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Mitos Transformados VII – Notas sobre os motivos no Silmarillion

The Histoy of Middle-earth XEste ensaio é encontrado em duas formas. A mais antiga (‘A’) é um texto bastante curto, manuscrito, contendo quatro páginas, entitulado ‘Algumas notas sobre a ”filosofia” do Silmarillion’; é rapidamente expresso e não possui um final claro. O segundo (‘B’) é uma versão grandemente ampliada contendo doze páginas, também manuscritas, de uma expressão mais cuidadosa e iniciando com uma bela caligrafia, mas encerrado também sem um fim, de fato no meio de uma frase. Este é entitulado ‘Notas sobre os motivos no Silmarillion’.

A relação entre as duas formas é tal que em sua maior parte não é necessário fornecer nenhum trecho de A pois todo seu conteúdo é encontrado inserido em B. A partir do ponto onde os Valar são condenados pela elevação das Pelori, contudo, os textos divergem. Em B meu pai insere uma longa amenização da conduta dos Valar, e o ensaio se encerra antes do assunto da seção que encerra A fosse atingida (ver nota 6); esta, portanto, é fornecida no final de B.

O texto de B é subsequentemente dividido e marcado como três seções distintas, sendo elas (i), (ii) e (iii).

Notas sobre os motivos no Silmarillion


(i)

Sauron foi ‘superior’, efetivamente, na Segunda Era do que Morgoth ao fim da Primeira. Porque? Por que, embora ele fosse muito inferior em estatura natural, ele ainda não havia caído tão baixo. Eventualmente ele também dispersou seu poder (de ser) no empreendimento de ganhar controle sobre  outros. Mas ele não foi obrigado a dispender tanto de si mesmo. Para obter domínio sobre Arda Morgoth deixou que a maior parte de seu ser passasse para os constituintes físicos da Terra – de forma que todas as coisas que nascessem na Terra e vivessem nela e por ela, animais ou plantas ou espíritos encarnados, seriam passíveis de ‘mácula’. Morgoth no período da Guerra das Jóias se tornou permanentemente ‘encarnado’: por esta razão ele tinha medo, e travou a guerra quase inteiramente por intermédio de aparatos  ou de subordinados e criaturas dominadas.

Sauron, contudo, herdou a ‘corrupção’ de Arda, e apenas gastou seu poder (muito mais limitado) nos Anéis; pois eram as criaturas da terra, em suas mentes e vontades, que ele desejava dominar. Nesta forma Sauron também foi mais sábio do que Melkor-Morgoth. Sauron não era um iniciante em discórdia; e ele provavelmente conhecia mais da ‘Música’ do que Melkor, cuja mente sempre esteve repleta com seus próprios planos e aparatos, e dava pouca atenção a outras coisas. O momento de maior poder de Melkor, portanto, foi no início físico do Mundo; um vasto desejo demiúrgico por poder e a realização de sua própria vontade e desígnios, em uma grande escala. E mais tarde após as coisas terem ficado mais estáveis, Melkor estava mais interessado em e mais capaz de lidar com uma erupção vulcânica, por exemplo, do que (digamos) uma árvore. É de fato provável que ele simplesmente não fosse consciente das produções menores e mais delicadas de Yavanna: tais como pequenas flores. *

(* [nota de rodapé ao texto] Se tais coisas fossem forçadas à sua atenção ele se enfurecia a as odiava, como vindo de outras mentes que não a dele mesmo.)

Portanto, enquanto ‘Morgoth’, quando Melkor foi confrontado pela existência de outros habitantes de Arda, com outras vontade e inteligências, ele se enraiveceu pelo mero fato de suas existências, e sua única noção que tinha de lidar com elas era pela força física, ou do medo dela. Seu único e último objetivo era a destruição das mesmas. Elfos, e ainda mais Homens, ele desprezava por causa de suas ‘fraquezas’:  que são a falta de força física, ou poder sobre ‘matéria’; mas ele também os temia. Ele estava ciente, ao menos originalmente quando ainda era capaz de pensamento racional, ele não os poderia ‘aniquilar’ **: isto é, destruir seus seres; mas suas ‘vidas’ físicas e formas encarnadas se tornaram gradativamente em sua mente a única coisa que valia a pena ser considerado (+).

(** [nota  entre parênteses inserida no texto] Melkor não poderia, é claro, ‘aniquilar’ nada que fosse feito de matéria, ele poderia apenas arruinar ou destruir ou corromper as formas dadas à materia por outras mentes em suas atividades sub-criativas.)

(+ [nota de rodapé sem indicação de referência ao texto] Por isto)

Ou ele se tornou tão avançado em Mentir que mentiu até mesmo para si mesmo, e fingiu que poderia destruí-los e livrar Arda completamente deles. Por isso ele tinha como objetivo sempre quebrar vontades e subordiná-las ou absorvê-las em sua própria vontade e ser, antes de destruir seus corpos. Isto era niilismo irrestrito e negação seu único último objetivo: Morgoth, sem dúvida, se tivesse sido vitorioso, teria destruído mesmo suas próprias ‘criaturas’, como os Orcs, quando tivessem cumprido seu único objetio ao utilizá-las: a destruição de Elfos e Homens. A impotência e desespero finais de Melkor advem disso: que enquanto ao mesmo tempo os Valar (e na devida proporção Elfos e Homens) podiam amar a ‘Arda Desfigurada’, isto é, a Arda com um ingrediente-Melkor, e podiam ainda curar este ou aquele ferimento, ou produzir a partir de seu próprio desfigurar, do estado em que estava, coisas belas e amáveis, Melkor não podia fazer nada com Arda, a qual não era de sua mente e estava interconectada com os trabalhos e pensamentos de outros: mesmo deixado sozinho ele poderia apenas continuar tempestuosamente até tudo estar nivelado e de volta ao caos sem forma. E mesmo assim ele teria sido derrotado, porque continuaria tendo ‘existido’, independente de sua própria mente, e um mundo em potencial.

Sauron nunca atingiu este nível de loucura niilística. Ele não se opunha à existência do mundo, desde que pudesse fazer com ele o que quisesse. Ele ainda tinha os resquícios de propósitos positivos, que surgiram do bem da natureza da qual ele se originou: havia sido sua virtude (e também, portanto, a causa de sua queda, e do seu retrocesso) amar a ordem e a coordenação, e desgostar toda confusão e fricção excessiva. (Foi a aparente vontade e poder de Melkor em realizar seus desígnios rapidamente e com maestria que inicialmente atraiu Sauron a ele). Sauron fora, de fato, muito semelhante a Saruman, e dessa forma o compreendia rapidamente e poderia adivinhar o que possivelmente pensaria e faria, mesmo sem a ajuda dos palantíri e de espiões; enquando Gandalf o eludia e confundia. Mas, assim como todas as mentes desta origem, o amor (originalmente) ou (mais tarde) mera compreensão por parte de Sauron de outras inteligências individuais era correspondentemente mais fraco; e mesmo sendo o único bem em, ou motivo racional para, todo este ordenamento e planejamento e organização ser o bem de todos os habitantes de Arda (mesmo admitindo o  direito de Sauron como seu senhor supremo), seus ‘planos’, a idéia vinda de sua própria mente isolada, tornou-se o único objetivo de sua vontade, e um fim, o Fim, em si mesma*.

(razão pela qual ele mesmo veio a temer a ‘morte’ – a destruição de sua forma física assumida – acima de tudo, e procurar evitar qualquer tipo de dano a sua própria forma)

Morgoth não possuía um ‘plano’: a menos que a destruição e redução a nada de um mundo no qual ele tinha apenas uma parte possa ser chamada de ‘plano’. Mas isto é, claro, uma simplificação da situação. Sauron não poteria ter servido Morgoth, mesmo em seus últimos estágios, sem se tornar infectado por seu desejo por destruição e sua raiva contra Deus (a qual deve terminar em niilismo). Sauron não poderia, claro, ser um ateísta ‘sincero’. Embora um dos espíritos menores criados antes do mundo, ele conhecia Eru, de acordo com sua capacidade. Ele provavelmente enganou a si mesmo com a noção de que tendo os Valar (incluindo Melkor) falhado, Eru tinha simplesmente abandonara Eä, ou pelo menos Arda, e não se importaria mais com ela. Ele parece ter interpretado a ‘mudança do mundo’ na Queda de Numenor, quando Aman foi removida do mundo físico, desta forma: Valar (e Elfos) foram removidos do controle efetivo, e Homens colocados sob a maldição e ira de Deus. Quando pensava nos Istari, especialmente Saruman e Gandalf, ele os imaginava como emissários dos Valar, procurando reestabelecer o poder perdido e ‘colonizar’ a Terra-média, como um mero esforço de imperialistas derrotados (sem o conhecimento ou sanção de Eru). Seu cinismo, o qual (sinceramente) considerava os motivos de Manwë como precisamente os mesmos que os seus, parecia completamente justificado em Saruman. Gandalf ele não compreendia. Mas certamente ele já hvai se tornado maligno, e portanto estúpido, o sucifiente para imaginar que o comportamente diferente deste era simplesmente devido a uma inteligência mais fraca e a falta de um firme propósito imperioso. Ele seria apenas um Radagast um pouco mais esperto – mais esperto por ser mais lucrativo (mais produtivo em poder) ficar absorvido no estudo de pessoas do que no de animais.

Sauron não era um ateísta ‘sincero’, ele pregava o ateísmo, porque reduzia a resistência a si mesmo (e ele parara de teme as ações de Deus em Arda).  Como visto no caso de Ar-Pharazon. Mas lá foi visto o efeito de Melkor sobre Sauron: ele falava de Melkor nos próprios termos de Mekor: como um deus ou mesmo como Deus. Isto pode ter sido o resíduo de um estado o qual era de uma certa forma uma sombra de bem: a habilidade em Sauron de pelo menos admiriar ou admitir a superioridade de um ser que não ele mesmo.

(* [nota de rodapé ao texto] Mas sua capacidade de corromper outras mentes, e mesmo cooptar seus serviços, era um resíduo do fato de que seu desejo original por ‘ordem’ tinha realmente considerado o bom estado (especialmente bem-estar físico) de seus ‘sujeitos’.)

Melkor, e mais ainda o próprio Sauron mais tarde, ambos lucraram com esta sombra escurecida do bem e os serviços dos ‘adoradores’. Mas pode ser duvidoso mesmo se tal sombra de bem estava sinceramente operativa em Sauron àquele tempo. Seu motivo mais sagaz é povavelmente assim expresso. Para alienar um dos tementes-a-Deus de sua lealdade é melhor propor outro objeto invisível de lealdade e outra esperança de benefícios; propondo a ele um Senhor que irá sancionar o que ele deseja e não proibi-lo. Sauron, aparentemente um rival derrotado na disputa pelo poder mundial, agora um mero prisioneiro, dificilmente poderia propor si mesmo;  mas como antigo servo e discípulo de Melkor, a adoração de Melkor o elevará de prisioneiro a sumo sacerdote. Mas embora o real motivo fosse a destruição dos Numenorianos, este era um motivo particular de vingança contra Ar-Pharazon, pela humilhação. Sauron (ao contrário de Morgoth) ficaria satisfeito com a existência dos Numenorianos, como seus seguidores, e de fato usou muitos deles os quais ele corrompeu à sua lealdade.

(ii)

Ninguém, nem mesmo um dos Valar, pode ler a mente de outro ‘ser igual’:*  ou seja, não pode ‘vê-lo’ ou compreendê-lo completa e diretamente por simples inspeção. Pode-se deduzir muitos de seus pensamentos, a partir de comparações genéricas levando a conclusões relativas à natureza e tendências das mentes e pensamentos, e do conhecimento particular de indivídeuos, e circunstâncias especiais. Mas isso não é leitura ou inspeção de outra mente e sim dedução relativa ao conteúdo de uma sala fechada, ou eventos que acontecem fora de vista. Tampouco a assim chamado ‘transferência de pensamento’ é um processo de leitura-mental: nada mais é do que a recepção, e interpretação pela mente receptora, do impacto de um pensamento, ou padrão de pensamento, emanando de outra mente, a qual tanto é a mente em sua totalidade por si mesma quanto a distante visão de um homem correndo é o próprio homem. Mentes podem exibir ou revelar a si mesmas a outras mentes pela ação de suas próprias vontades (embora seja duvidoso se, mesmo desejando ou permitindo isso, uma mente pode realmente revelar a si mesma completamente a outra mente).

(* [nota marginal]  Todas as mentes racionais ??? espíritos derivando diretamente de Eru são ‘iguais’ – em ordem e posição – embora não necessariamente ‘covalentes’ ou de mesmo poder original.)

É, portanto, uma tentação para as mentes de maior poder governar ou conter a vontade de outras, e mais fracas, mentes, de forma a induzi-las ou forçá-las a se revelar. Mas forçar tal revelação, ou induzi-la por qualquer mentira ou engano, mesmo por supostamente ‘bons’ propósitos (incluindo o ‘bem’ da pessoa assim persuadida ou dominada), é absolutamente proibido. Fazê-lo é um crime, e o ‘bem’ nos propósitos daqueles que cometem este crime rapidamente se corrompe.

Portanto muito poderia ‘acontecer às costas de Manwë’: de fato o âmago de todas as outras mentes, grandes e pequenas, estavam ocultas dele. E com respeito ao Inimigo, Melkor, em particular, ele não podia penetrar por visão-mental à distância seu pensamento e propósitos, uma vez que Melkor permanecia em uma vontade fixa e poderosa em ocultar sua mente: o que, fisicamente expresso, tomava forma na escuridão e nas sombras que o envolviam. Mas Manwë podia usar, claro, e usou, seu grande conhecimento, sua vasta experiência de coisas e de pessoas, sua memória da ‘Música’ e sua própria far sight, e as notícias trazidas por seus mensageiros.

Manwë, como Melkor, praticamente nunca é visto ou ouvido fora ou distante de seus próprios salões e residência permanente.  Por que isso? Por nenhuma razão muito profunda. O Governo é sempre no Salãobranco. Rei Arthur normalmente está em Camelot ou Caerlon, e novidades e aventuras chegam até lá e surgem de lá. O ‘Rei Mais Antigo’ obviamennte não será derrotado ou destruído totalmente, pelo menos não antes de algum ‘Ragnarok’ (1) final – o qual mesmo para nós está no futuro, de forma que ele não pode ter ‘aventuras’ reais. Mas, se você o mantém em casa, o resultado de qualquer evento em particular (uma vez que não pode resultar em um ‘cheque-mate’ final) pode permanecer em suspense literário. Mesmo na guerra final contra Morgoth é Fionwe filho de Manwë que personifica o poder dos Valar. Quando movermos Manwë será a última batalha, e o fim do Mundo (ou da ‘Arda Desfigurada’) como os Elfos diriam.

[A permanência de Morgoth ‘em casa’ tem, como descrito acima, uma razão bastante diferente: seu medo de ser morto ou mesmo ferido (o motivo literário não está presente, pois uma vez que ele está em oposição contra o Rei Mais Antigo, o resultado de qualquer uma de suas ações está sempre em dúvida).]

Melkor ‘encarnou-se’ (como Morgoth) permanentemente. Ele o fez para controlar o hroa (2), a ‘carne’ ou matéria física de Arda. Ele tentou identificar-se com ela. Um procedimento mais vasto e mais perigoso,, embora similar em operação a Sauron com os Anéis. Portanto, fora do Reino Abençoado, toda matéria presumivelmente tinha um ‘ingrediente Melkor’ (3), e aqueles que possuíam corpos, alimentados pelo hroa de Arda, tinham uma tendência, pequena ou grande, em direção a Melkor : não havia nenhum deles completamente livre dele em sua forma encarnada, e seus corpos tinham um efeito sobre seus espíritos.

Mas desta forma Morgoth perdeu (ou trocou ou transmutou) a maior parte de seus poderes ‘angelicais’ originais, de mente e espírito, enquanto ganhava um terrível domínio sobre o mundo físico. Por esta razão ele tinha que ser enfrentado principalmente através de força física, e uma enorme ruína material era a provável consequência de qualquer combate direto com ele, vitorioso ou não. Esta é a principal explicação pela constante relutância dos Valar em confronta Morgoth em batalha aberta. A tarefa e problema de Manwë eram muito mais difíceis do que os de Gandalf. O poder de Sauron, relativamente menor, estava concentrado; o vasto poder de Morgoth estava disseminado.  O todo da ‘Terra-média’ era o Anel de Morgoth, embora temporariamente sua atenção estivesse principalmente no Noroeste. A menos que rapidamente bem sucedida, Guerra contra ele poderia muito bem terminar reduzindo toda a Terra-média ao caos, possivelmente mesmo toda Arda. É fácil dizer: ‘Era a tarefa e função do Rei Mais Antigo governar Arda e tornar possível aos Filhos de Eru viveram nela sem serem molestados’. Mas o dilema dos Valar era este:  Arda só poderia ser liberada por uma batalha física; mas um provável resultado de tal batalha seria a irrecuperável ruína de Arda. Além disso, a erradicação final de Sauron (como um poder direcionando o mal) era alcançável pela destruição do Anel. Tal erradicação de Morgoth não era possível, uma vez que isso requereria a completa desintegração da ‘matéria’ de Arda. O poder de Sauron não estava (por exemplo) no ouro propriamente dito, mas em uma forma particular feita de uma porção em particular do total de ouro. O poder de Morgoth foi disseminado através do Ouro, embora não fosse absoluta em qualquer lugar (pois ele não criou o Ouro) também não estava ausente de parte alguma. (Era este elemento-Morgoth na matéria, de fato, o pré-requisito para a tal ‘magia’ e outras malignidades que Sauron pratricava com ele e sobre ele.)

É bastante possível, claro, que certos ‘elementos’ ou condições da matéria tenham atraído a atenção especial de Morgoth (principalmente, exceto no passado remoto, por razões de seus próprios planos). Por exemplo, todo o ouro (na Terra-média) parece ter tido um aspecto especialmente ‘maligno’ – mas não a prata. A água é representada como sento quase inteiramente livre de Morgoth. (Isto, é claro, não significa que qualquer mar, corrente, rio poço ou mesmo repositório de água em particular não pudesse ser envenenada ou maculada – todas as coisas podiam).

(iii)

Os Valar ‘esvaecem’ e se tornam mais impotentes, precisamente na proporção em que a forma e constituição das coisas se tornaram mais definidas e fixas. Quanto maior o Passado, mais precisamente definido o Futuro e menos espaço para mudanças importantes (ação ilimitada, em um plano físico, que não seja destrutiva em propósito). O Passado, uma vez ‘atingido’, se tornava parte da ‘Música encarnada’. Apenas Eru teria permissão ou poderia alterar a ‘Música’. O último grande esforço, deste tipo demiúrgico, feito pelos Valar foi a elevação da cadeira das Pelori à sua grande altura. É possível ver isto como, se não realmente uma má ação, pelo menos uma ação equivocada. Ulmo a desaprovou (4). Ela tinha um bom, e legítimo, objetivo: a preservação incorrupta de ao menos uma parte de Arda. Mas pareceu ter um motivo egoísta ou negligente (ou desesperado) também; pois o esforço para preservar os Elfos incorruptos lá se provou falho se eles fossem deixados livres: muitos haviam recusado ir ao Reino Abençoado, muito haviam se revoltado e o deixaram. Por outro lado, com relação aos Homens, Manwë e todos os Valar sabiam muito bem que eles não poderiam ir a Aman de forma alguma; e a longevidade (co-extensiva com a vida de Arda) dos Valar e Eldar era expressamente não permitida aos Homens. Portanto o ‘Ocultar de Valinor’ chegou perto de imitar a possessividade de Morgoth com uma posssessividade rival, fixando um domínio privado de luz e benção contra um de escuridão e dominação: um palácio e um jardim prazeiroso (5) (bem cercado) contra uma fortaleza e uma masmorra (6).

Esta aparência de indolência egoísta nos Valar na mitologia como contada (embora eu não a tenha explicado ou comentado) eu acredito ser apenas uma ‘aparência’, e uma na qual estamos aptos a acreditar como verdade, uma vez que todos somos afetados em algum grau pela sombra e mentiras de seu Inimigo, o Caluniador. Deve ser lembrado que a ‘mitologia’ é representada como sendo dois palcos afastados de um registro verdadeiro: é beseada inicialmente nos registros e conhecimentos Élficos sobre os Valar e seus próprios negócios com eles; e estes nos alcançaram (fragmentariamente) apenas através de relíquias das tradições Numenorianas (humanas), derivadas dos Eldar, em seus trechos mais antigos, embora mais tarde suplementada por histórias e contos  antropocêntricos (7). Estes, se verdade, chegaram através dos ‘Fiéis’ e seus descendentes na Terra-média, mas não podiam escapar de todos do enegrecimento devido à hostilidade dos Numenorianos rebeldes aos Valar.

Mesmo assim, e baseando nas histórias como recebidas, é possível ver o assunto de outra forma. O fechamento de Valinor contra os rebeldes Noldor (que a deixaram voluntariamente e depois de avisados) era em si mesmo justo. Mas, se ousarmos tentar penetrar na mente do Rei Mais Antigo, atribuindo motivos e procurando falhas, há coisas a lembrar antes de darmos nosso veridicto. Manwë era o espírito de maior sabedoria e prudência em Arda. Ele é representado como tendo maior conhecimento da Música, como um todo, do que o possuído por qualquer um com uma mente finita; e apenas ele de todas as pessoas ou mentes daquele tempo é representado como tendo o poder de recorrer diretamente a e se comunicar com Eru. Ele deve ter entendido com grande clareza o que podemos perceber apenas de relance: que era o modo essencial do processo da ‘história’ em Arda que o mal deveria constantemente surgir, e que dele um novo bem deveria constantemente advir. Um especial aspecto disso é a estranha maneira pela qual os males do Desfigurador, ou seus herdeiros, são transformados em armas contra o mal. Se considerarmos a situação após a fuga de Morgoth e o reestabelecimento de sua fortaleza na Terra-média, veremos que os heróicos Noldor eram a melhor arma possível com a qual manter Morgoth em cheque, virtualmente sob cerco, e de qualquer forma totalmente ocupado, no limite norte da Terra-média, sem o provocá-lo a um fenesi de destruição niilística. E no meio termo, Homens, ou os melhores elementos na Humanidade, se livrando de sua sombra, entraram em contato com um povo que tinha realmente visto e experimentado o Reino Abençoado.

Em sua associação com os beligerantes Eldar os Homens foram elevados à sua máxima estatura alcançável, e pelos dois casamentos a transferência a eles, ou infusão na Humanidade, da mais nobre linhagem-Élfica foi obtida, em prontidão para o ainda distante, mas inevitável, dia nos quais os Elfos iriam ‘esvaecer’.

A última intervenção dos Valar através de força física, terminando com a destruição de Thangorodrim, pode ser vista não como relutante ou mesmo desnecessariamente atrasada, mas cronometrada com precisão. A intervenção veio antes da aniquilação dos Eldar e dos Edain. Morgoth embora localmente triunfante negligenciou a maior parte da Terra-média durante a guerra; e com isso ele foi de fato enfraquecido: em poder e prestígio (ele perdeu e falhou em recuperar uma das Silmarils), e acima de tudo em mente. Ele ficou absorvido em ‘reinar’, e embora fosse um tirano de tamanho ógrico e poder monstruoso, isto foi uma vasta queda mesmo de sua anterior iniquidade de ódio e seu terrível niilismo. Ele caiu a ponto de apreciar ser um rei-tirano com escravos conquistados, e vastos exércitos obedientes (8).

A guerra foi bem sucedida, e a ruína limitada à pequena (embora bela) região de Beleriand. Morgoth foi então de fato feito prisioneiro em forma física (9), e naquela forma tomado como um mero criminoso para Aman e entregue a Namo Mandos como juiz – e executor. Ele foi julgado, e eventualmente levado para fora do Reino Abençoado e executado: isto é, morto como um dos Encarnados. Ficou então claro (embora deva ter sido compreendido antes por Manwe e Namo) que, embora ele tenha ‘disseminado’ seu poder (sua maligna e possessiva e rebelde vontade) longe e amplamente na matéria de Arda, ele perdeu o controle direto disso, e tudo que ‘ele’, enquanto um resto sobrevivente de um ser inteiro,  manteve como ‘si mesmo’ e sob controle era o espírito terrivelmente diminuído e reduzido que habitava seu auto-imposto (mas agora amado) corpo. Quanto este corpo foi destruído ele estava fraco e inteiramente ‘desabrigado’, e àquele tempo  perplexo e ‘desancorado’ como estava. Nós lemos que ele então foi arremessado no Vazio (10). Isto deve significar que ele foi colocado fora do Tempo e Espaço, toalmente fora de Eä; mas se assim o foi então isto implicaria em uma intervenção direta de Eru (com ou sem súplica dos Valar). Isto pode, contudo, se referir inacuradamente * à extrusão ou fuga de seu espírito de Arda.

(* [nota de rodapé ao texto] Uma vez que as mentes dos Homens (e mesmo dos Elfos) eram inclinadas a confundir o ‘Vazio’, enquanto o conceito de Não-ser, fora da Criação ou Eä, com o sentido de vastos espaços dentro de Eä, especialmente aqueles concebidos para se situarem no insular ‘Reino de Arda’ ( o qual nós deveríamos provavelmente chamar o Sistema Solar).)

Em qualquer caso, ao buscar absorver ou melhor infiltrar-se através da ‘matéria’, o que então restava dele não era mais poderoso o suficiente para revestir-se novamente. (Ele ficaria então fixo no desejo de o fazer: não havia ‘arrependimento’ ou possibilidade de: Melkor havia abandonado para sempre todas as ambições ‘espirituais’, e existia quase unicamente como um desejo de possuir e dominar a matéria, e Arda em particular). Ao menos ele não poderia ainda revestir-se. Não precisamos supor que Manwe foi enganado ao supor que isto tenha sido uma guerra para acabar com as guerras, ou mesmo para acabar com Melkor. Melkor não era Sauron. Nós falamos deles como ‘enfraquecido, diminuído, reduzido’; mas isto é em comparação com os grandes Valar. Ele havia sido um ser de imensa potência e vida. Os Elfos certamente mantinham e ensinavam que os fëar ou ‘espíritos’ podiam crescer com vida própria (independentemente do corpo), assim como poderiam ser feridos e curados, ser diminuídos e renovados (11). Poder-se-ia esperar, portanto, que o espírito negro do ‘restante’ de Melkor, eventualmente e após longas eras crescesse novamente, e mesmo (como alguns defendem) recuperar para si alguma parte de seu poder anteriormente dissipado. Ele o faria (mesmo Sauron não poderia) devido à sua relativa grandeza. Ele não se arrependeu, ou finalmente se livrou de sua obsessão, mas mantinha ainda resquícios de sabedoria, de forma que ele ainda poderia buscar seu objetivo indiretamente, e não simplesmente cegamente. Ele descansaria, buscaria curar a si mesmo, se distrairia com outros pensamentos e desejos e aparatos – mas tudo simplesmente para recuperar força suficiente para retornar a atacar os Valar, e à sua antiga obsessão. Enquanto crescesse ele se tornaria, como fora, uma sombra escura, aguardando nos confins de Arda e a desejando.

De qualquer forma a destruição das Thangorodrim e a extrusão de Mekor foi o fim de ‘Morgoth’ como tal, e daquela era (e muitas eras depois). Foi também, portanto, em um sentido o fim da função e tarefa primordiais de Manwe enquanto Rei Mais Antigo, até o Fim. Ele havia sido o Adversário do Inimigo.

É bastantante razoável supor que Manwe soubesse que sem tardar (pois ele via o ‘tempo’) o Domínio dos Homens começaria, e a criação da história então seria transferida a eles: para sua batalha com o Mal arranjos especiais haviam sido feitos! Manwe sabia de Sauron, é claro. Ele havia comandado que Sauron viesse perante ele para julgamento, mas deixou espaço para o arrependimento e a reabilitação final. Sauron recusou e fugiu, escondendo-se. Sauron, contudo, era um problema com o qual os Homens teriam que lidar afinal: a primeiras de muitas concentrações do mal em pontos-de-poder definidos que eles teriam que combater, assim como era também a última daquelas formas ‘mitológicas’ personalizadas (mas não-humanas).

Deve ser notado que a primeira derrota de Sauron foi obtida pelos Numenorianos sozinhos (embora Sauron não foi de fato derrotado pessoalmente; sua ‘catividade’ foi voluntária e um truque). Na primeira derrota e desencarnamento de Sauron na Terra-média (ignoranto o assunto de Lúthien) (12)


Aqui a versão longa em B se interrompe, ao pé da página. Eu forneço agora a conclusão da versão A a partir do ponto onde o texto diverge (ver nota 6), começando com a sentença correspondente a B ‘O último esforço maior, deste tipo demiúrgico, feito pelos Valar… ’


O último esforço maior, deste tipo demiúrgico, feito pelos Valar foi a elevação das Pelori – mas este não foi um ato bom: chegou próximo a imitar Morgoth em sua própria maneira de agir – à parte o elemento de egoísmo em seu objetivo de preservar Aman como uma região abençoada para viver.

Os Valar eram como arquitetos trabalhando com um plano ‘passado’ pelo Governo. Eles se tornaram menos e menos importantes (estruturalmente!) enquanto o plano se tornava mais e mais completo. Mesmo na Primeira Era nós os vemos após incontáveis eras de trabalho já perto do fim de seu tempo de trabalho – não de sabedoria ou conselho. (Quanto mais sábios eles se tornavam menos poder eles tinham para fazer qualquer coisa – exceto por aconselhamento).

De forma similar os Elfos esvaeceram, tendo introduzido ‘arte e ciência’ (13). Homens também irão ‘esvaecer’, caso se prove que é o plano que as coisas deverão continuar, quando eles completarem sua função. Mas mesmo os Elfos tinham a noção de que este não seria o caso: que o fim dos Homens seria de alguma maneira associado com o fim da história, ou como eles chamavam ‘Arda Desfigurada’ (Arda Sahta), e a obtenção da ‘Arda Curada’ (Arda Envinyanta) (14). (Eles não parecem ter sido claros ou precisos – como poderiam ser! – se Arda Evinyanta era um estado permanente, o qual portanto poderia ser aproveitado apenas ‘fora do Tempo’,  como era: examinando o Conto como um todo englobado; ou um estado de benção intacta dentro do Tempo e em um ‘lugar’ que era de alguma forma um descendente linear e histórico de nosso mundo ou ‘Arda Desfigurada’. Ele frequentemente parecem ter querido dizer ambos. ‘Arda Imaculada’ não existia de fato, mas permanecia em pensamento – Arda sem Melkor, ou melhor, sem os efeitos dele ao se tornar maligno; mas esta é a fonte da qual todas as idéias de ordem e perfeição são derivadas. ‘Arda Curada’ é portanto o encerramento do ‘Conto de Arda’ o qual leva em consideração todos os feitos de Melkor, mas que devem, de acordo com a promessa de Iluvatar, serem vistos como bons; e também um estado de reparação e benção além dos ‘círculos do mundo’.) (15)

O Mal é fissíparo. Mas infértil em si mesmo. Melkor não poderia ‘gerar’, ou ter qualquer esposa (embora tenha tentado violar Arien, isto seria para destruí-la e distanciá-la (16), não para gerar uma descendência ígnea). A partir das dissonâncias na Música – isto é, não diretamente de nenhum de seus dois temas (17), de Eru ou de Melkor, mas a partir de sua dissonância de um em relação ao outro – coisas malignas surgiram em Arda, as quais não se originaram de qualquer plano direto ou visão de Melkor: eles não eram ‘seus filhos’; e, portanto, uma vez que todo o mal odeia, o odiava também. A progenitura das coisas estava corrompida.  Então Orcs? Parte da idéia Elfo-Homem dando errado. Em relação aos Orcs, os Eldar acreditavam que Morgoth de fato os ‘gerou’ capturando Homens (e Elfos) no início e ampliando ao máximo quaisquer tendências corruptas que eles possuíssem.


Apesar de seu estado incompleto (seja devido à perda da conclusão da versão completamente desenvolvida do ensaio ou ao seu abandono, ver nota 6) este é o mais completo registro que meu pai escreveu de como, em seus anos tardios, veio a ‘interpretar’ a natureza do Mal em sua mitologia; nunca em nenhum outro lugar ele escreveu tal exposição da natureza de Morgoth, ou seu declínio, e de sua corrupção de Arda, nem explicitou a distinção entre Morgoth e Sauron: ‘o todo da Terra-média era o Anel de Morgoth’.

Situar este ensaio em relação sequencial aos demais escritos ‘filosóficos’ ou ‘teológicos’ fornecidos neste livro [HoME XI] com qualquer grau de certeza parece dificilmente possível, embora Fionwë filho de Manwë (ao invés de Eonwe arauto de Manwe) pode sugerir que ele se situa em um período relativamente antigo com relação a eles. Ele mostra uma semelhança evidente em tom a muitas das cartas de exposição que meu pai escreveu no final dos anos 1950 e de fato parece-me muito possível que a correspondência que se seguiu à publicação de O Senhor dos Anéis tenha tido parte significativa no desenvolvimento desta examinação das ‘imagens e eventos’ da mitologia (18).

NOTAS

1. Ragnarok: ‘o Destino dos Deuses’ (Nórdico Antigo): ver HoME IX

2. hroa: assim escrito aqui e na segunda ocorrência abaixo (e no texto A), não como em outros lugares hröa, onde significa o corpo de um ser encarnado. A palavra usada para ‘matéria física’ no Leis e Costumes era hrón, mais tarde alterada para orma (nota 26); no Comentário sobre o Athrabeth e no ‘Glossário’ de nomes a palavra é erma.

3. Sobre esta sentença ver p. 271

4. Condenação explícita, fortemente expressa aos Valar pelo Ocultar de Valinor é encontrado na história de mesmo nome em O Livro dos Contos Perdidos (HoME I), mas desaparece em versões posteriores. Da história antiga eu registrei (HoME I) que ‘no Silmarillion não há vestígios do tumultuoso conselho, nenhuma sugestão de desacordo entre os Valar, com Manwe, Varda e Ulmo ativamente desaprovando o trabalho e se distanciando dele’, e eu comentei:

É muito curioso observar que a ação dos Valar aqui surge essencialmente da indolência misturada com medo. Em nenhum lugar a concepção inicial de meu pai sobre os indolentes Deuses aparece mais claramente. Ele manteve, contudo, de forma bastante explícita que a falha deles em travar guerra contra Melko àquele tempo e naquele lugar fora um erro profundo, diminuindo a si mesmos, e (assim parece) irreparável. Eu seu escritos posteriores o Ocultar de Valinor de fato permaneceu, mas apenas como um grande fato de mitológica antiguidade; não há nenhum indício de sua condenação.

As últimas palavras se referem à narrativa constante no Silmarillion. A desaprovação de Ulmo agora reaparece, e é uma evidência adicional de seu isolamento nos conselhos dos Valar (ver nota 11); isto é, suas palavras a Tuor em Vinyamar (tendo falado a ele, entre outras coisas, da ‘ocultação do Reino Abençoado’, embora o que ele disse não seja registrado): Portanto, embora nestes dias de escuridão eu pareça me opor à vontade de meus irmãos, os Senhores do Oeste, dos quais faço parte, para o que fui indicado antes da criação do Mundo’ (Contos Inacabados).

5.  No original pleasaunce (=  pleasance):  um ‘jardim prazeiroso’. Meu pai uso a palavra várias vezes em O Livro dos Contos Perdidos, por exemplo com relação aos jardins de Lorien.

6. A este ponto meu pai mais tarde escreveu no manuscrito:  ‘Ver a forma original curta de Esvaecer dos Elfos (e Homens)’. Esta parece uma clara indicação de que B não foi completado, ou que se o foi a conclusão foi perdida logo no princípio.

7. Confira a afirmação sobre este assunto no breve texto I

8. Uma vez que esta discussão é introduzida em justificação para o Ocultar de Valinor, o ponto em que argumento se baseia parece ser que a história da Terra-média nos últimos séculos da Primeira Era não teriam sido possíveis de conclusão se Valinor tivesse continuado aberta ao retorno dos Noldor.

9. Assim, claro, como aconteceu a Melkor muito antes, após o saque a Utumno.

10. Confira na conclusão de QS (HoME V): ‘Mas o próprio Morgoth os Deuses atiraram através da Porta da Noite no Vazio Atemporal, além das Muralhas do Mundo’.

11. O seguinte foi adicionado marginalmente após a página ter sido escrita:

Se eles não mergulharam abaixo de certo nível. Uma vez que nenhum fëa poderia ser aniquilado, reduzido a zero ou à não-existência,  não é claro o que significa. Portanto Sauron é dito ter caído abaixo do ponto de recuperação, embora anteriormente tenha se recuperado. O que provavelmente significa é que um espírito ‘malicioso’ se torna fixado em um certo desejo ou ambição, e se não pode se arrepender então seu desejo se torna virtualmente seu ser como um todo. Mas o desejo pode estar completamente além da fraqueza para onde caiu, e ele será incapaz de retirar sua atenção do desejo inalcançável, mesmo para cuidar de si mesmo. Permanecerá para sempre em impotente desejo ou memória do desejo.

12. Uma referência para a lenda da derrota de Sauron por Luthién e Huan na ilha de Tol-in-Gaurhoth, onde Beren foi aprisionado (O Silmarillion).

13. Confira na Carta #181 (1956): ‘Neste mundo mitológico os Elfos e Homens são parentes, em suas formas encarnadas, mas com relação a seus “espíritos” para o mundo representam diferentes “experimentos”, cada um dos quais com sua própria tendência natual, e fraqueza. os Elfos representam os aspectos artísticos, estéticos e puramente científicos da natureza Humana elevados a um nível mais alto do que o de fato visto nos Homens’.

14. No texto FM2 de ‘Finwe e Miriel’ (HoME XI, nota de rodapé) ‘Arda Desfigurada’ é Arda Hastaina. Arda Envinyanta, em ambas as ocorrências, foi inicialmente escrita Arda Vincarna.

15. Com relação a esta passagem em parenteses confira especialmente  a nota (iii) no final de Leis e Costumes;

16. No original ‘distain’, um antigo verbo significando ‘manchar’, ‘descolorir’, ‘profanar’.

17. Os Três Temas de Iluvatar na Música dos Ainur são aqui tratados como um único tema, em oposição ao ‘tema’ discordante de Melkor.

18. Em uma carta de junho de 1957 (Carta #200) ele escreveu:

Eu lamento que tudoisso pareça monótono e ‘pomposo’. Mas assim o são todas as tentativas de ‘explicar’ as imagens e eventos de uma mitologia. Natuaralmente as histórias surgem primeiro. Mas isto é, suponho, algum teste de consistência de uma mitologia como tal, se é capaz de algum tipo de explicação racional ou racionalizada.

Os Anais de Aman – Quarta Seção

The History of Middle-earth X - Morgoth's RingA Valinor tem a honra de publicar a quarta parte de um total de seis que compõem os Anais de Aman,
um longo registro dos acontecimentos desde a criação de Arda até a Criação do Sol e da Lua escrito  pelo próprio J. R. R. Tolkien e publicado no The History of Middle-earth 10. Esta quarta parte (leia também a primeira, a segunda e a terceira) engloba o período desde a Libertação de Melkor até a Destruição das Árvores.
Quarta Seção dos Anais de Aman
[Esta seção dos Anais possui uma grande quantidade de mudanças feitas durante a escrita, e também várias alterações e adições – algumas substanciais – que certamente parecem pertencer basicamente à mesma época. Estas foram incorporadas ao texto fornecido aqui, com detalhes das alterações mais importantes registrados nas notas que se seguem. Algumas poucas adições curtas que são decididamente posteriores estão colocadas nas notas.]
1179

§78 Fëanor, filho mais velho de Finwë, nasceu em Tirion sobre Túna. Sua mãe foi Byrde Míriel (1).


§79 Então os Noldor (2) passaram a apreciar todos os conhecimentos e todos os trabalhos práticos e Aulë e seu povo vinham com freqüência entre eles. Mas tal era a habilidade que Ilúvatar dera a eles que, em muitos aspectos, especialmente naqueles que demandavam destreza e grande qualidade no trabalho manual, eles logo ultrapassaram seus professores. É dito que a este tempo os construtores da Casa de Finwë, escavando as montanhas em busca de pedras para suas construções (pois eles apreciavam a construção de altas torres), descobriram pela primeira vez as gemas da terra, nas quais a Terra de Aman eram, de fato, incrivelmente ricas. E seus artífices desenvolveram ferramentas para cortar e modelar as gemas, as esculpiram em muitas formas de radiante beleza e não as guardavam em tesouros mas as davam livremente para todos que as desejassem, e toda Valinor foi enriquecida por seus trabalhos (3).

§80 Neste ano Rúmil, o mais renomado dos mestres do conhecimento da fala, criou pela primeira vez letras e começou a registrar em escrita os idiomas dos Eldar e suas canções e sabedoria (4).


1190

§81 Neste ano nasceu Fingolfin filho de Finwë, que mais tarde foi Rei dos Exilados.


1230

§82 Finrod filho de Finwë nasceu.


1250

§83 A este tempo começou a se desenvolver a habilidade de Fëanor filho de Finwë, que era dentre todos os Noldor o maior criador e artífice. E ele pensou e desenvolveu novas letras, melhorando os sistemas de Rúmil, e estas letras os Eldar têm usado desde aquele dia. Isto foi senão o início dos trabalhos de Fëanor. Ele amava grandemente as gemas, e ele começou a estudar como, pela habilidade de sua mão e mente, ele poderia fazer outras maiores e mais brilhantes do que aquelas escondidas na terra (5).

§84 [A este tempo também, é dito entre os Sindar, os Naugrim (6) a quem também chamamos os Nornwaith (os Anões) vieram por sobre as montanhas para Beleriand e foram conhecidos pelos Elfos. E os Anões eram grandes ferreiros e construtores, sendo, de fato (assim se acredita) trazidos à existência por Aulë; mas antigamente pouco beleza havia em suas obras. Portanto cada povo teve grande benefício no outro, embora sua amizade sempre tenha sido fria. Mas àquele tempo não havia desavenças entre eles e o Rei Thingol deu-lhes as boas-vindas, e os Barbalongas de Belegost ajudaram-no na escavação e construção dos grandes salões de Menegroth, onde ele passou a morar com Melian, sua Rainha. Assim disse Pengolod] (6)

1280

§85 Neste ano Finrod filho de Finwë casou-se com Ëarwen filha do Rei Olwë de Alqualondë, e houve uma grande desta na terra dos Teleri. Portanto os filhos de Finrod, Inglor e Galadriel, eram parentes do Rei Thingol Capacinzenta em Beleriand.

1350

§86 [A este tempo, parte dos Elfos perdidos do povo de Dân após longas andanças chegaram a Beleriand a partir do Sul.  Seu líder era Denethor filho de Dâ, e ele os conduziu a Ossiriand onde sete rios corriam das Montanhas de Lindon. Estes são os Elfos Verdes. Eles tinham a amizade de Thingol. Quoth Pengolod.](8)

1400

§87 Veio a acontecer que Melkor residiu sozinho sob Mandos forçadamente pelas três eras definidas pelos Valar, e veio ante seu conclave ser julgado. E Melkor implorou por perdão aos pés de Manwë, humilhou-se, jurou seguir suas regras e a ajudar os Valar de todas as formas que pudesse pelo bem de Arda e o benefício dos Valar e dos Eldar, se a ele fosse concedida liberdade e um lugar como o último dentre todos os povos de Valinor.

§88 E Niënna auxiliou no seu pedido (devido ao seu parentesco) e Manwë o concedeu, pois sendo livre de todo o mal ele não viu as profundezas do coração de Melkor, e acreditou em seus juramentos. Porém Mandos ficou em silêncio e o coração de Ulmo ficou em dúvida.

1410

§89 Então Melkor residiu sob vigilância por algum tempo em uma casa humilde em Valmar, e não tinha permissão de andar sozinho livremente. Mas, uma vez que àquele tempo todas as suas palavras e trabalhos eram belos e ele se tornara em todas as formas e aparências como os Valar seus irmãos, Manwë deu a ele liberdade dentro de Valinor. Mas a alegria de Tulkas ficava enevoada sempre que ele via Melkor passar, e as unhas de seus dedos marcavam a palma de suas mãos, devido aos esfoço que fazia para se conter.

§90 E realmente Melkor fora falso e traiu a clemência de Manwë, e usou sua liberdade para espalhar amplamente mentiras e envenenar a paz de Valinor. Então uma sombra caiu sobre a Terra Abençoada e seu Meio Dia dourado passou; mas ainda levaria tempo para que as mentiras de Melkor frutificassem, e os Valar continuaram vivendo em felicidade.

§91 Em seu coração Melkor odiava mais os Eldar, tanto por sua beleza e alegria e porque neles ele via a razão do destaque dos Valar e sua própria queda e humilhação. Portanto mais do que tudo ele fingia amor por eles, procurava suas amizades, e oferecia a eles o serviço de seu conhecimento e trabalho em qualquer grande feito que eles fizessem. E muitos dos Noldor, devido ao seu desejo por todo conhecimento, lhes deram ouvidos e se deliciaram com seus ensinamentos. Mas os Vanyar não se envolveram com ele.

1449

§92 Neste Ano Fëanor começou aquele trabalho que é renomado acima de todos os trabalhos da Eldalië; pois seu coração concebeu as Silmarils, e ele fez muitos estudos e muitos ensaios antes que sua fabricação pudesse começar. E embora Malkor tenha dito mais tarde que Fëanor teve sua instrução naquele trabalho, ele mentiu em seu desejo e sua inveja; pois Fëanor foi conduzido apenas pelo fogo de seu próprio coração, e era ávido e orgulhoso, trabalhando sempre rapidamente e sozinho, não pedindo ajuda e não buscando conselho.

1450



As Silmarilli de Fëanor são feitas

§93 Neste ano as Silmarils ficam completamente prontas, a maravilha de Arda. Como três grandes jóias elas eram em forma. Mas não até o Fim, quando Fëanor deverá retornar, ele que pereceu quando o Sol era jovem e senta-se agora nos Salões da Espera e não virá mais entre sua raça, não antes do Sol passar e a Lua cair, será conhecida a substância com a qual foram feitas. Como o cristal dp diamante ela se parecia mas era mais forte que o adamante, de forma que nenhuma violência dentro dos muros deste mundo pode marcá-la ou quebrá-la. Aquele cristal era para as Silmarils como é o corpo para os Filhos de Ilúvatar: a casa de seu fogo interior, que está dentro dela e também em todas as partes dela, e sua vida. E o fogo interno das Silmarills Fëanor fez com a Luz misturada das Árvores de Valinor que ainda vive nelas, embora as Árvores há muito tenham secado e não brilhem mais. Portanto mesmo na mais completa escuridão as Silmarils brilham por sua própria luz como as estrelas de Varda, e mais, como são de fato coisas vivas, elas se deliciam na luz, a recebem e a dão de volta em tons ainda mais belos que antes.

§94 E todo o povo de Valinor ficou impressionado com o trabalho manual de Fëanor, e ficaram maravilhados e deliciados, e Varda abençoou as Silmarils, de forma que dali em diante nenhum mortal nem coisa maligna ou suja poderia tocá-las, ou seriam marcados e queimados com intolerável dor. E Melkor desejou as Silmarils e a simples memória de sua luz era como um fogo queimando em seu coração.


1450 – 1490

§95 Devido a isso, embora continuasse a dissimular seus propósitos com grande sutileza, Melkor procurava agora ainda mais ansiosamente como poderia destruir Fëanor e encerrar a amizade de Valar e Eldar. Longamente esteve ele trabalhando, e lento e infrutífero era seu esforço inicialmente. Mas aquele que semeia mentiras no final não deixará de ter uma colheita, e de fato logo ele pode descansar do esforço, enquanto outros colhiam e semeavam em seu lugar. Mesmo Melkor encontrou alguns ouvidos que o ouviriam, e algumas línguas que aumentariam o que ouviram. Pois as mentiras de Melkor criavam raízes pela verdade que havia nelas.

§96 Então aconteceu que surgiram murmúrios em Eldamar de que os Valar haviam trazido os Eldar a Valinor por inveja de suas belezas e habilidades, e temendo que eles pudessem crescer fortes demais para serem governados nas terras livres do Leste. E então Melkor predisse a chegada dos Homens, dos quais os Valar ainda não haviam falado aos Elfos, e novamente foi murmurado que os deuses tinham a intenção de reservar os reinos da Terra-média para a raça mais jovem e mais fraca, os quais eles poderiam dominar mais facilmente, destituindo os Elfos da herança de Ilúvatar.

§97 Então finalmente os príncipes dos Noldor começaram a murmurar contra os Valar, e muitos ficaram cheios de orgulho, esquecendo tudo que os Valar os havia ensinado e dado. E naquele tempo (tendo criado ira e orgulho) Melkor falou aos Eldar sobre armas, que antes eles não tinham possuído ou conhecido; pois os arsenais dos Valar foram fechados após o acorrentamento de Melkor. Mas agora os Noldor começaram a fundição de espadas e machados e lanças; e escudos eles fizeram contendo os símbolos de muitas casas e grupos que competiam uns contra os outros.

§98 Um grande ferreiro era Fëanor naqueles dias, e um príncipe orgulhoso e dominante, vigilante de tudo que ele tinha; e Melkor o vigiava. Pois ainda desejava as Silmarils; mas agora raramente Fëanor as trazia à luz, e as mantinha trancadas na escuridão do tesouro de Túna; e ele começou a limitar a visão delas a todos exceto a seu senhor e seus sete filhos. Por isso Melkor lançou novas mentiras de que Fingolfin estava planejando suplantar Fëanor e seu pai aos olhos dos Valar, e conseguiria, pois os Valar estavam aborrecidos pelo fato das Silmarills não terem sido deixadas a seus cuidados. Por essas mentiras disputas surgiram entre os orgulhosos filhos de Finwë e Melkor estava satisfeito; pois tudo ia conforme seu planejamento. E repentinamente os Valar ficaram cientes que a paz de Valinor fora quebrada e as espadas desembainhadas em Eldamar.

1490

§99 Então os Deuses se enfureceram, e eles chamaram Fëanor perante eles. E eles expuseram todas as mentiras de Melkor; mas por ter sido Fëanor o primeiro a quebrar a paz e ameaar violência em Aman ele foi, pelo julgamento deles, banido por vinte (10) anos de Tirion. E ele partiu  e residiu ao norte de Valinor perto dos salões de Mandos, e construiu um novo tesouro e forte em Formenos, e grande riqueza em jóias ele colocou no tesouro, e as Silmarils foram trancadas em uma sala de ferro. E para este lugar veio Finwë, pelo amor que dedicava a Fëanor, e Fingolfin governou os Noldor de Túna. Desta forma as mentiras de Melkor foram aparentemente feitas verdade, e o amargor que ele criou permaneceu por muito tempo entre os filhos de Fingolfin e Fëanor.

§100 Diretamente do Círculo do Destino Tulkas foi rapidamente colocar as mãos em Melkor, mas Melkor sabendo que seus esquemas foram revelados (11) ocultou-se, e uma nuvem estava ao redor dele, e pareceu ao povo de Valinor que a luz das Árvores tornou-se mais fraca do que costumava ser, e as sombras eram mais negras e longas.

1492

§101 E é dito que Melkor não foi visto novamente por algum tempo; mas repentinamente ele apareceu ante as portas da casa de Finwë e Fëanor em Formenos e buscou falar com eles. E disse a eles: Contemplem a verdade de tudo que eu falei, e como você está, de fato, banido injustamente. E não pense que as Silmarils estejam seguram em qualquer tesouro dentro do reino dos deuses. E se o coração de Fëanor ainda é livre e corajoso como suas palavras o foram em Túna, então eu irei ajudá-lo e levá-lo para longe desta terra estreita. Pois não sou eu um Vala tal como eles? Sim, e mais do que eles, e sempre fui um amigo dos Noldor, o mais habilidoso e valoroso de todos os povos de Arda.

§102 Então o amargor aumentou no coração de Fëanor e se encheu com medo pelas Silmarils, e naquele estado de espírito permaneceu. Mas as palavras de Melkor tocaram fundo demais, e despertaram um fogo mais terrível do que ele pretendia; e Fëanor olhou para ele com olhos brilhantes, e veja! viu através da aparência de Melkor e vislumbrou as secritudes de sua mente, percebendo ali o desejo pelas Silmarils. Então o ódio suplantou todo o medo e ele amaldiçoou Melkor e ordenou sua partida. ‘Partais de meu portão, andarilho (12), corvo da prisão de Mandos’, disse ele, e fechou as portas de sua casa no rosto do mais poderoso de todos os habitantes de Ëa.

§103 E àquele tempo, estando ele próprio em perigo, Melkor partiu, consumido pela raiva, e vingança amarga ele planejou por sua humilhação. E Finwë se encheu com grande medo e rapidamente enviou mensageiros a Manwë em Valmar.

§104 Então Oromë e Tulkas partiram em perseguição a Melkor, mas antes que tivessem cavalgado longe mensageiros chegaram de Eldamar, relatando que Melkor fugira através do Kalakiryan (13), passando pela colina de Túna em fúria, como uma nuvem de tempestade. Com a fuga de Melkor a sombra foi retirada de Valinor e por algum tempo toda a terra foi bela novamente. Mas os deuses procuraram em vão por sinais de seu inimigo, e dúvida desceu sobre seus corações sobre qual seria o novo mal que ele poderia tentar.

§105 É dito que Melkor chegou à região escura de Arvalin. Aquela terra estreita ficava ao sul da Baía de Eldamar, mas a leste das montanhas das Pelóri, e seu longo e melancólico litoral se estendia até o Sul do mundo, sem luz e inexplorado. Ali, entre os lisos muros das montanhas e o Mar frio e escuro, as sombras eram as mais profundas do mundo. E ali secretamente Ungoliantë fizera sua morada. De onde viera nenhum dos Eldar sabe, mas talvez ela tenha vindo para o Sul das escuridões de Ëa, no tempo em que Melkor destruiu as luzes de Illuin e Ormal, e devido às suas moradas no Norte a atenção dos Valar foi voltada principalmente para lá e o Sul ter ficado por muito tempo esquecido. Dali ela ela rastejava lentamente em direção ao reino de luz dos Valar. Pois ela ansiava pela luz e a odiava. Em uma fenda profunda das montanhas ela residia, e tomou forma como se fosse uma aranha monstruosa, sugando toda a luz que podia encontrar ou que passava por sobre os muros de Valinor, e a lançava de volta na forma de teias negras de opressiva escuridão, até que nenhuma luz pudesse mais chegar à sua morada e ela estivesse faminta.

§106 Pode muito bem ser que Melkor, se nenhum outro, soubesse dela, sua existência e sua morada, e que ela fosse no início um daqueles que ele corrompeu a seu serviço. E chegando finalmente a Arvalin, procurou por ela e exigiu ajuda em sua vingança. Mas ela estava relutante em enfrentar os perigos de Valinor e a grande fúria  dos deuses, e não partiria de seu esconderijo antes de Melkor ter jurado dar a ela uma recompensa que curaria a persistente dor de sua fome e raiva.

1495

§107 E finalmente tendo organizado bem seus planos Melkor e Ungoliantë partiram. Uma grande escuridão que Ungoliantë tecera estava ao redor deles, e cordas negras ela também lançara e fixara entre as rochas e depois de longo esforço, de teia a teia, ela escalou finalmente até o pico de Hyarantar, que é o mais alto pináculo das montanhas ao sul de Taniquetil. Lá, de fato (exceto por aquela torre de vigia do Sul), as Pelóri era menos imponentes e menor era a vigilância dos Valar, pois eles tinha sempre estado em guarda principalmente contra o Norte.

§108 Então Ungoliantë teceu uma escada de cordas e a lançou para baixo, Melkor a escalou e então chegou àquele local elevado, de onde podia observar o Reino Vigiado abaixo. E abaixo ficavam as verdejantes florestas selvagens de Oromë, e longe no oeste os brilhantes campos e pastos de Yavanna, de um dourado pálido abaixo dos altas plantações de grãos dos deuses. E Melkor olhou para o norte, e viu ao longe a planície radiante, os domos prateados de Valmar reluzindo na junção das luzes de Telperion e Laurelin. Então Melkor gargalhou alto e desceu rapidamente ao longo da encosta oeste; Ungoliantë estava a seu lado e sua escuridão os cobria.

§109 Ora, era um tempo de festival, como Melkor bem sabia. Pois, embora todas as marés e estações estivessem sob a vontade dos Valar e não existisse em Valinor inverno de morte, os deuses residiam então no reino de Arda que não era mais do que um pequeno reino nos salões de Ëa, cuja vida é Tempo, que flui sempre desde a primeira nota ao último acorde de Eru. E era então o prazer dos Valar (como dito no Ainulindalë) vestirem-se nas formas dos Filhos de Ilúvatar, e comiam e eles bebiam e colhiam os frutos de Yavanna, e retiravam força da Terra a qual sob Eru eles fizeram.

§110 Portanto Yavanna fixou tempos para o florescer e a maturação de todas as coisas que crescem: crescimento, florescimento e tempo da semente. E de cada primeiro colher de frutos Manwë fazia um clímax de exaltação a Eru, e todo o povo de Valinor externava sua felicidade em música e canção. E tal era esta hora; e Manwë, esperando de que fato a sombra de Melkor tivesse sido removida da terra, e temendo nada pior do que, talvez, uma nova guerra com Utumno e uma nova vitória para encerrar tudo, decretou que esta comemoração deveria ser mais gloriosa do que qualquer outra feita desde a chegada dos Eldar. Ele também desejou curar o mal que surgiu entre os Noldor, e todos eles foram chamados, por isso, para ir até ele e compartilhar com os Maiar em seus salões sobre o Taniquetil e lá deixar de lado todos os pesares que permaneciam entre seus príncipes e esquecer de uma vez por todas as mentiras de seu Inimigo.

§111 Lá foram os Vanyar, e lá foram os Noldor, e os Maiar estavam reunidos, e os Valar estavam adornados em sua beleza e majestade, e cantaram ante Manwë em seus altos salões, ou se divertiram sobre as encostas gramadas a oeste do Taniquetil , em direção às Árvores. Naquele dia as ruas de Valmar estavam vazias e as escadas de Túna silenciosas, apenas os Teleri além das montanhas continuavam cantando no litoral do Mar, pois eles se importavam pouco com estações ou tempos, e não pensavam nas preocupações dos Regentes de Arda ou na sombra que caíra sobre Valinor, pois ela não os tocara, ainda.

§112 Apenas uma coisa maculou os desígnios de Manwë. Fëanor de fato veio, pois apenas a ele Manwë comandou que viesse; mas Finwë não veio nem nenhum outro dos Noldor de Formenos. Pois disse Finwë, ‘Enquanto o banimento permanecer sobre Fëanor meu filho, que ele não possa ir a Túna, eu me mantenho afastado da coroa, e não encontrarei meu povo, nem aqueles que governam em meu lugar’. E Fëanor não foi em vestimentas de festival, e não usava nenhum ornamento, nem prata nem ouro nem nenhuma gema; e vetou a visão das Silmarils aos Eldar e Valar, e as deixou trancadas nas escuridão de sua sala de ferro. Contudo, ele encontrou Fingolfin ante o trono de Manwë e se reconciliou em palavras, e Fingolfin colocou um fim ao desembainhar da espada.

§113 É dito que enquanto Fëanor e Fingolfin estavam perante Manwë, ocorreu a União das Luzes e ambas as Árvores estavam brilhando e a silenciosa cidade de Valmar foi preenchida com radiância como de prata e ouro, e naquela hora Melkor e Ungoliantë vieram à planície e pararam à frente do Monte Verdejante. Então Melkor veio e com sua lança negra feriu cada Árvore até seu centro, um pouco acima das raízes, e suas seivas escorreram, como se fosse seu sangue, e se esparramaram sobre o chão. E Ungoliantë a sugou, e indo então de Árvore a Árvore ela colocou seus lábios imundos em suas feridas, até que estivessem exauridas; e o veneno que existia nela passou para seus corpos e as murchou; e elas morreram. E Ungoliantë continuava sedenta, e foi aos Vasos de Varda e tomou deles até secarem; e Ungoliantë expelia vapores negros enquanto bebia, e cresceu para uma forma tão vasta e horrível que mesmo Melkor ficou aterrorizado.

§114 Então a Escuridão caiu sobre Valinor. De todos os feitos daquele dia muito é dito no Aldudénië (o Lamento pelas Árvores) que Elemírë dos Vanyar compôs e é conhecido de todos os Eldar. Mas nenhuma canção ou conto poderia conter todo o pesar e terror que então caiu. A Luz falhou, e isto era já era calamidade suficiente, mas a Escuridão que se seguiu era mais do que a perda de luz. Naquela hora foi criada a Escuridão que parecia não ausência mas uma coisa com existência própria: pois era de fato feita por malícia a partir da Luz, e tinha o poder de atingir os olhos, adentrar coração e mente, e estrangular a própria vontade.

§115 Varda olhou para baixo da Montanha Sagrada e contemplou a Sombra subindo em repentinas torres de escuridão; Valmar foi encoberta em um profundo mar de noite. Logo Taniquetil ficou sozinho, como uma última ilha de luz em um mundo que afundara. Toda música cessou. Houve silêncio em Valinor e nenhum som podia ser ouvido, exceto apenas aquele de longe que vinha com o vento através da fenda nas montanhas, o lamento dos Teleri como o grito frio das gaivotas. Pois ventou gelado do Leste naquela hora, e as vastas sombras do Mar se voltaram contra os muros do litoral.

§116 E Manwë de seu alto trono olhou, e apenas seus olhos atravessavam a escuridão, e viu ao longe como uma Escuridão além do escuro se movia para o norte pela terra, e ele soube que Melkor estava lá. Então a perseguição começou, e terra tremeu sob os cavalos da hoste de Oromë, e o fogo que saiu dos cascos de Nahar foi a primeira luz que retornou a Valinor. Mas tão logo quanto chegavam à Nuvem de Ungoliantë os cavaleiros dos Valar eram cegados e desencorajados, e se separaram e não sabiam mais para onde ir; e o som da Valaróma hesitou e falhou.  E Tulkas era como um homem pego em uma teia negra na noite, e ele ficou impotente e golpeava o ar em vão. E quando a Escuridão passou, era tarde demais: Melkor tinha ido para onde queria, e sua vingança estava totalmente realizada.


NOTAS


1.
Este registro é uma substituição antiga, o registro original, referente ao casamento de Finrod e Ëarwen filha de Olwë, reaparece em forma bastante no manuscrito como originalmente escrito sob o ano de 1280. Mais tarde, com caneta esferográfica, meu pai alterou a data deste registro para 1169 e adicionou novos registros para 1170, ‘Míriel adormeceu e passou para Mandar’, e 1172 ‘Julgamento de Manwë com relação aos casamentos dos Eldar’. Sobre estes assuntos ver nota 4 abaixo. os novos registros aparecem na versão datilografada original.


2.
O nome Noldor é aqui escrito com um til, Noldor (representando a nasal posterior, o ng de king, ver HoME IV). Esta se tornou a forma normal em todos os escritos tardios de meu pai, embora frequentemente omitido de maneira casual (nenhum de seus datilógrafos possuía este sinal); ele não é representado na escrita do nome Noldor neste livro.


3.
A parte final deste trecho, referente às gemas, é em grande parte uma adição. Como inicialmente escrito, tudo que foi dito sobre o assunto era:

É dito que a por volta desta época os artífices da Casa de Finwë (de quem Fëanor seu filho mais velho era o mais habilidoso) primeiramente divisaram gemas, e toda Valinor foi enriquecida por seus trabalhos.

Ver nota 5.


4.
Um novo registro foi adicionado aqui ao mesmo tempo daqueles dados na nota 1: ‘1185 Finwë se casa com Indis dos Vanyar’.


5.
Esta sentença (‘Ele amava grandemente as gemas…’) é uma adição acompanhando a mudança e expansão citadas na nota 3.


6.
Naugrim foi escrito a lápis sobre o original Nauglath (o qual, contudo, não foi riscado), e a palavra ‘também’ (em ‘a quem também chamamos’) adicionada ao mesmo tempo.


7.
Esta interpolação feita em Beleriand por Pengolod, entre colchetes no original, foi uma adição ao manuscrito; confira nota 8. Ao lado dela meu pai mais tarde escreveu a lápis: ‘Transferir para os A[nais] de B[eleriand]’.


8.
Esta interpolação de Pengolod, entre colchetes, foi uma adição ao manuscrito; e como aquela citada na nota 7 foi marcada mais tarde para ser transferida para os Anais de Beleriand. O nome do líder dos Nandor foi inicialmente escrito Enadar, alterado imediatamente para Denethor (o nome em AV2, QS e o Lhammas).

Mas tarde meu pai adicionou aqui a lápis um novo registro, para 1362: ‘Aqui nasceu Isfin filha de Fingolfin, a Dama Branca dos Noldor’ (ver nota 9).

9. Uma adição rápida a tinta, subsequentemente riscada, dá um registro para 1469: ‘Aqui nasceu a primeira filha de Fingolfin, a Dama Branca dos Noldor’ (ver nota 8). Não é dito em outro lugar que Fingolfin tinha outra filha além de Isfin.


10.
O manuscrito tem ‘três’ o ‘ten’ > ‘vinte’ (Anos dos Valar).


11.
Do inglês bewrayed: ‘revelado’, ‘traído’.


12.
Do inglês gangrel (‘vagabundo’) substituindo beggarman (‘pedinte’, ‘mendigo’).


13.
Meu pai inicialmente escreveu Kalakilya, a forma antiga, mas alterou-a imediatamente para Kalakirya; -n foi adicionado mais tarde (ver §67).


Comentários sobre a quarta seção dos


Anais de Aman
Esta seção dos Anais corresponde em conteúdo ao Capítulo 4 de QS ‘Das Silmarils e o Escurecimento de Valinor‘ (HoME V), e a AV 2 registros 2500 até o começo de 2990 (HoME V). O registro em AAm não tem comparação com o rápido AV 2, e representa um impulso totalmente diferente; de fato, nesta seção nós vemos a forma de registros desaparecendo enquanto narrativas completas surgem. Com frequentemente no caso dos trabalhos de meu pai, a história toma conta e se amplia seja quais forem as restrições de forma que ele optou. A nova narrativa tem o dobro do tamanho daquela em QS, à qual é relacionada em estrutura. Em expressão é quase inteiramente nova, mas mesmo assim uma comparação entre eles mostrará que AAm tende antes a uma maior definição da narrativa do que a mudanças significativas na estrutura ou novas adições notáveis – embora ambas estejam presentes. Os comentários a seguir de forma alguma têm a intenção de serem uma análise de todas as diferenças de ênfase, sugestão e detalhe entre AAm e QS.


§
78 Cedo no AAm, sob o ano 1115, aparecem inserções rejeitadas (ver a Terceira Seção dos Anais de Aman, notas 3 e 5) nas quais estão registradas o nascimento de Fëanor por Indis esposa de Finwë na Terra-média durante a Grande Jornada, e a subseqüente morte dela numa queda nas Montanhas Nebulosas. Escritas com caneta esferográfica estas inserções parecem ser relativamente tardias; aqui, por outro lado, no que parece ser uma adição antiga (escrita cuidadosamente com tinta, veja nota 1 acima), Fëanor nasceu em Tirion, e sua mãe foi Morial, chamada Byrde Míriel (do Inglês antigo byrde ‘bordadeira’). Em adições tardias (notas 1 e 4 acima) é registrado que em 1170 Míriel ‘adormeceu’ e passou para Mandos e em 1185 Finwë casou-se com Indis dos Vanyar.

§79 Em um ponto do começo de QS (§40) é dito que os Noldor ‘desenvolveram a criação de gemas’; similarmente em AV 2 (HoME V) eles ‘inventaram gemas’ e novamente em Ainulindalë B (HoME V). Esta idéia é encontrada em todos os textos antigos, retrocedendo até o elaborado registro no antigo conto de ‘A Chegada dos Elfos‘ (ver HoME I). No período posterior ela sobreviveu na versão final D do Ainulindalë (§35), e continua presente inicialmente em AAm (ver nota 3 acima). A reescrita deste trecho rejeita a idéia de ‘invenção’: as gemas dos Noldor foram minadas em Aman.


§80 A associação dos Noldor com escrita alfabética retorage até os Contos Perdidos, onde esta arte é associada principalmente a Aulë (HoME I); ‘naqueles dias Aulë auxiliado pelos Gnomos desenvolveu alfabetos e escritas’ (HoME I). No Ainulindalë B (HoME V) os Noldor ‘acrescentaram muito aos ensinamentos [de Aulë] e tinham grande prazer em idiomas e alfabetos’, e isto sobreviveu em versões posteriores. Agora Rúmil e (em §83) Fëanor surgem como os grandes inventores. Confira O Senhor dos Anéis, Apêndice E (II):

Os Tengwar… foram desenvolvidos pelos Noldor, a família dos Eldar mais habilodosa em tais assuntos, muito antes de seu exílio. As letras Eldarin mais antigas, os Tengwar de Rúmil, não foram usadas na Terra-média. As letras posteriores, os Tengwar de Fëanor, foram amplamente uma invenção nova, embora devesse algo às letras de Rúmil.

Se Rúmil foi o autor dos Anais de Aman, como é dito no preâmbulo, ele está aqui se descrevendo com as palavras ‘mais renomado dos mestres de conhecimento de idiomas’.


§82 Finrod: nome inicial de Finarfin (Finarphin).


§84 A forma Nauglath (ver nota 6) é, curiosamente, uma reversão ao nome original em Gnômico para os Anões no Contos Perdidos (ver HoME I), embora Naugrim ocorra como uma forma original em QS em um ponto posterior na narrativa (§122). [A entrada Naugrim foi inadvertidamente excluída do índice para o HoME V. As referências são 273, 277, 405.] – Sobre o nome Sindar veja §74.

Sobre referências antigas aos Anões em Beleriand veja IV.336; como eu comentei lá, a afirmação na segunda versão do primeiro Anais de Beleriand (HoME IV) de que os Anões tinham ‘de antigamente’ uma estrada para Beleriand é o primeiro sinal da idéia posterior de que os Anões tinham estado ativos em Beleriand muito antes do Retorno dos Noldor. Mas o presente trecho é a primeira referência aos Anões ajudando Thingol na escavação e contrução de Menegroth. – A lenda da criação dos Anões por Aulë é citada nos textos do período inicial: AB 2 (HoME V), o Lhammas (HoME V e comentários) e QS (§123 e comentários).


§85 Aqui aparece o importante desenvolvimento de acordo com o qual os príncipes da Terceira Casa dos Noldor se tornaram próximos a Thingol de Doriath (Elwe Singollo, irmão de Olwë de Alqualondë, §58); e Galadriel é introduzida dO Senhor dos Anéis. Confira Apêndice F (I, Dos Elfos): ‘A dama Galadriel da casa real de Finrod, pai de Felagund, Senhor de Nargothrond’ (uma afirmação que foi alterada na Segunda Edição de O Senhor dos Anéis, quando Finrod se tornou Finarphin e Inglor se tornou Finrod (Felagund)).

§86 Em AV 2 (HoME V, também em uma interpolação de Pengolod) e em QS (§115) os Elfos sob Denethor não chegaram a Beleriand ‘a partir do Sul’, mas por sobre as Montanhas Azuis; o significado aqui provavelmente é que eles cruzaram as montanhas em uma região ao sul de Ossiriand. Não haviam sete rios correndo das montanhas, mas seis: o sétimo rio de Ossiriand era o grande rio Gelion, para o qual os seis fluíam.


§88 devido ao seu parentesco: em AAm §3 (assim como em AV 2 e em QS §9) Niënna era ‘irmã de Manwë e Melkor’. Em AAm* ela é dita ser apenas irmã de Manwë.

§92 Em AV 2 duas eras se passaram (A.V. 2500 – 2700) entre a criação das Silmarils e a libertação de Melkor; da maneira similar em QS (§§46-7). Em AAm a relação dos dois é invertida, com a libertação de Melkor colocada no Ano das Árvores 1400 e o término das Silmarils em 1450.

§93 Com o que é dito aqui sobre o destino de Fëanor confira QS §88: ‘tão cheio de fogo era seu espírito que seu corpo se transformou em cinzas assim que seu espírito partiu; e nunca mais apareceu sobre a terra nem deixou o reino de Mandos’.

§87 Sobre a ignorância dos Elfos com relação a armas ver §97.

§98 Nenhuma menção é feita em QS (§52) das dissensões chegando a ponto de desembainhar espadas. Em AAm §112 ‘Fingolfin colocou um fim ao desembainhar da espada’, e na margem do texto datilografado a este ponto meu pai escreveu ‘se refere a que?’. Uma expansão posterior do capítulo no QS, próxima em tempo à escrita de AAm, conta que Fëanor ameaçou Fingolfin com a espada desembainhada (§52); e em vista de §112 parece provável que isto tenha sido inadvertidamente omitido aqui.


§99 O termo do banimento de Fëanor (ver nota 10 acima) não é citado em textos mais antigos. O nome formenos agora aparece, em uma adição ao texto.


§102 o mais poderoso de todos os habitantes de Ëa: ver §2.


§105 O tempo da chegada de Ungoliantë a Arda é colocado (como uma suspeita) junto com a entrada de Melkor e sua hoste antes da derrubada das Lâmpadas (ver §19). Compare ‘talvez ela tenha vindo para o Sul das escuridões de Ëa’ com QS §55: ‘da Escuridão Exterior, talvez, aquela que se estende além das Muralhas do Mundo’.


§106 Embora novamente colocada como uma suspeira, a origem de Ungoliantë é agora encontrada em sua antiga corrupção por Melkor, e é sugerido que ele foi para Arvalin com o próximo definido de encontrá-la.

§107 A alta montanha na cadeia sul das Pelóri agora recebe um nome, Hyarantar (mais tarde substituído por Hyarmentir).

§109 No Contos Perdidos a razão do grande festival era a comemoração da chegada dos Eldar a Valinor (HoME I), mas em textos posteriores sua razão não é especificada. Agora um novo e notável registro é dado, com uma referência à passagem no Ainulindalë (§25) onde as formas visíveis assumidas pelos Valar em Arda são descritas; e aqui a idéia destas ‘formas’ é ampliada (como parece) ao ponto onde os grandes espíritos podem comer, e beber, e ‘retirar força da Terra’. Completamente nova também nesta passagem é o elelemtno do propósito de Manwë em obter concórdia entre os Noldor.

§112 Em QS (§60) Fëanor estava presente ao festival na Taniquetil; agora entra a história de que ele foi sozinho de Formenos, sendo comandado a fazê-lo por Mnwe, em vestimentas sóbrias, que Finwë se recusou a ir enquanto seu Filho vivesse em banimento, e que Fëanor se reconciliou ‘em palavras’ com Fingolfin perante o trono de Manwë. A este ponto, é claro, Fëanor e Fingolfin ainda eram irmãos (e não meio-irmãos).

§114 Não há sinal do texto Aldudénië entre os papéis de meu pai. Compare a passagem relativa à Escuridão que veio com a extinção da Luz das Árvores com o Ainulindalë §19: ‘e pareceu [aos Ainur] que naquele momento eles perceberam uma nova coisa, Escuridão, a qual eles não conheciam antes, exceto em pensamento’.

§116 Sobre o chifre Valaróma de Oromë ver Ainulindalë D, §34.


*

Há um grande número de notas e alterações feitas no texto datilografado, algumas acrescentadas pelo datilógrafo sob a instrução de meu pai; mas apenas algumas poucas precisam ser registradas.


§78 Os dois novos registros dados na nota 1 acima, e aquele na nota 4, aparecem no texto datilografado original.

§81 Após a entrada para 1190 uma nova entrada foi acrescentada para o ano 1200: ‘Luthien nasce’ (com uma interrogação).

§84 Um espaço em branco é deixado no texto datilografado onde o manuscrito tem Naugrim escrito sobre Nauglath, possivelmente porque o datilógrafo não sabia qual forma colocar (ver nota 6). O espaço em branco não foi preenchido, mas o nome Nornwaith que se segue foi riscado.

§85 Após o registro para 1280 as seguintes entradas Beleriândricas foram colocadas:

1300    Daeron, mestre do conhecimento de Thingol, desenvolve as Runas
Turgon, filho de Fingolfin, e Inglor, filho de Finrod, nascem.

1320    Os Orcs aparecem pela primeira vez em Beleriand

§86 Após o registro para 1350 duas entradas foram adicionadas:

1362    Galadriel, filha de Finrod, nasce em Eldamar Isfin, Dama Branca dos Noldor, nasce em Tirion

A segunda destas aparece como uma adição a lápis ao manuscrito (nota 8).

§97 Ao lado das palavras ‘Melkor falou aos Eldar sobre armas, que antes eles não tinham possuído ou conhecido’ meu pai escreveu no texto datilografado: ‘Não! Eles devem ter possuído armas na Grande Jornada’. Compare com a passagem em QS sobre este assunto (nota de rodapé para o §49): ‘Os Elfos antes haviam possuído apenas armas de caça, lanças e arcos e flechas’.

§99 A duração do banimento de Fëanor foi alterado mais uma vez (ver nota 10), de ‘vinte’ para ‘doze’.

§113 Após ‘o Monte Verdejante’ foi adicionado: ‘de Ezellohar’. Este nome foi acrescentado em ocorrências anteriores: §25. ‘Os Vasos de Varda’ se tornaram ‘Os Poços de Varda’; ver §28.

§114 O datilógrafo leu incorretamente Elemírë, e meu pai corrigiu o erro para a forma Elemmírë.

Eu não sei qual intenção está por trás da introdução dos registros Beleriândricos dados sob §§81,85 acima.

Mitos Transformados X – Orcs

The History of Middle-earth 10

Forneço aqui ((Christopher Tolkien escrevendo em primeira pessoa)) um texto de um tipo completamente diferente, um ensaio praticamente finalizado sobre a origem dos Orcs (( Este é o terceiro dos três artigos (numerados de VIII a X) sobre Orcs contidos no Mitos Transformados do The History of Middle-earth X e que a Valinor tem a honra de publicar. Os dois anteriores podem ser vistos em VIII e IX. )). É necessário explicar algo sobre as relações deste texto.

 

Existe um trabalho maior, o qual eu espero publicar no The History of Middle-earth, chamado Essekenta Eldarinwa ou Quendi e Eldar. Ele existe em uma boa cópia datilografada feita por meu pai em sua última máquina de datilografia, tanto a cópia principal quanto a cópia em carbono; e é precedido em ambas as cópias por uma página manuscrita descrevendo o conteúdo do trabalho:Questionamento sobre as origens dos nomes Élficos para os Elfos e seus variados clãs e divisões: com Apêndices sobre seus nomes por outros Encarnados: Homens, Anões e Orcs; e sobre a análise de sua própria língua, Quenya: com uma nota sobre a “Língua dos Valar”.Contando com os apêndices, Quendi e Eldar ocupa perto de cinqüenta páginas datilografadas, e sendo um trabalho altamente finalizado e lúcido do maior interesse.A uma das páginas de rosto meu pai acrescentou o seguinte:Ao qual está acrescentado um resumo do Ósanwë-kenta ou “Comunicação de Pensamento” que Pengolodh colocou ao final de seu Lammas ou “Registro das Línguas”Este é um trabalho em separado ocupando oito páginas datilografadas, paginadas separadamente, mas encontrado junto com ambas as cópias de Quendi e Eldar. Em adição, e não citado nas páginas de rosto, existe ainda outro texto datilografado de quatro páginas (também encontrada com ambas as cópias de Quendi e Eldar) intitulado Orcs; e este é o texto fornecido aqui.Todos os três elementos são idênticos em aparência geral, mas Orcs fica à parte dos demais, não tendo nenhuma relação lingüística; e em vista disso eu pensei que seria legítimo resumi-lo e imprimi-lo neste livro junto com as outras discussões sobre a origem dos Orcs dadas como os textos VIII e IX.Para datar este grupo de textos, uma das cópias está preservada em um jornal dobrado de Março de 1960. Neste meu pai escreveu: “’Quendi e Eldar’ com Apêndices”, e abaixo há uma breve lista dos Apêndices, todos os itens escritos à mesma época, e incluem tanto o Ósanwë quanto Origem dos Orcs (o mesmo é verdade com relação à capa da outra cópia do grupo de textos Quendi e Eldar). Todo o material, portanto já existia quando o jornal foi utilizado para este propósito, e embora, como em outros casos similares, não forneça um terminus ad quem perfeitamente certo, não há razão para duvidar que ele pertença a 1959 – 60.O Apêndice C de Quendi e Eldar, “Nomes Élficos para os Orcs”, é primariamente relacionado com etimologia, mas inicia-se com o seguinte trecho:

Não é aqui o lugar para debater a questão da origem dos Orcs. Eles foram engendrados por Melkor, seu engendramento era o mais maligno e lamentável de seus trabalhos em Arda, mas não o mais terrível. Pois claramente eles, em sua malícia, representariam um escárnio aos Filhos de Ilúvatar, mas completamente subservientes à sua vontade, e criados com um implacável ódio a Elfos e Homens.

Os Orcs das guerras tardias, após a fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-média, não eram nem espíritos nem fantasmas, mas criaturas vivas, capazes de falar e de algumas habilidades e organização, ou pelo menos capazes de aprender tais coisas de criaturas superiores ou de seu Mestre. Eles procriavam e se multiplicavam rapidamente sempre que deixados imperturbados. É improvável, como uma consideração da origem última desta raça deixará claro, que os Quendi tenham encontrado quaisquer Orcs deste tipo, antes de serem encontrados por Oromë e da separação entre Eldar e Avari.

Mas é sabido que Melkor tornara-se ciente dos Quendi antes dos Valar terem começado sua guerra contra ele, e a felicidade dos Elfos na Terra-média já havia sido escurecida pelas sombras do medo. Formas terríveis começaram a assombrar os limites de suas moradias, e alguns de seu povo desapareceram na escuridão e deles não se ouviu mais nada. Algumas dessas coisas podem ter sido fantasmas e ilusões, mas algumas eram, sem dúvida, formas assumidas pelos servos de Melkor, escarneando e degradando as próprias formas dos Filhos. Pois Melkor tinha a seu serviço um grande número de Maiar, que tinham o poder, assim como seu Mestre, de tomar forma visível e tangível em Arda.

Sem dúvida meu pai foi levado por suas próprias palavras “É improvável, como uma consideração da origem última desta raça deixará claro, que os Quendi tenham encontrado quaisquer Orcs deste tipo, antes de serem encontrados por Oromë” e escrever aquela “consideração”, que segue abaixo. Será visto que uma passagem desta afirmação inicial foi re-utilizada.

 


Orcs ((a partir deste ponto, o texto é do próprio J. R. R. Tolkien))

A origem dos Orcs é um assunto de discussões. Alguns os chamaram de Melkorohíni, os Filhos de Melkor; mas os mais sábios dizem: não, os escravos de Melkor, mas não seus filhos; pois Melkor não tinha filhos (( E uma cópia do texto meu pai escreveu a lápis ao lado desta sentença os nomes Eruseni, Melkorseni. )). Contudo, foi pela malícia de Melkor que os Orcs surgiram, e claramente eles representariam um escárnio aos Filhos de Ilúvatar, sendo gerados para ser completamente subservientes à sua vontade e cheios de um implacável ódio a Elfos e Homens.Os Orcs das guerras tardias, após a fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-média, não eram nem espíritos nem fantasmas, mas criaturas vivas, capazes de falar e de algumas habilidades e organização, ou pelo menos capazes de aprender tais coisas de criaturas superiores ou de seu Mestre. Eles procriavam e se multiplicavam rapidamente sempre que deixados imperturbados. Tanto quanto pode ser vislumbrado a partir das lendas que chegaram até nós de nossos dias mais antigos (( ‘lendas que chegaram até nós de nossos dias mais antigos’; isto tinha a intenção de ser um texto Élfico. Sauron é citado subseqüentemente como estando no passado; mas na última sentença do ensaio os Orcs são uma praga que ainda aflige o mundo )), parece que os Quendi ainda não haviam encontrado nenhum Orc deste tipo antes da chegada de Oromë a Cuiviénen.Aqueles que acreditam que os Orcs foram gerados a partir de alguma raça de Homens, capturados e pervertidos por Melkor, afirmam que seria impossível para os Quendi ter conhecimento dos Orcs antes da Separação e da partida dos Eldar. Pois, embora o tempo do acordar dos Homens não ser conhecido, mesmo os cálculos dos mestres de conhecimento que o colocam mais cedo não dão a ele uma data muito anterior ao início da Grande Marcha (( O tempo do Acordar dos Homens é agora colocado bem para trás; compare com o texto II, A Marcha dos Eldar atravessa grandes Chuvas? Homens despertam em uma ilha em meio à enchente’; ‘A chegada dos Homens será, portanto, muito anterior’; ‘Homens devem acordar enquanto Melkor ainda está [na Terra-média] – por causa de sua Queda. Portanto em algum período durante a Grande Marcha’. Na cronologia dos Anais de Aman e Anais Cinzentos a Grande Marcha começa no Ano das Árvores 1105, e as companhias mais avançadas de Elfos chegaram ao litoral do Mar em 1125; Homens acordaram em Hildorien no ano do primeiro nascer do Sol, que foi no Ano das Árvores 1500. Portanto, se o Acordar dos Homens está colocado mesmo na parte final do período da Grande Marcha dos Eldar ele terá sido trazido mais de 3500 Anos do Sol para trás. )), certamente não suficiente antes dela de forma a permitir a corrupção de Homens em Orcs. Por outro lado, é claro que logo após seu retorno Morgoth tinha a seu comando um grande número dessas criaturas, com as quais ele sem demora começou a atacar os Elfos.  Houve ainda menos tempo entre seu retorno e esses ataques para a geração dos Orcs e para a transferência de suas hordas para o oeste.Esta visão das origens dos Orcs, portanto, encontra dificuldades de cronologia. Mas embora Homens possam se confortar com isso, a teoria ainda permanece como a mais provável.

Ela está de acordo com tudo que é conhecido de Melkor, e da natureza e comportamento dos Orcs – e dos Homens. Melkor era impotente para produzir qualquer coisa viva, mas habilidoso na corrupção de coisas que não procediam de si mesmo, se ele pudesse dominá-las. Mas se ele de fato tivesse tentado fazer criaturas de si mesmo em imitação ou escárnio dos Encarnados, ele teria, como Aule, tido sucesso em produzir apenas títeres: suas criaturas agiriam apenas enquanto a atenção de sua vontade estivesse sobre elas, e elas não mostrariam nenhuma relutância em executar qualquer comando dele, mesmo se fosse para destruírem a si mesmas.Mas os Orcs não eram desse tipo. Eles certamente eram dominados por seu Mestre, mas seu domínio era pelo medo, e eles estavam cientes desse medo e o odiavam. Eles eram, de fato, tão corrompidos que eram impiedosos, e não havia crueldade ou vileza que eles não cometeriam; mas esta era a corrupção de vontades independentes, e eles tinha  prazer em seus feitos. Eles eram capazes de agir por si mesmos, realizando feitos malignos para seu próprio divertimento, sem terem sido ordenados; ou se Morgoth ou seus agentes estivesse longe, eles poderiam negligenciar seus comandos. Eles algumas vezes lutavam [> Eles odiavam uns aos outros e freqüentemente lutavam] entre eles mesmos, em detrimento dos planos de Morgoth.Além disso, os Orcs continuavam a viver e se reproduzir e a continuar com seus próprios atos destrutivos e saques após Morgoth ter sido derrubado. Eles possuíam também outras características dos Encarnados. Eles tinham idiomas próprios, e falavam entre eles em várias línguas de acordo com as diferenças de linhagem que eram dicerníveis entre eles. Eles precisavam de comida e bebida, e descanso, embora muitos fossem, por treinamento, tão resistentes quando os Anões em resistir a interpéries. Eles poderiam ser mortos, e estavam sujeitos a doenças; mas mesmo sem doenças eles morriam e não eram imortais, nem mesmo de acordo com as maneiras dos Quendi; de fato eles parecem naturalmente ter vidas curtas comparadas com Homens de raça superior, como os Edain.Este último ponto não era bem compreendido nos Dias Antigos. Pois Morgoth tinha muitos servos, dos quais os mais antigos e mais poderosos eram imortais, pertencendo aos Maiar, inicialmente; e estes espíritos malignos, assim como seu Mestre, podiam assumir formas visíveis. Aqueles cujas responsabilidades eram comandar os Orcs freqüentemente assumiam formas Órquicas, embora fossem maiores e mais terríveis ((  Confira com o texto IX: ‘Mas sempre entre eles [Orcs] (como servidores especiais e espiões de Melkor, e como líderes) devem ter existido numerosos espíritos menores corrompidos que assumiram formas corpóreas similares; e também o texto VIII. )). Por isso que as histórias contam de Grandes Orcs ou capitães-Orc que nunca eram mortos, e que reapareciam em batalhas através de períodos muito maiores do que a duração das vidas dos Homens (( A nota de rodapé neste ponto, iniciando com ‘Boldog, por exemplo, é um nome que ocorre muitas vezes nos contos da Guerra’ e ‘é possível que não seja um nome pessoal’, é curiosa. Boldog aparece inúmeras vezes na Balada de Leithian como o nome do capitão-Orc que lidera um ataque a Doriath (referência no Índice para As Baladas de Beleriand); ele reaparece no Quenta (HoME IV), mas não é mencionado depois. Eu não conheço nenhuma outra referência a um Orc chamado Boldog. )). ((* [nota de rodapé ao texto] Boldog, por exemplo, é um nome que ocorre muitas vezes nos contos da Guerra. Mas é possível que Boldog não seja um nome pessoal e sim um título ou mesmo o nome de um tipo de criatura: os Maiar em forma de Orc, apenas menos formidáveis do que os Balrogs)) 

E finalmente, há um ponto relevante, embora horrível de se relatar. Com o tempo ficou claro que os Homens poderiam, sob a dominação de Morgoth ou de seus agentes, em algumas poucas gerações ser reduzidos quase a um nível Órquico em mente e hábitos; e então eles iriam ou poderiam ser induzidos a cruzar com Orcs, produzindo novas linhagens, freqüentemente maiores e mais espertos. Não há dúvida de que muito mais tarde, na Terceira Era, Saruman redescobriu isto, ou aprendeu sobre isso no conhecimento passado, e em seu desejo por comando ele o cometeu, eu feito mais vil: o intercruzamento de Orcs e Homens, produzindo tanto Homens-orc grandes e espertos quanto Orcs-homens traiçoeiros e vis.

Mas mesmo antes de existirem suspeitas quanto a esta maldade de Morgoth os Sábios dos Dias ensinavam que os Orcs não foram ‘feitos’ por Morgoth, e, portanto, não eram originalmente malignos. Eles podem ter se tornado irredimíveis (ao menos para Elfos e Homens), mas eles permaneciam dentro da Lei. Ou seja, embora por necessidade, sendo os dedos da mão de Morgoth, eles devessem sem combatidos com a máxima severidade, eles não poderiam ser lidados nos próprios termos de crueldade e traição. Cativos não deveriam ser torturados, nem mesmo para descobri informação para a defesa das casas dos Elfos e Homens. E se qualquer Orc se rendesse e pedisse misericórdia, isso lhe deveria sem concedido, mesmo a um custo. ((  [nota de rodapé ao texto] Poucos Orcs o fizeram nos Dias Antigos, e em qualquer época nenhum Orc trataria com um Elfo. Pois uma coisa que Morgoth conseguira fora convencer os Orcs além de refutação que os Elfos era mais cruéis que eles mesmos, fazendo prisioneiros apenas para ‘divertimento’ ou para comê-los (como os Orcs faziam, em caso de necessidade)  )) Este era o ensinamento dos Sábios, embora no horror da Guerra ele nem sempre fosse seguido.

É verdade, claro, que Morgoth mantinha os Orcs em selvagem servidão; pois em suas corrupções eles tinham perdido quase toda a possibilidade de resistir à dominação de suas vontades. Tão grande, de fato, esta pressão sobre eles se tornou antes da queda de Angband que, se ele colocasse seu pensamento em direção a eles, eles estariam conscientes de seu ‘olho’ seja lá onde estivesse; e quando Morgoth foi finalmente removido de Arda os Orcs que sobreviveram no Oeste se espalharam, sem líder e quase sem juízo, e estiveram por um longo tempo sem controle ou propósito.

Esta servidão a uma vontade central que quase reduziu os Orcs a uma vida parecida com a de formigas foi vista ainda mais claramente na Segunda e Terceira Era sob a tirania de Sauron, segundo-em-comando de Morgoth. Na verdade Sauron conseguiu um controle ainda maior sobre seus Orcs do que Morgoth conseguira. Ele estava, claro, operando em um escala menor, e ele não tinha inimigos tão grandes e tão sinistros quanto os Noldor em ápice nos Dias Antigos. Mas ele também tinha herdado daqueles dias  algumas dificuldades, como a diversidade de linhagens e línguas dos Orcs, e a disputas entre eles;e em muitos lugares da Terra-média, após a queda de Thangorodrim e durante o tempo de ocultamento de Sauron, os Orcs, recuperando-se de sua impotência, estabeleceram pequenos reinos próprios e se tornaram acostumados à independência. Apesar disso Sauron conseguiu uni-los todos em um ódio sem limites a Elfos e a Homens que se unissem a eles; e os Orcs de seus próprios exércitos treinados estavam tão completamente sobre sua vontade que se sacrificariam sem hesitação a seu comando.* E ele também se provou ainda mais habilidoso do que seu Mestre na corrupção de Homens que estavam além do alcance dos Sábios, e em reduzi-los à vassalagem, na qual eles marchariam com os Orcs, e competiriam com eles em crueldade e destruição.

É, portanto, provavelmente a Sauron que devemos olhar em busca da solução do problema de cronologia. Embora imensamente menor em poder nativo do que seu Mestre, ele permaneceu menos corrupto, mais frio e mais calculista. Isso ao menos nos Dias Antigos e antes dele ter sido afastado de seu mestre e cair na tolice de imitá-lo, se esforçando para tornar a si mesmo supremo Senhor da Terra-média. Enquanto Morgoth continuava, Sauron não buscou sua própria supremacia, mas trabalhou e manipulou para outro, desejando o triunfo de Melkor, a quem no começou ele adorou. Então ele era freqüentemente capaz de obter coisas, inicialmente escondido de Melkor, as quais seu mestre não concluía ou não podia concluir na furiosa velocidade de sua malícia.

(* [nota de rodapé ao texto] Mas restou uma falha em seu controle, inevitável. No reino de ódio e medo, a coisa mais forte é o ódio. Todos os seus Orcs odiavam uns aos outros, e deveriam ser mantidos em guerra com algum ‘inimigo’ para prevenir que se matassem uns aos outros.)

Nós podemos assumir, então, que a idéia da geração dos Orcs veio de Melkor, inicialmente não tanto para a provisão de servos ou infantaria para suas guerras de destruição, como para a desecração dos Filhos e o blasfemo escárnio dos desígnios de Eru. Os detalhes da realização desta vilania foram, contudo, deixados principalmente à sutileza de Sauron. Neste caso a concepção mental dos Orcs pode ter sido muito antes na noite dos pensamentos de Melkor, embora o começo de sua geração de fato devesse esperar o acordas dos Homens.

Quando Melkor foi feito cativo, Sauron fugiu e se escondeu na Terra-média; desta forma pode-se compreender como o cruzamento de Orcs (sem dúvida já iniciado) seguiu em frente com velocidade acelerada durante a era que Noldor residiram em Aman; de tal forma que quando eles retornaram à Terra-média encontraram-na já infestada com esta praga para o tormento de todos que ali residiam, Elfos ou Homens ou Anões. Também foi Sauron que secretamente reparou Angband para o auxílio de seu mestre quando ele retornasse (( Sobre a história posterior de que Angband fora construída por Melkor nos dias antigos e que esta era comandada por Sauron ver HoMe 10, “The Later Quenta Silmarillion”. Lá não há referência a uma reparação de Angband ao retorno de Morgoth, e confira o último desenvolvimento da narrativa no Quenta Silmarillion da história de seu retorno: Morgoth e Ungoliant ‘estavam chegando perto das ruínas de Angband onde sua grande fortaleza ocidental havia estado’ )); e lá os escuros lugares subterrâneos já estariam povoados com hordas de Orcs antes de Melkor finalmente retornar, como Morgoth o Inimigo Negro, e enviá-los para trazer ruína sobre tudo quer fosse belo. E embora Angband tenha caído e Morgoth removido, eles continuam a surgir de locais sem luz e com a escuridão em seus corações, e a terra murchava sob seus pés impiedosos.

Esta então, como parece, foi a visão final de meu pai sobre o assunto: Orcs foram gerados dos Homens, e se ‘a concepção mental dos Orcs pode ter sido muito antes na noite dos pensamentos de Melkor’ foi Sauron quem, durante as eras de prisão de Melkor em Aman, trouxe à existência os exércitos negros que estavam disponíveis a seu Mestre quando este retornou.

Mas, como sempre, não é assim tão simples. Acompanhando uma cópia do texto datilografado deste ensaio estão algumas páginas manuscritas das quais meu pai usou o reverso em branco de papéis dados pelos editores, datado de 10 de Novembro de 1969. Estas páginas possuem duas notas sobre o ensaio ‘Orcs’: uma discutindo a grafia da palavra orc; a outra é uma nota surgida de algo do ensaio que não está citado, mas que obviamente é a passagem discutindo a natureza de títeres das criaturas trazidas à existência por algum dos próprios grandes Poderes: a note tinha a intenção de estar relacionadas às palavras ‘Mas os Orcs não eram desse tipo’.

Os orks, é verdade, algumas vezes pereciam ter sido reduzido a uma condição bastante similar, embora continue a existir uma diferença profunda. Aqueles orks que por muito tempo viveram sob a atenção imediata de sua vontade – como vigias de suas fortalezas ou elementos dos exércitos treinados para propósitos especiais em seus desígnios de guerra – agiriam como rebanhos, obedecendo instantaneamente, como tendo uma única vontade, seus comandos mesmo se ordenados a sacrificar suas vidas a seu serviço. E como foi visto quando Morgoth foi finalmente subjugado e excluído, aqueles orks que haviam sido assim absorvidos se espalharam impotentes, sem propósito a não ser fugir ou lutar, e logo morreram ou se mataram.

Outras criaturas originalmente independentes, e Homens entre elas (mas não Elfos ou Anões), também poderiam ser reduzidas a uma condição semelhante. Mas ‘títeres’, sem vida ou vontade independentes,  iria simplesmente parar de se mover  ou fazer qualquer coisa quando a vontade de seu criador fosse reduzida a nada. Em qualquer caso o número de orks que era de tal forma ‘absorvida’ sempre foi uma pequena parte de seu total. Mantê-los em absoluta servidão requeria um grande esforço de vontade. O poder possuído por Morgoth no início era vasto, mas finito; e foi este gasto de vontade nos orks, e ainda mais sobre as outras e muito mais poderosas criaturas a seu serviço, que eventualmente dissiparam tanto seus poderes mentais que a derrubada de Morgoth. Então a maior parte dos orks, embora sob suas ordens e com a sombra escura de seus medos dele, eram apenas intermitentemente objetos de seu pensamento e preocupações imediatas, e quando este era removido eles retornavam à independência e se tornavam consciente de seu ódio dele e de sua tirania. Então eles poderiam negligenciar suas ordens ou se engajar em

 


Aqui o texto é interrompido. Mas a coisa curiosa é que um rascunho para o segundo parágrafo desta nota (escrito no mesmo papel, tendo a mesma data) assim começa:

Mas Homens podiam (e ainda podem) ser reduzidos a tal condição. ‘Títeres’ simplesmente parariam de se mover ou ‘viver’, quando não colocados em movimento pela vontade direta de seu criador. De qualquer forma, embora o número de orks no ápice do poder de Morgoth, e ainda após o retorno dele da prisão, pareça ter sido muito grande, aqueles que eram ‘absorvidos’ foram sempre uma pequena parte do total.

As palavras que eu coloquei em itálico refutam uma concepção essencial do ensaio.A outra nota diz assim:

Orcs
Esta grafia foi retirada do Inglês Antigo. A palavra parecia, por si mesma, bastante adequada às criaturas que eu tinha em mente. Mas o significado de orc no Inglês Antigo – tanto quanto é sabido – não se encaixava (( Ver os Comentários à Quinta Seção dos Anais de Aman. )). Também a grafia do que, na situação lingüística posterior mais organizada deve ter sido uma forma na Língua Comum de uma palavra ou grupo de palavras similares, deveria ser ork. Se nenhuma outra razão então pelas dificuldades de grafia no Inglês moderno: um adjetivo orc + ish se torna necessário, e orcish não satisfaria (( ‘orcish não satisfaria’: porque seria pronunciado ‘orsish’. A língua Orkish (Órquica) foi grafada dessa forma em O Senhor dos Anéis desde a Primeira Edição. )). Em qualquer publicação futura eu usarei ork.
No texto IX (a texto breve no qual meu pai declarou a teoria da origem Élfica ser correta) ele grafou a palavra Orks, e disse ‘dessa forma eu deverei grafar em O Silmarillion’. No atual ensaio, obviamente posterior ao texto IX, está gravado Orcs; mas então, em 1969 ou mais tarde, ele afirmou novamente que deveria ser Orks.
Notas

O Diálogo de Manwë e Eru

A ressurreição Élfica foi um dos problemas que gerou mais esforço por parte de Tolkien em sua solução. Milhares de linhas foram escritas, dando origem a textos clássicos e essenciais como Athrabeth Finrod ah Andreth, Comentário do Athrabeth Finrod ah Andreth e Leis e Costumes entre os Eldar. E hoje a Valinor tem a honra de publicar O Diálogo de Manwë e Eru, diretamente do The History of Middle-earth X, o qual trata de muitas particularidade espinhosas da ressurreição e renascimento Élfico.
“O Diálogo de Manwë e Eru”
e concepções tardias da reencarnação Élfica

 

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A afirmação no início da Nota 3 do Comentário sobre o Athrabeth Finrod ah Andreth de que “na tradição élfica sua reencarnação era uma permissão especial concedida por Eru a Manwë, depois que Manwë consultou-O diretamente na época do debate a respeito de Finwë e Míriel” parece muito estranha à luz de Leis e Costumes entre os Eldar, onde é dito bem explicitamente que “Um fëa desabrigado que escolhera, ou ao qual fora permitido retornar à vida, entrava novamente no mundo encarnado através do parto. Somente desse modo ele poderia retornar” (para o que tal ‘raro e estranho caso’ como o de Miriel, que foi ‘retornada a seu próprio corpo’, é registrado como a única exceção). Em Leis e Costumes existe uma pressuposição sobre todo o caso de que Miriel poderia, pela natureza das coisas, retornar da morte se ela quisesse; assim disse Ulmo no Debate dos Valar que “o fea de Miriel pode ter partido por necessidade, mas ele partiu no desejo de não retornar” e que “portanto era falta dela”. Não se pode pensar que o Leis e Costumes foi escrito sobre a base de que o renascimento foi apenas “dado como uma permissão especial” por Eru a Manwë “à época do debate relativo a Finwë e Miriel”, uma idéia sobre a qual não há dica ou sugestão naquele trabalho.A explicação disso é que após a escrita de Leis e Costumes as visões de meu pai com relação ao destino dos Elfos que morreram passaram por uma mudança radical, e a passagem citada da Nota 3 do Comentário sobre o Athrabeth não se refere ao “renascimento”, de forma alguma.Existe um texto intitulado “O Diálogo de Manwë e Eru”, que se segue a Leis e Costumes mas precede o Comentário sobre o Athrabeth. Este trabalho (datilografado) foi planejado para ser duplo, a primeira parte sendo as questões de Manwë e as respostas de Eru, e a segunda uma discussão filosófica elaborada sobre o significado e implicações; mas foi abandonado antes de ter sido terminado, e uma segunda e mais ampla versão do ”Diálogo” foi interrompida após apenas poucas páginas. Eu forneço a primeira parte, o “Diálogo”, apenas, na versão curta revisada original.

Manwë falou a Eru, dizendo: “Veja! um mal apareceu em Arda o qual não estávamos esperando: os Filhos Primogênitos, a quem Vós fizestes imortais, sofrem agora separação de espírito e corpo. Muitos dos fear dos Elfos na Terra-média estão agora desabrigados; e mesmo em Aman há um. Os desabrigados convocamos a Aman, para protegê-los da Escuridão, e todos que ouviram nossa voz residem aqui em espera. O que deve ser feito em seguida? Não há meios pelos quais suas vidas podem ser renovadas, para seguirem os cursos que Vós designastes? E o que fazer com os desapossados que lamentam aqueles que se foram?“Eru respondeu: “Que os desabrigados sejam re-abrigados!”

Manwë perguntou: “Como isto deverá ser feito?”

Eru respondeu: “Que o corpo que foi destruído seja refeito. Ou permita-se ao fea nu renascer como uma criança”.

Manwë disse: “É Vossa vontade que tentemos tais coisas? For tememos interferir com Vossos Filhos”.

Eru respondeu: “Não dei aos Valar o governo de Arda, e o poder sobre todas as substâncias desta, para modelá-la por suas vontades sob Minha vontade? Não sejam relutantes nestas coisas. Com relação aos meus Primogênitos, não removeste grandes números deles para Aman da Terra-média onde eu os coloquei?”

Manwë respondeu: “Isto nós fizemos, por medo de Melkor, e com boa intenção, e não sem apreensão, Mas usar nosso poder sobre a carne que Vós designastes, para abrigar ps espíritos de Vossos Filhos, parece um assunto além de nossa autoridade, mesmo não sendo além de nossas habilidades”.

Eru disse: “Eu dou a vocês a autoridade. As habilidades vocês já possuem, se forem prestarem atenção. Olhem e verão que cada espírito dos Meus Filhos retém em si mesmo a completa impressão e memória de sua antiga moradia; e em sua nudez é aberto a vocês, de forma que podem perceber claramente tudo que está nele. Com base nesta impressão podem criar para ele novamente uma tal casa em todos os particulares como era antes do mal ter caído sobre ele. Então podem mandá-lo de volta às terras dos Viventes”.

Então Manwë perguntou mais: “Ó Iluvatar, não falastes vós também de renascimento? Isto está também dentro de nossos poderes e autoridades?”

Eru respondeu: “Estará sob suas autoridades, mas não sob seus poderes. Aqueles que considerarem aptos a renascer, se eles o desejarem e o compreenderem claramente em que incorrem, mandarão para Mim; e Eu os considerarei”.


Será visto que dimensões completamente novas da questão sobre o retorno dos Mortos aos Viventes são criadas. Meu pai veio a pensar que antes da morte de Miriel não houve nenhum “re-abrigar” dos fear dos Mortos, e que foi apenas em resposta ao apelo de Manwë que Eru decretou tal possibilidade e as maneiras pelas quais poderia ser conduzida. Um de tais modos é o renascimento do fea como uma criança, mas tal Morto que assim o desejar deve ser entregue a Eru para aguardar Seu julgamento do caso. A outra maneira é a criação, pelos Valar, de “uma tal casa em todos os particulares como era antes do mal ter caído sobre ele”: a reencarnação do Morto em um hroa idêntico àquele sobre o qual a Morte veio. A longa discussão que se segue ao “Diálogo” é em sua maior parte preocupada com as idéias de “identidade” e “equivalência” em relação a esta forma de reencarnação,  representada como um comentário feito por Mestres de Conhecimento Eldarin.Um manuscrito escrito rapidamente em pequenos pedaços de papel, intitulado “Reencarnação dos Elfos”, parece mostrar as reflexões de meu pai sobre o assunto entre o abandono dO Diálogo de Manwë e Eru e o Comentário sobre o Athrabeth. Nesta discussão ele se refere com uma expressão rápida e elíptica sobre as dificuldades em cada nível (incluindo práticos e fisiológicos) da idéia de reencarnação do fea em uma criança recém-nascida de novos pais, que ao crescer recupera as memórias de sua vida anterior: “a objeção mais fatal” sendo que “isto contradiz a noção fundamental de que fea e hroa são feitos um para o outro: uma vez que o hroar tem uma continuação física, o corpo de renascimento, que tendo pais diferentes, deve ser diferente”, e isto deve ser uma condição de dor para o fea renascido.

Aqui ele estava abandonando, e definitivamente, a concepção de renascimento de há muito como um modo pelo qual os elfos poderiam retornar à vida encarnada: de seu escrutínio da idéia mítica, questionando sua validade nos termos em que ele a adotara, veio a parecer a ele uma falha séria na metafísica da existência Élfica. Mas, ele disse, isto era um “dilema”, pois a reencarnação dos Elfos “parece um elemento essencial dos contos”. “A única solução”, ele decidiu em sua discussão, era a idéia do refazer em forma idêntica o hroa do morto na maneira declarada por Eru nO Diálogo de Manwë e Eru: o fea mantém uma memória, uma impressão, de seu hroa, sua “antiga moradia”, tão poderosa e precisa que a reconstrução de um corpo idêntico pode seguir dela.

A idéia de um “Diálogo” entre Manwë e Eru não foi abandonado, e de fato é citado no “Reencarnação dos Elfos” (mas o “Diálogo” como dado acima já devia existir, uma vez que Eru expressamente declara o renascimento como um modo de reencarnação aberto ao fea “desabrigado”, uma vez que na presente discussão tal idéia é firmemente rejeitada e não encontra lugar na “única solução” para o “dilema”). A nova concepção procede, delineada, como segue. A Música dos Ainur não contém nenhuma previsão da morte dos Elfos e a existência de seus fear “desabrigados”, uma vez que de acordo com sua natureza eles seriam imortais dentro da existência de Arda. Existiam muitos de tais fear de Elfos que morreram na Terra-média reunidos nos Salões de Mandos, mas não foi antes da morte de Miriel em Aman que Manwë apelou diretamente a Eru por conselho. Eru “aceitou e ratificou a posição” – embora deixando claro a Manwë que os Valar deveriam ter contestado a dominação de Melkor na Terra-média bem mais cedo, e que a eles faltou estel: eles deveriam ter acreditado que em uma guerra legítima Eru não teria permitido a Melkor realizar tão grandes danos a Arda que os Filhos não pudessem surgir ou não pudessem habitá-la (confira  LQ $20: “E Manwë disse aos Valar: “Este é o conselho de Iluvatar em meu coração: que nós devemos retomar o governo de Arda, a qualquer custo, e livrar os Quendi das sombras de Melkor”. Então Tulkas ficou satisfeito; mas Aule lamentou, e é dito que ele (e outros Valar) antes não quiseram disputar com Melkor, prevendo as feridas do mundo que adviriam desta batalha”).

É então dito que “todos os fear dos Mortos vão para Mandos em Aman: ou melhor, eles agora são convocados até lá pela autoridade dada por Eru. Um local é feito para eles”. Isto parece significar que a Mandos foi dado o poder de convocar os espíritos dos Mortos para Aman; as palavras seguintes  “Um local é feito para eles” são difíceis de compreender, uma vez que elas parecem negar até mesmo que os Salões de Espera existiam antes de Manwë falar com Eru (apesar da afirmação anterior em “Reencarnação dos Elfos” de que existiam muitos fear desabrigados reunidos em Mandos antes do “Diálogo” acontecer).

Aos Valar agora foi dada a autoridade para reencarnar os fear dos Elfos que morreram em hroar idênticos àqueles que perderam; e o texto continua: O fea re-abrigado normalmente irá permanecer em Aman. Apenas em casos bastante excepcionais, como Beren e Lúthien,  eles serão transportados de volta à Terra-média… uma vez que a morte na Terra-média tinha muito do mesmo tipo de tristeza e separação para Elfos e Homens. Mas, como Andreth viu, a certeza de viver novamente e fazer coisas em forma encarnada faz uma diferença vital para a morte como um terror pessoal (confira o Athrabeth).

No que parece ser um segundo pensamento meu pai então pergunta se não seria possível que o fea “desabrigado” fosse permitido (sendo instruído) reconstruir seu hroa a partir de sua memória (e isto, como parece do bastante tardio texto sobre o assunto da reencarnação de Glorfindel de Gondolin, tornou-se sua visão firme e estabelecida sobre o assunto). Ele escreve aqui: “A memória de um fea da sua experiência é evidentemente poderosa, vívida e completa. Assim a concepção subjacente é que ‘matéria’ será elevada a ‘espírito’, tornando-se parte de seu  conhecimento – e então tornada imortal e sob o comando do espírito. Como os Elfos remanescentes na Terra-média lentamente ‘consumiam’ seus corpos – ou os tornavam vestimentas da memória? A ressurreição do corpo (pelo menos no que se refere aos Elfos) era em um certo sentido incorpórea.  Mas apesar de poder ultrapassar barreiras físicas a vontade, ele também poderia a vontade opor resistência à matéria. Se você tocasse um corpo ressuscitado você o sentiria. Ou se ele desejasse poderia apenas iludi-lo – desaparecer. Sua posição no espaço era à vontade”.

Nem no trecho sobre a reencarnação contido no Comentário sobre o Athrabeth (parágrafo 6) nem na Nota 3 que se refere a ele há qualquer menção sobre renascimento; enquanto que este último evidentemente ecoa as palavras do “Reencarnação dos Elfos”. Isto fica fortemente visível na Nota 3, mesmo que não expressamente dito, que foi apenas ao tempo do diálogo de Manwë com Eru que a Mandos foi dado o poder  de de fato convocar os fear dos Mortos; e a passagem que se segue a esta na Nota é bastante similar ao que é dito na “Reencarnação dos Elfos”:

“Lá lhes era dada a escolha de permanecerem desabrigados ou (se desejassem) serem re-alojados na mesma forma e aspecto que possuíam. Não obstante, geralmente eles devem permanecer em Aman. Portanto, se habitassem na Terra-média, a sua privação em relação aos amigos e parentes, e a privação destes, não era corrigida. A morte não era completamente curada. Mas como Andreth observou, esta certeza a respeito de seu futuro após a morte, e o conhecimento de que eles pelo menos seriam capazes (caso desejassem), como encarnados, de fazer e criar coisas e continuar sua experiência de Arda, tornava a morte para os elfos algo totalmente diferente da como essa era vista pelos homens.”

Um ponto interessante com respeito à cronologia da composição surge da afirmação encontrada tanto na “Reencarnação dos Elfos” quanto na Nota 3 do Comentário de que a morte dos Elfos e a morte dos Homens eram coisas diferentes, “como Andreth observou”. Portanto o Athrabeth já existia quando o “Reencarnação dos Elfos” foi escrito; mas o Comentário se seguiu ao “Reencarnação”. Isto parece ser uma evidência clara de que existiu um intervalo entre a escrita do Diálogo de Finrod e Andreth e a escrita do Comentário sobre o mesmo.

Uma última passagem do “Reencarnação dos Elfos” deve ser mencionada. Em uma espécie de “à parte” do curso de seus pensamentos, movendo-se (ainda) mais rapidamente do que  sua caneta, meu pai anotou que “a exata natureza da existência em Aman ou Eressea após suas ‘remoções’ deve ser dúbia e inexplicada”, da mesma forma que a questão sobre “como ‘mortais’ poderiam ir até lá, de qualquer forma”. Sobre isto ele observou que Eru tinha “muito antes” deixado os Mortos dos mortais sob responsabilidade de Mandos; confira QS $86:

“O que advinha a seus espíritos após a morte os Elfos não sabiam. Alguns dizem que eles também vão para os salões de Mandos; mas seu local de espera não é aquele dos Elfos; e exceto por Manwë apenas Mandos abaixo de Ilúvatar sabe para onde vão após o tempo de sua permanência naqueles salões silenciosos além do Mar do Oeste. A jornada de Frodo (ele foi) a Eressea – então a Mandos? – foi apenas uma forma estendida disso. Frodo eventualmente iria deixar o mundo (desejando fazê-lo). Então a partida no navio foi equivalente à morte”.

Isto pode contrastar com o que ele escreveu no final de registro sobre O Senhor dos Anéis em sua carta de 1951 a Milton Waldman (uma passagem omitida nas Cartas  mas publicada no HoMe IX):

A Bilbo e Frodo foi concedida a graça especial de partir com os Elfos que eles amavam – um final Arturiano, no qual, claro, não é deixado explícito se é uma “alegoria” da morte ou um modo de cura e restauração levando a um retorno.

Em sua carta a Naomi Mitchison de Setembro  de 1954  (Cartas No. 154), contudo, ele disse:

… a idéia mítica subjacente é de que para os mortais, uma vez que sua ‘raça’ não poderia ser alterada para sempre, esta seria apenas uma recompensa estritamente temporária: uma cura e um remediar do sofrimento. Eles não poderiam residir para sempre, e embora não pudesse retornar à terra mortal, eles podiam e iriam ‘morrer’ – de livre vontade e deixar o mundo. (Neste contexto o retorno de Arthur seria totalmente impossível, uma imaginação vã).

E muito mais tarde, em um rascunho de uma carta de 1963 (Cartas No. 246), ele escreveu:

Frodo foi enviado ou a ele foi permitido passar sobre o mar para curá-lo – se tal poderia ser feito, antes dele morrer.  Eventualmente ele iria ‘morrer’: nenhum mortal poderia, ou pode, residir para sempre na terra, ou no Tempo. Então ele foi tanto ao purgatório quanto a uma recompensa, por algum tempo: um período de reflexão e paz e obtenção de uma compreensão mais verdadeira de sua posição  na pequeneza e na grandeza, passando um Tempo na natureza de ‘Arda Não-Desfigurada’, a Terra intocada pelo mal.

 

Uma Carta de Tolkien

Tolkien escreve a Elsie Honeybourne à mão em uma carta datada de 21 de dezembro de 1967, papel de 5,25 x 7 polegadas (13,3 x 17,8 cm – pouco mais que a página de um livro de bolso), cujo mais interessante não é o teor da mesma mas sim as imagens, permitindo visualizar com exatidão a letra e o estilo de Tolkien. Esta carta não se encontro no livro As Cartas de J.R.R. Tolkien (afinal, tem pouco ou nenhum interesse no geral da obra).
Abaixo segue a carta no original em inglês, completa, para facilitar o acompanhamento pela imagem da mesma, já que a letra de Tolkien não é tão legível assim:1967-december_21-honeybourne.jpg“Thank you so much for writing such kind and appreciative letters, brevity is not necessarily a virtue. I am interested in what you say of your name. I think it still probable that your father’s name nonetheless comes from near Evesham. It must be derived from a place-name; and though -Bourne (stream) is widespread in England, and occurs in Kentish names, Honeybourne is found only in Cow H. and Church H. near Evesham. There was a considerable movement and interchange between Kent and Worcestershire, largely because of the industries of fruit-growing. I shall certainly put Honeybourne on the Shire Map as soon as an opportunity of revision (much needed) occurs. I was deeply interested in your choice of passages, and quite agree about Pippin’s ride. An easing of tension was needed at the end of the ‘Book’ (but of course provided instinctively and not by planning). To ride with Gandalf must have been like being borne by a Guardian Angel, with stern gentleness a most comforting combination to children (as we all are).

I am sending you a copy of my recently published story. Not addressed to children (reached by age). An old man’s tale, mainly concerned with ‘retirement’ and bereavement.”

Em português temos:

“Muito obrigado por escrever tais cartas gentis e apreciativas, brevidade não é necessariamente uma virtude. Eu estou interessado no que você diz sobre seu nome. Eu acredito ainda ser provável que o nome de seu pai tenha vindo de perto de Evesham. Ele deve ser derivado de um nome de lugar; e embora -Bourne (córrego) seja espalhado pela Inglaterra, e ocorra em nomes de Kent, Honeybourne é encontrado apenas em Cow H. e Church H. perto de Evesham. Ocorreram movimentos e trocas consideráveis entre Kent e Worcestershire, principalmente devido às indústrias de cultivo de frutas.

Com certeza eu colocarei Honeybourne no Mapa do Condado tão logo uma oportunidade de revisão (muito necessitada) apareça.

1967-december_21-honeybourne_2.jpgEu fiquei profundamente interessado em suaescolha de trechos, e concordo sobre a cavalgada de Pippin. Um relaxamento de tensão era necessário ao final do ‘Livro’ (mas, claro, feita instintivamente e não planejada). Cavalgar com Gandalf deve ter sido como ser carregado por um Anjo da Guarda, com austera gentileza uma combinação das mais confortantes para crianças (como todos somos).

Estou enviando uma cópia de minha história recentemente publicada. Não direcionada a crianças (em idade). Um conto de um velho, principalmente relacionado com ‘aposentadoria’ e a tristeza da perda.”

Na carta Tolkien se refere à sua história “Smith of Wooton Major”, publicada pela primeira vez na revista Redbook em 23 de novembro de 1967. Tolkien também acrescenta uma breve nota a lápis no topo da primeira página com relação a seu atraso em ler a correspondência. Podemos ver aqui as maiores características pessoais de Tolkien, explorando idiomas e encontrando raízes para palavras e nomes. Línguas eram sua fonte de inspiração e aqui pela segunda vez ele diz que poderia adicionar Honeybource (algo como “riacho de mel”) ao mapa dO Hobbit.

Tal-elmar

225px-the_peoples_of_middle-earth.jpgA Valinor tem o orgulho de traduzir e publicar Tal-elmar, que é um dos textos mais “diferentes” de Tolkien, com exceção do “The Notion Club Papers” (que logo veremos aqui na Valinor). É um texto do The History of Middle-earth 12, na verdade o fechamento deste volume e de toda a série The History of Middle-earth. Ele mostra a chegada dos Numenorianos à Terra-média através de um dos “Homens Médios”, um membro da raça dos homens aparentada aos numenorianos, mas não tão imponente quanto estes (os “Alto Homens”) nem tem baixa quanro os “Homens Selvagens”. Espero que gostem! Comentários de Christopher Tolkien em itálico e todas as notas são de Christopher Tolkien.
TAL-ELMAR
O conto de Tal-Elmar, até onde o mesmo vai, está preservado em um papel dobrado, datado de 1968, no qual meu pai escreveu a seguinte nota apressada:
Tal-Elmar.Começo de um conto que vê os Numenorianos do ponto de vista dos Homens Selvagens. Ele começa sem muita consideração com a geografia (ou a situação como imaginada em O Senhor dos Anéis). Mas ele permanecer como um conto em separado apenas vagamente conectado com a história desenvolvida nO Senhor dos Anéis ou – como acredito – deve recontar a chegada dos Numenorianos (Amigos-dos-Elfos) antes da Queda e representar suas escolhas de portos permanentes. Portanto a geografia deve ser alterada para se encaixar àquela da foz do Anduin e do Langstrand.

Mas isto foi escrito treze anos depois dele ter abandonado a história e não há sinais dele ter retornado a ela em seus últimos anos. Curta como é e (como parece) incerta em seu direcionamento, tal distanciamento de todas os outros temas narrativos dentro do compasso da Terra-média servirá, talvez, como uma conclusão adequada a esta História.

O texto se encontra em duas partes. A primeira é formada por seis páginas datilografadas que se encerram no meio de uma sentença; mas a primeira parte deste existe também como uma página rejeitada, parte datilografada parte manuscrita (ver nota 5). Além deste ponto a história inteira está na primeira fase de composição. A segunda parte é um manuscrito no qual meu pai escreveu ‘Continuação de Tal-Elmar’ e a data Janeiro 1955; não há indicação de quanto tempo se passou entre as duas partes, mas eu acredito que o trecho datilografado também pertence à década de 1950. É digno de nota que ele estivesse trabalhando nele durante o período de extrema pressão entre a publicação de As Duas Torres e a de O Retorno do Rei. Este manuscrito retoma a história de onde ela parou no trecho datilografado, mas não completa a sentença deixada sem fim; ele se torna progressivamente mais difícil e em uma seção está no limite da legibilidade, com algumas palavras ininterpretáveis. No final da narrativa há passagens experimentais e questionamentos. A não ser em poucos casos, eu não relatei as alterações realizadas no texto e dou apenas a última versão; e em um ou dois casos eu alterei usos inconsistentes de ‘vós’ e ‘você’.

Nos dias dos Reis da Escuridão, quando um homem poderia andar sem molhar os pés desde o Nascer do Sol até o Mar onde ele se põe, viveu em uma cidade paliçada de seu povo nas colinas verdejantes de Agar um velho homem, de nome Hazad Barbalonga (1). Dois orgulhos ele tinha: no número de seus filhos (dezessete ao todo) e no comprimento de sua barba (cinco pés, sem esticar); mas sua satisfação devido à sua barba era a maior das duas. Pois ela permanecia com ele e era macia e obediente à sua mão, enquanto seus filhos em sua maior parte o deixaram e aquele que permaneciam ou visitavam esporadicamente não eram nem gentis nem obedientes. Eles eram muito como Hazad havia sido nos dias de sua juventude: entroncados, de pele escura, baixos, rígidos, de línguas afiadas, mãos pesadas e rápidos à violência.

Exceto por um deles, o mais jovem. Tal-elmar Hazad o havia nomeado. Ele ainda não tinha dezoito anos de idade e vivia com seu pai e os outros dois filhos mais novos. Ele era alto, de pele clara e havia uma luz em seus olhos cinzentos que se inflamava quando ele se enfurecia; e embora fosse raro e nunca sem uma boa razão, era algo a se recordar e ter cuidado. Aqueles que haviam visto o fogo o chamavam de Olhos-brilhantes e o respeitavam, amassem-no ou não. Pois Tal-elmar parecia, dentre aquele povo entroncado e de pele escura, esbelto e sem a força nos pernas e pescoço que eles prezavam, mas um homem que brigasse com ele logo perceberia ele ser mais forte do que parecia, rápido e ligeiro, difícil de segurar e mais difícil ainda de escapar.

Ele tinha uma bela voz, que fazia até mesmo o idioma rude daquele povo mais suave de se ouvir, mas ele não falava muito; e freqüentemente ele permanecia quieto enquanto os outros conversavam, com um olhar em sua face que os demais corretamente interpretavam como orgulho, embora não fosse o orgulho de um mestre, mas antes o orgulho de alguém de uma raça estrangeira que o destino lançou em meio a um povo ignóbil e lá o manteve em servitude. Pois Tal-elmar trabalhava pesado em tarefas domésticas, não sendo nada além do filho mais novo de um homem velho, que tinha pouca riqueza restando além de sua barba e de uma reputação de sabedoria. Mas estranhamente (para aquela cidade) ele servia a seu pai de boa vontade e o amava, mais do que todos os seus irmãos juntos e mais do que era o costume de qualquer filho naquela terra. De fato era mais comum o brilho ser visto em seus olhos quanto estava defendendo seu pai.

Pois Tal-elmar possuía uma estranha crença (de onde ela viera era um mistério) de que os velhos deveriam ser tratados com carinho e cortesia, e deveria ser permitido viver o resto de seus dias com o máximo de conforto que pudessem. ‘Se precisarmos contrariá-los’, ele dizia, ‘que seja com respeito; pois eles já viram muitos anos e, muitas vezes, talvez, enfrentaram os males que ainda não encontramos. E não se ressinta de sua comida ou seu quarto, pois eles trabalharam mais do que você e não recebem agora, tardiamente, mais do que uma parte do pagamento que lhes é devido’. Tal tolice não tinha efeitos nos costumes de seu povo, mas era lei em sua casa; e já se passaram dois anos desde que qualquer de seus irmãos ousou quebrá-la (2).

Hazad amava bastante seu filho mais jovem, em retorno a seu amor e ainda mais por outra razão que ele mantinha em seu coração: sua face e voz o lembravam de outra pessoa que há muito ele sentia falta. Pois Hazad também havia sido o filho mais jovem de sua mãe e ela morrera quando ele era uma criança; e ela não era de seu povo. Tal era o conto que ele ouvira, não abertamente, pois o mesmo não dava moral à sua casa: ela viera de um povo estranho, cheio de ódio e orgulhoso, do qual se ouvia rumores nas terras do oeste e vinha do Leste, como era dito. Altos, belos e com olhos brilhantes eles eram, com armas brilhantes feitas por demônios em colinas de fogo. Lentamente eles iam em direção ao Mar, expulsando em sua passagem os antigos moradores de suas terras.

Não sem resistência. Ocorreram batalhas nas fronteiras do leste e uma vez que o povo mais antigo ainda era numeroso, os recém-chegados algumas vezes sofriam grandes perdas e eram expulsos. De fato pouco se ouvira deles nas Colinas de Agar, distante no oeste, por mais de uma vida de homem, desde a grande batalha sobre a qual canções ainda eram cantadas. No vale de Ishmalog ela fora travada, contavam os sábios, e lá uma grande horda do povo Bárbaro foi emboscada em um local estreito e assassinada aos montes. E naquele dia muitos foram feitos cativos; por isso não havia mais agitação nas fronteiras ou lutas com guardas avançadas: todo um povo da Raça Bárbara estivera se movendo com suas carroças e gado e mulheres.

Buldar, pai de Hazad, estivera no exército do Rei do Norte (3) que fora enviado para Ishmalog (4), e ele trouxe como espólio de guerra um ferimento, uma espada e uma mulher. E ela era afortunada; pois o destino dos cativos era curto e cruel, e Buldar a tomou como esposa. Pois ela era bela e a tendo visto ele não desejava qualquer mulher de seu próprio povo. Ele era um homem de riqueza e poder naqueles tempos e fez como quis, escarnecendo o escárnio de seus vizinhos. Mas assim que sua esposa, Elmar, aprendeu o suficiente da fala de seu novo grupo um dia ela disse a Buldar: eu tenho muito que te agradecer, senhor; mas não penses que terás meu amor. Pois me tiraste de meu próprio povo e daquele que eu amava e do filho que eu dera a ele. A eles sempre sentirei falta e chorarei, e darei meu amor a mais ninguém. Nunca mais serei satisfeita enquanto for mantida cativa entre um povo estranho que eu vejo como baixo e desagradável.

‘Que assim seja’, disse Buldar. ‘Mas não deves pensar que eu deveria deixá-la livre. Pois és preciosa ao meu olhar. E considere bem: em vão é tentar escapar-me. Longo é o caminho até o restante de teu povo, se algum ainda está vivo; e não irias longe das Colinas de Agar e encontrarias a morte ou uma vida muito pior do que a aquela que terias em minha casa. Baixos e desagradáveis nos chamastes. Com razão, talvez. Mas verdade também é que vosso povo é cruel e sem lei e amigos de demônios. São ladrões. Pois nossas terras o são nossas desde há muito, as quais vocês nos arrancam com suas lâminas cruéis. Peles claras e olhos brilhantes não são desculpas para tais atos’.

‘Não são?’, disse ela. ‘Então também não o são pernas grossas e ombros largos. Ou por que meios ganhastes estas terras de que fala? Não existe, como escutei falarem, um povo selvagem em cavernas nas montanhas, que outrora correram livres por aqui, até que seu povo de pele escura veio e os caçou como lobos? Mas eu não falo de diretos, mas de tristeza e amor. Se eu preciso morar aqui, então morarei, como alguém cujo corpo está aqui à tua vontade, mas meu pensamento longe noutro lugar. E esta vingança eu terei: enquanto meu corpo for mantido aqui em exílio, o quinhão de todo este povo diminuirá e o teu mais do que todos; mas quando meu corpo for para dentro desta terra estrangeira e meu pensamento ficar livre dele, então entre os teus surgirá um que é apenas meu. E com seu surgimento chegará o fim do teu povo e a queda do teu rei’.

Após isto Elmar não falou mais nada sobre este assunto; e ela era de fato uma mulher de poucas palavras enquanto sua vida durou, exceto para seus filhos. Para eles falava muito quando ninguém estava perto e ela cantava para eles muitas canções em uma língua bela e estranha; mas eles não lhe davam atenção ou logo esqueciam. Exceto Hazad, o mais jovem; e embora ele fosse, assim como todos os outros filhos, diferentes em corpo, ele era o mais próximo em coração. As canções e a estranha língua ele também esqueceu quando cresceu, mas sua mãe ele nunca esqueceu; e ele se casou tarde, pois nenhuma mulher de seu povo lhe parecia desejável, ele que conhecera o que a beleza em uma mulher deveria ser (5).

Não que existissem muitas para cortejar, pois como Elmar falara, o povo de Agar diminuiu com os anos, devido a climas ruins e pestes, e mais do que todos foi atingido Buldar e seus filhos; e eles se tornaram pobres e outras famílias tomaram o poder deles.  Mas Hazad não sabia da previsão de sua mãe, e devido à sua memória amava Tal-elmar, e por isso assim o nomeara em seu nascimento.

Por acaso em uma manhã de primavera quando seus outros filhos partiram para o trabalho Hazar manteve Tal-elmar a seu lado, e andaram juntos e se sentaram sobre o verdejante topo da colina acima da cidade de seu povo; e eles olharam para o sul e oeste onde podiam ver ao longe a grande baía onde o Mar adentrava na terra, e brilhava como vidro cinzento. E os olhos de Hazad estavam ficando fracos com a idade, mas os de Tal-elmar eram aguçados e ele viu o que pensou ser três pássaros estranhos sobre as águas, brancos ao sol, e eles estavam deslizando com o vento oeste em direção a terra; e ele pensou no  porque eles ficam no o mar e não voavam.

‘Eu vejo três estranhos pássaros sobre a água, pai’, ele disse. ‘Não são como nenhum outro que eu tenha visto’.

‘Aguçados podem ser teus olhos jovens, meu filho’, disse Hazad, ‘mas pássaros na água não podes ver. Três léguas distantes daqui onde sentamos está o litoral mais próximo. O sol te confunde ou algum sonho está em ti’.

‘Não, o sol está atrás de mim’, disse Tal-elmar. ‘Eu vejo o que vejo. E se não são pássaros então o que são? Muito grandes devem ser, maiores do que os Cisnes de Gorbelgod (6), dos quais falam as lendas. E veja! Vejo agora outro vindo atrás, mas com menos clareza, pois suas asas são negras’.

Então Hazad ficou preocupado. ‘Um sonho está em você, como eu disse, meu filho’, ele respondeu; ‘mas um sonho ruim. Já não é a vida dura o suficiente aqui, que logo que a primavera veio e o inverno finalmente terminou, precisas trazer uma visão de um passado negro?’

‘Esquecestes, pai’, disse Tal-elmar, ‘que sou teu filho mais novo e enquanto ensinastes muitos conhecimentos às orelhas surdas de meus irmãos a mim destes menos de tua reserva. Não sei nada do que se passa em tua mente’.

‘Não conheces?’, disse Hazad, forçando a visão ao olhar para o Mar. ‘Sim, possivelmente já faz muito tempo que falei sobre isto; não é mais do que a sombra de um sonho no fundo de minha memória. Três povos temos como inimigos. Os homens selvagens das montanhas e florestas; mas a estes só quem vaga sozinho precisa temer. O Povo Bárbaro do Leste; e eles ainda estão bem longe e são o povo da minha mãe, embora eu não duvide de que eles não honrariam o parentesco se viessem aqui com suas espadas. E os Altos Homens do Mar. Estes, de fato, podemos temer como à Morte. Pois eles idolatram a Morte e assassinam homens cruelmente em honra à Escuridão. Do Mar eles vêm e se possuem alguma terra deles mesmos, antes de aportaram nos litorais do oeste, não sabemos onde pode ser. Lendas terríveis chegaram a nós dos litorais, norte e sul, onde ele há muito estabeleceram suas fortalezas negras e seus túmulos. Mas aqui eles não vêm desde os dias de meu pai, e então vinham apenas para pilhar e capturar homens e partiam. Este era a modo de agir deles. Eles chegavam em barcos, mas não barcos como alguns de nosso povo utilizam nos grandes rios ou lagos, para transporte ou pesca. Maiores do que grandes casas eram os barcos dos Go-hilleg, e eles mantinham espaços para homens e mercadorias, além de serem empurrados pelos ventos; pois os Homens-do-mar estendiam grandes tecidos como asas para pegar os ventos e os prendiam em postes altos como árvores da floresta. Então eles chegavam ao litoral, onde existisse proteção ou tão próximo quanto conseguissem; e então enviavam barcos menores carregados com mercadorias e coisas estranhas tão belas quanto úteis que nosso povo desejava. Estas coisas eles vendiam por um pequeno preço ou davam como presentes, fingindo amizade e piedade por nossas necessidades; e eles moravam por um tempo e espionavam a terra e o número do povo, e então partiam. E se não retornasse as pessoas deveriam ficar gratas. Pois se viessem novamente seria em outra forma. Vinham então em grande número: dois barcos ou mais, juntos, cheios de homens e não de mercadorias, e sempre um dos malditos navios possuía asas negras. Pois aquele é o Barco da Escuridão, e nele levavam embora a pilhagem maligna, cativos amontoados como bestas, as mais belas mulheres e crianças, ou homens jovens sem defeitos físicos, e este era o fim deles. Alguns dizem que eles eram utilizados como carne; outros que eles eram mortos com tormentos sobre pedras negras em idolatria à Escuridão. Talvez ambos estejam corretos. As horríveis asas dos Homens-do-Mar não foram vistas nestas águas por muitos anos; mas relembrando a sombra do medo no passado eu falei e falo de novo: já não é nossa vida dura o suficiente sem a visão de uma asa negra sobre o mar brilhante?’

‘Dura o bastante, de fato’, disse Tal-elmar, ‘ainda assim não tão dura que eu queira deixá-la ainda. Venha! Se o que você disse é real então devemos correr para a cidade e avisar os homens, e nos preparar-nos para fuga ou defesa’.
or for defence.’

‘Eu irei’, disse Hazad. ‘Mas não te espantes se os homens rirem de mim como se eu estivesse fora do meu juízo. Eles acreditam pouco em coisas que não tenham acontecido durante seus próprios dias. E tenha cuidado, caro filho! Eu corro pouco perigo, além de morrer de fome em uma cidade vazia, só com loucos e velhos. Mas tu estarias dentre os primeiro pegos pelo Barco Negro. Não te coloques na dianteira de nenhum apressado conselho de guerra’.

‘Veremos’, respondeu Tal-elmar. ‘Mas tu és minha principal preocupação nesta cidade, onde tenho e dou pouco amor. Não partirei de teu lado de boa vontade. Mesmo assim esta é a cidade de meu povo e nosso lar, e os aptos estão fadados a defendê-la, assim como eu’.

Então Hazad e seu filho desceram a colina e era meio-dia; e na cidade estavam poucas pessoas além das idosas e crianças, por todos os capazes estavam nos campos, ocupados com o árduo trabalho da primavera. Não havia vigia, pois as Colinas de Agar estavam distantes das fronteiras hostis onde o poder do Quarto Rei (7) terminava. O mestre da cidade sentava à porta de sua casa ao sol, dormindo ou placidamente observando os pequenos pássaros que juntavam pedaços de comida da lama seca e batida do lugar aberto no meio das casas.

‘Saudações! Mestre de Agar!’ disse Hazad, e curvou-se, mas o mestre, um homem gordo com olhos de lagarto, apenas piscou e não retornou o cumprimento.

‘Saudações ao trono, Mestre! E que por muito você possa continuar assim!’ disse Tal-elmar, e havia um brilho em seus olhos. ‘Não devemos perturbar seus pensamentos, ou seu sono, mas há novidades às quais, talvez, você deva dar atenção. Não há vigia posto, mas por acaso estávamos no topo da colina e vimos o mar ao longe e lá – aves de mau agouro sobre a água’.

‘Navios dos Go-hilleg’, disse Hazad, ‘com grandes tecidos-de-vento. Três brancos – e um negro’.

O mestre bocejou. ‘Quanto a tu, ancião de olhos cansados’, ele disse, ‘não podes diferenciar o mar de uma nuvem. E quanto a este rapaz folgado, o que sabe ele de barcos ou tecidos-de-vento, ou todo o resto, exceto por teus loucos ensinamentos? Vá aos quebradores de pedra nômades (8) com suas histórias de bruxa sobre os Go-hilleg e não me incomode mais com tais tolices. Tenho outros assuntos de mais peso a ponderar’.

Hazad engoliu sua fúria, pois o Mestre era poderoso e não gostava dele; mas a ira de Tal-elmar era fria. ‘Os pensamentos de alguém com tão grandes necessidades devem ser pesados’, disse ele suavemente, ‘embora eu não saiba que pensamento de mais peso poderia interromper seu repouso do que o cuidado com sua própria carcaça. Ele será um mestre sem povo, ou um saco de ossos na colina, se zombar da sabedoria de Hazad filho de Buldar. Olhos cansados podem ver mais do que aqueles fechados pelo sono’.

A obesa face de Mogru o Mestre escureceu e seus olhos ficaram injetados de sangue pela raiva. Ele odiava Tal-elmar, embora nunca antes o jovem tivera lhe dado razão, exceto que não demonstrava medo em sua presença. Agora ele deveria pagar por isso e por sua recém-descoberta insolência. Mogru bateu palmas, mas ainda enquanto o fazia lembrou que não havia ninguém próximo que ousaria se atracar com o jovem, não, nem mesmo três juntos; e ao mesmo tempo ele viu o brilho dos olhos de Tal-elmar. Ele empalideceu, e as palavras que ele estava prestes a falar, ‘Filho de escrava e seu moleque’, morreu em seus lábios. ‘Hazad uBuldar, Tal-elmar uHazad, desta  cidade, não fale assim com o mestre de seu povo’, ele disse. ‘Um posto de vigia foi criado, embora tu que não tens o governo da cidade possas não saber. Aguardarei até ter um relato dos vigias, nos quais confio, que algo de ruim foi visto. Mas se estás tão ansioso vá aos campos e chame os homens’.

Tal-elmar observou-o cuidadosamente enquanto ele falava e leu claramente seus pensamentos. ‘Agora devo esperar que meu pai não tenha se enganado’, ele disse em seu coração, ‘pois menos perigo a batalha me trará do que o ódio de Mogru deste dia em diante. Um posto de vigia! Sim, mas apenas para espionar as indas e vindas do povo da cidade. E no momento em que eu for aos campos um corredor irá reunir seus servos e homens com porretes. Causei um mal a meu pai nesta hora. Bem! Aquele que começou com a pá deve empunhá-la até terminar o canteiro’. Sua fala, portanto continuou com raiva e escárnio. ‘Vá aos quebradores de pedra você mesmo’, ele disse, ‘pois você está acostumado a usar aquele povo matreiro, e prestar atenção aos seus contos quando te servem. Mas meu pai você não escorneará enquanto eu estiver por perto. Podemos muito bem estar em perigo. Portanto você deverá vir conosco ao topo da colina, e ver com seus próprios olhos. E se você não vir nada que justifique, você deverá chamar seus homens para a colina-dos-Debates. Eu serei seu mensageiro’.

E Mogru também observava a face de Tal-elmar pela fenda de suas pálpebras enquanto este falava, e considerou que não estaria sob risco de violência se cedesse dessa vez. Mas seu coração estava repleto de veneno; e não o irritava pouco o esforço de subir a colina. Lentamente ele se pôs de pé.

‘Eu irei’, ele disse. ‘Mas se meu tempo e esforço forem desperdiçados, eu não perdoarei. Auxilie meus passos; jovem, pois meus servos estão nos campos’. E ele tomou o braço de Tal-elmar e se apoiou pesadamente sobre ele.

‘Meu pai é o mais ancião,’ disse Tal-elmar; ‘e o caminho não é curto. Deixe que o Mestre lidere, e nós seguiremos. Aqui está teu bastão!’. E soltou-se do aperto de Mogru, e deu a este seu bastão o qual estava à porta de sua casa; e tomando o braço de seu pai ele aguardou até o Mestre estar preparado. De soslaio e escuro foi o olhar dos olhos-de-lagarto, mas o brilho dos olhos de Tal-elmar que eles vislumbraram feria como uma agulha. Há muito que as pernas obesas de Mogru não desenvolviam tal velocidade entre a casa e o portão; e mais tempo ainda que não carregaram sua barriga pela subida escorregadia da colina além do dique. Ele estava respirando pesadamente e bufando como um cachorro velho, quando chegaram ao topo.

Então novamente Tal-elmar olhou ao longe; mas o imenso e distante mar estava agora vazio, e ele ficou em silêncio. Mogru limpou o suor de seus olhos e seguir seu olhar.

‘Por que razão, pergunto, tiraste o Mestre da cidade de sua casa e o trouxeste a este lugar?’, ele rosnou. ‘O mar permanece onde deveria estar, e vazio. O que dizes?’

‘Tenha paciência e olhe mais perto’, disse Tal-elmar. Para o oeste as colinas bloqueiam a visão de tudo, exceto do mar mais distante; mas se elevando até o largo topo da Colina Dourada eles desciam repentinamente, e em uma abertura profunda um relance da grande baía e das águas próximas a seu litoral norte podia ser visto. ‘O tempo passou desde que estivemos aqui, e o vento está forte’, disse Tal-elmar. ‘Eles chegaram mais perto’. Ele apontou. ‘Lá você verá suas asas, ou seus tecidos-de-vento, chame-os como quiser. Mas qual é seu conselho? E não é um assunto que o Mestre deveria ver com seus próprios olhos?’

Mogru olhou, e bufou, agora tanto pelo medo quanto pelo trabalho de subir a colina, pois mesmo arrogante como parecia ele tinha ouvido muitas lendas terríveis sobre os Go-hilled das anciãs, em sua juventude. Mas seu coração era matreiro e negro pela ira. Olhou de soslaio primeiro para Hazad, e então para seu filho; e lambeu os lábios, mas não deixou que seu sorriso fosse visto.

‘Você pediu para ser meu mensageiro’, ele disse, ‘e assim serás. Vá agora com rapidez e convoque os homens para a colina-dos-Debates! Mas isto não encerrará tua missão’, acrescentou enquanto Tal-elmar se preparava para correr. ‘Direto dos campos deverás ir com toda velocidade para a Praia. Pois ali os barcos, se barcos são, provavelmente irão parar, e os homens desembarcarão. Deverás obter notícias e espionar bem quem desembarcar. Não voltes a não ser que tenhas novidades que auxiliarão em nossos conselhos. Vás e não te poupes! Comando-te. É tempo de perigo para a cidade’.

Hazad pareceu pronto a protestar; mas baixou a cabeça, e não disse nada, sabendo ser em vão. Tal-elmar parou por um momento, observando Mogru, como alguém olharia uma cobra no caminho. Mas ele percebeu que a esperteza do Mestre fora maior que a sua. Ele armara sua própria armadilha, e Mogru a utilizou. Ele declarou tempo de perigo para a cidade, e tinha o direito de ordenar qualquer serviço. Seria morte desobedecê-lo. E mesmo que Tal-elmar não tivesse se nomeado mensageiro (tentando evitar que qualquer palavra secreta passasse aos servos do mestre), ele diria que a escolha foi justa. Um batedor deveria ser enviado, e quem melhor do que um jovem forte e corajoso, de pés rápidos? Mas também havia malícia na missão, uma malícia negra, de qualquer forma. O defensor de Hazad deveria partir. Não havia esperança em seus irmãos: tolos fortes, mas sem coração para desafiar, exceto a seu velho pai. E era provável que ele não retornasse. O perigo era grande.

Mais uma vez Tal-elmar olhou para o Mestre, e então para seu pai, e então vislumbrou o bastão de Mogru. O brilho estava em seus olhos, e em seu coração o desejo de matar. Mogru percebeu e recuou com medo.

‘Vá, vá!’ ele gritou. ‘Eu já te ordenei. És mais rápido em gritar lobo do que em começar a caçada. Vá de uma vez!’.

‘Vá, meu filho!’, disse Hazad. ‘Não desafie o Mestre. Não onde ele tem a razão. Pois então desafiarias toda a cidade, e estaria acima do teu poder. E fosse eu o Mestre, eu te escolheria, mesmo me sendo querido; pois tens mais coração e sorte do que qualquer um deste povo. Mas retorne, e não deixe o Barco Negro tê-lo. Não seja corajoso demais! Pois melhores serão más notícias trazidas por ti, vivo, do que pelos Homens-do-Mar sem aviso’.

Tal-elmar se curvou e fez o sinal de submissão para seu pai, mas não para o Mestre, e se afastou dois passos. E então se virou. ‘Ouça, Mogru, a quem um povo inferior em sua tolice nomeou mestre’, ele disse. ‘Talvez eu retorne, contra tuas expectativas. Meu pai eu deixo em teu cuidado. Se eu retornar, seja com uma palavra de paz, seja com o inimigo em meu encalço, então teu tempo como mestre estará encerrado, e tua vida também, se eu descobrir que ele sofreu algum mal ou desonra que poderias ter evitado. Teus homens-de-faca e portadores-de-porretes não te ajudarão. Eu apertarei teu pescoço gordo com minhas mãos vazias, se precisar; ou te caçarei através dos ermos até as poços escuros’.  Então um novo pensamento o acossou e ele se dirigiu ao Mestre, e pegou seu bastão.

Mogru se encolheu, e estendeu um braço gordo, como para se defender de um golpe. ‘Está louco hoje’, coaxou. ‘Não cometas violência contra mim ou a pagarás com tua morte. Não ouviste as palavras de teu pai?’

‘Eu ouvi, e eu obedeço’, disse Tal-elmar. ‘Mas a primeira missão é para os homens, e há necessidade de rapidez. Pouca honra tenho entre eles, pois sabem bem que escarneces de nós. Que atenção prestarão, se os bastardos da Escrava, como nos nomeais quando não estou perto, chegar (9) gritando convocações para a colina-dos-Debates em teu nome e sem prova. Teu bastão servirá. É bem conhecido. Não, não irei bater-te com ele ainda!’

Com isso ele então pegou o bastão das mãos de Mogru e desceu correndo a colina, seu coração ainda quente demais com a ira para pensar no que estaria à sua frente. Mas quando ele convocou os homens nas terras inclinadas do sul e agitou o bastão entre deles, aconselhando que se apressassem, correu para o pé da colina, e além dos grandes gramados, e então chegou ao primeiro caminho estreito das florestas. Escuro ele se estendia ante ele no vale entre Agar e as colinas do litoral.

Ainda era manhã, mais de uma hora antes do meio-dia, mas quando ele chegou embaixo das árvores parou e começou a pensar, e percebeu que estava perturbado de medo. Raramente ele vagava longe das colinas de sua casa, e nunca sozinho, nem muito longe na floresta. Pois todo o seu povo temia a floresta (10).

Aqui o trecho datilografado é interrompido, não ao pé da página, e o manuscrito ‘Continuação de Tal-Elmar’ (como o nome agora é escrito) começa.

É rápido para os olhos viajarem até litoral, mas lento para os pés; e a distância era maior do que parecia. A floresta estava escura e desconfortável, pois ali ficavam águas estagnadas entre as colinas de Agar e as colinas do litoral; e muitas cobras viviam ali. Era silenciosa também, pois embora fosse primavera poucos pássaros construíam ninhos ali ou mesmo pousavam ao passarem em busca de terras mais abertas perto do mar. Também moravam na floresta espíritos escuros que odiavam homens, ou pelo menos assim diziam as lendas do povo. Sobre cobras e pântano e demônios da floresta Tal-Elmar pensava parado sob a sombra; mas precisou pensar pouco para chegar à conclusão que todos os três eram menos perigosos do que retornar, com uma desculpa mentirosa ou sem nenhuma, para a cidade e seu mestre.Então, talvez auxiliado um pouco por seu orgulho, ele seguiu em frente. E o pensamento veio a ele sob a sombra enquanto procurava por um caminho através do pântano e do emaranhado da floresta: O que eu sei, ou qualquer um de meu povo, mesmo meu pai, desses Go-hilleg dos barcos alados? Pode muito bem ser que eu que sou um estrangeiro entre meu próprio povo ache-os mais agradáveis que Mogru e todos os outros como ele.Com este pensamento crescendo nele, ele se sentiu mais como um homem que vai cumprimentar amigos e parentes do que alguém que se esgueira para espiar um inimigo poderoso, ele passou incólume pela floresta das sombras, e chegou às colinas do litoral, e começou a subir. Ele escolheu uma colina, pois os emaranhados da floresta acompanhavam sua encosta e o topo estava coroado com um grupo denso de árvores baixas. A este esconderijo ele foi e se achegando à borda da colina ele olhou para baixo. Havia lhe tomado um longo tempo, pois sua caminhada havia sido lenta, e agora o sol havia passado do meio e estava descendo em direção ao Mar. Ele estava faminto, mas a isto deu pouca atenção, pois estava acostumado à fome, e poderia suportar os trabalhos de um dia inteiro sem comer, quando precisava. A colina era baixa, mas descia acentuadamente até a água. Ante seus pés estavam terras verdejantes terminando em um trecho de cascalho, além dos quais as águas do estuário brilhavam sob o sol que se punha.Em meio à correnteza e além da parte mais rasa três grandes navios – embora Tal-Elmar não tivesse tal palavra em sua língua para nomeá-los – estavam parados imóveis. Estavam ancorados e com as velas abaixadas. Do quarto, o navio negro, não havia sinal. Mas no gramado próximo à pequena praia de cascalhos havia tendas e pequenos barcos. Homens altos estavam parados ou andando entre eles. Além, nos ‘grandes barcos’ Tal-Elmar podia ver [?outros] em vigia; de quando em quando ele vislumbrava um brilho quando uma arma ou armadura se movia no sol. Ele tremeu, pois os contos das ‘lâminas’ dos Homens Cruéis eram familiares à sua infância.

Tal-Elmar observou por longo tempo, e lentamente ele se deu conta do quão sem esperança era sua missão. Ele poderia olhar até que a luz do dia acabasse, mas ele não poderia contar com precisão suficiente para qualquer uso o número de homens que estavam lá; nem podia descobrir seus propósitos ou seus planos. Mesmo se ele tivesse tanto a coragem quanto a sorte de passar pelos guardas ele não poderia fazer nada de útil, pois ele não entenderia uma palavra sequer do idioma deles.

Ele se lembrou de repente – outro dos esquemas de Mogru para se livrar dele, como ele percebia agora, embora à época ele achasse uma honra – como apenas um ano atrás, quando a minguante vila de Agar foi ameaçada por invasores da vila de Udul distante no interior (11), e todos os homens temiam que um ataque ocorresse, pois Agar era mais seca, mais saudável e estava em local mais defensável (ou assim pensavam os homens da cidade). Então Tal-Elmar foi escolhido para ir e espionar a terra de Udul, por ‘ser jovem, corajoso e conhecer melhor o mundo ao redor’. Assim disse Mogru, verdadeiramente, pois o povo da cidade de Agar era tímido e raramente ia muito longe no campo, nunca se arriscando a ser pego pelo escurecer fora de suas casas.  Enquanto que Tal-Elmar freqüentemente, se tivesse a chance ou nenhum trabalho o exigisse (ou mesmo que o fizesse, algumas vezes), andava longe pelo campo, e embora (sendo assim ensinado desde a infância) temesse o escuro, ele mais de uma vez havia passado a noite longe da cidade, e era conhecido até mesmo por ir à colina de vigia sozinho sob as estrelas.

Mas rastejar dentro dos campos inamistosos de Udul durante a noite era uma coisa diferente e muito pior. Mesmo assim ele ousou fazê-lo. E ele chegou tão perto de umas das cabanas dos vigias que pode ouvir os homens dentro conversando – em vão. Ele não podia entender o sentido de suas palavras. O tom parecia cheio de pesar e cheio de medo (12) (como eram as vozes dos homens à noite no mundo que ele conhecia), e umas poucas palavras ele pareceu reconhecer, mas não o suficiente para compreender. E o povo de Udul eram seus vizinhos mais próximos – de fato, embora Tal-Elmar e seu povo tenham esquecido, e eles tinham esquecido tantas coisas, seus parentes próximos, parte do mesmo povo em anos passados e melhores. Que esperança então havia dele reconhecer qualquer simples palavra, ou mesmo interpretar corretamente as entonações, da língua de um povo estrangeiro separado do dele desde o começo do mundo? Estrangeiro de seu próprio? Meu próprio? Mas eles não eram meu povo. Apenas meu pai. E de novo ele teve a estranha sensação, vinda não sabia de onde para este jovem rapaz, nascido e criado em meio a um povo meio-selvagem e declinante: o sentimento de que ele não estava indo encontrar estrangeiros, mas parentes de longe e amigos.

Ainda assim ele era também um menino de sua vila. Ele estava com medo, e demorou muito até se mover. Finalmente ele olhou para cima. O sol à sua direita estava agora se pondo. Entre dois galhos de árvore ele vislumbrou um pedaço de mar enquanto o grande fogo redondo, avermelhado com a leve névoa marinha, ficou à altura de seus olhos, e as águas estavam pintadas de um flamejante dourado.

Ele já havia visto o sol se pôr no mar, mas nunca desse modo. Ele soube em um piscar (como se viesse daquele fogo) que havia visto desta forma, [? ele fora chamado] (13), que isto significava mais do que a chegada da ‘hora do Rei’, o escuro (14). Ele se levantou e como se levado ou impulsionado andou abertamente colina abaixo e cruzou o longo gramado em direção ao cascalho e às tendas.

Pudesse ele ver a si mesmo ficaria tão surpreso quanto aqueles que o viam da praia. Sua pela nua – pois ele usava apenas um pedaço de tecido ao redor da cintura, e um pequeno manto de … pele jogado para trás e preso com uma tira de couro aos seus ombros – brilhava dourada sob a luz [?do pôr do sol], seu cabelo claro também estava iluminado e seus passos eram leves e livres.

‘Olhe!’ gritou um dos vigias para seu companheiro. ‘Você vê o que vejo? Não é um dos Eldar das florestas que vem falar conosco?’

‘Eu vejo, de fato’, disse o outro, ‘mas se não é algum fantasma da borda da escuridão [?que está chegando] [?nesta terra amaldiçoada] um dos Belos ele não pode ser. Estamos muito ao sul e nenhum mora por aqui. Seria de fato se estivéssemos [?longe ao norte, perto dos Portos]’.

‘Quem conhece todos os modos de agir dos Eldar?’, disse o vigia. ‘Silêncio agora! Ele se aproxima. Deixe-o falar primeiro’.

Então eles ficaram parados, e não fizeram nenhum sinal enquanto Tal-Elmar se aproximava. Quando ele estava a uns vinte passos seu medo retornou e ele parou, deixando seus braços caírem à sua frente e abrindo as palmas em direção aos estranhos em um gesto que todos os homens poderiam compreender.

Então, como eles não se moviam, nem colocavam as mãos em nenhuma arma até onde ele podia ver, ele tomou coragem novamente e falou, dizendo: ‘Saudações, Homens do mar e das asas! Por que vieram aqui? Vieram em paz? Eu sou Tal-Elmar uHazad do povo de Agar. Quem são vocês?’

Sua voz era clara e bela, mas a língua que ele usou não era outra senão uma forma do idioma semi-selvagem dos Homens da Escuridão, como os Homens do Navio os chamavam. O vigia se moveu. ‘Elda!’, ele disse. ‘Os Eldar não usam tal língua’. Ele chamou e imediatamente homens saíram de suas tendas. Ele próprio sacou uma espada, enquanto seu companheiro preparava uma flecha no arco. Antes mesmo que Tal-Elmar pudesse se sentir aterrorizado, antes mesmo de se virar e correr – felizmente, pois ele não sabia nada sobre arcos e teria caído muito antes de escapar, acertado por uma flecha – ele estava cercado por homens armados. Eles o pegaram, mas não com maus tratos, quando o viram desarmado e submisso, e o levaram à tenda onde estava alguém com autoridade.

Tal-Elmar sentia que o idioma era conhecido e apenas oculto dele por um véu.

O capitão disse que Tal-Elmar deveria ser de raça Numenoriana ou de um povo aparentado a eles. Ele deveria ser trado com cortesia. Ele supunha que ele havia sido feito cativo ainda bebê ou nascido de cativos. ‘Ele está tentando fugir para nós’, ele disse.

‘Uma pena ele não lembrar nada da língua’. ‘Ele aprenderá’. ‘Talvez, mas depois de um longo tempo. Se ele a falasse agora, ele poderia nos dizer muito, o que aceleraria nossa missão e reduziria nosso perigo’.

Então finalmente fizeram Tal-Elmar entender seu desejo de saber quantos homens moravam perto; eram eles amigáveis, eram como ele era?

O objetivo dos Numenorianos era ocupar esta terra, e em aliança com os ‘Cruéis’ do Norte expulsar o Povo da Escuridão e fazer um acampamento para ameaçar o Rei. (Ou isto seria enquanto Sauron estava ausente em Númenor?)

Este lugar era no estuário de Isen? ou Morthond.

Tal-Elmar podia contar e entendia números grandes, embora sua linguagem fosse deficiente.

Ou ele entendia Numenoriano? [Adicionado posteriormente: Eldarin – estes eram os amigos-dos-Elfos.] Ele disse quando ouviu um homem falar ao outro: ‘É estranho que vocês falem a língua dos meus longos sonhos. E certamente agora estou em minha terra e não dormindo?’ Então eles se assombraram e disseram: ‘Por que você não falou conosco antes? Você falou como os povos da Escuridão que são nossos inimigos, sendo servos do Inimigo’. E Tal-Elmar respondeu: ‘Porque esta língua só retornou à minha mente ouvindo-o falá-la; e como eu poderia saber que você entenderia a linguagem dos meus sonhos? Você não é como aqueles que falam comigo em meus sonhos. Não, um pouco parecido; mas eles eram mais brilhantes e mais belos’.

Então o homem ficou ainda mais impressionado, e disse: ‘Parece que você falou com os Eldar, acordado ou em uma visão.’

‘Quem são os Eldar?’ disse Tal-Elmar. ‘Esse nome eu não ouvi em meu sonho’.

‘Se você vier conosco talvez possa vê-los’.

Então de repente medo e a lembrança de antigas lendas vieram a Tal-Elmar novamente, e ele recuou. ‘O que farão comigo?’, ele disse. ‘Vão me atrair ao barco de asas negras e entregar-me à Escuridão?’

‘Você ou ao menos seu povo já pertencem à Escuridão’, responderam. ‘Mas porque você fala assim das velas negras? As velas negras são para nós um sinal de honra, pois são a bela noite antes da vinda do Inimigo e sobre o negro estão colocadas as estrelas prateadas de Elbereth. As velas negras de nosso capitão foram adiante na água’.

Tal-Elmar continuou com medo, pois ainda não era capaz de imaginar o negro como qualquer coisa a não ser símbolo da noite de medo. Mas ele pareceu tão corajoso quando pôde e respondeu: ‘Nem todo meu povo. Nós tememos a Escuridão, mas não a amamos nem a servimos. Ao menos alguns de nós. Assim é com meu pai. E a ele eu amo. Eu não serei separado dele nem mesmo para ver os Eldar’.

‘Pena!’, eles disseram. ‘Seu tempo de moradia nessas colinas está chegando ao fim. Aqui os homens do Oeste decidiram fazer suas moradas, e o povo da escuridão deve partir – ou ser morto’.

Tal-Elmar oferece-se como refém.

Não há mais. Ao pé da página meu pai escreveu ‘Tal-Elmar’ duas vezes, e seu próprio nome duas vezes; e também ‘Tal-Elmar em Rhovanion’, ‘Terras Ermas’, ‘Anduin o Grande Rio’, ‘Mar de Rhun’ e ‘Pântano de Etten’.

NOTAS.

1. Na versão rejeitada da seção inicial do texto a história começa: ‘Nos dias dos Grandes Reis quando um homem podia andar sem molhar os pés de Roma até York (não que estas cidades tivessem sido construídas ou imaginadas) morava na cidade de seu povo nas colinas de Agar um velho homem, de nome Tal-argan Barbalonga’, e Tal-argan permaneceu o nome sem correção na página rejeitada. A segunda versão manteve ‘os Grandes Reis’, a mudança para ‘os Reis da Escuridão’ sendo feita mais tarde.

2. Este parágrafo mais tarde foi colocado entre colchetes.

3. Ambas as versões têm ‘o Quarto Rei’, alterada na segunda para ‘o Rei do Norte’ ao mesmo tempo em que ‘os Grandes Reis’ foi alterado para ‘os Reis da Escuridão’ (nota 1).

4. Na versão rejeitada o pai de Tal-argan (Hazad) era chamado Tal-Bulda, e o local da batalha era o vale de Rishmalog.

5. Neste ponto a primeira página rejeitada termina, e o texto se torna a composição principal. Uma nota rascunhada a lápis no topo da página substituta propõe que Buldar pai de Hazad fosse eliminado, e que o próprio Hazad tenha casado com a mulher estrangeira Elmar (que não é nomeada na versão rejeitada).

6. O nome datilografado era Dur nor-Belgoth, corrigido para Gorbelgod.

7. ‘o Quarto Rei’, não foi corrigido aqui: ver nota 3.

8. No original ‘knappers’:  um  ‘knapper’  era alguém que quebrava pedras ou rochas. Esta palavra substituiu ‘tinker’ (algo como cigano), aqui e na próxima ocorrência.

9. Eu deixei o texto aqui como ele é.

10. Uma nota marginal aqui diz que Tal-elmar não tinha ‘nenhuma arma além de pedras de arremesso em um saco’.

11. O texto como escrito tinha ‘distante no interior, e todos os homens temiam’, corrigido para ‘distante no interior. Todos os homens temiam’. Eu alterei o texto para propiciar uma sentença completa, mas meu pai (que estava escrevendo com grande rapidez) sem dúvida não pretendia isso, e teria reescrito o trecho  se alguma vez tivesse retornado a ele.

12. Na margem meu pai escreveu que a vila de Udul estava morrendo de peste, e os invasores estavam de fato desesperadamente procurando por comida.

13. A conclusão do texto está em certos trechos em um manuscrito excruciantemente difícil, e as palavras que eu dei como ‘ele foi chamado’ são dúbias: mas eu não consigo imaginar outra interpretação delas.

14. Contra as palavras ‘nunca ousando ser pegos pelo escuro fora de suas casas’ meu pai escreveu: ‘a Escuridão é “a hora do Rei” ‘. Como pode ser visto em passagens seguintes, o Rei é Sauron.

A Lenda do Despertar dos Quendi (Cuivienyarna)

sil-cuivienenEnquanto seus primeiros corpos estavam sendo feitos da “carne de Arda”, os quendi dormiam “no seio da terra”, debaixo  do verde gramado, e despertaram quando tornaram-se adultos. Mas os Primeiros Elfos [também chamados de Não-Nascidos, ou Nascidos de Eru] não acordaram todos ao mesmo tempo. Eru havia então determinado que cada um deveria estar ao lado de seu/sua “parceiro[a] destinado”. Mas três elfos despertaram antes de todos, e eles eram elfos homens, pois elfos homens são mais fortes fisicamente e mais ávidos e aventureiros em lugares estranhos. Estes três pais elfos são chamados nos contos antigos Imin, Tata e Enel. Eles despertaram nessa ordem, mas com pouca diferença de tempo entre cada um; e a partir deles, dizem os eldar, as palavras um, dois e três foram feitas: os mais antigos de todos os numerais.*

* As palavras eldarin a que se refere são min, atta [ou tata] e nel. O oposto é provavelmente histórico. Os Três não possuiam nomes até que desenvolveram uma linguagem, e nomes foram dados [ou tomados] após eles terem desenvolvidos numerais [ou pelo menos os doze primeiros].

Imin, Tata e Enel despertaram antes de suas esposas,e a primeira coisa que eles viram foram as estrelas, pois acordaram no crespúsculo anterior ao amanhecer. E a próxima coisa que viram foram suas esposas destinadas dormindo no gramado verde junto a eles. Eles então ficaram tão encantados com a beleza delas que seu desejo pela fala foi imediatamente acelerado e eles começaram a “pensar em palavras” para falar e cantar. E sendo impacientes, eles não podiam esperar, então acordaram suas esposas. Assim, os eldar dizem, a primeira coisa que cada mulher elfo viu foi seu esposo, e seu amor por ele foi seu primeiro amor; e seu amor e admiração pelas maravilhas de Arda veio posteriormente.

Ora, depois de um tempo, no qual viveram juntos, e inventaram muitas palavras, Imin e Iminyë, Tata e Tatië, Enel e Enelyë caminharam juntos, e deixaram o verde gramado de seu despertar, e logo eles chegaram a outro gramado ainda maior e lá encontraram seis casais de quendi, e as estrelas estavam mais uma vez brilhando no crepúsculo e os elfos homens estavam nesse momento despertando.

Então Imin declarou ser o mais velho e ter o direito da primeira escolha; e ele disse: “Eu escolho estes doze para serem meus companheiros.” E os elfos homens acordaram suas esposas, e tendo vivido juntos por um tempo e aprendido muitas palavras e inventado mais, eles caminharam juntos e logo, em outro vale ainda mais profundo e mais amplo, encontraram nove casais de quendi, e os elfos homens recém haviam acordado sob a luz das estrelas.

Então Tata reclamou o direito da segunda escolha, e ele disse: “Eu escolho estes dezoito para serem meus companheiros.” Então novamente os homens elfos acordaram suas esposas, e eles moraram e falaram juntos, e criaram muitos novos sons e palavras mais longas; e então os trinta e seis caminharam para o exterior juntos, até chegarem a um bosque de bétulas por um rio, e lá eles encontraram doze casais de quendi, e os elfos homens estavam de pé da mesma forma, e olhavam para as estrelas através dos ramos das bétulas.

Então Enel reclamou o direito da terceira escolha, e ele disse: “Eu escolho estes vinte e quatro para serem meus companheiros.” Novamente os elfos homens acordaram suas esposas; e por muitos dias os sessenta elfos moraram à margem do rio, e logo eles começaram a fazer versos e canções para a música da água.

Por fim, mais uma vez todos partiram juntos. Mas Imin notou que cada vez eles encontravam mais quendi do que antes, e ele pensou consigo mesmo: “Eu tenho apenas doze companheiros [embora eu seja o mais velho]; Farei uma nova escolha .” Em pouco tempo eles chegaram a um bosque de abetos na encosta de uma colina, e lá encontraram dezoito casais de quendi, e todos ainda estavam dormindo. Ainda era noite e havia nuvens no céu. Mas antes do amanhecer um vento chegou, e instigou os elfos homens, e eles despertaram e ficaram impressionados com as estrelas; pois todas as nuvens foram sopradas e as estrelas brilhavam de leste a oeste. E por muito tempo os dezoito novos quendi não prestaram atenção aos outros, mas olharam para as luzes de Menel. Mas quando, por fim, voltaram seus olhos novamente para a terra, eles contemplaram suas esposas e acordaram-nas para que olhassem para as estrelas, gritando-lhes elen, elen! E então as estrelas receberam seu nome.

Ora, Imin disse: “Eu ainda não escolherei”; e Tata, então, escolheu estes trinta e seis para serem seus companheiros; e eles eram altos e de cabelos negros e fortes como abetos, e deles a maioria dos noldor posteriormente originou-se.

E os noventa e seis quendi conversaram entre si, e os recém-despertos inventaram muitas palavras novas e belas, e muitos artifícios de linguagem interessantes; e eles riram, e dançaram sobre a encosta da colina, até que finalmente desejaram encontrar mais companheiros. Então todos partiram juntos novamente, até que chegaram a um lago escuro no crepúsculo; e havia um grande penhasco próximo a ele no lado leste, e uma cachoeira descia do alto, e as estrelas reluziam na espuma. Mas os elfos homens já estavam se banhando na cachoeira, e eles haviam despertado suas esposas. Havia vinte e quatro casais; mas até o momento eles não possuiam uma linguagem formada, embora cantassem docemente e suas vozes ecoassem nas pedras, misturando-se com o ímpeto das quedas d’água.

Mas novamente Imin conteve sua escolha, pensando “na próxima vez será uma companhia maior”. Porém Enel disse: “Eu tenho a escolha, e eu escolho estes quarenta e oito para serem meus companheiros.” E os cento e quarenta e quatro quendi por muito tempo moraram próximo ao lago, até que todos adquiriram as mesmas vontades e a mesma linguagem, e estavam alegres.

Por fim Imin disse: “Agora é a hora na qual devemos prosseguir e procurar mais companheiros.” Mas a maior parte dos outros estava satisfeita. Então Imin e Iminyë e seus doze companheiros partiram, e muito vagaram durante o dia e durante o crepúsculo na região ao redor do lago, próximo ao qual todos os quendi haviam despertado – por esta razão ele é chamado Cuiviénen. Mas eles nunca encontraram mais companheiros, pois o conto dos Primeiros Elfos estava completo.

E assim era que os quendi sempre contavam às dúzias, e que 144 foi por muito tempo seu número mais alto, tal que em nenhuma de suas línguas posteriores havia um nome comum para um número maior. E também sucedeu-se que os “Companheiros de Imin” ou a Companhia Mais Velha [da qual vieram os vanyar] eram, apesar de tudo, apenas quatorze ao todo, e a menor companhia; e os “Companheiros de Tata” [dos quais vieram os noldor] eram cinqüenta e seis ao todo; mas os “Companheiros de Enel”, embora fossem a Companhia Mais Jovem, era a maior; deles vieram os teleri [ou lindar], e no início eles eram setenta e quatro ao todo.

Ora, os quendi amavam toda Arda que eles já haviam visto, e coisas verdes que brotavam e o sol de verão eram seu deleite; mas apesar de tudo, eles sempre foram mais tocados no coração pelas estrelas, e as horas de crepúsculo em tempo bom, ao “amanhecer” e ao “anoitecer”, eram as horas de seu maior prazer. Pois nestas horas na primavera do ano, eles despertaram pela primeira vez para a vida em Arda. Mas os lindar, acima de todos os outros quendi, desde o seu princípio eram mais apaixonados pela a água, e cantavam antes que pudessem falar.

Famosa lenda do Despertar dos Elfos, em forma e estilo de Conto de Fadas.

As Andanças de Húrin (The Wanderings of Hurin)

As andanças do infeliz Húrin, após ser liberto por Melkor.

E assim terminou o conto de Túrin o infeliz, o pior dos trabalhos de Morgoth entre os Homens no mundo antigo. Mas Morgoth não dormiu nem descansou de sua maldade, e esse não foi o fim de seus negócios com a Casa de Hador, contra a qual sua malícia era insaciável, pois Húrin estava sob seu Olho, e Morwen vagava perturbada pelos ermos.Infeliz era a sina de Húrin. Pois tudo o que Morgoth sabia das maquinações de sua malícia, Húrin sabia também; mas suas mentiras eram misturadas com a verdade, e tudo aquilo que era bom era escondido ou distorcido. Aquele que enxerga através dos olhos de Morgoth, querendo ou não, enxerga todas as coisas corrompidas.

Um dos esforços especiais de Morgoth era lançar uma luz maligna sobre tudo aquilo que Thingol e Melian construíram, pois ele os temia e odiava acima de tudo; e quando, então, considerou ter chegado a hora, no ano após a morte de Túrin, libertou Húrin, permitindo que partisse para onde desejasse.

Ele mentiu que fora movido pela pena de um inimigo completamente derrotado, maravilhado por sua resistência. ‘Tal firmeza’, disse ele, ‘deveria ter se mostrado em uma causa melhor, e teria sido recompensada de outra forma. Mas eu não tenho mais uso para você, Húrin, na sua pálida vidinha.’E ele mentiu, pois seu propósito era que Húrin continuasse a estender a sua malícia contra Elfos e Homens, antes de morrer.

Então, mesmo não acreditando em praticamente nada do que Morgoth dissera ou fizera, sabendo que ele não estava piedoso, ele pegou a sua liberdade e seguiu em pesar, amargado pelos artifícios do Senhor do Escuro. Por vinte e oito anos, Húrin estivera cativo em Angband…

É dito que os caçadores de Lorgan seguiram seus rastros e não abandonaram sua trilha até que ele e seus companheiros subiram pelas montanhas. Quando Húrin chegou novamente aos lugares altos, ele olhou de relance pelas nuvens nos picos da Crisaegrim, e ele lembrou de Turgon; e seu coração desejou retornar para o Reino Escondido, se pudesse, ou ao menos lá ele seria lembrado com honra.

Ele não ouviu nenhuma das coisas que aconteceram em Gondolin, e não sabia que Turgon endurecera seu coração contra a sabedoria e a piedade, e não permitia que ninguém entrasse ou saísse por qualquer motivo. Então, sem saber que todos os caminhos estavam trancados além da esperança, ele resolveu rumar em direção a Crisaegrim, mas ele nada falou aos seus companheiros sobre seus propósitos, pois ele ainda estava ligado ao seu juramento de não revelar a ninguém que conhecesse sequer a região em que Turgon habitava.

Porém ele precisava de ajuda; pois ele nunca vivera nos ermos, onde foras-da-lei estavam há muito acostumados à vida dura de caçadores e ceifeiros, e carregavam consigo tanta comida quanto conseguiam, apesar de o Inverno Mortal ter diminuído seus mantimentos. Assim, Húrin falou a eles: ‘Nós devemos abandonar esta terra agora; pois Lorgan não me deixará mais em paz. Rumemos para os vales do Sirion, onde a primavera finalmente chegou!’

Então Asgon os guiou por um dos antigos caminhos que levavam para o leste de Mithrim, e eles desceram pelas nascentes do Lithir, até que chegaram às cachoeiras que corriam até o Sirion ao final da Terra Estreita. E lá eles chegaram exaustos, pois Húrin confiava pouco na ‘liberdade’ que Morgoth lhe garantira. E ele estava correto: Morgoth tinha notícias de todos os seus movimentos, e o tempo em que esteve escondido nas montanhas, a sua descida foi rapidamente espionada. A partir de então, ele foi seguido e observado com tal astúcia que ele raramente tinha qualquer pista disso. Todas as criaturas de Morgoth evitavam o seu caminho, e ele não foi emboscado ou atacado.

Eles rumaram para o sul, pelo lado oeste do Sirion, e Húrin pensava consigo mesmo como se separar de seus companheiros, ao menos por tempo suficiente para poder procurar por uma entrada para Gondolin sem trair a sua palavra. Finalmente eles alcançaram Brithiach, e lá Asgon disse a Húrin: ‘Para onde iremos agora, Senhor? Além deste vau os caminhos são muito perigosos para os homens mortais, se o que dizem é verdade.’

‘Então rumemos para Brethil, que é perto daqui,’ disse Húrin. ‘Eu tenho uma missão lá. Naquela terra meu filho morreu.’

Então, naquela noite eles se abrigaram em um bosque de árvores, as primeiras da Floresta de Brethil em sua fronteira norte, próxima do sul do Brithiach.

Húrin se deitou separado dos outros; e no dia seguinte antes do Sol nascer, enquanto eles dormiam exaustos, ele os abandonou e cruzou o vau e chegou a Dimbar.

Quando os homens despertaram, ele já estava longe, e havia uma grossa neblina da manhã sobre o rio. O tempo passou e, não tendo retornado nem respondido aos chamados, eles começaram a temer que ele fora atacado por alguma fera ou por algum inimigo que espreitava. ‘Nós fomos negligentes’, disse Asgon. ‘A terra está quieta, quieta demais, mas existem olhos sob as folhas e ouvidos atrás das pedras.’

Eles seguiram o seu rastro quando a neblina se ergueu; mas ele levou para o vau e lá desapareceu, e eles estavam perdidos. ‘Se ele nos deixou, deixe-nos voltar para nossa terra,’ disse Ragnir. Ele era o mais novo na companhia, e pouco recordava dos dias que antecederam a Nirnaeth. ‘O raciocínio do velho é selvagem. Ele fala com com a sombra com vozes estranhas enquanto dorme.’

‘Pouco me espanta se for verdade’, disse Asgon. ‘Mas quem mais poderia permanecer tão forte depois de tanta angústia? Não, ele é nosso senhor, faça o que fizer, e eu jurei segui-lo.’

‘Até mesmo para o leste além do vau?’ perguntaram os outros.

‘Não, existe pouca esperança naquele caminho’, disse Asgon, ‘e eu não creio que Húrin irá muito distante por lá. Tudo o que sabemos de seus propósitos é que ele queria ir o mais cedo possível para Brethil, e que ele tem uma missão lá. Nós estamos exatamente na fronteira. Vamos procurar por ele lá.’

‘Com a permissão de quem?’ disse Ragnir. ‘Os homens de lá não gostam de estranhos.’

‘Bons homens habitam lá,’ disse Asgon, ‘e o Senhor de Brethil é parente dos nossos Senhores.’ Mesmo assim, os outros estavam em dúvidas, pois nenhuma notícia tem saído de Brethil nos últimos anos. ‘Pode ser governado por Orcs, pelo que sabemos,’ disseram eles. ‘Nós logo iremos descobrir como andam as coisas’, disse Asgon. ‘Orcs são pouco piores que o povo do Leste, eu acho. Se foras-da-lei devemos permanecer, eu prefiro espreitar pelas belas florestas em vez das colinas geladas.

Então Asgon foi em direção a Brethil; e os outros o seguiram, pois ele tinha um coração resoluto e os homens diziam que ele nascera com boa sorte. Antes do fim daquele dia eles já estavam nas profundezas da floresta, e a chegada deles estava marcada; pois os Haladin estavam mais atentos do que nunca, e observavam suas fronteiras de perto. Na hora cinza que antecede a manhã, praticamente todos os intrusos dormiam, seu acampamento foi cercado e seus vigias foram amordaçados logo que alertaram os outros.

Então Asgon se levantou, e mandou que seus homens não desembainhassem suas armas. ‘Vejam agora,’disse ele, ‘nós viemos em paz! Nós somos Edain de Dorlomin.’

‘Mas o porquê da sua vinda eu não sei,’disseram os vigias. ‘Mas a manhã ainda está escura. Nosso líder irá fazer melhor julgamento de vocês quando estiver mais claro.’

Então, com muitos homens a menos, Asgon e seus homens foram feitos prisioneiros, e suas armas foram tomadas e suas mãos atadas; e assim foram levados para a frente do novo Senhor dos Haladin.

Ele era Harathor, irmão de Hunthor, que morreu na ravina de Taeglin. Pela a morte de Brandir, que não deixara filhos, ele herdara o comando por descendência de Halad. Ele não tinha amor por aqueles da casa de Hador, e não compartilhava do mesmo sangue; e disse para Asgon, quando os capturados estavam perante ele: ‘De Dorlomin você vem, me disseram, e sua fala comprova isso. Mas o porquê da sua vinda eu não sei.’

‘Então são Edain do norte,’disse ele. ‘Sua fala comprova isso, bem como seus equipamentos. Você busca amizade, talvez. Mas ai de mim! coisas más recaíram sobre nós aqui, e nós vivemos com medo. Manthor, meu senhor, Mestre da Marca do Norte, não está aqui, e eu devo, então, obedecer aos comandos de Halad, o líder de Brethil. Para ele vocês devem ser enviados sem mais perguntas. Lá vocês poderão ter alguma sorte!’

Então Ebor falou cortesmente, mas ele não tinha muitas esperanças. Pois o novo líder era agora Hardang, filho de Hundad. Na morte de Brandir sem filhos, ele foi feito Halad, sendo um dos Haladin, da família de Haleth, de onde todos os capitães eram escolhidos. Ele não amava Túrin, e ele agora não possuía amor nenhum pela Casa de Hador, de cuja linhagem ele não fazia parte. Nem tinha muita amizade por Manthor, que também era dos Haladin.

Para Hardang, Asgon e seus homens seguiam caminhos desonestos, e eles foram vendados. Assim, finalmente chegaram ao salão dos capitães em Obel Halad; e seus olhos foram descobertos, e os guardas os conduziram para dentro. Hardang estava sentado em sua grande cadeira, e ele os encarou com frieza.

‘Vocês vêm de Dor-lómin, segundo me disseram,’ disse ele. ‘Mas porque vocês vieram aqui eu não sei. Poucas coisas boas vêm para Brethil daquela terra, e eu não estou olhando para nenhuma coisa boa agora: é um feudo de Angband. Saudações frias encontrarão aqui, se esgueirando até aqui para nos espionar!’

Asgon controlou sua fúria, mas respondeu, determinado: ‘Nós não nos esgueiramos até aqui, senhor. Nós somos tão hábeis nas florestas quanto seu povo, e nós não teríamos sido capturados tão facilmente se tivéssemos qualquer motivo para temer. Nós somos Edain, e não servimos Angband, mas defendemos a Casa de Hador. Nós pensávamos que os homens de Brethil fossem assim também, e amigáveis a todos os homens de boa-fé.’

‘Para aqueles que provaram a sua fé,’ disse Hardang. ‘Ser simplesmente Edain não é suficiente. E, no que concerne à casa de Hador, pouco amor é tido aqui. Por que o povo dessa casa vem aqui agora?’ Isto Asgon não respondeu; pois, devido à hostilidade do líder, ele achou melhor não mencionar Húrin ainda.

‘Percebo que não falarás tudo o que sabes,’ falou Hardang. ‘Que assim seja. Deverei fazer meu julgamento com o que vejo; mas serei justo. Este é meu julgamento. Aqui Túrin, filho de Húrin permaneceu por um tempo, e ele livrou a nossa terra da Serpente de Angband. Por isto, darei a vocês suas vidas. Mas ele desprezou Brandir, justo líder de Brethil, e ele o matou sem justiça ou piedade. Assim, não os darei abrigo. Vocês deverão sair por onde entraram. Vão agora, e se retornarem, retornarão para a morte!’

‘Não devolverão nossas armas?’ perguntou Asgon. ‘Nos lançarão de volta ao ermo sem arco e sem armadura para morrer entre os animais?’

‘Nenhum homem de Hithlum irá portar armas novamente em Brethil,’ disse Hardang. ‘Não com permissão minha. Tirem-nos daqui.’

Mas enquanto eram arrastados para fora do salão, Asgon gritou: Esta é a justiça dos homens do Leste, não dos Edain! Nós não estivemos aqui com Túrin, para o bem ou para o mal. Nós servimos a Húrin. Ele ainda vive. Espreitando pelas suas florestas não o recorda a Nirnaeth? Vai desonrá-lo também, com seu rancor, se ele vier?’

‘Se Húrin vier, você diz?’ disse Hardang. ‘Quando Morgoth dormir, talvez!’

‘Não,’ disse Asgon. ‘Ele retornou. Com ele nós viemos até suas fronteiras. Ele tem uma missão a cumprir aqui, segundo nos disse. Ele virá!’

‘Então eu estarei aqui para encontrá-lo,’ falou Hardang. ‘Mas vocês não estarão. Agora vão!’ Disse ele em escárnio, mas sua face empalideceu em um medo súbito de que acontecera um presságio de que o pior ainda estaria por vir. Então um grande medo da sombra da Casa de Hador caiu sobre ele, e então seu coração ficou negro. Pois ele não era um homem de grande espírito, como eram Hunthor e Manthor, descendentes de Hiril.

Asgon e sua companhia foram vendados novamente, para que não espionassem os caminhos de Brethil, e foram levados para a fronteira norte. Ebor estava insatisfeito quando ouviu do que aconteceu em Obel Halad, e ele falou a eles com cortesia.

‘Ai de mim!’, disse ele, ‘vocês devem seguir em frente novamente. Mas vejam! Eu devolvo a vocês suas armas e equipamentos. Pois é o que meu senhor Manthor faria, no mínimo. Quem dera ele estivesse aqui! Mas ele é o mais bravo entrenós; e pelo comando de Hardang, é o líder da guarda no vau de Taiglin. Lá nós temos mais medo de investidas, e é onde a maioria dos ataques acontece. Bem, isto é o que farei; mas lhes imploro, não entrem em Brethil novamente, pois se o fizerem, nós seremos obrigados a obedecer à palavra de Hardang que se espalhou por todas as fronteiras: matar vocês assim que os encontrar.’

Então Asgon o agradeceu, e os conduziu até as margens de Brethil, e os desejou uma boa jornada.

‘Bem, sua sorte permanece,’ disse Ragnir, ‘pois ao menos não fomos mortos, apesar disso ter quase acontecido. O que faremos agora?’

‘Eu ainda desejo encontrar meu senhor Húrin,’ disse Asgon, ‘e meu coração me diz que ele ainda virá para Brethil.’

‘Para onde não podemos retornar,’ disse Ragnir, ‘ao menos que procuremos por uma morte mais rápida que a fome.’

‘Se ele vier, ele virá, eu acho, pela fronteira norte, entre o Sirion e Taiglin,’ disse Asgon. É por lá que talvez teremos notícias.’

‘Ou flechas,’ disse Ragnir. Mesmo assim eles seguiram o conselho de Asgon e seguiram para o oeste, cuidando sempre as bordas negras de Brethil.

Mas Ebor estava preocupado, e reportou rapidamente a Manthor sobre a vinda de Asgon e suas palavras estranhas sobre Húrin. Mas rumores correram por Brethil sobre este assunto. E Hardang reuniu-se em Obel Halad e se aconselhou com seus amigos.

Agora Húrin, chegando a Dimbar, reuniu todas suas forças e rumou sozinho em direção aos pés negros de Echoriad. Toda a terra estava fria e desolada; e quando ela finalmente apareceu, imensa, à sua frente, e ele não conseguia encontrar formas de seguir adiante, ele parou e olhou em sua volta com pouca esperança. Ele estava agora no pé de uma grande avalanche sob uma imensa parede de pedras, e ele não sabia que era tudo o que restava do antigo Caminho de Escape: o Rio Seco estava seco e o portão arqueado, enterrado.Então Húrin olhou para o céu, pensando que, por algum lance de sorte, ele poderia avistar novamente as Águias, como vira, há muito tempo, em sua juventude. Mas ele viu apenas as sombras sopradas do Leste, e nuvens formando redemoinhos em volta dos picos inacessíveis; e o vento assobiando por sobre as pedras. Mas a vigília das Grandes Águias, e elas marcaram Húrin, lá em baixo, desamparado sob a luz esvanecente. E rapidamente Sorontar, já que as notícias pareciam importantes, reportou a Turgon. Mas Turgon falou: ‘Não! Isso é uma mentira! A não ser que Morgoth esteja dormindo. Você está errado.’
‘Não, não estou,’ respondeu Sorontar. ‘Se as Águias de Manwë cometessem erros desta forma, Senhor, seu esconderijo teria sido em vão.’
‘Então tuas palavras trazem um mau presságio,’ disse Turgon; ‘pois elas só podem significar que mesmo Húrin Thalion sucumbiu à vontade de Morgoth. Meu coração está fechado.’ Mas quando ele dispensou Sorontar, Turgon sentou e pensou, e ele estava preocupado, relembrando os feitos de Húrin. E ele abriu seu coração, e ordenou que as Águias procurassem por Húrin, a que o trouxessem, se pudessem, para Gondolin. Mas era tarde de mais, e elas nunca mais o viram novamente, seja na luz, seja
na sombra.
Pois Húrin permaneceu em desespero perante o severo silêncio de Echoriad, e o sol poente, rasgando as nuvens, manchando seu cabelo branco com vermelho. Então ele gritou no ermo, negligente aos muitos ouvidos, e ele amaldiçoou a terra impiedosa: ‘dura como os corações de Elfos e Homens’. E ele parou, enfim, em frente a uma grande pedra, e abrindo seus braços, olhando em direção a Gondolin, ele chamou com uma grande voz: ‘Turgon, Turgon! Lembre-se do Pântano de Serech!’ E novamente: ‘Turgon! Húrin chama por você. O Turgon, não irás me ouvir dos teus salões escondidos?’Mas não houve resposta, e tudo o que ele ouviu foi o vento na grama seca. ‘E ainda assim eles sibilam em Serech ao por do Sol’, disse ele. E enquanto ele falava, o Sol passou para trás das Montanhas da Sombra, e a escuridão caiu sobre ele, e o vento cessou, e o ermo ficou em silêncio.Entretanto, ouvidos escutaram as palavras que Húrin falou, e olhos marcaram seus gestos; e o relatório de tudo chegou rápido ao Trono Escuro no Norte. Então Morgoth sorriu, e soube claramente que Turgon habitava naquela região, pois devido as Águias nenhum espião dele podia chegar ao alcance do olho da terra atrás das montanhas circulantes. Esse foi o primeiro mal que a liberdade de Húrin causou.

Enquanto a escuridão caía, Húrin pisou em falso na pedra, e caiu desmaiado, em um profundo sono de pesar. Mas em seu sono ele ouviu a voz de Morwen lamentando, e freqüentemente falou seu nome; e pareceu para ele que aquela voz vinha de Brethil. Então, quando despertou com a chegada do dia, ele se ergueu e retornou; e ele chegou novamente ao vau, e, como se guiado por uma mão invisível, ele passou pelas bordas de Brethil, até que, depois de uma jornada de quatro dias, chegou até Taeglin, e toda sua escassa comida acabou, e ele estava faminto. Mas ele prosseguiu como a sombra de um homem levado por um vento negro, e ele chegou ao vau à noite, e lá ele o atravessou até Brethil. Os sentinelas noturnos o viram, mas eles estavam cheios de medo, então eles não ousaram se mover ou gritar; pois eles pensaram que era um fantasma vindo de uma montanha de mortos em combate que caminhava com a escuridão em sua volta. E por muitos dias após, os homens temeram se aproximar do vau à noite, a não ser com grande companhia e com fogo aceso.Mas Húrin passou, e na noite do sexto dia ele chegou finalmente ao lugar da queima de Glaurung, e viu a pedra alta na beirada de Cabed Naeramarth. Mas Húrin não olhou para a pedra, pois ele sabia o que estava escrito ali, e seus olhos perceberam que não estava sozinho. Sentado na sombra da pedra estava uma figura encurvada sobre seus joelhos. Parecia um andarilho sem lar derrotado pela idade, cansando demais para perceber sua chegada; mas seus farrapos eram retalhos de um traje feminino. Húrin parou por um tempo em silêncio, então ela ergueu seu capuz esfarrapado e levantou seu rosto lentamente, com aparência selvagem e faminta como um lobo que fora caçado por muito tempo. Ela era cinzenta, com o nariz fino e com dentes quebrados, e com uma das mãos em forma de garra ela segurava a sua capa na altura do peito. Mas de repente seus olhos encararam os dele e então Húrin a reconheceu; pois apesar de serem selvagens agora, e cheios de medo uma luz ainda brilhava neles que era difícil de suportar: a luz élfica que há muito lhe dera seu nome, Edelwen, a mais orgulhosa das mulheres mortais nos dias antigos.‘Edelwen! Edelwen!’, gritou Húrin; e ela se levantou e cambaleou em frente, e ele a pegou em seus braços.

‘Finalmente você veio,’ ela disse. ‘Eu esperei por tempo demais.’

‘Foi uma estrada negra. Eu vim da forma que pude,’ respondeu.

‘Mas você está atrasado,’ ela disse, ‘atrasado demais. Eles estão perdidos.’

‘Eu sei,’ disse ele. ‘Mas você não está.’

‘Mas quase,’ disse ela. ‘Eu estou acabada. Eu devo partir com o sol. Eles estão perdidos.’ Ela se segurou no casaco dele. ‘Sobrou pouco tempo,’ ela disse. ‘Se você sabe, me diga! Como ela o encontrou?’ Mas Húrin não respondeu, e ele sentou ao lado da pedra com Morwen em seus braços; e eles não falaram novamente. O sol se pôs, e Morwen suspirou e segurou sua mão e ficou inerte; e Húrin soube então que ela morrera.

E assim morreu Morwen, a orgulhosa e bela; e Húrin olhou para ela no crepúsculo, e pareceu que as marcas de pesar e cruel privação suavizaram. Sua face ficou fria e pálida e triste. ‘Ela não foi conquistada,’ ele disse; e ele fechou os olhos dela, e sentou-se imóvel ao lado dela enquanto a noite caía. As águas de Cabed Naeramarth rugiam, mas ele não ouviu som algum, nem viu nada, nem sentiu nada, pois seu coração estava duro como pedra, e ele pensou em permanecer ali sentado até que também morresse.

Então veio um vendo frio e lançou uma chuva fina em seu rosto; e de repente ele estava desperto, e com uma profunda raiva negra cresceu dentro dele como uma fumaça, superando a razão, então tudo o que desejava era buscar vingança pelos seus erros e pelos erros de sua família, acusando em sua angústia todos aqueles que já tiveram negócios
com eles.

Ele levantou e ergueu Morwen; e de repente percebeu que erguê-la estava além de suas forças. Ele estava faminto e idoso, e cansado como o inverno. ‘Fique aqui mais um pouco, Edelwen,’ ele disse, ‘até que eu retorne. Nem mesmo um lobo machucaria mais você. Mas o povo desta terra dura irá se arrepender do dia em que você morreu aqui!’

Então Húrin se afastou, aos tropeços, e voltou para o vau de Taeglin e lá ele caiu ao lado de Haud-en-Elleth, e uma escuridão se abateu sobre ele, e ele permaneceu como se estivesse adormecido. Ao amanhecer, antes que a luz o despertasse totalmente, ele foi encontrado pelos guardas que Hardang mandara manter uma atenção especial naquele lugar.

Foi um homem chamado Sagroth que o encontrou primeiro, e ele o encarou com espanto e sentiu medo, pois ele pensou que soubesse quem aquele homem velho era. ‘Venham!’ gritou ele para os que o seguiam. ‘Olhem aqui! Deve ser Húrin. Os intrusos falaram a verdade. Ele chegou!’

‘Você encontrou problemas, como sempre, Sagroth!’ disse Forhend.

‘O Halad não ficará satisfeito com o que encontraram. O que deverá ser feito? Talvez Hardang ficaria mais satisfeito em ouvir que nós acabamos com os problemas em suas fronteiras e os empurramos para fora.’

‘Empurramos para fora?’ disse Avranc. Ele era filho de Dorlas, um homem jovem, baixo e escuro, porém forte, parecido com Hardang, como fora também seu pai. ‘Empurramos para fora? Que bem isso causaria? Ele voltaria novamente! Ele pode caminhar – todo o caminho desde Angband, se é o que você está pensando. Veja! Ele é horrível e possui uma espada, mas dorme profundamente. Deve ele despertar para mais angústia? Se você quer satisfazer o líder, Forhend, acabe com ele aqui.’

Tamanha era a sombra que agora caía sobre s corações dos homens, enquanto o poder de Morgoth crescia, e o medo se espalhava por toda a terra; mas nem todos os corações tinham escurecido. ‘Envergonhe-se pelo que disse!’ gritou Manthor, o capitão, que vinha por trás e ouviu o que diziam. ‘E principalmente você, Avranc, que jovem obstinado você é! Ao menos você ouviu sobre os feitos de Húrin de Hithlum, ou apenas as conhece de fábulas contadas ao pé do fogo? O que deve ser feito, então? Matá-lo em seu sono, esse é o seu conselho. Do inferno veio essa idéia!’

‘Assim como ele,’ respondeu Avranc. ‘Se realmente ele é Húrin. Quem pode saber?’

‘Pode ser descoberto em breve,’ disse Manthor; e se aproximou de Húrin deitado, ajoelhando-se próximo a ele, e ergueu a sua mão e a beijou. ‘Acorde!’, ele gritou. ‘A ajuda está próxima. E se você é Húrin, não há ajuda que eu creio ser suficiente.’

‘E nenhuma ajuda que ele não irá retribuir com mal,’ disse Avranc. ‘Ele vem de Angband, digo eu.’

‘O que ele pode vir a fazer nós não sabemos,’ disse Manthor. ‘O que ele fez nós sabemos, e nossa dívida ainda não foi paga.’ Então ele falou novamente, em voz alta: ‘Viva Húrin Thalion! Viva o capitão dos homens!’

Então Húrin abriu os olhos, lembrando de palavras malignas que ouvira durante o sono, antes de acordar, e ele viu homens sobre ele com armas em punho. Ele levantou tenso, tateando a sua espada; e ele olhou para eles com raiva e descaso. ‘Malditos!’ ele gritou. ‘Matariam um velho em seu sono? Vocês se parecem com homens, mas são orcs sob a pele, eu acho. Então venham! Matem-me acordado, se é que ousam fazer isso. Mas eu não irei satisfazer seu senhor negro, eu acho. Eu sou Húrin, filho de Galdor, um nome que orcs ao menos lembrarão.’

‘Não, não,’ disse Manthor. ‘Não sonhe. Nós somos homens. Mas esses são dias malignos e de dúvidas, e nós estamos sobre muita pressão. Esta região é perigosa. Não quer vir conosco? Ao menos nós podemos lhe proporcionar comida e descanso.’

‘Descanso?’ disse Húrin. ‘Vocês não podem me proporcionar isso. Mas, em minha necessidade, eu aceitarei comida.’

Então Manhor deu a ele um pouco de pão e carne e água; mas pareceram engasgá-lo, e ele cuspiu fora. ‘A que distância estamos da casa de seu senhor?’ ele perguntou. ‘Até que eu o veja, a comida que negaram à minha amada não descerá pela minha garganta.’

‘Ele se irrita e nos despreza,’ resmungou Avranc. ‘O que eu disse?’ Mas Manthor olhou para ele com piedade, apesar de não entender suas palavras. ‘É uma longa estrada para os cansados, senhor,’ disse ele; ‘e aqueles da casa de Hardang Halad estão escondidos dos estranhos.’

‘Então me leve para lá!’ disse Húrin. ‘Eu irei da forma que puder. Eu tenho uma missão naquela casa.’

Logo eles seguiram em frente. Da sua forte companhia, Manthor deixou muitos cumprindo sua tarefa, mas ele caminhou com Húrin, e com ele levou Forhend. Húrin caminhava como podia, mas depois de um tempo, começou a tropeçar e a cair; e mesmo que sempre se reerguesse e lutasse para continuar, não permitiria que ninguém o ajudasse.

Depois de muitas paradas pelo caminho, finalmente chegaram aos salões de Hardang em Obel Halad, nas profundezas da floresta; e ele sabia da sua chegada, pois Avrang, espontaneamente, correu na frente deles e levou as notícias antes deles; e ele não esqueceu de reportar as palavras selvagens de Húrin quando despertou e quando cuspiu fora sua comida.

Então eles encontraram os salões bem guardados, com muitos homens na cerca do pátio, e homens nas portas. No portão do pátio, o capitão dos guardas os parou. ‘Entreguem o prisioneiro para mim!’ disse ele.

‘Prisioneiro!’ disse Manthor. ‘Eu não trago um prisioneiro, mas um homem a quem você deveria honrar.’

‘Essas são palavras de Halad, não minhas,’ disse o capitão. ‘Mas você pode vir também. Ele também tem palavras para você.’

Então eles levaram húrin até a presença do líder; e Hardang não o cumprimentou, mas sentado em sua grande cadeira, olhou Húrin da cabeça aos pés. Mas Húrin retornou o seu olhar, e se manteve o mais firme que pode, apesar de estar apoiado em seu cajado. Então ele permaneceu um tempo em silêncio, até que ele tombou no chão. ‘Vejam!’ ele disse. ‘Eu vejo que existem tão poucas cadeiras em Brethil que um convidado deva sentar no chão.’

‘Convidado?’ disse Hardang. ‘Nenhum convidado por mim. Mas tragam um banco para o homem. Se ele não desdenhar dele, pois ele cospe em nossa comida.’

Manthor se ofendeu com a descortesia e ouvindo uma risada nas sombras atrás da grande cadeira, ele olhou e percebeu que era Avranc, e seu rosto se escureceu em fúria.

“Me desculpe, senhor,’ disse ele a Húrin. ‘Existe um mal entendido aqui.’ Então se virou para Hardang e se lançou sobre ele. ‘A minha companhia tem um novo capitão agora, meu Halad?’ disse ele. ‘Pois se não eu não entendo como alguém que abandonou o seu posto e desobedeceu minhas ordens possa ficar aqui sem reprova. Ele trouxe notícias antes de mim, eu vejo; mas parece ter esquecido o nome do convidado, ou Húrin Thalion não teria sido deixado em pé.’

‘O nome foi dito para mim,’ respondeu Hardang, ‘assim como suas palavras malignas. Assim é a casa de Hador. Mas é o papel de um estranho se apresentar pela primeira vez em minha casa, e eu esperei ouvi-lo. Assim como a sua missão, já que diz ter uma. Mas sobre seu dever, tais assuntos não devem ser tratados na presença de estranhos.’

Então ele se virou para Húrin, que estava sentado no banco; seus olhos estavam fechados e ele não parecia dar atenção ao que acontecia. ‘Bem, Húrin de Hithlum,’ disse Hardang, qual é a sua missão? É motivo de pressa? Ou não prefere descansar um pouco e falar sobre isso mais tarde, quando estiver mais à vontade? Enquanto isso, podemos providenciar uma comida menos horrível.’ O tom de Hardang era mais gentil, e ele levantou enquanto falava; pois ele era um homem prudente, e ele percebeu o desagrado no rosto dos outros atrás de Manthor.

Então, de repente, Húrin se levantou. ‘Bem, mestre junco do pântano,’ disse ele. ‘Então você se curva com cada respiração? Cuidado para que a minha não lhe derrube. Vá descansar para se fortalecer, então eu o chamarei de novo! Zombador de cabelos cinzentos, mesquinho em relação à comida, que deixa os errantes famintos. Esse banco servirá melhor para você.’ Com isso, ele lançou o banco em direção a Hardang, acertando-o na testa; e se virou para sair do salão.

Alguns dos homens abriu caminho, seja por pena ou medo de sua ira; mas Avranc correu à sua frente. ‘Não tão rápido, Húrin!’ ele gritou. ‘Ao menos não tenho mais dúvidas em relação ao seu nome. Você traz suas maneiras de Angband. Mas nós não amamos os feitos dos orcs neste salão. Você atacou o líder em sua cadeira, e agora você é nosso prisioneiro, independente do seu nome.’

‘Eu o agradeço, capitão Avranc,’ disse Hardang, que estava sentado em sua cadeira, enquanto tentava estancar o sangue que corria de sua sombrancelha. ‘Agora deixe o velho louco ser algemado e mantido cativo, eu o julgarei mais tarde.’

Então eles colocaram tiras de couro nos braços de Húrin, e um cabresto no seu pescoço, e o levaram embroa; e ele não mostrou resistência, pois a fúria havia acabado, e ele caminhou como alguém dormindo, de olhos fechados. Mas Manthor, apesar de Avranc ter olhado bravo para ele, colocou o braço sobre o ombro do velho e o guiou para que não tropeçasse.

Mas quando Húrin foi trancado em uma caverna e Manthor não podia fazer mais nada para ajudá-lo, retornou para o salão. Lá ele encontrou Avranc falando com Hardang, e, apesar de terem se calado quando chegou, ele ouviu as últimas palavras que Avranc falou, e pareceu que Avranc queria que Húrin fosse executado imediatamente.

‘Então, capitão Avranc,’ ele disse, ‘as coisas foram bem para você hoje! Eu já vi você jogar desta forma: atiçar um velho texugo e matá-lo quando ele o morde. Não tão rápido, capitão Avranc! Nem você, Hardang Halad. Este não é assunto para lidar de maneira arrogante, sem controle. A vinda de Húrin, e a forma com que foi recebido, diz respeito a todo o povo, e eles devem ouvir tudo o que é dito, antes de qualquer julgamento.

‘Você deve ir,’ disse Hardang. ‘Retorne para sua missão na fronteira, até que o capitão Avranc apareça para assumir o comando.’

‘Não, senhor,’ disse Manthor, ‘eu não tenho missão. A partir de hoje não estou mais a seu serviço. Eu deixei Sagroth no comando, um homem da floresta que é mais velho e mais sábio que o que você nomeou. Quando chegar a hora, retornarei para minhas próprias fronteiras*. Mas agora eu reunirei o povo.

Quando saiu pela porta, Avranc armou seu arco para matar Manthor, mas Hardang o impediu. ‘Ainda não,’ ele disse. Mas Manhor não viu isso (apesar de algumas pessoas no salão ter percebido), e saiu, e mandou todos aqueles que se dispuseram a agir como mensageiros para reunir os mestres de todas as terras e qualquer outro que se dispusesse a comparecer.

Agora os rumores corriam pelas árvores, e as lendas cresciam quando eram contadas; e alguns disseram isso, e outros aquilo, e a maioria falou em louvor a Halad e se lançou em direção a Húrin como se fosse um maligno chefe orc; pois Avranc também estava ocupado com mensageiros. Logo tinha uma grande multidão de povos, e a vila próxima ao salão dos líderes estava apinhada com tendas e barracas. Mas todos os homens portavam armas, por medo que um alarme repentino viesse das fronteiras.

Quando ele enviou seus mensageiros, Manthor foi até a prisão de Húrin, mas os guardas não o deixaram entrar. ‘Venham!’ disse Manthor. ‘Vocês sabem muito bem que é do nosso bom costume que qualquer prisioneiro deve ter um amigo que possa visitá-lo e ver como ele está sendo alimentado e aconselhá-lo.’

*Pois Manthor era um descendente de Haldad, e ele possuía uma terra pequena na fronteira leste de Brethil, próximo ao Sirion onde ele atravessa Dimbar. Mas todo o povo de Brethil era formado por homens livres, mantendo suas casas e suas terras, sejam maiores ou menores, de direito. Seu senhor era escolhido entre os descendentes de Haldad, por reverência pelos feitos de Haleth e Haldar; e mesmo que a liderança era dada, como se fosse um domínio ou um reino, para os mais velhos da linhagem mais velha, o povo tinha o direito de colocar qualquer um de lado ou tirá-lo de lá, por uma causa grave. E alguns sabiam o suficiente que Harathor tentara que Brandir o Aleijado tivesse tido abdicado em seu favor.

‘O amigo é escolhido pelo prisioneiro,’ responderam os guardas; ‘mas este homem selvagem não tem amigos.’

‘Ele tem um,’ disse Manthor, ‘e eu peço permissão para me oferecer como sua escolha.’

‘O Halad nos proíbe de admitir qualquer um fora os guardas,’ disseram. Mas Manthor, que era sábio nas leis e costumes de seu povo, respondeu: ‘Sem dúvida. Mas neste caso ele não tem direito. Por que o intruso está preso? Nós não algemamos velhos e errantes por falarem rudemente quando irritados. Este está preso por seu ataque a Hardang, e Hardang não pode julgar seu próprio caso, mas deve levar sua queixa para o julgamento do povo. Enquanto isso, ele não pode negar ao prisioneiro todo conselho e ajuda. Se ele fosse sábio, ele veria que não age desta forma, beneficiaria sua própria causa. Mas talvez alguma outra boca falou pela dele?’

‘Verdade,’ disseram. ‘Avranc trouxe a ordem.’

‘Então esqueça,’ disse Manthor. ‘Pois Avranc estava obedecendo outras ordens, para permanecer em sua missão na fronteira. Escolha então entre um jovem desertor e as leis do povo.’

Então os guardas permitiram sua entrada na caverna; pois Manthor era querido em Brethil, e os homens não gostavam dos líderes que tentaram dominar o povo. Manthor encontrou Húrin sentado em um banco. Tinha algemas em seus tornozelos, mas suas mãos estavam livres; e tinha um pouco de comida à sua frente, intocada. Ele não ergueu o olhar.

‘Salve, senhor!’ disse Manthor. ‘As coisas não aconteceram como deviam, nem como eu ordenei. Mas agora você precisa de um amigo.’

‘Eu não tenho amigos, nem desejo algum nesta terra,’ respondeu Húrin.

‘Um amigo está na sua frente,’ respondeu Manthor. ‘Não me rejeite. Por enquanto, pelo menos! O assunto entre você e Hardang Halad deve ser levado para ser julgado pelo povo, e seria bom, pelo que nossas leis permitem, ter um amigo para aconselhá-lo e defender o seu caso.’

‘Eu não irei me defender, e não preciso de conselhos,’ disse Húrin.

‘Você precisa deste conselho, pelo menos,’ disse Manthor. ‘Controle sua ira por enquanto, e coma um pouco, pra que tenha força perante seus inimigos. Eu não sei qual é sua missão aqui, mas ela seria mais rápida se você não estivesse faminto. Não se mate enquanto existe esperança!’

‘Me matar?’ gritou Húrin, e ele cambaleou e se escorou na parede, e seus olhos estavam vermelhos. ‘Devo ser arrastado algemado perante uma ralé de homens da selva para ouvir que tipo de morte irão me dar? Eu me matarei antes, se minhas mãos estiverem livres.’ Então, de repente, rápido como um velho urso em uma cilada, ele saltou para a frente, e antes que Manthor pudesse evitá-lo, ele puxou uma faca do seu cinto. Então ele afundou no banco.

‘Você poderia ter tido a faca como um presente,’ disse Manthor, ‘porém nós não acreditamos no suicídio como uma saída nobre para aqueles que não enlouqueceram. Esconda a faca e a guarde para um uso melhor! Mas tenha cuidado, pois é uma lâmina maldita, de uma forja dos anões. Agora, senhor, não me considerará como amigo? Não diga nada, mas se você comer comigo, considerarei como um sim.’

Então Húrin olhou para ele e a ira deixou seus olhos; e juntos eles beberam e comeram juntos em silêncio. E quando tudo estava terminado, Húrin falou: ‘Pela sua voz você me derrotou. Nunca desde o Dia do Terror eu ouvi a voz de um homem tão bela. Ai de mim! Ela lembra das vozes na casa de meu pai, muito tempo atrás, quando a sombra parecia estar tão longe.’

‘Isto pode muito bem ser verdade,’ disse Manthor. ‘Hiril, minha primeira mãe era irmã de sua mãe, Hareth.’

‘Então você é amigo e parente,’ disse Húrin.

‘Mas não eu sozinho,’ disse Manthor. ‘Nós somos poucos e temos pouco dinheiro, mas nós também somos Edain, e ligados por muitas formas ao seu povo. Seu nome foi por muito tempo mantido honrado aqui; mas nenhuma notícia de seus feitos teria chegado até nós se Haldir e Hundar não tivessem marchado para a Nirnaeth. Lá eles caíram, mas sete dos seus companheiros retornaram, pois eles foram socorridos por Mablung de Doriath e curados de seus ferimentos.

Os dias tem sido escuros desde então, e muitos corações foram escurecidos, mas não todos.’

‘Mas a voz do seu líder vem das sombras,’ disse Húrin, ‘e seu povo o obedece, mesmo em atos de desonra e crueldade.’

‘A tristeza escurece seus olhos, senhor, se é que ouso dizer tal coisa. Mas que isto fique provado, vamos nos aconselhar juntos. Pois eu vejo perigo de mal à nossa frente, tanto para você quanto para meu povo, apesar de talvez a sabedoria possa evitar isso. De uma coisa eu posso alertá-lo, apesar de não lhe agradar. Hardang é um homem menor que seus pais, mas eu não vi maldade nele desde que ele ouviu da sua chegada. Você carrega uma sombra, Húrin Thalion, na qual sombras menores ficam mais escuras.’

‘Palavras negras de um amigo!’ disse Húrin. ‘Por muito tempo vivi na Sombra, mas eu suportei e não me entreguei. Se existe alguma escuridão em mim, é apenas a dor além da dor que me roubou a luz. Mas não faço parte da Sombra.’

‘Mesmo assim, eu lhe digo,’ disse Manthor. ‘que ela segue seus passos. Eu não sei como ganhaste a liberdade; mas o pensamento de Morgoth não o esqueceu. Tenha cuidado.’

‘Não caduque, velho senil, você diria,’ respondeu Húrin. ‘Eu irei suportar isso de você, pela sua bela voz e nosso parentesco, mas não mais! Vamos falar de outras coisas, ou acabamos por aqui.’

Então Manthor foi paciente, e ficou por longo tempo com Húrin, até que a noite trouxe a escuridão para a caverna; e eles comeram juntos mais uma vez. Então Manthor ordenou que uma luz fosse trazida para Húrin; e ele partiu no dia seguinte, e foi para sua tenda com o coração pesado.

No dia seguinte foi proclamado que o debate para o julgamento aconteceria na manhã seguinte, pois quinhentos homens chefes já se apresentaram e este era por costume, o quorum mínimo que se aceitava para um encontro do povo. Manthor foi cedo encontrar Húrin; mas os guardas mudaram. Três homens da guarda privada de Hardang guardavam a porta, e eles não foram amistosos.

‘O prisioneiro está dormindo,’ o líder deles falou. ‘E isso é bom; pode acalmar seu ânimo.’

‘Mas eu sou o amigo que ele escolheu, como foi declarado ontem,’ disse Manthor.

‘Um amigo o deixaria em paz, enquanto ele pode tê-la. Que bem faria acordá-lo?’

‘Por que a minha vinda o acordaria? Os pés de um carcereiro são mais pesados que os meus.’ falou Manthor. ‘Eu desejo ver como ele dorme.’

‘Você pensa que todos os homens mentem, menos você?’

‘Não, não; mas eu acho que alguém esqueceria as nossas leis de bom grado quando elas não servem o seu propósito,’ respondeu Manthor. Mesmo assim pareceu a ele que pouco ajudaria o caso de Húrin se continuasse a discutir, e ele foi embora. Muitas coisas permaneceram sem serem ditas entre eles até que fosse tarde demais. Pois quando ele retornou o dia estava terminando. Nada impediu a sua entrada, desta vez, e ele encontrou Húrin deitado em uma armação de madeira; e ele notou com fúria que ele tinha agora algemas em seus punhos e uma curta corrente entre eles.

‘Um amigo que se atrasa é a esperança que é negada,’ disse Húrin. ‘Esperei por muito tempo por você, mas agora estou com muito sono e meus olhos estão turvos.’

‘Eu vim no meio da manhã,’ disse Manthor, ‘mas eles disseram que você estava dormindo.’

‘Eu estava cochilando, cochilando em uma esperança pálida,’ disse Húrin; ‘mas a sua voz me acordou. Eu estou assim desde que tive meu desjejum. Aquele seu conselho finalmente o tomei, meu amigo; mas comida me faz mais mal do que bem. Agora eu devo dormir. Mas volte pela manhã!’

Manthor teve pensamentos escuros sobre isto. Ele não pode ver o rosto de Húrin, pois havia pouca luz, mas se curvando para baixo ele pode ouvir a sua respiração. Então com uma expressão severa, ele se levantou e pegou os restos da comida, colocando sob seu casaco, e foi embora.

‘Bem, o que você achou do homem selvagem?’ disse o chefe da guarda.

‘Perturbado com sono,’ respondeu Manthor. ‘Ele deve estar bem desperto amanhã. O desperte cedo. Traga comida para dois, pois eu virei quebrar meu jejum com ele.’

No dia seguinte, muito antes do meio da manhã, o debate teve início. Quase mil pessoas chegaram, a maioria homens velhos, já que a vigília nas fronteiras deve ser mantida. Logo o anel do debate estava cheio. Ele tinha a forma de uma grande crescente, com sete fileiras de bancos saindo de um piso plano escavado na encosta da colina. Uma grade alta ficava em volta dela, e a única entrada era por um portão pesado na cerca que se fechava na parte aberta da crescente. No meio da camada mais baixa estava Angbor, ou a Pedra do Destino, uma grande pedra chata na qual o Halad sentaria. Aqueles que eram trazidos para julgamento ficavam na frente da pedra e voltados para a assembléia.

Havia uma grande babel de vozes; mas com o grito de uma trompa, o silêncio caiu, e o Halad entrou, acompanhado por muitos guarda costas. O portão se fechou atrás dele, e ele caminhou lentamente até a Pedra. Então ele parou, olhando para a assembléia e consagrou o debate como de costume. Primeiro ele citou os nomes de Manwë e Mandos, segundo o costume que os Edain aprenderam com os Eldar, e então, falando na língua antiga do povo, que agora estava fora de uso, e declarou aberto o debate, sendo o tricentésimo primeiro debate de Brethil, convocado para julgar um grave assunto.

Quando, como de costume, toda a assembléia gritou em uníssono e na mesma língua ‘Nós estamos prontos’, ele sentou em Angbor, e chamou na língua de Beleriand para os homens que estavam próximos: ‘Soem as cornetas! Que o prisioneiro seja trazido até nós!’

A corneta soou duas vezes, mas por um tempo ninguém entrou, e o som de vozes irritadas podia ser ouvida fora da cerca. Depois de um tempo, o portão foi empurrado e seis homens saíram com Húrin entre eles.

‘Eu sou trazido sob violência e maus tratos,’ ele gritou. ‘Eu não irei caminhar algemado para nenhum debate na terra, nem se reis élficos estivessem presentes. E enquanto eu estiver preso, eu irei negar toda a autoridade e justiça a que me condenem.’ Mas os homens o colocaram no chão à frente da Pedra e o seguraram ali com força.

Agora era costume do debate que, quando qualquer homem era trazido para ele, o Halad deveria ser o acusador, e deveria primeiramente recitar o delito que acusava. A respeito do que era direito do acusado, por ele mesmo ou pela boca de seu amigo, negar a acusação, ou oferecer uma defesa pelo que fez. E depois dessas coisas serem ditas, se algum ponto restava duvidoso ou era negado por um dos lados, testemunhas eram convocadas.

Hardang, então, estava em pé e virado para a assembléia e começou a recitar a acusação. ‘Este prisioneiro,’ disse ele, ‘que está perante vocês, se auto proclama Húrin, filho de Galdor, que um dia foi de Dor-lómin, mas ele veio de uma longa estada em Angband. Seja isto como for.’

Mas sobre isto Manthor se levantou e se colocou perante a Pedra. ‘Com sua licença, meu senhor Halad e povo!’ ele gritou. ‘Como amigo do prisioneiro eu convoco o direito de perguntar: a acusação contra ele envolve de alguma forma a pessoa do Halad? Ou teria o Halad alguma mágoa em relação a ele?’

‘Mágoa?’ gritou Hardang, e a raiva obscureceu seu raciocínio, pois ele não percebeu as intenções de Manthor. ‘Muitas mágoas! Esta não é a última moda em adereços para cabeça para o debate. Eu venho aqui com ferimentos com curativos.’

‘Oras!’ disse Manthor. ‘Mas se é assim, eu peço que a questão não possa ser tratada desta forma. Na sua lei nenhum homem pode recitar a ofensa feita contra si mesmo; nem ele pode sentar na cadeira do julgamento enquanto a acusação é ouvida. Não é esta a lei?’

‘Esta é a lei,’ respondeu a assembléia.

‘Então,’ disse Manthor, ‘antes que a acusação seja ouvida, outro Hardang, filho de Hundad deve ser apontado para a pedra.’

Assim várias vozes se ergueram, mas a maioria das vozes e as vozes mais altas chamavam por Manthor. ‘Não,’ disse ele, ‘eu estou envolvido com uma das partes e não posso ser o julgador. Além disso, é o direito do Halad neste caso nomear aquele que irá tomar o seu lugar, o que ele com certeza sabe muito bem.’

‘Eu o agradeço,’ disse Hardang, ‘mas eu não preciso de um jurista autodidata para me ensinar.’ Então ele olhou para Manthor, como se considerando quem ele deveria nomear. Mas a sua raiva era negra e toda a sabedoria o abandonou. Se ele tivesse escolhido qualquer dos chefes de casa ali presentes, as coisas poderiam ter tomado um rumo diferente. Mas em um momento maligno ele escolheu, para o espanto de todos, gritou: ‘Avranc, filho de Dorlas! Parece que o Halad também precisa de um amigo hoje, quando os juristas estão tão ousados. Eu o convoco para a Pedra.’

O silêncio caiu. Mas quando Hardang se afastou e Avranc foi até a pedra, um grande murmúrio foi ouvido, como o prenúncio de uma tempestade. Avranc era um jovem casado há pouco, e sua juventude fora tomada como ruim por todos os velhos chefes de casa que estavam lá. Pois ele não era querido pelo que era; pois apesar de ser valente, ele era um zombador, como seu pai Dorlas foi antes dele. E lendas negras sussurravam sobre Dorlas, pois, apesar de nada ser dado como verdadeiro, ele foi encontrado morto na batalha com Glaurung, e a espada ensanguentada que jazia ao seu lado era a espada de Brandir.

Mas Avranc não deu atenção aos murmúrios, e se alegrou, como se fosse um assunto simples, que se tratasse rapidamente.

‘Bem,’ disse ele, ‘se isto está definido, não vamos mais perder tempo! O assunto está claro o suficiente.’ Então, se levantando, ele continuou a acusação. ‘Este prisioneiro, este homem selvagem,’ disse ele, ‘vem de Angband, como vocês bem ouviram. Ele foi encontrado dentro de nossas fronteiras. Não por acaso, pois, como ele mesmo disse, tem uma missão a cumprir aqui. O que seria, ele não revelou, mas não pode ser nada de bom. Ele odeia este povo. Logo que nos viu, nos insultou. Nós lhe demos comida e ele a cuspiu. Eu já vi orcs agirem assim, se fossemos tolos o suficiente para demonstrar-lhes piedade. Está claro que ele vem de Angband, seja lá qual for o seu nome. Mas o pior ainda está por vir. Por requerimento próprio, ele foi levado perante o Halad de Brethil – por este homem que se diz agora seu amigo; mas quando ele chegou ao salão, ele se recusou a dizer seu nome. E quando o Halad o perguntou qual era a sua missão e o pediu que descansasse primeiro e falasse depois, se assim o aprouvesse, ele enlouqueceu, começou a insultar o Halad, e de repente arremessou um banco na sua face e o feriu gravemente. Foi bom que ele não tinha nada mais mortal à mão, ou o Halad teria sido morto. É clara a intenção do prisioneiro, e diminui muito pouco a sua culpa o fato de que o pior não tenha acontecido, para o qual a pena é a da morte. Mas mesmo assim, o Halad senta na grande cadeira no seu salão: insultá-lo lá é um ato de maldade, e atacá-lo é um ultraje.

‘Esta, então, é a acusação contra o prisioneiro: que ele veio para cá com más intenções para conosco, e para com o Halad de Brethil em especial (a pedido de Angband, pode se dizer); que, na presença do Halad, ele o desrespeitou, e então tentou matá-lo em sua cadeira. A penalidade está sob o julgamento do debate, mas poderia ser justamente a da morte.’

Então, para muitos pareceu que Avranc falou justamente, e para todos ele falou com habilidade. Por um tempo, ninguém ergueu a voz de lado algum. Então Avranc, sem esconder seu sorriso, levantou-se novamente e disse: ‘O prisioneiro pode agora responder à acusação, se quiser, mas que seja breve e não enlouqueça!’

Mas Húrin não falou, apesar de fazer força contra aqueles que o seguravam. ‘Prisioneiro, não vai falar?’ disse Avranc, e Húrin não lhe respondeu. ‘Que assim seja,’ disse Avranc. ‘Se ele não vai falar, nem para negar a acusação, então não há mais nada a fazer. A acusação é justa, e aquele que está de frente para a Pedra pode propor uma pena que lhe pareça justa para o Debate.’

Mas agora Manthor se levantou e disse: ‘Primeiro devem perguntar a ele por que não falará. E a resposta deverá ser dada por seu amigo.’

‘A questão está feita,’ disse Avranc, dando de ombros. ‘Se você sabe a resposta, fale.’

‘Porque seus pés e mãos estão presos,’ disse Manthor. ‘Nunca antes nós arrastamos algemado para o Debate alguém que ainda não tenha sido condenado. Mas mesmo que seja um Edain, cujo nome merece honra, isso nunca deveria ter acontecido. Sim, não condenado digo eu; pois o acusado deixou muito sem ser dito que este Debate deve ouvir antes de dar o julgamento.’

‘Mas isto é uma tolice,’ disse Avranc. ‘Adan ou não, e qualquer que seja seu nome, o prisioneiro é incontrolável e malicioso. As algemas são uma precaução necessária. Aqueles que se aproximam dele devem estar protegidos da sua violência.’

‘Se deseja criar a violência,’ respondeu Manthor, ‘o que seria mais óbvio do que abertamente desonrar um homem orgulhoso, carregando o peso da tristeza de muitos anos nas costas. A aqui está um, enfraquecido pela fome e por uma longa jornada desarmado em meio a uma hoste. Eu pergunto ao povo aqui reunido: vocês consideram esta precaução digna dos homens livres de Brethil, ou prefeririam que tivéssemos usado a cortesia dos antigos?’

‘As algemas foram colocadas no prisioneiro por ordem do Halad,’ disse Avranc. ‘Para isto nós usamos seu direito de evitar a violência em seu salão. Assim, esta ordem não pode ser impugnada, salvo por toda a assembléia.’

Assim, um grande grito se ergueu na multidão ‘Soltem-no, soltem-no! Húrin Thalion! Soltem H‎úrin Thalion!’ Nem todos tomaram parte neste grito, pois nenhuma voz foi ouvida do outro lado.

‘Não, não!’ disse Avranc. ‘Gritar não irá adiantar nada. Neste caso, devemos votar na forma correta.’

Agora, por hábito, em assuntos graves ou duvidosos, os votos do debate eram dados mostrando cristais, e todos os que entraram portavam consigo dois cristais, um preto e um branco, para sim e para não. Mas juntar e contar os cristais tomava tempo, e enquanto isso, Manthor percebeu que o humor de Húrin piorava cada vez mais.

‘Existe uma forma mais fácil,’ disse ele. ‘Não há perigo aqui para justificar as algemas, pois assim pensam todos aqueles que usaram a voz. O Halad está no anel do debate, e ele pode cancelar sua própria ordem, se assim desejar.’

‘Ele ira,’ disse Hardang, pois pareceu para ele que a assembléia estava impaciente, e ele pensou que agir assim os levaria para seu lado. ‘Que o prisioneiro seja solto, e fique perante você.’

Então as algemas foram retiradas das mãos e dos pés de Húrin. Imediatamente ele se pôs de pé e, dando as costas para Avranc, ele encarou a assembléia. ‘Eu estou aqui,’ disse ele. ‘E vou responder o meu nome. Eu sou Húrin Thalion, filho de Galdor Orchal, senhor de Dor-lómin e uma vez alto capitão do exército do rei Fingon do reino do norte. Que nenhum homem negue isto! E isto deverá ser o suficiente. Eu não vou implorar perante vocês. Façam como quiserem! Também não irei rebater as palavras daquele que abriu o debate e que vocês permitem que sente na cadeira mais alta. Deixe-o mentir da forma que quiser!

‘Em nome dos Senhores do Oeste, que maneiras são estas deste povo, ou o que vocês se tornaram? Enquanto a ruína da Escuridão está sobre vocês, vocês sentam aqui pacientemente e escutam este guarda desertor perguntar sobre o destino da morte sobre mim – porque eu quebrei a cabeça de um jovem insolente, seja em sua cadeira ou fora dela? Ele deveria ter aprendido como tratar os mais velhos antes que vocês o tornassem seu líder.

‘Morte? ‘Perante Manwë, se eu não tivesse suportado tormentos por vinte e oito anos, se eu estivesse como na Nirnaeth, vocês não ousariam sentar aqui e me encarar. Mas eu não sou mais perigoso, pelo que ouvi. Então vocês são bravos. Eu posso ficar aqui, sem algemas para ser usado como isca. Eu fui derrotado na guerra e domado. Domado! Mas não tenham tanta certeza disso!’ Ele ergueu os braços e cerrou os punhos.

Mas nesta hora, Manthor o acalmou, colocando a mão no seu ombro e falou suavemente em seu ouvido. ‘Meu senhor, está se enganando em relação a eles. Muitos são seus amigos, ou o seriam. Mas aqui há homens livres orgulhosos também. Deixe-me falar com eles agora.’

Hardang e Avranc nada disseram, mas sorriram um para o outro, pelo discurso de Húrin, pois pensaram que ele não tinha feito a sua parte de maneira correta. Mas Manthor gritou: ‘Dêem ao Senhor Húrin uma cadeira enquanto eu falo. Vocês compreenderão melhor sua ira, e talvez até perdoar, quando tiverem me ouvido.

‘Ouçam me agora, povo de Brethil. Meu amigo não nega a acusação principal, mas diz que foi abusado e provocado além da conta. Meus senhores, eu era capitão dos vigias da fronteira que encontrou este homem dormindo perto de Haud-en-Elleth. Ou parecia estar dormindo, mas ele estava muito cansado e perto de despertar, e, enquanto estava deitado ele ouviu, temo eu, as palavras que foram ditas.

‘Havia um homem chamado Avranc, filho de Dorlas, eu me lembro, como membro da minha companhia, e ele deveria estar lá agora, pois esta foi a minha ordem. Quando cheguei a Brethil, descobri que Avranc havia dado conselhos ao homem que encontrou Húrin primeiro e adivinhou seu nome. Povo de Brethil, eu o ouvi dizer o seguinte: “Seria melhor matar o velho enquanto dormia e evitar problemas futuros. E isso agradaria ao Halad,” disse ele.

‘Talvez agora vocês irão pensar melhor sobre o fato de que quando o despertei, e ele encontrou homens armados sobre ele, ele disparou palavras amargas para nós. Ao menos um de nós as mereceu. E sobre desprezar nossa comida: ele a pegou de minhas mãos e não cuspiu nela. Ele a cuspiu fora, pois se engasgou com ela. Nunca viram, meus senhores, homens famintos que não conseguiam engolir comida devido à pressa que tinham em fazê-lo? E este homem também estava muito deprimido e cheio de raiva.

‘Não, ele não desdenhou de nossa comida. Se bem que ele o teria feito, se ele soubesse dos esquemas que alguns dos que habitam aqui armaram! Ouçam-me agora e acreditem, se quiserem, pois testemunhas podem ser trazidas. Em sua prisão, o Senhor Húrin comeu comigo, pois eu o tratei com cortesia. Isso foi dois dias atrás. Mas ontem, ele estava sonolento, e não conseguia falar claramente, nem se aconselhar comigo sobre o julgamento de hoje.’‘Isto pouco quer dizer!’ gritou Hardang.Manthor parou e olhou para Hardang. ‘Pouco quer dizer realmente, meu senhor Halad,’ ele disse; ‘pois essa comida foi envenenada.’Então Hardang, irado, gritou: ‘Os sonhos deste preguiçoso tem que ser recitados para nos entediar?’

‘Não falo de sonhos,’ respondeu Manthor. ‘As testemunhas irão falar agora. Eu levei um pouco da comida que Húrin comeu. Perante testemunhas, eu dei para um cão, e ele está dormindo como se estivesse morto. Talvez o Halad de Brethil não planejou isso, mas alguém que está ávido para agradá-lo. Mas com que propósito? Para evitar que ele use da violência, certamente, já que ele estava algemado na prisão? Existe malícia entre nós, povo de Brethil, e eu espero que a assembléia corrija isto!’

Neste momento, uma grande agitação e murmúrios se ergueram no anel do debate e quando Avranc se levantou pedindo silêncio, o clamor aumentou. Finalmente, quando a assembléia se acalmou um pouco, Manthor disse: ‘Posso continuar agora, pois há mais coisas a serem ditas?’

‘Proceda!’ disse Avranc. ‘Mas seja breve. E eu aviso a todos, meus senhores, para que escutem este homem com cautela. Sua boa fé não pode ser confiada. O prisioneiro e ele são parentes.’

Estas palavras não foram sábias, pois Manthor as respondeu imediatamente: ‘Realmente. A mãe de Húrin era Hereth, filha de Halmir, outrora Halad de Brethil, e Hiril, sua irmã era a mãe da minha mãe. Mas sua linhagem não faz de mim um mentiroso. E digo mais, se Húrin de Dor-lómin é meu parente, ele é parente de todos da casa de Haleth. Sim, e de todo este povo. E mesmo assim ele é tratado como um fora da lei, um ladrão, um homem selvagem e sem honra!

‘Vamos continuar com a acusação principal, que o acusador diz que pode ter uma pena próxima daquela da morte. Vocês vêm perante vocês a cabeça quebrada, apresar que parece que está firme sobre seus ombros e que pode usar a língua muito bem. Pois foi ferida com o arremesso de um pequeno banco. Um ato de maldade, vocês diriam. E muito pior quando feito contra o Halad de Brethil enquanto senta em sua grande cadeira.

‘Mas meus senhores, atos malignos podem ser provocados. Que vocês se imaginem no lugar de Hardang, filho de Hundad. Bem, aí vem Húrin, senhor de Dor-lómin, seu parente, perante você: o chefe de uma grande casa, um homem cujos atos são cantados por Elfos e Homens. Mas ele agora está envelhecido, indisposto, cheio de pesar, cansado de viajar. Ele pede para ver você. Lá está você, confortável em sua cadeira. Você não se levanta. Você não fala com ele. Mas você o olha de cima a baixo, enquanto ele está de pé, até que ele cai no chão. Então, cheio de piedade e cortesia, você grita: “Tragam um banco para o homem!”

‘Oh, vergonha e espanto! Ele arremessa o banco na sua cabeça. Oh, vergonha e espanto eu digo, pois você também desonra sua cadeira, que você também desonra o seu salão, que você também desonra o povo de Brethil!‘Meus senhores, eu admito livremente que teria sido melhor se o Senhor Húrin tivesse sido paciente, inacreditavelmente paciente. Por que ele não esperou para ver que futuros desprezos ele deveria suportar? E mesmo assim, enquanto eu estava no salão e vi isso, tudo o que eu conseguia pensar, e é tudo que eu consigo pensar ainda agora e peço que me respondam: O que vocês acham dessas maneiras que possui o homem que tornamos Halad de Brethil?’Muitas vozes se ergueram nesta questão, mas até que Manthor erguesse sua mão, e de repente tudo estava em silêncio novamente. Mas sob a proteção do barulho, Hardang se aproximou de Avranc para falar com ele, e surpreendido pelo silêncio, eles foram pegos falando alto demais, então Manthor e outros também ouviram Hardang falar: ‘Eu me arrependo de ter atrapalhado sua tentativa de matá-lo!’ E Avranc respondeu: ‘Eu vou encontrar tempo para isto.’Mas Manthor continuou. ‘Minhas dúvidas foram sanadas. Estas maneiras não os agrada, eu vejo. Então o que teriam feito com o arremessador do banco? Teriam amarrado-o, colocariam uma coleira em seu pescoço, prenderiam-no em uma caverna, teriam algemado-o, envenenado sua comida, e por fim, arrastado ele até aqui e pedido pela sua morte? Ou teriam libertado-o? Ou teriam, talvez, pedido desculpas, ou ordenado a este Halad que o fizesse?

Assim, mais vozes ainda se ergueram, e homens se levantaram nas bancadas, batendo palmas e gritando: ‘Libertem! Libertem! Libertem ele!’ E muitas vozes foram ouvidas gritando: ‘Fora com este Halad! Coloquem-no nas cavernas!’

Muitos dos homens mais velhos que sentavam nas fileiras de baixo correram e se ajoelharam perante Húrin e pediram o seu perdão; e um ofereceu a ele uma bengala, outro deu a ele um belo manto e um grande cinto de prata. E quando Húrin estava todo vestido, e com uma bengala em sua mão, ele foi até a Pedra e subiu nela, não como um suplicante, mas como um rei; e encarando a assembléia, ele gritou em uma grande voz: ‘Eu agradeço a vocês, mestres de Brethil aqui presentes, que me libertaram da desonra. Ainda existe justiça em sua terra, mas ela estava adormecida e demorou a despertar. Mas agora eu tenho uma acusação a fazer.

‘Qual é minha missão aqui, é o que foi perguntado? O que acham? Túrin, meu filho, e Nienor, minha filha, não morreram nesta terra? Ai de mim! De longe eu fiquei sabendo das dores que aconteceram aqui. É então um espanto que um pai vá procurar as tumbas dos seus filhos? Maior espanto é, pelo que me parece, que ninguém aqui, em momento algum, falou seus nomes para mim.

‘Estão envergonhados que deixaram meu filho Túrin morrer por vocês? Que apenas dois tiveram coragem de ir com ele encarar o terror do verme? Que ninguém ousou ir até lá para socorrê-lo quando a batalha havia terminado, apesar de que o maior dos males havia sido impedido?

‘Envergonhados vocês devem estar. Mas esta não é a minha acusação. Eu não peço que nenhum nesta terra se equipare ao filho de Húrin em valor. Mas se eu perdoar esta dor, devo perdoar isto? Escutem-me, homens de Brethil! Lá está, junto à Pedra Parada que vocês ergueram, uma mendiga. Por muito tempo ela ficou em sua terra, sem fogo, sem comida, sem piedade. Agora ela está morta. Morta. Ela era Morwen, minha esposa. Morwen Edelwen, a dama bela como os elfos que deu vida a Túrin, o matador de Glaurung. Ela está morta.

‘Se vocês, que têm um pouco de piedade, gritarem para mim que não possuem culpa, então eu pergunto quem é o culpado? Por quem no comando ela foi deixada fora para morrer de fome em suas portas como um cão expulso?

‘O seu líder contribuiu para isto? Acredito que sim. Ou ele não teria agido assim comigo, se tivesse a chance? Estas são os seus presentes: desonra, fome, veneno. Vocês não tem parte nisto? Vocês não trabalhariam conforme sua vontade? Então, por quanto tempo, senhores de Brethil, vocês o suportarão? Por quanto tempo vocês irão permitir que este homem chamado Hardang sente em sua cadeira?’

Agora Hardang estava aterrorizado, quando chegou a sua vez, e seu rosto ficou branco com medo e espanto. Mas antes que pudesse falar, Húrin apontou uma longa mão a ele. ‘Vejam!’ ele gritou. ‘Ali ele está com um sorriso de escárnio em seus lábios! Será que se considera a salvo? Pois roubaram minha espada; e eu sou velho e estou cansado, ele pensa. Não, por muitas vezes me chamou de homem selvagem. Ele verá um então! Apenas mãos, mãos, são necessárias para esmagar sua garganta cheia de mentiras.’

Com isto, Húrin deixou a pedra e caminhou a passadas largas em direção a Hardang; mas este se afastou perante Húrin, chamando seus guarda-costas para protegê-lo; e eles foram em direção ao portão. Para muitos isto pareceu que Hardang admitira sua culpa, e eles puxaram suas armas, e desceram da bancada, gritando em direção a ele.

Agora o perigo da batalha estava no interior do anel sagrado. Pois outros se aliaram a Hardang, alguns por amor por ele ou pelos seus atos, que, acima de tudo, eram leais a ele e ao menos o defenderiam da violência, até que pudesse se defender perante o debate.

Manthor estava entre os dois grupos, e gritou para que segurassem suas mãos e que não derramassem sangue no anel do debate; mas a fagulha que ele mesmo criou agora explodiu em chamas além do seu controle, e uma onda de homens o colocou para o lado. ‘Fora com este Halad!’ eles gritavam. ‘Fora com Hardang, levem-no para as cavernas! Abaixo Hardang! Viva Manthor! Nós queremos Manthor!’ E eles se lançaram sobre os homens que barravam o caminho para o portão, para que Hardang tivesse tempo para escapar.

Mas Manthor voltou até Húrin, que agora estava sozinho, perto da Pedra. ‘Ai de mim, Senhor!’ disse ele, ‘eu temia que esse dia guardasse grande perigo para nós. Há pouco que posso fazer, mas ainda eu devo tentar evitar o mal maior. Eles logo sairão, e eu devo segui-los. Você virá comigo?’

Muitos caíram no portão, de ambos os lados, mas ele foi tomado. Lá Avranc lutou bravamente, e ele foi o último a fugir. Mas quando ele se virou para correr, ele de repente puxou seu arco e atirou em Manthor, que estava próximo da Pedra. Mas, devido à sua pressa, ele errou o tiro, e a flecha acertou a pedra, lançando fagulhas atrás de Manthor enquanto quebrava. ‘Da próxima vez será mais perto!’ gritou Avranc, enquanto fugia com Hardang.

Então os rebeldes saíram do anel e perseguiram os homens de Hardang até Obel Halad, quase há meia milha de distância. Mas antes de chegarem lá, o Hardang havia tomado conta do salão e o trancou; e ele agora estava cercado. O salão dos líderes ficava num jardim com uma parede de terra redonda em volta, se erguendo de um dique externo seco. Na parede havia apenas um portão, do qual uma trilha de pedras levava até grandes portas. Os perseguidores passaram pelo portão e rapidamente cercaram todo o salão, e tudo ficou quieto por um tempo.

Mas Manthor e Húrin chegaram até o portão; e Manthor queria negociar, mas os homens disseram: ‘De que servem palavras? Ratos não sairão enquanto cães estão perto.’ E alguns gritaram: ‘Nossos parentes foram assassinados, e nós os vingaremos!’

‘Muito bem’, disse Manthor, ‘permitam ao menos que eu faça o que eu posso!’

‘Então faça!’ disseram eles. ‘Mas não se aproxime demais, ou poderá receber uma resposta afiada.’

Assim, Manthor ficou próximo ao portão e ergueu sua grande voz, gritando para ambos os lados que eles deveriam parar com este fraticídio. E para aqueles que ele estavam dentro, prometeu que aqueles que se apresentassem desarmados poderiam sair livremente, até mesmo Hardang, se ele desse sua palavra de comparecer perante o Debate no dia seguinte. ‘E nenhum homem irá levar armas também,’ disse ele.

Mas enquanto falava, uma flecha saiu de uma janela, que passou perto da orelha de Manthor, e cravou fundo em um dos marcos do portão. Então a voz de Avranc foi ouvida, gritando: ‘A terceira vez será certeira!’

Agora a raiva daqueles que estavam fora se inflamou novamente, e muitos correram até as grandes portas e tentaram quebrá-las; mas lá havia uma surtida, e muitos foram feridos ou mortos, e muitos outros no pátio foram feridos por flechas das janelas. Então os assaltantes, agora cheios de ira, trouxeram galhos e gravetos e muita madeira, e colocaram no portão; e gritaram para aqueles que estavam dentro:

‘Vejam! O Sol está se pondo. Nós lhe daremos até o cair da noite. Se vocês não saírem então, nós iremos queimar o salão com vocês dentro!’

Então todos se afastaram do pátio, para evitar flechadas, mas formaram um anel de homens em volta do dique externo.

O Sol se pôs e ninguém saiu do salão. E quando estava escuro, os assaltantes voltaram ao pátio carregando a madeira, e as empilharam em volta das paredes do salão. Então, alguns carregando tochas acesas, correram pelo pátio para colocar fogo nas madeiras. Um foi morto por uma flechada, mas os outros chegaram às pilhas e logo começaram a queimar.

Manthor ficou horrorizado na ruína do salão e o ato maligno dos homens de queimá-lo. ‘Dos dias escuros do nosso passado isso vem,’ disse ele, ‘antes de virarmos nossos rostos para o oeste. Uma sombra está sobre nós.’ E ele sentiu uma mão no seu ombro, e ele se virou e viu Húrin, que estava atrás dele, com uma expressão austera; e Húrin riu.

‘Vocês são um povo estranho,’ disse ele. ‘Uma hora frios, outra quente. Primeiro ira, então piedade. Sob os pés de seu líder e agora na sua garganta. Abaixo Hardang! Viva Manthor! Você irá aceitar isso?’

‘O povo deve escolher,’ disse Manthor. ‘E Hardang ainda vive.’

‘Não por muito tempo, espero,’ disse Húrin.

Agora as chamas cresceram e logo o salão do Haladin estava queimando em muitos lugares. Os homens de dentro jogaram terra e água sobre a lenha, tudo o que tinham, e uma grande fumaça se ergueu. Então alguns tentaram fugir sob sua proteção, mas poucos passaram pelo anel de homens; a maioria foi preso, ou morto, se tentaram lutar.

Havia uma pequena porta nos fundos do salão com uma varanda arqueada que se aproximava mais da parede do pátio do que as grandes portas na frente; e a parede atrás era mais baixa, porque o salão fora construído nas encostas de uma colina. Quando o telhado pegou fogo, Hardang e Avranc fugiram pela porta dos fundos, alcançaram o topo da parede e rolaram para o dique, e não foram avistados até que tentaram escalar para fora. Mas então, com gritos, homens correram até eles, mas não sabiam quem eram. Avranc se lançou aos pés de um deles, e o derrubou, e Avranc se levantou e fugiu pela escuridão. Mas outro arremessou uma lança nas costas de Hardang enquanto fugia, e ele caiu com um grande ferimento.

Quando descobriram quem ele era, os homens o levantaram e o colocaram aos pés de Manthor. ‘Não o coloque aos meus pés,’ disse Manthor, mas aos pés daquele que ele maltratou. Não tenho nada contra ele.’

‘Não tem?’ disse Hardang. ‘Então deve ter certeza da minha morte. Eu acho que você sempre terá algo contra aquele que foi escolhido pelo povo para ocupar a cadeira em vez de você.’

‘Pense o que quiser!’ disse Manthor, e se afastou. Então Hardang percebeu que Húrin estava ali. E Húrin ficou olhando para Hardang, uma forma escura na penumbra, mas a luz do fogo estava em seu rosto, e ali Hardang não viu piedade.

‘Você é um homem mais forte que eu, Húrin de Hithlum,’ ele disse. ‘Eu tinha tanto medo da sua sombra que toda a sabedoria e generosidade me abandonou. Mas agora eu não acho que nenhuma sabedoria ou piedade me salvaria de você, pois você não tem nem uma coisa nem outra. Você veio me destruir, ao menos nunca negou isto. Mas sua última mentira contra mim, eu a rebato antes de morrer. Nunca’ – mas com um engasgo de sangue em sua garganta, ele caiu para traz e não falou mais nada.

Então Manthor falou: ‘Ai de mim! Ele não devia ter morrido desta forma. A maldade que ele criou não lhe dava o direito de morrer assim.’

‘Por que não?’ disse Húrin. ‘Ele falou palavras odiosas de uma boca podre no final. Que mentiras falei contra ele?’

Manthor suspirou. ‘Nenhuma mentira intencional, talvez,’ ele disse. ‘Mas a última acusação que você apresentou era falsa, eu acho; e ele não teve chance de negá-la. Eu preferiria que tivesse falado para mim antes do Debate!’

Húrin cerrou os punhos. ‘Não é falsa!’ ele gritou. ‘Ela está onde eu falei. Morwen! Ela está morta!’

‘Ai de mim! Senhor, onde ela morreu eu não duvido. Mas disso eu acho que o Hardang não sabia mais do que eu, antes de você falar. Diga-me, senhor: ela alguma vez caminhou mais profundamente nesta terra?’

‘Eu não sei. Eu a encontrei como falei. Ela está morta.’

‘Mas senhor, se ela não caminhou mais, mas, ao encontrar a pedra, lá se sentou, triste e desesperada, no túmulo de seu filho, pelo que posso crer, então…’

‘Então o que?’ disse Húrin.

‘Então, Húrin Hadorion, pela escuridão de sua angústia, saiba disso! Meu senhor, cujo sofrimento é imenso, tão imenso quanto as coisas que vieram a acontecer conosco que nenhum homem e nenhuma mulher se aproximou daquela pedra desde que ela está lá. Não! O senhor Oromë em pessoa pode sentar naquela pedra, com toda a sua caça em sua volta, e não saberíamos. E mesmo que soprasse sua grande corneta, nós não atenderíamos àquele chamado!’

‘Mas e se Mandos, o Justo, falasse, não o ouviria?’ disse Húrin. ‘Agora alguns devem ir para lá, se você possui alguma piedade! Ou irá deixá-la lá, até que seus ossos fiquem brancos? Isto purificaria a sua terra?’

‘Não, não!’ disse Manthor. ‘Eu irei encontrar alguns homens de coração forte e mulheres piedosas, e você nos levará até lá, e faremos o que pede. Mas é uma longa estrada, e este dia está acabando em toda a sua malícia. Um novo dia é necessário.’

No dia seguinte, quando as notícias da morte de Hardang se espalharam, uma grande multidão de pessoas procurou Manthor, implorando para que se tornasse líder. Mas ele disse: ‘Não, isto deve ser apresentado perante o Debate. E não pode ser agora, pois o anel foi maculado, e existem outras coisas que são mais urgentes. Primeiro eu tenho uma missão. Eu devo ir ao campo do verme e até a Pedra dos Infelizes, onde Morwen, sua mãe está abandonada. Alguém irá comigo?’

Então a piedade afetou alguns corações dos que o ouviram; e apesar de alguns terem se afastado com medo, muitos estavam dispostos a ir, mas entre estes, havia mais mulheres do que homens.

Assim, mais tarde, partiram em silêncio, trilhando o caminho que levava pela cachoeira de Celebros. Após oito milhas, a escuridão caiu sobre Nen Girith, e eles passaram a noite da forma que puderam. E na manhã seguinte, eles chegaram ao Campo da Queimada, e eles encontraram o corpo de Morwen ao lado da Pedra Parada. Então olharam para ela com piedade e espanto; pois parecia que olhavam para uma grande rainha cuja dignidade nem a idade nem toda a miséria nem toda a angústia do mundo conseguiria tirar dela.

Então eles desejaram honrá-la em morte; e alguns disseram: ‘Este é um lugar negro. Vamos erguê-la, e levar a Senhora Morwen até o pátio dos túmulos e colocá-la entre os da Casa de Haleth com quem possui parentesco.’

Mas Húrin disse: ‘Não, Nienor não está aqui, mas é melhor que ela fique aqui, próxima de seu filho, em vez de com estranhos. É o que ela teria escolhido.’ Então eles fizeram uma tumba para Morwen sobre Cabed Naeramarth, no lado oeste da Pedra; e quando a terra foi jogada sobre ela, eles escreveram na Pedra: Aqui jaz também Morwen Edelwen, enquanto alguns cantavam na língua antiga os lamentos que há muito foram feitos para aqueles do seu povo que caíram na Marcha além das Montanhas.

E enquanto cantavam, começou uma chuva cinzenta, e todo aquele lugar desolado se encheu de pesar, e o rugir do rio era como o lamento de muitas vozes. E quando tudo terminou, eles se afastaram, e Húrin foi apoiado em sua bengala. Mas dizem que depois deste dia o medo abandonou aquele lugar, mas a tristeza permaneceu, e ficou para sempre sem folhas e descoberto. Mas até o fim de Beleriand, as mulheres de Brethil iriam com flores na primavera, e bacíferos no outono, e cantariam ali por um tempo, para a Senhora Cinzenta que procurou em vão por seu filho. E um vidente e um harpista de Brethil, Glirhuin, fez uma canção falando que a Pedra dos Infelizes não poderia ser maculada por Morgoth, nem nunca derrubada, nem que o Mar engolisse toda a terra. O que de fato aconteceu depois, e ainda a Tol Morwen está sozinha na água, além das novas costas que foram criadas nos dias da ira dos Valar. Mas Húrin não está enterrado lá, pois seu destino o levou adiante, e a Sombra continuou seguindo-o.

Agora, quando a companhia retornou para Nen Girith, eles pararam, e Húrin olhou para trás, além de Taeglin, em direção ao Sol poente que aparecia através das nuvens; e ele estava relutante em retornar para a Floresta. Mas Manthor olhou para o leste e estava preocupado, pois havia um brilho vermelho no céu daquele lado também.

‘Senhor,’ disse ele, ‘fique aqui se quiser, assim como todos os outros que estiverem cansados. Mas eu sou o último dos Haladin, e eu temo que o fogo que foi aceso ainda não tenha se apagado. Devo retornar rapidamente, para que a loucura dos homens não leve Brethil inteira à ruína.’

Mas enquanto ele falava isto, uma flecha saiu do meio das árvores, e ele tropeçou e caiu no chão. Então os homens correram para procurar pelo arqueiro; e eles viram um homem correndo como um cervo pelo caminho até Obel, e ele não foi alcançado; mas eles viram que era Avranc.

Manthor sentou-se, ofegante, encostado em uma árvore. ‘Só um arqueiro ruim erraria o alvo no terceiro tiro,’ ele disse.

Húrin se curvou em sua bengala e olhou para Manthor. ‘Mas você também errou seu alvo, parente,’ ele disse. ‘Você foi um amigo valoroso, e eu acho que você foi com muita vontade na causa que também era sua. Manthor teria sentado de forma mais merecedora na cadeira dos líderes.’

‘Você possui um olho forte, Húrin, para perfurar todos os corações, menos o seu,’ disse Manthor. ‘Sim, sua escuridão também me tocou. Agora ai de mim! Os Haladin se acabaram; pois este ferimento é mortal. Esta não era sua verdadeira missão, homem do norte: levar a ruína a nós para contrapesar com a sua? A Casa de Hador nos conquistou, e quatro de nós caíram sob sua sombra: Brandir, e Hunthor, e Hardang e Mantho. Não é o suficiente? Não partirás e deixar esta terra que morre?’

‘Eu irei,’ disse Húrin. ‘Mas se o poço das minhas lágrimas não estivesse totalmente seco, eu choraria por você, Manthor, pois você me salvou da desonra, e eu o amo como a um filho.’

‘Então, senhor, use em paz o pouco mais de vida que eu ganhei para você,’ disse Manthor. ‘Não leve sua sombra para outros!’

‘Por quê? Não posso mais caminhar pelo mundo?’ disse Húrin. ‘Eu irei continuar até que a sombra de derrube. Adeus!’

E assim Húrin se separou de Manthor. Quando os homens foram medicar seus ferimentos, descobriram que era grave, pois a flecha entrara fundo em seu flanco; e eles quiseram carregar Manthor rapidamente de volta para o Obel, para que fosse cuidado por curandeiros habilidosos. ‘Tarde demais,’ disse Manthor, e ele arrancou fora a flecha, e deu um grande grito, e ficou imóvel. Assim terminou a Casa de Haleth, e homens menores governaram Brethil no tempo que restou.

Mas Húrin ficou em silêncio, e quando a companhia partiu, carregando o corpo de Manthor, ele não se virou. Ele olhou sempre para o oeste até que o Sol caísse na escuridão e a luz falhasse; e então partiu sozinho em direção à Haud-em-Elleth.

* Pois Manthor era um descendente de Haldad, e ele possuía uma terra pequena na fronteira leste de Brethil, próximo ao Sirion onde ele atravessa Dimbar. Mas todo o povo de Brethil era formado por homens livres, mantendo suas casas e suas terras, sejam maiores ou menores, de direito. Seu senhor era escolhido entre os descendentes de Haldad, por reverência pelos feitos de Haleth e Haldar; e mesmo que a liderança era dada, como se fosse um domínio ou um reino, para os mais velhos da linhagem mais velha, o povo tinha o direito de colocar qualquer um de lado ou tirá-lo de lá, por uma causa grave. E alguns sabiam o suficiente que Harathor tentara que Brandir o Aleijado tivesse tido abdicado em seu favor.

O Conto de Adanel

[O “Conto de Adanel” era é uma versão da história da “Queda dos Homens” como contada na Terra-média entre os Edain da Primeira Era. Está contido no volume 10 da série The History of Middle-earth X, Morgoth’s Ring]

Então Andreth, encorajada por Finrod, disse por fim: “- Este é o conto que Adanel, da Casa de Hador, contou-me”.

Alguns dizem que o Desastre aconteceu no início da história de nosso povo, antes que qualquer um houvesse morrido. A Voz falara a nós, e nós ouvíramos. A Voz disse: “- Vós sois meus filhos. Enviei-vos para aqui habitardes. No devido tempo herdareis toda esta Terra, mas primeiro deveis ser crianças e aprender. Pedi a mim e ouvirei, pois velo por vós”.

Compreendemos a Voz em nossos corações, embora ainda não possuíssemos palavras. Então o desejo pelas palavras despertou em nós, e começamos a criá-las. Mas éramos poucos, e o mundo era vasto e estranho. Embora muito desejássemos compreender, aprender era difícil, e a criação das palavras era lenta.

Naquele tempo com freqüência chamávamos e a Voz respondia. Mas ela raramente respondia nossas perguntas, dizendo apenas: “- Primeiro procurai encontrar a resposta por vós mesmos. Pois tereis alegria na descoberta, e assim saireis da infância e tornar-vos-eis sábios. Não procureis deixar a infância antes de vosso tempo”.

Mas tínhamos pressa, e desejávamos ordenar as coisas à nossa vontade; e as formas de muitas coisas que desejávamos criar despertaram em nossas mentes. Portanto, falávamos cada vez menos à Voz.

Então alguém apareceu entre nós em nossa própria forma visível, mas maior e mais belo, e ele disse que viera por piedade. “Vós não deveríeis ser deixados sozinhos e sem instrução” disse ele. “O mundo está repleto de riquezas maravilhosas que o conhecimento pode revelar. Vós poderíeis ter alimentos mais abundantes e mais deliciosos do que comeis agora. Vós poderíeis ter tranqüilas habitações, nas quais poderíeis manter a luz e afastar a noite. Poderíeis inclusive vestir-vos igual a mim.”

Então olhamos e vede, ele usava vestes que brilhavam como prata e ouro, e tinha uma coroa em sua cabeça e jóias em seu cabelo. “Se desejais ser como eu” disse ele “, ensinar-vos-ei”. Então aceitamo-lo como mestre.

Ele era menos rápido do que esperávamos a ensinar-nos como encontrar, ou criar por nós mesmos, as coisas que desejávamos, embora ele houvesse despertado muitos desejos em nossos corações. Mas se qualquer um duvidasse ou ficasse impaciente, ele trazia e colocava diante de nós tudo o que havíamos desejado. “Sou o Provedor de Presentes” disse ele “, e os presentes nunca faltarão enquanto vós confiardes em mim”.

Por conseguinte, reverenciamo-lo, e por ele fomos cativados, e dependíamos de seus presentes, temendo retornar a uma vida sem eles que agora parecia-nos pobre e dura. E acreditamos em tudo que ele ensinou. Pois estávamos ávidos para saber sobre o mundo e sua existência: sobre as feras e pássaros, e as plantas que cresciam na Terra; sobre nossa própria criação; e sobre as luzes do céu, sobre as estrelas incontáveis, e a Escuridão na qual elas estão.

Tudo o que ele ensinava parecia bom, pois ele possuía um grande conhecimento. Mas cada vez mais ele falava da Escuridão. “Maior de todas é a Escuridão” disse ele “, pois Ela não tem limites. Vim da Escuridão, mas sou Seu mestre. Pois eu criei a Luz. Criei o Sol e a Lua e as incontáveis estrelas. Proteger-vos-ei da Escuridão, que de outro modo devorar-vos-ia”.

Então falamos-lhe da Voz. Mas sua face tornou-se terrível, pois ele enfurecera-se. “Tolos!” disse ele. “Aquela era a Voz da Escuridão. Ela deseja afastar-vos de mim, pois Ela está faminta por vós”.

Ele então foi embora, e não o vimos por um longo tempo, e sem seus presentes éramos pobres. E então chegou um dia no qual a luz do Sol repentinamente começou a falhar, até que foi apagada, e uma grande sombra caiu sobre o mundo, e todas as feras e pássaros temeram. Então ele veio novamente, caminhando através da sombra como um fogo brilhante.

Prostramo-nos. “Há alguns entre vós que ainda estão dando ouvidos à Voz da Escuridão” disse ele “e, portanto, Ela aproxima-se. Escolhei agora! Podeis ter a Escuridão como Senhor, ou podeis ter a Mim. Mas a menos que tomeis a Mim por Senhor e jureis servir-Me, partirei e deixar-vos-ei, pois possuo outros reinos e moradias, e não preciso da Terra, nem vós”.

Então em medo falamos conforme ele ordenara, dizendo: “- Vós sois o Senhor. Apenas a Ti serviremos. À Voz renunciamos e não mais escuta-la-emos”.

“- Que assim seja!” disse ele. “Agora construí a Mim uma casa sobre um local elevado e chamai-na Casa do Senhor. Para lá irei quando desejar. Lá visitar-Me-eis e fazer-Me-eis vossas súplicas”.

E quando tínhamos construído uma grande casa, ele veio e colocou-se diante do alto assento, e a casa foi iluminada como que por fogo. “Agora” disse ele “apareça qualquer um que ainda dê ouvidos à Voz!”

Havia alguns, mas por medo eles permaneceram imóveis e nada disseram. “Então curvai-vos diante de Mim e reconhecei-Me!” disse ele. E todos curvavam-se ao solo diante dele, dizendo: “- Vós sois o Único Grande, e somos Vossos”.

Com isso, ele ergueu-se como em uma grande chama e fumaça, e fomos queimados pelo calor. Mas repentinamente ele partira, e estava mais escuro que a noite, e fugimos da Casa.

Posteriormente sempre íamos com um grande pavor da Escuridão, mas ele raramente aparecia novamente entre nós em uma forma bela, e trazia poucos presentes. Se em grande necessidade ousávamos ir à Casa e orar-lhe para que ajudasse-nos, escutávamos sua voz, e recebíamos suas ordens. Mas agora ele sempre ordenava-nos a executar alguma tarefa ou dar-lhe algum presente antes de ouvir a nossa prece; e as tarefas tornavam-se sempre piores, e mais difícil abrir mão dos presentes.

A primeira Voz nunca mais ouvimos, exceto uma vez. No silêncio da noite Ela falou, dizendo: “- Renunciastes a Mim, mas vós permaneceis Meus. Dei-vos a vida. Agora ela encurtar-se-á, e cada um de vós em pouco tempo virá a Mim, para aprender quem é vosso Senhor: aquele que idolatrais ou Eu que criei-o”.

Então nosso terror pela Escuridão aumento, pois acreditávamos que a Voz era da Escuridão por trés das estrelas. E alguns de nós começaram a morrer em horror e angústia, temendo sair para a Escuridão. Chamamos então por nosso Mestre para que salvasse-nos da morte, mas ele não respondeu. Mas quando fomos à Casa e todos lá curvaram-se, ele por fim veio, grande e majestoso, mas seu rosto era cruel e orgulhoso.

“- Agora sois Meus e deveis fazer Minha vontade” disse ele. “Não preocupo-me que alguns de vós morrais e vades para aplacar a fome da Escuridão, pois de outro modo logo haveria muitos de vós, rastejando como parasitas sobre a Terra. Mas se não fizerdes Minha vontade, sentireis Minha ira, e morrereis mais cedo, pois matar-vos-ei”.

Com isso fomos dolorosamente afligidos, pelo cansaço, fome e enfermidades; e a Terra e todas as coisas nela viraram-se contra nós. Fogo e água rebelaram-se contra nós. Os pássaros e feras evitavam-nos ou, se eram fortes, atacavam-nos. Plantas deram-nos veneno, e temíamos as sombras sob as árvores.

Então ansiamos pela nossa vida como fora antes que nosso Mestre chegasse; e nós o odiamos, mas o temíamos não menos que a Escuridão. E cumprimos sua ordem, e mais do que sua ordem; pois tudo que pensávamos que agradar-lhe-ia, embora maligno, fazíamo-lo, na esperança de que ele aliviaria nossas aflições e que ao menos não mataria-nos.

Para a maioria de nós isso foi em vão. Mas a alguns ele começara a favorecer: os mais fortes e mais cruéis, e aqueles que iam com maior freqüência à Casa. Deu-lhes presentes e conhecimentos que mantiveram em segredo; e eles tornaram-se poderosos e orgulhosos, e escravizaram-nos, de modo que não tínhamos descanso do nosso trabalho no meio de nossas aflições.

Então ergueram-se alguns dentre nós que diziam abertamente em seu desespero: “- Agora finalmente sabemos quem mentiu e quem desejava devorar-nos. não a primeira Voz. É o Mestre que tomamos a Escuridão; e ele não veio dela, como disse, mas nela habita. não mais servi-lo-emos! Ele é nosso Inimigo”.

Então com medo, para que ele não ouvisse-os e punisse a todos nós, matávamo-los se pudéssemos; e aqueles que fugiam nós caçávamos; e, se quaisquer eram pegos, nossos mestres, amigos dele, ordenavam que eles fossem levados à Casa e lá mandados para a morte pelo fogo. Isso agradava-lhe enormemente, seus amigos diziam; e, de fato, por um tempo parecia que nossas aflições foram aliviadas.

Mas conta-se que houve alguns que escaparam-nos, e partiram para países longínquos, fugindo da sombra. Ainda assim eles não escaparam da ira da Voz, pois eles haviam construído a Casa e curvaram-se nela. E por fim chegaram ao final da terra e às praias da água intransponível; e vede, o Inimigo estava lá diante deles.

Ambarkanta

Ao redor de todo o Mundo estão as Ilurambar [1], ou as Muralhas do Mundo. Elas são como gelo, vidro e aço, estando acima de toda a imaginação dos Filhos da Terra, frias, transparentes e duras. Elas não podem ser vistas, nem podem ser transpostas, exceto pela Porta da Noite.

Dentro destas muralhas a Terra está situada: acima, abaixo e em todos os lados está Vaiya, o Oceano Envolvente. Mas ele é mais como o mar abaixo da Terra e mais como o ar acima dela. Em Vaiya abaixo da Terra mora Ulmo. Acima da Terra situa-se o Ar, que é chamado Vista, e sustenta pássaros e nuvens. Por esse motivo ele é chamado acima Fanyamar, ou Casa de Nuvens; e abaixo Aiwenórë ou Terra dos Pássaros. Mas este ar situa-se apenas sobre a Terra-média e os Mares Interiores, e seus limites são as Montanhas de Valinor no Oeste e as Muralhas do Sol no Leste. Por este motivo as nuvens raramente chegam a Valinor, e os pássaros mortais não passam para além dos picos de suas montanhas. Mas no Sul, onde há principalmente frio e escuridão, e a Terra-média extende-se próxima às Muralhas do Mundo, Vaiya, Vista e Ilmen sopram juntos e confundem-se mutuamente.

Ilmen é aquele ar que, sendo límpido e puro, é impregnado de luz, embora não a emane. Ilmen fica acima de Vista, e não é grande em profundidade, porém é mais profundo no Oeste e no Leste, e menor no Norte e no Sul. Em Valinor o ar é Ilmen, mas Vista sopra ocasionalmente, especialmente em Casadelfos, parte da qual está na base oriental das Montanhas; e se Valinor é obscurecida e seu ar não é purificado pela luz do Reino Abençoado, ele toma a forma de sombras e névoas cinzentas. Mas Ilmen e Vista misturar-se-ão como sendo um só, porém Ilmen é respirado pelos Deuses, e purificado pela passagem astros; pois em Ilmen Varda decretou o curso das estrelas, e mais tarde do Sol e da Lua.

De Vista não há como sair nem como fugir, exceto para os servos de Manwë, ou para aqueles aos quais ele concede poderes como os de seu povo, que podem sustentar-se em Ilmen ou mesmo em Vaiya superior, que é muito tênue e frio. De Vista pode-se descer para a Terra-média. De Ilmen, pode-se descer para Valinor. Ora, a terra de Valinor estende-se quase até Vaiya, que é mais estreito no Oeste e Leste do Mundo, mas mais profundo no Norte e no Sul. As costas ocidentais de Valinor não estão, portanto, muito longe das Muralhas do Mundo. Contudo, há um abismo que separa Valinor de Vaiya, e ele é preenchido por Ilmen, e por este caminho pode-se descer de Ilmen acima da terra para as regiões inferiores, às raizes da Terra, e para as cavernas e grutas que estão nas fundações das terras e mares. Lá é o lugar de permanência de Ulmo. De lá originam-se as águas da Terra-média. Pois estas águas são compostas por Ilmen, Vaiya e Ambar [que significa Terra], uma vez que Ulmo funde Ilmen e Vaiya e envia-os através dos veios do Mundo para purificar e renovar os mares e rios, os lagos e as fontes da Terra-média. E as águas correntes possuem assim a memória das profundezas e das alturas, e guardam um pouco da sabedoria e música de Ulmo, e da luz dos astros do céu.

Nas regiões de Ulmo as estrelas algumas vezes estão escondidas, e lá a Lua frequentemente vaga e não é vista da Terra-média. Mas o Sol não se demora lá. Ela [2] passa sob a terra às pressas, a fim de que a noite não se prolongue e o mal se fortaleça; ela é puxada através do Vaiya inferior pelos servos de Ulmo, sendo aquecida e preenchida com vida. Assim os dias são medidos pelas rotas do Sol, que navega de Leste a Oeste através do Ilmen inferior, ocultando as estrelas; ela passa sobre o centro da Terra-média sem se deter, e muda seu curso em direção ao norte ou para o sul, não caprichosamente, mas devido à rota e à estação. E quando ela ergue-se acima das Muralhas do Sol é a Aurora, e quando mergulha atrás das Montanhas de Valinor, é o Anoitecer.

Mas os dias em Valinor são diferentes dos da Terra-média. Pois lá a hora de maior luz é o Anoitecer. Então o Sol desce e repousa por algum tempo na Terra Abençoada, deitando-se no seio de Vaiya. E quando ela penetra em Vaiya, o mesmo torna-se ardente e fulgura com um fogo róseo, e por um longo tempo ilumina aquela terra. Mas a medida em que ela passa em direção ao Leste o fulgor desvanece, e Valinor é privada de luz, e é iluminada apenas pelas estrelas; e então os Deuses muito se lamentam pela morte de Laurelin. Ao amanhecer, a escuridão é profunda em Valinor, e as sombras de suas montanhas estendem-se pesadamente sobre as mansões dos Deuses. Mas a Lua não se demora em Valinor, e passa rapidamente sobre ela para mergulhar no abismo de Ilmen, pois ele sempre persegue o Sol, e raramente a alcança, quando então é consumido e obscurecido em sua chama. Mas às vezes acontece de ele chegar sobre Valinor antes de o Sol ter partido, e então desce e encontra sua amada, e Valinor é preenchida com uma luz mesclada tal qual prata e ouro; e os Deuses sorriem lembrando-se da fusão da Laurelin e Silpion há muito tempo atrás.

A Terra de Valinor inclina-se para baixo a partir do sopé das Montanhas, e sua costa ocidental está no nível do fundo dos mares interiores. E não longe dali, como foi dito, estão as Muralhas do Mundo; e no sentido oposto à costa mais ocidental no centro de Valinor está Ando Lómen, a Porta da Noite Eterna que penetra as Muralhas e abre-se para o Vazio. Pois o Mundo encontra-se em meio a Kúma, o Vazio, a Noite sem forma ou tempo. Mas ninguém pode ultrapassar o abismo e a região de Vaiya e chegar àquela Porta, exceto unicamente os grandes Valar. E eles fizeram aquela porta quando Melko foi sobrepujado e colocado na Escuridão Exterior; e ela é guardada por Eärendel [3].

A Terra-média situa-se no meio do Mundo, e é composta de terra e água; sua superfície é o centro do mundo, das fronteiras do Vaiya superior aos confins do inferior. Antigamente assim era a sua forma. Era mais elevada no centro, decaindo de cada lado em vastos vales, mas ergue-se novamente no Leste e Oeste, mais uma vez decaindo para o abismo em suas bordas. Os dois vales eram preenchidos com a água primordial, e as costas destes antigos mares eram no Oeste as regiões montanhosas mais ocidentais e a borda da grande terra, e no Leste as regiões montanhosas e a borda da grande terra sobre o outro lado. Mas ao Norte e ao Sul ela não decaía, e podia-se ir por terra do extremo Sul do abismo de Ilmen ao extremo Norte do mesmo. Os mares antigos, portanto, situam-se em canais, e suas águas não vertiam para o Leste ou Oeste; mas eles não possuíam costas tanto ao Norte como ao Sul, vertiam para o abismo, e suas cachoeiras tornavam-se gelo e pontes de gelo por causa do frio; de forma que o abismo de Ilmen era aqui fechado e pontificado, e o gelo estendia-se ao Vaiya, e até as Muralhas do Mundo.

Ora, é dito que os Valar, entrando no Mundo, desceram primeiro sobre a Terra-média no seu centro, exceto Melko, que desceu no Norte distante. Mas os Valar pegaram uma porção de terra e criaram uma ilha, consagrando-a, e a colocaram no Mar Ocidental e permaneceram nela, enquanto estavam ocupados na exploração e na primeira disposição do Mundo. Como é contado, eles desejaram criar lamparinas, e Melko ofereceu-se para desenvolver uma nova substância de grande força e beleza para seus pilares. Ele levantou estes grandes pilares ao norte e ao sul do centro da Terra, mesmo assim mais perto dele do que o abismo; os Deuses colocaram lamparinas sobre eles, e a Terra teve luz durante algum tempo.

Mas os pilares foram criados com falsidade, sendo talhados em gelo; eles derreteram e as lamparinas caíram em ruína, e sua luz foi derramada. Mas o derretimento do gelo criou dois pequenos mares interiores, ao norte e sul do centro da Terra, e havia uma terra setentrional, uma terra central e uma terra meridional. Então os Valar retiraram-se para o Oeste e abandonaram a ilha; sobre a região montanhosa na margem ocidental do Mar do Oeste, eles elevaram grandes montanhas, e atrás delas criaram a terra de Valinor. Mas as montanhas de Valinor curvam-se para trás, e Valinor é mais ampla no centro da Terra, onde as montanhas andam ao lado do mar; e ao norte e ao sul, as montanhas nivelam-se em direção ao abismo. Há duas regiões da Terra Ocidental que não pertencem à Terra-média e, apesar disso, são exteriores às montanhas: elas são sombrias e vazias. A situada ao Norte é Eruman, e aquela ao Sul é Arvalin [4]; há apenas um desfiladeiro estreito entre elas e as extremidades da Terra-média, mas este desfiladeiro é preenchido com gelo.

Para sua proteção posterior, os Valar empurraram a Terra-média no seu centro e comprimiram-na em direção ao leste, de forma que ela foi encurvada, e o grande mar do Oeste é muito amplo no centro, a mais vasta de todas as águas da Terra. A forma da Terra no Leste era muito semelhante àquela no Oeste, exceto pelo estreitamento do Mar Oriental, e o deslocamento da terra naquela direção. E além do Mar Oriental situa-se a Terra Oriental, da qual pouco sabemos, e é chamada a Terra do Sol; ela possui
montanhas, menores do que as de Valinor, mas ainda assim muito grandes, que são as Muralhas do Sol. Em razão da queda da terra, estas montanhas não podem ser vistas, exceto pelos pássaros que voam às maiores altitudes, através dos mares que as divide das costas da Terra-média.

E o afastamento da terra também ocasionou o aparecimento de montanhas em quatro direções, duas na Terra do Norte e duas na Terra do Sul; aquelas no Norte eram as Montanhas Azuis no lado ocidental, e as Montanhas Vermelhas no lado oriental; e no Sul eram as Montanhas Cinzentas e as Amarelas. Porém Melko fortificou o Norte e lá ergueu as Torres Setentrionais, que também são chamadas de Montanhas de Ferro, e elas voltavam-se para o sul. E na terra central havia as Montanhas de Vento, pois lá um vento fortemente soprava vindo do Leste antes do Sol; e Hildórien, a terra onde os Homens primeiro despertaram, situa-se entre estas montanhas e o Mar Oriental. Mas Kuiviénen [5], onde Oromë encontrou os Elfos, está ao Norte junto às águas de Helkar.

Mas a simetria da antiga Terra foi mudada e partida na primeira Batalha dos Deuses, quando Valinor marchou contra Utumno, que era a fortaleza de Melko, e Melko foi acorrentado. Então o mar de Helkar [que era a lâmpada setentrional] tornou-se um mar interior ou grande lago, mas o mar de Ringil [6] [que era a lâmpada meridional] tornou-se um grande mar fluindo de norte a leste e unindo por canais tanto o Mar Ocidental como o Oriental.

E a Terra foi novamente partida na segunda batalha, quando Melko foi mais uma vez deposto, e ela modificou-se ainda mais pela a deterioração e o passar de muitas eras. Mas a maior mudança ocorreu quando a Forma Primordial foi destruída, e a Terra foi arredondada e separada de Valinor. Isto aconteceu nos dias do ataque dos Númenoreanos sobre a terra dos Deuses, como é contado nas Histórias. E desde aquele tempo o mundo tem esquecido as coisas que haviam anteriormente, e os nomes e as lembranças das terras e águas de antigamente pereceram.

Notas:

[1] O presente texto pertence aos primórdios da mitologia tolkieniana, sendo escrito por volta de 1930. Muito foi modificado pelo próprio Tolkien [alguns pontos mais de uma vez] antes da publicação do Silmarillion, em 1977, editado por seu filho Christopher. Muitos nomes foram deixados de lado, outros sofreram alterações, como é o caso de Ilurambar, forma primitiva de Eärambar. [N. do T.] [2] No decorrer do texto, Tolkien refere-se ocasionalmente ao sol como “ela” e à lua como “ele”, por ambos serem conduzidos por seus respectivos maiar: Arien [a maia do sol], e Tilion [o maia da lua]. [N. do T.] [3] Formas primitivas de Melkor e Eärendil respectivamente. [N. do T.] [4] Formas primitivas de Araman e Avathar respectivamente. [N. do T.] [5] Forma primitiva de Cuiviénen. [N. do T.] [6] Formas primitivas de Illuin e Ormal respectivamente. [N. do T.]