SdA – As Duas Torres

Quando eu falo para alguém que já assisti As Duas Torres, depois da pessoa me amaldiçoar até a sétima geração, a pergunta mais freqüente é: “é melhor do que o primeiro?” A resposta é inevitavelmente incompleta e carece de uma explicação subseqüente: sim… e não.
 
Calma, eu disse que tinha uma explicação. O fato é que As Duas Torres é indiscutivelmente mais impressionante visualmente do que A Sociedade do Anel. Mas o roteiro é pior. Simples assim. Ao passo que o primeiro tinha um ritmo bem trabalhado e uma edição precisa, esse peca em alguns desses aspectos, o que vai resultar em muitas críticas desfavoráveis.

Antes de mais nada, gostaria de deixar claro que não faço ressalvas a mudanças. Não sou “purista”, aliás nem sei direito o que é isso. 90% dos filmes são baseados em livros e todos eles tem modificações, uns mais, outros menos. Assim sendo, mudanças não me incomodam. Pretendo analisar esse filme do ponto de vista cinematográfico apenas, para que isso não se torne uma resenha tendenciosa de um fã exaltado.

Tendo deixado isso claro, vamos ao que interessa: o filme é bom? Não, é excelente. Tem cenas fantásticas, tanto as grandiosas quanto as mais íntimas. Aliás, esse é um aspecto que é bom ressaltar: Peter Jackson se concentrou bastante nos personagens e na interação entre eles, e apesar do filme ter bastante ação, os diálogos fazem muita diferença. Nesse âmbito, dou destaque para a participação de Grima Língua-de-Cobra, que para mim pelo menos, estava impecável. Não deixa de ser um coadjuvante, mas tem motivações claras e reais. Théoden também merece destaque, uma vez que tem uma grande participação e não deixa a peteca cair em nenhum momento. Protagoniza uma das cenas mais emocionantes, que levou a platéia ao delírio.

Éowyn, por sua vez, está desenvolvida de forma satisfatória, mas nunca extraordinária. Para quem não leu o livro, ela vai parecer uma chorona. Jackson até tentou inserir um pouco da revolta dela em não poder fazer nada para ajudar, mas não foi feliz. Uma linha de diálogo passa despercebida por quem está conhecendo a personagem naquele momento. Algo similar ocorre na participação de Éomer, que pode causar uma sensação de “quem é esse cara?” – ele aparece no começo do filme, some, e volta só no final. Mas nada disso chega a incomodar, pois todas as interpretações estão no mínimo satisfatórias. Bem, quase todas. Faramir é um problema, e eu não estou falando de descaracterização da personagem, desrespeito à obra, nem nenhuma bobagem desse naipe. A questão é que ele não convence nem na concepção apresentada no filme. Não há uma justificativa convincente para a decisão radical que ele toma no final, contradizendo todas as suas ações até então (o que é um problema do roteiro) e em nenhum momento ele parece realmente motivado a fazer qualquer coisa (o que é um problema da interpretação do ator). Não há sequer um fiapo de identificação, nenhuma característica marcante é apresentada ao público. Ele é o irmão de Boromir – e só. Realmente decepcionante.

Por outro lado, todos os personagens que estavam presentes no primeiro filme têm uma participação bem coerente e satisfatória, até aqueles que tem pouco tempo de tela. Aliás, isso me leva a outro problema: a edição tem uma falta de ritmo que incomoda um pouco. Os ganchos utilizados quando a narrativa pula de um grupo para outro poderiam ter sido melhor trabalhados. Eu entendo a preferência de Jackson pelo núcleo de Aragorn, Legolas e Gimli, pois envolve mais personagens e acontecimentos mais importantes. Mas há uma cena absolutamente desnecessária, onde Aragorn sonha com Arwen, que poderia perfeitamente ser substituída por outra coisa mais relevante. Não o sonho em si, mas o que acontece antes. Fora isso, as cenas com os três (que são inegavelmente os heróis do filme), foram muito boas. A participação de Legolas e Gimli foi sensivelmente maior do que no primeiro filme, e a amizade entre o elfo e o anão é bem explorada, sem apelar para nada que dê margem a piadinhas de duplo sentido. E por falar em piadinhas, muita gente vai se incomodar pelo jeito que o Gimli é retratado. Enquanto no primeiro filme eles usaram o Pippin como “comic relief”, nesse o pobre anão foi explorado à exaustão. Há um pouco de humor com Gollum, e um momento engraçado envolvendo Barbárvore e sua lentidão, mas é de Gimli que vem a maior parte da comicidade presente no filme. Devo dizer que isso não me incomodou muito, mas houve de fato um certo exagero. Só que há uma compensação desse lado cômico. Gimli não é apresentado como um palhaço, como muitos devem estar pensando. O humor vem da situação, não do personagem em si. Fica claro que ele é um guerreiro a ser respeitado, e várias das cenas de batalha mais legais o têm como protagonista.

E por falar em batalha, você deve estar querendo saber sobre a batalha de Helm. Bom, vai ficar querendo. Não vou dar minha opinião sobre isso pelo simples fato de que ela vai ser idêntica a todas as outras. Só vou dizer uma coisa: se o seu queixo não cair, é porque está amarrado.
Mas vamos deixar Aragorn, Legolas, Gimli e as batalhas um pouco de lado, e vamos falar sobre aqueles que são os principais protagonistas desta epopéia: sim, os hobbits. Bom, Merry e Pippin aparecem pouco, e isso implica que Barbárvore também tem uma participação relativamente reduzida (na verdade, faltou um pouco de personalidade ao ent, decorrência de suas pouquíssimas falas. Nada que estrague o filme, é verdade, mas pode incomodar os fãs mais fervorosos. Todavia, os efeitos então bastante convincentes. Gostei muito da aparência de Barbárvore na tela, e só tenho ressalvas quanto à voz. Não que Rhys-Davies tenha feito um trabalho ruim, longe disso. Mas achei que ele pudesse fazer uma voz bem diferente da de Gimli, e não foi o caso. Ao invés de encher a voz dele de efeitos, podiam ter chamado o James Earl Jones e mandado ele falar devagar, que ficaria bem melhor). Os dois hobbits obviamente têm o mesmo tempo de tela, mas as ações de Pippin são mais decisivas para a história – de fato, ele compensa toda sua estupidez no primeiro filme.

Pessoalmente, eu gostaria de ver mais de Frodo, Sam e Gollum, mas a participação deles é perfeitamente satisfatória. Principalmente no que tange a Gollum. Ah, sim, o Gollum. Vamos falar do Gollum. Para começar, ele não está tão perfeito quanto pintam. Os efeitos realmente beiram a perfeição fotográfica quando o personagem é mostrado de perto. Mas quando ele aparece d
e corpo inteiro, alguns movimentos ficaram estranhos, artificiais. Ainda assim, está anos-luz à frente de Jar Jar Binks. Contudo, o que chama a atenção, mais do que a aparência, é o desenvolvimento de sua personalidade. Os momentos de crueldade se alternam com os de “cachorrinho obediente” de forma absolutamente competente, culminando num monólogo que é ao mesmo tempo assustador, dramático e engraçado. Simplesmente brilhante. Gollum transmite ao público tudo o que devia transmitir, de asco a pena. Um dos melhores personagens no filme, com toda certeza. E também um dos mais importantes, pois nos lembra do perigo do anel e sugere o que poderia acontecer a Frodo, caso este fosse dominado por seu poder.

A influência de Sauron fica evidente nessas horas, e como se não bastasse, Peter Jackson ainda nos lança vertiginosamente a Barad-Dúr, de quando em quando, mostrando o Olho em toda sua glória aterrorizante, só pra garantir. Aliás, coisa muito falada sobre A Sociedade do Anel foi a competência de Peter Jackson em mostrar o “lado negro” da Terra-Média. Nesse filme há um equilíbrio maior, talvez porque não houve a urgência em mostrar “coisas bonitas”. Não me entendam mal, Edoras está belíssima. Mas ainda assim, não tem a necessidade de ser algo singelo como Lothlórien. Rohan é um reino rústico, e isso foi uma grande vantagem na hora de caracterizá-lo visualmente. Porém, o mal ainda leva vantagem. Mordor é absolutamente tudo que poderia se esperar de Mordor. O Portão Negro se abrindo para a entrada dos easterlings foi apenas um detalhe, mas foi uma das coisas que mais me chamou a atenção no filme (talvez porque ele seja aberto por dois trolls imensos, umas três vezes maiores que o de Moria). Os wargs estão absolutamente nojentos, você quase pode sentir o cheiro deles. As montarias dos nazgul são de tirar o fôlego. E os orcs estão relativamente melhores do que no primeiro – a maquiagem me pareceu mais convincente, embora isso possa ter sido só impressão. O conflito entre os orcs comuns e os uruk-hai é mostrado, apesar de só um pouco, e está coerente. Aliás, os uruk-hai estão muito bem retratados, salvo numa cena que me lembrou a abertura dos jogos olímpicos (você vai entender quando vir).

E Saruman… bem, Saruman é uma questão problemática. Ele não tem uma participação pequena, não é bem isso. O problema é que na maioria de suas cenas, ele aparece como narrador, contando seus planos, descrevendo seus objetivos. A única hora em que ele interage com outro personagem é em uma cena com Grima, e eles trocam apenas meia dúzia de palavras. Não chega a estragar o personagem, mas ele acaba parecendo meio inútil (e não devia). É com o mago, aliás, que uma das cenas mais incômodas acontece – Gandalf tem que “exorcizar” Théoden, tirando o Satanás, digo, o Saruman do corpo dele. A cena ia muito bem até esse ponto, onde a direção fica um tanto histérica, lembrando aquela parte no primeiro filme onde o Gimli tenta quebrar o anel com o machado. Além de ter ficado meio ridícula, essa passagem anula um pouco a importância do Grima.

Bom, eu disse que não ia falar de mudanças. Na verdade quis dizer que não ia reclamar de mudanças. Falar sobre elas é um tanto inevitável se você já leu o livro. Pois bem, Peter Jackson já havia dito que esse filme seria o que traria mais modificações em relação à obra. Realmente há muitas delas. Mas mesmo assim, os fãs serão bastante recompensados com pequenos detalhes, como a presença do lembas, e com cenas grandiosas que fazem justiça à imaginação de qualquer um. Destaque para a destruição de Isengard – indubitavelmente a melhor cena do filme. No que diz respeito ao aspecto técnico, As Duas Torres no mínimo se equipara à primeira parte da trilogia, superando-a muitas vezes. A fotografia está belíssima, a trilha sonora excelente e os efeitos visuais extremamente convincentes – só achei meio estranho e artificial o rejuvenescimento de Théoden, mas isso é detalhe. A edição, como eu já disse, tem falhas, mas a história é contada de forma competente e compreensível. Realmente, não houve a necessidade de um prólogo, pois a situação foi relembrada ao longo do filme (aliás, a Galadriel aparece só para isso, numa cena um tanto “jogada”).

Eu poderia ainda falar da luta de Gandalf com o Balrog, de Scadufax, dos olifantes e de muitas outras coisas, mas vou parar por aqui. Deixo apenas uma recomendação: não seja um chato. Não vá assistir o filme para ficar reclamando que isso ou aquilo está “errado”. Coloque na sua cabeça que não está errado, apenas diferente. Tenha em mente que aquilo é apenas um filme, e garanto que você terá uma experiência inesquecível. Só mais um adendo: o final (ou a ausência dele) vai incomodar as mesmas pessoas que o final do primeiro filme incomodou, e quanto a isso, nada pode ser feito.