Asas de Balrog

– Balrogs tem asas!

– Ai meu Deus! Lá vamos nós de novo… – disse Alan.

 

– Balrogs tem asas!

– Ai meu Deus! Lá vamos nós de novo… – disse Alan. – Myrian, quanta vezes eu vou ter que te explicar? Balrogs não tem asas.

– Mas está bem claro lá no livro: “e suas asas se abriram de parede a parede…” – respondeu Myrian.

– Tudo bem, mas no parágrafo anterior está escrito que “a sombra à sua volta se espalhou como duas grandes asas”. Não eram asas de verdade…

Sentada ao lado deles, Viviani apoiava a cabeça nas mãos e olhava entediada para a sua amiga, que discutia um assunto que para ela, era completamente sem sentido. De vez em quando ela olhava para o homem sentado ao seu lado, esperando que ele falasse alguma coisa ou tomasse alguma atitude. – Detesto encontro às escuras. – pensava ela. Paulo parecia distraído, alheio à discussão dos dois amigos e à mulher sentada ao seu lado. Os quatro estavam sentados em um banco, num shopping qualquer da cidade de São Paulo.

A discussão continuava quando de repente, uma voz vinda de trás deles a interrompeu.

– Tolos.

O quarteto olhou para trás e Viviani conteve um grito, quando viu a figura sentada no banco que ficava de costas para eles. Era um homem velho, com longos cabelos e barba castanhos. Suas vestimentas, que mais pareciam trapos, eram marrons e não se podia distinguir a sujeira do tecido. Em seus ombros, duas pombas repousavam calmamente. E os três, o velho e as duas aves, encaravam o pequeno grupo.

– Tolos. Vocês crêem nos escritos de Tolkien como se eles fossem uma verdade absoluta. Como se os fatos ali descritos fossem exatos. Mas nem tudo o que está nos livros aconteceu da maneira como foi escrito.

Myrian olhou para os amigos e sorriu. – Esse cara deve ser louco. – pensou ela.

– Espera um pouco! – disse ela, se esforçando para não rir. – O senhor está querendo nos dizer que os tempos antigos não foram do jeito como está descrito nos livros? Então tudo aquilo que Tolkien escreveu é falso? Não passa de uma fantasia?

– Não, não. Não é isso que eu quis dizer. Tolkien tinha um dom especial. Seus sonhos e visões o levaram a uma época tão antiga, que poucos ainda se lembram dela. Ele conseguiu escrever sobre eventos e locais que não estão mais registrados em lugar nenhum. No entanto, ver é muito diferente de viver. Tolkien não viveu naquela época. O que ele escreveu, foi de acordo com aquilo que ele pôde interpretar de seus sonhos e visões. E apesar de muitos fatos terem sido descritos com uma exatidão surpreendente, outros acabaram sendo alterados e até mesmo esquecidos. Pequenos detalhes na verdade, que são percebidos somente por aqueles como eu, que ainda se lembram daquela época…

Myrian olhou para os amigos. Enquanto tampava a boca com uma mão, para sufocar uma gargalhada, com a outra, ela fazia movimentos circulares com o dedo apontado para a própria cabeça. – Com certeza ele é completamente louco. – pensou ela.

Viviani olhou para ela com um olhar de reprovação. Ela não achava muito certo ficar se divertindo com os delírios daquele pobre homem. Alan e Paulo nada diziam. Apenas observavam o velho, com uma expressão de surpresa estampada em suas faces.

– Vejam por exemplo, o caso das asas dos balrogs, que vocês estavam discutindo agora há pouco. – continuou o velho. – Tolkien nunca foi muito claro com relação a elas, pois ele próprio não conseguiu ter uma visão muito clara daqueles demônios. Não podemos culpá-lo, é claro, pois balrogs são mesmo criaturas difíceis de descrever.

Myrian tentou interromper o velho, mas ele parecia empolgado e não parava de falar.

– Temos também o caso do sábio Radagast, que foi praticamente ignorado nas histórias. Como pode, um Istari de tamanho poder e sabedoria, ser reduzido a um papel tão pequeno e insignificante? É um absurdo…

– Peraí, senhor! – interrompeu Myrian bruscamente. – Não muda de assunto não. Ninguém aqui quer saber do inútil do Radagast. Você estava falando de balrogs. Então diz aí pra gente, eles tinham asas, não é?

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O velho subitamente se levantou e os dois pássaros que haviam permanecido quietos em seus ombros alçaram vôo, assustados. Myrian se calou.

– O que foi que você disse? – disse o velho, nitidamente irritado. – Como ousa chamar a mim, Radagast, o Castanho, de inútil? Eu, que pertenço à ordem dos Istari, não terei meu valor questionado por uma reles mortal.

Myrian não parecia assustada com a ameaça do velho, mas Viviani levantou e se afastou. Alan e Paulo permaneceram sentados. Só eles haviam notado o grande número de pássaros que, de repente, começavam a entrar no shopping. Rápida e silenciosamente, eles se reuniram acima e ao redor do velho. As aves pareciam focar os olhares sobre o pequeno grupo. O velho parecia ter crescido em tamanho e continuava gritando. Sua voz agora era assustadora e chamou a atenção de várias pessoas no shopping.

– Preste atenção minha jovem, pois eu não fui deixado para trás à toa. Meu papel na grande Música ainda não está concluído e chegará o dia em que todos se lembrarão do grande Radagast. No dia em que Morgoth escapar de sua prisão e as luzes do Sol e da Lua forem para sempre extintas, vocês virão a mim. E eu estarei lá para guiá-los, quando o fim chegar…

O velho foi interrompido por dois seguranças do shopping, que apareceram e o pegaram pelos braços. Os pássaros bateram asas e levantaram vôo, fazendo um grande alvoroço.

– Venha vovô. – disse um dos seguranças. – O senhor já causou muito tumulto por hoje.

O velho foi arrastado para fora, mas continuou esbravejando. Mas agora, a sua voz havia diminuído e ele perdera toda a imponência que demonstrara há apenas alguns instantes.

– Lembrem-se disso. – continuou. – A hora está chegando. A espada negra… a espada negra de Túrin foi reforjada. Meu papel neste mundo ainda não terminou…

E voltando seu olhar para Alan e Paulo.

– … e nem o de vocês.

Então o velho finalmente foi arrastado para fora e aos poucos, a multidão que se formara ao redor dele, foi se dispersando.

– Que cara mais doido… – disse Myrian.

– Doida é você! – disse Viviani. – Tinha que ficar provocando o pobre homem? Você não tem jeito mesmo, né?

– Me desculpe, mas eu não consegui resistir. Você ouviu o papo do cara? Além de acreditar em tudo aquilo que Tolkien escreveu, o cara ainda pensa que é um mago? Meu, isso é muita viagem. Não é mesmo, Alan?

Alan e Paulo pareciam distantes.

– Ei! Vocês dois. – gritou Myrian. – O que foi? Não vão me dizer que vocês ficaram assustados com um pobre coitado igual àquele?

De repente Alan pareceu despertar de um transe e sua expressão séria voltou a ter aquele ar alegre e descontraído que lhe é peculiar.

– Que é isso, Myrian. Eu só estava um pouco distraído. O velho Paulo aqui também, não é meu amigo? – e dizendo isso, deu uma cotovelada na barriga dele.

– É… é sim.

– Nossa, que dupla mais esquisita… – disse Myrian com uma risada. – Ei Viviani, você vem comigo até o banheiro? Enquanto isso, você dois aí aproveitem e se recuperem do susto.

– Tudo bem! – disse Alan, rindo. – Vou ficar esperando por você, minha Lúthien!

Myrian sorriu. As duas já estavam se afastando quando ela olhou para trás e disse:

– Porque vocês dois também não aproveitam para dar uma olhada nas lojas e comprar algumas roupas? Pelo amor de Deus, será que vocês só se vestem de azul?

Alatar ficou admirando as duas jovens enquanto elas se afastavam, com um sorriso bobo na cara. Quando olhou para o lado, seu amigo o estava encarando, enquanto balançava a cabeça negativamente.

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– Você é patético… – disse Pallando.

– Ah vai! Vai me dizer que elas não são lindas?

– Sim, elas são muito bonitas, mas compará-las com a bela Lúthien já é demais.

– Ei, nós não estamos mais nos tempos antigos! Hoje em dia, é raro encontrar uma mulher que caia nessa cantada. Eu tenho que aproveitar.

– Por Erú! Você prestou atenção no que acabou de dizer? Alatar, você já foi um Maia! Onde está a sua dignidade?

– Ei, vai com calma. Não é bem por aí. Eu só estou tentando me adaptar à cultura e ao modo de vida dos atani. Não há nada de indigno nisso.

– Adaptação? Sei muito bem o tipo de adaptação que você andou fazendo nesses últimos séculos. As histórias de suas tentativas de se “adaptar” aos atani, mais especificamente às do sexo feminino, se espalharam muito rápido. Soube que algumas chegaram até a causar escândalo em Valinor. Você é uma vergonha para a nossa ordem.

– Fazem mais de 100 anos que a gente não se vê, mas pelo visto você continua ranzinza como sempre.

– Eu não sou ranzinza. Sou apenas sério, coisa que você não é. Eu marco uma reunião com você, para nós discutirmos a nossa missão, e você me convida duas mortais?

– Era pra tentar te descontrair um pouco. Mas pelo visto, isso deve ser impossível…

– Eu tenho um trabalho a cumprir nesta terra e não posso ficar perdendo tempo…

– Trabalho? – interrompeu Alatar. – É só nisso que você pensa? Você por um acaso faz idéia de qual é o nosso trabalho? Não vemos um orc há séculos e a única sombra que ainda existe é aquela que habita o coração e a alma dos mortais. Acorda, Pallando. O nosso trabalho aqui acabou. O último navio para Valinor partiu há muito tempo e nós fomos esquecidos aqui. E não sei quanto a você, mas não quero acabar como o pobre Radagast…

O silêncio tomou conta dos dois. Ver Radagast, um colega Istari, naquele estado tão deplorável, deixou os dois bastante abalados.

– Estranho, não? – disse Pallando, depois de algum tempo. – Encontrarmos Radagast assim, de repente, depois de tanto tempo…

– É verdade. Mas o que será que ele quis dizer com “o nosso papel ainda não terminou”?

– Eu não sei…

– A espada negra de Túrin, o fim do Sol e da Lua, o retorno de Morgoth… Ele estava falando da segunda profecia, não é mesmo?

– Sim. Ele disse que está chegando. A hora está chegando…

Mais uma vez, os dois ficaram em silêncio. Silêncio que foi quebrado somente pela voz de Myrian, chamando os dois.

– Ei, dupla dinâmica! Acho melhor a gente ir embora. Parece que uma tempestade está chegando.

– Sim… está chegando… – disse Pallando.

Viviani percebeu a tristeza em sua voz e se aproximou. Ela se sentou do lado dele e agarrou gentilmente seu braço.

– Está tudo bem com você?

Pallando olhou para a jovem. Ela estava muito longe de ter a beleza de uma elfa, mas ainda assim, era muito bonita para os padrões dos mortais. Ele sorriu.

– Está sim. Obrigado por perguntar.

Viviani devolveu o sorriso. Alatar, que observava os dois, ficou contente ao ver o sorriso no rosto do amigo.

Myrian já estava ficando impaciente quando finalmente os três se levantaram e, junto com ela, se dirigiram para a saída do shopping. As preocupações desapareceram da cabeça dos dois Istari por alguns momentos e a descontração tomou conta do grupo.

Quando estavam próximos da saída do shopping, Alatar se aproximou de Pallando e perguntou bem baixinho para ele.

– Ei, Pallando! Quando foi a última vez que você viu um balrog?

– Sei lá. Já faz tanto tempo. Porquê?

– É que também já faz um tempão desde a última vez que eu vi um e eu não consigo mais me lembrar… balrogs tinham asas?