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Smaug O Dourado

Com a crescente fama d’O Hobbit, nada mais oportuno do que traçar um perfil do Vilão maior da história de J.R.R.Tolkien, o dragão Smaug!

Smaug o Dourado foi o grande dragão da Terceira Era, sobrevivendo na Terra Média envolto por tesouros roubados e por ele guardados dentro da Montanha Solitária.

Smaug foi o último dos grandes dragões de fogo, e embora não o último da espécie era dito ser o maior de seu tempo. Estranhamente materialista por ser um dragão, em algum momento ouviu sobre o grande tesouro dos Anões de Erebor. De onde ele veio realmente não se tem certeza, mas no ano 2770 da Terceira Era, Smaug desceu dos céus com todo seu poder de fogo e atacou a Montanha Solitária, destruindo o reino dos anões e povoado vizinho de Dale.

Depois da matança, Smaug se apossou da Montanha Solitária e de tudo o que nela havia. Deitando encima do tesouro e lá permanecendo como se o ouro lhe fosse um ninho.

“A minha armadura é dez vezes como escudos, meus dentes são espadas, minhas garras são lanças, o choque da minha cauda é um raio, as minhas asas são um furacão, e minha respiração é a morte!” (Smaug em O Hobbit)

Smaug parecia ser muito vaidoso, e acreditava em sua própria invulnerabilidade. A mera idéia de que os anões pudessem se vingar  lhe provocara um ataque de riso histérico.  Pode-se dizer que foi apenas sua ganância e preguiça que o impediu de continuar a assolar as terras vizinhas. Não sairia de perto de seu tesouro para se esforçar por pouco.

Entretanto sua crença na invulnerabilidade vinha pelo fato de que sua barriga era realmente tão forte e dura como escudos. De tanto permanecer deitado sobre seu tesouro, pedras e ouro se incrustaram e sua barriga formando uma casca quase impossível de ser penetrada.

“Quase”, pois em um único ponto em sua barriga havia uma falha, um pequeno local onde o ouro e as demais jóias não ficaram presos, deixando ali, sua ruína!

Eis que em um dia em outubro de2941 Smaug acordou perturbado ao notar que uma única taça de todo seu enorme tesouro, lhe havia sido roubada. Perturbado e mais irado do que nunca pois em toda sua vaidade jamais se imaginou sendo enganado.

E essa é a fábula contada em O Hobbit, a história vivida pelo hobbit Bilbo Bolseiro como membro da Comitiva do anão Thorin Escudo de Carvalho para recuperar seu trono e tesouro, como descendente do Grande Rei Sob a Montanha, que Smaug havia expulsado de sua salões tantos anos antes. Comitiva formada com a ajuda do mago Gandalf, que lhes entregara um mapa com uma passagem lateral da montanha e uma chave para que essa passagem fosse aberta, possibilitando assim a entrada da comitiva.

Bilbo, e seu anel mágico (posteriormente reconhecido como o UM, de Sauron) havia ficado invisível e saqueado a taça do tesouro de Smaug. Durante o furto, conversando com o Dragão, para ganhar tempo e lhe provocar olhou o dragão de perto, tendo o cuidado de não ser encontrado. Mas matar Smaug e recuperar o tesouro era de fato o combinado entre a comitiva.

Após tal provocação, Smaug enfurecido, acreditando que Bilbo fazia parte do povo do lago que morava no vilarejo ao lado da montanha, voou para fora da montanha, atacou os anões e Bilbo, que acabaram por serem selados dentro da montanha, e frustrado, partiu para atacar os homens do lago.

E esse foi seu maior erro! Esse foi o último vôo Smaug!

Bilbo havia descoberto a falha de sua invencibilidade e transmitido à Cidade do lago para o herdeiro de outra das vítimas de Smaug, Bard, descendente de Gírion de Dale.  O homem acertou uma flecha no ponto desprotegido do dragão e Smaug caiu derrotado, mas não sem antes devastar a Cidade do Lago como antes havia feito com Dale. Seus ossos ainda puderam ser vistos no fundo do lago durante muitos anos, bem como as jóias que lhe incrustavam o corpo.

A queda de Smaug antecedeu a grande batalha dos Cinco Exércitos, onde homens, elfos, anões e orcs brigavam pelo tesouro, tendo os três primeiros povos se unido ao exército das águias para derrotar os orcs, selando assim o recomeço de uma antiga amizade.

Fontes: Encyclopedia of Arda, The Thain’s Book e Tolkien Gateway

Seres Fantásticos na Literatura – Dragões

“Há muito tempo, desde o começo da humanidade, o dragão,

com seu corpo de serpente e seus poderes mágicos, esteve presente entre nós,

sugerindo-nos que existe um ser imortal presente no interior de todas as coisas.”

Francis Huxley[1]

O Dragão é provavelmente a criatura fantástica mais conhecida e discutida do mundo. Existe em todas as tradições, sob uma forma ou outra. É ligado aos quatro elementos, ou seja, também é um ser elemental – segundo a teoria filosófica pré-socrática de que o mundo seria composto por quatro elementos básicos: ar, água, terra e fogo. Dizia o filósofo Empédocles (século IV a.C) que essas quatro raízes compunham tudo o que existe, sendo animadas por duas forças contrárias, que foram chamadas de “amor” e “ódio”: ou seja, a força de atração e a força de repulsão. Muitos seres fantásticos da mitologia e da literatura têm essa ligação com algum dos quatro elementos. No caso do Dragão, ele seria um ser do fogo e/ou da água, e seu caráter se altera dependendo da mitologia em questão.

A palavra vem do grego drákon e também do latim draco. Parece derivar do verbo grego derkomai, “ver”; ou deskesthai, “lançar olhares”. Estaria, então, associado à idéia de ver, olhar e, portanto, conhecer. Não é de se admirar, então, que as lendas digam que é perigoso olhar nos olhos de um dragão.

“Muitas tradições falam de um abismo cheio de água revolvida por um espírito ardente

que pode ver graças à sua própria luz. Assim, como nos contam os Upanishads hindus,

o espírito olha faminto ao seu redor; esta ação é que dá ao dragão o seu nome (…)”. [2]

A palavra para designá-los em algumas línguas (Drache, Drake) também designa as serpentes. Outra palavra antiga para dragão é Verme, que vem de Worm ou Wyrm.

O dragão mais antigo das histórias pode ser Tiamat, uma divindade babilônica que personificava o Caos: o universo antes de ser organizado. Diz o Enuma Elish, Mito de Criação Babilônico, que Tiamat era a água salgada, em oposição a Apsu, a água doce. Da mistura de suas águas surgiu o universo, e deu-se à luz os primeiros deuses. Mais tarde os deuses mataram Apsu; Tiamat, com personalidade feminina, voltou-se contra eles e começou a gerar monstros, inclusive os primeiros dragões. Ela seria morta pelo deus-herói Marduk, e de seu corpo ele teria criado o céu, a terra, os astros, os rios, os seres vivos.

Para os chineses, eles são criaturas benignas e de vários tipos: o Dragão Divino, o Dragão Terrestre, o Subterrâneo. Dragões seriam antepassados dos imperadores da China; o primeiro governante a assumir a forma dracônica foi o lendário Fu Hsi. Ainda segundo tradições chinesas, existiam quatro Dragões da Água que governavam os quatro oceanos do mundo: Ao Kuang, Ao Jun, Ao Shun e Ao Chi. Todos eram servos do Imperador de Jade e moravam no fundo das águas.

Vem também da China a crença de que eles teriam atributos de nove “animais”: chifres de cervo, cabeça de camelo, olhos de demônio, pescoço de serpente, barriga de molusco, escamas de peixe, garras de águia, pés de tigre e orelhas de boi.

Seria, então, o dragão um animal que viveu em eras passadas, como os antigos sáurios? Ou será que, quando os antigos encontravam enormes ossadas fósseis, julgavam que aqueles eram ossos de animais desconhecidos, fantásticos? Talvez venham daí as primeiras histórias sobre dragões na cultura humana…

“Os chineses dizem que o fogo do dragão e o fogo humano são coisas opostas. Se o fogo do dragão entrar em contato com algo úmido, lança chamas; e se entrar em contato com a água, incendeia-se.

Se alguém se enfrenta a ele com fogo, conseguirá fazê-lo parar de arder e as chamas se extinguirão.

Isso, por sua vez, pode ser comparado com a correspondência alquímica do dragão com a Matéria Prima e com a regra segundo a qual, para limpar uma substância, não se deve usar água, mas fogo. [3]

Por muito tempo acreditou-se que as salamandras seriam pequenos dragões. Há referências a elas em bestiários medievais e em obras de não-ficção. O próprio Santo Agostinho as cita como animais que vivem no fogo, querendo provar que os corpos humanos poderiam viver no fogo do inferno sem ser consumidos!

E tanto Aristóteles quanto Leonardo da Vinci atestaram a existência real desses animais como capazes de viver nas chamas. Marco Polo diz ter visto em suas viagens tecidos de pele de salamandra, que não queimavam no fogo – embora, na verdade, desconfie-se que esses tecidos eram feitos de amianto.

Como vimos, além do fogo, os dragões são associados fortemente ao elemento água. Ou estão nas nuvens, e são senhores da chuva, ou nos mares e rios; para os chineses, a chuva fina é celestial, mas a tempestade violenta é a “chuva do dragão”… E encontramos em variados folclores a ideia de que, se uma mulher banhar-se em rio ou mar, pode engravidar pela ação de um ser mítico: cobra grande, boto, serpente, sempre uma criatura com características dracônicas. Isso liga os dragões aos m’bois, as cobras gigantes do folclore brasileiro. O m’boi é o arquétipo do dragão na América Latina.

Se no Oriente os dragões estão ligados à chuva, sua capacidade de exalar ou projetar fogo aparece mais nas lendas do Ocidente. Longe da tradição que os considera como benignos ou neutros, em histórias ocidentais ele simboliza forças demoníacas. É esse o sentido da história de São Jorge: o Cruzado (que é o Cristianismo) mata o dragão (vence o demônio) e converte o mundo. Faz sentido um ser infernal ter domínio do elemento fogo, e eis aí porque as pessoas acreditaram em tais criaturas com hálito ardente.

Há na verdade duas histórias de São Jorge. Uma, que pertence à história cristã, conta sobre um cavaleiro da Capadócia que lutou nas Cruzadas. Outra conta sobre um cavaleiro que salvou uma princesa de ser devorada por um dragão. As duas convergiram em uma só, que aparece em variadas versões.

Jorge foi um mártir cristão nascido na Capadócia, na Ásia Menor. Consta que foi morto na Palestina no ano 303, conforme inscrições encontradas numa igreja da Síria e atestadas por um Cânon do Papa Gelasius I, de 494.

Diz uma lenda que em certa cidade pagã da Líbia um dragão aterrorizava o povo, que tentava aplacá-lo com ofertas de ovelhas e de seres humanos em sacrifício. Quando, escolhida por sorteio, a próxima vítima devia ser a filha do rei, o povo a levou até o monstro para ser morta. Nesse momento, um cavaleiro que voltava das Cruzadas chegou lá, matou o dragão, libertou a princesa e todos os habitantes locais se converteram ao Cristianismo como agradecimento ao herói. [4]

Outra versão da história diz que a cidade era Silene, também na Líbia, e que o dragão se abrigava num pântano. Todas as moças já haviam sido sacrificadas a ele: a última viva era a filha do rei. Jorge, o cavaleiro, chegou ao pântano e libertou a princesa. Ela, então, tomou seu cinto e prendeu o dragão pelo pescoço com ele, conduzindo-o para a cidade; lá, em vista de todos, Jorge o matou. Mas não quis aceitar a mão da moça em casamento, mantendo sua castidade de missionário cristão. [5]

Embora São Jorge hoje não seja mais um santo “oficial”, em 1222 o Concílio de Oxford instituiu a Festa de São Jorge no dia 23 de abril, e no século XIV ele se tornou o Santo Padroeiro da Inglaterra. Não é de se admirar, já que o herói mítico mais popular do Reino Unido, Arthur, é um Pendragon, e sua linhagem ostentava o dragão como símbolo. A própria bandeira do País de Gales mostra um dragão vermelho sobre um campo verde e branco. Podemos supor que o branco simboliza o mundo espiritual e o verde o mundo terreno; o dragão colocado sobre ambos demonstra seu domínio sobre céu e terra, espírito e matéria.

A mitologia grega também está repleta de dragões. Um dragão atacou os homens de Cadmo, que buscava sua irmã Europa, raptada por Zeus; o herói o matou e a deusa Atena sugeriu que ele semeasse os dentes do bicho. Dos dentes brotaram da terra guerreiros armados que lutaram até destruir-se; os que sobraram fundar com Cadmo a cidade de Tebas. Heróis como Héracles também enfrentaram dragões; um dos mais famosos foi Ládon, que guardava os pomos de ouro do jardim das Hespérides, filhas de Atlas.

Já na mitologia Nórdica temos Fafner, do Anel dos Nibelungos, o gigante e inimigo dos deuses que, transformado em dragão, dormia sobre o Ouro do Reno. E na mitologia Anglo-Saxã encontramos Grendel, o dragão que atacou a Dinamarca e que seria morto por Beowulf. Em tais relatos, de inspiração europeia, é comum haver uma ligação entre os dragões e tesouros preciosos. Um autor especulou que ouro e pedras preciosas seriam matérias desejáveis aos dragões, pois o ouro, metal incorruptível, formaria um leito não-corrosivo para o verme – algumas histórias falam em dragões que soltam ácido – e as gemas, quase  indestrutíveis, protegeriam seu ventre das armas humanas como uma couraça preciosa. [6]

Na ficção, cada autor utiliza os dragões da forma que deseja. Em ficção científica os mais famosos talvez sejam os Dragões de Pern, descritos pela autora Anne McCaffrey. Na fantasia, temos os dragões descritos por J. R. R. Tolkien, como Glaurung, criado por Morgoth para atacar elfos e humanos. E muitos outros, como os que habitam o mundo de Harry Potter; esses estão divididos em espécies oriundas de vários pontos do mundo. São descritos com características biológicas detalhadas; e sim, cospem fogo.

Nas “Crônicas de Spiderwick”, o personagem Arthur Spiderwick diz que eles pertencem à família Draconidae, em duas espécies: o Wyrm, terrestre (Draco antiquissimus) e o Wyvern, alado (Draco Alatus).

Na Trilogia da Herança, de Christopher Paolini, os dragões estão quase extintos e são ligados a seus cavaleiros desde antes do nascimento – o que os aproxima dos dragões de Pern, que saem do ovo para pessoas específicas, ficando ligados a elas por toda a vida. O mesmo ocorre com dragões nas histórias de Téméraire, da autora americana Naomi Novik. Nessa história alternativa das guerras napoleônicas, os humanos treinam dragões para a guerra numa força aérea, e também existe a ligação profunda, desde que o dragão sai do ovo, entre ele e seu cavaleiro, ou melhor, dragaleiro, já que dragões não são cavalos.

Não é difícil concluir que, muito mais que o unicórnio, a fênix ou os centauros, o dragão é o ser fantástico mais presente em mitos, lendas e ficção. O fascínio que sua figura exerce sobre nós é extraordinário. Do ponto de vista simbólico, podemos até dizer que o dragão representa nosso próprio fogo interior, que algumas tradições esotéricas chamam de Kundalini, o fogo serpentino que se acredita ser a fonte da criatividade e da sexualidade no ser humano.

Não existem limites para a aparição dos dragões na literatura. Animais ou seres racionais superiores, senhores da chuva ou lançadores de fogo, suas histórias ainda vão nos encantar por muitos séculos.

“Aqui é o lugar onde os dragões foram parar. Eles repousam… nem mortos, nem adormecidos.

Nem à espera, porque esperar implica ter alguma expectativa.

É possível que a palavra seja… entorpecidos.

E, embora o espaço que ocupem não seja como o espaço normal,

ainda assim estão amontoados e apertados uns contra os outros.

Não há um centímetro cúbico que não contenha uma pata, garra, escama ou a ponta de uma cauda. O efeito disso é comparável àqueles desenhos de ilusão de ótica,

e nossos olhos acabam percebendo que o espaço entre cada dragão é, na verdade, outro dragão.

É possível imaginar uma lata de sardinhas,

isso se você achar que as sardinhas são enormes, cheias de escamas, orgulhosas e arrogantes.

E que, supostamente, em algum lugar, há um dispositivo de abertura.”

Terry Pratchett[7]

Leituras sugeridas:

O Silmarillion – J. R. R. Tolkien – Ed. Martins Fontes

Crônicas do Mundo Emerso (3 volumes) – Licia Troisi – Ed. Rocco

His Majesty’s Dragon – Naomi Novik – Ballantine Books

The Fire Within – Chris d’Lacey – Scholastic Books

Crônicas de Dragonlance (3 volumes) – Margareth Weis e Tracy Hickman – Ed. Devir

Como criar e cuidar de um dragão – John Topsell – Ed. Marco Zero

Dragonflight – Anne McCaffrey – Ballantine Books


[1] Huxley, Francis. Mitos, Deuses, Mistérios: o Dragão. Espanha: Ed. Del Prado, 1997. Pp. 05-07.

[2] Idem.

[3] Huxley, Francis, op. Cit., p. 9.

[4] Fonte: Microsoft Encarta Enciclopédia, 2000.

[5] Fonte: Francis Huxley, op. Cit., p. 15.

[6] Dickinson, Peter. Flight of Dragons, The. 1979.

[7] Pratchett, Terry. Guardas! Guardas! São Paulo: Conrad do Brasil, 2005. P. 11.