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Por que Tolkien é mitologia

Relendo “Os Filhos de Húrin” pela enésima vez (não leu ainda?! Vassuncê tá esperando o quê, mizifi?), pus-me a refletir porque, em seus melhores momentos, o texto de Tolkien é tããão parecido com mitologia “de verdade”, da legítima, da pura. (Reflexão que só podia ser coisa de doutorando em Letras veadinho feito eu, veja você.)

A pista para matar a charada estava nas minhas fuças, no emaranhado de frases de “Os Filhos de Húrin”. Tolkien é mitologia porque SOA COMO mitologia, porque a trama do estilo do Professor é construída de maneira inerentemente mitológica. Tentarei explicar melhor.

Ao contrário do que a gente vê no cinema comercial moderno — por exemplo –, as narrativas míticas tradicionais estão cagando solenemente para coisas como ordem cronológica estrita ou suspense. Essa coisa de sair da fila do cinema se alguém da sessão anterior te contar o final soaria como um absurdo sem tamanho para um narrador tradicional de mitos.

Para sujeitos como eles, o que realmente contava era a conexão das histórias com TODAS as outras histórias, como a narrativa se encaixava na saga mais ampla de seu povo ou de sua cultura. Tem algo de ritual sagrado nesse processo todo: o fato de você saber de antemão o que vai acontecer com os personagens aumenta o “pathos” (ê palavrinha veada), ou seja, a força emocional da história, em vez de diminuí-la.

Rohan e Túrin
Um exemplo bobinho está em “O Senhor dos Anéis”. Lá pelas tantas, quando Pippin ouve ao longe as trompas dos cavaleiros de Rohan soando e vindo em socorro de Minas Tirith, o narrador diz que, pelo resto de sua vida, o hobbit nunca mais conseguiu ouvir berrantes (desculpem a licença poética, mas eu sou caipira, e trompas nada mais são que berrantes) soando ao longe sem que lágrimas aparecessem em seus olhos.

Pronto, Tolkien já contou, na prática, que o livro vai ter um final feliz, já que Pippin vai, afinal, viver para se lembrar da chegada dos guerreiros de Rohan ao Pelennor. Pergunta se Tolkien esquentou a cabeça com isso. Claro que não — no que faz muito bem, aliás.

A saga dos Filhos de Húrin, porém, usa muito mais esse recurso, como, aliás, fazem todas as demais narrativas da Primeira Era. É só pensar no fato de que, ao contar a participação de Húrin nas Nirnaeth Arnoediad, o livro REPRODUZ quase letra a letra um relato de batalha que o leitor do Quenta Silmarillion, “O Silmarillion” propriamente dito, JÁ leu.

E ainda coloca o floreio retórico: “Se todas [as histórias sobre a batalha] fossem contadas, a vida de um homem não seria suficiente para ouvi-las”. Recurso, aliás, empregado pelo Evangelho de João no Novo Testamento, de forma quase idêntica.

Outro exemplo: “Essa foi a primeira das tristezas de Túrin”; “Essa foi a segunda das tristezas de Túrin”. O crescendo de tristeza sobre tristeza deixa claro que aquele narrador está olhando para a frente, vendo a história como um todo de tragédia, e não como algo contado de forma descompromissada naquele momento.

Só o contato e o conhecimento íntimo com as grandes mitologias antigas permitiu que Tolkien pudesse usar as características mais sutis delas para encorpar a sua própria. Não é tarefa para qualquer um, ladies and gents.