Ronald passou quase toda a sua infância dividido entre as regiões
rurais das Midlands Ocidentais e a cidade industrial de Birmingham,
onde freqüentou a King's Edward School. A proximidade dessa região com
o País de Gales ajudou a desenvolver, muito precocemente, a paixão de
Tolkien por línguas: nos vagões de trem carregados de carvão, o garoto
via palavras em galês como "Nantyglo" e "Senghenydd", que o fascinavam
e inspirariam a criação das línguas élficas. Em 1900, Mabel Tolkien
decidiu converter-se ao catolicismo juntamente com seus filhos. John
Ronald permaneceria profundamente católico até o fim da vida.
Embora modesta, a vida levada por Mabel e seus filhos era relativamente
tranqüila. A situação mudou em 1904, quando Mabel faleceu. A partir de
então, a educação e bem-estar de Tolkien e seus irmãos passaram a ser
responsabilidade do Padre Francis Morgan, amigo de Mabel. John Ronald
passou a morar na hospedaria de uma certa senhora Faulkner, onde
conheceu a jovem Edith Bratt, então com 19 anos (Tolkien tinha 16). Os
dois se apaixonaram, mas o Padre Morgan, ao descobrir o namoro, proibiu
que eles se vissem até que Tolkien completasse 21 anos. Obedecendo a
seu tutor, mas sem esquecer Edith, Tolkien ingressou na Universidade de
Oxford em 1911, mostrando-se um aluno brilhante no estudo das línguas
germânicas, do inglês antigo, do galês e do finlandês. Esta última
língua, uma das paixões de Tolkien, também seria uma das bases
primordiais para as língua élficas.
Casamento, guerra, academia
Finalmente, por volta de 1914, o relacionamento de John Ronald e Edith
pôde seguir seu curso. Ela se converteu ao catolicismo, enquanto
Tolkien concluiu o curso de Língua e Literatura Inglesa em 1915. Foi
também durante essa época que o qenya (hoje chamado "quenya"), o mais
importante dos idiomas ficcionais criados por Tolkien, começou a tomar
forma. Entretanto, a Primeira Guerra Mundial já estava varrendo a
Inglaterra, e o jovem John Ronald não escapou da maré negra. Convocado
para servir como segundo-tenente nos Fuzileiros de Lancashire, Tolkien
casou-se com Edith em 22 de março de 1916 e, logo depois, embarcou para
a França.

Tolkien participou da terrível ofensiva de Somme, na Bélgica, e após
quatro meses no front contraiu a chamada "febre das trincheiras", uma
infecção semelhante ao tifo que grassava devido às péssimas condições
de higiene no exército. Mandado de volta à Inglaterra, Tolkien começou
a rascunhar, enquanto se recuperava, as primeiras versões de sua
mitologia, com as primeiras histórias de elfos, anões e homens, e os
relatos originais da queda de Gondolin e de Nargothrond. Em 1917,
nasceu o primeiro filho de Edith e Ronald, John Francis Reuel. Além
dele, o casal também teria Michael, Christopher, e uma menina,
Priscilla.
Depois do fim da guerra, a carreira acadêmica de Tolkien decolou: ele
foi escolhido Leitor (Professor Associado) de Língua Inglesa na
Universidade de Leeds em 1920 e, em 1925, passou a ocupar o posto de
professor de Anglo-saxão em Oxford. Como professor, Tolkien se dedicou
principalmente ao estudo da literatura em inglês antigo e médio (seus
estudos do poema anglo-saxão "Beowulf" estão entre os mais imporantes
do gênero) e também às aulas na graduação.
A Terra-média irrompe
Era costume de Tolkien contar histórias, criadas por ele próprio, para
seus filhos. Certo dia, quando corrigia provas da faculdade, ele se
deparou com uma folha em branco e, movido por um impulso inexplicável,
escreveu nela: "Numa toca no chão vivia um hobbit". Tolkien decidiu
então "descobrir" o que era o tal hobbit, e a partir disso criou mais
uma história para seus filhos, com as aventuras do hobbit Bilbo. A
história, datilografada, chegou às mãos de Stanley Unwin, da editora
George Allen and Unwin, que pediu a seu filho de 10 anos, Rayner, para
resenhá-la. O garoto adorou o livro, e Stanley Unwin decidiu publicá-lo
em 1937 com o título "O Hobbit". O sucesso foi tamanho que o editor
pediu a Tolkien uma continuação das aventuras de Bilbo.
Tolkien decidiu escrever a continuação, mas a história, atraída
irresistivelmente na direção das velhas lendas élficas, demorou mais de
16 anos para ser escrita e se tornou um épico de mais de mil páginas. A
essa altura, Rayner já havia crescido e passado a ocupar o cargo de seu
pai na editora. Decidido a arriscar, Rayner publicou "O Senhor dos
Anéis" em três volumes, lançados de 1954 a 1955. O sucesso, estrondoso,
surpreendeu a todos, inclusive a Tolkien. Uma edição pirata do livro,
lançada nos Estados Unidos em 1965, ampliou ainda mais tal êxito, já
que os adeptos da contracultura e do movimento hippie se identificaram
profundamente com a narrativa.
Beren e Lúthien

Surgira como que um culto em torno da figura e dos escritos de Tolkien.
Se de um lado o autor se sentia lisonjeado, o homem Tolkien não estava
tão contente: pessoas de todos os cantos do mundo se achavam no direito
de ligar para a sua casa ou simplesmente bisbilhotá-lo do outro lado da
rua. Assim, depois de se aposentar e com os filhos há muito crescidos,
ele decidiu se mudar para o pacato balneário de Bournemouth em 1969, em
companhia de Edith. Em 22 de novembro de 1971 ela faleceu, e Tolkien
voltou para Oxford. Ele próprio morreria em 2 de setembro de 1973. Os
dois estão enterrados juntos no cemitério de Wolvercote, em Oxford. Na
lápide, num eco da mais bela história de amor de sua mitologia, pode-se
ler:
Edith Mary Tolkien, Lúthien, 1889-1971
John Ronald Reuel Tolkien, Beren, 1892-1973