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Amor, estilo Terra-média

Uma das histórias mais conhecidas da Terra-média é o Conto de Beren e Lúthien. O clássico drama do "garoto pobre se apaixona por uma garota rica" combinado com muita aventura, intriga, corrupção e magia. Parece que existe algo para agradar a todos os gostos. Quando os Hobbits pedem a Aragorn que lhes conte uma história naquela noite em que são atacados no Topo do Vento, ele decide falar sobre Beren e Lúthien. De certa forma, Aragorn se vê seguindo os passos de Beren. Como seu antepassado, Aragorn é um Senhor por direito, que perdeu terras e riquezas devido à guerra. E como Beren, Aragorn conhece uma linda princesa em um reino élfico e imediatamente apaixona-se perdidamente por ela.

 

 

O tratamento de Elrond para com Aragorn é muito mais gentil e tolerante do que o tratamento de Thingol para com Beren, pois Elrond é um dos descendentes de Beren e Lúthien, mesmo que ambos tenham morrido muito antes dele ter nascido. Mesmo assim, Elrond pede algo quase tão caro para o casamento com Arwen quanto o que Thingol pediu para o de Lúthien. Para ambos foram pedidas coisas que pareciam tarefas impossíveis de serem realizadas. Aragorn, pelo menos, tinha a vantagem de saber que Elrond queria ver a derrota de Sauron, ao contrário de Thingol, que tencionava enviar Beren para uma possível morte.

Infelizmente, nem todas as histórias de amor da Terra Média terminam tão bem como a de Beren e Lúthien e a de Aragorn e Arwen. Ambos os casais viveram juntos por muitos anos depois que as grandes tarefas impostas sobre eles foram cumpridas; no entanto, esses felizes anos jamais ocorreriam sem que antes se passasse por grande sofrimento, de modo que poderiam ser considerados recompensas realmente difíceis de se conseguir. Beren e Lúthien tiveram que passar por muitos perigos em Angband, e finalmente morreram antes de poderem ser ressucitados e viverem juntos em relativa tranqüilidade. A jornada de Aragorn não foi tão perigosa quanto a de Beren, mas sem dúvida ele sentiu muito mais solidão. Pelo menos, Beren foi acompanhado por Lúthien durante muito tempo na busca pela Silmaril, enquanto que Aragorn teve que viver muitos anos longe de Arwen, sem ter grandes esperanças que ela iria ao menos sentir o mesmo que ele sentia por ela.

O divórcio não é nunca mencionado em qualquer história de Tolkien. Algumas pessoas podem refletir pouco sobre a questão e falar: "Bem… Tolkien foi criado como um Católico e acreditou nos ensinamentos da Igreja por toda a sua vida". Sim, isso é verdade, mas Tolkien era também um indivíduo bastante realista. O divórcio parece não participar de seus romances porque a separação trágica ocupa sua posição. A separação nem sempre faz o amor ficar mais forte, às vezes pode até destruir o relacionamento. O primeiro conto de um casamento que termina em ruínas é o de Húrin e Morwen. Húrin era filho de Galdor, o alto, lorde de Dor Lómin, e considerado por muitos o maior dos guerreiros dentre os humanos. Morwen nasceu em Dorthonion, terra natal dos descendentes de Béor que foram aceitos no Reino de Finrod, Nargothrond. Eles residiam na fronteira ao Norte do Reino de Finrod, atrás da linha de fortalezas dos Noldor que protegiam Ard-galen, a planície entre Angband e os Reinos Élficos.

Morwen era a filha de Baragund, o filho mais velho [e, estranhamente, o herdeiro] de Bregolas, que era o Senhor de Ladros de 448 até 455. Bregolas morreu na luta pouco depois de Dagor Bragollach [A batalha da "Chama Súbita", na qual as legiões de Morgoth quebraram o Cerco de Angband, que tinha durado mais de 400 anos] começar. Barahir assumiu o controle de Dorthonion. Ele era já era mais velho, tendo 55 anos quando Bragollach começou. Talvez tenha sido por ter resgatado Finrod que ele assumiu o posto de Senhor de Ladros, ou porque Baragund abdicou de seu direito em favor de seu tio, pois, ele era claramente um grande líder, como as pessoas precisavam.

Morwen nasceu em 443, tendo apenas 12 anos quando a Dagor Bragollach começou. Muitos de seu povo fugiram para Dor Lómin assim que Bregolas e muitos outros homens morreram em batalha, mas Baragund e outros continuaram ao lado de Barahir, e seguiram ele com fé. Barahir e os descendentes de Beór que mantiveram-se junto a ele agüentaram a situação por um ano, mas em 456 a situação se tornou tão alarmante que a esposa de Barahir, Emeldir, juntou todas as mulheres e crianças que sobraram e as conduziu para o sul de Dorthonion. O caminho de Emeldir passava pelas Ered Gorgoroth, as Montanhas do Horror, aonde aranhas gigantes viviam desde séculos atrás, tornando quase impossível a passagem tanto para humanos quanto para elfos.

Emeldir e sua filha Haril somem subitamente da história após alcançarem Brethil, onde alguns de seus seguidores ficaram, mas Morwen e seu primo Rían [que na época tinha 6 anos] passaram pra Dor Lómin para se juntar ao resto de seu povo. Mesmo que a maioria dos humanos tivesse sido morta em guerra, os descendentes de Beór não deixaram de existir como um povo. Seus filhos cresceram para formar uma nova geração de guerreiros, mas tornaram-se quase que fundidos com os "Marachians" de Dor Lómin.

Ao mesmo tempo em que Morwen estava viajando pelas Ered Gorgoroth, o jovem Húrin e seu irmão Huor estavam apreciando a hospitalidade de Turgon em Gondolin. Eles estavam com parentes em Brethil quando a Dagor Bragollach começou e a tribo de Haleth mandou guerreiros para ajudar a resistir a investida de Morgoth; sendo que a maioria deles morreu, e Húrin e Huor foram separados de seus companheiros e resgatados pelas águias de Manwë, que os levaram para Gondolin, onde ficaram por um ano. Eventualmente, Turgon aceitou deixá-los voltar para Dor Lómin. Tolkien não deixa claro quando Húrin e Morwen se conheceram, mas deve ter sido logo na ocasião de sua chegada a Dor Lómin, ou pouco depois desta [dependendo de quem chegou em Dor-lomin por último]. Ela ainda era muito nova para o casamento, mas no ano 461 teria 18 anos. Túrin nasceu em 464, então Morwen ainda era bastante nova quando casou com Húrin, mas pelos primeiros oito anos seu casamento pareceu ser bom. Eles tiveram três filhos: Túrin, Urwen [que morreu] e Nienor. Húrin nunca viu sua caçula, pois ela nasceu depois da Nirnaeth Arnoediad, no final da qual Húrin foi feito prisioneiro.

Por quase trinta anos, Húrin foi prisioneiro de Morgoth, e Morwen fez tudo o que pôde para proteger Túrin; mas o destino dele e o de Nienor foram obscurecidos pela maldade de Morgoth, e Húrin foi finalmente libertado quando seus filhos já estavam todos mortos. Ele encontrou Morwen em Brethil, esperando por ele perto da pedra que marcava o local onde Túrin havia morrido, e no fim sua reunião foi curta e amarga.

Uma história mais trágica é o conto de Aldarion e Erendis. Por anos, os fãs de Tolkien não tiveram nenhum real conhecimento sobre esse conto, exceto que ele existia, pois Tolkien o mencionou se
m grande ênfase na carta enviada a Dick Plotz [Líder da Sociedade Tolkeniana da América] em 1966, em "A Esposa do Marinheiro", que contava a história de Tar-Aldarion e sua relação trágica com seu pai e esposa. Essa informação foi passada para Robert Foster, que a mencionou na seção de Tar-Aldarion em "O Guia da Terra-média" [Editora Mirage, 1971] e "O Guia Completo da Terra-média" [Del Rey, 1978].

Em 1980, Christopher Tolkien publicou "A Esposa do Marinheiro" em Contos Inacabados, e ela é geralmente mencionada como "Aldarion e Erendis". Aldarion era o sucessor por direito ao trono de Númenor, e descendente de Rian e Huor. Erendis era também descendente de Beór, e descendia de Beleth, a filha de Baragund. Ela não descendia de Elros [Tar-Minyatur], e apesar de viver bastante, ela não tinha o Dom de viver muito mais do que qualquer humano que pertencia aos descendentes de Elros. Aldarion se tornou um marinheiro em sua juventude e apesar de se apaixonar por Erendis e eventualmente se casar com ela, o seu amor por ela era sempre menor em comparação ao seu amor pelo mar.

Erendis foi ficando amarga devido à falta de atenção que o marido lhe dedicava, e parecia odiar o mar. Ela eventualmente o deixou e foi criar sua filha Ancalime sozinha, longe da Corte em Armenelos. O ciúme de Erendis e o seu ressentimento primeiramente foram vistos muito calorosamente pela família de Aldarion e pelo povo de Númenor, mas ela foi ficando tão amarga que caiu em esquecimento. A separação entre Aldarion e Erendis impossibilitou que eles tivessem mais filhos, e Aldarion acabou por criar uma nova Lei de Sucessão na qual permitia Ancalime se tornar a Rainha em exercício de Númenor.

A vida de Ancalime acabou não sendo muito melhor que a de seus pais. Ela era perseguida pelos jovens rapazes de Númenor e acabou se escondendo ainda muito cedo para evitar a "caçada". Disfarçando-se como uma pastora, Ancalime passou seus dias em paz e silêncio até que um jovem pastor a encontrou. Ele se chamava Mamandil e eles se tornaram amigos. Mamandil era um grande cantor e freqüentemente entretinha Ancalime com canções antigas que seus ancestrais descendentes de Edan haviam cantado enquanto cuidavam de seus pastos em Eriador [ mais de 1300 antes ].

Mamadil eventualmente revelou seu verdadeiro nome, Hallacar, filho de Hallatan de Hyarstorni, um dos maiores Lordes Numenorianos e um descendente de Elros. A história de Ancalime e Hallacar nunca foi totalmente criada por Tolkien, mas ela por fim casou-se com ele por razões aparentemente políticas. Qualquer amor que ela sentisse por ele acabou se tornando amargura e mais tarde ódio, quando ela soube a verdade por trás de Hallacar, e é dito que ela o perseguiu a vida inteira. Hallacar realmente pregou-lhe uma peça muito cruel. Ancalime havia proibido que suas criadas se casassem, e em uma festa em sua casa [que Ancalime estava tirando dele], ele casou todas elas. Ele a humilhou, e aquele evento pode ter sido o golpe de misericórdia para a separação final entre eles.

Mesmo assim, Hallacar e Ancalime tiveram um filho, Anarion, que se tornou Rei de Númenor. O casamento de Anarion parece ter sido mais feliz que o de seus pais e o de seus avós. Ele teve no mínimo três filhos, dos quais o terceiro foi Tar-Surien.

Casamentos trágicos não foram confinados apenas aos Numenorianos. Durante a Terceira Era, Minalcar, Regente de Gondor, enviou seu filho Valacar para fechar a aliança com os homens do norte de "Rhovanion" [que é apenas um pequeno reino a leste de "Mirkwood" e não cobria toda a "Wilderland" que também é chamada de "Rhovanion"]. Valacar se casou com Vidumavi, filha de Vidugavia, rei de Rhovanion. O seu filho, Eldacar, nasceu em Rhovanion e foi chamado Vinitharya em sua primeira infância. A linhagem misturada de Eldacar, acabou levando a um conflito para a sucessão do trono de Gondor, que se desenrolou em uma sangrenta guerra civil, que quase arruinou o reino e iniciou o processo de declínio de Gondor.

Os Hobbits também tiveram seus casamentos trágicos, mesmo que o conflito não tivesse sempre sido entre marido e mulher, e nunca tenham levado a uma Guerra Civil. Drogo Bolseiro casou com Primula Brandebuque. Ele foi viver na Terra dos Buques, e acabou por adotar os costumes de seus novos parentes, como o de navegar no rio Baranduin [Brandywine]. Um dia, Drogo e Primula se afogaram em um acidente de barco, deixando seu filho, Frodo, órfão. Frodo foi viver com seu tio Bilbo Bolseiro, chefe oficial da família dos Bolseiros. Mesmo que fosse predestinada a grandeza de Frodo, nenhum Hobbit jamais pensou que este provocaria a Queda de Sauron. Ele pagou um grande preço por isso, pois teve que agüentar um grande tormento espiritual, mesmo depois que Sauron já havia sido vencido. Frodo foi tão "machucado" pela experiência de ser um portador do anel que acabou por ser admitido na Terra Abençoada além do mar, onde ele poderia ter seu espírito curado e uma morte em paz digna de seus feitos.

Um casamento muito mais feliz, sem dúvida, foi o casamento entre Sam Gamgee e Rose Cotton. Sam e Rose eram primos de terceiro grau, então não eram tão próximos. A família de Sam pertencia à classe trabalhadora dos Hobbits. Alguns deles eram "fazedores de corda", e alguns eram jardineiros. O pai de Sam, Hamfast, se tornou um jardineiro na Rua dos Bolseiros, servindo primeiramente Bilbo e mais tarde Frodo, e depois Sam tomou suas responsabilidades de jardineiro para com os Bolseiros.

A família de Rose vivia próxima da cidade de Bywater. Eles eram fazendeiros, mas bastante respeitados e apreciados. Quando Sam ainda era criança, muitas vezes passava seu tempo com os filhos dos Cotton, e até relembrou brincar com eles no lago enquanto ele e Frodo atravessavam Mordor a caminho da Montanha da Perdição. A coragem de Sam e sua fidelidade são geralmente a razão pelos seus créditos. Quando Galadriel recebeu os oito membros que sobreviviam do "Conselho do Anel" em Lórien, ela testou o espírito de cada um deles, e parece que o teste de Sam foi ter a oportunidade de voltar para o Condado e viver ao lado de Rose.

A história de Sam e Rose Cotton dificilmente pode ser percebida entre as páginas do Senhor dos Anéis, e muitos leitores parecem surpresos quando Sam de repente aparece com uma namorada que é orgulhosa dele, mesmo sem que saiba um de seus feitos junto a Frodo pelo bem do mundo, e pouco depois já estão casados. Rose tem uma vida longa pela frente, e nem tudo é fácil, pois, ela e Sam tiveram 13 pequenos hobbits para ser criados e alimentados [e crianças hobbit comem muito!].

Não existe nada realmente trágico quanto ao casamento de Sam e Rose. Ele é quase o casamento ideal. O único porém é que Sam fica dividido entre o amor por Frodo e o seu amor pela Terra-média. Ele se sente preso no próprio mundo que salvou, e Rose, enquanto viva, era a única razão para ele continuar vivendo, sendo o único remédio para a sua alma; pois Sam também havia usado
o Um Anel, e ainda sentia as cicatrizes em sua alma, mesmo que durante sua juventude a ferida não parecesse tão perigosa nem visível quanto a de Bilbo e Frodo. No final, depois da Senhora Rose morrer, e Sam cumprir tudo o que podia, ouve um chamado para o mar, e deixa a Rua dos Bolseiros e sua vida para trás, tomando passagem em um barco que com certeza esperava por ele há muito tempo.

Mas seu casamento, como o de Aragorn, terminou feliz, pois ele estava com Rose e Aragorn estava com Arwen, e mesmo que um ou o outro acabe por deixar a vida, pelo menos tinham memórias felizes para consolá-los, e sabiam que suas vidas haviam sido cheias de amor. E para um Hobbit, viver tão cheio de amor quanto um Rei ou Rainha de Númenor,talvez não seja algo tão pequeno assim.

Tradução de Fábio Bettega

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Balrogs Têm Asas? Balrogs Voam?

Nenhuma questão parece incitar maior medo nos fã-clubes on-line de Tolkien do que estas duas, porque o debate sobre as Grandes Asas de Balrog começou inocentemente no final de 1997 e tem se enfurecido desde então, cada vez que alguém descobre um novo grupo de discussões, ou emociona-se, toma coragem e faz a pergunta de novo e de novo. Porque tão grande medo? Porque algumas pessoas sempre cedem e mudam de idéia. E estes que mudam de idéia o fazem mais de uma vez. O debate sobre Asas de Balrogs têm levado a uma grande quantidade de xingamentos e difamações. Tudo isso torna-se muito infantil rapidamente.

 

 

E, desafortunadamente, esforços recentes de colocar o debate de uma forma "justa" e não-crítica têm tido falhas espetaculares porque as partes não apresentam todos os fatos. É difícil condensar uma discussão que ruge por duas ou três semanas antes de morrer em um sumário conciso. É difícil estar certo de quais pontos estão corretos e quais estão descartados. O debate da Grande Metáfora e Similaridades surgiu do debate das Grandes Asas de Balrog, e se nada providenciar mais evidência as pessoas não poderão concordar em nada. Muitos dos que permanecem firmemente juntos no assunto das asas caem em disputa sobre o que constitui metáfora e similaridade, e como são normalmente utilizadas, e como poderiam ser utilizadas, e como J.R.R. Tolkien as utilizou.

Esta página é relacionada apenas com as questões originais. Balrogs têm asas? balrogs voam? E as respostas são…

Sim, Balrogs têm asas… de cerca de 1940 em diante.

Sim, Barlog voam… pelo menos desde 1940 em diante, talvez 1948 em diante, ou possivelmente de 1952 ou perto disso em diante.

As Origens dos Balrogs

Tolkien usou a palavra "Balrog" para descrever um terrível tipo de guerreiro que ele inventou para o THE BOOK OF LOST TALES, a primeira história que ele inventou, em 1916/1917. Esta era a "The Fall of Gondolin". Ali existem centanas ou mesmo milahres deles. Em algumas descrições de batalhas Tolkien descreve cerca de 1.000 balrogs cavalgando através do campo [eles eram uma força de cavalaria].

THE BOOK OF LOST TALES foi uma tentativa de Tolkien de criar uma mitologia para a Inglaterra, e ele abandonou o projeto em 1925, que foi aproximadamente a data em que ele decidiu criar uma mitologia completamente nova que reusava temas e muitos personagens de THE BOOK OF LOST TALES. Então esta mitologia, que ele chamou de "Silmarillion", era uma versão bastante primitiva da coleção de textos que Christopher publicou como O SILMARILLION em 1977, mas não era diretamente relacionada.

A nova mitologia "Silmarillion" manteve os Balrogs, e nos anos de 1930 Tolkien a reescreveu, produzindo a única versão completa do "Quenta Silmarillion" que ele escreveu. Christopher realmente utilizou algumas porções deste texto para o livro, e isto, desafortunadamente, contribuiu para a confusão que muitos sentem sobre os Balrogs.

Um Novo Balrog Surge

Quando Tolkien começou a trabalhar em O SENHOR DOS ANÉIS, ele realmente desejava seu "Silmarillion" publicado [agora concebido como O SILMARILLION, mas permanece conceitualmente muito pouco com o livro final]. Ele não possuía uma inclinação real para escrever nenhum outro livro sobre hobbits, mas como ele estava trabalhando em uma nova história de hobbits a idéia de casar o mundo dos hobbits com o mundo do "Silmarillion" o atraiu, ele acreditava que isso eventualmente o ajudaria a publicar O SILMARILLION.

Então Tolkien começou a criar o que nós hoje conhecemos como Terra-média [que não existia antes disso, e Tolkien apenas raramente usara o nome "Terra-média" nos anos de 1930, e ele não aparece em nenhum texto publicado de antes de 1930]. Como parte daquele mundo ele precisava de uma série de pergidos que Frodo e seus companheiros poderiam encontrar, e um desses foi colocado nas antigas minas de Moria, que O HOBBIT estabeleceu como abandonada e em posse dos Orcs.

O perigo em Moria começou como alguma outra coisa e não um Balrog [Tolkien a principio não estava certo do que o perigo seria], e quando ele decidiu que DEVERIA ser um Balrog ele tornou-se insatisfeito com a forma que ele retartou Balrogs no passado. Tolkien já avia começado o processo de transformar os balrogs em Maiar corrompidos mas esta decisão não foi posta em forma escrita até 1948. Apesar de tudo, ele mudou a descrição física do Balrog de Moria e alterou suas habilidades substancialmente daquelas determinadas para os Balrogs nas histórias antigas [e abandonadas].

Este Balrog tinha asas, e era capaz de exercer grande poder, e era quase invencível. O Balrog detectou a magia de Gandalf quando ele tentou bloquear a saída da Câmara de Mazarbul, e o próprio Balrog começou um contra-feitiço, de acordo com Gandalf. Então o mago usou uma Palavra de Comando para quebrar o teto, e o resultado foi um desmoronamento parcial que soterrou a Câmara de Mazarbul e aparentemenre o Balrog nela.

O Balrog sobreviveu ao soterramento e reuniu seu exército, que encontrou a Sociedade do Anel no Segundo Salão de Khazad-dum por uma rota alternativa. Ali o Balrog se revelou completamente, e a escuridão com que disfarçava a si mesmo se expandiu. As asas eram ou protegidas pela escuridão ou formadas pelo Balrog imediatamente ou também a escuridão [ou parte da escuridão] era transformada pelo Balrog para tomar a forma de asas [e portanto TORNAVA-SE asas].

Objeções às Asas de Balrog

Aqui é onde muitas pessoas cometem seu primeiro engano. Argumentam que uma vez que Tolkien introduz as asas com um similaridas, dizendo, "a sombra ao seu redor estendeu-se COMO duas grandes asas" ["the shadow around it reached out LIKE two vast wings"], as asas não poderiam ser reais. Mas o argumento é falho, porque Tolkien sempre introduz a escuridão [a "sombra"] com uma similaridade também: "o que era não podia ser visto: era COMO uma grande sombra, no meio da qual uma forma escura, humanóide talvez ainda maior". Se o uso de Tolkien da palavra "como" aqui significa que não existiam asas, segue-se que não existia sombra, e se não existia sombra então não seria possível que ela tenha se "estendido como duas grandes asas".

Então, para existir uma sombra devem existir asas, porque mais tarde Tolkien escreveu "adiantou-se lentamente na ponte, e repentinamente levantou-se a grande altura, e suas asas se estenderam de parede a parede". A Sociedade do Anel claramente viu as asas neste ponto, e o que Tolkien estava fazendo com as duas similaridades [e outras partes da passagem] era providenciar uma transição da imprecisão para a claridade. Nada mais.

Objeções aos Balrogs Voadores

As pessoas então perguntam "Porque o Balrog não voou sobre Gandalf se ele podia voar?"

A resposta é que o autor nunca deu indicação de que o Balrog desejava fazer nada mais do que atacar Gandalf. Ele nunca sequer tentou ir atrás de Frodo e do Anel. Muitas pessoas assumem que ele queria o Anel, mas não existe base para fazer tal suposição. A indicação mais próxima que nós temos de que outra coisa qualquer além de Sauron e Saruman estarem ativamente perseguindo o Anel é quando ser na Água, ante a porta de Moria, pega Frodo. Mas não existe uma conexão óbvia entre o ser e o Balrog.

E se o Balrog PUDESSE ter voado com aquelas grandes asas, como ele o faria dentro do Segundo Salão de Khazad-dum, de qualquer forma? Existiam duas colunas de GRANDES pilares esculpidos, indo do teto ao chão, circundando o centro do salão. O Balrog não poder ter voado em direção à Sociedade do Anel com as asas plenamente extendidas.

Então as pessoas perguntam "Bem, porque ele não tentou se salvar quando caiu no abismo?"

A resposta começa aqui com outra questão: "Porque devemos assumir que ele desejaria salvar a si mesmo?" O Balrog acabara de sair debaixo de toneladas de pedra, que poderiam ter matado Gandalf, Aragorn, Boromir e todo o resto da Sociedade. O que, exatamente, ele deveria temer? Porque ele deveria tentar "salvar" a si mesmo quando o autor tinha acabado de mostrar que os Balrogs não morrem tão facilmente?

Além disso, a primeira coisa que o Balrog faz e atacar Gandalf e puxá-lo pra baixo. Claramente o principal pensamento era continua a atacar Gandalf. Mesmo que existisse espaço no abismo para o Balrog voar para fora, porque ele deveria puxar Gandalf para baixo com ele se tinha a intenção de sair do abismo, de qualquer forma? Porque não apenas "salvar" a si mesmo e deixá-lo cair com a ponte? Porqie Tolkien não escreveu desta forma. Obviamente ele anteviu o Balrog como uma criatura ativa e não reativa.

A descrição de Gandalf da batalha com o Balrog deixa claro que eles lutaram durante a queda, e que eles caíram por um longo tempo. Então o balrogs estava, em última instância, enganjado com Gandalf e mais provavelmente ativamente tentando queimá-lo até a morte [Gandalf diz que ele foi queimado].

E então temos de nos virar para a questão de porque tomou tanto tempo para alcançarem a água. Algumas pessoas argumentaram que era uma LONGO caminho até embaixo. Talvez, mas se Tolkien conhecia qualquer coisas sobre a velocidade de corpos caindo [e ele provavelmente conhecia], então ele entenderia que as palavras de Gandalf não fariam sentido se o mago e o Balrog realmente caíssem à velocidade normal.

Então parece aparente que a taxa de queda foi diminuída, provavelmente pelo Balrog, mas claramente estes dois eram seres de grande poder que, se desejassem, poderiam se movem através do universo à vontade. Suas existência e habilidades de afetar o universo não dependiam de seus corpos físicos [embora deva ser notado que mais tarde Tolkien decidiu que muitos dos Maiar corrompidos tornaram-se presos a seus corpos devido à atuação em atividades biológicas].

Portanto, existe pouca razão em perguntar porque o balrog não voou para fora do abismo. Ele obviamente tinha outras coisas em mente, e a batalha que Gandalf descreve não é o tipo de batalha que qualquer criatura de carne e sangue pudesse esperar sobreviver [e ele pessoalmente não era uma criatura normal de carne e sangue]. A batalha durou 11 dias, e culminou com o chouqe de poderes no cume da montanha.

Um Balrog Voador Poderia Salvar a Si Mesmo?

Então mais uma objeção é levantada: "porque o Balrog não se salvou quando caiu da montanha?" A resposta é que Balrogs mortos ou morrendo, assim como dragões mortos ou morrendo, não voam. Quando Earendil lançou Ancalagon do céu o dragão já estava acabado e destruiu as Thangorodrim em sua ruína assim como o Balrog de Moria destruiu o lado da montanha em sua ruína. E quando a flecha de Bard atingiu o peito de Smaug, o grande dragão caiu dos céus e atingiu as ruína da Cidade do Lago.

Gandalf atirou para baixo seu inimigo. Esta expressão é um dos pseudo-arcaísmos de Tolkien, e claramente se refere à vitória de Gandalf sobre o Balrog. Ele estava tão fisicamente exausto após ter sido atingido com uma espada Élfica e Relâmpagos por 11 dias ou estava morto ou em morrendo quando ele caiu da montanha. Se o balrog poudesse ter agido de forma a salvar-se de alguma forma, ele poderia no mínimo ter levado Gandalf consigo, se não até mesmo ter virado a mesa. Quantas vezes durante os 11 dias juntos tanto Gandalf quanto o Balrog QUASE mataram seus oponentes? Tolkien não diz. E;e deixa para o leitor imaginar quão terrível a batalha deve ter sido. Mas ele deixa claro que Gandalf venceu porque o Balrog não podia mais atacá-lo.

Mas os Balrogs Podiam Realmente Voar?

Então nos voltamos para a questão de se os balrogs podiam REALMENTE voar. A resposta curta para tal seria de que eles eram Maiar e os Maiar poderiam fazer o que quisessem. A resposta mais longa é que Tolkien PROPORCIONOU um exemplo de Balrogs voadores, e foi quando eles voaram sobre Hithlum para resgatar Morgoth de Ungoliant.

Aqui muitas pessoas levantam objeções dissecando uma única sentença e tomando frases específicas fora do contexto. "velocidade alada" ["winged speed"], eles dizem, pode ser utilizada como uma metáfora. Sim, pode, mas não existe indicação no texto de que Tolkien a tenha usado assim. "Levantou" ["Arose"], eles dizem, pode se referir ao ato de voar para o céu ou simplesmente ao de escalar de uma moradia subterrânea, e os Balrogs estavam de fato no subterrâneo quando ouviram o grito de Morgoth. Sim, assim é. Mas não existe indicação no texto de que era isso que Tolkien queria dizer sem também implicar que os Balrogs voassem.

"Passar sobre" ["Passed over"] não significa necessariamente voar, também, eles dizem. O cavalo de Fingolfin passou sobre ["passed over"] a planície de Aufauglith após a Dagor Bragollach, e o cavalo obviamente não estava voando. Verdade, mas "passar sobre" deve ser dado em um contexto para ter significado.

O que J.R.R. Tolkien realmente escreveu foi "rapidamente eles se levantaram, e passaram com velocidade alada sobre Hithlum, e chegaram a Lammoth como uma tempestade de fogo" ["swiftly they arose, and they passed with winged speed over Hithlum, they came to Lammoth as a tempest of fire."]. Desafortunadamente, apenas parte deste texto foi usado por Christopher Tolkien em O SILMARILLION. O que ele escreveu foi "e então rapidamente el
es se levantaram, e passaram sobre Hithlum chegaram a Lammoth como uma tempestade de fogo.
" ["and now swiftly they arose, and passing over Hithlum they came to Lammoth as a tempest of fire."]

Porque Christopher mudou o texto? Ele não fala. Pode ter sido apenas um erro de omissão. Mas não é simplesmente uma omissão, ele mudou a frase verbal completamente de "eles passaram com velocidade alada sobre Hithlum" para "passaram sobre Hithlum".

A frase chave em ambas as versões da sentença, contudo, é a metáfora "tormenta de fogo". Uma tormenta é uma tempestade. Algumas pessoas argumentaram que uma tempestade pode simplesmente se referir a um distúrbio, mas Tolkien não usa a palavra "tormenta" ["tempest"] dessa forma. Ele a usa para se referir de coisas vindas do céu. Quando Morgoth libera os dragões alados no Exército dos Valar ao final da Guerra da Fúria, eles irrompem como uma "tormenta de fogo". Claramente os dragões alados estavam voando e expelindo chamas.

A "tormenta de fogo" de Tolkien em Lammoth data dos anos 1950, APÓS Tolkien ter chegado à conclusão de que Balrogs eram Maiar caídos alados. Além disso, funciona com "rapidamente eles se levantaram, e passaram com velocidade alada sobre Hithlum" para denotar uma passagem através do céu. Existiam Elfos em Hithlum a este tempo [Sindar] que perceberam esta passagem [essa é a forma como Tolkien justificava suas histórias – ou alguém as testemunhou ou deduziu]. Hithlum não foi queimada, nem sofreu qualquer tipo de dano pela chama ou fumaça. Tolkien não diz que os Balrogs flamejantes correram através de Hithlum, e eles em seu estado de fogo não poderiam cavalgar através dele como nas antigas histórias.

Algumas pessoas apesar de tudo argumentam que são apenas palavras, e pode-se mostrar que significam outra coisa além de voar. Contudo, quando eu pedi a pessoas em muitos fóruns para tentarem, nenhuma teve sucesso. Você deve usar todas as quatro partes da sentença. Você não pode deixar de lado nenhuma parte. Simplesmente não é possível reescrever a sentença de forma a mostrar outra coisa que não seja um vôo. Então, não existe ambiguidade na passagem relacionada ao modo de viajar dos Balrogs.

A Caravana de Balrogs de Glaurung

Uma última objeção é levantada, e situa-se na descrição da Dagor Bragollach, O SILMARILLION diz "à frente do fogo vinha Glaurung o dourado, pai dos dragões, em seu poder pleno; e atrás dele estavam os Balrogs, e atrás deles vinham os exércitos negros de Orcs em multidão como os Noldor nunca haviam visto antes ou imaginado."

Pode-se perguntar de onde essa sentença veio, e a resposta pode surpreender muitos. Ela não veio de J.R.R. Tolkien. O que JRRT realmente escreveu, no último "Quenta Silmarillion" completo da década de 1930, foi "à frente daquele fogo vinha Glaurung o dourado, pai dos dragões, e atrás dele estavam Balrogs, e atrás deles vinham os exércitos negros de Orcs em multidão como os Gnomos nunca haviam visto ou imaginado."

Estes Balrogs não eram os Balrogs flamejantes, envoltos em sombra, alados e voadores dos anos de 1940 e 1950. No mesmo texto, quando Tolkien descreveu a luta entre Morgoth e Ungoliant, tudo que ele escreveu foi "tão grande Ungoliant tornara-se que ela capturou Morgoth em suas teias sufocantes, e seu terrível grito escoou através do mundo que estremeceu. Em sua ajuda vieram os Balrogs que viviam nos mais profundos lugares de sua antiga fortaleza, Utumno no Norte. Com seus chicotes de fogo os Balrogs golperaram as teias separadamente…"

Nenhuma menção de passagem sobre Hithlum, levantar-se rapidamente, ou chegando como uma tempestade de fogo. Estes não eram Balrogs de fogo e voadores. Eles continuavam sendo os Balrogs montados de algum tempo atrás. No mesmo texto do "Quenta Silmarillion", ao descrever a Nirnaeth, Tolkien escreveu "mas enquanto a vanguarda de Maedhros vinha sobre os Orcs, Morgoth soltou suas últimas forças, e o inferno foi esvaziado. Vieram lobos e serpentes, e vieram mil Balrogs, e veio Glomund o Pai dos Dragões." O Número de 1000 Balrogs sobreviveu até os anos de 1950, mas Tolkien sem demora fez um nota para si mesmo nos "Annals of Aman" qie não deveriam existir mais de 7 ao todo.

Ao descrever os resultados da Guerra da Ira neste "Quenta Silmarillion", Tolkien escreveu "os Balrogs foram destruídos, exceto alguns poucos que fugiram e se esconderam em cavernas inacessíveis nas raízes da terra." Esta foi a linguagem que Chistopher incorporou no SILMARILLION publicado, porque seu pai nunca terminou de reescrever o "Quenta Silmarillion". Chistopher adotou tanto material quando pode do "Annals of Aman" e "Grey Annals", mas o material mais tardio cobrindo a história dos Eldar na Terra-média após o retornos dos Noldor e este era inadequado para uso nos textos publicados.

A entrada no "Grey Annals" que descreve a Dagor Bragollach é radicalmente diferente da descrição de 1930 que Chistopher utilizou, dizendo, em parte, "rios de fogo corriam das Thangorodrim, e Glaurung, Pai dos Dragões, veio em sua força plena. As planícies verdes de Adrgalen foram queimadas e se tornaram um deserto sombrio sem nenhuma coisa que cresce; e a partir desse momento foi chamada ANFAUGLITH, a Poeira Arfante."

E lá se foram todas as menções de Balrogs atrás de dragões.

A Palavra Final Sobre Balrogs

Tolkien nunca escreveu uma história sobre Balrogs novamente. O que nós encontramos em O SILMARILLION, então, é virtualmente informação inútil, amalgamadas de fontes antigas, pré-Senhor dos Anéis [e portanto incompatíveis]. E os fãs de Tolkien frequentemente esquecem a admoestação de Chistopher no prefácio de O SILMARILLION: "Uma consistência completa [seja dentro do compasso do próprio O SILMARILLION ou entre O SILMARILLION e outros escritos publicados de meu pai] não deve ser procurada, e poderia ser apenas obetida, se puder, a um alto e inútil custo."

Portanto, para aprender sobre a natureza e habilidades de Balrog de Moria deve-se dissecar os vários textos dos THE HISTORY OF MIDDLE-EARTH, e as histórias de THE BOOK OF LOST TALES e outros materiais pré-Senhor dos Anéis não podem ser utilizados para o Balrogs de Moria. Muitas pessoas tentaram fazê-lo, mas devido a Tolkien ter substancialmente mudado os Balrogs enquanto escrevia o "Ainulindale" e O SENHOR DOS ANÉIS, os Balrogs do THE BOOK OF LOST TALES e o "Quenta Silmarillion" inicial são criaturas completamente diferentes.

Em última análise, deve-se aceitar que o Balrog de Moria têm asas porque J.R.R.
Tolkien disse que eles tinham asas, e que os Balrogs voaram para Lammoth porque a sentença não pode significar nenhuma outra coisa. Se alguém escolhe não aceitar estes fatos, está em desacordo com J.R.R. Tolkien, e não existe nada que possa ser dito ou feito para contrapor um argumento que recusa a aceitar fatos simples e planos.

Tradução de Fábio Bettega

valinor

Estratégias de Sauron – Passos para a Derrota (Parte I)

Sun Tzu  nos aponta as vantagens da estratégia de "dividir e conquistar", mas ele também pregava o uso da força massiva e devastadora sempre que for possível. A arte da guerra com certeza é uma arte, já que os dois lados de qualquer guerra tem o potencial de crescer e se adaptar. Uma das notáveis qualidades da história da Terra-Média é a mutabilidade de Sauron. Ele altera suas estratégias.
 

 

Na Primeira Era, Sauron era apenas mais um dos capitães servindo Morgoth. O posto de Sauron nunca é realmente explorado. Nós lemos muito mais sobre a sua habilidade de destroçar inimigos, e sua disposição em entrar em combate mano-a-mano à um risco considerável à si mesmo. Já Morgoth, por outro lado, se mantinha sobre altos e impressionante números. Parece que a fraqueza perpétua de Morgoth é que ele confunde números com força.

Com certeza, Morgoth conseguiu algumas vitórias. Em fato, ele destruiu a civilização Eldarin em Beleriand e reduziu os anões de Nogrod e Belegost à alguns poucos sobreviventes. Mas Morgoth não percebeu o grande lance. Enquanto ele se divertia no norte com os Noldor, a maior parte da Terra-Média escapou de sua atenção. Os Valar tomaram vantagem do intenso interesse de Morgoth por Beleriand para isolá-lo aí e infringir a derrota final sobre ele.

Como consequência da Guerra da Ira, Morgoth foi capturado e suas forças foram reduzidas a provavelmente nada mais que alguns Orcs, Trolls e Homens vagabundos. Provavelmente, somente alguns poucos Maiar corrompidos escaparam, e pelo menos um casal de dragões alados (já que uma população crescente de dragões sobreviveram pela Terceira Era em diante). Dos Maiar, podemos ter certeza que dois desses eram Sauron e o Balrog de Khazad-Dûm. O Balrog se distanciou de qualquer complicação social por mais de 5000 anos.

Sauron, por sua vez, foi aparentemente perdoado. "Dos anéis do poder e da Terceira Era" (publicado no Silmarillion) nos diz que Sauron "voltou a assumir sua bela aparência, prestou votos de obediência à Eönwë, arauto de Manwë, e repudiou todos os seus atos maléficos." Mas Eönwë não pode perdoar Sauron, e o comandou a retornar à Valinor para aguardar o julgamento de Manwë. Com isso Sauron não consentiu, e continuou na Terra-Média enquanto Eönwë retornava para o Oeste.

Pelas próximas 5 ou 6 centenas de anos, Sauron sumiu da história. Não é provável que Sauron dormiu assim como o Balrog fez, se enrolando debaixo de uma conveniente montanha gigante e sonhando com os festejos passados pelos próximos milênios. Provavelmente, Sauron fugiu até o extremo leste da Terra-Média e ali ele fez qualquer coisa, como plantar um jardim ou fundar um monastério para ensinar aos Homens, Anões e Elfos o Caminho da Paz. O que quer que ele tenha feito, depois de algumas centenas de anos Sauron percebeu que aquilo não ia dar certo – ou então que ele poderia lidar com qualquer tipo de situação, então lançou uma nova iniciativa.

O perigo gradual de Sauron não passou despercebido nos assuntos da Terra-Média, e pode ser o catalisador da migração oriental dos Sindar. Tolkien observou que, "vendo a desolação do mundo, Sauron concluiu em seu íntimo que os Valar, tendo destronado Morgoth, tinham mais uma vez se esquecido da Terra-Média, e seu orgulho cresceu rapidamente".

No ensaio chamado "notas nos motivos do Silmarillion" (publicado no HoME: Morgoths Ring), Tolkien escreveu: "[Sauron] não tinha oposições à existência do mundo, já que podia fazer o que quisesse com ele. Ele ainda tinha resquícios de boa vontade, que descendiam da bondade em que foi criado: era sua virtude (e então também a causa de suas duas derrotas) que ele amava ordem e coordenação, e odiava todo tipo de confusão e confrontos inúteis."

Sauron acreditava fundamentalmente que ele poderia colocar o mundo em ordem, trazendo-o do caos que as guerras entre Morgoth, os Valar e os Eldar criaram, e restaurá-lo à sua antiga forma. Mas, por causa de seu orgulho, "seus planos… viraram o único objeto de sua vontade" (ibidem). Sauron se concentrou em trazer ordem ao mundo, esquecendo-se o porque de trazer ordem a este.

Ele claramente via os Elfos como instrumentos potenciais de sua vontade. Eles tinham as habilidades sub-criativas de transformar o mundo em grandes proporções de uma maneria que outras raças, como os Homens, não conseguiam. Anões parecem não ter aparecido nos desígnios de Sauron, e pode ser tanto culpa da desinformação, por parte de Sauron, sobre eles (tal perspectiva é reforçada pelo fato que Sauron falhou em converter os Anões em Espectros do Anel) ou sobre suas habilidades (embora tenhamos muita pouca informação sobre a capacidade dos anões para compará-los com os Elfos desta maneira).

De qualquer jeito, Sauron começou organizando o remanescente das criaturas de Morgoth. Seria fácil para ele recrutá-los para seu serviço – ele os conhecia bem e eles provavelmente se lembravam dele – mas ele pareceu ter trabalhado lentamente no começo. Gil-galad suspeitou que um servo de Morgoth estava organizando um exército no leste antes do ano 1000 da Segunda Era.

Ele recrutou Anardil, príncipe de Númenor, para servir como embaixador dos homens vivendo no norte e oeste da Terra-Média. Até este ponto, Gil-Galad pareceu ter tentado coletar informação e construir amizade com povos se movendo para perto de seu reino, que fica nas terras costeiras do noroeste da Terra-Média, no último remanescente de Beleriand. As atividades de Anardil na Terra-Média, e a presença crescente dos Numenoreanos nas praias (através de viagens exploradoras e colônias temporárias como Vinyalondë) induziram Sauron a escolher uma base de operações permanente perto do ano 1000.

Podemos deduzir do assentamento em Mordor que Sauron não teve uma base segura permanente no leste. Ele deve ter tido uma ou mais fortalvezas de onde ele dirigia seu crescente império, mas ele aparentemente acreditava que ele tinha que estar mais perto das terras orientais para planejar e implementar uma nova estratégia. Esta estratégia foi criada em base da esperança de induzir os Eldar a aceitá-lo como um professor e guia. Então, ou ele inicialmente populou Mordor com servos inofensivos aos olhos dos Eldar, ou então suprimiu o conhecimento de sua presença na região.

As missões diplomáticas de Sauron com os Eldar parecem ter ocorrido no breve período de um ano. A entrada para 1200 na Segunda Era do "Conto dos Anos" (Apêndice B do Senhor dos Anéis) diz: "Sauron tenta seduzir os eldar. Gil-Galad se recusa a fazer acordo com ele, mas os ferreiros de Eregion passam para o seu lado." Ele provavelmente nunca visitou outros reinos élficos, onde os eldar eram poucos ou então tinham adotado os costumes bárb
aros dos elfos Silvan. Claramente, Sauron queria atingir o coração do poderio élfico.

Já que seu objetivo era impor uma ordem no mundo (presumivelmente para reparar os machucados feitos pela guerra em Beleriand, e para eliminar ou reduzir o caos que sobreveio ao regime de Morgoth no final da Primeira Era), Sauron tinha que atrair o desejo interior dos eldar de trazer ordem ao seu mundo. Ao ver de Tolkien, os Elfos "queriam ter o bolo só para eles". Ou, mais precisamente, os eldar "queriam a paz e tranquilidade refletidos numa cópia perfeita do Oeste, e ainda por cima continuar a terra ordinária onde seu prestígio como pessoas superiores, acima de elfos selvagens, homens e anões, era bem maior que a base da hierarquia de Valinor." (Letters of JRR Tolkien, Letter 131)

Então, logo cedo, o desejo de Sauron de dominar a Terra-Média foi rivalizado pelo desejo crescente dos eldar de adquirir um status similar. Os dois procuravam controle e influência. Ao invés de criar uma guerra logo de cara, porém, Sauron preferiu trazer os eldar em sua comunidade com pretextos. Ao recorrer as suas qualidades, ele acreditava que podia tirar proveito de suas vulnerabilidades. Mas, realmente existia uma vulnerabilidade? Poderia Sauron enganar os elfos?

Provavelmente não mais do que ele fez. Isto é, Sauron parece ter subestimado os poderes perceptivos dos eldar. Ele não percebeu que os ferreiros élficos tinham consciência de seus atos, quando ele criou o Um Anel e o colocou em seu dedo. Neste momento, os elfos o perceberam, entenderam sua natureza e seus planos, e removeram seus anéis. Sauron nunca teve a oportunidade de influênciá-los como queria.

Eu às vezes me pergunto porque levou quase 100 anos deste ponto (1600 da Segunda Era) para Sauron lançar a guerra com os eldar. Parece que ele simplesmente esperou os eldar e numenoreanos construirem suas defesas. Mas é mais provável que Sauron não tinha o poder de lançar uma campanha massiva conhtra o Oeste. Ele conhecia muito bem as capacidades dos eldar. Sauron lutou contra eles em Beleriand, e testemunhou mais que uma vitória élfica contra números extremamente altos.

Os 90 anos de preparação para a guerra com os elfos proveu tempo para Sauron aumentar as habilidades de sua infantaria órquica, mas também o deu tempo o suficiente para ele aprender a usar seu Um Anel para ganhar melhor controle sobre seus servos. Sauron deve ter usado seu Anel para estender sua influência em muitas pessoas ao mesmo tempo, mas é aparente, vendo os resultados do resultados, que ele não controlava totalmente a Terra-Média oriental. Ele trabalhava com recursos limitados.

Os orcs foram derrotados nas terras do norte por uma aliança de homens e anões no começo da Segunda Era. Se Mordor fosse a única região onde os Orcs viviam no ano de 1500, eles não seriam muito numerosos. As preocupações com os eldar de Eregion por cerca de 1200 a 1500 sugerem que ele prestou pouca atenção aos orcs. Eles podem ter sustentado seus números mas não foi permitido a eles aumentar seu número a um ponto em que chegariam a ser incontroláveis. Isto é, a estratégia de Sauron naquele momento não era a de lançar hordas de orcs sobre o mundo. Podemos ter uma certeza razoável disso porque ele não lançou uma invasão imediata no norte em 1600.

Se os orcs levaram 90 anos para aumentar seus números, será que Sauron utilizou este tempo para fazer contatos com outros povos? Por exemplo, como ele ganhou a confiança dos terrapardenses, especialmente esses vivendo no Enedwaith e Minhiriath? Esses homens ajudaram Sauron durante a guerra, mas eles simplesmente se juntaram a ele quando viram o estandarte de seu bando de orcs, ou será que Sauron se demorou entre eles, ganhando sua lealdade e brincando com seus medos e ressentimentos. Os terrapardenses sentiam-se ameaçados pelas colônias numenoreanas e suas indústrias de madeira. Eles invadiam as terras numenoreanas desde que Anardil (Tar-Aldarion) primeiramente construiu Vinyalondë nos últimos 800.

90 anos também proveram a Sauron tempo para explorar as terras a leste das Montanhas Nevoentas. No "The Peoples of Middle-Earth" (Povos da Terra-Média) nos dizem que Sauron acabou com as terras dos povos edain que viviam nos vales do Anduin e a leste da Floresta das Trevas, trazendo à vida a sua antiga aliança com os anões Barba-Comprida. Seu objetivo ao lançar a guerra parece ter sido destruir as resistências à seu reinado na Terra-Média. Não seria suficiente para Sauron controlar Eregion e os Anéis do Poder. Ele queria eliminar todos os possíveis rivais do poder.

Por conseguinte, os Anões Barba-Comprida foram uma ameaça considerável para os planos de Sauron. Seu reino foi reforçado no começo da Segunda Era por um influxo de anões vindos de Ered Luin. A maioria destes eram anões de Belegost, aliados dos Eldar em Beleriand e inimigos de Morgoth. Khazad-dûm, a cidade principal dos Barba-Comprida, mantinham uma rota vital de suprimento e reforço entre Eregion e os vales do Anduin. Um comércio considerável deve ter sido feito pelas mãos destes anões. Mas o mais importante, os Barba-Comprida eram o poder central do império anão. Eles eram os guardiões de Gundabad, onde o povo anão viveu por incontáveis anos.

Se os Eldar eram uma ameaça ao controle de Sauron na Terra-Média, os anões eram, no mínimo, um obstáculo no caminho. Eles não aceitavam sua dominação e eram, nas terras ocidentais, aliados dos Eldar e dos povos humanos aliados a estes. Sauron tinha consciência do que os humanos poderiam fazer, pois lutou com esses em Beleriand. Entre os homens, os numenoreanos apresentavam o mais perigo, mas sua terra natal era bem distante da Terra-Média. Poucos numenoreanos moravam na Terra-Média. O povo Edain proveram a Gil-Galad e seus aliados um grande poder de batalha.

Por isso, o ataque de Sauron nas terras a leste das Montanhas Nevoentas faz sentido. Enquanto ele sitiava Eregion, as prioridades de Khazad-Dûm ficaram divididas. Sauron pode não ter previsto o assalto que Durin III lançou contra os invasores do Portão Oeste de Khazad-Dûm. Ou então pretendia batalhar no leste para acabar com uma parte do exército de Durin. Os Edain foram expulsos de suas terras, e a maioria foi morta. Os sobreviventes fugiram para as montanhas, onde os anões poderiam protegê-los, ou para as florestas, onde estavam isolados dos outros povos. De qualquer jeito, a maioria dele fugiu para o extremo norte.

Os elfos Silvan provavelmente sofreram terrivelmente. Eles deveriam ser incapazes de fazer ou sustentar o tipo de guerra que os Eldar poderiam fazer, mas eles eram mais numerosos que os Eldar e, em alguns reinos, eram liderados por príncipes Eldarin. Pode ser que muitos reinos menores fossem derrotados ou levados a procurar refúgio na Floresta das Trevas e Lothlórien, apesar da falha de Sauron em destruir os reinos de Amdir (pai de Amroth) e Oropher (pai de Thranduil) implica que lhe faltavam recursos para fazer uma guerra em florestas. Ele deveria ter poucas tropas treinadas para lutar em florestas, se é que ele tinha alguma.

A falha em capitalizar suas vitórias no leste pode ser a razão pela qual Sauron decid
iu queimar as florestas de Eriador. Seus exércitos podem ter acabado com os humanos e elfos dos campos, mas foram impedidos pelas matas. Até mesmo as forças orientais foram exterminadas em batalhas desesperadas, ou então se retiraram quando não podiam chegar mais perto. O ataque de Durin às forças ocidentais de Sauron foi completamente inesperado, e Sauron percebeu que se ele levasse seu exército através das grandes florestas de Eriador, os Eldar e Edain destruiriam suas tropas.

Portanto, depois de destruir Eregion, Sauron mandou tropas para o norte, o suficiente para ter certeza que o exército de Elrond fora derrotado, e então terminar de acabar com toda Eriador. De certa maneira, a destruição que Sauron impôs no mundo serviria como uma coroação, algo como uma declaração de soberania. "Isto é meu e eu faço com ele o que me agrada". Ele estaria dizendo aos elfos indiretamente que ele iria controlar a Terra-Média, e não eles. O bolo era de Sauron, não dos elfos. Estes também entenderam isso.

Depois que a guerra acabou, e Sauron foi derrotado, aparentemente não se falava sobre marchar para Mordor e derrotar Sauron de vez. Alguns elfos fugiram da Terra-Média e Gil-Galad resolveu estabelecer um novo posto em Imladris, que ficava no extremo norte (distante de Mordor) e mais defensível que Eregion foi. Os exércitos que perseveraram a volta de Sauron para Mordor não tinha recursos o suficiente para forçar seu caminho para dentro da região. Então o verdadeiro significado do retrocesso dos Eldar e Numenoreanos é que estes não estavam preparados para o que provocaram.

Mordor, rodeado de altas montanhas, era bem protegida, e sem dúvida Sauron a escolheu como sua fortaleza por causa da geografia. Mas Gil-galad tinha poucos recursos para manter um cerco tão extenso longe de Lindon, se é que tinha algum recurso pra isso. Numenor não tinha bases na área (Pelargir não apareceria por mais 600 anos) e os únicos povos da área não eram amigáveis (com a possível exceção das Entesposas, que queriam ajudar na causa, mas também ficaram neutras.)

"O Conto dos Anos" diz que, no começo do ano 1800, Sauron extendeu seu poder para o leste. Parecia que Sauron, como os Eldar e Numenoreanos, percebeu que era hora de uma mudança na tática. Ao invés de atacar os Eldar diretamente, ele preferiu aumentar seu poder sobre outros povos (provavelmente entre os homens do leste, cujos ancestrais eram leais a Morgoth). A mudança no objetivo de Sauron vem como consequência de uma série de falhas: falhou em aceitar a responsabilidade pela sua rebelião e recusou ir para Valinor; falhou em seduzir os Eldar para seu serviço; e falhou em destruir os eldar, eliminando os rivais em potencial pelo controle da Terra-Média.

A falta de ambição de Gil-galad foi a grande sorte de Sauron. Enquanto Gil-galad se concentrava em curar as terras e povos que Sauron destruiu na guerra, Sauron investiu seu tempo em criar mais recursos. E ele não esqueceu dos anões. Tendo adquirido os Nove e os Sete Anéis do Poder de Gwath-i-Mirdain em Eregion, Sauron perverteu os Anéis e os deu para Hoemns e Anões. Três dos Anéis foram dados para Numenoreanos, possívelmente capitães ou lordes que estavam liderando esforços de colonização na Terra-Média. Apesar dos Numenoreanos começarem a fazer portos permanentes a partir do ano de 1200, eles começaram "estabelecer domínios na costa [da Terra-Média]" por volta do ano de 1800 ("Conto dos Anos").

Por dar os Anéis do Poder aos homens e anões do leste, onde ele já tinha influência, Sauron provavelmente conseguiu um rígido controle sobre muitas terras rapidamente, num espaço de alguns anos ou gerações. Apesar dos homens que receberam anéis terem virado espectros, os senhores anões não poderiam ser corrompidos. E ainda, o estudo "Homens e anões" (publicado no Peoples of Middle-Earth) diz que todos os povos anões do oeste caíram nas sombras. Se Sauron não tivesse dominado os anões através dos anéis, não teria sentido ganhar influência e amizade entre eles através da entrega de presentes.

Os Anéis dados para os anões ocidentais são um assunto mais complicado. Não há indicação de que algum deles ficaram maus. Seus Anéis foram o começo de grandes tesouros (e a prova desta tradição, recordada no Apêndice A dO Senhor dos Anéis, é que as casas reais de Ered Luin não só sobreviveram mas tiveram sucesso na Segunda Era). Como Sauron fez para conseguir entregar os Anéis do Poder para os Anões? E quando? Ele com certeza não os visitou como sua antiga pessoa. Durin III, pelo menos, deve ter resistido a tal tentativa de suborno.

Todo o esforço de redistribuir os Anéis do Poder roubados é a chave do malfeito "Plano B". Sauron não sabia bem o que fazer. Ele precisava de servos mais poderosos com os quais ele poderia conquistar a Terra-Média, mas estes servos não o trazia vantagem sobre os elfos. Em fato, apesar de Sauron ter continuado a atacar os elfos pelos próximos 1300 anos, ele nunca mais montou um tipo de campanha massiva contra os Eldar como ele tentou na guerra. Por quê?

Os numenoreanos com certeza começaram a ganhar mais importância nos assuntos da Terra-Média. A medida que séculos passavam, novas fortalezas numenoreanas e portos foram estabelecidos ao longo da costa. O poderio numenoreanos lentamente marchou para as fronteiras de Mordor. E então Sauron se viu confrontado com dois rivais: Os Eldar no norte e Númenor no sul. E ainda, com a destruição de Eregion, toda a ambição pareceu fugir dos Eldar. Enquanto os Anéis do Poder existissem, os elfos tinham alguma proteção a morte. Então seu objetivo chefe foi cumprido. Mas parecia que eles deixaram que sua alma fosse derrotada. Nunca mais houve grandes reinos élficos na Terra-Média.

Sauron pode ter construído sua força, mas parece ter devotado mais de 1000 anos guerreando com os numenoreanos em várias regiões menores. Sua estratégia ficou mais complicada quando começou a ponderar sobre os dois problemas. A flexibilidade de Sauron sem dúvida fez com que seu reino sobrevivesse. Trocando de direções e controlando facilmente os novas terras no leste, ele estabeleceu um império capaz de aguentar a maioria das incursões de Numenor. Mas ele pareceu ter medo de confrontar o poderio numenoriano. Não há menção a nenhum ataque massivo a uma fortaleza numenoriana. Uma vez que Umbar foi estabelecida, continuou em controle numenoriano. Uma vez que Pelargir foi construída, Numenor teve uma guarda permanente do rio Anduin.

Porém, pode ser que Sauron hesitou antes, e sua relutância aparente em lançar um segundo ataque foi porque percebeu um de seus erros. Quando os elfos perceberam que foram traídos, Sauron poderia se deixar levar pela raiva e orgulho. Ele mandou que rendessem seus Anéis do Poder para ele. Claro que eles recusaram. Logo, Sauron reagiu furiosamente e lançou uma guerra contra eles. Apesar de que ele tenha se acalmad
o-se depois de uma dúzia de anos, qualquer problema que ele sofria na guerra (como perder os exércitos orientais, ou falhar em destruir os reinos florestais) reacendiam ou alimentavam sua raiva. E continuaria assim até que Sauron e seus guarda-costas retornassem para Mordor, derrotados, e se acalmasse o bastante para perceber que ele não iria ganhar o controle da Terra-Média pela guerra.

Logo, os séculos seguintes onde Sauron guerreava com os numenoreanos pelo controle do que deve ter sido territórios relativamente pequenos (a maioria provavelmente no sul) pode ter sido tempo bam gasto na opinião de Sauron. Isto é, ele pode provar e perceber as fraquezas dos numenoreanos, e deve ter estudado-as. Pode ser que Sauron tenha estudado o jovem príncipe que chegou a ser Ar-Pharazôn, já que lá era um indivíduo que poderia ser manipulado, e consequentemente atiçou Ar-Pharazôn (de longe) a desafiar Sauron para um desafio.

Se este era o objetivo de Sauron, ele se surpreendeu. Já que Ar-Pharazôn trouxe um exército tão imenso do oeste que os aliados de Sauron os desertaram. Com certeza, Sauron recorreu a um subterfúgio, rendendo-se para que possa ser levado para Numenor como um prisioneiro. Lá ele adquiriu gradualmente a confiança do rei como um conselheiro e seduziu a vasta maioria dos numenoreanos, muitos destes já rebelados contra os Valar, a cultuar Morgoth e desafiar os Valar. "Akallabeth" lembra que Sauron tinha esperanças de destruir toda Numenor, mas também recorda que ele ficou impressionado com o que encontrou na ilha, já que os feitos dos dunedain ultrapassaram qualquer expectativa sua.

A mudança dos planos de Sauron preservou Mordor como uma base de poder e abriu para ele uma oportunidade de minar a civlização numenoreana. Ele estava claramente agindo oportunisticamente, e talvez preparando coisas a medida que ele continuava. Mas sua jornada em Numenor foi uma aproximação repentina que resultou em reveses temporários (Gil-galad pôde extender seu poder durante a ausência de Sauron na Terra-Média), mas também na realização de um de seus objetivos: a destruição de Numenor.

Com Numenor fora do caminho Sauron retornou para a Terra-Média, machucado mas não ferido gravemente. Ele pode ter tornado seu pensamento totalmente para Gil-galad, mas aprendeu rápido que sobreviventes numenoreanos liderados por Elendil estavam estabelecendo dois novos reinos no norte. Apesar de muitas colônias numenoreanas agora ajudavam Sauron, os dunedain Fiéis estavam ajudando Gil-galad a consolidar seu poder no norte. Em efeito, Sauron trocou uma imensamente poderosa Numenor, que ele não poderia vencer militarmente, com uma imensamente poderosa aliança de homens e elfos.

Sauron atacou Gondor de repente, mas o Apêndice A diz que ele "atacou cedo demais, antes que seu próprio poder fosse refeito; enquanto isso o poder de Gil-galad aumentou em sua ausência". "Dos Anéis do Poder e a Terceira Era" é menos pessimista: "Quando Sauron julgou chegada a hora, investiu com força enorme contra o novo reino de Gondor, tomou Minas Ithil e destruiu a Árvore branca de Isildur que lá estava plantada." Apesar de Minas Ithil ter caído, Anarion resistiu em Osgiliath e mandou Sauron de volta para as montanhas. Sauron pareceu não ter integrado totalmente seus aliados em seu reino, ou então não esperou o bastante para os exércitos chegarem.

O ataque em Gondor foi similar ao ataque em Eregion. Sauron estava selecionando alvos estratégicos e tentando isolá-los dos poderes aliados. Ele conseguiu parcialmente em Eregion: Elrond não pode quebrar as linhas de Sauron, apesar de Durin III ter resgatado alguns do pvo de Eregion. O ataque à Gondor foi outra falha, e revelou a fraqueza dos ataques de Sauron: ele deixava que seus inimigos trabalhassem pelo benefício um do outro, mesmo se não coordenassem seus esforços contra ele. Ambos Elrond e Durin salvaram porções do povo de Eregion porque Sauron estava focado em conseguir os Anéis do Poder. Gondor aguentou seu ataque porque era muito nova para lançar a guerra.

Isildur pode navegar para o norte e incitar Elendil e Gil-galad. A aliança que eles fizeram mostrou ser forte o bastante para destruir o reino de Sauron. De fato, eles criaram um exército maior que Ar-Pharazôn trouxe para a Terra-Média perto de 200 anos antes. Se os aliados de Sauron foram incapazes de encarar o exército de Ar-Pharazôn, é graças a ele que o exército ficou até a batalha final da Segunda Era. Mas eles não eram páreo para a Última Aliança.

Guerra após guerra, Sauron deixou que seus inimigos ajudassem uns aos outros e às vezes trabalhar junto. Ele não percebeu que estava fazendo tudo errado até que Barad-dûr fosse cercada e os planos de Sauron morressem frustrados no sangue derramado nas batalhas. Ele precisava isolar seus inimigos um do outro. Ele lançou um ataque final e desesperado contra Gil-galad e matou o Rei-elfo, mas Elendil ficou perto o bastante para fazer um ataque mortal a Sauron. O último combate ao pé de Orodruin foi mais um ato de decepção do que qualquer outra coisa. Mesmo sem Gil-galad, a Última Aliança venceu a guerra. O império de Sauron foi desmantelado. Seu reino pessoal em Mordor foi ocupado.

Uma segunda morte deu um descanso merecido a Sauron. A Terra-Média estabeleceu um longo período de paz onde os homens esqueceram o Lorde Negro e os elfos só poderiam torcer para que ele não voltasse. Sauron agora tinha muito tempo para refletir seus erros, e quando ele finalmente retornou ele tinha uma nova estratégia, que levou quase um milênio e levou em consideração todas as variáveis que ele não considerou bem o bastante na Segunda Era.

valinor

Caro Gandalf…

Em um dos muitos ensaios que ele escreveu sobre os Istari, J.R.R. Tolkien disse: "Entre os Homens (inicialmente), aqueles que tratavam com eles supunham que eram homens que haviam adquirido tradições e artes através de estudos longos e secretos". Essa é uma observação interessante, uma vez que muitas pessoas geralmente citam uma parte rejeitada de uma carta que Tolkien escrevera, na qual ele pensava que os Homens não poderiam ganhar magia através de tradução e estudos (ele se deu conta de que O Senhor dos Anéis invalidara esse ponto de vista, e escreveu "Mas os Númenoreanos usaram feitiços para forjar espadas?" na margem e decidiu não mandar esta parte da carta).

 

 

 

Tolkien provavelmente escreveu o ensaio sobre os Istari um pouco antes da carta a Naomi Mitcheson (Letters 154 e 155). Ele abandonou o ensaio, que seria uma parte de um catálogo extendido de O Senhor dos Anéis nunca publicado, quando se deu conta de que o projeto era muito pesado para a publicação inicial da estória (ele já tinha adaptado os apêndices propostos para obedecer à necessidade de espaço). A carta a Naomi Mitcheson representa um ponto tangencial, que ascendera rapidamente e perecera nas rochas do cânone publicado – uma ocorrência incomum nos meandros filosóficos de Tolkien através da Terra-Média. Mas o abandono do discurso sobre magia é, provavelmente, a melhor justificativa que os Tolkienologistas têm para argumentar a validade do ensaio sobre os Istari (que se contradisse a escritos posteriores). Mas o ensaio é, pelo menos, consistente em tema e contexto com a versão original de O Senhor dos Anéis.

Continuando a análise do ensaio, Tolkien disse: "(Os Istari) Apareceram pela primeira vez na Terra-Média por volta do ano 1000 da Terceira Era, mas por muito tempo andaram com aparência simples, como de homens já velhos, mas sãos de corpo, viajantes e caminhantes, adquirindo conhecimento da Terra-Média e de todos os que ali habitavam, porém sem revelar a ninguém seus poderes e propósitos".

Assim, os Istari foram inicialmente ignorados pelos Homens, até que a Sombra aumentou e a Terra-Média passou a ficar perigosa, ocasião em que eles começaram a se "intrometer" nos assuntos dos Elfos e dos Homens. Os Homens, por fim, perceberam que os Istari não morriam, então concluíram que eles deveriam ser Elfos. Essa conclusão só poderia ter sido elaborada após a Guerra de 1409. Nessa altura do campeonato, os Istari (provavelmente Gandalf e Saruman) que estavam envolvidos com os Dunedain e os Elfos de Eriador deveriam se tornar conhecidos, pelo menos para os líderes dos Elfos e Homens, e parece razoável supor que precisariam alguns séculos até que os Homens percebessem que aqueles dois caras não eram apenas Númenoreanos de vida longa, e sim, que eram alguma outra coisa.

Quando Faramir perguntou a Gandalf sobre ele próprio em Gondor, o Mago diz: "Tenho muitos nomes em diferentes lugares. Mithrandir entre os Elfos, Tharkûn para os Anões; eu era Olórin em minha juventude no Ocidente que está esquecido; no sul, Incánus, no norte, Gandalf…" Gandalf era o nome que os Homens do Norte deram a ele, e Tolkien tirou esse nome do Norueguês antigo, da Elder Edda, onde "Gandalfr" é o nome de um anão. O nome significa "Elfo da Peregrinação".

Outro nome entre os Homens nórdicos era Orald, o nome que deram a Tom Bombadil, um nome Anglo-Saxão que significa "Muito velho". O Anglo-Saxão e o Norueguês antigo já foram línguas intimamente associadas, até que uma mudança na fonética dividiu os diálogos do mundo nórdico. É, portanto, interessante notar que Tolkien dá nomes em Norueguês Antigo (o idioma que representava a língua de Valle e da Cidade do Lago) aos Istari mais associados a Eriador, e dá a Bombadil um nome Anglo-Saxão (idioma que representava a língua dos Rohirrim).

Podemos inferir que, talvez, ou o Westron de Eriador nos meados da Terceira Era estava mesclado com mais palavras nórdicas do que o Westron de Gondor, ou Gandalf e Bombadil passaram um bocado de tempo a mais nas Terras Selvagens. E vice-versa. O nome de Gandalf indica que ele não tinha negócios casuais com os Homens quando ele começou a ser notado significativamente entre eles. Eles decidiram que ele era um Elfo.

Às vezes eu penso que Gandalf estava à altura de um Elfo antes dele ser mencionado no Conto dos Anos. Ele provavelmente se encontrou com os Reis de Arthedain e Arnor em tempos de perigo – isso seria, provavelmente, durante a Guerra de 1409, a Grande Praga de 1636, a guerra de Araval com Angmar em 1851, e provavelmente no último século da existência de Arthedain, quando Araphant e Ostoher de Gondor restabeleceram as relações entre os dois reinos.

Pode-se apenas palpitar se Gandalf passara algum tempo entre os Éothed de outros Homens do Vale do Anduin. Será que ele inspirou Fram a encarregar-se de qualquer aventura que aparecesse, resultando na escravidão de Scatha, o Verme? Talvez não. É difícil imaginar Gandalf permitindo que um guerreiro valente e orgulhoso como Fram mandasse uma mensagem insultando os Anões como ele fez, a menos que a troca de descortesias tenha ocorrido após Gandalf ter se mudado.

Suas opiniões, no entanto, deveriam ser altamente respeitadas entre os Elfos e os Senhores Mortais, e pode-se facilmente ter a impressão de que Gandalf vagava de reino a reino nos meados da Terceira Era, distribuindo conselhos como uma espécie de "Caro Fulano" ambulante. Sua feroz espirituosidade e sarcasmo não poupariam rei ou príncipe que, imprudentemente, o procurassem para obter conselhos mundanos.

Caro Gandalf,

Há rumores de que o Rei-Bruxo de Angmar está movimentando seus exércitos pelas colinas. O que o povo de Arthedain deve fazer?

Argeleb.


Caro Argeleb,

Você já pensou em deixar alguns barris de cidra forte para os Orcs? Você poderia emboscar todos, uma vez que estarão caindo de bêbados. Se isso falhar, então eu sugiro que você mande um mensageiro veloz até Círdan nos Portos, para ver se ele pode dispensar alguns marinheiros para uma expedição por terra. Não há nada que um Orc ame mais do que um barril de cidra élfica forte.

Gandalf.


Caro Gandalf,

Estamos em dificuldades aqui. Um mensageiro chegou de Minas Anor com uma gripe atemorizante. Parece que todo o interior contraiu essa praga maldita. Você por um acaso não teria alguns pós mágicos para nos ajudar?

Argeleb II


Caro Argeleb,


Conheci brevemente seu bisavô. Desagradável aquele negócio com os Angmarianos, mas no fim tudo ficou bem. Quanto aos pós – sinto muito não poder ajuda-lo. Estão em falta, pois acabei de borrifar o último nos Homens dos Vales do Sul do Anduin. No entanto, você deveria pensar em mandar todos para as colinas para trocar estórias até que tudo passe. O quer que você faça, não aceite mais mensageiros de Gondor por um tempo! Boa sorte e aqueça-se. Beba muito Miruvor! Estarei em Bri no próximo Yule, se é que até lá restará Bri.


Gandalf.



Caro Gandalf,

Estávamos começando a tentar recolonizar Gondor, mas agora parece que Criaturas Tumulares malignas infestaram as antigas colinas e não há ninguém capaz de enfrenta-las. Você estaria disponível para nos dar uma mão?

Araval.


Caro Araval,

Sinto muito saber dos seus novos vizinhos. Essas Criaturas podem ser muito irritantes e problemáticas. Infelizmente, eu estou esperando um longo tempo pela manicure em Lothlórien e não estarei disponível pelos próximos cem anos, mais ou menos. No entanto, estou mandando um camarada que não se importará em ter as Criaturas como vizinhos e fará o melhor para que o mal não se espalhe. Você acha, no entanto, que pode arranjar uma bela donzela jovem para ele, que não dê bola para nenúfares e canções bobinhas?

Gandalf.



Caro Gandalf,

Não tenho certeza se podemos resistir a Angmar por muito tempo. Ouvi dizer que Gondor teve problemas, mas eles não parecem estar tão mal. Você acha que podemos pedir ajuda a eles?

Araphant.

P.S.: Ainda estamos procurando por uma bela donzela. Infelizmente, todas parecem estar prometidas, quando as apresentamos ao velho Bombadil.



Caro Araphant,

Não se preocupe quanto a Bombadil. Ele é do tipo paciente e saberá quando encontrar a garota certa. Quanto as suas relações com Gondor, bem, me parece que você poderia pedir ajuda um pouco parcialmente. Ouvi dizer que eles têm uma donzela de personalidade forte que recusou cada pretendente. Arrume o jovem Arvedui e mande ele lá para pedir sua mão em casamento.

Gandalf.



Caro Gandalf,

Apenas queria escrever para dizer: "Muito Obrigado!" Firiel é a melhor coisa que já aconteceu comigo, e não digo isso apenas porque seu pai tem alguns exércitos realmente grandes. Eu posso prever coisas ótimas para Arnor.

Arvedui, futuro rei de Arnor e Gondor.


Caro Arvedui,

Bom saber que o casamento anda bem. Mas deixe as previsões para Malbeth e os Elfos, se possível. Eles estão nesse barco há um pouquinho de tempo há mais que você, e possuem melhor dom para isso.

Gandalf.


Caro Gandalf,

Isto é para informa-lo de que Arnor não necessitará mais de seus serviços. Nada pessoal, velho camarada, mas estivemos fora da cidade e não temos previsão para voltar. Obrigado por séculos de bons conselhos e felicidades em todos seus futuros esforços. Vença uma para os Dunedain!

Arvedui.

P.S.: Acho que agora entendo o que você tentava dizer. Preciso ir. Tenho que tratar com um homem sobre um cavalo.


Caro Arvedui,

Conforme esperado, sua carta chegou atrasada devido à sorte da guerra. Gostaria que você não a tivesse mandado pelo caminho de Bri. Eu fiz uma checagem em Fornost Erain, mas não achei ninguém, exceto alguns milhares de Orcs e Trolls. Tentarei ver se você está em Lindon. O que quer que você faça, não rume para o norte. Ouvi dizer que há um inverno terrível por vir.

Gandalf.



Caro Gandalf,

Dizem que você não está mais trabalhando em Eriador. Eu estava pensando se você não poderia dar uma passadinha aqui em Lothlórien no próximo século. Tenho um pequeno trabalho que eu gostaria que você fizesse e que seria um verdadeiro estímulo para sua carreira. Diga Olá para Elrond e Círdan, e estou ansiosa para ver vocês.

Galadriel.

P.S.: Como está a espera pela manicure?

valinor

Viajando em Carroças com Hobbits

Provavelmente nunca haverá um filme do tipo Dias de Trovão celebrando as corridas de carroça entre a Vila dos Hobbits e Beirágua. Hobbits são por natureza um povo caseiro, cujos riscos mais selvagens tendem a ser roubar cogumelos e entrar e sair de botes. É claro, alguns ocasionais Tûks rumam para o Mar, mas até Gandalf ter atiçado Bilbo e Frodo Bolseiro a vagarem pela Terra Média, Hobbits provavelmente não passavam muito tempo fora de suas próprias terras por mais de mil anos.

 

Havia uma certa propriedade que acompanhava o Hobbit “literal”, um senso de que “tudo estava bem até este momento”. E este era um falso sentido de propriedade. Os Hobbits, como os Elfos, tinham seus próprios arrependimentos e preocupações. O povo do Condado tinha esquecido (ou parecia fingir ter esquecido) que eles uma vez viveram em Bri, que era agora uma terra estrangeira. E antes de morarem em Bri, eles viveram em terras ao leste das Colinas do Vento, ou ao sul do rio Gwathlo.

Estórias de Hobbits não se tornam interessantes a não ser que alguém agite suas vidas. Todos os dias, durante muitos anos, Hobbits viveram calmamente em suas colinas e jardins, e então alguém viria e tiraria sua inocência. Poderia ser devido a um Necromante, que transforma a Grande Floresta Verde na Floresta das Trevas. Ou poderia ser devido a um Rei-Bruxo que desencadeia uma devastadora série de guerras. Ou poderia ser um mago andarilho que decide ajustar alguns erros e percebe que os Hobbits podem escapar próximos ao escrutínio o suficiente para alcançar algumas coisas.

Qualquer que seja a causa, chega um dia na vida de um Hobbit em que ele põe a família em uma ou mais carroças e ruma para o interior. Tais migrações, ou fugas, devem ser difíceis para todos. Os líderes dos antigos Helvetii, um grupo de tribos celta que vive nos Alpes, a leste da Gália (França), forçava seu povo a queimar suas casas e vilarejos. Os Helvetii e seus aliados entraram na Gália sem nada além de suas carroças e os animais que puderam trazer com eles. Não havia como voltar atrás.

A decisão de deixar suas terras nos Alpes tem sido muito debatida. Os Helvetii não poderiam simplesmente partir por capricho. Alguns eruditos, ao longo dos anos, sugeriram – de fato, insistiram – que os Helvetii seguiam uma antiga prática celta chamada ver sacrum,uma expansão ritual das tribos dentro de novos territórios. Os celtas do Norte da Itália dividiam nomes tribais com os celtas da região Alpina e com os celtas da Gália.

Os Helvetii e seus aliados afirmaram que estavam fugindo para o oeste para escapar das tribos Germânicas e Eslavas. Júlio César usou a migração dos Helvetii como uma desculpa para estabelecer uma base de poder na Gália, e uma vez que ele derrotou os Helvetii, forçando-os a retornar aos Alpes, ele seguiu com a conquista de toda a Gália. As campanhas para a conquista da Gália de César desencadearam uma migração celta final, da Gália do Norte para a Bretanha.

Durante todo o tempo em que os antigos celtas se moviam ou expandiam, arranjos políticos regionais chegavam a Utumno numa cesta de mão. Qualquer que fosse o reino ou cidade que estivesse no caminho da migração, estava normalmente calçado, mas os inimigos dessas pessoas infelizes muitas vezes encontravam novos aliados nos celtas quando viajavam pelas terras. O costume do ver sacrum era disputado, apesar de ser mencionado apenas por antigos escritores. Mas arqueólogos e historiadores, em geral, aceitam que os celtas e os germânicos estavam provavelmente seguindo uma antiga prática de mandar embora os colonizadores assim que suas populações começassem a aumentar.

O registro arqueológico de comunidades agricultoras Européias sugere que, há aproximadamente 8000 anos, fazendeiros foram para a Europa a partir da Grécia. Sabe-se que eles pressionaram os clãs mais velhos e vagantes para o leste e norte. Os fazendeiros trouxeram com eles animais domesticados, ferramentas superiores, armas, e um conhecimento sobre agricultura que os possibilitou formar maiores famílias, viver em maiores comunidades e viver por mais tempo.

A agricultura e a pecuária aumentaram o poder dos clãs, para por fim se tornarem tribos e nações. Mas a tecnologia era insuficiente para suportar grandes populações. Então, a cada poucas gerações, os vilarejos tinham que exilar parte de suas populações. As fazendas locais estavam consumindo toda a terra com a sua tradicional tecnologia de “cortar e queimar”, que proporcionou breves períodos de boa agricultura antes que os agricultores tivessem que se mudar. Fazendeiros da América do Sul estão destruindo milhares de acres de Floresta Tropical todos os anos através de prática similar.

Apesar desse tipo de agricultura requerer que novas terras sejam abertas de tempos em tempos, os fazendeiros podem deslocar-se dentro da mesma região geral, de forma que seu número total não se modifique. Mas a agricultura alimenta muitas bocas famintas, e as pessoas tinham tendência de ter muitos filhos. Apesar de que a maioria das crianças não chegava à maturidade (por uma série de razões), as comunidades agricultoras gradualmente se expandiram para o leste e para o norte por aproximadamente 3000 anos.E então novos povos, que chamamos de Indo-Europeus, começaram a ir para a Europa, e iniciaram o processo de expansão novamente.

Os Indo-Europeus não eram simplesmente agricultores. Eles eram guerreiros, nômades e inventores. Eles projetaram carroças que eram eficientes, fáceis de construir e manter,e capazes de transportar muitas mercadorias. O projeto de carroça dos Indo-Europeus permaneceu essencialmente inalterado até o século XIX, quando pioneiros americanos e vassalos russos usavam vagões que se pareciam muito com os seus antecessores de 5000 anos antes, para abrir terras em dois continentes.

Esses povos Indo-Europeus que se mudaram para a Europa se estabeleceram entre os fazendeiros nas terras densamente plantadas e adotaram um pouco de seu estilo de vida. Um desses costumes era a tradicional prática de cortar e queimar. De acordo com Tacitus, que escreveu sobre eles no século I DC, os Germânicos, um grupo ao norte dos Indo-Europeus, adotaram o costume de obrigar as famílias a sair de suas fazendas todos os anos. Tacitus tinha a impressão de que as tribos germânicas de certa forma aglomeravam-se no interior, queimando suas casas e reconstruindo-as a cada ano.

Tais medidas devem ter sido extraordinárias, e eles devem ter tido motivos políticos por trás de tudo. A Arqueologia nos mostra que existiam cidades fortificadas no norte da Europa, conectadas por estradas e rotas comerciais ao longo de estuários até antes de 1400 AC. Os Germânicos Ocidentais, dos quais vieram os Saxões, Francos e Borgonheses da primitiva História Medieval, eram possivelmente as tribos mais primitivas do n
orte. Mas eles, no entanto, tinham suas próprias cidades grandes e podiam reunir respeitáveis exércitos capazes de destruir legiões Romanas experientes, incluindo as malfadadas três legiões de Quinctilius Varus no começo do primeiro século DC.

Todos esses fazendeiros bárbaros viajantes provavelmente mais forneceram a Tolkien em esquema para as migrações dos Hobbits. Os Hobbits não gostavam de guerras. Eles não conquistavam impérios. Ao invés disso, eles achavam suas própria terras confortáveis e se fixavam por tanto tempo quanto às políticas locais permitiam. Assim como os Celtas e os Germânicos, que divergiram das mesmas subculturas ancestrais Indo-Européias em algum tempo no fim do terceiro ou segundo milênio AC, os Hobbits se dividiram em duas populações após terem entrado em Eriador.

Agora, muitas pessoas serão rápidas ao apontar que havia três grupos de Hobbits: Pés-peludos, Grados e Cascalvas. Sim, isso mesmo. Mas os Cascalvas e os Pés-peludos permaneceram no Norte. Eles cruzaram as Montanhas Sombrias através da Passagem Alta (acima de Valfenda – a mesma passagem onde Thorin e a Companhia foram capturados por Orcs em O Hobbit) e estabeleceram-se em Rhudaur, provavelmente entre o Mitheithel e as Colinas do Vento.

Os Grados cruzaram as Montanhas Sombrias pela passagem do Chifre Vermelho e se dividiram em dois grupos. Alguns foram ao norte para o Angle e ficaram em Cardolan. Os outros se estabeleceram em Terra Parda, ao sul da fronteira de Cardolan. Não é apenas uma coincidência que as famílias de Hobbits que descendiam dos Grados da Terra Parda tinham nomes célticos, enquanto famílias de Hobbits que descendiam de grupos do norte tinham nomes germânicos. Muitos leitores observaram ao longo dos anos como os Terra-pardenses parecem ser um pouco “celtas”.

De fato, todo o povo de Bri tem nomes relacionados a motivos populares celtas (Macieira, Carrapicho, etc). Isto é, são nomes relacionados à natureza. Quer estejam certas ou erradas, as pessoas têm – desde o final do século XVIII – cada vez mais associado os celtas e os druidas com à adoração à natureza e uma espécie de anti-pastorialismo em cidades. Na realidade, os celtas eram grandes e ativos construtores de cidades. Mas nos lembramos deles principalmente por seus fortes em colinas, migrações e por seus misteriosos druidas.

A identificação céltica de Tolkien para com os Terra-pardenses e seus parentes é estabelecida principalmente através de nomes de lugares, como por exemplo, para a terra de Bri. Bri (Bree) é uma palavra britânica para colina e Archet, Coombe e Staddle são todos nomes derivados da antiga língua Britânica (Celta). A animosidade entre os Terra-pardenses – é dirigida de sua terra natal pelos Rohirrim – e os Rohirrim também se assemelham aos Contos Arturianos dos Celtas contra os Saxões.

O próprio Tolkien indicou a conexão celta no apêndice F de Senhor dos Anéis:

…Os nomes dos habitantes da Terra dos Buques eram diferentes daqueles do resto do Condado. As pessoas do Pântano e seus descendentes da margem oposta do Brandevin eram estranhos em vários sentidos, como se disse. Foi sem dúvida do antigo idioma dos Grados do Sul que herdaram muitos de seus estranhíssimos nomes. Normalmente deixei-os inalterados, pois, se agora são esquisitos, já eram esquisitos em sua própria época. Possuíam um estilo que talvez devamos, vagamente, considerar como “céltico”.

Como a sobrevivência de vestígios da antiga língua dos Grados e dos Homens de Bri se assemelha à sobrevivência de elementos célticos na Inglaterra, minha tradução às vezes imita estes últimos. Assim, Bri, Archet e a Floresta Chet são baseados em relíquias da nomenclatura Britânica, escolhidos de acordo com o sentido: Bree “colina”, chet “floresta”. Mas somente um nome de pessoa foi assim alterado. Meriadoc foi escolhido para refletir o fato de que o nome abreviado desse personagem, Kali, significa, em westron, “alegre”, “jovial”, apesar de ser na verdade uma contração do nome Kalimac, da Terra dos Buques, sem significado na época.”

Podemos falar sobre quatro períodos da migração dos Hobbits dentro das histórias estabelecidas por Tolkien: A) sua migração original para os Vales do Anduin, que o ensaio “Anões e Homens” em The Peoples of Middle-Earth indica ter ocorrido no início da Terceira Era; B) suas migrações para Eriador, que o apêndice B de Senhor dos Anéis diz ter ocorrido nos séculos XI e XII da Terceira Era; C) suas migrações para o oeste, para Arthedain, ou para o leste, de volta aos Vales do Anduin e D) suas migrações para o Condado.

O Condado, é claro, se expandiu alguns séculos depois para a Terra dos Buques, e muitos séculos depois para o Marco Ocidental. Mas essas expansões parecem ser diferentes do que as volkvanderungs* dos períodos iniciais. Clãs inteiros deixavam suas terras natais, talvez queimando suas casas para desencorajar seus próprios retiros, e passaram por vastas regiões até alcançar novas terras onde deveriam começar novamente. Tudo o que uma família Hobbit auto-suficiente tinha deveria ir na mudança, em suas costas, ou em carroças puxadas por pôneis e/ou gado pequeno.

Todas as três primeiras migrações ocorreram por razões similares: guerra, ou a ameaça da guerra, tirou os Hobbits de suas terras, assim como os Helvetii e seus aliados deixaram a Helvetia (aproximadamente a mesma região ocupada pela Suíça) no século I DC devido a uma ameaça de guerra a partir do leste e do norte. A Quarta migração se diferenciou das migrações porque, pela primeira vez, os Hobbits migraram em tempos pacíficos. Isso era mais ou menos como um ver sacrum dos povos celtas. Os chefes dos Hobbits, Marcho e Blancho, reuniram o máximo de pessoas que poderiam segui-los e partiram para a terra real de antigamente, além do rio Brandevin.

Devido a razões desconhecidas a nós, os Hobbits dividiram sua nova morada em quatro partes, as quatro Quartas. A divisão provavelmente não ocorreu de imediato. Até certo ponto, deve ter sido estabelecida após a queda de Arnor, depois de Angmar ter sido derrotada e os Hobbits poderem voltar para sua terra natal. Suas casas provavelmente haviam sido destruídas, e os Hobbits teriam que construir tudo novamente. Foi somente quando Aranath (aparentemente anunciado que Aranath) não reestabeleceu o acordo com o rei que os chefes do Condado começaram a organizar questão por conta própria.

Os Hobbits do Condado se estabeleceram em pequenos povoados construídos ao redor de clãs de liderança, que, ao longo de mil anos, em sua maioria fracassavam. Algumas das antigas famílias conservavam suas distintas tradições de clãs, mas muitos se tor
naram homogeneizados em uma sociedade totalmente sedentária.

Eles abriram novas terras, para ser exato, mas somente uma única grande migração é mencionada antes do retorno da autoridade real na Quarta Era. Os Oldbucks deixaram o Condado (ou alguns deles deixaram) e se estabeleceram na Terra dos Buques. Por que um Thain escolheria desistir de sua autoridade é um mistério, mas pode ser que a família Oldbuck havia se tornado tão numerosa que eles simplesmente precisavam de uma terra própria. Nesse caso, as antigas migrações dos celtas ecoam vagamente na última grande jornada Hobbit da Terceira Era.

Os Fazendeiros Celtas eram bem avançados para o seu tempo. Eles eram, de fato, melhores fazendeiros que os Romanos (de acordo com algumas opiniões). Os Celtas usavam arados de ferro e desenvolveram a rotação da safra. Então, apesar de sua reputação de vagar por todos os lugares, os Celtas tentavam permanecer no mesmo local o tanto quanto fosse possível. As migrações são consideradas uma solução para o problema de população crescente.

Os Hobbits, sendo pessoas diminutas, não requeriam tanta terra quanto homens de tamanho normal, mas eles ainda assim deveriam invadir novas terras a cada algumas gerações. O Condado deve ter sido uma região muito grande para as populações iniciais, evidentemente reduzida em 1636 (A Grande Praga) e 1974 (A Queda de Arnor). Como os Oldbucks cruzaram o Brandevin, os Tûks devem ter mandado colonizadores para o norte após a Batalha dos Greenfields (2747), uma vez que Bandobras Tûk tinha muitos descendentes na parte norte do Condado.

As comunidades mais velhas estariam assim estáveis e auto-suficientes, constantemente mandando um fluxo de colonizadores às comunidades mais jovens, que, em troca, teria dado origem às novas comunidades próximas às beiras do Condado. O presente de Aragorn do Marco Oeste para o povo do Condado no começo da Quarta Era demonstrou a necessidade de expansão mais uma vez. O estabelecimento do Marco Oeste teria sido um evento importante. Por todo o antigo Condado, famílias de Hobbits estavam enchendo as carroças, dizendo adeus aos seus amados e partindo à procura de uma nova vida.

Abrir novas terras e encarar os perigos que elas podem trazer (tais como as árvores zangadas da Floresta Velha) não são aparentemente aventuras para os Hobbits e sim feitos nascidos da necessidade. Armados com machados, escavadeiras, martelos e picaretas, os Hobbits começavam a tarefa árdua de conquistar novas terras, cujos habitantes anteriores haviam fugido. Portanto, eles não tinham necessidade de se tornar os grandes guerreiros de que os Celtas eram tão renomados por ser. Um fazendeiro Hobbit somente precisava defender sua safra contra as incursões dos filhos famintos do vizinho.

Mas se as pessoas imaginam para onde os Hobbits foram, a resposta deve ser óbvia. Houve um tempo onde as invasões dos Homens eram demasiado ameaçadoras. Os antigos limites haviam sido quebrados ou esquecidos. Então, eles encheram suas carroças, junto com seus pôneis e pequenas vacas e partiram pela estrada, seguindo para o oeste. De algum modo, eles não foram para o Mar, mas eles continuaram se movendo. E agora eles ainda estão na estrada. Crianças, carroças e tudo.

* volkvanderungs: migrações dos povos, em alemão.


Tradução de Helena ´Aredhel´ Felts

valinor

Shhhhhh! É um Anel Secreto!

Eu sou questionado sobre muitas perguntas a respeito do mundo de Tolkien e certas vezes, eu apenas arquivo as mais interessantes para futura referência. Mas outro dia alguém me perguntou algo que eu não acreditava nunca ter passado pela minha cabeça. Quem sabia sobre os anéis? Um leitor muito astuto ressaltou a mim que Boromir reconheceu o Anel imediatamente, Faramir compreendeu que havia um Anel que envolvia Gandalf e Denethor parecia saber de tudo sobre o Anel…Quando se trata exatamente disso, todos que entram em contato com Frodo parecem saber sobre o “Anel precioso” (como Bombadil o chamou).

 

Se eu puder pegar emprestada uma das comparações que Tolkien tanto detestava, é quase equivalente para todo frentista de posto de gasolina da Rota 66 pedindo a J. Robert Oppenheimer se ele pode dar uma olhada no Fat Man e Little Boy enquanto ele dirige para Los Alamos. O Anel de Sauron era para ser um grande segredo, no entanto, muitas pessoas que Frodo encontrou pareciam saber sobre ele. Gildor Inglorion compreendeu o que estava acontecendo (e como ele sabia que Frodo estava “suportando um grande fardo sem conselhos“, como Glorfindel diz, não é explicado em nenhum lugar).

Como poderia ser que tantas pessoas soubessem algo sobre o Um Anel ao fim da Terceira Era, principalmente considerando-se que estava limitado ao conhecimento daqueles que estavam mais envolvidos com ele por três mil anos?

A resposta deve estar nos dias de Elendil e Gil-Galad, quando eles primeiro formaram sua grande aliança. Tolkien escreveu muito pouco sobre o que realmente aconteceu, mas sabemos que Sauron atacou Gondor e tomou Minas Ithil. Isildur escapou com sua mulher e filhos. Anárion fortificou o Anduin e repeliu as forças de Sauron enquanto Isildur navegava para Arnor. Ali Isildur consultou-se com Elendil, que em troca, consultou-se com Gil-Galad.

Até esse tempo, podemos ter certeza, o total conhecimento dos Anéis de Poder estava limitado somente aos Elfos. Mas o quanto eles sabiam em geral? Qualquer Elfo mais velho saberia que existiam Anéis de Poder, ou o conhecimento era confinado a um grupo seleto? Bom, não há fatos para responder a essas questões. Isto é, não há nenhum ensaio ou nota de Tolkien já publicados que expliquem como o conhecimento sobre os Anéis se espalhou. Elrond contou às pessoas em seu conselho a história completa dos Anéis. “Uma parte de sua lenda era conhecida por alguns aqui, mas a lenda completa por nenhum”, Tolkien escreve no “Conselho de Elrond”.

Isso parece extraordinário. Nem mesmo Gandalf saberia toda a história dos Anéis? Bem, Gandalf não sabia da tradição do Anel até Bilbo aparecer, então talvez ele estava ainda alcançando o conhecimento. Mas a impressão é que a estória de Elrond foi rotulada como: “Segredo de Estado, Necessidade de saber e VOCÊ não precisa saber!” Exceto para ele, Galadriel e Círdan (e talvez Celeborn, mas todos sabem que ele era um forasteiro).

Quando Sauron primeiro se aproximou dos Elfos na Segunda Era, muitos suspeitaram dele, de acordo com a história descartada de Celeborn e Galadriel em Contos Inacabados. Galadriel não reconheceu Sauron (que se nomeou Aulendil por conta própria, apesar de que em outro lugar dizem que ele se nomeou Annatar). Ela desconfiou de um Maia que apareceu de repente e afirmou estar agindo em prol dos interesses dos Valar. É interessante que nenhuma tentativa foi feita para confirmar essa história com Valinor. Os Númenoreanos retornaram a Terra-Média em 600 da Segunda Era e Sauron começou a procurar por alguns bons trouxas alguns séculos depois. Devido a tal questão, os Eldar deveriam ter sido capazes de rezar para os Valar por algum tipo de conselho.

Então parece estranho começar com o fato de que as credenciais de Aulendil/Annatar nunca foram checadas. Talvez alguém tentou espiona-lo, mas talvez havia tantos Maiar que os antigos Noldor coçaram suas cabeças e falaram: “Bom, talvez…” Eu não posso deixar de pensar no prefeito em “The Music Man”, mandando os quatro conselheiros da cidade para descobrir quais eram as credenciais do Professor, e ele os transforma em um quarteto de barbeadores. Talvez Sauron era bastante como Robert Preston, especialmente dada à propensão dos Elfos para canções. Talvez Maglor foi mandado para verificar as credenciais e Sauron o perguntou por que parecia tão deprimido e…

O fato é que Sauron meneou seu caminho em Eregion numa época em que havia muitos Elfos por todos os lados da Terra-Média. O reinado de Gil-Galad se estendeu das costas de Lindon até o rio Brandevin. Os Nandor, Sindar e Noldor estavam aparentemente vagando ao redor do resto de Eriador. Muitos dos Noldor e Sindar estava vivendo alegremente em Eregion, comercializando com os Anões, construindo cidades e fazendo o que quer que os Elfos façam. No outro lado das Montanhas Sombrias os Sindar estabeleceram dois ou mais reinos entre os Elfos Silvan. E Edhellond era um canto calmo e refúgio ao sul das Ered Nimrais (Montanhas Brancas). Era, sobretudo, um mundo muito Élfico. Os Homens apenas por acaso andavam por ali, mas à parte dos numenoreanos, os Homens não faziam muito.

Sauron supostamente visitou mais de uma terra élfica em sua jornada por mentes élficas sugestionáveis. Presumivelmente os Elfos Silvan teriam tido pouco interesse na preservação da Terra-Média. E quanto a morrer? O que é a morte para eles? Talvez Eönwë tenha mencionado a probabilidade da morte dos Elfos, quando ele viajou convocando todos a Valinor, ou talvez não.

Em Lindon, Elrond e Gil-Galad recusaram-se a tratar com Sauron. Eles nem ao menos admitiriam ele no reino. Sauron deve ter mandado uma carta ou mensagem oferecendo-se para ensinar os Eldar em questões elevadas e nobres. Talvez foi um pouco de arrogância da parte de Sauron em fazer tal oferta, mas a reação de Gil-Galad deve ter sido de surpresa. Ele era apenas um rapaz quando Beleriand estava sendo invadida pelo mar pelos Valar. O que ele sabia sobre Valinor e sua felicidade?

Então pode ser que o povo de Gil-Galad era de fato composto, em sua maior parte, por Elfos mais jovens. Poucos dos Exilados originais realmente sobreviveram às Guerras de Beleriand. Destes, muitos aparentemente retornaram para o Oeste após a Interdição dos Valar foi dissipada. Então somente um punhado dos reais antigos Elfos deve ter permanecido na Terra-Média. Destes, a maior e mais bem conhecida era Galadriel, e por alguma razão, ela não ficou em Lindon por muito tempo; Então Galadriel devia estar em Eregion quando Sauron chegou farejando ao redor. De fato, é isso o que a história descartada conta, desde que ela e Celeborn eram (de acordo com esse relato) os soberanos originais de Eregion.

Sauron dedicou sua atenção a “Celebrimbor e seus companheiros ferreiros, que formaram uma sociedade ou irmandade, muito poderosa em Eregi
on, a Gwaith-i-Mirdain; mas ele trabalhou em segredo, desconhecido à Galadriel e Celeborn
”. Nesse relato, o sumário de Christopher Tolkien de um esboço que nunca foi totalmente publicado, Celebrimbor e a Gwaith-i-Mirdain tinham muitos segredos profissionais. Eles não dividiam seu conhecimento livremente com outros Noldor.

Os Noldor, os Fëanorianos em particular, eram muito sigilosos, até mesmo em Valinor. Eles eram de um tipo que não pareciam se dar bem uns com os outros. Até mesmo seus primos Avari, os Tatyar, parecem ter sido mais divididos que os Nelyarin Avari (que eram relacionados com os Teleri, os Eldar que vieram dos Sindar). Fëanor nunca chegou a revelar muitos de seus segredos para os outros Elfos. Então quando ele morreu, muito da sua sabedoria morreu com ele. É claro que muito da sabedoria antiga foi perdida nas Guerras de Beleriand de qualquer maneira. Celebrimbor e seus companheiros devem ter sido os últimos herdeiros dos grandes segredos da Primeira Era. Ou eles podem ter sido um grupo de renascimento, pegando emprestado tudo o que podiam dos Anões e descobrindo coisas por conta própria.

O resultado final foi que os Anéis de Poder eram um projeto originalmente secreto. A maioria dos Elfos não sabia nada sobre eles. As primeiras propostas de Sauron devem ter parecido um tanto quanto vagas, tirando proveito de suas dúvidas e preocupações de uma maneira geral. Não seriam vagas até que Sauron pudesse ter uma longa e sincera conversa de ambas as partes com Celebrimbor sobre o futuro dos Elfos que Sauron estaria apto para lançar o Grande Plano sobre o senhor Élfico. E não é provável que Celebrimbor tenha sido idiota. De fato, ele era provavelmente um dos Elfos mais inteligentes do início da Segunda Era. Sua penetrante sabedoria e insight se juntaram ao seu brilho. Isso teria feito dele um alvo crucial para a fraude de Sauron.

E essa fraude deve ter requerido séculos de trabalho. Sauron deve ter ensinado muito pacientemente aos Gwaith-i-Mirdain muitos segredos sobre a manufatura de várias coisas antes de ganharem sua total confiança. Tolkien nos oferece apenas um vislumbre dos tipos de artefatos que os Elfos eram capazes de fazer: os barcos de Lórien, as cordas e mantos dos Elfos Silvan e a bacia da Galadriel. Esses eram os mais modestos, aparentemente, assim como encantamentos diários, coisas de pouco interesse para os mestres ferreiros. Os Palantíri, criados em Valinor, devem ter sido o tipo de artefato que os Gwaith-i-Mirdain devem ter perseguido. Ou talvez eles se esforçaram para recriar as Silmarils, mesmo porque a Luz das Duas Árvores estava preservada somente na luz do Sol, da Lua e da Estrela de Eärendil.

A explicação de Elrond sobre os motivos dos fazedores de anéis implica que eles eram muito nobres em seus objetivos: “Aqueles que os fizeram não desejariam força, ou dominação, ou acúmulo de riquezas; mas entendimento, ações e curas, para preservar todas as coisas imaculadas.” Nós compreendemos o desejo de “preservar todas as coisas imaculadas”. Os Elfos quiseram criar um pouco de Valinor na Terra-Média através da retenção dos efeitos do Tempo. Mas “entendimento, ações e curas” parece um pouco desnecessário. O que precisaria ser entendido, o que precisaria ser curado, que todos os talentos naturais dos Elfos não seriam suficientes para entender ou curar?

Tolkien dá a entender em um ensaio que era a própria Terra-Média que precisava de cura. Estava poluída, manchada por Melkor, e danificada pela Guerra da Ira. Talvez os Gwaith-i-Mirdain tinham a esperança de criar algo que purificasse o elemento Melkor da Terra-Média. Irônica e tragicamente, eles confiaram nesse mesmo elemento para a criação dos Anéis.

Há uma outra estória envolvendo Galadriel e Celebrimbor. Esse é o conto de Elessar, a pedra élfica que Galadriel deu a Aragorn em nome da Arwen. A estória é, certamente, inacabada, e Tolkien mudou de idéia sobre muitos detalhes. No final, Celebrimbor era para se tornar um ferreiro de Gondolin (mas a estória foi composta antes de Celebrimbor estar incorporado à família de Fëanor) e fez duas Elessar. Uma foi levada para o Oeste por Eärendil e a segunda repôs a primeira e chegou até Aragorn.

O poder das Elessar estava envolvido com a cura e a preservação, e a segunda Elessar é dita como ter sido a maior criação de Celebrimbor depois dos Anéis de Poder. Deve ter sido um objeto muito potente, e a habilidade de Aragorn de curar muitas pessoas em Gondor deve, portanto, ser atribuída em certa medida pela sua posse de uma Elessar.

Desta maneira, parece que os Gwaith-i-Mirdain passavam a maior parte do seu tempo construindo itens mágicos que os Elfos usavam para curar ou preservar pequenas partes da Terra-Média, ou, de outra forma, aumentar seus talentos naturais. A ajuda de Sauron deve ter aumentado a efetividade de seus objetos. Por um tempo eles devem ter transformado os Anéis menores meros “ensaios na arte antes de estar totalmente crescido”, como Gandalf diz. Ele os descreve como sendo “de vários tipos, alguns mais potentes e outros menos”. A frase “vários tipos” é curiosa. Talvez dê a entender que os Anéis menores tinham apenas poderes e propriedades específicas, enquanto os Grandes Anéis, os Anéis de Poder, possuíam muitas propriedades.

Uma preocupação com a preservação e a cura teria dado a Sauron uma linha interna com os Elfos. Ele poderia introduzir mais e mais idéias e ajuda-los em avançar suas metas ao frustrar pequenos saltos. E então, um dia, ele seria capaz de implantar a idéia de criar artefatos poderosos novamente. Eu não acho que Sauron deva ter proposto essa idéia diretamente. Os elfos parecem ter se entusiasmado com tal projeto e, portanto, eles devem ter acreditado que era uma idéia deles mesmos. Uma fraude seria mais engenhosa desse modo. Mas também a fraude pareceria menos manipulativa na superfície, se Sauron estivesse meramente suportanto os Elfos em seus próprios esforços, ao invés de apenas dar a eles instruções explícitas sobre o que deveria ser feito.

E então deve ter ocorrido um razoável número de conversas e planejamentos. Analisar os objetivos do projeto sozinho poderia ter levado meses ou anos. E Por quê? Porque os Gwaith-i-Mirdain provavelmente não queriam que ninguém soubessem o que eles estavam fazendo. As implicações morais do que eles esperavam tentar para retardar os efeitos do Tempo não seriam totalmente compreendidas. Os Anéis de Poder representavam uma nova tecnologia, cujo impacto sobre a sociedade ainda não havia sido medido – uma sociedade que, naquele momento, era dominada pelos Elfos.

Além disso, a natureza secreta do projeto deve ter exigido o menor número de pessoas quanto fosse possível para estar inteiradas a ele. Pode ser que não mais qu
e dezessete Elfos sabiam sobre os Anéis: Celebrimbor e dezesseis outros Gwaith-i-Mirdain, talvez constituindo todos os membros da sociedade. Muitas pessoas dizem que é melhor procurar pelo perdão que pedir. Os Noldor em particular parecem ter favorecido essa filosofia. Quando chegou o tempo de decidir se deviam fazer a tentativa, Celebrimbor e seus companheiros devem ter tido longas discussões sobre as conseqüências morais de fazer qualquer coisa. Talvez no fim eles justificaram sua decisão final ao pesar todo o bem que eles esperavam alcançar contra o possível dano que eles estavam arriscando. Afinal ninguém nunca suspeitou que Sauron pudesse traí-los.

Então, antes dos Anéis serem feitos, os Gwaith-i-Mirdain devem ter tido boas razões para não revelar o que estava acontecendo a ninguém além da própria sociedade. Os Anéis, enquanto iam sendo produzidos, devem ter parecido anéis normais para os outros Elfos, se eles pudessem ser de fato notados. O véu de sigilo deve ter sido sobrecarregado com vergonha e culpa, assim que os Elfos perceberam a traição de Sauron. Imaginem como Celebrimbor deve ter se sentido, sabendo que ele forjou os Anéis em segredo, sabendo agora que Sauron era um antigo servidor de Melkor, agora com o seu próprio Anel Mestre. Quer Tolkien preservasse a rebelião de Celebrimbor (que foi registrada na história descartada de Galadriel e Celeborn) ou mudasse a estória, Celebrimbor teria que confrontar Galadriel com a verdade. Algo terrível havia acontecido, mas algo ainda pior estava para recair sobre os Elfos.

Então, uma vez que Galadriel soube sobre os Anéis, ela aconselhou Celebrimbor a esconde-los. Os Elfos não aceitavam em seus corações o fato de ter que destruir seus próprios trabalhos. Dois anéis foram dados a Gil-Galad, que deve ter sido informado sobre tudo. Quaisquer que tenham sido os sentimentos sobre a imprudência de Celebrimbor, ele também escolheu não destruir os Anéis. O medo de desaparecer deve ter sido muito impregnante na sociedade Noldorin. Então devemos nos perguntar a quem foi contado primeiramente, Elrond ou Círdan? Por um lado, Celebrimbor, Galadriel e Gil-Galad deviam saber que haveria uma guerra. Sauron tinha acabado de tentar escravizar os maiores e mais poderosos dos Noldor. Ele falhou, sua cobertura foi arrancada, e os Elfos souberam que a Terra-Média tinha um Senhor do Escuro novamente. Não era o tipo de situação que exigia que Sauron se escondesse até que a tempestade acalmasse.

De sua parte, Gil-Galad pediu ajuda aos Númenoreanos, mas não contou a eles sobre os Anéis. Tolkien menciona essa omissão nas relações Elfo-Dúnadan na Carta 211 (Letter211): “Eu não creio que Ar-Pharazon soubesse algo sobre o Um Anel. Os Elfos mantinham a questão dos Anéis bastante secreta, conforme podiam…" Então o apelo de Gil-Galad a Númenor deve ter sido muito cuidadosamente escrito. Ele tinha previamente requerido a ajuda de Númenor, enquanto Sauron estava atrapalhando toda a Terra-Média, incitando criaturas maléficas. Antes de Sauron decidir se estabelecer em Mordor, Gil-Galad estava apenas consciente de que algum poder maléfico estava organizando homens e antigos servidores de Morgoth. Mas ele não conseguia achar a fonte de suas preocupações. A revelação de Sauron como o forjador do Um Anel confirmou os piores medos de Gil-Galad. No mínimo ele tinha uma justificativa para começar uma guerra com Sauron.

Númenor mandou homens e mantimentos à Terra-Média, e durante o curso de 100 anos, os Númenoreanos construíram fortes e estoques ao longo dos rios Lhun e Gwathlo. A estratégia total parece ter sido defensiva. Os Elfos sabiam que uma guerra estava se aproximando, mas não sabiam quando. Sauron era poderoso, mas ele não controlou a Terra-Média do jeito que Morgoth fez. E Númenor ainda não comandava os enormes exércitos e navios que um dia iria formar. Um ataque prematuro ainda não havia sido considerado, aparentemente. Talvez Gil-Galad ainda não soubesse onde se estabelecia o domínio de Sauron. Mordor não parecia tão longe de Eriador quando olhamos no mapa, mas havia uma grande distância de cerca de 1000 milhas entre Barad-Dûr e Lindon. E Gil-Galad podia ainda não saber até mesmo em que direção começar a procurar.

Então os Elfos não falaram nada aos seus aliados sobre os Anéis de Poder, ou sobre o que a guerra era realmente. Isso pode ter sido apropriado para a política de sigilo deles de deixar Sauron atacar primeiro. Depois do ataque, justificaria o fato chamar Númenor para mais ajuda. Os Elfos seriam o grupo aflito. Eles já eram, considerando que Sauron havia tentado escravizar os Gwaith-i-Mirdain. Mas o motivo de queixa era moralmente fraco. Que interesse os Noldor tinham ao brincar com o Tempo de qualquer maneira? Porém, mais importante ainda, Gil-Galad parece não ter compartilhado a verdade com o seu povo. Eu duvido que muitos de seus conselheiros teriam conhecimento sobre os Anéis. Alguns dos Noldor podem apenas ter decidido jogar Celebrimbor e os Gwaith-i-Mirdain aos wargs que gastar seu sangue em outra guerra insana.

É claro, quanto mais pessoas descobrem um segredo, menos secreto ele é. Gil-Galad tinha capitães com potencial para mandar ao leste a fim de reforçar Eregion. Por que ele escolheu Elrond? Círdan era um antigo senhor dos Eldar, tendo como experiência as guerras de Beleriand (de fato, ele era o único comandante de campo que sobrevivera às guerras). Glorfindel havia retornado a Terra-Média para ajudar na guerra, de acordo com um breve ensaio que Tolkien escreveu tarde em sua vida. Ele também seria uma boa opção para mandar a Eregion. Mas foi Elrond quem Gil-Galad mandou. Eu acharia que Elrond devia estar presente quando Celebrimbor contou a Gil-Galad sobre os Anéis. Não que os nobres de Gil-Galad teriam se rebelado, mas para que sobrecarregá-los com uma culpa que não era deles?

Mas se o silêncio de Gil-Galad estaria condenando, o que Celebrimbor poderia ou deveria contar aos Elfos de Eregion? Muitos deles parecem ter escapado, por Moria ou fugindo por terra. No entanto, será que eles sabiam sobre o que era a guerra? Eu não acho que a tragédia da loucura de Celebrimbor seria aumentada se sua vergonha o tivesse proibido de confessar o que ele e os Gwaith-i-Mirdain haviam feito. Se eles não estavam contando nada aos Dúnedain pelo bem do sigilo, então também seria melhor não contar nada ao povo de Eregion. E então isso significa que os Anões de Moria não podiam saber sobre o que era a guerra. Tudo o que ia ser falado a todos era que o grande Senhor do Escuro estava chegando.

E ele chegou. Sauron espalhou-se para o norte e atacou tudo o que viu. Ele não apenas invadiu Eregion, como também foi para os Vales do Anduin e as terras ao leste da Grande Floresta Verde. Os Homens do Norte se dirigiram para as florestas e montanhas. Sua cultura foi virtualmente apagada. Muitos Elfos também devem ter perecido. Eregion tombou rapidamente e Sauron a destruiu. Assim como muitos Elfos
escaparam, muitos outros sofreram mortes horríveis enquanto Sauron procurava desesperadamente os Anéis de Poder. Se ele não podia ter os Elfos, ele certamente não queria que os Elfos tivessem sua Valinor na Terra-Média.

A defesa de Ost-Em-Edhil (Fortaleza dos Eldar) deve ter sido particularmente amarga. Na história descartada de Galadriel e Celeborn, conta-se que Celeborn liderou um ataque. O propósito do ataque não é de fato estabelecido, mas pode indicar que Celeborn havia reconhecido a falta de esperança na situação. Celeborn pode ter comandado os Elfos mais inocentes, enquanto os Gwaith-i-Mirdain e seus seguidores teriam ficado para trás para dar resistência à cidade. A última posição de Celebrimbor pode ter sido uma tentativa de reparar o que ele havia feito. Mas ao invés de morrer em batalha e guardar os segredos dos Anéis para sempre com ele, foi dirigido novamente para os degraus da Casa dos Mirdain. Sauron deve ter dado ordens para captura-lo vivo a todo custo. Imaginem os orcs sacrificando a si mesmos, assim como seus ancestrais fizeram ao levar Húrin após a Nirnaeth.

A perda de Eregion mais provavelmente significou que todos os Gwaith-i-Mirdain haviam perecido, e seu segredo vergonhoso foi preservado apenas pelos poucos senhores Eldarin que conheciam a contagem total. Os Gwaith nunca são mencionados novamente, em nenhum escrito. É interessante notar que outra sociedade, ou “escola”, os Lambengolmor (mestres de Línguas), sobreviveram à Guerra. Seu último membro foi Pengolod, que viveu em Eregion. Ele escapou, e após a guerra ele pegou um navio e deixou a Terra-Média. A destruição de Eregion parece indicar que muitos outros grupos antigos e eruditos também pereceram, ou sofreram tão terrivelmente que seus sobreviventes fugiram quando puderam. Numa nota encontrada no apêndice de “O Senhor dos Anéis”, Tolkien diz que os Eldar não tentaram nada de novo na Terceira Era. Pode simplesmente ser que não restou ninguém suficientemente talentoso nas artes sub-criativas para criar novos artefatos.

No despertar da guerra, Gil-Galad teve que reconstruir seu reino. Lindon sobreviveu, mas, sem sombra de dúvidas, sofreu muitos danos. Elrond também sobreviveu. Ele nunca teve sucesso ao reforçar Celebrimbor, mas ao invés disso ele foi dirigido para o norte (talvez com Celeborn). Elrond havia reunido tantos Homens e Elfos quanto pode e resistiu em Imladris. Naquele tempo muitas pessoas aflitas teriam perguntado: “Por quê? Por que essa guerra aconteceu?” E Elrond não seria capaz de responde-las. No entanto, ele tinha que saber a verdade. Sua defesa foi leal e valente, mas foi talvez fortalecida por uma solução nascida da culpa e do desejo de reparar as decisões terríveis que Celebrimbor – seu amigo – havia feito. De certo modo, a Guerra dos Elfos e Sauron marca uma perda final da inocência dos Noldor. Na Primeira Era, aqueles Noldor que eram nascidos em Beleriand conheciam sua história e patrimônio. Na Segunda Era, nenhum realmente sabia a contagem. Era muito perigoso contar a qualquer um. Os Anéis parecem ter tido um efeito muito debilitante no julgamento das pessoas que sabiam sobre eles. Nem Galadriel ou Gil-Galad, que não tinham nada a ver com a forja dos Anéis, conseguiam achar forças para destruir os Três.

Depois da guerra Gil-Galad convocou um Conselho em Imladris. Talvez ali ele finalmente revelou aos outros senhores Élficos o que realmente havia acontecido. Tolkien não nos conta quem compareceu, mas é possível que até mesmo os Númenoreanos foram excluídos do Conselho. Númenor ainda não estava realmente envolvida com a Terra-Média. Gil-Galad teria agradecido e recompensado os Númenoreanos profusamente, com certeza, mas ele não os contou sobre os Anéis de Poder. Seria presumido que Sauron teria achado os Nove e os Sete, uma vez que nenhum dos Elfos sobreviventes os possuíam. Não parece provável que os Elfos pudessem prever o que Sauron pretendia fazer com os Anéis. Por que eles permaneceriam calados se eles sabiam que os Homens e os Elfos poderiam estar sendo pressionados? E ainda, Gil-Galad e seus conselheiros devem ter percebido que Sauron poderia adquirir coisas terríveis com aparatos tão potentes. Então eles devem ter tomado uma postura do tipo “esperar para ver”.

Mas a decisão dos Eldar de não contar a ninguém sobre o Anel dificultou os erros dos Gwaith-i-Mirdain. Pois agora Sauron era capaz de influenciar Anões e Homens com impunidade. Certamente, muitas pessoas perguntam como Sauron ainda podia se locomover sem ser rotulado como inimigo público número 1. Ele deve ter assumido uma nova aparência. Tolkien escreveu que sua forma real era de esplendor, humanóide, embora mais largo que um Homem. Ele parecia gigantesco. E ainda ele poderia ter tomado a forma de um Anão ou de um modesto Drúadan Ele poderia se aproximar virtualmente de qualquer um no disfarce perfeito, ganhar sua confiança, e, finalmente, dado um Anel a eles. Ou pior, ele pode ter incitado tentado as pessoas a procurar os tesouros perdidos dos Elfos. Ambos os Homens e Anões estavam querendo procurar tesouros. Eles provaram isso antes. Então os Dezesseis Anéis de Poder capturados podem ter sido bem engenhosamente deixados em lugares secretos, para um punhado escolhido de Homens e Anões acharem. E eles não te
riam contado a ninguém sobre suas descobertas.

O véu de sigilo, portanto, trabalhou para os fins de Sauron. Ele pode ter falhado ao tentar escravizar os senhores Anões que pegaram os Sete Anéis, mas ele ainda era capaz de corromper seus corações. Os Nove Homens que pegaram os Anéis de Poder se transformaram em espectros e se tornaram os servidores mais terríveis de Sauron. Os Homens que se espalharam pela Terra-Média não imaginariam o que eram esses espectros do Anel, mas os Númenoreanos teriam se lembrado que Sauron era um antigo mestre de fantasmas e feitiçaria. Os servidores do Escuro não necessariamente deviam ser chamados de espectros do Anel. Eles podem ser percebidos como espectros, demônios, ou alguma outra coisa.

Ao passo que a Segunda Era avançara, os Númenoreanos se tornaram mais poderosos, mas então eles tornaram-se divididos. Então mesmo se Gil-Galad pudesse ter considerado revelar o segredo dos Anéis aos seus aliados, a crescente antipatia para com os Elfos entre os Reis e seus seguidores teria desencorajado tal política. Para que jogar lenha no fogo crescente? Os Númenoreanos podiam apenas tão facilmente ter culpado os Elfos por seus problemas como não.

E, no entanto, os fiéis Númenoreanos ficaram ao lado dos Elfos. Eles até mesmo colonizaram terras próximas ao reino de Gil-Galad a fim de continuar a aproveitar a companhia dos Elfos. Quão freqüentemente poderia Gil-Galad e Elrond ter olhado nos olhos dos Homens que os acolheram com total confiança e amizade, e que nada sabiam sobre os Anéis? Séculos de tal amizade deve ter provado ser um grande fardo a eles.

Finalmente, após Númenor ter sido
destruída e todos esperarem que Sauron pudesse estar morto por algum tempo, ele reapareceu com um exército e atacou Gondor. E Isildur espalhou as notícias sobre o ataque a Arnor, e ali Elendil se consultou com Gil-Galad. Obviamente, Sauron não ia ser fácil de se matar, mas os Dúnedain conheciam sua história. Aparentemente, não havia registro de nenhum Maia retornando à vida na Primeira Era. A morte para eles também era uma experiência muito potente. Como Sauron poderia ter sobrevivido? Imaginem as faces culpadas que devem ter confrontado Elendil e Isildur se eles tivessem feito essas questões a Gil-Galad e seus conselheiros. “Ei, caras, vocês não estão nos contando tudo, estão?”.

Então a Última Aliança dos Elfos e Homens teve que ser formada na base da absolvição.Isto é, Gil-Galad teria que contar a Elendil e Isildur o que estava acontecendo. E da parte deles, Elendil e Isildur tinham que perdoar Gil-Galad. Não apenas por si próprios, mas por incontáveis gerações de Homens que não podiam falar por si próprios. Em adição, eles tinham que se dar conta do que aconteceu com os Anéis de Poder perdidos. Os Nazgûl eram conhecidos por aproximadamente mil anos. Naquele tempo, os senhores Eldarin que sabiam sobre os Anéis de Poder devem ter imaginado se havia alguma conexão. De fato, quando os Nove Homens que se tornaram os espectros ainda estavam vivos, Tolkien conta que eles eram grandes reis e feiticeiros. Se eles foram famosos, será que os Elfos ouviram falar sobre seus estranhos poderes? Havia alguma curiosidade sobre eles?

Deve ter sido difícil para Gil-Galad saber tanto sobre os Anéis de Poder. Se Galadriel e ele não conseguiam achar o conhecimento que eles precisavam através de algum tipo de visão (como ela fez com o espelho em Lórien na Terceira Era), eles teriam que falar aos seus espiões e batedores o que procurar, ou eles apenas teriam que esperar e juntar bocados e pedaços de informações ao longo dos séculos.

Alguns leitores são da opinião que a rima do Anel em “O Senhor dos Anéis” deve ter sido composta logo após a Guerra dos Elfos e Sauron. Mas quem quer tenha composto a rima teria que saber quais eram os destinos dos Sete e dos Nove. Até então, não há como demonstrar que os Elfos sabiam algo sobre os Sete antes de estarem livres para falar com os Anões. Os Anões certamente não estavam andando por aí contando às pessoas que eles tinham Anéis mágicos. Então os Nove reis-bruxos que surgiram entre os Homens devem ter sido conspícuos somente em sua longevidade e sua aproximada expectativa contemporânea de vida. E ainda, se os Elfos estavam procurando por sinais dos Anéis de Poder, eles estavam procurando por Dezesseis, não Nove, ou Sete Anéis. O fato de Sauron ter pervertido os Anéis antes de distribuí-los iria, mais para frente, complicar as coisas para os Elfos. Gil-Galad pode não ter realmente entendido o que estava acontecendo até Durin IV ser convidado para a aliança.

Não sabemos com certeza se Durin IV era o Rei dos Longbeards no final da Segunda Era, mas há uma pequena evidência apontando para o seu nome. E a questão dele entrando na aliança não é fornecida. Parece que Gil-Galad e Elendil formaram sua aliança e então marcharam para Imladris. Dali, eles parecem ter mandado mensageiros para a Grande Floresta Verde, Lórien, Khazad-dûm e talvez outras regiões. Eu diria que é mais provável que Gil-Galad teria um segundo “conselho branco” em Imladris. Seria momentâneo como o Conselho de Elrond 3000 anos depois, ou talvez até mais. Nesse Conselho devem ter comparecido reis em atendimento e muitos senhores e príncipes. E seria a primeira vez que os Elfos falariam abertamente sobre os Anéis de Poder para todos os seus aliados.

Seria natural para os convidados querer saber por que eles deveriam se unir à aliança. Sauron vinha aterrorizando a Terra-Média por um longo período de tempo. Mas a sua morte em Númenor e reaparecimento 100 anos depois indicou que ele não estava apenas indo embora. E devido ao fato do problema dos Anéis ter se originado na Terra-Média, pode ser que quaisquer apelos a Valinor tenham chegado em ouvidos surdos. Os Elfos criaram o problema e precisavam resolve-lo. Mas eles não poderiam fazer isso sozinhos. E não serviria para nenhum propósito para os vários reis não-Eldarin proferir recriminação após recriminação. Principalmente uma vez que Celebrimbor e os forjadores dos Anéis estavam todos mortos. As pessoas verdadeiramente responsáveis pelo problema já haviam pagado com as suas vidas, e seu legado estava se tornando um fardo equivalente para todos.

Mas se os Elfos podiam enfrentar e admitir o que eles haviam feito, talvez os Anões fossem convencidos a confessar que foram dados Anéis aos seus ancestrais. Pode ser que Gil-Galad foi capaz, junto com a ajuda de Durin, trazer todos os Sete senhores dos Anões a Imladris. E ao ouvir que os Elfos tinham traído todos não uma vez, mas duas, a maioria dos Anões deve ter escolhido se afastar. Eles manteriam seus Anéis, que obviamente não iam prolongar suas vidas, ou transforma-los em espectros. E eles deixariam o mundo decidir seus próprios assuntos. Isso parece uma atitude bem típica dos Anões. Somente os Longbeards desenvolveram alguma real afinidade com os Eldar, mas os Nogrodians tinham um antigo motivo de rancor para com os Eldar. Os Quatro grupos do leste devem ter sido a minoria, mas eles certamente tinham pouca, senão nenhuma, conexão com os Elfos e os Dúnedain.

Então, deve ser que a rima dos Anéis foi criada nos anos iniciais da Última Aliança. Mais provavelmente foi composta em Imladris, logo após (senão durante) qualquer outro conselho que Gil-Galad realizara com os outros soberanos da Terra-Média. A natureza dos Nazgûl e a possessão dos Nove Anéis desaparecidos deveriam ser inferidas, mas era, a essa altura do tempo, certeza de quem estava com os Anéis. E o melhor segredo guardado da Terra-Média já não era mais de fato um segredo. No entanto, Gil-Galad não teria divulgado quem possuía os Três Anéis. Para mantê-los em segurança, ele deu seus dois Anéis a Elrond e Círdan. No entanto, a rima dos Anéis diz que os Três foram concedidos aos reis Élficos. O compositor da rima, portanto, não poderia ter sabido onde os Três estavam. Ele (ou ela) deve ter acreditado que Gil-Galad, Oropher e Amdir possuíam os Três. Convenientemente, todos os Três morreram em guerra, e ninguém reinvidicou os Três de seus corpos. Então os Elfos e seus aliados devem ter ficado em dúvida sobre quem tinha os Três logo após a morte de Gil-Galad. E essa dúvida seria refletida na rima do Anel se tivesse sido composta após a morte de Gil-Galad.

E isso nos traz à Terceira Era. A Última Aliança foi vitoriosa, e os vencedores semp
re escrevem as histórias das guerras. Sábios em Arnor, Gondor, Khazad-dûm e outras terras devem ter registrado muitas coisas sobre guerras. As bibliotecas de Arnor foram eventualmente perdidas ou destruídas. A sabedoria de Gondor declinou, e a maioria de seu povo esqueceu a maior parte de sua história. Khazad-dûm foi tomada por um balrog, e a maioria do povo de Durin se dispersou ou foi morta. No entanto, algumas pessoas preservaram a sabedoria de antigos eventos aqui e ali. Se a maioria dos homens de Arnor e Gondor em certa época entendeu sobre o que era a Guerra da Última Aliança, eles teriam passado a sabedoria para frente. Pois ainda havia Anéis de Poder ali, e eles eram coisas perigosas.

No fim da Terceira Era, Gandalf tinha poucos recursos para consultar em questões da sabedoria dos Anéis, mas Saruman havia sido o especialista. Ele pode ter achado muitos arquivos que Gandalf não tinha acesso. E Elrond deve ter tido muitas conversas com Saruman sobre os Anéis e aqueles que os fizeram. Ele, sem sombra de dúvidas, conhecera Celebrimbor pessoalmente, e deve ter conhecido alguns outros ferreiros do Anel. Outros membros da casa de Elrond, ou talvez senhores Élficos próximos, assim como Gildor Inglorion, podem ter sido capazes de contar a Saruman sobre a estada de Sauron em Eregion. Algo que Tolkien não nos conta é se Saruman acumulou sua própria biblioteca em Orthanc, após ele ter se estabelecido lá, com cópias de livros e pergaminhos, preservando o conto do Anel.

Deve ter sido útil estudar o conto dos Anéis, para ser capaz de imaginar quem poderiam ser os próximos “caras maus”. Saruman (e os Eldar) não poderiam saber se Sauron pegou os Anéis de volta dos Nazgûl. Não até Gandalf descobrir que Sauron estava reunindo todos os Anéis, em 2851. Mas os Reis Anões estavam desaparecendo. Estavam eles sendo consumidos por dragões, ou caindo nas mãos de aventureiros? O conhecimento de Saruman teria sido muito útil para os Eldar e Istari, uma vez que eles precisavam entender o que Sauron havia feito com os Anéis. E eles precisavam saber quem podia brandi-los também.

No final, o conhecimento dos Anéis deve ter escasseado nos cantos mofados da elite. Os sábios da Terra-Média tinham a tendência de vir de famílias abastadas. E assuntos de contos antigos, que poderiam um dia afetar o bem estar das nações, seriam cuidadosamente acumulados e cultivados pelos senhores dessas nações. Denethor era mestre de muitos segredos, e ele parecia estar totalmente consciente do que o Anel era. O intercâmbio que Gandalf comunica no Conselho de Elrond dá a impressão que Denethor não sabia sobre o pergaminho de Isildur, mas eu não estou convencido. Gandalf não estava exatamente dividindo suas preocupações com Denethor, então por que Denethor deveria ter dividido o que ele sabia sobre os Anéis? Denethor não tinha nenhuma razão para dar informações voluntárias, informações que ele não sabia que Gandalf estava procurando.

Faramir, certamente, era leal a Gandalf, e pôde muito bem ter estado com Gandalf quando o mago estava remexendo entre os antigos registros. Se Gandald confiou em Faramir para ser discreto, então o príncipe pode muito bem ter visto o pergaminho em que Gandalf estava mais interessado, e, portanto, ele pode tê-lo estudado. Então quando Faramir conheceu Frodo e Sam, ele foi capaz de conversar sabiamente sobre o Um Anel. Ele não necessariamente divulgou tudo o que sabia de prontidão, mas Faramir parece ter concordado muito rapidamente com o plano de Gandlaf. Por que isso? Ao menos que tenham contado a ele a história completa da guerra da Última Aliança, Faramir deveria ser bem leigo. Boromir revela que ele sabia sobre o Anel no Conselho de Elrond, mas se surpreende ao saber que Isildur o pegou. É dele a declaração que “se alguma vez tal conto foi contado no Sul, já foi esquecido há tempos”, o que nos leva a crer que ninguém em Gondor lembra do Um Anel.

A resposta deve ser que Boromir somente prestou atenção aos fatos do caso. Isto é, ele estava, provavelmente, somente interessado nos detalhes do poder, e não nas motivações que levavam à criação, nem nos eventos que o cercavam. Boromir era um guerreiro de coração e não muito um sábio de fato. Então Boromir passa uma primeira impressão pobre no leitor até então, enquanto os sábios de Gondor estão preocupados. Faramir conta a Frodo e Sam que a ele e seu irmão foi contada a estória de sua cidade e condados, e que os Stewards preservaram muita sabedoria antiga que somente poucas pessoas acessaram.

O fato da existência do Um Anel (e a existência de um grupo geral de “Anéis de Poder” mágicos) era assim, se não parte da sabedoria comum, então um fato ainda bem conhecido aos soberanos e as classes elitistas da Terra-Média de uma época. Até mesmo Glóin parece saber algo sobre os Anéis quando ele fala no Conselho de Elrond, embora ele saiba menos sobre os Anéis Élficos do que ele indica saber. Pode ser que Dáin tinha aberto a biblioteca de Erebor e havia dado informações a Glóin. Mas Glóin era primo de Dáin, um membro da família real. Parece pouco provável que ele seria completamente excluído dos registros de família. Ele provavelmente sabia tanto sobre a história geral dos Anéis de Poder quanto os mais sábios nobres de seus dias.

O conhecimento dos Anéis de Poder não estaria disponível entre as pessoas mais novas e nações. Os Homens do Norte eram antigos, mas suas culturas haviam evoluído e divergido através dos longos anos da Terceira Era. Os Rohirrim não mantiveram registros escritos, e eles não estavam interessados em questões antigas, exceto quando seus ancestrais figuravam como heróis de canções. Os Homens de Dale e os Woodmen de Mirkwood, mesmo se mantivessem alguns registros, não tinham de fato uma história antiga para sustentar um total relato sobre os Anéis de Poder. Arnor e seus reinos sucessores, Arthedain, Rhudaur e Cardolan, havían caído. Todos os que permaneceram foram os habitantes de Bri, os Hobbits do Condado e o povo de Aragorn. E os Hobbits não estavam muito preocupados com a história em absoluto, quanto mais com história antiga!

E assim que os séculos passaram, os Anéis se tornaram menos e menos importantes para os povos da Terra-Média. Sauron os queria, e o Conselho Branco sabia que eles ainda causariam uma ameaça para os Povos Livres. Mas não havia novas buscas para encontra-los, pois as pessoas que sabiam dos Anéis sabiam que eles eram perigosos. Ou ao menos elas deviam saber que grandes e terríveis guerras foram travadas devido aos Anéis no passado. A história completa provavelmente era conhecida somente por Elrond, Galadriel e Círdan, e mais provavelmente, por Saruman e Gandalf. Talvez alguns outros membros do Conselho Branco conheceram o relato completo também.
Para todos os outros, havia pedacinhos do conto passados de geração em geração.

Então, quando o primeiro ataque de Mordor foi derrotado e Aragorn e Gandalf se encontraram com Éomer e os senhores de Gondor e Rohan, eles foram capazes de falar abertamente sobre o Um Anel. Gandalf parece até mesmo ter confidenciado a Theóden um pouco sobre a jornada do portador do Anel, quando ele trouxe o rei envelhecido ao seu lado e falou com ele. Já era suficiente mencionar o Um Anel. Os Senhores sabiam sobre o que Gandalf estava falando. Eles entenderam que um grande e poderoso talismã estava sendo arriscado. Eles entenderam, essencialmente, que a guerra toda estava realmente sendo travada devido ao Anel.

Poderia-se dizer que gerações de nobres devem ter passado para frente o conhecimento mais básico sobre os Anéis de Poder de uma forma quase religiosamente dedicada. Quando todos os outros contos de dias antigos estavam perdidos ou esquecidos em meio a pergaminhos ilegíveis, os Homens se lembrariam de contar a seus filhos que, em uma certa época, havia um Senhor do Escuro que tinha um Anel terrível. E esse Anel era diferente de todas as outras coisas mágicas na Terra-Média. O conhecimento persistiu onde era mais preciso, então quando o dia chegou, serviu para aumentar a resolução dos Homens que tinham que enfrentar o Senhor do Escuro e rir na sua cara enquanto alguns Hobbits saíam correndo ao lado do Orodruin. Ninguém realmente precisava entender a história dos Anéis para lembrar que eles existiam. As pessoas estavam conscientes de que eles existiam, de uma forma geral e vaga. Mas os longos anos e as devastações arruinaram os Homens, Elfos e Anões que serviram para guardar o segredo contra a antiga vergonha dos Eldar.

Tradução de Helena ´Aredhel´ Felts

valinor

Ele deverá ser como uma árvore plantada ao longo de rios de água

As árvores da Terra Média revelam o profundo amor de Tolkien pelos graciosos gigantes da natureza. Mas apesar de os Ents defenderem a causa das árvores num mundo de lenhadores de duas pernas, eles parecem ter revelado um pouco mais sobre eles. Devemos aumentar as palavras de Tolkien com nossas imaginações, uma vez que estamos prestes a contemplar todas as árvores dos silenciosos e selvagens bosques.
 

Como os Ents foram parar na Floresta Fangorn? Como, e quando, eles fizeram a jornada através da Terra Média para o extremo sul das Montanhas Cinzentas? E por que eles se moveram por todo esse caminho até lá? Fangorn conta a Merry e Pippin que ele uma vez vagou pelos prados de salgueiro de Tasarinan. Prados de salgueiro é uma expressão curiosa, uma vez que árvores não crescem em prados. Porém, Tolkien adorava espalhar salgueiros por toda a Terra Média, ao longo de rios e lagos. E salgueiros realmente crescem junto de rios e lagos.

O salgueiro há muito tempo tem sido usado como um símbolo de arrependimento e amor perdido na literatura Inglesa. Quando Fangorn conta sobre sua juventude em Beleriand, ele começa com os prados de salgueiro de Tasarinan (Nan-Tathren no mapa de Beleriand, uma região entre as fozes do Sirion e seus Portões, para o sul de Doriath). Quando Frodo e Sam vagam por Mordor e estão com sede, Sam pensa melancolicamente, onde eles pararam em sua jornada, em salgueiros ao lado de rios. E quando Théoden conduz os Cavaleiros de Rohan fora de Harrowdale, eles passam por salgueiros ao longo do Riacho de Neve..
A mais poética descrição de salgueiros na Terra Média é provavelmente a descrição de Voronwë, de Nan-Tathren, para Tuor em “De Tuor e sua chegada a Gondolin”:

…Naquela terra o Narog se une ao Sirion, e os dois não mais se apressam, mas seguem largos e silenciosos através de prados cheios de vida; e em toda a volta do rio reluzente há lírios como um bosque em flor, e a relva é repleta de flores, como pedras preciosas, como sinos, como chamas de vermelho e ouro, como uma extensão de estrelas multicoloridas em um firmamento verde. Porém o mais belo de tudo são os salgueiros de Nan-Tathren, de um verde-pálido, ou prateados ao vento, e o farfalhar de suas inúmeras folhas é um encanto de música: o dia e a noite passavam palpitando, sem conta, enquanto eu ainda me detinha, submerso em relva até os joelhos, a escutar. Lá fui encantado, e esqueci o Mar em meu coração…

Apesar de toda sua beleza e felicidade, no entanto, Nan-Tathren parece nunca ter atraído uma população élfica permanente. Tuor e Idril conduziram os exilados de Gondolin para a região e permanecerem ali por um tempo, realizando banquetes e fazendo canções de arrependimento e mágoa por Gondolin, e para lembrar a coragem de Glorfindel. Mas eles não continuaram por muito tempo na região.

A canção de Fangorn para os Hobbits fala que ele ficaria em Nan-Tathren (Tasarinan – ele preferia usar Quenya) na primavera, e dali passar ao leste para Ossiriand, para vagar pelos bosques de olmo. No outono ele vagaria em Neldoreth, uma das florestas de Doriath, e dali passaria ao norte para Dorthonion no inverno.

É fácil inferir que os Ents rodearam Beleriand durante a Primeira Era, mas também deve-se perguntar como ou quando. Doriath era supostamente impenetrável, porém os Sindar podiam passar livremente para dentro e fora. Talvez Melian, sabendo quem e o que os Ents eram, permitiram que eles passassem livremente. Mas a antiga canção dos Ents não deve realmente retratar um modelo ou rota que qualquer Ent deve ter vagado em Dorthonion depois da Dagor Bragollach, quando Sauron conduziu um exército de Angband até a região mencionada.

Em todas as probabilidades, os Ents devem ter se retirado para Ossiriand. Ali, aliados com os elfos verdes e talvez com alguns dos feänorianos, eles teriam ajudado a manter a região livre do poder de Morgoth. Os Ents estavam, desta maneira, disponíveis a ajudar a destruir o exército de Nogrod quando retornou de Doriath, embora a estória da destruição de Doriath nunca foi totalmente desenvolvida para o Silmarillion. Por que os Entes deveriam ajudar a destruir um exército de anões? Tolkien não dá nenhuma resposta, apesar de que pode-se supor que no saque de Doriath muitas árvores teriam sido destruídas, acordando a raiva dos Ents.

Ossiriand teria se tornado populosa com antecedência na Segunda Era, no entanto. Não somente moravam os elfos verdes ali, como também os Sindar e Noldor, e por um tempo alguns dos Edain moraram na região. Os Ents devem ter se retirado para o leste do outro lado das montanhas para Eriador a fim de encontrar um pouco de paz. É claro, havia alguns Sindar que os haviam precedido, mas já havia muitos elfos Nandorin e Homens também.

Fangorn fala de um tempo onde uma enorme floresta se estendeu a partir das Montanhas Sombrias para as Montanhas Azuis (Ered Luin): “… Aqueles foram dias grandiosos! Houve um tempo em que eu podia caminhar e cantar o dia todo e escutar apenas o eco de minha própria voz nas concavidades das colinas. As florestas eram como a floresta de Lothlórien, apenas mais densas, mais fortes, mais jovens. E o aroma de ar! Eu costumava passar uma semana só respirando.

Os Ents parecem ter gostado de sua privacidade, de seu tempo quieto nos bosques. Então eles naturalmente evitaram o abarrotamento da civilização. Até os Elfos eram grandes construtores de cidades, e os marinheiros de Círdan eram lenhadores que necessitavam de madeira para seus navios. Especialmente os Ents não estavam muito contentes com os Falathrim ou quaisquer Elfos que usavam madeira extensivamente.

Por outro lado, as Entesposas eram muito organizadas, e até certo ponto em suas andanças, elas se dispersaram dos Ents. É impossível dizer quando a separação dos Ents e das Entesposas começou, mas é bem possível que tenha começado depois dos Ents terem se estabelecido nos bosques que se tornaram a Floresta Fangorn. E quando os Ents se estabeleceram nesse local? Provavelmente por volta desta época os Sindar estavam migrando em direção ao leste e estabelecendo reinos nos Vales do Anduin. “Os limites de Lórien” (Apêndice C de “A História de Galadriel e Celeborn” em Contos Inacabados) conta que “Pois a lenda relatava que o próprio Fangorn se encontrara com o Rei dos Galadhrim em dias antigos, e Fangorn dissera: – Conheço o meu, e você conhece o seu; que nenhum dos lados moleste o que é do outro. Mas se um elfo desejar caminhar na minha terra por prazer, será bem vindo; e se um ent for avistado na sua terra não tema nenhum mal.

Por que havia necessidade de Fangorn estabelecer limites sobre os Elfos, e dividir as terras? A resposta deve ser que os Ents vivenciaram certo atrito até mesmo com os Elfos, e esse atrito deveu-se ao uso de árvores. Os Elfos de Lórien usavam as árvores assim como a maior parte das pessoas as utiliza: eles constroem casas, móveis e barcos.
Os Ents devem ter percebido que até certo ponto não podiam mais contes os Elfos e Homens em Eriador, então eles retiraram-se para os bosques ao sul e estabeleceram um acordo aonde as árvores poderiam crescer livres e selvagens.

Mas Fangorn também conta a Merry e Pippin que havia lugares na floresta onde as árvores eram antigas, algumas até mais velhas que ele, e a sombra nunca aterrisou sobre elas. A sombra, ou escuridão, a qual ele se refere parece ser de Morgoth e não Sauron. Fangorn fala de um tempo onde os Elfos começaram a fugir para o Mar. Isso só pode se referir ao período após a Guerra dos Elfos e Sauros. Mas desde que ele próprio vagou por Beleriand, e relembrou de Tasarinan, ele era mais velho que a guerra. Portanto, as árvores que eram mais velhas que ele estiveram vivas por séculos, talvez milênios, antes que Sauron invadisse Eriador.

Também, se os Ents estiveram presentes em Eriador quando Sauron queimou as florestas, eles deveriam relembrar a catástrofe e se opor a Sauron diretamente. Ao invés disso, Fangorn somente sabe que as florestas foram destruídas. Ele e seu povo parecem ter estado habitando próximos ao fim das Montanhas Sombrias quando Sauron invadiu Eriador. Então a migração Ent ocorreu primariamente à Guerra dos Elfos e Sauron, e dessa forma parece lógico que os Ents procuraram uma terra onde eles poderiam obter algum benefício (dissipando a escuridão antiga das árvores ou evitando que as árvores más machucassem inocentes e espalhassem o mal), assim como estabelecendo um refúgio onde as árvores pudessem ser protegidas e alimentadas.

De sua parte, as Entesposas parecem ter morado próximo do extremo sul das Montanhas Sombrias dos primeiros dias. Fangorn conta a Merry e Pippin que as Entesposas cruzaram o Anduin “quando a escuridão veio para o Norte”. O evento o qual se refere só pode ser o retorno de Morgoth a Terra-Média, e o estabelecimento de Angband. O poder de Morgoth se estendeu através de toda a Terra Média, mas após os Noldor retornarem à Terra Média, ele começou a concentrar sua atenção em Beleriand. Então deve ter havido um breve período em que Morgoth encontrou os jardins das Entesposas e as ameaçou ou as importunou.

Mas a situação das Entesposas levanta uma interessante questão: o que elas estavam fazendo ali em primeiro lugar? A resposta deve ser que a Floresta Fangorn representa não apenas o último refúgio dos Ents na Terceira Era, mas também a terra de sua origem. Fangorn diz que os Elfos originalmente acordaram os Ents e os ensinou linguagem. Os elfos poderiam ter feito isso em Cuiviénen, mas Fangorn nunca menciona Cuiviénen, e Ents nunca estão associados com Cuiviénen. Também, a Grande Jornada marca o início da real expansão e curiosidade Élfica. Pode ser que alguns dos Eldar, ou talvez alguns dos Nandor, acordaram os primeiros Ents, logo que os Elfos cruzaram o Anduin.

Quando os Elfos passaram para o oeste, ou se dispersaram através de outras terras, os Entes devem ter se movido, para aprender mais sobre o mundo. As Entesposas ficaram em casa, e o eventual separatismo entre os dois sexos dos Ents começou logo cedo. Os Ents retornavam para as Entesposas de tempos em tempos, mas os dois grupos gradualmente foram à deriva. Finalmente, as Entesposas cruzaram o Anduin. A passagem deve ter sido facilmente alcançada nos vaus, e as Entesposas se estabeleceram nas terras ao sul da Floresta das Trevas, e então a leste de sua floresta original. Elas deviam estar próximas dos Elfos e dos Homens, mas elas poderiam ter permanecido relativamente intactas.

Na Segunda Era, como os Ents se retiraram para o leste de sua antiga morada, eles acharam antigos bosques infectados pelos mal e que as Entesposas haviam partido. Mas eles continuaram tendo contato com as Entesposas durante um tempo. A separação final deve ter sido o resultado final de Guerra dos Elfos e Sauron. Os Ents observaram enquanto o mundo revolvia-se em tumultos ao redor deles. Pois Sauron não apenas invadiu Eriador, ele mandou exércitos de Mordor para marchar ao norte para destruir as pessoas Edaínicas das Terras Selvagens, assim como quaisquer reinos Élficos que pudessem alcançar. Provavelmente, os Ents permaneceram na Floresta Fangorn pelo resto da Segunda Era. Eles prestaram pouca atenção quando a Última Aliança dos Elfos e Homens marchou ao sul contra Mordor. Mas um dia Fangorn decidiu visitar seu antigo amor Fimbrethil, e passando ao leste através dos Vaus ele chegou a uma terra devastada pela guerra. As Entesposas haviam partido, e seus jardins haviam sido destruídos.

E então começou uma aventura que deve ter durado mil anos. De vez em quando os Ents arriscavam-se para adiante e perguntavam às pessoas se haviam visto as Entesposas. Certamente, os Ents nunca encontraram as Entesposas. Quando questionado sobre elas por um leitor, Tolkien respondeu:

Eu acredito que de fato as Entesposas desapareceram pelo bem, sendo destruídas com seus jardins na Guerra da Última Aliança (Segunda Era 3429-3441), quando Sauron lutou por uma política de terra seca e queimou a terra delas contra o avanço dos Aliados abaixo do Anduin (vol.II p.79 refere-se a isso). Elas sobreviveram somente na “agricultura” transmitida aos Homens (e Hobbits). Algumas, é claro, devem ter escapado para o leste, ou até se tornado escravizadas: tiranos mesmo em tais contos devem ter um fundo econômico e agricultural para seus soldados e metalúrgicos. Se alguma então sobreviveu, elas estariam bem diferentes dos Ents, e alguma reaproximação seria difícil – a não ser que a experiência da agricultura militarizada e industrializada tenha as tornado um pouco mais anárquicas. Eu espero que sim. Eu não sei. (Letter 144)

A procura dos Ents pelas Entesposas inspirou muitas músicas e canções, e até mesmo Aragorn parecia saber algo da longa procura dos Ents, pois ele disse a Fangorn que novas terras seriam abertas a ele. Fangorn naquela altura tinha pouca esperança de encontrar sua amada Fimbrethil novamente, e ele pode nunca ter deixado seus bosques na Quarta Era. Os Ents parecem se contentar em permanecer no bosque selvagem, e vigiar Orthanc, para assegurar que o mal nunca retornará àquela região.

Naturalmente, as pessoas rapidamente notam que os Ents ou criaturas do tipo moravam próximos do Condado. E quando Fangorn questiona Merry e Pippin sobre sua terra, ele concluiu que seria uma terra favorável para as Entesposas. Mas não havia Entesposas no Condado, e é improvável que elas já tenham se estabelecido lá. A famosa árvore andante de Sam, que é reportada por seu primo Hal, poderia de fato ser uma árvore andando e não um Ent. As árvores da Floresta Velha podiam se mover, o que Frodo e seus companheiros aprenderam quando perderam seu caminho em meio aos bosques zangados. Mas não havia Ents na Floresta. Apenas árvores antigas como o Velho Salgueiro e outras curiosas, perigos inominados. Árvores podiam acordar por si próprias, por razões inexplicadas. Fangorn descreveu o processo para Merry e Pippin:

As árvores e os Ents – disse Barbárvore. – Eu mesmo n&ati
lde;o entendo tudo o que está acontecendo, por isso não posso lhes explicar. Alguns de nós ainda somos ents verdadeiros, e bastante vivos à nossa própria maneira, mas muitos estão ficando sonolentos, ficando arvorescos, por assim dizer. A maioria das árvores são árvores verdadeiras, é claro; mas muitas estão semi-acordadas. Outras estão bastante acordadas, e algumas estão, bem, ah, bem, ficando entescas. Isso está acontecendo o tempo todo.

Quando isso acontece a uma árvore, você descobre que algumas têm corações maus. Não tem nada a ver com a madeira: não quero dizer isso. Vejam, eu conheci alguns bons salgueiros velhos, descendo o Entágua, que se foram há muito tempo, infelizmente! Estavam bem ocos, na verdade estavam caindo aos pedaços, mas eram tranqüilos e falavam suavemente como uma folha jovem. E também há algumas árvores nos vales sob as montanhas, vendendo saúde e totalmente más. Esse tipo de coisa parece estar se espalhando. Costumava haver umas partes muito perigosas neste lugar. Ainda há alguns trechos muito negros.

Numa carta para o Daily Telegraph Tolkien explicou a diferença entre as florestas na Terra Média. Um artigo associou tristeza e escuridão com os bosques de Tolkien e ele deu exceções para a comparação:

Com referência ao Daily Telegraph de 29 de Junho, página 18, eu sinto que não é justo usar meu nome associado à tristeza e escuridão, especialmente num contexto lidando com árvores. Em todos os meus trabalhos, eu assumo a parte das árvores contra todos os seus inimigos. Lothlórien é linda porque as árvores são amadas; em outros lugares as árvores são representadas como o despertar para a consciência delas próprias. A Floresta Velha era hostil com criaturas de duas pernas devido às memórias de antigas feridas. A Floresta Fangorn era antiga e bela, mas naquele momento tenso da estória, com hostilidade porque estava ameaçada por um inimigo amante das máquinas. A Floresta das Trevas declinou diante da dominação do Poder que odiou todos os seres vivos, mas foi restaurada e se tornou a Floresta das Trevas antes do final da estória.

É difícil pensar em Beren encantado pela beleza e graça de Lúthien em uma floresta triste e escura, ou em Finrod olhando os ancestrais de Beren dormindo numa floresta esquecida, condenada e cheia de ódio. Os bosques de Doriath, Ossiriand, e até os do Condado são amistosos e locais abertos. Seus habitantes devem ser insulares e protetores de suas terras e vidas, mas eles não são possuídos pela malícia. A Floresta Velha e a Floresta Fangorn herdaram alguns toques do mal dos dias de Morgoth. Mas ao passo que os Ents retornaram a Fangorn para purificar ou vigiar seus bosques ancestrais, a Floresta Velha foi roendo a si mesma com malícia, pelo menos até que Tom Bombadil decidiu se estabelecer por ali. Gandalf observou no Conselho de Elrond que Bombadil havia se “retirado para uma região pequena, dentro de limites que ele mesmo fixou, embora ninguém consiga enxerga-los, talvez esperando uma mudança dos dias, e não sai dali.” Bombadil contou a Frodo e seus companheiros que ele, Bombadil, nunca poderia sair de sua terra, pois ele deveria vigia-la. O mal da Floresta Velha e das Colinas dos Túmulos havia se tornado tão grande que Bombadil se sentia obrigado a checa-la constantemente.

Mas apesar de que as Colinas dos Túmulos terem sido mandadas para infestar os antigos montes dos Dunedain por ambos Sauron ou o Senhor dos Nazgul, por que a Floresta Velha se tornou escura e ameaçadora? Tolkien notifica que os bosques mantinham “a memória de muitas feridas”. O que eram essas feridas? Nós podemos apenas ter certeza de algumas. A queimada das florestas de Eriador por Sauron deve ter começado o vagaroso processo. De algum modo, poucos lugares como A Floresta Velha e Eryn Vorn sobreviveram à destruição provocada pela guerra. Mas ao passo que alguns dos Gwathuirim (homens relacionados ao Dunlendings e os Homens de Brethil em Beleriand) se retiraram a Eryn Vorn, e sem sombra de dúvida deram seu amor aos bosques como os melhores homens são capazes, nenhum homem se retirou à Floresta Velha.

Milhares de anos antes, homens se refugiaram na Floresta Velha. Na Guerra de 1409 na Terceira Era, o reino de Angmar invadiu Cardolan. Os Dunedain se retiraram para o oeste de suas casas nas Colinas do Sul. Alguns dos Dunedain resistiram nos montes de Tyrn Gorthad, mas alguns fugiram para a Floresta Velha. Ali a luta foi violenta, e talvez muitas árvores foram perdidas ou feridas. Um retiro similar deve ter ocorrido quando Angmar finalmente destruiu o reino de Arnor. Muito do povo de Arnor foi destruído, mas alguns fugiram para se esconder. A Floresta Velha pode provavelmente ter servido de refúgio. E séculos depois, os Buqueburgos cruzaram o rio Brandevin a partir do Condado e colonizaram uma faixa de terra adjacente à Floresta Velha. Os hobbits e as árvores entraram em conflito, e Merry conta que houve uma batalha de resolução. Os Hobbits queimaram muitas árvores e cresceram o feno para ser uma barreira entre sua terra e a Floresta. Mas Hobbits ainda ocasionalmente arriscam-se a entrar na Floresta Velha. Ali ainda podem acontecer alguns poucos acidentes.

Sem Ents para vigiá-la, e com Bombadil apenas checando o mal, procurando nem destruir nem domina-la, a Floresta Velha se ferveu com malícia e a “memória de muitas feridas”. Algumas das árvores se tornaram Entescas, como Fangorn diz. E sem dúvida alguma, de quando em quando, algumas delas, saiu vagando por terras selvagens. Talvez elas acharam um bom pedaço de terra e por fim se estabeleceram. Talvez elas foram destruídas por terríveis criaturas de duas pernas ou pior. Mas ainda havia uma pequena esperança de que os Ents encontrassem as Entesposas novamente, então deveria haver uma pequena esperança de uma reconciliação da Floresta Velha com as criaturas de duas pernas. Finalmente, Tom Bombadil desistiria de sua função e prosseguiria com sua vida.

Se existia algum povo que mantinha grandes esperanças de qualquer coisa relacionada às árvores, este seria os Elfos. Fangorn observa que os Ents e os Elfos cresceram à parte. Mas no final da Terceira Era e no começo da Quarta Era, a cultura Élfica era substancialmente diferente do que das Eras iniciais. As sábias civilizações Eldarin foram reduzidas a alguns encraves. Os Elfos Silvan de Floresta das Trevas eram o maior e mais poderoso grupo. E muitos dos Noldor haviam ambos se tornado nativos, para falar, como Galadriel, ou estavam apenas permanecendo na prazerosa memória dos dias passados, como o povo de Gildor. Quando Legolas e Gimli visitaram a Floresta Fangorn após a Guerra do Anel, pode ser que uma fase final de amizade e entendimento tenha começado entre os Ents e os Elfos, e até mesmo entre os Ents e os Anões.

Mas tais tréguas ou retomadas de amizades poderiam apenas ser temporárias. Não há dicas sobre o que fez-se dos Ents e das Entesposas, salvo apenas em uma canção Élfica em que Fangorn lem
brou com prazer para dividir com Merry e Pippin. A canção tentava representar a divisão do povo Entes, mas Fangorn notou que era “Élfica, é claro: alegre, com poucas palavras e curta.” Após descrever a diferença entre os Ents e as Entesposas, a canção oferecia uma esperança de reconciliação. Juntos pegaremos a estrada de leva ao Oeste, e ao longe encontraremos uma terra onde ambos nossos corações poderão descansar.

Esse Oeste só pode ser Aman, e como tal, representa uma esperança Élfica, ou melancolia. Galadriel, em sua separação com Fangorn, o avisa que eles não voltarão a se encontrar “até que as terras que estão embaixo das ondas estarão levantadas novamente”. Ela não considerava a passagem de nenhum Ent pelo Mar. E não deveria passar nenhum. Ilúvatar criou os Ents para vigiar as árvores da Terra Média. Em Aman eles não seriam necessários, apesar de que talvez seus espíritos, após morrerem, pode ter sido reunido ali por Namo. Não há realmente nada de misticismo Ent em nenhuma das discussões de Fangorn com as pessoas. Não sabemos se para eles existe uma outra vida, ou preocupações espirituais. Mas eles eram encarnados racionais, como Tolkien mesmo colocou, e eles entendiam o arrependimento, a perda e até mesmo a esperança. Então talvez, quando Elrond, Galadriel, Gildor, Frodo, Bilbo e Gandalf rumaram para o Mar no fim da Terceira Era, no momento em Sam, Merry e Pippin observaram eles desaparecem na distância na Estrada para os Portos Cinzentos, havia olhos antigos vigiando a partir das árvores, dando silenciosas despedidas às antigas amizades e vínculos.

E talvez, apenas talvez, os Elfos e os Hobbits plantaram salgueiros em Lindon e no Condado, ao longo das margens gramadas dos rios, em memória dos antigos bosques e seus orgulhosos pastores. Até mesmo as Entesposas teriam gostado, apesar de que nada poderia ser comparado à beleza dos prados de salgueiro de Tasarinan na Primavera. A vanimar, vanimalion nostari. Namarie!


Tradução de Helena ´Aredhel´ Felts