Arquivo da tag: fantasia

Seres Fantásticos na Literatura – Lobisomens

De onde vêm as narrativas sobre Lobisomens? E a sua ligação com a Lua e a Prata? Haverá comprovação científica para as histórias de homens transformados em lobos?

Os inúmeros livros e filmes que apresentam os lobisomens como personagens refletem a universalidade desse ser fantástico, pois no folclore mundial são incontáveis as narrativas sobre o assunto. Busquei alguns subsídios para entender essa criatura na obra do maior especialista brasileiro em folclore: Luís da Câmara Cascudo. Segundo Cascudo, o lobisomem é um motivo mítico universal. Foi citado por Plínio o Antigo, Heródoto, Pompônio Mela, Plauto, Varrão, Santo Agostinho, Isócrates, Ovídio, Petrônio e vários outros escritores.

Note-se que tais autores não encaravam o lobisomem como um personagem literário, mas como uma realidade – um ser fantástico, porém real. Na Grécia chamavam-no licantropo; em Roma, versiopélio; para os eslavos, volkdlack; para os saxões, werwolf ou werewolf; para os germanos, wahwolf; para os nórdicos, hamramr; em russo obototen; em francês, loup-garou; em espanhol, lubizon ou lobinsón. Consta que existem ainda versões na China e no Japão, e que “na África existe a tradição sagrada das transformações animais, homens-lobos, homens-tigres, homens-hienas etc.[1]

Até existe, na realidade, uma doença chamada Hipertricose Lanuginosa Congênita, conhecida como a Síndrome do Lobisomem. As pessoas que sofrem dessa doença acabam cobertas por pelos, com exceção das palmas das mãos e dos pés. Há uma lanugem que aparece nos recém nascidos e deveria desaparecer normalmente pouco antes do nascimento. Mas algumas pessoas não a perdem, e são então diagnosticadas com hipertricose, tornando-se parecidas aos lobisomens da ficção: um pelo fino e felpudo cresce sobre quase todo seu corpo.

Consta que foram registrados apenas 50 casos, no mundo, de hipertricose congênita. Existe ainda a Hipertricose Adquirida, quando o crescimento de pêlos se dá após o nascimento. Para tal condição os pesquisadores ainda não encontraram cura, apenas desenvolveram tratamentos com técnicas de depilação que utilizam laser e eletrólise.

Como virar Lobisomem

Mas esse tipo de doença não tem nada a ver com os contos populares, nos quais o lobisomem é descrito como um metamorfo ou transmorfo: um ser humano que se transforma em animal. A autora britânica J. K. Rowling o chamaria de uma variação do Animago… embora na série Harry Potter criaturas como o lobisomem Remus Lupin sejam mais temidas que admiradas. E nessa série de livros parece que a transformação pode atacar tanto homens como mulheres, enquanto nas histórias do povo quase sempre o licantropo pertence ao sexo masculino.

Voltando ao folclore, explica-se que a transformação ocorre por estar o homem sujeito a um fado, uma maldição, um castigo. Há inúmeras explicações para seu surgimento. Ele pode ser filho de uma união incestuosa (pai e filha, mãe e filho, irmão e irmã, ou filho de compadre com comadre, de padrinho com afilhada). Pode ser o primeiro filho homem após uma série de sete filhas. Em certas regiões da Rússia, dizia-se que quem nascesse no dia 24 de dezembro tornar-se-ia lobisomem; na França e na Alemanha havia a tradição de que, se alguém dormisse ao relento numa noite de Lua Cheia, sofreria a transformação. E há, é claro, a ideia da passagem do fado pela contaminação do sangue: o homem mordido por lobisomem também se torna um, e se alguém se sujar com seu sangue pode ser contaminado.

Em algumas narrativas oriundas do interior do Brasil, ainda segundo Cascudo, a metamorfose ocorreria às sextas-feiras, da meianoite às duas horas. Outras histórias dizem que, se quisesse virar um bicho sanguinário, a pessoa precisaria, na noite de quinta para sexta-feira, procurar uma encruzilhada onde os animais tivessem o costume de espojar-se; em seguida, tirar as roupas e esfregar-se no chão de terra como as bestas. E a transformação se faria…

Acreditava-se, na Idade Média, que as pessoas acusadas de ser lobisomens poderiam ser desmascaradas cortando-se sua pele, pois o pelo do lobo apareceria sob a ferida. Há narrativas de lobisomens que devoravam corpos recém-enterrados, e daqueles que, nas noites de Lua Cheia, caçavam as crianças que encontrassem para se alimentar. Outras dão conta de que a metamorfose era obra de feiticeiros malignos em rituais demoníacos. Havia até quem jurasse que pessoas excomungadas pela Igreja Católica se transformariam em lobisomens.

O Ciclo do Noivo Animal

Podemos traçar o caminho que tais narrativas fizeram, vindas dos mitos, até chegar ao folclore e, dele, à literatura. Na mitologia de várias regiões há histórias antiquíssimas que falam de homens ou mulheres transformados em animais. E, em muitas delas, a magia que causou a transformação e a prisão na animalidade é desfeita apenas quando o personagem principal encontra um parceiro do sexo oposto.

Essas histórias foram agrupadas num corpo de estudos que se convencionou chamar de Ciclo do noivo animal. Sua versão mais ancestral parece ser o mito grego Eros e Psichê, conhecido através de um texto de Apuleius, filósofo e escritor nascido no século II em uma colônia romana na Numídia (hoje Algéria). Nessa história temos vários dos motivos que depois aparecerão em contos de fadas: a união de um homem (ou mulher) transformado ou disfarçado de animal com uma jovem (ou rapaz); várias provas pelas quais ele, ela, ou ambos devem passar; e a redenção de um deles ou de ambos, através da coragem e do amor do parceiro(a).

Algumas histórias populares pertencentes a esse ciclo são bastante conhecidas. Temos, dos Irmãos Grimm, Rosa Branca e Rosa Vermelha, na qual um urso pede abrigo durante o inverno severo na casa da floresta em que moram duas irmãs e sua mãe. Depois de várias peripécias com um anão maligno, o urso se transforma em um belo príncipe e se casa com uma das irmãs. Também recontada por Grimm, O Rei sapo traz um sapo nojento a quem a Princesa deve convidar para comer em sua mesa e dormir em sua cama, em agradecimento por ele ter recuperado sua bola de ouro caída em um poço. Naturalmente, o sapo se desencanta pela ação da princesa, revelando-se humano, e um Rei.

Na história francesa A Bela e a Fera, a jovem Bela é obrigada a ir morar num castelo habitado por uma fera repugnante e ameaçadora; a princípio ela o detesta, mas aos poucos vai aprendendo a amá-lo e, quando Fera está prestes a morrer, Bela o salva demonstrando seu amor. Ele então se desencanta e retoma a forma humana

Um conto romeno chamado O Porco encantado tem como protagonista a filha mais nova de um rei, destinada a se casar com um porco. Destino tão ingrato é amenizado pelo fato de que, à noite, o porco se transforma em homem. Porém, ao tentar desfazer a transformação com a ajuda de uma feiticeira, a moça só consegue perdê-lo. E terá de passar por inúmeras provas, sendo a última terrível, para reencontrá-lo e tê-lo como marido na forma humana.

No conto norueguês A Leste do Sol e Oeste da Lua, encontramos os mesmos elementos, embora o marido a quem a protagonista é prometida seja um urso branco; e sua transformação em homem é complicada, pois ele cai sob o poder de um grupo de trolls e só depois de muito sacrifício, e da ajuda dos quatro Ventos, a moça o encontra e casa-se com ele.

Dizem os estudiosos que, na verdade, todas essas histórias falam sobre a jornada do ser em busca de sua humanidade, da necessidade que toda pessoa tem de alcançar a maturidade. Apenas quando o homem e a mulher se desligam do mundo infantil e lutam por seu crescimento como pessoas, é que poderão ser felizes, completos – a completude simbolizada pelo encontro com o parceiro ideal. Mas recuperar a humanidade, quando se está preso na animalidade, não é fácil. Os heróis das histórias, sejam homens ou mulheres, devem passar por muitos sacrifícios e provar sua maturidade através do sofrimento, para obter a transformação. [2]

Mitologia Lupina

Na cultura Greco-Romana houve mitos e rituais envolvendo homens-lobo, como a história de Licaon, da qual encontramos uma versão nas Metamorfoses de Ovídio. [3]

Licaon (Grécia)

Zeus, o senhor do Olimpo, às vezes descia do monte em que viviam os deuses e percorria a terra disfarçado de mortal. Numa dessas viagens, horrorizado ao ver como o mal se disseminava entre os homens, ele parou na região da Arcádia. Anoitecia, e o mais poderoso dos deuses pediu abrigo no palácio do governante: Licaon, que era tido como um tirano infame. O povo da Arcádia sabia que um deus estava entre eles, pois Zeus não ocultou sua natureza divina. Porém Licaon, o rei, duvidou e zombou das reverências e preces que seu povo fazia ao visitante. Rindo, declarou:

– Descobrirei se este é mesmo um deus ou um mero mortal!

O rei planejou naquela noite matar seu hóspede, quando ele adormecesse. Mas antes preparou-lhe um jantar macabro: tomou um prisioneiro, cortou sua garganta, retalhou sua carne ainda quente e mandou que seus pedaços fossem cozidos e assados.

Ao ver a carne humana servida diante dele como uma iguaria, Zeus se enfureceu. Com um golpe na mesa do jantar, atraiu um raio que trouxe a maldição ao rei tirano e a todos os seus descendentes!

Licaon tentou falar, mas não conseguiu. Tentou fugir da ira de Zeus e disparou a correr, deixando o palácio e ganhando os campos. Conforme corria, sua boca espumava, seus braços se tornaram pernas, suas mãos viraram patas. Ele chegou ao local em que pastava um rebanho de ovelhas e caiu sobre elas com uma fúria bestial; só pensava em matar e destroçar.

Era ainda o mesmo Licaon, mas não era mais um homem.

Transformara-se em lobo.

Outra história interessante, e que teria dado origem a rituais que hoje nos parecem estranhos, é a que veio da lenda sobre a fundação de Roma.

Luperci Sodalis – os Amigos do Lobo (Roma)

Conta-se que a cidade de Roma nasceu da disputa entre dois irmãos. O trono de Alba-a-Grande, capital das terras italianas ocupadas pela linhagem de Enéias, de Tróia, era disputado pelos descendentes de seu duodécimo rei: Amúlio e Numitor. Amúlio se apoderou do reino assegurando que o irmão não tivesse descendentes: matou o filho dele e obrigou Réia Sílvia, a filha de Numitor, a se tornar uma Vestal. Como sacerdotisa de Vesta, ela seria obrigada a permanecer virgem e não deixaria herdeiros ao trono.

O deus Marte, porém, engravidou Réia Sílvia, que deu à luz dois meninos. O rei Amúlio, descobrindo, mandou prender a mãe e jogar as crianças no rio Tibre. Aconteceu, contudo, que as águas do rio transbordaram e certas partes do leito secaram, deixando os bebês num terreno seco e cercado pela mata selvagem. Ora, uma loba que passava ouviu o choro de ambos. Diz a tradição que ela dera à luz mas perdera os filhotes; carregou os gêmeos para uma caverna próxima e amamentou-os.

Fáustolo, um pastor da região, seguiu a loba e encontrou os bebês. Então levou os gêmeos para sua esposa, que os criou. Receberam os nomes de Rômulo e Remo. Quando adultos, descobriram de quem descendiam, libertaram sua mãe e restituíram o trono de seu avô, Numitor. Na região em que foram encontrados pela Loba, fundaram uma cidade que receberia o nome derivado de um deles: Roma.

Um mito romano dizia que a Loba fora na verdade o deus Pã transformado em animal; e julgava-se que certa gruta, nas colinas que cercavam Roma, teria sido o local em que Rômulo e Remo foram amamentados. Sacerdotes romanos passaram a realizar rituais nessa gruta e em suas cercanias. Eles se autodenominavam luperci sodalis, os amigos do lobo, e ali realizavam cerimônias de purificação. Em certa época do ano, sacrificavam lobos ou cães, vestiam a pele ainda sangrenta dos animais e entravam em transe. Segundo a tradição, tornavam-se lobos, ou homens-lobos.

O povo acorria aos rituais, chamados Lupercalia ou Lupercais; eram festas em honra ao deus Pã. Os sacerdotes, sob as peles de lobos e ungidos com sangue, uivavam. Munidos de chicotes, com eles fustigavam os fiéis, que através do açoite se sentiam purificados. Essas práticas duraram séculos, e considera-se que as Lupercais foram uma das origens do Carnaval. Só deixaram de ser realizadas no ano 494, quando um Papa as proibiu por serem ritos pagãos. Mas elas espalharam a crença de que era possível homens se transformarem em lobos.

A Lua cheia e a Prata

Já as referências à ocorrência da transformação com a chegada da Lua Cheia vêm de textos medievais, como os do cronista católico inglês do século XIII, Gervase de Tilbury, que escreveu um Descriptio totius orbis, espécie de miscelânea contendo narrativas diversas que na época eram consideradas “científicas”, e somente mais tarde seriam vistas como folclóricas. Desde que as histórias de Tilbury se tornaram populares no século XIII, então, a maioria das narrativas associa o lobisomem à Lua. Mas por que associá-lo à prata?

Algumas tradições dizem que as balas de prata são a única coisa que pode matar um lobisomem. A primeira referência a esse método parece ter vindo das histórias, aparentemente reais, das Bestas de Gévaudan, na França do século XVIII. Consta que eram lobisomens que teriam matado dezenas de pessoas. O escritor Chevalley, ao contar sobre Jean Chastel, um dos matadores de tais bestas, declarou ter fabricado balas de prata com as quais conseguiu matar uma delas. Parece ser a primeira referência a esse metal como letal para os metamorfos.

Porém as tradições sobre a prata sugerem que não é o mero contato com ela que é nocivo ao lobisomem, e sim o poder simbólico do metal, associado tradicionalmente à Lua. Objetos de prata eram oferecidos à deusa grega Ártemis, mais tarde chamada pelos romanos Diana, senhora da Lua. E assim como o poder da prata estaria na Lua, que comanda a transformação dos lobisomens, o poder das velas de cera estaria na consagração que elas teriam sofrido em um templo religioso.

Isso, sim, o elemento sagrado, é que seria capaz de afetar uma maldição tão profunda quanto a que infecta os homens-lobo. Talvez seja por isso que, nas tradições da Península Ibérica, que trouxeram os mitos do licantropo ao Brasil, existe uma forte conexão com o Cristianismo. É dito que, para fazer efeito contra esses seres, uma arma de fogo deveria ter suas balas untadas com cera. Porém não pode ser cera comum, e sim a cera de uma vela benta. Tais velas podem ter sido consagradas de várias formas: ter recebido a bênção de um sacerdote, terem sido acesas dentro de um templo, ou ter ardido durante a missa. Cascudo nos fala da necessidade de a vela estar presente durante três missas ou um rito especial, como a Missa do Galo, na noite de Natal.

Seja qual for a origem da cera, as narrativas indicam que, assim como no caso da prata, sua força não está na vela e sim na ligação com o ritual sagrado.

Entre os autores modernos, há visões diferentes. Em The Graveyard book, de Neil Gaiman, por exemplo, encontramos a afirmação de que os lobisomens são benignos. Chamados os Cães de caça de Deus, eles seriam seres guardiães do Bem e perseguidores dos que praticam o Mal. [4] Na obra da polêmica Stephanie Meyer, em Lua Nova o jovem Jacob se transforma em lobo pois a capacidade de metamorfose faz parte de sua herança indígena, não tem nada a ver com um fado ou castigo. E, para quem quer ficção fantástica genuinamente brasileira, podemos indicar nosso próprio Sangue de Lobo, que tem como protagonista um licantropo em busca de cura para a maldição da Lua Cheia…[5]

A Reversão da maldição, ou: é possível desencantar um lobisomem?

Se, na série Harry Potter a maldição que persegue Remus Lupin só termina com sua morte,[6] as narrativas do folclore brasileiro propõem que a maldição dos homens transformados em lobo não é irreversível, pode ser desfeita. Mais uma vez citando Câmara Cascudo, descobrimos que para dar fim à sina dos lobisomens, é preciso feri-los, fazer seu sangue correr. Note-se que Cascudo fala em sangramento, não em lobicídio – não se cogita matar o lobisomem, pois imagina-se que a morte do lobo seria também a morte do homem.

Além da exigência de “correr sangue”, existem ainda as sugestões de que faz parte da sina do licantropo a corrida, a peregrinação. A maldição lançada (seja pelo destino, pelo demônio ou por seus próprios pecados) traria consigo a obrigação de o homem-lobo sair do lugar em da transfiguração e percorrer sete locais, voltando ao começo da corrida para readquirir a forma humana.

Algumas fontes dizem que a corrida aos sete lugares deve começar numa sexta-feira à meia noite e terminar às duas horas da manhã. Outras dizem que na verdade são sete vezes sete locais: sete cemitérios, sete igrejas, sete vilas acasteladas, sete partidas do mundo, sete outeiros, sete encruzilhadas, sete espojadouros.

O “7” como número mágico ou sagrado é comum em muitas culturas. A razão de o lobisomem ter de peregrinar por sete locais é, contudo, inexplicável. Talvez faça isso para fugir dos cachorros que, dizem as histórias, o perseguem. Talvez a corrida diminua a força da Lua Cheia sobre o homem condenado a ser lobo, ou talvez a peregrinação por locais sagrados (igrejas, cemitérios) seja importante para a quebra do encantamento. Uma coisa é evidente: o local original da transformação em lobo deve ser o ponto de partida do peregrino.

O que concluímos? Que o fascínio dos leitores pelas histórias de maldições, transformações, vampiros, lobisomens e outros seres fantásticos é muito antiga. Sua razão pode estar na busca das pessoas pelo encontro com o parceiro ideal, como ocorre no ciclo do Noivo Animal. Ou no fascínio pelo nosso próprio sangue, líquido misterioso que é o fluido da vida e que causa um misto de repulsa e atração… Seja como for, as histórias de lobisomens estão aí, perpetuando-se, emocionando e encantando – no bom sentido! – leitores e ouvintes.

*


Luís da Câmara Cascudo. Dicionário do Folclore Brasileiro. Ed. …

[2] Veja-se a esse respeito A Psicanálise dos Contos de Fadas, de Bruno Bettelheim. Ed. Paz e Terra.

[3] Ovídio. Metamorfoses. Ed. Madras.

[4] Neil Gaiman. O Livro do Cemitério. Ed. Rocco.

[5] Helena Gomes e Rosana Rios. Sangue de Lobo. Ed. DCL / Farol Literário.  Veja também p Blog do livro: http://sangue-de-lobo.blogspot.com/

[6] J. K. Rowling. Harry Potter e as Relíquias da Morte. Ed. Rocco.

Magos, Bruxas e Feiticeiros: o Bem e o Mal na Literatura de Fantasia

They brought me her heart. I know it was hers – no sow’s heart or doe’s would have continued to beat and pulse after it had been cut out, as that one did.
Neil Gaiman – Snow, Glass, Apples

Nota: se você não leu O Mágico de Oz e Wicked, vai encontrar spoilers neste artigo.

Personagens praticantes de magia aparecem em histórias da tradição oral desde que o mundo é mundo. Muito antes que Harry Potter voasse em sua vassoura nas aulas de vôo de Madame Hooch em Hogwarts, feiticeiros e feiticeiras já andavam às voltas com palavras de poder, encantamentos, vassouras e caldeirões nos mitos e contos de fadas, as narrativas ancestrais que deram origem ao que hoje chamamos de Literatura.

E, embora nessas histórias antigas os bruxos e bruxas tenham sido retratados com frequência como personagens malignos, nem sempre isso aconteceu. Bem antes de a ideia de “Mago do Mal / Mago do Bem” ser personificada em Voldemort / Dumbledore, temos feiticeiras odiadas como Medéia e Circe (mitologia grega), magos nefastos como o tio de Aladim (1001 Noites), e bruxas terríveis como a madrasta de Branca de Neve (Irmãos Grimm); mas encontramos também magos benignos como Merlin nos mitos do Ciclo Arthuriano ou Gandalf na obra de J. R. R.Tolkien, e bruxas ambíguas como a da tradição oral russa, Baba-Yagá, que se apresenta ora com um aspecto maligno, ora com um aspecto maternal.

O arquétipo da bruxa, aliás, é caracterizado por essa ambiguidade: sua origem pode estar em antigas religiões matriarcais, em que se venera a Deusa, a Grande Mãe, que tanto pode doar vida como tirá-la. Há inúmeros exemplos em variadas mitologias (Inanna, Ishtar, Astarté, Ceridwen), mas uma das figuras mais arquetípicas nesse sentido é a deusa Kali, do Hinduísmo – deusa da morte mas também da vida, terrível porém necessária à manutenção da existência. Essa dualidade vai permear as figuras literárias que são sucedâneos do arquétipo da Mãe-Bruxa-Deusa através dos séculos (seja em figuras femininas ou masculinas, devemos notar) e que são descritas como praticantes de magia, feitiçaria, bruxaria – machos ou fêmeas.

Podemos começar a analisar como esses praticantes de magia são vistos nas histórias da literatura (e como com o passar do tempo essa visão muda, transforma-se, enriquecendo nossa percepção da ideia de Bem versus Mal) escolhendo dois casos interessantes.

O primeiro caso une a obra O Mágico de Oz, de L. Frank Baum (1900), a seu sucedâneo, o livro Wicked, de Gregory Maguire (1995).

O Mágico é Oz é considerado o primeiro e mais bem-sucedido livro de Fantasia infanto-juvenil dos Estados Unidos. Foi publicado em 1900, quando seu autor, o eclético Lyman Frank Baum, tinha 44 anos. Baum foi avicultor, produtor teatral e caixeiro-viajante, entre outras coisas; e, como ocorre a muitos escritores (inclusive eu mesma), começou a inventar histórias apenas para contá-las aos filhos. Após o lançamento do livro A Cidade Esmeralda de Oz, cujo título foi alterado para O Maravilhoso Mágico de Oz, ele se firmou como escritor e adaptou a história para uma versão musical, apresentada em Chicago em 1902. Daí o musical foi para a Broadway, e o grande sucesso do livro e da peça o levaram a escrever outras histórias baseadas na Terra de Oz.

Em 1939 seu primeiro livro foi transformado em uma superprodução da Metro sob a direção de Victor Fleming, estrelando Judy Garland e, embora houvesse uma versão anterior, nos primórdios do cinema, esta foi considerada a definitiva. A grande popularidade da produção fez com que a obra se transformasse em uma das histórias mais conhecidas e parodiadas na história das telinhas e telonas. Os personagens se tornaram parte da cultura oral, virtual, televisiva e cinematográfica: quem nunca ouviu falar no Mágico de Oz, na Cidade Esmeralda, nos Munchkins, na Estrada de Tijolos Amarelos, nos sapatos encantados, nos Macacos Voadores e na Boa Feiticeira Glinda, além dos inefáveis Espantalho sem cérebro, Homem de Lata sem coração e Leão covarde? Quem nunca cantarolou a canção “Over the Rainbow”?

A Terra de Oz é um mundo colorido – em oposição ao mundo cinzento original da protagonista, Dorothy (o Kansas). Sob esse ponto de vista, trata-se de uma Utopia: uma terra cheia de magia, animais falantes e bons sentimentos – veja-se como Dorothy encontra acolhida e bondade pelo caminho – exceção feita, é claro, aos antagonistas como a pérfida Bruxa Malvada do Oeste e monstros ocasionais, como os Kalidahs e os Cabeças-de-Martelo. O Mágico (uma tradução para Wizard, que hoje seria traduzida de preferência como Mago, ou Feiticeiro; veja nota de rodapé.[1]) é um governante na Cidade Esmeralda, temido e poderoso. Mais tarde descobrimos que na verdade Oz é humano, e não possui capacidade mágica alguma; usa de tecnologia, truques, para impressionar os Ozianos e se manter no poder (é peculiar como, ao optar pela tecnologia como forma de dominação de um povo, ele se assemelha a Saruman, embora o Istar [mago] de O Senhor dos Anéis possuísse, sim, poderes de magia, apesar de que não pudessem superar os de Gandalf, que o combateu antes e depois de se tornar Gandalf o Branco).[2]

No entanto, Oz não é perverso, é apenas uma fraude, um usurpador; e tem medo dos reais poderes existentes na Terra de Oz – as quatro Bruxas, do Norte, Sul, Leste e Oeste. Nesse cenário, tais personagens (suas designações às vezes são traduzidas como Bruxas, às vezes como Feiticeiras, uma palavra menos carregada de carga semântica negativa) dominam os quatro países, ou regiões, Ozianas: Gillikin ao Norte, Quadling ao Sul, Winkie / Winkus a Oeste e Munchkin a Leste. As Bruxas do Leste e do Oeste são malignas, enquanto as do Norte e do Sul são benignas. A única a ser designada pelo nome, por Baum, é Glinda (segundo ele, a Bruxa Boa do Sul).

O clássico de Baum está novamente em efervescência hoje em dia por obra e graça do autor Gregory Maguire, que em 1995 publicou o best-seller Wicked (Maligna,), uma versão da história de acordo com o ponto de vista da Bruxa Malvada do Oeste – ou, talvez, fosse mais correto chamar o livro de uma versão ampliada das motivações dos personagens, centrada no relacionamento entre Glinda e Elphaba (a Maligna, ou Wicked Witch of the West do título) e levando em conta uma história anterior da Terra de Oz e um detalhamento das relações entre os diversos povos Ozianos.

Em Maligna, Oz não é mais uma Utopia, um mundo colorido e bonitinho, mas um mundo enroscado em diversidades, que fazem com que as diferentes terras / diferentes raças convivam num delicado equilíbrio político – e onde existem dúvidas, preconceitos, divergências religiosas, problemas com a posse dos meios de produção, luta pelo poder, assassinatos, corrupção, erotismo, censura e terrorismo. Ah, sim, e magia.

Essa intrigante e perturbadora fantasia é uma versão do que teria ocorrido na Terra de Oz antes e durante a visita da menina  Dorothy àquele mundo, porém contada do ponto de vista da Bruxa Malvada do Oeste, o que faz com que, como é dito na contracapa do livro, após essa leitura nunca mais olhemos para Oz da mesma forma…

O foco na vida das bruxas é mostrado com detalhes que não existem no livro que deu origem a tudo. Glinda, aqui, será a Bruxa Boa do Norte; Nessarose, a Bruxa Má do Leste; e sua irmã Elphaba, a Bruxa Malvada do Oeste. Tais personagens são desenvolvidas desde a infância/adolescência até o momento em que entram em confronto com o personagem ambíguo do Mágico de Oz (grandes surpresas quando percebemos sua verdadeira natureza…) e da tremenda Madame Morrible – esta sim, a verdadeira malignidade da história, e que não está presente no clássico. A pergunta inicial que Maguire coloca é: por que Glinda é tão amada e Elphaba tão odiada? O que fez as Bruxas serem o que são?Maldade? Bondade? Ou a força onipresente da Propaganda?

Os Munchkins, Winkies e Quadlings são mostrados de uma forma bem diferente do que nas obras originais; e quanto a Dorothy, a garota não é mais apenas a protagonista boazinha que (literalmente) caiu em Oz por obra do acaso – ela aparece como uma inocente útil que se envolve com a luta por poder e liberdade em Oz. Mas, de certa forma, essa noção já estava presente em Baum. No livro original, quando a garota finalmente chega à Cidade Esmeralda (após percorrer a Yellow Brick Road, estrada de tijolos amarelos) e encontra o Mágico, as palavras dele são as seguintes:

– Você não tem o direito de esperar que eu a mande de volta ao Kansas, a menos que você em troca faça algo por mim. Nesta terra todo mundo deve pagar por tudo que obtém. Se você quer que eu use meus poderes mágicos para mandá-la de volta a sua casa, precisa fazer alguma coisa por mim antes. Ajude-me que eu ajudo você.

– Que devo fazer? – perguntou a menina.

– Mate a Bruxa Malvada do Oeste – respondeu Oz.

Maguire leva às últimas consequências esse diálogo. Manipulada por Oz, a criança deve se tornar uma assassina. O resultado é que o Bem e o Mal se confundem, e de repente não podemos distingui-los claramente, pois também nós, leitores, somos ofuscados pelas verdes e hipnotizantes luzes da Cidade Esmeralda. No torvelinho que se segue a personagem mais fascinante é Elphaba, a menina que nasce verde e que, sem perceber, vai sendo transformada pelas circunstâncias na figura que hoje temos como estereótipo da malignidade. Seria ela realmente maligna, ou apenas teria optado por manter seu livre arbítrio diante de um déspota? De repente, o Mágico de Oz não é mais apenas um atrapalhado usurpador, tornou-se uma figura assemelhada a um Sauron (de O Senhor dos Anéis), um Galbatorix (de Eragon), um Tirano (de Crônicas do Mundo Emerso) e tantos outros arquétipos do detentor de poder militar, esteja ele à direita ou à esquerda de uma classe média que preferiria permanecer neutra quanto à política. Perdidos na história, em meio à eterna dualidade do Bem contra o Mal, enxergamos nuances inesperadas nas entrelinhas do discurso que envolve esses dois conceitos – em Wicked não tão rígidos quanto na obra clássica, embora, como vimos, até ali já se abrisse certo espaço para uma discussão não-maniqueísta.

A versão da Broadway para Wicked, um musical magnífico, em cartaz desde 2003, é mais leve e menos complexa que a história do livro, mas transborda de ironia e sarcasmo quanto à hipocrisia de uma sociedade ávida por bodes expiatórios (e um dos bodes expiatórios aqui é mesmo um Bode…). Mas são ricas e interessantíssimas as discussões resultantes desse embate entre O Mágico de Oz livro, musical e filme e Wicked (livro e musical, sem esquecermos que diz-se haver em Hollywood a pré-produção uma versão para cinema, prometida para 2010).
Na saída do teatro, na Broadway, em letras garrafais (verdes, é claro), há os dizeres:

YOU ARE NOW LEAVING OZ. REALITY RIGHT AHEAD.

DRIVE (OR FLY) CAREFULLY.

Ao deixar a Terra de Oz, então, e encontrar a Realidade à nossa frente, restam-nos as dúvidas e a necessidade premente de analisar sempre, duvidar sempre, das noções de Bem e Mal que nos são apresentadas, na ficção ou na realidade.

O segundo caso que gostaríamos de comentar, ao confrontar algumas versões de obras de Fantasia que abordam Magos, Bruxas e Feiticeiros, é a história de Branca de Neve. Certa ocasião, para compor uma peça teatral encomendada, li pelo menos dez versões desse conto folclórico, recontado pelos irmãos Grimm em sua forma mais conhecida. Em todas elas encontrei a garota, Snow White (Branca de Neve) retratada como a proverbial princesinha dos contos de fada, bondosa, amorosa e merecedora de toda a felicidade, enquanto sua Madrasta é maligna, dada a práticas de magia negra e traições sem fim. Os mesmos estereótipos que cercam Dorothy e Elphaba.

Originalmente, como ocorre com os contos de fada, esta não era uma história para crianças; com o tempo, porém, passou a ser; e reconhecemos sua origem não-infantil claramente, ao analisar os castigos a que a Madrasta-Bruxa é submetida no final do conto. Eles dariam inveja a um torturador da Inquisição: vão desde a versão açucarada da Disney, em que a tempestade a faz cair de um precipício, até a condenação à morte, que a faz ser levada a uma praça pública e ter de calçar um par de sapatos de ferro incandescentes, para dançar até cair morta.

Podemos encontrar, porém, uma versão dessa história que faz o que Wicked fez a Oz: mostra a versão do antagonista – não mais a Bruxa Malvada do Oeste, mas a Madrasta de Branca de Neve. Em Smoke and Mirrors, uma coletânea de contos do autor britânico Neil Gaiman, o conto Snow, Glass, Apples retrata Branca de Neve como uma vampira – faz sentido, afinal a garota é branca como a neve, tem a boca vermelha como sangue, e ostenta um aspecto frio, gelado, presente até em seu nome.

Então a inversão acontece novamente: o Bem e o Mal se confundem, e a Rainha, a feiticeira maligna que enfeitiça a enteada com uma maçã envenenada e manda arrancar-lhe o coração, estaria apenas tentando livrar o mundo de uma gélida sugadora de sangue. O que a condena (a Rainha) a uma morte terrível. Perturbador, não?

Não há dúvidas de que, se O Mágico de Oz e Branca de Neve são hoje consideradas histórias exemplares para crianças, reflexões sobre elas a que obras como as de Maguire e Gaiman nos levam são bem-vindas e salutares. Num mundo em que pessoas e instituições, devidamente respaldadas por leis setoriais ou escrituras ditas sagradas, ainda queimam livros (literalmente), e seus autores são execrados por parcelas da população que abençoam a censura, consideram a tortura a terroristas aceitável e certamente aplaudiriam a execução pública de praticantes de magia / bruxaria / feitiçaria ou quaisquer práticas que eles julguem como tais – é mais do que importante discutir os arquétipos e as noções de Bem e Mal presentes nos livros, suas implicações e motivações.

E está aí uma das funções mais importantes da Literatura Fantástica.

Leituras sugeridas:

O Mágico de Oz – L. Frank Baum. Editoras: Ática, Martin Claret, Ediouro, L&PM.

Maligna – Gregory Maguire. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.

Branca de Neve – Irmãos Grimm. Inúmeras editoras.

Smoke and Mirrors – Neil Gaiman. New York: Harper Collins, 1998.


[1] Vejamos as traduções mais correntes para palavras da língua inglesa ligadas aos praticantes de magia: Witch – bruxa, feiticeira. Wizard – mágico, feiticeiro, bruxo, encantador, adivinho.  Sorcerer – mágico, feiticeiro. Sorceress – feiticeira, bruxa. Magician – mágico, prestidigitador. Magi – (plural magus) mágicos, feiticeiros ou astrólogos – esta provavelmente a origem da variação Mage, muito usada em Role Playing Games.

[2] Tolkien, J.R.R., O Retorno do Rei, SP: Martins Fontes/Lisboa: Europa-América.