Arquivo da categoria: Cartas de J.R.R. Tolkien

Carta #25

[Em 16 de janeiro de 1938, o Observer publicou uma carta, assinada “Habit" (N.T.: Hábito, em inglês), perguntando se os hobbits poderiam ter sido sugeridos a Tolkien pelo relato de Julian Huxley sobre os ‘“pequenos homens peludos" vistos na África, por nativos e .... pelo menos um cientista’. O escritor da carta também mencionava que um amigo dissera que ‘ela se recordava de um velho conto de fadas chamado “O Hobbit", em uma coleção lida por volta de 1904’, na qual a criatura que tinha esse nome era “definitivamente assustadora". O(a) escritor(a) perguntou se Tolkien poderia “nos dizer um pouco mais sobre o nome e criação do intrigante herói deste livro. .... Muitos estudantes de pesquisa das próximas gerações ficariam livres de muito trabalho. E, aliás, estaria o furto da taça do dragão por parte do hobbit baseado no episódio do roubo da taça em Beowulf? Espero que sim, já que um dos charmes do livro parece ser sua harmonização Spenseriana das brilhantes linhas de tantas ramificações da literatura épica, mitológica e de contos de fada vitorianos’. A resposta de Tolkien, ainda que não com a intenção de ser publicada (veja a conclusão da nº 26), foi impressa no Observer em 20 de fevereiro de 1938.]

Senhor, – não preciso de persuasão: sou tão suscetível à bajulação quanto um dragão, e exibiria meu colete de diamantes, e até mesmo discutiria suas fontes, já que Habit (mais inquisitivo do que o Hobbit) não apenas professou admirá-lo, mas também perguntou de onde eu o tirei. Mas não seria isso deveras injusto para com os estudantes de pesquisa? Livrá-los do trabalho é tirar deles qualquer desculpa para existirem.

No entanto, em relação à pergunta principal de Habit, não há perigo: Eu não lembro de nada sobre o nome e a criação do herói. Eu poderia supor, é claro, mas as suposições não teriam mais autoridade do que as feitas pelos futuros pesquisadores, então deixo a brincadeira para eles.

Eu nasci na África, e li muitos livros sobre a exploração africana. Desde 1896, eu tenho lido mais livros ainda sobre contos de fadas do tipo genuíno. Ambos os fatos citados pelo Hábito parecem ser, portanto significantes.

Mas são mesmo? Eu não me lembro de pigmeus peludos (em livros ou à luz da lua); nem de qualquer hobbit bicho-papão impresso em 1904. Suspeito que os dois hobbits sejam homófonos, e fico satisfeito que não sejam (ao que parece) sinônimos. E faço a objeção de que meu hobbit não vivia na África, e não era peludo, exceto na área dos pés. E de fato não era como um coelho. Ele era um próspero e bem-alimentado solteiro de meios independentes. Chamá-lo de “pequeno coelho desagradável” é um pouco de gozação vulgar, assim como “descendente de ratos” é um pouco da malícia dos Anões – insultos deliberados à sua altura e pés, que o magoaram profundamente. Seus pés, se convenientemente revestidos e abrigados pela natureza, eram tão elegantes quanto seus dedos longos e astutos.

Quanto ao resto do conto, ele é, conforme Habit sugere, derivado (previamente condensado) de épico, mitologia e conto-de-fadas – mas não vitoriano em sua autoria, conforme a regra da qual George Macdonald é a única exceção. Beowulf está entre as minhas mais estimadas fontes; embora não estivesse conscientemente presente na mente no processo de escrever, no qual o episódio do furto surgiu naturalmente (e quase inevitavelmente) das circunstâncias. É difícil imaginar qualquer outro modo de conduzir a história naquele ponto. Eu acredito que o autor de Beowulf diria quase a mesma coisa.

Meu conto não está conscientemente baseado em nenhum outro livro – exceto um, e este não está publicado: o ‘Silmarillion’, uma história dos Elfos, aos quais alusões freqüentes são feitas. Não pensei nos futuros pesquisadores; e como há apenas um manuscrito, parece que, no momento, há poucas chances de que esta referência se torne útil.

Mas estas questões são meramente preliminares. Agora que me fizeram ver que as aventuras do Sr. Bolseiro serão objeto de futuros questionamentos, me dou conta de que muito trabalho será necessário. Há a questão da nomenclatura. Os nomes dos Anões, e dos magos, são do Antigo Edda. Os nomes de hobbits vêm das Fontes Óbvias próprias de sua espécie. A lista completa de suas famílias mais abastadas é: Bolseiro, Boffin, Bolger, Bracegirdle, Brandybuck, Burrowes, Chubb, Grubb, Horblower, Proudfoot, Sackville e Took. O dragão tem um nome – um pseudônimo – o passado do verbo Germânico primitivo Smugan, que é espremer-se por um buraco: uma mera brincadeira filológica. O resto dos nomes são do Mundo Antigo e Élfico, e não foram modernizados. E por que dwarves? A Gramática prescreve dwarfs, a filologia sugere que dwarrows seria a forma histórica. A verdadeira resposta é que eu não sabia melhor. Mas dwarves vai bem com elves, e, de qualquer forma, elf, gnome, goblien, dwarf são apenas traduções aproximadas dos nomes em Antigo Élfico para seres de tipos e funções não exatamente os mesmos.

Estes anões não são os mesmos anões de histórias mais conhecidas. Eles receberam nomes escandinavos, é verdade; mas isto é uma concessão editorial. Nomes em demasia nas línguas próprias do período tornariam-se algo alarmante. A língua dos Anões era tanto complicada quanto sofria de cacofonia. Mesmo os primeiros filólogos Élficos a evitavam, e os Anões eram obrigados a usar outras línguas, exceto nas conversas inteiramente privadas. A língua dos hobbits era notavelmente semelhante ao inglês, como era de se esperar: eles viviam apenas nas fronteiras do Mundo Selvagem, e não estavam totalmente a par disso. Os nomes de família permaneceram, na maioria, tão conhecidos e respeitados com justiça nesta ilha quanto o eram na Vila dos Hobbits e Beirágua.

Há o assunto das Runas. Aquelas usadas por Thorin e Cia., para razões especiais, estavam contidas em um alfabeto de 32 letras (lista completa sob pedido), similar, mas não idêntico, às Runas de inscrições Anglo-saxônicas. Há, sem dúvida, uma conexão histórica entre os dois. O alfabeto Feanoriano, geralmente usado naquela época, tinha origem Élfica. Aparece na maldição inscrita no pote de ouro, no desenho da morada de Smaug, mas foi diversamente transcrito (um facsimile da carta original, deixada sobre o consolo da lareira, pode ser providenciada). E o que dizer das Charadas? Há trabalho a ser feito aqui nas fontes e analogias. Não seria nenhuma surpresa para mim se tanto o hobbit quanto Gollum fossem desaprovados em sua pretensão de ter inventado qualquer uma delas.

Finalmente, presenteio o futuro pesquisador um pequeno problema. O conto parou em seu relato por cerca de um ano em dois pontos separados: onde estão? Mas, provavelmente, isto teria sido descoberto de qualquer maneira. E, de repente, me lembrei que o hobbit pensou “Velho tolo”, quando o dragão sucumbiu à palavras lisonjeiras. Temo que o comentário de Habit (e seu) já será o mesmo. Mas você deve admitir que a tentação era grande. Atenciosamente, etc, J.R.R. Tolkien.

Carta #181

[Antes de escrever uma resenha de O Senhor dos Anéis, Michael Straight, o editor do New Republic, escreveu para Tolkien fazendo algumas perguntas: primeiro, se havia um significado no papel de Gollum na história e na falha moral de Frodo no clímax; em segundo, se o capítulo O Expurgo do Condado era especialmente dirigido à Inglaterra contemporânea; e em terceiro, por que os outros viajantes deveriam partir dos Portos Cinzentos com Frodo ao final do livro - É assim devido à mesma razão pela qual há aqueles que conquistam a vitória mas não podem desfrutá-la?]

[Não datada; provavelmente de Janeiro ou Fevereiro de 1956] Caro Sr. Straight,

Obrigado pela sua carta. Eu espero que você tenha se divertido com O Senhor dos Anéis? Divertido é a palavra-chave. Pois ele foi escrito para entreter (em seu sentido mais elevado): para que a leitura seja agradável. Não há ‘alegoria’ moral, política ou contemporânea em todo o trabalho.

Ele é um “conto de fadas”, mas um escrito – de acordo com a convicção que certa vez exprimi em um extenso ensaio chamado On fairy-stories que eles são a audiência apropriada – para adultos. Porque eu acredito que contos de fadas têm sua própria forma de refletir a verdade, diferentemente de alegoria, ou (sustentada) sátira, ou realismo, e em certos aspectos mais poderosa. Mas antes de tudo deve proceder apenas como um conto, excitar, deleitar, e em alguma ocasião comover, e internamente a seu próprio mundo imaginário, estar de acordo (literariamente) ao seu propósito. Ser bem sucedido nisso era o meu objetivo primário.

Mas, evidentemente, se alguém decide se dirigir a adultos (mentalmente adultos, em qualquer caso), eles não serão excitados, deleitados ou comovidos ao menos que o todo, ou os incidentes, pareçam ser sobre algo que mereça consideração, mais exemplos que mero perigo e fuga: deve haver alguma relevância à situação humana (de todos os períodos). Então, algo das próprias reflexões e valores do contador de histórias irá, inevitavelmente, estar inserido no trabalho. Isso não é o mesmo que alegoria. Nós todos, em grupos ou como indivíduos, exemplificamos princípios gerais; mas nós não os representamos. Os Hobbits não são maior alegoria do que são (digamos) os pigmeus da Floresta Africana. Gollum, para mim, é apenas um personagem – alguém imaginado – que garantiu que a situação agisse mais ou menos sob forças opostas, como se parecesse para ele que provavelmente agiria (há sempre um elemento incalculável em qualquer indivíduo real ou imaginário: de outra forma ele/ela não seria uma individualidade mas um tipo.)

Eu vou tentar e responder suas questões específicas. A cena final da Demanda se deu daquela forma simplesmente porque em relação à situação, e com o caráter de Frodo, Sam e Gollum, aqueles acontecimentos a mim pareceram mecanicamente, moralmente e psicologicamente críveis. Mas, é claro, caso você deseje mais reflexão eu devo dizer que internamente ao desenvolvimento da história, a catástrofe exemplifica (um aspecto das) palavras familiares: Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.

“Não nos deixeis cair em tentação” é o pedido mais difícil e o menos freqüentemente considerado. A visão, nos termos da minha história, é de que mesmo todo acontecimento ou situação tem (ao menos) dois aspectos: a história e o desenvolvimento do indivíduo (isto é algo a partir do qual ele pode tirar proveito, proveito fundamental, para si mesmo, ou falhar na tentativa de fazê-lo), e a história do mundo (que depende de suas ações para sua própria causa) – contudo, há situações anormais em que alguns podem ser relacionados. Situações de sacrifício, eu devo chamá-las: posições sacrificais nas quais o bem do mundo depende da conduta de um indivíduo em circunstâncias que necessitem do seu sofrimento e resistência muito além do normal – até mesmo, pode ocorrer (ou assim parece, humanamente falando), exijam uma força física e mental as quais ele não possui: ele está, de certa forma, fadado a fracassar, condenado a cair em tentação ou falhar pela pressão contra sua vontade: isso é, contra qualquer escolha que ele poderia fazer ou teria feito acorrentado, não sob coação.

Frodo estava em tal posição: uma armadilha completa, aparentemente: uma pessoa de poder natural maior nunca poderia, provavelmente, ter resistido à tentação do Anel por tanto tempo; alguém com menor poder não deveria esperar poder resisti-lo na decisão final. (Uma vez que Frodo não havia se mostrado disposto a danificar o Anel antes de partir em viagem, e era incapaz de entregá-lo a Sam.)

A Jornada estava fadada a falhar enquanto uma parte de um plano mundial, e também atada a terminar em desastre enquanto a história do desenvolvimento do humilde Frodo ao nobre, sua santificação. Ela falharia, e falhou, enquanto concernisse a Frodo, considerando-o sozinho. Ele “apostatizou” – e eu recebi uma carta irada, bradando que ele deveria ter sido executado como um traidor, não honrado. Acredite em mim, não foi até eu ter lido isto que tive eu mesmo alguma idéia sobre quão tópica tal situação deve aparentar. Ela nasceu naturalmente do meu projeto concebido na forma de um esboço principal em 1936 [1]. Eu não previ que antes que o conto estivesse publicado nós deveríamos entrar em uma era negra na qual a técnica da tortura e a dilaceração da personalidade iriam rivalizar com a de Mordor e o Anel, e presentear-nos com o prático problema de homens honestos de boa-vontade caídos a apóstatas e traidores.

Mas a esse ponto a salvação do mundo e a auto-salvação de Frodo são alcançadas pelas suas prévias piedade e perdão às injúrias. Em qualquer ponto, qualquer pessoa prudente teria dito a Frodo que Gollum iria certamente* traí-lo, e poderia roubá-lo no final. Ter piedade dele, refrear de matá-lo, foi mostra de tolice, ou uma crença mítica no derradeiro valor-próprio da piedade e generosidade, mesmo que desastroso no mundo àquele tempo. Ele de fato o roubou e feriu no final – mas por uma graça, aquela última traição deu-se em uma conjuntura precisa, quando a última ação do mal foi a mais benéfica que qualquer um poderia ter feito por Frodo! Por uma situação criada pela sua piedade, ele salvou a si mesmo e mitigou seu fardo. Ele foi muito justamente agraciado com as honras mais elevadas – visto que claramente ele e Sam nunca ocultaram a seqüência exata dos acontecimentos. Em um último julgamento acerca de Gollum, eu não me preocuparia em averiguar. Isso seria investigação “daquilo que compete a Deus”, como os medievais diziam. Gollum era digno de misericórdia, mas ele terminou em persistente maldade, e o fato de isso ter dado bons resultados não lhe é creditado. Sua prodigiosa coragem e resistência, tão grande quanto a de Frodo e Sam, ou maior, na medida em que foi usada para o mal, é nefasta, e não honorífica. Eu temo que, independentemente de nossas convicções, nós tenhamos de encarar o fato de que há pessoas que se rendam à tentação, rejeitam suas chances de nobreza ou salvação, e tornem-se condenáveis. Sua condenabilidade não é mensurável em termos macroscópicos (para onde isso pode ser bom). Mas nós todos que estamos no mesmo barco não devemos usurpar o Julgamento. A dominação do Anel era forte demais para a alma tão inferior de Sméagol. Mas ele nunca teria tido de suportá-la caso não tivesse se tornado um filho vil e ladrão antes que cruzasse seu caminho. Ela precisaria sempre ter cruzado seu caminho? Alguma coisa perigosa deve sempre cruzar nosso caminho? Alguma resposta poderia ser encontrada caso tentemos imaginar Gollum sobrepujando a tentação. A história teria sido muito diferente! Contemporizando, não fixando a vontade ainda não totalmente corrompida de Sméagol, inclinada para o bem no debate dentro da caverna de escória, ele enfraqueceu a si mesmo na última oportunidade, quando o começo da afeição por Frodo foi muito facilmente extinguido pelo ciúme de Sam, antes da toca de Laracna.

Não há referência especial à Inglaterra no Condado – exceto, é claro, que como um homem inglês que cresceu na aldeia quase rural de Warwickshire, nas fronteiras do próspera burguesia de Birmingham (por volta da época do Jubileu de Diamante!) Eu tomo meus modelos como qualquer outro – da vida como eu a concebo.Mas não há referência ao pós-guerra. Eu não sou um socialista de qualquer forma, quando eles conquistam poder, tornam-se muito nocivos – mas eu não diria que temos de sofrer a crueldade do Charcote e seus rufiões aqui. Embora o espírito de Isengard, se não Mordor, está sempre notadamente aparecendo inesperadamente. A presente intenção da Oxford sendo destruída para acomodar carros-motorizados é um exemplo [2]. Mas o nosso adversário principal é um membro de um Governo “Conservador”. Entretanto, você poderia aplicar isso a qualquer lugar, atualmente.

Sim: eu penso que os vitoriosos nunca podem usufruir da vitória – não nos termos que eles contemplaram; e na medida em que eles lutaram por algo para ser usufruído por eles mesmos (quer por aquisição ou mera preservação), menos satisfatória a vitória irá parecer. Mas a partida dos Portadores dos Anéis tem um outro lado, se nos referirmos aos Três. Há, é claro, uma estrutura mitológica por detrás dessa história. Ela foi, de fato, escrita primeiro, e talvez agora seja em parte publicada. Ela é, devo dizer, uma mitologia “sub-criacional” mas monoteísta. Não há encarnação do Um, ou Deus, que de qualquer maneira permanece afastado, fora do Mundo, e acessível diretamente apenas aos Valar ou Regentes. Eles ocupam o lugar dos “deuses”, mas são espíritos criados, ou aqueles de criação primária que por sua própria vontade entraram no mundo**. Mas o Um retém toda a autoridade principal, e (ou assim parece se visto em tempo em série) reserva o direito de introduzir o dedo de Deus na história: é assim para produzir realidades que não poderiam ser deduzidas mesmo de um completo conhecimento do passado prévio, mas cuja existência real torna-a parte do passado efetivo por todo tempo subseqüente (uma possível definição de um milagre). De acordo com a fábula, Elfos e Homens foram as primeiras dessas intrusões, criados, de fato, enquanto a história era apenas uma história e não realizada; eles não foram, portanto, em qualquer sentido, concebidos ou feitos pelos deuses, os Valar, e eram chamados de Eruhíni ou “Filhos de Eru”, e eram para os Valar um elemento incalculável: pois eram criaturas racionais de livre-arbítrio em relação a Deus, da mesma ordem histórica que os Valar, embora de muito inferiores poderes espirituais e intelectuais, e posição.

É claro que, de fato exteriores a minha história. Elfos e Homens são apenas aspectos diferentes do Humano, e representam o problema da Morte como visto por uma finita mas espontânea e auto-consciente pessoa. Nesse mundo mitológico, Elfos e Homens são em suas formas encarnadas, congêneres, mas em relação aos seus espíritos ao mundo no tempo, representam diferentes experimentações, cada um dos quais tendo sua própria tendência inata, e fraqueza. Os Elfos representam, assim como era, o artístico, o estético e puramente científico aspectos da natureza humana elevados a um nível superior em relação ao efetivamente visto nos Homens. Ou seja: eles têm um amor devotado do mundo físico, e um desejo de observar e compreendê-lo para sua própria consideração e como outro – sc. como uma realidade advinda de Deus no mesmo em que eles mesmos – não como material para usufruto ou como plataforma de poder. Eles também possuem uma faculdade sub-criacional ou artística de grande excelência. Eles são, por essa razão, imortais. Não eternamente, mas para perdurarem com e internamente ao mundo criado, enquanto sua história durar. Quando mortos, por ferimentos ou destruição de sua forma encarnada, eles não deixam o tempo, mas permanecem dentro do mundo, tanto desencarnados quanto sendo renascidos. Isso se torna um grande fardo à medida em que as estendem-se as eras, especialmente em um mundo no qual há maldade e destruição (eu não mencionei a forma mitológica em que a Maldade ou a Queda dos Anjos toma nessa fábula). Mera mudança como esta não é representada como mal: o desenrolar da história e a recusa a isto são, é claro, contrários ao desígnio de Deus. Mas a fraqueza élfica é, nesses termos, naturalmente para lamentar o passado, e para tornar relutante em face às mudanças: como se um homem odiasse um livro muito longo que ainda continua, e desejasse permanecer em seu capítulo favorito. Por essa razão eles caíram, em certa medida, nos estratagemas de Sauron: eles desejavam algum poder sobre as coisas como elas eram (que é totalmente diferente), para fazerem suas vontades particulares de preservação efetiva: interromper mudanças, e manter tudo permanentemente fresco e belo. Os Três Anéis eram imaculados, porque esses objetos eram, de determinada forma, bons; isso inclui a cura dos verdadeiros males da perversidade, assim como interrupção das mudanças; e os elfos não desejavam dominar outras vontades, ou usurpar todo o mundo para seu desfrute particular. Mas com a queda do Poder, seus pequenos esforços em preservar o passado foram feitos em pedaços. Não havia mais nada na Terra-Média para eles, a não ser fraqueza. Então, Elrond e Galadriel partiram. Gandalf é um caso especial. Ele não era o forjador ou portador original do Anel – mas foi dado a ele por Círdan, para ajudá-lo em sua tarefa. Gandalf estava retornando, seu labor e diligência terminaram, para sua casa, a terra dos Valar.

A passagem pelo Oceano não é a Morte. A mitologia é centrada nos elfos. De acordo com isso, houve inicialmente, de fato, um Paraíso Terrestre, lar e reino dos Valar como uma parte física da Terra.

Não há personificação do Criador em lugar algum desta história ou mitologia. Gandalf é uma pessoa criada; embora possivelmente um espírito que existia antes no mundo físico. Sua função enquanto um mago é de um mensageiro angélico dos Valar ou Regentes: auxiliar as criaturas racionais da Terra-Média a resistirem a Sauron, um poder grande demais para eles lidarem sem ajuda. Mas uma vez tendo em vista este conto e mitologia o Poder – quando domina ou pretende dominar outras vontades e mentes (exceto pelo assentimento de sua razão) – é mau, esses magos eram encarnados nas formas físicas da Terra-Média, e assim sofreram as dores tanto da mente quanto do corpo. Eles estavam também, pela mesma razão, envolvidos no risco dos encarnados: a possibilidade da queda, ou pecado, se preferir. A principal forma que isso assumiria com eles seria a impaciência, levando ao desejo de compelir outros a seus próprios bons finais, e então inevitavelmente afinal ao mero desejo de tornar suas próprias vontades reais por quaisquer meios. Saruman sucumbiu a este mal. Gandalf, não. Mas a situação tornou-se tão grave pela queda de Saruman que o bem foi obrigado a um maior esforço e sacrifício. Assim, Gandalf enfrentou e sofreu a morte; e retornou ou foi enviado de volta, como ele diz, com poder aumentado. Mas embora alguém possa nisto ser lembrado dos Evangelhos, não é na realidade, exatamente a mesma coisa. A Encarnação de Deus é algo infinitamente maior do que algo sobre o qual eu me atreveria a escrever. Aqui eu estou apenas interessado na Morte como parte da natureza, física e espiritual do Homem, e com a Esperança sem garantias. É por essa razão que eu me refiro ao conto de Arwen e Aragorn como o mais importante dos Apêndices; ele é um panorama do essencial na história, e apenas está lá descrito porque não poderia ser inserido na narrativa principal sem destruir sua estrutura: que é planejada para ser centrada nos hobbits, o que é primariamente, um estudo do enobrecimento (ou santificação) dos humildes.

[Nenhum dos esboços dos quais este texto foi montado foi completado.]

Notas:

[1] Mas veja nota 5 no número 131. [N. do T.: A referida nota diz: “Como cartas mais antigas neste livro mostram, O Senhor dos Anéis foi iniciado, de fato, em dezembro de 1937"].

[2] Uma referência a proposta de uma estrada de ‘alívio’ pelo prado da ‘Christ Church’. * Não por completo ‘certamente’. O desajeitamento na fidelidade de Sam foi o que finalmente levou Gollum por sobre o precipício, quando estava prestes a arrepender-se. ** Eles partilharam em sua ‘criação’, mas apenas nos mesmos termos em que nós ‘fazemos’ uma obra de arte ou história. Esta realização, a forma como é dada realidade a essa criação do mesmo grau de si mesmos, foi o ato de Deus Único.

thumb_cartas_tolkien1.jpg

Carta #183

Um comentário, aparentemente escrito para a própria satisfação de Tolkien e não enviado ou mostrado à qualquer outro, sobre “Ao término da Saga, Vitória”, uma crítica literária de O Retorno do Rei feita por W. H. Auden no Book Review do New York Times, em 22 de Janeiro de 1956. O texto dado aqui é uma reedição em alguma data mais tarde da versão anterior, agora perdida, que foi provavelmente escrito em 1956. Na resenha, Auden escreveu: “A vida, como eu a experimento em minha própria pessoa, é principalmente uma sucessão contínua de escolhas entre alternativas. Para objetivar esta experiência, a imagem natural é aquela de uma jornada com um propósito, atacada por riscos e obstáculos perigosos. Mas quando eu observo a humanidade, tal imagem parece falsa. Por exemplo, eu posso ver que só os ricos e aqueles de férias podem fazer jornadas; a maioria dos homens, a maior parte do tempo, tem que trabalhar em um lugar. Eu não posso observá-los fazendo escolhas, só as ações a que eles se submetem e, se eu conheço bem alguém, eu normalmente posso predizer como ele agirá em uma determinada situação. Se, então, eu tentar descrever o que vejo como se fosse uma câmera fotográfica impessoal, produziria, não uma Saga, mas um documento “naturalista”. Ambos extremos, é claro, falsificam a vida. Existem Sagas medievais que justificam a crítica feita por Erich Auerbach no seu livro Mimesis: “O mundo de experiências heróicas é um mundo de aventura. As façanhas [dos heróis] são feitos realizados ao acaso que não se ajustam politicamente em qualquer padrão proposital” … Sr.Tolkien foi mais bem sucedido que qualquer escritor anterior neste gênero usando as propriedades tradicionais da Saga.”

Caro Auden,

Estou muito grato por esta resenha. Muito encorajadora, tendo vindo de um homem que é ao mesmo tempo um poeta e um crítico de distinção. Não ainda (eu penso) alguém que tenha muita prática em narrar contos. Em todo caso estou um pouco surpreso por esta, pois apesar de seu elogio, me parece mais o modo de falar de um crítico em lugar de um autor. Não é, pelo que sinto, o jeito certo de considerar tanto Sagas em geral quanto a minha história em particular. Acredito que seja justamente porque não tentei, e nunca pensei em tentar “objetivar” minha experiência pessoal de vida, que o relato da Saga do Anel tivesse tido êxito em dar prazer a Auden (e a outros). Provavelmente também é a razão, em muitos casos, por não ter agradado alguns leitores e críticos. A história não é sobre JRRT absolutamente, e não é em nenhum ponto uma tentativa para alegorizar sua experiência de vida – por aquela é que o objetivo da sua experiência subjetiva em um conto deve significar, se qualquer coisa.

Eu sou historicamente preocupado. A Terra-média (Middle earth) não é um mundo imaginário. O nome é a forma moderna (surgida no século XIII e ainda em uso) de midden-erd > middel-erd, um nome antigo para oikoumene-, a residência dos Homens, objetivamente o mundo real, em uso especificamente oposto a mundos imaginários (como o Reino das Fadas) ou mundos não vistos (como Céu ou Inferno). O teatro de meu conto é esta terra, na qual nós vivemos agora, mas o período histórico é imaginário. Os elementos essenciais daquela residência estão todos lá (no caso para os habitantes do Noroeste da Europa), então naturalmente parece familiar, mesmo que um pouco glorificado pelo encanto da distância no tempo.

Homens realmente partem, e tem na história partido em jornadas e sagas, sem qualquer intenção de representar alegorias da vida. Não é verdade dizer que no passado ou no presente “só os ricos ou aqueles de férias podem fazer jornadas”. A maioria dos homens faz algumas jornadas. Quer sejam longas ou pequenas, com uma missão ou simplesmente para ir “lá e de volta outra vez”, não é a importância principal. Como tentei expressar na Canção de Caminhar de Bilbo, até mesmo um passeio ao entardecer pode ter efeitos importantes. Quando Sam não tinha ido mais além do que a Ponta do Bosque ele já tinha tido um “esclarecimento”.

Pois se há qualquer coisa em uma jornada de qualquer duração, para mim é isso: uma libertação do estado vegetativo de sofredor passivo e impotente, um exercício, ainda que pequeno de vontade, e mobilidade – e de curiosidade, sem a qual uma mente racional torna-se embrutecida. (Embora é claro que tudo isso seja uma reflexão tardia, e perca o ponto principal. Para um contador de histórias uma jornada é um artifício maravilhoso. Esta fornece uma linha forte na qual uma infinidade de coisas que ele tem em mente possa ser amarrada para fazer uma coisa nova, variada, imprevisível, e ainda coerente. Minha razão principal para usar esta forma foi simplesmente técnica).

Em todo caso não vejo os meus membros da raça humana que eu tenha observado do modo como foram descritos. Sou velho o bastante agora para ter observado alguns deles o suficiente para ter uma noção do que, eu suponho, Auden chamaria o seu caráter básico ou inato, enquanto notando mudanças (freqüentemente consideráveis) no seu modo de comportamento. Não sinto que uma jornada no espaço seja uma comparação útil para entender estes processos. Penso que a comparação com uma semente é mais esclarecedora: uma semente com sua vitalidade e hereditariedade inatas, sua capacidade para crescer e se desenvolver. Uma grande parte das “mudanças” em um homem é sem dúvida o desdobramento dos padrões escondidos na semente; embora estes naturalmente sejam modificados pela situação (geográfica ou climática) na qual esta é lançada, e que possam ser prejudicados por acidentes terrestres. Mas esta comparação omite inevitavelmente um ponto importante. Um homem não é apenas uma semente se desenvolvendo em um padrão definido, bem ou mal de acordo com sua situação ou seus defeitos como um exemplo de sua espécie; um homem é tanto uma semente como de certa forma também um jardineiro, para bem ou mal. Sou impressionado pelo grau no qual o desenvolvimento do “caráter” pode ser um produto de intenção consciente, a vontade para modificar tendências inatas em direções desejadas; em alguns casos a mudança pode ser grande e permanente. Conheci um ou dois homens e mulheres que poderiam ser descritos como “autoformados” neste respeito, com pelo menos tanta verdade parcial quanto “autoformados” possa ser aplicado àqueles cuja abundância ou posição possam ser ditas por terem sido alcançadas, em grande parte, pela sua própria vontade e esforços com pouca ou nenhuma ajuda de riqueza herdada ou posição social.

Em todo caso, descubro a maioria das pessoas imprevisíveis em qualquer situação específica ou emergência. Talvez porque eu não seja um bom juiz de caráter. Mas até mesmo Auden só diz que pode normalmente predizer como eles agirão; e pela inserção de “normalmente”, um elemento de incompatibilidade é admitido que, por menor que seja, está prejudicando seu ponto de vista.

Algumas pessoas são, ou parecem ser, mais previsíveis que outras. Mas isso é devido mais à sua sorte do que pela sua natureza (como indivíduos). As pessoas previsíveis residem em circunstâncias relativamente fixas, e é difícil pegá-las e observá-las em situações que são (para elas) estranhas. Essa é outra boa razão para enviar “hobbits” – uma visão de pessoas simples e previsíveis em circunstâncias simples e há muito estabelecidas – em uma jornada para longe do lar em terras estranhas e perigosas. Especialmente se eles são providos com algum motivo forte para resistência e adaptação. Embora sem qualquer motivo forte as pessoas realmente mudam (ou ainda, revelam o oculto) em jornadas: isso é um fato de observação usual sem qualquer necessidade de explicação simbólica. Em uma jornada de duração suficiente para fornecer o desfavorável em qualquer grau de desconforto para temer a mudança em companheiros bem conhecidos na “vida normal” (e em si mesmo) é freqüentemente notável.

Não gosto do uso da “política” em tal contexto; me parece falso. Parece-me claro que o dever de Frodo era “humano”, e não político. Ele naturalmente pensou primeiro no Condado, uma vez que suas raízes estavam lá, mas a saga teve como seu objeto não a preservação desta ou daquela política, como a meio república meio aristocracia do Condado, mas a liberação de uma tirania má de todos os “humanos”¹ – incluindo aqueles, como os “orientais” e os Haradrim, que ainda eram os servos da tirania.

Denethor estava corrompido pela mera política: conseqüentemente ocorreu seu fracasso e sua desconfiança de Faramir. Ela tinha se tornado para ele um motivo principal para preservar o governo de Gondor, como era, contra um outro potentado, que tinha se tornado mais forte e seria temido e oposto por essa razão mais propriamente do que pelo novo governo ser desumano e mau. Denethor menosprezava homens inferiores, pode-se estar seguro de que ele não distinguia entre orcs e aliados de Mordor. Se tivesse sobrevivido como vencedor, até mesmo sem uso do Anel, teria dado longos passos para se tornar um tirano, e as condições e tratos que outorgaria com os povos iludidos do leste e do sul teriam sido cruéis e vingativas. Ele tinha se tornado um líder “político”: sic. Gondor contra o resto.

Mas essa não era a política ou o dever estabelecido pelo Conselho de Elrond. Só depois de ouvir o debate e perceber a natureza da demanda é que Frodo realmente aceita o fardo da sua missão. De fato, os Elfos destruíram sua própria política em perseguição de um dever “humano”. Isto não aconteceu somente como um dano desastroso da Guerra; era sabido por eles ser um resultado inevitável da vitória, que poderia ser de nenhuma maneira vantajosa para os Elfos. Não pode ser dito que Elrond tem um dever ou um propósito político.

O uso da “política” por Auerbach pode à primeira vista parecer mais justificado; mas não é, eu penso, realmente inadmissível – nem mesmo se nós reconhecemos o enfado para qual a mera condição “errante” foi reduzida como a leitura de passatempo de uma classe principalmente interessada por feitos de armas e amor². A respeito do quão divertidas para nós (ou para mim) são histórias sobre cricket, ou contos sobre a viagem de um time, para aqueles que (como eu) acham cricket (como este agora é) um enfado ridículo. Mas os feitos de armas em um (diga-se) Romance Arturiano, ou romances presos àquele grande centro de imaginação, não precisam se “ajustar em um padrão politicamente deliberado”³. Assim era nas tradições Arturianas primitivas. Ou pelo menos esta linha de primitiva porém poderosa imaginação era um elemento importante nelas, como também em Beowulf. Auerbach deveria aprovar Beowulf, pois nele um autor tentou ajustar uma ação errante em um campo político complexo: as tradições inglesas das relações internacionais da Dinamarca, Gotland, e Suécia em dias antigos. Mas essa não é a força da história, antes a sua fraqueza. Os objetivos pessoais de Beowulf na sua jornada para a Dinamarca são precisamente aqueles de um herói posterior: o seu próprio renome, e acima disso a glória do seu senhor e rei; mas todo o tempo nós vislumbramos algo mais profundo. Grendel é um inimigo que atacou o centro do reino, e trouxe para dentro do corredor real a escuridão exterior, de forma que só na luz do dia o rei pode se sentar no trono. Isto é algo bastante diferente e mais horrível que uma invasão “política” de iguais – homens de um outro reino semelhante, tal como o posterior ataque de Ingeld à Heorot.

A subversão de Grendel faz um bom conto-maravilhoso, porque ele é muito forte e perigoso para qualquer homem comum derrotar, mas é uma vitória na qual todos os homens podem se regozijar porque ele era um monstro, hostil a todos os homens e para todo o companheirismo e alegria humana. Comparado a ele até mesmo os há muito politicamente hostis Dinamarqueses e Geatish eram Amigos, do mesmo lado. É a monstruosidade e a qualidade de conto de fadas de Grendel que realmente faz o conto importante, sobrevivendo ainda quando a política enfraquece e a cura das relações entre Dinamarqueses e Geatish em um “entendimento cordial” entre duas casas governantes um assunto secundário da história obscura. Naquele mundo político Grendel parece tolo, embora ele certamente não seja tolo, porém ingênua pode ser a imaginação do poeta e a descrição dele.

Claro que na “vida real” as causas não estão claras – se somente porque os humanos tiranos raramente são totalmente corrompidos em puras manifestações de intenção má. Até onde possa julgar, alguns parecem ter sido assim corrompidos, mas até mesmo eles devem reger assuntos apenas em parte regularmente corruptos, enquanto muitos ainda necessitam ter bons motivos, reais ou fingidos, apresentados a eles. Como nós vemos hoje. Ainda há casos claros: por exemplo, atos de agressão cruel transparente nos quais, portanto o certo está desde o princípio completamente em um lado, qualquer que seja o mal que o sofrimento ressentido do mal possa gerar eventualmente em membros do lado certo.

Também existem conflitos sobre idéias ou outras coisas importantes. Em tais casos sou mais impressionado pela extrema importância de estar do lado certo, do que estou transtornado pela revelação da selva de motivos confusos, propósitos particulares, e ações individuais (nobres ou vis) no qual o certo e o errado em conflitos humanos reais são normalmente envolvidos. Se o conflito realmente é sobre coisas propriamente chamadas de certa e errada, ou boa e má, então a retidão ou bondade de um lado não é demonstrada ou estabelecida pelas reivindicações de qualquer lado; deve depender de valores e convicções superiores e independentes do conflito particular. Um juiz deve apontar o certo e errado de acordo com princípios que ele considera válidos em todos os casos. Sendo assim, o direito permanecerá uma possessão inalienável do lado certo e justificará sua causa inteiramente. (Falo de causas, não de indivíduos. Claro que para um juiz cujas idéias morais têm uma base religiosa ou filosófica, ou realmente para qualquer um não obscurecido por fanatismo partidário, a retidão da causa não justificará as ações de seus defensores, como indivíduos que são moralmente maus. Mas embora a “propaganda” possa aproveitar casos como esses como provas de que sua causa não era de fato certa, isso não é válido. Os agressores são eles mesmos os primeiros a se culparem pelas más ações que procedem da sua violação original da justiça e das paixões que a sua própria maldade deve naturalmente (pelos seus padrões) ter sido esperada que despertasse. Eles não têm nenhum direito para exigir de qualquer modo que as suas vítimas quando atacadas não devam exigir olho por olho ou dente por dente).

Semelhantemente, ações boas por aqueles no lado errado não justificarão a sua causa. Pode haver ações no lado errado de coragem heróica, ou algumas de um nível moral mais alto: ações de clemência e paciência. Um juiz pode lhes outorgar honra e pode se alegrar por ver como alguns homens podem se elevar acima do ódio e da raiva de um conflito; até mesmo enquanto ele pode lamentar as ações más do lado certo e pode ficar preocupado por ver quanto o ódio uma vez provocado pode os arrastar para baixo. Mas isto não alterará o seu julgamento com relação a qual lado estava no direito, nem a sua designação da culpa primária para todo o mal que seguiu ao outro lado.

Em minha história não lido com Mal Absoluto. Não acho que exista tal coisa, uma vez que isso é insignificante. Não acho que de qualquer modo qualquer “ser racional” seja completamente mau. Satanás caiu. Em meu mito Morgoth caiu antes da Criação do mundo físico. Em minha história Sauron representa o mais próximo de uma vontade completamente má como é possível. Ele tinha percorrido o caminho de todos os tiranos: começando bem, pelo menos no nível que enquanto desejando ordenar todas as coisas de acordo com a sua própria sabedoria ele ainda no princípio considerou o bem-estar (econômico) de outros habitantes da Terra. Mas ele foi mais adiante que os tiranos humanos em orgulho e avidez pela dominação, sendo em origem um espírito imortal (angélico)4. Em O Senhor dos Anéis o conflito não é basicamente sobre “liberdade”, embora esta esteja naturalmente envolvida. É sobre Deus, e Seu exclusivo direito à honra divina. Os Eldar e os Númenorianos acreditaram no Único, o verdadeiro Deus, e consideravam a adoração de qualquer outra pessoa uma abominação. Sauron desejou ser um Deus-Rei, e foi considerado como tal por seus servos5; se ele tivesse sido vitorioso ele teria exigido honra divina de todas as criaturas racionais e poder temporal absoluto sobre o mundo inteiro. Então até mesmo se em desespero “O Oeste” tivesse criado ou contratado hordas de orcs e tivesse cruelmente saqueado as terras de outros Homens enquanto aliados de Sauron, ou somente para lhes impedir de ajudá-lo, a Causa deles teria permanecido irrevogavelmente certa. Como faz a Causa daqueles que se opõem agora ao Deus-Estado e Marechal Isto ou Aquilo como seu Alto Sacerdote, até mesmo se for verdade (como infelizmente é) que muitas das ações deles estejam erradas, até mesmo se fosse verdade (como não é) que os habitantes do “Oeste”, com exceção de uma minoria de chefes ricos, vivem em medo e esqualidez, enquanto os adoradores do Deus-Estado vivem em paz e abundância e em estima mútua e confiança.

Então sinto que a inquietação-esfraquecimento em resenhas e correspondência sobre elas, assim como se minhas “pessoas boas” eram amáveis e misericordiosas e davam abrigo (de fato elas assim o são), ou não, realmente não vem ao caso. Alguns críticos parecem determinados em me representar como um adolescente simplório, inspirado pelo, digamos, espírito de luta e justiça, e intencionalmente distorcem o que é dito em meu conto. Eu não tenho aquele espírito, e ele não aparece na história. Só a figura de Denethor é suficiente para prová-lo; mas eu não fiz nenhuma das pessoas do lado “certo”, Hobbits, Rohirrim, Homens de Valle ou de Gondor, nada melhor do que os homens tem sido ou são, ou possam ser. O meu não é um “mundo imaginário”, mas um momento histórico imaginário na “Terra-média” – que é nossa morada.

Notas do Autor

1. humanos: estes (estando em uma história de fadas) incluem-se é claro Elfos, e certamente todas as “criaturas falantes”.

2. Principalmente interessada: isto é como temas de “literatura” como uma diversão. Na verdade a maior parte deles era principalmente interessada na aquisição de terra e o uso de alianças por casamento em alcançar seus objetivos.

3. Nada a não ser “política” é estreitada (ou estendida) tanto que estamos considerando imaginativamente apenas um centro ou fortaleza de ordem e benevolência cercada por inimigos: florestas desabitadas e montanhas, homens bárbaros e hostis, feras selvagens e monstros, e o Desconhecido. A defesa do reino pode então na verdade se tornar simbólica da situação humana.

4. Da mesma espécie que Gandalf e Saruman, mas de uma ordem muito mais alta.

5. Por uma tripla traição: 1. Por causa de sua admiração pela Força ele se tornou um seguidor de Morgoth e caiu com ele dentro dos abismos do mal, se tornando seu principal agente na Terra-média 2. Quando Morgoth foi derrotado pelos Valar finalmente ele abandonou sua aliança; mas por causa de medo apenas, ele não apresentou-se aos Valar ou implorou por perdão, e permaneceu na Terra-média 3. Quando ele descobriu quão grandemente seu conhecimento era admirado por todas as outras criaturas racionais e quão fácil seria influenciá-las seu orgulho tornou-se ilimitado. No fim da Segunda Era ele assumiu a posição de representante de Morgoth. No fim da Terceira Era (embora na verdade muito mais fraco que antes) ele proclamou ser Morgoth retornado.

thumb_cartas_tolkien1.jpg

Carta #214

[Uma resposta para um leitor que mostrou uma aparente contradição em O Senhor dos Anéis: que no capítulo ´ Uma Festa Muito Esperada´ é declarado que ´Hobbits dão presentes a outras pessoas em seus próprios aniversários; contudo Gollum se refere ao Anel como seu ´presente de aniversário´, e conforme ele adquiriu-o, no capítulo ´ A Sombra do Passado´, indica que seu povo recebia presentes em seus aniversários. A carta do Sr. Nunn continuava: ´Então, uma das seguintes alternativas deve ser verdadeira: (1) o povo de Sméagol não era "do tipo hobbit " como sugerido por Gandalf (I pág. 62); (2) o costume Hobbit de dar presentes só fora desenvolvido à pouco tempo; (3) os costumes dos Stoors [o povo de Sméagol-Gollum] eram diferentes daqueles dos outros Hobbits; ou (5) [sic] há um erro no texto. Eu ficarei muito grato se você puder dispensar um tempo para empreender alguma pesquisa sobre esse assunto importante.]

[Não datado; provavelmente entre 1958 e 1959.]

Caro Sr. Nunn,

Eu não sou um modelo de erudição; mas no assunto da Terceira Era eu me considero um ´arquivo´ vivo. As falhas que possam aparecer em meu registro são, eu acredito, em nenhum caso devido a erros, que são declarações do que não é verdade, mas omissões e falta de informação, principalmente devido à necessidade de compressão, e na tentativa de introduzir informação ´en passant´ no curso de narrativa que naturalmente tendeu a omitir muitas coisas que não afetam diretamente o conto.

No assunto de costumes de aniversário e as discrepâncias aparentes que você nota, podemos então, eu penso, descartar suas alternativas (1) e (5). Você omite (4).

Com respeito a (1) Gandalf certamente diz no princípio ´ eu suponho´ (pág. 62); mas isso está de acordo com seu caráter e sabedoria. Em idioma mais moderno teria dito ele ´eu deduzo´, se referindo a assuntos que não estavam sujeitos a sua observação direta, mas em qual ele tinha formado uma conclusão baseada em estudo. (Você observará no Apêndice B que os Magos não vieram logo antes do primeiro aparecimento de Hobbits em qualquer registro, sendo que nesse tempo eles já eram divididos em três classes marcantes). Mas ele de fato não duvidou de sua conclusão ´ é na verdade tudo igual, etc. ´ (pág. 63).

Sua alternativa (2) seria possível; mas desde que o registro diz na pág. 35 Hobbits (o qual ele usa qualquer que seja sua origem, como o nome para a raça inteira), e não os Hobbits do Condado, ou povo do Condado, deve-se supor que ele queira dizer que o costume de dar presentes era de alguma forma comum a todas as variedades, inclusive Stoors. Mas desde que sua alternativa (3) seja naturalmente verdade, nós poderíamos esperar enraizado mesmo assim um costume a ser exibido de modo bastante diferente em classes diferentes. Com a reemigração do Stoors de volta para Wilderland em 1356 da T.E., todo o contato entre este grupo retrógrado e os antepassados do povo do Condado estava rompido. Mais de 1100 anos passaram-se antes do Incidente de Déagol-Sméagol (c. 2463). À época da Festa em 3001 da T.E., quando os costumes do povo do Condado são superficialmente reportados à medida que eles afetam a história, o intervalo de tempo era quase 1650 anos.

Todos os Hobbits eram lentos no que diz respeito a mudanças, mas os reemigrantes Stoors estavam regressando para uma vida mais selvagem e mais primitiva de pequenas e decrescentes[1] comunidades; enquanto o povo do Condado nos 1400 anos de sua ocupação tinham desenvolvido uma vida social mais organizada e elaborada, na qual a importância da relação familiar para seus sentimentos e costumes foram fortalecidas através de tradições detalhadas, escritas e orais.

Embora eu tenha omitido qualquer dissertação sobre esse curioso mas característico fato de seu comportamento, os fatos relativos ao Condado poderiam ser mostrados em alguns detalhes. Os Stoors do beira-rio devem, naturalmente, permanecer mais conjeturais.

´Aniversários´ tinham uma importância social considerável. Uma pessoa que celebra seu aniversário era chamada um ribadyan (que pode ser traduzido de acordo com o sistema descrito como um aniversariante). Os costumes ligados aos aniversários tinham, embora profundamente arraigados, tornado-se regulamentados por uma etiqueta bastante rígida; e em conseqüência estavam em muitos casos reduzidos a formalidades: como realmente sugerido por ´ não muito caros como regra´ (pág. 35); e especialmente através da pág. 46 11. 20-26. Com respeito a presentes: em seu aniversário o ´ aniversariante´ tanto dava como recebia presentes; mas os processos eram diferentes em origem, função, e etiqueta. A recepção foi omitida pelo narrador (uma vez que não dizia respeito a Festa) mas era de fato o costume mais velho, e conseqüentemente o mais formal. (Isso diz respeito ao incidente de Sméagol-Déagol, mas o narrador, sendo obrigado reduzir isto para seus elementos mais significantes, e a colocá-lo na boca de Gandalf que fala a um hobbit, naturalmente não fez nenhum comentário sobre um costume que o hobbit (e nós) deveria considerar natural em relação a aniversários.)

Recebimento de presentes: este era um ritual antigo ligado com parentesco. Era originalmente um reconhecimento da ligação do aniversariante de uma família ou clã, e uma comemoração de sua ´incorporação´ formal. [2] Nenhum presente era dado por pai ou mãe para suas crianças em seus (das crianças) aniversários (exclua nos casos raros de adoção); mas era de se supor que o chefe renomado da família desse algo, ao menos como ´lembrança´.

Dando presentes: era uma questão pessoal, não limitada a parentesco.

Era uma forma de ´agradecimento´, e tomada como um reconhecimento de serviços, benefícios, e amizade demostrada, especialmente no último ano decorrido.

Pode ser observado que Hobbits, assim que eles se tornassem ´faunts´ (isso é falantes e andantes: normalmente acontecia no terceiro aniversário deles) davam presentes aos seus pais. Supõe-se que estes eram ´confeccionados´ pelo doador (ou seja: achado, cultivado, ou feito pelo ´aniversariante´), começando em crianças pequenas com buquês de flores selvagens. Esta pode ter sido a origem dos presentes de ´agradecimento´ de distribuição mais ampla, e a razão por que permaneceu ´correto´ no Condado tanto para presentes sendo coisas pertencentes ou produzidas pelo doador. Exemplares de produtos de seus jardins ou artesanato tornaram-se os ´presentes dados´ habituais, especialmente entre os Hobbits mais pobres.

Na etiqueta de Condado, à data da Festa, a ´expectativa de recebimento´ era limitada a primos em segundo grau ou parentes mais próximos, e para os residentes dentro de 12 milhas[3]. Até mesmo aos amigos íntimos (se não aparentados) não era ´esperado´ dar, embora pudesse ocorrer. Os limites das residência do Condado era obviamente uma conseqüencia bastante recente da separação gradual das comunidades e famílias aparentadas, e dispersão de parentes, sob condições a muito tempo organizadas. O presente de aniversário recebido(nenhuma dúvida quanto ser uma relíquia dos costumes de pequenas famílias antigas) deve ser entregue pessoalmente, exatamente na véspera do Dia, ou mais tardar antes do ‘nuncheon’ no Dia do Aniversário. Eles eram recebidos reservadamente pelo ´aniversariante´; e era muito impróprio exibi-los separadamente ou em conjunto – justamente para evitar algum embaraço, como pode acontecer em nossas exibições de presentes de casamento (que teria horrorizado o povo do Condado)[4]. O doador poderia dar o presente em uma bolsa e demonstrar sua afeição sem incorrer em comentário público ou ofender (qualquer um) qualquer outro além do recebedor. Mas o costume não exigia presentes caros, e um Hobbit ficaria mais prontamente lisonjeado e encantado por um presente inesperadamente ´bom´ ou desejável que ofendido por uma habitual lembrança de boa-fé da família.

Um sinal disto pode ser visto no relato de Sméagol e Déagol – modificado pelos caráteres individuais destes seres bastante infelizes. Déagol, evidentemente um parente (como sem dúvida eram todos os membros da pequena comunidade), já tinha dado seu presente habitual à Sméagol, embora eles provavelmente tenham partido em sua expedição de manhã bem cedo. Sendo uma alma pequena e má, ele invejou-o. Sméagol, sendo pior e mais avarento, tentou usar o ´aniversário´ como uma desculpa para um ato de tirania. ´Porque eu o quero´ era a declaração franca de sua principal intenção. Mas ele também sugeriu que o presente de Déagol era uma lembrança pobre e insuficiente: em conseqüência Déagol replicou que pelo contrário, aquilo era mais que ele poderia dispor.

A distribuição de presentes pelo ´aniversariante´ – deixando de lado o caso de presentes para pais[5], mencionado acima – sendo pessoal e uma forma de agradecimento, variava muito mais em forma em tempos e lugares diferentes, e de acordo com a idade e importância do ´aniversariante´. O mestre e mestra de uma casa ou toca, no Condado, daria presentes a todos sob seu teto, ou a seu serviço, e normalmente também a vizinhos próximos. E eles poderiam estender a lista como bem entendessem, lembrando-se de quaisquer favores especiais durante o último ano. Era entendido que a oferta de presentes não era firmada por regra; embora a recusa em dar um presente habitual (como por exemplo para uma criança, um criado, ou um vizinho próximo de porta) era tomada como uma repreensão e marca de desgosto severo. Adolescentes e hóspedes (que não têm casa própria) não tinham tais obrigações como os donos da casa; mas eles normalmente davam presentes de acordo com sua posses e afetos. ´Não muito caro como regra´ – aplicados à todos os presentes. Bilbo era tanto nisto como em outros assuntos uma pessoa excepcional, e a Festa dele era até mesmo uma absurdo de generosidade para um Hobbit rico. Mas uma das cerimônias mais comuns de aniversário era dar uma ´festa´ – na noite do Dia do Aniversário. Para todos aqueles convidados eram dados presentes pelo anfitrião, que eram esperados, como parte do entretenimento (sendo secundária a comida oferecida). Mas eles não trouxeram presentes com eles. O povo do Condado teria pensado que seria muito impróprio. Se os convidados já não tivessem dado um presente (sendo um daqueles exigido pelo parentesco), era tarde demais. Para outros convidados seria uma coisa ´não feita´ – pareceria como se estivessem pagando a festa ou comparando festa e presente, e isso era muito embaraçoso. Às vezes, no caso de um amigo muito querido estar impossibilitado vir a uma festa (por causa de distância ou outras causas) um convite simbólico seria enviado com um presente. Neste caso o presente era sempre algo que comer ou beber, com propósito de ser uma amostra do bufê da festa.

Eu acho que será notado que todos os detalhes registrados como ´fatos´ ajustam-se a um quadro definido de sentimento e costume, entretanto este quadro não é esboçado até mesmo na forma incompleta desta nota. Poderia, claro, ter aparecido no Prólogo: por exemplo no meio da pág. 12. Mas embora eu tenha cortado uma grande parte, aquele Prólogo ainda é muito longo e sobrecarregou até mesmo a esses críticos que permitam que tenha algum uso, e não faz (como alguns) avisos aos leitores para esquecê-lo ou saltá-lo.

Incompleto como é, esta nota pode parecer a você muito muito longa; e embora você tenha pedido, é mais do que você perguntou. Mas eu não vejo como eu poderia ter respondido suas questões mais brevemente e de um modo que pudesse satisfazer os elogios que você me faz em ter um interesse em Hobbits suficiente para preencher a lacuna na informação fornecida.

Porém, o fornecimento de informação sempre abre vistas adicionais; e você verá indubitavelmente que o breve relato de ´presentes´ ainda abre mais assuntos antropológicos implícitos para tais termos como parentesco, família, clã, e assim por diante. Eu aventuro-me a somar uma nota adicional neste ponto, para que não, considerando o texto a luz de minha resposta, você deva senti-se inclinado a investigar mais adiante sobre a ´avó de Sméagol´, a qual Gandalf descreve como uma regente (de uma família de reputação alta, grande e mais rica que a maioria, pág. 62) e até mesmo a chama de uma ´ matriarca´ (pág. 66).

Até onde eu sei Hobbits eram universalmente monógamo (realmente eles muito raramente casavam uma segunda vez, até mesmo se esposa ou marido morressem muito jovens); e eu deveria dizer que seus arranjos familiares eram ´patrilinear´ em lugar de patriarcal. Quer dizer, seus nomes de família descenderam em uma linha-masculina (as mulheres adotavam os nomes dos maridos); também o chefe titular da família normalmente era o macho mais velho. No caso de grandes famílias poderosas (como o Tûks), ainda coerente até mesmo quando eles tinham ficado muito numerosos, e mais o que nós poderíamos chamar clãs, o chefe era corretamente o macho mais velho que era considerado a linha mais direta da descendência. Mas o governo de uma ´ família´, como uma unidade real : o ´lar´, não era uma monarquia (exceto por acidente). Era um ´ duarquia´ no qual o mestre e mestra tinham posições sociais iguais, talvez com funções diferentes. A qualquer um era assegurado o direito de ser o representante formal do outro no caso de ausência (inclusive morte). Não havia ´ viúvas dotadas´. Se o mestre morresse primeiro, o lugar dele era tomado pela esposa, e isto incluiu (se ele tivesse assegurada aquela posição) a chefia titular de uma grande família ou clã. Este título não descenderia ao filho, ou a outro herdeiro, enquanto ela vivesse, a menos que ela abdicasse voluntariamente[6]. Poderia, então, acontecer em várias circunstâncias que uma mulher de idade avançada de caráter forte permanecesse ´chefe do família´, até que ela tivesse os netos crescidos.

Laura Bolseiro (neé Grubb) permaneceu ´chefe´ da família dos ´Bolseiros de Hobbiton´, até seus 102 anos. Como ela era 7 anos mais jovem que seu marido(que morreu com a idade de 93 em RC-1300), ela manteve esta posição durante 16 anos, até RC-1316; e seu filho Bungo não se tornou ´chefe´, até ele ter 70, dez anos antes que ele morresse com a prematura idade de 80. Bilbo não o sucedeu até a morte de sua mãe Tûk, Beladona, em 1334, quando ele tinha 44.

A liderança dos Bolseiros então, devido aos eventos estranhos, entra em dúvida. Otho Sacola-Bolseiros era o herdeiro a este título – totalmente aparte de questões de propriedade que teriam surgido se seu primo Bilbo tivesse morrido intestado; mas depois do fiasco legal de 1342 (quando Bilbo retornou vivo depois de ser ´dado como morto´) ninguém ousou presumir a morte dele novamente. Otho morreu em 1412, seu filho Lotho foi assassinado em 1419, e sua esposa Lobelia morreu em 1420. Quando Mestre Samwise informou a ‘partida para o Mar´ de Bilbo (e Frodo) em 1421, ainda sim foi impossível presumir morte; e quando Mestre Samwise tornou-se Prefeito em 1427, uma regra foi feita que: ´se qualquer habitante do Condado for para o Mar na presença de uma testemunha fidedigna, com a intenção expressa de não retornar, ou em circunstâncias que impliquem tal intenção claramente, ele ou ela será julgado para que seja renunciado todos os títulos de direito ou propriedades previamente assegurados ou ocupados, e o herdeiro ou os herdeiros deles entrarão em seguida de posse destes títulos, direitos ou propriedades, como é ordenado por costume estabelecido, ou pelo testamento e disposição do morto, como o caso possa requerer. Presumivelmente o título de ´chefe´ passou então aos descendentes de Ponto Bolseiro – provavelmente Ponto (II).

Um caso famoso, também, era o de Lalia a Grande (ou menos cortesmente a Gorda). Fortinbras II, uma vez chefe dos Tûks e Thain, casou com Lalia dos Clayhangers em 1314, quando ele tinha 36 e ela 31. Ele morreu em 1380 aos 102 anos, mas ela viveu longamente após ele, tendo um fim triste em 1402 com a idade de 119. Assim ela comandou os Tûks e Os Grandes Smials durante 22 anos, um grande e memorável, se não universalmente amado, ´matriarcado´. Ela não estava na famosa Festa (RC-1401), foi assim aconselhada não só por seu grande tamanho e imobilidade, como também pela idade. O filho dela, Ferumbras, não teve nenhuma esposa, sendo incapaz (como alegava) de achar qualquer um que quisesse ocupar apartamentos nos Grandes Smials, sob o comando de Lalia. Lalia, em seus últimos e mais gordos anos, tinha o costume de ser levada na cadeira de rodas para a Grande Porta, para tomar ar nas manhãs agradáveis. Na primavera de RC 1402, sua desajeitada assistente deixou a pesada cadeira correr além da soleira, derrubando Lalia degraus abaixo, indo parar no jardim. Assim terminou um reinado e vida que poderiam bem ter rivalizado com o do Grande Tûk.

Eram grandes os rumores que a assistente era Pérola (a irmã de Pippin), entretanto os Tûks tentaram manter o assunto dentro da família. Na celebração de ascensão de Ferumbras o desgosto e pesar da família foram expressos formalmente pela exclusão de Pérola da cerimônia e banquete; mas não escapou a notícia que mais tarde (depois de um intervalo decente) ela apareceu com um colar esplêndido com as jóias que lhe davam seu nome, que a muito havia pertencido aos bens dos Thains.

Costumes eram diferentes em casos onde o ´chefe´ morria sem deixar nenhum filho. Na família Tûk, desde que o comando era também ligado ao título e (originalmente militar) cargo de Thain[7], a descendência era estritamente através da linhagem masculina. Em outras grandes famílias o comando poderia passar por uma filha do finado direto ao neto primogênito deste (independente da idade da filha). Este último costume era habitual em famílias de origem mais recente, sem registros antigos ou mansões ancestrais. Em tais casos o herdeiro (se ele aceitasse o título de cortesia) toma o nome de família de sua mãe – embora ele freqüentemente tomasse o da família de seu pai também (colocado em segundo). Este era o caso com Otho Sacola-Bolseiro. O comando nominal dos Sacolas tinha vindo através de sua mãe Camélia. Era sua ambição, bastante absurda, alcançar a distinção rara de ser ´chefe´ de duas famílias (ele provavelmente teria se chamado então Bolseiro-Sacola-Bolseiro): uma situação que explicará sua exasperação com as aventuras e desaparecimentos de Bilbo, totalmente aparte de qualquer perda de propriedade envolvida na adoção de Frodo.

Eu acredito que foi um ponto discutível na tradição Hobbit (o qual a decisão do Prefeito Samwise preveniu de ser discutida neste caso de particular) se ´adoção´ por um ´chefe´ sem filhos poderiam afetar a descendência do comando. Era concordado que a adoção de um membro de uma família diferente não pudesse afetar o comando, sendo uma questão de sangue e parentesco; mas havia uma opinião que adoção de um parente íntimo do mesmo nome[8] antes que ele fosse de maior idade, o habilitava a ter todos os privilégios de um filho. Esta opinião (mantida por Bilbo) foi contestada naturalmente por Otho.

Não há nenhuma razão para supor que os Stoors de Wilderland tivessem desenvolvido um sistema estritamente ´matriarcal´, chamando corretamente. Nenhuma pista de tal coisa foi achada entre o elemento Stoor em Eastfarthing e Buckland, entretanto eles mantinham várias diferenças de costumes e leis. O uso de Gandalf (ou propriamente seu relato e o uso do tradutor) da palavra ´matriarca´ não era ´antropológico´, mas significava simplesmente uma mulher que de fato comandou o clã. Nenhuma dúvida que ela tinha sobrevivido ao marido e era uma mulher de caráter dominante.

É provável que, no recessivo e decadente território Stoor de Wilderland, a tribo de mulheres (como freqüentemente será observado em tais condições) tendeu a preservar melhor o caráter físico e mental do passado, e assim tornou-se de importância especial. Mas não é (eu penso) suposto que qualquer mudança fundamental em seus costumes matrimoniais tenham acontecido, ou qualquer tipo de sociedade matriarcal ou poliândrica desenvolveu-se (embora isto pudesse explicar a ausência de qualquer referência ao pai de Sméagol-Gollum). ´Monogamia´ era praticada universalmente neste período no Oeste, e outros sistemas eram vistos com repugnância, como coisas só feitas ´sob a Sombra´.

Eu na verdade comecei esta carta quase quatro meses atrás; mas nunca foi terminada. Logo após ter recebido seus questionamentos minha esposa, que tinha estado doente a maior parte de 1958, celebrou o retorno da saúde com uma queda no jardim, esmagando seu braço esquerdo tão gravemente que ela ainda está incapacitada e engessada. Assim 1958 foi um ano quase completamente frustrado, e com outros problemas, e a iminência de minha aposentadoria que envolve muitas reestruturações, eu não tive nenhum tempo para trabalhar no Silmarillion. Muito embora eu deseje fazê-lo (e, felizmente, Allen e Unwin também parecem querer o mesmo).

[O rascunho termina aqui.]

Notas

[1] entre 2463 e o começo dos questionamentos especiais de Gandalf com relação ao Anel (quase 500 anos depois) eles aparecem ter desaparecido completamente(exceto, é claro, para Sméagol); ou ter fugido da sombra de Dol Guldur.

[2] Antigamente isto aconteceu aparentemente, logo após nascimento, pelo anúncio do nome da criança para a família agregada, ou em comunidades maiores e mais elaboradas para o ´chefe´ titular´ do clã ou família. Veja nota no fim.

[3] Conseqüentemente a expressão Hobbit ´um primo de doze-milhas´ para uma pessoa excluída pela lei, e não é reconhecida nenhuma obrigação além de sua interpretação precisa: aquele que não daria à você nenhum presente se a distância do degrau de entrada dele para seu não estivesse abaixo de 12 milhas (de acordo com a própria medida dele).

[4] Nenhum presente era dado no ou durante a celebração de casamentos de Hobbits, exceto flores (casamentos eram realizados principalmente na Primavera ou nas manhãs do Verão). Ajuda em mobiliar uma casa (se o casal fosse ter uma em separado, ou apartamentos privados em um Smial) era dada muito antes pelos pais de qualquer lado.

[5] Em comunidades mais primitivas, como aquelas ainda vivendo em clã-smials, o aniversariante também fazia um presente para o ´chefe da família´. Não há nenhuma menção dos presentes de Sméagol. Eu imagino que ele era um órfão; e não suponho que ele desse qualquer presente em seu aniversário, guardava (de má vontade) o tributo para sua ´avó´, provavelmente peixe. Um das razões, talvez, para a expedição. Teria sido como Sméagol dar peixe, mas de fato pego por Déagol!

[6] Nós estamos aqui só tratando com ´chefe´ titular não com possessão de propriedade, e sua administração. Estas eram questões distintas; embora no caso da sobrevivência das ´grandes casas´, como Grande Smials ou Salas de Brandy, elas poderiam sobrepor. Em outros casos o comando, sendo um mero título e um assunto de cortesia, era naturalmente raro ser renunciado pelo herdeiro.

[7] Este título e ocupação descendem imediatamente, e não foi mantido por uma viúva. Mas Ferumbras, embora ele se tornasse Thain Ferumbras III em 1380, ainda sim ocupou nada mais que um pequeno apartamento de um filho solteiro no Grande Smials, até as 1402.

[8] os descendentes de um bisavô comum do mesmo nome.