tom-bombadil-goldberry-by-anneth-lagamo

Quem é Tom Bombadil?

tom-bombadil-goldberry-by-anneth-lagamoNa família de Tolkien Tom Bombadil era originalmente um boneco holandês pertencente a um dos filhos de Tolkien [Carpenter, Tolkien; Grotta-Rurska, Tolkien]. Tolkien mais tarde escreveu um poema sobre ele chamado “As Aventuras de Tom Bombadil”, publicado no Oxford Magazine em 1934, muito antes de começar a escrever O Senhor dos Anéis. Quando Tolkien decidiu inserir Tom na trilogia, pouco precisou ser alterado sobre ele ou seu poema exceto pela pena em seu chapéu – mudada de pavão para cisne, uma vez que não existem pavões na Terra-média [Tolkien, Letters, pp. 318-19].

Muito leitores de O Senhor dos Anéis consideram a presença de Tom no primeiro livro uma intrusão desnecessária na narrativa, que poderia ser omitida sem perda. Tolkien estava ciente de seus sentimentos, e em parte seus julgamentos era corretos. Como Tolkien escreveu em uma carta de 1954, “… muitos o acharam um ingrediente estranho e verdadeiramente discordante. De fato historicamente eu o coloquei porque já o havia inventado… e queria uma “aventura” no caminho. Mas eu o mantive, e como ele eram porque ele representa certas coisas que de outro modo ficariam de fora”. Julgando por estas observações, os leitores críticos estão corretossobre a arbitrariedade da introdução de Tom na história; contudo, como Tolkien continua, ele deliberadamente [não-arbitrariamente] manteve Tom para preencher uma função específica, para proporcionar uma dimensão adicional.
Em uma carta escrita para os revisores originais da trilogia em 1954, Tolkien revela pouco sobre qual seria o papel ou função literária de Tom. No início da carta ele escreve que “mesmo em uma Era mitológia devem existir alguns enigmas, como sempre existem. Tom Bombadil é um [intencionalmente]” [Ibid., p. 174]. Mais tarde ele acrescentou que “Tom não é uma pessoa importante – para a narrativa. Eu suponho que ele tem alguma importância como um “comentário”". Então ele segue explicando que cada lado na Guerra do Anel está lutando por poder e controle. Tom, em contraste, embora muito poderoso, renunciou ao poder em um tipo de “voto de pobreza”, “uma visão natural pacifista”. Neste sentido, Tolkien diz, a presença de Tom revela que existem pessoas e coisas no mundo para as quais a guerra é bastante irrelevante ou ao menos desimportante, e não podem ser facilmente incomodados ou perturbados com ela [Ibid., pp. 178-79].

Ainda que Tom devesse cair se o Senhor do Escuro vencesse ["Nada seria deixado para ele no mundo de Sauro", Ibid.], ele poderia provavelmente ser “o Último como ele fora o Primeiro” [SdA, 1].

Na tentativa de desvendar o que Tolkien tinha em mente é muito importante, acredito, distinguir entre um enigma e uma anomalia, pois o interesse de Tolkien envolve a primeira enquanto a insatisfação dos leitores trata Tom mais em termos da segunda. Uma anmolia é alguma coisa discordante, sem relação, fora de lugar. Neste sentido pode-se dizer que Tom poderia ser deixado de fora. Um enigma, por outro lado, é um mistério, um quebra-cabeça, alguma coisa que parece ser discordante,sem relação, fora de lugar, mas não é. Esta distinção torna-se essencial na discussão de Tom Bombadil quando considera-se as três ocasiões da história na qual a questão da identidade de Tom ou sua natureza são trazidas à tona, duas vezes por Frodo na casa de Tom e mais tarde no Conselho de Elrond. Se não existe resposta para a questão, então Tom é anômalo. Se existe ele é, como Tolkien afirma, enigmático.

Quanto leva-se em consideração a maneira pela qual Tolkien escreveu O Senhor dos Anéis, especialmente o cuidado que ele deu em ordenar as conexões históricas entre povos, coisas e eventos, eu pessoalmente acho inconcebível que não exista resposta na estrutura da história pra a questão de Frod: “Quem é Tom Bombadil?”. Ainda que Tolkien não queira responder a seus leitores diretamente, parece-me certo que ele sabia muito bem. Tolkien era bastante protetor do que escreveu, incluindo seus erros. Quando ele encontrava alguma coisa má escrita em seus manuscrito, ele tendia mais a ponderar, em termos da Terra-média, como seus personagens vieram a fazer tal erro, ou que significação especial este poderia ter, do que simplesmente corrigi-lo. Dessa forma, uma palavra estrangeira má pronunciada tenderia mais a permanecer como um exemplo de dialeto regional do que ser alterada. Problemas com os nomes e as identidades dos personagens foram resolvidos de maneira similar. Existe, por exemplo, dois Glorfindel em sua história da Terra-média, um que morreu lutando contra um Balrog na Primeira Era, e outro de Valfenda que cedeu seu cavalo a Frodo na corrida para Imladris. Esta situação era, se não um problema, bastante incomum, e exigiu especial atenção de Tolkien, uma vez que em geral os nomes de Elfos eram únicos a um indivíduo em particular. De preferência, ao invés de simplesmente renomear um dos Elfos, Tolkien concluiu que eles eram a mesma pessoa e que ele tropeçara em um raro caso de reencarnação entre os Elfos. Ele então devotou algum tempo em uma examinação das implicações teológicas deste caso especial [Becker, Tolkien Scrapbook, pp. 92-93].

Dada esta visão geral da composição da trilogia, eu sugiro [1] que seria impossível para Tolkien trazer o assunto sobre a identidade e natureza de Tom por três vezes e não ter continuado a pensar sobre isso até que tivesse uma resposta, e [2] que, embora ele não quisesse contar aos leitores a resposta correta, sentindo que enigma são importantes, ele sem dúvida deixou algumas pistas para aqueles que desejassem persistir no assunto, assim como ele fez. O resto deste ensaio é uma examinação destas pistas. Embora a evidência seja circunstancial, ela é, acredito, convincente.

Começando tão do princípio quanto o livro de Issac e Zimbardo, Tolkien and His Critics, puclidado em 1968, Tom Bombadil é quase universalmente considerado como um espírito da natureza. Naquele volume, Edmund Fuller declara que ele é “inclassificável exceto como algum tipo de espírito natural primário” [p. 23]. De acordo com Patricia Meyer Spacks, Tom possui poderes naturais para o bem e ele “está na mais íntima comunhão com as forças naturais; ele tem o poder da “terra como ela mesma”" [p. 131] e argumenta que “quando Tom Bombadil fala, é como se a natureza por si mesma – não-racional, interessada na vida e coisas que crescem – falasse [p. 139]. Esta visão de Tom, como um espírito da natureza não-racional, como personificação da natureza, tem sido a visão dominante desde então. Ruth S. Noel no The Mythology of Middle-earth, publicado em 1977, na talvez mais longa e elaborada discussão sobre ele, começa com a advertência que “Tom Bombadil é um personagem como Puck ou Pan, um deus da natureza em forma diminuída, metade humorístico, metade divino” [p. 127] e ela conclui com a observação de que Bombadil e Fruta d’Ouro são personificações indistingüíveis da terra intocada por humanos, baseados por um poder oculto mais potente, representando tanto o perigo da terra selvagem como seu potencial em servir o homem” [p. 130]. Anne C. Petty em One Ring to Bind Them, publicado em 1979, resume todas as afirmações acima com a declaração de que Tom é “a divindade da natureza por excelência” [p. 38].

Tão exato quanto eu posso determinar, a base textual para a idéia de que Tom é um espírito da natureza é a discussão sobre ele no Conselho de Elrond, especificamente as seguintes afirmações: “o Poder de desafiar nosso Inimigo não está nele, a não ser que este poder estivesse na própria terra” e “…agora ele é restrito a uma pequena terra, com limites que ele próprio impôs, embora ninguém possa vê-los, esperando por uma mudanças nos dias, e ele não irá ultrapassá-las”. Eu suspeito que muitas pessoas concluíram da segunda passagem que Tom, como um espírito da natureza, tornou-se gradualmente confinado com a diminuição da Velha Floresta. A passagem, contudo, não diz isso. Seus limites não são impostos a ele pelos limites da floresta; ao contrário, ele os impôs a si mesmo. Além disso, o trecho não fala que ele não pode cruzar tais fronteiras, mas apenas que ele não o fará. A afirmação de que ele não pode não é nem mesmo realmente correta: Tom frequentemente visitava o Fazendeiro Maggot no Condado e presumivelmente tinha previamente feito outras visitas a outros “antigamente em dias dificilmente lembrados” ["Bombadil Goe Boating" e SdA, 1]. Em relação à primeiro trecho, ele não diz que Tom é ou tem o poder da terra. É ambíguo. O enunciado “Tim não possui habilidade para dirigir tão longe, a menos que a habilidade esteja em seu carro”, não implica que Tim é um carro. Da mesma forma, o fato de que Tom não tem o poder para desafiar Sauron não precisa ser porque tal poder não está na terra. Explicarei melhor no devido tempo.

É possível que a teoria do espírito da natureza tenha se mantido por tanto tempo porque ninguém pensou em uma alternativa. Considere o tratamento de Jarred Lobdell sobre Tom Bombadil no England and Always, publicado em 1981. Declarando Tom como sendo “a menos bem sucedida criação” na trilogia, ele continua:
“Sem único, ele poderia ser um espírito da natureza… mas ele não é único… ele não é o gênio da terra, uma vez que é restrito a uma parte dela… ele é aparentemente um homem, uma vez que claramente não é um Elfo ou Anão ou Ent ou Hobbit ou um das raças caídas, mas ele não é um dos Homens do Oeste. Suponho que poder-se-ia salvar as aparências fazendo dele um anjo, ou de uma ordem diferente da dos Istari, ou fazendo dele um deus, mas em ambos os casos ele estaria em conflito com a mitologia de Tolkien. [pp 62-63]”

Lokdell eventualmente conclui que Tom é uma anomalia “Ainda que eu encontre nele uma criação anômala, eu posso mudar a visão para vê-lo teologicamente – mas apenas com o desagradável sentimento de que mudando a visão é tudo que estou fazendo” [p. 63].

Enquanto possa concordar que Tom não seja um espírito da natureza, um Homem, um Elfo, um Anão ou um Hobbit, eu não vejo razão pela qual Lobdell deveria rejeitar a possibilidade dele ser um anjo ou deus – nos termos da mitologia de Tolkien, um Maia ou Vala. Nós sabemos a partir do Silmarilion que Oromë caçava na Terra-média, Ulmo tinha relacionamento com os Elfos ali, Olorin caminhava despercebido entre os Elfos antes de ser Gandalf e Melian passou um grande tempo em Beleriand com Thingol. Existe então amplas evidência para ocasionais visitas de tais seres, mesmop as razões mais frívolas e pessoais.

Além disso, Tolkien extrai algumas conexões literárias em relação a Tom que ajudam a apoiar seu status divino. Primeiro, como Noel percebeu [Mythology, p. 128], Tolkien faz referência em “Bombadil Goes Boating” a uma história do Antigo Edda sobre Odin, um dos mais importantes deuses nórdicos, através disso relacionando Tom a ele. Segundo, em “In the House of Tom Bombadil” Fruta d’Ouro responde a questão “Quem é Tom Bombadil?” com a simples afirmação “Ele é” [Sda, 1]. Em termos de fantasia medieval isto poderia significar que a existência é um predicado de Tom Bombadil e que ele é então Deus. Embora Tolkien tenha refutado esta afirmação em uma carta, escrita em 1954 [Letters, pp. 191-92], dizendo que Fruta d’Ouro, como Tom mais tarde, estava apenas provando seu ponto de vista sobre a natureza de nomear, eu continuo perseguido pela afirmação. Assim como a referência a Odin não implica que necessariamente devemos concluir que Tom é Odin, a alusão à terminologia da filosofia medieval em descrevê-lo não precisa ser interpretada como uma crise da teologia cristã. Enquanto que a refutação de Tolkien elimina as chances de Tom ser Iluvatar, eu não vejo que ela elimina a possibilidade de que ele seja originário dos pensamentos de Iluvatar, um Vala ou um Maia, pois eu não vejo nenhum problema teológico na existência ser um predicado de uma parte de Deus.

E finalmente, existe Tom cantando. A incapacidade de Tom separar a música de suas outras atividades, falando, andando, trabalhando, sugere que ela é bastante fundamente para seu ser de uma forma profunda que o distingue de todos os outros seres encontrados na trilogia. Os magos, por exemplo, que eram Maiar, recitam [na moderna acepção da palavra] ao invés de cantar, e nunca inconscientemente. Este contínuo cantar pode ser uma indicação do alto status de Tom. O mundo foi, apesar de tudo, trazido à existência por um grupo de cantores, os Sagrados, alguns dos quais tornaram-se Valar. Segundo, a canção básica de Tom é estruturalmente similar à “Song of the Sea” de Legolas [SdA, 3], sugerindo a possibilidade que a canção de Tom é uma corrupção da um pedaço original de música do Oeste Distante comum a ambos. Terceiro, as músicas de Tom, embora aparentemenre cômicas e sem sentido, possuem poder de controlas elementos individuais e coisas na floresta. Quando foi dito que o Velho Salgueiro era a causa dos problemas dos Hobbits, Tom responde, “isto pode ser rapidamente consertado. Eu conheço a melodia para ele” [Ibid., 1], o que eu acredito que significa algo como, “não se preocupe. Eu tenho os planos para aquela coisa e posso consertá-lo agora mesmo”. Este é o tipo de conhecimento que um Vala, que cantou a Música, poderia ter, e cantando seria o modo natural de aplicá-lo.

Ainda que esta interpretação da cantoria de Tom seja inconsistente com a afirmação geral de que Tom e não-racional, não é inconsistente com a caracterização de Tom feita por Tolkien em duas cartas em 1954, nas quais Tom é associado com o estudo cientificamente puro da natureza. Tolkien escrever:

“… [Tom] é então uma “alegoria”, ou um exemplar, uma incoporporação particular da pura [real] ciência natural: o espírito que deseja conhecimento de outras coisas, suas histórias e naturezas, porque são “outras” e completamente indiferente com “fazer” exterminandocom o conhecimento: Zoologia e Botânica, não Criação de Gado ou Agricultura.” [Letters, p. 192; ver também p. 174]

Como a exemplificação da ciência pura, Tom dificilmente pode ser não-racional. A pureza de Tom, além disso, resulta de seu desejo de se deleitar nas coisas como elas são, sem dominá-las ou controlá-las. O primeiro é o objetivo da ciência pura, os últimos a ess6encia da ciência aplicada. O conhecimento de Tom sobre a natureza permite-lhe controlar a natureza quando necessário, mas porque este controle não é seu objetivo, ele está mais ligado à ciência do que à engenharia.

Se nós tomarmos a afirmação de Tom como completamente literal que ele “estava aqui antes do rio e das árvores… da primeira gota de chuva e da primeira bolota” [Sda, 1], ele estaria dizendo que estava na Terra-média quando os Valar chegaram ou que ele chegou como um dos Valar. Ele afirma que “ele conheceu o escuro sob as estrelas quando este era sem medo – antes do Senhor do Escuro vir de Fora” refere-se ao tempo antes de Morgoth, o Senhor do Escuro original, ter se tornadp um renegado – o tempo quando as estrelas “antigas” ou originais foram feitas. Uma vez que o mundo estava incompleto àquele tempo e nada vivia na terra esceto os Valar, é difícil acreditar que Tom seja qualquer coisa exceto um Vala.

Uma dica interessante de que Tom seja um Vala pode ser retirada da confusão afirmação de que Tom é “o mais antigo” mesmo que Barbárvore supostamente também seja “o mais antigo ser vivo que continua a andar sob o Sol”. No The Road to Middle-earth, publicado em 1982, T. A. Shipley, que considera Tom “único membro de uma categoria”, luta com essa “inconsistência” e conclui que se a afirmação de que barbárvore é a mais antiga coisa viva, se verdadeira, implica que Tom não está vivo, assim como os Nazgul não estão mortos [p. 82]. Ainda ques esta analogia provavelmente não esteja correta, é sugestiva. A palavra viva provavelmente significa minimamente que Fangorn é biótico, ou seja, um elemento pertencente ao sistema de vida da terra, a biosfera. Existe de fato duas classes de seres “vivendo” na Terra-média, que, sendo seres de fora de Eä, não fazem parte desde sistema: os Valar e seus servos, os Maiar. Seus corpos são “véus” ou “vestuários”, apar6encias, nas quais são encarnados por si mesmos [Road Goes Ever On, p. 66]. Como registrado no ensaio “Istari”, no Unfinished Tales, os Maiar que se tornaram os magos da Terra-média – e que tinham a mesma natureza dos Valar – foram convertidos em seres vivos temporariamente pelo consentimento especial de Iluvatar: “Pois com o consentimento de Eru eles… [foram] vestidos com os corpos de Homens, reais e não dissimulados, mas sujeitos aos medos e dores e fraquezas da terra, capazes de sentir fome e sede e serem mortos…”. A necessidade desta conversão sugere que os Valar e Maiar eram de fato não-viventes, mas de uma maneira bastante diferente dos Nazgul. Enquanto os Espectros do Anel era antigos seres viventes mantidos na existência de maneira não-natural através do poder de seus anéis em associação com o Um Anel, os Valar e Maiar eram seres de outro plano de existência [o Vazio] que, como resultado, não combinavam completamente com o mundo da Terra-média. Ao contrário de colocar Tom em uma categoria anômala única, ou associá-lo com os não-vivos, a “inconsistência” de Shipley pode simplesmente ser uma dica que Tom possui um status extraterrestre como um Vala ou Maia.

Alguém poderia, claro, querer objetar que Tom Bombadil ralmente não se parecia ou agia como um Vala ou um Maia, parecendo e agindo mais como um Hobbit super-crescido. Eu sugiro, contudo, o contrário, que não existe um modo particular com o qual os Valar e Maiar deveriam parecer. Particularmente apareciam da maneira que escolhessem, vestindo seus “véus” ou “vestimentas” de maneira similar à que usamos roupas. Em “The Voice of Saruman”, por exemplo, Gimli fala a Gandalf que ele quer ver Saruman para comparar os dois magos. Em uma resposta pensada, Gandalf informa a Gimli que não existe maneira para ele fazer tão comparação ter sentido, uma vez que Saruman pode mudar sua aparência à vontade conforme preencha suas necessidades [Sda, 2]. Ao invés de diminuir a possibilidade de Tom ser um Vala, sua aparência hobbitesca realmente a aumenta, pois sugere que Tom possui a habilidade de “adaptar-se” às suas vizinhanças. Se um Vala desejasse visitar os Hobbits, ele poderia, com certeza, aparecer a eles de uma maneira de alguma forma humorística e familiar, a através disso colocando-os à vontade. Desta forma, pode ser argumentado que a aparência hobbitesca de Tom conta a favor dele ser um Vala ou Maia, não contra.

Robert Foster, no The Complete Guide [p. 496] também parece estar na pista certa quando sugere que “é possível que ele seja um Maia “que tornou-se nativo”". O problema é que não existe um Maia em O Silmarillion que se encaixa nas características gerais de Tom. É apenas quando nos viramos para os Valar que os candidatos potenciais emergem.

Devido à maioria dos Valar serem casados, determinando a possível identidade de Fruta d’Ouro pode ser uma ajuda na determinação da identidade de Tom. Existem três possíveis Valier que poderiam gostar de viver por um tempo na Velha Floresta: Nessa, Vana e Yavanna. Nessa, que ama os cervos e a dança, não se encaixa muito bem, uma vez que nenhuma dessas caracteríticas é especialidade de Fruta d’Ouro. Seu marido, Tulkas, o melhor guerreiro entre os Valar, além disso, é provavelmente muito combativo para ser Tom. Vana, que se importa com flores e pássaros, também não se encaixa muito bem, uma vez que Fruta d’Ouro preocupa-se com uma grande variedade de plantas, e pássaros não têm um destaque especial. Oromë, o marido de Vana, além do mais é um caçador, especialmente de monstros. Se ele fosse Tom, poderiam não existir Espectros nas Colinas dos Túmulos. Com Yavanna, contudo, nós temos a ênfase correta, pois ela é responsável por todas as coisas viventes, com especial preferência pelas plantas. Uma vez que ela é a Rainha da Terra, é fácil imaginá-la sua rega da floresta com cuidado especial, como Fruta d’Ouro fez durante a visita dos Hobbits.

Em O Silmarillion a aparência de Yavanna é caracterizada como se segue:
“Na forma de uma mulher ela é alta, e vestida em verde; mas algumas vezes toma outras formas. Alguns a viram parada como uma árvores sob o céu, coroada com o Sol; e de todos os seus galhos pingava um orvalho dourado sobre a terra árida, e ela crescia verde com o milho; pois as raízes da árvores estavam nas águas de Ulmo, e os ventos de Manwë falavam em duas folhas.”

Quando encontramos Fruta d’Ouro pela primeira vez, ela está vestida de verde: “seu vestido era verde, verde como jovem gramado, pontilhado de prata como gotas de orvalho” [Sda, 1]. Quando Tom oficialmente apresenta Fruta d’Ouro, ele diz “Aqui está minha Fruta d’Ouro toda vestida em verde-prateado…”. Quando ela diz adeus aos Hobbits, ela está novamente vestida de verde e Frodo, em resposta a seus apelos, se refere especificamente a esta cor quando ele começa falando para ela: “Minha bela dema, vestida toda em verde!”. Esta caracterização da vestimenta comum de Fruta d’Ouro suporta a hipótese dela ser Yavanna.

Para ser correto, quando nós encontramos com ela pela primeira vez, seus pés estavam rodeados por água, aparentemente dando suporte à história de ninfa da água. Esta cirscunstância, contudo, não é inconsistente como sua imagem árvore, a qual, como registrada, tinha seus pés ou raízes nas “aguas de Ulmo”.

Enquanto a despedida continua, além disso, uma descrição análoga à da descrição da árvore é dada:
“Ali, no topo, estava ela, acenando para eles: os cabelos esvoaçavam soltos, e, conforme captavam a luz do sol, brilhavam e reluziam. Uma luz como o brilho da água sobre a grama orvalhada vinha de seus pés, enquanto dançava”.

Embora continuasse em forma humana, seus cabelos esvoaçantes parecem “os ventos de Manwe” e a reflexão do sol em seu cabelo sugere que ela estava “coroada com o Sol”. O brilho da água sobre a grama orvalhada” sugere o gotejar do orvalho dourado na terra bem como as “águas de Ulmo”. Quando os Hobbits a vêem pela última vez, ela é muito como uma planta: “viram Fruta d’Ouro, agora pequena e esguia como uma flor ensolarada contra o céu: ainda estava ali olhando-os, com as mãos entendidas na direção deles”. Neste caso, ela é provavelmente mais flor do que árvore porque os Hobbits em geral gostam de flores e têm receio de árvores. A “ensolarada” imagem é notavelmente similar à aparência primária não-humana de Yavanna.

Com
certeza um importante problema com esta hipóteses é a afirmação de que Fruta d’Ouro é Filha do Rio. Se a história for verdadeira, então Fruta d’Ouro não pode ser Yavanna. Contudo, existe muitoa coisa dita em o Senhor dos Anéis que não é literalmente verdade e muitas matérias são deixadas misteriosas e inexplicadas. Por exemplo, é acreditado por muitos que Rohan estava vendendo cavalos a Mordor. Gandalf nunca revela que é um Maia. As águias são são reveladas serem Maiar [embora sejam "Espíritos na forma de falcões e águias" que "podem ver nas profundezas do mar, e penetrar as cavernas ocultas debaixo do mundo"[Silmarillion]. Como calramente visto em “The Hunt for the Ring,” no Unfinished Tales, muitos detalhes são apresentados de forma confusa e desconexa em O Senhor dos Anéis, porque é assim que apareceram para as pessoas que escreveram o livro. Existe, enfim, dois contos dados por Tolkien sobre a origem dos Orcs, sendo que ambos não podem ser verdadeiros. Dessa forma, o fato de que certas pessoas acreditam que Fruta d’Ouro seja a Filha do Rio não tem absolutamente, literalmente, que ser verdade.

Assim como Fruta d’Ouro é bastante similar a Yavanna, Aule o Ferreiro, divide muitas características comuns com Tom e esta identificação ajuda a explicar alguns dos eventos que ocorrem na casa de Tom – especialmente seu controle sobre o Anel sem nenhum medo ou tentação. Aule é o sub-criador de todos as substâncias da terra: minerais, gemas e metais. Durante a criação da Terra-média ele esteve envolvido em praticamente cada aspecto de sua sub-criação. Ele preparou o leito dos oceanos para receberem as águas e preparou a terra para plantas e animais. Como o Sub-Criador ele desenvolveu e ensinou todas as artes, trabalhos manuais e habilidades, De todos os valar, ele tinha o maior interesse nos Filhos de Iluvatar. Tão impaciente estava ele para vê-los que criou os Anões. De acordo com o “Valaquenta” no Silmarillion, embora Aule e Melkor fossem os mais parecidos de todos os valar em pensamento e poder, suas atitudes perante os produtos de seus trabalhos e o trabalho dos outros eram significativamente diferentes. Enquanto Melkor cuidadosamente guardava seus trabalhos para si mesmo e destruía o trabalho dos outros cheio de inveja, Aule deleitava-se em fazer, não possuir, e “ele não invejava o trabalho dos outros, mas observava e dava conselhos”. Foi, de fato, a falta de possessividade de Aule e sua aceitação em submeter seu trabalho à vontade de Iluvatar que salvou os Anões da destruição e fez possível para eles receber o dom do livre arbítrio de Iluvatar.

Quando considera-se as características morais especiais de Aule, as similaridades com Tom são mais impressionantes e reveladoras. Como Aule, Tom não é possessivo. Embora seu poder para dominar e controlar esteja sempre enfatizado – ele é o mestre – ele não interfere com outros seres exceto quando estes interferem com ele. Embora possua o poder de possuir o que desejar, ele não escolhe possuir ou ter a floresta. Como Fruta d’Ouro explica, os animais, as plantas os objetos naturais da floresta são todos permitidos pertecerem a si mesmos. Esta distância da posse ou controle é a razão pela qual Tom é capaz de manusear o anel sem medo. No final das contas, todas as outras criaturas poderosas encontradas na trilogia, a menos que já tivessem caído, temem tocar o anel para que o desejo de possuí-lo não os direcionasse para o mal. Uma vez que Tom não deseja possuir ou controlar nada, o Anel não tem poder sobre ele. Nós simplesmente vemos seu interesse, curiosidade e deleite enquanto ele estuda a arte envolvida em sua confecção. De fato, Tom se aproxima do anel criticamente, quase com desdém. Enquanto todos os outros se referem ao Anel como precioso em uma forma reverente, o uso da palavra por Tom, “motre-me o precioso anel” [SdA, 1], sugere ironia ou dúvida sobre seu valor. Uma vez que a falta de desejo de possuir ou controlar era extremamente rara entre os Valar e seres da Terra-média, nenhum outro Valar é dito exibir este traço moral, parece razoável assumir que Tom e Aule são a mesma pessoa.

É também importante notar o tremendo poder e controle que Tom tem sobre o Anel. Ele é, em primeiro lugar, capaz de suplantar seus efeitos normais. Quando ele o põe em seu dedo, ele não se torna invisível. Quando Frodo o coloca em seu dedo, Tom continua capaz de vê-lo: ele “não é tão cego ainda” [Ibid.]. Segundo, tom é capaz de facilmente utilizar o anel de formas não pretendidas por seu criador, pois ele é capaz de fazer o Anel sumir. [É possível que mesmo Sauron fosse incapaz de fazer isso, pois o anel incroporava uma grande parte do poder próprio de Sauron, drenado dele durante sua confecção]. Tal poder sobre o anel, apresentado quase como um truque de salão, acredito, não pode ser explicado classificando-se Tom Bombadil como um espírito da natureza anômalo. A habilidade de dominar o anel sugere um Vala; a facilidade com que é dominado sugere o fundamentou criador de todas as coisas na Terra-média, Aule o Ferreiro, de quem Sauron e Saruman eram meros servos no início antes do tempo.

Se Tom é Aule, contudo, duas outras questões precisam ser respondidas. Primeira de todasm o que ele e Yavanna faziam na Velha Floresta, pra começar? Até o ponto em que Yavanna é preocupada, ela provavelmente estava apenas visitando as coisas que crescem e tendo férias com seu marido. Aule, por outro lado, estava ali pelo propósito de estudar os Hobbits. Nós não devemos esquecer que de todos os Valar Aule era o mais ansioso para conhecer os Filhos de Iluvatar. Ele é também o único a fazer seres sencientes e racionais por si mesmo. Dado seu interesse por tais criaturas, não é não razoável assumir que, como gandalf, ele achava os Hobbits fascinantes. Como as canções Hobbit sobre Tom Bombadil sugerem, além disso, ele teve bastante contato com os Hobbits na Terra dos Buques e Humanos, sem dúvida permitando ampla oportunidade para o estudo dos Hobbits.

Segundo, se ele é Aule, e ele é tal deus maravilhoso e gentil, porque ele não escolher ser de mais ajuda? Por outro lado, porque não estava nele o poder de lutar contra o inimigo? A resposta a esta questão é mais simples do que pode-se pensar a princípio. Quando Ulmo emerge do mar em “Of Tuor and His Coming to Gondolin” para dar instruções a Tuor, que supostamente vai entregar a mensagem aos Elfos de Gondolin, ele apressa-se com as instruções temendo que ser próprio servo Osse atirasse uma onda na praia e afogasse seu emissário. Como ele coloca no Unfinished Tales: “Vá agora… antes que o mar te devore! Pois Osse obedece à vontade de Mandos e ele é colérico, sendo um servo do Destino”. Ainda que as ações de Ulmo fossem contrárias à vontade dos demais Valar tanto que seu próprio servo não o ajudaria [ e estava realmente preparado para agir contra ele], Ulmo, todavia, iniste que não estava realmente se opondo aos outros Valar, mas meramente fazendo sua “parte”:
“…embora nestes dias de escuridão eu pareça me opor à vontade de meus irmão, o Senhores do Oeste, esta é minha parte entre eles, que foi fixada antes da criação do mundo”

A frase chave é “que foi fixada antes da criação do mundo”. Primeiro, isto deixa claro que Ulmo não estava agindo em desafio de maneira alguma, meramente seguindo ordens, assim como seu servo estaria apenas eguindo ordens se lançasse uma onda e matasse Tuor. Segundo, se refere ao tempo da canção que criou o mundo. É esta canção, suponho, que continha as instruções conflitantes que tanto Ulmo quanto Osse estavam seguindo, deiferentes partes, elementos ou temas do todo. Se eu estou correto, o poder de Ulmo em auxiliar os Elfos é tanto limitado quanto determinado pela Música dos Ainur, uma vez que esta estabelesceu a existência da terra e determinou seus eventos principais. Enquanto Ulmo poderia ter tido livre arbítrio enquanto cantava a sua parte na canção naqueles tempos longíquos, ele estava agora atado pela canção e não podia ir além ou alterar sua parte. Se Tom é Aule, então ele também estão atado pelo que ele cantou e embora simpático e interessado, ele apenas pode ajudar os Hobbits e os Povos Livres do Oeste de poucas formas.

Esta consideração de Tom como Aule não é de fato inconsistente com a observação de Tolkien de que Tom renunciou ao poder em uma espécie de “voto de pobreza” e que ele exemplifica como “uma visão antural pacifista”. Ao tempo da canção da Grande Música, é verdade que Aule, junto à maioria dos outros Sagrados, eventualmente parou de cantar, deixando Melkor cantando sozinho. Contudo, eles não pararam porque a canção atordoante e diferente de Melkor os venceu, mas sim porque eles não desejavam competir com ele e consideraram a música corrompida por seu comportamento. Isto não é derrota, uma vez que obviamente cantando juntos os outros poderiam ter superado Melkor. Particularmente é uma rejeição do conflito por ele mesmo – portanto, uma visão pacifista. É de fato o Terceiro Tema cantado por Iluvatar, representado a parte dos Filhos de Iluvatar, que superou a interrupção de Melkor. COm relação ao “voto de pobreza”, Aule de fato já tinha tal voto – como exemplificado pela sua atitude perante seu trabalho e o trabalho dos outros – sua falta de orgulho excessivo, inveja e possessividade.

Em contraste, se Tom é um espírito da natureza, então nenhum voto de pobreza foi tomado, e não existe visão pacifista natural. De acordo com a tese do espírito da natureza, como Veryln Flieger cooloca em Splintered Light, publicado em 1983: “Tom Bombadil, no qual o Anel não tinha efeito, é uma força natural,um tipo de espírito da terra, e então o poder sobre a vontade, que o Anel exercia, simplesmente não tinha significado sobre ele” [p. 128, note]. Como uma força natural, Tom teria o mesmo status que uma pedra caindo ou o vento ou a chuva – ele seria uma atividade cega sem direção ou sentido. Como tal ele não seria um agente noral, e não poderia tomar decisões morais. A dimensão moral seria então completamente ausente. Rom é imune à influência do anel não por causa de sua personalidade com alto moral, mas porque ele não seria capaz de ter nenhuma personalidade moral.

Se Tom é Aule, contudo, existe uma dimensão moral, realmente, uma elevada, pois a aparição de Tom na história, embora apenas um “comentário”, serve como um afiado e claro contraste aos dois Maiar malignos, Sauron e Saruman, ambos uma vez seus servos antes de se voltarem para o mal e a escuridão. Ao contrário de seu antigo mestre, estes dois seguiram o caminho de Melko: inveja, ciúmes, orgulho excessivo e o desejo de possuir e controlar. Como Tolkien explicou para seu revisor, o papel de Tom era mostra que existiam coisas além e não relatadas à dominação e ao controle. Na superfície, esta visão de Tom parece torná-lo afastado de todas as outras coisas e eventos na Terra-média, mas especialmente estava localizada no núcleo da moralidade como esta existia na Terra-média, como a exemplificação final da própria moral ante o poder, orgulho e posse. De fato, em termos dos traços morais que mais fascinaram Tolkien tanto como autor como acadêmico, Tom Bombadil seria o ideal de moral de Tolkien.

Comentários