As Duas Torres

A maior parte dos reviews de AdT traz as palavras perfeito, impecável e impressionante. Por outro lado, há também muitas críticas e a sensação é de que alguma coisa está incomodando. Na verdade, quando tentamos contar o que vimos, sai algo mais ou menos assim: é excelente e ruim, mas adoramos! Confuso, não é? Vou tentar explicar.
 

Existe uma grande diferença entre a SdA e AdT. O primeiro, é um filme fantástico no conjunto, é sólido, o tempo todo a sensação é de magia. Já AdT intercala momentos impressionantes e grandiosos com cenas em que é inevitável pensar: para quê isso?? Ou então, com cortes em momentos errados, que fragmentam aquela magia. Sim, acho que é isso: em AdT a emoção está fragmentada, concentrada em alguns grandes momentos e ausente naqueles em que parece que Peter Jackson errou a mão. Temos Abismo de Helm, Gollum e olifantes, mas também temos exorcismo, um Faramir descaracterizado e cenas desnecessárias.

Por que então todo mundo sai do cinema dizendo que o filme é excelente? Simplesmente porque aqueles grandes momentos de que falei, aqueles que estão sendo chamados de impecáveis e perfeitos são tão fortes e tão emocionantes, que só nos resta gostar de AdT. Vou tentar lembrar aqui de alguns destes momentos e fazer também algumas críticas.

O começo:

É de arrepiar. A câmera passeia pelas montanhas enquanto ouvimos a voz de Gandalf: “You shall not pass!”. Revemos a cena na ponte de Khazad-dûm e ficamos de queixo caído com Gandalf e o Balrog mergulhando na escuridão para dentro do abismo.

Em seguida, Peter Jackson nos mostra como andam os outros personagens: Sam e Frodo ( perdidos, andando em círculos sem encontrar um caminho para Mordor), Gimli, Aragorn e Legolas seguindo o grupo dos uruk-hai e os hobbits Merry e Pippin ( sendo carregados por orcs que estão ainda mais assustadores que os de Moria).
A partir daqui, tendo visto o filme apenas uma vez, fica difícil contar a seqüência correta das cenas, pois são muitos cortes e coisas acontecendo ao mesmo tempo.

Frodo, Sam e Gollum:

É ainda no começo do filme que encontramos Gollum. A seqüência em que ele ataca Frodo e Sam e tenta pegar o anel deixa todo mundo vidrado. A raiva de Gollum, a velocidade da cena e a nossa surpresa diante da perfeição do personagem se misturam. Dá vontade de entrar lá e fazer alguma coisa! Se você rói as unhas, cuidado, pode sair do cinema sem elas. Quando Frodo coloca Ferroada contra a garganta de Gollum e diz: “This is Sting, you’ve seen it before” dá um arrepio danado. Frodo e Sam colocam a corda feita pelos elfos em torno do pescoço de Gollum, que se contorce, esperneia e chora. É realmente intrigante: ao mesmo tempo em que você quer esganá-lo, ele te comove. Em uma cena muito emocionante, Frodo o chama de Smeagol. Por um momento ele esboça um sorriso e se lembra do passado. Sentimos então uma profunda tristeza e, assim como Frodo, nos damos conta do que o anel fez a Gollum. Realmente muito tocante.

Como já foi dito em outros reviews, há também humor no personagem. É impossível conter o riso quando ele chama Sam de gorducho, pergunta o que são “tatas” ou canta alegremente enquanto bate seus peixinhos contra as pedras.

O ponto alto da participação de Gollum, no entanto, são os conflitos do personagem. Conflitos entre o Gollum que diz: “Mestre bonzinho, mestre cuida de nós” e o Gollum cruel, que precisa recuperar o anel a qualquer custo. A cena do monólogo que confronta os dois lados deste Gollum atormentado não pode ser descrita, tem que ser vista. Gollum está perfeito e ponto. Andy Serkis e a equipe de efeitos especiais estão de parabéns. Nunca pensei que o resultado final fosse ficar tão bom. Ponto também para Elijah Wood e Sean Astin, afinal, não foi fácil contracenar com um personagem virtual, gravar a mesma cena várias vezes, com tela azul, sem tela azul, com e sem Andy Serkis. Eles se saíram muito bem.

Já elogiei demais, hora de dar uma alfinetada. Que cena foi aquela da capa élfica?? Sam, e em seguida Frodo, rolam morro abaixo derrubando pedras e não são vistos pelo exército que passava pelo Portão Negro porque se cobrem com a capa de Frodo. Os dois somem num efeito que mais parecia uma pedra de papel machê, daquelas que se usa em presépios. Lamenável.

Faramir:

Tudo começa bem, já que é na cena que precede o encontro dos hobbits com Faramir que vemos os olifantes. Belíssimos, imponentes, não conheço ninguém que não tenha gostado. Pena que quando Faramir surge, a vaca vai para o brejo. Temos dois problemas aqui. Primeiro, o personagem foi descaracterizado, mais parece um cafajeste . Segundo, David Wenham é muito ruim de serviço. O ator não tem a mesma expressividade de alface de Marton Csokas ( Celeborn), mas também não fica muito longe do reino vegetal. Nem quando Frodo toca no nome de Boromir ele reage.

O fato de Faramir levar Frodo e Sam para Osgiliath também incomodou muita gente. Não acho que tenha sido esse o grande erro de PJ com relação a Faramir. Para mim, o erro está na distorção do personagem e na atuação sofrível de David Wenham. Talvez um Faramir mais próximo do que temos o livro, levando Frodo e Sam para Osgiliath fosse uma mudança mais tolerável. Do jeito que ficou, realmente, é difícil engolir.
Nem tudo nesta parte do filme foi ruim. Além dos olifantes que deixaram todos boquiabertos, o esconderijo de Faramir e seus homens na cachoeira é lindíssimo. É exatamente como eu imaginava, assim como a cena em que Faramir e Frodo observam Gollum lá embaixo, pescando.

Nazgûl:

As montarias aladas ficaram muito boas. Confesso que imaginava a cabeça delas um pouco diferente. No filme é meio pequena e me lembra a de um dinossauro. As que eu imaginava eram maiores e lembravam mais a de um dragão. De qualquer forma, o vôo delas é incrível. Atenção para o barulho quando batem as asas e também para o grasnado, dá medo, muito medo.

Aragorn, Legolas e Gimli:

As cenas em que os três estão perseguindo os orcs têm paisagens fantásticas. O encontro com Éomer e os cavaleiros é de arrepiar. Os cavaleiros passam por eles e quando Aragorn os chama, eles fazem a volta e cercam os três, fechando cada vez mais o círculo, exatamente como no livro. Na verdade, a primeira parte do encontro com os cavaleiros está muito boa, com Gimli e Éomer se estranhando, Legolas defendendo o anão, e muitas falas idênticas às do livro. Porém, Éomer entrega Hasufel e Arod meio do nada, de repente. Quem não leu o livro não deve ter entendido muito bem.

Éomer só aparece aqui, com Grima em Edoras e no final da seqüência do abismo de Helm. Uma pena, já que pelo po
uco que vimos, é possível dizer que Karl Urban trabalha muito bem. Gostaria que Éomer pudesse ter aparecido um pouco mais.

Legolas e Gimli tiveram mais destaque desta vez. O anão realmente foi o Pippin do segundo filme, mas (ok, podem me bater) não foi tão ruim assim. Houve um certo exagero, como na cena em que ele cai do cavalo (Gimli nem sequer montaria sozinho naquele cavalo), mas não acho que Gimli tenha sido ridicularizado. Nas cenas de batalha ele estava lá, um guereiro, cortando pescoços de orcs, enfrentando wargs.

Scadufax:

Quem não chorou tem coração de pedra.

Edoras:

Imagens arrebatadoras. É lindo ver Gandalf, Aragorn, Gimli e Legolas cavalgando em direção a Edoras enquanto Éowyn os observa. É aqui que estão alguns dos trechos mais bonitos da trilha sonora.

Miranda Otto brilhou. Sua interpretação literalmente deixa a cabeça de ovo Liv Tyler no chinelo, e os fãs, ansiosos para acompanhar sua personagem no terceiro filme. A cena com a espada e a conversa com Aragorn ficou belíssima.

Bernard Hill também esteve ótimo. A cena no túmulo de Theodred é comovente e o ator protagoniza algumas das seqüências mais fortes e emocionantes do filme. Realmente, a declamação do poema Where now the horse and the rider , que muitos já tinham visto nos trailers, deixa qualquer um arrepiado. Quanto a já famosa cena do exorcismo, realmente exagerada. Peter Jackson não foi feliz com o efeito que faz

Théoden “rejuvenescer” instantaneamente. Mas, para ser sincera, me incomodou mais a cena que acontece um pouco antes, quanto Legolas, Aragorn e Gimli, digamos, “saem na porrada” com os guardas do palácio. A platéia caiu na risada no meio de uma cena que antes e depois disso é tensa. Não deu para entender muito bem qual foi a intenção de PJ com isso.

Hora de falar de Brad Dourif, mais um dos destaques do elenco. Grima está perfeito. Seu olhar, sua voz, o jeito como fala com Théoden. Nas cenas envolvendo Gandalf, Théoden e Grima também foram mantidas falas do livro, com um resultado muito bom.

Wargs:

Não se parecem muito com lobos, mas não importa, dá para ter pesadelos com eles do mesmo jeito. São rápidos, pulam, têm dentes enormes e vêm com um orc de brinde.

Aragorn e Arwen:

Mais uma vez, temos um grande momento intercalado com cenas desnecessárias. Peter Jackson surpreende, e conta um pouco da história de Aragorn e Arwen que está nos apêndices do livro. Elrond é o narrador desta cena, que é um presente para os fãs que temiam que a história dos dois fosse mostrada como um “e eles viveram felizes para sempre”.
Mas como eu disse, há cenas desnecessárias aqui e Aragorn teve que cair de um penhasco para que algumas delas acontecessem. A cena do sonho e a lengalenga de beijo para cá e beijo para lá poderiam ser cortadas sem pena.

Abismo de Helm:

Théoden, Aragorn, Legolas e Gimli estão nas muralhas. Começa a chover. Ouvimos o som metálico da água batendo nas milhares de armaduras. Um raio cruza o céu, os olhos de Legolas brilham e o clarão ilumina uma multidão de formas negras lá em baixo. Daí para a frente, não dá para descrever. Falar das saraivadas de flechas, das escadas, de Gimli e Legolas disputando, nada disso dá idéia do que Peter Jackson conseguiu fazer. Impressionante, grandiosa, arrebatadora, uma batalha fabulosa. Melhor que vocês vejam por si mesmos. Só posso dizer que quando a aurora chega e Gandalf surge no leste você tem a sensação de que o coração vai sair pela boca.

Ents:

Barbárvore é bem mais magro do que eu imaginava, mas os olhos, pelo menos para mim, ficaram muito próximos daqueles que Tolkien descreveu como : “ castanhos, carregados de uma luz esverdeada.” Realmente é impossível não notar a voz de John Rhys Davies por trás de Barbárvore, mas isso não me incomodou tanto. Acho que Merry, Pippin e o ent tiveram pouco espaço, quase não há diálogo entre eles, e como o encontro com Barbárvore é uma das minhas partes favoritas no livro, achei que o filme deixou um pouco a desejar. Mas, como eu já disse, AdT é feito de grandes momentos, e a destruição de Isengard é um deles.

Esta seqüência acontece logo depois do Abismo de Helm, num corte que ficou mal colocado. Daquela cena belíssima em que Gandalf surge , pulamos de repente para Isengard e fica uma sensação de : “Ei, espera, eu queria ver aquilo!”. De qualquer forma, é muito emocionante ver os ents marchando, a água do Isen subindo e Saruman desesperado no alto de Orthanc.


O fim:

Impossível não ir às lágrimas com o diálogo entre Frodo e Sam, assim como também é impossível não sentir um frio na barriga quando Gollum fala, ou melhor, pensa em Laracna. Os créditos sobem junto com aplasos, e não poderia ser diferente.

Vale a pena? Claro que sim. Ninguém deve perder Gollum, Scadufax, olifantes, wargs, Abismo de Helm, Cavaleiros de Rohan, Éowyn e companhia. Juntando tudo, o flme é belíssimo, emocionante. Eu sei que vou ver de novo. E vocês?