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… Mas livrai-nos do mal

Nunca fiz uma pesquisa exaustiva sobre as razões que levam as pessoas a
gostarem de O Senhor dos Anéis ou da obra tolkieniana em geral, embora
já tenha tido ocasião de perguntar a isso a especialistas em Tolkien ou
a colegas fãs e amigos em geral. Acho que é mais ou menos seguro
assumir que não há uma razão única ou mesmo geral: toda boa obra de
literatura é polissêmica (jeito afetado de dizer que ela permite vários
níveis e dimensões de leitura e interpretação), e num colosso de mais
de mil páginas como a Saga do Anel essa dimensão ainda é mais clara.
 
 
 
Mesmo assim, gostaria de conversar com vocês sobre
o que talvez seja a faceta que mais ajudou a tornar o livro parte da
minha vida, algo que eu ainda vou entesourar quando estiver desdentado,
careca e incapaz de usar a privada sozinho. Falo da dimensão moral e
espiritual da história e, em particular, do clímax: o “fracasso� de
Frodo nas Sammath Naur e a sua salvação (e a de toda a Terra-média)
pelas mãos de alguém tão aparentemente odioso quanto Gollum.

Nunca é demais dar uma olhada nas famosas cartas do homem do cachimbo,
The Letters of J.R.R. Tolkien, editadas por Humphrey Carpenter e
Christopher Tolkien. É impressionante o grau de dedicação e
seriedadeque Tolkien despende para responder indagações de simples fãs,
e os insights profundos sobre seu trabalho que ele não hesitava em
compartilhar. É em duas dessas cartas, ambas escritas em 1956, que ele
esclarece qual a chave em que devemos ler a cena-clímax do romance: “Eu
diria que, dentro do espírito da história, a catástrofe exemplifica (um
aspecto das) palavras familiares: Perdoai as nossas ofensas, assim como
nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixeis cair em
tentação, mas livrai-nos do mal�.

“Não nos deixeis cair em tentação etc. é o pedido mais difícil e menos considerado�, diz Tolkien. “O
ponto de vista, nos termos da minha história, é que embora todo evento
ou situação tenha (pelo menos) dois aspectos, a história e o
desenvolvimento do indivíduo (algo do qual ele pode conseguir o bem, o
bem supremo, para si mesmo ou falhar) e a história do mundo (que
depende das ações dele em si mesmas) – ainda assim há situações
anormais em que alguém pode ser colocado. Eu as chamaria de situações
sacrificiais�
.

Posições como essa espelham o que Frodo
sofreu diante das Sammath Naur: um contexto no qual alguém como ele
está fadado a fracassar, porque o que se exige está muito além do que
pode fazer a força de corpo ou de espírito que ele possui. Em certo
sentido, a Demanda estava destinada a falhar desde o começo, confessa
Tolkien: alguém com maior poder natural teria sucumbido à tentação do
Anel muito antes; um sujeito com a humildade e a integridade de Frodo
sucumbiria na hora final. É uma armadilha da qual não há escapatória. O
único resultado possível para o hobbit era a traição, ainda que
involuntária. “E cheguei até receber uma carta selvagem, gritando que
ele deveria ser executado como traidor, e não honrado�, conta Tolkien.

O autor vai além: compara a situação em que Frodo foi colocado aos
sofrimentos das pessoas torturadas por regimes ditatoriais, uma coisa
tristemente comum no mundo que Tolkien conhecera durante a Segunda
Guerra Mundial e a Guerra Fria que se seguiu. “Não imaginei que, antes
que a história fosse publicada, entrássemos numa era sombria em que a
técnica de tortura e de distorção da personalidade passasse a rivalizar
com a de Mordor�, lamenta o Professor.

O resultado final, do ponto de vista da personalidade do herói, pelo menos, é que Frodo falhou inevitavelmente. “É
preciso encarar o fato: o poder do Mal no mundo não pode ser vencido,
em última instância, por criaturas encarnadas, por melhores que elas
sejam�
, diz Tolkien.

Parece uma sentença de desespero irreversível, não é mesmo? Contudo, na mesma frase, Tolkien acrescenta: “E o Autor da História não é um de nós�. É desse jeito, explica ele, que a cena-clímax da saga precisa ser lida.

Para alguns, tal idéia pode parecer decepcionante. Já ouvi um sujeito
dizer que O Senhor dos Anéis o irritava profundamente porque os heróis
sempre pareciam escapar por pura sorte no último momento, e o mesmo se
repetia na cena final no Orodruin. “Eles nunca tem mérito ou capacidade para escapar; só se salvam por puro acaso�,
reclamava esse cara. Tá na cara, contudo, que só uma leitura
superficial pode passar essa impressão. Foi exatamente o mérito de
Frodo, a sua compaixão por Gollum, junto com Algo (ou Alguém) que está
muito acima do acaso, que o salvaram na sua hora final, como explica
Tolkien.

“A salvação do mundo e a salvação do próprio Frodo
é conseguida graças à sua piedade anterior e ao seu perdão anteriores.
Em qualquer momento, qualquer pessoa prudente teria dito a Frodo que
Gollum certamente o trairia, e que poderia roubá-lo no fim. Ter pena
dele, evitar matá-lo, foi um ato de insensatez, ou uma crença mística
no valor último da piedade e da generosidade em si mesmas, mesmo se
elas forem desastrosas no mundo do tempo. Ele [Gollum] realmente o
roubou e feriu no fim – mas por uma graça, essa última traição foi no
momento preciso em que esse ato de maldade final foi a melhor coisa que
alguém poderia fazer a Frodo! Numa situação criada pelo seu próprio
perdão, ele foi salvo, e aliviado de seu fardo�
.

A gente
sabe que o mundo real, aparentemente, não é tão certinho quanto o mundo
da história. O Autor da História às vezes parece distante ou, pior
ainda, parece ter emprestado sua pena a alguém bem menos sábio e justo.

Mesmo assim, a coragem e a força moral que emana dos heróis da ficção
pode servir de fonte de inspiração e firmeza – porque todos nós, mesmo
no nosso pequeno mundo, podemos um dia correr o risco de adentrar as
Sammath Naur.

O Mundo Sarumanizado

“Acho que agora entendo o que ele [Saruman] está
querendo. Ele está planejando tornar-se um Poder. Ele tem uma mente de
metal e engrenagens, e não se importa com coisas que crescem, exceto
enquanto elas o servem no momento� [As Duas Torres, cap. “Barbárvore�].

 

 

 
Isso é Saruman. Não consigo achar outra definição
mais clara do sujeito do que a feita por Barbárvore; afinal, o velho
Fangorn estava entre os que mais sofreram na mão do antigo líder do
Conselho Branco. Até aí tudo bem. O problema é perceber o papel que a
figura de Saruman desempenhava na visão de mundo de Tolkien: o de uma
metáfora para todas as mazelas que a interferência tecnológica na
natureza causava à Terra e ao próprio homem.

Antes que alguém apareça para esfregar o Prefácio de O Senhor dos Anéis
nas minhas fuças, reafirmando pela enésima vez que o livro não é uma
alegoria, já aviso que concordo plenamente. O que não pode ser negado,
porém, é a aplicabilidade do texto tolkieniano [lembram dessa
palavrinha? Também está lá no Prefácio]. Tolkien tinha plena
consciência de que sua obra fornecia imagens poderosas para entender o
nosso próprio mundo, e não se esquivava a fazer uso delas em suas
cartas e conversas pessoais. E uma das imagens mais recorrentes é a da
“sarumanização� ou “sarumanismo�.

Para entender isso, não custa examinar um pouco as origens e a evolução
de Saruman dentro da mitologia [ou legendarium, como Tolkien gostava de
dizer]. Um fato curioso, por exemplo, é que Saruman [na origem o Maia
Curumo] pertencia ao povo de Aulë, o mais criativo e irrequieto dos
Valar; o mesmo, aliás, acontecia com o próprio Sauron.

Essa “filiação� dos dois Maiar explica muita coisa sobre suas atitudes.
Em O Silmarillion, ficamos sabendo que Aulë sempre foi cheio de
impaciência e vontade criadora, querendo que os desígnios de Eru se
realizassem rapidamente. Sua tentativa de “dar um empurrãozinho� no
surgimento dos Filhos de Ilúvatar criou os Anões, que foram
incorporados à história de Arda graças à misericórdia do Único e à
humildade de Aulë. Com efeito, “o deleite e o orgulho de Aulë estão no
ato de criar, e na coisa feita, e não na posse ou no domínio� [O
Silmarillion, “Ainulindalë�].

Na origem, Saruman não devia ser diferente de Aulë: um espírito de
criatividade e habilidade, voltado para a organização e a
aperfeiçoamento do mundo, mas não para a tirania. E foi com esse
propósito que ele foi enviado à Terra-média pelos Valar: utilizar sua
sabedoria da melhor maneira possível para orientar os Povos Livres, mas
não para submetê-los a seu domínio. Essa era a missão dos Istari ou
Magos.

Porém, confrontado com as dificuldades e inseguranças de sua missão,
Curunír não ficou imune às tentações do poder. Quando fixou residência
em Isengard, o desejo de usar o palantír de Orthanc deve ter se tornado
quase insuportável – e então ele confrontou diretamente Sauron. “Se
você olhar para o abismo, o abismo olhará de volta para você�,
costumava dizer Nietzsche, e foi o que aconteceu. Tolkien explica, no
livro Morgoth’s Ring, que Sauron podia entender e prever as ações com
relativa facilidade, pois ambos haviam sido muito parecidos no início.
Sob a influência do Olho de Barad-dûr, o desejo de ordem e conhecimento
de Saruman sofreu uma aterradora mutação: se transformou também num
desejo de domínio. O Círculo de Angrenost, antes repleto de jardins e
árvores frutíferas, se transformou numa fábrica infernal, na qual a
fumaça e o fedor das fornalhas, o girar de engrenagens e o bater de
martelos, formavam uma aterradora prefiguração de Mordor.

O espírito de Isengard, que reapareceria durante o Expurgo do Condado,
era abominável para Tolkien por uma razão que poderíamos considerar
religiosa. O Professor enxergava na ordem natural do nosso mundo a
perfeição e a sabedoria da mente de Deus, virtudes que deveriam ser
veneradas pelo homem. A corrida tecnológica, a obsessão pela máquina,
representavam para ele uma violação dessa ordem, e uma forma de
tirania; além disso, na destruição que o mundo industrial havia
provocado na Inglaterra de sua infância, ele enxergava uma imensa falta
de imaginação, uma incapacidade do homem de atuar como sub-criador, e
não como destruidor.

O grande medo de Tolkien era que o “sarumanismo� conduzisse a
humanidade a um beco sem saída ecológico, moral e espiritual. Mesmo
assim, ele não deixou de expressar seu alerta e sua esperança, falando
a fãs holandeses, em 1958: “Olho para o leste, oeste, norte e sul, e
não vejo Sauron; mas vejo que Saruman tem muitos descendentes. Nós,
hobbits, não temos armas mágicas contra eles. No entanto, meus
gentis-hobbits, faço-lhes este brinde: aos hobbits. Que eles perdurem
além dos Sarumans e vejam outra vez a primavera nas árvores�.

Puristas versus fãs – uma falsa oposição

O assunto é velho, eu sei: boa parte dos meus colegas aqui na Valinor
já tratou, num momento ou noutro, da relação entre o livro “O Senhor
dos Anéis� e a adaptação milionária (em gastos e lucros) que Peter
Jackson fez deles. Mesmo assim, ainda sinto que algo falta ser dito a
esse respeito – algo que me pareceu estranhamente de fora da discussão
sobre tema parecido feita recentemente no Fórum Valinor (valeu, Gildor
e todo o pessoal, pela inspiração trazida pela conversa de vocês, que
eu observei sem participar).
 
 
 
Quase todo mundo parece resumir a controvérsia a
uma disputa entre puristas (pelo jeito, minoria das minorias a esta
altura do campeonato) e fãs dos filmes. Os primeiros argumentam que
nenhuma mudança é, em princípio, admissível; os outros, que a
necessidade de criar uma boa obra cinematográfica exige essas mudanças,
que seguir a letra do livro resultaria simplesmente num filme chato de
galochas – que, em resumo, filme é filme, livro é livro. A mudança na
adaptação cinematográfica não altera o texto original que os puristas
entesouram tanto. A mensagem, dizem eles, é curtir os filmes enquanto
filmes (e os filmes, disso eles não parecem ter dúvidas, são
realizações históricas – “moviemaking history�, como a produtora New
Line gosta de dizer).

Há quase dois anos atrás, quando os filmes começaram a aparecer, eu não
saberia de que lado me colocar. Provavelmente entre os aprovadores
(quase) sem reservas de Peter Jackson, pelo simples impacto de ver o
que a minha imaginação sonhara por tanto tempo finalmente em carne,
osso e celulóide. Agora, contudo, depois de rever “A Sociedade do Anel�
e “As Duas Torres� repetidas vezes, o distanciamento necessário para
julgar as coisas direito chegou.

Pois bem, qual o meu veredicto? Eu diria que a coisa é ligeiramente
mais complicada que a mera necessidade de adaptar uma história
verborrágica (no melhor sentido da palavra; cá entre nós, não dá para
negar que o fluxo de palavras, sentido primário desse adjetivo, é dos
grandes no livro) para um meio visual. O problema também é esse, mas
está longe de ser só esse. A impressão que eu tenho é que, apesar de
todos os seus juramentos sucessivos de fidelidade a Tolkien, os
criadores da trilogia cinematográfica simplesmente não confiaram na
qualidade da história do jeito que ela é; ou, talvez, acharam que o
público não seria capaz de captar as sutilezas, as alusões, os
subentendidos que fazem do livro uma experiência única.

Um exemplo entre muitos: lembro-me de uma entrevista com Bernard Hill
(Théoden) no qual o repórter questionava a diferença entre o rei
resoluto do livro, que depois de ser curado por Gandalf luta com todas
as forças contra Saruman, e o Théoden que quer evitar a guerra a
qualquer custo. Hill resmungou, meio irritado, algo do tipo: “Ora, o
personagem precisa ter um arco de desenvolvimento no filme, mostrar
algum tipo de crescimento pessoal�. O mesmo foi dito pela roteirista
Philippa Boyens a respeito de Faramir.

O mesmo acontece com o desespero para aumentar a participação de Arwen
a qualquer custo: “O público precisa de um personagem feminino com o
qual se identificar”; a patética insinuação de que Sauron e Aragorn vão
lutar no mano a mano (“O vilão precisa ser algo mais do que um Olho
flamejante�); o fato de que o Frodo parece ser muito mais frágil diante
do poder do Anel do que esperaríamos de alguém com a força interior
dele (“O Anel precisa ter seu caráter corruptor enfatizado�).

A pergunta que não quer calar é: por que diabos esse tal PRECISA? Esses
caras estão fazendo um filme ou só seguindo uma receita de bolo? Por
que eles precisam usar clichês tão gastos, tão falsos, para recontar
uma história que já provou ser capaz de arrebatar gente de todas as
culturas da Terra por 50 anos sem recorrer a esse tipo de apelação?
Além do mais, os pressupostos dos quais eles partem estão baseados numa
percepção totalmente equivocada do mundo real – como a idéia de que
pessoas verossímeis são só as contraditórias (conheço muita gente que é
constante nos seus valores e atitudes, graças a Deus) ou de que o
inimigo precisa ser visualizado (como se os maiores males dos quais a
gente tem de escapar não fossem quase sempre impessoais).

Não estou dizendo que os filmes são uma porcaria. Pelo contrário: são
belos, emocionantes, tocantes até. Choro toda vez que os vejo e nunca
tive vergonha de dizer isso. O que estou dizendo é que temos o direito
de exigir que eles fossem melhores – porque a história que eles
supostamente deveriam contar é infinitamente mais profunda,
infinitamente mais bela, ao menos para quem tem olhos para ver. Como
dizia um slogan de 1968, “seja razoável – exija o impossível�. Dava
para fazer? Estou convencido de que dava. A edição estendida (sim,
consegui assistir) está aí para mostrar que dava para ter feito melhor.
Se nos contentarmos apenas com o que nos tem sido oferecido, só
estaremos dando razão os críticos esnobes que acham que é tudo um
grande marketing para encher o rabo de Hollywood com dinheiro – e ponto
final.

Uma proposta de tradução para Tree and Leaf

“Oh hell! Has it? Oh my God. Dear oh dear. Dear oh dear oh dear.”

Decidi começar esta apresentação com essa simpática manifestação de

perplexidade porque, até onde eu tenho sentido, ela dá conta de forma
muito apropriada das reações que o meu tema costuma suscitar no meio
acadêmico ou intelectual em geral. Essa frase, diz a lenda, foi
proferida por um jornalista cultural do diário britânico Sunday Times,
em janeiro de 1997, ao saber que os leitores de seu país haviam
escolhido O Senhor dos Anéis como o maior livro do século XX, numa
pesquisa de opinião conduzida pelo Channel 4 e pela rede de livrarias
Waterstone.

 
 
 
Tudo bem, o tema do meu projeto de mestrado não é O Senhor dos Anéis,
mas sofre da mesma desvantagem: carrega a marca registrada “Tolkien�
(com o prefixo J.R.R. ou John Ronald Reuel) impressa nele. Se eu
decidisse me limitar às expressões similares de perplexidade da
intelligentsia anglo-americana sobre esse autor e sobre o fascínio
supostamente funesto que ele exerce sobre uma infinidade de leitores, o
tempo desta apresentação certamente ultrapassaria os 20 minutos
regulamentares. Mas acho mais produtivo parar de brincar de avestruz,
como boa parte da academia tem feito até hoje, e encarar o fenômeno de
frente – até para refletir se, afinal de contas, ele não tem algum
valor verdadeiro que anda escapando a quem já deveria tê-lo percebido.
Não adianta ficar gritando “Dear oh dear oh dear� por aí. Por que o
fascínio existe – essa é a questão que vale a pena tentar responder.

Paradoxalmente, decidi abordar esse problema (do ponto de vista de um
advogado que acredita com todas as forças na sua causa, que fique bem
claro) a partir de uma obra que não é exatamente um best-seller,
principalmente se considerada dentro dos opulentos padrões
tolkienianos. Refiro-me a Tree and Leaf (até hoje sem tradução
integral em português), uma coletânea de textos aparentemente muito
heterogêneos, todos do final dos anos 30, que só foram postos no mesmo
volume e alcançaram o público em geral depois que O Senhor dos Anéis
transformou Tolkien numa espécie de Paulo Coelho medievalista.

Um
escrutínio ligeiramente mais cuidadoso, contudo, mostra que a coletânea
não tem nada de aleatório. A começar pela data de composição da maioria
dos textos: eles foram escritos bem no momento em que a Saga do Anel
estava nascendo e tomando forma, e documentam, em miniatura, o que a
tarefa de criar o romance significava para Tolkien. Em outras palavras:
mesmo quando são ficcionais, os textos contidos em Tree and Leaf
têm um forte caráter metaliterário: revelam a mente do autor pensando o
seu próprio fazer artístico. Mais que isso: mostram um projeto de
literatura que, ao ser realizado, atingiu (goste-se ou não da forma
como o fez) um poder imaginativo profundo.

Mas por que
tratar isso num projeto de tradução, e não de literatura inglesa ou de
teoria literária ou coisa que o valha? Eu diria que a própria natureza
do texto tolkieniano favorece (embora não facilite) a abordagem por
meio da tradução. É que, mesmo sendo conscientemente um antimoderno por
excelência, uma coisa Tolkien tinha em comum com Joyce (ou, em termos
mais tupiniquins, com Guimarães Rosa): a capacidade de reinventar
palavras e seus usos, de mostrar que words englobam worlds, para usar
um trocadilho bastante batido em inglês. Para quem não sabe, Tolkien
era um filólogo – talvez o último grande filólogo depois dos irmãos
Grimm; mas, ao contrário deles, a perspectiva filológica deu a Tolkien
uma capacidade única de reinscrever a história e, principalmente, o
mito dentro da literatura de língua inglesa. Cada palavra (e,
principalmente, a história de cada palavra) conta para Tolkien. Esse
olhar, é verdade, está voltado para o passado o tempo todo; mas, por
buscar nesse passado a universalidade do mito, acaba por transcendê-lo.

Todo
o preâmbulo acima, se serviu a seu propósito, foi para dizer que a
tradução fornece uma oportunidade única para “quebrar o código� da
mitofilologia (se a palavra não existe, acabei de cunhá-la!)
tolkieniana. Reescrevê-la em português significa, antes de mais nada,
um esforço para entender o autor nos seus próprios termos, o que
certamente ainda não foi tentado entre nós. E significa também uma
chance de “fertilizar� o nosso jovem idioma (uso, de propósito, a
expressão cara aos tradutores alemães da era de Goethe) com o sabor do
elder world tolkieniano – que, bem vasculhado, pode muito bem se
revelar o nosso. Conseguir isso exige ao mesmo tempo uma fidelidade
monástica ao original e a coragem para recriá-lo. É o sonho (e o
pesadelo) de qualquer tradutor, imagino.

Claro que essa
conversa toda deve estar soando totalmente impalpável para os que nunca
ousaram encarar o recôndito mundo tolkieniano. Por isso, acho que é
útil dar uma visão geral sobre o conteúdo do livro antes de falar sobre
alguns problemas de tradução que ele sugere nesta fase ainda
embrionária do meu trabalho. Quatro textos bastante distintos
formalmente compõem o Tree and Leaf. O primeiro, na origem uma apresentação acadêmica oral como esta aqui, é o ensaio On Fairy-Stories – podem chamá-lo, se quiserem, de uma teoria tolkieniana da fantasia e da literatura fantástica. Segue-se o poema Mythopoeia, “o fazer dos mitos� – uma argumentação apaixonada em favor da visão defendida no ensaio. O conto Leaf by Niggle,
que vem a seguir, de certa forma é um exemplo do que a teoria
tolkieniana pode alcançar em termos de arte narrativa. Finalmente, The Homecoming of Beorhtnoth Beorhthelm’s Son,
provavelmente o único texto de Tolkien em forma dramática, encerra a
coletânea. Escrito na antiga métrica aliterativa anglo-saxã, é um
diálogo poético que reforça a obsessão de Tolkien com o passado da
Inglaterra, funcionando como uma continuação (ou uma sequel, se quisermos usar o termo cinematográfico) do poema anônimo A Batalha de Maldon, do século X.

Como o nosso tempo é bastante limitado, a minha exposição se concentrará sobre alguns problemas de tradução presentes em On Fairy-Stories e em Leaf by Niggle, embora eu pretende abordar rapidamente Mythopoeia e Homecoming.
Quando digo problemas, e não soluções, é porque quero dizer isso mesmo:
ainda estou longe de resolvê-los, embora já tenha alguma idéia do que
fazer com eles – mais como uma proposta, um norte a ser seguido, do que
como uma resposta pronta.

Faërie On Fairy-Stories,
apesar de lidar com um tema que à primeira vista não poderia ser mais
tradicional – os contos de fadas – é na verdade um esforço no sentido
de subverter os lugares-comuns que cercam esse tipo de literatura.
Tipicamente, Tolkien faz isso usando seu conhecimento filológico,
reportando-se à história das palavras e dos conceitos para revelar o
potencial imaginativo e literário oculto nelas.

Logo de
cara, o ensaio já apresenta um exemplo desse tipo de trabalho, com a
aplicação da arqueologia lingüística tolkieniana ao termo Faërie – que
se associa inevitavelmente, em sonoridade e cadeia semântica, com o
substantivo comum fairy, que nós costumamos traduzir como
“fada�. Ambas as palavras, afirma Tolkien, são em última instância de
origem francesa, e traduzem o inglês elf; ambas evocam (para o
leitor moderno, pelo menos) associações com criaturas diminutas,
“bonitinhas�, não muito sérias. A própria definição do Oxford English Dictionary, para a qual Tolkien, ex-dicionarista, se volta ironicamente, não ajuda muito: fairy-story simplesmente não consta no OED, que só lista fairy-tale, com a esperada referência a “seres diminutos� e a histórias sobre eles.

Tolkien não perde a oportunidade de corrigir os colegas dicionaristas (como ele trabalhou apenas na letra W do OED,
podia se dar ao luxo de criticar o que constava da letra F). O
dicionário registra o primeiro uso da palavra fairy no final do século
XIV (bastante tardio, portanto), no Confessio Amantis, do poeta John
Gower (1330-1408): as he were a faierie. Mas o OED cochilou, diz Tolkien: o que o texto de Gower realmente diz, em seu Middle English arrevesado, é as he were of faierie,
“como se ele tivesse vindo de Faërie�. Para Tolkien, a conclusão é
óbvia: o sentido original (e “filologicamente correto�) da palavra é de
um lugar (e estado), não de uma classe de seres:

“I said
the sense ‘stories about fairies’ was too narrow. It is too narrow,
even if we reject the diminutive size, for fairy-stories are not in
normal English usage stories about fairies or elves, but stories about
Fairy, that is Faërie, the realm or state in which fairies have their
being. Faërie contains many things besides elves and fays, and besides
dwarfs, witches, trolls, giants, or dragons: it holds the seas, the
sun, the moon, the sky; and the earth, and all things that are in it:
tree and bird, water and stone, wine and bread, and ourselves, mortal
men, when we are enchanted.�

Como observa Thomas
Shippey, professor da Universidade de Saint Louis que é provavelmente o
analista mais agudo do trabalho de Tolkien em atividade hoje, “the word authenticates the thing�:todo esse complexo de significado está associado à palavra Faërie, “just below the surface�
– e volta e meia sobe à tona. Um dos desafios do meu trabalho de
tradução do ensaio é tentar encontrar termos que sugiram um processo
semelhante de transformação e ambigüidade semântica, com uma
profundidade temporal parecida (já que mesmo o sentido “original� de
Faërie, quando associado a essa palavra, parece ser recente) – isso sem
falar nos jogos de palavras entre Faërie, fairy e fair – já que a idéia
de uma beleza misteriosa e elusiva também perpassa o conceito.

Uma
coisa é certa: não adianta recorrer a um simples neologismo para
conservar a relação fonética entre os termos – claramente, existe uma
história por trás deles que precisa ser representada. A princípio,
confesso que fiquei tentado a seguir uma certa falácia etimológica e
usar algo como “Feéria� – o nosso adjetivo “feérico� vem do mesmo fée
francês que deu origem a Faërie. Há também a relação etimológica entre
o termo francês e o latim “fata� _os Fados ou Destinos, as Parcas da
mitologia greco-romana. Mas parece óbvio que não há mais resquícios
dessa conotação em inglês. Também não creio que caiba apelar para um
circunlóquio como “Terra das Fadas�. “Feéria�, embora não esteja
perfeito, deve ser uma amostra do que eu vou utilizar.

Niggle, Parish, Niggle’s Parish O problema em Leaf by Niggle
são os nomes próprios. Isso não é exatamente novidade quando se trata
de Tolkien; é só perguntar à minha orientadora, que traduziu O Senhor dos Anéis, sobre a importância e a estranheza dos nomes próprios usados pelo autor na obra.

O
conto, que é quase uma alegoria da vida e do trabalho do próprio
Tolkien, é sobre um pintor não muito brilhante chamado Niggle, que
sonha em pintar a árvore perfeita, mas fica tão absorto nos detalhes
que nunca consegue terminar o todo, ou mesmo enxergá-lo – a pintura vai
crescendo e crescendo, até tomar um armazém inteiro da casa do pobre
Niggle. E o pintor é constantemente perturbado por seu vizinho Parish,
um sujeito prático que não vê muito sentido naquela moldura enorme e
acha que ela seria muito mais útil para remendar seu telhado destruído
pela chuva.

Não vem ao caso aqui como a história continua,
mas é importante notar que os nomes dos personagens delatam de cara
quem eles são: Niggle é o perfeccionista que se preocupa com as folhas
e se esquece da árvore (o verbo to niggle quer dizer algo como
“ficar retocando detalhes irrelevantes aqui e ali; ocupar-se de
ninharias�), enquanto o sólido Parish (“paróquia�) está com ambos os
pés cimentados no seu próprio mundinho, sem conseguir perceber nenhum
propósito no tempo que seu vizinho gasta com a imensa pintura.

Para
complicar ainda mais a vida do tradutor, o desfecho do conto termina
por conciliar as tendências opostas simbolizadas pelos personagens num
lugar chamado Niggle’s Parish (como não quero estragar a
surpresa de quem se animar a ler o conto, terei de deixar o significado
exato dessa junção um tanto vago por ora). A escolha
A escolha
correta parece óbvia: traduzir os nomes próprios (há, inclusive, outros
nomes no texto que talvez exijam o mesmo tratamento). Antes que vocês
torçam o nariz para esse tipo de procedimento, deixem-me avisar que os
precedentes estão a meu favor: Tolkien aconselhou os tradutores de O
Senhor dos Anéis a verter diversos nomes próprios para a língua-alvo, e
até criou um guia a respeito para auxiliá-los.

O desafio
aqui é encontrar equivalentes breves (não ia adiantar nada usar a
explicação gigantesca de to niggle que eu acabei de dar), naturais (que
não soassem mais estranhos em português do que Niggle e Parish, este
último um sobrenome relativamente comum e corrente no mundo de língua
inglesa) e, claro, que funcionassem bem juntos no Niggle’s Parish do
desfecho e no decorrer da trama. Detalhismo demais? Talvez, mas o
efeito geral da história, como de resto acontece em toda a obra
tolkieniana, depende enormemente do emprego talentoso de poucas
palavras escolhidas que conseguem transmitir toda uma cadeia de sentido
com pouquíssimo esforço.

Opções para traduzir os nomes
desses personagens que eu considerei até agora são Villa (para Parish)
e Caxias (para Niggle). O primeiro satisfaz aos requisitos básicos de
brevidade, ar comum em português e adequação à conjunção Niggle’s
Parish. Caxias, apesar de transmitir o sentido desejado de
perfeccionista para Niggle e de ser mais incomum que Villa, tem um
certo fundo de agressividade que não combina com o personagem. De
qualquer maneira, como working theories, Villa, Caxias e Vila de Caxias não me parecem desprezíveis.

Os poemas Começando pelo último deles, creio que The Homecoming of Beorhtnoth
é o que exige um trabalho formal mais concentrado. E isso porque a
forma poética usada por Tolkien é exclusiva da antiga literatura
anglo-saxã (com algumas excecções para outras literaturas medievais,
como a islandesa) e é extremamente difícil de recriar. Não há numero
exato de sílabas, não há rima como nós a entendemos; a unidade poética
não é nem a linha, mas a meia-linha.

O tempo que nós temos é
curto demais para explicar como esse tipo de poesia é formalmente, mas
de forma muito geral, pode-se dizer que ela se baseia em unidades
curtas, com tamanho mínimo em torno de quatro sílabas, que têm um
padrão de equilíbrio entre sílabas tônicas e sílabas átonas. Alguns dos
padrões (marcando as tônicas com acento agudo) são:

A – Caindo/Caindo: Sáxon and Énglish
B – Subindo/Subindo: but márk my wórds
C – Em confronto: was like wórds whíspered

Essas são meias-linhas. Cada meia-linha se amarra à outra por meio da
aliteração, de forma que a primeira sílaba acentuada da segunda
meia-linha força a primeira sílaba tônica da segunda meia-linha a
aliterar com ela.

Sei que a explicação é bastante sumária,
mas a característica mais marcante desse tipo de métrica é a incrível
brevidade e concentração de expressão, dependendo grandemente de
palavras de, no máximo, duas sílabas. Um caminho para reproduzir isso
em português, imagino, é abrir mão do vocabulário erudito, de origem
latina mas cunhado recentemente, e usar ao máximo as palavras de origem
germânica (que, se não são comuns, também não são inexistentes) que
incorporamos ao nosso idioma.

Finalmente, Mythopoeia
é relativamente simples – por usar uma métrica extremamente tradicional
(o pentâmetro iâmbico/decassílabo) e não ter grandes ousadias formais.
É um poema-programa, importante pelo que diz, como profissão de fé.
Traduzi duas estrofes dele e gostaria que nós terminássemos esta
conversa lendo-as. Coloquei primeiro o texto em português e depois o
original:

He sees no stars who does not see them first
of living silver made that sudden burst
to flame like flowers beneath an ancient song,
whose very echo after music long
has since pursued. There is no firmament,
only a void, unless a jewelled tent
myth-woven and elf-patterned; and no earth,
unless the mothers womb whence all have birth.

The heart of man is not compound of lies,
but draws some wisdom from the only Wise,
and still recalls him. Though now long estranged,
man is not wholly lost nor wholly changed.
Dis-graced he may be, yet is not dethroned,
and keeps the rags of lordship once he owned,
his world-dominion by creative act:
not his to worship the great Artefact,
man, sub-creator, the refracted light
through whom is splintered from a single White
to many hues, and endlessly combined
in living shapes that move from mind to mind.
Though all the crannies of the world we filled
with elves and goblins, though we dared to build
gods and their houses out of dark and light,
and sow the seeds of dragons, twas our right
(used or misused). The right has not decayed.
We make still by the law in which were made.

Não vê estrelas quem não as vê primeiro

qual prata viva explodindo em chuveiro

chama florida sob canção antiga

cujo eco mesmo de longa cantiga

o perseguiu. Não há um firmamento,

só vazio, se não tenda, paramento

por elfos desenhado; não há terra,

se não ventre de mãe que a vida encerra.

Mentiras não compõem o peito humano,

que do único Sábio tira o seu plano,

e o recorda. Inda que alienado,

algo não se perdeu nem foi mudado.

Em desgraça está, mas não destronado,

trapos da nobreza em que foi trajado,

domínio do mundo por criação:

O deus Artefato não é seu quinhão,

homem, sub-criador, luz refratada

em quem matiz branca é despedaçada

para muitos tons, e recombinada

forma viva mente a mente passada.

Se todas as cavas do mundo enchemos

com elfos e duendes, se fizemos

deuses com casas de treva e de luz,

se plantamos dragões, a nós conduz

um direito. E não foi revogado.

Criamos tal como fomos criados.

Entrevista com Michael Drout

O norte-americano Michael Drout, 35, definitivamente é um sujeito sortudo. Afinal, pouca gente pode se dar ao luxo de tirar do esquecimento e publicar um livro inédito de J.R.R. Tolkien, ainda mais sobre o épico anglo-saxão Beowulf – provavelmente o assunto mais estudado pelo Professor durante sua longa vida, e que ajudou a inspirar diversos pontos-chave de O Senhor dos Anéis. Publicado no fim de 2002 graças à  permissão de Christopher Tolkien, o livro Beowulf and the Critics (Beowulf e os Críticos) reúne as ideias de Tolkien sobre a obra, além de duas traduções do poema – essas ainda sem data para sair.
Professor e pesquisador do Wheaton College, no Estado de Masachussets, Drout pertence a um número crescente de estudiosos que começam a valorizar a obra tolkieniana e a considerá-la digna de estudos literários sérios. Nesta entrevista exclusiva à Valinor, Drout fala sobre o difícil trabalho de editar um original tolkieniano, da importância da obra do Professor e de sua relação com
ela. Confira a íntegra da conversa (por e-mail) abaixo.Valinor – O sr. poderia contar como entrou em contato com a obra de Tolkien pela primeira vez? Foi uma decisão natural transformá-la em objeto de estudo acadêmico?

Michael Drout – Um pôster com o mapa da Terra-média ficava pendurado do lado do meu berço no quarto de visitas da casa da minha avó, portanto eu me interessei por Tolkien a minha vida inteira. Contudo, nunca pensei em trabalhar com Tolkien no meio acadêmico até ter as minhas primeiras aulas de inglês antigo durante a pós-graduação. Reconhecer tantas palavras dos capítulos de Rohan de O Senhor dos Anéis tornou o inglês antigo mais fácil de ler e me fez pensar que seria legal escrever um livro sobre essas conexões. Então, é claro, descobri que [o estudioso de anglo-saxão] Tom Shippey já tinha escrito o livro que eu queria escrever [The Road to Middle-earth].

Valinor - Como o sr. acabou achando os textos de Tolkien sobre Beowulf, e qual era o estado deles na época? Foi difícil convencer Christopher Tolkien a permitir a publicação deles?

Drout - Há dois projetos diferentes que às vezes são confundidos. Um deles é Beowulf and the Critics, o manuscrito que tem quase o tamanho de um livro do qual Tolkien tirou sua famosa palestra sobre Beowulf de 1936. Eu o encontrei na Bodleian Library [biblioteca da Universidade de Oxford, na Inglaterra] em 1996, quando pesquisava para a minha dissertação. Claro que ele estava catalogado, mas o tamanho, extensão e importância do manuscrito não tinham sido reconhecidos por ninguém, exceto por Christopher Tolkien, que o doou. Esse é o livro que foi publicado em dezembro de 2002. Christopher Tolkien me apoiou muito nesse projeto e simplesmente concordou com meu pedido de publicá-lo.

Comecei a trabalhar nas traduções de Beowulf feitas por Tolkien
imediatamente depois de terminar Beowulf and the Critics, mas esse
trabalho, por uma série de razões, teve de ser suspendido
indefinidamente. Não sei o que o futuro trará.

Valinor - O que o leitor que já conhece a palestra de 1936,
publicada no livro The Monsters and the Critics & Other Essays,
pode esperar encontrar no livro que o sr. editou?

Drout - Essa palestra é uma obra de retórica muito bem polida,
com muitas alusões e referências cuidadosamente ocultas. Em Beowulf and
the Critics, a argumentação de Tolkien é muito mais simples e clara, e
você pode ver como ele a descobre conforme vai escrevendo sobre um
grande número de temas. Ele também nos dá um resumo da história da
crítica sobre Beowulf, e discute alguns críticos específicos em
detalhe. Então, se você conhece bem a palestra de 1936, poderá vê-la
emergir de Critics, e terá um vislumbre de como a mente de Tolkien
funcionava.

Valinor - E quanto à tradução do poema feita por Tolkien?

Drout - Tolkien fez uma tradução completa em prosa, e uma
tradução parcial em verso. Você pode encontrar fragmentos da tradução
em verso em On Translating Beowulf, no apêndice de Beowulf and the
Critics, e em J.R.R. Tolkien: Artist and Illustrator, de Wayne Hammond
e Christina Scull. A tradução em verso tenta reproduzir a métrica
aliterativa do inglês antigo, e é bastante bem-sucedida, mas só cobre
as primeiras 600 linhas do poema.

Valinor - Quão determinante foi a influência de Beowulf e do
inglês antigo na obra de Tolkien? Às vezes parece que há uma influência
até na sintaxe dos textos…

Drout - Concordo que há uma conexão muito forte, muito profunda
entre o inglês antigo e a obra de Tolkien, e que essa conexão se
manifesta não só nos capítulos de Rohan, mas através de todos os
escritos de Tolkien. Por exemplo, na luta entre Fingon e Gothmog em O
Silmarillion, você tem uma descrição introdutória da luta que vai
acontecer e então a frase “aquele foi um encontro sombrio”, um torneio
estilístico que veio diretamente de Beowulf (that waes god cyning
[aquele foi um bom rei, em inglês antigo]). Quando usa uma palavra
arcaica, como “lave” [banhar] ou “smite” [atingir], é quase sempre uma
palavra arcaica do anglo-saxão.

Valinor - Desde a publicação de O Senhor dos Anéis, boa parte
dos críticos têm apontado o que chamam de “falso” arcaísmo de Tolkien,
algo que seria até brega no autor. O sr. acha que há alguma verdade
nisso ou os críticos simplesmente não conseguem perceber quando a
linguagem é verdadeiramente arcaica?

Drout - Concordo com Tom Shippey quando ele diz que a maioria
dos críticos não consegue diferenciar entre arcaísmo “verdadeiro” e
“falso”. Por exemplo, há quem critique o uso das palavras “eyot”
[ilhota] e “lave” [banhar]. Os críticos querem “ilha” e “lavar”. Mas há
uma distinção sutil e importante aí. A ilhota não é uma ilha; é uma
ilhota. E Aragorn realmente “banha” as folhas de athelas para liberar
mais do cheiro agradável. Eu acho que as pouquíssimas falhas de tom em
O Senhor dos Anéis vêm exatamente do oposto do arcaísmo. Por exemplo,
para mim a pior coisa em O Senhor dos Anéis é a raposa falante (ou
pensante consigo mesma) em A Sociedade do Anel. Não entendo porque não
foi editada. Mas não é arcaica de forma alguma.

Valinor - Qual o sr. diria que é o apelo de Tolkien para tantos leitores? E para o sr. pessoalmente?

Drout - A claridade de visão moral (se você concorda ou não com
a moralidade fundamental é outra história), a agudeza de pensamento e a
incrível consistência que Tolkien cria em seu mundo ficcional: todas
essas qualidades são ímpares em outros autores de fantasia ou mesmo em
qualquer outro tipo de literatura. Como muitos outros, eu simplesmente
amo a Terra-média.

Valinor - Apesar das muitas críticas, o sr. acha que Tolkien já se firmou na literatura inglesa?

Drout - Ainda não estamos totalmente estabelecidos, e pode haver
reveses, mas acho que a tendência para isso é bem inexorável. É bem
difícil rejeitar O Senhor dos Anéis de cara agora que o pós-modernismo
desafiou a importância de tantas outras obras. E a nova geração de
professores Рpessoas da minha idade Рsimplesmente ṇo tem o
sentimento anti-Tolkien da geração anterior. Mesmo quando encontro
pessoas que não leram Tolkien, elas não são hostis se têm menos de 40
anos. Acho que em mais uma geração acadêmica será bastante reconhecido
que Tolkien é importante e significativo e que precisa ser discutido,
gostando ou não do livro.

Valinor - O que acha de todo o hype em torno dos filmes?

Drout - Fico irritado com o lixo plástico e o foco nos atores
etc., e desgostei visceralmente das mudanças em As Duas Torres, mas os
filmes trouxeram um grupo enorme de novos leitores, e meus alunos
chegaram aos livros pelos filmes e adoraram os livros. Acho que os
filmes espalham as sementes por todo o lado e isso dá a elas a chance
de brotar em lugares inesperados.

Valinor - Mais alguma coisa que o sr. gostaria de acrescentar?

Drout - Sou casado e tenho uma filha de quase três anos. Ela
gosta de ouvir sobre os monstros em O Senhor dos Anéis e, mais
importante ainda, sobre como eles são derrotados.

Em defesa da tradução

Volta e meia um crítico tão presunçoso quanto desinformado [espécime
que proliferou de maneira particularmente rápida durante o bafafá
criado pelo lançamento de "O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel"
nos cinemas] inventa de criticar a tradução brasileira da obra-prima de
Tolkien. Onde já se viu, vociferam, traduzir nomes próprios! Que
heresia é esse negócio de Bolseiro, Valfenda e Passolargo! Por que não
deixar tudo em inglês, que além de ser o idioma original é muito mais
chique que o nosso pobre patuá luso-brasileiro, não é mesmo?
 
 
 
Mesmo caras talentosos e bons conhecedores do
universo tolkieniano, como o editor Rodrigo Salem, da revista Set,
acabaram caindo nessa esparrela, sabe-se lá o porquê. Acontece, porém,
que eles estão fundamentalmente errados. Diretrizes explícitas do
próprio Tolkien, depois de verificar os erros e acertos de diversas
traduções européias, mostram a necessidade de traduzir nomes próprios
como forma de manter de pé a delicada arquitetura ling?ística do livro.

O esteio desse raciocínio é a elaborada "ficção" na qual Tolkien se
coloca não como autor de "O Senhor dos Anéis", mas como mero tradutor
do Livro Vermelho do Marco Ocidental [para mais detalhes a respeito,
confira o Apêndice F de "O Senhor dos Anéis"]. Esse pressuposto dá ao
autor um ponto de vista – o dos hobbits – como dominante, e faz do
westron, o idioma de Frodo, o equivalente do inglês, sua língua
materna. A necessidade de coerência faz com que todos os nomes em
westron, inteligíveis e analisáveis para os hobbits, sejam passados
para versões inglesas com essas mesmas características.

Ora, manter numa tradução em português [ou para qualquer outra língua]
nomes próprios em inglês seria quebrar essa regra, tirando do leitor a
capacidade para entender o significado, muitas vezes essencial, dos
nomes dos personagens e lugares – a não ser que houvesse um imenso
glossário, desajeitado e nem sempre esclarecedor, no final dos volumes.
Foi esse absurdo que Tolkien percebeu ao deixar suas indicações no
"Guia para os nomes em O Senhor dos Anéis", publicado postumamente:

"É DESEJ�?VEL traduzir tais nomes, uma vez que deixá-los como estão
perturbaria o cuidadosamente elaborado esquema de nomenclatura e
introduziria um elemento inexplicado, sem lugar na história ling?ística
imaginária do período".

Só essa citação já bastaria para derrubar o argumento dos
pseudo-anglicistas [ahá! taí um ótimo nome de seita pros inimigos da
tradução]. Mas uma análise detalhada de dois dos nomes mais criticados
na versão da editora Martins Fontes – Bolseiro e Valfenda – mostra como
a intenção de Tolkien foi seguida ? risca. Abaixo, traduzo alguns
trechos do guia criado pelo velho Professor:

"BAGGINS – Feito com a intenção de lembrar a palavra "bolsa" – comparar
com a conversa entre Bilbo e Smaug em "O Hobbit" – e de ser associado
[pelos hobbits] com BAG END […], o nome local para a casa de Bilbo.
[Era o nome local da fazenda de minha tia em Worcestershire, que ficava
no fim de uma estrada que levava até ela mas não ia adiante]. Comparar
também com Sackville-Baggins.
A tradução deveria conter um
elemento com o significado de "saco, bolsa".- "Bolseiro" e "Bolsão"
serviram como tradução de Baggins e Bag End. "Bolsão" dá a idéia de
coisa aglomerada e se associa naturalmente a Bolseiro, como é
necessário. Outra solução boa foi a da versão lusitana, que é "Fundo do
Saco".

"RIVENDELL – "Vale fendido". Tradução na Língua Comum de
Imladris[t],"vale profundo da fenda". Traduzir de acordo com o sentido
ou manter a forma original, da maneira que for melhor".
Nesse
caso, os tradutores foram ainda mais cuidadosos, já que a palavra
"dell", um tanto arcaica em inglês, teve o correspondente Val-, que tem
um sabor parecido em português.

Mais exemplos poderiam ser citados ao infinito, mas esses devem ser
suficientes para mostrar a necessidade da tradução e seu sucesso.

PS – A partir de hoje, Tirith Aear passa a ter atualizações quinzenais.
Torçam para que este cisne aqui consiga se disciplinar e escrever
regularmente ;-]

22 de Setembro – Uma Festa Muito Esperada

Dia 22 de Setembro é uma das datas mais importantes na mitologia criado por Tolkien. É aniversário de dois hobbits aventureiros e corajosos: Bilbo e Frodo Bolseiro. Então acompanhe a festa tipicamente de hobbit que acontece todos os anos no distante Condado.
 
 
Dia 22 de Sacromês¹ os hobbits do Condado se reúnem para a festa mais esperada do ano, nos arredores de Bolsão, sob as folhas da grande �?rvore. É a festa de Bilbo e seu sobrinho Frodo, filho de Drogo. Todos os hobbits das quatro quartas foram convidados. A festa estava repleta de alegria, muita comida e muitas canecas de cerveja. As ruas estavam decoradas de faixas e balões coloridos.

Havia muitos hobbits importantes, dentre eles destacavam-se as famílias dos Bolseiros, Boffins, Tûks, Brandebuques, Fossadores, Roliços, Covas, Bolgers, Justa – Correias, Texugos, Boncorpos, Corneteiros e Pés – Soberbos. Muitos vinham de longe com a mesma empolgação dos que moravam perto, tudo em nome da magnífica festa dos Bolseiros.

Então chegou o mago, com seus incríveis poderes, e os seus fogos deslumbrantes. Afinal Gandalf jamais perderia a festa de seu velho amigo Bilbo. Ele veio de uma de suas longas jornadas pela Terra-média, depois de anos em não reencontrar Bilbo e Bolsão, pois era também um canto de descanso para ele. Seus famosos fogos eram fenomenais. Inesquecíveis para quem já os viu. E quem nunca teve o prazer de presencia-los ficava curioso pelos relatos daqueles que já viram.

Então começou a festa, com muitos cantos, alegrando a todos. A comida era abundante e a bebida era da melhor qualidade, pois Bilbo tinha encomendado-as de todos os fabricantes de vários lugares do Condado, sendo assim, era uma enorme variedade até mesmo da cidade de Bri. Foi então que os aniversariantes da festa se pronunciaram: Bilbo e Frodo agradeceram a vinda dos hobbits e contaram boas e velhas histórias.

E assim, depois do discurso, todos hobbits ficaram horas e horas festejando até os barris ficarem vazios e a comida se acabar. As musicas cessaram e pouco a pouco os hobbits foram se dirigindo para suas tocas e casas, após se despedirem dos anfitriões. Mas não era o fim. Gandalf soltou um enorme fogo de artifício no formato de uma imensa árvore e os seus ramos cresceram até encherem o céu, enfeitando-o como estrelas, até se desvanecerem no nada, abençoando todo o Condado. Quando todos tinham ido embora, Gandalf e Bilbo sentaram juntos e fumaram uma erva do Condado. Assim acabou a festa mais esperada de toda a história do Condado

 

Nota:
¹ – Sacromês: mês de Setembro no calendário d’O Condado.