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A ponta do iceberg: novas informações sobre a Terra-Média

Por aproximadamente um ano, discussões online sobre o mundo de Tolkien vem sido apimentadas — em alguns lugares — com referências a um obscuro estudo chamado "Osanwë-Kenta". Este ensaio foi publicado pela primeira vez em Vinyar Tengwar Mº 39, o exemplar de Julho de 1998 do jornal oficial da Elvish Linguistic Fellowship (Sociedade Da Linguística Élfica), um grupo de interesse da Mythopoeic Society. "Osanwë-Kenta" ("Acerca da comunicação de pensamentos") foi premiada como um dos textos de Tolkien mais reveladores daqueles que não foram publicados. Eu acho que "Osanwë-Kenta" deve ser colocado de lado, pois há um texto mais interessante. Se chama "Os Rios e Vales de Gondor".
 

Os dois estudos são importantes na pesquisa sobre Tolkien, e os aspectos linguísticos não são necessariamente primários. Você pode perceber detalhes interessantes sobre a filosofia e história do povo de Aman em "Osanwë-Kenta". "Rios e Vales de Gondor" também nos fornecem nova informação e revelações sobre a história de Gondor e os povos que lá moram. Supondo que mais pessoas querem saber sobre os eventos na Terceira Era que eventos do começo de Aman, eu acho que "Rios e Vales de Gondor" prova ser o mais importante.

Vinyar Tengwar é primeiramente preocupado com material linguístico, de onde restam um imenso número de ensaios e notas não publicados. As reflexões linguísticas de Tolkien porém, geralmente incluem apartes, muitas vezes grandes ensaios sobre as histórias e filosofias das principais raças. O material linguístico é então de interesse especial para pesquisadores que estudam a construção do mundo de Tolkien, sua pseudo-história e filosofias artificiais.

 
Christopher Tolkien publicou fragmentos do "Rios e Vales de Gondor" no Contos Inacabados. Infelizmente, Vinyar Tengwar também publica apenas fragmentos. Assim como a situação com "Narn i Hîn Húrin" (A História dos Filhos de Húrin), que foi publicado em pedaços no Contos Inacabados e no Silmarillion, precisamos juntar o trabalho inteiro junto. Se o suficiente das duas escrituras foram publicadas nessas duas partes, cabe à HarperCollins publicar um volume com os Trabalhos Completos de JRR Tolkien, combinando-os. Tal livro seria uma marca na tentativa de fazer uma representação coerente de algo escrito fora o Hobbit e o Senhor dos Anéis.

As passagens relevantes do Contos Inacabados são encontrados no capítulo da história de Galadriel e Celeborn, especificamente nos apêndices tratando de Amroth e Nimrodel, e o porto de Lond Daer. Algum material também foi publicado na seção "Notas sobre os Druedain" no capítulo sobre os Druedain. Aquela seção do Contos Inacabados também começa com um fragmento sobre os Druedain que Christopher Tolkien tirou do "Sobre os Anões e os Homens", cuja maioria foi publicada no Peoples of Middle-Earth (Povos da Terra-Média). Na maioria dos casos, não veremos os textos inteiros publicados juntos, mas ainda podemos sonhar com a oportunidade.

Na carta que acompanha o "Rios e Vales de Gondor", Vinyar Tengwar lança uma cascata de minúsculas revelações que vai nos forçar a refazer muitas teorias sobre a Terra-Média. Por exemplo, Tolkien escreve:

"…No primeiros séculos dos Dois Reinos Enedwaith foi uma região entre o reino de Gondor e o pequeno reino de Arnor (originalmente incluía Minhiriath (Mesopotâmia)). Os dois reinos tinham interesse na região, mas eram mais preocupados com a manutenção, sua principal fonte de informação exceto pelo mar e pela ponte de Tharbad. Povos de origem numenoreana não viviam ali, exceto em Tharbad, onde um grande número de soldados e guardiões do rio era mantido. Naqueles dias eles praticavam drenagem, e as margens do Hoarwell e Greyflood eram reforçados. Mas nos dias do Senhor dos Anéis a região tinha sido arruinada e voltou para um estado primitico: um rio largo e lento que corria por uma rede de pântanos e lagos: um lugar assombrado por cisnes mortos e outros pássaros aquáticos."

"Mesopotâmia" é uma velha palavra para "terra entre rios", e Tolkien estava sem dúvida fazendo uma pequena piada sugerindo a tradução de "Mesopotamia" para "Minhiriath" (que significa a mesma coisa"). Vocês podem imaginar o quanto essa tradução vai chatear os geógrafos que fazem correlações precisas entre o mapa da Terra-Média de Tolkien e mapas da Europa e Ásia.

Mas, para mim, o comentário mais interessante é a referência indireta para "guardiões do rio". A que Tolkien estaria se referindo? Seriam aqueles homens que atravessavam os rios para cima e para baixo, prendendo piratas e ladrões? Ou seriam aqueles que faziam viagens de um lado para outro do rio? Seriam os guardiões de Tharbad os engenheiros que mantinham os trabalhos de drenagem" e as margens reforçadas dos rios Hoarwell e Greyflood? E, se não haviam numenoreanos na região, porque as margens eram reforçadas?

Tharbad já é um lugar curioso. No Contos Inacabados aprendemso que a grande ponte e os cais da cidade foram construídos por Arnor e Gondor, aparentemente para substituir o destruído porto de Lond Daer Ened. E ainda, Tar-Aldarion diz que encontra Galadriel em Tharbad numa nota acompanhando o texto "Aldarion e Erendis". Em outro lugar, a segunda história de Galadriel e Celeborn, Tharbad diz ter defendido Eriador contra a invasão de Sauron em 1695 SE. Pode ser que Tharbad seja originalmente uma colônia élfica, talvez um entreposto estabelecido por Círdan para facilitar o comércio e comunicação com Eregion. Os numenoreanos também podem ter sido o primeiro povo a fortificar Tharbad (em preparação para a guerra contra Sauron, eles também fortificaram os rios Baranduin/Brandevin e Luin).

Outro nome que merece atenção especial é "Gilrain", o nome de um rio em Gondor. Tolkien o compara a "Gilraen", o nome da mãe de Aragorn. "O significado de Gilraen é um nome feminino sem dúvida. Significava ´Aquela que é decorada com um conjunto de pequenas jóias em uma malha´, como o tesouro de Arwen descrito no SdA I 239." (Este tesouro é a "touca de renda prateada, enredada com pequenas pedras, de um brilho branco" que Arwen usa no banquete dado em honra de Frodo em Valfenda.)

Tolkien sugere que Gilraen poderia ter conseguido esse nome como um apelido, mas "provavelmente era seu verdadeiro nome, já que tornou-se um nome dado às mulheres de seu povo, as remanescentes dos numenoreanos do Reino do Norte, de sangue puro. As mulheres dos Eldar estavam acostumadas a usar tais jóias; mas entre os outros povos, eram usadas apenas por mulheres de alto nível entre os Guardiões, descendentes d
e Elros, como diziam. Nomes como Gilraen, e outros de significado similar, virariam então nomes pessoais dados às crianças nobres da família dos ´Senhores dos Dunedain´
".

Uma forte implicação dessa passagem é que os Guardiões eram um subgrupo de um povo maior, e que eles eram todos de sangue nobre, descendendo de Elros, e provavelmente os únicos Dunedain de sangue puro restantes em Arnor. Mas se aquele foi o intento de Tolkien ou uma nota mal-escrita, não podemos dizer.

Numa nota secundária, Tolkien revela que a raiz de -raen, em Gilraen, vinha do trabalho de tricô e que o adorno que Arwen e outras donzelas élficas — assim como as mulheres nobres do povo de Aragorn — usavam foi feita com um único fio.

A história de Amroth e Nimrodel é um pouco mais elaborada, também. E descobrimos a extensão completa da nota que sugere que Edhellond pode ter sido estabelecida por antigos Doriathrim que deixaram Mithlond (Portos Cinzentos). Foi abandonado no meio pois, como Christopher Tolkien opinou, seu pai percebeu que, sua dissertação sobre Círdan ser um Noldo do qual os Sindar queriam se afastar, era totalmente inconsistente com os outros textos. Então, a lenda de Edhellond ter sido fundada pelos primeiros elfos de Doriath deve ser descartada. O porto deve ter sido fundado por outros motivos, e talvez a lenda a respeiro de Brithombar e Eglarest é a mais provável de todas.

Apesar de tudo, a nota abandonada concorda com outra fonte publicada no Silmarillion dizendo onde os Nandor se estabeleceram em Eriador. Quer dizer, o fragmento de nota diz que os Eldar de Lindon "encontraram acampamentos abandonados dos Nandor" nos dois lados das Montanhas Nevoentas. O Silmarillion inclui um passagem em "Dos Sindar´ onde os anões dizem à Thingol que "seu antigo povo que lá mora [na terra à leste das montanhas] estão voando das planícies para os vales." Parece, então, que as criaturas de Melkor mandaram os Nandor em direção ao leste e para as Montanhas Nevoentas antes que Melkor retornasse para a Terra-Média.

Muitos pedaços situam-se além desses, e as implicações para os historiadores de Tolkien são extensivos. A Terra-Média revela mais uma face — aliás, muitas outras — para nós. O significado do tesouro de Arwen pode implicar em algum tipo de referência à Varda. É Arwen, afinal, que aparentemente canta o hino a Elbereth à medida que Frodo e Bilbo saem do Salão do Fogo em Valfenda. Gilraen e outras mulheres de sua família devem ter dividido tal reverência élfica à Varda.

A idéia de que povos com apenas parte do sangue numenoreano continuaram a viver em Eriador é aterrorizante. Apesar de sabermos que não poderíamos ter comunidades dos homens a oeste de Mitheithel, isto não dá novo sentido às palavras de Elrond no conselho, onde ele diz que poucos do povo de Aragorn ainda vivem? Estava Elrond talvez omitindo alguma referência á um povo maior governado pelo clã de Aragorn? Aquelas pessoas que se perguntavam onde Aragorn achou tantos guerreiros para retomar Eriador têm agora razão o suficiente para argumentar que um grande povo vivia perto de Valfenda no Ângulo.

Mais revelações nos aguardam, especialmente sobre os primeiros anos de Arnor e Gondor. Também veremos que os elfos tinham um sistema decimal e duodecimal. Então, todos estão certos. Todos nós ganhamos de novo. E é só a ponta do iceberg…

Tradução de Aarakocra
valinor

Os chifres de Rohan

Em bom jornalismo, não se recomenda começar um texto com um truísmo –
aquelas afirmações meio óbvias, que são consenso quase geral e não têm
muito “conteúdo informativo”, como os papas da profissão costumam
dizer. A vantagem de escrever pra Valinor de vez em quando é que eu
posso dizer um sonoro “dane-se” a essas regrinhas e começar com um bom
e velho truísmo: todo mundo tem uma cena preferida de O Senhor dos Anéis.
 
 
 
Todo mundo tem aquele “momento psicológico” (como
a Emília costumava dizer nos livros do Monteiro Lobato) que estava
louco pra ver na adaptação cinematográfica, no qual o coração bate mais
devagar por uma fração de segundo, as mãos suam e, se você for meio
manteiga-derretida (como é o meu caso), as lágrimas vêem aos olhos. A
obra-prima tolkieniana está lotada desses momentos, mas, cá entre nós,
duvido que algum se equipare, mesmo de longe, aos chifres de Rohan
sendo soados ao nascer do Sol.

Como quase tudo que Tolkien
escreveu, a sinfonia dos Rohirrim no Pelennor é uma mistura curiosa de
fato e mito, uma espécie de arqueologia criativa do insconsciente
humano, e em especial do inconsciente coletivo da Europa Ocidental, a
terra do coração do escritor. Histórias sobre chifres (eu prefiro essa
tradução às “cornetas” da edição nacional, já que os instrumentos eram
feitos de chifre de boi, como os berrantes dos boiadeiros) estão por
toda parte na Europa germânica da Idade Média, e não é muito difícil
imaginar o que elas querem dizer.

Numa palavra, o significado
de um chifre soprado diante do inimigo ̩ desafio Рa disposi̤̣o de
lutar até o fim, seja lá qual for a superioridade do inimigo. Um dos
registros mais antigos da atitude lembra Boromir contra os orcs e
aparece na Chanson de Roland (A Canção de Rolando), épico
francês do século X cujo herói é Rolando, sobrinho de Carlos Magno.
Diante do ataque das forças imensamente superiores dos mouros, Rolando
sopra seu chifre em desafio e ataca, acabando morto.

No mundo
da história, muito mais perto de nós, os lanceiros suíços que lutavam
na Itália no século XVI repetiram a atitude ao serem encurralados a um
passo da derrota por seus inimigos francesas. No campo de Marignano, os
“cantões florestais” de Uri e Unterwalden – qualquer semelhança com os
Rohirrim não é mera coincidência – acionaram seus chifres lendários, a
“Vaca” de Uri e o “Touro” de Unterwalden, para reunir suas forças num
último ataque suicida.

Dá para ver como todos esses elementos
se cristalizam para formar o ataque irresistível dos Cavaleiros sobre
as hostes de Mordor, mas há mais dois elementos cruciais aí, e são eles
que formam um retrato irresistível de coragem e vitória além da medida
humana. Tolkien nos conta que “a manhã veio, a manhã e um vento do
mar”. A escuridão que cobria Gondor, uma cortina de fumaça vomitada
pela magia negra de Sauron no Orodruin é varrida para longe, como se a
própria natureza se rebelasse contra a ousadia do Senhor do Escuro.

No entanto, antes que os chifres possam soprar sua nota de coragem, há
outro som, que irrompe exatamente no momento de desespero em que
Gandalf vê o horror do Rei Bruxo: um galo cantando. “Aguda e claramente
ele cantou, nada sabendo de feitiçaria ou de guerra, saudando apenas a
manhã que no céu muito acima das sombras da morte estava chegando com a
aurora.”

O cantar do galo é um símbolo imemorial pra qualquer
um que já tenha montado um presépio na vida: no topo da gruta, acima da
manjedoura, a tradição cristã conta que ele foi o primeiro animal a
saudar o nascimento de Jesus Cristo Рpara Tolkien, crisṭo convicto, o
momento que iniciou para valer a libertação da humanidade do Mal. Com o
sopro dos seus chifres, os Rohirrim respondem a esse chamado mostrando
que o tempo de temer a morte e as trevas já passou – e vencem por isso.

Há quem sugira, como o pesquisador britânico Tom Shippey, que o maior
símbolo da obra tolkieniana é outro chifre – o que Merry recebeu de
Éowyn e Éomer, vindo direto do tesouro do dragão Scatha. Em meio à
desorientação e ao desespero dos hobbits que sofriam com o Expurgo, o
chifre soprado por Merry infundiu nova coragem. Se o Condado é mesmo a
Inglaterra que Tolkien amava, então ele certamente não tinha desejo
maior que soar esse chipre e dissipar o desespero, o medo, o
conformismo. Não acho que seja otimista demais dizer que, em muitos
aspectos, ele conseguiu.

valinor

Mythopoeia

Lidar com o desafio de verter os textos de Tolkien em português tem
sido um dos quebra-cabeças mais prazerosos da minha vida. O final dessa
jornada deve ser em dezembro deste ano, quando defendo minha
dissertação de mestrado, mas alguns resultados já estão aparecendo.
É por isso que apresento a vocês, amigos da
Valinor, o primeiro texto do livro “Tree and Leaf” cuja tradução eu
consegui concluir. Trata-se do poema Mythopoeia, que, apesar de pouco
conhecido entre fãs do autor no mundo, é um dos mais importantes para
entender o que ele pensava ser a função e o propósito de seu próprio
trabalho. Após uma pequena introdução (original do meu trabalho na
disciplina Tradução – Teoria e Prática, do Departamento de Letras
Modernas da FFLCH-USP), apresento o texto original do poema e minha
tradução dele. Espero que gostem!

————–

Decidi fazer deste trabalho final o primeiro passo substancial para a
tarefa que me propus realizar em minha dissertação de mestrado: a
tradução comentada do livro Tree and Leaf, do escritor e
filólogo inglês J.R.R. Tolkien. No presente trabalho, traduzi um dos
textos que compõem essa coletânea tolkieniana, o poema Mythopoeia.

É o texto mais curto da coleção, mas nem por isso deixa de oferecer
desafios para o tradutor ou perde em importância numa visão de conjunto
da obra de Tolkien. Muito pelo contrário: ao lado do ensaio On Fairy-Stories, Mythopoeia
é o texto no qual o autor deixa mais claro o seu projeto de uma nova
literatura fantástica e, mais que isso, sua visão mística da criação
literária como “sub-criação”, ou seja, como a contribuição humana à
Criação divina. Tal perspectiva, em grande medida despertada pela
profunda fé católica do autor, vê o “fazer dos mitos” (tradução do
grego Mythopoeia do título) como a mais autêntica atividade
humana, em contraposição aos esforços vãos (quando não totalmente
perversos) de escravizar a natureza por meio da tecnologia.

Como a maioria das obras tolkienianas, Mythopoeia tem uma
história textual complexa e ramificada, que não vem ao caso esmiuçar
aqui. Contudo, a dimensão histórica é importante por outro motivo:
aparentemente o poema é resultado direto das longas conversas entre
Tolkien e seu colega de Oxford, o irlandês C.S. Lewis, acerca do
verdadeiro propósito e valor da mitologia para o mundo real.

Quando os dois escritores se conheceram no final dos anos 20, Lewis era
agnóstico, embora nutrisse uma imensa paixão pela mitologia nórdica.
Com um gosto mitológico parecido, Tolkien decidiu se empenhar na
conversão do amigo ao cristianismo, usando como argumento as verdades
que todos os mitos, e principalmente o mito cristão, seriam capazes de
revelar. A história da conversa que finalmente culminou na conversão de
Lewis está contada em J.R.R. Tolkien: Uma Biografia, de Humphrey Carpenter, mas não é exagero dizer que Mythopoeia é o retrato dessa conversa em forma poética.

De acordo com o biógrafo, a frase dedicatória do poema (que compara os
mitos a “mentiras proferidas através da prata”) foi dita originalmente
pelo próprio Lewis. Da mesma forma, Philomythus (o que ama os mitos) é
Tolkien, enquanto Misomythus (o que odeia os mitos) representa Lewis.
Este é claramente um poema-programa, importante não só em si mesmo como
pelo projeto literário que representa.

Antes de apresentar o poema no original e, a seguir, minha tradução,
faço alguns breves comentários. Em termos formais, o texto não é
exatamente um conundrum, ao menos à primeira vista: pentâmetros
iâmbicos com rimas em dísticos (A-A, B-B, etc.), agrupados em estrofes
de tamanho variável, que por sua vez se dividem em três blocos.

O texto tem um sabor tradicional (que se tentou reproduzir em
português), mas ao mesmo tempo utiliza habilmente alguns termos
tirados, por exemplo, do discurso acadêmico ou da ciência moderna, para
criar desconcerto e ironia. Em português, mantive o decassílabo rimado
(por vezes abusando da elisão, como se poderá notar) e procurei reter
alguns conceitos-chave do original utilizando, sempre que possível,
seus cognatos na língua-alvo.

Seguindo esse exemplo, a idéia foi manter um pouco da sintaxe inglesa
(principalmente no uso de algumas preposições), mesmo que o efeito
soasse um tanto deslocado quando traduzido. Não é possível, no entanto,
reivindicar para a presente tradução o rótulo de estrangeirizadora: o
tom decididamente tradicional do poema em inglês parece proibir grandes
ousadias. Uma coisa certamente se perdeu: por causa da brevidade
métrica exigida, as hábeis repetições e artifícios anafóricos usados
por Tolkien ficaram de fora em diversos casos, o que faz do poema
traduzido algo muito menos “amarrado”.

Bem, o texto fala por si mesmo. Abaixo, segue o poema original e, a seguir, sua tradução.

MYTHOPOEIA

To one who said that myths were lies and therefore worthless, even though ‘breathed through silver’.

Phylomythus to Misomythus

You look at trees and label them just so,
(for trees are trees, and growing is to grow);
you walk the earth and tread with solemn pace
one of the many minor globes of Space:
a stars a star, some matter in a ball
compelled to courses mathematical
amid the regimented, cold, Inane,
where destined atoms are each moment slain.

At bidding of a Will, to which we bend
(and must), but only dimly apprehend,
great processes march on, as Time unrolls
from dark beginnings to uncertain goals;
and as on page oerwritten without clue,
with script and limning packed of various hue,
an endless multitude of forms appear,
some grim, some frail, some beautiful, some queer,
each alien, except as kin from one
remote Origo, gnat, man, stone, and sun.
God made the petreous rocks, the arboreal trees,
tellurian earth, and stellar stars, and these
homuncular men, who walk upon the ground
with nerves that tingle touched by light and sound.
The movements of the sea, the wind in boughs,
green grass, the large slow oddity of cows,
thunder and lightning, birds that wheel and cry,
slime crawling up from mud to live and die,
these each are duly registered and print
the brains contortions with a separate dint.

Yet trees are not trees, until so named and seen —
and never were so named, till those had been
who speechs involuted breath unfurled,
faint echo and dim picture of the world,
but neither record nor a photograph,
being divination, judgement, and a laugh,
response of those that felt astir within
by deep monition movements that were kin
to life and death of trees, of beasts, of stars:
free captives undermining shadowy bars,
digging the foreknown from experience
and panning the vein of spirit out of sense.
Great powers they slowly brought out of themselves,
and looking backward they beheld the elves
that wrought on cunning forges in the mind,
and light and dark on secret looms entwined.

He sees no stars who does not see them first
of living silver made that sudden burst
to flame like flowers beneath an ancient song,
whose very echo after music long
has since pursued. There is no firmament,
only a void, unless a jewelled tent
myth-woven and elf-patterned; and no earth,
unless the mothers womb whence all have birth.

The heart of man is not compound of lies,
but draws some wisdom from the only Wise,
and still recalls him. Though now long estranged,
man is not wholly lost nor wholly changed.
Dis-graced he may be, yet is not dethroned,
and keeps the rags of lordship once he owned,
his world-dominion by creative act:
not his to worship the great Artefact,
man, sub-creator, the refracted light
through whom is splintered from a single White
to many hues, and endlessly combined
in living shapes that move from mind to mind.
Though all the crannies of the world we filled
with elves and goblins, though we dared to build
gods and their houses out of dark and light,
and sow the seeds of dragons, twas our right
(used or misused). The right has not decayed.
We make still by the law in which were made.

Yes! wish-fulfilment dreams we spin to cheat
our timid hearts and ugly Fact defeat!
Whence came the wish, and whence the power to dream,
or some things fair and others ugly deem?
All wishes are not idle, nor in vain
fulfilment we devise — for pain is pain
not for itself to be desired, but ill;
or else to strive or to subdue the will
alike were graceless; and of Evil this
alone is dreadly certain: Evil is.

Blessed are the timid hearts that evil hate,
that quail in its shadow, and yet shut the gate;
that seek no parley, and in guarded room,
though small and bare, upon a clumsy loom
weave tissues gilded by the far-off day
hoped and believed in under Shadows sway.

Blessed are the men of Noahs race that build
their little arks, though frail and poorly filled,
and steer through winds contrary towards a wraith,
a rumour of a harbour guessed by faith.

Blessed are the legend-makers with their rhyme
of things not found within recorded time.
It is not they that have forgot the Night,
or bid us flee to organized delight,
in lotus-isles of economic bliss
forswearing souls to gain a Circe-kiss
(and counterfeit at that, machine-produced,
bogus seduction of the twice seduced).
Such isles they saw afar, and ones more fair,
and those that hear them yet may yet beware.
They have seen Death and ultimate defeat,
and yet they would not in despair retreat,
but oft to victory have turned the lyre
and kindled hearts with legendary fire,
illuminating Now and dark Hath-been
with light of suns as yet by no man seen.

I would that I might with the minstrels sing
and stir the unseen with a throbbing string.
I would be with the mariners of the deep
that cut their slender planks on mountains steep
and voyage upon a vague and wandering quest,
for some have passed beyond the fabled West.
I would with the beleaguered fools be told,
that keep an inner fastness where their gold,
impure and scanty, yet they loyally bring
to mint in image blurred of distant king,
or in fantastic banners weave the sheen
heraldic emblems of a lord unseen.

I will not walk with your progressive apes,
erect and sapient. Before them gapes
the dark abyss to which their progress tends —
if by Gods mercy progress ever ends,
and does not ceaselessly revolve the same
unfruitful course with changing of a name.
I will not treat your dusty path and flat,
denoting this and that by this and that,
your world immutable wherein o part
the little maker has with makers art.
I bow not yet before the Iron Crown,
nor cast my own small golden scepter down.

*

In Paradise perchance the eye may stray
from gazing upon everlasting Day
to see the day-illumined, and renew
from mirrored truth the likeness of the True.
Then looking on the Blessed Land twill see
that all is as it is, and yet made free:
Salvation changes not, nor yet destroys,
garden nor gardener, children nor their toys.
Evil will not see, for evil lies
not in Gods picture but in crooked eyes,
not in the source but in malicious choice,
and not in sound but in the tuneless voice.
In Paradise they no more look awry;
and though they make anew, they make no lie.
Be sure they still will make, not being dead,
and poets shall have flames upon their head,
and harps whereon their faultless fingers fall:
there each shall choose for ever from the All.

MYTHOPOEIA

A alguém que disse que mitos eram mentiras e, portanto, inúteis, mesmo se “respirados através da prata”.

Philomythus a Misomythus

Você vê árvores, e as chama assim,
(pois é o que são e o seu crescer, enfim);
palmilha a terra e com solene passo
pisa um dos globos menores do Espaço:
uma estrela é matéria numa bola
que em matemático trajeto rola
regimentado, gélido, Vazio,
de átomos morrendo a sangue frio.

Por uma Vontade, à qual nos dobramos
mas que nós só de longe captamos,
grandes processos o Tempo completa
de início escuro a incerta meta;
e em página reescrita sem pista,
de letra e margem vária já revista,
eis multidão de formas infinitas,
negras, belas, frágeis ou esquisitas,
cada qual diversa, mas num só rol
de germe, inseto, homem, pedra e sol.
Deus fez pétreas rochas, arbóreas árvores,
terra térrea, estelares fulgores,
e os homens humanos, que andam no chão
e a quem luz e som causam comichão.
O remexer do mar, vento nos galhos,
relva, vacas mugindo nos atalhos,
trovão e raio, aves a cantar,
limo escorrendo a viver e murchar,
cada qual é registrado e impresso
nas contorções do cérebro em recesso.

Mas “árvores” só o são se nomeadas –
e só o foram quando captadas
por quem abriu o hálito da fala,
eco do mundo numa escura sala,
mas nem registro nem fotografia,
sendo risada, juízo e profecia,
resposta dos que então sentiram dentro
profundo movimento cujo centro
é o existir de planta, fera, estrela:
cativos que grade serram sem vê-la,
cavando o sabido da experiência
abrindo o espírito sem consciência.
Grande poder de si mesmos criaram,
e atrás de si os elfos contemplaram
que labutavam nas forjas da mente
luz e treva entretecendo em semente.

Não vê estrelas quem não as vê primeiro
qual prata viva explodindo em chuveiro
chama florida sob canção antiga
cujo eco mesmo de longa cantiga
o perseguiu. Não há um firmamento,
só vazio, se não tenda, paramento
por elfos desenhado; não há terra,
se não ventre de mãe que a vida encerra.

Mentiras não compõem o peito humano
que do único Sábio tira o seu plano,
e o recorda. Inda que alienado,
algo não se perdeu nem foi mudado.
Des-graçado está, mas não destronado,
trapos da nobreza em que foi trajado,
domínio do mundo por criação:
O deus Artefato não é seu quinhão,
homem, sub-criador, luz refratada
em quem matiz branca é despedaçada
para muitos tons, e recombinada
forma viva mente a mente passada.
Se todas as cavas do mundo enchemos
com elfos e duendes, se fizemos
deuses com casas de treva e de luz,
se plantamos dragões, a nós conduz
um direito. E não foi revogado.
Criamos tal como fomos criados.

Sim! Sonhos tecemos para enganar
os corações e o Fato derrotar!
De onde o desejo e o poder pra sonhar,
e as coisas belas ou feias julgar?
Querer não é inútil, nem calor
procuramos em vão – pois dor é dor,
não de ser desejada, mas perversa;
ou ceder a uma vontade adversa
ou resistir seria igual. E o Mal,
desse apenas isto é certo: É o Mal.

Bendito o tímido que o mal odeia,
treme na sombra, e o portão cerceia;
que não quer trégua, e em seu solar,
mesmo pequeno, num velho tear
tece pano dourado à luz do dia
sonhado por quem na Sombra porfia.

Benditos os que de Noé descendem
e com suas arcas frágeis o mar fendem,
sob ventos contrários buscando sé,
rumor de um porto indicado por fé.

Benditos os que em rima fazem lenda
ao tempo não-gravado dando emenda.
Não foram eles que a Noite esqueceram,
ou deleite organizado teceram,
ilhas de lótus, um céu financeiro,
perdendo a alma em beijo feiticeiro
(e falso, aliás, pré-fabricado,
falaz sedução do já-deturpado).

Tais ilhas vêem ao longe, e outras mais belas,
e os que os ouvem podem girar as velas.
Viram a Morte e a derrota final,
sem em desespero fugir do mal,
mas à vitória viraram a lira,
seus corações qual legendária pira,
iluminando o Agora e o Que Tem Sido
com brilho de sóis por ninguém vivido.

Quisera com os menestréis cantar
com minha corda o não-visto tocar.
Quisera navegar com os marinheiros
sobre tábuas em montes altaneiros
e viajar numa vaga demanda,
que alguns ao fabuloso Oeste manda.
Quisera entre os tolos ser sitiado,
que em remoto forte, de ouro guardado,
impuro e escasso, recriam leais
imagem tênue de pendões reais,
ou em bandeiras tecem o brasão
fulgurante de não-visto varão.

Não seguirei seus símios progressivos,
eretos e sapientes. Caem vivos
nesse abismo ao qual seu progresso tende –
se por Deus o progresso um dia se emende
e não sem cessar revolva o batido
curso sem fruto com outro apelido.
Não trilharei sua rota sem vacilo,
que a isto e aquilo chama isto e aquilo,
mundo imutável onde não tem parte
o criador com sua pequena arte.
Eu não me curvo à Coroa de Ferro,
nem meu cetrozinho dourado enterro.

*

No Paraíso pode o olho vagar
do Dia imorredouro contemplar
a ver o que ele ilumina, e nova
Verdade ter com isso como prova.
Olhando a Terra Bendita verá
que tudo é como é, e livre será:
A Salvação não muda, nem destrói,
jardim, criança ou brinquedo corrói.
Mal não verá, pois este está imerso
não no que Deus fez, mas no olhar perverso,
não na fonte, mas em escolha errada,
e não no som, mas na voz quebrantada.
No Paraíso não estão mais confusos;
criam novo, sem mentira nos usos.
Criarão, é certo, não estando mortos,
poetas terão chamas como votos,
e harpas que sem falta tocarão:
do Todo cada um terá quinhão.

valinor

… Mas livrai-nos do mal

Nunca fiz uma pesquisa exaustiva sobre as razões que levam as pessoas a
gostarem de O Senhor dos Anéis ou da obra tolkieniana em geral, embora
já tenha tido ocasião de perguntar a isso a especialistas em Tolkien ou
a colegas fãs e amigos em geral. Acho que é mais ou menos seguro
assumir que não há uma razão única ou mesmo geral: toda boa obra de
literatura é polissêmica (jeito afetado de dizer que ela permite vários
níveis e dimensões de leitura e interpretação), e num colosso de mais
de mil páginas como a Saga do Anel essa dimensão ainda é mais clara.
 
 
 
Mesmo assim, gostaria de conversar com vocês sobre
o que talvez seja a faceta que mais ajudou a tornar o livro parte da
minha vida, algo que eu ainda vou entesourar quando estiver desdentado,
careca e incapaz de usar a privada sozinho. Falo da dimensão moral e
espiritual da história e, em particular, do clímax: o “fracasso� de
Frodo nas Sammath Naur e a sua salvação (e a de toda a Terra-média)
pelas mãos de alguém tão aparentemente odioso quanto Gollum.

Nunca é demais dar uma olhada nas famosas cartas do homem do cachimbo,
The Letters of J.R.R. Tolkien, editadas por Humphrey Carpenter e
Christopher Tolkien. É impressionante o grau de dedicação e
seriedadeque Tolkien despende para responder indagações de simples fãs,
e os insights profundos sobre seu trabalho que ele não hesitava em
compartilhar. É em duas dessas cartas, ambas escritas em 1956, que ele
esclarece qual a chave em que devemos ler a cena-clímax do romance: “Eu
diria que, dentro do espírito da história, a catástrofe exemplifica (um
aspecto das) palavras familiares: Perdoai as nossas ofensas, assim como
nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixeis cair em
tentação, mas livrai-nos do mal�.

“Não nos deixeis cair em tentação etc. é o pedido mais difícil e menos considerado�, diz Tolkien. “O
ponto de vista, nos termos da minha história, é que embora todo evento
ou situação tenha (pelo menos) dois aspectos, a história e o
desenvolvimento do indivíduo (algo do qual ele pode conseguir o bem, o
bem supremo, para si mesmo ou falhar) e a história do mundo (que
depende das ações dele em si mesmas) – ainda assim há situações
anormais em que alguém pode ser colocado. Eu as chamaria de situações
sacrificiais�
.

Posições como essa espelham o que Frodo
sofreu diante das Sammath Naur: um contexto no qual alguém como ele
está fadado a fracassar, porque o que se exige está muito além do que
pode fazer a força de corpo ou de espírito que ele possui. Em certo
sentido, a Demanda estava destinada a falhar desde o começo, confessa
Tolkien: alguém com maior poder natural teria sucumbido à tentação do
Anel muito antes; um sujeito com a humildade e a integridade de Frodo
sucumbiria na hora final. É uma armadilha da qual não há escapatória. O
único resultado possível para o hobbit era a traição, ainda que
involuntária. “E cheguei até receber uma carta selvagem, gritando que
ele deveria ser executado como traidor, e não honrado�, conta Tolkien.

O autor vai além: compara a situação em que Frodo foi colocado aos
sofrimentos das pessoas torturadas por regimes ditatoriais, uma coisa
tristemente comum no mundo que Tolkien conhecera durante a Segunda
Guerra Mundial e a Guerra Fria que se seguiu. “Não imaginei que, antes
que a história fosse publicada, entrássemos numa era sombria em que a
técnica de tortura e de distorção da personalidade passasse a rivalizar
com a de Mordor�, lamenta o Professor.

O resultado final, do ponto de vista da personalidade do herói, pelo menos, é que Frodo falhou inevitavelmente. “É
preciso encarar o fato: o poder do Mal no mundo não pode ser vencido,
em última instância, por criaturas encarnadas, por melhores que elas
sejam�
, diz Tolkien.

Parece uma sentença de desespero irreversível, não é mesmo? Contudo, na mesma frase, Tolkien acrescenta: “E o Autor da História não é um de nós�. É desse jeito, explica ele, que a cena-clímax da saga precisa ser lida.

Para alguns, tal idéia pode parecer decepcionante. Já ouvi um sujeito
dizer que O Senhor dos Anéis o irritava profundamente porque os heróis
sempre pareciam escapar por pura sorte no último momento, e o mesmo se
repetia na cena final no Orodruin. “Eles nunca tem mérito ou capacidade para escapar; só se salvam por puro acaso�,
reclamava esse cara. Tá na cara, contudo, que só uma leitura
superficial pode passar essa impressão. Foi exatamente o mérito de
Frodo, a sua compaixão por Gollum, junto com Algo (ou Alguém) que está
muito acima do acaso, que o salvaram na sua hora final, como explica
Tolkien.

“A salvação do mundo e a salvação do próprio Frodo
é conseguida graças à sua piedade anterior e ao seu perdão anteriores.
Em qualquer momento, qualquer pessoa prudente teria dito a Frodo que
Gollum certamente o trairia, e que poderia roubá-lo no fim. Ter pena
dele, evitar matá-lo, foi um ato de insensatez, ou uma crença mística
no valor último da piedade e da generosidade em si mesmas, mesmo se
elas forem desastrosas no mundo do tempo. Ele [Gollum] realmente o
roubou e feriu no fim – mas por uma graça, essa última traição foi no
momento preciso em que esse ato de maldade final foi a melhor coisa que
alguém poderia fazer a Frodo! Numa situação criada pelo seu próprio
perdão, ele foi salvo, e aliviado de seu fardo�
.

A gente
sabe que o mundo real, aparentemente, não é tão certinho quanto o mundo
da história. O Autor da História às vezes parece distante ou, pior
ainda, parece ter emprestado sua pena a alguém bem menos sábio e justo.

Mesmo assim, a coragem e a força moral que emana dos heróis da ficção
pode servir de fonte de inspiração e firmeza – porque todos nós, mesmo
no nosso pequeno mundo, podemos um dia correr o risco de adentrar as
Sammath Naur.

valinor

O Mundo Sarumanizado

“Acho que agora entendo o que ele [Saruman] está
querendo. Ele está planejando tornar-se um Poder. Ele tem uma mente de
metal e engrenagens, e não se importa com coisas que crescem, exceto
enquanto elas o servem no momento� [As Duas Torres, cap. “Barbárvore�].

 

 

 
Isso é Saruman. Não consigo achar outra definição
mais clara do sujeito do que a feita por Barbárvore; afinal, o velho
Fangorn estava entre os que mais sofreram na mão do antigo líder do
Conselho Branco. Até aí tudo bem. O problema é perceber o papel que a
figura de Saruman desempenhava na visão de mundo de Tolkien: o de uma
metáfora para todas as mazelas que a interferência tecnológica na
natureza causava à Terra e ao próprio homem.

Antes que alguém apareça para esfregar o Prefácio de O Senhor dos Anéis
nas minhas fuças, reafirmando pela enésima vez que o livro não é uma
alegoria, já aviso que concordo plenamente. O que não pode ser negado,
porém, é a aplicabilidade do texto tolkieniano [lembram dessa
palavrinha? Também está lá no Prefácio]. Tolkien tinha plena
consciência de que sua obra fornecia imagens poderosas para entender o
nosso próprio mundo, e não se esquivava a fazer uso delas em suas
cartas e conversas pessoais. E uma das imagens mais recorrentes é a da
“sarumanização� ou “sarumanismo�.

Para entender isso, não custa examinar um pouco as origens e a evolução
de Saruman dentro da mitologia [ou legendarium, como Tolkien gostava de
dizer]. Um fato curioso, por exemplo, é que Saruman [na origem o Maia
Curumo] pertencia ao povo de Aulë, o mais criativo e irrequieto dos
Valar; o mesmo, aliás, acontecia com o próprio Sauron.

Essa “filiação� dos dois Maiar explica muita coisa sobre suas atitudes.
Em O Silmarillion, ficamos sabendo que Aulë sempre foi cheio de
impaciência e vontade criadora, querendo que os desígnios de Eru se
realizassem rapidamente. Sua tentativa de “dar um empurrãozinho� no
surgimento dos Filhos de Ilúvatar criou os Anões, que foram
incorporados à história de Arda graças à misericórdia do Único e à
humildade de Aulë. Com efeito, “o deleite e o orgulho de Aulë estão no
ato de criar, e na coisa feita, e não na posse ou no domínio� [O
Silmarillion, “Ainulindalë�].

Na origem, Saruman não devia ser diferente de Aulë: um espírito de
criatividade e habilidade, voltado para a organização e a
aperfeiçoamento do mundo, mas não para a tirania. E foi com esse
propósito que ele foi enviado à Terra-média pelos Valar: utilizar sua
sabedoria da melhor maneira possível para orientar os Povos Livres, mas
não para submetê-los a seu domínio. Essa era a missão dos Istari ou
Magos.

Porém, confrontado com as dificuldades e inseguranças de sua missão,
Curunír não ficou imune às tentações do poder. Quando fixou residência
em Isengard, o desejo de usar o palantír de Orthanc deve ter se tornado
quase insuportável – e então ele confrontou diretamente Sauron. “Se
você olhar para o abismo, o abismo olhará de volta para você�,
costumava dizer Nietzsche, e foi o que aconteceu. Tolkien explica, no
livro Morgoth’s Ring, que Sauron podia entender e prever as ações com
relativa facilidade, pois ambos haviam sido muito parecidos no início.
Sob a influência do Olho de Barad-dûr, o desejo de ordem e conhecimento
de Saruman sofreu uma aterradora mutação: se transformou também num
desejo de domínio. O Círculo de Angrenost, antes repleto de jardins e
árvores frutíferas, se transformou numa fábrica infernal, na qual a
fumaça e o fedor das fornalhas, o girar de engrenagens e o bater de
martelos, formavam uma aterradora prefiguração de Mordor.

O espírito de Isengard, que reapareceria durante o Expurgo do Condado,
era abominável para Tolkien por uma razão que poderíamos considerar
religiosa. O Professor enxergava na ordem natural do nosso mundo a
perfeição e a sabedoria da mente de Deus, virtudes que deveriam ser
veneradas pelo homem. A corrida tecnológica, a obsessão pela máquina,
representavam para ele uma violação dessa ordem, e uma forma de
tirania; além disso, na destruição que o mundo industrial havia
provocado na Inglaterra de sua infância, ele enxergava uma imensa falta
de imaginação, uma incapacidade do homem de atuar como sub-criador, e
não como destruidor.

O grande medo de Tolkien era que o “sarumanismo� conduzisse a
humanidade a um beco sem saída ecológico, moral e espiritual. Mesmo
assim, ele não deixou de expressar seu alerta e sua esperança, falando
a fãs holandeses, em 1958: “Olho para o leste, oeste, norte e sul, e
não vejo Sauron; mas vejo que Saruman tem muitos descendentes. Nós,
hobbits, não temos armas mágicas contra eles. No entanto, meus
gentis-hobbits, faço-lhes este brinde: aos hobbits. Que eles perdurem
além dos Sarumans e vejam outra vez a primavera nas árvores�.

valinor

Puristas versus fãs – uma falsa oposição

O assunto é velho, eu sei: boa parte dos meus colegas aqui na Valinor
já tratou, num momento ou noutro, da relação entre o livro “O Senhor
dos Anéis� e a adaptação milionária (em gastos e lucros) que Peter
Jackson fez deles. Mesmo assim, ainda sinto que algo falta ser dito a
esse respeito – algo que me pareceu estranhamente de fora da discussão
sobre tema parecido feita recentemente no Fórum Valinor (valeu, Gildor
e todo o pessoal, pela inspiração trazida pela conversa de vocês, que
eu observei sem participar).
 
 
 
Quase todo mundo parece resumir a controvérsia a
uma disputa entre puristas (pelo jeito, minoria das minorias a esta
altura do campeonato) e fãs dos filmes. Os primeiros argumentam que
nenhuma mudança é, em princípio, admissível; os outros, que a
necessidade de criar uma boa obra cinematográfica exige essas mudanças,
que seguir a letra do livro resultaria simplesmente num filme chato de
galochas – que, em resumo, filme é filme, livro é livro. A mudança na
adaptação cinematográfica não altera o texto original que os puristas
entesouram tanto. A mensagem, dizem eles, é curtir os filmes enquanto
filmes (e os filmes, disso eles não parecem ter dúvidas, são
realizações históricas – “moviemaking history�, como a produtora New
Line gosta de dizer).

Há quase dois anos atrás, quando os filmes começaram a aparecer, eu não
saberia de que lado me colocar. Provavelmente entre os aprovadores
(quase) sem reservas de Peter Jackson, pelo simples impacto de ver o
que a minha imaginação sonhara por tanto tempo finalmente em carne,
osso e celulóide. Agora, contudo, depois de rever “A Sociedade do Anel�
e “As Duas Torres� repetidas vezes, o distanciamento necessário para
julgar as coisas direito chegou.

Pois bem, qual o meu veredicto? Eu diria que a coisa é ligeiramente
mais complicada que a mera necessidade de adaptar uma história
verborrágica (no melhor sentido da palavra; cá entre nós, não dá para
negar que o fluxo de palavras, sentido primário desse adjetivo, é dos
grandes no livro) para um meio visual. O problema também é esse, mas
está longe de ser só esse. A impressão que eu tenho é que, apesar de
todos os seus juramentos sucessivos de fidelidade a Tolkien, os
criadores da trilogia cinematográfica simplesmente não confiaram na
qualidade da história do jeito que ela é; ou, talvez, acharam que o
público não seria capaz de captar as sutilezas, as alusões, os
subentendidos que fazem do livro uma experiência única.

Um exemplo entre muitos: lembro-me de uma entrevista com Bernard Hill
(Théoden) no qual o repórter questionava a diferença entre o rei
resoluto do livro, que depois de ser curado por Gandalf luta com todas
as forças contra Saruman, e o Théoden que quer evitar a guerra a
qualquer custo. Hill resmungou, meio irritado, algo do tipo: “Ora, o
personagem precisa ter um arco de desenvolvimento no filme, mostrar
algum tipo de crescimento pessoal�. O mesmo foi dito pela roteirista
Philippa Boyens a respeito de Faramir.

O mesmo acontece com o desespero para aumentar a participação de Arwen
a qualquer custo: “O público precisa de um personagem feminino com o
qual se identificar”; a patética insinuação de que Sauron e Aragorn vão
lutar no mano a mano (“O vilão precisa ser algo mais do que um Olho
flamejante�); o fato de que o Frodo parece ser muito mais frágil diante
do poder do Anel do que esperaríamos de alguém com a força interior
dele (“O Anel precisa ter seu caráter corruptor enfatizado�).

A pergunta que não quer calar é: por que diabos esse tal PRECISA? Esses
caras estão fazendo um filme ou só seguindo uma receita de bolo? Por
que eles precisam usar clichês tão gastos, tão falsos, para recontar
uma história que já provou ser capaz de arrebatar gente de todas as
culturas da Terra por 50 anos sem recorrer a esse tipo de apelação?
Além do mais, os pressupostos dos quais eles partem estão baseados numa
percepção totalmente equivocada do mundo real – como a idéia de que
pessoas verossímeis são só as contraditórias (conheço muita gente que é
constante nos seus valores e atitudes, graças a Deus) ou de que o
inimigo precisa ser visualizado (como se os maiores males dos quais a
gente tem de escapar não fossem quase sempre impessoais).

Não estou dizendo que os filmes são uma porcaria. Pelo contrário: são
belos, emocionantes, tocantes até. Choro toda vez que os vejo e nunca
tive vergonha de dizer isso. O que estou dizendo é que temos o direito
de exigir que eles fossem melhores – porque a história que eles
supostamente deveriam contar é infinitamente mais profunda,
infinitamente mais bela, ao menos para quem tem olhos para ver. Como
dizia um slogan de 1968, “seja razoável – exija o impossível�. Dava
para fazer? Estou convencido de que dava. A edição estendida (sim,
consegui assistir) está aí para mostrar que dava para ter feito melhor.
Se nos contentarmos apenas com o que nos tem sido oferecido, só
estaremos dando razão os críticos esnobes que acham que é tudo um
grande marketing para encher o rabo de Hollywood com dinheiro – e ponto
final.

valinor

Uma proposta de tradução para Tree and Leaf

“Oh hell! Has it? Oh my God. Dear oh dear. Dear oh dear oh dear.”

Decidi começar esta apresentação com essa simpática manifestação de

perplexidade porque, até onde eu tenho sentido, ela dá conta de forma
muito apropriada das reações que o meu tema costuma suscitar no meio
acadêmico ou intelectual em geral. Essa frase, diz a lenda, foi
proferida por um jornalista cultural do diário britânico Sunday Times,
em janeiro de 1997, ao saber que os leitores de seu país haviam
escolhido O Senhor dos Anéis como o maior livro do século XX, numa
pesquisa de opinião conduzida pelo Channel 4 e pela rede de livrarias
Waterstone.

 
 
 
Tudo bem, o tema do meu projeto de mestrado não é O Senhor dos Anéis,
mas sofre da mesma desvantagem: carrega a marca registrada “Tolkien�
(com o prefixo J.R.R. ou John Ronald Reuel) impressa nele. Se eu
decidisse me limitar às expressões similares de perplexidade da
intelligentsia anglo-americana sobre esse autor e sobre o fascínio
supostamente funesto que ele exerce sobre uma infinidade de leitores, o
tempo desta apresentação certamente ultrapassaria os 20 minutos
regulamentares. Mas acho mais produtivo parar de brincar de avestruz,
como boa parte da academia tem feito até hoje, e encarar o fenômeno de
frente – até para refletir se, afinal de contas, ele não tem algum
valor verdadeiro que anda escapando a quem já deveria tê-lo percebido.
Não adianta ficar gritando “Dear oh dear oh dear� por aí. Por que o
fascínio existe – essa é a questão que vale a pena tentar responder.

Paradoxalmente, decidi abordar esse problema (do ponto de vista de um
advogado que acredita com todas as forças na sua causa, que fique bem
claro) a partir de uma obra que não é exatamente um best-seller,
principalmente se considerada dentro dos opulentos padrões
tolkienianos. Refiro-me a Tree and Leaf (até hoje sem tradução
integral em português), uma coletânea de textos aparentemente muito
heterogêneos, todos do final dos anos 30, que só foram postos no mesmo
volume e alcançaram o público em geral depois que O Senhor dos Anéis
transformou Tolkien numa espécie de Paulo Coelho medievalista.

Um
escrutínio ligeiramente mais cuidadoso, contudo, mostra que a coletânea
não tem nada de aleatório. A começar pela data de composição da maioria
dos textos: eles foram escritos bem no momento em que a Saga do Anel
estava nascendo e tomando forma, e documentam, em miniatura, o que a
tarefa de criar o romance significava para Tolkien. Em outras palavras:
mesmo quando são ficcionais, os textos contidos em Tree and Leaf
têm um forte caráter metaliterário: revelam a mente do autor pensando o
seu próprio fazer artístico. Mais que isso: mostram um projeto de
literatura que, ao ser realizado, atingiu (goste-se ou não da forma
como o fez) um poder imaginativo profundo.

Mas por que
tratar isso num projeto de tradução, e não de literatura inglesa ou de
teoria literária ou coisa que o valha? Eu diria que a própria natureza
do texto tolkieniano favorece (embora não facilite) a abordagem por
meio da tradução. É que, mesmo sendo conscientemente um antimoderno por
excelência, uma coisa Tolkien tinha em comum com Joyce (ou, em termos
mais tupiniquins, com Guimarães Rosa): a capacidade de reinventar
palavras e seus usos, de mostrar que words englobam worlds, para usar
um trocadilho bastante batido em inglês. Para quem não sabe, Tolkien
era um filólogo – talvez o último grande filólogo depois dos irmãos
Grimm; mas, ao contrário deles, a perspectiva filológica deu a Tolkien
uma capacidade única de reinscrever a história e, principalmente, o
mito dentro da literatura de língua inglesa. Cada palavra (e,
principalmente, a história de cada palavra) conta para Tolkien. Esse
olhar, é verdade, está voltado para o passado o tempo todo; mas, por
buscar nesse passado a universalidade do mito, acaba por transcendê-lo.

Todo
o preâmbulo acima, se serviu a seu propósito, foi para dizer que a
tradução fornece uma oportunidade única para “quebrar o código� da
mitofilologia (se a palavra não existe, acabei de cunhá-la!)
tolkieniana. Reescrevê-la em português significa, antes de mais nada,
um esforço para entender o autor nos seus próprios termos, o que
certamente ainda não foi tentado entre nós. E significa também uma
chance de “fertilizar� o nosso jovem idioma (uso, de propósito, a
expressão cara aos tradutores alemães da era de Goethe) com o sabor do
elder world tolkieniano – que, bem vasculhado, pode muito bem se
revelar o nosso. Conseguir isso exige ao mesmo tempo uma fidelidade
monástica ao original e a coragem para recriá-lo. É o sonho (e o
pesadelo) de qualquer tradutor, imagino.

Claro que essa
conversa toda deve estar soando totalmente impalpável para os que nunca
ousaram encarar o recôndito mundo tolkieniano. Por isso, acho que é
útil dar uma visão geral sobre o conteúdo do livro antes de falar sobre
alguns problemas de tradução que ele sugere nesta fase ainda
embrionária do meu trabalho. Quatro textos bastante distintos
formalmente compõem o Tree and Leaf. O primeiro, na origem uma apresentação acadêmica oral como esta aqui, é o ensaio On Fairy-Stories – podem chamá-lo, se quiserem, de uma teoria tolkieniana da fantasia e da literatura fantástica. Segue-se o poema Mythopoeia, “o fazer dos mitos� – uma argumentação apaixonada em favor da visão defendida no ensaio. O conto Leaf by Niggle,
que vem a seguir, de certa forma é um exemplo do que a teoria
tolkieniana pode alcançar em termos de arte narrativa. Finalmente, The Homecoming of Beorhtnoth Beorhthelm’s Son,
provavelmente o único texto de Tolkien em forma dramática, encerra a
coletânea. Escrito na antiga métrica aliterativa anglo-saxã, é um
diálogo poético que reforça a obsessão de Tolkien com o passado da
Inglaterra, funcionando como uma continuação (ou uma sequel, se quisermos usar o termo cinematográfico) do poema anônimo A Batalha de Maldon, do século X.

Como o nosso tempo é bastante limitado, a minha exposição se concentrará sobre alguns problemas de tradução presentes em On Fairy-Stories e em Leaf by Niggle, embora eu pretende abordar rapidamente Mythopoeia e Homecoming.
Quando digo problemas, e não soluções, é porque quero dizer isso mesmo:
ainda estou longe de resolvê-los, embora já tenha alguma idéia do que
fazer com eles – mais como uma proposta, um norte a ser seguido, do que
como uma resposta pronta.

Faërie On Fairy-Stories,
apesar de lidar com um tema que à primeira vista não poderia ser mais
tradicional – os contos de fadas – é na verdade um esforço no sentido
de subverter os lugares-comuns que cercam esse tipo de literatura.
Tipicamente, Tolkien faz isso usando seu conhecimento filológico,
reportando-se à história das palavras e dos conceitos para revelar o
potencial imaginativo e literário oculto nelas.

Logo de
cara, o ensaio já apresenta um exemplo desse tipo de trabalho, com a
aplicação da arqueologia lingüística tolkieniana ao termo Faërie – que
se associa inevitavelmente, em sonoridade e cadeia semântica, com o
substantivo comum fairy, que nós costumamos traduzir como
“fada�. Ambas as palavras, afirma Tolkien, são em última instância de
origem francesa, e traduzem o inglês elf; ambas evocam (para o
leitor moderno, pelo menos) associações com criaturas diminutas,
“bonitinhas�, não muito sérias. A própria definição do Oxford English Dictionary, para a qual Tolkien, ex-dicionarista, se volta ironicamente, não ajuda muito: fairy-story simplesmente não consta no OED, que só lista fairy-tale, com a esperada referência a “seres diminutos� e a histórias sobre eles.

Tolkien não perde a oportunidade de corrigir os colegas dicionaristas (como ele trabalhou apenas na letra W do OED,
podia se dar ao luxo de criticar o que constava da letra F). O
dicionário registra o primeiro uso da palavra fairy no final do século
XIV (bastante tardio, portanto), no Confessio Amantis, do poeta John
Gower (1330-1408): as he were a faierie. Mas o OED cochilou, diz Tolkien: o que o texto de Gower realmente diz, em seu Middle English arrevesado, é as he were of faierie,
“como se ele tivesse vindo de Faërie�. Para Tolkien, a conclusão é
óbvia: o sentido original (e “filologicamente correto�) da palavra é de
um lugar (e estado), não de uma classe de seres:

“I said
the sense ‘stories about fairies’ was too narrow. It is too narrow,
even if we reject the diminutive size, for fairy-stories are not in
normal English usage stories about fairies or elves, but stories about
Fairy, that is Faërie, the realm or state in which fairies have their
being. Faërie contains many things besides elves and fays, and besides
dwarfs, witches, trolls, giants, or dragons: it holds the seas, the
sun, the moon, the sky; and the earth, and all things that are in it:
tree and bird, water and stone, wine and bread, and ourselves, mortal
men, when we are enchanted.�

Como observa Thomas
Shippey, professor da Universidade de Saint Louis que é provavelmente o
analista mais agudo do trabalho de Tolkien em atividade hoje, “the word authenticates the thing�:todo esse complexo de significado está associado à palavra Faërie, “just below the surface�
– e volta e meia sobe à tona. Um dos desafios do meu trabalho de
tradução do ensaio é tentar encontrar termos que sugiram um processo
semelhante de transformação e ambigüidade semântica, com uma
profundidade temporal parecida (já que mesmo o sentido “original� de
Faërie, quando associado a essa palavra, parece ser recente) – isso sem
falar nos jogos de palavras entre Faërie, fairy e fair – já que a idéia
de uma beleza misteriosa e elusiva também perpassa o conceito.

Uma
coisa é certa: não adianta recorrer a um simples neologismo para
conservar a relação fonética entre os termos – claramente, existe uma
história por trás deles que precisa ser representada. A princípio,
confesso que fiquei tentado a seguir uma certa falácia etimológica e
usar algo como “Feéria� – o nosso adjetivo “feérico� vem do mesmo fée
francês que deu origem a Faërie. Há também a relação etimológica entre
o termo francês e o latim “fata� _os Fados ou Destinos, as Parcas da
mitologia greco-romana. Mas parece óbvio que não há mais resquícios
dessa conotação em inglês. Também não creio que caiba apelar para um
circunlóquio como “Terra das Fadas�. “Feéria�, embora não esteja
perfeito, deve ser uma amostra do que eu vou utilizar.

Niggle, Parish, Niggle’s Parish O problema em Leaf by Niggle
são os nomes próprios. Isso não é exatamente novidade quando se trata
de Tolkien; é só perguntar à minha orientadora, que traduziu O Senhor dos Anéis, sobre a importância e a estranheza dos nomes próprios usados pelo autor na obra.

O
conto, que é quase uma alegoria da vida e do trabalho do próprio
Tolkien, é sobre um pintor não muito brilhante chamado Niggle, que
sonha em pintar a árvore perfeita, mas fica tão absorto nos detalhes
que nunca consegue terminar o todo, ou mesmo enxergá-lo – a pintura vai
crescendo e crescendo, até tomar um armazém inteiro da casa do pobre
Niggle. E o pintor é constantemente perturbado por seu vizinho Parish,
um sujeito prático que não vê muito sentido naquela moldura enorme e
acha que ela seria muito mais útil para remendar seu telhado destruído
pela chuva.

Não vem ao caso aqui como a história continua,
mas é importante notar que os nomes dos personagens delatam de cara
quem eles são: Niggle é o perfeccionista que se preocupa com as folhas
e se esquece da árvore (o verbo to niggle quer dizer algo como
“ficar retocando detalhes irrelevantes aqui e ali; ocupar-se de
ninharias�), enquanto o sólido Parish (“paróquia�) está com ambos os
pés cimentados no seu próprio mundinho, sem conseguir perceber nenhum
propósito no tempo que seu vizinho gasta com a imensa pintura.

Para
complicar ainda mais a vida do tradutor, o desfecho do conto termina
por conciliar as tendências opostas simbolizadas pelos personagens num
lugar chamado Niggle’s Parish (como não quero estragar a
surpresa de quem se animar a ler o conto, terei de deixar o significado
exato dessa junção um tanto vago por ora). A escolha
A escolha
correta parece óbvia: traduzir os nomes próprios (há, inclusive, outros
nomes no texto que talvez exijam o mesmo tratamento). Antes que vocês
torçam o nariz para esse tipo de procedimento, deixem-me avisar que os
precedentes estão a meu favor: Tolkien aconselhou os tradutores de O
Senhor dos Anéis a verter diversos nomes próprios para a língua-alvo, e
até criou um guia a respeito para auxiliá-los.

O desafio
aqui é encontrar equivalentes breves (não ia adiantar nada usar a
explicação gigantesca de to niggle que eu acabei de dar), naturais (que
não soassem mais estranhos em português do que Niggle e Parish, este
último um sobrenome relativamente comum e corrente no mundo de língua
inglesa) e, claro, que funcionassem bem juntos no Niggle’s Parish do
desfecho e no decorrer da trama. Detalhismo demais? Talvez, mas o
efeito geral da história, como de resto acontece em toda a obra
tolkieniana, depende enormemente do emprego talentoso de poucas
palavras escolhidas que conseguem transmitir toda uma cadeia de sentido
com pouquíssimo esforço.

Opções para traduzir os nomes
desses personagens que eu considerei até agora são Villa (para Parish)
e Caxias (para Niggle). O primeiro satisfaz aos requisitos básicos de
brevidade, ar comum em português e adequação à conjunção Niggle’s
Parish. Caxias, apesar de transmitir o sentido desejado de
perfeccionista para Niggle e de ser mais incomum que Villa, tem um
certo fundo de agressividade que não combina com o personagem. De
qualquer maneira, como working theories, Villa, Caxias e Vila de Caxias não me parecem desprezíveis.

Os poemas Começando pelo último deles, creio que The Homecoming of Beorhtnoth
é o que exige um trabalho formal mais concentrado. E isso porque a
forma poética usada por Tolkien é exclusiva da antiga literatura
anglo-saxã (com algumas excecções para outras literaturas medievais,
como a islandesa) e é extremamente difícil de recriar. Não há numero
exato de sílabas, não há rima como nós a entendemos; a unidade poética
não é nem a linha, mas a meia-linha.

O tempo que nós temos é
curto demais para explicar como esse tipo de poesia é formalmente, mas
de forma muito geral, pode-se dizer que ela se baseia em unidades
curtas, com tamanho mínimo em torno de quatro sílabas, que têm um
padrão de equilíbrio entre sílabas tônicas e sílabas átonas. Alguns dos
padrões (marcando as tônicas com acento agudo) são:

A – Caindo/Caindo: Sáxon and Énglish
B – Subindo/Subindo: but márk my wórds
C – Em confronto: was like wórds whíspered

Essas são meias-linhas. Cada meia-linha se amarra à outra por meio da
aliteração, de forma que a primeira sílaba acentuada da segunda
meia-linha força a primeira sílaba tônica da segunda meia-linha a
aliterar com ela.

Sei que a explicação é bastante sumária,
mas a característica mais marcante desse tipo de métrica é a incrível
brevidade e concentração de expressão, dependendo grandemente de
palavras de, no máximo, duas sílabas. Um caminho para reproduzir isso
em português, imagino, é abrir mão do vocabulário erudito, de origem
latina mas cunhado recentemente, e usar ao máximo as palavras de origem
germânica (que, se não são comuns, também não são inexistentes) que
incorporamos ao nosso idioma.

Finalmente, Mythopoeia
é relativamente simples – por usar uma métrica extremamente tradicional
(o pentâmetro iâmbico/decassílabo) e não ter grandes ousadias formais.
É um poema-programa, importante pelo que diz, como profissão de fé.
Traduzi duas estrofes dele e gostaria que nós terminássemos esta
conversa lendo-as. Coloquei primeiro o texto em português e depois o
original:

He sees no stars who does not see them first
of living silver made that sudden burst
to flame like flowers beneath an ancient song,
whose very echo after music long
has since pursued. There is no firmament,
only a void, unless a jewelled tent
myth-woven and elf-patterned; and no earth,
unless the mothers womb whence all have birth.

The heart of man is not compound of lies,
but draws some wisdom from the only Wise,
and still recalls him. Though now long estranged,
man is not wholly lost nor wholly changed.
Dis-graced he may be, yet is not dethroned,
and keeps the rags of lordship once he owned,
his world-dominion by creative act:
not his to worship the great Artefact,
man, sub-creator, the refracted light
through whom is splintered from a single White
to many hues, and endlessly combined
in living shapes that move from mind to mind.
Though all the crannies of the world we filled
with elves and goblins, though we dared to build
gods and their houses out of dark and light,
and sow the seeds of dragons, twas our right
(used or misused). The right has not decayed.
We make still by the law in which were made.

Não vê estrelas quem não as vê primeiro

qual prata viva explodindo em chuveiro

chama florida sob canção antiga

cujo eco mesmo de longa cantiga

o perseguiu. Não há um firmamento,

só vazio, se não tenda, paramento

por elfos desenhado; não há terra,

se não ventre de mãe que a vida encerra.

Mentiras não compõem o peito humano,

que do único Sábio tira o seu plano,

e o recorda. Inda que alienado,

algo não se perdeu nem foi mudado.

Em desgraça está, mas não destronado,

trapos da nobreza em que foi trajado,

domínio do mundo por criação:

O deus Artefato não é seu quinhão,

homem, sub-criador, luz refratada

em quem matiz branca é despedaçada

para muitos tons, e recombinada

forma viva mente a mente passada.

Se todas as cavas do mundo enchemos

com elfos e duendes, se fizemos

deuses com casas de treva e de luz,

se plantamos dragões, a nós conduz

um direito. E não foi revogado.

Criamos tal como fomos criados.