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E agora, cadê o resto do poema?

Poderia ser que, se não fosse por um manuscrito obscuro do século XIII, O Senhor Dos Anéis não fosse publicado. Muitas pessoas que expressaram mais que uma adoração passageira cedo ou tarde ouviram que Tolkien na verdade tinha desistido de publicar o Senhor dos Anéis através de George Allen & Unwin, e mandou o trabalho para Milton Waldman na Collins. MAs o que pode não ser conhecimento de todos é o fato que Tolkien voltou para Allen & Unwin por causa de um poema que ele escreveu anos atrás, usando-se da palavra "sigaldry".
 

 

E "sigaldry", na verdade, é uma palavra que Tolkien descobriu em um manuscrito da era de 1200. Eu não tenho idéia de sobre o que o manuscrito era, nem mesmo de que língua a palavra vem. É uma palavra perdida e esquecida, exceto pelo fato que Tolkien usou-o em poema relativamente pequeno, e que teve um profundo impacto na literatura moderna.

Tolkien compôs o poema entre o final dos anos 30 e o começo dos anos 40 e mandou para o grupo informal de literatura chamado The Inklings (algo como Os Fãs da Tinta). Em uma carta para Rayner Unwin, Tolkien especulou que o poema tomou vida própria daquele círculo de amigos, e não do Oxford Magazine, que publicou uma versão do trabalho em 9 de Novembro de 1933. O poema deve ter sido tão bom para, pelo menos, um dos membros do grupo que ele passou para mais alguém.

Tolkien esqueceu do poema à medida que outros projetos tomaram sua atenção. Ele escreveu O Hobbit, Mr. Bliss e outras coisinhas. Claro que ele continuou a escrever O Silmarillion e talvez o início do Senhor dos Anéis. Mas quando Tolkien perdeu a paciência com George Allen & Unwin, que reclamava de ter que publicar um livro tão grande no começo dos anos 50 (uma época de falta de papel, na qual o lançamento de um livro não trazia tanta renda), ele virou-se para Milton Waldman na Collins.

Agora, Collins ainda está por ai, assim como George Allen & Unwin. Eles fazem parte do conglomerado HarperCollins. Então, apesar de Tolkien ter retornado para o folde em 1952, Collins cresceu ao se mesclar com a Harper e comprando George Allen & Unwin. E apesar da história dos publicadores com os quais Tolkien lidou não ter nada a ver com este interessante poema, na verdade tem tudo a ver com ele.

Tolkien pode ter esquecido dele, mas a audiência oral não. Eles o passaram, de amigo para amigo, professor para estudante, pai para filho. Em tempo, o poema chegou às mãos de Rayner Unwin, e este escreveu para Tolkien sobre o poema. Allen & Unwin queriam, aparentemente, publicar um pouco da poesia tolkieniana. Eles estavam se dando bem com a segunda edição d´O Hobbit e tinham publicado também Farmer Giles of Ham e Smith of Wooton Major. Tolkien estava trazendo dinheito para a firma, então eles estavam motivados a explorar um pouco mais o fenômeno.

Tolkien, por sua parte, tinha sido contatado há pouco tempo por "uma senhorita desconhecida à mim fazendo uma pergunta similar" sobre o mesmo poema. Ele disse à Unwin que sua correspondente confessou "que um amigo tinha escrito recentemente, de memória, alguns versos que a tinha deixado feliz a ponto de tentar descobrir sua origem. Ele tinha pego de seu afilhado que os aprendeu em Washington, D.C. (!): mas nada se sabia sobre seu criador a não ser uma vaga idéia de que eram conectadas à universidades inglesas…"

Obviamente, a senhora encontrou a origem de seus misteriosos versos em JRR Tolkien, que reconheceu-os alegremente de sua autoria. "Devo dizer que fiquei interessado em me tornar ´folclore´." disse ele à Unwin. "Assim como foi intrigante que ele ganhasse uma versão oral — que sai da minha visão tradicional de tradição oral (de todas as maneiras): que as palavras ´difíceis´ eram bem preservadas, as palavras mais comuns, alteradas e a métrica perturbada".

A métrica de Tolkien era mais perturbante que perturbada. Ele a descreveu como "dependente em assonâncias ou quase-assonâncias trissilábicas, tão difícil que, exceto desta vez, eu nunca seria capaz de usá-la novamente — simplesmente saiu de uma vez só)."

Bem, Humphrey Carpenter, editor das Letters, não poderia deixar essa afirmação sair impune. Tolkien usou, ao que parece, as "assonâncias ou quase-assonâncias trissilábicas" novamente. E as usou em… "O Senhor dos Anéis".

Carpenter também nos diz sobre o uso da palavra "sigaldry" por Tolkien, e sua origem num manuscrito do século XIII, numa nota-final na carta para Rayner Unwin. A anedota vem de uma carta que Tolkien escreveu para Donald Swann em 1966. Swann, você talvez lembre, compôs a música para The Road Goes Ever On, publicado pela primeira vez em 1967.

Swann encontrou o poema em 1949, anos antes de Rayner saber dele. "Um amigo de escola me deu este poema," Swann escreveu no prólogo de The Road Goes Ever On. "Ele o encontrou… numa revista da escola". Swann não sabia quem era o autor, porque na cópia do poema do amigo estava escrito "Anônimo".

Swann, também, menciona a extensiva tradição oral do poema (descrito para ele por Tolkien). As pessoas continuavam a passá-lo, com muitas variações. E, ao que parece, o poema ainda é passado por aí hoje, por pessoas que talvez não tenham conhecimento de onde veio, ou qual sua relação com o livro mais popular do século XX.

Seria uma pena contar à eles o que eles encontraram, pois acabaríamos com uma tradição oral que até mesmo Tolkien teria pena de terminar. Então, se você encontrar uma cópia do poema sem o título ou origem, não diga nada. Apesar de parecer uma brecha da maneira no respeito que damos a um grande autor, pense nisso como ele fez: a prova viva de sua teoria sobre tradições orais (ou pelo menos o começo delas). Ver o pássaro ganhar asas é legal, mas observá-lo em vôo, enquanto plana por sobre as nuvens, totalmente alheio ao observador — isto é miraculoso.

Este poema não é especial apenas porque ele conseguiu algo quase impossível em uma era de leis de copyright e impérios mundiais editoriais; é especial porque deu à Rayner Unwin uma oportunidade de se aproximar de Tolkien, o qual ainda tinha uma relação de autor-publicador com sua empresa, e perguntar politamente do que houve com o Senhor dos Anéis e aquele outro trabalho, O Silmarillion.

Em tempo, Tolkien achou as palavras para responder à questão de Unwin e, apesar da carta lidar a maior parte do tempo com a tradição oral que ele semeou acidentalmente, foi uma resposta para um momento conturbado. Tolkien podia estar revoltado ou apenas envergonhado em sua falha de encontrar um publicador alternativo para O Senhor dos Anéis, por sua retirada da George A
llen & Unwin alguns anos antes.

Ao invés disso, Unwin empregou um pouco de cortesia verbal em Tolkien que o fez baixar barreiras e abrir portas que estavam há muito fechadas. Este obscuro poema, à propósito, foi influenciado por uma das histórias do Silmarillion, e conta de maneira leve a aventura de um dos menos trágicos heróis de Tolkien.

E ele foi reescrevê-lo para o Senhor dos Anéis, onde serve para acalmar o leitor para um estado sonolento de mente, similar ao de Frodo quando ouve a voz suave cantando a história do marinheiro.

Quando isto aconteceu, George Allen & Unwin percebeu que a falta de papel não era tão ruim, e Tolkien descobriu que tinha um público para partes de seu trabalho que ele nunca pensou. Como um favor para sua amada tia Jane Neave, ele publicou uma coleção de poemas em 1962 como As Aventuras de Tom Bombadil somente alguns anos antes dela passar de vez. Um desses poemas foi o que chamou a atenção de Donald Swann em 1949: "Errantry".

"Errantry" não apenas reviveu uma palavra perdida do século XIII, também revive as esperanças de ver O Senhor Dos Anéis (e talvez até o Silmarillion) publicado. Ele nunca esperou que suas negociações com publicadores viessem de inocentes pedidos de pessaos que estavam fascinados com o poema que pode ser descrito como um dos mais longos limmericks já compostos.

"Errantry" reconta a história de Earëndil o Marinheiro, que é algumas vezes citado como "O Marinheiro", e sem dúvida de muitas outras coisas. E ignorando alguns erros aqui e ali, ele sobreviveu sozinho mesmo sem ter sido em não menos de três coleções de trabalhos menores de Tolkien (que eu saiba). "Errantry", em fato, é o único poema que Tolkien escreveu publicado pelo menos 4 vezes (cinco se contar a canção de Bilbo em Valfenda, já que este trabalho é reconhecido por Christopher Tolkien e outros como um derivado de "Errantry").

O tolo marinheiro que casa com uma borboleta e desafia cavaleiros élficos demonstrou uma força literária e poética que poucos personagens de poesia musicada do século XX tem. Ele é, talvez, um dos mais memoráveis personagens de Tolkien, até mesmo porque o poema é difícil de pronunciar e possui palavras obscuras como "chalcedony" (calcedônia), "habergeon" e "sigaldry".

Claro que não acaba (e nem mesmo começa) aqui. "Sigaldry" aparece em mais outro trabalho tolkieniano, um poema extraordinariamente longo e de alto calibre. "A Balada de Leithian" é considerada por muitas pessoas (incluindo seu autor) a melhor obra de literatura composta por JRR Tolkien. Sua conexão com "Errantry" não está apenas no uso de palavras arcaicas. Os dois poemas nasceram num período em que Tolkien não tinha esperanças de ver seu trabalho publicado. Foi feito para seu próprio prazer, de sua família e amigos.

Mas "Errantry" é tão poderosa, e "A Balada de Leithian" é tão convincente que eles foram destinados para uma grandeza que, se os críticos do século XX conhecessem-os nos anos 30, teriam humilhado todas suas opiniões. Vocês podem imaginar as besteiras que foram sendo ditas ao longo dos anos numa tentativa de fabricar um passado inexistente.

Mas a Poesia provou ser maior que o desespero de Tolkien e as objeções da crítica. "Errantry" forjou caminhou que Tolkien nunca imaginou seguir, e inevitávelmente "A Balada de Leithian" seguiu atrás dele, pois esta tocava O Senhor Dos Anéis, também. O Senhor Dos Anéis oferece pedaços das duas histórias, e as coloca dentro de si mesmo, enriquecendo a Terra-Média e expandindo sua profundidade com detalhes que pre-existiram em sua própria história. Isto nunca teria acontecido se Tolkien não tivesse dividido sua ingenuidade trissilábica com alguns amigos numa noite há muito tempo atrás.

E agora, como o lendário comentador Paul Harvey diria, você conhece o resto do poema…


Tradução de Aarakocra

Por Esta Espada, Eu Reino!

Os fãs de Robert E. Howard devem reconhecer o eco de uma aventura de Kull nesta sentença, "Por esta espada, eu reino". Howard gostava de escrever sobre guerreiros fortes e poderosos. Eles podiam ser homens do Velho Oeste Americano, boxeadores no ringue, ou bravos bárbaros que atravessam os salões de civilizações tão antigas que mesmo os cidadãos esqueceram sua origem distante.
 

Em alguns aspectos, Aragorn era um bárbaro, pelo menos de uma perspectiva gondoriana. Apesar de ser criado por Elrond em uma casa Eldarin, Aragorn não era um garoto mimado. E seu pai e avô foram mortos por monstros (respectivamente, Orcs e Trolls), dos quais a maioria do povo fugiria em terror absoluto.

Como os reis-guerreiros de Howard, Conan e Kull, Aragorn descendeu de um povo "atlante". Kull foi, na verdade, um atlante, forçado ao exílio. Ele e Conan deixaram seus povos bárbaros e se transformaram em reis. Aragorn também deixou sua terra natal (Eriador) e alcançou o trono real (de Gondor e Arnor).

Mas aí acabam as comparações, ou elas viram superficiais. Howard celebrava a força primitiva da pura "barbaridade", enquanto Tolkien celebrava a sofisticada sabedoria derivada do declínio e queda de muitas civilizações. Mas os dois escritores embutiram seus personagens de um senso de poder que invoca uma simetria de paixão.

Esta paixão aumenta o conflito entre os elogios e as críticas. Os personagens são tratados com grande respeito por alguns, e profunda irritação e chateação por outros. Conan já foi comparado a um velho gagá. Aragorn já foi comparado a um nobre cavalo.

É o aspecto bárbaro de cada personagem o que mais intriga o leitor, e Conan e Aragorn viram arquétipos ou estereótipos para heróis de ação/aventura. Eles são caracterizações primárias porque os dois, de algum modo, recebem uma sofisticação deixada de seus predecessores. (As histórias de Kull derivam das histórias de Conan por muitos anos, e Aragorn é comparável a Beren, que apareceu nas histórias de Tolkien pela primeira vez 20 anos antes de Howard escrever a história final de Conan).

Nenhum dos autores viveu o bastante pra ver o quanto seu legado literário seria direcionado para o mercado de massa e, na minha opinião, é ótimo para os dois. Imagine o quanto ficariam espantados em ver maus atores atravessando pedreiras a cada filme barato, destruindo monstros de borracha e escravizando mulheres que só sabem gritar?

Embora a magia de Kull/Conan estar focada na fúria bárbara, Aragorn é o primeiro Guardião/Ranger. Todos os Guardiões/Rangers são baseados nele, e os trilheiros também. Mesmo Norda, a trilheira da imperadora no recente filme de "Dungeons & Dragons", deve algo à compostura reservada de Aragorn, sua sabedoria perspicaz, e sua suprema competência nas habilidades de caçador. Quando Aragorn expressa dúvida sobre si, ele não está se importando se consegue perseguir algumas dúzias de orcs correndo no continente. Ele se pergunta se é capaz de fazer as escolhas certas, mesmo quando todas estão erradas. Norda, em cenas cortadas o filme, expressa dúvidas similares sobre suas próprias escolhas, mas continua confiante em suas habilidades.

Os guardiões/rangers de Aragorn às vezes me lembram os homens alegres de Robin Hood, misturados à uma fina nobreza. Não hà Little John no conto do exílio de Aragorn, mas Halbarad poderia fazer um interessante Will Stutley. Legolas poderia se juntar à brincadeira como Will Scarlet: um pouco afetado, mas forte e mortal. Gimli poderia ser Frei Tuck, perigoso com uma lâmina, rápido para o sarcasmo e grande adorador de vinho. Em público os Guardiões/Rangers de eriador parecem ser estóicos e quietos, mas tenho certeza que eles freqüentavam uma taverna ou duas. A Taverna Abandonada pode ter esse nome graças à festa do Bacharel de Arathorn II, que todos nós conhecemos.

Quando Robin toca sua corneta, os homens felizes vêm correndo com armas preparadas, e eles são uma força fatal a ser enfrentada quando sua raiva está acesa. Assim também são dos Dunedain que cavalgam ao auxílio de Aragorn em resposta à sua silenciosa necessidade. Kull tinha seus Assassinos Rubros e Conan tinha seus companheiros, mas Aragorn tinha 30 rangers.

Um dos momentos mais memoráveis para mim na história de Kull é o fragmento onde Kull leva seus guarda-costas (400 homens) ao rio Styx. Lá o velho homem da balsa os avisa que, quem quer que seja que atravesse o rio, não retornará. Ele fala de um poderoso exército, milhares de soldados, que cruzaram o rio. A batalha que confrontaram contra seus inimigos desconhecidos pôde ser ouvido por milhas e durou dias. E então só se pôde ouvir o silêncio. Kull fez a coisa certa. Ofereceu a liberdade à qualquer um que estivesse com medo, mas nenhum de seus guardas queriam desertá-lo. Ele só pôde elogiá-los, dizendo "vocês são homens".

Aragorn, ao estilo de Kull, liderou seus trinta homens através das Sendas dos Mortos. Eles também, se recusaram a abandonar seu líder. É difícil imaginar um cara citadino, mesmo Boromir, comandando esse tipo de amor e respeito de seus soldados. E Boromir também não era nenhum mauricinho. Quando apareceu em Valfenda, ele tinha ficado em terras selvagens por um bom tempo. Ele deveria estar muito feio, mesmo se as donzelas élficas fizessem barba e cabelo antes do grande conselho. Então Boromir conseguiu pelo menos um título de Bárbaro Honorário.

Mas ainda há um problema em desenhar uma analogia aos Dunedain de Tolkien. Eles podem não ter vivido em cidades por muito tempo, mas eles não abandonaram a civilização. Ela pode ter se esvaído em sua volta, mas eles preservaram suas melhores qualidades. Os primitivos Rohirrim pareceriam garotos rústicos perto da pequena companhia de Rangers Eriadorianos.

Os verdadeiros bárbaros das histórias de Tolkien são geralmente chamados sumariamente, ou ficam fora de cena. Esses são os Orientais, membros de tribos sem nome sem costumes estipulados. Agora, algumas pessoas podem ser rápidas e apontar os Homens do Norte como bárbaros também. Bem, sim e não. O que é um bárbaro? No senso clássico, o bárbaro é um forasteiro. Kull e Conan eram estranhos às culturas que vieram a governar. O fato de eles vestirem roupas engraçadas, falarem estranho, e poderem matar cinco vezes mais homens do que qualquer soldado eram o que revelavam a sua barbaridade. No fundo de cada um, eles eram estranhos à maneira que as pessoas civilizadas eram.

Os homens do Norte de Tolkien não apenas eram amigos dos Dunedain, como se casavam livremente com eles, e ajudaram a criar laços estreitos em Gondor (mais de uma vez). E eles tinham suas próprias cidades, como Lake-town, Dale, Edoras, e Aldb
urg. Alguns de vocês podem dizer que Framsburg pode ter sido uma cidade, já que eram grande o bastante para conseguir um nome e uma marca no mapa.

Mas os Orientais representaram a barbaridade como os escritores bíblicos o perceberam. Eles usaram a palavra grega "bárbaro" para denotar pessoas que não falavam grego. Os Orientais não falavam Sindarin, a língua das culturas sofisticadas, nem Westron, a língua do prestígio imperial dos Dunedain. Pode haver Orientais que conhecem Westron o suficiente pra conseguir se comunicar, mas eles são orientais, e é Westron, a língua do oeste. Orientais são tão diferentes, que parece que apenas duas palavras foram preservadas em suas histórias: variag e khand.

No mundo antigo, a língua era uma poderosa ferramenta do estado. Cidadãos poderiam ser separados de estrangeiros rapidamente baseado em quem falava tal língua. E a língua também foi usada para estabelecer o poder sagrado, e recordar as tradições das culturas locais. Uma pessoa que não sabia escrever não era sofisticada, e uma pessoa que falava ou mesmo escrevia uma língua estrangeira eram estrangeiros, não tão importantes como aqueles que falavam a verdadeira língua-mãe. Quando Roma impôs suas leis através do mundo Mediterrâneo, latim virou uma grande língua, enquanto o grego ainda prevaleceu no leste.

Tolkien também usa a língua pra separar os locais dos estrangeiros. Os Noldor, que cairam em decadência, viraram estrangeiros em seu exílio. Para poderem viver entre os Sindar, eles foram forçados à adotar a língua dos Sindar. A perda de sua língua-mãe é uma marca de sua vergonha, e com certeza uma marca da supremacia dos Sindar em Beleriand. Os Noldor construíram muitas cidades de pedra, e todas as grandes fortalezas fora de Doriath, mas ainda eram estrangeiros, e nem todos os Sindar gostavam deles.

Como os Noldor em Beleriand, o povo de Aragorn eram exilados que retornaram à Terra-Média. Eles se estabeleceram junto de seus primos menos sofisticados, mas os Dunedain exilados se beneficiaram de um revés na sorte. Númenor havia se tornado um poder dominante na Terra-Média, e a civilização foi conduzida aos homens da Terra-Média pelos Numenoreanos. Portanto, foi a língua adunaica numenoreana que se espalhou por toda a terra e virou o símbolo da civilização.

Aragorn com certeza falava westron bem, mas ele também conhecia o Sindarin, e falava fluentemente. Na verdade, os Sindar viraram estrangeiros para a maioria do pessoal. Gondor, mesmo sozinha entre as nações da Terceira Era da Terra-Média, ainda retinha grande conhecimento de Sindarin. Como o Quenya foi antes, Sindarin virou um pouquinho mais que uma língua dos sábios para os Dunedain. Eles o preservaram ao invés de enriquecê-lo. Eles preferiram não o expandir.

No mundo de Tolkien, palavras são acompanhadas por ações. No mundo de Howard, ações são acompanhadas por palavras. Quando o bárbaro Kull quebra as tábuas de pedra com as leis de Valusia, ele levanta seu machado acima da cabeça e grita "Por este machado, eu reino!". Quando Aragorn revela sua verdadeira herança a Éomer e os Rohirrim, dizendo sua lista de nomes e títulos, ele levanta sua espada e grita, "Aqui está a espada que foi quebrada e foi forjada novamente!"

Como Kull e Conan, Aragorn chega à sociedade gondoriana de fora, rompendo políticos e destronando líderes locais. Denethor fica ofendido com a idéia de deixar seu cargo para "alguém como ele, o último de uma casa destruída, por muito tempo privado de dignidade e nobreza". Mesmo quando ele é presenteado com a oportunidade de entrar na cidade como o vitorioso capitão da guerra, Aragorn prefere ficar de fora como "o Capitão dos Rangers, que não precisam de cidades e casas de pedra". E com isso ele ordena que sua bandeira seja dobrada e que a Estrela do Norte.

Só resta a Aragorn assumir o comando dos exércitos de Gondor antes que ele possa clamar sua coroa formalmente. Apesar de ganhar a confiança do povo rapidamente, eles precisam de um rei-guerreiro, e não de rum rei-filósofo-de-fala-empolada. Aragorn prova que ele possui grande conhecimento e habilidade com línguas, mas suas palavras são ofuscadas por seus atos. Ele é bravo e forte, mas também deve ser decisivo.

É uma parte da magia do bárbaro que, onde um homem civilizado vai ponderar o significado de palavras e profecias, um bárbaro vai seguir em frente destruir o nó que perplexou o mundo civilizado por séculos. É preciso de um rei Macedônio para espalhar a civilização grega por metade do mundo conhecido. É preciso um rei Dunadan para levar Gondor à vitória em suas guerras com o leste. Onde Denethor e seus capitães sentam em suas torres e imaginam o quanto eles conseguirão resistir aos ataques de Mordor, Aragorn corre através das Sendas dos Mortos, recruta um exército fantasma, e usa isso para acabar com as forças dos inimigos de Gondor.

Então Tolkien nos presenteia com duas faces da barbaridade: o bárbaro puro, incorrupto ou justificado pelo longo exílio, e o bárbaro corrupto, perdido no mal e na escuridão. É o puro bárbaro que representa o melhor das idéias românticas uma vez visadas pela civilização. Sua barbaridade é a do estrangeiro. Ele não é um selvagem ou um oponente virulento que visa unicamente saquear e pilhar as cidades costeiras. Ele é um salvador vindo para completar as antigas profecias. Sua força é pura e seu coração é nobre.

Bárbaros às vezes são creditados com a revigoração de civilizações decadentes. E Aragorn é o Renovador. Ele inicia um período de crescimento e vigor renovados nas sociedades Gondorianas e Arnorianas. Ele infunde os Dunedain com sangue novo, quando se casa com Arwen, a princesa Meio-Elfa cujo povo foi renegado ao status de bárbaros.

Os bárbaros de Tolkien, então, serviram ao mesmo propósito dos bárbaros de Howard. E sem dúvida os escritores reconheceram os fins das civilizações, e apreciaram o quanto a barbaridade representa mais que somente um contraste pra a civilização. Barbaridade é a nova e constante origem de crescimento e vitalidade. À medida que o tempo tira o poder das legiões romanas, os bárbaros recuperam seu poder. E à medida que o tempo arrasa os exércitos de Gondor, forçando retiradas de Mordor, Enedwaith e Calenardhon, os Homens do Norte chegam para tomar o lugar.

Assim como o Conan de Howard procurou aventura em Aquilonia, Aragorn chegou do norte bárbaro para se aventurar no sul gondoriano, e anos depois ele tomou o trono de Gondor. Assim como Kull, Aragorn veio do mar para clamar o trono. E assim como Alexandre criou uma renascença grega, Aragorn revitalizou Gondor e carregou sua cultura para terras estrangeiras, incluindo a sua própria. Aragorn era um homem de palavras e de ações.

Tradução de Aarakocra

Compreendendo a Mágica na Terra-média de J.R.R. Tolkien

Mágica é difícil de definir. Externamente aos trabalhos literários de J.R.R Tolkien nós não a tomamos seriamente mas ao contrário a relegamos para as regiões do mito, superstição e sobrenatural [que é o que situa-se externamente ou além do universo natural]. No mundo de Tolkien o que ele chama de "mágica" é real e natural, e nós devemos compreender a natureza de seu mundo para compreendermos o que ele chama de "mágica". Existem muitos aspectos da magia de Tolkien e todos eles obrigatoriamente devem ser parte de seu mundo.
 

Tolkien desenvolveu uma robusta cosmologia para a Terra-média. Ela não é nada além de uma pequena parte de um mundo maior, e este mundo não é senão um aspecto da ordem natural geral. Todas as coisas nos preceitos de Tolkien procedem de Ilúvatar, o Pai de Todos, Deus. Ele criou os Ainur, os Salões Eternos, e mesmo o Vazio. Sem a vontade de Ilúvatar estas coisas simplesmente não poderiam existir. Então o início está na vontade [e imaginação ou concepção] de Ilúvatar. O pensamento de Ilúvatar é o Bing Bang para a Terra-média.

Os Ainur são intrinsecamente diferentes dos inanimados e não-consciente Salões Eternos e Vazio. Os Salões e o vazio eram meramente áreas do que podemos chamar "espaço" [não "espaço" como nas 3 dimensões do Espaço, mas "espaço" como em indeterminados escopos de realidade ou existência]. Podemos chamar os Salões Eternos e o Vazio um universo, ou dois universos separados. Tempo não existe nos Salões Eternos [aparentemente], e nada existe naturalmente no Vazio [mas coisas podem entrar no Vazio vindas de fora dele.]

A criação dos Salões Eternos e do Vazio por Ilúvatar indica o início do Aqui e do Ali, e além disso indica que diferentes regras podem se aplicar. Aqui tem sua próprias regras e Ali tem suas próprias regras. Nos Salões Eternos Ilúvatar ensinou aos Ainur sobre música, e cada um deles iniciou a compor uma música para ele. Um por um, como cantores ou instrumentos, eles dão expressão para o que quer que esteja em seus pensamentos. E quando eles progridem suficientemente nessas habilidades Ilúvatar comandou os Ainur a se unirem em um poderoso tema.

A Música dos Ainur, o Ainulindalë, é a fonte do terceiro local a surgir do pensamento de Ilúvatar. E música parace ter sido a fundação deste terceiro local. A história nos fala que após um tempo Melkor iniciou seu próprio tema dentro da música, causando dissensão e discórida que se espalharam entre os Ainur. E Ilúvatar comandou os Ainur para iniciarem um novo tema, mas a música de Melkor novamente invadiu a composição original, e Ilúvatar crescendo em ira iniciou um terceiro tema diferente dos dois primeiros.

Quando o conflito entre o tema arrogante e insolente e o terceiro tema de Ilúvatar tornaram-se tão desconcertantes que muitos Ainur pararam de cantar, Ilúvatar trouxe um fim à música. E ele mostrou aos Ainur uma visão que dava expressão e interpretação à sua música, mas eles não a compreenderam completamente. Então Ilúvatar criou o que nós chamamos de Universo, o que Tolkien usualmente chamou Eä. "Eä" significa "deve existir" ou "exista". Este era Tempo e Espaço, tudo que é natural para a Terra-média, a qual não era nada senão uma pequena parte de Eä.

Ilúvatar criou Eä dentro do Vazio. Ele disse, "Eu enviarei adiante no Vazio a Chama Imperecível, e ela estará no coração do Mundo, e o Mundo existirá…" A Flama Imperecível nunca é completamente descrita por Tolkien, mas Ilúvatar despertou os Ainur com a Chama Imperecível, e Melkor procurou pela Chama Imperecível em vão no Vazio. Ele não compreendeu que ela existia com Ilúvatar, era aparentemente uma parte de Ilúvatar.

A Chama Imperecível então providenciou a fundação de todas as coisas que possuem uma existência ou mesmo uma Vontade. Ela é o poder de Ilúvatar, sua fonte de energia e aparentemente a fonte de tudo o que ele criou. A Chama Imperecível, como um aspecto de Ilúvatar, deve ser o poder máximo no mundo de Tolkien: cru, vital, puro, imaculado, sujeita completamente à sua própria Vontade. Melkor entendeu-a como um mjeio de criar, algo que ele por si mesmo não poderia fazer. Criação, neste aspecto significa trazer à existência do nada, dar existência a algo que previamente não existia. Melkor poderia ser capaz de imaginar coisas novas, mas ele não poderia criá-las. Elas não poderiam Ser sem a Chama Imperecível.

De qualquer forma, Ilúvatar deu aos Ainur a permissão para entrar em Eä e fazer todas as coisas que eles tinham cantado. Aqueles que aceitaram esta oferta tornaram-se parte de Eä – "seus poderes deverão desde então ser contidos e limitados ao mundo, para estar com ele para sempre, até que este esteja completo, então eles são sua vida e o mundo é a vida deles". A entrada dos Valar, os primeiros Ainur a ligar-se a Eä, alterou o Mundo completamente. Antes ele era sem forma, escuro e vazio. Mas quando eles tomaram posse de sua tutela, os Valar trouxeram a Eä Propósito, Vontade e algo que pode ser chamado Poder. O Poder precedia de sua Vontade, sendo uma faceta de suas existências, as quais Eä por si mesma não compartilhava, pois ela não tinha Vontade, e não era um Ser Vivo.

Eä dessa forma deste seu início teve seu próprio conjunto de regras, podemos chamá-los de axiomas, sobre os quais sua cosmologia foi fundada. O Universo ou o Mundo poderia ser moldado pelos Ainur ou por Ilúvatar, mas Ilúvatar escolheu não interagir diretamente com Eä. Ele deixou o trabalho para os Ainur. Eles trabalharão por incontáveis Eras criando [com significação de construindo, e não trazer à existência do nada] estrelas e regiões além do alcance e conhecimento das ainda por vir Crianças de Ilúvatar. No decorrer destes trabalhos os Valar devem ter criado, refinado ou pelo menos descoberto as leis físicas que devem ter sido naturais a Eä. Estas leis definiram os limites de todas as coisas dentro dos limites de Eä.

Tempo é uma das medidas de Eä, assim como Espaço e Distância. Com a passagem do Tempo os Valar preencheram mais do Espaço, cobriram mais Distância, com o fruto de seus trabalhos. Míriades de estrelas e provavelmente mundos inimagináveis espalhavam-se atrás deles. E eventualmente ele chegaram àquela região de Eä onde eles construíram Arda, o Dom;inio ou Reino, que seria a casa das Crianças de Ilúvatar. Como os Ainur, as Crianças seriam estritamente os produtos do Pensamento de Ilúvatar. E como os Valar [e seus companheiros, os Maiar as Crianças seriam ligadas ao Tempo e Espaço, com uma excessão. Ilúvatar decidiu que os Homens, ao contrário dos Elfos, não deveriam permanecer em Eä, mas deveriam ir a outra lugar. Talvez isto fosse o desejo de Ilúvatar que Eä retornasse algo de si mesmo. O trabalho dos Valar em Arda revela alguma coisa sobre suas habilidades. Eles deram forma às terras, mares e céus. Os "céus" se referem aos ares sobre Arda, mais particularmente do que à extensão ilimitada além deles. Água eleva-se dos mares e terras para tornarem-se nuvens, e os ventos sopram e cruxam Arda livremente. O interesse de Melkor pelos trabalhos de seus colegas Valar produziu a beleza do gelo ao invés da ruína e destruição que ele esperava causar. A ambição de Melkor de fazer Arda seu domínio levou a empreender um garnde subterfúgio que alteraria Arda para sempre e deixaria os Valar perplexos. Ainda que não sabemos de que Arda foi moldada ou feita, após os Valar darem a ela substância e definição às terras, mares e ares eles os utilizaram para refinar o mundo. Eles csausaram o surgimento da Vida Biológica, seres vivos que não tinham espíritos, não foram despertados com a Chama Imperecível [exceto pelo fato de que elas eram feitos da substância de Eä, logo possuíam alguns aspectos do fogo vivo que existia no coração do mundo]. Estes seres vivos, divididos entres Kelvar [animais, seres vivos que se movem] e Olvar [seres que crescem com raízes na terra], agiam de acordo com sua própria vontade. Eles não eram simples extensões dos pensamentos dos Valar. Eles cresciam, multiplicavam-se e desenvolviam-se individualmente sem precisar utilizar instruções dos Valar.

Kelvar e Olvar devem consequentemente representar alguns aspectos da própria Vontade de Ilúvatar. Eles não tinham "espíritos", não eram Filhos do Pensamento de Ilúvatar como os Ainur e as Crianças de Ilúvatar eram, mas eles moviam e agiam independentemente, de acordo com sua necessidades básicas e desejos. Os Ainur deram forma aos Kelvar e Olvar mas eles poderiam ter dado vida a eles? Este assunto não é explorado por Tolkien, mas muitas questões possuem respostas que são melhor desenvolvidas através de alguma associação com a Chama Imperecível. Pelo objetivo desta discussão nós deveremos assumir [sem procurar provar ou refutar] que a vida dos Kelvar e Olvar deriva da Chama Imperecível, indiretamente, a qual Ilúvatar utilizou para despertar o Mundo pois a chama é dita estar no coração do Mundo.

É importante distinguir entre vida "sem alma" como a dos Kelvar e Olvar e vidas "com alma" como a dos Ainur e das Crianças. O que é "vida" dentro de Eä? O que é "morte"? Estes termos não podem ser ambos definidos biologicamente. Os Ainur, não tendo corpos físicos em um primeiro momento, eram apaesar de tudo seres "vivos" em seu início. Eles não tinham vida biológica mas mesmo assim viviam. Em Eä, quando eles assumiram corpos similares àqueles dos Filhos de Ilúvatar, eles deram a si próprios vida biológica — ,as mas eles não estavam criando seres vivos. Os corpos dos Ainur era como roupas. Tolkien escreve:

Agora os Valar deram a si mesmo forma e tom; e porque eles foram atraídos para o Mundo pelo amor dos Filhos de Ilúvatar, os quais eles esperavam, eles tomaram forma segundo a maneira que eles comtemplaram na Visão de Ilúvatar, exceto apenas em majestade e esplendor. Além disso suas formas chegaram ao seu conhecimento do Mundo visível, ao contrário do Mundo por si mesmo; e eles não a necessitavam, salvo como usamos vestimentas, e como nós podemos ser desnudos e não sofrer perda de nossa existência…. [Tolkien, "Silmarillion"]

Esta passagem fornece dicas importantes sobre mais do que como os Valar tomaram forma. Suas formas foram derivadas de seus CONHECIMENTOS do Mundo, e não do Mundo por si próprio. As formas dos Kelvar e Olvar, contudo, devem por definição ter derivados do Mundo. Por "formas" Tolkien parece querer dizer a substância física, os corpos, dos Ainur e dos seres vivos. Então os corpos dos animaise plantas são parte do Mundo, enquanto que os corpos dos Ainur não são. Mas mesmo os corpos dos Ainur devem se adequar a certas limitações do Mundo de modo a interagir com ele.

Outro aspecto que vemos é a referência ao "Mundo visível". Os corpos adotados pelos Ainur eram feitos em referência ao "Mundo visível" ou o "Visível". Por definição, então, eles como espíritos são parte do "Mundo invisível" ou o "Invisível". A distinção entre Kelvar/Olvar e os Ainur e Crianças de Ilúvatar "com alma" deve incluir algum aspecto do "Invisível". Seus espíritos ou almas constituem o Mundo Invisível, do qual os Kelvar e Olvar não podem fazer parte.

Aqui, na divisão entre o Visível e o Invisível encontramos a base para um dos aspectos da "mágica" em Tolkien: necromancia [algumas vezes chamada de bruxaria]. Tolkien faz referência a ela em muitos locais, direta ou indiretamente. Sauron o terrível é também o Nigromante de Dol Guldur. Ele ensina os Elfos de Eregion a fazerem Anéis de Poder os quais ele então roubou e perverteu de forma a criar os Espectros do Anel, espíritos sem corpo escravizados pela sua própria Vontade. Necromancia é uma mágica poderosa em Tolkien mas isso não significa que seja a única mágica.

Outro tipo de mágica em Tolkien é vista na expressão da Vontade por vários Ainur e Elfos. Pode ter sido por essa mágica que os Ainur moldaram os elementos de Eä e então trouxeram ordem ao Mundo. Arda foi produzida através desta mágica, não tanto uma expressão de poder cru como os atos de Ilúvatar na criação do mundo podiam ser, mas uma expressão de um poder secundário dentro da criação. Nenhuma criação original ocorre, mas a novas idéias são dadas forma ou expressão. Melkor, o maior dos AInur em força e Vontade, era o maior sub-criador em muitos aspectos, mas ele gradualmente tornou-se destrutivo e niilista, desejando apenas dominar outras Vontades, para possuir o que já estava criado ou para controla-la, ou para destrui-la se ele não pudesse atingir estes objetivos.

O foco do desejo de Melkor era Arda, a morada das muito aguardadas Crianças de Ilúvatar. Os valar podem ter dado especial consideração quando a fizeram, pois Melkor foi consumido pelo desejo de possuir Arda para si mesmo. O desejo de Melkor de fazer Arda completamente sua levou-o a difundir uma grande parte de sua força natural por toda Arda. Ele era um ser de puro espírito que fez a si mesmo permanentemente físico, permanentemente ligado ao Mundo [dentro de Arda, para ser mais exato], de forma a ser "Um" com ele, fazê-lo parte de si próprio. Pela introdução desta parte de si mesmo em Arda, Melkor estabeleceu a fundação para mais um tipo de mágica. De acordo com Tolkien:

"Melkor encarnou a si mesmo [como Morgoth] permanentemente. Ele assim o fez para controlar o hroa, a "carne" ou matéria física, de Arda. Ele tentou identificar-se com o hroa. Um procedimento mais vasto, e mais perigoso, embora de espécie similar às operações de Sauron com os Anéis. Dessa forma, fora do Reino Abençoado, toda "matéria" provavelmente tinha um "ingrediente Melkor", e aqueles que possuiam corpos, criados pelo hroa de Arda, o tinham como uma tendência, pequena ou grande, em direção a Melkor: nenhum deles era completamente livre dele em suas formas encarnadas, e seus corpos tinha um efeito sobre seus espíritos. Mas desta forma Morgoth perdeu [ou trocou, ou transformou] a maior parte de seus poderes "angelicais" originais, de mente e espírito, ganhando um terrível poder sobre o mundo físico. Por esta razão ele tinha que ser combatido, principalmente por força física, e uma enorme ruína material era a provável consequência de qualquer combate direto com ele, vitorioso ou não. Esta é a principal explicação para a constante relutância dos Valar a batalharem abertamente contra Morgoth. O problema e tarefa de Manwe era muito mais difíceis que os de Gandalf. O poder de Sauron, relativamente menor, estava concentrado; o vasto poder de Morgoth estava disseminado. O todo da "Terra-média" era o Anel de Morgoth, embora temporariamente sua atenção estivesse principalmente no Noroeste. A Não ser que rapidamente bem sucedida, Guerra contra ele poderia muito bem terminar reduzindo toda a Terra-média ao caos, possivelmente toda Arda… além disso, a erradicação de Sauron [como um poder dirigindo o mal] foi alcançada pela destruição do Anel. Tal erradicação de Morgoth não era possível, uma vez que esta requeriria a completa desintegraçõ da "matéria" de Arda. O poder de Sauron não estava [por exemplo] no ouro como tal, mas em uma particular forma ou modelo feito de uma porção particular do total do ouro. O poder de Morgoth era disseminado por todo o Ouro, mesmo que em local algum absoluto [pois ele não criou o Ouro] ele não era ausente em nenhum lugar. [Este elemento-Morgoth na matéria, de fato, pré-requisito para tal "mágica" e outras perversidades como as que Sauron praticou com ela e sobre ela]. É bastante possível, com certeza, que certos "elementos" ou condições da matéria atraíram a especial atenção de Morgoth [principalmente, exceto no passado remoto, por razões de seus próprios planos]. Por exemplo, todo o ouro [na Terra-média] parece ter uma tend6encia especialmente "maligna" – mas não a prata. Água é descrita como quase inteiramente livre de Morgoth [Isto não significa, certamente, que algum mar, córrego, rio, poço ou mesmo navio na água em particular não pudesse ser envenenado ou poluido – como todas as coisas podiam]. [Tolkien, "Morgoth"s Ring", pp. 399-401]"

A infusão do elemento Morgothiano em Arda então alterou a suscetibilidade daquela parte do Mundo à Vontade de outros. Sauron utilizou o poder de Morgoth para alcançar o que podemos chamar de um estado de encantamento. Encantamento não pode ser limitado apenas ao uso do elemento Morgothiano – ele pode também ser aplicado a outros atos pelos Ainur, Elfos, Anões e mesmo Homens os quais poderiam não ter utilizado os mesmo princípios que Sauron. Mas deve ser aceito que Sauron ensinou as técnicas aos Elfos e provavelmente a Homens. Tal uso dos aspectos não-naturais de Arda devem consequentemente ser considerado como "bruxaria", embora não com respeito à conjuração de espíritos. Melkor não foi o único Vala a extender seu poder em porções de Eä, contudo. Ulmo, o Vala associado com todas as águas, parece ter se engajado em uma identificação similar porém mais restrita. Sua identificação não era permanente – não era um aspecto físico de sua encarnação. Melkor parece ter pervertido o princípio de identificar a si próprio com um "elemento nativo", aparentemente. Ulmo não tinha um local de moradia permanente mas se movia através da águas de Arda. Ele podia tentar inspirar Homens e Elfos se eles pudessem ouvir as vozes ou músicas de suas águas. Mas mesmo o poder de Ulmo era finito, ou apenas finitamente colocado com as águas. Quando ele encontrou com Tuor em Vinyamar, em Nevrast, ele disse:

"…mas a Maldição é forte, e a sombra do Inimigo se alonga; e eu estou diminuído, até que na terra-média me torne não mais do que um murmúrio secreto. As águas que correm para o oeste feneceram, e suas fontes estão envenenadas, e meu poder é expulso da terra; pois Elfos e Homens crescem cegos e surdos a mim devido ao poder de Melkor…" [Tolkien, "Unfinished Tales"]

A imagem de uma luta entre Melkor e Ulmo sobre as águas de Terra-média implica em um imenso consumo de Vontade. Melkor era mais forte que Ulmo e estava constantemente expulsando Ulmo de seu domínio natural. É talvez razoável sugerir que Ulmo se retirou de livre vontade porque ele compreendia o que estava em jogo – que se ele resistisse a Melkor com muita força Arda [e consequentemente a Terra-média] poderia sofrer. O tempo ainda não havia chegado. Ele precisava agir com compaixão em relação a Elfos e Homens. Mas a implicação era que um grande poder estaria ativo por toda Arda – nas terrasm nas águas e nos ares. O poder tinha mais de uma fonte, mas apenas uma dessas fontes poderia ser utilizada na "mágica": a fonte Morgothiana.

Tolkien utiliza a palavra "feitiçaria" de várias formas. Algumas vezes ele fala das feitiçarias de Sauron e seus servidores, e somos lembrados da necomância que eles praticavam. Algumas vezes Tolkien parece usar a palavra de uma maneira mais genérica. Quando os Rohirrim falam da Dama da Floresta e a chamam de feiticeira, isto realmente implica que eles acreditavam que Galadriel consorciava com espíritos, ou implica simplesmente que eles percebiam nela um grande poder do qual eles não compartilhavam?

Na concepção Élfica não existe "magia" mas sim "Arte". Os Elfos simplesmente possuíam a habildade natural de envolver-se com sub-criação. Tudo o que os Ainur podiam fazer era "sub-criar" – manipular a criação de Ilúvatar dentro daqueles limites que ele fixou durante a criação de Eä. Os Elfos possuíam uma capacidade similar embora muito diminu;ida, em comparação aos Ainur, exceto talvez em alguns casos raros. Fëanor, o maior dos Eldar, rivalizava com os feitos dos Ainur em alguns aspectos, até mesmo provocando inveja no coração de Melkor. E Lúthien, sendo meio Elfo e meio Maia, executou um golpe considerável contra Melkor pessoalmente, cantando e fazendo dormir ele e todos os seus servos, dentro de Angband.

Desesperando-se com seu próprio uso da palavra "mágica", Tolkien escreveu a Milton Waldman [um editor a quem ele submeteu O Senhor dos Anéis antes de sua aceitação final por Allen & Unwin]:

"Eu não usei a palavra "mágica" consistentemente, e realmente a Rainha Élfica Galadriel é obrigada a advertir os Hobbits em seus usos confusos da palavra tanto para os artificios e operações do Inimigo quanto para os Elfos. Eu não diferenciei as duas formas porque não existe uma palavra para a segunda forma [uma vez que todas as histórias humanas sofrem da mesma confusão]. Mas os Elfos estão lá [em meus contos] para demonstrar a diferença. Sua "mágica" é Arte, que os livra de muitas de suas limitações humanas: menos esforço, mais rápido, mais completo [produto e visão numa correspondência sem falhas]. E seus objetivos são Arte e não Poder, sub-criação e não dominação e reforma tirânica da Criação. Os "Elfos" são "imortais", pelo menos até quando o mundo existir: e portanto são preocupados principalmente com os sofrimentos e aflições da imortalidade no tempo e nas mudanças, do que com a morte. O Inimigo em sucessivas formas é sempre "naturalmente" interessado na Dominação completa, logo Senhor da magia e máquinas. Então o problema: este mal assustador pode e realmente surge de uma raiz aparentemente boa, o desejo de beneficiar o mundo e outros* – rapidamente e de acordo com os próprios planos do benfeitor – é um motivo recorrente." "*Não no Iniciador do Mal: a sua Queda foi uma Queda sub-criativa, e portanto os Elfos [os representantes da sub-criação por excelência] eram particularmente seus inimigos, e o objeto especial de seu desejo e ódio – abertos às suas fraudes. Suas Quedas seriam na possessividade e [em um grau menor] na perversão de suas artes em poder." [Tolkien, "Letters", Letter 131]

Em um rascunho de uma carta escrita a Naomi Mitcheson [embora esta parte não tenha sido enviada a ela], Tolkien acrescentou detalhes às distinções entre as percepções "mortal" e "Élfica" da magia: "Receio que eu tenha sido muito fortuito sobre "mágica" e especialmente no uso da palavra; apesar de Galadriel e outros se mostrarem críticos ao uso "mortal" da palavra, este pensamento não é completamente casual. Mas esta é uma questão muito ampla, e difícil; e uma história na qual, como você com razão diz, é grandemente sobre motivos [escolhas, tentações, etc.] e as intenções de usá-la não importa como seja encontrada no mundo, poderia facilmente ser soterrada com uma dissertação pseudo-filosófica! Eu não tenho intenção de me envolver em qualquer debate onde "mágica" em qualquer sentido seja real ou realmente possível no mundo. Mas eu suponho que, para os própositos do conto, alguns poderiam dizer que existe uma latente distinção assim como foi chamada a distinção entre "magia" e "goeteia"[1]. Galadriel fala das "fraudes do Inimigo". Bem, suficiente, mas magia poderia ser, e era, boa [per si mesma], e goeteia má. Nenhuma das duas é, neste conto, boa ou má [por si mesmas], mas apenas por motivo e propósito de uso. Ambos os lados usam ambas as formas, mas com diferentes motivos. O supremo motivo maligno é a dominação de outra "vontades livres". As operações do Inimigo não era de forma alguma fraudes goéticas, mas "mágica" que produz efeitos reais no mundo físico. Mas sua magia ele utiliza para intimidar povos e coisas, e sua goeteia para aterrorizar e subjugar. Os Elfos e Gandalf usam [de forma reduzida] sua magia: uma magia, produzindo resultados reais [como fogo em madeira molhada] para fins específicos e benévolos. Seus efeitos goéticos são inteiramente artísticos e não possuem a intenção de ludibriar: eles nunca enganam os Elfos [mas podem enganar ou confundir Homens desatentos] uma vez que a diferença para eles é tão clara como a diferença para nós entre ficção, pintura e escura e "vida".

Ambos os lados vivem principalmente por modos "normais". O Inimigo, ou aqueles que se tornaram como ele, dedicam tempo com "maquinaria" – com efeitos destrutivos e maléficos – porque "mágicos" que tornaram-se principalmente preocupados com o uso da magia para seu próprio poder, poderiam assim o fazer [e assim o fazem]. O motivo básico para a magia – completamente aparte de qualquer consideração filosófica que como ela funciona – é a urgência: velocidade, redução de trabalho, e a redução para um mínimo [ou ao ponto de desaparecer] da lacuna entre a idéia ou desejo e o resultado ou efeito. Mas a magia pode não ser fácil de obter e se de qualquer modo você possui comando de abundante trabalho escravo ou maquinaria [frequentemente a mesma coisa oculta], pode ser tão rapida ou rápida o suficiente para por de lado montanhas, destruir florestas ou construir pirâmides com tais recursos. Certamente outro fator então vêm à tona, um fator moral ou patológico: os tiranos perdem contato com os objetivos, tornam-se cruéis e satisfazem-se esmagando, feriando e poluindo. Não existe dúvida que seria possível defender a idéia do pobre Lotho de moinhos mais eficientes; mas não o uso que Sharkey e Ruivão fazem dele.

De qualquer forma, uma diferença no uso da "mágica" nesta história é que ela não se realiza por "doutrinas" ou feitiços; pois este é um poder inato não possuído pelo Homem como tal. O poder de "cura" de Aragorn pode ser considerado como "mágico", ou pelo menos um misto de mágica com processos famacêuticos e "hipnóticos". Mas ele é [em teoria] relatado por hobbits que têm poucas noções de filosofia e ciência; enquanto Aragorn não é um "Homem" puro, mas uma "criança de Lúthien" há muito tempo separado."

[1] o equivalente grego de goetial a forma Inglesa Goética é definida no O.E.D. como "bruxaria ou mágica executada pela invocação ou uso de espíritos malignos; necromancia" [Ibid., Letter 155]

Tolkien empresta as palavras "magia" e "goeteia" em uma tentativa de distinguir entre as formas de mágica, mas ele complica o assunto. Mais adiante ele fracassa quando diz que "mágica" não pode ser praticada pelos Homens – mas lembra a si mesmo que os Numenorianos sem dúvida utilizaram feitiços em suas espadas. Sua análise dos poderes na Terra-média falhou em notar este fato.

Apesar de tudo Tolkien distingue magia de goeteia sugerindo que a primeira constitui aquelas ações que produzem efeitos, como o feitiço de Gandalf para acender o fogo em madeira molhada na montanha Caradhras. O jogo de anéis de fumaça entre Gandalf e Thorin também poderia ser considerado magia [Tolkien, "Hobbit"]. Goeteia deve consequentemente representar a criação de itens mágicos, como as lâmpadas usadas pelos Elfos que davam luz sem o necessidade de chama; as harpas mágicas dos Anões em Erebor; o Portão Oeste de Moria que abria quando a palavra Sindarin para "amigo" era dita; e assim por diante.

A mágica goética é o lado artístico da sub-criação: Arte quando o motivo é realçar, preservar ou curar; Feitiçaria quando o motivo é dominar, controlar ou destruir. Os Elfos eram capazes de utilizar suas habilidades em ambas as direções, mas mas frequentemente preferiam Arte à Feitiçaria. Feitiçaria poderia ser útil na confrontação de Finrod com Sauron na ilha de Tol Sirion durante a Primeira Era. Ela também poderia ser a expressão natural da vontade Élfica como na caótica perseguição de Fëanor a Melkor. Feitiçaria não estava nunca além do alcance dos Elfos, mas raramente estava no seu arsenal de preferências.

E mesmo a feitiçaria era praticada or Homens por toda a Terra-média: os nove Homens que aceitaram os Anéis de Poder de Sauron [apenas três deles eram Numenorianos] "tornaram-se poderosos em seus dias, reis, feiticeiros e guerreiros de tempos antigos" antes de finalmente sucumbirem aos Anéis e desaparecerem; os homens das colinas que tomaram o controle de Rhudaur [ou os Homens malignos que o Rei-Bruxo enviou para substituí-los] parecem ter praticado feitiçaria; e o Boca de Sauron era um feiticeiro [ainda que Numenoriano].

A feitiçaria dos Homens deve ser diversa. Tolkien fala de Homens tentando se comunicar com espíritos Élficos. Quand os Elfos se esvaem seus corpos desaparecem. Aqueles que eram tão enamorados da Terra-média que preferiam esvair-se a navegar sobre o Mar era provável que se tornassem "assombrações", espíritos morando em ou perto de seu local favorito. De descobertos por Homens eles poderiam responder a certos estímulos de feitiçaria, mas era perigoso aos Homens lidar com eles. Os espíritos poderiam tentar ocupar os corpos dos Homens e expulsar o espítiro nativo, o quela era mais fraco por natureza ou juventude. Tais atos poderiam ser provocados não tanto por maldade mas mais por desespero. Elfos eram tão desesperados para viver na terra-média como os Homens, mas como os Homens eles tinham um destino que limitava o tempo de sua vida Biológica.

Outras feitiçarias que os Homens podem ter praticado incluem o controle de animais. Beruthiel, esposa de Tarannon Falastur, era originalmente uma princesa dos Numenorianos Negros. Ela aprendeu as artes da feitiçaria de sue povo e as praticou em Gondor. Seus gatos eram lendários por sua devoção à sua mestra e ela os utilizava para espiar o povo do reino. Tarannon vivia em uma grande casa perto do Mar, em pelargir, mas Beruthiel preferiu viver em uma casa na grande ponte de Osgiliath. Ela preencheu o jardim com árvores e plantas tortas e mal-formadas, e ela aterrorizou tanto so Dunedain que Tarannon foi eventualmente forçado a removê-la a força e enviá-la para o exílio. Ela foi vista pela última vez navegando sozinha em um navio para o sul além de Umbar, acompanhada apenas por seus gatos, um à proa e outro à popa.

Se mágica em algumas formas é acessível aos Homens, não é menos acessível aos Anões, os Filhos Adotados de Ilúvatar. Eles também eram Encarnados – espíritos habitando em corpos vivos, no final das contas enviados por Ilúvatar. COmo os Elfos os Anões são presos em Eä e devem permanecer em Arda até o Fim. Como os Homens seus corpos se enfraquecem, envelhecem e morrem naturalmente. Os Anões são uma curiosa mistura das características Élficas e Humanas, mas eles possuem suas próprias idéias sobre seu lugar em Eä e nos planos de Ilúvatar. Como Homens os Anões utilizam feitiços mas eles parecem exercer uma capacidade sub-criacional semelhante à dos Elfos.

O que Tolkien quer dizer com "sub-criação"? Ele a aplica aos meios naturais pelos quais os Ainur e Elfos alcançam seus fins Artísticos. É através da sub-criação que os Ainur trouxeram à complitude ou próximo à complitude o aspecto e forma do Mundo. Através da sub-criação os Ainur criaram os Kelvar e Olvar. Através da sub-criação os Elfos criaram as Silmarils, os Anéis de Poder e todas as coisas "mágicas" se sua sociedade. Através da sub-criação so Anões produziram suas portas mágicas, lâmpadas e armaduras.

O processo sub-criativo não é descrito de nenhuma outra forma a não ser Arte. E tolkien invoca a idéia principal da música por todos os seus trabalhos. Os Ainur cantaram seus grandes temas e a partir deles Ilúvatar planejou Eä. No mito das Duas Árvores, após os Valar terem se retirado antes do ataque de Melkor so Extremo Oeste, Yavanna cantou ante o monte Ezelohhar, fazendo as Árvores tomarem forma como sementes, criar raízes e crescer. No embate de poder com Sauron, o Rei Élfico Finrod Felagundcantou canções de magia e feitiçaria, e Sauron cantou em resposta. Lúthien, enquanto presa na Hirilorn por seu pai, cantou para fazer seu cabelo crescer comprido o suficiente para que ela pudesse tecer um manto encantado de escuridão a partir dele. Os Anões cantam em suas forjas enquanto criam seus grandes artefatos. Aragorn canta ou recita suavemente sobre a lâmina Morgul que ele encontra no Topo do Vento, enquanto ele se preparava para se ocupar com a tentativa de cura em benefício do gravemente ferido Frodo. Tom Bombadil canta o tempo todo, e ele usa música para lidar com o Velho Salgueiro e a Criatura Tumular:

"Colocando cuidadosamente seus lírios na grama, ele correu para a árvore. Ali ele viu o pé de Merry destacando-se – o resto já tinha sido puxado para dentro. Tom colocou sua boca na fenda e começou a cantar com uma voz baixa. Eles não conseguiam entender as palavras mas evidentemente Merry foi animado. Suas pernas começaram a chutar. Tom afastou-se, e quebrando um galho suspenso golpeou o lado do salgueiro com ele. "Deixe-o sair novamente, Velho Salgueiro!" ele disse. "O que você está pensando? Você não devia estar acordado. Coma terra! Cave fundo! Beba água! Vá dormir! Bombadil está falando!" Ele então segurou o pé de Merry e o puxou para fora da fenda repentinamente alargada." [Tolkien, "A Sociedade do Anel"]

E:

"Caia fora, criatura! Desapareça na luz do sol!
Encolha como a neblina fria, como os ventos que gemem,
Fora nas terras áridas muito além das montanhas!
Nunca venha aqui novamente! Deixe seu túmulo vazio!
Perdido e esquecido seja, mais escuro que a escuridão,
Onde os portões ficam eternamente fechados, até que o mundo seja reparado."
[Ibid.]

Para chamá-lo quando necessério, Bombadil ensinou os Hobbits a cantar uma canção:

"Ho! Tom Bombadil, Tom Bombadillo!
Pela água, floresta e colina, pela grama e pelo salgueiro,
Pelo fogo, sol e lua, escute agora e nos ouça!
Venha, Tom Bombadil, pois nossa necessidade está próxima!"
[Ibid.]

Tolkien nos fala que "Hobbits nunca, de fato, estudaram magia de nenhum tipo" e que "existe pouca ou nenhuma magia neles, exceto a ordinária de todo dia do tipo que os ajuda a desaparecer rápida e silenciosamente quando gente grande e estúpida como você e eu vem desabaladamente andando". Mas ele não diz que eles não pode usar mágica – eles simplesmente não desejam usar. A música de Bombadil mostra-nos que os Hobbits poderiam realmente chamar uma grande poder para ajudá-los. A magia pode ser de Tom Bombadil, mas é Frodo quem quenta a canção de chamado.

Música permeia os registros de "mágica" na Terra-média. Não é parte de toda cena ["O espelho de Galadriel" é evidente pela ausência de canto no encontro de Galadriel com Sam e Frodo em seu jardim]. Mas por outro lado, pode ser que a magia é mais sutilmente invocada se uma fonte externa de poder é utilizada. O espelho de Galadriel consiste de água derramada de uma fonte próxima vertida em uma base de prata. Tolkien registrou que água e prata não eram muito maculados com o pdoer de Morgoth, pois Ulmo é o Senhor das Águas e ele era a fonte de muitos sonhos e visões para Homens e Elfos. Poderia ser que Galadriel estivesse utilizando o poder de Ulmo em seu espelho mágico?

O relacionamento dos Elfos com os Valar precisa ser examinado em detalhes. Os Vanyar, Noldor e Teleri de Alqualonde [os Elfos da Luz, Elfos Profundos e Elfos do Mar de O Hobbit] passaram sobre o Mar para viver com os Valar e aprender com eles. Estes Elfos que tinham vivido no Reino Abençoado, Gandalf contou a Frodo, possuíam grande poder contra tanto o Visível quanto contra o Invisível, e viviam ao mesmo tempo nos dois mundos. O Visível [o Mundo visível, dois quais os Kelvar, Olvar, e corpos físicos dos Ainur, Elfos, Homens e Anões fazem parte] e o Invisível [o Mundo invisível, do qual apenas os espíritos dos seres vivos fazem parte, e não coisas como Kelvar e Olvar] são dois lados da mesma moeda. Mas requerem diferentes mágicas ou poderes para lidar com cada um deles. Entre as práticas dos Eldar encontramos a canção de hinos a Elbereth, Varda, a maior Rainha entre os Valar, esposa de Manwe o Rei Sábio, Governante de Arda. Embora os hinos são em sua maior parte reverencial, sua influência em outras pessoas pode ser considerável.

"Aiya Eärendil Elenion Ancalima!" Frodo clama quando expõe o frasco de Galadriel no covil de Laracna. Por algum poder ele não consegue entender o frasco brilhante, que contém luz capturada da Estrela de Eärendil, a última das Silmarils, protege Frodo e Sam da Laracna. Ela esconde-se medrosamente na escuridão.

Quando Sam está lutandio para vencer os Guardiães nos portões de Cirith Ungol, ele tira o frasco e o segura no alto, e por um momento um misterioso espírito abre caminho ante ele. Ao deixar a fortaleza Sam e Frodo são confrontados com os Guardiães novamente, e Sam grita "Gilthoniel! A Elbereth!" Em seguida Frodo fala "Aiya elenion ancalima!" E com isso "a vontade dos Guardiães foi quebrada com a rapidez do estalar de uma corda". O nome de Elbereth trouxe subitamente a atenção desta, reforçando a potência do frasco? Ou foi suficiente que Frodo falasse as mesmas palavras que vieram a ele espontaneamente no covil de Laracna?

A invocação dos Valar não pode ser negligentemente ignorada. Talvez seja nada mais do que uma reverência devida, uma sinal de respeito. Quando coroa Aragorn Gandalf diz "Agora vêem os dias do Rei, e que ele seja abençoado enquanto os tronos dos Valar permanecerem!" Os dias de Aragorn parecem ter sido abençoados realmente: Arnor e Gondor foram restaurados em sua grandiosidade, e ele teve sucesso nas guerras que se seguiram à Guerra do Anel [ou pelo menos não foi morto nela], e no tempo correto ele abri mão alegremente de sua vida, sem relutância ou mancha do medo da morte que inquietou tantos de seus ascendentes.

E também, quando os Nazgûl, servos de Sauron, Espectros do Anel, atacaram Aragorn, Frodo e seus companheiros no Topo do Vento, Frodo estocou o Senhor dos Nazgûl enquanto o Espectro do Anel procurava acertá-lo com a mortal lâmina Morgul. Frodo gritou "O Elbereth! Gilthoniel!" Um grito estridente é ouvido na noite. Quando tudo está acabado e os Nazgûl bateram em retirada, Aragorn percebeu que a espada de Frodo cortou apenas a capa do Senhor dos Nazgûl. "Mais mortal a ele foi o nome de Elbereth", Aragorn fala ao Hobbit. O nome de Elbereth causou o grito dos Nazgûl? Quando Frodo fala o nome de Elbereth novamente no Val de Bruinen ele não obteve efeito aparente. Mas naquele momento ele quase tinha sumido devido ao ferimento Morgul que ele tinha recebido, e sua vontade e força estavam grandemente diminuídas. Frodo estava no limite do próprio mundo dos espectros, o mundo Invisível. nem estava usando o Um anel como no Topo do Vento. Pode ser que o nome de Elberethde fato feriu os Nazgûl sob as circunstâncias corretas.Enquanto viajava Frodo tornou-se mais forte na sua vontade, mais do que havia sido anteriormente, e Sam notou-o com outra visão como uma figura brilhante vestida de branco. Poderiam existir benefícios consideráveis benefícios em utilizar o Um Anel, mesmo para um Hobbit, quando invocava-se grandes poderes, a despeito do perigo de sucumbir à natureza maligna do Anel.

Os Valar não abandonaram completamente a Terra-média após a Primeira Era. Eles enviaram os Istari, os Magos, para aconselhar Homens e Elfos e ajudá-los a resistir a Sauron. Quando Saruman foi morto seu espírito elevou-se acima de seu corpo, como uma névoa fina, e pareceu olhar para o Oeste, mas um vento soprou-o longe para o Leste. Têm-se a impressão que Manwë estava prestaando atenção aos eventos na Terra-média todo o tempo, não desejando tomar uma ação direta, mas também recusando-se a abandonar os Povos Livres aos mals liberados por seu próprio povo, os Ainur. Quando os Rohirrim estavam prontos para partir ao ataque nos campos de Pelennor, e enquanto Aragorn conduzia a frota capturada dos Corsários pelo rio Anduin, um forte vento começou a soprar do Oeste, empurrando a imensa nuvem que Sauron tinha enviado para cobrir Gondor e Rohan. Mesmo que Manwë pudesse empurrar a nuvem de escuridão a qualquer momento, eles deveria esperar até que as forças do Oeste estivessem em posição de rechaçar as hostes de Sauron. Os Corsários já haviam sido derrotados, e Saruman não era mais uma ameaça a Rohan – a Batalha dos Campos de Pelennor foi um ponto de virada na Guerra do Anel. Durante a Batalha dos Campos de Pelennor duas formas de mágica colidiram quando Merry atingiu o Senhor dos Nazgûl por trás com a lâmina que Tom Bombadil lhe deu. Nombadil, quando resgatou Merry e seus companheiros da Colina dos Túmulos, pegou o tesouro da Criatura Tumular e amontou-o fora do túmulo onde tinha permanecido por tanto tempo. Ele tirou do tesouro quatro adagas que tinham sido feitas pelos Dunedáin de Cardolan muitos séculos atrás. Mesmo à primeira olhada, "as lâminas pareciam intocadas pelo tempo, sem ferrugem, afidas, brilhando ao sol".

As armas são claramente especiais, e nais tarde Aragorn disse que as lâminas de Pippin e Merry foram reconhecidas pelos Orcs que os tinham capturados como "trabalhos do Oeste, recobertas de magias para a destruição de Mordor". Com esta lâmina Merry golpeou cegamente o Senhor dos Nazgûl quando este se colocou ante Éowyn de Rohan. "Nenhuma outra lâmina", escreveu Tolkien, "não importa quão poderosas fossem as mãos que a segurasse, poderia ter causado naquele inimigo um ferimento tão amargo, partindo a carne desfeita, quebrando a magia que ligava sua força invisível à sua vontade".

Feitiços Numenorianos contra magia Saurônica. Por milhares de anos o Senhor dos Nazgûl servira a Sauron fielmente. Ele poderia, Ele poderia, quando seu mestre estivesse fore [e talvez em outras ocasiões] "tomar forma" e andar entre os vivos novamente, empunhando a lâmina Morgul e maça, cavalgando cavalos, comandado exércitos. Como poderia um espectro tomar forma? A natureza do "feitiço que ligava sua força invisível à sua vontade" não é explicado, mas Gandalf fala a Frodo em Valfenda que "suas capas negras eram capas reais que [os Nazgûl] usavam para dar forma ao seu nada quando tinham que lidar com os vivos".

Não era o suficiente que Merry atingisse a capa do Nazgûl. Após o encontro no Topo do vento Aragorn um pedaço de capa esfarrapada que a lâmina de Frodo tinha cortado do traje do Senhor dos Nazgûl. "Todas as lâminas que atingem aquele Rei terrível estragam-se" ele disse aos Hobbits. A espada de Frodo continuava inteira e utilizável. Seu golpe tinha errado o espectro. As capas podiam ser artefatos mágicos ou simplesmenta capas, utilizadas como ingredientes em algum feitiço que dava aos Nazgûl a habilidade de se mover entre os vivos. Despojados de seus trajes elas deveriam "retornar como pudessem a seu Mestre em Mordor, vazios e sem forma"conclui Gandalf logo após os Nazgûl terem sido derrotados no Vau de Bruinen . Se as capas lhes dava, forma, elas não "ligava [sua] força invisível a vontade [dos Nazgûl]". As forças invisíveis eram as forças de um espectro, mas um espectro mantido de modo não natural na Terra-média por algum poder. Quando morrem, os Homens devem deixar o mundo. Seus espíritos devem ir para algum outro lugar. Sauron transgrediu este princípio natural pelo imprisionamento dos espíritos dos Nazgûl no mundo, de modo que pudessem continuar agindo e atuando como seres independentes. Eles eram escravos de sua vontade, mas suas próprias vontades permaneciam intactas, meramente subvertidas aos propósitos de Sauron, mas não substituídas pela própria vontade de Sauron.

Então o feitiço que a lâmina de Merry quebrou foi o feitiço desenvolvido por Sauron, o poder do Anel do Nazgûl. A sabedoria dos Numenorianos alcançou um grande feito contra o poder dos Anéis Élficos corrompidos. E mesmo assim o espírito do Senhor dos Nazgûl não deixou a Terra-média imediatamente quando foi derrotado. Após o golpe mortal de Éowyn o Senhor dos Nazgûl elevou-se no ar e seu espírito voou lamentando para Mordor, passando sobre Sam e Frodo em sua jornada, sem dúvida indo para seu Mestre em Barad-dûr. Um espírito fraco e impotente, o Senhor dos Nazgûl não servia mais para nenhum próposito a Sauron, mas permanecia sujeito a seu poder apesar de tudo até que aquele poder fosse destruído com o Um Anel.

Os Anéis de Poder são de fato os maiores artefatos mágicos feitos na Terra-média. Sauron ensinou aos Elfos de eregion os princípios da sub-criação que eles ainda não haviam aprendido, e podemos imaginar se então este conhecimento não seria uma "arte proibida". Porque os Valar e Maiar não dividiram este conhecimento com os Elfos em Aman? Um elemento chave no poder dos Anéis é o elemento Morgothiano difundido por toda Arda, e especialmente aquela porção do elemento que existe no ouro. Com estes Anéis os Elfos esperavam "compreender, criar e curar" de acordo com Elrond, segundo ele revelou em seu Conselho. Sobre os Três, Tolkien escreveu: "aqueles que os tivesse em sua posse poderia evitar a decadência do tempo e postergar o desgate do mundo". E "após a queda de Saruman [ao final da Segunda Era] seus poderes estavam sempre em ação, e onde eles estavam também o júbilo residia, e todas as coisas não eram manchadas pelas tristezas do tempo". Tolkien explicou os poderes dos Anéis mais completamente quando escreveu ao editor Milton Waldman:

"O poder principal [de todos os anéis] era prevenir ou diminuir a decadência [isto é, "mudança" vista como algo lamentável], a preservação do que é desejado ou amado, ou sua imagem – este é mais ou menos um motivo Élfico. Mas também aumentavam os poderes naturais de seu dono – de forma parecida com "mágica", um motivo facilmente corrompível em mal, um desejo de dominação. E finalmente eles tinham outros poderes, mais diretamente derivados de Sauron… como o de tornar invisível o corpo material, e fazendo coisas do mundo invísivel visíveis.

Os Elfos de Eregion fizeram Três anéis supremamente belos e poderosos, quase que apenas de suas próprias imaginações, e dirigidos à preservação da beleza: eles não conferiam invisibilidade. Mas secretamente no Fogo subterrâneo, em sua própria Terra Negra, Sauron fez o Um Anel, o Anel Governante que continha o poder de todos os outros, e os controlava, então seu portador poderia ver os pensamentos de todos aqueles que usavam os anéis menores, poderia controlar tudo o que eles fizessem e ao final poderiam escravizá-los completamente. Ele não contava, contudo, com a sabedoria e sútil percepção dos Elfos. No momento em que ele usou o Um, os Elfos ficaram conscientes dele, e de seu propósito secreto, e tiveram medo. Eles esconderam os Três Anéis, de forma que nem mesmo Sauron descobriu onde eles estavam e eles permaneceram imaculados. os outros eles tentaram destruir." [Tolkien, "Letters", Carta 131]

De acordo com "Sobre os Anéis de Poder e a Terceira Era", "Sauron acumulou em suas mãos todos os Anéis de Poder restantes; e ele os distribuiu para outros povos da Terra-média, esperando dessa forma trazê-los sob sua influência todos aqueles que desejassem secretamente poder além da medida de sua própria espécie… e todos aqueles Anéis que ele dominou ele perverteu, facilmente uma vez que ele tinha uma parte em sua confecção, e eles se tornaram malditos…" [Tolkien, "Silmarillion"]

O motivo de Sauron era basicamente a corrupção dos Elfos. Na Carta 131 Tolkien diz "os Três Anéis dos Elfos, mantidos por guardiões secretos, estão operativos na preservação da memória da beleza de antigamente, mantendo enclaves encantados de paz onde o Tempo parece parar e a decadência é contida, uma visão da felicidade do Verdadeiro Oeste". Os Elfos, Tolkien diz na carta 154, "desejavam ter seu bolo e comê-lo: viver na Terra-média história e mortal porque eles se tornaram apreciadores dela [e talvez porque eles tinham as vantagens de uma casta superiora], e então eles tentaram parar suas mudanças e história, parar seu crescimento, mantendo-a como uma terra de prazer, mesmo que em sua maior parte deserta, onde eles podiam ser "artistas" – e eles estavam sobrecarregados com tristeza e pesar nostálgico".

Na Carta 181 Tolkien nota que "[os Elfos] caíram em uma certa medida na fraude de Sauron: eles desejavam algum "poder" sobre a situação [o que é completamente distinto de arte], para fazer suas vontades particulares de preservação efetivas: para interromper a mudança, e manter as coisas sempre frescas e belas". E na Carta 144 ele diz "Apesar de imaculados, porque não foram feitos por Sauron nem tocados por ele, [os Três] eram sem dúvida parcialmente produtos de sua instrução, e no final das contas sob o controle do Um. Dessa forma… quando o Um se foi, os últimos defensores da sabedoria e beleza dos Altos Elfos foram despojados do poder de para o tempo, e partiram".

A magnitude desse feito Élfico, e sua arogância, é dessa forma imenso. Como o Mundo é medido por Tempo e Espaço, os Elfos desejavam "para o tempo", para "para a história e as mudanças [da Terra-média], parar seu crescimento", meramente para que eles pudessem ser "artistas", praticando suas magias, deleleitando-se na beleza de sua própria juventude e da juventude do mundo que tinha dado nascimento a eles. Poderia Celebrimbor sozinho ter produzido tais efeitos? Sem dúvida não. Ele estava utilizando o conhecimento que Sauron lhe deu, e apesar de apenas Celebrimbor ter forjado os Três Anéis, o que os Gwaith-i-Mirdain faziam enquanto ele trabalhava? Eles podem ter de fato se reunido ao redor dele, cantando e projetando a partir de si mesmos parte do poder e força que eles tinham como reserva.

A derrota de Eregion na guerra pode não ter sido simplesmente devida às impressionantes forças que Sauron trouxe contra os Elfos. Os Elfos tinham vencido forças superiores no passado. As forças de Sauron lançaram-se contra mais do que Eregion: eles atacaram outra terra Élfica no leste, e os povos Edaínicos de Rhovanion e dos Vales do Anduin. Uma civilização inteira ao leste das Montanhas Nebulosas foi destruída e as terras de Eriador devastadas. O povo Élfico de Eregion pode ter sido drenado de muita força, pois seu poder sobreviveu a eles e continuou a trabalhar através dos Três [e mesmo através dos Sete e dos Nove, os quais eles ajudaram a fazer]. Os Elfos encontrarm uma forma de transgredit a ordem natural do mundo. Eles de fato trabalharam uma magia mais potente. No material original sobre linguagens que Tolkien escreveu para os Apêndices do Senhor dos Anéis, ele incluiu o seguinte parágrafo:

"$12 Além disso, aqueles eram os dias dos Três Anéis. Agora, como contado em outro lugar, aqueles anéis estavam ocultos, e os Eldar não os usavam para a criação de qualquer coisa nova enquanto Sauron continuasse usando o Anel Governante; mas sua virtude principal estava sempre secretamente trabalhando, e aquele virtude era proteger os Eldar que habitavam na Terra-média [adicionado: e todas as coisas relativas a eles] da mudança e degeneração e desgaste. E assim foi em todo o longo tempo desde a forja dos Anéis até seu fim, quando a Terceira Era acabou, e os Eldar na Terra-média não mudaram em mil anos mais do que os Homens em 10; e da mesma forma sua linguagem". [Tolkien, "Peoples of Middle-Earth"]

A ação de parar o Tempo trabalhava mesmo enquanto os Anéis não eram usados pelos Elfos, e como os Sete e Nove eram feitos com intenções similares ele, também, poderiam ter um efeito no Tempo onde quer que eles fossem mantidos. Mas os Três eram imensamente mais poderosos que os outros Anéis, e Celebrimbor dava tanto valor aos Três que morreu ao invés de revelar suas localizações a Sauron, mas sob grande tormento ele abriu mão dos Sete.

Mas por maior que fosse o poder que os Anéis Élficos tivessesm, o poder tinha seus limites. Os efeitos parecem ter sido localizados ao invés de completamente difundidos por toda a Terra-média. Talvez se os Elfos fossem capazer de possuir [e usar] todos os Grande Anéis ele poderiam ter alcançado seu objetivo em uma escala mais ampla. Mas na Terceira Era nós encontramos evidências dos efeitos totais dos Anéis eram sentidos em apenas dois locais: Valfenda e Lórien. Quando Bilbo e Frodo estavam conversando em Valfenda, Frodo pergunta a Bilbo quanto tempo levará para que Frodo precise sair na Expedição do Orodruin. "Oh, Eu não sei. Eu não consigo contar os dias em Valfenda", Bilbo lhe conta. Meses mais tarde, após a Sociedade ter partido de Lórien e ter estado no Anduin por alguns dias, Sam fica confuso:

Sam sentou batendo na guarda de sua espada como se estivesse contando em seus dedos, e olhando para o céu. "Isto é muito estranho", murmurou ele. "A Lua é a mesma no Condado e nas Terras Ermas, ou deveria ser. Mas ou ela está fora de seu curso ou eu estou errado em meus cálculos. Você se lembra, Sr. Frodo, que a Lua estava minguante quandonós estávamos naquele tabuleiro na árvore: uma semana para a totalidade, eu calculo. E nós estamos viajando há uma semana completas na última noite, quando surge uma Lua Nova como se nós não tivessemos ficado tempo algum no reino Élfico.

"Bem, eu posso recordar de três noites ali com certeza, e pareço recordar muitas mais, mas posso jurar que nunca completaria um mês inteiro. Poderia pensar que lá o tempo não conta!" "E talvez seja isso mesmo", disse Frodo. "Naquele terra, talvez, nós estávamos em um tempo que em outro lugar há muito se passara. Não antes, eu acho, de Silverlode ter nos colocado de volta ao Anduin que retornamos ao tempo que corre pelas terras mortais até o Grande Mar. E eu não me lembro de nenhuma lua, nova ou velha, em Caras Galadhon: apenas estrelas à noites e sol pelo dia". Legolas mexeu-se em seu barco. "Não, tempo não pára para sempre", ele disse, "mas as mudanças e crescimentos são diferente para todas as coisas e lugares. Para os Elfos o mundo se move, mas se move muito rápido e muito devagar. Rápido, porque eles mesmo mudam pouco, e tudo o mais passa por eles: é uma grande tristeza para eles. Devagar, porque eles não contam os anos passantes, nem para si mesmo. As estações passantes são apenas ondas repetindo-se ao longo de uma corrente muito longa. Mas sob o Sol todas as coisas devem chegar a um final". "Mas o desgaste é lento em Lórien", disse Frodo. "O poder da Senhora está lá. Ricas são as horas, embora curtas elas pareçam, em Caras Galadon, onde Galadriel usa o Anel Élfico". "Isto não deve ser dito fora de Lórien, nem mesmo para mim", disse Aragorn. "Não fale mais disso! Mas é assim, Sam: naquela terra você perdeu sua conta. Lá o tempo passou rapidamente por nós, como para os Elfos. A velha lua passou, e uma nova lua cresceu e diminuiu no mundo lá fora, enquanto nos demorávamos lá. E ontem uma nova lua veio novamente. O inverno quase se foi. O tempo corre para uma primavera de pouca esperança". [Tolkien, "Sociedade do Anel"]

Embora pareça aqui que Legolas discorde das avaliações de Frodo, ele nota que "mudanças e crescimentos são diferente para todas as coisas e lugares". Talvez legolas esteja dissimulando um pouco para proteger um segredo Élfico? Ou seria apenas que, sendo do reino de Thranduil no norte de Mirkwood, Legolas experimentou muito raramente de perto o poder dos Três Anéis para reconhecer seus efeitos? Aragorn confirma a dedução de Frodo: "lá o tempo passou rapidamente por nós, como para os Elfos". A diferença seria mais notável para Mortais do que para Legolas.

Os Anéis de Poder são os maiores artefatos de magia de todos os trabalhos de Tolkien. Mesmo as sagradas Silmarils feitas por Feanor, embora mais antigas e perenes que os Anéis, não trabalhavam ativamente sobre seu ambiente. Elas preservam a luz das Duas Árvores e não toleram o toque de nenhuma criatura maligna. Pelo poder de uma Silmaril Earendil navegou através dos Mares Sombrios e pelas Ilhas Encantadas para alcançar os litorais de Aman, a despeito do considerável poder dos Valar. Mas Feanor não procurou perverter a ordem natural do Mundo. Ele meramente procurou criar uma nova Beleza, e embora seu orgulho e arrogância tenha feito ele esconder tal Beleza de todos os outros, ela não é completamente sua criação [ou, sub-criação]. Varda consagrou as Silmarils, e sem aquele benção especial Ainuriana elas teriam sido menos do que foram. Elas poderiam não ter sido a chave para a solução da grande e terrível guerra que foi travada por elas.

O poder das Silmarils foi, mais adiante, aumentado pela Maldição de Mandos, e quando Thingol impôs uma Silmaril como o preço pela mão de sua filha, ele embaraçou-se na trama envolvendo o poder das jóias, e assim trouxe desgraça a seu reino e a todo seu povo. Melian previu que a busca de Thingol traria a Maldição sobre ele e sobre seu povo, e ela não tinha o poder de evitar. O destino de Doriath foi selado tão logo Thingol estabeleceu a Silmaril como o preço por Lúthien.

No final, a própria Lúthien abandonou Doriath e auxiliou Beren em sua missão. Ela busco por muito tempo e muito longe, e o encontrou aprisionado na ilha de Tol Sirion, onde Sauron [então apenas um servo de Morgoth] havia tomado a fortaleza élfica de Minas Tirith. Finrod Felagund e Beren estavam aprisionados nas masmorras quando Luthien e o cão de caça dos Valar, Huana, chegaram ao portão de Minas Tirith. Enquanto Luthien cantava sua tristeza e esperança de reencontrar Beren, Sauron enviou lobisomem após lobisomem para capturá-la, e Huan matou a todos até Draugluin, o último e mais antigo, arrastar-se mortalmente ferido para arfar aos pés de Sauron "Huan está aqui!"

Sauron tomou forma de um grande lobo, esperando trazer a maldição há muito prevista para Huan. Mas ele foi derrotado, e capitulou do domínio da ilha e da fortaleza em favor de Luthien antes de fugir para Taur-nu-Fuin em Dorthonion:

"O demon dark, O phantom vile
of foulness wrought, of lies and guile,
here shalt thou die, thy spirit roam
quaking back to thy master"s home
his scorn and fury to endure;
thee he will in the bowels immure
of groaning earth, and in a hole
everlastingly thy naked soul
shall wail and quiver — this shall be,
unless the keys thou render me
of thy black fotress, and the spell
that bindeth stone to stone thou tell,
and speak the words of opening."
With gasping breath and shuddering
he spake, and yielded as he must,
and vanquished betrayed his master"s trust.
Lo! By the bridge a gleam of light,
like stars descended from the night
to burn and tremble here below.
There wide her arms did Luthien throw,
and called aloud with voice as clear
as still at whiles may mortal hear
long elvish trumpets o"er the hill
echo, when all the world is still.
The dawn peered over mountains wan,
their grey heads silent looked thereon.
The hill trembled; the citadel
crumbled, and all its towers fell;
the rocks yaned and the bridge broke,
and Sirion spumed in sudden smoke.
[Tolkien, "Lays", pp. 253-4, linhas 2774-2803]

O poder de Lúthien era considerável. Ela era, de toda forma, uma feiticeira Élfica, e a mais poderosa feiticeira Élfica de todos os tempos:

Now Luthien doth her counsel shape;
and Melian"s daughter of deep lore
knew many things, yea, magics more
than then or now know elven-maids
that glint and shimmer in the glades.
[Ibid., p. 204, linhas 1425-9]

Enquanto tramava a figa da prisão onde seu pai a havia colocado, Luthien chamou seu amigo, Daeron o Menestrel, para fazer um tear para ela.

Isso [Daeron] fez e pediu a ela então:

"O Luthien, O Luthien,What wilt thou weave?
What wilt thou spin?"
"A marvellous thread, and wind therein
a potent magic, and a spell
I will weave within my web that hell
nor all the powers of Dread shall break."
Then [Daeron] wondered, but he spake
no word to Thingol, though his heart
feared the dark purpose of her art.
And Luthien now was left alone. A magic song to Men unknown
she sang, and singing then the wine
with water mingled three times nine;
and as in golden jar they lay
she sang a song of growth and day;
and as they lay in silver white
another song she sang, of night
and darkness without end, of height
uplifted to the stars, and flight
and freedom. And all names of things
tallest and longest on earth she sings:
the locks of the Longbeard dwarves; the tail
of Draugluin the werewolf pale;
the body of [Glaurung] the great snake;
the vast upsoaring peaks that quake
above the fires in Angband"s gloom;
the chain Angainor that ere Doom
for Morgoth shall by Gods be wrought
of steel and torment. Names she sought,
and sang of Glend the sword of Nan;
of Gilim the giant of Eruman;
and last and longest named she then
the endless hair of Uinen,
the Lady of the Sea, that lies
through all the waters under skies.
Then did she lave her head and sing
a theme of sleep and slumbering,
profound and fathomless and dark
as Luthien"s shadowy hair was dark —
each thread was more slender and more fine
than threads of twilight that entwine
in filmy web the fading grass
and closing flowers as day doth pass.
Now long and longer grew her hair,
and fell to her feet, and wandered there
like pools of shadow on the ground.
Then Luthien in a slumber drowned
was laid upon her bed and slept,
till morning through the windows crept
thinly and faint….
[Ibid., pp. 205-6, linhas 1466-1516]

A mágica de Luthien a exauriu tanto que ela teve que dormir após ter feito seu cabelo crescer. Pela manhã ela tomou o cabelo e o teceu em uma capa de sombra que permitiu a ela escapar de Doriath. Ela passou três dias trabalhando no tear, tendo cortado seu cabelo próximo à orelha. E a "Balada" diz que seu cabelo, quando cresceu novamente, era ainda mais negro do que havia sido antes do feitiço.

Em Angband Luthien mais uma vez utilizou seu poder, sem disfarce frente Morgoth e cercada por seus servos:

With arms upraised and drooping head
then softly she began to sing
a theme of sleep and slumbering,
wandering, woven with deeper spell
than songs wherewith in ancient dell
Melian did once the twilight fill,
profound, and fathomless, and still.
The fires of Angband flared and died,
smouldered into darkness; through the wide
and hollow walls there rolled and unfurled
the shadows of the underworld.
All movement stayed, and all sound ceased,
save vaporous breath of Orc and beast.
One fire in darkness still abode:
the lidless eyes of Morgoth glowed;
one sound the breathing silence broke:
the mirthless voice of Morgoth spoke.
[Ibid., p. 298, linhas 3977-93]

Grande como era, até mesmo Morgoth eventualmente sucumbiu ao feitiço de Luthien. Aqui um elemento raro é adicionado ao encantamento: Luthien dança para Morgoth e sua horda. Ela voa pelas cavernas de Angband, drapejando sua capa mágica sobre seus olhos, e um por um eles caem no sono. Sua canção não era suficiente, ela teve que fortalece-la com uma dança "como nunca elfo ou fada vira antes, nem viu desde aquele dia".

Como previamente citado, na carta 155 Tolkien tenta distinguir entre as habilidades de Elfos e Homens, e pensando em Aragorn ele traz à tona o assunto da descendência de Luthien:

De qualquer forma, uma diferença no uso da palavra "mágica" nesta história é que ela não é adquirível por "conhecimento" ou feitiços; mas como um poder inato possuído porHomens como ele. A "cura" de Aragorn pode ser considerada como "mágica", ou pelo menos uma combinação de magia com farmácia e processos "hipnóticos". Mas isto é [em teoria] relatado pelos Hobbits, que tinham muito pouca noção de filosofia e ciência; e Aragorn não era um "Homem" puro, mas um dos distantes descendentes dos "filhos de Lúthien".[Tolkien, "Letters", Carta 155]

Talvez, mas na margem próximo a este parágrafo Tolkien escreveu: "Mas os Numenorianos usavam "feitiços" ao fazerem suas espadas?". De fato, eles parecem ter feito isso. Talvez o ferreiro que fez as lâminas da Colina dos Túmulos fosse um descendente de Luthien também – Tolkien nunca retornou ao assunto. Mas ele demoliu, com este pensamento, todo o argumento de que os Homens não podiam usar magia. De fato, Tolkien diz:

Beorn está morto; ver vol. I p. 241. Ele apareceu em O Hobbit. Era então o ano 2940 da Terceira Era [1340 do calendário do Condado]. Estamos agora nos anos 3018-19 [1418-19]. Embora um troca-peles e sem dúvida um pouco mago, Beorn era um Homem.[Ibid., Carta 144]

Luthien praticou a troca-de-peles: ela assumiu a forma vampiresca de Thuringwethil quando ela e Beren foram para Angband. E ela era com certeza uma maga feminina de grande poder. Mas é bastante improvável que Beorn seja um descendente de Luthien, apesar de Gandalf acreditar que ele era descendente de uma raça de Homens que vivia nas Montanhas Sombrias. Poderiam esses Homens ter se misturado com os Dunedain de Eriador? Talvez, mas não é provável. A magia de Beorn parece ter sido, de alguma forma, Xamanística. Ele lidava com animais e tinha uma amizade com eles como nenhum outro Homem:

Dentro do salão estava agora completamente escuro. Beorn bateu palmas, e para dentro do salão trotaram quatro belos ponêis brancose vários grandes cachorros cinzentos de corpo grande. Beorn disse alguma coisa a eles em uma língua estranha como sons animais transformados em fala. Eles sairam novamente e logo retornaram carregando tochas em suas bocas, as quais acenderam no fogo e prenderam em suportes baixos na parede ao redor da lareira central. Os cães podiam ficar em pé sobre as patas traseiras quando quisessem, e carregavam coisas com as patas da frente. Rapidamente eles retiraram tábuas e suportes das paredes laterais e os prepararam perto do fogo.[Tolkien, "Hobbit", pp. 135-6]

Estas eram criaturas extraordinárias, mas indubitavelmente Beorn tinha alguma coisa a ver com suas habilidades, embora seja debatível se sua fala com eles "em uma língua estranha como sons animais transformados em fala" pudesse ser um feitiço. À noite Bilbo ouviu um som de arranhar e arrastar fora da casa de Beorn, e na segunda noite lá o Hobbit sonhou com ursos dançando no pátio, antes deles acordar e ouvir os sons novamente. A dança pode ser um sinal da magia de Beorn, embora ele não tenha produzido grandes artefatos como os Elfos.

Nem todos os artefatos Élficos eram coisas grandes e poderosas. Estes eram os Palantiri, as Pedras da Visão, as Silmarilli e os Anéis de Poder. Mas os Elfos parecem ter feito muitas outras coisas de menor poder: existiam as espadas dos Noldor que brilhavam quando perto de alguma criatura como os Orcs, e as espadas de Eol que pareciam possuir grande poder; haviam as lamparinas douradas e prateadas que os Elfos usavam e que nunca apagavam ou necessitavam de combustível. As cordas e barcos dados à Sociedade do Anel parecem mágicos de várias maneiras, permitindo à Companhia realizar tarefas que de outra maneira seriam impossíveis, e um barco sobrevive até mesmo às temerosas Quedas de Rauros, preservando o corpo de Boromir. E as capas cinzas que os Elfos de Lórien dão  à Sociedade claramente possuem um efeito mágico aos olhos dos Mortais: ela praticamente torna os seus usuários invisíveis aos olhos Mortais, pelo menos.
 
‘São capas mágicas?’ – perguntou Pippin, olhando-as admirado
‘Não sei o que quer dizer – respondeu o líder dos elfos. – São trajes bonitos, e o fio é de boa qualidade, pois foi feito nesta terra. São vestimentas élficas, com certeza, se é isso que quer dizer. Folha e ramo, água e rocha: elas têm a cor e a beleza de todos esses elementos sob nosso amado crepúsculo de Lórien, pois colocamos o pensamento de tudo o que amamos nas coisas que fazemos. Mas são vestes, não armaduras, e não repelirão lanças ou lâminas.  Mas vão servi-los bem: são leves de usar, quentes o suficiente e frescas o suficiente, conforme a necessidade. E vão encontrar nelas uma grande ajuda quando precisarem se esconder dos olhos inimigos, se andarem entre as rochas ou entre as árvores. Realmente, a Senhora os tem em alta conta! Pois ela mesma, com suas aias, teceu este material, e nunca antes tínhamos vestido forasteiros com as roupas de nosso próprio povo!’
[Tolkien, A Sociedade do Anel, pg 394]
 
Por meramente colocarem o pensamento de tudo o que eles amam no que fazem, os Elfos são capazes de imbuir as capas com “a cor e a beleza” de coisas como “folha e ramo, água e rocha”.
Como Lúthien pensa em sono e em esconder-se, a capa que ela usa lhe dá a habilidade para passar sem ser vista por seu próprio povo, e para encantar Morgoth em um profundo sono. Essa era a maneira Élfica, de praticar sua “arte” em todas as coisas que eles faziam. 
Os únicos outros fabricantes de artefatos verdadeiros da Terra Média eram os Anões. Sua motivações, porém, eram diferentes daquelas dos elfos. Eles não pensavam tão alto, nem se tornaram tão arrogantes a ponto de pretender para o tempo e preservar o passado contra o futuro. Os Anões pareciam mais dispostos a aceitar seu destino do que Elfos ou Homens. Assim não encontramos entre os Anões tentativas de criar refúgios mágicos, ou de extender ou preservar suas vidas.
 
 Os Anões preocupavam-se com coisas mais práticas. Pensamos neles como os forjadores de armas da terra Média, e muitas vezes eles o eram realmente. Telchar de Nogrod foi provavelmente o maior dos seus forjadores de metal. Vivendo na Primeira Era, estudante do mestre ferreiro Gamil Zirak, ele indubitavelmente foi um dos Anões que adquiriu grande conhecimento e habilidade dos Noldor. Os anões em sua juventude foram educados por Aule, mas eles não viveram em Aman nem residiram em meio aos Valar e Maiar. Eles aprenderam muito dos Exilados Noldorin que passaram milhares de anos aprendendo com os Ainur. Telchar é melhor lembrado por ter forjado a espada Narsil. Embora era dito que ela brilhava com uma fria luz, ela não possuía muito mais. A espada deve ter sido imbuída com um dom para resistir à destruição do tempo: mesmo nos tempos de Aragorn, os fragmentos puderam ser reforjados em uma nova espada. Narsil era feita meramente de aço, ou Telchar usou alguma liga metálica a muito esquecida?
 
Outro artefato dos Anões foi o Elmo de Dragão de Dor-lómin. Ele não é necessariamente distinguível de outros elmos usados pelos Anões em suas guerras, exceto que ele foi feito para Azaghal, senhor de Belegost. De Azaghal o elmo passou de mão para mão, dono à dono, como presente, até que ele veio à Hador Lorindol , primiero senhor de Dor-lómin entre os Edain. Hador e seus herdeiros usaram o elmo em batalha, e suas virtudes incluíam proteger o usuário de danos e derrotas na batalha.
 
Em Khazad-dum, enquanto os Anões de Nogrod e Belegost forjavam grandes armas e armaduras, os Barbalonga construíram as fundações do que se tornaria um dia a maior da civilizações dos Anões. Durin, o Imortal, primeiro dos Barbalonga, fundou a cidade, sobre a qual Gimli o Anão cantou milhares de anos depois:
 

“Rei era ele em trono entalhado,
Salão de Pedra encolunado,
No teto ouro, prata no chão,
E as fortes runas no portão.
A luz da lua, de estrela e sol
Presa em lâmpada de cristal,
Por noite ou nuvem não tolhida,
Brilhava bela toda a vida”
[Ibid, p. 335-6]
 
 As runas de poder talvez fosse o trabalho mágico mais cuidadoso dos Anões, com as quais eles conseguiram proteger Khazad-dum contra seus inimigos. Em eras posteriores os Anões de Erebor fizeram harpas mágicas que, tomadas pelos membros da companhia de Thorin após a morte de Smaug, permaneciam em sintonia e prontas para serem tocadas quase 200 anos após o Reino sob a Montanha ter sido destruído pelo dragão. “Operavam encantos anões de outrora” eles cantaram na casa de Bilbo, Bolsão.
 
“Para o antigo rei e seu elfo senhor
Criaram tesouros de grã nomeada;
As pedras plasmaram, a luz captaram
Prendendo-a nas gemas do punho da espada

Em colares de prata eles juntaram
Estrelas floridas; fizeram coroas
De fogo-dragão e no mesmo cordão
Fundiram a luz do sol e da lua.”
[Tolkien, “O Hobbit”, p. 22-3]
 
Capturar a luz do sol, das estrelas, e da lua e armazena-la nas gemas em armas, ou a luz do fogo do dragão, era uma mágica similar àquela dos Elfos. Os Anões procuravam aumentar a beleza do mundo ao seu redor, mas eles se aproximaram do objetivo de maneira concreta. Do outro lado, como pode ser visto nos anéis de fumaça de Thorin (Tolkien, “O Hobbit”, p. 12), os Anões eram capazes de se ocupar com coisas despreocupadas e “artísticas”. Alguns dos presentes que Bilbo dá em sua festa são mágicos em natureza, e vieram dos Anões (Tolkien, “A Sociedade do Anel”, p. 27).
Suas ambições então talvez não fossem grandiosas como as dos Elfos, mas a aptidão dos Anões para a sub-criação parece não ser menos capaz do que a dos Elfos. As runas de poder no portão Leste de Khazad-dum  são “magias de proibição e exclusão em Khuzdul” (Tolkien, “Peoples”, p. 319). As runas da lua ou letras da lua dos Anões representam uma mistura do artístico com o prático, sendo usadas para um propósito funcional mas não necessariamente requerido.
 
Desta forma a magia é uma mistura de talentos naturais e poderes e de uma tecnologia de construção de forma que só pode ser exercida por aquelas raças com o dom da sub-criação, a capacidade de moldar o mundo ao redor deles à suas vontades. Homens (e Hobbits) parecem ser incapazes de praticar a sub-criação, a menos que herdassem uma descendência de sangue Élfico, mas poderiam apesar de tudo adquirir grandes poderes, ou serem atraídos para as técnicas que Sauron desenvolveu para utilizar o elemento Morgothiano distribuído por toda Arda.
 
Combinando esses talentos e conhecimentos com uma comunicação com os espíritos de Elfos e possivelmente Homens, Tolkien dá vida às tradições da magia para nosso próprio legado. A necromancia parece ser a mais arriscada das magias da terra Média, e parece ser completamente destinada às Artes Negras por Tolkien. Quando se fala dos espíritos élficos e de como eles se tornaram “sem lar” após deixar seus corpos, Tolkien aponta que eles possuíam a liberdade para recusar a convocação natural para Mandos, onde eles poderiam, através de um tempo de contemplação, curar seus pesares e consertar seus erros. Mas por causa que Melkor, enquanto esteve na Terra Média, compeliu todos aqueles que recusaram a convocação a vir para ele, a recusa tornou-se associada a influência negra de Melkor.
 
 “É então algo tolo e perigoso, além de ser um ato errado proibido justamente pelo Governadores de Arda, se os vivos procuram comunicar-se com os sem corpo, apesar de que os sem lar possam deseja-lo, especialmente os mais desprovidos de valor entre eles. Para os sem corpo, vagando pelo mundo,  há aqueles que pelo menos recusaram a porta da vida e permaneceram em pesar e auto-piedade. Alguns são cheios de amargura, desgosto e inveja. Alguns foram escravizados pelo Senhor do Escuro e realizam seu trabalho silenciosamente, apesar dele próprio já ter partido. Eles não falarão a verdade ou o bom senso. Visita-los é tolice. Tentar comanda-los e torna-los servos da vontade de alguém é crueldade. Essas práticas são de Morgoth; e os necromantes são das hostes de Sauron, seu servo.

Alguns dizem que os sem lar desejam um corpo, apesar de eles não poderem procura-los legalmente por submissão ao julgamento de Mandos. Os maus entre eles tomarão corpos, se puderem, deslealmente. O perigo de comunicar-se com eles é então, não apenas o perigo de ser iludido por fantasias ou mentiras: há mesmo o perigo de destruição. Para um sem lar faminto, se for permitido que torne-se amigo dos vivos, ele pode tentar expelir o fëa do corpo; e na tentativa de dominar o corpo pode feri-lo gravemente, mesmo se não arrancado com força de seu dono verdadeiro. Ou os sem lar podem implorar por abrigo, e se for permitido, então ele irá procurar escravizar seu anfitrião e usar tanto sua vontade como seu corpo para seus próprios propósitos. É dito que Sauron fez essas coisas, e ensinou seus seguidores a executar tais atos.”
[Tolkien, “Morgoth’s Ring”, p. 224]
 
Portanto, através da ilusão de poderosos espíritos élficos, Homens podem procurar adquirir os poderes que eles vêem nos Elfos e invejam. Mas o perigo para eles pode ser muito grande. Quando se fala em como ele e outros foram confrontados pelos espíritos hesitantes dos Homens Mortos de Dunharrow, legolas diz, “não temi as sombras dos homens, que considerei frágeis e desprovidas de poder.” [Tolkien, “O Retorno do Rei”, p. 143]
 
‘Frágeis e desprovidas de poder” de fato. Então elas devem ter parecido para  um príncipe Élfico que certamente sabia o que poderia acontecer aos espíritos Élficos sem lar. Esses Homens Mortos foram amaldiçoados por Isildur milhares de anos antes. Por causa que eles mostraram deslealdade em uma guerra anterior contra Sauron, eles foram condenados a esperar como espíritos assombrados nas Ered Nimrais até que o Herdeiro de Isildur os chamasse para cumprir seu juramento. Como um descendente de Lúthien, Isildur talvez possuísse o poder para amaldiçoar os homens, mas ele estava transgredindo a ordem natural das coisas. Espíritos masculinos supostamente não podem permanecer na Terra Média. Um poder maior, então, deve ter aprovado as palavras de Isildur, ou talvez mesmo as concedido ao rei. E apenas Ilúvatar possuía o poder e autoridade para alterar o destino dos Homens. Legolas então sabe que esses espíritos não eram perigo para ele – eles eram desprovidos de força para recusar seu próprio destino, diferentemente dos Elfos.
 
Apesar de tudo, interação com os mortos, ou com os sem lar, encheu os homens de temor e maus presságios, e até mesmo Aragorn, que como Herdeiro de Isildur possuía o direito e talvez até mesmo a obrigação de comandar os Homens Mortos para cumprir seu antigo juramento, foi relutante. De todas as magias encontradas na Terra Média, esta chega mais perto de contrariar a ordem natural definida por Ilúvatar.
O que podemos então concluir? Que Tolkien usou a palavra “magia” para descrever ações que não eram naturais para Homens Mortais, mas que eram porém naturais ou dentro do escopo das habilidades naturais dos Ainur e dos Elfos. A Magia da Terra Média era uma expressão da vontade dos praticantes da mesma, de seus desejos artísticos. Era uma espada de duas lâminas, e cada invocação poderia ser usada para o bem ou para o mau. A diferença entre magia “boa” e “má”, então, era muitas vezes o motivo. Apenas a comunicação com os mortos foi proibida, e mesmo assim essa convenção foi transgredida para um bem maior. Elfos e Anões da mesma forma possuíam talentos especiais mas os Elfos demonstravam maior ambição ou aptidão. Talvez nas escuras cavernas os Anões produzir artefatos poderosos que nunca viram a luz do dia, mas desta maneira seus feitos não podem ser avaliados, e eles pareciam possuir um dom menor.
 
Mas dos Ainur, Elfos e Anões a mágica descendeu para os Homens de diversas maneiras e seus desejos foram inflamados. Pode ser que a grande tecnologia desenvolvida (e perdida) pelos Númenoreanos  durante a Segunda Era em algumas maneiras represente uma tentativa de rivalizar a magia Élfica. Mas os Dúnedain da Terceira Era reteram apenas uma sombra desse conhecimento perdido. Os Homens roubaram os Anões procurando tesouros e talvez mais, mas no fim foram forçados a trocar por bugigangas e brinquedos. E com cada fracasso e atraso, cada derrota e derrota e tragédia, os Anões esqueceram um pouco mais que seu conhecimento antigo, especialmente conhecimentos e habilidades.
Se os Elfos sozinhos reteram seu grande poder e conhecimento antigo, seus números diminuíam a cada barco que estendeu vela aos Mares. Século a século a Terra Média perdiam um pouco mais dos encantamentos dos dias Élficos. Os ecos das poderosas magias de outrora chega à nós através dos mitos e lendas dos Homens que apenas vagamente e imprecisamente lembram o que se foi antigamente. A Ciência e a tecnologia representam o que os cientistas podem estudar e o que os tecnólogos podem construir, e se eles não podem ver o invisível, ou cantar à existência alguma beleza, então eles não possuem arte nem técnica para estudar, e então lança um olho cético para o que uma vez foi um aspecto natural do seu mundo. 
 

 
 
 
 

Gil-galad era um Rei Elfo

E isso é tudo em que concordamos.

A ascendência de Gil-Galad ainda não se transformou num tópico central entre os fãs de Tolkien, mas o tempo dirá se acontecer. Mesmo tendo pouca informação sobre o mais famoso dos reis noldorianos, há pessoas que acharam motivos para escrever grandes artigos sobre ele [e eu não sou exceção].

 

Quem foi o pai de Gil-galad, Fingon ou Orodreth? J.R.R. Tolkien diz Orodreth, mas milhões de fãs parecem discordar dele. Afinal o Silmarillion diz que foi o Fingon. “Que Gil-galad foi filho de Fingon [The Silmarillion] vem de uma nota escrita a lápis no manuscrito dos Anais Cinzentos [Grey Annals $157],” nos conta Christopher Tolkien na Guerra das Jóias [The War of the Jewels], “dizendo que quando Fingon se tornou rei dos Noldor na ocasião da morte de Fingolfin ‘seu jovem filho [?Findor] [sic] Gilgalad ele mandou para os Portos.’ Mas isso, adotado depois de muita hesitação, certamente foi uma das muitas especulações de meu pai.

Essa dica tentadora incendiou um dos primeiros debates sobre Gil-galad. Se Fingon não era seu pai, e Finrod Felagund não podia ser [discussões anteriores mostraram que esta idéia fora abandonada] quem foi então o pai do Gil-galad? Algumas pessoas ficam firmes com O Silmarillion, dizendo que tem que ser verdade, pois foi fielmente produzido por Christopher Tolkien de acordo com os desejos de seu pai. Mas isso não é verdade.

Em outro lugar na Guerra das Jóias [The War of the Jewels], e em vários outros volumes dos The History of Middle-earth, Christopher mostra aonde ele desviou da visão de seu pai [na maior parte devido a uma pesquisa insuficiente, pois ele estava trabalhando sob pressão e não tinha tido acesso a todos os papéis de seu pai]. Em particular ele cita a “Ruína de Doriath”[The Ruin of Doriath]:

Ter incluído [“As andanças de Hurin” em O Silmarillion], assim me pareceu, implicaria numa grande redução, realmente uma inteira remontagem de uma maneira que eu não queria fazer; e já que a história é intrincada eu tinha medo que isso produziria um confuso entrelaçamento na narrativa sem nenhuma sutileza, e por cima de tudo iria diminuir a figura temerosa do velho homem, o grande herói, Thalion, o inabalável, indo de encontro aos propósitos de Morgoth, como ele estava destinado a fazer. Mas me parece agora, muitos anos depois, ter havido muita manipulação com o pensamento e intenção de meu pai: portanto levantando a questão de que se fazer um Silmarillion unificado tenha sido válido.

Numa outra explicação de como “A Ruína de Doriath” foi escrito mais tarde no livro, Christopher diz:

Essa estória não foi facilmente ou apressadamente concebida, mas foi o resultado de uma longa experimentação entre concepções alternativas. Nesse trabalho Guy Kay teve uma grande participação, e o capítulo que eu finalmente escrevi, se deve a muitas discussões com ele. É, e foi, óbvio que um passo estava sendo tomado de uma diferente ordem de qualquer outra ‘manipulação’ da própria escrita de meu pai no decorrer do livro: mesmo no caso a estória da queda de Gondolin, que meu pai nunca retomou, alguma coisa podia ser feita sem introduzir mudanças radicais na estória da Ruína de Doriath do jeito que estava e que era radicalmente incompatível com ‘O Silmarillion’ como projetado, e que havia uma escolha inescapável: ou abandonar esta concepção, ou alterar a estória. Eu acho que foi uma opinião errada, e que as indubitáveis dificuldades poderiam, e deveriam ser tratadas sem ultrapassar a barreira da função editorial.

Essa repudiação de sua mais significativa contribuição ao O Silmarillion mostra que Christopher Tolkien não o apresenta como um trabalho final e fiel. Isso é, ele nunca teve a intenção de que O Silmarillion publicado representasse a visão de seu pai. Ele tomou cuidado no próprio prefácio, dizendo que:

…a tentativa de apresentar, num único volume, a diversidade de materiais – revelar O Silmarillion de fato como uma criação contínua e em evolução, que se estendeu por mais de cinqüenta anos- levaria na realidade apenas à confusão e ao obscurecimento daquilo que é essencial. Propus-me, por isso, elaborar um texto único, selecionando e organizando trechos de tal modo que me parecessem produzir a narrativa mais coerente de maior consistência interna….Não se pode aspirar a uma harmonia perfeita…e ela somente poderia ser alcançada, se fosse possível, a um custo muito elevado e desnecessário…

Temos portanto, um sólido motivo, dado pelo próprio Christopher Tolkien, para questionar a validade de qualquer afirmação em O Silmarillion. Mas é claro que não se deve dizer que tudo que está no livro seja não confiável. Mas, já que temos ao nosso dispor o material base para nosso próprio estudo, podemos determinar [especialmente com ajuda deste comentário explícito do Christopher] em que partes a estória original foi alterada ou não, e porque.

No caso da filiação de Gil-galad nós temos uma maior afirmação de Christopher que aquele acima. No The Peoples of Middle-Earth ele dedicou um pequeno comentário sobre a filiação de Gil-galad nas paginas 349-51. Parece que a verdadeira genealogia de Gil-galad o coloca como sendo filho de Orodreth, que era filho de Angrod, e não um dos filhos de Finarfin.

Não deve haver dúvidas que esta era a palavra final de meu pai sobre este assunto”, Christopher nos conta. Sua última declaração diz: “Uma análise mais profunda deste material extremamente complexo do que fiz há vinte anos atrás mostra claramente que Gil-galad como filho de Fingon [veja XI.56,243] era uma idéia efêmera.

Que revelação! Dizer que Gil-galad como filho de Fingon era “uma idéia efêmera” acende as chamas da controvérsia imediatamente. Pessoas tem argumentado anos após anos qual deveria ser a filiação de Gil-galad. E ainda temos do Christopher Tolkien que não pode haver dúvida sobre quem era seu pai: ele era filho de Orodreth.

Ainda mais, Christopher admite ter mudado o nome de Gil-galad no texto da carta publicada como parte de “Aldarion e Erendis” nos Contos Inacabados [Unfinished Tales]. Onde o livro mostra “ Ereinion Gil-galad filho de Fingon”. JRRT havia realmente escrito “Finellach Gil-galad da Casa de Finarfin”. Numa outra passagem da estória Christopher também mudou “Rei Finellach Gil-galad de Lindon” para “Rei Gil-galad de
Lindon
”.

Então porque as pessoas continuam a duvidar da palavra de Christopher Tolkien, o homem que publicou O Silmarillion, onde ele admite que queria manter um “texto único”, e foi quem selecionou e arranjou o material para produzir uma narrativa consistente e coerente [um objetivo que ele não atingiu totalmente, pela sua própria admissão]? Eu acho que responder esta questão requereria uma análise que beiraria a uma dissertação. A recusa para aceitar as afirmações de Christopher Tolkien em várias questões é um fenômeno sociológico.

Mas podemos examinar Gil-galad no contexto da estória correta e determinar algumas coisas sobre seu caráter que nunca foram revelados em O Silmarillion. Isto é, podemos deduzir alguma coisa da sua estória pessoal.

Orodreth provavelmente nasceu em Valinor. Sua mãe foi Eldalôtë, uma dama Noldorin cujo nome foi facilmente convertido para o Sindarin Edhellos. Quando Finrod construiu a cidade secreta de Nargothrond, ele reinava sobre Tol Sirion e as terras anexas a Angrod, enquanto Aegnor reteve comando sobre os altos de Dorthonion que cobriam Ard-galen. Isso contradiz tudo que nos foi contado em O Silmarillion, claro.

Quando a Dagor Bragollach irrompeu e os Noldor foram derrotados, Finrod apressou-se para o norte para trazer reforço para seus irmãos, mas ele chegou muito tarde. O povo de Aegnor foi conquistado, e apesar do povo de Angrod se agüentar em Tol Sirion por algum tempo, o próprio Angrod foi finalmente morto e Orodreth afastou-se da ilha, fugindo para Nargothrond. Ele levou com ele sua esposa, uma dama Sindarin das terras do norte, e seu filho [Rodnor Gil-galad] e filha [Finduilas].

Gil-galad não ficou em Nargothrond por muito tempo. Ele teria ficado lá no mínimo até cerca do ano 455 [o ano da Dagor Bragollach], e Christopher cita uma nota de seu pai que diz que “Gil-galad escapou e finalmente chegou nas Quedas do Sirion e foi Rei dos Noldor lá” . Sua escapada deve ter sido por causa da destruição de Nargothrond, que ocorreu no ano de 495.

Durante estes 40 anos não sabemos nada sobre Gil-galad, mas podemos supor que ele deve ter estado presente no grande debate quando Beren pediu a ajuda de Finrod na questão do Silmaril. Ele, claro, não foi um dos doze lordes fiéis que acompanharam Finrod em sua missão, mas presumivelmente Gil-galad deve tê-lo achado muito novo ou muito importante para fazer parte desta missão [de fato, ele nem havia sido concebido no pensamento de Tolkien quando a versão inteira da estória de Beren foi escrita nos anos 30]. Gil-galad não marchou com a companhia de Gwindor para a Nirnaeth Arnoediad, e ele não parece ter sido um dos soldados no exército de Orodreth que foi derrotado pelo exército de Glaurung na Batalha de Tumhalad.

Faria sentido para Orodreth deixar Gil-galad para trás para defender Nargothrond. Gil-galad devia estar chegando somente na sua completa maturidade. E Orodreth era um governante cauteloso, somente concordando devido a pressão de Turin e a impaciência dos lordes Noldorin que favoreciam a opinião de Turin de abandonar a política de defesa secreta de Nargothrond.

Portanto quando Glaurung veio contra a cidade e seus defensores se mostraram poucos e fracos diante do dragão, o jovem príncipe deve ter sido separado da família. Nós não sabemos o destino de sua mãe, talvez ela tenha sido morta ou feita prisioneira, mas Finduilas foi capturada e levada com as outras elfas para Brethil pelos Orcs. Lá ela foi mortalmente ferida apesar dos melhores esforços dos homens da floresta para libertar os cativos.

Indo para o sul Gil-galad chegou nas Quedas do Sirion. A comunidade de Elfos e Homens que mais tarde fundariam o reino de Arvernien sob Earendil ainda não existia, mas vários Noldor [e Sindar] haviam fugido para o sul há anos,esperando se juntar a Cirdan, cujo povo havia abandonado o Falas depois do Nirnaeth Arnoediad em 473 e fugido para a Ilha de Balar. Annael, chefe do grupo de Sindar que criou Tuor, finalmente chegou nas Quedas do Sirion.

Então Gil-galad estabeleceu uma comunidade de Elfos lá, ou fundou uma e foi considerado seu líder. Essa comunidade, entretanto, deve ter-se mudado para Balar, provavelmente a convite de Cirdan, assegurando assim que a Casa de Finwë sobreviveria.

Gil-galad era nessa época apenas um rei dos Noldor, não seu Alto Rei. O Alto Reinado havia passado na morte de Fingon para o seu irmão Turgon, e agora nós sabemos porque . Fingon não tinha filhos, e o seu reinado foi então para o seu parente masculino mais próximo da linha de descendência de Finwë. Quando Gondolin foi destruída no ano de 510, e Turgon morto, o Alto Reinado passou para a Casa de Finarfin, da qual o último descendente masculino era Gil-galad.

Durante o resto da Primeira Era Gil-galad ficou em Balar. Ele e Maedhros eram os últimos reis Noldorin a viver em Beleriand, mas parece que Gil-galad nunca encontrou Maedhros. Ele teria conhecido Celebrimbor, o filho de Curufin, que ficou em Nargothrond depois de Celegorm e Curufin serem banidos por Orodreth. Celebrimbor não era um rei, e não tinha reino para herdar, apesar de ele tecnicamente ter se tornado o líder dos Fëanorianos quando da morte de Maedhros e da partida de Maglor.

Quando a Guerra da Ira terminou e as Hostes de Valinor voltaram para o Oeste, muitos dos Noldor e Sindar de Beleriand foram com eles. Os poucos Finwëanos que ficaram [Gil-galad, Celebrimbor, e Galadriel] junto com os lordes chefes dos Sindar [Celeborn and Cirdan] decidiram ficar na Terra-média. A história de Galadriel é muito confusa, mas parece que ela partiu de Nargothrond um pouco antes de 495 [provavelmente antes da Nirnaeth em 473]. Então ela e Celeborn devem ter vindo para o oeste quando Eonwë chamou todos os Elfos da Terra-média para velejar pelo Mar.

No The Road Goes Ever On J.R.R. Tolkien escreve que Galadriel “era a última sobrevivente dos príncipes e rainhas que haviam liderado os Noldor que se revoltaram para se exilar na Terra-média. Depois da queda de Morgoth no fim da Primeira Era, uma proibição foi posto sobre seu retorno e ela respondeu orgulhosamente que ela não desejava fazê-lo. Ela foi pelas montanhas com seu marido Celeborn [um dos Sindar] e foi para Eregion….

A posição de Galadriel entre os lordes Eldarin da Terra-média era bem única, e parece que ela nunca se enquadrou bem no reinado de Gil-galad. Numa outra estória, publicada nos Contos Inacabados [Unfinished Tales], Galadriel e Celeborn primeiro se fixaram em Eriador perto do Lago Evendim no começo da Segunda Era, e lá eles foram reconhecidos os governantes dos Elfos em Eriador. Mesmo assim, O Senhor dos Anéis nos conta que Celeborn era vassalo de Gil-galad em Harlindon por um tempo depois que o Reino de Lindon foi estabelecido.

Elrond, escolhendo ficar com os Elfos,se transformou num conselheiro e era aparentemente um amigo chegado de Gil-galad. Seu pedigree com certeza assegurou a Elrond um alto lugar no novo reino dos Elfos. Nascido entre os sobreviventes de Gondolin e Doriath, um descenden
te de Turgon e Thingol, Elrond foi capturado enquanto era ainda uma criança com os Fëanorianos, e ele e seu irmão Elros foram criados por Maglor.Assim Elrond desenvolveu uma relação especial com os Fëanorianos.

O reino de Gil-galad deve, no início deve ter tido Elfos de todas as partes da antiga Beleriand: sobreviventes de Falas e Hithlum, sobreviventes de Nargothrond, sobreviventes de Gondolin e Doriath, Fëanorianos, e provavelmente mesmo uns poucos Laegrim de Ossiriand e o que teria sobrado dos Avari que teriam alcançado Beleriand. Apesar de supostamente tudo ter sido perdoado entre os Elfos, aparentemente eles não conseguiam por de lado velhas mágoas. Os Doriathrim aparentemente teriam aceitado o governo de Gil-galad no começo mas foram eles [aparentemente] que lideraram a grande migração dos Sindar para longe de Lindon.

Os Sindar começaram a migrar na direção leste no começo da Segunda Era, mas nós não sabemos quando. E os seus primeiros grupos podem ter se fixado a oeste de Eriador. A pressão populacional pode ter sido parte da razão de eles ter deixado Lindon. Os Elfos continuaram a ter famílias durante a Segunda e Terceira Era. Mas pode ser também que Gil-galad foi suficientemente influenciado por políticas dos Noldorin para que os Sindar tenham sentido que seu reino não era para eles. Cirdan e os Falathrim tinham sempre sido amigos dos Noldor, e tinham assumido alguns usos e costumes dos Noldor em Beleriand [Finrod ajudou a reconstruir suas cidades por exemplo]. Os Sindar de Hithlum e Nargorthrond também poderiam ter sofrido a influência dos Noldor.

Foram os Sindar de Doriath que eram os mais relutantes em adotar os costumes e a cultura Noldorin. E também eles teriam muita dificuldade para esquecer velhas mágoas, tendo combatido os Fëanorianos diretamente não uma mas duas vezes. Virtualmente todas as mágoas dos Sindar sobre suas perdas poderiam ter sido obra dos Noldor, se fosse para acusar alguém. Portanto a sua migração para o leste era provavelmente também o resultado de alguma antipatia em relação aos Fëanorianos.

A primeira fase da migração Sindarin foi provavelmente completada na época em que os Numenoreanos alcançaram a Terra-média e começaram a visitar Lindon. Nessa época o porto de Edhellond havia sido estabelecido mais para o sul e vários Sindar haviam se fixado entre os Nandor e Avari de Eriador. O povo de Gil-galad manteve o contato com os Elfos de Eriador, e tinha entrado em contato com os povos Edain que ainda viviam lá também. Esses Homens mandaram doze de seus líderes para se encontrar com Vëantur e seus Numenoreanos depois de solicitarem a Gil-galad um encontro.

Então, no momento que o seu reino parecia se esfacelar, Gil-galad foi colocado no palco da história por Numenor. E Sauron começava a atuar na Terra-média mais uma vez. Rumores chegaram aos ouvidos de Gil-galad de um poder distante que não era amigo dos Homens e Elfos. Ele não sabia nada com certeza, mas suas duvidas e preocupações gradualmente aumentaram. Quando o jovem príncipe Anardil [mais tarde Tar-Aldarion] começou a se aventurar na Terra-média, Gil-galad ficou seu amigo, e o príncipe Numenoreano fez várias viagens a mando de Gil-galad visitando os Homens pelas terras norte e oeste da Terra-média.

Gil-galad parece ter feito uma política de estabelecer relações mais próximas com Homens. Talvez ele só estava interessado em Homens de descendência Edainica, já que os Elfos não confiavam em Homens de outros tipos. Mas os povos Edainicos haviam se espalhados há tempos. Eles podiam ser encontrados tão longe quanto as Quedas de Sirion e tão ao leste como o rio Carnen e as Montanhas de Ferro.

O estabelecimento do reino Noldorin pode também refletir em parte a política de Gil-galad. Apesar de Eregion agir por conta própria, Gil-galad não abandonou o povo de Eregion durante a Guerra dos Elfos e Sauron. E ele pode ter sido decisivo na hora de decidir que os Noldor estabelecessem uma colônia perto de Khazad-dum para ter acesso ao mithril. Nesse sentido a civilização élfica teria controle assegurado sobre as rotas de comércio Eriadoriano.

Quando Sauron começou a se aproximar dos reinos dos Elfos disfarçado de Annatar, O Senhor dos Presentes, sondando-os em relação ao seu destino de um dia desvanecerem, Gil-galad e Elrond suspeitaram de seus motivos e se recusaram a tratar com ele. Annatar/Sauron não foi admitido em Lindon, e ele virou sua atenção para Eregion. Lá Celebrimbor, senhor de Gwaith-i-Mirdain, ouviu Annatar, e ele sonhou em transformar a Terra-média num paraíso élfico como Valinor.Os Elfos tinham um problema real em que eles tinham que lidar com a própria morte: o desvanecimento. Eles perderiam seus corpos. Seus espíritos ficariam conscientes, mas incapazes de interagir com o mundo.

Gil-galad claramente entendia este problema como qualquer um. Mas ele fez a escolha correta de não mexer com a natureza. Os Elfos viviam com a vida de Arda. Isto é, seus espíritos não abandonariam os círculos do mundo como os espíritos humanos. Por isso para eles “vida” não era simplesmente uma função biológica mas também uma vida espiritual. Eles se perguntavam se seus espíritos continuariam a existir após a existência do Tempo. Eles achavam que Homens tinham sua vida continuada assegurada, e não se preocupavam tanto assim com a morte do corpo como os Homens. Assim Gil-galad não queria evitar os efeitos do Tempo.

Mas ainda assim, quando os Anéis do Poder foram feitos, e Sauron se revelou à aqueles que fizeram os Anéis quando ele pôs o Um Anel, os Elfos não conseguiam se obrigar a destruir os Anéis. Celebrimbor deu dois dos maiores anéis para Gil-galad, e Gil-galad também não pôde destruí-los. Porque? Era porque ele achava que não havia sentido em desfazer o que havia sido feito? Teria prejudicado severamente a Celebrimbor, aquele que fez os Três, para os anéis serem destruídos? Ou tinha Gil-galad achado alguma razão para mudar de idéia após séculos rejeitando os avanços de Annatar?

Os Três Anéis agiram nos reinos élficos mesmo quando ninguém os usava durante o resto da Segunda Era. Tolkien escreveu que eles ainda conteriam os efeitos do Tempo , assim os Elfos estavam assegurados que não desvaneceriam enquanto os Anéis do Poder existissem. A política de Gil-galad tornou-se então mais manipulativa. Quando ele teve certeza que Sauron iria invadir Eriador, Gil-galad solicitou a Numenor ajuda para defender os Elfos e Homens que viviam lá. Mas ele não contou aos Numenoreanos sobre o quê era a guerra. Somente se pode imaginar os argumentos usados nos altos conselhos élficos antes que houvesse a chamada às armas. Era justo omitir informação vital dos Homens que iriam arriscar suas vidas a favor dos Elfos, que queriam manipular a natureza?

Quando a guerra finalmente chegou Numenor ficou junto ao reino élfico, sem dúvida pela anti
ga amizade, e porque qualquer um que conhecia as antigas lendas e histórias das Guerras de Beleriand sabia que Sauron era do mal. Que ele estivesse usando Orcs e Trolls nos seus exércitos, e que os Gwathuirim com quem os Numenoreanos tinham tido problemas se aliaram a Sauron, simplesmente encorajaria a crença de que era certo apoiar o povo élfico. Esta questão se transformou em questão de sobrevivência para todos os Elfos e Homens. Os Anéis do Poder estavam escondidos de Numenor como também de Sauron, e seu segredo permaneceria por séculos.

Gil-galad pode ter achado acertado a sua decisão de não contar tudo aos seus aliados nos séculos que se seguiram após a guerra. Sauron foi derrotado e enviado para Mordor, e seu poder para ameaçar Eriador foi diminuído. Ele voltou sua atenção para as terras à leste da Terra-média, onde ele decidiu que ele poderia construir um grande império capaz de ameaçar Numenor e Gil-galad. Mas lá por volta do ano de 1800 os Numenoreanos começaram a mudar seu comportamento. A Guerra dos Elfos e Sauron haviam lhes mostrado a sua força, e essa força foi agora usada para dominar e escravizar outros Homens, ao invés de ajudá-los.

Seria perigoso revelar a existência dos Anéis do Poder para essa nova Numenor, pois logo os Dunedain começaram a questionar o seu destino, e a querer o tempo de vida dos Elfos. Quanto disso chegou aos ouvidos de Gil-galad só podemos supor, mas depois os Numenoreanos se dividiram entre os acampamentos dos fiéis e os homens dos Reis , e somente os fiéis continuaram a se fixar ou a visitar o noroeste da Terra-média, deve ter sido óbvio que os Reis de Numenor tinham se colocado num caminho de auto destruição.

Por seu lado Gil-galad tinha seus problemas. Vários Eldar deixaram a Terra-média depois da Guerra dos Elfos e Sauron. Provavelmente pareceu ser uma questão de tempo antes de Sauron crescer suficiente em seu poder para de novo desafiar Gil-galad e os Numenoreanos. Assim o poder de Gil-galad diminuiu e os Elfos permaneceram sob ataque constante mesmo durante os séculos em que a atenção de Sauron se voltava para o leste. Quando os Numenoreanos começaram a conquistar porções da Terra-média eles finalmente entraram em conflito com o reino de Sauron. As guerras de conquista poderiam retirar um pouco da pressão sobre os Elfos, mas seus Dias de Fuga parecem ter continuado até a decisão fatal de Ar-Pharazon de arrancar o controle sobre a Terra-média de Sauron.

Tecnicamente, Numenor poderiam ainda estar aliada de alguma maneira com os Elfos. Pelargir, o pátio real dos barcos [essencialmente uma base naval], tinha sido fundada perto das Quedas do Anduin em 2350. Apesar de ter sido transformado no porto sul pelos Numenoreanos fiéis,o nome da cidade implica que foi construída com a sanção real, e pode ter servido como base de operações nos conflitos com o reino de Sauron. O poder reunido pelos Numenoreanos em Pelargir através dos séculos pode ter servido para desafiar e provocar Sauron, embora Mordor na época tivesse sido mais um posto avançado do império de Sauron do que seu centro.

Gil-galad não tomou nenhuma atitude quando Ar-Pharazon trouxe uma armada para a Terra-média. Umbar, onde Ar-Pharazon aportou, era provavelmente muito ao sul para Gil-galad marchar ou velejar, e Ar-Pharazon muito provavelmente não queria nenhuma ajuda élfica mesmo. Ele veio para reinvindicar seu lugar como o Rei dos Homens, e nenhum Elfo seria necessário para ele afirmar a sua autoridade. De qualquer modo, o exército de Ar-Pharazon era tão grande que os aliados de Sauron o abandonaram. O Um Anel deixou Sauron na mão de novo. Então Sauron deixou Mordor e se entregou a Ar-Pharazon, permitindo que o rei o levasse para Numenor.

A partida de Sauron parece ter acabado de vez com as guerras com os Elfos. No decorrer dos 57 anos seguintes Gil-galad foi capaz de extender a sua influência pela parte norte do mundo, mesmo nos altos Vales do Anduin. Quando Elendil e seus filhos trouxeram nove barcos com sobreviventes do disastre de Numenor à Terra-média em 3319, Gil-galad ficou amigo deles e ajudou-os a estabelecer os reinos de Arnor e Gondor. O rei Elfo construiu três torres de onde se avistavam o Golfo de Lune para Elendil, e esses podem ter sido a primeira morada do rei de Dunadan na Terra-média. Mas apesar de ele ter cedido bastante autoridade a Elendil sobre Eriador, Gil-galad ainda nada disse [parece] sobre os Anéis do Poder.

Não seria até o ano de 3429, quando o Sauron reconstituído sentiu-se forte o suficiente para atacar Gondor, que Gil-galad se sentiu confrontado com o dilema moral dos Anéis. Ele guardou Narya e Vilya por mais de 1,000 anos. Nem ele nem nenhum outro Elfo havia usado os Anéis naquela época. Eles não se atreviam. Mas eles ainda se beneficiavam com a habilidade dos Anéis de inibir os efeitos do Tempo. Deve ter ficado óbvio para Gil-galad que os Elfos somente adiaram a inevitável decisão de destruir os Anéis. Ele pode não ter se convencido da necessidade de fazê-lo, ou que eles falhariam se o Um anel fosse desfeito, mas enquanto Sauron permanecesse uma ameaça aos Homens e Elfos não havia esperança dos Elfos alguma vez realizar o benefício integral dos Anéis dos quais eles tinham controle.

Então parece que Gil-galad revelou tudo para Elendil e seus filhos. Agora finalmente os Elfos confessaram seus pecados e eles resolveram junto com os Dunedain para embarcar na guerra final contra Sauron que teria resultado na sua completa derrota. Eles tinham o poderio militar para alcançar esse objetivo. O Povo de Gil-galad tinha crescido em número de novo, mas ele também tinha estabelecido relações com os povos dos Vales do Anduin, incluindo os bem mais numerosos Silvan Elfos governados por Oropher e Amdir. Elfo, Homem, e Anão se juntaram com um propósito comum e eles organizaram o maior exército da army Terra-média desde o fim da Primeira Era.

Mas os argumentos persuasivos de Gil-galad não devem tê-lo agraciado com Oropher, que como um Elfo Doriathrin era não simpatizante dos Noldor. Deve-se provavelmente a relação de Gil-galad com Thingol e a necessidade urgente de se fazer algo contra Sauron, que havia destruído as terras ao leste das Montanhas Nebulosas como as de Eriador, que fez com que Oropher se aliasse a Gil-galad. Oropher ainda assim recusou a marchar sob a bandeira de Gil-galad.

Levou três anos para Gil-galad e Elendil prepararem seus exércitos. Eles tinham que recrutar e treinar seus soldados,e aparentemente construir armas e armaduras. Mas eles devem ter gasto um tempo considerável preparando uma estratégia: pesquisar o terreno, testar as defesas de Sauron, talvez mandar reforços para Gondor para assegurar que Anarion não fosse sobrepujado. Deve ter havido considerável debate sobre como atacar Sauron. Deveria uma força do norte atacar Mordor enquanto o exército principal cruzava as montanhas, ou o ataque principal deveria vir do norte?

Em 3431 Gil-galad e Elendil cruzaram as Montanhas Nebulosas e marcharam para o sul. Em algum ponto eles se juntaram às forças de Khazad-du
m, Lorien, e Greenwood. A estratégia que eles selecionaram era ir direto para Mordor. Deve ter sido necessário escolher esse caminho por várias razões ,uma das principais sendo que seus exércitos eram grandes de mais para serem trasportados até Gondor facilmente. Mas Sauron parece ter aumentado suas defesas nos altos dos Vales de Anduin, tal que Lorien e Greenwood foram diretamente ameaçadas.Esse ataque de Gil-galad teria libertado esses reinos de perigo imediato.

A primeira maior batalha ocorreu nas terra ao sul de Greenwood onde as Entesposas haviam construído seus jardins. Nunca se soube o destino das Entesposas, apesar de que elas possam ter sido destruídas quando Sauron incendiou suas terras para evitar que a Última Aliança conseguisse ajuda de lá. As Entesposas poderiam no mínimo ter providenciado suprimentos para a Última Aliança. Sauron retrocedeu para o sul e a Última Aliança o seguiu. Eles alcançaram seu exército em Dagorlad, e lá inflingiram uma severa derrota a Sauron. Mas Amdir e o exército Lorien foram isolados nos Dead Marshes, e mais da metade dos Silvan Elfos de Lorien morreram. Gil-galad pode ter sido influenciado por essas perdas devastadoras pelo povo de Amdir"s people to hold up.

A Última Aliança posicionou suas forças na entrada norte de Mordor [onde ficaria o Morannon mais tarde], mas Gil-galad não conseguiu segurar Oropher, que lançou um assalto contra as defesas de Sauron prematuramente. Tolkien não diz como foi a batalha, mas Gil-galad muito provavelmente fez o mesmo que Fingon milhares de anos antes no Nirnaeth Arnoediad. Ele deve ter posto seu elmo e entrou na batalha na cola do ataque de Oropher , tarde demais para salvar Oropher, que morreu cedo. A Última Aliança ganhou o dia, entretanto, e abriu caminho para Mordor.

O que sobrou das forças de Sauron neste momento deve ter corrido ou sido aniquilado, e Sauron foi confinado a Barad-dur.Agora Gil-galad voltou a manter a política antiga dos elfos de cercar o lorde negro em sua fortaleza. Gil-galad tomou posiçao em Orodruin, perto do Sammath Naur onde o Um anel foi forjado. Gil-galad poderia ter destruído os Três Anéis então, talvez, mas ele preferiu não fazê-lo ou então os Anéis não foram levados para a guerra. Ele deve ter fortificado a montanha, entretanto.As notas apontam várias manobras durante os sete anos, e depois de seis anos de cerco Sauron ainda era capaz de arremessar pedras para fora de Barad-dur, pois Anarion foi morto naquele ano por uma daquelas pedras.

A estratégia de Gil-galad mudou radicalmente. A Última Aliança não mais tentava subjugar Sauron pela força, e a guerra se arrastava. Eles somente esperavam diminuir as forças de Sauron através de atritos para que no fim Sauron capitulasse. Mas Sauron ficou tão desesperado que ele formou um plano diferente. Ele procurou Gil-galad em Orodruin e o atacou diretamente. Elrond conta as pessoas em Rivendell que somente Elendil ficou junto a Gil-galad e que somente ele [Elrond], Cirdan, e Isildur viu o que aconteceu.O corpo de Sauron era tão quente que queimou Gil-galad, e matou-o, mas Elendil correu e conseguiu dar um golpe mortal contra Sauron. O Lorde Negro foi capaz ainda de reagir , e jogou Elendil no chão. E a espada de Elendil quebrou debaixo dele.

A estratégia final contra Sauron funcionou, mas provavelmente não como Gil-galad esperava. Será que ele queria realmente combater Sauron sozinho? Ele parece ter sido um rei cauteloso durante sua carreira. Para preparar para a Guerra dos Elfos e Sauron Gil-galad aumentou suas defesas ao longo do rio Baranduin. Ele deu a Elrond o comando de um pequeno exército para reforçar Eregion mas foi obrigado a retroceder para o norte. Sauron forçou seu caminho através do Baranduin e Gil-galad foi somente capaz de mater o Lune seguro contra ele. Portanto os recursos do Rei dos Elfos eram limitados e os limites desses rescursos devem ter ditado sua política.

Mas ele rapidamente ajudou Elendil a estabelecer o reino de Arnor, que se transformou no reino mais poderoso do norte. Porque era importante criar um grande reino de Homens? Era importante para Gil-galad preservar a grandeza de Numenor, ou era sua política de lidar com Homens através de Homens, uma decisão conservadora, talvez xenofóbica? Gil-galad não tinha problemas em lidar com povos Edainicos, mas qualquer outro tinha que ir através de seus representantes Nuemenoreanos.

A única vez que Gil-galad foi na ofensiva foi quando ele e Elendil formaram a Última Aliança de Elfos e Homens. Nesta época já devia ser óbvio que Sauron seria capaz de reconstruir seu poder com o Um Anel cada vez que alguém o derrotasse. O objetivo de Gil-galad deve ter sido achar e tomar Sauron prisioneiro, e de alguma maneira arrancar o Um Anel dele. Gil-galad pode não ter conhecido os segredos dos que fizeram os Anéis, mas ele deve ter sido capaz de aprender o suficiente para entender o verdadeiro perigo que o Um Anel representava. Devemos imaginar se Gil-galad teria usado os Três Anéis, ou permitido seu uso, se ele tivesse vivido e Isildur tivesse ainda assim tirado o Anel de Sauron. Prudencia teria aconselhado os Elfos a não usar os Anéis depois de Isildur ter sumido para o norte. Mas apesar de sábio, Elrond não seguiu o caminho da prudência.

Explorando a Quarta Era de Tolkien

Muitas pessoas têm curiosidade sobre o que teria se desenrolado se Tolkien tivesse continuado sua história. Desafortunadamente para os fãs curiosos, Tolkien achou que o encanto da Terra-média morreu com Aragorn. Após seu tempo "as dinastias descendentes de Aragorn tornaram-se apenas reis e governadores – como Denethor ou pior." [Tolkien, "Letters", p. 344].

 

Tolkien iniciou uma história situada na Quarta Era, cujo título era The New Shadow [A Nova Sombra]. Deveria ser uma continuação para O Senhor dos Anéis, mas ele abandonou o trabalho depois de algumas poucas páginas, sentindo que não existia mais nada a dizer que fosse fantástico e encantador. Não existia mais uma personificação do mal no mundo. Não existia mais um inimigo universal. Sauron e Melkor haviam sido ambos derrotados e tornados impotentes, então os Povos livres não estavam mais sob o risco de serem subjugados contra suas vontades, do mesmo modo que nenhum homem poderia dominar outros.

The New Shadow se passaria em Gondor, ou pelo menos começaria ali, na casa de Borlas, o filho mais novo de Beregond, o sentinela da Cidadela que se tornou Capitão da Companhia Branca, a guarda de Faramir, após a Guerra do Anel. Existe um problema em se datar a história; contudo, Tolkien originalmente a colocou 100 anos após a Queda de Sauron, ao início do reino de Eldarion, mas anos mais tarde mudou o tempo para 100 anos após a ascensão de Eldarion ao trono. Contudo, Tolkien manteve Borlas como personagem principal, e alguém pode perguntar porque ele fez isso. Borlas deveria estar com cerca de 200 anos, o que é um tempo inacreditavelmente longo mesmo para um Dúnadan viver, a menos que fosse descendente de Elros. Provavelmente Borlas teria se tornado o neto ou bisneto de Beregond.

Borlas estava preocupado com os rumores de um culto estranho e secreto que estava ganhando popularidade em Gondor. Tornara-se moda entre os jovens Gondorianos fingirem serem Orcs, tendo atitudes de Orcs [como destruir árvores sem razão aparente]. Mas agora os homens estavam sussurrando sobre um novo líder, Herumor [que significa "Senhor Negro" em Quenya], ao redor do qual um culto se formara [Tolkien o chamou de culto Satânico, e presumivelmente seria uma restauração da adoração a Melkor]. A história continua não muito além de Borlas recebendo uma carta de Saelon, um jovem que cresceu com o filho de Borlas, para que comparecesse a um encontro secreto [sem dúvida dos seguidores de Herumor]. Não fica claro se Saelon era um membro do culto tentando recrutar [ou assassinar] Borlas, ou se ele estava engajado em alguma campanha contra o culto e pedia a ajuda de Borlas.

Tolkien decidiu que poderia ter escrito um thriller sobre a descoberta e destruição do culto, que estaria planejando a queda de Eldarion. Mas tal história não o interessou, embora certamente pudesse ter interessado a seus vários leitores. Borlas poderia não ter continuado como personagem principal, mas ter sido o instrumento em iniciar ou catalisar quaisquer que fossem as contra-medidas que os seguidores de Eldarion pudessem vir a tomar contra o culto.

A Terra-média seria sem dúvida um lugar muito diferente do mundo descrito em O Senhor dos Anéis. Se nós assumirmos a última datação da história, cerca de 220 da Quarta Era, que permaneceu fixa, podemos deduzir algumas poucas coisas sobre o estado do mundo. Por exemplo, em The Peoples of Middle-earth nós aprendemos que Durin VII o rei dos Anões que estava destinado a restaurar os Anões barbalonga em Moria, seria provavelmente o filho de Thorin III Elmo-de-pedra, o filho de Dain II Pé-de-ferro. Thorin III nasceu em 2866 da Terceira Era e teria cerca de 153 anos quando seu pai morreu na Guerra do Anel. Thorin provavelmente não viveu até o final do reinado de Aragorn [embora Gimli, que nascera em 3879 da Terceira Era, viveu]. Portanto, Durin VII tornou-se Rei sob a Montanha por volta do ano 100 da Quarta Era.

Quando os Barbalonga retornaram a Moria? Talvez no início do reino de Durin, mas provavelmente não antes da morte de Aragorn. Sem dúvida o evento ocorreu antes do ano 172 da Quarta Era, quando Findegil fez a última anotação na Cópia do Thain do Livro Vermelho do Marco Ocidental. Então, a recuperação de Moria provavelmente aconteceu entre os anos 120 e 172. Tal evento pode ter resultado, talvez, na última guerra com Orcs antes do tempo de The New Shadow. Borlas, o idoso protagonista de The New Shadow, poderia ter percebido "o velho mal", que aparentemente era o mal representado pelos verdadeiros Orcs, antigos servos de Sauron, e outras criaturas. Talvez ele tivesse lutado contra essas criaturas em sua juventude.

De fato, em uma carta que Tolkien escreveu para um leitor em 1963, ele apontou sobre Faramir: como "Princípe de Ithilen, o mais nobre após Dol Amroth no revivido estado Numenoriano de Gondor, prestes a ter prestígio e poder imperiais, não era um "serviço de guarda de jardim"… até que muito tivesse feito pelo Rei restaurado, o Príncipe de Ithilien seria o guarda-limites de Gondor, em seu principal posto avançado do leste – e também tinha muita responsabilidade em reabilitar o território perdido, e em limpá-lo dos foras-da-lei e orcs remanescentes, isso sem citar o terrível vale de Minas Ithil [Morgul]" [Tolkien, "Letters", p. 323].

Embora Faramir provavelmente tenha completado a maioria das funções necessárias, senão todas elas, seus sucessores podem ter lutado contra os Orcs nas Ephel Duath, as Montanhas da Sombra. E pode ser que o Príncipe de Ithilien [Faramir ou seus sucessores] tenha comandado quaisquer forças expedicionárias enviadas para ajudar a livrar a área dos Orcs. Expedição semelhante pode ter sido feita aos Vales do Anduin, para auxiliar os Anões Barbalonga a limpar Moria. Borlas, como um oficial na Companhia Branca, teria sido um candidato ideal a membro em tal expedição. Embora Tolkien provavelmente teria alterado muito tal história, nós podemos supor que o jovem Borlas teria visitado Moria por volta do tempo no qual Findegil estava escrevendo a Cópia do Thain do Livro vermelho. Findegil pode ter tido conhecimento da intenção de Durin de retornar a Moria, mas o evento poderia não ter sido completamente concluído. Portanto, a informação no Livro vermelho é reduzida, mas ao tempo de The New Shadow seria uma antiga lembrança para o idoso Borlas.

Outra possível fonte para o antigo mal que Borlas reconheceu ao final do fragmento de The New Shadow poderiam ser os Espectros Tumulares. Estes eram criaturas malignas enviadas para habitar as antigas colinas de Tyrn Gorthad no noroeste de Cardolan após a Grande Praga ter destruído a maioria do povo de Cardolan. Tom Bombadil manteve vigilância sobre Tyrn Gosthad ao final da Terceira Era [ele expulsou um Espectro que havia capturado Frodo e seus companheiros], mas Gandalf lembrou no Conselho de Elrond que Bombadil apenas isolou a si mesmo, talvez, até
que existisse alguma mudança no mundo. A restauração do Reino de Arnor por Aragorn pode ter sido esta mudança.

Aragorn reconstruiu a antiga cidade de Annuminas ao norte do Condado, e visitou a região no ano 15 da Quarta Era. Gandalf contou ao Cervejeiro Carrapicho que, no devido tempo, muitas pessoas migrariam pela Estrada verde para recolonizar as antigas terras de Arnor. Aragorn parece ter se concentrado nas áreas norte primeiramente, mas a seu tempo Cardolan pode ter sido recolonizada também. Uma antiga tentativa durante o 19°. século da Terceira Era foi frustrada pelos Espectros, então Aragorn [ou Eldarion] provavelmente teria que lidar com eles em algum momento. Novamente, Borlas pode ter sido parte desta expedição.

E um Espectro faz certamente mais sentido para um culto Satânico do que a mera presença de orcs em Gondor. Sauron era associado com feitiçaria e necromancia, e era servido por muitos espíritos, não apenas os Nazgul. Embora os Nazgul tenham sido reduzidos à impotência quando o Um Anel foi destruído, os Espectros Tumulares e outros espíritos podem ter continuado a perturbar os vivos por muitos séculos ainda. Se Herumor e seus seguidores tivessem encontrado e envolvido-se com um Espectro, o terror que ele poderia exercer e o poder que ele possuiria seriam consideráveis.

O que era um Espectro? Tolkien na verdade não esclarece. Eles eram espíritos que originalmente vieram de Angmar e Rhudaur. No ano da Grande Praga [1636 da Terceira Era], Rhudaur havia sido abandonado há tempos, mas o povo das colinas que havia suplantado dos Dunedain em uma aliança secreta com Angmar praticava feitiçaria, e sem dúvida isto significa que eles invocavam e lidavam com espíritos ao serviço de Sauron. Os Espectros eram provavelmente estes espíritos, mas nós não sabemos que espíritos eles eram. É mais provável, pelos poderes exibidos pelo Espectro que capturou Frodo, que os espíritos fossem de elfos corrompidos [escravizados por Melkor na Primeira Era] ou Maiar menores, não tão poderoso quanto, digamos, um Balrog, nem mesmo como um Nazgul, mas mais poderoso que os espíritos dos Homens.

No Morgoth’s Ring, Christopher Tolkien publicou um ensaio de seu pai, onde J.R.R. Tolkien discutia o esvair-se dos Elfos. Após a derrota final de Melkor, Eonwe viajou por toda a Terra-média e novamente chamou todos os Elfos para que migrasse a Aman. Embora muitos recusassem, foram colocados sob a maldição dos Valar, de que deveriam se esvair e eventualmente tornar-se espíritos desincorporados se ao final não cruzassem o Mar. Este processo de esvair-se parece ter sido necessário para induzir os Elfos a deixarem a Terra-média, que estava em tempo de se tornar de posse dos Homens. Mas neste ensaio, Tolkien sugere que alguns Elfos se recusaram a deixar a Terra-média mesmo quando o esvair-se tornou-se inevitável, e a seu tempo se tornaram assombrações residindo em regiões que uma vez habitaram. Tais espíritos algumas vezes eram contatados por homens, através da feitiçaria ou necromancia, e eles poderiam até mesmo ter permitido a estes espírito possuí-los.

É concebível, portanto, que o culto Satânico tivesse alguma coisa a ver com a comunicação com Elfos que se esvaíram [assumindo que algum Elfos tivesse se esvaído a este tempo]. Por outro lado, Elfos podiam morrer por acidente ou na guerra, e quando isto acontecia, eles não precisavam responder ao chamado de Mandos se não desejassem eventualmente reencarnar. É dito que muitos dos Avari fizeram esta escolha, e o que era arriscado no tempo do reino de Melkor pode ter se tornado menos arriscado mais tarde. Então, alguns dos mais amargos e malignos Elfos poderiam ter permanecido na Terra-média após a morte, talvez envolvendo-se com o culto de Herumor.

A despeito da possibilidade de esvair-se, e a presença de espíritos Élficos, é mais provável que continuassem a existir alguns enclaves de Elfos na Terra-média ao tempo de The New Shadow. Legolas partiu cruzando o Mar quando Aragorn morreu, mas Tolkien não diz que todo seus povo partiu com ele. Alguns dos Elfos da Floresta podem ter permanecido em Ithilien por muitos anos. Thranduil parece ter permanecido satisfeito no norte de Greenwood [Mirkwood, que foi rebatizada após a Guerra do Anel]. O povo de Celeborn poderia ter permanecido muito tempo em Lórien Leste, o reino fundado por ele na parte sul da floresta, nas terras antes dominadas por Dol Guldur [que Galadriel e Celeborn derrotaram]. Celeborm foi viver em Valfenda com seus netos Elladan e Elrohir antes de finalmente partir através do Mar, e o ano de sua partida não é registrado. Então, poderiam existir alguns Elfos vivendo em Valfenda, e em Mithlond, embora alguns tenham sentido Círdan partindo com Elrond e Galadriel.

Dunland tornou-se parte de Rohan durante o reino de Éomer, talvez como conseqüência das ações dos Dunlendings na Guerra do Anel. Pode parecer estranho que os Rohirrim poderiam tentar coexistir com os Dunlendings, mas parece que eles compreenderam que teriam que aprender a viver juntos. Erkenbrand mostrou grande misericórdia para com os Dunlendings após a Batalha do Forte da Trombeta, e isto pode ter começado o processo de cura entre os dois povos, que tinham sido inimigos por mais de 500 anos.

As populações de Rohan e Dunland provavelmente se expandiram, e podem ter contribuído com muitos dos colonizadores que se fixaram em Eriador. Nós sabemos que o Condado se expandiu, pois colonizaram as Colinas das Torres e todo o Marco Ocidental, e é possível que toda a terra de Bree tenha experimentado um novo período de crescimento enquanto a atividade econômica aumentava, proporcionando tal ímpeto. Annuminas pode ter sido dependente do comércio com o Condado, mas se Fornost foi recolonizada Bree pode novamente ter se tornado um importante centro de comércio, notícias e viagens em Eriador.

O mundo de The New Shadow deveria ser mais abarrotado do que o mundo de O Senhor dos Anéis. Provavelmente existiriam menos Elfos perto do final do reinado de Eldarion, mas provavelmente existiam mais Anões. E Homens aumentariam e se expandiriam muito e amplamente, enquanto os Hobbits também prosperariam. Os planos de Herumor podem ter sido confinados às terras do sul, mas é mais provável para mim que Herumor estendesse sua influência tão distante e amplamente quanto possível. Mesmo os Hobbits do Marco Ocidental poderiam sentir algum traço de sua influência, mesmo que apenas em murmúrios medrosos comentassem a origem que não poderiam saber com certeza. Embora não houvesse grandes inimigos como Sauron para causar inquietação, a Quarta Era poderia, apesar de tudo, tornar-se um tempo perigoso para os Povos Livres novamente.

Tradução de Fábio Bettega

Antes dos Numenoreanos Virem

As coisas na Terra Média mudaram radicalmente como resultado da Guerra da Fúria. A Guerra durou cerca de 42 anos , começando no ano 545 da Primeira Era e terminando no ano 587. Durante esse tempo vastas áreas da Terra Média- Beleriand, as distantes terras setentrionais, o mar interior de Helcar – foram destruídas ou mudaram de forma. Em Morgoth`s Ring Cristopher Tolkien apresenta um até então inédito ensaio do seu pai que reflete os motivos das várias forças no Silmarillion. Na primeira e segunda partes do ensaio JRRT esclarece como Melkor reduziu-se gradualmente ao se encarnar

[como Morgoth] permanentemente. Ele fez isso para controlar o hroa, a “carne” ou matéria física , de Arda. Ele procurou se identificar com ela. Um procedimento maior e mais perigoso, embora de feição similar às operações de Sauron com os Anéis. Assim, fora do Reino Abençoado, toda “matéria” tendia a possuir um “ingrediente Melkor”, e aqueles que tinham corpos, nutridos pelo hroa de Arda, possuíam, como ela própria uma tendência, pequena ou grande, de seguirem Melkor [1]: nenhum deles era completamente livre dele em suas formas encarnadas, e seus corpos tinham um efeito sobre seus espíritos”.

 

Essa notável conclusão [ em si própria nada além de uma premissa para conclusões posteriores abordadas mais tarde no ensaio] foi decidida ou talvez ponderada por Tolkien no fim dos anos cinquenta ou no início doa anos 60, menos de dez anos depois da publicação do Senhor dos Anéis e é aproximadamente contemporânea com os textos que formaram a base para muito do Silmarillion como foi publicado. Ë, portanto, razoável aceitar a explicação que segue a citação feita acima como o motivo por detrás da relutância dos Valar em agir diretamente contra Melkor no Silmarillion [ na forma com que foi publicado]:

Mas dessa forma, Morgoth perdeu [ ou trocou ou transmutou] a maior parte dos seus poderes “angélicos”, de mente e espírito, enquanto adquiria um terrível controle sobre o mundo físico. Por essa razão, ele tinha que ser combatido, principalmente por força física, e uma enorme ruína material seria a provável consequência de qualquer confronto direto com ele, vitorioso, ou não. Essa é a explicação principal da constante relutância dos Valar em entrar em combate aberto contra Morgoth. A tarefa e o problema de Manwë eram muito mais difíceis do que os de Gandalf. O poder relativamente menor de Sauron estava concentrado ; o vasto poder de Morgoth estava disseminado. Toda a Terra Média era o Anel de Morgoth, não obstante, de momento, a sua atenção estivesse principalmente concentrada no Noroeste. A menos que tivesse êxito rapidamente, a Guerra contra ele poderia muito bem transformar toda a Terra Média num caos, possivelmente até mesmo Arda inteira. É fácil dizer: “é o dever e função do Rei mais Velho governar Arda, e tornar possível para as Crianças de Eru viverem nela sem serem molestadas.


Mas o dilema dos Valar era esse: Arda só poderia ser liberada por uma batalha física mas o provável resultado de tal batalha seria a ruína irreparável de Arda”…

Portanto, na realidade, o ataque contra Morgoth, teria que se iniciar com um assalto sobre a própria Terra Média. Morgoth teria sido capaz de usar a própria terra para enfrentar a Hoste de Valinor, .E os Valar teriam que destruir a terra com o fito de minar a força de Morgoth. Então faz sentido que a Hoste de Valinor chegasse o mais distante para o Norte quanto fosse capaz, o mais próximo de Angband quanto fosse possível..Eles estariam evitando a maior parte da força disseminada de Morgoth. Mais importante do que isso, eles estariam mais perto da encarnação física de Morgoth , a qual era, essencialmente, o objetivo da Guerra deles.

A Guerra das Jóias, para todos os intentos e propósitos, terminou com o assalto contra Gondolin. Os Elfos nunca mais organizaram uma campanha contra Morgoth e ele nunca mais tomou qualquer medida direta contra eles. Com a Queda de Gondolin, os elfos foram reduzidos para três pequenos e inócuos agrupamentos: Ossiriand, onde uns poucos Feanörianos tinham se refugiado com os Elfos-verdes, Arvenien, onde refugiados de Doriath e Gondolin estabeleceram uma nova colônia com alguns dos Edain; e Balar, onde fugitivos de Hithlum [ Sindar como Annael], Nargothrond, e das Falas criaram uma colônia depois da Nirnaeth Arnoediad.

Muitos outros elfos vaguearam através de Beleriand, exilados ou Avari, ou foram escravizados em Angband .Alguns desses elfos, pode-se supor, eventualmente alcançaram Arvenien, e a partir de lá prosseguiram para Balar. Mas quando os Feanorianos destruíram Arvenien no ano 538, um número significativo de Elfos morreu. A população élfica de Beleriand foi reduzida ao seu menor tamanho. Dos Feanorianos, do povo de Balar e dos elfos de Ossiriand eventualmente provieram os Eldar que estabeleceram o reino de Lindon na Segunda Era.

Mas Gil-galad e Círdan devem ter de alguma forma se reconciliado com os Feanorianos remanescentes durante os três anos finais da Primeira Era. Isso deve ter ocorrido no tempo que os Elfos abandonaram Balar. A ilha teria afundada ou Gil-galad e Círdan simplesmente sentiram que era hora de retornar para o continente agora que Morgoth se fora? Nós nunca saberemos.

Os Edain de Estolad também migraram para o leste, mas eles se fixaram em Lindon ao longo da nova linha costeira. Nos Contos Inacabados a terceira nota de “Aldarion e Erendis” diz que os Numenoreanos acreditavam “que os homens deixados para trás descendiam dos homens perversos que, nos últimos dias da guerra contra Morgoth, haviam sido chamados por ele do Leste". Os Edain de Beleriand devem, portanto, ter perdido toda memória dos seus antigos parentes no leste, e essa perda implica que todos os seus mestres de sabedoria devem ter perecido nas guerras. As gerações que cresceram na escravidão devem ter aprendido muito pouco das suas origens, e os elfos, provavelmente, poderiam ter muito pouco a dizer a eles.

Essa divisão dos Edain teve um efeito profundo sobre suas culturas. Quando os Numenoreanos voltaram para a Terra Média no ano 600 da Segunda Era “eles viram homens que poderiam ter caminhado em Númenor sem serem reconhecidos como estrangeiros salvo por suas roupas e armamentos.”. Para os Edain de Eriador os Numenoreanos “pareciam antes com senhores Élficos do que homens mortais em comportamento e vestuário”. Os primeiros Edain haviam recebido as boas vindas em Númenor pelos Eldar de Tol Eressëa, sobreviventes de Beleriand, que presentearam os Edain com muitas dádivas e que ensinaram a eles novos conhecimentos. Mas os Edain haviam sido tutelados , também por Eonwë na Terra Média.

De fato, os Edain viveram em Lindon p
or cerca de 35 anos antes deles começarem a viajar através do Oceano, e em The Peoples of Middle Earth é dito que a migração para Númenor demorou pelo menos 50 anos.. Então os Edain de Lindon migraram através do Oceano entre o ano 32 da Segunda Era e o ano 82, aproximadamente. Durante esse tempo ele foram tutelados pelos Valar e ensinados por Eonwë e talvez por outros Maiar. .Mas eles parecem não ter tido contato com seus parentes no leste.

A primeira frota a rumar para Númenor consistiu de pelo menos 150 navios, talvez contasse até mesmo 300.Cada um era comandado por um dos marinheiros de Círdan, que, presumivelmente, retornaram para Lindon quando sua viagem foi concluída. Alquém pode se perguntar o que teria sido feito dos navios quando os Elfos terminaram de transportar os Edain através do mar .Alguns , sem dúvida, foram usados para viajar para Tol Erëssea, mas o restante deve ter sido incorporado à nova economia de Lindon Os navios eram pequenos, comportando entre 30 e 40 passageiros com utensílios e animais. Pode-se indagar quanto tempo terá levado para os Elfos contruírem os barcos? Círdan teve que treinar novos marinheiros?

Como os Edain deixaram Lindon os Anões de Belegost começaram a abandonar Ered Luin e a migrar para Khazâd-dum. Estes Anões muito possivelmente reforçaram os Anões Barbaslongas [ O povo de Durin] em suas novas guerras com os Orcs, que vindos da ruína de Angband , pareciam numerosos para o Povo de Durin .Se uma razão para a migração dos Anões deve ser procurada, é de se supor que os Barbaslongas convidaram os Anões de Belegost a se lhes juntarem como resultado das invasões dos Orcs.

Contudo,a migração dos Anões deve ter empobrecido Eriador, Os Edain devem ter tido Elfos Nandor para comerciar, mas poucos Anões. Então pode ser que seu desenvolvimento cultural tenha prosseguido através de diferentes caminhos em relação àqueles dos Edain das Terras Selvagens muitos dos quais se tornaram aliados dos Anões e se beneficiaram do comércio feito por eles. Ao que tudo indica uma diferença entre os [ principalmente ] Edain “Beorianos” de Eriador e os [ em sua maioria ] Edain “Marachianos” das Terras Selvagens foi o uso de cavalos. Os Marachianos usaram cavalos ainda em Beleriand, mas os Beorianos parecem não tê-los utilizado. Os Edain de Eriador fixaram residência nos Montes de Evendim, nas Colinas Setentrionais, nos Montes do Tempo, e nas terras entre eles tão distante para o oeste quanto o rio Baranduin. De acordo, tanto com o Contos Inacabados quanto com o The Peoples of Middle Earth, os Edain algumas vezes vagaram nas terras além do Baranduin mas aquele era um país élfico e eles não permaneceram lá.

Os Elfos que residiam entre Baranduin e Lhun devem ter sido Nandor em sua maioria. Os Noldor se fixaram em Forlindon com Gil-galad e Elrond . Esses eram provavelmente em sua maioria descendiam dos Noldor de Gondolin e do povo de Angrod [ da região setentrional de Nargothrond], muitos dos quais tinham fugido para Balar. Quase nenhum dos Noldor de Hithlum deve ter sobrevivido à Nirnaeth Arnoediad, ou, se eles o fizeram, devem ter sido escravizados. Então os Noldor restantes devem ter derivado do punhado de Feanorianos que sobreviveram à terceira Matança entre Famílias e de quaisquer refugiados que escaparam à queda de Nargothrond.

Muito embora o povo de Círdan tenha se estabelecido nos portos gêmeos de Mithlond, os Sindar de Doriath e os Elfos verdes de Ossiriand fixaram-se em Harlindon. Mas muitos desses Elfos eventualmente migraram para o leste , para os Vales do Anduin. Tolkien diz apenas que eles partiram " antes da contrução da Barad-dûr" [ que Sauron iniciou por volta do ano 1000]. Muitas pessoas acreditam que a migração sindarin deve ter ocorrido antes dos Noldor fundarem Eregion [ circa 700-750] . Porque Sauron começara a agir contra os Elfos por volta do ano 500[ aparentemente instigando homens do leste a molestarem os Elfos]. É possível que as migrações sindarin o levaram a fazer alguma coisa.[ é de se notar que em um esboço primitivo do Conto dos Anos da Segunda Era , a migração Sindarin coincidiu com a migração Noldorim para Inladris e Eregion.]

As populações em Lindon aumentaram e elas provavelmente cresceram tão rapidamente quanto as populações de Beleriand haviam crescido. Quer dizer, entre a reconciliação dos Noldor em Beleriand no início da Primeira Era e a Dagor Bragollach, os Noldor e Sindar aumentaram consideravelmente suas populações. Um período comparável de tempo sem qualquer intrusão dos Orcs como os que ocorreram ocasionalmente durante o Cerco de Angband teve lugar entre a partida e o retorno dos Numenoreanos.

O reino de Gil-galad, consequentemente, deve ter se tornado mais rico e poderoso. Os marinheiros de Círdan devem ter continuado a singrar os mares. Por que não? Eles tinham os navios, tinham a perícia. Tolkien nunca disse que eles visitaram Aman, mas a região norte de Aman, pelo menos teria estado facilmente dentro do seu alcance. E não teria sido uma jornada muito longa viajar de Númenor para Tol Erëssea enquanto eles estavam conduzindo os Edain através do Oceano .Em algum ponto o povo de Gil-galad travou contato com os Edain de Eriador. Esses homens , pensando que seus primos ocidentais tinham sido destruídos, nunca perguntaram a respeito deles quando visitavam os elfos. E os Elfos , tendo perdido contato com os Numenoreanos, nunca pensaram em informar o povo de Eriador que alguns dos seus parentes haviam sobrevivido. Se nós supormos que em média uma geração dos Edain, durava 25-30 anos, então houve cerca de 24 a 29 gerações entre o povo de Eriador depois que Estolad foi abandonada até os Numenoreanos retornarem para a Terra Média.

Aparentemente não houve interação entre esses Edain e os Homens de Minhiriath, os quais os Numenoreanos vieram a chamar os Gwathuirim .O povo de Haleth em Brethil tinha se originado desse povo, e eles também eram pertencentes aos Edain, mas falavam uma língua diferente daquela dos Beorianos e Marachianos. Os homens de Bree, muitos milhares de anos depois, descenderam dos Gwathuirim, mas parece que Bree não foi fundada até algum tempo depois da Guerra dos Elfos e Sauron. Os povos de Eriador devem ter estado relativamente isolados durante os primeiros séculos da Segunda Era. Os Elfos se mantiveram principalmente além do Baranduin mas eles eram amigáveis com os Edain. Gil-galad seguiu a política dos reis Eldarin de Beleriand em manter uma separação entre Elfos e Homens. Não havia uma Guerra da qual se falar que poderia tê-los unido. Os Elfos devem ter se tornado mais internalizados, aprimorando sua civilização até que a população e a perspectiva de comercio com Khazâd-dum se tornaram grandes o suficiente para desencadear as migrações para o leste.. Os Gwathuirim viveram sossegados em suas florestas. No Leste, os Anões e seus aliados Edain erigiram uma grande civilização. Mas a menção ocasional de interação sugere qu
e uma vasta rede de comunicação de algum tipo existiu entre todos esses povos. Gil -galad, eventualmente, ouviu rumores de algum poder negro que era hostil a Elfos e Homens .Quando os Barbaslongas descobriram Mithril os Noldor decidiram estabelecer uma colônia em Eregion para iniciar o comércio com Khazâd dum, e o relacionamento entre os dois povos foi tão forte que os Anões escavaram um túnel por todo o caminho através das montanhas para criar um portal ocidental para o uso dos Elfos.

A questão de quando esta rede se formou pode nunca ser solucionada. É possível que os Anões sempre preservaram seus antigos contatos, e que pelos primeiros séculos da Segunda Era eles trouxeram notícias entre o leste e o oeste, Elfos, Anões e Homens. Pode ser que os Nandor que perambulavam por Eriador eventualmente fizeram contato com o reino de Gil-galad e levaram notícias em direção ao oeste. E, talvez, os próprios Edain comerciaram livremente uns com os outros e com os Anões trazendo notícias e riqueza para o oeste proveniente de Khazâd-dum.

Nós sabemos que doze Edain foram corajosos o suficiente para encontrar Vëantur e seus Numenoreanos no ano 600. E nós sabemos que os Edain de Beleriand tinham mantido pelo menos um grande conselho onde seus líderes se reuniam para debater a guerra com Angband. Pode ser que conselhos similares fossem ocasionalmente feitos entre o povo de Eriador, e que os doze homens fossem líderes ou chefes de diversas tribos ou clãs. Um conselho de chefes de Eriador pode implicar que os Beorianos e Marachianos tinham desenvolvido uma cultura sofisticada, cooperando uns com os outros em tempos de necessidade. Tal confedereção de povos teria sido suficientemente forte para desencorajar ou rechaçar invasões e pode explicar por que os Easterlingues e Orcs não se fixaram no centro de Eriador, e por que os Gwathuirim não foram mais para o norte do que a orla das suas florestas.

O encontro com Vëantur sugere que o povo de Eriador falava a mesma língua ainda que essa língua, em mais de 700 anos tivesse se distanciado do Adunaic dos Numenoreanos. Então a inferência de que os Edain de Eriador tivessem mantido ou desenvolvido uma unidade cultural é forte. Eles teriam trocado livremente estórias e canções, retiveram as mesmas tradições e memórias, praticavam os mesmos costumes, e provavelmente continuaram com o antigo costume dos Edain de casarem seus filhos e filhas [ aos menos entre seus chefes com famílias de outras comunidades a fim de estabeler ou preservar vínculos fortes.

Esse Edain enterravam seus mortos em montes, e muito possivelmente, residiam em cidades e vilas fortificadas, criando ovelhas e bois e [ muito provavelmente, no caso dos poucos Marachianos em Eriador] cavalos. Eles devem ter sido principalmente fazendeiros e lenhadores, conservando um pequeno grupo de manufatureiros. Eles deveriam ter sido ávidos por conhecerem novas técnicas e artigos para o comércio através dos Numenoreanos. Aos Numenoreanos eles devem ter parecido muito com seus ancestrais em Beleriand, e Eriador deve ter proporcionado a aventureiros como Aldarion um vislumbre do passado.

Notas do tradutor:

[1] Ao contrário do que Michael Martinez sugere, os Valar não vieram eles próprios para a Terra Média na época da Guerra da Fúria como o haviam feito no tempo da Guerra dos Valar quando Utumno foi destruído e Melkor levado cativo pela primeira vez. Nessa ocasião, eles optaram por enviar um grande grupo de Maiar [cujo número não pode ser estimado mas que poderia corresponder ao de um exército], que era liderado pelo arauto de Manwë, Eonwë [ muito provavelmente o mais poderoso de todos os Maiar] e contando com o auxílio dos elfos Vanyar e dos Noldor que ficaram em Beleriand.

[2] Estas notas esclarecem muitas das sugestões e idéias feitas por Tolkien no capítulo da Narn i Hîm Húrin do Contos Inacabados [ a ser publicado este ano no Brasil], "As Palavras de Húrin e Morgoth".

[3] O mar de Helcar foi criado no fim da Era das Lâmpadas com a destruição causada pela queda de Iluin e uma das suas baías era justamente o lago de Cuiviénen onde os elfos despertaram.

Os mapas encontrados nos seguintes links darão uma idéia aproximada da sua localização relativa na Primeira e Segunda Eras, sendo que, no caso do segundo mapa, ele fornecerá uma noção das terras então existentes nas regiões outrora situadas em Helcar.

A comparação entre os mapas elucidará ao leitor a natureza das transformações ocorridas entre a Primeira e a Segunda Era [ tornando o texto traduzido mais transparente] e fornecerá dados para o cálculo aproximado das posições relativas de todas as localidades geográficas da mitologia tolkieniana.

Primeira Era de Arda

 

Tradução de Paulo ´Ilmarinen´ Lages

Amor, estilo Terra-média

Uma das histórias mais conhecidas da Terra-média é o Conto de Beren e Lúthien. O clássico drama do "garoto pobre se apaixona por uma garota rica" combinado com muita aventura, intriga, corrupção e magia. Parece que existe algo para agradar a todos os gostos. Quando os Hobbits pedem a Aragorn que lhes conte uma história naquela noite em que são atacados no Topo do Vento, ele decide falar sobre Beren e Lúthien. De certa forma, Aragorn se vê seguindo os passos de Beren. Como seu antepassado, Aragorn é um Senhor por direito, que perdeu terras e riquezas devido à guerra. E como Beren, Aragorn conhece uma linda princesa em um reino élfico e imediatamente apaixona-se perdidamente por ela.

 

 

O tratamento de Elrond para com Aragorn é muito mais gentil e tolerante do que o tratamento de Thingol para com Beren, pois Elrond é um dos descendentes de Beren e Lúthien, mesmo que ambos tenham morrido muito antes dele ter nascido. Mesmo assim, Elrond pede algo quase tão caro para o casamento com Arwen quanto o que Thingol pediu para o de Lúthien. Para ambos foram pedidas coisas que pareciam tarefas impossíveis de serem realizadas. Aragorn, pelo menos, tinha a vantagem de saber que Elrond queria ver a derrota de Sauron, ao contrário de Thingol, que tencionava enviar Beren para uma possível morte.

Infelizmente, nem todas as histórias de amor da Terra Média terminam tão bem como a de Beren e Lúthien e a de Aragorn e Arwen. Ambos os casais viveram juntos por muitos anos depois que as grandes tarefas impostas sobre eles foram cumpridas; no entanto, esses felizes anos jamais ocorreriam sem que antes se passasse por grande sofrimento, de modo que poderiam ser considerados recompensas realmente difíceis de se conseguir. Beren e Lúthien tiveram que passar por muitos perigos em Angband, e finalmente morreram antes de poderem ser ressucitados e viverem juntos em relativa tranqüilidade. A jornada de Aragorn não foi tão perigosa quanto a de Beren, mas sem dúvida ele sentiu muito mais solidão. Pelo menos, Beren foi acompanhado por Lúthien durante muito tempo na busca pela Silmaril, enquanto que Aragorn teve que viver muitos anos longe de Arwen, sem ter grandes esperanças que ela iria ao menos sentir o mesmo que ele sentia por ela.

O divórcio não é nunca mencionado em qualquer história de Tolkien. Algumas pessoas podem refletir pouco sobre a questão e falar: "Bem… Tolkien foi criado como um Católico e acreditou nos ensinamentos da Igreja por toda a sua vida". Sim, isso é verdade, mas Tolkien era também um indivíduo bastante realista. O divórcio parece não participar de seus romances porque a separação trágica ocupa sua posição. A separação nem sempre faz o amor ficar mais forte, às vezes pode até destruir o relacionamento. O primeiro conto de um casamento que termina em ruínas é o de Húrin e Morwen. Húrin era filho de Galdor, o alto, lorde de Dor Lómin, e considerado por muitos o maior dos guerreiros dentre os humanos. Morwen nasceu em Dorthonion, terra natal dos descendentes de Béor que foram aceitos no Reino de Finrod, Nargothrond. Eles residiam na fronteira ao Norte do Reino de Finrod, atrás da linha de fortalezas dos Noldor que protegiam Ard-galen, a planície entre Angband e os Reinos Élficos.

Morwen era a filha de Baragund, o filho mais velho [e, estranhamente, o herdeiro] de Bregolas, que era o Senhor de Ladros de 448 até 455. Bregolas morreu na luta pouco depois de Dagor Bragollach [A batalha da "Chama Súbita", na qual as legiões de Morgoth quebraram o Cerco de Angband, que tinha durado mais de 400 anos] começar. Barahir assumiu o controle de Dorthonion. Ele era já era mais velho, tendo 55 anos quando Bragollach começou. Talvez tenha sido por ter resgatado Finrod que ele assumiu o posto de Senhor de Ladros, ou porque Baragund abdicou de seu direito em favor de seu tio, pois, ele era claramente um grande líder, como as pessoas precisavam.

Morwen nasceu em 443, tendo apenas 12 anos quando a Dagor Bragollach começou. Muitos de seu povo fugiram para Dor Lómin assim que Bregolas e muitos outros homens morreram em batalha, mas Baragund e outros continuaram ao lado de Barahir, e seguiram ele com fé. Barahir e os descendentes de Beór que mantiveram-se junto a ele agüentaram a situação por um ano, mas em 456 a situação se tornou tão alarmante que a esposa de Barahir, Emeldir, juntou todas as mulheres e crianças que sobraram e as conduziu para o sul de Dorthonion. O caminho de Emeldir passava pelas Ered Gorgoroth, as Montanhas do Horror, aonde aranhas gigantes viviam desde séculos atrás, tornando quase impossível a passagem tanto para humanos quanto para elfos.

Emeldir e sua filha Haril somem subitamente da história após alcançarem Brethil, onde alguns de seus seguidores ficaram, mas Morwen e seu primo Rían [que na época tinha 6 anos] passaram pra Dor Lómin para se juntar ao resto de seu povo. Mesmo que a maioria dos humanos tivesse sido morta em guerra, os descendentes de Beór não deixaram de existir como um povo. Seus filhos cresceram para formar uma nova geração de guerreiros, mas tornaram-se quase que fundidos com os "Marachians" de Dor Lómin.

Ao mesmo tempo em que Morwen estava viajando pelas Ered Gorgoroth, o jovem Húrin e seu irmão Huor estavam apreciando a hospitalidade de Turgon em Gondolin. Eles estavam com parentes em Brethil quando a Dagor Bragollach começou e a tribo de Haleth mandou guerreiros para ajudar a resistir a investida de Morgoth; sendo que a maioria deles morreu, e Húrin e Huor foram separados de seus companheiros e resgatados pelas águias de Manwë, que os levaram para Gondolin, onde ficaram por um ano. Eventualmente, Turgon aceitou deixá-los voltar para Dor Lómin. Tolkien não deixa claro quando Húrin e Morwen se conheceram, mas deve ter sido logo na ocasião de sua chegada a Dor Lómin, ou pouco depois desta [dependendo de quem chegou em Dor-lomin por último]. Ela ainda era muito nova para o casamento, mas no ano 461 teria 18 anos. Túrin nasceu em 464, então Morwen ainda era bastante nova quando casou com Húrin, mas pelos primeiros oito anos seu casamento pareceu ser bom. Eles tiveram três filhos: Túrin, Urwen [que morreu] e Nienor. Húrin nunca viu sua caçula, pois ela nasceu depois da Nirnaeth Arnoediad, no final da qual Húrin foi feito prisioneiro.

Por quase trinta anos, Húrin foi prisioneiro de Morgoth, e Morwen fez tudo o que pôde para proteger Túrin; mas o destino dele e o de Nienor foram obscurecidos pela maldade de Morgoth, e Húrin foi finalmente libertado quando seus filhos já estavam todos mortos. Ele encontrou Morwen em Brethil, esperando por ele perto da pedra que marcava o local onde Túrin havia morrido, e no fim sua reunião foi curta e amarga.

Uma história mais trágica é o conto de Aldarion e Erendis. Por anos, os fãs de Tolkien não tiveram nenhum real conhecimento sobre esse conto, exceto que ele existia, pois Tolkien o mencionou se
m grande ênfase na carta enviada a Dick Plotz [Líder da Sociedade Tolkeniana da América] em 1966, em "A Esposa do Marinheiro", que contava a história de Tar-Aldarion e sua relação trágica com seu pai e esposa. Essa informação foi passada para Robert Foster, que a mencionou na seção de Tar-Aldarion em "O Guia da Terra-média" [Editora Mirage, 1971] e "O Guia Completo da Terra-média" [Del Rey, 1978].

Em 1980, Christopher Tolkien publicou "A Esposa do Marinheiro" em Contos Inacabados, e ela é geralmente mencionada como "Aldarion e Erendis". Aldarion era o sucessor por direito ao trono de Númenor, e descendente de Rian e Huor. Erendis era também descendente de Beór, e descendia de Beleth, a filha de Baragund. Ela não descendia de Elros [Tar-Minyatur], e apesar de viver bastante, ela não tinha o Dom de viver muito mais do que qualquer humano que pertencia aos descendentes de Elros. Aldarion se tornou um marinheiro em sua juventude e apesar de se apaixonar por Erendis e eventualmente se casar com ela, o seu amor por ela era sempre menor em comparação ao seu amor pelo mar.

Erendis foi ficando amarga devido à falta de atenção que o marido lhe dedicava, e parecia odiar o mar. Ela eventualmente o deixou e foi criar sua filha Ancalime sozinha, longe da Corte em Armenelos. O ciúme de Erendis e o seu ressentimento primeiramente foram vistos muito calorosamente pela família de Aldarion e pelo povo de Númenor, mas ela foi ficando tão amarga que caiu em esquecimento. A separação entre Aldarion e Erendis impossibilitou que eles tivessem mais filhos, e Aldarion acabou por criar uma nova Lei de Sucessão na qual permitia Ancalime se tornar a Rainha em exercício de Númenor.

A vida de Ancalime acabou não sendo muito melhor que a de seus pais. Ela era perseguida pelos jovens rapazes de Númenor e acabou se escondendo ainda muito cedo para evitar a "caçada". Disfarçando-se como uma pastora, Ancalime passou seus dias em paz e silêncio até que um jovem pastor a encontrou. Ele se chamava Mamandil e eles se tornaram amigos. Mamandil era um grande cantor e freqüentemente entretinha Ancalime com canções antigas que seus ancestrais descendentes de Edan haviam cantado enquanto cuidavam de seus pastos em Eriador [ mais de 1300 antes ].

Mamadil eventualmente revelou seu verdadeiro nome, Hallacar, filho de Hallatan de Hyarstorni, um dos maiores Lordes Numenorianos e um descendente de Elros. A história de Ancalime e Hallacar nunca foi totalmente criada por Tolkien, mas ela por fim casou-se com ele por razões aparentemente políticas. Qualquer amor que ela sentisse por ele acabou se tornando amargura e mais tarde ódio, quando ela soube a verdade por trás de Hallacar, e é dito que ela o perseguiu a vida inteira. Hallacar realmente pregou-lhe uma peça muito cruel. Ancalime havia proibido que suas criadas se casassem, e em uma festa em sua casa [que Ancalime estava tirando dele], ele casou todas elas. Ele a humilhou, e aquele evento pode ter sido o golpe de misericórdia para a separação final entre eles.

Mesmo assim, Hallacar e Ancalime tiveram um filho, Anarion, que se tornou Rei de Númenor. O casamento de Anarion parece ter sido mais feliz que o de seus pais e o de seus avós. Ele teve no mínimo três filhos, dos quais o terceiro foi Tar-Surien.

Casamentos trágicos não foram confinados apenas aos Numenorianos. Durante a Terceira Era, Minalcar, Regente de Gondor, enviou seu filho Valacar para fechar a aliança com os homens do norte de "Rhovanion" [que é apenas um pequeno reino a leste de "Mirkwood" e não cobria toda a "Wilderland" que também é chamada de "Rhovanion"]. Valacar se casou com Vidumavi, filha de Vidugavia, rei de Rhovanion. O seu filho, Eldacar, nasceu em Rhovanion e foi chamado Vinitharya em sua primeira infância. A linhagem misturada de Eldacar, acabou levando a um conflito para a sucessão do trono de Gondor, que se desenrolou em uma sangrenta guerra civil, que quase arruinou o reino e iniciou o processo de declínio de Gondor.

Os Hobbits também tiveram seus casamentos trágicos, mesmo que o conflito não tivesse sempre sido entre marido e mulher, e nunca tenham levado a uma Guerra Civil. Drogo Bolseiro casou com Primula Brandebuque. Ele foi viver na Terra dos Buques, e acabou por adotar os costumes de seus novos parentes, como o de navegar no rio Baranduin [Brandywine]. Um dia, Drogo e Primula se afogaram em um acidente de barco, deixando seu filho, Frodo, órfão. Frodo foi viver com seu tio Bilbo Bolseiro, chefe oficial da família dos Bolseiros. Mesmo que fosse predestinada a grandeza de Frodo, nenhum Hobbit jamais pensou que este provocaria a Queda de Sauron. Ele pagou um grande preço por isso, pois teve que agüentar um grande tormento espiritual, mesmo depois que Sauron já havia sido vencido. Frodo foi tão "machucado" pela experiência de ser um portador do anel que acabou por ser admitido na Terra Abençoada além do mar, onde ele poderia ter seu espírito curado e uma morte em paz digna de seus feitos.

Um casamento muito mais feliz, sem dúvida, foi o casamento entre Sam Gamgee e Rose Cotton. Sam e Rose eram primos de terceiro grau, então não eram tão próximos. A família de Sam pertencia à classe trabalhadora dos Hobbits. Alguns deles eram "fazedores de corda", e alguns eram jardineiros. O pai de Sam, Hamfast, se tornou um jardineiro na Rua dos Bolseiros, servindo primeiramente Bilbo e mais tarde Frodo, e depois Sam tomou suas responsabilidades de jardineiro para com os Bolseiros.

A família de Rose vivia próxima da cidade de Bywater. Eles eram fazendeiros, mas bastante respeitados e apreciados. Quando Sam ainda era criança, muitas vezes passava seu tempo com os filhos dos Cotton, e até relembrou brincar com eles no lago enquanto ele e Frodo atravessavam Mordor a caminho da Montanha da Perdição. A coragem de Sam e sua fidelidade são geralmente a razão pelos seus créditos. Quando Galadriel recebeu os oito membros que sobreviviam do "Conselho do Anel" em Lórien, ela testou o espírito de cada um deles, e parece que o teste de Sam foi ter a oportunidade de voltar para o Condado e viver ao lado de Rose.

A história de Sam e Rose Cotton dificilmente pode ser percebida entre as páginas do Senhor dos Anéis, e muitos leitores parecem surpresos quando Sam de repente aparece com uma namorada que é orgulhosa dele, mesmo sem que saiba um de seus feitos junto a Frodo pelo bem do mundo, e pouco depois já estão casados. Rose tem uma vida longa pela frente, e nem tudo é fácil, pois, ela e Sam tiveram 13 pequenos hobbits para ser criados e alimentados [e crianças hobbit comem muito!].

Não existe nada realmente trágico quanto ao casamento de Sam e Rose. Ele é quase o casamento ideal. O único porém é que Sam fica dividido entre o amor por Frodo e o seu amor pela Terra-média. Ele se sente preso no próprio mundo que salvou, e Rose, enquanto viva, era a única razão para ele continuar vivendo, sendo o único remédio para a sua alma; pois Sam também havia usado
o Um Anel, e ainda sentia as cicatrizes em sua alma, mesmo que durante sua juventude a ferida não parecesse tão perigosa nem visível quanto a de Bilbo e Frodo. No final, depois da Senhora Rose morrer, e Sam cumprir tudo o que podia, ouve um chamado para o mar, e deixa a Rua dos Bolseiros e sua vida para trás, tomando passagem em um barco que com certeza esperava por ele há muito tempo.

Mas seu casamento, como o de Aragorn, terminou feliz, pois ele estava com Rose e Aragorn estava com Arwen, e mesmo que um ou o outro acabe por deixar a vida, pelo menos tinham memórias felizes para consolá-los, e sabiam que suas vidas haviam sido cheias de amor. E para um Hobbit, viver tão cheio de amor quanto um Rei ou Rainha de Númenor,talvez não seja algo tão pequeno assim.

Tradução de Fábio Bettega