Arquivo da categoria: Cartas de J.R.R. Tolkien

Carta #144

[A Sra. Mitchison havia lido provas de páginas dos primeiros dois volumes da trilogia do Senhor dos Anéis, e escreveu a Tolkien com várias perguntas sobre o livro. A carta da leitora perdeu-se, mas Tolkien tinha uma cópia da resposta enviada]

25 de abril de 1954 76 Sandfield Road, Headington, Oxford

Cara Sra. Mitchison,

Foi rude e ingrato de minha parte não ter acusado o recebimento, ou não ter lhe agradecido pelas suas cartas, presentes, e lembranças anteriores – ainda mais assim, uma vez que seu interesse, de fato, tem sido para mim de grande consolo e encorajamento no desespero que naturalmente acompanha os labores de publicar tal trabalho como O Senhor dos Anéis. Mas o mais infortunado é que isto tenha coincidido com um período de trabalhos excepcionalmente árduos e deveres em outras funções, de forma que às vezes eu tenho estado quase que distraído.

Tentarei responder suas perguntas. Posso dizer que elas são muito bem-vindas. Gosto das coisas desenvolvidas em detalhes, e de respostas fornecidas a todas as perguntas razoáveis. Sua carta vai, eu espero, me guiar em escolher o tipo de informação a ser fornecida (como prometido) em um apêndice, e consolidar meu estilo com os editores. Uma vez que o terceiro volume será bem mais fino que o segundo (os eventos se movem mais rapidamente, e menos explicações são necessárias), haverá, eu acredito uma certa parcela de espaço para tal assunto. Meu problema não é a dificuldade de fornecê-lo, mas de escolher dentre todo o material que eu já compus.

Existe é claro um conflito entre técnica “literária”, e a fascinação de elaborar em detalhes uma Era mítica imaginária(mítica, não alegórica: minha mente não trabalha alegoricamente). Como uma história, eu penso que seja bom que houvesse muitas coisas inexplicadas (especialmente se uma explicação de fato existe); e talvez tenha deste ponto de vista errado em tentar explicar demais, e mostrar muita história passada. Por exemplo, muitos leitores ficaram um tanto perdidos no Conselho de Elrond. E até mesmo em uma Era mítica devem haver alguns enigmas, como sempre há. Tom Bombadil é um (intencionalmente).

Mas como muita história adicional (voltada ao passado) como qualquer um poderia desejar de fato existe no Silmarillion e histórias relacionadas e poemas, compondo a História dos Eldar (Elfos). Eu acredito que no caso (que espero que aconteça) de pessoas suficientes estarem interessadas em O Senhor dos Anéis para pagar o custo de sua publicação, os galantes editores possam considerar imprimir algo disso. O Silmarillion foi escrito, de fato, em primeiro lugar, e eu desejava ter a matéria emitida em ordem histórica, o que teria economizado muita alusão e explicação no livro presente. Mas não consegui que fosse aceito. O terceiro volume foi concluído, é claro, há anos atrás, até onde o conto vai. Terminei tal revisão, como parecia necessário, e irá ser montado quase imediatamente. Enquanto isso estou aplicando os fragmentos de tempo que tenho para fazer versões comprimidas de tal material histórico, etnográfico, e lingüístico para que possa entrar no Apêndice. Se lhe interessar, eu lhe enviarei uma cópia (bastante rústica) do material que lida com Idiomas (e Escrita), Povos e Tradução.

A última tem exigido muito raciocínio. Esta raramente parece ser considerada importante por outros criadores de mundos imaginários, porém talentosos como narradores (como Eddison). Entretanto sou um filólogo, e muito embora devesse gostar de ser mais preciso em outros aspectos e características culturais, isso não está dentro da minha competência. De qualquer maneira “o idioma” é o mais importante, pois a história tem que ser contada, e o diálogo conduzido em um idioma; mas o Inglês não pode ter sido o idioma de quaisquer povos naquele tempo. O que eu tenho de fato feito é comparar o Westron ou a amplamente propagada Língua Comum da Terceira Era com o inglês; e traduzir tudo, inclusive nomes como O Condado que estava no Westron em termos ingleses com alguma diferenciação de estilo para representar diferenças dialetais. Idiomas bastante diferentes da Língua Comum foram deixadas de lado. Com exceção de alguns fragmentos da Fala Negra de Mordor, e alguns nomes e um grito de batalha no Idioma dos Anões, esses são quase totalmente Élficos (Eldarin).

Porém, Idiomas que eram relacionados ao Westron apresentaram um problema especial. Eu os transformei em formas de Língua relacionadas ao inglês. Uma vez que os Rohirrim são representados como recém chegados do Norte, e usuários de um idioma Masculino arcaico relativamente não afetado pela influência do Eldarin, eu transformei os seus nomes em formas como (mas não idênticas a) o Inglês Antigo. O idioma de Vale e do Grande Lago iria, se aparecesse, ser representado como mais ou menos Escandinavo em caráter; mas somente é representado por alguns nomes, especialmente aqueles dos Anões que vieram daquela região. Estes são todos nomes Escandinavos Antigos dos Anões.

Anões são representados como mantendo a sua própria língua nativa mais ou menos secreta, e usando para todos propósitos “exteriores” o idioma dos povos que morassem próximos; eles nunca revelam os seus próprios “verdadeiros” nomes pessoais na sua própria língua.)

Supõe-se que o Westron ou Língua Comum seja derivado do viril idioma Adunaico Númenoriano, difundido dos Reinos Númenorianos nos dias dos Reis, e especialmente de Gondor onde permanece falado em estilo mais nobre e bastante mais antigo (um estilo também usualmente adotado pelos Elfos quando eles usam este idioma). Mas todos os nomes em Gondor, com exceção de alguns de origem supostamente pré-histórica, são de forma Élfica, uma vez que a nobreza Númenoriana ainda usava um idioma Élfico, ou poderia usar. Isto era porque eles tinham sido aliados dos Elfos na Primeira Era, e por essa razão à eles tinha sido concedida a ilha Atlântida de Númenor. Duas das línguas Élficas aparecem neste livro. Elas têm algum tipo de existência, uma vez que as compus com alguma integralidade, como também a sua história e descrição da sua relação. Elas são planejadas (a) para serem definitivamente de um tipo Europeu em estilo e estrutura (não em detalhes); e (b) para serem especialmente agradáveis. O primeiro não é difícil de alcançar; mas o último é mais difícil, uma vez que as predileções pessoais dos indivíduos, especialmente na estrutura fonética de idiomas, varia amplamente, até mesmo quando modificadas pelos idiomas impostos (incluindo sua denominada língua “nativa”).

Entretanto, agradei a mim mesmo. O idioma arcaico de tradição é tencionado para ser um tipo de “Latim-Élfico”, e transcrevendo-o em uma ortografia que se assemelha proximamente aquela do Latim (exceto que o y só é usado como uma consoante, como y em Inglês Yes) a semelhança com o Latim foi aumentada visivelmente. De fato poderia ser dito que é composto em uma base de Latim com dois outros ingredientes (principais) que ocorrem para me dar “prazer fonoestético”: Finlandês e Grego. É, porém menos consonantal que qualquer dos três. Este idioma é chamado de Alto-Élfico ou em seus próprios termos, Quenya.

O idioma ativo dos Elfos Ocidentais (Sindarin ou Elfos-cinzentos) é o idioma usualmente encontrado, especialmente em nomes. Este é derivado de uma origem comum a este e ao Quenya; mas as mudanças foram deliberadamente inventadas para conferir a este um caráter lingüístico muito semelhante (entretanto não idêntico) ao Galês Britânico: porque esse é um caráter que eu acho, em alguns modos lingüísticos, muito atraente; e porque parece se ajustar com o estilo bastante “Céltico” de lendas e histórias contadas por seus oradores.

“Elfos” é uma tradução, talvez agora não muito satisfatória, mas originalmente boa o bastante, da palavra Quendi. São representados como uma raça semelhante em aparência (e mais ainda ao passado longínquo) aos Homens, e em dias antigos da mesma estatura. Eu não entrarei aqui nas suas diferenças dos Homens! Mas eu suponho que os Quendi são de fato nestas histórias muito pouco aparentados com os Elfos e Fadas da Europa; e se eu fosse pressionado a racionalizar, eu deveria dizer que eles realmente representam os Homens com faculdades estéticas e criativas prodigiosamente desenvolvidas, maior beleza e vida mais longa, e nobreza – os Primogênitos, predestinados a desaparecer antes dos Seguidores (os Homens), e em última instância a viver somente pela linha fina do seu sangue que fora misturado com aquele dos Homens, dentre os quais estava o único clamor real para “nobreza”.

Eles são representados como tendo ficado logo divididos em duas ou três, variedades. 1º, Os Eldar que ouviram a convocação dos Valar ou dos Poderes para passar da Terra-média através do Mar para o Oeste; e 2º, os Elfos Inferiores que não responderam a este chamado. A maioria dos Eldar depois de uma grande marcha chegou às Orlas Ocidentais e passaram através do Mar; estes eram os Altos Elfos que cresceram imensamente em poderes e conhecimento. Mas parte deles na ocasião permaneceu nas terras costeiras do Noroeste: estes eram os Sindar ou Elfos Cinzentos. Os Elfos inferiores dificilmente aparecem, exceto como parte dos povos do Reino dos Elfos; da Floresta das Trevas Do norte, e de Lórien, regidas pelos Eldar; seus idiomas não aparecem.

Os Altos Elfos encontrados neste livro são Exilados, que retornaram através do Mar para a Terra-média, depois de eventos que são a questão principal do Silmarillion, parte de um dos principais clãs dos Eldar: os Noldor (os Mestres da Tradição). Ou melhor, um último vestígio destes. Pois o próprio Silmarillion e a Primeira Era terminaram com a destruição do mais antigo Senhor do Escuro (de quem Sauron era um mero tenente), e a reabilitação dos Exilados que voltaram novamente através do Mar. Aqueles que hesitaram eram aqueles que estavam apaixonados pela Terra-média e ainda desejavam a beleza inalterada da Terra dos Valar. Por isso a fabricação dos Anéis; pois os Três Anéis foram precisamente dotados com o poder da preservação, não do nascimento. Embora inviolados, porque eles não foram feitos por Sauron nem foram tocados por ele, eles eram, todavia parcialmente produtos da sua instrução, e em última instância estavam sob o controle do Um Anel. Assim, como você verá, quando o Um se vai, os últimos defensores da tradição e da beleza dos Altos-Elfos são despojados de poder para deter o tempo, e partem.

Eu sinto muito pela Geografia. Deve ter sido terrivelmente difícil sem um mapa ou mapas. Haverá no volume I um mapa de parte do Condado e um mapa geral em pequena escala do cenário inteiro de ação e referência (de qual o mapa ao término de O Hobbit é o canto Nordeste). Estes foram desenhados a partir de mapas menos elegantes pelo meu filho, Christopher, que é instruído neste conhecimento. Mas tive só uma prova e essa teve que voltar. Eu comecei sabiamente com um mapa, e fiz a história ajustada a este mesmo mapa (geralmente com cuidado meticuloso para distâncias). O outro modo quase conduz a pessoa a confusões e impossibilidades, e em todo caso é um trabalho cansativo compor um mapa a partir de uma história – como eu receio que você tenha descoberto.

Não posso enviar-lhe meus próprios mapas de trabalho; mas talvez estes desenhos muito rústicos e não inteiramente precisos, feitos apressadamente e em momentos diferentes para os leitores, seriam de alguma ajuda. Talvez quando a senhora tiver terminado com estes mapas ou feito algumas notas não se importe em os mandar de volta. Eu os acharei úteis para fazer alguns mais; mas não posso dar conta disso ainda. Posso dizer que os mapas de meu filho são lindamente claros, até onde a redução na reprodução permite; mas eles não contêm tudo, ai de mim!

Algumas respostas aleatórias. Dragões. Eles não tinham sido extintos; uma vez que estiveram ativos muito tempo mais tarde, próximo do nosso próprio tempo. Eu disse alguma coisa que sugerisse o desfecho final dos dragões? Se disse deveria ser alterado. A única passagem de que posso pensar é no Vol. I pág. 63: “mas hoje em dia não sobrou nenhum dragão na terra cujo velho fogo seja quente o suficiente”. Mas isso implica, eu penso, que ainda há dragões, se não com a sua completa estatura primitiva. Eu tenho uma longa tabela histórica de eventos do princípio ao Fim da Terceira Era. Está bastante cheia; mas concordo que uma forma pequena, contendo eventos importante para este conto seria bastante útil. Se você quiser cópias datilografadas de algum deste material: ex. Os Anéis de Poder; A Queda de Númenor; as Listas dos Herdeiros de Elendil; a Casa de Eorl (Genealogia); Genealogia de Durin e dos Senhores-Anões de Moria; e O Conto dos Anos (especialmente aqueles da Segunda e Terceira Eras), eu tentarei e conseguirei estas cópias logo.

Orcs (a palavra é até onde me diz respeito derivada de fato do Inglês Antigo orc “demon”, mas só por causa de sua adequação fonética) não é em nenhuma parte claramente declarado para ser de qualquer origem em particular. Mas uma vez que eles são os servos do primeiro Senhor do Escuro, e depois de Sauron, nenhum dos quais poderia, ou iria, produzir coisas viventes, eles devem ser “corrupções”. Eles não são baseados em minha experiência direta; mas devem, suponho, uma boa parte a tradição dos goblins (orcs) (goblin é usado como uma tradução em O Hobbit onde orc só ocorre uma vez, eu acho), especialmente como aparece em George MacDonald, exceto pelos pés macios nos quais nunca acreditei. O nome tem a forma orch (plural yrch) em Sindarin, e uruk na Fala Negra de Mordor.

A Fala Negra só era usada em Mordor; só ocorre na inscrição do Anel, e uma oração articulada pelos Orcs de Barad-dûr¹ e na palavra Nazgûl (cf. nazg na inscrição do Anel). A Fala Negra nunca era usada espontaneamente por quaisquer outras pessoas, e conseqüentemente até mesmo os nomes de lugares em Mordor estão em inglês (para a Língua Comum) ou Élfico. Morannon é justamente Élfico para Portão Negro; cf. Mordor significa Terra Negra, Mor-ia Fenda Negra, Mor-thond Raiz-negra (nome de um rio). Rohir-rim é o nome Élfico (Gondoriano) para as pessoas que se chamavam os Cavaleiros do Marco ou Eorlingas. A formação não é planejada para se assemelhar ao hebreu. Os idiomas Eldarin distinguem em formas e uso entre um “partitivo” ou plural “particular”, e o plural geral ou total. Assim yrch “orcs, alguns orcs, des orques” ocorreu nas págs. 359 e 404; os Orcs, como uma raça, ou o todo de um grupo previamente mencionado teria sido orchoth. Em Élfico-Cinzento os plurais gerais muito freqüentemente eram feitos por adição a um nome (ou a um nome de lugar) alguma palavra significando “tribo, tropa, horda, povo”. Assim Haradrim os Sulistas: Quenya rimbe, Sindarin rim, tropa; Onod-rim os Ents. Os Rohirrim é derivado de roch (Quenya rokko) cavalo, e a raiz Élfica kher – “possuir”; de onde Sindarin Rochir “senhor dos cavalos”, e Rochir-rim “a tropa dos Senhores dos cavalos”. Na pronúncia de Gondor o ch (como em Alemão, Galês, etc) tinha sido suavizado a um som de h; assim em Rochann “Hippia” para Rohan.

Beorn está morto; veja pág. 237. Ele apareceu em O Hobbit. Era então o ano 2940 da Terceira Era (Na contagem do Condado 1340). Nós estamos agora nos anos 3018-19 (1418-19). Entretanto, apesar de sua mudança de forma que sem nenhuma dúvida tinha um pouco de magia, Beorn era um Homem.

Tom Bombadil não é uma pessoa importante – para a narrativa. Eu suponho que ele tenha um pouco de importância como um “comentário”. Eu quero dizer, realmente não escrevo assim: ele é apenas uma invenção (que apareceu primeiro na Oxford Magazine por volta de 1933), e representa algo que sinto ser muito importante, embora não esteja preparado para analisar este sentimento precisamente. Porém, não o teria deixado lá, se ele não tivesse algum tipo de função. Poderia pôr isto deste modo. A história é projetada em termos de um lado bom, e um lado mau, beleza contra feiúra desumana, tirania contra monarquia, liberdade moderada com consentimento contra compulsão que perdeu há muito tempo qualquer objetivo exceto mero poder, e assim por diante; mas ambos os lados em algum grau, conservador ou destrutivo, querem uma medida de controle. Mas se você tem, como se fosse tomado “um voto de pobreza”, controle renunciado, e tira seu encanto em coisas para eles mesmos sem referência para você, assistindo, observando, e até certo ponto sabendo, então a questão dos certos e errados do poder e controle poderia ficar totalmente sem sentido para você, e os meios de poder completamente sem valor. É uma visão pacifista natural que sempre surge na mente quando há uma guerra. Mas a visão de Valfenda parece ser que esta é uma excelente coisa para se ter representada, mas que há de fato coisas que não se pode enfrentar; e das quais sua existência todavia depende. No final das contas só a vitória do Oeste permitirá a Bombadil continuar, ou até mesmo sobreviver. Nada seria deixado para ele no mundo de Sauron.

Na minha mente Tom não tem nenhuma ligação•mente com as Entesposas. O que aconteceu com elas não está resolvido neste livro. Ele é, de certo modo, a resposta para elas no sentido de que é quase o oposto, sendo digamos, Botânica e Zoologia (como ciências) da Poesia, como oposto a Pecuária e Agricultura da praticidade.

Eu acho que de fato as Entesposas tenham desaparecido para sempre, sendo destruídas com os seus jardins na Guerra da Última Aliança (Segunda Era 3429-3441) quando Sauron adotou uma política de devastação da terra, e queimou seus campos tentando retardar o avanço dos Aliados que desciam o Anduin². Elas só sobreviveram na “agricultura” transmitida aos Homens (e Hobbits). Algumas, naturalmente, podem ter fugido para o leste, ou até mesmo foram escravizadas: tiranos até mesmo em tais contos devem ter uma base econômica e agrícola para os seus soldados e forjadores. Se qualquer uma sobreviveu então, elas realmente seriam agora muito estranhas aos Ents, e qualquer reaproximação seria difícil – a menos que a experiência da agricultura industrializada e militarizada as tivesse feito um pouco mais anárquicas. Eu espero que sim. Não sei.

As crianças Hobbits eram adoráveis, mas eu receio que os únicos vislumbres delas neste livro são encontrados no começo do volume I. Um epílogo que dá um vislumbre adicional (entretanto de uma família bastante excepcional) foi tão universalmente condenado que decidi não inseri-lo no livro. Deve-se parar em algum lugar. Sim, Sam Gamgi é de certo modo uma relação de Dr. Gamgee, e o seu nome não teria tomado aquela forma, se eu não tivesse ouvido falar do “tecido de Gamge”; havia, eu acredito, um Dr. Gamgee (sem dúvida da família) em Birmingham quando eu era criança. O nome foi de qualquer modo sempre familiar para mim. Gaffer Gamgi surgiu primeiro: ele era um personagem lendário para meus filhos (baseado em um capataz da vida real, não naquele nome). Mas, como você achará explicado, neste conto o nome é uma “tradução” de um verdadeiro nome Hobbit, derivado de uma aldeia (dedicada à feitura de cordas) anglicanizado como Gamwich (pronúncia Gammidge), perto do Campo da Corda³. Uma vez que Sam era amigo íntimo da família Villa (outro nome de aldeia), fui levado à brincadeira Hobbit de ortografia Gamwichy Gamgi, embora não ache que no verdadeiro dialeto Hobbit a brincadeira desse certo.

Não há oponentes específicos aos Magos – uma tradução (talvez não satisfatória, mas inteiramente distinta de outros termos “mágicos”) do Quenya Élfico, Istari. A origem deles não era conhecida por qualquer um exceto uns poucos (como Elrond e Galadriel) na Terceira Era. Diz-se que apareceram primeiro por volta do ano 1000 da Terceira Era, quando a sombra de Sauron começou a crescer novamente sob uma nova forma. Eles sempre pareceram velhos, mas ficaram mais velhos com os seus trabalhos, lentamente, e desapareceram com o fim dos Anéis. Acreditava-se serem Emissários (nos termos deste conto vindos do Oeste Distante além do Mar), e suas funções própria, mantida por Gandalf, e pervertida por Saruman, era encorajar e instigar os poderes nativos dos Inimigos de Sauron. O oposto de Gandalf era, estritamente, Sauron, em uma parte das operações de Sauron; como Aragorn era na outra.

O Balrog é um sobrevivente do Silmarillion e das lendas da Primeira Era. Assim como Laracna. Os Balrogs, de quem os chicotes eram as armas principais, eram os mais antigos espíritos de fogo destruidor, principais servos do Senhor do Escuro da Primeira Era. Supunha-se que eles tivessem sido todos destruídos na queda das Thangorodrim, sua fortaleza no Norte. Mas aqui descobre-se (normalmente há um remanescente especialmente do mal de uma era para outra) que um deles tinha escapado e refugiado-se sob as montanhas de Hithaeglin(as Montanhas Sombrias). É interessante observar que só Legolas, o elfo, sabe o que a coisa era – e indubitavelmente Gandalf.

Laracna (representando a Língua Comum em inglês “she-lob “ = aranha fêmea) é uma tradução de Élfico Ungol “aranha”. Ela é apresentada como descendente das aranhas gigantes dos vales de Nandungorthin, que encontram-se nas lendas da Primeira Era, especialmente a principal delas, o conto de Beren e Lúthien. Esta é constantemente citada, uma vez que como mesmo Sam nota4 esta história é de certo modo só uma continuação adicional desta lenda. Ambos Elrond (e a sua filha Arwen Undómiel, que se assemelha intimamente a Lúthien em aparência e destino) são descendentes de Beren e Lúthien; e assim como Aragorn, porém muito mais afastado. As aranhas gigantes eram nada mais que descendentes de Ungoliant a mais antiga devoradora de luz, que em forma de aranha ajudou o Senhor do Escuro, mas no final disputou com ele. Não há assim nenhuma aliança entre Laracna e Sauron, o representante do Senhor do Escuro; só um ódio comum.

Galadriel é tão antiga ou mais antiga que Laracna. Ela é a última remanescente dos Grandes entre os Altos-Elfos, e “despertou” em Eldamar, além do Mar, muito antes que Ungoliant viesse para a Terra-média e produzisse suas ninhadas lá…

Bem, depois de um longo silêncio você evocou uma resposta razoavelmente longa. Não longa demais, eu espero, até mesmo para tal interesse delicioso e encorajador. Estou profundamente grato por isso; e espero que todos que moram em Carradale aceitem meus agradecimentos. Sinceramente seu,

J. R. R. Tolkien.

Citações:

1. “Uglúk u bagronk sha pushdug Saruman-glob búbhosh skai.” ADT, pág. 465, ed. unificada;

2. “… enquanto que os jardins das Entesposas estão abandonados: os homens os chamam agora de Terras Castanhas.” ADT, pág. 498, ed. unificada;

3. “Meu bisavô e meu tio Andy depois dele,…. ele teve uma cordoaria perto do Campo da Corda por muitos anos.“ ADT, pág. 642, ed. unificada;

4. “Veja só, pensando assim, estamos ainda na mesma história! Ela está continuando. Será que as grandes histórias nunca terminam?” ADT, pág. 751, ed. unificada.

Carta #25

[Em 16 de janeiro de 1938, o Observer publicou uma carta, assinada “Habit" (N.T.: Hábito, em inglês), perguntando se os hobbits poderiam ter sido sugeridos a Tolkien pelo relato de Julian Huxley sobre os ‘“pequenos homens peludos" vistos na África, por nativos e .... pelo menos um cientista’. O escritor da carta também mencionava que um amigo dissera que ‘ela se recordava de um velho conto de fadas chamado “O Hobbit", em uma coleção lida por volta de 1904’, na qual a criatura que tinha esse nome era “definitivamente assustadora". O(a) escritor(a) perguntou se Tolkien poderia “nos dizer um pouco mais sobre o nome e criação do intrigante herói deste livro. .... Muitos estudantes de pesquisa das próximas gerações ficariam livres de muito trabalho. E, aliás, estaria o furto da taça do dragão por parte do hobbit baseado no episódio do roubo da taça em Beowulf? Espero que sim, já que um dos charmes do livro parece ser sua harmonização Spenseriana das brilhantes linhas de tantas ramificações da literatura épica, mitológica e de contos de fada vitorianos’. A resposta de Tolkien, ainda que não com a intenção de ser publicada (veja a conclusão da nº 26), foi impressa no Observer em 20 de fevereiro de 1938.]

Senhor, – não preciso de persuasão: sou tão suscetível à bajulação quanto um dragão, e exibiria meu colete de diamantes, e até mesmo discutiria suas fontes, já que Habit (mais inquisitivo do que o Hobbit) não apenas professou admirá-lo, mas também perguntou de onde eu o tirei. Mas não seria isso deveras injusto para com os estudantes de pesquisa? Livrá-los do trabalho é tirar deles qualquer desculpa para existirem.

No entanto, em relação à pergunta principal de Habit, não há perigo: Eu não lembro de nada sobre o nome e a criação do herói. Eu poderia supor, é claro, mas as suposições não teriam mais autoridade do que as feitas pelos futuros pesquisadores, então deixo a brincadeira para eles.

Eu nasci na África, e li muitos livros sobre a exploração africana. Desde 1896, eu tenho lido mais livros ainda sobre contos de fadas do tipo genuíno. Ambos os fatos citados pelo Hábito parecem ser, portanto significantes.

Mas são mesmo? Eu não me lembro de pigmeus peludos (em livros ou à luz da lua); nem de qualquer hobbit bicho-papão impresso em 1904. Suspeito que os dois hobbits sejam homófonos, e fico satisfeito que não sejam (ao que parece) sinônimos. E faço a objeção de que meu hobbit não vivia na África, e não era peludo, exceto na área dos pés. E de fato não era como um coelho. Ele era um próspero e bem-alimentado solteiro de meios independentes. Chamá-lo de “pequeno coelho desagradável” é um pouco de gozação vulgar, assim como “descendente de ratos” é um pouco da malícia dos Anões – insultos deliberados à sua altura e pés, que o magoaram profundamente. Seus pés, se convenientemente revestidos e abrigados pela natureza, eram tão elegantes quanto seus dedos longos e astutos.

Quanto ao resto do conto, ele é, conforme Habit sugere, derivado (previamente condensado) de épico, mitologia e conto-de-fadas – mas não vitoriano em sua autoria, conforme a regra da qual George Macdonald é a única exceção. Beowulf está entre as minhas mais estimadas fontes; embora não estivesse conscientemente presente na mente no processo de escrever, no qual o episódio do furto surgiu naturalmente (e quase inevitavelmente) das circunstâncias. É difícil imaginar qualquer outro modo de conduzir a história naquele ponto. Eu acredito que o autor de Beowulf diria quase a mesma coisa.

Meu conto não está conscientemente baseado em nenhum outro livro – exceto um, e este não está publicado: o ‘Silmarillion’, uma história dos Elfos, aos quais alusões freqüentes são feitas. Não pensei nos futuros pesquisadores; e como há apenas um manuscrito, parece que, no momento, há poucas chances de que esta referência se torne útil.

Mas estas questões são meramente preliminares. Agora que me fizeram ver que as aventuras do Sr. Bolseiro serão objeto de futuros questionamentos, me dou conta de que muito trabalho será necessário. Há a questão da nomenclatura. Os nomes dos Anões, e dos magos, são do Antigo Edda. Os nomes de hobbits vêm das Fontes Óbvias próprias de sua espécie. A lista completa de suas famílias mais abastadas é: Bolseiro, Boffin, Bolger, Bracegirdle, Brandybuck, Burrowes, Chubb, Grubb, Horblower, Proudfoot, Sackville e Took. O dragão tem um nome – um pseudônimo – o passado do verbo Germânico primitivo Smugan, que é espremer-se por um buraco: uma mera brincadeira filológica. O resto dos nomes são do Mundo Antigo e Élfico, e não foram modernizados. E por que dwarves? A Gramática prescreve dwarfs, a filologia sugere que dwarrows seria a forma histórica. A verdadeira resposta é que eu não sabia melhor. Mas dwarves vai bem com elves, e, de qualquer forma, elf, gnome, goblien, dwarf são apenas traduções aproximadas dos nomes em Antigo Élfico para seres de tipos e funções não exatamente os mesmos.

Estes anões não são os mesmos anões de histórias mais conhecidas. Eles receberam nomes escandinavos, é verdade; mas isto é uma concessão editorial. Nomes em demasia nas línguas próprias do período tornariam-se algo alarmante. A língua dos Anões era tanto complicada quanto sofria de cacofonia. Mesmo os primeiros filólogos Élficos a evitavam, e os Anões eram obrigados a usar outras línguas, exceto nas conversas inteiramente privadas. A língua dos hobbits era notavelmente semelhante ao inglês, como era de se esperar: eles viviam apenas nas fronteiras do Mundo Selvagem, e não estavam totalmente a par disso. Os nomes de família permaneceram, na maioria, tão conhecidos e respeitados com justiça nesta ilha quanto o eram na Vila dos Hobbits e Beirágua.

Há o assunto das Runas. Aquelas usadas por Thorin e Cia., para razões especiais, estavam contidas em um alfabeto de 32 letras (lista completa sob pedido), similar, mas não idêntico, às Runas de inscrições Anglo-saxônicas. Há, sem dúvida, uma conexão histórica entre os dois. O alfabeto Feanoriano, geralmente usado naquela época, tinha origem Élfica. Aparece na maldição inscrita no pote de ouro, no desenho da morada de Smaug, mas foi diversamente transcrito (um facsimile da carta original, deixada sobre o consolo da lareira, pode ser providenciada). E o que dizer das Charadas? Há trabalho a ser feito aqui nas fontes e analogias. Não seria nenhuma surpresa para mim se tanto o hobbit quanto Gollum fossem desaprovados em sua pretensão de ter inventado qualquer uma delas.

Finalmente, presenteio o futuro pesquisador um pequeno problema. O conto parou em seu relato por cerca de um ano em dois pontos separados: onde estão? Mas, provavelmente, isto teria sido descoberto de qualquer maneira. E, de repente, me lembrei que o hobbit pensou “Velho tolo”, quando o dragão sucumbiu à palavras lisonjeiras. Temo que o comentário de Habit (e seu) já será o mesmo. Mas você deve admitir que a tentação era grande. Atenciosamente, etc, J.R.R. Tolkien.

Carta #181

[Antes de escrever uma resenha de O Senhor dos Anéis, Michael Straight, o editor do New Republic, escreveu para Tolkien fazendo algumas perguntas: primeiro, se havia um significado no papel de Gollum na história e na falha moral de Frodo no clímax; em segundo, se o capítulo O Expurgo do Condado era especialmente dirigido à Inglaterra contemporânea; e em terceiro, por que os outros viajantes deveriam partir dos Portos Cinzentos com Frodo ao final do livro - É assim devido à mesma razão pela qual há aqueles que conquistam a vitória mas não podem desfrutá-la?]

[Não datada; provavelmente de Janeiro ou Fevereiro de 1956] Caro Sr. Straight,

Obrigado pela sua carta. Eu espero que você tenha se divertido com O Senhor dos Anéis? Divertido é a palavra-chave. Pois ele foi escrito para entreter (em seu sentido mais elevado): para que a leitura seja agradável. Não há ‘alegoria’ moral, política ou contemporânea em todo o trabalho.

Ele é um “conto de fadas”, mas um escrito – de acordo com a convicção que certa vez exprimi em um extenso ensaio chamado On fairy-stories que eles são a audiência apropriada – para adultos. Porque eu acredito que contos de fadas têm sua própria forma de refletir a verdade, diferentemente de alegoria, ou (sustentada) sátira, ou realismo, e em certos aspectos mais poderosa. Mas antes de tudo deve proceder apenas como um conto, excitar, deleitar, e em alguma ocasião comover, e internamente a seu próprio mundo imaginário, estar de acordo (literariamente) ao seu propósito. Ser bem sucedido nisso era o meu objetivo primário.

Mas, evidentemente, se alguém decide se dirigir a adultos (mentalmente adultos, em qualquer caso), eles não serão excitados, deleitados ou comovidos ao menos que o todo, ou os incidentes, pareçam ser sobre algo que mereça consideração, mais exemplos que mero perigo e fuga: deve haver alguma relevância à situação humana (de todos os períodos). Então, algo das próprias reflexões e valores do contador de histórias irá, inevitavelmente, estar inserido no trabalho. Isso não é o mesmo que alegoria. Nós todos, em grupos ou como indivíduos, exemplificamos princípios gerais; mas nós não os representamos. Os Hobbits não são maior alegoria do que são (digamos) os pigmeus da Floresta Africana. Gollum, para mim, é apenas um personagem – alguém imaginado – que garantiu que a situação agisse mais ou menos sob forças opostas, como se parecesse para ele que provavelmente agiria (há sempre um elemento incalculável em qualquer indivíduo real ou imaginário: de outra forma ele/ela não seria uma individualidade mas um tipo.)

Eu vou tentar e responder suas questões específicas. A cena final da Demanda se deu daquela forma simplesmente porque em relação à situação, e com o caráter de Frodo, Sam e Gollum, aqueles acontecimentos a mim pareceram mecanicamente, moralmente e psicologicamente críveis. Mas, é claro, caso você deseje mais reflexão eu devo dizer que internamente ao desenvolvimento da história, a catástrofe exemplifica (um aspecto das) palavras familiares: Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.

“Não nos deixeis cair em tentação” é o pedido mais difícil e o menos freqüentemente considerado. A visão, nos termos da minha história, é de que mesmo todo acontecimento ou situação tem (ao menos) dois aspectos: a história e o desenvolvimento do indivíduo (isto é algo a partir do qual ele pode tirar proveito, proveito fundamental, para si mesmo, ou falhar na tentativa de fazê-lo), e a história do mundo (que depende de suas ações para sua própria causa) – contudo, há situações anormais em que alguns podem ser relacionados. Situações de sacrifício, eu devo chamá-las: posições sacrificais nas quais o bem do mundo depende da conduta de um indivíduo em circunstâncias que necessitem do seu sofrimento e resistência muito além do normal – até mesmo, pode ocorrer (ou assim parece, humanamente falando), exijam uma força física e mental as quais ele não possui: ele está, de certa forma, fadado a fracassar, condenado a cair em tentação ou falhar pela pressão contra sua vontade: isso é, contra qualquer escolha que ele poderia fazer ou teria feito acorrentado, não sob coação.

Frodo estava em tal posição: uma armadilha completa, aparentemente: uma pessoa de poder natural maior nunca poderia, provavelmente, ter resistido à tentação do Anel por tanto tempo; alguém com menor poder não deveria esperar poder resisti-lo na decisão final. (Uma vez que Frodo não havia se mostrado disposto a danificar o Anel antes de partir em viagem, e era incapaz de entregá-lo a Sam.)

A Jornada estava fadada a falhar enquanto uma parte de um plano mundial, e também atada a terminar em desastre enquanto a história do desenvolvimento do humilde Frodo ao nobre, sua santificação. Ela falharia, e falhou, enquanto concernisse a Frodo, considerando-o sozinho. Ele “apostatizou” – e eu recebi uma carta irada, bradando que ele deveria ter sido executado como um traidor, não honrado. Acredite em mim, não foi até eu ter lido isto que tive eu mesmo alguma idéia sobre quão tópica tal situação deve aparentar. Ela nasceu naturalmente do meu projeto concebido na forma de um esboço principal em 1936 [1]. Eu não previ que antes que o conto estivesse publicado nós deveríamos entrar em uma era negra na qual a técnica da tortura e a dilaceração da personalidade iriam rivalizar com a de Mordor e o Anel, e presentear-nos com o prático problema de homens honestos de boa-vontade caídos a apóstatas e traidores.

Mas a esse ponto a salvação do mundo e a auto-salvação de Frodo são alcançadas pelas suas prévias piedade e perdão às injúrias. Em qualquer ponto, qualquer pessoa prudente teria dito a Frodo que Gollum iria certamente* traí-lo, e poderia roubá-lo no final. Ter piedade dele, refrear de matá-lo, foi mostra de tolice, ou uma crença mítica no derradeiro valor-próprio da piedade e generosidade, mesmo que desastroso no mundo àquele tempo. Ele de fato o roubou e feriu no final – mas por uma graça, aquela última traição deu-se em uma conjuntura precisa, quando a última ação do mal foi a mais benéfica que qualquer um poderia ter feito por Frodo! Por uma situação criada pela sua piedade, ele salvou a si mesmo e mitigou seu fardo. Ele foi muito justamente agraciado com as honras mais elevadas – visto que claramente ele e Sam nunca ocultaram a seqüência exata dos acontecimentos. Em um último julgamento acerca de Gollum, eu não me preocuparia em averiguar. Isso seria investigação “daquilo que compete a Deus”, como os medievais diziam. Gollum era digno de misericórdia, mas ele terminou em persistente maldade, e o fato de isso ter dado bons resultados não lhe é creditado. Sua prodigiosa coragem e resistência, tão grande quanto a de Frodo e Sam, ou maior, na medida em que foi usada para o mal, é nefasta, e não honorífica. Eu temo que, independentemente de nossas convicções, nós tenhamos de encarar o fato de que há pessoas que se rendam à tentação, rejeitam suas chances de nobreza ou salvação, e tornem-se condenáveis. Sua condenabilidade não é mensurável em termos macroscópicos (para onde isso pode ser bom). Mas nós todos que estamos no mesmo barco não devemos usurpar o Julgamento. A dominação do Anel era forte demais para a alma tão inferior de Sméagol. Mas ele nunca teria tido de suportá-la caso não tivesse se tornado um filho vil e ladrão antes que cruzasse seu caminho. Ela precisaria sempre ter cruzado seu caminho? Alguma coisa perigosa deve sempre cruzar nosso caminho? Alguma resposta poderia ser encontrada caso tentemos imaginar Gollum sobrepujando a tentação. A história teria sido muito diferente! Contemporizando, não fixando a vontade ainda não totalmente corrompida de Sméagol, inclinada para o bem no debate dentro da caverna de escória, ele enfraqueceu a si mesmo na última oportunidade, quando o começo da afeição por Frodo foi muito facilmente extinguido pelo ciúme de Sam, antes da toca de Laracna.

Não há referência especial à Inglaterra no Condado – exceto, é claro, que como um homem inglês que cresceu na aldeia quase rural de Warwickshire, nas fronteiras do próspera burguesia de Birmingham (por volta da época do Jubileu de Diamante!) Eu tomo meus modelos como qualquer outro – da vida como eu a concebo.Mas não há referência ao pós-guerra. Eu não sou um socialista de qualquer forma, quando eles conquistam poder, tornam-se muito nocivos – mas eu não diria que temos de sofrer a crueldade do Charcote e seus rufiões aqui. Embora o espírito de Isengard, se não Mordor, está sempre notadamente aparecendo inesperadamente. A presente intenção da Oxford sendo destruída para acomodar carros-motorizados é um exemplo [2]. Mas o nosso adversário principal é um membro de um Governo “Conservador”. Entretanto, você poderia aplicar isso a qualquer lugar, atualmente.

Sim: eu penso que os vitoriosos nunca podem usufruir da vitória – não nos termos que eles contemplaram; e na medida em que eles lutaram por algo para ser usufruído por eles mesmos (quer por aquisição ou mera preservação), menos satisfatória a vitória irá parecer. Mas a partida dos Portadores dos Anéis tem um outro lado, se nos referirmos aos Três. Há, é claro, uma estrutura mitológica por detrás dessa história. Ela foi, de fato, escrita primeiro, e talvez agora seja em parte publicada. Ela é, devo dizer, uma mitologia “sub-criacional” mas monoteísta. Não há encarnação do Um, ou Deus, que de qualquer maneira permanece afastado, fora do Mundo, e acessível diretamente apenas aos Valar ou Regentes. Eles ocupam o lugar dos “deuses”, mas são espíritos criados, ou aqueles de criação primária que por sua própria vontade entraram no mundo**. Mas o Um retém toda a autoridade principal, e (ou assim parece se visto em tempo em série) reserva o direito de introduzir o dedo de Deus na história: é assim para produzir realidades que não poderiam ser deduzidas mesmo de um completo conhecimento do passado prévio, mas cuja existência real torna-a parte do passado efetivo por todo tempo subseqüente (uma possível definição de um milagre). De acordo com a fábula, Elfos e Homens foram as primeiras dessas intrusões, criados, de fato, enquanto a história era apenas uma história e não realizada; eles não foram, portanto, em qualquer sentido, concebidos ou feitos pelos deuses, os Valar, e eram chamados de Eruhíni ou “Filhos de Eru”, e eram para os Valar um elemento incalculável: pois eram criaturas racionais de livre-arbítrio em relação a Deus, da mesma ordem histórica que os Valar, embora de muito inferiores poderes espirituais e intelectuais, e posição.

É claro que, de fato exteriores a minha história. Elfos e Homens são apenas aspectos diferentes do Humano, e representam o problema da Morte como visto por uma finita mas espontânea e auto-consciente pessoa. Nesse mundo mitológico, Elfos e Homens são em suas formas encarnadas, congêneres, mas em relação aos seus espíritos ao mundo no tempo, representam diferentes experimentações, cada um dos quais tendo sua própria tendência inata, e fraqueza. Os Elfos representam, assim como era, o artístico, o estético e puramente científico aspectos da natureza humana elevados a um nível superior em relação ao efetivamente visto nos Homens. Ou seja: eles têm um amor devotado do mundo físico, e um desejo de observar e compreendê-lo para sua própria consideração e como outro – sc. como uma realidade advinda de Deus no mesmo em que eles mesmos – não como material para usufruto ou como plataforma de poder. Eles também possuem uma faculdade sub-criacional ou artística de grande excelência. Eles são, por essa razão, imortais. Não eternamente, mas para perdurarem com e internamente ao mundo criado, enquanto sua história durar. Quando mortos, por ferimentos ou destruição de sua forma encarnada, eles não deixam o tempo, mas permanecem dentro do mundo, tanto desencarnados quanto sendo renascidos. Isso se torna um grande fardo à medida em que as estendem-se as eras, especialmente em um mundo no qual há maldade e destruição (eu não mencionei a forma mitológica em que a Maldade ou a Queda dos Anjos toma nessa fábula). Mera mudança como esta não é representada como mal: o desenrolar da história e a recusa a isto são, é claro, contrários ao desígnio de Deus. Mas a fraqueza élfica é, nesses termos, naturalmente para lamentar o passado, e para tornar relutante em face às mudanças: como se um homem odiasse um livro muito longo que ainda continua, e desejasse permanecer em seu capítulo favorito. Por essa razão eles caíram, em certa medida, nos estratagemas de Sauron: eles desejavam algum poder sobre as coisas como elas eram (que é totalmente diferente), para fazerem suas vontades particulares de preservação efetiva: interromper mudanças, e manter tudo permanentemente fresco e belo. Os Três Anéis eram imaculados, porque esses objetos eram, de determinada forma, bons; isso inclui a cura dos verdadeiros males da perversidade, assim como interrupção das mudanças; e os elfos não desejavam dominar outras vontades, ou usurpar todo o mundo para seu desfrute particular. Mas com a queda do Poder, seus pequenos esforços em preservar o passado foram feitos em pedaços. Não havia mais nada na Terra-Média para eles, a não ser fraqueza. Então, Elrond e Galadriel partiram. Gandalf é um caso especial. Ele não era o forjador ou portador original do Anel – mas foi dado a ele por Círdan, para ajudá-lo em sua tarefa. Gandalf estava retornando, seu labor e diligência terminaram, para sua casa, a terra dos Valar.

A passagem pelo Oceano não é a Morte. A mitologia é centrada nos elfos. De acordo com isso, houve inicialmente, de fato, um Paraíso Terrestre, lar e reino dos Valar como uma parte física da Terra.

Não há personificação do Criador em lugar algum desta história ou mitologia. Gandalf é uma pessoa criada; embora possivelmente um espírito que existia antes no mundo físico. Sua função enquanto um mago é de um mensageiro angélico dos Valar ou Regentes: auxiliar as criaturas racionais da Terra-Média a resistirem a Sauron, um poder grande demais para eles lidarem sem ajuda. Mas uma vez tendo em vista este conto e mitologia o Poder – quando domina ou pretende dominar outras vontades e mentes (exceto pelo assentimento de sua razão) – é mau, esses magos eram encarnados nas formas físicas da Terra-Média, e assim sofreram as dores tanto da mente quanto do corpo. Eles estavam também, pela mesma razão, envolvidos no risco dos encarnados: a possibilidade da queda, ou pecado, se preferir. A principal forma que isso assumiria com eles seria a impaciência, levando ao desejo de compelir outros a seus próprios bons finais, e então inevitavelmente afinal ao mero desejo de tornar suas próprias vontades reais por quaisquer meios. Saruman sucumbiu a este mal. Gandalf, não. Mas a situação tornou-se tão grave pela queda de Saruman que o bem foi obrigado a um maior esforço e sacrifício. Assim, Gandalf enfrentou e sofreu a morte; e retornou ou foi enviado de volta, como ele diz, com poder aumentado. Mas embora alguém possa nisto ser lembrado dos Evangelhos, não é na realidade, exatamente a mesma coisa. A Encarnação de Deus é algo infinitamente maior do que algo sobre o qual eu me atreveria a escrever. Aqui eu estou apenas interessado na Morte como parte da natureza, física e espiritual do Homem, e com a Esperança sem garantias. É por essa razão que eu me refiro ao conto de Arwen e Aragorn como o mais importante dos Apêndices; ele é um panorama do essencial na história, e apenas está lá descrito porque não poderia ser inserido na narrativa principal sem destruir sua estrutura: que é planejada para ser centrada nos hobbits, o que é primariamente, um estudo do enobrecimento (ou santificação) dos humildes.

[Nenhum dos esboços dos quais este texto foi montado foi completado.]

Notas:

[1] Mas veja nota 5 no número 131. [N. do T.: A referida nota diz: “Como cartas mais antigas neste livro mostram, O Senhor dos Anéis foi iniciado, de fato, em dezembro de 1937"].

[2] Uma referência a proposta de uma estrada de ‘alívio’ pelo prado da ‘Christ Church’. * Não por completo ‘certamente’. O desajeitamento na fidelidade de Sam foi o que finalmente levou Gollum por sobre o precipício, quando estava prestes a arrepender-se. ** Eles partilharam em sua ‘criação’, mas apenas nos mesmos termos em que nós ‘fazemos’ uma obra de arte ou história. Esta realização, a forma como é dada realidade a essa criação do mesmo grau de si mesmos, foi o ato de Deus Único.

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Carta #214

[Uma resposta para um leitor que mostrou uma aparente contradição em O Senhor dos Anéis: que no capítulo ´ Uma Festa Muito Esperada´ é declarado que ´Hobbits dão presentes a outras pessoas em seus próprios aniversários; contudo Gollum se refere ao Anel como seu ´presente de aniversário´, e conforme ele adquiriu-o, no capítulo ´ A Sombra do Passado´, indica que seu povo recebia presentes em seus aniversários. A carta do Sr. Nunn continuava: ´Então, uma das seguintes alternativas deve ser verdadeira: (1) o povo de Sméagol não era "do tipo hobbit " como sugerido por Gandalf (I pág. 62); (2) o costume Hobbit de dar presentes só fora desenvolvido à pouco tempo; (3) os costumes dos Stoors [o povo de Sméagol-Gollum] eram diferentes daqueles dos outros Hobbits; ou (5) [sic] há um erro no texto. Eu ficarei muito grato se você puder dispensar um tempo para empreender alguma pesquisa sobre esse assunto importante.]

[Não datado; provavelmente entre 1958 e 1959.]

Caro Sr. Nunn,

Eu não sou um modelo de erudição; mas no assunto da Terceira Era eu me considero um ´arquivo´ vivo. As falhas que possam aparecer em meu registro são, eu acredito, em nenhum caso devido a erros, que são declarações do que não é verdade, mas omissões e falta de informação, principalmente devido à necessidade de compressão, e na tentativa de introduzir informação ´en passant´ no curso de narrativa que naturalmente tendeu a omitir muitas coisas que não afetam diretamente o conto.

No assunto de costumes de aniversário e as discrepâncias aparentes que você nota, podemos então, eu penso, descartar suas alternativas (1) e (5). Você omite (4).

Com respeito a (1) Gandalf certamente diz no princípio ´ eu suponho´ (pág. 62); mas isso está de acordo com seu caráter e sabedoria. Em idioma mais moderno teria dito ele ´eu deduzo´, se referindo a assuntos que não estavam sujeitos a sua observação direta, mas em qual ele tinha formado uma conclusão baseada em estudo. (Você observará no Apêndice B que os Magos não vieram logo antes do primeiro aparecimento de Hobbits em qualquer registro, sendo que nesse tempo eles já eram divididos em três classes marcantes). Mas ele de fato não duvidou de sua conclusão ´ é na verdade tudo igual, etc. ´ (pág. 63).

Sua alternativa (2) seria possível; mas desde que o registro diz na pág. 35 Hobbits (o qual ele usa qualquer que seja sua origem, como o nome para a raça inteira), e não os Hobbits do Condado, ou povo do Condado, deve-se supor que ele queira dizer que o costume de dar presentes era de alguma forma comum a todas as variedades, inclusive Stoors. Mas desde que sua alternativa (3) seja naturalmente verdade, nós poderíamos esperar enraizado mesmo assim um costume a ser exibido de modo bastante diferente em classes diferentes. Com a reemigração do Stoors de volta para Wilderland em 1356 da T.E., todo o contato entre este grupo retrógrado e os antepassados do povo do Condado estava rompido. Mais de 1100 anos passaram-se antes do Incidente de Déagol-Sméagol (c. 2463). À época da Festa em 3001 da T.E., quando os costumes do povo do Condado são superficialmente reportados à medida que eles afetam a história, o intervalo de tempo era quase 1650 anos.

Todos os Hobbits eram lentos no que diz respeito a mudanças, mas os reemigrantes Stoors estavam regressando para uma vida mais selvagem e mais primitiva de pequenas e decrescentes[1] comunidades; enquanto o povo do Condado nos 1400 anos de sua ocupação tinham desenvolvido uma vida social mais organizada e elaborada, na qual a importância da relação familiar para seus sentimentos e costumes foram fortalecidas através de tradições detalhadas, escritas e orais.

Embora eu tenha omitido qualquer dissertação sobre esse curioso mas característico fato de seu comportamento, os fatos relativos ao Condado poderiam ser mostrados em alguns detalhes. Os Stoors do beira-rio devem, naturalmente, permanecer mais conjeturais.

´Aniversários´ tinham uma importância social considerável. Uma pessoa que celebra seu aniversário era chamada um ribadyan (que pode ser traduzido de acordo com o sistema descrito como um aniversariante). Os costumes ligados aos aniversários tinham, embora profundamente arraigados, tornado-se regulamentados por uma etiqueta bastante rígida; e em conseqüência estavam em muitos casos reduzidos a formalidades: como realmente sugerido por ´ não muito caros como regra´ (pág. 35); e especialmente através da pág. 46 11. 20-26. Com respeito a presentes: em seu aniversário o ´ aniversariante´ tanto dava como recebia presentes; mas os processos eram diferentes em origem, função, e etiqueta. A recepção foi omitida pelo narrador (uma vez que não dizia respeito a Festa) mas era de fato o costume mais velho, e conseqüentemente o mais formal. (Isso diz respeito ao incidente de Sméagol-Déagol, mas o narrador, sendo obrigado reduzir isto para seus elementos mais significantes, e a colocá-lo na boca de Gandalf que fala a um hobbit, naturalmente não fez nenhum comentário sobre um costume que o hobbit (e nós) deveria considerar natural em relação a aniversários.)

Recebimento de presentes: este era um ritual antigo ligado com parentesco. Era originalmente um reconhecimento da ligação do aniversariante de uma família ou clã, e uma comemoração de sua ´incorporação´ formal. [2] Nenhum presente era dado por pai ou mãe para suas crianças em seus (das crianças) aniversários (exclua nos casos raros de adoção); mas era de se supor que o chefe renomado da família desse algo, ao menos como ´lembrança´.

Dando presentes: era uma questão pessoal, não limitada a parentesco.

Era uma forma de ´agradecimento´, e tomada como um reconhecimento de serviços, benefícios, e amizade demostrada, especialmente no último ano decorrido.

Pode ser observado que Hobbits, assim que eles se tornassem ´faunts´ (isso é falantes e andantes: normalmente acontecia no terceiro aniversário deles) davam presentes aos seus pais. Supõe-se que estes eram ´confeccionados´ pelo doador (ou seja: achado, cultivado, ou feito pelo ´aniversariante´), começando em crianças pequenas com buquês de flores selvagens. Esta pode ter sido a origem dos presentes de ´agradecimento´ de distribuição mais ampla, e a razão por que permaneceu ´correto´ no Condado tanto para presentes sendo coisas pertencentes ou produzidas pelo doador. Exemplares de produtos de seus jardins ou artesanato tornaram-se os ´presentes dados´ habituais, especialmente entre os Hobbits mais pobres.

Na etiqueta de Condado, à data da Festa, a ´expectativa de recebimento´ era limitada a primos em segundo grau ou parentes mais próximos, e para os residentes dentro de 12 milhas[3]. Até mesmo aos amigos íntimos (se não aparentados) não era ´esperado´ dar, embora pudesse ocorrer. Os limites das residência do Condado era obviamente uma conseqüencia bastante recente da separação gradual das comunidades e famílias aparentadas, e dispersão de parentes, sob condições a muito tempo organizadas. O presente de aniversário recebido(nenhuma dúvida quanto ser uma relíquia dos costumes de pequenas famílias antigas) deve ser entregue pessoalmente, exatamente na véspera do Dia, ou mais tardar antes do ‘nuncheon’ no Dia do Aniversário. Eles eram recebidos reservadamente pelo ´aniversariante´; e era muito impróprio exibi-los separadamente ou em conjunto – justamente para evitar algum embaraço, como pode acontecer em nossas exibições de presentes de casamento (que teria horrorizado o povo do Condado)[4]. O doador poderia dar o presente em uma bolsa e demonstrar sua afeição sem incorrer em comentário público ou ofender (qualquer um) qualquer outro além do recebedor. Mas o costume não exigia presentes caros, e um Hobbit ficaria mais prontamente lisonjeado e encantado por um presente inesperadamente ´bom´ ou desejável que ofendido por uma habitual lembrança de boa-fé da família.

Um sinal disto pode ser visto no relato de Sméagol e Déagol – modificado pelos caráteres individuais destes seres bastante infelizes. Déagol, evidentemente um parente (como sem dúvida eram todos os membros da pequena comunidade), já tinha dado seu presente habitual à Sméagol, embora eles provavelmente tenham partido em sua expedição de manhã bem cedo. Sendo uma alma pequena e má, ele invejou-o. Sméagol, sendo pior e mais avarento, tentou usar o ´aniversário´ como uma desculpa para um ato de tirania. ´Porque eu o quero´ era a declaração franca de sua principal intenção. Mas ele também sugeriu que o presente de Déagol era uma lembrança pobre e insuficiente: em conseqüência Déagol replicou que pelo contrário, aquilo era mais que ele poderia dispor.

A distribuição de presentes pelo ´aniversariante´ – deixando de lado o caso de presentes para pais[5], mencionado acima – sendo pessoal e uma forma de agradecimento, variava muito mais em forma em tempos e lugares diferentes, e de acordo com a idade e importância do ´aniversariante´. O mestre e mestra de uma casa ou toca, no Condado, daria presentes a todos sob seu teto, ou a seu serviço, e normalmente também a vizinhos próximos. E eles poderiam estender a lista como bem entendessem, lembrando-se de quaisquer favores especiais durante o último ano. Era entendido que a oferta de presentes não era firmada por regra; embora a recusa em dar um presente habitual (como por exemplo para uma criança, um criado, ou um vizinho próximo de porta) era tomada como uma repreensão e marca de desgosto severo. Adolescentes e hóspedes (que não têm casa própria) não tinham tais obrigações como os donos da casa; mas eles normalmente davam presentes de acordo com sua posses e afetos. ´Não muito caro como regra´ – aplicados à todos os presentes. Bilbo era tanto nisto como em outros assuntos uma pessoa excepcional, e a Festa dele era até mesmo uma absurdo de generosidade para um Hobbit rico. Mas uma das cerimônias mais comuns de aniversário era dar uma ´festa´ – na noite do Dia do Aniversário. Para todos aqueles convidados eram dados presentes pelo anfitrião, que eram esperados, como parte do entretenimento (sendo secundária a comida oferecida). Mas eles não trouxeram presentes com eles. O povo do Condado teria pensado que seria muito impróprio. Se os convidados já não tivessem dado um presente (sendo um daqueles exigido pelo parentesco), era tarde demais. Para outros convidados seria uma coisa ´não feita´ – pareceria como se estivessem pagando a festa ou comparando festa e presente, e isso era muito embaraçoso. Às vezes, no caso de um amigo muito querido estar impossibilitado vir a uma festa (por causa de distância ou outras causas) um convite simbólico seria enviado com um presente. Neste caso o presente era sempre algo que comer ou beber, com propósito de ser uma amostra do bufê da festa.

Eu acho que será notado que todos os detalhes registrados como ´fatos´ ajustam-se a um quadro definido de sentimento e costume, entretanto este quadro não é esboçado até mesmo na forma incompleta desta nota. Poderia, claro, ter aparecido no Prólogo: por exemplo no meio da pág. 12. Mas embora eu tenha cortado uma grande parte, aquele Prólogo ainda é muito longo e sobrecarregou até mesmo a esses críticos que permitam que tenha algum uso, e não faz (como alguns) avisos aos leitores para esquecê-lo ou saltá-lo.

Incompleto como é, esta nota pode parecer a você muito muito longa; e embora você tenha pedido, é mais do que você perguntou. Mas eu não vejo como eu poderia ter respondido suas questões mais brevemente e de um modo que pudesse satisfazer os elogios que você me faz em ter um interesse em Hobbits suficiente para preencher a lacuna na informação fornecida.

Porém, o fornecimento de informação sempre abre vistas adicionais; e você verá indubitavelmente que o breve relato de ´presentes´ ainda abre mais assuntos antropológicos implícitos para tais termos como parentesco, família, clã, e assim por diante. Eu aventuro-me a somar uma nota adicional neste ponto, para que não, considerando o texto a luz de minha resposta, você deva senti-se inclinado a investigar mais adiante sobre a ´avó de Sméagol´, a qual Gandalf descreve como uma regente (de uma família de reputação alta, grande e mais rica que a maioria, pág. 62) e até mesmo a chama de uma ´ matriarca´ (pág. 66).

Até onde eu sei Hobbits eram universalmente monógamo (realmente eles muito raramente casavam uma segunda vez, até mesmo se esposa ou marido morressem muito jovens); e eu deveria dizer que seus arranjos familiares eram ´patrilinear´ em lugar de patriarcal. Quer dizer, seus nomes de família descenderam em uma linha-masculina (as mulheres adotavam os nomes dos maridos); também o chefe titular da família normalmente era o macho mais velho. No caso de grandes famílias poderosas (como o Tûks), ainda coerente até mesmo quando eles tinham ficado muito numerosos, e mais o que nós poderíamos chamar clãs, o chefe era corretamente o macho mais velho que era considerado a linha mais direta da descendência. Mas o governo de uma ´ família´, como uma unidade real : o ´lar´, não era uma monarquia (exceto por acidente). Era um ´ duarquia´ no qual o mestre e mestra tinham posições sociais iguais, talvez com funções diferentes. A qualquer um era assegurado o direito de ser o representante formal do outro no caso de ausência (inclusive morte). Não havia ´ viúvas dotadas´. Se o mestre morresse primeiro, o lugar dele era tomado pela esposa, e isto incluiu (se ele tivesse assegurada aquela posição) a chefia titular de uma grande família ou clã. Este título não descenderia ao filho, ou a outro herdeiro, enquanto ela vivesse, a menos que ela abdicasse voluntariamente[6]. Poderia, então, acontecer em várias circunstâncias que uma mulher de idade avançada de caráter forte permanecesse ´chefe do família´, até que ela tivesse os netos crescidos.

Laura Bolseiro (neé Grubb) permaneceu ´chefe´ da família dos ´Bolseiros de Hobbiton´, até seus 102 anos. Como ela era 7 anos mais jovem que seu marido(que morreu com a idade de 93 em RC-1300), ela manteve esta posição durante 16 anos, até RC-1316; e seu filho Bungo não se tornou ´chefe´, até ele ter 70, dez anos antes que ele morresse com a prematura idade de 80. Bilbo não o sucedeu até a morte de sua mãe Tûk, Beladona, em 1334, quando ele tinha 44.

A liderança dos Bolseiros então, devido aos eventos estranhos, entra em dúvida. Otho Sacola-Bolseiros era o herdeiro a este título – totalmente aparte de questões de propriedade que teriam surgido se seu primo Bilbo tivesse morrido intestado; mas depois do fiasco legal de 1342 (quando Bilbo retornou vivo depois de ser ´dado como morto´) ninguém ousou presumir a morte dele novamente. Otho morreu em 1412, seu filho Lotho foi assassinado em 1419, e sua esposa Lobelia morreu em 1420. Quando Mestre Samwise informou a ‘partida para o Mar´ de Bilbo (e Frodo) em 1421, ainda sim foi impossível presumir morte; e quando Mestre Samwise tornou-se Prefeito em 1427, uma regra foi feita que: ´se qualquer habitante do Condado for para o Mar na presença de uma testemunha fidedigna, com a intenção expressa de não retornar, ou em circunstâncias que impliquem tal intenção claramente, ele ou ela será julgado para que seja renunciado todos os títulos de direito ou propriedades previamente assegurados ou ocupados, e o herdeiro ou os herdeiros deles entrarão em seguida de posse destes títulos, direitos ou propriedades, como é ordenado por costume estabelecido, ou pelo testamento e disposição do morto, como o caso possa requerer. Presumivelmente o título de ´chefe´ passou então aos descendentes de Ponto Bolseiro – provavelmente Ponto (II).

Um caso famoso, também, era o de Lalia a Grande (ou menos cortesmente a Gorda). Fortinbras II, uma vez chefe dos Tûks e Thain, casou com Lalia dos Clayhangers em 1314, quando ele tinha 36 e ela 31. Ele morreu em 1380 aos 102 anos, mas ela viveu longamente após ele, tendo um fim triste em 1402 com a idade de 119. Assim ela comandou os Tûks e Os Grandes Smials durante 22 anos, um grande e memorável, se não universalmente amado, ´matriarcado´. Ela não estava na famosa Festa (RC-1401), foi assim aconselhada não só por seu grande tamanho e imobilidade, como também pela idade. O filho dela, Ferumbras, não teve nenhuma esposa, sendo incapaz (como alegava) de achar qualquer um que quisesse ocupar apartamentos nos Grandes Smials, sob o comando de Lalia. Lalia, em seus últimos e mais gordos anos, tinha o costume de ser levada na cadeira de rodas para a Grande Porta, para tomar ar nas manhãs agradáveis. Na primavera de RC 1402, sua desajeitada assistente deixou a pesada cadeira correr além da soleira, derrubando Lalia degraus abaixo, indo parar no jardim. Assim terminou um reinado e vida que poderiam bem ter rivalizado com o do Grande Tûk.

Eram grandes os rumores que a assistente era Pérola (a irmã de Pippin), entretanto os Tûks tentaram manter o assunto dentro da família. Na celebração de ascensão de Ferumbras o desgosto e pesar da família foram expressos formalmente pela exclusão de Pérola da cerimônia e banquete; mas não escapou a notícia que mais tarde (depois de um intervalo decente) ela apareceu com um colar esplêndido com as jóias que lhe davam seu nome, que a muito havia pertencido aos bens dos Thains.

Costumes eram diferentes em casos onde o ´chefe´ morria sem deixar nenhum filho. Na família Tûk, desde que o comando era também ligado ao título e (originalmente militar) cargo de Thain[7], a descendência era estritamente através da linhagem masculina. Em outras grandes famílias o comando poderia passar por uma filha do finado direto ao neto primogênito deste (independente da idade da filha). Este último costume era habitual em famílias de origem mais recente, sem registros antigos ou mansões ancestrais. Em tais casos o herdeiro (se ele aceitasse o título de cortesia) toma o nome de família de sua mãe – embora ele freqüentemente tomasse o da família de seu pai também (colocado em segundo). Este era o caso com Otho Sacola-Bolseiro. O comando nominal dos Sacolas tinha vindo através de sua mãe Camélia. Era sua ambição, bastante absurda, alcançar a distinção rara de ser ´chefe´ de duas famílias (ele provavelmente teria se chamado então Bolseiro-Sacola-Bolseiro): uma situação que explicará sua exasperação com as aventuras e desaparecimentos de Bilbo, totalmente aparte de qualquer perda de propriedade envolvida na adoção de Frodo.

Eu acredito que foi um ponto discutível na tradição Hobbit (o qual a decisão do Prefeito Samwise preveniu de ser discutida neste caso de particular) se ´adoção´ por um ´chefe´ sem filhos poderiam afetar a descendência do comando. Era concordado que a adoção de um membro de uma família diferente não pudesse afetar o comando, sendo uma questão de sangue e parentesco; mas havia uma opinião que adoção de um parente íntimo do mesmo nome[8] antes que ele fosse de maior idade, o habilitava a ter todos os privilégios de um filho. Esta opinião (mantida por Bilbo) foi contestada naturalmente por Otho.

Não há nenhuma razão para supor que os Stoors de Wilderland tivessem desenvolvido um sistema estritamente ´matriarcal´, chamando corretamente. Nenhuma pista de tal coisa foi achada entre o elemento Stoor em Eastfarthing e Buckland, entretanto eles mantinham várias diferenças de costumes e leis. O uso de Gandalf (ou propriamente seu relato e o uso do tradutor) da palavra ´matriarca´ não era ´antropológico´, mas significava simplesmente uma mulher que de fato comandou o clã. Nenhuma dúvida que ela tinha sobrevivido ao marido e era uma mulher de caráter dominante.

É provável que, no recessivo e decadente território Stoor de Wilderland, a tribo de mulheres (como freqüentemente será observado em tais condições) tendeu a preservar melhor o caráter físico e mental do passado, e assim tornou-se de importância especial. Mas não é (eu penso) suposto que qualquer mudança fundamental em seus costumes matrimoniais tenham acontecido, ou qualquer tipo de sociedade matriarcal ou poliândrica desenvolveu-se (embora isto pudesse explicar a ausência de qualquer referência ao pai de Sméagol-Gollum). ´Monogamia´ era praticada universalmente neste período no Oeste, e outros sistemas eram vistos com repugnância, como coisas só feitas ´sob a Sombra´.

Eu na verdade comecei esta carta quase quatro meses atrás; mas nunca foi terminada. Logo após ter recebido seus questionamentos minha esposa, que tinha estado doente a maior parte de 1958, celebrou o retorno da saúde com uma queda no jardim, esmagando seu braço esquerdo tão gravemente que ela ainda está incapacitada e engessada. Assim 1958 foi um ano quase completamente frustrado, e com outros problemas, e a iminência de minha aposentadoria que envolve muitas reestruturações, eu não tive nenhum tempo para trabalhar no Silmarillion. Muito embora eu deseje fazê-lo (e, felizmente, Allen e Unwin também parecem querer o mesmo).

[O rascunho termina aqui.]

Notas

[1] entre 2463 e o começo dos questionamentos especiais de Gandalf com relação ao Anel (quase 500 anos depois) eles aparecem ter desaparecido completamente(exceto, é claro, para Sméagol); ou ter fugido da sombra de Dol Guldur.

[2] Antigamente isto aconteceu aparentemente, logo após nascimento, pelo anúncio do nome da criança para a família agregada, ou em comunidades maiores e mais elaboradas para o ´chefe´ titular´ do clã ou família. Veja nota no fim.

[3] Conseqüentemente a expressão Hobbit ´um primo de doze-milhas´ para uma pessoa excluída pela lei, e não é reconhecida nenhuma obrigação além de sua interpretação precisa: aquele que não daria à você nenhum presente se a distância do degrau de entrada dele para seu não estivesse abaixo de 12 milhas (de acordo com a própria medida dele).

[4] Nenhum presente era dado no ou durante a celebração de casamentos de Hobbits, exceto flores (casamentos eram realizados principalmente na Primavera ou nas manhãs do Verão). Ajuda em mobiliar uma casa (se o casal fosse ter uma em separado, ou apartamentos privados em um Smial) era dada muito antes pelos pais de qualquer lado.

[5] Em comunidades mais primitivas, como aquelas ainda vivendo em clã-smials, o aniversariante também fazia um presente para o ´chefe da família´. Não há nenhuma menção dos presentes de Sméagol. Eu imagino que ele era um órfão; e não suponho que ele desse qualquer presente em seu aniversário, guardava (de má vontade) o tributo para sua ´avó´, provavelmente peixe. Um das razões, talvez, para a expedição. Teria sido como Sméagol dar peixe, mas de fato pego por Déagol!

[6] Nós estamos aqui só tratando com ´chefe´ titular não com possessão de propriedade, e sua administração. Estas eram questões distintas; embora no caso da sobrevivência das ´grandes casas´, como Grande Smials ou Salas de Brandy, elas poderiam sobrepor. Em outros casos o comando, sendo um mero título e um assunto de cortesia, era naturalmente raro ser renunciado pelo herdeiro.

[7] Este título e ocupação descendem imediatamente, e não foi mantido por uma viúva. Mas Ferumbras, embora ele se tornasse Thain Ferumbras III em 1380, ainda sim ocupou nada mais que um pequeno apartamento de um filho solteiro no Grande Smials, até as 1402.

[8] os descendentes de um bisavô comum do mesmo nome.