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Del Toro afirma: "O Hobbit não está confirmado"

Em uma entrevista para divulgar seu filme Splice, Del Toro foi o produtor, todas as perguntas eram claro sobre O Hobbit. Del Toro deu a seguinte declaração:

[O filme] não recebeu sinal verde. Isso é categórico. Fomos encurralados no meio de uma negociação. Não tem como haver uma data para o início das filmagens enquanto a situação da MGM não se resolver. Eles detêm uma porção considerável dos direitos“.

O que quer dizer que o filme ainda está longe de começar. O problema financeiro da MGM realmente é grave a atrapalha o muito a realização do projeto. Ainda acredito que O Hobbit vai sair, ninguém despreza o potencial de lucro que o filme tem, mas sem dúvida vai demorar bem mais do que se previa. Pelo menos alguém falou de uma forma clara em que pé anda o projeto. Contudo é uma pena que a situação esteja desse jeito.

(fonte www.omelete.com.br)

Lauterbrunnen

Fuçando a internet descobri uma coisa interessante. Não sei até que ponto a coisa pode ser verdade, mas vale a pena pensar sobre o assunto. O artigo fala sobre a suposição de David Salo, linguista conhecido por estudar Tolkien, que Lauterbrunnental, um vale da Suiça, foi a inspiração de Tolkien para criar Rivendell.

Além da similaridade entre as fotos, Salo defende a similaridade dos nomes (o artigo não diz quais são as similaridades e tabém não descobri quais são) em uma carta, a 306, Tolkien revela que sua viagem a Suiça serviu de inspiração para o trecho do Hobbit que segue de Rivendell até Misty Mountain. Aos 19 anos Tolkien viajou por este Lauterbrunnental.
Marie Barnfiled é outra que defende esta ideia. Ela publicou um artigo chamado The Lyfe ant the Auncestrye em uma publicação da Tolkien Society dizendo que:
“não só pela similaridade do desenhdo de Tolkien de Rivendell e Lauterbrunnental, mas também:
a) Tolkien viajou por Lauterbrunnental
em 1911
b) ele caminhou por uma rota incomum no vale que é igual a usada por seus personagens até Rivendell
c) Lauterbrunnen essencialmente quer dizer Greyflood & Hoarwell (se alguém puder ajudar com a tradução desta)
d) Tolkien aproximou o som do nome Lauterbrunnen com os nomes, em Inglês e Sindarin, do rio de Rivendell: ie Loudwater & Bruinen.”

Marie vai ainda mais longe, mais adiante ela diz:“Eu nunca li isso em outro artigo, mas o vale Lauterbrunnen! aparece de novo em O Senhor dos Anéis como o vale Snowbourne em Rohan.”
Se isso é verdade acho impossível dizer, mas que a coisa está bem fundamentada isso está.

Seres Fantásticos na Literatura – Dragões

“Há muito tempo, desde o começo da humanidade, o dragão,

com seu corpo de serpente e seus poderes mágicos, esteve presente entre nós,

sugerindo-nos que existe um ser imortal presente no interior de todas as coisas.”

Francis Huxley[1]

O Dragão é provavelmente a criatura fantástica mais conhecida e discutida do mundo. Existe em todas as tradições, sob uma forma ou outra. É ligado aos quatro elementos, ou seja, também é um ser elemental – segundo a teoria filosófica pré-socrática de que o mundo seria composto por quatro elementos básicos: ar, água, terra e fogo. Dizia o filósofo Empédocles (século IV a.C) que essas quatro raízes compunham tudo o que existe, sendo animadas por duas forças contrárias, que foram chamadas de “amor” e “ódio”: ou seja, a força de atração e a força de repulsão. Muitos seres fantásticos da mitologia e da literatura têm essa ligação com algum dos quatro elementos. No caso do Dragão, ele seria um ser do fogo e/ou da água, e seu caráter se altera dependendo da mitologia em questão.

A palavra vem do grego drákon e também do latim draco. Parece derivar do verbo grego derkomai, “ver”; ou deskesthai, “lançar olhares”. Estaria, então, associado à idéia de ver, olhar e, portanto, conhecer. Não é de se admirar, então, que as lendas digam que é perigoso olhar nos olhos de um dragão.

“Muitas tradições falam de um abismo cheio de água revolvida por um espírito ardente

que pode ver graças à sua própria luz. Assim, como nos contam os Upanishads hindus,

o espírito olha faminto ao seu redor; esta ação é que dá ao dragão o seu nome (…)”. [2]

A palavra para designá-los em algumas línguas (Drache, Drake) também designa as serpentes. Outra palavra antiga para dragão é Verme, que vem de Worm ou Wyrm.

O dragão mais antigo das histórias pode ser Tiamat, uma divindade babilônica que personificava o Caos: o universo antes de ser organizado. Diz o Enuma Elish, Mito de Criação Babilônico, que Tiamat era a água salgada, em oposição a Apsu, a água doce. Da mistura de suas águas surgiu o universo, e deu-se à luz os primeiros deuses. Mais tarde os deuses mataram Apsu; Tiamat, com personalidade feminina, voltou-se contra eles e começou a gerar monstros, inclusive os primeiros dragões. Ela seria morta pelo deus-herói Marduk, e de seu corpo ele teria criado o céu, a terra, os astros, os rios, os seres vivos.

Para os chineses, eles são criaturas benignas e de vários tipos: o Dragão Divino, o Dragão Terrestre, o Subterrâneo. Dragões seriam antepassados dos imperadores da China; o primeiro governante a assumir a forma dracônica foi o lendário Fu Hsi. Ainda segundo tradições chinesas, existiam quatro Dragões da Água que governavam os quatro oceanos do mundo: Ao Kuang, Ao Jun, Ao Shun e Ao Chi. Todos eram servos do Imperador de Jade e moravam no fundo das águas.

Vem também da China a crença de que eles teriam atributos de nove “animais”: chifres de cervo, cabeça de camelo, olhos de demônio, pescoço de serpente, barriga de molusco, escamas de peixe, garras de águia, pés de tigre e orelhas de boi.

Seria, então, o dragão um animal que viveu em eras passadas, como os antigos sáurios? Ou será que, quando os antigos encontravam enormes ossadas fósseis, julgavam que aqueles eram ossos de animais desconhecidos, fantásticos? Talvez venham daí as primeiras histórias sobre dragões na cultura humana…

“Os chineses dizem que o fogo do dragão e o fogo humano são coisas opostas. Se o fogo do dragão entrar em contato com algo úmido, lança chamas; e se entrar em contato com a água, incendeia-se.

Se alguém se enfrenta a ele com fogo, conseguirá fazê-lo parar de arder e as chamas se extinguirão.

Isso, por sua vez, pode ser comparado com a correspondência alquímica do dragão com a Matéria Prima e com a regra segundo a qual, para limpar uma substância, não se deve usar água, mas fogo. [3]

Por muito tempo acreditou-se que as salamandras seriam pequenos dragões. Há referências a elas em bestiários medievais e em obras de não-ficção. O próprio Santo Agostinho as cita como animais que vivem no fogo, querendo provar que os corpos humanos poderiam viver no fogo do inferno sem ser consumidos!

E tanto Aristóteles quanto Leonardo da Vinci atestaram a existência real desses animais como capazes de viver nas chamas. Marco Polo diz ter visto em suas viagens tecidos de pele de salamandra, que não queimavam no fogo – embora, na verdade, desconfie-se que esses tecidos eram feitos de amianto.

Como vimos, além do fogo, os dragões são associados fortemente ao elemento água. Ou estão nas nuvens, e são senhores da chuva, ou nos mares e rios; para os chineses, a chuva fina é celestial, mas a tempestade violenta é a “chuva do dragão”… E encontramos em variados folclores a ideia de que, se uma mulher banhar-se em rio ou mar, pode engravidar pela ação de um ser mítico: cobra grande, boto, serpente, sempre uma criatura com características dracônicas. Isso liga os dragões aos m’bois, as cobras gigantes do folclore brasileiro. O m’boi é o arquétipo do dragão na América Latina.

Se no Oriente os dragões estão ligados à chuva, sua capacidade de exalar ou projetar fogo aparece mais nas lendas do Ocidente. Longe da tradição que os considera como benignos ou neutros, em histórias ocidentais ele simboliza forças demoníacas. É esse o sentido da história de São Jorge: o Cruzado (que é o Cristianismo) mata o dragão (vence o demônio) e converte o mundo. Faz sentido um ser infernal ter domínio do elemento fogo, e eis aí porque as pessoas acreditaram em tais criaturas com hálito ardente.

Há na verdade duas histórias de São Jorge. Uma, que pertence à história cristã, conta sobre um cavaleiro da Capadócia que lutou nas Cruzadas. Outra conta sobre um cavaleiro que salvou uma princesa de ser devorada por um dragão. As duas convergiram em uma só, que aparece em variadas versões.

Jorge foi um mártir cristão nascido na Capadócia, na Ásia Menor. Consta que foi morto na Palestina no ano 303, conforme inscrições encontradas numa igreja da Síria e atestadas por um Cânon do Papa Gelasius I, de 494.

Diz uma lenda que em certa cidade pagã da Líbia um dragão aterrorizava o povo, que tentava aplacá-lo com ofertas de ovelhas e de seres humanos em sacrifício. Quando, escolhida por sorteio, a próxima vítima devia ser a filha do rei, o povo a levou até o monstro para ser morta. Nesse momento, um cavaleiro que voltava das Cruzadas chegou lá, matou o dragão, libertou a princesa e todos os habitantes locais se converteram ao Cristianismo como agradecimento ao herói. [4]

Outra versão da história diz que a cidade era Silene, também na Líbia, e que o dragão se abrigava num pântano. Todas as moças já haviam sido sacrificadas a ele: a última viva era a filha do rei. Jorge, o cavaleiro, chegou ao pântano e libertou a princesa. Ela, então, tomou seu cinto e prendeu o dragão pelo pescoço com ele, conduzindo-o para a cidade; lá, em vista de todos, Jorge o matou. Mas não quis aceitar a mão da moça em casamento, mantendo sua castidade de missionário cristão. [5]

Embora São Jorge hoje não seja mais um santo “oficial”, em 1222 o Concílio de Oxford instituiu a Festa de São Jorge no dia 23 de abril, e no século XIV ele se tornou o Santo Padroeiro da Inglaterra. Não é de se admirar, já que o herói mítico mais popular do Reino Unido, Arthur, é um Pendragon, e sua linhagem ostentava o dragão como símbolo. A própria bandeira do País de Gales mostra um dragão vermelho sobre um campo verde e branco. Podemos supor que o branco simboliza o mundo espiritual e o verde o mundo terreno; o dragão colocado sobre ambos demonstra seu domínio sobre céu e terra, espírito e matéria.

A mitologia grega também está repleta de dragões. Um dragão atacou os homens de Cadmo, que buscava sua irmã Europa, raptada por Zeus; o herói o matou e a deusa Atena sugeriu que ele semeasse os dentes do bicho. Dos dentes brotaram da terra guerreiros armados que lutaram até destruir-se; os que sobraram fundar com Cadmo a cidade de Tebas. Heróis como Héracles também enfrentaram dragões; um dos mais famosos foi Ládon, que guardava os pomos de ouro do jardim das Hespérides, filhas de Atlas.

Já na mitologia Nórdica temos Fafner, do Anel dos Nibelungos, o gigante e inimigo dos deuses que, transformado em dragão, dormia sobre o Ouro do Reno. E na mitologia Anglo-Saxã encontramos Grendel, o dragão que atacou a Dinamarca e que seria morto por Beowulf. Em tais relatos, de inspiração europeia, é comum haver uma ligação entre os dragões e tesouros preciosos. Um autor especulou que ouro e pedras preciosas seriam matérias desejáveis aos dragões, pois o ouro, metal incorruptível, formaria um leito não-corrosivo para o verme – algumas histórias falam em dragões que soltam ácido – e as gemas, quase  indestrutíveis, protegeriam seu ventre das armas humanas como uma couraça preciosa. [6]

Na ficção, cada autor utiliza os dragões da forma que deseja. Em ficção científica os mais famosos talvez sejam os Dragões de Pern, descritos pela autora Anne McCaffrey. Na fantasia, temos os dragões descritos por J. R. R. Tolkien, como Glaurung, criado por Morgoth para atacar elfos e humanos. E muitos outros, como os que habitam o mundo de Harry Potter; esses estão divididos em espécies oriundas de vários pontos do mundo. São descritos com características biológicas detalhadas; e sim, cospem fogo.

Nas “Crônicas de Spiderwick”, o personagem Arthur Spiderwick diz que eles pertencem à família Draconidae, em duas espécies: o Wyrm, terrestre (Draco antiquissimus) e o Wyvern, alado (Draco Alatus).

Na Trilogia da Herança, de Christopher Paolini, os dragões estão quase extintos e são ligados a seus cavaleiros desde antes do nascimento – o que os aproxima dos dragões de Pern, que saem do ovo para pessoas específicas, ficando ligados a elas por toda a vida. O mesmo ocorre com dragões nas histórias de Téméraire, da autora americana Naomi Novik. Nessa história alternativa das guerras napoleônicas, os humanos treinam dragões para a guerra numa força aérea, e também existe a ligação profunda, desde que o dragão sai do ovo, entre ele e seu cavaleiro, ou melhor, dragaleiro, já que dragões não são cavalos.

Não é difícil concluir que, muito mais que o unicórnio, a fênix ou os centauros, o dragão é o ser fantástico mais presente em mitos, lendas e ficção. O fascínio que sua figura exerce sobre nós é extraordinário. Do ponto de vista simbólico, podemos até dizer que o dragão representa nosso próprio fogo interior, que algumas tradições esotéricas chamam de Kundalini, o fogo serpentino que se acredita ser a fonte da criatividade e da sexualidade no ser humano.

Não existem limites para a aparição dos dragões na literatura. Animais ou seres racionais superiores, senhores da chuva ou lançadores de fogo, suas histórias ainda vão nos encantar por muitos séculos.

“Aqui é o lugar onde os dragões foram parar. Eles repousam… nem mortos, nem adormecidos.

Nem à espera, porque esperar implica ter alguma expectativa.

É possível que a palavra seja… entorpecidos.

E, embora o espaço que ocupem não seja como o espaço normal,

ainda assim estão amontoados e apertados uns contra os outros.

Não há um centímetro cúbico que não contenha uma pata, garra, escama ou a ponta de uma cauda. O efeito disso é comparável àqueles desenhos de ilusão de ótica,

e nossos olhos acabam percebendo que o espaço entre cada dragão é, na verdade, outro dragão.

É possível imaginar uma lata de sardinhas,

isso se você achar que as sardinhas são enormes, cheias de escamas, orgulhosas e arrogantes.

E que, supostamente, em algum lugar, há um dispositivo de abertura.”

Terry Pratchett[7]

Leituras sugeridas:

O Silmarillion – J. R. R. Tolkien – Ed. Martins Fontes

Crônicas do Mundo Emerso (3 volumes) – Licia Troisi – Ed. Rocco

His Majesty’s Dragon – Naomi Novik – Ballantine Books

The Fire Within – Chris d’Lacey – Scholastic Books

Crônicas de Dragonlance (3 volumes) – Margareth Weis e Tracy Hickman – Ed. Devir

Como criar e cuidar de um dragão – John Topsell – Ed. Marco Zero

Dragonflight – Anne McCaffrey – Ballantine Books


[1] Huxley, Francis. Mitos, Deuses, Mistérios: o Dragão. Espanha: Ed. Del Prado, 1997. Pp. 05-07.

[2] Idem.

[3] Huxley, Francis, op. Cit., p. 9.

[4] Fonte: Microsoft Encarta Enciclopédia, 2000.

[5] Fonte: Francis Huxley, op. Cit., p. 15.

[6] Dickinson, Peter. Flight of Dragons, The. 1979.

[7] Pratchett, Terry. Guardas! Guardas! São Paulo: Conrad do Brasil, 2005. P. 11.

Correção

Como muita gente já deve saber, logo depois da IMAX soltar uma nota sobre o lançamento do Hobbit em 2013 circulou a informação de que o primeiro filme está mesmo previsto para 2012.

Essa confusão de datas e informações erradas já encheu. Ou existe uma data ou não existe. Agora ficar nessa de que não existe data, ai surge uma data, mas tá errada a data certa é outra. Dai surge o PJ falando que ainda não existe data, que o filme ainda não foi oficializado e coisa e tal. Então por que ele e o Del Toro de tempos em tempos aparecem falando do filme se nada está certo? A coisa já está beirando o desrespeito aos fãs. Deveria exister uma posição oficial. Nem que fosse: “Sim, o filme está em nossos planos, mas não existe nenhuma data” ou “O filme vai acontecer e a data é essa.” Qualquer coisa. Tá ai, desabafei.

O Juízo da História

1) Introdução

Quando ingressei no Tribunal Superior do Trabalho na qualidade de Ministro, nos idos de 1999, já tendo lá servido como funcionário e procurador desde 1983, tive a ventura de ver presente em minha posse não apenas meus pais, mas principalmente meu avô português, que, aos 101 anos, era só orgulho e felicidade. Na ocasião, lembrando as raízes lusitanas, recebi de presente de uma amiga de minha mãe, a Sarita, um belíssimo livro, ricamente encadernado, tendo por título “História de Portugal”, de João Ameal (Livraria Tavares Martins – 1958 – Porto, 4ª edição), verdadeira relíquia de família.

O acervo de processos recebido e o desejo de enfrentá-lo com todas as energias do corpo e da alma fez-me depositar o livro na estante de casa e lá deixá-lo, engalanando a sala de estar com o visual de sua grossa lombada, onde permaneceu por 10 anos, até despertar-me sinceramente o interesse e a curiosidade, sem uma razão determinada. Ou melhor, tendo lido “São Tomás de Aquino” do mesmo autor, e o prefácio que escreveu para a edição portuguesa do “Ortodoxia” de Chesterton, tais circunstâncias já me haviam feito namorar essa volumosa obra, que anunciava narrar a história portuguesa, dos seus primórdios até ao ano de 1940, em que publicada sua 1ª edição.

Apanhando recentemente o livro e decidido a lê-lo, chocaram-me as primeiras linhas da introdução, onde o autor se perguntava: “Que é a História? Uma ciência? Uma arte? Uma ética?” (p. VII). Francamente (pensei), como podia o ilustre acadêmico português confundir História com Ética, o ser com o dever ser? Quase abandonei, de chofre, a leitura, decepcionado. No entanto, as linhas e páginas que se seguiram foram para mim uma descoberta e um alento.

Respondia o autor à última de suas perguntas iniciais dizendo: “Para outros, consiste em apresentar uma galeria de modelos na qual se possa distinguir o bem do mal, o exemplo a seguir e o erro a evitar e portanto donde resulte uma série de normas úteis à orientação dos contemporâneos: é a História-Ética (p. VII, grifos nossos). Confesso que nunca me havia ocorrido tal concepção da narrativa histórica. No entanto, a idéia do aproveitamento da experiência histórica para bem agir já me vinha de certo modo incutida tanto pela leitura da “Evolução da Cidade de Deus” de Etienne Gilson (Herder – 1965 – São Paulo), quanto das aulas do mestrado na UnB com o Ministro Moreira Alves e de seu livro “Direito Romano” (Forense – 1990 – Rio).

Mas o encanto com a História de Portugal de João Ameal não parou por aí. As idéias que se seguiram foram ainda mais impactantes, quando escrevia: A História é vida – tal o axioma inicial a propor. E não apenas vida dos outros – de outros tempos, de outros seres – mas a nossa vida, antes de nós (…) Se nos pedissem que arriscássemos uma definição, sugeriríamos: a História constitui, para o verdadeiro historiador, um exame de consciência(p. VIII, grifos nossos).

Eis aí descrito, da forma mais apropriada que já vi, o juízo da História: seremos julgados pelos nossos atos e decisões, nas suas conseqüências e motivações, não apenas por Deus (que é o que mais importa), mas também pelas gerações que nos sucederão, que, com a perspectiva do tempo, poderão aquilatar melhor nossos acertos e erros, grandezas e misérias, heroísmos e vilanias, pois terão a objetividade que nos falta para julgar das próprias ações.

Mas podemos já deflagrar esse exame de consciência pessoal, como o fazia João Ameal ao reconhecer a insuficiência do resultado de seu trabalho em ordem à grandeza do objeto estudado: “Salve-nos ainda o desassombro e a boa fé com que nos sujeitamos à triste e honrosa lei da condição humana: o hábito incurável que todos temos de lançar ombros a tarefas maiores do que nós…(p. XV, grifos nossos).

2) As causas e motivações dos fatos históricos

Max Weber (1864-1920), ilustre sociólogo alemão, que reconhecia, na esteira de Aristóteles, que a ciência é o conhecimento pelas causas, perquiria sobre as causas dos fenômenos sociais, resumindo-as em sua obra “Economia e Sociedade” (1922) numa tipologia ideal, assim expressa:

  • comportamento racional em relação a um fim – objetivo claramente fixado pelo agente, planejado e perseguido, como  o engenheiro que constrói uma casa, tendo em vista um projeto prévio;
  • ação racional em relação a um valor – motivação transcendente ao sujeito, como o marido que afasta a tentação de adultério por fidelidade à esposa;
  • ação afetiva – ditada pela paixão ou estado de espírito do momento;
  • ação tradicional – ditada pelos hábitos e costumes adquiridos.

No caso da história, dizia Weber que o pesquisador pode, para explicar os fatos históricos, buscar na sociologia (ocupada com as regularidades do comportamento humano) as possíveis causas do agir concreto dos protagonistas do fato, devendo determinar o peso que cada causa isoladamente teve no acontecimento: constroem possibilidades do que teria ocorrido sem determinada causa. Se for verossímil que o acontecimento não teria ocorrido sem ela, trata-se de causa principal, senão pode ser causa secundária ou nem ser causa.

Weber, nessa linha, rejeitava o determinismo marxista de reduzir as causas históricas ao fator econômico (ainda que seja fator relevante), chegando a aplicar a sua teoria a um caso concreto de causalidade religiosa sobre fenômeno econômico em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” (1905). Em sua visão, o capitalismo, que conjugaria a vontade do lucro com a disciplina racional do trabalho (e não por conquista ou aventura), teria tido sua força propulsora na ética calvinista:

  • crença na predestinação universal para céu ou inferno;
  • o sucesso nos negócios seria o sinal da predestinação para o céu;
  • empenho no trabalho, para superar a angústia sobre a salvação;
  • desapego do mundo, que leva a não consumir, mas reinvestir o lucro.

Posteriormente, as 3 Escolas Vienenses de Psicoterapia ofereceram, sucessivamente, diferentes explicações sobre a motivação do agir humano:

a) Sigmund Freud (1856-1939) – Considerava o instinto sexual (a libido) o principal fator motivador do comportamento humano (“O Ego e o Id”);

b) Alfred Adler (1870-1937) – Discípulo de Freud, rompeu com o mestre e rejeitou a psicanálise, sustentando que não seria o “princípio do prazer” que explicaria o comportamento humano, mas a “vontade de poder”, ou seja, o desejo de se sobrepor aos outros e de que reconheçam sua superioridade. A competição com os outros geraria o “complexo de inferioridade”, cuja superação se daria através do mecanismo da “compensação”, de buscar atividades diferentes nas quais possa se sobressair (“Compreendendo a Natureza Humana”).

c) Viktor Frankl (1905-1997) – Fundador da Logoterapia, que esteve preso num campo de concentração nazista por ser judeu, opôs-se às explicações de Freud e Adler, sustentando que o comportamento humano tem por motor a “sede de sentido”, isto é, a necessidade de encontrar utilidade e sentido para a própria existência (“Psicoterapia e Sentido da Vida”).

Em que pese a teoria de Frankl ser mais abrangente das motivações do agir humano e menos reducionista, poderíamos estabelecer relação entre as teorias psicológicas e a teoria sociológica de Weber, quanto às motivações ou causas dos fenômenos sociais, compactando-as em 3 espécies:

a) motivação racional – por fins (como o poder) ou valores (como ser útil);

b) motivação passional – pelo amor (libido) ou pelo ódio (inveja, vingança);

c) motivação habitual – por tradição (assumida) ou comodismo (simples inércia).

Ora, ao se tentar compreender os fatos sociais do presente e do passado, a causalidade assim dissecada apresenta-se em 2 planos básicos:

a) plano retórico ostensivo – do discurso que busca justificar racionalmente a ação e que, na maioria dos casos, esconde as reais intenções ou motivações do agente;

b) plano real subjacente – do verdadeiro motivo que ensejou a ação, de caráter mais passional que racional e, justamente por isso, inconfessável, sendo, muitas vezes, sequer admitido pelo agente.

Cabe, pois, ao historiador e aos que analisam, para tentar compreender, os acontecimentos do presente e do passado, perquirir sobre quais as verdadeiras causas do sucesso ou insucesso de determinadas políticas, projetos e ações. O juízo da história, que já começa no presente – ainda que sem a perspectiva do tempo, essencial para se aquilatar a verdadeira dimensão das escolhas e opções feitas – e se consuma no futuro, leva em conta, desse modo, as ações e suas causas: não apenas o que aconteceu, mas também, como dizia Sir Hugh Trevor-Roper (n. 1914-2003), catedrático de História da Universidade de Oxford, a visão das possibilidades perdidas, do que poderia ter acontecido e não aconteceu e por quê (“History and Imagination” – 1980).

Ora, Carl Schmitt (1888-1985), filósofo político alemão, era contundente ao afirmar que, da mesma forma que a Ética dividia os homens em bons e maus e a Estética em belos e feios, a Política os dividia em amigos e inimigos, sendo pura retórica os programas ideológicos ou humanitários dos partidos políticos, já que seu objetivo era simplesmente a conquista do poder, não para servir a sociedade, mas para servir-se dela (cfr. “O Conceito do Político”, Vozes – 1992 – Petrópolis, tradução de Álvaro Valls). Ives Gandra Martins (pai), em sua “Uma Breve Teoria do Poder” (RT – 2009 – São Paulo), apresenta essa mesma visão pessimista do homem no Poder, analisando historicamente regimes e governos e mostrando como é generalizada a tendência dos detentores do poder, de se servirem da sociedade e não de estarem a serviço desta.

Traçada a moldura causal para enquadrar e julgar os fatos sociais sob a perspectiva histórica, cabe indagar se o modelo corresponde à realidade, ou seja, as políticas públicas, os empreendimentos sociais, as grandes realizações econômicas, culturais e artísticas têm como motor a razão ou a paixão?

Estou cada vez mais convencido, pelo estudo da História e pela vivência concreta no setor público – Judiciário, Executivo e Legislativo –, que os modelos sociológicos traçados por Weber e Schmitt não se distanciam da realidade. Os grandes estadistas, os verdadeiros homens públicos, os empresários com sensibilidade social, os sindicalistas com capacidade de harmonização, os artistas com consciência e responsabilidade por seu papel de ícones comportamentais, não são a regra, porque a “ação racional em relação a valores” também não o é. Para isso seria necessário, como o fez João Ameal, um exame de consciência, sincero e diário sobre as próprias ações, não visando ao lucro, à vantagem pessoal, ao modo de subir, vencer, dominar ou prevalecer, mas ao juízo de Deus e dos homens sobre o que engrandece e enobrece o homem e o que o avilta e corrompe.

A História recorda sem número de exemplos emblemáticos de causas passionais explicativas dos eventos históricos, mais ou menos revestidas com a retórica de uma motivação racional, podendo-se referir, entre tantos, a paixão de Marco Aurélio (83-30 a.C.) por Cleópatra, levando à guerra civil contra Otávio Augusto; a inveja de Herodes (73-4 a.C.) em relação a Cristo, mandando matar as crianças de Belém; a depravação de Nero (37-68), desencadeando a primeira grande perseguição e martírio dos cristãos; a avareza de Felipe IV, o Belo (1268-1314), da França, perseguindo e destruindo a Ordem dos Templários, com base nas mais infames acusações falsas, para se apoderar de seus bens; a luxúria de Henrique VIII (1491-1547), que provocou o cisma da Igreja Anglicana; o caso de D. Pedro I (1798-1834) com a Marquesa de Santos, que o fez maltratar a Imperatriz D. Leopoldina, perdendo o apoio popular e tendo que renunciar ao trono; o ódio de Adolf Hitler (1889-1945) aos judeus, causa de seu extermínio em massa; a vaidade dos Generais George S. Patton (1885-1945) e Bernard L. Montgomery (1887-1976), sacrificando muitos soldados na disputa para ver quem chegaria primeiro a Berlim na 2ª Guerra Mundial, vindo a perder para os russos; a prepotência do General Leopoldo Galtieri (1926-2003), que levou a Argentina à fracassada Guerra das Malvinas contra os ingleses em 1982, custando tantas vidas a dois países cristãos…

Na literatura de ficção, o exemplo paradigmático do agir passional, pautado pela inveja, é o de Morgoth e Sauron, sempre empenhados em destruir tudo o que de bom faz Eru e os Vala, tal como contado nos livros “O Silmarillion” e “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien. Impressiona pensar que, para alguns seres, o sentido da existência possa ser o de destruir o que outros constroem, apenas por ódio, inveja, ciúme ou desejo de vingança. O clássico de Alexandre Dumas, “O Conde de Monte Cristo” é outro exemplo emblemático de como o desejo de vingança que pauta a vida de muitas pessoas não realiza nem satisfaz ninguém, trazendo apenas mais tristeza e desconsolo, para si e para os outros.

3) Progresso, Estagnação, Decadência e Retrocesso

No fundo, o comportamento passional, justamente pela sua irracionalidade, não contribui diretamente para o progresso civilizatório da Humanidade. Pode, ocasionalmente, atendê-lo, de forma oblíqua e inesperada. No geral, conduz ao retrocesso e à decadência das civilizações, tal como ensinava Arnold Toynbee (1889-1975), catedrático de História da Universidade de Oxford, em seu “Um Estudo da História” (Martins Fontes – 1980 – São Paulo), no qual desenvolve sua concepção da gênese, desenvolvimento e declínio das civilizações, ligada às respostas criativas aos desafios que o meio, quer ambiental, quer humano, apresenta ao homem de cada época ou lugar.

Pelo mecanismo da mimese, os líderes (minoria criativa) atrairiam a massa social para sua imitação, sendo seguidos mecanicamente pela grande maioria não criativa. Nesse sentido, enquanto houver respostas criativas por parte da minoria dominante, que engendram novos desafios e novas respostas bem sucedidas, haverá desenvolvimento da civilização. A decadência das civilizações teria por sintoma básico o cisma social entre a minoria dominante, antes criativa, mas que agora tenta manter a liderança já não pelo prestígio e serviço, mas pela força, pois que preocupada apenas com a satisfação de seus vícios (decadência moral), e o proletariado interno, constituído pela massa social que antes seguia por mimese os líderes criativos e agora, despida de seus direitos básicos, incuba seus próprios líderes.

O comportamento meramente habitual, da maioria amorfa e mimética, que se deixa conduzir, sem refletir, por modismos e padrões estabelecidos pelos mass media, aferrada às rotinas e tradições, temerosa das mudanças e inovações que não sejam aplaudidas pelos meios de comunicação social, só conduz à estagnação da sociedade e das civilizações. Sobre ele nos fala, ainda que indiretamente, mas com expressões impactantes, Gaston Bachelard (1884-1962), catedrático de Filosofia da Ciência na Sorbone, em seu “A Formação do Espírito Científico” (1938):  “O espírito nunca é jovem quando se apresenta à cultura científica. Pelo contrário, é muito velho, porque tem a idade dos seus preconceitos”. Por isso completava, ironicamente: “Os grandes homens são úteis para a ciência na primeira metade de sua vida e nocivos na segunda metade”. E por quê? Porque se deixam levar por seus preconceitos e outras paixões menos nobres, como a inveja e a vaidade, para não admitirem soluções melhores do que as suas.

Apenas o comportamento racional, especialmente se ligado a valores, tem o condão de promover o progresso da sociedade e da civilização, uma vez que, para a razão, o que importa é a solução do problema, independentemente de quem a tenha proposto ou engendrado.

Dizia um amigo – e o repito amiúde – que os grandes problemas profissionais não são problemas técnicos, mas de relacionamento. Os problemas técnicos se estudam e se resolvem, com engenho e arte. O que atrapalha são as vaidades, suscetibilidades, invejas, ciúmes e outros defeitos que fazem com que as melhores soluções sejam, muitas vezes, preteridas, já que combatidas por aqueles que não as engendraram, e pelo simples fato de que a idéia não é própria, mas alheia.

A descontinuidade no campo das obras públicas, em regimes democráticos de alternância no poder, é sinal claro de que a motivação é passional e não racional, pois o bem não é bem em si mas quando feito pelo seu partido e o mal não é mal em si, mas quando praticado pelo adversário. Quantos não tem que dizer, ao assumirem cargos públicos eletivos: “Esqueçam o que eu disse, fiz ou escrevi…”. Sinal de incongruência entre discurso e vida.

Já nos regimes despóticos, a luta pelo formação de grupos ou partidos hegemônicos, não afeitos ao diálogo e ao pluralismo de idéias, as obras e realizações acabam sendo efêmeras, fadadas ao insucesso e à revisão, uma vez que a violência, física ou psicológica, não é apta nem a vencer, nem a convencer.

Se a História, como dizia Sir Hugh Trevor-Roper, é também o que não aconteceu, poderemos julgar muitos pelo que deixaram de fazer ou impediram que outros fizessem, escravos que foram de seus preconceitos, dos quais não conseguiram se libertar.

4) Conclusão

Heraldo das glórias de Portugal, Camões escrevia logo no início dos “Lusíadas”:

“E aqueles que por obras valorosas

se vão da lei da morte libertando,

cantando espalharei por toda parte,

se a tanto me ajudar engenho e arte”.

Não é demais pensar que obras valorosas só se realizam por um agir racional fundado em valores. Esse é o ideal a ser buscado e vivenciado.

Assim, voltando à concepção da História-Ética de João Ameal, concluímos que o juízo que se fará dos nossos atos, omissões e realizações, não deixará de levar em conta as motivações, nobres ou vis, altruístas ou egoístas, magnânimas ou mesquinhas, agregadoras ou partidaristas, bem como os resultados, positivos ou negativos, duradouros ou efêmeras, reais ou aparentes, de nosso decidir e agir.

Se conseguirmos realizar diariamente o exame de consciência que nos propõe, será possível reconhecer as motivações menos nobres e retificar o rumo de nossos projetos e planos, de modo a que possamos ser eficazes em nosso agir, em prol da sociedade em que vivemos, e não meramente usufrutuários do patrimônio cultural e econômico por outros edificado. Tudo dependerá da sinceridade do exame e da coragem na retificação. Nesse caso, o juízo da história será benévolo e justo para conosco, pois a dureza ficou por nossa conta ao nos julgarmos a nós mesmos.

Ives Gandra da Silva Martins Filho
Ministro do Tribunal Superior do Trabalho
Membro do Conselho Nacional de Justiça

Nova data para o Hobbit divulgada

A Imax Corporation anunciou hoje um acordo com a Warner Brothers para lançar 20 filmes até 2013.

Entre os 20 filmes, cinco já estão definidos. As duas partes de Harry Potter and the Deathly Hallows (em 3D), Happy Feet 2, e The Hobbit em Dezembro de 2013!

A princípio não foi divulgado se esta data, Dezembro de 2013, é para a primeira ou segundaparte do Hobbit, ou se o filme será em 3D.

De qualquer forma é uma data oficial, já que o Peter Jackson dias atrás disse que ainda não existia nenhuma data para o filme. Vamos aguardar por mais notícias.

Limitações e Defeitos: O Que Aceitar e o Que mudar

1) Introdução

Em geral, as pessoas tem uma visão equivocada do que sejam limitações e defeitos e também se portam de modo equivocado ao tratar com eles. Assim, de um lado, tentam superar suas limitações, querendo ser e chegar onde não tem condições de viver. Exemplos típicos são os daquele que aspira a um cargo além da sua envergadura (não tem perfil para aquilo, desconhece a matéria e nem terá tempo para estudar e especializar-se nela), daquele que gasta mais do que tem (sem aceitar a limitação dos seus haveres presentes ou de sua capacidade de gerar renda futura tão elevada) ou daquele que não aceita sua constituição física (e vive se quebrando, por praticar esportes radicais para seu biótipo ou faixa etária… o bendito futebol de final de semana).

Outro dia, quando me pediram, num hotel, o número do cartão de crédito, disse que não tinha. Só de débito. E comentei jocosamente, a latere com o colega que me acompanhava: “Isso é que é pobreza!”. Ele, no entanto, rapidamente retrucou: “Isso é que é riqueza! Você gasta o que tem. Eu, com meu cartão de crédito, gasto o que não tenho…”. Realmente, essa tem sido uma marca iniludível da sociedade moderna, que conduziu à crise financeira de setembro de 2008: crédito fácil no mercado, sem a verificação sobre se as pessoas tem condições de pagar os bens de consumo adquiridos, muitas vezes compulsivamente. O importante é produzir e consumir. O velho adágio cartesiano “je pense, donc je suis” foi substituído pelo moderno “I shop, therefore I am”.

Se é difícil aceitar as limitações, mais ainda é mudar os defeitos. Daí que, as pessoas tendam a aceitar seus defeitos com naturalidade, tirando-lhes importância, como se estivessem irremediavelmente incrustados em sua natureza. É o alcoólatra que diz só beber socialmente; é o mulherengo que repete constantemente a frase da Escritura – “é… a carne é fraca…” –; é o atrasado contumaz, sempre com sua desculpa pela importância do que estava fazendo antes ou sobre a conspiração cósmica contra sua pontualidade; é o eterno desordenado, que perde as coisas e esquece os compromissos, por não acreditar na eficácia da agenda e de seguir o conselho daquela professora de Francês: “Une place pour chaque chose; chaque chose a sa place…”.

Assim, Aceitam-se os defeitos e se rebelam contra as limitações, quando, conhecida a diferença entre limitações e defeitos, deveriam combater estes e aceitar aqueles. Onde está, pois, a diferença? São sinônimos ou tem sentidos distintos e equívocos esses dois termos?

2) As Limitações

As limitações dizem respeito à nossa constituição física e anímica: alto ou baixo, gordo ou magro, mais ou menos inteligente, temperamentalmente mais expansivo ou mais retraído, etc.

Costumam os moralistas distinguir entre temperamento e caráter. Enquanto o primeiro é o dado fático bruto, ou o constitutivo anímico de nosso ser, o segundo é o elemento construído, através da prática das virtudes.

Assim, há traços temperamentais que podemos trabalhar e ter sobre eles um certo domínio, enquanto outros estão tão arraigados que sempre os teremos como característica de nosso modo de ser.

Na série de romances de Patrick O’Brian sobre O Mestre dos Mares, os dois personagens principais, apesar de ingleses, ou seja, muito comedidos, contidos e discretos, têm temperamentos bem diferentes, que se complementam, gerando uma amizade íntima e forte.

Jack Aubrey, o comandante da Fragata Surprise, é todo exuberância, primarismo em seus sentimentos, fortes e extravasados nas ordens que dá e nos combates que trava. Já Stephen Maturin é o cirurgião do navio, filósofo e cientista, que mantém seu diário anotando suas mais profundas especulações sobre a condição humana.

No livro A Fragata Surprise (Record – 2007 – Rio de Janeiro), que é o terceiro da série, há uma passagem que mostra a diferença entre o estado bruto do temperamento e o caráter trabalhado, quando aquele aflora em momentos de maior tensão. Maturin é ferido num duelo e, após a operação em que é retirada a bala que se alojou abaixo de seu coração, entra em estado febril e delirante, destrancando sua mente mais secreta, o que faz Aubrey permanecer em seu leito de doente, pois não desejava que mais ninguém lhe ouvisse as confissões:

“Afora segredos oficiais, havia coisa que Jack não desejava que nenhum outro homem escutasse. Sentia vergonha de ouvi-las; para um homem orgulhoso como Stephen (e nesse sentido Lúcifer não chegaria aos pés dele) seria a morte saber que mesmo o amigo mais íntimo ouvira suas nuas afirmações de desejo e todas as suas fraquezas desnudas como no Dia do Juízo (…) Ele havia considerado Stephen o próprio filósofo, forte, praticamente intocado pelos sentimentos comuns, seguro de si e com toda a razão; não tinha maior respeito por nenhum homem da terra. Este Stephen, tão passional, tão totalmente subjugado por Diana e tão cheio de todo tipo de dúvidas o deixava pasmo; não estaria mais perdido se encontrasse a Surprise privada de suas âncoras, do lastro e da agulha magnética” (pgs. 382-383).

Uma das limitações que temos é, justamente, a constituição física, da qual um dos componentes é a idade: a cada fase da vida temos condições de fazer umas coisas e não de outras. A melhor descrição que conheço desse tipo de limitação etária é a que Marguerite Yourcenar (1903-1987) faz no primeiro capítulo de suas ”Memórias de Adriano” (Editora Nova Fronteira – 1980 – Rio de Janeiro, tradução de Martha Calderaro; publicação original de 1951), quando o velho Imperador Romano olha para trás, para o passado, pensando no que era capaz e fez ao longo da vida. Aos 10 anos, amante das corridas (“correr, mesmo no mais curto percurso, ser-me-ia hoje tão impossível quanto para a pesada estátua de um César”), aos 20 da caça; aos 30 da equitação (“A renúncia à equitação é sacrifício mais penoso ainda; uma fera não era senão um adversário; o cavalo era um amigo”); aos 40 da natação (“De cada arte praticada, retiro hoje um conhecimento que me compensa em parte dos prazeres perdidos”); aos 50 dos banquetes (“comer em excesso é hábito romano; eu, porém, fui sóbrio por volúpia”); mas aos 60 anos, pensando também nos amores de sua vida, olhava para traz, vendo a que estava limitado com sua idade e doença…“Confesso que a razão permanece confusa em presença do prodígio do amor, da estranha obsessão que faz com que essa mesma carne, que tão pouco nos preocupa quando compõe nosso corpo, limitando-nos somente a lavá-la, nutri-la e, se possível, impedi-la de sofrer, possa inspirar-nos uma tal paixão de carícias simplesmente porque é animada por uma personalidade diferente da nossa e porque representa certos traços de beleza sobre os quais, aliás, os melhores juízes não estariam de acordo” (…) “Tais conceitos sobre o amor poderiam conduzir-me a uma carreira de sedutor. Se não a empreendi foi, sem dúvida, por ter feito coisa melhor” (…). E termina por reclamar da insônia que o acossa: “De todas as venturas que lentamente me abandonam, o sono é uma das mais preciosas, embora seja das mais comuns também. Um homem que dorme pouco e mal, apoiado sobre dezenas de almofadas, medita com vagar sobre essa volúpia diferente”.

Na História Universal, um dos maiores exemplos de não aceitação das próprias limitações, levando-se toda uma nação à completa exaustão e destruição, foi a continuidade da 2ª Guerra Mundial pelos alemães, não obstante já estivesse perdida desde o desembarque na Normandia. A obstinação germânica, impulsionada pelo fanatismo de seu Führer, é bem descrita na obra-prima de estudo histórico do período “Ascensão e Queda do III Reich”, de William Shirer (Editora Civilização Brasileira S/A – 1962 – Rio de Janeiro, 2ª Edição, Tradução de Pedro Pomar, 4 Volumes) e fez com que a agonia alemã e dos povos submetidos ao seu jugo, além da perda de vidas de aliados e das potências do Eixo, se estendesse ainda por mais um ano.

Saber se dá para começar um projeto e quando está na hora de parar não é pouca ciência.

3) Os Defeitos

Os defeitos são ausência de virtudes que poderíamos e deveríamos ter. Os 7 pecados capitais elencam as raízes de nossos principais defeitos: soberba, luxúria, preguiça, ira, inveja, gula e avareza. São qualidades nocivas ao nosso comportamento, que nos envilecem e corrompem.

Logo no primeiro capítulo do livro “Caminho”, de S. Josemaría Escrivá, dedicado ao tema do “Caráter”, um dos primeiros pontos de meditação é bem incisivo e cai como luva para nossa reflexão sobre as limitações e os defeitos, o temperamento e o caráter:

“Não digas: “Eu sou assim…. são coisas do meu caráter”. São coisas da tua falta de caráter. Sê homem – “esto vir” (ponto 4).

Os defeitos ou vícios são hábitos maus adquiridos e que, uma vez arraigados, são mais difíceis de se tirar, mas não tarefa impossível. Três coisas são essenciais para se vencer um defeito e perder um vício:

a) reconhecer que se tem o defeito – acabar com os eufemismos ou com a visão benevolente que temos de nós mesmos (dar nome aos bois);

b) lutar contra o defeito – praticar as ações da virtude contrária ao vício (moderação no comer, para o guloso; generosidade para o avarento; contar até dez para o irado…);

c) não desistir diante das derrotas – sabendo seguir o conselho da música – “levanta, sacode a poeira e dá volta por cima” – ou o lema daquele general –“de derrota em derrota, até a vitória final!”.

Temos uma dificuldade enorme de reconhecer nossos defeitos: supervalorizamos nossas qualidades e depreciamos nossos defeitos. Luiz Marins, em sua obra de administração de pessoal (divertidamente ilustrada pelo Negreiros) chamada “Só Não Erra Quem Não Faz” (Landscape – 2008 – São Paulo), vai elencando em cada capítulo os vícios que desenvolvemos em nosso trabalho, que devemos combater e que podemos pendurar nos 7 vícios capitais:

a) inveja – hábito de reclamar de tudo e de todos; só falar mal dos outros; sempre com dó de si mesmo (vitimismo); criador de caso, que tudo contesta e com todos encrenca; volúvel que não dá segurança a ninguém;

b) ira – viver dando broncas e gritando com as pessoas; sempre mau-humorado, de cara fechada e de mal com o mundo;

c) orgulho – arrogância de se achar melhor do que os demais; não ouvir ou prestar atenção aos outros; não precisar de ajuda; tornar-se inacessível e indisponível, o que leva ao isolamento e ao fracasso; viver dando desculpas, por não reconhecer que também é falível; intolerância para com erros que todos podem cometer e que são a marca de quem está produzindo; falar muito e de forma empolada, complicada e sem objetividade; suscetibilidade enfermiça que se ofende por tudo e por nada;

d) preguiça – cansaço crônico para tudo o que não seja desfrutar da vida; o fulano que se fossilizou, ancorado no passado (só olha pelo retrovisor e bate no carro da frente) e não sabendo conviver com as inovações e com ter de aprender coisas novas (vive se economizando); pensar antes de falar; medo de se “sujar” e colocar a mão na “m”. o fulano que vive adiando os compromissos, não cumpre os prazos e horários, não decide nunca e está sempre atrasado;

e) avareza - desprezo pelos detalhes e pelas pessoas, esquecendo de dar retorno, de agradecer e de reconhecer os méritos alheios (não sabe elogiar); ativismo que estressa e que faz perder o sentido do descanso e da contemplação (não se tem tempo para os outros, só para a própria carreira e profissão, numa ambição doentia);

i) gula – desconta na comida as insatisfações em outros campos, virando uma bola;

j) luxúria – assédio sexual, do que não vê nas colegas e subordinadas pessoas mas apenas possíveis objetos de prazer (cantadas veladas ou explícitas); viciado em baixaria na internet…

O campo de luta é vastíssimo, se buscamos o aperfeiçoamento profissional e pessoal. Mas, para começar, seguir o conselho antigo de Sócrates: ”Conhece-te a mesmo”. E uma boa maneira, é, para quem está casado, perguntar ao outro cônjuge: ”Quais são os meus modos de ser que te chateiam?”. Saberão descrever os nossos defeitos melhor do que ninguém. É fácil ver os defeitos dos outros, porque não estamos imersos nele, mas com os nossos temos muita benevolência.

Até hoje não encontrei, nos clássicos da Literatura Universal, melhores exemplos descritivos dos recantos sombrios da alma humana, de suas motivações e fraquezas, do que dois grandes escritores russos: Fiódor Dostoiévski (1821-1881) e Leon Tolstoi (1828-1910).

Do primeiro, os romances que mais me atraíram, desde a juventude, foram “Os Irmãos Karamázovi” (Ediouro – 1981 – Rio de Janeiro, tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes) e “O Idiota”. A diferença de temperamento dos 3 irmãos Karamázovi – Dimítri, o idealista violento e desregrado; Ivan, o intelectual ensimesmado e frio; e Aliócha, o religioso singelo e confiante (sem falar no filho ilegítimo Smierdiákov, corrompido parricida) – representando as três facetas que resumem a alma russa – a passional, a racional e a mística –, fazem com que, ao longo da estória, nos vamos identificando com um ou com outro, reconhecendo nos diálogos e reflexões dos personagens, nossas próprias angústias, dilemas e esperanças, verificando como umas podem ser superados e outras sublimadas bastando que se reconheça as fraquezas e se as queira vencer. Olhando de fora, parece tão fácil…

Em “O Idiota” (Editora 34 – 2002 – São Paulo, tradução de Paulo Bezerra), o que mais me impressionou foi o contraste entre a aceitação das próprias limitações por parte do personagem que dá nome ao livro, o Príncipe Liev Nikoláievitch Míchkin, com a epilepsia que o constrangia, e o orgulho profundo de Aglaia Ivánovna, que perde o seu amor, por não querer manifestá-lo primeiro. A densidade e complexidade das personalidades prende e extasia o leitor, identificando seus próprios modos de agir, pensar e sentir. Poderia ser diferente o desenlace do drama?

Drama não menos polarizante é o “Ana Karênina” de Tolstoi (Abril Cultural – 1971 – São Paulo, tradução de João Gaspar Simões), cuja primeira frase parece ser um resumo conpacto de todo o livro: “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. Haveria, então, um modo único de ser feliz, e muitos caminhos para a infelicidade?

Na concepção aristotélica de Eudaemonia (felicidade), ela estaria na excelência moral, que supõe a conjugação das quatro virtudes cardeais (prudência, justiça, fortaleza e temperança, com todas as demais que a elas se ligam). Assim, pela unidade da ordem moral, não é possível alcançar a excelência e a perfeição se se claudica numa delas. Assim, a felicidade supõe não abdicar da luta em nenhuma das frentes, enquanto a infelicidade varia segundo o front no qual se entregou os pontos. No caso de Ana Karênina, foi entregar-se à paixão extra-conjugal pelo Príncipe Vronski, não obstante a bela família que tinha, com filho e marido exemplares. O drama interior de uma alma dividida é bem retratado no livro.

Mas a obra-prima de Tolstoi é, indubitavelmente, “Guerra e Paz” (Editora Itatiaia – 1983 – Belo Horizonte, 2 volumes, Tradução de Oscar Mendes). Nele, o período napoleônico, sob o prisma da Rússia, é tão bem retratado, numa trama que envolve tantos ambientes e famílias inteiras de personagens principais (a edição inglesa da Britannica Great Books – 1952 – London, que elege este como principal livro de Tolstoi, traz logo no início um elenco das principais famílias e seus membros, para facilitar a vida do leitor), que, na época em que o li pela primeira vez, quando não passava dos 14 anos, tendo todos os atrativos de uma Fazenda em Avaré para aproveitar as férias escolares – cavalos, açude, futebol, campos e bosques, gado e plantação de café, animais domésticos e pomares –, lembro-me de passar horas a fio na rede da varanda, lendo as aventuras e desventuras do Conde Pedro Bezukhov e da jovem e inocente Condessa Natásha Rostóva, do valente Príncipe André Bolkonski e de sua adorável esposa Lisa Bolkonskaya, do inescrupuloso Príncipe Anatole Kurágin e de sua sensual irmã Helena Kurágina, imaginando em quadros as passagens de festas e batalhas, com conquistas e derrotas, tanto no campo bélico, quanto no afetivo, a ponto de pensar que a realidade estava ali, no livro, e não na natureza que tinha a meu dispor.

Pois bem, a lição que se tira desse romance histórico é a de que a vida é feita de muitas pequenas derrotas e vitórias, e que, se não se abandona a luta contra os próprios defeitos e se percebe a necessidade da mudança, o resultado final pode ser altamente positivo, de uma forma muito diferente do que imaginávamos no início. Assim, também a felicidade tem vias distintas, concretizando-se de modos nem planejados, nem sonhados.

4) O que mudar e o que aceitar

Dizem que as expectativas no casamento são diametralmente opostas entre marido e mulher, e as frustrações decorrem da ausência de realismo nesse campo. Enquanto o homem espera que a mulher não mude na sua formosura, a mulher espera que o marido mude nos seus defeitos.

Esse é um bom exemplo da diferença entre limitações e defeitos sob o prisma da mudança: não dá para esperar que a beleza física permaneça indefinidamente (trata-se de uma limitação e contingência da natureza e do tempo), como também não dá para esperar que os defeitos arraigados se superem da noite para o dia (mas, havendo disposição, se consegue mudar).

Há uma frase lapidar no filme “Melhor é Impossível” (1997), com Jack Nicholson e Helen Hunt, que dá a pista do mecanismo capaz de provocar uma mudança no modo de ser, de modo a se vencer os defeitos temperamentais. É a que o escritor maníaco diz para a garçonete com a qual começa uma verdadeira amizade: “Você é uma pessoa que faz a gente querer ser melhor!”.

Ou seja, o amor é capaz de promover a mudança, por apresentar um motivo forte para ser diferente, de modo a agradar a quem se ama. Por outro lado, o amor faz aceitar as limitações de quem se ama, pois se ama do modo que é.

Chesterton fala-nos do paradoxo desse aceitar e querer mudar:

“Ninguém duvida que o homem comum consiga harmonizar-se com este mundo, no entanto, não basta que tenhamos força suficiente para nos harmonizarmos com ele: é preciso que tenhamos força bastante para fazê-lo progredir. Poderá o homem odiá-lo o bastante para mudá-lo e, ainda assim, amá-lo o suficiente para julgá-lo merecedor de mudança?” (“Ortodoxia”, LTr – 2001 – São Paulo, pg. 99).

Trata-se, portanto, de amar tanto, que se quer o que é defeituoso por si mesmo, mas se quer também que seja melhor.

Por um lado, quanto às limitações, são um dado da natureza que devemos aceitar e começar a trabalhar a partir dele. Assim, se temos pouca cabeça, teremos que compensar com mais estudo o que outros alcançam com a simples assistência às aulas. Se tempos a tendência fisiológica a engordar, podemos fazer regimes, mas sempre sujeitos a mais baixos que altos no controle do peso. Se a pessoa nasceu com algum defeito físico, não dá para desconversar e tentar viver se enganando ou complexado porque se é limitado de cabeça, careca, feio, baixinho, gordo, diabético, hipertenso, etc.

Mas os defeitos, estes sim, podemos e devemos combater. Não adiante querer mudar o mundo, com tantos projetos de reforma social, se não se está disposto a mudar o próprio interior. Os grandes problemas sociais não são problemas de estruturas, mas de abandono da luta interior por ser melhores. Em vez da revolução exterior, promover em primeiro lugar uma revolução interior que nos faça melhores homens e cidadãos.

Um dos romances mais pessimistas que já li foi ”Os Buddenbrook – Decadência duma Família” (Círculo do Livro – 1975 – São Paulo), de Thomas Mann (1875-1955). Retrata 50 anos da História da Alemanha, a partir de 1835, sob a ótica das vicissitudes de uma família da burguesia germânica. O que impressiona é ver os defeitos de criança dos personagens sendo carregados e agravados pela vida afora. Tony (Antoniette) Buddenbrook mantém seu temperamento difícil de conviver até o final do livro, acabando com seu casamento, justamente porque nunca houve preocupação por mudar e melhorar.

É possível mudar! Mais: o temperamento é apenas o ponto de partida. Explorar seus aspectos positivos (interatividade, afabilidade) e combater seus aspectos negativos (passividade, irascibilidade) é a nossa tarefa na vida.

No mundo empresarial de uma economia globalizada e de extrema competitividade , o segredo do sucesso e a da sobrevivência está na capacidade de mudar e com rapidez: reconhecer os erros, ver as escleroses e perceber o que há de novo exigindo respostas criativas para os desafios do meio (cfr. Arnold Toynbee, Um Estudo da História, Ed. UnB-Martins Fontes – 1987 – Brasília).

Há um autor que aprecio especialmente por seus romances históricos. Trata-se de Louis De Wohl, anglo-germânico, a quem o Papa Pio XII, conhecendo seu gênio literário, propôs escrever biografias de santos, mostrando a vida heróica de homens e mulheres empenhados em viver o ideal cristão nas mais distintas condições e épocas.

Louis De Wohl seguiu o conselho e, graças a ele, temos uma coleção fantástica de biografias romanceadas de grandes santos, onde, a par dos personagens históricos e os dados verídicos, há os personagens de ficção, cuja trama prende do começo ao fim. Cada época é bem retratada é se fixam os acontecimentos que nela se deram. As lutas dos personagens para mudar e vencer seus defeitos fica bem retratada, em derrotas e vitórias, como se pode ver em (a edição brasileira é das Paulinas, mas se encontra esgotada, a inglesa é da J.B. Lippincott Company):

a) “La Lanza – Historia del Centurión Longinos” (Palabra – 1995 – Madrid; original “The Spear”);

b) “El Mensajero del Rey – Novela sobre San Pablo y su Tiempo” (Palabra – 1991 – Madrid; original “The Glorious Folly”);

c) “El Arbol Viviente – Historia de la Emperatriz Santa Elena” (Palabra – 1986 – Madrid; original “The Living Wood”);

d) “Venciste, Galileo! – Historia del Emperador Juliano el Apóstata” (Palabra – 1997 – Madrid; original: “Imperial Renegade”);

e) “Atila – El Azote de Dios” (Palabra – 1997 – Madrid; original: “Attila The Hun”);

f) “Corazón Inquieto – La Vida de San Agustín” (Palabra – 1998 – Madrid; original: “The Restless Flame”);

g) “Ciudadelas de Dios – Novela sobre San Benito de Nursia y su Tiempo” (Palabra – 1997 – Madrid; original: “Citadel of God”);

h) “El Mendigo Alegre – Historia de San Francisco de Asis” (Palabra – 1997 – Madrid, original: “The Joyful Beggar”);

i) “La Luz Apacible – Novela sobre Santo Tomás de Aquino y su Tiempo” (Palabra – 1996 – Madrid; original: “The Quiet Light”);

j) “As Asalto del Cielo – Historia de Santa Catalina de Siena” (Palabra – 1988 – Madrid; original: “Lay Siege to Heaven”);

k) “Juana de Arco – La Chica Soldado” (Palabra – 2005 – Madrid; original – The Girl Soldier”);

l) “El Hilo de Oro – Vida y Epoca de San Ignacio de Loyola” (Palabra – 1989 – Madrid; original: “The Golden Thread”);

m) “El Último Cruzado – La Vida de Don Juan de Austria” (Palabra – 1997 – Madrid; original: “The Last Crusader”).

Alessandro Manzoni (1785-1873), outro mestre da Literatura Universal, tem no romance “Os Noivos” (Abril Cultural – 1971 – São Paulo, Tradução de Marina Guaspari, publicado originalmente  em 1824) uma das melhores descrições da mudança de um personagem que o escritor, jocosamente, designa como O Inominado, para preservar sua imagem, já que, sendo o Senhor Todo-Poderoso da Região de Milão, espezinhando e oprimindo ricos e pobres, passa por um processo de conversão que o faz sair de seu orgulho, procurar o Cardeal, S. Carlos Borromeu (1538-1584), e tentar reparar por sua vida pregressa, especialmente as perfídias que cometera com os noivos Renzo e Lúcia…

Exemplo marcante, no entanto, e mais realista, é o retratado no clássico de Henry Morton Robinson (1898-1961), “O Cardeal” (Editora Mérito S/A – 1964 – São Paulo, 7ª edição, tradução de José Geraldo Vieira), que conta a vida de Stephen Fermoyle, sacerdote norte-americano recém ordenado em Roma, e todos os dramas interiores de quem quer ser fiel à sua vocação, não obstante as tentações que sofre em todos os campos das fraquezas humanas, desde o atrativo feminino, à discussão do aborto em família, às perseguições da Ku-Kux-Klan, à agruras de um pároco de cidade pequena, às batalhas no campo das idéias para defender, já como bispo, a fé e a moral num mundo em transição.

5) Conclusão

A sociedade só melhorará se cada um de seus membros, em vez de reclamar das estruturas sociais, estiver decidido a mudar interiormente. Os defeitos dos outros e das estruturas sociais estão patentes para nós. Podemos apontá-los e descrevê-los com pormenores e abundância de exemplos. O que não vemos ou não queremos mudar e nosso modo chato, arrogante, mexeriqueiro, sensual, desordenado, intemperante e acomodado de ser.

Se a mudança não é consciente, são os fatores externos que prevalecerão e mudarão para pior nosso ambiente e condições de vida. Eric Durschmied titulou de modo interessante o livro em que narra as grandes batalhas da humanidade: “Fora de Controle – Como o Acaso e a Estupidez Mudaram a História do Mundo” (Ediouro – 2003 – Rio de Janeiro, tradução de Lólio Lourenço de Oliveira).

Nesse livro, ao explicar as causas da derrota francesa na Batalha de Azincourt (25/10/1415), na qual brilhou a coragem e humildade de Henrique V, atribuía-a principalmente à prepotência francesa, não sabendo controlar nem a cabeça, nem o coração. Assim se pode resumir a situação e o desenrolar dos acontecimentos, que fizeram a França perder também a 2ª fase da Guerra dos 100 Anos:

a) exército inglês comandado pelo rei Henrique V (28 anos) contava com apenas 5.000 homens (1.000 cavaleiros e 4.000 arqueiros), famintos e fatigados da batalha de Harfleur e da marcha, tendo pela frente a fina nata da cavalaria pesada francesa (10.000 cavaleiros e 15.000 infantes), comandados pelo Condestável da França Charles D’Albret (Conde de Dreux).

b) Vendo a desproporcional  inferioridade inglesa, os nobres franceses decidem atacar, sem levar em conta que o terreno fora recém arrado e chovera a noite inteira.

c) Os arqueiros ingleses provocaram suficientemente os franceses, que estes desencadearam a carga de cavalaria no meio da lama, inviabilizando o impacto.

d) Os arqueiros ingleses, mirando nas cavalgaduras, derrubaram os cavaleiros franceses, que ficaram totalmente vulneráveis com suas pesadas armaduras (massacre da nobreza francesa).

e) Fluellen de Gales, a mando de Henrique, mata todos os prisioneiros franceses (após saber do ataque francês à retaguarda inglesa, matando os pagens e carregadores, infringindo as leis de guerra da época), para poder enfrentar a infantaria que vinha.

Antes de ler o livro de Eric Durschmied, nunca entendera como os ingleses puderam superar uma desvantagem de 5 para 1. Mas Shakespeare retrata bem o espírito inglês na batalha, um tanto épico, mas suficientemente esclarecedor da vantagem de valorizar os subordinados, descendo do pedestal do orgulho. São estimulantes as palavras que Shakespeare coloca na boca do Rei, no discurso que precede o combate (“King Henry V”, Britannica Great Books – 1952 – London, Act 4 – Scene 3 – English Camp, before the battle of Agincourt):

Westmoreland

O that we now had here
But one ten thousand of those men in England
That do no work to-day!

King Henry

What’s he that wishes so?
My cousin Westmoreland? No, my fair cousin:
If we are mark’d to die, we are enow
To do our country loss; and if to live,
The fewer men, the greater share of honour.
God’s will! I pray thee, wish not one man more.
By Jove, I am not covetous for gold,
Nor care I who doth feed upon my cost;
It yearns me not if men my garments wear;
Such outward things dwell not in my desires:
But if it be a sin to covet honour,
I am the most offending soul alive.
No, faith, my coz, wish not a man from England:
God’s peace! I would not lose so great an honour
As one man more, methinks, would share from me
For the best hope I have. O, do not wish one more!
Rather proclaim it, Westmoreland, through my host,
That he which hath no stomach this fight,
Let him depart; his passport shall be made
And crowns for convoy put into his purse:
We would not die in that man’s company
That fears his fellowship to die with us.
This day is called the feast of Crispian:
He that outlives this day, and comes safe home,
Will stand a tip-toe when the day is named,
And rouse him at the name of Crispian.
He that shall live this day, and see old age,
Will yearly on the vigil feast his neighbours,
And say ‘To-morrow is Saint Crispian:’
Then will he strip his sleeve and show his scars.
And say ‘These wounds I had on Crispin’s day.’
Old men forget: yet all shall be forgot,
But he’ll remember with advantages
What feats he did that day: then shall our names.

Familiar in his mouth as household words
Harry the king, Bedford and Exeter,
Warwick and Talbot, Salisbury and Gloucester,
Be in their flowing cups freshly remember’d.
This story shall the good man teach his son;
And Crispin Crispian shall ne’er go by,
From this day to the ending of the world,
But we in it shall be remember’d;
We few, we happy few, we band of brothers;
For he to-day that sheds his blood with me
Shall be my brother; be he ne’er so vile,
This day shall gentle his condition:
And gentlemen in England now a-bed
Shall think themselves accursed they were not here,
And hold their manhoods cheap whiles any speaks
That fought with us upon Saint Crispin’s day”
(grifos nossos).

Quando o heraldo francês aparece no campo inglês para propor a rendição e um resgate pelo Rei, este responde apenas: “Outro resgate, meu gentil arauto, não heis de obter além destes meus membros, que, se ficarem como tenho idéia de deixá-los, bem pouco hão de valer”. Ou seja, o desprendimento de Henrique em relação ao seu destino, desde que lutasse com denodo, foi um dos segredos da vitória. Repetindo Luiz Marins, não podemos nos economizar: para mudar o mundo para melhor, temos que começar a árdua tarefa de mudar-nos a nós mesmos, que assim, pelo exemplo e pela palavra poderemos contagiar muitos com nossos ideais, sonhos e esperanças. Assim, após a batalha da nossa vida, poderá ser dito para cada um de nós o que o heraldo francês disse ao Rei Henrique: “The day is yours” (linguagem da época que apontava para quem havia ganhado a batalha). E poderemos cantar, como Henrique V fez com seus soldados, após tão memorável vitória: “Non nobis, Domine, non nobis, sed nomine tuo da gloriam!”.