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O Livro Negro de Arda – Parte 2 Capí­tulo 8

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A Valinor/Lothlórien tem a honra de dar continuidade à publicação de O
Livro Negro de Arda, publicando o oitavo capítulo da segunda parte, chamado CÁLICE. Leia mais sobre esta obra aqui na Valinor e confira os demais capítulos já publicados, no índice da obra
 
 

PARTE SEGUNDA. MANDARAM ESQUECER
CÁLICE. ANOS 488-500 DO ACORDAR DOS ELFOS

Desde a partida de Artano, começaram a olhá-lo de um jeito estranho em Valinor, e muitos até o evitavam. Ele atribuía isso ao fato de que Aulë perdeu as boas graças do Rei do Mundo e dos Poderes, mas logo ele teve a chance de verificar que não é assim. Ao oferecer, mais uma vez, os serviços dele ao Ferreiro, ele ouviu um taciturno “Não”.

– Mas por quê, meu senhor?

– Quanto você, quanto aquele foram fundidos na mesma forma, – respondeu Aulë, sombrio.

Curumo não o compreendeu, mas não teve coragem de perguntar mais. Mas pensou e memorizou a resposta do senhor dele.

Um dia, ele percebeu um olhar hostil de Tulkas:

– Do que é que você precisa aqui?

Curumo fez uma elegante reverência:

– Eu fui enviado com um encargo do meu senhor Aulë, Poderoso…

– Então vá… – resmungou Tulkas. E, pelas costas, o Maia ouviu, – cria do Inimigo…

Curumo era inteligente – e não era difícil adivinhar a verdade.

“Então eu, tal como Aulendil, fui criado por Melkor. E eu sou o mais poderoso e o mais sábio entre os Maiar, como ele – entre os Valar… Mas claro! E agora os Valar simplesmente têm medo de mim. Até Tulkas. Servo de Aulë! Que título. O que me espera aqui? O destino de um serviçal? E lá? Claro, ele me receberá, como recebeu Artano…” Curumo fez uma careta de despeito. Artano. Rival.

“Mas não me consideram o mais hábil dos discípulos de Aulë? Obviamente, o poderoso Vala dará devido valor a isso. E então veremos. E, para que ele não duvide da minha devoção, eu lhe oferecerei uma grande oferenda, digna de um Senhor!”

– …O que faz aqui?

Curumo levantou-se num salto e curvou-se ao Ferreiro:

– Oh, meu senhor! Eu pensei em fazer um cálice para o Rei do Mundo…

– Por quê não me disse? – Aulë estava começando a se irritar.

– Ó Grande! Você revelou-me um abismo de sabedorias, e deu-me muitos conhecimentos. Mas eu duvidei, seria eu digno de ser servo de um Vala tão sábio… Portanto, se a minha criação for imperfeita, a culpa recairá somente sobre mim, um aluno pouco aplicado. E caso a minha oferenda seja digna do Rei do Mundo, falarão: quão grande é Aulë, se até o aprendiz dele, um servo, pode criar algo assim? E aumentará a sua fama, meu sábio senhor.

– Não é que você está certo?.. Bom, estou contente com você, e o seu plano me agrada. Pode continuar, – as palavras soavam como se o Ferreiro falasse contra a própria vontade.

Curumo fez uma segunda reverência:

– Agradeço-o, sábio. As suas palavras plantam esperança no meu coração. Sou insignificante demais para ajudá-lo nas suas obras; mas se a minha criação servir para a sua fama, não existirá um prêmio maior para mim…

Ele saiu de Valinor silenciosamente e sem ser percebido; e só tempos depois Aulë a ausência dele.

E Gorthaur encontrou-o no portão negro da fortaleza de Melkor. Ele não teve tempo de falar nada: Curumo pulou para abraçá-lo:

– Oh, meu irmão, como estou feliz por estarmos finalmente juntos!

– Mas… – Gorthaur estava perplexo.

– Leve-me ao Senhor, rápido!

Curumo seguia o Maia Escuro, que andava na frente:

– Quão destemido você é, meu irmão! Eu reverencio a sua coragem e a sua resolução; mesmo suportando todas as humilhações e o desprezo com quais eu fui cercado em Valinor, eu demorei em juntar coragem para seguí-lo…

Eles entraram na sala do trono, e Curumo, em lagrimas, atirou-se no chão, abraçando os joelhos de Melkor:

– Finalmente, meu senhor, finalmente eu vim até você!

Melkor olhava-o, chocado, e finalmente conseguiu pronunciar:

– Levante, o que deu em você? Como é pode humilhar-se assim?!

– Não há perdão para mim, Grande! Eu também estive com eles e servi aqueles que se atrevem a opor-se a você! Mas eu voltei a ver, eu compreendi toda a grandeza dos seus planos. O meu lugar é aqui, ao seu lado, meu senhor… Como estou feliz de ter alcançado, finalmente, a verdade!

– Levante-se, por favor…

– Não, Grande, eu sou o pó sob os seus pés, eu não mereço… Perdoar-me-á? – ele queria beijar a mão de Melkor, mas aquele, quase assustado, arrancou a mão, levantou-se e fez Curumo levantar-se do chão:

– Está bem, está bem, eu te perdôo, perdôo, se você precisa tanto disso…

– Agradeço-o, Grande… Será que você se rebaixará a ponto de aceitar a minha oferenda?

O cálice de ouro vermelho, todo enfeitado com esmeraldas e rubis, enrolado em fino ornamento de diamantes. O pé torcido envolto por uma fita de esmeraldas de quatro faces. Trabalho hábil… mas só de olhar – como é pesado… “Como vou levantá-lo?..” – pôde pensar Melkor.

– Somente você – o verdadeiro Senhor do Mundo – é digno de beber de um cálice assim.

– Senhor do Mundo?..

– Claro que sim, senhor! É engraçado ouvir como condecoram Manwë com o título de Rei de Arda. O poder dele não se estende para além dos limites de Valinor; realmente, somente você governa o mundo, meu senhor…

– Por quê me chama de senhor? -perguntou Melkor, finalmente vencendo a surpresa.

– Há outra forma? Tudo em Arda é obediente a sua vontade; nos somos somente os seus servos, incapazes de compreender a profundidade e a grandeza dos seus planos.

– Basta, – o Vala Escuro, resoluto, interrompeu o discurso de Curumo.

– Eu irritei-o, Grande? Imploro-o, perdoe o seu insignificante servo.

Curumo estendeu-se no chão perante o trono.

– Levante! Se quiser tornar-se meu discípulo, não se atreva a humilhar-se! Como pode me chamar de senhor? Aqui você não é servo – está livre!..

– Eu entendi, Grande, e que seja assim como você deseja. Mas conte-me – você aceita a minha oferenda? Não voltará as costas para mim?

– Não… Não… Fale-me somente, porque fez este cálice?

– Estou feliz em explicar-lhe, Grande… Perdoe se eu falar algo errado, pois ainda sei pouco, e não são muitos os conhecimentos que Aulë pôde me transmitir. Ouro é o metal dos senhores, por isso escolhi este material para a minha criação. Três pedras se combinam neste cálice: rubi – pedra do poder, esmeralda – que expulsa a tristeza e traz a alegria, e o diamante – sinal dos vencedores e guerreiros poderosos, semelhante a sua onipotente vontade, pois é indestrutível… Fale, Grande, será que eu errei?

– Não… Mas tudo o que disse é o olhar de um lado somente. Fale com o Artífice – ele explicará…

– Só uma coisa ainda me parece incompreensível, Artífice: eu não vi aqui nada feito de ouro. Ate as suas jóias são de outros metais. Por exemplo, esse seu anel; ele é belo, mas isso é aço? Pense – será que a beleza do anel não aumentaria se ele fosse de ouro?

– Eu entendo-o, Curumo. Mas o Mestre diz que o ouro é um metal pesado e arrogante, poucos possuem força suficiente para domá-lo e mudar a essência dele. Magos e aqueles que têm habilidades de cura preferem a prata, metal da Lua, que não suporta sangue, que dá o poder sobre a essência das coisas e sobre si mesmo. Prata é a sabedoria e a calma, e significa – equilíbrio.

– Isso eu entendo; mas – aço? Por acaso, ele não significa – o poder da força?

– Desculpe-me, mas novamente você olha só por um lado. Tudo depende daquelas mãos que tocam o aço. Aço é vontade e fidelidade; o aço é metal dos defensores e não fica abaixo da prata em nada. Mas, acima dos outros metais, nos apreciamos o ferro.

– Pode isso acontecer? Ferro é um metal rústico e rotineiro…

– E novamente, está certo somente em parte. Ferro é um metal antigo que guarda muitos grandes mistérios. Mas eles serão conhecidos somente por verdadeiramente sábios. O artífice deve possuir alta sabedoria e grande habilidade para trabalhar com o ferro. Esse metal possui uma vontade própria. Nos somente começamos a descobrir os segredos dele, e o Mestre, parece, sabe tudo… sabe, nas mãos dele o ferro canta…

– E o Gorthaur?

– Oh, foram-lhe reveladas muitas coisas. Ele é o primeiro dos discípulos de Melkor.

Curumo fez uma careta. A menção de Artano era desagradável. “Ouro é metal inferior? Como se eles entendessem muito de metais!”

– E as pedras? – perguntou ele em voz alta. “Pelo menos disso eu certamente sei tudo”.

– Você respondeu corretamente ao Mestre, mas… Olhe para este rubi: ele parece o fogo e o sangue ardente, mas ao mesmo tempo é frio como o gelo. A mesma dualidade – nas propriedades dele, e nas propriedades das outras pedras. Rubi – é sinal não somente do poder, mas também da desgraça, diamante – é também a pedra daqueles que curam, e o significado da esmeralda – beleza da natureza e amor do Universo. Você não sabia?

– Claro que sabia, mas…

Curumo não acabou a frase, mas, aparentemente, Geleon-Artífice nem esperava a continuação.

“Ele mesmo não quis explicar. Não se rebaixou. Mandou falar com este burro. Mas deixa. Ele logo compreenderá que eu sou digno de algo maior. Eu provarei…”

– Geleon!

– Sim, Mestre?

– Veja; esse cálice lhe agrada?

O Artífice pensou, e depois respondeu, sem muita certeza:

– Não sei, Mestre… Eu não vejo defeitos… Nunca vi um trabalho tão fino em ouro, e as pedras foram escolhidas com saber e habilidade… todas as proporções estão corretas, mas…

– Mas?

– Perdoe, Mestre, mas por alguma razão eu nem quero tocá-lo, – parecia que Geleon estava surpreso com as próprias palavras. – Quem fez isso?

– Meu… discípulo, – Melkor tropeçou nessa palavra. Devagar, levou o cálice até os lábios…

Ou o ouro vermelho é que pregou nele uma peça, ou isso era um eco daquilo que – será, mas por um instante pareceu-lhe – o cálice está cheio de sangue grosso até as bordas. Ilusão? Mas de onde, então, o gosto salgado nos lábios?..

Melkor atirou o pesado cálice para longe, com horror e repulsa. Este tiniu, rolando pelo soalho de pedra. Melkor fechou os olhos com a mão tremula.

– O que houve, Mestre?!

– Nada… nada… Pareceu-me que…

“Que oferenda é essa que você me trouxe, Curumo? De quem é o sangue neste cálice, de quem é o sangue que você me deu para beber? Isso é um sinal; um presente maldito – ver, sem saber, sem entender o que vê…”

O vinho derramado não lembrava mais sangue, e ele compreendia que foi apenas uma ilusão… mas – forte e nítida demais.

Maquetes de Lugares da Terra-média

A Valinor recebeu um e-mail do fã Edson DeLima dizendo: gostaria de dividir com vocês meu trabalho com maquetes (que fiz nas férias da faculdade de anos atrás), onde tentei recriar ambientes/locais da Terra-Média, tomando por base o que vi na trilogia “O Senhor dos Anéis”, nas inúmeras ilustrações que encontrei e nas próprias páginas dos livros. Mando as fotos das maquetes em anexo e espero que gostem do meu trabalho.
 
 Sem mais delongas, seguem as obras do Edson:
 
   
   

Um Antigo e Mais novo Inimigo da Terra-média – Cap. 12

Cap 12: Minas Morgul, a Nova Base de Guerra – O Crepúsculo já chegara em Mordor, e Saruman estava encurralado,
procurando um jeito de ganhar tempo até que os reforços do palácio de
Rad chegassem. Apenas ele e Laracna estavam em condições de combate,
porém não eram páreos para os todos aqueles trolls e muito menos para o
Balrog.
 
 
Essa era a preocupação de Saruman, pois, mesmo com todo o seu poder e a força bruta da Laracna, aquela batalha já estava decidida antes de mesmo de começar, eles estavam em minoria e os reforços de Rad chegariam no meio do combate podendo ser tarde demais para o mago. Sem escolha o mago decidiu usar seu poder de persuasão e ganhar tempo, nesse instante a expressão de Saruman mudou completamente para uma expressão amigável, diferentemente do rosto de terror e desafio que o mago tinha poucos segundos atrás.

– Por que não me diz seu nome Balrog, afinal, é de bom tom que os inimigos se apresentem antes do combate.

– Eu não interesso nem um pouco por seus bons modos mago, porém me apresentarei e quero saber quem realmente és. Sou Giantrong capitão da quarta legião de Morgoth, E tu, quem és?

– Sou Curumo, conhecido entre os povos desta terra como Saruman, aquele que descobre todos os segredos. – e continuou – Não há mais necessidade de derramamento de sangue, por que não se alia a mim? Comigo de seu lado você terá..

– Cale-se!, Interrompeu o Balrog, nesse instante ergueu seu chicote, vendo aquilo Saruman sabia que seria atingindo e rapidamente ergueu seu cajado de onde um grande brilho muito levemente avermelhado emanou e o envolveu como uma bolha, nesse instante o balrog desceu seu açoite no intuito de atingir o mago, um grande brilho se viu do impacto e um grande estrondo se ouviu, rompendo o açoite do balrog, apenas o cabo estava na mão do demônio. Ao final da luz via-se Saruman de pé apoiando-se com muita força em seu cajado e sua expressão era de esforço.

Vendo aquilo o Balrog ficou surpreso, pois nenhuma criatura que foi atingida pelo seu chicote resistiu. Mas, mal tinha acabado o golpe de Giantrong, e um dos trolls montados nas criaturas aladas desceu como um raio no intuito de atingir o Mago, e quando estava a poucos pés de distância Laracna saltou na criatura derrubando-a junto com seu cavaleiro. Enquanto Laracna ainda lutava, outros Trolls montados desceram e os que estavam na terra partiram para cima do mago e da aranha.

– Parem!, -exclamou o Balrog-, Todos pararam, então o balrog se aproximou de Saruman e falou:

– Como resistisses?

– Está vendo Giantrong, seu poder e o meu são equiparáveis, não podemos nos enfrentar, será que agora tu percebeste que me derrotar não será tão fácil!?. Com seu poder e o meu junto Giantrong, não haveria resistência para os homens e nós nos tornaríamos os senhores destas terras, esse continente Giantrong é muito grande para ser governada por apenas um ser, pense nisso. Una-se a mim na campanha contra os homens, os quais nos odeiam e querem nosso fim.

As palavras de Saruman pareciam não afetar em nada a consciência do demônio, como ele estava acostumado a ver.

– Eu jamais lhe servirei! Seu insolente! Eu servi a Melkor, o Senhor Sinistro do Mundo! Não seria servo de um ser como você nunca! Nunca mais pretendo mais ser apenas um servo, tenho desejos e pretensões muito maiores, quero ser comandante! -respondeu o Balrog-

– Você ainda não entendeu, Demônio? Infelizmente eu não posso obrigá-lo a me servir e isso eu acabei de perceber agora, seu poder é tão grande quanto o meu, e mesmo se usasse o mais poderosos dos meus encantamentos eu não o convenceria a isso forçadamente, mas confesso que esse seria um dos meus desejos. No entanto, é quase impossível que isso ocorra, além do mas não pretendo me arriscar lutando com você, é poderoso demais e posso ter meu fim aqui, assim como você caso lute comigo, estamos em uma fina corda bamba cruzando um precipício Giantrong e qualquer deslize um de nós pode encontrar o caminho a Mandos, e por perceber seu poder eu concluí que é melhor tê-lo como aliado do que como inimigo, não por medo de você mas por imaginar o tamanho dos estragos que faremos com os homens. Tenho certeza que essa aliança acabará de vez com o governo dos homens, e principalmente, com o Rei Elessar.- Os trolls e orcs que ali estavam se agitavam com gestos de apoio ao mago.

O balrog olhou ao seu redor e percebeu que os seus soldados estavam diferentes, pareciam que o estavam o abandonando.

– Então é assim mago, que pretende me vencer? Agora eu percebo o quão venenosa é a tua voz, manipulas meus soldados como queres, pois a mim ela não tem efeito!, O que pretende?, Colocá-los contra mim?

– Ainda não é essa minha intenção, mas basta um discurso meu e suas tropas se voltarão contra você, Balrog!, É isso que você quer? Perecer aqui, morto por seus próprios soldados? Esse não é meu desejo Giantrong, mas se não tiver outra escolha farei isso sem hesitar. Entenda Demônio, eu estou oferecendo-lhe poder e riqueza em troca apenas de sua força e poder em batalhas ao meu lado e você ainda pensa em recusar? Isso pode ser resolvido apenas com um gesto seu, vamos aceite!

O Balrog então parou e ficou a pensar, Laracna já se aproximava de Saruman, tinha acabado de matar a criatura alada, alguns arranhões, puxando a sua pata direita dianteira e com um dos seus olhos ferido ela se aproximava lentamente.

– Vejo que aquela maldita criatura alada lhe feriu bastante Laracna, e acariciou a aranha, vá se afaste um pouco e descanse. Você está precisando.

A aranha se afastou um pouco e se recolheu próxima às muralhas. Passos de cavalos já eram ouvidos por Saruman, então o mago virou-se para trás e viu que os Reforços de Rad enviados por Furlo tinham chegado, virou-se mais uma vez para o Balrog.

– Veja Giantrong parece que reforços meus estão chegando. Ou são ilusões? – E sorriu.

Giantrong saiu do silêncio e de seus pensamentos e falou:

– Então era isso?, Todo esse tempo estava me enganando com essas propostas falsas para ganhar tempo e agora que seus reforços chegaram acabará comigo? Sabia que não podia confiar em você mago! –Levantou-se e mais uma vez explodiu em chamas. O ódio o acometeu e agora ele estava disposto a lutar.

– Ganhar tempo foi apenas uma garantia, o resto nada foi em vão, a minha proposta foi e é verdadeira, ainda está de pé só depende de você, lembre-se de tudo que falei Giantrong e me responda!

O Balrog se acalmou e falou:

– Serei seu aliado!, Porém com algumas condições

– E quais são elas? –indagou Saruman-

– Quero metade das terras que conquistarmos e quero o comando de metade das tropas!

Saruman pensou por alguns minutos e disse:

-Condições aceitas. Você não vai se arrepender Balrog, pode ter certeza.

Sarumam então se virou e disse.

– Pois bem, agora não temos aqui inimigos e sim aliados, recolham suas armas homens de Rad, e vamos para o trabalho, precisamos reconstruir tudo o que foi destruído nessa batalha, afinal, aqui será nossa base e ela deve ser reforçada. –disse Saruman.

– Pedras e mão de obra temos de sobra aqui, e madeira aos arredores. -disse o Balrog.

– Vão buscar madeira, mas com muita cautela, homens de Gondor devem ser evitados, e se não tiver jeito os matem, não podemos nos arriscar, devemos nos reestruturar enquanto os Goblins nos ajudam mesmo que sem aliança alguma. Devemos ser rápidos – disse o mago

– Giantrong, peço que me leve para o interior das minas, precisamos de um espaço para traçar nossos planos.

-Sigam-me -disse o demônio.

Saruman então se virou e Gritou:

– Ben, Davicar, tragam o Boca de Saurom e alguns soldados, precisamos agir.

– O Boca de Saurom, ainda não parece estar em condições Davicar –Disse Ben.

– Pelo contrario pequenino, o lorde Bocalimar já está de pé, veja você mesmo.

Bem então se virou na direção do olhar de Davicar e viu Boca de Saurom de pé, e alguns soldados tentando o ajudar, mas ele recusou-se falando:

-Me larguem seus vermes, não preciso de vocês para andar estou bem. -e empurrou os soldados.

Boca de Saurom dizia estar bem, mas estava ainda manco e parecia sentir muita dor. Davicar então se aproximou e falou:

– Senhor, é bom vê-lo firme novamente!

– Poderia estar melhor se não fosse aquela maldita aranha! Olhando para laracna que estava seguindo o mago manca, ele falou:

– Veja o estado dela davicar -e sorriu- foi bastante ferida por aquela criatura alada.

– Realmente, foi uma luta dura para Laracna, mas ela venceu, ali jaz a criatura e apontou para ela.

– Quem deveria estar ali era a aranha e não a criatura!- esbravejou Boca de Saurom.

– Vamos agilizem isso, Saruman quer nossa presença na reunião – disse Ben.

– Cale-se pequenino, não és nada, portanto não perturbe o lorde Bocalimar – esbravejou Davicar.

-Pequeno insolente -disse boca de Saurom.

Eles então seguiram, a frente vinha o balrog seguido por Saruman e Laracna, Ben vinha logo em seguida e atrás dele Bocalimar, Davicar e alguns soldados. Depois de alguns metros andando, eles se depararam com uma escadaria a qual levava-os para uma porta ao alto. A porta era de madeira com reforços de ferro em forma de cruz, ao lado da porta existiam duas estatuas, uma do lado direito e outra do lado esquerdo. Estatuas essas que tinham uma energia misteriosa que mesmo com a porta aberta, criaturas não desejadas não passavam, eram impedidas por uma energia invisível. O Balrog então abriu a porta gigante e entrou seguido pelos demais, ao entrarem se depararam com um salão enorme com uma mesa gigante cheia de cadeiras e algumas pilastras de ambos os lados, as quais se revezavam em ter ou não tochas de iluminação. O teto era negro como uma noite sem estrelas e não se via alem da escuridão a altura e ao fundo a frente deles três tronos, um maior que ficava no centro e um pouco mais alto que os demais e dois menores de ambos os lados; inúmeras portas se viam por todos os lados. Giantrong então se dirigiu à direita e entrou na terceira porta do trono, à entrada. Ao entrar via-se outro salão, porém bem menor que o principal e muitas outras portas, a frente de uma parede lisa onde o mapa da terra média estava desenhado. Era gigantesco, e ocupava quase que a parede inteira. Ao centro, uma mesa menor com outro mapa da terra média, porém em menor proporção e com peças simbolizando soldados forjados de pedra e aço.

– Então aqui é a sala de estratégia de guerra? Muito interessante – disse Ben-

– É o que parece Ben. E aqui é onde traçaremos nossos planos para pôr fim aos planos do Rei Elessar, e assim, seremos os novos reis da terra média! -disse saruman. Nesse instante, seus olhos brilharam.

– E o que você tem em mente ó poderoso mago? – disse Boca de Saurom em tom de deboche.

– Vejo que a surra que levou da Laracna ainda não foram suficientes para você Boca de Saurom. Será que não entende que o comando é meu e você não pode fazer nada quanto a isso? Você sabe que não pode comigo e minha paciência com você está se esgotando. Portanto cale-se e me poupe de sua ironia.

– Não podemos entrar em guerra contra os homens, será o nosso fim –disse Ben.

– Lutar agora não está em meus planos pequenino, não temos poder para isso, nosso exército ainda é pequeno, e depois dessa ultima batalha ficaram ainda mais debilitados. Meu plano é outro, não o uso da força, mas sim o uso da inteligência e você será o protagonista dele.

– Eu!? Mas como, não vejo como posso agir.

– Você não vê, mas eu vejo – disse Sarumam.

O Livro Negro de Arda – Parte 2 Capí­tulo 7

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A Valinor/Lothlórien tem a honra de dar continuidade à publicação de O
Livro Negro de Arda, publicando o sétimo capítulo da segunda parte, chamado SOBRE OS CAVALOS ALADOS. Leia mais sobre esta obra aqui na Valinor e confira os demais capítulos já publicados, no índice da obra
 
 

PARTE SEGUNDA. MANDARAM ESQUECER
SOBRE OS CAVALOS ALADOS. ANO 15 DO ACORDAR DOS ELFOS

A noite de outono estava viva. Ouvindo cuidadosamente os passos do tempo – o som das gotas de orvalho caindo ritmicamente dos galhos, – ela estava imóvel na esperança de algo que só ela conhecia. A Noite ouvia o Tempo. E dois ouviam a noite. Lentamente, a eterna neblina do vale de Gellome escorria em tiras prateadas. Na primavera, no verão e no outono, as ervas aqui pareciam de prata, como se estivessem cobertas de geada; só na primavera aqui floresciam as florestrelas que cintilam como feitiço primaveril nas coroas do Dia da Prata… O Maia sorriu. Agora, as estrelas floresciam no céu, apesar do luar, era possível ver os traçados familiares das constelações, e, de tempos em tempos, relâmpagos brancos das estrelas cadentes riscavam o céu. “Provavelmente, elas também agora se transformarão em flores…” O Maia olhava para o céu, sentindo como o encanto mágico da noite toma conta dele. Parecia que a noite foi e será eterna, e ele continuará assim dentro dela – eternamente olhando para o céu estrelado. Lá em cima voava o vento, escorregavam as leves nuvens semitransparentes, de vez em quando ocultando com o véu escuro os fios preciosos das constelações.

Um vento repentino jogou para trás, num redemoinho, os cabelos do Maia – prateados no luar.

– Sobre o que você está pensando? – perguntou Melkor em voz baixa, tocando o ombro dele. Gorthaur estremeceu, como se acordasse de um sonho:

– Eu vi… Ou me pareceu? – ele falou quase num sussurro. – Essas nuvens… provavelmente elas me enganaram… Sabe, me pareceu de repente que ali, no céu, está um cavalo. Uma nuvem, coagulo da noite de lua cheia do outono – o corpo dele, as asas – o vento do céu, a crina de neblina e riscos das estrelas cadentes, olhos – o reflexo da lua numa lagoa noturna… Eu ouvi o vôo dele, a respiração dele é como o vento de outono… Mestre, como eu gostaria que isso não fosse somente uma visão…

– Isso não é mais uma visão. Veja!

Melkor apontou para algum lugar na neblina – e então, deslizando silenciosamente sobre a terra, surgiu o cavalo alado, aproximou-se, pisando inaudivelmente, e parou perto deles, olhando torto com o olho de estrela. O Maia sorriu:

– Foi você que fez isso? Novamente um presente?

– Não, – Melkor estava sério. – Foi você mesmo. Simplesmente – teve muita vontade…

Gorthaur já estava entrando, mas Neere o impediu.

– O Senhor pediu para não perturbar, – estrondeou Balrog.

– E o que houve?

– Disse – ele precisa pensar. Você me desculpe, Gor…

Maia acomodou-se num canto com um suspiro:

– Vou esperar. Preciso pedir uns conselhos ao Mestre…

Ficaram calados.

– Não entendo o que está acontecendo com ele, – reclamou Gorthaur. – Não duvido, estes pequenos são uma verdadeira maravilha… Mas mesmo assim: sempre estão o rodeando. E, parece, ele está feliz. Logo, vejo, não poderemos nos esconder deles nem no castelo!

– Pois é, – falou o Balrog com uma voz de baixo. – Ontem mesmo apareceu aqui uma pequenina. O que você, pergunto, quer? E ela me responde assim seriamente: tenho, tipo, um negócio importante com o Mestre. E – passa correndo por mim! Nem deu para abrir a boca… Vai, penso, se o negócio é importante, talvez precisem de mim também. Vou entrando direto para a oficina: ele fazia lá essa coisa esquisita de madeira… sabe, um deles ainda toca numa igual…

– Alaúde, – ajudou Gorthaur.

– Certinho – alaúde. Trabalho fino, é claro. Só o Senhor, mal viu essa pequenina, começou a sorrir, botou tudo de lado na mesma hora… Negocio importante! Ela lhe trouxe umas frutas!

O Balrog calou-se depois da fala descomunalmente longa.

– Vi, – respondeu Gorthaur, – os morangos. Eu entro – eles estão lá na oficina, sentados, e eu nem acreditei nos meus ouvidos – o Mestre está cantando algo para ela. Bem baixinho… – Maia sorriu involuntariamente para a lembrança: a voz de Melkor era muito bonita. – E ele que não recusa quase nada às crianças. Estou certo: se amanhã alguém quiser voar de dragão, o Mestre vai permitir.

– E o dragão? – o Balrog riu.

– Não, eu vou falar tudo para ele. Basta, – o Maia levantou-se resoluto, mas nesse momento Melkor finalmente apareceu na porta. O rosto absolutamente feliz, os olhos brilham:

– Sabe, Discípulo, eu entendi qual é o conto de fadas que eu contarei a eles.

– Oh, Mestre… – Gorthaur sorriu.

Encontrar um quadro semelhante era o que Gorthaur menos esperava. Ele sabia que Melkor é imprevisível; mas aquilo que ele viu agora não correspondia até tal ponto à figura do calmo e sábio Mestre, que Maia ficou perplexo. Eles… brincavam de batalha de neve! Parece que Melkor levou mais do que os outros: os cabelos dele estavam cobertos de neve, e havia neve grudada em toda a capa. “Uma maneira peculiar de expressar o amor pelo Mestre!” Se bem que aquilo que estava acontecendo parecia agradar ao próprio Vala. Ele ria – abertamente e com alegria, como somente crianças sabem rir; atirou uma bola de neve para o ar, e ela se desfez em estrelas cintilantes, iluminando com uma luz suave os rostos rosados pela brincadeira dos Elleri.

– Mestre! – o chamou Gorthaur.

Aquele se virou e foi em direção ao Discípulo, tirando, ao andar, a neve que grudou na roupa.

– O que você está fazendo? Para que?

Melkor, desviando –por um triz – de uma bola de neve certeira atirada pelo Artífice, respondeu:

– Para compreender os homens, é preciso dividir tudo com eles: e dor, e alegria, e trabalho, e diversão. Não é assim, Discípulo?

– Sim, Mestre, mas mesmo assim… eles são simplesmente crianças, e você…

Melkor riu com um riso jovem, feliz:

– E por que não? Fale honestamente: você mesmo não quer tentar?

Gorthaur se perturbou:

– Mas você é o Mestre… Como eles… Como eu…

A bola de neve que o acertou no ombro, impediu o Maia de terminar a frase.

Gorthaur abaixou-se, pegou um punhado de neve na mão; uma segunda bola acertou a testa dele.

– Se cuidem então! Vou mostrar!.. – urrou ele com uma raiva fingida. – Eu estou aqui a negócios, e é com isso aí que vocês me recebem!

O Artífice não conseguiu desviar.

– E isso é de mim! – gritou Melkor, e a bola de neve, ao tocar o peito do Contador de Histórias, virou um pássaro branco.

Gorthaur, virando o rosto coberto de neve para Melkor – o Artífice Geleon não ficou devendo – sugeriu, com um sorriso largo:

– E então, Mestre, vamos mostrar a eles de que nos somos capazes?

Melkor fez um sim com a cabeça, fazendo uma pirueta para desviar de mais uma porção de neve.

Nas mãos do Menestrel, a bola de neve de repente se transformou num pequeno arminho. O animalzinho parou como uma estatua na palma do elfo, brilhando com contas negras dos olhos, espirrou quando flocos de neve caíram em cima dele e se escondeu dentro casaco de pele do Menestrel.

– Está se divertindo, Mestre? – riu Gorthaur.

…À noite, todos se reuniram na casa do Mago – aquecer-se em frente ao fogo e secar as roupas molhadas. Ouviam o Menestrel, bebiam vinho quente com especiarias. Melkor, estudando o cálice de ônix chapeado com prata – presente do Artífice – falava com Gorthaur a meia voz:

– Claro, um simples feitiço é suficiente para expulsar o frio, secar a roupa; os Imortais podem simplesmente não sentir frio. Mas não é mais agradável aquecer-se perto do fogo na roda dos amigos, beber um bom vinho – mesmo que, em essência, você nem tenha necessidade disso – simplesmente ouvir as canções e puxar conversa?

– Você está certo, Mestre, – respondeu o Maia, pensativo. – E eu não consigo compreender: por quê em Valimar o chamam de Inimigo? Por quê dizem que você desconhece o bem, que não é capaz de criar? Perdoe se as minhas palavras te ofenderam… Mas não é mais fácil viver se você compreende os outros, diferentes de você mesmo? Se não tem medo?

– Eu entendi o que você quis dizer. O mal está no fato deles não quererem entender. Claro que não lhe contaram que eu lhes ofereci uma aliança?

– Não…

– Não é de admirar, – Melkor riu tristemente. – O que o Inimigo pode fazer de bom? Valar temem desobedecer a vontade de Eru. E a aliança comigo significa exatamente isso. E, para que ninguém não possa nem mesmo conceber algo assim, me nomeiam inimigo e apóstata. Significa que não pode haver nada de bom nem nos meus pensamentos, nem nos meus feitos.

– Mas isso não é assim!

– E você, pode considerar um inimigo aquele que sabe amar, como você o sabe; que quer ver o mundo belo, como você o quer; que pode sentir e pensar, como você o faz; que se alegra igualmente com o dom de criar? Aquele que, em essência, deseja o mesmo que você?

– Que inimigo seria ele, então?

– Nisso é que está o problema, – Melkor tomou um gole de vinho.

– Sabe, – Gorthaur disse baixo depois de um breve silêncio, – eu estou tentando imaginar Aulë brincando de batalha de neve com os seus discípulos.

– E então? – interessou-se Vala.

– Não dá, – suspirou o Maia. – Ele não se rebaixaria. Provavelmente, nunca viria na cabeça dele transformar uma bola de neve num pássaro. Porque isso não tem nenhuma utilidade. É simplesmente bonito, interessante, divertido… E ele é o Grande Ferreiro, e por isso deve criar somente o grande e o útil. Para maior glória do Único. E disso – que glória? Somente… Aquece o coração, será? Não sei, como dizer…

Melkor suspirou:

– Um dia eu te contarei, o que fez Aulë ficar assim…

– Andarilho!

O jovem virou-se.

– Ouça, Andarilho, o que aconteceu com seus olhos?

Aquele ficou perplexo: aparentemente, nada de especial… O Pintor riu baixo:

– Os seus olhos estão dourados…

– O que? – não entendeu Andarilho.

– Dourados como mel, como o sol nascente. Veja você mesmo!

O Andarilho sorriu:

– E não há nada de engraçado. E não há nada para se surpreender. Olha os seus – são azuis, os do Mago – verdes, como folhas no sol…

– Verdade? – subitamente, o Pintor ficou sério. – Ouça, e por quê?

– Mas não era sempre assim?

– Não… Eram – cinzas, os meus, os seus, os dele… Não consigo entender. Talvez, o Mestre responderá?

– Antes não tínhamos tempo para reparar nisso…

– Nos só agora percebemos…

– Talvez, você sabe? Os estão se tornando diferentes, e os cabelos… Porque?

O Vala sorriu. Quão diferentes eles ficaram… Mechas desobedientes de cabelos ondulados dourados escuros caíam em desordem sobre os ombros do Andarilho, ele é todo assim claro, límpido e fino, como um raio de luz. O olhar do Pintor é tenaz e aguçado, mas os olhos – azuis, aveludados, como safira escura, e os cabelos negros estão presos por uma tira fina de couro. Ele aparenta ser mais velho: o Andarilho, comparado com ele, é quase um menino, mesmo que os dois sejam dos Primeiros. Mas todos sabem que faz tempo que o Artífice Orein de olhos azuis perde e a coragem, e a confiança, e a severidade, basta aparecer por perto a pequenina e delicada Halie – hábil bordadeira e tecelã.

– Por quê, Mestre?

– Simplesmente – vocês são Homens. E os homens são todos diferentes, não se parecem um com o outro, como folhas de uma arvore, como estrelas…

“Vocês são Homens. Assim como eu os via, quando ouvia o Canto de Ëa. Só que pela vontade de Eru eles serão tão pouco duradouros como faíscas, e serei eu capaz de devolver-lhes aquilo que ele tomou? Ou a dádiva da liberdade se tornará para eles um castigo e um mal? Será que nisso Eru será o mais forte?”

Foi uma conversa inesperada.

– Conte, Gorthaur, e os outros Criadores do Mundo, aqueles que vivem em Valinor, eles são bonitos?

Ele ficou pensando por muito tempo, pela primeira vez descobrindo, surpreso, que agora os rostos perfeitos dos Valar não lhe parecem nada belos. Nenhum traço errado, como se alguém tivesse como meta a criação de uma beleza perfeita, e conseguiu-o, mas na corrida atrás da clareza e exatidão das linhas desapareceu algo principal, tão importante como impossível de capturar, e nestes rostos não havia vida. Todos os Valar eram diferentes e – semelhantes, mesmo se distinguindo pelos traços dos rostos e alturas, cor dos olhos e dos cabelos. Alias, quase todos…

Não, aqueles que ele via ao redor de si agora eram infinitamente mais belos. E o sonhador moreno de olhos dourados, o Andarilho, e o Armeiro, zombeteiro, de ombros largos, Gellor-Mago, sempre pensativo e concentrado, e a impetuosa Allua, e quase majestosa Onnele Cyolla…

– E as Valier?

Pensando bem, era possível chamar de belas somente duas: Nienna e Este. Justamente porque os rostos delas foram marcados por algum sentimento. Mas a obra prima de acabamento, a perfeita Rainha do Mundo – qual dos Homens a chamará de bela?

– E o Rei… o irmão mais novo do Mestre?

Manwë. Estranho: enormes olhos brilhantes e pestanas compridas não estragam em nada o irmão mais velho, e os traços do mais novo são quase efeminados – por quê? Novamente algo impossível de capturar…

– Ouça, Gorthaur… eu pensei só agora… – O Andarilho parecia envergonhado. – Qual é a cor dos olhos do Mestre?

E verdade – qual? Cinza-claros? Verdes? Azuis? Seria possível definir a cor das estrelas?.. Vinham-lhe na cabeça somente comparações: céu, mar, estrelas… Mas o céu também não é sempre azul, as águas do mar nem sempre parecem verdes… Relâmpago?.. Gelo?.. Aço?..

– Não sei. Eu não sei.

Eles eram diferentes, os Discípulos de Melkor, Elleri Ache. Havia aqueles em cujas mãos o metal começava a cantar e as gemas ganhavam vida. Havia aqueles que compreendiam a língua dos animais e dos pássaros, das arvores e das ervas, e aqueles que sabiam ler o Livro da Noite… E aquele que sabia compor canções melhor que todos, chamava-se – Menestrel Escuro. O sinal dele era a estrela alada de nove pontas: aperfeiçoamento da alma, o caminho do coração alado. As baladas dele pareciam e não pareciam aquelas que o Maia dos olhos dourados cantava; talvez porque nelas vivia uma tristeza desconhecida. E os olhos daqueles que o ouviam se enevoavam. E aquele que via os sinais do Escuro encontrou um meio de anotar os pensamentos. Ele criou os sinais tay-an, que poderiam ser escritos no pergaminho com pena e com pincel, e aqueles que poderiam ser gravados nas pedras e talhadas na madeira. E entre os Elfos do Escuro, ele levava o nome de Amigo dos Livros.

E aquele que ouvia os cantos da terra, as contava em forma de contos de fadas – estranhos e sábios, alegres e tristes. Assim dizia ele: “Nossos filhos amarão estes contos; quando se começa a descobrir o mundo, ele parece cheio de maravilhas e enigmas – que seja assim naquelas histórias que lhes serão contadas…” Melkor sorria, ouvindo-o; e o chamaram de Contador de Histórias.

Eles eram diferentes, mas semelhantes em uma coisa: todos eles consideravam-se Homens, pois, mesmo que fossem inicialmente Elfos, escolheram o caminho dos Mortais; mas a vida deles era tão longa quanto a dos Primeiros Nascidos, e o cansaço não os tocava – quem teria tempo para se cansar quando há, ao redor, tanto desconhecido, novo e belo? E o mundo espera o toque das suas mãos, e alegra-se com você, e o seu coração está aberto a ele…

E o Mestre alegrava-se vendo como aumenta a sabedoria e o entendimento dos discípulos dele.

E a paz reinava em Arta. Mas ela durou pouco.

O Voar do Cisne

Introdução

Alguns costumam dizer que viver é percorrer uma longa ponte. Ao chegar do outro lado, é esperado que riscos tenham sido corridos, para que você saiba de fato o que foi viver. Talvez Nietzsche tenha acertado nesta sua afirmação… até mais do que ele tenha imaginado quando a compôs.

 

As grandes histórias são construídas pela dor e a dúvida. O caminho a
ser percorrido pela ponte da vida, muitas vezes, é doloroso e
mortificante. Mas eis que os corajosos triunfarão sobre si e escalarão
as pedras que impedem suas passagens!

A história que irei lhes contar é sobre como a travessia da ponte da
vida pode ser arruinante. Como a honra e a coragem podem ser
substituídos pela perfídia e a covardia, destruindo vidas e esperanças.
Em um momento em que o mundo pedia auxílio, a resposta foi a destruição
e o pervertimento.

Capítulo Primeiro
O Lago do Não-Ser

Kristanna caminhava sozinha por entre as árvores. Finalmente, conseguira um tempo para pensar consigo mesma. Ultimamente, muita coisa estava acontecendo e parecia que ninguém a deixava raciocinar por si mesma e tentar compreender o que acontecia fora das muralhas da cidade.

Por toda a sua existência, 3.200 anos, tudo o que conhecia estava na parte de dentro das muralhas da cidade de Schirmghann. Os elfos mais velhos e sábios diziam que este era um nome que os homens haviam dado àquele lugar há muito tempo, mas que o verdadeiro nome do território élfico foi esquecido no tempo. A história de Schirmghann começava na época de Morgoth, quando a aniquilação e o medo estavam por toda a parte. A permanência deles naquele esconderijo foi desde o momento em que ficaram temerosos de seguir para o Oeste. O pouco contato que tiveram com os homens diz respeito a invasões e descobrimentos destes últimos, que acabaram fugindo ou sendo mortos pelos elfos.

A elfa não sabia o que pensar: se eram elfos sozinhos no mundo, segundo o relato de guerreiros élficos que se aventuraram fora das muralhas, por que não podiam se misturar no mundo dos tais homens? Aliás, eles pareciam criaturas peludas e ignorantes!

– Então, está pensando em abandonar o seu refúgio?

Kristanna assustou-se muito com a interrupção, mas mais ainda ao olhar para a figura dona da voz: era um elfo de aparência extremamente idosa e ainda assim o fulgor da juventude reinava dentro dele.

– Quem é o senhor?

O velho sorriu e, simplesmente, respondeu:

– O que importa agora é o destino da Terra-Média e não a minha identidade. Por isso, vou lhe dar a chance de escolher se pode me ajudar com aqueles que vivem fora deste refúgio sagrado.

A elfa não teve tempo de decidir. Não, ela teve sim: queria tornar os homens brutos e animalescos em seres sociais e inteligentes, tais como o eram os elfos. Mas, o velho elfo interrompeu esse seu pensar e mostrou-lhe uma radiante folha de uma árvore no fundo da bosque de Tatalieth – aliás, parecia que toda a floresta ao redor partia das raízes desta árvore.

Não, não era uma folha qualquer e que estava refletindo a luz do sol: de cada uma de suas raízes parecia que uma parte de uma figura se formava….

– Este é o espelho do não-ser. Mostra imagens e acontecimentos que trarão grandes mudanças ao mundo. Era parte do refúgio de Yavanna aqui na Terra-Média, antes que os Valar se fossem para sempre para Valinor – disse o elfo.

Na verdade, não foi preciso que o velho lhe dissesse muita coisa. Kristanna sabia que se quisesse entender um pouco do universo de lá de fora, teria que olhar carinhosa e atentamente para a misteriosa folha.

 “Uma pequena criatura embarcava em um navio…. um rei comandava aos homens com generosidade e força….a morte do poderoso rei….Sombra….vitória dos homens….guerras e conflitos…..fogo….um novo tirano…..os homens se julgam superiores…..árvores derrubadas……seca…..fome….morte….VAZIO”.

Como que saindo de dentro de uma bolha a menina voltou a si. Olhou em volta e se surpreendeu ao ver que sentia tristeza.

-Senhor, os homens não são aquilo que o meu povo costuma descrever!

O velho sorriu e respondeu:

– Há muito que o seu povo não sabe o que é a vida fora destas muralhas. Aliás, não sabem o que é a vida!

– E posso perguntar por que o senhor acha que deveria eu saber o que é a vida?

– Porque você pode ser a única esperança que a Terra dos Homens tem. Os elfos há muito se foram da Terra-Média e vocês aqui ficaram. Agora, vocês podem se ajudar.

É claro que a perspectiva de sair do seu refúgio seguro e encarar uma realidade com a qual nunca sequer ouvira falar, era assustadora!

– Senhor, não posso me comprometer com tal responsabilidade! Este é o meu mundo! Não posso sair da Terra-Média que conheço e chegar como uma aventureira neste outro mundo.

O velho sorriu e se retirou sem dizer mais palavra. Kristanna ficou com os sons dos passarinhos como única companhia ao seu redor. O vento a roçar pelo seu rosto parecia lhe pedir que se soltasse e deixasse ser levada para onde a leve brisa vespertina a carregasse. Naquele momento, até mesmo o mundo fora das muralhas lhe pareça atrativo.

Sim, talvez o destino se lhe estivesse apresentando tal como o foi para seus antepassados. Iria ela recusar a Luz e ficar nas Trevas, tal como eles fizeram com Valinor? Ou não, seria alguém que conduziria a todos para a luz?

O momento seria de decisão, mas Lufindas a chamou e ela preferiu não perturbar seu amado com tais questões. Imagina só se abandonaria o seu amor pela honra de uns poucos homens!
 

O Livro Negro de Arda – Parte 2 Capí­tulo 6

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A Valinor/Lothlórien tem a honra de dar continuidade à publicação de O
Livro Negro de Arda, publicando o sexto capítulo da segunda parte, chamado SOBRE A CHEGADA DOS HOMENS. Leia mais sobre esta obra aqui na Valinor e confira os demais capítulos já publicados, no índice da obra
 
 

PARTE SEGUNDA. MANDARAM ESQUECER
SOBRE A CHEGADA DOS HOMENS

…Quem sabe, quem contará sobre quando surgiram em Arta os Homens? Os sábios dizem – quando o Sol se levantou pela primeira vez sobre o mundo. Mas o Sol é mais antigo do que Arta, e o nascer dele foi visto muitas vezes por aqueles que tinham o dom de vê-lo, e isso foi muito antes dos Homens. Os Elfos sabem somente sobre aqueles Homens que chegaram ao Ocidente nos dias de Finrod Felagund, sobre aqueles que depois seriam chamados de as Três Hostes ou de Atani. Sobre os outros homens, que escolheram caminhos diferentes do caminho para o Ocidente, os Elfos nada sabiam. Também não sabiam que, desde o início, os Homens eram capazes de ver o Sol e a Lua, – muito antes de os Elfos verem a Face do Dia e a Face da Noite. Os Homens receberam dádivas estranhas, e muitas delas eram estranhas e incompreensíveis para os Elfos. E elas não foram dados de uma vez, como aos Elfos, mas acordavam gradativamente, e, ao descobrir em si um novo dom, o humano não o perdia depois, mas o polia, passando-o de geração em geração. Se, claro, ele mesmo não se assustasse com o próprio dom…

Sobre o Acordar dos Homens contam as lendas que hoje são guardadas por poucos. Naquele vale que os Eldar chamam de Hildórien, acordaram primeiro aqueles que são chamados de Nascidos-na-Noite, apesar de eles terem chegado na hora anterior a alvorada, quando o céu no Oriente já começa a clarear, mas as estrelas da noite ainda são brilhantes. As lendas nomeiam quatro povos: Ahhi, Noturnos, e Aoi, Homens das Sombras da Floresta; Ilchennir, Filhos da Lua, e Ochor’tenn’ayri, Aqueles-que-Vêem-e-Preservam.

Naquela hora em que no céu que clareia as estrelas ardem, como gotas de orvalho prontas para despencar, e sobre a terra escorre, num lento rio sonolento, uma cintilante neblina mágica, chegaram ao mundo os Elliri, Filhos da Estrela, o primeiro dos Povos do Amanhecer. Relva orvalhada e a neblina da manhã se dissolvendo – povo Ennir ert’Sin, e os primeiros raios do Sol dourado – homens de Eturu…

São chamadas de Filhos do Sol as Três Hostes dos Edain; e irmãos deles – o povo Asener, os homens de Hanatta e Nghatta, e tribos nômades que voam sobre a terra como o vento do meio-dia. E a sombra do meio-dia deu vida àqueles que se chamaram – Ullayr Ghellach, o Povo das Estrelas da Meia-Noite.

E no pôr-do-sol, entraram no mundo os povos de Ana e Daon. Os últimos raios claros – oferenda do Sol para o povo Daho, e na hora do nascimento das estrelas chegaram as hostes daquela terra que foi chamada de Angellemar, Vale onde Nascem as Estrelas. E quando o céu ainda não teve tempo de escurecer no Ocidente, nasceram os que foram nomeados Irmãos dos Lobos.

Nem todos os nomes foram ditos, e muitos povos não se recordam mais da Hora do Acordar. A sabedoria perdida dos Ohor’tenn’ayri guardava os nomes de todos os povos, mas hoje não há ninguém para contar sobre isso, pois esta hoste sumiu da face de Arta; misturou-se o sangue dos povos e dialetos deles, as lendas que eram transmitidas de boca em boca por muitas gerações tornaram-se vagas. E apesar de tudo, muitos lembram Daquele Que Vinha. Assim conta sobre ele o mito do Povo da Estrela:

 “E entre nos surgiu alguém, semelhante a nos, mas mais belo e mais sábio que nos. E ele veio na noite, e ele vestia as vestes do Escuro, e asas negras estavam nas costas dele. E os cabelos dele eram como a noite, e estrelas estavam enlaçadas neles, mas mais brilhantes que as estrelas eram os olhos dele. E ele falou conosco, e a fala se assemelhava à nossa, mas era diferente, e as palavras dele eram música, semelhantes a llien tayre omm ellar – canção que voa entre as estrelas; e tudo era compreensível para nos.

E ele disse: Eu vim até vocês, pois desejava vê-los.

E ele disse: eu não vim para levá-los pelos caminhos batidos; eu lhes apontarei os caminhos, mas vocês escolherão o seu pela própria vontade, e sozinhos seguirão por ele. Se desejarem, eu lhes darei os inícios dos conhecimentos que lhes ajudarão no caminho, mas vocês mesmos chegarão à sabedoria. E quando for assim, vocês serão iguais a mim, e acima de mim, pois vocês são livres e podem mudar os destinos do mundo…

E ele nos ensinava muitas coisas, e conversava conosco sobre tudo o que existe no mundo, e sobre tudo que é o corpo do mundo, e sobre a alma dele; e sobre estrelas incontáveis que brilham na escuridão… E ele nos falava sobre a criação do mundo, sobre a Grande Música e sobre os outros mundos que cintilam como pérolas entre as estrelas de Ëa. E ele contava como foram criadas as plantas e os animais, o Povo Mais Velho e os Homens, e ensinava a conversar com os espíritos das florestas, montanhas e águas, com animais e pássaros, ouvir as vozes da terra, das arvores e das ervas, canções das estrelas e canções do vento.

Ele apareceu mais de uma vez, e nos o esperávamos, pois tínhamos sede de novos conhecimentos e nos alegrávamos ao descobrir o novo; e também porque o amávamos. Mas ele não nos revelou o nome dele, e nos o chamávamos de Aquele que Amou e de Mestre. E nos entristecemos-nos quando, um dia, ele partiu e não voltou…”

Os homens não sabiam o nome Daquele Que Vinha, como não sabiam também quem era ele; e muitos o chamavam de Deus da Noite, e davam-lhe muitos nomes. E os Elliri o chamaram de Elgo Tchore, o que significa – Aquele que Ouve o Mundo, Que Veio na Noite.

Do vale do Acordar, os caminhos dos Homens se separaram, e cada povo achou uma terra que se tornou o lar dele. Somente os Elliri eram Andarilhos desde o início. Eles passaram, vagando, longos anos, e viram muitas terras, mas de nenhuma delas falaram – eis o nosso lar. E eles estavam felizes com a viagem, descobrindo para si o jovem mundo, os segredos e maravilhas dele. E no caminho, a Noite do Grande Feitiço os encontrou…

…E alguém exclamou de repente:

– Olhem!..

Abrindo as asas imensas, um Dragão voava silenciosamente no céu noturno. As escamas cor de mel e de cobre brilhavam com o ouro opaco no luar; ele dançava, expondo o corpo elegante para a luz mágica, e os homens ouviram o surdo ritmo do feitiço da dança. Eles olhavam, sem desviar os olhos, cedendo aos feitiços da Dança da Lua, e nos corações deles nascia a Música. A noite cantava, e estranhas flores pálidas e cintilantes se abriam, um aroma levemente amargo e triste flutuava no ar, e soava uma melodia baixa de flauta, e nela enlaçavam-se, com brilhos de fogos escuros com tons de ouro vermelho, as notas cálidas das flores de feto. A noite soava com acordes surdos de órgão – cantavam as árvores milenares, e os espíritos das florestas dançavam sem se ocultar dos olhares dos homens, e as canções deles eram indistinguíveis das canções das ervas e flores, e, sobre o veludo roxo e negro do céu de outono, as estrelas traçavam runas estranhas, e em uma dança encantada rodopiava o Dragão…

Innire, Aquela que Dança sob a Lua, enlaçou nos cabelos dela as brancas flores-estrelas, e saiu, e seguiu a dança; e os espíritos da floresta dançavam com ela. E naquela noite, os homens falavam nas línguas de ervas e flores, pois não queriam quebrar o silêncio com o som da voz: as flores e ervas eram as palavras deles, e as estrelas os coroavam…

Desde então, o dragão que dança no céu noturno sob a coroa da Sete estrelas, coroado com Uma, a mais brilhante, tornou-se para os Elliri o sinal de alta sabedoria e da magia.

Assim eles andavam pela terra – Andarilhos da Estrela. E chegou a hora em que, nas suas viagens, eles viram no silêncio da meia-noite a Coroa que baixou sobre as montanhas brancas do norte e, como a gema mais preciosa na Coroa do Mundo, brilhava a Estrela. E assim acabaram as andanças obscuras deles pela a face de Arta, pois a Estrela apontou-lhes o caminho, e agora eles sabiam para onde ir.

As lendas preservaram os nomes antigos. Havia um com o nome de Neyir, Aquele que Aponta o Caminho. Dizem que quando ele olhava para a Estrela, ele dizia – ela sofre e ama. E uma vez, depois de passar a noite sob o céu aberto, sem sono, em uma tristeza clara e estranha, ele veio até os chefes e disse:

– Eu sei – existe a Terra-sob-a-Estrela, e o meu coração me chama para lá. Eu quero, eu devo encontrá-la, por mais longo que seja o caminho. Quem irá comigo?

E os homens acreditaram nele, pois sabiam que Neyir vê mais longe do que os outros com o coração. E o seguiram, pois nos corações deles também batia o chamado da Estrela.

Por muitos dias e noites, por muitos anos eles seguiram a Estrela. Canções sobre a Grande Viagem são belas e tristes, cheias de saudade e esperança, pressentimento e fé, e nas canções soa o nome da Estrela – Meltor. Ninguém sabia porque a chamaram de Forca do Amor, mas também ninguém perguntava, pois eles não poderiam imaginar um outro nome para a Estrela: eles sentiam mais do que podiam perceber então.

E as Canções da Grande Viagem guardam o conto sobre os homens vestidos de negro, cujos olhos brilhavam como estrelas – sobre os sábios andarilhos que vinham para falar com os homens, que lhes traziam as próprias canções, sabedoria e conhecimentos. E o nome do povo deles era parecido com aquele que se deram os Andarilhos da Estrela: Elleri Ache.

O Retorno da Sombra – Parte 2

fanfic_retornosombra_sauron.jpgSobre o Nada e seu conteúdo – No exato momento em que Melkor fez a espada se chocar contra a Parede do Vazio, Sauron pôde sentir que todo o lugar havia ficado em silêncio, não apenas um silêncio coordenado entre diversas vozes, mas um silêncio pesado, quase tangível, que precedeu uma enorme apreensão. Ele chegou a olhar em volta, até mesmo se virou para observar melhor a ampla escuridão que os cercava, mas não soube ao certo por quanto tempo aquele momento havia durado, nem se Melkor também havia sentido aquilo tudo. Quando Sauron estava voltando o seu olhar para Melkor, a esverdeada lâmina da espada já havia se encontrado com a Parede e um intenso, porém curto, brilho foi emitido junto com um enorme estrondo que fez mais uma vez todo o Vazio estremecer. Pego de surpresa tanto pelo clarão quanto pelo estrondo, Sauron se sentiu instantaneamente cego e não conseguiu se manter em pé, caindo de costas e sentindo toda a poderosa vibração do Vazio chegando até ele pelo chão.

 
Fazia um tempo já que os tremores haviam cessado, mas Sauron ainda era
incapaz de enxergar alguma coisa além de um intenso brilho branco,
sabia apenas que Melkor ainda estava perto dele, entretanto esse também
não emitia som algum. Sentindo uma crescente angústia tomar conta de si
e também ansioso por saber o resultado da tentativa de Melkor, Sauron
se pôs de pé e esfregou os olhos várias vezes até conseguir divisar uma
silhueta brilhante que aos poucos foi tomando a forma de Melkor e, para
além dele, uma imensidão se abria. Não uma imensidão como a do Vazio,
completamente desprovida de vida e com um brilho mortiço emanando das
paredes e caminhos. O que Sauron via agora era algo que ele nunca havia
imaginado poder existir e não havia lembrança alguma em seu ser
daqueles tempos remotos em que ele habitava os Salões Atemporais e
vivia em harmonia com os outros Ainur. Estava tão maravilhado com a
primeira visão que tinha daquelas novas maravilhas que havia se
esquecido de todo o resto das coisas; não havia mais a urgência em
voltarem para Mordor, a necessidade de recuperar o seu Anel e
conquistar da Terra-média pareciam agora uma lembrança longínqua, quase
apagada, de um plano menor.

Ali ele teria ficado por tempo incontável, absorto em suas indagações
sobre o que seria aquele lugar, não fosse por Melkor ter tocado em seu
ombro e lhe convidado a segui-lo para explorarem aquela imensidão de
estrelas amontoadas em pequenas e grandes constelações ou espalhadas
entre o que lhe pareceu serem outros mundos, rastros multicoloridos de
poeira cósmica deixados por enormes asteróides que iam e vinham,
enormes vórtices negros como a escuridão do Vazio que sugavam tudo o
que se aproximasse de suas espirais. Sauron sentia-se em êxtase, nunca
antes experimentado por ele, e ele devorava aquelas novas visões como
uma criança se farta de uma imensa tigela de doces, consumindo tudo com
medo de que tudo se acabasse antes de estar completamente saciado.
Estavam andando entre aquelas coisas maravilhosas por bastante tempo
já, mas Sauron ainda não havia sido capaz de divisar onde tudo aquilo
acabava; era como dentro do Vazio, mas diferente porque ali a luz
emanava de todos os cantos e de lugar algum, como se a fonte dela fosse
todos os planetas, estrelas, cometas e etc… o único lugar onde a luz
deixava de existir era dentro dos vórtices negros que ficavam espaçados
simetricamente para que nenhum se juntasse ao outro, fazendo com que
toda a luz criada fosse consumida por eles, de forma a manter um
equilíbrio que ele ainda não havia sido capaz de entender.

De repente, sons começaram a chegar aos seus ouvidos. Até então Sauron
não havia captado som algum, havia apenas uma macia e ensurdecedora
ausência de sons. Uma música bem baixa, porém nítida, invadia a sua
mente e ia aumentando cada vez mais e quando ele olhou com espanto para
Melkor, ele percebeu nos brilhantes olhos daquele poderoso Vala que
aquilo eram memórias dele, de quando ele havia saído das Mansões de
Manwë e ido atrás de seu verdadeiro nome. Sauron havia percebido que,
de alguma forma, naquele lugar sua mente e a de Melkor estavam ligadas
diretamente e tudo o que o Vala sentia ou se lembrava também ele,
Sauron, sentia e lembrava e assim se deixou levar pela constante e
fascinante música que agora começava a tomar forma diante de seus olhos
e assim lhe foi apresentado o Nada e toda a sua magnitude.

No meio de toda aquela enxurrada de coisas novas que lhe era
apresentada, Sauron começava agora a distinguir algumas palavras que se
repetiam com intensidade: Ere, Alcar e Chama. Havia também uma outra
música sendo cantada junto àquela primeira que Sauron prontamente
reconheceu como a Música dos Ainur, na qual ele havia tido uma
participação pequena, e que agora lhe parecia completamente
descompassada e conflitante com o Canto do Universo, que agora
aumentava em intensidade e ritmo. E conforme se seguia a batalha das
Canções, Sauron ia aos poucos conseguindo entender o que se passava na
história e dessa forma ele ficou sabendo como Melkor, primeiramente
chamado de Alcar, havia sido o primogênito dentre os Ainur e também o
mais forte deles. Porém, assim como aquele Vala, ele também não havia
compreendido porque Eru o havia rejeitado e, de certa forma, deixado de
lado em relação aos outros Ainur. Incomodou-se também com a inexpressão
e falta de força daquele nome, Alcar, que em nada fazia jus ao ser e
descobriu o motivo de Melkor estar tão à vontade no meio daquela
imensidão, pois o seu verdadeiro nome, Melkor, havia sido revelado pelo
Nada.

Todas essas novas informações que Sauron adquiria sobre Melkor ele
guardava em sua memória, porém a intensidade e quantidade de
informações agora era tão grande que ele mal conseguia fixar as mais
importantes e tinha que se esforçar por captar o sentido das outras.
Era como se agora as duas Canções houvessem se fundido em uma só e
estivessem sendo tocadas em um compasso mais acelerado. Sauron então
percebeu que a fonte de todas aquelas informações era Melkor, que tudo
o que lhe fora apresentado era parte das lembranças dele e que Melkor
agora começava a vasculhar nas suas memórias em busca de alguma coisa,
a coisa mais importante para ele e que o levou a se aventurar pela
imensidão do Nada. A Sauron apenas havia restado a opção de ouvir as
Canções e observar as belas coisas do Nada passarem por eles enquanto
Melkor os conduzia de um mundo belo a outro mais belo ainda, cada um
com sua própria vida e Luz. Foi observando e comparando esses mundos
que Sauron descobriu o que Melkor procurava avidamente: A Chama
Imperecível. A fonte de todas aquelas luzes que emanavam no Nada.

As Canções agora soavam mais alto dentro da mente de Sauron e ele já
não mais conseguia acompanhar o que elas significavam, apenas foi capaz
de perceber que as duas agora eram uma só poderosa Melodia, porém ainda
eram duas e seguiam juntas como as duas metades de um todo. Sauron se
esforçava por tentar entender o que a Melodia dizia, pois apesar de ter
certeza de que ele já havia sido criado naquele momento da Música dos
Ainur ele também sabia que o que ele ouvia agora era completamente
diferente do que havia acontecido Eras atrás, quando aquele embate
havia acontecido. Sauron conseguiu captar a visão de um mundo estranho,
completamente escuro e frio, mas ele podia sentir a vida pulsando nele
e num momento ele sentia como se estivesse no topo de uma elevada
montanha e o vento trazia as vozes das criaturas que ali habitavam, mas
as vozes nada lhe diziam pois ele não conhecia aquele idioma e logo em
seguida ele sabia que estava no topo de um rochedo, junto a uma imensa
massa de água que era agitada pelo mesmo vento, mas as vozes que lhe
chegavam eram diferentes das que ele havia ouvido no topo da montanha e
agora ele conseguia entender poucas palavras, as mais freqüentes eram:
“Não está aqui. Nunca será tua!”

Sauron estava já há tanto tempo empenhado em ouvir a Melodia e tentar
entender o que ela lhe dizia que já não sabia mais se ele viajava junto
com Melkor ou se já havia sido absorvido pelo poderoso Vala e agora
eram um só na busca da Chama Imperecível. De qualquer maneira que
fosse, Sauron não era mais capaz de enxergar Melkor ao seu lado, o que
o levou a pensar que eles fossem um só, porém ele ainda era incapaz de
entender completamente todos os acontecimentos que presenciava.

Da mesma forma como havia entrado naquele mundo, Sauron havia saído e
agora se encaminhava para perto de um daqueles vórtices que sugavam a
luz emanada dentro do Nada e por um breve momento ele sentiu uma
poderosa atração por ele, como se o vórtice o estivesse sugando junto
com a luz. Aquela atração ficava cada vez mais forte e ele sentia uma
sensação estranha ao se deixar levar pela onda de luz e a Melodia agora
começava a soar cada vez mais fraca e baixa, como se estivesse ficando
para trás. Ao se dar conta disso, Sauron olhou para o lado e se
espantou ao ver a silhueta de Melkor caminhando para uma direção
completamente diferente da sua e toda a tranqüilidade que havia sentido
ao ver pela primeira vez aqueles vórtices havia agora se transformado
em desespero. Sauron sabia que algo estava errado e que ele precisava
voltar para junto de Melkor: tentou chamar por ele mas sua voz parecia
não sair; respirou fundo e gritou com força por seu Senhor, mas as
palavras ao saírem de sua boca foram sugadas para dentro do vórtice.
Estava tentando pensar em um jeito de se livrar daquela correnteza de
luz quando teve uma visão alarmante: umas duas estrelas que estavam
mais adiantadas foram engolidas pelo centro do vórtice e emitiram um
potente clarão seguido de uma suave onda de calor, como se fosse um
último adeus ao Nada.

Sauron sabia que estava por conta própria e que, a não ser que ele
conseguisse saltar para fora daquela correnteza para um dos Mundos que
haviam em sua margem, aquele seria seu fim. Desesperado por pensar em
uma forma de se salvar, ele observou o que estava sendo sugado para
dentro do vórtice: um estreito e longo rastro de poeira multicolorida
fazia a borda externa da correnteza à sua esquerda e na outra
extremidade havia uma fila de rochas pontudas; no centro daquela
esteira haviam muitas estrelas já apagadas, algumas ainda brilhavam
como aquelas duas que ele viu serem engolidas e, para o seu total
espanto, um mundo inteiro estava um pouco à sua frente. Nesse mundo ele
pôde observar uma constante luta entre forças que lhe pareceram
familiares e, apenas observando de onde estava, soube que aquela luta
havia consumido completamente as energias daquele mundo, transformando
tudo em um completo caos e levando o mundo à extinção. Por um breve
momento aquele mundo e aquela luta lhe pareceram ser Eä e a sua luta
contra os Poderes, era como se aquilo fosse uma visão do futuro e o seu
desespero era tão grande que ele já ansiava por entrar naquele mundo e
lutar como nunca havia feito antes para que ele pudesse sentir o gosto,
ainda que efêmero, de dominar toda a Terra-média.

Mas como fazer para chegar até aquele mundo se ele estava preso ao
fluido de luz que seguia para o vórtice? Nesse momento ele soube que
estava condenado. A sua única esperança de salvação estava em Melkor,
porém esse estava completamente absorto na sua busca pela Chama
Imperecível que não havia sequer dado pela sua falta. E preso como
estava ao fluido ele não conseguiria ir nem em direção às rochas
pontudas da direita e nem tão pouco em direção ao rastro de poeira da
esquerda, que estava mais perto dele. Decidiu então que nada mais
importava além da vontade de entrar naquela Terra-média, desfrutar de
sua conquista e deixar de existir junto com ela. Já se preparava para
dar um salto e entrar no mundo quando uma das estrelas que ainda
brilhavam foi engolida pelo vórtice e junto com o clarão, que lhe cegou
brevemente, veio a suave onda de calor que o apanhou no ponto mais alto
de seu salto, o empurrando um pouco para trás. O clarão fez com que a
mente de Sauron saísse daquele transe e fixação pela Terra-média e o
trouxe de volta à realidade, permitindo que ele descobrisse que a onda
de calor liberada pelas estrelas seria a sua única chance de sair da
correnteza.
Sauron então bolou o seu plano para quando as próximas estrelas fossem
engolidas: como ele estava mais perto da extremidade da esquerda,
observou a parte que ficava além da poeira e contou os mundos que ainda
faltavam. Eram quatro, sendo que o último era o mais próximo ao vórtice
e havia um imenso intervalo entre ele e o terceiro. Sauron sabia que a
onda de calor o empurraria para trás, então ele teria que calcular
muito bem a sua trajetória em direção à margem esquerda. De onde ele
estava conseguia ter uma visão clara de tudo o que tinha à sua frente e
então começou a contar as estrelas que ainda brilhavam: eram sete
estrelas que ainda possuíam algum brilho, seis que já estavam mortas e
por último o mundo que ainda o chamava para dentro de si. Ao pensar no
mundo novamente Sauron imaginou que, se as estrelas podiam emitir um
leve clarão e uma onda de calor que o empurrava para trás quando
estivesse no “ar”, aquele mundo liberaria uma quantidade maior de luz e
calor a julgar pela proporção entre ele e as estrelas e, claro,
assumindo que ele ainda estivesse vivo até chegar ao vórtice.

Com todas essas considerações levadas em conta, Sauron se concentrou em
seu plano e após calcular e mentalmente sincronizar seus saltos com as
ondas de calor ficou em posição. Veio então o momento do primeiro salto
e, evitando olhar em direção ao vórtice para não ser cegado pelo
clarão, ele se lançou para o alto e para a esquerda, girando o corpo
todo de forma que o vórtice ficasse à sua direita e a esteira de poeira
multicolorida, à sua frente. Veio o segundo salto e então ele sentiu
que as coisas complicariam um pouco, pois para se desprender do fluxo
de luz que ia para o centro do vórtice era necessária bastante energia
e ele não sabia se teria condições de executar todos os saltos na hora
certa porque as estrelas não estavam espaçadas simetricamente; na
verdade ele sabia que a sexta e a sétima estavam muito mais próximas do
que as outras. Sauron dessa vez não se deixou dominar pelo desespero e
se concentrou em apenas saltar na hora certa e assim o fez nos saltos
seguintes, porém, ao executar o quinto salto, sentia que suas forças já
lhe falhavam e também que o chamado daquele mundo à beira da morte
ficava cada vez mais forte e parecia não ter ficado um centímetro
sequer mais longe do que antes, parecia até que havia saltado junto com
ele para perto da margem. O que de fato havia acontecido. Sauron não
sabia como, mas aquele mundo havia se movido junto com ele para a
esquerda e, para o desalento completo de Sauron, havia ficado
exatamente na sua frente.

Juntando todas as forças que ainda lhe restavam, Sauron se preparou
para o seu próximo salto e tentou bloquear a sua mente pra qualquer
outro pensamento que não fosse o de sair daquele fluxo. Veio então o
sexto salto e no momento em que ele estava chegando novamente ao
“chão”, Sauron pôde sentir o calor da sétima e última estrela sendo
dissipado no momento em que ela foi engolida pelo vórtice. Sauron
observou bem onde havia chegado e viu que mais aquele impulso final o
teria levado para fora da correnteza e para dentro do terceiro mundo
que havia contado antes do seu fim. Ainda havia o quarto e último
mundo, que se aproximava lentamente, assim como havia aquele mundo
moribundo caminhando lentamente para o seu fim e insistentemente
chamando por Sauron. Diante da ironia de não ter conseguido fugir do
seu fim e ter ficado tão próximo de concretizar o seu sonho de subjugar
toda a Terra-média mas não ter forças para entrar no mundo, Sauron
esboçou um lânguido sorriso para o que o destino lhe reservara e ficou
esperando aquele mundo completar o seu ciclo.

Conforme o fim se aproximava, Sauron sentiu que não teria coragem
suficiente para encarar o seu próprio fim então fechou os olhos com
força e se deixou levar para o vórtice. Tivesse mantido os olhos
abertos, teria visto que aquele decadente mundo estranho havia se
adiantado consideravelmente em direção ao vórtice e agora não mais
chamava por ele, apenas pulsava com uma luz esverdeada que se acumulou
ao seu redor, criando uma capa lúgubre. Sauron já não mais ouvia o
mundo chamar por ele, apenas o silêncio macio de outrora; silêncio esse
que foi quebrado abruptamente por uma voz firme que constantemente o
instava a pular quando fosse ordenado. Intrigado com essa repentina
mudança de atitude do mundo, Sauron abriu os olhos bem no momento em
que o mundo emitia o seu potente clarão e conseguiu apenas vislumbrar a
mortalha esverdeada que cobria o mundo antes de ficar momentaneamente
cego e, no exato momento em que a voz lhe ordenou, colocou todas as
suas forças naquele último salto e sentiu seu corpo ser levado pela
potente onda de calor dissipada por aquele estranho mundo.

Sauron sentiu seu corpo se chocar contra uma maciça parede de rochas e,
como se fosse um meteoro, atravessou aquela parede e mais outras duas
até se chocar com o que lhe pareceu uma árvore e quicar em um terreno
gramado e macio. Ainda cego pelo clarão Sauron apenas sabia que havia
escapado do vórtice e que não estava morto, porém uma dor indescritível
lhe percorria todo o corpo e era isso o que o fazia pensar que estava
vivo. A cada tentativa de movimento a dor aumentava então ele se deixou
ficar ali, deitado naquela relva macia e tentou colocar em ordem seus
pensamentos enquanto a sua visão não voltava ao normal e no meio do
turbilhão de informações, acontecimentos e visões, acabou por
adormecer. Acordou de repente e ficou espantado com a primeira visão
que teve daquele mundo, ao se por de pé com apenas um movimento voltou
a sentir aquela imensa dor que havia pensado ser apenas um sonho e logo
descobriu que, junto com a dor, outras sensações também haviam
despertado nele, como a fome. Essas descobertas o deixaram mais
aturdido do que antes, pois nunca havia sentido essas necessidades dos
filhos de Eru, mal havia começado a pensar se também sentiria fome
quando se deu conta de onde estava e então seus olhos varreram aquela
paisagem de fora a fora mais de duas vezes e ele custou a acreditar
neles.

Estava em pé no centro de uma imensa clareira cercada por altos
pinheiros e ciprestes por cujas copas a luz do dia dava a entender que
o sol havia acabado de surgir naquele mundo e uma estranha sensação de
familiaridade e conforto começava a brotar dentro de seu ser.
Caminhando devagar por causa das dores, Sauron seguiu na direção de
onde havia ouvido o barulho de água correndo e se deparou com um rio
estreito, mas não o suficiente para ser atravessado a pé ou nado devido
à força da correnteza que havia em suas águas. Aquela cena, de certa
forma, lembrou a Sauron como era o curso do Anduin que passava perto de
Dol Guldur e ele então se dispôs a seguir o curso daquele rio na
esperança de que chegasse a algum lugar que não fosse só floresta. E
assim seguiu por horas a fio até perceber que o curso do rio havia se
alargado consideravelmente e logo mais a frente notou que as árvores
começaram a ficar mais escassas e um barulho intenso, que ele ainda não
havia descoberto o que era, começou a crescer vindo de um ponto mais
avançado. Agora já não havia mais árvores próximas a ele e o ruído
agora era bem mais audível e um cheiro adocicado envolvia o ar a sua
volta aumentando cada vez mais a sua curiosidade e vontade de saber
onde estava.

Tamanha foi a sua surpresa ao descobrir que aquele barulho todo era
proveniente de não apenas uma, mas diversas quedas d’água que
convergiam para o mesmo ponto, que Sauron se deixou ficar admirando
aquela paisagem por horas e nesse meio tempo ele se lembrou de ter
contado uma por uma as sete quedas, incluindo aquela onde ele se
encontrava, e cada uma tinha uma particularidade diferente, ora com
rochas protuberantes que insistiam por ficar no meio do caminho da água
que caia com força sobre elas, produzindo uma divisão naquele fio de
água, ora com uma outra saliência que não ficava no meio do caminho,
mas ao lado onde algumas espécies de árvores pequenas e robustas
cresciam e serviam de abrigo para uma multidão de pássaros em seus
ninhos. Ao chegar bem na beirada da sua queda d’água, Sauron olhou para
baixo e viu que aquelas sete cachoeiras gigantescas formavam uma imensa
piscina natural que refletia, na sua parte mais calma, o límpido azul
daquele céu sem uma única nuvem.

Observando melhor aquelas quedas a atenção de Sauron se voltou para as
três quedas que estavam na parte mais a leste, tendo como base o nascer
do sol: a cachoeira do centro (a de número quatro, tendo a sua
cachoeira como a primeira) caia direto, sem nenhum obstáculo em seu
caminho, enquanto que as cachoeiras imediatamente à sua direita e
esquerda tinham suas águas divididas por rochas, sendo que a da direita
(quinta cachoeira) era divida logo no começo da queda por um maciço de
pedras escuras e a da esquerda (terceira cachoeira) mais abaixo, por
uma interessante e incomum formação rochosa que surgia do meio da
espuma das águas, saindo de dentro da piscina, e chegando até a metade
da altura da cachoeira e no seu topo, assim pareceu para Sauron, haviam
quatro troncos de árvores se projetando da borda como se fossem enormes
dedos escuros e por cujos vãos escorria a água. Deixando um pouco de
lado a maravilha daquelas três quedas, Sauron observou que depois de
caírem na imensa piscina, as águas seguiam por um único caminho em
direção ao oeste e para dentro de uma outra floresta, mais densa do que
essa pela qual ele veio e então ele teve que decidir se voltaria pelo
caminho que ele havia feito até ali e tentaria a sorte em outra direção
ou se tentaria achar um jeito de descer até aquela piscina e seguir o
curso de suas águas. Ainda embasbacado com a beleza daquelas sete
quedas a decisão pareceu bem fácil a Sauron e a segunda opção foi
escolhida, porém não foi nada simples encontrar uma maneira segura de
descer.

Tantas alternativas foram formuladas e descartadas na mente de Sauron
enquanto procurava uma maneira de descer que até a idéia de se jogar
para um mergulho na piscina lhe ocorreu, mas sabiamente a rejeitou,
embora tenha ficado vivo na queda ao entrar naquele belo mundo, não
sabia se agüentaria mais um outro impacto e também não se lembrava se
ele era capaz de nadar. Assim sendo ele resolveu voltar um pouco pelo
caminho que havia percorrido e começou a vadear o rio onde a correnteza
se apresentou mais fraca e com um pouco de tempo ele havia conseguido
cruzar o rio, porém teve que seguir por sua margem outra vez até chegar
na borda da queda porque as árvores naquele lado eram bem mais
agrupadas e não lhe permitiram uma passagem fácil. Esse trecho entre a
sua cachoeira e a segunda era bem mais extenso e mais acidentado do que
a outra margem e ao passar pouco mais da metade do caminho, havia uma
enorme árvore caída que barrava o caminho para a próxima queda. Por
mais que tentasse escalar aquele tronco descomunal, Sauron acabava por
escorregar de volta para o chão e ficou desanimado ao perceber que,
apesar de ser descomunalmente largo, aquela árvore era também muito
maior do que as outras e ele não foi capaz de chegar ao seu final
porque ela havia caído por sobre as outras árvores e não havia como
passar por ali e nem contornar.

Aquela árvore parecia ter sido derrubada recentemente ao se observar os
galhos quebrados das outras árvores e então Sauron voltou para o que
foi o topo da árvore e após breve exame encontrou o que procurava: a
marca de um forte impacto logo abaixo da copa, o que indicava que
aquela foi a árvore na qual ele havia batido por último antes de quicar
pela relva da clareira do outro lado da margem. Como não havia outra
alternativa para Sauron, ele começou a juntar os troncos das árvores
derrubadas e os amontoou ao lado da imensa árvore caída até formarem
degraus que possibilitaram uma escalada mais consistente. Sauron
estivera tão envolvido nessa tarefa que mal havia se dado conta de que
o dia já ia adiantado e que o sol já começava a ir se pondo, o que lhe
deixava poucas horas de luz e dali de cima do imenso tronco a situação
não parecia melhor do que antes. Pouco além de onde se encontrava,
Sauron viu que as árvores da floresta chegavam até a borda do terreno e
era tão impenetrável como antes. Porém uma pequena saliência formada do
lado do tronco caído indicava a Sauron que ali poderia haver um tipo de
passagem pela borda do terreno e então ele se deixou cair do outro lado
do tronco e se dirigiu ao local que ficava encoberto pelas folhas da
copa da árvore e descobriu que aquilo era sim uma passagem, mas bem
estreita e que levava para baixo e para frente, sem nenhum indício de
que voltaria a subir antes da terceira queda, que ele havia chamado de
Queda da Mão em homenagem ao promontório que se formava no meio daquela
cachoeira. Decidido a não perder mais tempo e querendo aproveitar ao
máximo a luz do dia, Sauron se pôs a caminhar por aquela passagem que
ficou mais estreita ainda uns poucos metros à frente, o obrigando a se
colocar de costas contra a parede.

Apesar de ser difícil se locomover naquela passagem, Sauron já ia bem
adiantado e ficou surpreso ao descobrir que ela passava por trás da
segunda queda d’água e não por baixo dela, como ele havia pensado
inicialmente, e conseguiu passar por ela sem maiores problemas. Ao
chegar a meio caminho entre a segunda e terceira cachoeiras se deparou
com algo que ele não esperava: a passagem se fechava em um túnel e ele
não conseguia ver para além de sua entrada, apenas sentia o
deslocamento de ar que a água fazia sair por ele. Foi pensando em como
passar por aquele lugar que Sauron não se deu conta de que o terreno
sob os seus pés havia mudado bruscamente de árido e pedregoso para liso
e escorregadio e antes que ele pudesse se recuperar do escorregão
inicial, já havia entrado no túnel e agora ia escorregando pela água em
uma velocidade bem alarmante considerando a altura que ele ainda se
encontrava em relação à superfície da piscina. Sendo jogado de uma
parede para outra pelo túnel, Sauron divisou logo à frente que havia
uma abertura e se ele chegasse nela indo de parede em parede, ele
certamente seria jogado ou contra a parede mais áspera ou direto para a
piscina. Usando as mãos para se estabilizar, Sauron deitou de costas na
superfície e conseguiu se manter o melhor possível na parte mais baixa
daquele túnel e ao chegar na abertura foi surpreendido mais uma vez ao
ser jogado para o alto em direção à palma da Mão que ficava no meio da
terceira queda. Quando estava a meio caminho de passar pelas águas da
terceira queda ele conseguiu virar o corpo de forma a conseguir olhar
para baixo e pôde ver que se tivesse continuado a descer pelo túnel
estaria morto, pois ele acabava em uma pontiaguda formação rochosa na
base de sustentação da Mão.

Embora a força das águas da terceira queda o tenha feito perder
velocidade e altitude, Sauron ainda chegou rápido à palma da Mão e teve
que se segurar em seus “dedos” para não ser atirado diretamente para
fora da piscina. Por mais que a vista de cima da Mão fosse muito bela,
Sauron sabia que não conseguiria ficar ali em cima por muito tempo e
passou para trás da queda d’água e conseguiu encontrar um caminho
semelhante àquele que o havia trazido até ali e com cautela redobrada
se pôs a descer por ele. Andou ainda por um bom tempo com as costas
coladas à parede até chegar em um pequeno patamar de pedra negra polida
pela ação da água que fazia as vezes de soleira de uma ampla abertura
na rocha que parecia ser um enorme salão, o caminho ainda continuava
seguindo colado à parede logo após aquele patamar, entretanto aquele
salão intrigava Sauron e no exato momento em que ele se sentou junto à
uma de suas paredes, o Sol, que emitia os seus últimos raios sobre
aquela bela terra, fez jorrar uma luz vermelho alaranjada através
daquela espessa cortina de água e então ele pôde ver o seu interior de
paredes rústicas, com pássaros em seus ninhos olhando de volta para ele
com a mesma curiosidade, o chão era da mesma pedra negra, mas sem
polimento algum e coberto por uma leve camada de musgo viçoso e bem no
fundo daquele salão havia uma outra passagem pela qual ele ouvia um
barulho de água corrente. Sentindo-se exausto daquele dia incomum
naquele mundo que lhe parecia familiar, Sauron observou o último raio
de sol brilhar através da cortina de água e depois disso houve apenas a
escuridão e o contínuo som das águas.

Nesse salão escuro, Sauron permaneceu deitado quieto e mais uma vez se
pôs a colocar os pensamentos em ordem e já não sabia mais se estava
acordado no salão quando começou a ouvir novamente as vozes da Melodia
do Nada e uma voz dentre elas se destacava, a voz de Eru, que dizia – 
“E mandarei para o meio do Vazio a Chama Imperecível…” “Você vê
demais Alcar” – e então Sauron começou a passar de mundo em mundo, uns
mais belos do que os outros até chegar naquele mundo que o chamou
incessantemente na esteira do vórtice e então compreendeu que aquela
luta que se travara naquele lugar era para conseguir esconder o
paradeiro da Chama Imperecível, porém aquela força da qual a lúgubre
luz esverdeada emanava havia conseguido descobri-la e havia enviado
Sauron em sua direção como um último esforço para que a Chama fosse
descoberta e levada àquele que era o primogênito de Eru para que ele a
utilizasse para mostrar a todos os outros Ainur as coisas que Eru havia
escondido deles.
Se levantando em um só pulo novamente, Sauron sentiu o seu ser
completamente agitado e agora ele sabia exatamente o que estava fazendo
naquele mundo estranho e ao mesmo tempo familiar. Ele precisava
encontrar a Chama Imperecível e entregá-la para Melkor e nesse exato
momento compreendeu que aquela estranha sensação de familiaridade era
nada mais nada menos do que a proximidade da Chama Imperecível e então
começou a seguir aquela sensação, como se fosse uma bússola e foi
andando em direção ao fundo do salão até chegar na parede dos fundos e
descobrir que o barulho de água que havia ouvido na noite anterior
vinha de um corredor e não da abertura no chão como havia suposto.
Ainda contrariando o que havia imaginado antes, ele era capaz de
enxergar na escuridão dos corredores e dessa forma se pôs a seguir pelo
corredor leste, por onde o barulho de água corrente vinha e depois de
descer por uns trezentos metros, se deparou com um salão menor do que o
primeiro, com um teto bem mais baixo e irregular e na outra extremidade
do salão havia uma passagem por onde passava a água direto para uma
abertura no centro do salão e também uma escada que desaparecia parede
adentro e foi por esse caminho que Sauron seguiu. A escada seguia em
uma espiral ampla e com degraus muito bem talhados na rocha da própria
parede e por um momento aquilo o lembrou das construções dos Anões dos
primeiros séculos do Sol na Terra-média, quanto mais ele subia, mais a
escada continuava para cima e lhe pareceu que logo logo estaria de
volta à superfície da floresta. No entanto, não avistou o fim daquela
escadaria e continuou andando por tanto tempo que lhe parecia que
haviam se passado alguns dias já até que ele alcançou uma soleira de
uma enorme porta muito bem conservada, entalhada com runas de uma
língua que lhe era completamente desconhecida e sem maçaneta ou trinco
aparente.

Sauron começou a tatear a porta e ficou muito contente ao descobrir que
ela estava entreaberta e que ele não teria que pensar em nenhum tipo de
encantamento para abri-la. Colocou as duas mãos em uma das folhas da
porta e começou a empurrar para dentro até que o espaço entre elas lhe
permitisse passar. Do outro lado da porta havia um salão pequeno com
quinze tronos, sendo que um deles estava no centro e os outros quatorze
estavam dispostos simetricamente ao seu redor, entalhados na mesma
rocha da parede do salão. O que mais chamava atenção naquele cenário
não eram os tronos em si, mas a incidência de luz em apenas um deles e
esse era o trono que estava no centro. Ao se adiantar em direção ao
centro do salão, Sauron percebeu que cada trono que o circundava era
ladeado por uma passagem estreita e escura e ao chegar no trono do
centro descobriu que aquela luz emitia uma suave onda de calor, assim
como as estrelas que foram engolidas pelo vórtice, e que pela mesma
passagem descia um grosso ramo de cipó que levava para além do teto
daquele lugar.

Não conseguindo mais conter a ansiedade dentro de si, Sauron subiu nos
braços do trono e depois passou para o ponto mais alto de seu encosto,
alcançando dessa forma o cipó que pendia acima de sua cabeça e subiu
por ele até chegar em um outro salão muito mais amplo do que o que
estava logo abaixo e se maravilhou ao descobrir que o que emanava toda
aquela luminosidade e calor era uma imensa gema, do tamanho de sua
cabeça, que estava colocada em um pedestal feito da mesma pedra negra
polida, e nesse pedestal haviam as mesmas runas que ele viu na porta lá
embaixo, gravadas em uma cor prateada intensa que contrastava
perfeitamente com a cor escura da rocha. O cipó era proveniente dos
galhos de uma grande árvore que de alguma forma havia conseguido
crescer metade dentro daquele salão e metade dentro da parede e seus
galhos cruzavam o salão fazendo as vezes de teto para ele e depois
subiam para longe das vistas de Sauron, através de uma abertura nas
paredes. Semelhante ao que aconteceu com a porta, Sauron também não
conseguiu decifrar o que estava escrito naquele pedestal, porém isso já
não o incomodava mais pois a única coisa que ele conseguia fazer era
admirar a beleza pacífica e imutável daquela gema. Apenas a visão
daquela gema havia feito toda a insegurança e incerteza de sua mente se
desintegrar e agora ele ria baixinho dos momentos de dúvida e apreensão
pelos quais ele havia passado quando começou a colocar o seu plano de
libertar Melkor em ação. Agora tudo o que precisava era agarrar a Chama
Imperecível e ir ao encontro de Melkor e todos os problemas estariam
resolvidos. Foi pensando dessa forma que ele se aproximou da gema e
colocou suas mãos sobre ela, todavia, nesse exato momento as runas
começaram a brilhar com maior intensidade e Sauron ficou preso por um
instante com as mãos presas na superfície da gema enquanto uma poderosa
onda de luz e calor percorria todo o seu ser e ao final ele foi jogado
contra a parede do salão, como se a gema estivesse tentando reconhecer
aquela criatura que a havia tocado e a resposta tivesse sido negativa.

Ainda atordoado pela reação da Chama, Sauron ouviu um forte barulho
vindo do salão inferior e soube que as portas haviam sido fechadas e
agora aquela passagem por onde ele havia subido pelo cipó também estava
se fechando ao mesmo tempo em que as paredes começavam a ruir revelando
a ele uma visão completamente diferente da que havia tido quando abriu
os olhos pela primeira vez naquele mundo. Sauron estava no topo da mais
alta montanha que havia naquela região e lá de cima ele conseguia
avistar praticamente toda a extensão das terras e para onde quer que
ele olhasse, via apenas destruição e desespero. E ao olhar para onde
outrora fora aquela bela piscina com suas sete quedas ele percebeu que
não havia mais água correndo pelas cachoeiras, mas sim rocha derretida
e já não haviam mais as árvores das florestas, apenas troncos
retorcidos e enegrecidos pela ação do fogo selvagem. Sauron não
conseguia compreender o que havia acontecido àquele planeta, não havia
se passado tanto tempo assim desde quando ele havia chegado e ele não
havia visto nenhum sinal de luta ou desacordo na perfeita harmonia que
regia as coisas ali. Será que ele havia sido o responsável por tudo
aquilo? Seria ele capaz de tal atrocidade? Então ele se encaminhou mais
uma vez para a Chama e estendeu suas mãos para ela, mas antes de
conseguir tocá-la novamente todo o lugar começou a estremecer e então
tudo o que Sauron conseguia pensar era estar novamente junto de Melkor
e seguir a sua jornada. Quando ele finalmente conseguiu agarrar a gema,
toda a montanha ruiu sob os seus pés e agora ele estava em queda livre
na direção da piscina de lava.

Quanto mais ele se agarrava à gema, mais ela lhe queimava as mãos e
quando ele não pôde mais suportar aquela dor imensa ele a soltou e,
conforme se aproximava do mergulho fatal, uma onda de desespero
crescente ia dominando os seus pensamentos e então começou a buscar
novamente seu Mestre com todas as suas forças e,de repente ele se viu
mais uma vez do lado de fora do mundo, preso ao fluxo da esteira do
vórtice e uma intensa sensação de déjà-vu o invadiu ao ver que aquele
mundo começava a pulsar com uma lúgubre luz esverdeada. No momento após
o clarão Sauron pulou e foi apanhado em cheio pela onda de calor
liberada pelo planeta que havia sido engolido pelo vórtice. A força
dessa onda foi tão forte que não apenas conseguiu libertá-lo das garras
da morte, mas também o havia colocado de volta no caminho por onde
Melkor havia passado e ele se deixou ficar ali, no meio do Nada a
pensar no que havia acabado de lhe acontecer. Aquilo tudo não podia ter
sido apenas um sonho, não fazia sentido.
Mas então como explicar o mundo sendo engolido com a mesma mortalha
pulsante esverdeada, e a mesma posição na esteira que ele havia ocupado
antes? De repente, como um estalo em sua mente, Sauron entendeu que
apenas Eru e Melkor conseguiriam colocar as mãos na Chama Imperecível
sem que ela os queimassem: Eru por ser o criador de tudo e Melkor por
ter sido o único a entender toda a magnitude da obra do criador. Ao
pensar nisso, Sauron olhou para as palmas de suas mãos e viu que as
queimaduras estavam lá como prova, porém o quarto mundo também estava
lá, na mesma posição de antes. Resolveu então ir ao encontro de Melkor
e lhe contar sobre a sua aventura, mas então um outro pensamento lhe
cruzou a mente: todos os vórtices que ele havia visto eram idênticos,
simetricamente distribuídos pelo Nada e com as mesmas coisas ao seu
redor. Como ele haveria de se lembrar daquele mundo e vórtice em
especial sem nenhum ponto de referência? Ele já não tinha mais como se
desprender de parte de sua essência, como havia feito nos Portões da
Noite, e mesmo que tivesse, fazer isso seria insensatez demais porque
toda luz que não estivesse devidamente fixada no Nada seria sugada pelo
vórtice. Foi assim, vencido pelas artimanhas do Destino, que Sauron se
resignou a seguir os passos de seu Mestre sem poder lhe dizer que havia
tido em suas mãos o objeto de seu maior desejo.

Não demorou muito para que Sauron conseguisse descobrir o paradeiro de
Melkor e logo que ele se aproximou de seu mestre, ele sentiu sua
essência ser anexada à do poderoso Vala e todas as sensações que ele
havia experimentado antes de ser sugado pelo vórtice haviam voltado. Ao
que pareceu a Sauron, Melkor ainda estava à procura da Chama
Imperecível, porém tal busca já o estava aborrecendo e agora o tempo
gasto em cada mundo no Nada era bem curto e a procura era mais
desleixada, em duas ocasiões Melkor não conseguiu conter a sua ira e
acabou por destruir completamente o mundo onde ele estava, deixando
apenas um amontoado de poeira acinzentada e escombros que aos poucos se
encaminhavam para o vórtice mais próximo. Vendo toda essa demonstração
de poder, Sauron decidiu não mencionar que havia encontrado a Chama
Imperecível e para ter certeza de que não se perderia novamente naquele
lugar, começou a prestar mais atenção à Melodia que ecoava em sua mente
e com o passar do tempo, Sauron já havia se habituado às suas notas e
sua compreensão do que acontecia na mente de Melkor havia crescido
bastante até ele próprio descobrir que também era capaz de manipular a
Melodia e vasculhar as memórias e foi direto ao ponto onde Melkor
estava aprisionado no Vazio.

Para seu espanto, havia apenas o som de uma tempestade de raios e
trovões que se aproximava mas que nunca chegava até o ponto onde ele
estava. Inquieto com aquele som, ele começou a avançar nas memórias até
chegar no momento de sua batalha contra Eönwë e então veio a
confirmação do pensamento que havia rejeitado durante o combate. Sauron
vasculhou cada parte daquela lembrança e ouviu os pensamentos que iam
na mente do grande Vala e se indignou ao descobrir que Melkor havia
cogitado em corromper Eönwë, porém esse sentimento foi facilmente
apagado pela imensa ira e perplexidade de ver que Melkor, o supremo
Senhor do Escuro, flagelo dos Povos Livres, havia chorado ao esmagar o
mesmo Eönwë com Grond.

Aquela havia sido a gota d’água para Sauron. Ele havia arriscado sua
própria existência para poder libertar Melkor e quando ele precisou de
apoio, descobriu que Melkor havia agido a favor de seu inimigo; se
sentiu traído pela intenção de corrupção de Eönwë; ainda não havia
encontrado palavras para descrever o que sentia ao ver a demonstração
de afeto de seu mestre para com o seu inimigo, coisa que Melkor nunca
havia demonstrado para com ele; e sabia agora que Melkor não havia
sequer notado a sua ausência e muito menos o seu retorno repentino. E
então, sem que se desse conta, Sauron havia dado início à sua própria
melodia, tímida e discreta em comparação ao Canto do Universo, que era
como Melkor chamava a Melodia do Nada, porém bem definida e com um
compasso próprio.

Ao perceber uma nota dissonante em meio ao Canto do Universo, Melkor
foi tirado de sua busca pela Chama Imperecível e o fato daquela nota
ser tão pequena em relação a todo o Nada fez com que ele apenas notasse
que era um som diferente e não originado por ele, mas que não
apresentava qualquer ameaça no momento. Encarou como uma tentativa de
Eru o iludir mais ainda na busca da Chama pelos confins do Nada.
Todavia, para Sauron, que agora havia notado a sua pequena obra, aquela
era mais do que apenas uma nota dissonante, era o fruto de sua revolta
e também onde estavam as suas ações futuras como resposta ao causador
dela. Sauron já começava a dar forma à sua pequena melodia, porém como
não possuía a habilidade dos Ainur ele foi moldando aos poucos e se
deliciava com o vislumbre de como ele retribuiria com a mesma moeda as
atitudes de Melkor dentro do Vazio. Com um pouco mais de habilidade, já
conseguia prever algumas cenas criadas pela sua música: Seus servos
mais poderosos, os temíveis Nazgûl, haviam acordado e o maior entre
eles, o Bruxo-rei, havia formado o reino de Angmar, enquanto os outros
haviam voltado secretamente para Mordor e preparavam a sua volta. Há
quanto tempo ele estava lidando com a sua própria criação ele não
sabia, quando sentiu que algo estava acontecendo no Nada.

Melkor havia se fartado daquela busca inútil pela Chama Imperecível e
como suas forças já estavam recuperadas por aquela estadia no Nada, ele
havia decidido que era hora deles voltarem para a Eä, para dominarem
definitivamente toda a Terra-média de uma vez por todas. Antes mesmo de
Sauron conseguir formular a pergunta sobre como fariam para voltar para
as Esferas do Mundo, Melkor habilmente os guiava através de um tortuoso
labirinto de estrelas e mundos passando por formações de algumas
nebulosas e diversas estrelas anãs com uma velocidade surpreendente até
se aproximarem de uma formação de estrelas já bem conhecidas por eles e
um pouco além avistarem a forma de Eä. Sauron não sabia dizer quanto
tempo eles levaram naquela viagem, a única coisa que ele conseguia
pensar era no que a sua pequena melodia martelava dentro de seu ser:
-“Paciência. A sua hora há de chegar!” Como Melkor não tinha mais
nenhum ponto de referência na Terra-média, pois os seus dois reinos
haviam desaparecido completamente junto com Beleriand, foi Sauron quem
deu as coordenadas para a entrada nas Esferas do Mundo. Sauron havia
aprendido muito em suas pesquisas quando era um só com Melkor e sabia
bem o que aconteceria quando eles passassem para o outro lado das
Esferas, e assim, sem ter consciência de que ali começaria a ser
executado de sua melodia, indicou a direção do reino de Angmar como
ponto de entrada.

Auxílio

Todos estavam espantados ao verem que os Portões da Noite foram
arrancados de seus lugares e que agora o Vazio estava à mostra, ao
alcance de qualquer um deles, a sua ausência de qualquer tipo de som e
a parca luz difusa de seus labirintos convidavam os mais avançados da
hoste valariana a passarem para o outro lado. Todos os Valar estavam
paralisados ante tal presságio e após um tempo de hesitação Mandos
lentamente se encaminhou até parar a alguns passos de distância da
enorme boca escura que se abria na parede e ficou ali imóvel, com as
mãos estendidas na direção do Vazio, vez ou outra mexia a cabeça, como
se estivesse buscando um ângulo melhor para sentir as vibrações do
Vazio. Algumas horas haviam se passado e a ansiedade presente no íntimo
de cada um dos ali presentes já era praticamente tangível e, prevendo
que talvez Sauron e Melkor tentassem escapar de alguma forma para
Valinor em algum outro ponto, Manwë pediu para Oromë e Tulkas que
organizassem e distribuíssem as defesas em pontos estratégicos por toda
a extensão das Terras Imortais. Aulë ordenou que os Portões fossem
levados para a sua forja e lá ele permaneceu por um longo tempo no qual
ele os derreteu e os refez mais resistentes do que antes. Os outros
Valar, enquanto isso, mantiveram a vigilância em torno da passagem,
porém nada havia acontecido desde que Mandos se postara diante dela e
assim acabaram por voltar às suas vidas.
Por mais que Mandos tenha se esforçado, nada conseguiu captar dentro do Vazio.

Estava certo apenas de que Melkor e Sauron não voltariam por aquela
passagem, e assim sendo foi até Aulë e discutiu sobre os novos Portões,
que ele havia acabado de reforjar, chegando a um acordo de que deveriam
selar aquela passagem agourenta o mais rápido possível e, tão logo
Mandos se retirou para a sua morada, Aulë e seus ajudantes levaram os
Portões para serem colocados de volta ao seu lugar. Para todos os lados
que olhava, Mandos via que os Vanyar e Maiar, componentes da Hoste dos
Valar, haviam sido estrategicamente colocados em pontos vitais de
Valinor e a tensão em cada um deles podia ser sentida a quilômetros de
distância.

Ainda a caminho de sua morada ele passou pelas melancólicas praias
ocidentais de Valinor, e enquanto caminhava uma melodia profunda, cheia
de pesar, lhe chegava aos ouvidos e, ao olhar um pouco mais para o
oeste, bem próximo às Paredes da Noite, ele divisou uma figura feminina
vestida com uma capa escura como uma noite sem estrelas. Essa era
Nienna, sua irmã, e dela vinha todo aquele lamento e pesar pelos
enviados ao Vazio e, por mais que soubesse que não havia como
consolá-la, Mandos sentiu crescer dentro de si um forte desejo de estar
com ela, mesmo que nada pudesse fazer além de ficar ao seu lado e ouvir
seus lamentos. Já se encaminhava ao encontro dela quando um de seus
servos veio até ele com uma mensagem que o fez relegar a segundo plano
o desejo de se juntar à Nienna. Caminhava agora apressado pela extensa
faixa de areia branca e fina, que sempre lhe deu uma sensação de calma
e serenidade; se fosse como antes, teria se deixado ficar sentado ali e
teria observado a beleza das ondas quebrando logo à sua frente e
sentiria o suave e marcante perfume proveniente do bosque repleto de
Yavannamirë com seus belos e suculentos frutos avermelhados e troncos
perfumados que haviam sido plantados no caminho que dava para a soleira
da sua porta.

Ao entrar em sua morada, foi direto procurar por Vairë, sua esposa,
pois era dela o recado urgente que seu servo havia lhe passado e a
encontrou sentada em um amplo aposento, com um teto abobadado e paredes
repletas de tapeçarias coloridas com imagens dos fatos ocorridos desde
a criação do mundo até aquele momento. No centro daquele imenso
aposento havia um enorme tear feito com a resistente madeira extraída
de uma árvore chamada Laurinquë, que os Númenoreanos em seu auge
souberam muito bem empregar na construção de seus navios, e retirando
dele a sua recém-acabada peça de tapeçaria estava Vairë que, ao vê-lo
ali presente, apanhou mais duas outras peças que ela havia colocado
sobre uma mesa e as colocou em suas mãos ao mesmo tempo em que fazia um
gesto para que ele a acompanhasse para fora do salão. Havia muito tempo
que eles estavam juntos e aquele gesto bastava para que Mandos soubesse
que as imagens tecidas naquelas peças não eram de bom presságio, pois
raramente Vairë saia com qualquer peça para fora daquele lugar.
Enquanto caminhavam pelos corredores de sua morada, Mandos observava
atentamente as imagens e estava tão confuso quanto antes, pois elas não
lhe diziam coisa alguma. Nem mesmo Vairë, a Tecelã, não sabia ao certo
o que aquelas imagens significavam, porém havia algo nelas que ela
sabia ser familiar e o mesmo pareceu a Mandos depois de olhar com muita
atenção para elas.

Intrigados com o que poderia ser aquela sensação de déjà-vu, resolveram
então levar as três peças para Manwë e Varda na esperança de que eles
soubessem procurar nas imagens aquilo que havia passado despercebido
por eles. A caminho de Taniquetil, Mandos e Vairë passaram por Nienna,
que havia se afastado das Paredes da Noite e agora estava no topo de
uma das colinas onde Eönwë e alguns de seus companheiros se deitavam
para olharem as estrelas e aquele sentimento de pesar era o mesmo que
Vairë havia visto naquelas três peças e agora para qualquer lugar que
ela olhasse aquele sentimento, compartilhado por todos em Valinor, lhe
era visível quer fosse nos semblantes ou pensamentos de cada habitante.
Outra coisa que chamou sua atenção foi que cada um deles, Eldar, Maiar
ou mesmo Valar, haviam inconscientemente se fechado em seus pensamentos
de pesar e a angústia e apreensão que agora os dominava era a mesma que
todos haviam sentido quando Melkor havia destruído as Árvores com a
ajuda de Ungoliant Eras atrás. Ao chegarem em Ilmarin, um servo de
Manwë pediu que o acompanhassem até o salão de visitas e então os
conduziu por um imenso gramado verdejante com fontes feitas do mais
branco e belo mármore, adornados com as mais belas pedras lapidadas
pelos habilidosos Eldar, onde vários pássaros se refrescavam e
continuavam a sua alegre existência, alheios ao pesar que mais uma vez
havia penetrado em Valinor.

Foram deixados em um belo salão erguido em paredes do mesmo mármore das
fontes no jardim. Era tão amplo quanto o salão onde Vairë tecia os
acontecimentos do mundo, porém apenas uma de suas paredes possuía algum
adorno, exatamente a peça tecida por Vairë que mostrava uma imagem do
auge da beleza de Valinor com as duas Árvores iluminando suas terras e
os Eldar vivendo em paz entre si junto aos Poderes de Arda. As outras
paredes possuíam amplas janelas que permitiam a visão de boa parte de
Valinor, porém, a mais bela visão era através da janela oeste, pois
quem ali estivesse seria presenteado com uma das mais belas visões de
toda Aman: o pôr do Sol. No centro desse salão havia sido disposta uma
mesa redonda e baixa, seus pés eram de uma madeira escura e neles
haviam sido entalhadas belas figuras que sustentavam em seus braços um
tampo de metal habilidosamente forjado e trabalhado em baixo relevo com
o mapa do que um dia fora a imensa e bela Beleriand. Vairë colocou as
três peças sobre a mesa e foi para a janela apreciar o pôr do sol junto
a Mandos e por um breve momento os pensamentos que a haviam perturbado
se dissiparam e deram lugar a uma reconfortante sensação de segurança e
paz que ela havia experimentado no primeiro momento em que o Sol havia
surgido nos céus acima de Aman.

Antes do sol se pôr por completo e a lua assumir o seu lugar junto às
estrelas, Manwë e Varda vieram ao encontro do Senhor da Casa dos Mortos
e da Tecelã e sem rodeios foram apresentados às peças tecidas por
Vairë. Varda, por mais que se esforçasse não conseguia extrair mais
daquelas imagens do que Mandos e Vairë já haviam feito, entretanto
Manwë que enxergava melhor do que todos os Valar conseguiu divisar algo
além de seus companheiros e lhes disse que o que Vairë havia tecido
eram imagens de antes da criação de Eä, de quando eles ainda habitavam
o Salão Atemporal junto a Eru. Porém, haviam ali imagens que nenhum
outro Vala havia visto, Manwë lembrava que apenas Melkor havia dito
coisas sobre uma outra realidade e que os havia tentado fazer acreditar
nela muito antes de terem começado o Canto dos Ainur, incorrendo na ira
de Eru, e aquelas imagens eram como haviam sido descritas por Melkor
Eras atrás. Todavia, Manwë não sabia o que exatamente as imagens
tecidas por Vairë significavam, nem se elas pertenciam ao passado,
presente ou futuro. Mesmo assim, ele pediu para que as imagens ficassem
em Ilmarin por algum tempo para que pudessem ser analisadas por mais
tempo na tentativa de desvendar o seu mistério.

Aquele não era um pedido comum, mas Vairë sabia que Manwë era o mais
indicado a descobrir o que elas significavam e então decidiu deixá-las
com ele e se retirou para seus aposentos, para continuar o seu infinito
tecer. Mandos saiu com ela, mas ao chegarem aos pés da Taniquetil se
separaram e ele seguiu em direção aos Portões da Noite, que Aulë e seus
ajudantes haviam terminado de fixar e a passagem para o Vazio havia
sido novamente fechada e sua guarda havia sido redobrada. Mandos ainda
estava desconcertado com o fato de os Portões terem sido arrancados de
seus lugares e de Sauron e Melkor terem sumido completamente do Vazio
sem deixarem nenhum rastro, porém uma coisa era certa, eles não haviam
voltado para a Terra-média. Talvez ainda estivessem procurando uma
forma de entrar nas Esferas do Mundo, e nada mais restava além de
esperarem pelos acontecimentos.

Aproximadamente quinhentos anos se passaram desde a entrada de Sauron
no Vazio e nada havia mudado em Aman ou na Terra-média que indicasse a
presença maligna deles, porém uma preocupação ainda incomodava Ulmo: os
habitantes da Terra-média nada sabiam dos acontecimentos passados em
Valinor. A vida deles havia voltado ao normal e um longo tempo de paz
havia se estabelecido, porém ele sabia muito bem que o mal de Sauron e
seu mestre não havia sido erradicado por completo e recentemente haviam
chegado rumores até ele de que algo havia sido despertado nos confins
da Terra-média, em sua porção mais oriental, mais exatamente nas terras
ao redor de Mordor. Ulmo sabia que era preciso muito mais do que apenas
rumores para que os Poderes de Arda decidissem intervir, se é que eles
realmente voltariam a fazer isso antes da Segunda Profecia de Mandos, e
assim resolveu não comentar nada com ninguém, mas deu ordens expressas
à Uinen e Ossë para que ficassem atentos aos rumores que corriam junto
com as águas pela Terra-média e que eles ficassem o mais perto da
fronteira das Terras Imortais o possível. E assim, com o passar dos
anos, Ulmo recebia uma ou outra notícia de que alguma criatura maligna
havia deixado um local e ido para outro mas nada de muito alarmante.
Mais trezentos anos se passaram e os habitantes de Valinor já haviam
voltado aos seus afazeres e a sombra da ameaça de Sauron e seu mestre
havia ficado em segundo plano.

Porém um dia uma notícia havia despertado a curiosidade de Ulmo os
rumos da Terra-média: das nascentes do Grande Anduin vinham notícias de
um crescente mal que, embora não estivesse ameaçando ninguém
abertamente, começava a reunir seres malignos ao norte e essa era,
depois de Sauron, a maior manifestação do mal na Terra-média. Ulmo foi
até Manwë e lhe apresentou as suas preocupações e por um momento
pareceu a Ulmo que algo diferente seria feito dessa vez, porém a reação
de Manwë, após pensar sobre o assunto, foi a mesma que Ulmo já havia
previsto: nada seria feito pois os problemas da Terra-média não diziam
mais respeito aos Poderes, pois os poucos Eldar remanescentes do outro
lado da Estrada Direta estavam aos poucos deixando definitivamente
aquele mundo para os Homens, e era o dever deles defenderem seus lares.
Embora fosse seu desejo protestar contra a decisão de Manwë usando o
desaparecimento de Melkor e Sauron da prisão no Vazio como motivo, Ulmo
sabia que isso nada acrescentaria de bom ao seu argumento e que mexeria
em uma ferida ainda aberta. Resignou-se a dizer que a atitude de Manwë
era injustificada, mas o fez em um tom que não o ofendesse nem gerasse
mais atrito entre eles e deixou os imensos salões de Ilmarin e saiu
andando sem rumo pelos caminhos de Valinor.

Em todas aquelas Eras de existência, poucas vezes ele havia deixado os
seus domínios para andar entre os habitantes daquele belo reino e essa
era a primeira vez em que ele se dava ao trabalho de observar com maior
atenção tudo o que se passava acima do nível das águas. Olhava para
tudo e para todos como se das fachadas das belas mansões ou dos belos
rostos élficos fossem surgir respostas para as dúvidas que começavam a
crescer em sua mente. Elfos, os Primogênitos, criaturas pelas quais os
Ainur ansiaram tanto por conhecer e se apegaram de tal forma ensinando
tudo o que podiam àquela bela e imortal raça que acabaram por dar pouca
atenção aos Homens, os Sucessores, os Doentes, entre tantos outros
nomes dados a eles pelos Elfos por não serem imortais, adoecerem fácil
e morrerem após um curto período de vida, menor até do que o tempo de
vida dos filhos de Aulë, porém secretamente invejados por muitos por
terem recebido de Eru o dom do sono eterno e com um destino
desconhecido por todos após a sua morte. Seria esse o motivo pelo qual
tanto os Primogênitos quanto os Valar se afastaram deles e agora os
deixavam para se defenderem sozinhos contra criaturas nascidas da mente
doentia e deturpada do maior dos Valar?

E foi assim, procurando respostas, que foi caminhando por lugares que
não se lembrava de ter passado antes e ao longe, nos topos de algumas
colinas mais afastadas, ele viu uns grupamentos de Elfos e se perguntou
se eles seriam realmente capazes de deter Melkor se ele desejasse
invadir Valinor. Um pouco mais além do local onde estava ele ouviu o
doce cantar das gaivotas ritmando um profundo e contínuo lamento e se
lembrou que há muito tempo não visitava aquela região, e
conseqüentemente, Nienna, a quem costumava fazer companhia Eras atrás.
Resolveu então mergulhar nas profundas águas daquele lado de Valinor e
não precisou de muito tempo para se lembrar do motivo pelo qual ele
havia deixado de ir até aquele lugar, pois as águas haviam há muito se
misturado às lágrimas de Nienna e agora elas estavam repletas das
memórias e pesares dela. Fosse em um dia qualquer como antigamente,
Ulmo teria deixado aquelas águas e voltado para os seus domínios,
todavia algo naqueles lamentos o fez mudar de atitude e ele foi até
onde estava Nienna e se apresentou em uma forma simples, sem ostentar a
sua grandeza, e essa visão fez com que, por um momento, Nienna cessasse
os seus lamentos e em seu belo rosto marcado pela preocupação de Eras
surgiu um belo e amplo sorriso ao reconhecer naquela figura o seu amigo
de outrora, porém aquele momento durou pouco pois logo ela descobriu em
seus olhos o que ia dentro da alma do Senhor dos Oceanos e da mesma
forma que ela havia silenciado, agora voltava ao seus lamentos.
Entretanto agora o tom era outro, e como Ulmo não sabia, de fato ele
havia se esquecido, como lidar com esses momentos, ele se virou e
seguiu o caminho para a morada de Mandos em busca de alguns conselhos.

Havia chegado no momento em que Mandos se dirigia aos Salões dos
Espíritos, pois um grupo de Elfos e Humanos haviam deixado a existência
da Terra-média e seus espíritos precisavam ser administrados. Essa era
uma tarefa que Mandos não poderia deixar para depois então não pôde
dedicar muito tempo e atenção às preocupações de Ulmo, apenas lhe disse
que concordava com a decisão de Manwë e que só poderia se pronunciar
abertamente sobre aquilo quando a hora chegasse e, tão logo acabou de
proferir essas palavras, fechou atrás de si uma pesada porta de madeira
escura e o bom senso de Ulmo lhe disse para não atravessar aquela
porta, pois dali em diante apenas Námo podia ir. Como não lhe restava
mais nada a fazer nos domínios de Mandos, ele saiu novamente para os
caminhos que há muito não trilhava e enquanto seus pés seguiam por eles
em sua mente havia surgido mais um pensamento que o incomodava: os
Poderes estavam realmente inclinados a não tomar nenhuma atitude em
relação ao destino da Terra-média e seus habitantes. Por mais que
parecesse absurda a idéia, ele não conseguia encontrar outra explicação
para tudo aquilo. Quando voltou a prestar atenção no que ia a seu
redor, percebeu que havia involuntariamente se desviado das praias
ocidentais evitando mais um desconcertante encontro com Nienna e agora
ele ia por um caminho suave margeado por pequenas árvores com flores
amarelas e que levava a um denso bosque de ciprestes imponentes e
elegantes com suas altas copas verdes. Andando por entre essas árvores
Ulmo avistou ao longe uma bela e alta figura, vestida de verde e
iluminada por um orvalho dourado, que dava a impressão de ser mais um
cipreste mas que se movia por entre eles com muita elegância e vinha em
sua direção.

Ulmo apenas conseguiu reconhecer aquela figura como Yavanna quando ela
já estava a poucos passos dele e pôde perceber um leve riso de alegria
em seu rosto ao mesmo tempo em que lhe dava o braço para juntos
caminharem pelos domínios da Rainha da Terra, repleto das suas mais
belas criações, porém todas essas coisas não conseguiam disfarçar a
tristeza que a acompanhava desde Eras atrás. Todo o esforço feito por
ela para defender as suas criações na Terra-média havia sido
praticamente em vão e agora não eram apenas os servos do Inimigo que as
destruíam, mas também os Homens e Anões devastavam as florestas
indiscriminadamente em nome do progresso e da fabricação de armas para
se digladiarem. Ante tais perspectivas Ulmo sabia que Yavanna também
não o apoiaria, mas decidiu tentar assim mesmo e expôs todas as
notícias vindas da Terra-média, porém foi como se fossem sementes
lançadas em solo improdutivo, e fez com que a Rainha da Terra ficasse
ainda mais melancólica do que já estava. Sabendo que nada conseguiria
com Yavanna dessa vez, Ulmo se despediu gentilmente dela e se
encaminhou na direção dos Jardins de Lórien onde pretendia encontrar
Irmo, o Senhor dos Sonhos e das Visões na esperança de que ele pudesse
esclarecer algumas partes das mensagens trazidas por Uinen e Ossë.

Entrou nos Jardins e foi recebido por Olórin que disse que o Senhor de
Lórien havia sido chamado por Manwë até Ilmarin e que não sabia se ele
se demoraria por lá, mas se Ulmo desejasse esperar por ali ele ficaria
grato em lhe fazer companhia. Ulmo agradeceu ao convite de Olórin mas o
dispensou da companhia pois agora o seu intento era ir até a morada de
Estë e para lá se dirigiu por um caminho que seguia por uma suave
inclinação e era ladeado por formosas plantas com belas, perfumadas e
vistosas flores vermelhas. Tal beleza fez com que Ulmo resolvesse
colher algumas para levar de presente para Estë, porém ficou surpreso e
perplexo ao se espetar em seus caules com resistentes espinhos. Olórin,
que o acompanhava Ulmo a certa distância notou a sua perplexidade, veio
até ele e lhe disse que havia trazido essa singular planta dos jardins
de Yavanna por ter se encantado com a beleza de suas flores e havia
deduzido que os espinhos eram uma forma dela tentar garantir àquela
bela espécie um meio de se defender da ação destrutiva dos outros
seres, porém Yavanna não havia confirmado essa teoria para ele. Com uma
habilidade invejável, Olórin conseguiu rapidamente preparar um arranjo
daquelas flores vermelhas e entregou para Ulmo sem lhe fazer nenhuma
pergunta, apenas se virou e voltou aos seus afazeres. Munido com aquele
arranjo, Ulmo seguia agora pela bela alameda de Laurinquë carregadas de
flores douradas pendentes em cachos ao alcance das mãos dos que seguiam
pelo caminho cuidadosamente pavimentado com pedras recortadas em forma
de retângulo e perfeitamente encaixadas até chegar em um ponto onde a
seqüência de árvores terminava e apenas um belo gramado seguia ladeando
o caminho até chegar às margens do Lago de Lórellin com sua água
cristalina e grande variedade de vida aquática que Ulmo conhecia muito
bem. Mais ao centro do lago Ulmo via agora uma suave neblina se formar
acima da superfície da água e no meio da neblina surgiam altas árvores
com suas copas formando um denso teto verde para a ilha.

Enquanto ia cruzando a ponte de madeira que ligava a ilha à margem do
lao, Ulmo ainda estava envolto em seus pensamentos e se perguntava a
razão para Yavanna ter criado uma espécie que precisasse de defesas
próprias ali em Valinor. Chegou até a duvidar da sanidade da Rainha da
Terra, porém esse foi um pensamento que logo deixou a sua mente dando
lugar a uma confortável sensação de alívio e ao longe, bem no centro da
ilha, ele avistou uma figura de estatura mediana que se movia com
agilidade e beleza por entre as árvores entoando um canto suave e
gostoso de ser ouvido. Ulmo sorriu ao reconhecer a voz de Estë e se
deixou levar por aquela sensação até se achar sentado na parte mais
oriental da ilha e se deu conta de que a noite já ia bem avançada, com
um céu sem nuvens e todas as estrelas de Arda agora pareciam brilhar
com a mesma intensidade de quando elas foram remodeladas. Olhou em
volta e não viu mais ninguém ali, exceto pela distante figura envolta
em um mando cinza que carregava em seus braços o arranjo de flores
feito por Olórin que pareciam mais vermelhas ainda iluminadas pela
pálida luz da lua.

Estë estava contente pois sabia que Ulmo raramente deixava os seus
domínios para andar entre os outros Valar e aquela visita à sua ilha
era inédita, porém ela logo percebeu as aflições que iam na alma dele e
por mais que quisesse ficar e conversar, sabia que o melhor a fazer era
deixá-lo sozinho para refletir sobre suas idéias.
Ulmo já se dispunha a ir atrás de Estë, porém as estrelas conseguiram
prender a sua atenção e logo ele se deitou sobre a relva macia e,
enquanto observava as estrelas, uma suave névoa o envolveu e mais uma
vez ele se dedicou aos seus pensamentos, entretanto dessa vez o fez de
um modo mais organizado, sem pressa. Sabia que as informações que
haviam chegado por último não poderiam ser simplesmente ignoradas,
sabia também que não poderia impor a sua vontade aos outros e que seria
praticamente impossível conseguir convencer Manwë a fazer algo. Ele não
queria depender tanto assim dos outros, como de fato ele não dependia,
porém tomar atitudes contra a decisão de Manwë só causaria mais
desgaste entre os Valar. De repente, uma idéia até então nova para ele
tomou forma e ele checou todas as possibilidades dela ser viável e
internamente sorriu com deleite por ter finalmente encontrado uma
solução para os seus problemas. A manhã chegou e o apanhou ainda em
meio às resoluções finais sobre o que faria, porém só com o primeiro
raio de sol Ulmo finalmente despertou daquele revigorante sono e
percebeu que Estë estava em pé logo à sua direita e que sorria para
ele. Levantou-se e foi até ela e juntos observaram mais um belo nascer
do sol em Valinor e quando Ulmo se virou para fitá-la, viu um rosto
sereno com lábios finos, nariz pequeno e vívidos olhos negros como a
noite, notou também que Estë havia colocado uma das flores vermelhas
como enfeite em seus longos cabelos negros e ele não soube dizer ao
certo se era a flor que realçava os cabelos ou se era o negro dos
cabelos que deixavam ainda mais bela a flor vermelha. Fitou-a por um
longo momento procurando palavras para lhe agradecer pelo revigorante
descanso, mas não conseguiu encontrar nada que fosse adequado, porém em
seus olhos Ulmo podia ver que Estë sabia exatamente como ele se sentia.
Tomado então por um impulso que o compelia a por em prática a sua
idéia, se adiantou um pouco mais e depositou um único e demorado beijo
na fronte e se afastou em direção da ponte de madeira.

Refez seu caminho de volta pela alameda de Laurinquë e viu ao longe que
Irmo e Olórin conversavam alegremente sentados em um dos bancos daquele
imenso e belo Jardim, porém já não sentia mais necessidade de conversar
com o Senhor de Lórien e apenas acenou de longe ao passar por eles e
finalmente estava seguindo pelo caminho que levava às praias orientais
e aos seus domínios. Uinen estava observando o revoar contente que as
gaivotas sempre faziam ao amanhecer e logo que percebeu a aproximação
Ulmo foi ao seu encontro e seguiu com ele para as profundezas de
Ekkaia, encontraram Ossë no caminho voltando de mais uma ronda pelas
fronteiras do imenso mar à procura de novas informações sobre a
Terra-média. Ulmo os reuniu em seu salão principal e expôs todos os
fatos ocorridos enquanto esteve entre os habitantes de Valinor,
inclusive sobre as reações dos outros Valar sobre as suas preocupações.
Ulmo fez então ficou em silêncio como se ainda pensasse sobre a decisão
a ser tomada, respirou fundo e explicou que seu plano era simplesmente
o de ir pessoalmente até a Terra-média e ajudar os Homens da maneria
que lhe fosse possível, pois ele não ficaria ali de braços cruzados
apenas porque os Primogênitos estavam deixando a Terra-média para os
Homens defenderem contra algo que nem os próprios Valar haviam sido
capazes de prender. Já ia se preparando para dizer que não obrigaria
nenhum dos dois a lhe acompanhar nessa jornada incerta, porém antes de
terminar sua frase Ossë se levantou e disse que ele não ficaria para
trás enquanto o seu senhor estivesse se expondo para salvar a
Terra-média. Essa reação havia deixado Ulmo um pouco mais reconfortado
e suas esperanças de ser bem sucedido aviam aumentado
consideravelmente, no entanto Uinen também havia se levantado, mas ao
invés de ser palavras de apoio incondicional, ela lançou uma dúvida
sobre a reação de Manwë ao descobrir que eles haviam deixado Aman sem a
sua permissão.

Aquele comentário atingiu em cheio a base da idéia de Ulmo, porém ele
não via outra opção e o seu apego pelos Sucessores havia crescido tanto
desde a fuga de Melkor que ele estava pronto a se sacrificar para poder
ao menos fazer com que os Povos Livres da Terra-média tivessem uma
chance de se defender das atrocidades que estariam por vir. Assim
sendo, dispensou mais uma vez Ossë e Uinen de irem com ele, mas se
mostrou firme na decisão que havia tomado. Ossë ainda manteve a sua
resposta de antes e se colocou ao lado do Senhor dos Oceanos para ir
até o fim, qualquer fim que fosse. Uinen ficou em silêncio por mais um
tempo ponderando sobre a sua decisão, mas finalmente os seus anos a
serviço de Ulmo a fizeram deixar suas preocupações em segundo plano e
também se colocou à disposição de Ulmo em sua jornada pela Terra-média,
afinal de contas alguém naquele trio teria que pensar um pouco mais do
que os outros nas conseqüências. Ulmo então apanhou a Ulumúri e a fez
soar com tal potência que por todo o Ekkaia o seu eco se propagou e a
mensagem de que Ulmo, o Senhor dos Oceanos estava indo para a
Terra-média foi levada às criaturas aquáticas de toda Aman. E com esse
gesto o destino dos três havia sido lançado e o futuro que lhes
aguardava era incerto, porém as coisas mudariam em breve na Terra-média.