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Rumo às Terras Imortais

Depois dos últimos três artigos, sobrou pouca coisa a ser descrita sobre as filmagens do Hobbit em si. Às vezes me pego rindo muito com alguns acontecimentos esparsos que nem eu lembrava direito e que de repente vêm à minha mente. Aos poucos vou compartilhando estes momentos com vocês. Mas confesso que ao lembrar destes momentos, das filmagens, das inúmeras viagens a 25 de março, dos ensaios de roteiro, das madrugadas escrevendo e pesquisando, percebi um imenso vazio. E isso é algo que preciso compartilhar com vocês neste atual momento porque depois que enviei todo o material para a Nova Zelândia percebi o quanto eu era apegado a tudo isso. Digo, trabalhar nesse curta consumiu tempo, energia, disposição, dinheiro. Mas era algo que ocupava meus pensamentos todo santo dia. Mesmo que nada pudesse ser feito naquele momento, eu esquematizava tudo o tempo todo. Eu sabia que nos meus planos de vida ir para São Paulo tinha uma razão. Eu iria estudar, ganhar algum dinheiro e fazer O Hobbit a qualquer custo. E assim o fiz. Isso me impelia a deixar o interior que amava para me perder na cidade grande em busca desse sonho. E agora?

Digamos que tudo o que restou foi a expectativa. No próprio correio fui informado que a Nova Zelândia não aceita madeira vinda de fora. Adivinhem do que era a caixinha que mandei? BINGO! Nem preciso dizer que fiquei desesperado né? A atendente do correio disse que se não fosse madeira pura estava tudo bem, que eles implicam mesmo com madeira maciça. Estou na expectativa. Durmo com meu celular do lado, coisa que sempre odiei fazer, e a cada ligação tenho um sobressalto. É ele, é o Peter Jackson! Mas não é. Se bobear a caixinha nem chegou por lá ainda, e talvez nem caia nas mãos dele diretamente. Começo a lidar com a realidade e não sou muito bom nisso. Mas agora é só deixar nas mãos do destino. Se alguém da alfândega ousar destruir minha caixinha mando quantas outras forem preciso. De papel, metal, pedra. Mas mando! E se nada der certo, sou capaz de levar em mãos e bater na porta da WingNut Films.

Foi ao escrever isso que me dei conta da atual situação. Estou preso entre dois mundos que não me satisfazem mais. De um lado, o interior que eu amava tanto mas que hoje só me mostra a sombra de alguém que um dia fui. De outro, a gigantesca metrópole de São Paulo que em nada me encanta mas me foi necessária. Mas nenhum dos lugares me satisfaz. Embora em São Paulo eu esteja começando a árduos passos produzir um programa sobre Tolkien para internet, é um lugar que não me satisfaz mais. Sempre me perguntei por que Frodo e Bilbo não conseguiram ficar no Condado após suas respectivas jornadas. Agora, finalmente eu entendo. Você simplesmente não se adapta mais. Você fica inquieto e tem a sensação de não pertencer mais àquele lugar. E então decidi que vou continuar com meus planos em relação ao programa mas em outro lugar. Vou cruzar o Grande oceano rumo às Terras Imortais, vulgo Nova Zelândia.

Muitas pessoas devem achar que estou pirando ou algo assim mas há uma lógica enorme nisso tudo. Primeiro, vou garantir que meu material chegue onde quero sem intermediários e malditos agentes alfandegários destruidores de caixas de madeira. Segundo, vou produzir parte do programa lá o que será muito mais interessante pelo fato de eu estar próximo às locações e à produção do filme. Creio que com isso os brasileiros poderão ter mais acesso às informações em tempo real do que acontece por lá. Atualmente me correspondo com algumas pessoas de lá, especificamente da produtora dos filmes. E nada ainda foi iniciado, mas já estão marcando a montagem dos primeiros sets e unidades de trabalho para o começo de 2009. Creio que as filmagens só comecem a ocorrer no meio do ano. Claro que pretendo ir antes disso.
Mas enquanto junto dinheiro e isso não acontece, posso falar um pouquinho das agruras de produzir um programa piloto mesmo que para internet.

Bom, digamos que depois de um bom tempo, eu e minha sócia e amiga Lígia Frigatto, conseguimos uma pequena equipe, parte daquela que me ajudou com o Hobbit. Sim, os Sams do artigo anterior. Comprei iluminação, discutimos o roteiro do piloto e no atual momento estamos preparando um teaser bem curtinho que deve ser disponibilizado para vocês em breve por aqui. Sentimos uma responsabilidade enorme pelo fato de ser um programa único e com 40 minutos de duração. Parece pouco, mas para produzir cada minuto leva-se uma eternidade de pesquisa, ensaios, ilumina aqui e acolá, retoca a maquiagem, etc. Mas podemos garantir que tudo está sendo feito com o maior capricho. Em breve pretendemos filmar a abertura e voluntários são bem vindos sempre. Enfim, estou descobrindo a cada dia que às vezes um sonho impulsiona outro ainda maior e temos que abrir as portas para que as coisas aconteçam.

Agora só nos resta trabalhar bastante, suar a camisa mesmo e ir para a Nova Zelândia buscar uma nova estrada, pois:

“A estrada em frente vai seguindo,
Deixando a porta onde começa.
Agora longe já vai indo,
devo seguir nada me impeça”

Não é mesmo?

Mooreeffoc

thiago_tizzot.jpgFantasia é uma coisa complicada de se entender. Estava conversando com minha mulher e ela me perguntou por que você gosta de Fantasia?

É uma pergunta difícil de responder e eu nunca tinha pensado sobre uma razão para eu gostar. Voltando um pouco mais atrás, estávamos comentando sobre o ensaio “Sobre contos de fadas” do Tolkien, um texto que acabo sempre voltando. Talvez para tentar entender um pouco mais sobre o próprio Tolkien, entretanto acho que o principal é porque para mim, um escritor em começo de carreira, é reconfortante ver um dos maiores escritores de Fantasia dizendo que o negócio é difícil pacas.

 

A fuga da realidade é uma das críticas mais constantes a Fantasia,
ir para um mundo imaginário, onde nada é verdadeiro para ignorar a
realidade. É a maior besteira que já ouvi. Qualquer história de ficção
é um mundo imaginário, seja no Brasil, Japão ou em qualquer outro país
o que você está lendo é a visão de um escritor que imaginou [vejam só]
personagens e lugares. Porém o mais importante é que os confrontos
humanos são os mesmos. Decidir ajudar ou não um amigo, é uma decisão
que em algum ponto de sua vida você precisa tomar. Assim Sam o fez.
Aceitar realizar uma tarefa por mais que você não queria acontece
sempre. Frodo passou por isso também. Poderia ser em Valfenda ou no
prédio de escritórios ali da esquina. E foi ai que minha esposa me
pegou. Mas por que a Fantasia se o que faz uma história não é o local,
mas os dilemas e decisões que as personagens tomam?

Tentei responder de alguma forma lógica, mas não consegui. Minha saída
foi a seguinte: Digamos que o diretor de uma grande companhia está
jogando sujo para roubar o emprego do presidente e assumir o comando da
empresa. Pode ser interessante? Claro. Mas digamos que o conselheiro do
Rei está fazendo o mesmo jogo para usurpar o trono. De repente a coisa
fica muito mais interessante. O conflito é o mesmo, ganância, poder.
Mas sou muito mais a versão do Rei.

Para terminar gostaria de citar mais uma vez o texto “Sobre contos de
fadas”. Em determinado momento Tolkien usa a palavra Mooreeffoc. A
história por trás desta palavra é que Dickens estava em um café e viu
na porta de vidro escrito Mooreeffoc. Que nada mais é do que
coffee-room de trás para frente. Porém seu significado é um pouco mais
profundo, esta palavra nos lembra de que existem milhares de coisas
novas quando vemos as coisas por uma outra perspectiva. Isto é
Fantasia. E talvez seja por isso que a coisa toda me atrai tanto. 

Como Compreender o Silmarillion

O SilmarillionDe vez em quando vejo alguém nos fóruns, listas de e-mail ou rodas de conversa dizendo que tentou, mas não conseguiu ler O Silmarillion. As razões (não “desculpas”, mas razões mesmo, porque são válidas sim!) giram principalmente em torno dos nomes.

Eu concordo totalmente que fica muito difícil decorar tudo aquilo. Não são apenas personagens, mas também topônimos. Eu mesmo não saberia apontar Dorthonion sem o mapa da página 152. O que eu posso sugerir então?

Não leia O Silmarillion. Passe por ele.

O Silmarillion é tão complexo que permite diversas formas de se divertir com sua leitura. Da primeira vez que você ler, não importará muito lembrar quantas vezes Eru Ilúvatar interrompeu Melkor no Ainulindalë, nem por que ele fez isso, muito menos o que isso significa em termos práticos. Não importa onde os Nandor deixaram a Grande Jornada, ou sequer que eles existiam. Quem se importa com Amrod e Amras? Qual elfo descendeu de quem?

O que você tem de saber, de mais básico, sem uso de nomes que você não conhece, segue abaixo:

O Enredo

Deus cria anjos. Anjos cantam uma canção. Um dos anjos vira Lúcifer, e canta desafinado. Deus mostra que anjos na verdade deram as idéias para tudo que existirá no Universo que ele criará, através da canção. Aí ele cria o Universo, e avisa que haverá elfos e humanos, mas eles não sabem como serão.

Os anjos bons são forçados a sair da Terra-média para viver em um Continente Totalmente Fechado, por culpa dos ataques de Lúcifer. Lúcifer domina a Terra-média. Não existe sol ou lua, então os anjos criam duas árvores que iluminam o Continente Totalmente Fechado, e estas despejam um orvalho igualmente luminoso. Prestem atenção no orvalho, porque ele é importante!

De vez em quando os anjos ainda vão à Terra-média. Um deles encontrou os elfos. Para proteger os elfos, juntou todos os anjos bons para derrotar Lúcifer. Lúcifer é capturado e condenado à prisão por 3.000 anos.

Os elfos são convidados a morar com os anjos. Mais ou menos 1/4 chega lá, divididos em 3 grupos. O Grupo 1 fica por lá feliz e contente pelo resto da história, então ignore-os. O Grupo 2 é cheio de artistas, artesãos, etc. O Grupo 3 é cheio de construtores de barcos.

O Grupo 2 tem um rei. O rei do Grupo 2 tem um filho. Quando o filho nasce, a mãe fica exaurida fisicamente e decide morrer. Só que elfos não podem morrer. (Se morrem, são ressucitados!) Isso fez com que esse príncipe fosse o único elfo órfão da história do Universo. Ele é o maior artista entre todos os elfos também, e cria as jóias mais bonitas do mundo, usando o orvalho das árvores como fonte de luz (eu disse que era importante!).

Lúcifer é libertado depois de 3.000 anos. Ele começa a botar minhoca na cabeça dos elfos do Grupo 2. Os elfos começam a fazer espadas e armaduras. Lúcifer mata as duas árvores que davam luz à terra dos anjos. Os anjos pedem as jóias, porque com o orvalho de dentro delas dá para trazer as duas árvores de volta à vida. Não só o príncipe órfão recusa, como Lúcifer também rouba as jóias e “mata” o pai dele.

Ele decide que os anjos não servem para nada e sai em busca de vingança. No processo ele “mata” os elfos do Grupo 3 para roubar os seus barcos (ele precisaria deles para chegar à Terra-média). Isso faz com que os anjos fiquem furiosos e os amaldiçoem a nunca conseguir reconquistar as jóias.

Conclusão

Agora que vocês já conhecem como a história se desenrola até a página 100 do livro, e a motivação por trás de tudo que acontece no conto, podem se concentrar em se divertir com a leitura (inclusive dessas 100 primeiras páginas). O difícil mesmo era saber como as 400 páginas se encaixam no contexto geral. Espero ter facilitado isso para vocês.

Uma nota final: Tolkien não escreveu O Silmarillion como alegoria. O meu uso de nomes bíblicos é explicado nesta mensagem.

O Retorno do Hobbit

Os dias se passaram e depois os meses. Mês após mês, até que toda aquela vontade de criar e toda a esperança de ir um dia para a Nova Zelândia não passava de um sonho perdido e de uma lembrança vaga que agora mais machucava do que inspirava. Quando eu tentava conversar com alguém sobre isso tudo as pessoas diziam que era melhor assim. Que eu deveria me limitar a coisas que eu sabia e podia fazer, e que tudo não passava de um sonho mirabolante. Aliás, este era o consenso geral daqueles que conviviam comigo e para alguns ainda era há bem pouco tempo. Impressionante como em momentos de fragilidade nos deixamos levar por conselhos deste tipo.

Eu passava os dias trabalhando e estudando, ganhava bem mais que a média dos estagiários que eu conhecia por aí o que me dava liberdade para ir ao shopping e gastar duzentos reais em besteiras num único dia. Tinha uma vida boa, mas eu não era feliz. Foram os piores meses da minha vida. Eu estava depressivo, derrotado, apático. Não passava de uma sombra daquele menino sonhador que pensava que podia conquistar o mundo. Um dia, passeando por um shopping no interior, vi o box com os DVDs da trilogia e embora eu tivesse dinheiro o suficiente, não tive coragem de comprar. Era um sentimento de vergonha, rebaixamento. Eu não podia ouvir falar em Tolkien, Peter Jackson. Fugia de tudo que pudesse me lembrar do meu sonho “impossível”. Naquele dia cheguei em casa e chorei. Aquilo não podia continuar. Afinal, o que me impedia de tentar?

Sempre fui uma pessoa que enxerga certos sinais na vida, no cotidiano, nas coisas mais simples. Alguns chamam de intuição, outros de superstição. O fato é que ao voltar para São Paulo decidi economizar meu dinheiro gasto de forma leviana para quem sabe um dia filmar algumas cenas do Hobbit. Sim, de um roteiro de cem páginas, resolvi filmar apenas algumas cenas. Então, enquanto eu não pudesse cuidar do meu próprio filme, eu iria ajudar e aprender com outros produtores e ao mesmo tempo apurar minha atuação, desenvolver novas técnicas e tentar ganhar um pouco de destaque para ser alguém no meio artístico antes de gravar e enviar qualquer coisa de melhor qualidade para o Peter Jackson. Se eu conseguisse chegar ao IMDB, mesmo que não fosse famoso, ele e qualquer pessoa poderia verificar minha experiência como ator, ir atrás de algum trabalho meu. Fiz milhares de testes e fui reprovado em vários. A voz da minha irmã mais velha dizendo: “Você nunca vai participar de um filme na sua vida.”, era algo recorrente na minha mente. Como alguém pode ser tão derrotado e perdedor? Mas um dos testes deu certo e em pouco tempo eu estava envolvido com vários outros filmes, em geral de curta metragem, feito por alunos, inexperientes como eu. Ah, não consigo descrever o quanto eu aprendi. Faltava um iluminador, lá estava eu para ajudar e aprender. Aprendi a mexer com látex, sangue de mentira, câmera, iluminação, figurino. Fiz contatos, amigos do meio que, ao contrário das outras pessoas, me ouviam falar do Hobbit como quem admira uma maravilha rara. Todos me incentivaram demais mas nenhum destes filmes, e foram no total oito em menos de seis meses, me deram algum reconhecimento no IMDB. Bom, para quem não sabe o IMDB que eu cito e repito é uma base de dados mundial de atores, a maior delas. É a abreviação Internet Movie Database e ao menos que você tenha participado de algum filme profissional, com vínculos formais com uma empresa ou emissora, participado de algum festival e que possa ser comprovado, seu nome estará lá. Não era o meu caso. Os filmes dos quais participei eram independentes, de faculdade. Foi então que aconteceu. Ao abrir meu e-mail vi um teste para um filme que aconteceria na Avenida Paulista. Achei que eu tivesse o perfil, marquei a data com a produtora, mas acabei não indo. Não me sentia capaz. Aquela noite eu tive um sonho e nele eu estava ensaiando o roteiro do Hobbit na casa do Peter Jackson com mais alguns atores. Era muito divertido e no sonho conversávamos dos filmes que havíamos feito antes do Hobbit, antes de embarcarmos para a Nova Zelândia, os testes que não passamos, as frustrações. Acordei no meio da noite e pensei: “Por que não fui para aquele maldito teste?”

No dia seguinte acordei e liguei para a produtora. Ainda havia um papel disponível mas precisavam com urgência de alguém. Me descrevi por telefone, ela perguntou se eu sabia falar inglês e a pessoa me passou o endereço dizendo que eu começaria imediatamente. Em menos de duas horas eu estava num trem rumo a Caieiras para filmar um drama/terror chamado The Last Shot que participou da seleção do Sundance e outras coisas importantes. Na janela do trem sucateado e empoeirado eu li meu nome já meio apagado e pensei. É isso, é aqui que tudo recomeça. E foi assim que meu nome apareceu primeiro no IMDB.

Depois disso não só eu passei a confiar mais em mim, como minha família e meus amigos passaram a me apoiar bastante. Às vezes, as pessoas precisam de provas concretas de que você é capaz. Foi assim que comprei minha primeira câmera miniDV. Minha amiga Sol me deu a idéia de comprar uma super câmera, me emprestou o total do dinheiro e eu paguei parcelado pra ela. Ela me ajudou demais, acreditou demais. E logo depois que terminei de pagar a câmera, meu estágio acabou. Peguei o dinheiro acumulado, a câmera e procurei pessoas pra me ajudar a filmar. Mas pouca gente topa se expor assim. Meu maior problema nessa historia toda foi falta de pessoal. E demorou muito tempo para eu perceber que se eu não fizesse as cenas centradas no Bilbo sacrificando de certa forma o restante, eu não conseguiria fazer nada. Marquei reuniões, fiz inúmeros cronogramas, marquei viagens, e sempre o mesmo problema. Pessoas desistindo, com seus próprios problemas pessoais. Creio que fiquei um ano nesse planejamento. Eu já sabia as cenas de cabeça, as locações, o onde, o como e o porquê de tudo, tinha o figurino completo, a câmera mas me faltava ajuda. Essa ajuda pra ser bem sincero apareceu mais no final do ano passado quando uma amiga viajou comigo para o interior gravar algumas cenas e foi reforçada por outro amigo que veio do nordeste só pra me ajudar nas filmagens. Formamos finalmente uma mini equipe. E assim, pudemos produzir esse humilde filminho de cerca de 40 minutos que neste exato instante está voando para o outro lado do mundo enquanto você lê este artigo. Tudo numa caixinha de madeira envernizada, de pequenas dimensões, contendo anos de trabalho, dedicação e estudo. Carregando o meu maior sonho para terras distantes onde tenho a certeza de que um certo alguém que conhecemos tão bem vai saber desvendar seus mistérios e códigos. Sim, a caixa em si é um enigma. Eu a construí para ser única. E até onde eu sei, ela está sendo esperada por alguém especial.

As lições que aprendi são bem claras, acho que todo mundo que leu pelo menos uma parte do artigo consegue ver que a maior das lições aprendidas foi a persistência. Que às vezes por mais que nossos objetivos fiquem desfocados ou até mesmo em segundo plano, temos o poder de ressucitá-los e deixá-los maiores. Mas não foi só isso, descobri também que sozinhos não somos capazes de nada. Que encontrei no meu caminho muitos Gollums e Grimas, mas tive alguns Sams que me ajudaram a cumprir o meu destino. É a eles que devo tudo o que derivar desta empreitada. Descobri que mesmo as pessoas mais poderosas, são mais acessíveis do que pensamos. Enfim, lembro de uma frase meio clichê que vi num outdoor mas que serviu de inspiração para eu chegar até aqui e dizia o seguinte: “O impossível é algo que ninguém ousou tentar.”

Eu tentei, estou tentando. E estou envolvido com novas produções cujos desafios são maiores do que os descritos aqui. Só digo uma coisa: Salve o Dragão Verde!

Tolkien n’ Roll – Parte II

lothloryen.jpgSaudações Folks

Dando prosseguimento ao tema abordado na coluna anterior, resolvi me concentrar nessa semana em um exemplo extremo de como a obra de Tolkien pode influenciar um estilo de música à primeira vista tão díspar de tudo o que representa a mitologia Tolkieniana, mas ao mesmo tempo, totalmente conexo à relação de bem e mal tão difundida ao longo dessas obras. Trata-se da banda de Black Metal norueguesa Burzum. 

 
 

Para os que não possuem conhecimento avançado sobre esse estilo de música, basta nos atermos ao fato de que o Black Metal surgiu nos anos 80, propagado principalmente por bandas como Venom e Bathory que cansadas da ideologia “Sexo, drogas e Rock n’ Roll”, passaram a concentrar suas letras em temas baseados no satanismo e  na mitologia nórdica pagã.

O Burzum surge na década de 90, e pertence a chamada segunda onda do Black Metal que teve como palco dominante a fria e soturna Noruega. Ideologicamente o Burzum não é uma banda satânica, pois seu mentor e único membro, Varg Vikernes (ou Count Grishnáckh) credita a figura de Satã a uma criação cultural judaico-cristã, cultura essa combatida pelo Burzum.
 
Varg exalta a mitologia nórdica e cultua Odin como seu Deus. Também é adepto das idéias neo-nazistas de superioridade racial. Em suas entrevistas Vikernes sempre deixou clara  sua atração pela obra de Tolkien e a influência que as forças sombrias da Terra Média possuem sobre seu ser e sua obra.

Na parte lírica, ao contrário da maioria das bandas Tolkien-based, não se nota grandes referências à obra de J.R. A única música que faz menção a Tolkien é The Crying Orc, uma canção instrumental.
A influência tolkieniana na obra obscura do Burzum fica mais clara quando analisamos a origem do nome da banda criada por Varg. Burzum é a tradução para escuridão na língua negra contida na inscrição do Um anel: “…agh burzum-ishi krimpatul", "e na escuridão aprisioná-los".

Como senão bastasse, Varg Vikernes após matar Euronymous, um ex-companheiro de banda, se apresentou no seu julgamento com o nome de Conde Grishnáckh, nome de um dos Orcs ajudantes de Sauron, a quem Varg considerava como uma representação do próprio Odin.

Delírios à parte, fica claro que a gama de personagens justapostos em lados obscuros ou iluminados acaba por criar uma quantidade inesgotável de inspiração e identificação por parte dos leitores, o que muitas vezes leva a interpretações inusitadas, porém, válidas da obra de Tolkien. No ramo da música, essas interpretações ficam ainda mais claras quando escutamos os sons provenientes de tais interpretações. Se para muitos, a obra do Burzum não passa de criações de uma mente visivelmente perturbada ou disprovida de maiores talentos, para outros pode simbolizar o verdadeiro estampido dos tambores de orcs que marchavam em direção à conquista da Terra Média e a sobreposição da luz pela escuridão. Fato é que, quanto a esse tipo obscuro de intrepretações, o próprio Tolkien previu: "Em geral, pode-se ainda ouvir o mesmo tipo de fala [como a dos orcs] entre os que têm mentes de orcs; enfadonha e repetitiva, cheia de ódio e desprezo, há demasiado tempo afastada do bem para manter até mesmo o vigor verbal, exceto aos ouvidos daqueles para quem somente o sórdido soa vigoroso". (SdA, Apêndice F)

Vídeo: Burzum – The Crying Orc

 
É nóis!!!

 Referências:  http://www.ardalambion.com.br/

O Princí­pio da Felicidade Condicional

Este artigo se justifica como uma homenagem a Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) no centenário da publicação de seu livro Ortodoxia (1908). Nele, dedica o exímio e sempre bem-humorado polemista um capítulo à “Ética da Terra dos Elfos”, no qual descreve aquilo que chamou de princípio da felicidade condicional, no qual sempre acreditou, tanto antes, como depois, de sua conversão ao catolicismo. Cotejar esse princípio com a ética clássica (de inspiração aristotélica) e com a ética moderna (de inspiração kantiana) será o objeto deste despretensioso artigo.

Uma das características mais marcantes de Chesterton é o seu gosto pelo paradoxo: fazer afirmações aparentemente contraditórias e disparatadas, mas que, na verdade, correspondem à realidade. As imagens que propõe para explicar suas teorias, além de sumamente poéticas, são tremendamente impactantes, por contrastarem com a opinião reinante em seu meio. É o caso preciso da sua exposição, nesse capítulo III do livro “Ortodoxia” sobre Ética, ao adjetivá-la como de “Ética da Terra dos Elfos” (tradução brasileira, de Cláudia Albuquerque Tavares, com apresentação, notas e anexo de Ives Gandra Martins Filho, LTr – 2001 – São Paulo) ou “Moral do País das Fadas” (tradução portuguesa, do inglês “The Elfland Ethics”). Que estranho paralelismo irá traçar entre a Ética Natural, a Ética Cristã e isso a que denominou de Ética Élfica? No que a imagem paradoxal e poética poderá contribuir para compreender a essência do comportamento ético e do dever moral?

Para compreendermos essa relação, nada melhor do que deixar o próprio Chesterton falar, pois lê-lo é uma atividade que instiga a mente (pela sua lógica insofismável) e alegra o coração (pela beleza poética da forma). Assim, para cotejar o pensamento chestertoniano com o de Aristóteles (384-322 a.C.) e Kant (1724-1804), selecionamos algumas passagens mais expressivas do capítulo III do “Ortodoxia”, que constituem a espinha dorsal da sua explicação da “Lei da Felicidade Condicional”.

Os passos do raciocínio que segue para demonstrar sua teoria são basicamente os seguintes (com a transcrição de passagens mais significativas que o endossem):

a) a democracia, sistema político tão caro à modernidade, não se opõe à tradição, uma vez que a tradição seria a “democracia dos mortos”, dando-se voz e voto aos nossos antepassados:

“Nunca pude entender onde os homens foram buscar a idéia de que a democracia se opõe, de certo modo, à tradição. É evidente que a tradição é somente a democracia projetada através dos tempos. É acreditar no consenso de vozes humanas, em vez de acreditar em qualquer documento arbitrário ou isolado. O homem que cita um historiador alemão em oposição à tradição da Igreja Católica, por exemplo, está apelando implicitamente para a aristocracia, pois apela para a superioridade de um perito contra a extraordinária autoridade de uma multidão. É perfeitamente compreensível o motivo pelo qual uma lenda é tratada com mais respeito – e assim deve ser – do que um livro de história. A lenda é, geralmente, criada pela maioria das pessoas sãs da cidade, ao passo que o livro é, geralmente, escrito pelo único homem louco dessa mesma cidade”.

“A tradição pode ser definida como uma extensão do direito de voto, pois significa, apenas, que concedemos o voto às mais obscuras de todas as classes, ou seja, a dos nossos antepassados. É a democracia dos mortos. A tradição se recusa a submeter-se à pequena e arrogante oligarquia daqueles que parecem estar por aí meramente de passagem. Todos os democratas protestam contra o fato de o nascimento estabelecer diferenças entre os homens, a tradição opõe-se a que tais diferenças sejam estabelecidas por razão de sua morte. A democracia nos diz que não devemos desprezar a opinião de um cavalheiro, mesmo que ele seja o nosso cavalariço; a tradição nos pede que não desprezemos a opinião de um cavalheiro, mesmo que ele seja o nosso pai. Não posso, de forma alguma, separar essas duas idéias de democracia e tradição, pois me parece evidente que ambas representam a mesma idéia. Os mortos têm de estar presentes nos nossos conselhos. Os antigos gregos votavam por meio de pedras; os mortos devem votar por meio de pedras tumulares. É tudo muito regular e oficial, pois a maioria das sepulturas, como a maioria das listas de votação, são marcadas com uma cruz (pgs. 69-70) (grifos nossos).

b) a tradição popular tem muito a nos ensinar, através das lendas, mitos e contos de fadas, no campo da ética e moral, apontando para exemplos e condutas que seriam, pela experiência de séculos e de multidões, as melhores para tornar feliz o homem:

“A minha primeira e última filosofia, aquela na qual acredito com uma certeza inquebrantável, foi a que aprendi na escola maternal. A babá, essa grave sacerdotisa da democracia e, ao mesmo tempo, da tradição, foi quem, de maneira geral, ensinou-a a mim. As coisas nas quais mais acreditava, na época, e as coisas nas quais mais acredito agora são os chamados contos de fadas. Tais contos são, a meu ver, absolutamente racionais. Não são fantasias: as outras coisas é que, comparadas a eles, parecem-me fantásticas. Comparados a eles, a religião e o racionalismo são coisas anormais, embora a religião seja uma coisa anormalmente certa e o racionalismo uma coisa anormalmente errada. O País das Fadas não é outra coisa senão o ensolarado país do bom senso. Não é a Terra que julga o Céu, mas sim o Céu que julga a Terra; por isso, pelo menos para mim, não era a Terra que criticava a Terra dos Elfos, mas sim este que criticava a Terra. Conheci o pé de feijão mágico antes mesmo de ter experimentado feijão; tive a certeza do homem da lua, antes mesmo de estar certo da lua. E isto fundava-se na tradição popular”.

“O que me interessa agora é aquela ética e filosofia que nasceu dos velhos contos de fadas. Se me propusesse a descrevê-la, pormenorizadamente, poderia apontar os muitos e nobres princípios contidos em tais contos. Temos a lição de cavalheirismo que nos é dada por Jack, o Matador de Gigantes: os gigantes devem ser mortos porque são gigantescos. É uma revolta humana contra o orgulho considerado como tal. (…) Temos a lição da Cinderela, que é a mesma do Magnificat: ‘exaltavit humiles’. Há a grande lição contida em A Bela e a Fera: uma coisa deve ser amada antes que seja digna de amor. Há a terrível alegoria de A Bela Adormecida, que nos mostra como uma criatura foi presenteada  com todas as dádivas ao nascer, apesar de amaldiçoada com a morte, e como a morte também pode, talvez, ser suavizada pelo sono. Não me interessa, porém, nenhum dos estatutos da Terra dos Elfos isoladamente; interessa-me, apenas, o espírito da totalidade da sua lei, o qual aprendi antes mesmo de saber falar e que ainda hei de conservar quando não puder mais escrever. Interessa-me determinada maneira de encarar a vida, maneira essa que aprendi nos contos de fadas e que, desde então, foi, serenamente, corroborada pelos fatos mais simples” (pgs. 71-72) (grifos nossos).

c) os contos de fadas nos ensinam, fundamentalmente, que há leis necessárias (físicas e matemáticas, do ser) e leis condicionais (morais e éticas, do dever ser), com seus âmbitos e propriedades específicas e inconfundíveis:

“Esse modo de ver a vida podia ser resumido da seguinte forma: Há certas seqüências ou evoluções (casos de uma coisa que se segue a outra) que são, na verdadeira acepção da palavra, razoáveis. São, ainda no verdadeiro sentido da palavra, necessárias. Incluem-se neste caso as seqüências matemáticas e puramente lógicas. Nós, no País das Fadas (que são as mais razoáveis de todas as criaturas), admitimos essa razão e essa necessidade. Assim, por exemplo, se as Irmãs Feias são mais velhas do que Cinderela, é necessário (no mais férreo e irrefutável sentido) que  Cinderela seja mais nova do que elas. Não se pode fugir a isso. (…) A fria razão assim o decreta do alto do seu trono, e nós, no País das Fadas, submetemo-nos a tal decreto”.

“Quem se dispuser a ler os Contos de Fadas de Grimm, ou as belas coleções de Andrew Lang, poderá conhecer esse princípio que eu, por pedantismo, chamarei de Doutrina da Alegria Condicional. Touchstone falava da grande virtude que existe num ‘se’ e, de acordo com a moral dos elfos, toda a virtude está num ‘se’. A principal característica do discurso das fadas é sempre esta: ‘Tu poderás viver num palácio de ouro e de safiras, se não pronunciares a palavra vaca’. Ou: ‘Poderás viver feliz com a filha do rei, se não lhe mostrares uma cebola’. A dádiva apóia-se sempre num veto. Todas as estonteantes e colossais coisas que são concedidas dependem de uma pequena coisa que é negada. As mais extravagantes e desvairadas coisas são postas, livremente, à nossa disposição, mediante uma pequena coisa que nos é proibida” (pgs. 72 e 78) (grifos nossos).

d) o Princípio da Felicidade Condicional, que caracteriza a Moral do País das Fadas (e toda Ética) estriba-se na idéia de que a felicidade depende da aceitação das limitações que nos são impostas pela Natureza, ainda que não compreendamos bem nem a Natureza, nem suas limitações (a plenitude é sempre finita, não dando para se ter tudo):

“Em um conto de fadas, uma incompreensível felicidade se apóia sobre uma incompreensível condição. Abre-se uma caixa, e os demônios voam todos para fora. Esquece-se uma palavra, e as cidades desaparecem. Acende-se uma lâmpada, e o amor voa para longe. Arranca-se uma flor, e as vidas humanas perecem. Come-se uma maçã, e a esperança em Deus se esvai”.

“Cinderela recebeu uma carruagem vinda do País das Maravilhas e um cocheiro vindo não se sabe de onde, mas recebeu, também, uma ordem: devia estar de volta à meia-noite. Ela também tinha um sapatinho de cristal, e não pode ser simples coincidência o fato de o cristal ser um elemento tão comum no folclore. Certa princesa vive  em um palácio de vidro, outra vive em uma colina também de vidro e há ainda outra que tudo vê num espelho. Todas elas podem viver em casas de vidro, desde que não atirem pedras. Ora, este reluzir de vidro por toda a parte nada mais é do que a expressão do fato de que a felicidade é radiante, mas frágil, como o material que pode ser facilmente quebrado por  uma criada ou por um gato. Este sentimento, que caracteriza os contos de fadas, gravou-se em mim e passou a representar a minha própria maneira de sentir perante o mundo inteiro. Sentia, e sinto, que a própria vida é brilhante como o diamante e frágil como a vidraça (pgs. 79-80) (grifos nossos).

e) A aceitação da condição (o que nos é negado) é o segredo da felicidade (o que nos é dado), e a incompreensão da razão da condição só faz ressaltar a imensidade dos dons recebidos (a vida, com todas as suas maravilhas):

“Lembremo-nos, porém, de que ser quebrável não é o mesmo que ser perecível. Dê uma pancada forte em um vidro e ele não durará um instante; não lhe toque e ele durará mil anos. Tal era, segundo me parecia, a alegria humana, quer no País das Fadas, quer na própria Terra. A felicidade só dependia de não fazer alguma coisa que em qualquer momento poderia ser feita e, muitas vezes, sem que fosse óbvia a razão pela qual não se devia fazê-la. Ora, o ponto aonde quero chegar é que, quanto a mim, nada disso me parecia injusto. (…) Se Cinderela diz: ‘Por que eu tenho de sair do baile à meia-noite?’, a madrinha poderia retrucar: ‘Por que podes ficar lá até a meia-noite?’ Se eu deixo para um homem, no meu testamento, dez elefantes falantes e cem cavalos alados, tal homem não se poderá queixar, se as condições forem tão excêntricas como a dádiva. A um cavalo alado não se olham os dentes. E parecia-me que a própria existência era um legado excêntrico demais para que eu me queixasse de não compreender os limites da dádiva, quando, afinal, não compreendia a dádiva que eles limitavam. A moldura não era mais estranha do que a pintura. O veto podia ser tão extravagante como a dádiva, tão estonteante como o Sol, tão ilusório como as águas e tão fantástico e terrível como as árvores altaneiras” (pg. 80) (grifos nossos).

Quantas vezes, no relacionamento com os demais (que é a essência da Ética – o relacionamento ordenado com os outros), ao dizer ou fazer alguma coisa, sem pensarmos, acabamos agredindo ou entristecendo aquele a quem queríamos bem e nos perguntamos: O que fui fazer? Essa era a única palavra ou ação que não poderia ter dito ou feito e que fiz e disse, entornando o caldo e quebrando algo de muito precioso! Assim, percebemos que existem ações adequadas e inadequadas no relacionamento com os outros.

Para se entender o discurso chestertoniano da felicidade condicional, é preciso ter em conta a concepção clássica da Ética, que se baseia na distinção entre “bem” no sentido metafísico e “bem” no sentido ético.

O bem metafísico é tudo aquilo que nos atrai (qui omnes apetunt). É um dos transcendentais do ser, isto é, uma das características que todos os seres têm em comum, que são: a verdade (capacidade de ser conhecido por uma inteligência); a beleza (capacidade de ser admirado pela inteligência e vontade) e o bem (capacidade de ser querido por uma vontade). Assim, tudo que existe, pelo simples fato de existir, pode nos apetecer e atrair.

No entanto, nem tudo o que nos atrai, nos convém. Esse é o sentido do bem ético, que diz respeito ao bem adequado (armóton) à natureza. A tradição clássica – de Sócrates, Platão e Aristóteles – aponta como bem adequado à natureza humana a virtude, ou seja, a perfeição das potências da alma (cfr. Werner Jaeger, “Paidéia”, Martins Fontes – 2003 – São Paulo).

Assim, para Sócrates a missão suprema do homem seria o cuidado da alma (“psyche terapéia”), superando a hierarquia báquica dos bens (saúde, beleza, fortuna e amigos), que coloca em perigo a alma: “Enquanto viver, não deixarei jamais de filosofar, de vos exortar a vós e de instruir quem quer que eu encontre (…) pois ficai sabendo que Deus assim mo ordenou, e julgo que até agora não houve na nossa cidade nenhum bem maior para vós do que este serviço que eu presto a Deus. É que todos os meus passos se reduzem a andar por aí, persuadindo novos e velhos a não se preocuparem nem tanto nem em primeiro lugar com o seu corpo e com a sua fortuna, mas antes com a perfeição da sua alma” (Platão, “Apologia de Sócrates”, 29 D e seg.).

Para Sócrates, as virtudes (aretai) seriam tanto da alma (conhecimento para o intelecto especulativo e prudência, justiça, fortaleza e temperança para o intelecto prático) como do corpo (saúde, força e beleza). Entendia a virtude como um saber (phronesis): o conhecimento do bem, que levava a não sucumbir ao prazer (hedonis).  As virtudes tinham por fim (telos) e meta (skopos) a harmonia com o universo e a felicidade humana (eudemonia), pelo auto-domínio (a alma sobre o corpo): Sócrates despreza os prazeres da vida quando toma o cálice de cicuta para respeitar as leis da cidade. Concebia as virtudes como uma unidade: não seria possível ser valente, sem ser justo, moderado e prudente (seria uma valentia apenas exterior, sem o domínio interior; Sócrates podia dizer isso, porque fora herói das guerras gregas, não fugindo da luta, mas vendo que a luta interior era mais dura). Pregava o ideal da “mens sana in corpore sano”.

No ideal formativo (paidéia) socrática, o homem virtuoso deveria se dedicar não só aos estudos, mas aos exercícios (askesis: treinar para adquirir o bom condicionamento físico e moral). A amizade (philia) era para Sócrates um dos bens e valores mais elevados: dizia que não tinha discípulos, mas amigos (na sua sábia humildade, não se considerava mestre, razão pela qual  não compreendia a acusação de corruptor da juventude). A amizade, como sentimento de benevolência pelo outro, deveria superar as rivalidades pelas honras e riquezas.

Platão, como discípulo de Sócrates (e quem recolheu por escrito os ensinamentos do mestre), na “República”, definira a virtude (areté) como a arte de ‘saber escolher’ os bens convenientes (agatón) e recusar os inconvenientes (o mal). E Aristóteles, na “Ética a Nicômaco”, coloca a felicidade (eudemonia) como o ”prêmio da virtude”’ (Livro I). Com Platão (”As Leis” e ”A República”) e Aristóteles (”Ética a Nicômaco”), a justiça (‘dikaiosyne’) passa a principal e resumo das virtudes: cumprimento de todos os deveres (prudência, justiça, fortaleza e temperança como as  fundamentais, lembrando o heroísmo dos tempos primitivos).

Portanto, na ética clássica, a felicidade é a meta do agir virtuoso, como uma escolha do bem adequado ao homem. Nesse sentido, é uma ética condicional: “Se quiseres ser feliz, deves agir deste e não daquele modo”. Ademais, à felicidade só se chega pela virtude, pois como dizia Félix Bovet (1824-1903): “Os prazeres são para os sentidos, as alegrias para o coração, mas a felicidade é só para a consciência” (apud Georges Chevrot, “Sermão da Montanha”, Quadrante – 1988 – São Paulo, pg. 134). Assim, apenas a justiça, pela consciência do dever cumprido, é capaz de trazer a felicidade. O resto são alegrias e prazeres passageiros e fugazes.

O problema da ética moderna se coloca quando Emanuel Kant opera, no final do século XVIII, sua revolução copernicana na Metafísica, sustentando que não conhecemos as coisas como são, mas apenas suas aparências, ou seja, as impressões que nos deixam. Não conheceríamos as coisas em si (o noúmeno), mas apenas aquilo que nos aparece (o fenômeno). Assim, a realidade objetiva não seria alcançável pela mente humana, pois a essência das coisas não poderia ser captada pelos sentidos. Todo conhecimento seria sempre algo de subjetivo (os transcendentais seriam categorias a priori da mente humana, ligadas ao tempo e espaço, que enquadrariam todas as sensações recebidas). Assim, Kant irá promover a “Crítica da Razão Pura” (1781), estabelecendo as condições subjetivas do conhecimento, fazendo com que todo o conhecimento seja gerado pelo sujeito cognoscente e não como adequação ao objeto conhecido, tal qual sustentado por Aristóteles: “Até agora se admitia que todo o nosso conhecimento se devia regular pelos objetos (…) Não seríamos mais afortunados nos problemas de metafísica formulando a hipótese de que os objetos devem se regular pelo nosso conhecimento?”

Essa postura gnoseológica subjetivista desembocou numa ética relativista desenvolvida na sua “Crítica da Razão Prática” (1788), segundo a qual não é possível estabelecer normas morais objetivas com conteúdo concreto, mas apenas um princípio geral que denomina de “imperativo categórico”, expresso da seguinte forma: “Age de modo que a máxima de tua vontade possa valer sempre, ao mesmo tempo, como princípio de legislação universal” (cada um estabeleceria seu sistema moral pessoal, achando ser o ideal, confrontando naturalmente com o dos demais).

Ora, o próprio Kant distinguia duas espécies de imperativos:

a) imperativo hipotético – que é condicional (se queremos um determinado fim, então devemos agir da maneira que torne possível conseguí-lo).

b) imperativo categórico – que seria baseado na autoridade (devemos agir de uma determinada maneira porque alguém mandou, no caso, a lei divina ou a lei humana).

A concepção kantiana, a par de deixar a Ética sem fundamento sólido, torna-a, sob o prisma psicológico, profundamente antipática. O frio legalismo germânico conduz à revolta contra limitações que nos parecem arbitrárias.

Já a concepção clássica, reverenciada por Chesterton, coloca a ênfase no que seria uma “liberdade de qualidade”: por ser livre, posso escolher o que quiser dentre os bens que se me oferecem; mas “se não for bobo”, saberei escolher o melhor, o que efetivamente me aperfeiçoa, aceitando como naturais as limitações, justamente porque, não podendo ter simultaneamente tudo, sei prescindir do que impede a posse e usufruto do melhor.

Em suma, a mensagem chestertoniana, que é a mesma da tradição clássica e cristã, é a de que, para ser feliz é necessário aceitar que temos limitações (de natureza e de compromissos, já que a liberdade, ao assumir compromissos, fica a eles ligada) e não ultrapassar as fronteiras que guarnecem a nossa vida.

A vertente kantiana da ética do país das fadas estaria no respeito à autoridade daquele que impõe as normas, quando o sentido último destas não é captado. Se não percebemos que a proibição a determinada conduta diz respeito ao fato de que essa conduta não nos trará a felicidade, ainda que aparente e imediatamente possa parecer o contrário, então é preferível confiar na autoridade do autor da norma (ou seja, “autoridade” vem justamente de ser “autor”), mormente se esta é de Direito Natural, pois o Autor da Natureza é o próprio Deus, que dispõe, através de seus mandamentos o modo mais fácil e rápido do homem chegar à felicidade.

No último capítulo do “Ortodoxia” (capítulo VIII – A Autoridade e o Aventureiro), Chesterton retoma a idéia da felicidade condicional com a imagem das muralhas éticas do cristianismo, que garantem a alegria de viver:

“O Cristianismo foi a única barreira que  resguardou o prazer do paganismo. Imaginemos um grupo de crianças brincando descuidadamente sobre o gramado macio e plano de uma ilha situada bem acima do nível do mar. Enquanto havia uma parede em volta do íngreme rochedo, elas puderam entregar-se aos jogos mais frenéticos e fizeram daquele lugar a mais barulhenta das creches. Mas as paredes foram derrubadas, deixando a descoberto o perigo do precipício. As crianças não despencaram precipício abaixo, mas, quando os seus amigos voltaram, encontraram-nas paralisadas de terror no centro da ilha. E já não se ouviam as suas canções” (pg. 187) (grifos nossos).

Para cantar de alegria uma vida que “é bonita, é bonita e é bonita” (Gonzaguinha), é preciso saber respeitar as condições mínimas que ela nos impõe, para não estragar os dons preciosos que nos são ofertados em troca. O lema da antiga UDN (partido político brasileiro dos anos que precederam o Regime Militar de 1964-1985) pode servir de complemento ao princípio da felicidade condicional: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”. A felicidade depende da vigilância sobre aquilo que pode levar à sua perda. Podemos viver felizes indefinidamente, desde que resistamos a ter mais do que nos cabe, a desempenhar um papel que não nos compete, e a desprezar as condições ideais em que nos encontramos se não temos a sandice de jogar tudo pela janela ao querer o que pensamos que nos falta, mas que, na realidade, nem falta, nem completa, porque desvia do equilíbrio e harmonia ideais para nós. Trata-se de vencer a curiosidade e não abrir a caixa de Pandora, desatando paixões e forças capazes de destruir tudo o que havíamos construído.

Recriando a Terra Média no Brasil

Estudando um pouco de cinema aprendi que um bom filme por mais barato que seja começa com um roteiro bem estruturado. Mas como fazê-lo? Realmente não é uma tarefa simples, pois é no roteiro que está a essência de um filme, seu cerne. Existe um tipo de formatação específica bem como uma necessidade de amarrar os núcleos da trama de forma que funcione na tela. Acho que foi na criação do roteiro do Hobbit que eu passei a admirar mais e mais os roteiristas de “O Senhor dos Anéis”. Adaptar um livro não é fácil. Sabe aquela parte do livro que a gente lê, relê e se empolga pensando como seria maravilhoso ver aquilo no cinema?

Mas muitas vezes isso não funciona. O livro e, sobretudo a narrativa que criamos do livro em nossas mentes, nosso filme próprio, interno, tem um tempo diferente do cinema. Ao ler, estamos sendo ativos no processo de criação e de fato tudo que adicionamos nesta nossa visão tem muito a ver com o que somos, vivenciamos e acreditamos. Nosso roteiro básico é o livro, mas nossa adaptação para que aquilo nos satisfaça minimamente é mais rica do que qualquer filme que já existiu. O que obviamente não impede que às vezes vejamos um filme baseado em uma obra ficcional que nos surpreenda. Acontece, pois o trabalho do roteirista é pensar justamente como transformar aquele livro querido e aquelas partes que todo mundo ama, de formas variadas, em algo único que capte a essência do livro e possa tentar agradar os fãs e os não-fãs tanto em estética quanto em conteúdo. É uma tarefa árdua e a responsabilidade é enorme.

E como fazer isso com o Hobbit? Digamos que aquele primeiro roteiro que criei, o tal roteiro megalomaníaco que eu sempre cito, tinha erros gravíssimos. Parecia mais uma peça teatral longa e chata pois eu simplesmente tinha pena de cortar as partes para que funcionassem no vídeo. Pode parecer meio bobo mas vai tentar cortar um filho querido ao meio pra você ver. É aterrador, frustrante e muitas vezes desejei ser russo pra poder fazer filmes de ultra longa duração como aqueles filmes antigos de 7, 8 horas. Mas acho que só eu assistiria.

Enfim, com dor no coração cortei o roteiro pela metade retirando aquelas cenas “lindas mas desnecessárias” que todos amamos nos livros. Depois resolvi procurar uma formatação apropriada para aquele monte de falas em inglês, adicionei a descrição de cada cena e foi quando me bateu uma angústia. Onde eu iria filmar tudo aquilo, e como?

A primeira questão eu resolvi de forma mais simples de início e fui apurando a idéia com o tempo. Como sabemos, moramos em um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Sim, é verdade mas sabemos que não é apenas isso. Embora seja essa a visão que prevaleça sobre nós no exterior sobretudo pelo cinema nacional que produz e exporta filmes que quase sempre remetem ao sertão nordestino, ao Rio de Janeiro ou ao processo de favelização das grandes metrópoles. E neste momento eu tive um “insight” daqueles que só acontecem no ônibus voltando do trabalho ou da escola, um sentimento poderoso que acabei tomando por missão: mudar esse padrão e tentar fazer algo completamente diferente. Afinal, se um pequeno hobbit do Condado conseguiu destruir o Um Anel e o Senhor do Escuro, porque um brasileiro da periferia do mundo não conseguiria filmar uma obra de Tolkien em seu país e mandá-lo para o Peter Jackson? Isso ninguém esperaria. Nós que somos fãs da trilogia, dos livros e dos filmes, sabemos que às vezes é justamente o que se pensou até agora impossível, o mais arriscado, o caminho que ninguém mais trilhou por não acreditar, é justamente o que dá certo. Resolvi arriscar, apostar tudo e empolgado comecei a procurar as locações.

Viajei bastante, procurei em sites até perceber que o Condado sempre esteve perto de mim, na zona rural do Vale do Paraíba. O aspecto rural e o relevo de mares de morros fazem com que o lugar seja digno da trilogia do Peter Jackson.

Para a Floresta das trevas escolhi o Bosque da Física na USP em São Paulo. Um lugar tranqüilo e com muitas, mas muitas aranhas reais. E das grandes. Sempre pensei na Floresta das Trevas como um lugar sombrio, mas mais parecido com uma floresta tropical do que com qualquer outro tipo de floresta. Pelos insetos, pelas aranhas, pelo calor. A mata é muito fechada, tão fechada que de dia parece noite e de noite não se enxerga um palmo na frente do nariz. Então resolvi aproveitar um cenário bem brasileiro, adicionar algumas teias de aranha, um filtro escuro e pronto teríamos nossa Floresta das trevas.

Erebor por outro lado precisava ser um local desolado, sem muito verde com mais pedras de preferência pontiagudas pois essa característica era essencial na minha visão da Desolação do Dragão que cerca a Montanha. Mas onde achar uma montanha dessa proporção em terras brasileiras? Foi quando me lembrei de Itatiaia, sobretudo o Pico das Agulhas Negras que com alguns efeitos acabou se transformando no cenário ideal. Um filtro amarelo quase alaranjado e bem pesado seria usado nestas cenas para demonstrar o cansaço, a fadiga e que aquele não era um lugar comum, era uma terra devastada, triste. Por sorte, ou por azar, o Parque das Agulhas Negras havia passado por um incêndio há algum tempo e a mata não havia se recuperado. O que foi perfeito para a Desolação do Dragão. Para o restante do filme resolvi filmar em brotas e em Campos do Jordão.

Fiz uma lista de possíveis atores, projetei o figurino, deixei meu cabelo crescer até ficar de um tamanho hobbitesco, sempre me baseando mais nos filmes e temperando alguma coisa própria de como eu enxergava o livro. Comecei a trabalhar como professor e a separar grande parte do meu salário para comprar tecidos. Foram inúmeras visitas a 25 de março, a costureiras diferentes até que tudo estivesse nos conformes. E nas madrugadas lá estava eu numa sala de computadores da USP mexendo e remexendo no roteiro.

Mas eu só estava me esquecendo de uma coisa. E a câmera? Eu não tinha nem uma câmera fotográfica pra fazer vídeos de baixa qualidade. Um amigo meu, aquele que me levou pra ver o primeiro filme e me ajudou no começo, cujo apelido pra nós é “Batata” me emprestou uma câmera de 3.1 megapixels que era o top de linha da época. Eu me decepcionei muito com o resultado. Tanto trabalho, tanta dedicação pra nada.

Foi quando eu percebi pela primeira vez que talvez os sonhos realmente cheguem ao fim. Que um hobbit só consegue destruir um Mal Supremo em livros e filmes. Que provavelmente o Peter Jackson iria rir do meu vídeo amador e descartá-lo de vez. Eu havia perdido todas as esperanças, empacotei as roupas, voltei para o mundo real e a rotina me consumiu. Eu havia desistido.

CONTINUA (mais uma vez)…