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O sol e o despertar dos humanos

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Na coluna passada eu falei sobre as teorias por trás da criação dos orcs, concluindo então que eles foram desenvolvidos a partir dos humanos. Para alguns, contudo, a teoria não foi convincente devido a um elemento chave: a cronologia. Como poderiam os humanos serem os orcs se estes já existiam antes do primeiro alvorecer e os humanos só despertaram quando o sol nasceu pela primeira vez?

Quem estuda línguas élficas já deve estar acostumado com esse cenário, mas quem não estuda fica avisado a partir de agora: Tolkien não tinha nenhum problema em riscar fora parcelas significantes do seu trabalho quando bem entendesse. O Professor deixava intacto apenas o que ele já havia publicado em O Hobbit e O Senhor dos Anéis, e as vezes nem isso!

O sol e a lua, embora não fique aparente em O Silmarillion, não são exceções. Tolkien disse no texto I do Mitos Transformados que a tradição dos dois astros nascendo dos últimos frutos de Laurelin e Telperion “descendiam das formas mais antigas da mitologia — quando seu intuito ainda era de ser nada mais do que uma mitologia primitiva, embora mais coerente e menos ‘selvagem’. Era consequentemente uma cosmogonia de ‘Terra plana’ (muito mais fácil de gerenciar de quaquer forma): a Questão de Númenor não havia sido inventada.” (X:370)

Vamos ver um pouco mais do que ele falou nos dois primeiros textos do Mitos Transformados:

Texto I

O ponto central deste texto é mostrar que o Silmarillion é, na forma apresentada, uma tradição humana. Ou seja, os elfos — ou pelo menos os sábios entre eles — sabiam como realmente funcionava o universo até o limite de sua compreensão. Já os mitos vistos no livro seriam tradições dos dúnedain trazidas de Númenor para Arnor e Gondor, “misturadas e confundidas com seus próprios mitos humanos e idéias cósmicas”. (ibidem) Com isto em mente, ele chama a ideia da criação do sol e da lua a partir das Árvores de “absurda”.

Como Christopher Tolkien aponta em seu comentário sobre esse texto, Tolkien já havia criado a solução para seu problema: ao atribuir O Silmarillion aos dúnedain, não há necessidade de reescrever o mito. Quando CT e Guy Kay juntaram as peças para criar O Silmarillion como foi publicado, eles utilizaram essa abordagem.

Texto II

Isto traz à tona a pergunta: como seria a verdadeira história da criação do sol e da lua em Arda? É o que Tolkien escreve no Texto II do Mitos Transformados, que você pode ler clicando aqui.

O texto em si já é um resumo. Os conceitos básicos apresentados são:

  • O sol e a lua foram criados antes das Árvores.
  • Os elfos não viram o sol tão cedo devido a uma cobertura de núvens (possivelmente geradas por vulcões, segundo o texto V) criada por Melkor à época em que eles se encontraram com os Valar. A primeira visão deles do céu seria durante uma noite estrelada, cortesia do Casal 20 de Arda, Manwë e Varda. Contudo, é possível que já tivessem visto o sol durante a Grande Jornada, quando o céu começou a clearear bastante no oeste.
  • Já em Aman, os elfos não teriam visão do sol por causa do Domo de Varda, que protegia o continente dos raios solares. O sol havia sido atacado por Melkor anteriormente, deixando-o instável. Com a morte das árvores, os Valar se viram obrigados a retirar o Domo eventualmente.
  • Os humanos podem não ter sido capazes de sair de sua terra natal (Hildórien) por conta de um dilúvio mundial causado pelas núvens de Melkor. Quando as águas finalmente baixaram eles foram capazes de partir em direção ao oeste, seguindo o caminho trilhado pelo sol.

Conclusão

Tendo em vista esses pensamentos tardios de Tolkien, fica mais fácil compreender o porquê de minha afirmação sobre os orcs sendo criados a partir dos humanos ser um problema cronológico ao invés de fisiológico, filosófico ou teológico. Se os humanos não existem só há 400 anos antes da entrada do Povo de Bëor em Beleriand, mas sim há milênios (em anos solares), a diversificação dos povos é maior, e as chances de captura de alguns humanos por Melkor (ou Sauron!) é maior também.

Papagaios humanoides malignos

Rodrigo JaroszewskiDesesperado por um assunto decente para escrever aqui na coluna até este domingo, perguntei ao meu caro TT1 por MSN: “Cara, preciso de ajuda: o que tu gostaria de ver escrito na minha coluna?”

A resposta: “vixe”.

Um tempo depois ele deu uma resposta um pouco melhor. Disse que sentia falta de conclusões: A qual conclusão chegamos sobre as asas de balrog? Sobre Glorfindel de Gondolin vs. Glorfindel de Valfenda? Sobre a origem dos orcs?

Eu tenho certeza de que vocês têm mais dúvidas (sobre as quais vocês serão bonzinhos e escreverão nos comentários, né?), mas por enquanto eu vou responder exatamente sobre essas questões. Começando sobre Glorfindel:

O Glorfindel de Valfenda é o mesmo de Gondolin?

Sim, é o mesmo. Como pode ser lido neste texto, traduzido pelo Deriel, Tolkien escreveu dois textos sobre Glorfindel que o identificam dessa forma. Os textos em si têm o propósito de criar uma história convincente de como Glorfindel teria ressuscitado, sua vida até a volta à Terra-média e a data dessa volta. Esse texto está originalmente no volume XII da série History of Middle-earth, a partir da página 377.

Asas de Balrog

A pergunta que todos odeiam amar: os balrogs tinham ou não asas? Segundo Michael Martinez, ele próprio um defensor ávido dos balrogs com asa, uma outra pessoa que não compartilha sua visão dos demônios de poder escreveu a Christopher Tolkien perguntando em 1998 sobre as asas e as versões do texto sobre A Ponte de Khazad-dum. Esta seria a resposta:

Via de regra eu não recebi material tardio de Markette (sic) – as versões datilografadas dos textos feitas por meu pai – e nunca as vi em muitos casos… Portanto a versão datilografada final…de A Ponte de Khazad-dum…eu nunca vi. Eu presumo que foi lá que a menção das asas do Balrog se estendendo de parede a parede entraram.

Christopher então diz ao remetente que tente falar com o curador de Marquette para ver a versão datilografada, mas que seria complicado ter certeza da data em que foi escrita. Por fim, ele responde:

Eu mesmo nunca pensei que a segunda menção das asas do Balrog tinha qualquer significado diferente da primeira.

A primeira sendo (SdA:344, grifo meu):

O inimigo parou outra vez, enfrentando-o, e a sombra à sua volta se espalhou como duas grandes asas.

A conclusão? A pessoa mais qualificada no mundo para nos esclarecer essa questão não achou motivo nos textos do Professor para duvidar que a menção sobre as “asas” seja sobre algo além da sombra sobrenatural do Balrog.

Origem dos orcs

Essa sim é dose. Tolkien escreveu diversos textos sobre o assunto, e eles estão traduzidos aqui na Valinor: os textos VIII, IX e X do Mitos Transformados.

Como é dito nos textos, o VIII foi encontrado enrolado em um jornal de 1959 junto com outros textos escritos, assim como esse, em versos de papéis de 1955 do Merton College. Já IX não traz indicação de data e X foi encontrado enrolado em um jornal de 1960. Teoricamente estamos lidando com textos em ordem cronológica.

A razão de toda essa complicação por trás da origem dos orcs vem de uma equação teológica utilizada por Tolkien na Terra-média:

Livre-arbítrio + capacidade de fala = presença de alma.

Ademais, uma pergunta assombrava Tolkien: seria Morgoth poderoso o suficiente para transformar elfos “imortais” — cujo tempo de vida é o mesmo da existência do Planeta Terra — em orcs mortais e de vida curta até para os padrões humanos?

As teorias nesses textos são as seguintes:

Orcs como criaturas criadas por Morgoth:
A teoria no texto VIII bate de frente com aquela equação teológica que eu expliquei acima. A explicação de Tolkien é a de que Morgoth teria criado os orcs mais ou menos como Aule criou os anões, mas sem ter a sanção de Eru para dar-lhes livre-arbítrio, Morgoth teria de ter dissipado muito do seu próprio poder, transformando-os em bestas capazes de imitar a fala e de agir com um certo grau de independência. Basicamente eles seriam papagaios humanoides malignos.
Orcs como elfos corrompidos:
Essa teoria é constantemente rebatida por Tolkien pelo fato dos orcs não terem uma vida “imortal” igual à dos elfos, como é dito anteriormente. Mesmo assim, ela não pode ser descartada imediatamente, pois mesmo após Tolkien explorar outras teorias por páginas e páginas, ele volta a citar a teoria como provável.
Orcs como humanos corrompidos:
A teoria é explorada em X. O problema da teoria para Tolkien não era se Morgoth era capaz de corromper os humanos a um nível órquico, mas sim de como encaixar essa hipótese na cronologia dos eventos de Arda.

Eu acredito que a conclusão a que podemos chegar, baseados nesses textos, é a de que orcs são humanos corrompidos.

Além disso não causar qualquer problema no fator “fala = alma”, há alguns indicativos na fisiologia dos orcs que apoiam essa teoria:

  • eles não são imortais;
  • podem “acasalar” com humanos; e
  • eles contraem doenças.

Em todo o material que eu li até hoje eu não lembro de um que mencione que a população élfica sendo afetada pela Grande Praga de 1636, e estamos falando de uma praga que quase acabou com Gondor! De fato eu não lembro de qualquer relato de doença entre os elfos.

Por fim, há o fator comportamental. Tolkien fala em X como os humanos podem ser reduzido a um comportamento órquico em certas condições. Tolkien nota explicitamente em um dos textos que isto não ocorria com anões e elfos.

Lendo o Contos Inacabados – Parte 2

Contos InacabadosNo último artigo, começamos pelo meio e voltamos ao início do livro, vendo os contos da Terceira e da Primeira Era da Terra-média, respectivamente. Com os números ímpares para trás, veremos agora a Quarta e Segunda Parte, nesta ordem.

Como no History Channel

Há uma certa semelhança entre a Quarta Parte e meu canal favorito de TV, o History Channel. Esta semelhança está na forma com a qual ela é conduzida, parecida com uma série de documentários. Portanto, imagine que a narração do livro é a mesma que você encontraria em um desses programas.

Capítulo 1

Aqui você encontra uma descrição dos drúedain, um dos povos humanos que você provavelmente não se lembra. Quando eu li esse capítulo pela primeira vez, já não lembrava de Ghan-buri-Ghan ou dos homens-púkel.

As páginas 415-21 podem ser lidas de forma contínua. Há um conto interessante nelas. As notas adicionais estão cheias de rascunhos que não queremos ler no momento.

Capítulo 2

Até hoje eu não conheci um leitor de Tolkien que não tenha se perguntado sobre a origem dos Magos. Está na hora de descobrir mais sobre eles!

As páginas 425-30 trazem uma daquelas “narrativas History Channel”. Quando você ver um parágrafo em letras menores na p. 430, pare de ler. Volte à leitura na p. 431, no último parágrafo (sim, o de letras menores). Pare de ler novamente na p. 432, no parágrafo que termina em “como amigo”. A minha ideia não era quebrar minhas próprias regras, mas não incluir essas duas últimas páginas parece a mim privar vocês de algo que todo mundo quer saber.

Se você é fã do Legolas, é melhor pular direto para o próximo capítulo. Se você não gosta dele, você vai adorar ler o último parágrafo da p. 434. Sendo o resto do capítulo uma discussão infindável sobre os nomes de Gandalf, vamos ao próximo.

Capítulo 3

Os palantíri são aquelas bolas de cristal negro que, se você só assistiu os filmes, vai lembrar de Saruman utilizando. Ao contrário do que acontece lá, a operação de um palantír é bem diferente nos livros. O capítulo é um ensaio ininterrupto, portanto não há muito o que dizer. Você não deverá ter problemas em seguir o texto, mas se achá-lo chato, não tema em pular para a Segunda Parte.

Não há nenhuma parte da história da Terra-média mais repleta de problemas…

Na Segunda Parte, a última de nosso guia, você encontrará um ensaio geográfico de Númenor (a Atlântida de Tolkien), um conto inédito com início, meio e quase um fim, uma “cópia” do Pergaminho dos Reis de Númenor e, por fim, o capítulo mais confuso do livro inteiro.

Capítulo 1

Esse capítulo é uma continuação do estilo History Channel. Só recomendaria sua leitura agora àqueles que têm algum interesse em geografia, ou que têm boa memória para esse tipo de informação. Não é o meu caso, com certeza!

Capítulo 2

Da página 194 até o segundo parágrafo da p. 236 é possível ler o conto tranquilamente. O resto do capítulo traz versões conflitantes dos acontecimentos após Aldarion se tornar rei, assim como a breve história de sua filha — que também tem versões conflitantes; que novidade!

Capítulo 3

O capítulo é um resumo da vida dos Reis de Númenor. Pode ser lido por completo.

Capítulo 4

As primeiras palavras desse capítulo são: “Não há nenhuma parte da história da Terra-média mais repleta de problemas que a história de Galadriel e Celeborn”. Então apertem os cintos!

Pule direto à p. 257. Leia até o fim das letras menores na p. 258. Esse é o resumo da versão mais conhecida. Uma versão mais longa e com algumas divergências — quase todas ignoráveis — pode ser encontrada do último parágrafo da p. 263 até a linha de quebra horizontal da p. 272. Claro, nem tudo pode ser ignorado. Amroth como filho dos dois é uma mudança tremenda, que acho melhor você desconsiderar por enquanto.

A história de Amroth pode ser encontrada em letras pequenas nas pp. 272-4. Na p. 275, último parágrafo de letras menores até o fim delas na p. 276 está outro pedaço. Retornamos novamente nas letras menores das pp. 277-8. Há um pequeno conto aqui também, em letras menores, nas pp. 281-2 sobre como a linhagem de Dol Amroth ganhou seu sangue élfico.

Nas pp. 283-5 há duas versões diferentes para a origem da Elessar, a Pedra Élfica que Galadriel deu a Aragorn como presente de noivado com Arwen, por parte de mãe.

Conclusão

Se você seguiu o guia, deve conhecer metade do livro que comprou. Uma metade com boas histórias, mais ou menos coesa e que vai lhe render uns bons dias de leitura. Novamente, minha intenção é permitir que você encontre uma diversão sem traumas, mas nunca lhe desencorajar a ir além. A riqueza da história de Tolkien está nos detalhes, e isto foi o que você menos viu.

Lendo o Contos Inacabados – Parte 1

Contos InacabadosQuem passou pel’O Silmarillion sente-se realizado… Até o momento em que decide ler os Contos Inacabados.

É compreensível. É difícil encontrar pessoas que estejam interessadas nas Medidas Lineares Númenorianas (pp. 314–7). A geografia da ilha de Númenor pode não chamar atenção de muitos. Também é difícil achar um bom motivo para ler um livro, se existem nerds que nem eu que dirão tudo que está lá, desde os nomes de Gandalf até de onde vieram as Palantíri. Mas pouca gente lembra que o Contos Inacabados tem realmente “contos”. Ele não é uma “enciclopédia”: ele pode ser lido como um livro normal, desde que você saiba onde encontrar os contos.

Comece pelo meio!

Nada de leitura linear, meus caros. É hora de incorporar o Tarantino dentro de você! A Terceira Parte pode ser lida por qualquer um, mesmo aqueles que não leram O Silmarillion. Para ser sincero, acho que uma pessoa que só assistiu os filmes consegue compreender a maioria das histórias que estão lá.

Capítulo 1

Se você assistiu os 15 primeiros minutos d’A Sociedade do Anel, está capacitado a compreender este capítulo. Ele conta como Isildur morreu e o Anel se perdeu no rio.

O que não ler: Medidas Lineares Númenorianas. É um apêndice desncessário para a compreensão da história. [Se você realmente quer saber alguma coisa de lá, Elendil tinha uns 2,30m de altura, Galadriel 1,92m, assim como Aragorn e Éomer.]

Capítulo 2

Conta como os Cavaleiros de Rohan chegaram para morar em, bem, Rohan! Este capítulo tem um duplo bônus para mim. Primeiro, eu moro em “Rohan” (Rio Grande do Sul). Segundo, nerds como eu adoram a idéia de ter um exemplo completo de juramento solene em élfico.

A história é boa de ler até as páginas 341-2, onde os limites de Rohan são traçados. Pule direto para o segundo parágrafo da página 342, onde o conto continua.

Capítulo 3

Este capítulo acontece um pouco depois da coroação de Aragorn, e é contada do ponto de vista de Frodo. Nela Gandalf diz como convenceu Thórin a levar Bilbo consigo para derrotar Smaug.

Capítulo 4

Um capítulo só sobre os Cavaleiros Negros? O que não há para gostar nisso?! Mas faça um favor a si mesmo: não leia além da página 375! A partir dalí você só encontrará outras versões do conto, e a idéia aqui é aproveitar ao máximo o seu tempo de lazer. Depois você decide se estudar mais sobre os Nazgûl é lazer ou não.

Capítulo 5

Melhor… Capítulo… do… Livro! Ao menos para mim, que sou viciado em guerras, e gosto de Rohan. Talvez seja o capítulo com os apêndices mais relevantes em todo o Contos Inacabados. O primeiro apêndice permite conhecer a hierarquia política e militar na Terra dos Cavaleiros, enquanto o segundo explica a importância estratégica dos Vaus do Isen.

Volte ao início

Eu até hoje não conheci um fã de Tolkien que tenha lido O Silmarillion e não tenha sentido afeição ou por Tuor ou por Túrin. Na primeira parte há o conto de cada um deles em mais detalhes do que você encontra n’O Silmarillion.

Capítulo 1

Sim, a história de Tuor neste livro acaba no meio. A idéia é que você volte a’O Silmarillion para ler o resto.

Capítulo 2

Se você odeia Túrin tanto quanto eu o odiava na época em que li o Contos Inacabados, pule este capítulo. A leitura dele pode lhe dar um asqueroso sentimento de simpatia para com Túrin. Se você decidir ler, então pule os apêndices deste capítulo também.

Continuação

Para ler a segunda parte do guia, clique aqui.

Como Compreender o Silmarillion

O SilmarillionDe vez em quando vejo alguém nos fóruns, listas de e-mail ou rodas de conversa dizendo que tentou, mas não conseguiu ler O Silmarillion. As razões (não “desculpas”, mas razões mesmo, porque são válidas sim!) giram principalmente em torno dos nomes.

Eu concordo totalmente que fica muito difícil decorar tudo aquilo. Não são apenas personagens, mas também topônimos. Eu mesmo não saberia apontar Dorthonion sem o mapa da página 152. O que eu posso sugerir então?

Não leia O Silmarillion. Passe por ele.

O Silmarillion é tão complexo que permite diversas formas de se divertir com sua leitura. Da primeira vez que você ler, não importará muito lembrar quantas vezes Eru Ilúvatar interrompeu Melkor no Ainulindalë, nem por que ele fez isso, muito menos o que isso significa em termos práticos. Não importa onde os Nandor deixaram a Grande Jornada, ou sequer que eles existiam. Quem se importa com Amrod e Amras? Qual elfo descendeu de quem?

O que você tem de saber, de mais básico, sem uso de nomes que você não conhece, segue abaixo:

O Enredo

Deus cria anjos. Anjos cantam uma canção. Um dos anjos vira Lúcifer, e canta desafinado. Deus mostra que anjos na verdade deram as idéias para tudo que existirá no Universo que ele criará, através da canção. Aí ele cria o Universo, e avisa que haverá elfos e humanos, mas eles não sabem como serão.

Os anjos bons são forçados a sair da Terra-média para viver em um Continente Totalmente Fechado, por culpa dos ataques de Lúcifer. Lúcifer domina a Terra-média. Não existe sol ou lua, então os anjos criam duas árvores que iluminam o Continente Totalmente Fechado, e estas despejam um orvalho igualmente luminoso. Prestem atenção no orvalho, porque ele é importante!

De vez em quando os anjos ainda vão à Terra-média. Um deles encontrou os elfos. Para proteger os elfos, juntou todos os anjos bons para derrotar Lúcifer. Lúcifer é capturado e condenado à prisão por 3.000 anos.

Os elfos são convidados a morar com os anjos. Mais ou menos 1/4 chega lá, divididos em 3 grupos. O Grupo 1 fica por lá feliz e contente pelo resto da história, então ignore-os. O Grupo 2 é cheio de artistas, artesãos, etc. O Grupo 3 é cheio de construtores de barcos.

O Grupo 2 tem um rei. O rei do Grupo 2 tem um filho. Quando o filho nasce, a mãe fica exaurida fisicamente e decide morrer. Só que elfos não podem morrer. (Se morrem, são ressucitados!) Isso fez com que esse príncipe fosse o único elfo órfão da história do Universo. Ele é o maior artista entre todos os elfos também, e cria as jóias mais bonitas do mundo, usando o orvalho das árvores como fonte de luz (eu disse que era importante!).

Lúcifer é libertado depois de 3.000 anos. Ele começa a botar minhoca na cabeça dos elfos do Grupo 2. Os elfos começam a fazer espadas e armaduras. Lúcifer mata as duas árvores que davam luz à terra dos anjos. Os anjos pedem as jóias, porque com o orvalho de dentro delas dá para trazer as duas árvores de volta à vida. Não só o príncipe órfão recusa, como Lúcifer também rouba as jóias e “mata” o pai dele.

Ele decide que os anjos não servem para nada e sai em busca de vingança. No processo ele “mata” os elfos do Grupo 3 para roubar os seus barcos (ele precisaria deles para chegar à Terra-média). Isso faz com que os anjos fiquem furiosos e os amaldiçoem a nunca conseguir reconquistar as jóias.

Conclusão

Agora que vocês já conhecem como a história se desenrola até a página 100 do livro, e a motivação por trás de tudo que acontece no conto, podem se concentrar em se divertir com a leitura (inclusive dessas 100 primeiras páginas). O difícil mesmo era saber como as 400 páginas se encaixam no contexto geral. Espero ter facilitado isso para vocês.

Uma nota final: Tolkien não escreveu O Silmarillion como alegoria. O meu uso de nomes bíblicos é explicado nesta mensagem.