru limpou o suor de seus olhos e seguir seu olhar.

‘Por que razão, pergunto, tiraste o Mestre da cidade de sua casa e o trouxeste a este lugar?’, ele rosnou. ‘O mar permanece onde deveria estar, e vazio. O que dizes?’

‘Tenha paciência e olhe mais perto’, disse Tal-elmar. Para o oeste as colinas bloqueiam a visão de tudo, exceto do mar mais distante; mas se elevando até o largo topo da Colina Dourada eles desciam repentinamente, e em uma abertura profunda um relance da grande baía e das águas próximas a seu litoral norte podia ser visto. ‘O tempo passou desde que estivemos aqui, e o vento está forte’, disse Tal-elmar. ‘Eles chegaram mais perto’. Ele apontou. ‘Lá você verá suas asas, ou seus tecidos-de-vento, chame-os como quiser. Mas qual é seu conselho? E não é um assunto que o Mestre deveria ver com seus próprios olhos?’

Mogru olhou, e bufou, agora tanto pelo medo quanto pelo trabalho de subir a colina, pois mesmo arrogante como parecia ele tinha ouvido muitas lendas terríveis sobre os Go-hilled das anciãs, em sua juventude. Mas seu coração era matreiro e negro pela ira. Olhou de soslaio primeiro para Hazad, e então para seu filho; e lambeu os lábios, mas não deixou que seu sorriso fosse visto.

‘Você pediu para ser meu mensageiro’, ele disse, ‘e assim serás. Vá agora com rapidez e convoque os homens para a colina-dos-Debates! Mas isto não encerrará tua missão’, acrescentou enquanto Tal-elmar se preparava para correr. ‘Direto dos campos deverás ir com toda velocidade para a Praia. Pois ali os barcos, se barcos são, provavelmente irão parar, e os homens desembarcarão. Deverás obter notícias e espionar bem quem desembarcar. Não voltes a não ser que tenhas novidades que auxiliarão em nossos conselhos. Vás e não te poupes! Comando-te. É tempo de perigo para a cidade’.

Hazad pareceu pronto a protestar; mas baixou a cabeça, e não disse nada, sabendo ser em vão. Tal-elmar parou por um momento, observando Mogru, como alguém olharia uma cobra no caminho. Mas ele percebeu que a esperteza do Mestre fora maior que a sua. Ele armara sua própria armadilha, e Mogru a utilizou. Ele declarou tempo de perigo para a cidade, e tinha o direito de ordenar qualquer serviço. Seria morte desobedecê-lo. E mesmo que Tal-elmar não tivesse se nomeado mensageiro (tentando evitar que qualquer palavra secreta passasse aos servos do mestre), ele diria que a escolha foi justa. Um batedor deveria ser enviado, e quem melhor do que um jovem forte e corajoso, de pés rápidos? Mas também havia malícia na missão, uma malícia negra, de qualquer forma. O defensor de Hazad deveria partir. Não havia esperança em seus irmãos: tolos fortes, mas sem coração para desafiar, exceto a seu velho pai. E era provável que ele não retornasse. O perigo era grande.

Mais uma vez Tal-elmar olhou para o Mestre, e então para seu pai, e então vislumbrou o bastão de Mogru. O brilho estava em seus olhos, e em seu coração o desejo de matar. Mogru percebeu e recuou com medo.

‘Vá, vá!’ ele gritou. ‘Eu já te ordenei. És mais rápido em gritar lobo do que em começar a caçada. Vá de uma vez!’.

‘Vá, meu filho!’, disse Hazad. ‘Não desafie o Mestre. Não onde ele tem a razão. Pois então desafiarias toda a cidade, e estaria acima do teu poder. E fosse eu o Mestre, eu te escolheria, mesmo me sendo querido; pois tens mais coração e sorte do que qualquer um deste povo. Mas retorne, e não deixe o Barco Negro tê-lo. Não seja corajoso demais! Pois melhores serão más notícias trazidas por ti, vivo, do que pelos Homens-do-Mar sem aviso’.

Tal-elmar se curvou e fez o sinal de submissão para seu pai, mas não para o Mestre, e se afastou dois passos. E então se virou. ‘Ouça, Mogru, a quem um povo inferior em sua tolice nomeou mestre’, ele disse. ‘Talvez eu retorne, contra tuas expectativas. Meu pai eu deixo em teu cuidado. Se eu retornar, seja com uma palavra de paz, seja com o inimigo em meu encalço, então teu tempo como mestre estará encerrado, e tua vida também, se eu descobrir que ele sofreu algum mal ou desonra que poderias ter evitado. Teus homens-de-faca e portadores-de-porretes não te ajudarão. Eu apertarei teu pescoço gordo com minhas mãos vazias, se precisar; ou te caçarei através dos ermos até as poços escuros’.  Então um novo pensamento o acossou e ele se dirigiu ao Mestre, e pegou seu bastão.

Mogru se encolheu, e estendeu um braço gordo, como para se defender de um golpe. ‘Está louco hoje’, coaxou. ‘Não cometas violência contra mim ou a pagarás com tua morte. Não ouviste as palavras de teu pai?’

‘Eu ouvi, e eu obedeço’, disse Tal-elmar. ‘Mas a primeira missão é para os homens, e há necessidade de rapidez. Pouca honra tenho entre eles, pois sabem bem que escarneces de nós. Que atenção prestarão, se os bastardos da Escrava, como nos nomeais quando não estou perto, chegar (9) gritando convocações para a colina-dos-Debates em teu nome e sem prova. Teu bastão servirá. É bem conhecido. Não, não irei bater-te com ele ainda!’

Com isso ele então pegou o bastão das mãos de Mogru e desceu correndo a colina, seu coração ainda quente demais com a ira para pensar no que estaria à sua frente. Mas quando ele convocou os homens nas terras inclinadas do sul e agitou o bastão entre deles, aconselhando que se apressassem, correu para o pé da colina, e além dos grandes gramados, e então chegou ao primeiro caminho estreito das florestas. Escuro ele se estendia ante ele no vale entre Agar e as colinas do litoral.

Ainda era manhã, mais de uma hora antes do meio-dia, mas quando ele chegou embaixo das árvores parou e começou a pensar, e percebeu que estava perturbado de medo. Raramente ele vagava longe das colinas de sua casa, e nunca sozinho, nem muito longe na floresta. Pois todo o seu povo temia a floresta (10).

Aqui o trecho datilografado é interrompido, não ao pé da página, e o manuscrito ‘Continuação de Tal-Elmar’ (como o nome agora é escrito) começa.

É rápido para os olhos viajarem até litoral, mas lento para os pés; e a distância era maior do que parecia. A floresta estava escura e desconfortável, pois ali ficavam águas estagnadas entre as colinas de Agar e as colinas do litoral; e muitas cobras viviam ali. Era silenciosa também, pois embora fosse primavera poucos pássaros construíam ninhos ali ou mesmo pousavam ao passarem em busca de terras mais abertas perto do mar. Também moravam na floresta espíritos escuros que odiavam homens, ou pelo menos assim diziam as lendas do povo. Sobre cobras e pântano e demônios da floresta Tal-Elmar pensava parado sob a sombra; mas precisou pensar pouco para chegar à conclusão que todos os três eram menos perigosos do que retornar, com uma desculpa mentirosa ou sem nenhuma, para a cidade e seu mestre.Então, talvez auxiliado um pouco por seu orgulho, ele seguiu em frente. E o pensamento veio a ele sob a sombra enquanto procurava por um caminho através do pântano e do emaranhado da floresta: O que eu sei, ou qualquer um de meu povo, mesmo meu pai, desses Go-hilleg dos barcos alados? Pode muito bem ser que eu que sou um estrangeiro entre meu próprio povo ache-os mais agradáveis que Mogru e todos os outros como ele.Com este pensamento crescendo nele, ele se sentiu mais como um homem que vai cumprimentar amigos e parentes do que alguém que se esgueira para espiar um inimigo poderoso, ele passou incólume pela floresta das sombras, e chegou às colinas do litoral, e começou a subir. Ele escolheu uma colina, pois os emaranhados da floresta acompanhavam sua encosta e o topo estava coroado com um grupo denso de árvores baixas. A este esconderijo ele foi e se achegando à borda da colina ele olhou para baixo. Havia lhe tomado um longo tempo, pois sua caminhada havia sido lenta, e agora o sol havia passado do meio e estava descendo em direção ao Mar. Ele estava faminto, mas a isto deu pouca atenção, pois estava acostumado à fome, e poderia suportar os trabalhos de um dia inteiro sem comer, quando precisava. A colina era baixa, mas descia acentuadamente até a água. Ante seus pés estavam terras verdejantes terminando em um trecho de cascalho, além dos quais as águas do estuário brilhavam sob o sol que se punha.Em meio à correnteza e além da parte mais rasa três grandes navios – embora Tal-Elmar não tivesse tal palavra em sua língua para nomeá-los – estavam parados imóveis. Estavam ancorados e com as velas abaixadas. Do quarto, o navio negro, não havia sinal. Mas no gramado próximo à pequena praia de cascalhos havia tendas e pequenos barcos. Homens altos estavam parados ou andando entre eles. Além, nos ‘grandes barcos’ Tal-Elmar podia ver [?outros] em vigia; de quando em quando ele vislumbrava um brilho quando uma arma ou armadura se movia no sol. Ele tremeu, pois os contos das ‘lâminas’ dos Homens Cruéis eram familiares à sua infância.

Tal-Elmar observou por longo tempo, e lentamente ele se deu conta do quão sem esperança era sua missão. Ele poderia olhar até que a luz do dia acabasse, mas ele não poderia contar com precisão suficiente para qualquer uso o número de homens que estavam lá; nem podia descobrir seus propósitos ou seus planos. Mesmo se ele tivesse tanto a coragem quanto a sorte de passar pelos guardas ele não poderia fazer nada de útil, pois ele não entenderia uma palavra sequer do idioma deles.

Ele se lembrou de repente – outro dos esquemas de Mogru para se livrar dele, como ele percebia agora, embora à época ele achasse uma honra – como apenas um ano atrás, quando a minguante vila de Agar foi ameaçada por invasores da vila de Udul distante no interior (11), e todos os homens temiam que um ataque ocorresse, pois Agar era mais seca, mais saudável e estava em local mais defensável (ou assim pensavam os homens da cidade). Então Tal-Elmar foi escolhido para ir e espionar a terra de Udul, por ‘ser jovem, corajoso e conhecer melhor o mundo ao redor’. Assim disse Mogru, verdadeiramente, pois o povo da cidade de Agar era tímido e raramente ia muito longe no campo, nunca se arriscando a ser pego pelo escurecer fora de suas casas.  Enquanto que Tal-Elmar freqüentemente, se tivesse a chance ou nenhum trabalho o exigisse (ou mesmo que o fizesse, algumas vezes), andava longe pelo campo, e embora (sendo assim ensinado desde a infância) temesse o escuro, ele mais de uma vez havia passado a noite longe da cidade, e era conhecido até mesmo por ir à colina de vigia sozinho sob as estrelas.

Mas rastejar dentro dos campos inamistosos de Udul durante a noite era uma coisa diferente e muito pior. Mesmo assim ele ousou fazê-lo. E ele chegou tão perto de umas das cabanas dos vigias que pode ouvir os homens dentro conversando – em vão. Ele não podia entender o sentido de suas palavras. O tom parecia cheio de pesar e cheio de medo (12) (como eram as vozes dos homens à noite no mundo que ele conhecia), e umas poucas palavras ele pareceu reconhecer, mas não o suficiente para compreender. E o povo de Udul eram seus vizinhos mais próximos – de fato, embora Tal-Elmar e seu povo tenham esquecido, e eles tinham esquecido tantas coisas, seus parentes próximos, parte do mesmo povo em anos passados e melhores. Que esperança então havia dele reconhecer qualquer simples palavra, ou mesmo interpretar corretamente as entonações, da língua de um povo estrangeiro separado do dele desde o começo do mundo? Estrangeiro de seu próprio? Meu próprio? Mas eles não eram meu povo. Apenas meu pai. E de novo ele teve a estranha sensação, vinda não sabia de onde para este jovem rapaz, nascido e criado em meio a um povo meio-selvagem e declinante: o sentimento de que ele não estava indo encontrar estrangeiros, mas parentes de longe e amigos.

Ainda assim ele era também um menino de sua vila. Ele estava com medo, e demorou muito até se mover. Finalmente ele olhou para cima. O sol à sua direita estava agora se pondo. Entre dois galhos de árvore ele vislumbrou um pedaço de mar enquanto o grande fogo redondo, avermelhado com a leve névoa marinha, ficou à altura de seus olhos, e as águas estavam pintadas de um flamejante dourado.

Ele já havia visto o sol se pôr no mar, mas nunca desse modo. Ele soube em um piscar (como se viesse daquele fogo) que havia visto desta forma, [? ele fora chamado] (13), que isto significava mais do que a chegada da ‘hora do Rei’, o escuro (14). Ele se levantou e como se levado ou impulsionado andou abertamente colina abaixo e cruzou o longo gramado em direção ao cascalho e às tendas.

Pudesse ele ver a si mesmo ficaria tão surpreso quanto aqueles que o viam da praia. Sua pela nua – pois ele usava apenas um pedaço de tecido ao redor da cintura, e um pequeno manto de … pele jogado para trás e preso com uma tira de couro aos seus ombros – brilhava dourada sob a luz [?do pôr do sol], seu cabelo claro também estava iluminado e seus passos eram leves e livres.

‘Olhe!’ gritou um dos vigias para seu companheiro. ‘Você vê o que vejo? Não é um dos Eldar das florestas que vem falar conosco?’

‘Eu vejo, de fato’, disse o outro, ‘mas se não é algum fantasma da borda da escuridão [?que está chegando] [?nesta terra amaldiçoada] um dos Belos ele não pode ser. Estamos muito ao sul e nenhum mora por aqui. Seria de fato se estivéssemos [?longe ao norte, perto dos Portos]’.

‘Quem conhece todos os modos de agir dos Eldar?’, disse o vigia. ‘Silêncio agora! Ele se aproxima. Deixe-o falar primeiro’.

Então eles ficaram parados, e não fizeram nenhum sinal enquanto Tal-Elmar se aproximava. Quando ele estava a uns vinte passos seu medo retornou e ele parou, deixando seus braços caírem à sua frente e abrindo as palmas em direção aos estranhos em um gesto que todos os homens poderiam compreender.

Então, como eles não se moviam, nem colocavam as mãos em nenhuma arma até onde ele podia ver, ele tomou coragem novamente e falou, dizendo: ‘Saudações, Homens do mar e das asas! Por que vieram aqui? Vieram em paz? Eu sou Tal-Elmar uHazad do povo de Agar. Quem são vocês?’

Sua voz era clara e bela, mas a língua que ele usou não era outra senão uma forma do idioma semi-selvagem dos Homens da Escuridão, como os Homens do Navio os chamavam. O vigia se moveu. ‘Elda!’, ele disse. ‘Os Eldar não usam tal língua’. Ele chamou e imediatamente homens saíram de suas tendas. Ele próprio sacou uma espada, enquanto seu companheiro preparava uma flecha no arco. Antes mesmo que Tal-Elmar pudesse se sentir aterrorizado, antes mesmo de se virar e correr – felizmente, pois ele não sabia nada sobre arcos e teria caído muito antes de escapar, acertado por uma flecha – ele estava cercado por homens armados. Eles o pegaram, mas não com maus tratos, quando o viram desarmado e submisso, e o levaram à tenda onde estava alguém com autoridade.

Tal-Elmar sentia que o idioma era conhecido e apenas oculto dele por um véu.

O capitão disse que Tal-Elmar deveria ser de raça Numenoriana ou de um povo aparentado a eles. Ele deveria ser trado com cortesia. Ele supunha que ele havia sido feito cativo ainda bebê ou nascido de cativos. ‘Ele está tentando fugir para nós’, ele disse.

‘Uma pena ele não lembrar nada da língua’. ‘Ele aprenderá’. ‘Talvez, mas depois de um longo tempo. Se ele a falasse agora, ele poderia nos dizer muito, o que aceleraria nossa missão e reduziria nosso perigo’.

Então finalmente fizeram Tal-Elmar entender seu desejo de saber quantos homens moravam perto; eram eles amigáveis, eram como ele era?

O objetivo dos Numenorianos era ocupar esta terra, e em aliança com os ‘Cruéis’ do Norte expulsar o Povo da Escuridão e fazer um acampamento para ameaçar o Rei. (Ou isto seria enquanto Sauron estava ausente em Númenor?)

Este lugar era no estuário de Isen? ou Morthond.

Tal-Elmar podia contar e entendia números grandes, embora sua linguagem fosse deficiente.

Ou ele entendia Numenoriano? [Adicionado posteriormente: Eldarin – estes eram os amigos-dos-Elfos.] Ele disse quando ouviu um homem falar ao outro: ‘É estranho que vocês falem a língua dos meus longos sonhos. E certamente agora estou em minha terra e não dormindo?’ Então eles se assombraram e disseram: ‘Por que você não falou conosco antes? Você falou como os povos da Escuridão que são nossos inimigos, sendo servos do Inimigo’. E Tal-Elmar respondeu: ‘Porque esta língua só retornou à minha mente ouvindo-o falá-la; e como eu poderia saber que você entenderia a linguagem dos meus sonhos? Você não é como aqueles que falam comigo em meus sonhos. Não, um pouco parecido; mas eles eram mais brilhantes e mais belos’.

Então o homem ficou ainda mais impressionado, e disse: ‘Parece que você falou com os Eldar, acordado ou em uma visão.’

‘Quem são os Eldar?’ disse Tal-Elmar. ‘Esse nome eu não ouvi em meu sonho’.

‘Se você vier conosco talvez possa vê-los’.

Então de repente medo e a lembrança de antigas lendas vieram a Tal-Elmar novamente, e ele recuou. ‘O que farão comigo?’, ele disse. ‘Vão me atrair ao barco de asas negras e entregar-me à Escuridão?’

‘Você ou ao menos seu povo já pertencem à Escuridão’, responderam. ‘Mas porque você fala assim das velas negras? As velas negras são para nós um sinal de honra, pois são a bela noite antes da vinda do Inimigo e sobre o negro estão colocadas as estrelas prateadas de Elbereth. As velas negras de nosso capitão foram adiante na água’.

Tal-Elmar continuou com medo, pois ainda não era capaz de imaginar o negro como qualquer coisa a não ser símbolo da noite de medo. Mas ele pareceu tão corajoso quando pôde e respondeu: ‘Nem todo meu povo. Nós tememos a Escuridão, mas não a amamos nem a servimos. Ao menos alguns de nós. Assim é com meu pai. E a ele eu amo. Eu não serei separado dele nem mesmo para ver os Eldar’.

‘Pena!’, eles disseram. ‘Seu tempo de moradia nessas colinas está chegando ao fim. Aqui os homens do Oeste decidiram fazer suas moradas, e o povo da escuridão deve partir – ou ser morto’.

Tal-Elmar oferece-se como refém.

Não há mais. Ao pé da página meu pai escreveu ‘Tal-Elmar’ duas vezes, e seu próprio nome duas vezes; e também ‘Tal-Elmar em Rhovanion’, ‘Terras Ermas’, ‘Anduin o Grande Rio’, ‘Mar de Rhun’ e ‘Pântano de Etten’.

NOTAS.

1. Na versão rejeitada da seção inicial do texto a história começa: ‘Nos dias dos Grandes Reis quando um homem podia andar sem molhar os pés de Roma até York (não que estas cidades tivessem sido construídas ou imaginadas) morava na cidade de seu povo nas colinas de Agar um velho homem, de nome Tal-argan Barbalonga’, e Tal-argan permaneceu o nome sem correção na página rejeitada. A segunda versão manteve ‘os Grandes Reis’, a mudança para ‘os Reis da Escuridão’ sendo feita mais tarde.

2. Este parágrafo mais tarde foi colocado entre colchetes.

3. Ambas as versões têm ‘o Quarto Rei’, alterada na segunda para ‘o Rei do Norte’ ao mesmo tempo em que ‘os Grandes Reis’ foi alterado para ‘os Reis da Escuridão’ (nota 1).

4. Na versão rejeitada o pai de Tal-argan (Hazad) era chamado Tal-Bulda, e o local da batalha era o vale de Rishmalog.

5. Neste ponto a primeira página rejeitada termina, e o texto se torna a composição principal. Uma nota rascunhada a lápis no topo da página substituta propõe que Buldar pai de Hazad fosse eliminado, e que o próprio Hazad tenha casado com a mulher estrangeira Elmar (que não é nomeada na versão rejeitada).

6. O nome datilografado era Dur nor-Belgoth, corrigido para Gorbelgod.

7. ‘o Quarto Rei’, não foi corrigido aqui: ver nota 3.

8. No original ‘knappers’:  um  ‘knapper’  era alguém que quebrava pedras ou rochas. Esta palavra substituiu ‘tinker’ (algo como cigano), aqui e na próxima ocorrência.

9. Eu deixei o texto aqui como ele é.

10. Uma nota marginal aqui diz que Tal-elmar não tinha ‘nenhuma arma além de pedras de arremesso em um saco’.

11. O texto como escrito tinha ‘distante no interior, e todos os homens temiam’, corrigido para ‘distante no interior. Todos os homens temiam’. Eu alterei o texto para propiciar uma sentença completa, mas meu pai (que estava escrevendo com grande rapidez) sem dúvida não pretendia isso, e teria reescrito o trecho  se alguma vez tivesse retornado a ele.

12. Na margem meu pai escreveu que a vila de Udul estava morrendo de peste, e os invasores estavam de fato desesperadamente procurando por comida.

13. A conclusão do texto está em certos trechos em um manuscrito excruciantemente difícil, e as palavras que eu dei como ‘ele foi chamado’ são dúbias: mas eu não consigo imaginar outra interpretação delas.

14. Contra as palavras ‘nunca ousando ser pegos pelo escuro fora de suas casas’ meu pai escreveu: ‘a Escuridão é “a hora do Rei” ‘. Como pode ser visto em passagens seguintes, o Rei é Sauron.

A Lenda do Despertar dos Quendi (Cuivienyarna)

sil-cuivienenEnquanto seus primeiros corpos estavam sendo feitos da “carne de Arda”, os quendi dormiam “no seio da terra”, debaixo  do verde gramado, e despertaram quando tornaram-se adultos. Mas os Primeiros Elfos [também chamados de Não-Nascidos, ou Nascidos de Eru] não acordaram todos ao mesmo tempo. Eru havia então determinado que cada um deveria estar ao lado de seu/sua “parceiro[a] destinado”. Mas três elfos despertaram antes de todos, e eles eram elfos homens, pois elfos homens são mais fortes fisicamente e mais ávidos e aventureiros em lugares estranhos. Estes três pais elfos são chamados nos contos antigos Imin, Tata e Enel. Eles despertaram nessa ordem, mas com pouca diferença de tempo entre cada um; e a partir deles, dizem os eldar, as palavras um, dois e três foram feitas: os mais antigos de todos os numerais.*

* As palavras eldarin a que se refere são min, atta [ou tata] e nel. O oposto é provavelmente histórico. Os Três não possuiam nomes até que desenvolveram uma linguagem, e nomes foram dados [ou tomados] após eles terem desenvolvidos numerais [ou pelo menos os doze primeiros].

Imin, Tata e Enel despertaram antes de suas esposas,e a primeira coisa que eles viram foram as estrelas, pois acordaram no crespúsculo anterior ao amanhecer. E a próxima coisa que viram foram suas esposas destinadas dormindo no gramado verde junto a eles. Eles então ficaram tão encantados com a beleza delas que seu desejo pela fala foi imediatamente acelerado e eles começaram a “pensar em palavras” para falar e cantar. E sendo impacientes, eles não podiam esperar, então acordaram suas esposas. Assim, os eldar dizem, a primeira coisa que cada mulher elfo viu foi seu esposo, e seu amor por ele foi seu primeiro amor; e seu amor e admiração pelas maravilhas de Arda veio posteriormente.

Ora, depois de um tempo, no qual viveram juntos, e inventaram muitas palavras, Imin e Iminyë, Tata e Tatië, Enel e Enelyë caminharam juntos, e deixaram o verde gramado de seu despertar, e logo eles chegaram a outro gramado ainda maior e lá encontraram seis casais de quendi, e as estrelas estavam mais uma vez brilhando no crepúsculo e os elfos homens estavam nesse momento despertando.

Então Imin declarou ser o mais velho e ter o direito da primeira escolha; e ele disse: “Eu escolho estes doze para serem meus companheiros.” E os elfos homens acordaram suas esposas, e tendo vivido juntos por um tempo e aprendido muitas palavras e inventado mais, eles caminharam juntos e logo, em outro vale ainda mais profundo e mais amplo, encontraram nove casais de quendi, e os elfos homens recém haviam acordado sob a luz das estrelas.

Então Tata reclamou o direito da segunda escolha, e ele disse: “Eu escolho estes dezoito para serem meus companheiros.” Então novamente os homens elfos acordaram suas esposas, e eles moraram e falaram juntos, e criaram muitos novos sons e palavras mais longas; e então os trinta e seis caminharam para o exterior juntos, até chegarem a um bosque de bétulas por um rio, e lá eles encontraram doze casais de quendi, e os elfos homens estavam de pé da mesma forma, e olhavam para as estrelas através dos ramos das bétulas.

Então Enel reclamou o direito da terceira escolha, e ele disse: “Eu escolho estes vinte e quatro para serem meus companheiros.” Novamente os elfos homens acordaram suas esposas; e por muitos dias os sessenta elfos moraram à margem do rio, e logo eles começaram a fazer versos e canções para a música da água.

Por fim, mais uma vez todos partiram juntos. Mas Imin notou que cada vez eles encontravam mais quendi do que antes, e ele pensou consigo mesmo: “Eu tenho apenas doze companheiros [embora eu seja o mais velho]; Farei uma nova escolha .” Em pouco tempo eles chegaram a um bosque de abetos na encosta de uma colina, e lá encontraram dezoito casais de quendi, e todos ainda estavam dormindo. Ainda era noite e havia nuvens no céu. Mas antes do amanhecer um vento chegou, e instigou os elfos homens, e eles despertaram e ficaram impressionados com as estrelas; pois todas as nuvens foram sopradas e as estrelas brilhavam de leste a oeste. E por muito tempo os dezoito novos quendi não prestaram atenção aos outros, mas olharam para as luzes de Menel. Mas quando, por fim, voltaram seus olhos novamente para a terra, eles contemplaram suas esposas e acordaram-nas para que olhassem para as estrelas, gritando-lhes elen, elen! E então as estrelas receberam seu nome.

Ora, Imin disse: “Eu ainda não escolherei”; e Tata, então, escolheu estes trinta e seis para serem seus companheiros; e eles eram altos e de cabelos negros e fortes como abetos, e deles a maioria dos noldor posteriormente originou-se.

E os noventa e seis quendi conversaram entre si, e os recém-despertos inventaram muitas palavras novas e belas, e muitos artifícios de linguagem interessantes; e eles riram, e dançaram sobre a encosta da colina, até que finalmente desejaram encontrar mais companheiros. Então todos partiram juntos novamente, até que chegaram a um lago escuro no crepúsculo; e havia um grande penhasco próximo a ele no lado leste, e uma cachoeira descia do alto, e as estrelas reluziam na espuma. Mas os elfos homens já estavam se banhando na cachoeira, e eles haviam despertado suas esposas. Havia vinte e quatro casais; mas até o momento eles não possuiam uma linguagem formada, embora cantassem docemente e suas vozes ecoassem nas pedras, misturando-se com o ímpeto das quedas d’água.

Mas novamente Imin conteve sua escolha, pensando “na próxima vez será uma companhia maior”. Porém Enel disse: “Eu tenho a escolha, e eu escolho estes quarenta e oito para serem meus companheiros.” E os cento e quarenta e quatro quendi por muito tempo moraram próximo ao lago, até que todos adquiriram as mesmas vontades e a mesma linguagem, e estavam alegres.

Por fim Imin disse: “Agora é a hora na qual devemos prosseguir e procurar mais companheiros.” Mas a maior parte dos outros estava satisfeita. Então Imin e Iminyë e seus doze companheiros partiram, e muito vagaram durante o dia e durante o crepúsculo na região ao redor do lago, próximo ao qual todos os quendi haviam despertado – por esta razão ele é chamado Cuiviénen. Mas eles nunca encontraram mais companheiros, pois o conto dos Primeiros Elfos estava completo.

E assim era que os quendi sempre contavam às dúzias, e que 144 foi por muito tempo seu número mais alto, tal que em nenhuma de suas línguas posteriores havia um nome comum para um número maior. E também sucedeu-se que os “Companheiros de Imin” ou a Companhia Mais Velha [da qual vieram os vanyar] eram, apesar de tudo, apenas quatorze ao todo, e a menor companhia; e os “Companheiros de Tata” [dos quais vieram os noldor] eram cinqüenta e seis ao todo; mas os “Companheiros de Enel”, embora fossem a Companhia Mais Jovem, era a maior; deles vieram os teleri [ou lindar], e no início eles eram setenta e quatro ao todo.

Ora, os quendi amavam toda Arda que eles já haviam visto, e coisas verdes que brotavam e o sol de verão eram seu deleite; mas apesar de tudo, eles sempre foram mais tocados no coração pelas estrelas, e as horas de crepúsculo em tempo bom, ao “amanhecer” e ao “anoitecer”, eram as horas de seu maior prazer. Pois nestas horas na primavera do ano, eles despertaram pela primeira vez para a vida em Arda. Mas os lindar, acima de todos os outros quendi, desde o seu princípio eram mais apaixonados pela a água, e cantavam antes que pudessem falar.

Famosa lenda do Despertar dos Elfos, em forma e estilo de Conto de Fadas.

Carta #211

[Rhona Beare escreveu fazendo várias perguntas, para que ela pudesse passar as respostas de Tolkien aos companheiros em um encontro de admiradores de O Senhor dos Anéis. Por que, ela perguntou, Sam fala a prece Élfica como “O Elbereth Gilthoniel” no capítulo “As Escolhas de Mestre Samwise” quando em outro lugar a forma usada “A Elbereth Gilthoniel”? (Era esta a grafia usada na primeira edição do livro.) Qual é o significado desta prece, e das palavras de Frodo no capítulo anterior, “Aiya Eärendil Elenion Ancalima!”? Senhorita Beare fez então uma série de perguntas numeradas. ” Pergunta 1 “: Por que (I – Fuga para o Vau) o cavalo de Glorfindel é descrito como tendo “rédeas e arreios” quando elfos montam sem arreios, rédeas ou selas? ” Pergunta 2 “: Como Ar-Pharazôn pode derrotar Sauron quando Sauron tinha o Um Anel?  ” Pergunta 3 “: Quais eram as cores dos dois magos mencionados mas não nomeados no livro? ” Pergunta 4 “: Que roupas os povos da Terra-média vestiam? A coroa alada de Gondor era como de uma Valquíria, ou como a ilustrada na embalagem do cigarro Gauloise? Explique o significado de El – em Elrond, Elladan, Elrohir; quando El- significa “elfo” e quando “estrela”? Explique o significado do nome Legolas. O Rei-bruxo montou um pterodáctilo no cerco de Gondor? ” Pergunta 5 “: Quem é o Antigo Rei mencionado por Bilbo em sua canção de Eärendil? Ele é o Um?]

14 outubro 1958 Faculdade de Merton, Oxford,

Cara Senhorita Beare,

Temo que esta resposta chegue muito tarde para ser útil ao evento; mas não foi possível escrever antes. Só agora voltei de minha licença de um ano, cujo objetivo era me permitir completar alguns dos “trabalhos de estudo” negligenciados durante minha preocupação com ninharias não profissionais (como O Senhor dos Anéis): eu recordo o tom de muitos de meus colegas. De fato o tempo esteve principalmente tomado com problemas graves, incluindo a enfermidade de minha esposa; mas passei todo o mês de agosto trabalhando por longas horas, sete dias por semana, contra o tempo, para terminar uma parte do trabalho antes de ir para a Irlanda a negócios profissionais. Só voltei alguns dias atrás, bem a tempo para nossa Festa de São Miguel.

Em uma calmaria momentânea tentarei responder suas perguntas brevemente. Eu não “sei todas as respostas”. Muito de meu próprio livro me confunde; e seja como for muito dele foi escrito tanto tempo atrás (algo em torno de 20 anos) que leio-o agora como se fosse de uma mão estranha.

O uso de O no Livro II cap. 10 é um erro. Meu de fato, assumido da pág. 770, onde Gilthoniel O Elbereth é, evidente, uma cotação do Livro I pág. 82, que era uma “tradução”, inglês em tudo menos nomes próprios. Porém, a prece de Sam está em puro Élfico e deveria ter tido A como no Livro I pág. 246. Considerando que a língua-hobbit é representada como inglês, O poderia ser justificado como uma inexatidão própria dela; mas não me proponho defender isto. Ele foi “inspirado” a fazer esta prece em um idioma que ele não sabia (II 770). Sendo assim, é claro, no estilo e métrica do fragmento de prece, acho que está composto ou inspirado para sua situação em particular.

Significa, mais ou menos: “O Elbereth Inflamadora (no tempo passado: o título pertence a pré-história mítica e não se refere a uma função permanente) do céu contempla ao longe, para ti eu grito agora na sombra (do medo) da morte. Olhai por mim, O Semprebranca!”. Semprebranca é uma tradução inadequada; como é igualmente branca-de-neve do I pág. 81. O elemento ui (oio do Élfico Primitivo) significa sempre; tanto fan- e los(s) conduzem a branco, mas fan conota a brancura das nuvens (ao sol); loss se refere a neve.

Amon Uilos, em Alto-Élfico Oiolosse, era um dos nomes do cume mais alto das Montanhas de Valinor, na qual Manwë e Varda moravam. De forma que um Elfo usando ou ouvindo o nome Fanuilos, não pensaria (ou figuraria) só uma figura majestosa vestida de branco, de pé em um lugar alto e contemplando ao leste para as terras mortais, ele iria ao mesmo tempo imaginar um imenso pico, coberto de neve, coroado com uma nuvem branca fria ou brilhante.

Ancalima = “excessivamente claro”. Elemento kal a raiz habitual para palavras que se referem a luz; kalima, “brilhando claro”; an- superlativo ou prefixo intensivo.

Pergunta 1. Eu poderia, suponho, responder: “um ciclista performático pode dirigir uma bicicleta com guidões!” Mas de fato rédea era normalmente e descuidadamente usada para o que suponho deveria ter sido chamada uma testeira (1). Ou ainda, uma vez que aquela parte foi adicionada há muito tempo (o Capítulo 112 foi escrito muito cedo) eu não tinha considerado os costumes naturais de elfos com animais. O cavalo de Glorfindel teria uma testeira ornamental, que levaria uma pluma, e com as correias incrustadas com jóias e sinos pequenos; mas Glor. certamente não usaria um freio. Eu mudarei rédea e freio para testeira.

Pergunta 2. Esta pergunta, e suas implicações, é respondida em “A Queda de Númenor” que ainda não está publicada, mas que não posso fazê-lo agora. Você não pode exigir muito do Um Anel, por ele ser é claro uma característica mítica, mesmo porque o mundo dos contos é concebido em termos mais ou menos históricos. O Anel de Sauron é apenas um dos vários tratamentos míticos de colocar a vida de alguém, ou poder, em algum objeto externo, o qual esteja mesmo assim exposto a captura ou destruição com resultados desastrosos para si mesmo. Se eu fosse “filosofar” este mito, ou ao menos o Anel de Sauron, deveria dizer que foi um modo mítico de representar a verdade que potencia (ou talvez preferivelmente potencialidade) se for exercitada, e produz resultados, tem que ser externalizada e então passa, em um grau maior ou menor, além do controle direto da pessoa. Um homem que deseja mostrar ” poder” têm que ter servos, que não são como ele. Mas ele depende então deles.

Ar-Pharazôn, como é contado na “Queda” ou Akallabêth, derrotou servos aterrorizados de Sauron, não Sauron. A “rendição” pessoal de Sauron foi voluntária e astuta: ele conseguiu transporte de graça para Númenor! Ele naturalmente tinha o Um Anel, e assim muito cedo dominou as mentes e vontades da maioria dos Númenorianos. (Eu não acho que Ar-Pharazôn sabia qualquer coisa sobre o Um Anel. Os Elfos mantiveram o assunto dos Anéis em segredo absoluto, tanto quanto eles puderam. Em todo caso Ar-Pharazôn não estava em comunicação com eles. No Conto de Anos você achará pistas do problema: “a Sombra cai sobre Númenor”. Depois de Tar-Atanamir (um nome Élfico) o próximo nome é Ar-Adunakhôr um nome Númenoriano. Veja pág. 315 (2). A mudança dos nomes foi com uma completa rejeição da amizade dos elfos, e do aprendizado “teológico” que os Númenorianos tinham recebido deles.)

Sauron foi derrotado primeiro por um “milagre”: uma ação direta de Deus o Criador, mudando a forma do mundo, quando foi invocado por Manwë: veja III pág. 1099. Embora reduzido a “um espírito de ódio transportado por um vento escuro”, não acho que este espírito hesite em levar o Um Anel, no qual o seu poder de dominar mentes agora depende tanto. Que Sauron não tenha sido destruído na raiva do Único não é culpa minha: o problema do mal, e sua tolerância aparente, é um problema permanente para todos que se preocupam com nosso mundo. O indestrutibilidade de espíritos com vontades próprias, até mesmo pelo Criador deles, também é uma característica inevitável, se qualquer um acredita na existência deles, ou inventa-o em uma história.

Sauron ficou, é claro, “confuso” pelo desastre, e enfraquecido (tendo gasto energia enorme na corrupção de Númenor). Ele precisou de tempo para sua própria reabilitação corpórea, e para obter controle sobre seus ex-servos. Ele foi atacado por Gil-galad e Elendil antes que sua nova dominação fosse completamente estabelecida.

Pergunta 3. Eu não nomeei as cores, porque eu não as sei (3). Eu duvido que se eles tivessem cores distintas. A distinção só foi requerida no caso dos três que permaneceram na área relativamente pequena do Noroeste. (Sobre os nomes ver Pergunta 5) Realmente não sei claramente nada sobre os outros dois – uma vez que eles não dizem respeito a história do Noroeste. Acho que eles foram como emissários para regiões distantes, Leste e Sul, longe do alcance Númenoriano: missionários para terras “ocupadas pelo inimigo”, como eram. Que sucesso tiveram que eu não sei; mas eu temo que eles falharam, assim como Saruman, embora indubitavelmente de diferentes modos; e suspeito que eles foram fundadores ou iniciantes de cultos secretos e tradições “mágicas” que sobreviveram à queda de Sauron.

Pergunta 4. Não sei o detalhe das roupas. Eu visualizo com grande clareza e detalhe a paisagem e objetos “naturais”, mas não artefatos. Pauline Baynes tirou sua inspiração para Farmer Giles em grande parte de desenhos medievais – com exceção dos cavaleiros (que são um pouco “Rei-Arthurianos”) o estilo parece ajustar-se bem o bastante. A não ser a masculina, especialmente em partes do norte como o Condado, usariam calções, Ã s vezes escondidos por uma capa ou longo manto, ou somente acompanhado por uma túnica.

Não tenho dúvida de que na área relatada por minha história (que é grande) a “vestimenta” de vários povos, Homens e outros, era muito diversificada na Terceira Era, de acordo com clima, e costume herdado. Como foi nosso mundo, até mesmo se nós só consideramos a Europa e o mediterrâneo e o muito próximo “Leste” (ou Sul), antes da vitória no nosso tempo do estilo menos adorável de vestimenta (especialmente masculino e “neutro”) que a história registrada revela – uma vitória que ainda continua, até mesmo entre aqueles que na maioria odeiam as terras de sua origem. Os Rohirrim não eram “medievais”, em nosso sentido. Os estilos da Tapeçaria Bay eux(feita na Inglaterra) ajustam-se bem, se lembrar-se que o tipo de malha dos soldados parecem estar usando é só um rude sinal convencional para as cotas de elos pequenos.

Os Númenorianos de Gondor eram orgulhosos, peculiares, e arcaicos, e acho que são melhor retratados em (digamos) termos Egípcios. Em muitas formas eles se assemelham aos “Egípcios” – o amor, e poder para construir, o gigantesco e volumoso. E no seu grande interesse em ascendência e em tumbas. (Mas não é claro em “teologia”: nesse respeito eles eram Hebraicos e até mesmo mais puritanos – mas isto levaria muito tempo para descrever: explicar realmente porque não há praticamente nenhuma “religião”, ou mesmo atos religiosos ou lugares ou cerimônias entre os “bons” ou povos anti-Sauron em O Senhor dos Anéis.) Acho que a coroa de Gondor (o Reino do Sul) era muito alta, assim como no Egito, mas com asas fixadas, não para trás mas em um ângulo.

O Reino do Norte tinha só uma tiara (III 1105). conforme a diferença entre o reinos N. e S. do Egito.

El. Dificuldade em distinguir “estrela” e “elfo”, uma vez que são derivados do mesmo elemento básico EL “estrela”; como o primeiro elemento em compostos el- pode significar (ou pelo menos simboliza) ambos. Como uma palavra separada “estrela” era *elen, plural *eleni em Élfico primitivo. Os Elfos foram chamados eleda/elena “um Elfo (Alto-élfico Elda)” porque eles foram encontrados pelo Vala Oromë em um vale sob a luz das estrelas; e eles sempre permaneceram amantes das estrelas. Mas este nome foi especialmente ligado àqueles que eventualmente marcharam para Oeste guiados por Oromë (e a maioria passou para Além Mar).

As formas em Élfico-Cinzento (Sindarin) deveriam ter sido êl, pl. elin; e eledh (pl. elidh). Mas o último termo não era mais usado entre os Elfos-Cinzentos (Sindar) que não atravessaram o Mar; embora permanecesse em alguns nomes próprios como Eledhwen, “beleza Élfica”. Depois do retorno em exílio dos Noldor (parte dos Altos-Elfos), o Alto-Élfico elda foi assumido novamente pelos Elfos-Cinzentos como eld>ell, e se referia aos Altos-Elfos exilados. Esta é, sem dúvida, a origem de el, ell- em tais nomes como Elrond, Elros, Elladan, Elrohir.

Elrond, Elros. *rondo era uma palavra Élfica primitiva “caverna”. Conf. Nargothrond (caverna fortalecida pelo R. Narog), Aglarond, etc. *rosse significava “orvalho, respingo (de cascata ou fonte)”. Elrond e Elros, filhos de Eärendil (amante do mar) e Elwing (espuma élfica), foram assim chamados, porque eles foram levados pelos filhos de Fëanor, no último ato da contenda entre a casa dos alto-elfos dos príncipes Noldorin a respeito das Silmarils; a Silmaril resgatada de Morgoth por Beren e Lúthien, e dada ao Rei Thingol pai de Lúthien, herdada por Elwing filha de Dior, filho de Lúthien. As crianças não foram mortas, mas deixadas como “bebês na floresta”, em uma caverna com uma queda d´água na entrada. Lá eles foram achados: Elrond dentro da caverna, e Elros que chapinhava na água.4

Elrohir, Elladan: estes nomes, dados aos filhos por Elrond, referem-se ao fato de serem “meio-elfos” (III 1096): eles tinham antepassados mortais como também elfos em ambos os lados; Tuor no lado de seu pai, Beren na mãe. Ambos significam elfo+homem. Elrohir poderia ser traduzido “Elfo-cavaleiro”; rohir que é uma forma mais recente de rochir “senhor do cavalo” de roch “cavalo” + hir “mestre”: Élfico primitivo rokko e kher ou kheru: Alto-élfico: rocco, her (heru). Elladan poderia ser traduzido como “Elfo-Númenoriano”. Adan (pl. Edain) era a forma Sindarin para o nome dado os “pais dos homens”, os membros das Três Casas dos amigos-dos-elfos, cujos sobreviventes se tornaram os Númenorianos depois, ou Dún-edain.

Legolas quer dizer “folhas-verdes”, um nome de bosque – forma dialetal do Sindarin puro laegolas: *lasse (Alto-élfico lasse, S. las(s)) “folha”; *gwa-lassa/*gwa-lassie “coleção de folhas, folhagem” (A.E. olassie, S. golas, -olas); *laika “verde” base LAY- como em laire “verão” (A.E. laica, S. laeg (raramente usado, normalmente substituído por calen), base do bosque).

Pterodáctilo. Sim e não. Eu não pretendi que a montaria do Rei-Bruxo fosse o que é chamado agora um “pterodáctilo”, e frequentemente é desenhado (com muito menos evidência sombria que reside por trás de muitos monstros da nova e fascinante mitologia semi-científica da “Pré-História”). Mas obviamente é pterodáctilo e deve muito à nova mitologia, e sua descrição provê até mesmo um tipo de meio no qual poderia ser um último sobrevivente de eras geológicas mais antigas.5

Pergunta 5. Manwë, marido de Varda; ou em Élfico-cinzento Manwë e Elbereth. Desde que os Valar não tinham nenhum idioma próprio, não precisando de um, eles não tinham nomes “verdadeiros”, só identidades, e seus nomes foram conferidos a eles pelos Elfos, sendo em origem portanto, como eram, “apelidos”, referentes a alguma peculiaridade notável, função, ou ação. (O mesmo é verdadeiro sobre os “Istari” ou Magos que eram emissários dos Valar, e da sua espécie). Por conseguinte cada identidade tinha vários “apelidos”; e os nomes dos Valar não eram necessariamente relacionados em idiomas de Élficos diferentes (ou idiomas dos Homens que derivaram seu conhecimento dos Elfos). (Elbereth e Varda “Senhora das Estrelas” e “Enaltecida” não são palavras relacionadas, mas referem-se à mesma pessoa.) Manwë (Ser Santificado) era Senhor dos Valar, e logo o maior ou Mais Antigo Rei de Arda. Arda “reino” foi o nome dado para nosso mundo ou terra, como sendo o lugar, dentro da imensidão de Eä, selecionado para ser a morada e domínio especial do Rei – por causa de seu conhecimento sobre os Filhos de Deus que apareceriam lá. No mito cosmogônico é dito que Manwë é “irmão” de Melkor que é eles eram contemporâneos e equivalentes em poder na mente do Criador. Melkor se tornou o rebelde, e o Diabo destes contos, que disputou o reino de Arda com Manwë. (Ele era normalmente chamado Morgoth em Élfico-cinzento).

O Único não habita fisicamente qualquer parte de Eä.

Devo dizer que tudo isso é “mítico”, e nenhum novo tipo qualquer de religião ou visão. Até onde eu sei isso é uma invenção imaginativa, que expressa, no único modo que posso, algumas de minhas (sombrias) apreensões do mundo. Tudo que eu posso dizer é que, se fosse “história”, seria difícil de ajustar as terras e eventos (ou “culturas”) em tais evidências como nós possuímos, arqueológica ou geológica, relativa a parte mais próxima ou remota do que é chamado hoje Europa; por exemplo, embora o Condado esteja expressamente declarado ter estado nesta região(Prólogo pp. 2 e 3).6 Eu poderia ter adequado as coisas com maior detalhamento, se a história não tivesse se tornado tão desenvolvida, antes que pergunta me ocorresse. Eu duvido se haveria muito a se ganhar com isso; e eu espero que o, evidentemente longo mas indefinido, lapso de tempo entre a Queda de Barad-dûr e nossos Dias seja suficiente para “credibilidade” literária, até mesmo para os leitores familiarizados com o que é conhecido ou imaginado de “pré-história “.

Eu, suponho, construí um tempo imaginário, mas mantive meus pés em minha própria mãe-terra como lugar. Prefiro isso ao modo contemporâneo de buscar mundos distantes no “espaço”. Entretanto é curioso, eles são estrangeiros, e não dignos do amor daqueles do mesmo sangue. O termo Terra-média não é (a propósito, se tal nota for necessária) minha própria invenção. É uma modernização ou alteração (Dicionário do Novo Inglês “uma perversão”) de uma palavra antiga para o mundo habitado dos Homens, o oikoumene: média porque pensava-se vagamente que estava situada entre os Mares e (na imaginação do norte) entre o gelo do Norte e o fogo do Sul. Middan-geard (inglês antigo), midden-erd, middle-erd (inglês medieval). Muitos revisores parecem assumir que a Terra-média é outro planeta!

Teologicamente (se o termo não for muito grandioso) eu imagino que o quadro seja menos dissonante daquele que alguns (incluindo eu mesmo) acreditem ser verdadeiro. Mas desde que eu deliberadamente escrevi um conto, o qual é construído deliberadamente com ou sem certas idéias “religiosas”, mas não é uma alegoria delas (ou qualquer outra coisa), e não as menciona abertamente, muito menos pregam-nas, não começarei agora a descrevê-las, e me arriscar em pesquisas teológicas das quais não tenho condições. Mas eu poderia dizer que se o conto é “sobre” qualquer coisa (outra senão ele mesmo), não é sobre “poder” como parece amplamente suposto. Busca-pelo-Poder é só o motivo que determina como os eventos ocorrerão, e é relativamente sem importância, eu penso. Está principalmente relacionado a Morte, e Imortalidade; e as “fugas”: longevidade contínua, e armazenamento de lembrança.

Sinceramente

J. R. R. Tolkien.

Notas do Autor

1. Esta leitura foi adotada em impressões posteriores.

2. No Apêndice A de O Senhor dos Anéis (p. 1097) o Rei de Númenor precedendo Ar-Adûnakhôr era Tar-Calmacil; a menção aqui de Tar-Atanamir parece ser nada mais que um deslize. Ver p. 252 de Contos Inacabados.

3. Em outra ocasião Tolkien chamou os outros dois magos de Ithryn Luin, os Magos Azuis; ver p. 428 de Contos Inacabados.

4. No Índice de O Silmarillion os nomes Elrond, Elros, e Elwing são traduzidos como “Abóbada de Estrelas”, “Espuma de Estrelas”, e “Respingo de Estrelas”. Estas interpretações dos nomes são mais recentes que as apresentadas na presente carta.

5. Este parágrafo foi retirado de um outro texto da carta (um rascunho). A versão enviada é mais breve neste ponto.

6. “… mas as regiões habitadas pelos Hobbits dessa época são sem dúvida as mesmas onde eles ainda permanecem: o Noroeste do Velho Mundo, a Leste do Mar. “

Carta #43

Sobre o assunto casamento e relacionamento entre os sexos.

Os interesses de um homem pelas mulheres podem ser puramente físicos (realmente não podem, é claro: mas quero dizer que ele pode recusa-se a levar em conta outras coisas, para o grande dano de sua alma (e corpo) e delas); ou “amigável”; ou ele pode ser um “amante” (empenhando e misturando todos seus afetos e poderes da mente e corpo em uma emoção poderosamente complexa e energizada pelo “sexo”). Este é um mundo caído. A desarticulação do instinto-sexo é um dos sintomas principais da Queda. O mundo tem ido “de mal a pior” por muitas eras. As várias formas sociais mudam, e cada novo modo tem seus perigos especiais: mas o “duro espírito da concupiscência” vem caminhando por todas as ruas, e se instalou em todas as casas, desde que Adão caiu. Deixaremos de lado os resultados “imorais”. Estes que para o quais você não deseja ser arrastado. Para a renúncia você não teve nenhuma chamada. “Amizade” então? Neste mundo caído a “amizade” que deveria ser possível entre todos os seres humanos, é virtualmente impossível entre o homem e mulher. O diabo é eternamente engenhoso, e sexo é o assunto favorito dele. Ele é bom tanto pegando-o através de generosos motivos românticos ou tenros, quanto através daqueles mais básicos ou animais. Esta “amizade” tem sido freqüentemente tentada: um lado ou o outro quase sempre falha. Mais tarde na vida quando sexo acalma-se, pode ser possível. Pode acontecer entre santos. Para a pessoa comum pode acontecer só raramente: duas mentes que realmente têm uma afinidade principalmente mental e espiritual podem por acidente residir em um corpo de um macho e de uma fêmea, e ainda podem desejar e alcançar um “amizade” totalmente independente de sexo. Mas ninguém pode contar com isto. A outra parte deixará ele (ou ela) mal, é quase certo, por “apaixonar-se”. Mas um rapaz realmente não quer (como via de•regra) “amizade”, até mesmo se ele diz que quer. Existe um monte de rapazes (como•via de•regra). Ele quer amor: inocente, e ainda irresponsável talvez. “Ai de mim! Ai de mim! o amor sempre foi pecaminoso!” como Chaucer diz. Então se ele é um Cristão e é alertado que existe tal coisa como pecado, ele quer saber o que fazer sobre isto.

Existe em nossa cultura Ocidental a romântica tradição cavalheiresca ainda forte, entretanto como um produto da Cristandade (contudo por nenhum meio igual a ética Cristã) mas os tempos são outros. Ela idealiza “amor” – e até onde vai pode ser muito bom, desde que compreenda-se que é mais que prazer físico, e impõe se não pureza, pelo menos fidelidade, e assim abnegação, “serviço”, cortesia, honra, e coragem. Sua fraqueza, certamente, é ter começado como um elegante jogo artificial, um modo de desfrutar amor em benefício próprio sem interesse para (e realmente ao contrário de) o matrimônio. Seu centro não era Deus, mas Deidades imaginárias, Amor e a Dama. Ainda tende a fazer a Dama um tipo de estrela guia ou divindade – do antiquado “sua divindade” = a mulher que ele ama – o objeto ou razão da conduta nobre. Isto é, certamente, falso e na melhor as hipóteses fictício. A mulher é outro humano caído – ser com uma alma em perigo. Mas combinada e harmonizada com religião (como há muito tempo tem sido, produzindo muita desta bela devoção a Nossa Senhora que foi o modo de Deus de refinar nossas naturezas e emoções tão brutas, e também de aquecer e colorir nossa dura, amarga, religião) pode ser muito nobre. Então produz o que eu suponho que ainda é sentido, entre esses que retêm ainda que um vestígio de Cristianismo, ser o ideal mais alto de amor entre o homem e mulher. Porém eu ainda acho que tem perigos. Não é completamente verdade, e não é perfeitamente “teocêntrico”. Leva, ou de qualquer modo tem no passado levado, os rapazes a não verem as mulheres como elas são, como companheiras em um naufrágio que sem estrelas guias. (Um resultado observado é que na verdade faz o rapaz tornar-se cínico). Leva-os a esquecer os desejos, necessidades e tentações delas. Impõe noções exageradas de “amor verdadeiro”, como um fogo sem origem, uma exaltação permanente, não relacionado a idade, procriação, e vida simples, e sem relação a vontade e propósito. (Um resulta disso é fazer os jovens procurarem um “amor” que sempre os manterá satisfeitos e aquecidos em um mundo frio, sem qualquer esforço próprio; e o incuravelmente romântico procura até mesmo na sordidez das cortes de divórcio).

Mulheres realmente não têm muita parte em tudo isso, embora elas possam usar a linguagem do amor romântico, uma vez que está tão entrelaçada em todos os nossos idiomas. O impulso sexual faz as mulheres (naturalmente quando não estragadas pelo egoísmo) muito solidárias e compreensivas, ou especialmente desejosas de assim o serem (ou de assim parecerem), e muito predispostas a entrar em todos os interesses, até onde elas possam, de gravatas à religião, do jovem por quem elas estão atraídas. Necessariamente sem qualquer intenção de enganar: puro instinto: o servidor, instinto de colaborador, generosamente estimulado pelo desejo e pelo sangue jovem. Sob esse impulso elas de fato podem alcançar freqüentemente perspicácia e entendimento extraordinários, até mesmo de coisas contrárias aos seus assuntos naturais: porque é o seu dom por serem receptivas, estimuladas, fertilizadas (em muitos outros aspectos que o físico) pelo macho. Todo professor sabe isso. Como tão rápido uma mulher inteligente pode ser ensinada, captar as idéias dele, ponto de vista – e como (com raras exceções) elas podem ir a lugar nenhum, quando elas largam sua mão, ou quando elas deixam de se interessar por ele. Mas este é o caminho natural delas para amar. Antes que a jovem saiba onde ela está (e enquanto o jovem romântico, quando ele existe, é ainda só um sonho) ela pode de fato “apaixonar-se”. O que para ela, uma jovem ainda pura, significa querer se tornar a mãe dos filhos do jovem, até mesmo se este desejo não está de alguma maneira claro ou explícito para ela. E então coisas vão acontecer: e elas podem ser muito dolorosas e prejudiciais, se as coisas saírem errado. Particularmente se o jovem só quisesse uma estrela guia e divindade temporárias (até que ele achasse uma mais brilhante), e só estivesse desfrutando uma agradável relação temporária com uma titilação de sexo – tudo bastante inocente, é claro, e mundos longe de “sedução”.

Você pode encontrar na vida (como na literatura) mulheres que são inconstantes, ou até mesmo claramente libertinas – eu não me refiro a mero namorico, a prática da luta para o combate real, mas as mulheres que são tolas demais para levar até mesmo o amor a sério, ou são na verdade tão depravadas que se divertem com “conquistas”, ou até mesmo em causar dor – mas estas são anormalidades, embora mesmo educação errada, má criação, e modas deturpadas possa encorajá-las. Muito embora as condições modernas tenham mudado as circunstâncias femininas, e o detalhe do que é considerado decoro, elas não mudaram instinto natural. Um homem tem um trabalho, uma carreira, (e amigos homens) tudo com o qual poderia (e faz quando ele tem qualquer brio) sobreviver ao naufrágio do “amor”. Uma mulher jovem, até aquela “economicamente independente”, como dizem agora (isto na verdade significa realmente subserviência econômica a um macho empregador em vez de um pai ou uma família), começa a pensar no “pé-de-meia” e sonha com uma casa, quase imediatamente. Se ela realmente se apaixona, o naufrágio pode realmente terminar nas pedras. De qualquer maneira mulheres são em geral muito menos românticas e mais práticas. Não se engane pelo fato delas serem mais “sentimentais” no uso das palavras – mais espontâneas com “querido”, e tudo mais. Elas não querem uma estrela guiando. Elas podem idealizar um simples jovem como um herói; mas elas realmente não precisam de qualquer deslumbramento como este para se apaixonar ou assim permanecer. Se elas têm qualquer ilusão é de que elas podem “remodelar” os homens. Elas se darão conta que não, e até mesmo quando a ilusão se desfaz, continua a amá-lo. Elas são, é claro, muito mais realistas sobre a relação sexual. A menos que pervertidas pelos maus costumes contemporâneos elas não falam como via de regra “obscenidades”; não porque elas são mais puras que os homens (elas não são) mas porque elas não acham isto engraçado. Eu soube de algumas que fingiam achar, mas é um fingimento. Pode ser intrigante, interessante, absorvente (até uma grande vantagem também absorver) para elas: mas é só curiosidade natural, um interesse sério, óbvio; onde está a graça?

Elas têm que ser, é claro, ainda mais cuidadosas nas relações sexuais, no que diz respeito a todos os contraceptivos. Enganos são fisicamente e socialmente (e matrimonialmente) prejudiciais. Mas elas são instintivamente, quando não corrompidas, monogâmicas. Homens não são. …. Nem pretendem sê-lo. Os homens só não são, não pela sua natureza animal. Monogamia (embora tenha sido por muito tempo fundamental a nossas idéias herdadas) é para nós homens uma parte da ética “revelada”, de acordo com fé e não com a carne. Cada um de nós poderia procriar sadiamente, em nossos 30 e tantos anos de pleno vigor físico, umas cem crianças, e desfrutar o processo. Brigham Young (eu acredito) era um homem saudável e feliz. É um mundo caído, e não há nenhuma consonância entre nossos corpos, mentes, e almas.

Porém, a essência de um mundo caído é que o melhor não pode ser atingido pelo prazer livre, ou pelo que é chamado “auto-realização ” (normalmente um nome agradável para auto-indulgência, completamente hostil à realização de outros); mas pela negação, pelo sofrimento. Fidelidade em casamentos Cristãos requer isso: grande sacrifício. Para um homem Cristão não há fuga. Matrimônio pode ajudar a santificar & direcionar ao seu objetivo característico seus desejos sexuais; sua condição pode ajudá-lo na luta; mas a luta permanece. Isso não o satisfará – já que a fome pode ser afastada através de refeições regulares. Oferecerá tanto muitas dificuldades à pureza característica daquele estado, quanto provê alívios. Nenhum homem, por mais que verdadeiramente amasse sua noiva e esposa como um homem jovem, viveu fielmente para ela como uma esposa em mente e corpo sem que deliberasse exercício consciente de vontade, sem abnegação. Contam-se muitos poucos – até mesmo aqueles educados “na Igreja”. Daqueles que não, raramente tenho ouvido. Quando o deslumbramento passa, ou simplesmente não atendeu às espectativas, eles pensam que cometeram um engano, e que a sua verdadeira alma-gêmea ainda não foi encontrada. A verdadeira alma-gêmea também muito freqüentemente prova ser a próxima pessoa sexualmente atraente que vier. Alguém com a qual eles na verdade poderiam muito provavelmente casar, se -. Conseqüentemente o divórcio, para prover o “se”. E é claro que eles estão como via de regra totalmente certos: eles cometeram um engano. Só um homem muito sábio no final de sua vida poderia fazer um julgamento são a respeito de quem, entre todas as chances possíveis, ele deveria mais provavelmente ter desposado! Quase todos os matrimônios, até mesmo os felizes, são equivocados: no sentido de que quase certamente (em um mundo mais perfeito, ou até mesmo com um pouco mais de cuidado neste muito defeituoso) ambas as partes poderiam ter achado companheiros mais satisfatórios. Mas a “verdadeira alma-gêmea” é aquela com a qual você está de fato casado. Você realmente não escolhe muito: vida e circunstância fazem a maior parte disso (entretanto se há um Deus esses devem ser seus instrumentos, ou como ele se apresenta). É notório que de fato matrimônios felizes são mais comuns onde a “escolha” pelos jovens é até mesmo mais limitada, por autoridade paterna ou familiar, contanto que haja uma moral social de pura responsabilidade e fidelidade conjugal não romântica. Mas até mesmo em países onde a tradição romântica tem afetado tanto os arranjos sociais que faz com que as pessoas acreditem que a escolha de um companheiro diz respeito somente ao jovem, só a mais rara boa sorte reúne o homem e mulher que realmente estão “destinados” um ao outro, e capazes de um enorme e esplêndido amor. A idéia ainda nos deslumbra, nos pega pela garganta: foram escritos poemas e histórias aos milhares sobre o tema, mais, provavelmente, que o total de tais amores na vida real (ainda que o maior desses contos não fale do casamento feliz de tais grandes amantes, mas da trágica separação deles; como se até mesmo nesta esfera o verdadeiramente grande e esplêndido neste mundo caído esteja mais propício a terminar em “fracasso” e sofrimento). Em tal grande e inevitável amor, freqüentemente amor à primeira vista, nós temos uma visão, eu suponho, do casamento como deveria ter sido em um mundo perfeito. Neste mundo caído nós temos como nossos únicos guias, prudência, sabedoria (rara na mocidade, muito tardia com a idade), um coração puro, e fidelidade de sentimentos….. {mospagebreak} Minha própria história é tão excepcional, tão errada e imprudente em quase todos os pontos que a faz difícil para aconselhar prudência. Ainda que casos difíceis façam uma lei ruim; e casos excepcionais não são sempre bons guias para outros. Para o que serve aqui é como autobiografia – nesta ocasião principalmente direcionada aos detalhes da idade, e finanças.

Me apaixonei por sua mãe na idade aproximada de 18. Completamente verdadeiro, como tem sido mostrado – embora é claro falhas de caráter e temperamento tenham me levado freqüentemente a me desviar do ideal com que eu comecei. Sua mãe era mais velha que eu, e não era católica. Completamente desastroso, já que era tutelado por um guardião¹. E era de certo modo muito desafortunado; e de certo modo muito ruim para mim. Estas coisas são interessantes e nervosamente exaustivas. Eu era um garoto inteligente na agonia do trabalho para uma (muito necessária) bolsa de estudos em Oxford. As tensões combinadas quase produziram um colapso nervoso. Eu não tive sucesso nos meus exames e embora (como anos depois meu Reitor me contou) eu tenha conseguido uma boa bolsa de estudos, só a ganhei por um triz depois da exibição de 60 libras a Exeter: o suficiente com uma bolsa de estudos da escola remanescente] da mesma quantia (ajudada por meu querido antigo guardião). É claro que havia um lado de crédito, não tão facilmente visto pelo guardião. Eu era inteligente, mas não laborioso ou de grande intelecto; uma grande parte do meu fracasso simplesmente era devida a não trabalhar (pelo menos não os clássicos) não porque eu estava apaixonado, mas porque eu estava estudando uma outra coisa: Gótico². Tendo a educação romântica, levei a sério o romance menino-e-menina, e fiz dele a origem do esforço. Naturalmente antes um covarde físico, eu passei de um coelho menosprezado em uma casa de segunda categoria para as cores da escola em dois períodos. Todo aquele tipo de coisa. Porém, um problema surgiu: e eu tive que escolher entre desobedecer e magoar (ou enganar) um guardião que tinha sido um pai para mim, mais que a maioria dos pais verdadeiros, mas sem qualquer obrigação, e “perder” o caso-amoroso até que eu tivesse 21. Eu não lamento minha decisão, entretanto foi muito difícil para minha amada. Mas isso não•foi minha culpa. Ela estava perfeitamente livre e não tinha feito nenhum voto para mim, e eu não teria tido nenhuma reclamação justa (exclua de acordo com o código romântico irreal) se ela tivesse casado com outra pessoa. Durante quase três anos não vi ou escrevi para minha amada. Era extremamente difícil, doloroso e amargo, especialmente no início. Os efeitos não foram muito bons: caí na leviandade e negligência e desperdicei uma boa parte do meu primeiro ano na Faculdade. Mas eu não acho que qualquer outra coisa teria justificado casamento baseado no romance de um garoto; e provavelmente nada mais teria fortificado a vontade o suficiente para garantir a um romance (embora um genuíno caso de verdadeiro amor) permanência. Na noite de meu 21º aniversário eu escrevi novamente a sua mãe – 3 de janeiro de 1913. Em 8 de janeiro eu regressei para ela, e ficamos noivos, e informei à uma família atônita. Eu juntei o que tinha em minhas meias e fiz um anúncio de emprego (tarde demais para salvar Hon. Mods.³ do desastre) – e então guerra começou no ano seguinte, enquanto eu ainda tinha um ano para completar a faculdade. Naqueles dias os camaradas se uniam, ou eram desprezados publicamente. Era uma lugar sórdido para se estar, especialmente para um jovem com muita imaginação e pouca coragem física. Sem diploma: sem dinheiro: noivo. Eu suportei a censura, e sugestões de parentes tornavam-se sinceras, ficava acordado, e vieram os Exames Finais em 1915. Fugi para o exército: julho de 1915. Eu achei a situação intolerável e casei em 22 de março de 1916. Pode me encontrar cruzando o Canal (eu ainda tenho o verso que eu escrevi na ocasião!4 ) para o massacre de Somme.

Pense em sua mãe! Ainda sim hoje não sinto que ela estava fazendo mais do que lhe tinha sido pedido que fizesse – não que isso diminua do crédito disto. Eu era um jovem rapaz, com um diploma razoável, e hábil em escrever versos, algumas libras minguadas (£20 – 40)5, e nenhum perspectiva, um Segundo Tenente seis dias na semana na infantaria onde as chances de sobrevivência estavam severamente contra você (como um subalterno). Ela casou-se comigo em 1916 e John nasceu em 1917 (concebeu e esteve grávida durante o período de fome de 1917 e da grande campanha U-BoatA) na época da batalha de Cambrai, quando o fim da guerra parecia tão distante quanto agoraB. Eu vendi, e usei para pagar a casa de saúde, as últimas de minhas poucas ações Sul-Africanas, “meu patrimônio”.

Fora a escuridão de minha vida, tão frustrada, eu ponho diante de você a única grande coisa para amar na terra: o Santo Sacramento. …. Lá você achará romance, glória, honra, fidelidade, e a verdadeira forma de todos os seus amores em terra, e mais que isso: Morte: pelo paradoxo divino aquela que termina com a vida, e exige a renúncia de tudo, e ainda pelo gosto (ou antegosto) de que sozinha pode o que você busca em suas relações terrestres (amor, fidelidade, alegria) seja mantido, ou assuma aquela aparência de realidade, de duração eterna, que o coração de todo homem deseja.

Notas do Autor

1. O guardião de Tolkien, Padre Francis Morgan, desaprovava seu caso amoroso clandestino com Edith Bratt.

2. Tolkien ficou empolgado durante tempo de escola ao descobrir a existência do idioma Gótico; ver carta #272.

3. Classical Honour Moderations, prêmio com o qual Tolkien foi premiado em segundo lugar.

4. A data real da travessia de Tolkien e seu batalhão pelo Canal foi 6 de junho de 1916. O poema ao qual ele se refere, ´Étaples, Pas de Calais, Junho 1916´, é intitulado ´A Ilha Solitária´, e é sub-intitulado ´Para Inglaterra´, entretanto ele também se relaciona à mitologia de O Silmarillion. O poema foi publicado no Leeds University Vene entre 1914-1924.B – A carta foi escrita durante a Segunda Guerra Mundial, que só terminaria quatro anos mais tarde.

5. Tolkien herdou uma pequena renda de seus pais, proveniente de ações de minas Sul Africanas.

Notas da Tradução

A – “U-Boat” era a designação dada aos submarinos alemães. Em fevereiro de 1917 a Alemanha declarou guerra submarina com esperança de subjulgar a Inglaterra. Esta neutralizou os ataques graças a um sistema de comboios posto em prática em maio de 1917. A ofensiva com submarinos precipitou a entrada dos EUA na guerra em abril de 1917, que constitui uma ajuda decisiva aos aliados.

B – A carta foi escrita durante a Segunda Guerra Mundial, que só terminaria quatro anos mais tarde.

Carta #210

Em 1957 Tolkien recebeu a visita de três empresários americanos, que demonstraram interesse em produzir uma possível versão em desenho animado de O Senhor dos Anéis. Entregaram-lhe um roteiro preliminar, onde Tolkien descobriu que não respeitava-se o livro, havendo diversas barbaridades. A carta contém a análise minuciosa de Tolkien quanto ao “tratamento” dado ao Senhor dos Anéis no roteiro.

para Forrest J. Ackerman [Não datada; junho de 1958]

Caro Sr. Forrest,

Terminei finalmente meu comentário sobre o roteiro. Sua duração e detalhe vão, eu espero, dar evidência da minha preocupação sobre o assunto. Ao menos algumas coisas que eu disse ou sugeri possam ser aceitáveis, até mesmo úteis, ou pelo menos interessantes. O comentário vai acompanhando página à página, de acordo com a cópia do trabalho do Sr. Zimmerman que foi deixada comigo e a qual devolvo agora. Espero sinceramente que alguém se dê ao trabalho de lê-lo.

Se Z e/ou os outros assim o fizerem, talvez fiquem irritados ou aborrecidos pelo tom de muitas de minhas críticas. Nesse caso, lamento muito (embora isso não me surpreenda). Mas eu lhes pediria que fizessem um esforço de imaginação suficiente para entender a irritação (e ocasionalmente o ressentimento) de um autor que descobre, no progresso desse processo, que seu trabalho foi tratado em geral com aparente falta de cuidado, em partes negligenciado, e sem sinais evidentes de qualquer consideração sobre o que ele trata ….

As regras da narrativa em qualquer meio não podem ser completamente diferentes; e o fracasso de filmes medíocres está justamente no freqüente exagero, e na inclusão de assunto não autorizado devido a não perceberem onde a essência original reside.

Zimmerman incluiu um “castelo de fadas” e muitas “guias, para não mencionar encantamentos, luzes azuis, e um pouco de magia desnecessária (como o corpo flutuante de Faramir). Ele cortou as partes da história da qual seu tom característico e peculiar depende principalmente, mostrando uma preferência por lutas; e ele não fez nenhuma tentativa séria para representar o coração do conto adequadamente: a jornada dos Portadores do Anel. O último e o mais importante aspecto disto foi, e esta não é uma palavra forte demais, simplesmente assassinado.

[Seguem alguns extratos do longo comentário de Tolkien sobre o roteiro]

Z é usado como uma abreviação para a sinopse em si quanto para Zimmerman, o escritor dela. Referências à esta estão por página (e linha, onde requeridas); referências quanto a história original estão por página da edição unificada.

2. Por que a exibição de fogos de artifício deveria incluir bandeiras e hobbits? Eles não estão no livro. “Bandeiras” do que? Eu prefiro a minha própria escolha de fogos de artifício.

Gandalf, por favor, não deveria “resmungar”. Embora ele possa parecer irritável às vezes, tem um senso de humor e adota uma atitude um tanto de tio para com os hobbits, é uma pessoa de alta e nobre autoridade, e grande dignidade. A descrição na pág. 235¹ nunca deveria ser esquecida.

4. Aqui nós encontramos a primeira intrusão das “guias. Acho que elas são o maior erro de Z, e sem autorização.

As “guias são um “mecanismo” perigoso. Eu as usei esporadicamente, e esse é o limite absoluto da sua credibilidade ou utilidade. O pouso de uma Grande “guia das Montanhas Sombrias no Condado é absurdo; isso também torna a posterior captura de Gandalf por Saruman inacreditável, e prejudica o relato de sua fuga. (uma das falhas principais de Z é a sua tendência a antecipar cenas ou artifícios usados posteriormente, tornando o conto tolo). Radagast não é um nome de “guia, mas o nome de um mago; vários nomes de águias são fornecidos no livro. Estes pontos são importantes para mim.

Aqui eu posso dizer que eu não vejo porque o esquema-de-tempo deveria ser deliberadamente encurtado. Já está bastante compactado no original, a ação principal acontece entre 22 de Setembro e 25 de março do ano seguinte. As muitas impossibilidades e os absurdos que a pressa adicional produz poderiam, eu suponho, não serem observados por um espectador não crítico; mas não vejo por que eles deveriam ser introduzidos desnecessariamente. O tempo deve ser naturalmente deixado mais vago em um filme do que em um livro; mas não posso ver por que relatos de tempo definidos, contrários ao livro e a probabilidade, deveriam ser feitos…

As Estações são cuidadosamente respeitadas no original. Elas são pictóricas, e deveriam ser, e facilmente poderiam ser, feitas como meio principal pelo qual os artistas indicam a passagem do tempo. A ação principal começa no outono e passa pelo inverno para uma primavera brilhante: isto é básico para o sentido e tom do conto. A contração de tempo e espaço em Z destrói isso. Seus arranjos, por exemplo, nos poriam em uma nevasca enquanto ainda era verão. O Senhor dos Anéis pode ser uma “história-de-fadas”, mas acontece no hemisfério Norte desta terra: milhas são milhas, dias são dias, e clima é clima.

Contração deste tipo não é a mesma coisa que a necessária redução ou seleção das cenas e eventos que devam ser representados visualmente.

7. O primeiro parágrafo deturpa Tom Bombadil. Ele não é o dono das florestas; ele nunca pensaria em fazer tal reivindicação.

“Velho malandro!” Este é um bom exemplo da tendência geral que eu encontrei em Z para reduzir e diminuir o tom para transformá-lo em um conto de fadas mais infantil. A expressão não corresponde ao tom da longa conversa posterior de Bombadil; e embora esta esteja cortada, não há nenhuma necessidade que suas indicações sejam desconsideradas.

Eu sinto muito, mas penso que a maneira da introdução de Fruta D’Ouro é tola e do mesmo nível que velho “patife”. Também não está baseado no meu conto. Não estamos na “terra-das-fadas”, mas em terras ribeirinhas reais no outono. Fruta D’Ouro representa as mudanças sazonais reais em tais terras. Pessoalmente eu acho que teria sido muito melhor ela ter desaparecido do que fazer uma aparição sem sentido.

8. Linha 24: o proprietário não pede para Frodo se “registrar”!² Por que deveria? Não há nenhuma polícia e nenhum governo. (nem o faço numerar seus quartos). Se detalhes são adicionados a um quadro já abarrotado, eles deveriam pelo menos se ajustar ao mundo descrito.

9. Deixar a hospedaria à noite e fugir na escuridão é uma solução impossível pelas dificuldades apresentadas aqui (que eu posso ver). É a última coisa que Aragorn teria feito. Está baseada em uma concepção completamente errada dos Cavaleiros Negros, a qual eu imploro para que Z reconsidere. O perigo deles é quase completamente atribuído ao medo incontrolável que inspiram (como fantasmas). Eles não têm nenhum grande poder físico contra os corajosos; mas o que eles têm, e o medo que eles inspiram, é aumentado consideravelmente na escuridão. O Rei-Bruxo, o líder, é o mais poderoso que os outros de todas as maneiras; mas ele não deve contudo ser elevado ao nível do RdR. Lá, posto no comando por Sauron, para ele é dada uma força demoníaca adicional. Mas até mesmo na Batalha dos Campos do Pelennor, a escuridão tinha só enfraquecido. Veja pág. 114³.

10. Valfenda não era “uma floresta cintilante”. Esta é uma antecipação infeliz de Lórien (a qual não se assemelha à esta de maneira nenhuma). Não pode ser vista do Topo do Vento: estava a 200 milhas de distância e escondida em um desfiladeiro. Não posso ver nenhuma vantagem pictórica ou de criação da história em encolher a geografia desnecessariamente.

Passolargo não “Saca uma espada” no livro. Naturalmente não: a sua espada estava quebrada. (Sua luz élfica é outra falsa antecipação da Anduril reforjada. A antecipação é uma das falhas principais de Z). Por que então deveria fazê-lo aqui, em um duelo que não foi travado explicitamente com armas?

11. Aragorn não “cantou a canção de Gil-galad”. Naturalmente: era bastante inapropriada, uma vez que contava a derrota do Rei-Élfico pelo Inimigo. Os Cavaleiros Negros não gritam, mas mantêm um silêncio mais aterrador. Aragorn não empalidece. Os cavaleiros se arrastam lentamente a pé na escuridão, e não “correm”. Não há luta. Sam não “crava a sua lâmina na coxa do Espectro do Anel”, nem seu golpe salva a vida de Frodo. (Se assim fosse, o resultado teria sido exatamente igual ao da pág. 891-894: o Espectro teria caído e a espada teria sido destruída.

Porque meu relato foi completamente reescrito aqui, com desconsideração para com o resto do conto? Posso ver que há certas dificuldades em representar uma cena escura; mas elas não são insuperáveis. Uma cena sombria iluminada por uma pequena fogueira, com os Espectros lentamente se aproximando como sombras mais escuras – até o momento que Frodo coloca o Anel, e o Rei se aproxima revelando-se – pareceria para mim muito mais impressionante do que mais uma cena de gritos e de golpes um tanto quanto sem sentido.

Gastei algum tempo nesta passagem, como um exemplo do que descubro muito freqüentemente me dar “prazer ou satisfação”: alteração deliberada da história, de fato e significado, sem qualquer objetivo prático ou artístico (que eu possa ver); e do efeito insípido que a assimilação de um incidente a outro deve ter.

15. O tempo é novamente encurtado e acelerado, com o efeito de reduzir a importância da Saga. Gandalf não diz que eles partirão assim que estejam prontos! Dois meses decorrem. Não há nenhuma necessidade de dizer qualquer coisa com um sentido de tempo. O lapso de tempo deveria ser indicado, por nada mais além da mudança para inverno na paisagem e árvores. No final da página, as “guias são introduzidas novamente. Sinto que isto é uma adulteração completamente inaceitável do conto. “Nove Caminhantes” e eles vão imediatamente por ar! A intrusão leva a nada mais além da incredibilidade, e o esgotamento do artifício das “guias quando finalmente elas são realmente necessárias. Está bem dentro dos poderes dos filmes sugerir, de forma relativamente breve, uma jornada longa e árdua, em segredo, a pé, com as três montanhas ominosas ficando mais próximas.

Z não parece muito interessado por estações ou paisagens, embora do que vi eu devesse dizer que na representação destas as principais virtude e atração do filme são plausíveis de serem encontradas. Mas Z acha que teria melhorado o efeito de um filme como, digamos, a subida do Everest pela introdução de helicópteros para levar os alpinistas metade do caminho acima (a despeito da probabilidade)? Seria muito melhor cortar a Tempestade de Neve e os Lobos do que fazer uma farsa da árdua jornada.

19. Por que Z põe bicos e penas nos Orcs!? (Orcs não são uma forma de Ave). Os Orcs definitivamente são descritos como sendo corrupções da forma “humana” vista em Elfos e Homens. Eles são (ou eram) gordos e baixos, largos, de narizes achatados, de pele amarelada, com bocas largas e olhos oblíquos: de fato versões degradadas e repulsivas dos (para os europeus) menos adoráveis tipos Mongóis.

20. O Balrog nunca fala ou faz nenhum som vocal. Acima de tudo ele não ri ou zomba. Z pode pensar que sabe mais sobre os Balrogs do que eu, mas não pode esperar que eu concorde com ele.

21. “Uma visão esplêndida. É a casa de Galadriel… uma Rainha Élfica” (ela não o é de fato) “Delicadas espirais e minúsculos minaretes de cor Élfica são habilmente tecidos em um castelo lindamente projetado.” Eu considero esta descrição deplorável por si mesma, e em partes impertinentes. Z poderia demonstrar um pouco de respeito pelo meu texto, pelo menos em descrições que são obviamente centrais ao tom geral e estilo do livro! Não aceitarei em circunstância nenhuma este tratamento de Lórien, até mesmo se Z prefere pessoalmente “minúsculas” fadas e as bugigangas de contos de fadas modernos convencionais.

O desaparecimento da tentação de Galadriel é significante. Praticamente tudo que tem significado moral desapareceu da sinopse.

22. Lembas, o “pão de viagem”, é chamado de um “concentrado alimentar”. Como tenho demonstrado, eu repugno fortemente qualquer desvio do meu conto para o estilo e característica de “contes des fees” ou histórias de fadas francesas. Eu repugno igualmente qualquer desvio para “cientificação”, da qual esta expressão é um exemplo. Ambos os modos são estranhos a minha história.

Nós não estamos explorando a Lua ou qualquer outra região mais improvável. Nenhuma análise em qualquer laboratório descobriria propriedades químicas do lembas que tornasse este superior a outros bolos de trigo.

Só comento a expressão aqui como uma indicação de atitude. Não é sem dúvida casual; e nada desse tipo ou estilo será (espero) inserido no diálogo verdadeiro.

No livro lembas tem duas funções. É um “mecanismo” ou artifício para tornar críveis as longas marchas com pouca provisão, em um mundo no qual como eu disse “milhas são milhas”. Mas isso é relativamente sem importância. Também tem um significado muito maior, do qual alguém poderia chamar com hesitação de um tipo “religioso”. Isto se torna aparente mais tarde, especialmente no capítulo “A Montanha da Perdição” (pág. 9915 e subseqüentemente). Não consigo achar que Z tenha feito qualquer uso particular de lembas até mesmo como um artifício; e toda a parte da “Montanha da Perdição” desapareceu na confusão distorcida que Z fez do fim. Até onde posso ver, o uso do “lembas” bem que poderia desaparecer completamente.

Espero sinceramente que na designação das falas reais para os personagens elas sejam representadas como as apresentei: em estilo e sentimento. Eu deveria me ressentir da perversão dos personagens (e realmente me ressinto disto, até onde aparece neste esboço) até mesmo mais do que o estrago do enredo e da paisagem.

Partes II & III. Tenho gasto muito espaço em criticar até mesmo detalhes na Parte I. Foi mais fácil, porque a Parte I em geral respeita a linha de narrativa no livro e retém algo da sua coerência original. A Seqüência II exemplifica todas as falhas da Seqüência I; mas é ainda mais insatisfatória, e mais ainda a Parte III, em aspectos mais sérios. Quase parece que Z, tendo gasto muito tempo e trabalho na Parte I, agora se encontrou com falta não apenas de espaço mas de paciência para lidar com os dois volumes mais difíceis nos quais a ação fica mais rápida e complicada. Em todo caso escolheu tratá-los de modo que produz uma confusão que leva afinal quase a um delírio…

A narrativa agora se divide em dois ramos essenciais: 1. Ação Principal, os Portadores do Anel. 2. Ação Auxiliar, o resto da Companhia conduzindo a “questão heróica”. É essencial que estes dois ramos sejam tratados em uma seqüência coerente. Ambos para torná-los inteligíveis como uma história, e porque eles são totalmente diferentes em tom e paisagem. Misturá-los destrói inteiramente estas coisas.

31.Lamento profundamente a manipulação do capítulo “Barbárvore”, quer tenha sido necessária ou não. Já suspeitava que Z não estivesse interessado em árvores: infelizmente, já que a história é tão amplamente relacionada a elas. Mas certamente o que temos aqui é em todo caso um vislumbre um tanto quanto ininteligível? O que são Ents?

31 a 32. Passamos agora para uma habitação de Homens em uma “era heróica”. Z parece não apreciá-la. Espero que os artistas sim. Mas ele e eles realmente só têm que seguir o que é dito, e não alterá-lo para se adequar-se às suas fantasias (fora de propósito).

Em tal tempo “câmaras” privativas não existiam. Théoden provavelmente não tinha nenhuma, a menos que ele tivesse um “quarto privativo” de dormir em um pequena “dependência” separada. Ele recebia convidados ou emissários, sentado no tablado do seu salão real. Isto está bem claro no livro; e a cena deveria ser muito mais efetiva para ilustrar.

31 a 32. Por que Théoden e Gandalf não vão para a abertura diante das portas, como eu contei? Embora eu tenha enriquecido um pouco a cultura dos “heróicos” Rohirrim, esta não levou à janelas de vidro que poderiam ser abertas!!! Poderíamos estar em um hotel. (As “janelas do leste” do salão, pág. 535 e 5386, eram brechas sob o beiral, sem vidro.)

Mesmo se o rei de tal povo tivesse um “quarto privativo”, não poderia se tornar “uma colméia de atividade intensa”!!! A movimentação acontece do lado de fora e na cidade. O que é demonstrável disto deveria acontecer no pavimento aberto diante das grandes portas.

33. Receio que não descobri o vislumbre da “defesa do Forte da Trombeta” – este seria um título melhor, uma vez que O Abismo de Helm, o desfiladeiro por trás dele, não é mostrado – completamente satisfatório. Iria, acredito, ser uma cena bastante sem sentido em um filme, colocada neste modo. De fato eu mesmo estaria inclinado a cortar esta cena fora, se não pudesse ser feita de uma maneira mais coerente e numa parte mais significante da história. Se ambos, os Ents e o Forte da Trombeta, não puderem ser tratados com a duração suficiente para fazer sentido, então um deveria sair. Deveria ser o Forte da Trombeta, que não é essencial para a história principal; e haveria a vantagem adicional de que vamos ter uma grande batalha (da qual muito deveria ser feito tanto quanto possível), pois batalhas tendem a ser muito semelhantes: a grande ganharia por não ter nenhuma do mesmo porte.

34. Por que razão no mundo Z diria que os hobbits “estavam mastigando ridiculamente grandes sanduíches”? Ridículo realmente. Eu não vejo como poderia se esperar que qualquer autor ficasse “contente” com tais alterações tolas. Um hobbit estava dormindo, o outro fumando. A escadaria em espiral “tecida” ao redor da Torre (Orthanc) vem da imaginação de Z não do meu conto. Eu prefiro o último. A torre tinha 500 pés de altura. Havia uma trajetória de 27 degraus conduzindo à grande porta; sobre a qual estava uma janela e uma sacada.

Z está completamente obcecado pelas palavras hipnose e hipnótico. Nem hipnose genuína, nem variantes de ficção científica, ocorrem em meu conto. A voz de Saruman não era hipnótica, mas persuasiva. Aqueles que escutavam-no não corriam o perigo de cair em um transe, mas de concordar com seus argumentos, enquanto completamente despertos. Sempre era possível para alguém resistir, por livre e espontânea vontade e razão, tanto sua voz enquanto falando quanto suas impressões posteriores. Saruman corrompia os poderes da razão.

Z cortou o fim do livro, inclusive a morte exata de Saruman. Nesse caso não consigo ver nenhuma boa razão para fazê-lo morrer. Saruman nunca teria cometido suicídio: agarrar-se a vida e a suas migalhas mais básicas é o jeito do tipo de pessoa que ele tinha se tornado. Se Z quer Saruman meticuloso (eu não posso ver por que, onde tantas linhas são deixadas soltas) Gandalf diria algo neste sentido: enquanto Saruman desmorona sob a excomunhão: “Já que você não virá e nos ajudará, aqui em Orthanc você ficará até que apodreça, Saruman. Deixo os Ents tomando conta disto!”

Parte III… é totalmente inaceitável para mim, como um todo e em detalhes. Se esta destina-se como se nota ser apenas uma porção de algo como a extensão pictórica de I e II, então seu desenvolvimento deve ser em relação ao livro, e suas graves alterações com relação àquele devem ser corrigidas. Se esta destina-se a representar somente um tipo de final mais curto, então tudo o que eu posso dizer é que: O Senhor dos Anéis não pode ser deturpado desta forma.

Citações

1. “Gandalf era mais baixo que os outros dois, mas seus longos cabelos brancos, a vasta barba prateada, e os ombros largos conferiam-lhe a aparência de algum rei sábio de antigas lendas. Em seu rosto envelhecido, adornado por grossas sobrancelhas brancas, os olhos escuros pareciam ser feitos de carvão, prontos a se acender a qualquer momento. “

2. ex. na pousada de Bri.

3. “ a escuridão estava quebrando muito cedo, antes da data que o Mestre dele tinha fixado isto.”

4. A morte do Senhor do Nazgûl por Éowyn.

5. “ o lembas tinham uma virtude sem a qual os dois teriam há muito tempo se deitado à espera da morte… … Alimentava a disposição, e dava força para resistir, e para dominar os tendões e os membros, uma capacidade que ia além da medida dos mortais.”

6. “Mas em alguns pontos a luz do sol caía em raios bruxuleantes das janelas orientais, altas sob os profundos beirais” “ A luz do sol se apagou nas janelas do leste; todo o salão ficou de repente escuro como a noite.”