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Estratégias de Sauron – Passos para a Derrota (Parte I)

Sun Tzu  nos aponta as vantagens da estratégia de "dividir e conquistar", mas ele também pregava o uso da força massiva e devastadora sempre que for possível. A arte da guerra com certeza é uma arte, já que os dois lados de qualquer guerra tem o potencial de crescer e se adaptar. Uma das notáveis qualidades da história da Terra-Média é a mutabilidade de Sauron. Ele altera suas estratégias.
 

 

Na Primeira Era, Sauron era apenas mais um dos capitães servindo Morgoth. O posto de Sauron nunca é realmente explorado. Nós lemos muito mais sobre a sua habilidade de destroçar inimigos, e sua disposição em entrar em combate mano-a-mano à um risco considerável à si mesmo. Já Morgoth, por outro lado, se mantinha sobre altos e impressionante números. Parece que a fraqueza perpétua de Morgoth é que ele confunde números com força.

Com certeza, Morgoth conseguiu algumas vitórias. Em fato, ele destruiu a civilização Eldarin em Beleriand e reduziu os anões de Nogrod e Belegost à alguns poucos sobreviventes. Mas Morgoth não percebeu o grande lance. Enquanto ele se divertia no norte com os Noldor, a maior parte da Terra-Média escapou de sua atenção. Os Valar tomaram vantagem do intenso interesse de Morgoth por Beleriand para isolá-lo aí e infringir a derrota final sobre ele.

Como consequência da Guerra da Ira, Morgoth foi capturado e suas forças foram reduzidas a provavelmente nada mais que alguns Orcs, Trolls e Homens vagabundos. Provavelmente, somente alguns poucos Maiar corrompidos escaparam, e pelo menos um casal de dragões alados (já que uma população crescente de dragões sobreviveram pela Terceira Era em diante). Dos Maiar, podemos ter certeza que dois desses eram Sauron e o Balrog de Khazad-Dûm. O Balrog se distanciou de qualquer complicação social por mais de 5000 anos.

Sauron, por sua vez, foi aparentemente perdoado. "Dos anéis do poder e da Terceira Era" (publicado no Silmarillion) nos diz que Sauron "voltou a assumir sua bela aparência, prestou votos de obediência à Eönwë, arauto de Manwë, e repudiou todos os seus atos maléficos." Mas Eönwë não pode perdoar Sauron, e o comandou a retornar à Valinor para aguardar o julgamento de Manwë. Com isso Sauron não consentiu, e continuou na Terra-Média enquanto Eönwë retornava para o Oeste.

Pelas próximas 5 ou 6 centenas de anos, Sauron sumiu da história. Não é provável que Sauron dormiu assim como o Balrog fez, se enrolando debaixo de uma conveniente montanha gigante e sonhando com os festejos passados pelos próximos milênios. Provavelmente, Sauron fugiu até o extremo leste da Terra-Média e ali ele fez qualquer coisa, como plantar um jardim ou fundar um monastério para ensinar aos Homens, Anões e Elfos o Caminho da Paz. O que quer que ele tenha feito, depois de algumas centenas de anos Sauron percebeu que aquilo não ia dar certo – ou então que ele poderia lidar com qualquer tipo de situação, então lançou uma nova iniciativa.

O perigo gradual de Sauron não passou despercebido nos assuntos da Terra-Média, e pode ser o catalisador da migração oriental dos Sindar. Tolkien observou que, "vendo a desolação do mundo, Sauron concluiu em seu íntimo que os Valar, tendo destronado Morgoth, tinham mais uma vez se esquecido da Terra-Média, e seu orgulho cresceu rapidamente".

No ensaio chamado "notas nos motivos do Silmarillion" (publicado no HoME: Morgoths Ring), Tolkien escreveu: "[Sauron] não tinha oposições à existência do mundo, já que podia fazer o que quisesse com ele. Ele ainda tinha resquícios de boa vontade, que descendiam da bondade em que foi criado: era sua virtude (e então também a causa de suas duas derrotas) que ele amava ordem e coordenação, e odiava todo tipo de confusão e confrontos inúteis."

Sauron acreditava fundamentalmente que ele poderia colocar o mundo em ordem, trazendo-o do caos que as guerras entre Morgoth, os Valar e os Eldar criaram, e restaurá-lo à sua antiga forma. Mas, por causa de seu orgulho, "seus planos… viraram o único objeto de sua vontade" (ibidem). Sauron se concentrou em trazer ordem ao mundo, esquecendo-se o porque de trazer ordem a este.

Ele claramente via os Elfos como instrumentos potenciais de sua vontade. Eles tinham as habilidades sub-criativas de transformar o mundo em grandes proporções de uma maneria que outras raças, como os Homens, não conseguiam. Anões parecem não ter aparecido nos desígnios de Sauron, e pode ser tanto culpa da desinformação, por parte de Sauron, sobre eles (tal perspectiva é reforçada pelo fato que Sauron falhou em converter os Anões em Espectros do Anel) ou sobre suas habilidades (embora tenhamos muita pouca informação sobre a capacidade dos anões para compará-los com os Elfos desta maneira).

De qualquer jeito, Sauron começou organizando o remanescente das criaturas de Morgoth. Seria fácil para ele recrutá-los para seu serviço – ele os conhecia bem e eles provavelmente se lembravam dele – mas ele pareceu ter trabalhado lentamente no começo. Gil-galad suspeitou que um servo de Morgoth estava organizando um exército no leste antes do ano 1000 da Segunda Era.

Ele recrutou Anardil, príncipe de Númenor, para servir como embaixador dos homens vivendo no norte e oeste da Terra-Média. Até este ponto, Gil-Galad pareceu ter tentado coletar informação e construir amizade com povos se movendo para perto de seu reino, que fica nas terras costeiras do noroeste da Terra-Média, no último remanescente de Beleriand. As atividades de Anardil na Terra-Média, e a presença crescente dos Numenoreanos nas praias (através de viagens exploradoras e colônias temporárias como Vinyalondë) induziram Sauron a escolher uma base de operações permanente perto do ano 1000.

Podemos deduzir do assentamento em Mordor que Sauron não teve uma base segura permanente no leste. Ele deve ter tido uma ou mais fortalvezas de onde ele dirigia seu crescente império, mas ele aparentemente acreditava que ele tinha que estar mais perto das terras orientais para planejar e implementar uma nova estratégia. Esta estratégia foi criada em base da esperança de induzir os Eldar a aceitá-lo como um professor e guia. Então, ou ele inicialmente populou Mordor com servos inofensivos aos olhos dos Eldar, ou então suprimiu o conhecimento de sua presença na região.

As missões diplomáticas de Sauron com os Eldar parecem ter ocorrido no breve período de um ano. A entrada para 1200 na Segunda Era do "Conto dos Anos" (Apêndice B do Senhor dos Anéis) diz: "Sauron tenta seduzir os eldar. Gil-Galad se recusa a fazer acordo com ele, mas os ferreiros de Eregion passam para o seu lado." Ele provavelmente nunca visitou outros reinos élficos, onde os eldar eram poucos ou então tinham adotado os costumes bárb
aros dos elfos Silvan. Claramente, Sauron queria atingir o coração do poderio élfico.

Já que seu objetivo era impor uma ordem no mundo (presumivelmente para reparar os machucados feitos pela guerra em Beleriand, e para eliminar ou reduzir o caos que sobreveio ao regime de Morgoth no final da Primeira Era), Sauron tinha que atrair o desejo interior dos eldar de trazer ordem ao seu mundo. Ao ver de Tolkien, os Elfos "queriam ter o bolo só para eles". Ou, mais precisamente, os eldar "queriam a paz e tranquilidade refletidos numa cópia perfeita do Oeste, e ainda por cima continuar a terra ordinária onde seu prestígio como pessoas superiores, acima de elfos selvagens, homens e anões, era bem maior que a base da hierarquia de Valinor." (Letters of JRR Tolkien, Letter 131)

Então, logo cedo, o desejo de Sauron de dominar a Terra-Média foi rivalizado pelo desejo crescente dos eldar de adquirir um status similar. Os dois procuravam controle e influência. Ao invés de criar uma guerra logo de cara, porém, Sauron preferiu trazer os eldar em sua comunidade com pretextos. Ao recorrer as suas qualidades, ele acreditava que podia tirar proveito de suas vulnerabilidades. Mas, realmente existia uma vulnerabilidade? Poderia Sauron enganar os elfos?

Provavelmente não mais do que ele fez. Isto é, Sauron parece ter subestimado os poderes perceptivos dos eldar. Ele não percebeu que os ferreiros élficos tinham consciência de seus atos, quando ele criou o Um Anel e o colocou em seu dedo. Neste momento, os elfos o perceberam, entenderam sua natureza e seus planos, e removeram seus anéis. Sauron nunca teve a oportunidade de influênciá-los como queria.

Eu às vezes me pergunto porque levou quase 100 anos deste ponto (1600 da Segunda Era) para Sauron lançar a guerra com os eldar. Parece que ele simplesmente esperou os eldar e numenoreanos construirem suas defesas. Mas é mais provável que Sauron não tinha o poder de lançar uma campanha massiva conhtra o Oeste. Ele conhecia muito bem as capacidades dos eldar. Sauron lutou contra eles em Beleriand, e testemunhou mais que uma vitória élfica contra números extremamente altos.

Os 90 anos de preparação para a guerra com os elfos proveu tempo para Sauron aumentar as habilidades de sua infantaria órquica, mas também o deu tempo o suficiente para ele aprender a usar seu Um Anel para ganhar melhor controle sobre seus servos. Sauron deve ter usado seu Anel para estender sua influência em muitas pessoas ao mesmo tempo, mas é aparente, vendo os resultados do resultados, que ele não controlava totalmente a Terra-Média oriental. Ele trabalhava com recursos limitados.

Os orcs foram derrotados nas terras do norte por uma aliança de homens e anões no começo da Segunda Era. Se Mordor fosse a única região onde os Orcs viviam no ano de 1500, eles não seriam muito numerosos. As preocupações com os eldar de Eregion por cerca de 1200 a 1500 sugerem que ele prestou pouca atenção aos orcs. Eles podem ter sustentado seus números mas não foi permitido a eles aumentar seu número a um ponto em que chegariam a ser incontroláveis. Isto é, a estratégia de Sauron naquele momento não era a de lançar hordas de orcs sobre o mundo. Podemos ter uma certeza razoável disso porque ele não lançou uma invasão imediata no norte em 1600.

Se os orcs levaram 90 anos para aumentar seus números, será que Sauron utilizou este tempo para fazer contatos com outros povos? Por exemplo, como ele ganhou a confiança dos terrapardenses, especialmente esses vivendo no Enedwaith e Minhiriath? Esses homens ajudaram Sauron durante a guerra, mas eles simplesmente se juntaram a ele quando viram o estandarte de seu bando de orcs, ou será que Sauron se demorou entre eles, ganhando sua lealdade e brincando com seus medos e ressentimentos. Os terrapardenses sentiam-se ameaçados pelas colônias numenoreanas e suas indústrias de madeira. Eles invadiam as terras numenoreanas desde que Anardil (Tar-Aldarion) primeiramente construiu Vinyalondë nos últimos 800.

90 anos também proveram a Sauron tempo para explorar as terras a leste das Montanhas Nevoentas. No "The Peoples of Middle-Earth" (Povos da Terra-Média) nos dizem que Sauron acabou com as terras dos povos edain que viviam nos vales do Anduin e a leste da Floresta das Trevas, trazendo à vida a sua antiga aliança com os anões Barba-Comprida. Seu objetivo ao lançar a guerra parece ter sido destruir as resistências à seu reinado na Terra-Média. Não seria suficiente para Sauron controlar Eregion e os Anéis do Poder. Ele queria eliminar todos os possíveis rivais do poder.

Por conseguinte, os Anões Barba-Comprida foram uma ameaça considerável para os planos de Sauron. Seu reino foi reforçado no começo da Segunda Era por um influxo de anões vindos de Ered Luin. A maioria destes eram anões de Belegost, aliados dos Eldar em Beleriand e inimigos de Morgoth. Khazad-dûm, a cidade principal dos Barba-Comprida, mantinham uma rota vital de suprimento e reforço entre Eregion e os vales do Anduin. Um comércio considerável deve ter sido feito pelas mãos destes anões. Mas o mais importante, os Barba-Comprida eram o poder central do império anão. Eles eram os guardiões de Gundabad, onde o povo anão viveu por incontáveis anos.

Se os Eldar eram uma ameaça ao controle de Sauron na Terra-Média, os anões eram, no mínimo, um obstáculo no caminho. Eles não aceitavam sua dominação e eram, nas terras ocidentais, aliados dos Eldar e dos povos humanos aliados a estes. Sauron tinha consciência do que os humanos poderiam fazer, pois lutou com esses em Beleriand. Entre os homens, os numenoreanos apresentavam o mais perigo, mas sua terra natal era bem distante da Terra-Média. Poucos numenoreanos moravam na Terra-Média. O povo Edain proveram a Gil-Galad e seus aliados um grande poder de batalha.

Por isso, o ataque de Sauron nas terras a leste das Montanhas Nevoentas faz sentido. Enquanto ele sitiava Eregion, as prioridades de Khazad-Dûm ficaram divididas. Sauron pode não ter previsto o assalto que Durin III lançou contra os invasores do Portão Oeste de Khazad-Dûm. Ou então pretendia batalhar no leste para acabar com uma parte do exército de Durin. Os Edain foram expulsos de suas terras, e a maioria foi morta. Os sobreviventes fugiram para as montanhas, onde os anões poderiam protegê-los, ou para as florestas, onde estavam isolados dos outros povos. De qualquer jeito, a maioria dele fugiu para o extremo norte.

Os elfos Silvan provavelmente sofreram terrivelmente. Eles deveriam ser incapazes de fazer ou sustentar o tipo de guerra que os Eldar poderiam fazer, mas eles eram mais numerosos que os Eldar e, em alguns reinos, eram liderados por príncipes Eldarin. Pode ser que muitos reinos menores fossem derrotados ou levados a procurar refúgio na Floresta das Trevas e Lothlórien, apesar da falha de Sauron em destruir os reinos de Amdir (pai de Amroth) e Oropher (pai de Thranduil) implica que lhe faltavam recursos para fazer uma guerra em florestas. Ele deveria ter poucas tropas treinadas para lutar em florestas, se é que ele tinha alguma.

A falha em capitalizar suas vitórias no leste pode ser a razão pela qual Sauron decid
iu queimar as florestas de Eriador. Seus exércitos podem ter acabado com os humanos e elfos dos campos, mas foram impedidos pelas matas. Até mesmo as forças orientais foram exterminadas em batalhas desesperadas, ou então se retiraram quando não podiam chegar mais perto. O ataque de Durin às forças ocidentais de Sauron foi completamente inesperado, e Sauron percebeu que se ele levasse seu exército através das grandes florestas de Eriador, os Eldar e Edain destruiriam suas tropas.

Portanto, depois de destruir Eregion, Sauron mandou tropas para o norte, o suficiente para ter certeza que o exército de Elrond fora derrotado, e então terminar de acabar com toda Eriador. De certa maneira, a destruição que Sauron impôs no mundo serviria como uma coroação, algo como uma declaração de soberania. "Isto é meu e eu faço com ele o que me agrada". Ele estaria dizendo aos elfos indiretamente que ele iria controlar a Terra-Média, e não eles. O bolo era de Sauron, não dos elfos. Estes também entenderam isso.

Depois que a guerra acabou, e Sauron foi derrotado, aparentemente não se falava sobre marchar para Mordor e derrotar Sauron de vez. Alguns elfos fugiram da Terra-Média e Gil-Galad resolveu estabelecer um novo posto em Imladris, que ficava no extremo norte (distante de Mordor) e mais defensível que Eregion foi. Os exércitos que perseveraram a volta de Sauron para Mordor não tinha recursos o suficiente para forçar seu caminho para dentro da região. Então o verdadeiro significado do retrocesso dos Eldar e Numenoreanos é que estes não estavam preparados para o que provocaram.

Mordor, rodeado de altas montanhas, era bem protegida, e sem dúvida Sauron a escolheu como sua fortaleza por causa da geografia. Mas Gil-galad tinha poucos recursos para manter um cerco tão extenso longe de Lindon, se é que tinha algum recurso pra isso. Numenor não tinha bases na área (Pelargir não apareceria por mais 600 anos) e os únicos povos da área não eram amigáveis (com a possível exceção das Entesposas, que queriam ajudar na causa, mas também ficaram neutras.)

"O Conto dos Anos" diz que, no começo do ano 1800, Sauron extendeu seu poder para o leste. Parecia que Sauron, como os Eldar e Numenoreanos, percebeu que era hora de uma mudança na tática. Ao invés de atacar os Eldar diretamente, ele preferiu aumentar seu poder sobre outros povos (provavelmente entre os homens do leste, cujos ancestrais eram leais a Morgoth). A mudança no objetivo de Sauron vem como consequência de uma série de falhas: falhou em aceitar a responsabilidade pela sua rebelião e recusou ir para Valinor; falhou em seduzir os Eldar para seu serviço; e falhou em destruir os eldar, eliminando os rivais em potencial pelo controle da Terra-Média.

A falta de ambição de Gil-galad foi a grande sorte de Sauron. Enquanto Gil-galad se concentrava em curar as terras e povos que Sauron destruiu na guerra, Sauron investiu seu tempo em criar mais recursos. E ele não esqueceu dos anões. Tendo adquirido os Nove e os Sete Anéis do Poder de Gwath-i-Mirdain em Eregion, Sauron perverteu os Anéis e os deu para Hoemns e Anões. Três dos Anéis foram dados para Numenoreanos, possívelmente capitães ou lordes que estavam liderando esforços de colonização na Terra-Média. Apesar dos Numenoreanos começarem a fazer portos permanentes a partir do ano de 1200, eles começaram "estabelecer domínios na costa [da Terra-Média]" por volta do ano de 1800 ("Conto dos Anos").

Por dar os Anéis do Poder aos homens e anões do leste, onde ele já tinha influência, Sauron provavelmente conseguiu um rígido controle sobre muitas terras rapidamente, num espaço de alguns anos ou gerações. Apesar dos homens que receberam anéis terem virado espectros, os senhores anões não poderiam ser corrompidos. E ainda, o estudo "Homens e anões" (publicado no Peoples of Middle-Earth) diz que todos os povos anões do oeste caíram nas sombras. Se Sauron não tivesse dominado os anões através dos anéis, não teria sentido ganhar influência e amizade entre eles através da entrega de presentes.

Os Anéis dados para os anões ocidentais são um assunto mais complicado. Não há indicação de que algum deles ficaram maus. Seus Anéis foram o começo de grandes tesouros (e a prova desta tradição, recordada no Apêndice A dO Senhor dos Anéis, é que as casas reais de Ered Luin não só sobreviveram mas tiveram sucesso na Segunda Era). Como Sauron fez para conseguir entregar os Anéis do Poder para os Anões? E quando? Ele com certeza não os visitou como sua antiga pessoa. Durin III, pelo menos, deve ter resistido a tal tentativa de suborno.

Todo o esforço de redistribuir os Anéis do Poder roubados é a chave do malfeito "Plano B". Sauron não sabia bem o que fazer. Ele precisava de servos mais poderosos com os quais ele poderia conquistar a Terra-Média, mas estes servos não o trazia vantagem sobre os elfos. Em fato, apesar de Sauron ter continuado a atacar os elfos pelos próximos 1300 anos, ele nunca mais montou um tipo de campanha massiva contra os Eldar como ele tentou na guerra. Por quê?

Os numenoreanos com certeza começaram a ganhar mais importância nos assuntos da Terra-Média. A medida que séculos passavam, novas fortalezas numenoreanas e portos foram estabelecidos ao longo da costa. O poderio numenoreanos lentamente marchou para as fronteiras de Mordor. E então Sauron se viu confrontado com dois rivais: Os Eldar no norte e Númenor no sul. E ainda, com a destruição de Eregion, toda a ambição pareceu fugir dos Eldar. Enquanto os Anéis do Poder existissem, os elfos tinham alguma proteção a morte. Então seu objetivo chefe foi cumprido. Mas parecia que eles deixaram que sua alma fosse derrotada. Nunca mais houve grandes reinos élficos na Terra-Média.

Sauron pode ter construído sua força, mas parece ter devotado mais de 1000 anos guerreando com os numenoreanos em várias regiões menores. Sua estratégia ficou mais complicada quando começou a ponderar sobre os dois problemas. A flexibilidade de Sauron sem dúvida fez com que seu reino sobrevivesse. Trocando de direções e controlando facilmente os novas terras no leste, ele estabeleceu um império capaz de aguentar a maioria das incursões de Numenor. Mas ele pareceu ter medo de confrontar o poderio numenoriano. Não há menção a nenhum ataque massivo a uma fortaleza numenoriana. Uma vez que Umbar foi estabelecida, continuou em controle numenoriano. Uma vez que Pelargir foi construída, Numenor teve uma guarda permanente do rio Anduin.

Porém, pode ser que Sauron hesitou antes, e sua relutância aparente em lançar um segundo ataque foi porque percebeu um de seus erros. Quando os elfos perceberam que foram traídos, Sauron poderia se deixar levar pela raiva e orgulho. Ele mandou que rendessem seus Anéis do Poder para ele. Claro que eles recusaram. Logo, Sauron reagiu furiosamente e lançou uma guerra contra eles. Apesar de que ele tenha se acalmad
o-se depois de uma dúzia de anos, qualquer problema que ele sofria na guerra (como perder os exércitos orientais, ou falhar em destruir os reinos florestais) reacendiam ou alimentavam sua raiva. E continuaria assim até que Sauron e seus guarda-costas retornassem para Mordor, derrotados, e se acalmasse o bastante para perceber que ele não iria ganhar o controle da Terra-Média pela guerra.

Logo, os séculos seguintes onde Sauron guerreava com os numenoreanos pelo controle do que deve ter sido territórios relativamente pequenos (a maioria provavelmente no sul) pode ter sido tempo bam gasto na opinião de Sauron. Isto é, ele pode provar e perceber as fraquezas dos numenoreanos, e deve ter estudado-as. Pode ser que Sauron tenha estudado o jovem príncipe que chegou a ser Ar-Pharazôn, já que lá era um indivíduo que poderia ser manipulado, e consequentemente atiçou Ar-Pharazôn (de longe) a desafiar Sauron para um desafio.

Se este era o objetivo de Sauron, ele se surpreendeu. Já que Ar-Pharazôn trouxe um exército tão imenso do oeste que os aliados de Sauron os desertaram. Com certeza, Sauron recorreu a um subterfúgio, rendendo-se para que possa ser levado para Numenor como um prisioneiro. Lá ele adquiriu gradualmente a confiança do rei como um conselheiro e seduziu a vasta maioria dos numenoreanos, muitos destes já rebelados contra os Valar, a cultuar Morgoth e desafiar os Valar. "Akallabeth" lembra que Sauron tinha esperanças de destruir toda Numenor, mas também recorda que ele ficou impressionado com o que encontrou na ilha, já que os feitos dos dunedain ultrapassaram qualquer expectativa sua.

A mudança dos planos de Sauron preservou Mordor como uma base de poder e abriu para ele uma oportunidade de minar a civlização numenoreana. Ele estava claramente agindo oportunisticamente, e talvez preparando coisas a medida que ele continuava. Mas sua jornada em Numenor foi uma aproximação repentina que resultou em reveses temporários (Gil-galad pôde extender seu poder durante a ausência de Sauron na Terra-Média), mas também na realização de um de seus objetivos: a destruição de Numenor.

Com Numenor fora do caminho Sauron retornou para a Terra-Média, machucado mas não ferido gravemente. Ele pode ter tornado seu pensamento totalmente para Gil-galad, mas aprendeu rápido que sobreviventes numenoreanos liderados por Elendil estavam estabelecendo dois novos reinos no norte. Apesar de muitas colônias numenoreanas agora ajudavam Sauron, os dunedain Fiéis estavam ajudando Gil-galad a consolidar seu poder no norte. Em efeito, Sauron trocou uma imensamente poderosa Numenor, que ele não poderia vencer militarmente, com uma imensamente poderosa aliança de homens e elfos.

Sauron atacou Gondor de repente, mas o Apêndice A diz que ele "atacou cedo demais, antes que seu próprio poder fosse refeito; enquanto isso o poder de Gil-galad aumentou em sua ausência". "Dos Anéis do Poder e a Terceira Era" é menos pessimista: "Quando Sauron julgou chegada a hora, investiu com força enorme contra o novo reino de Gondor, tomou Minas Ithil e destruiu a Árvore branca de Isildur que lá estava plantada." Apesar de Minas Ithil ter caído, Anarion resistiu em Osgiliath e mandou Sauron de volta para as montanhas. Sauron pareceu não ter integrado totalmente seus aliados em seu reino, ou então não esperou o bastante para os exércitos chegarem.

O ataque em Gondor foi similar ao ataque em Eregion. Sauron estava selecionando alvos estratégicos e tentando isolá-los dos poderes aliados. Ele conseguiu parcialmente em Eregion: Elrond não pode quebrar as linhas de Sauron, apesar de Durin III ter resgatado alguns do pvo de Eregion. O ataque à Gondor foi outra falha, e revelou a fraqueza dos ataques de Sauron: ele deixava que seus inimigos trabalhassem pelo benefício um do outro, mesmo se não coordenassem seus esforços contra ele. Ambos Elrond e Durin salvaram porções do povo de Eregion porque Sauron estava focado em conseguir os Anéis do Poder. Gondor aguentou seu ataque porque era muito nova para lançar a guerra.

Isildur pode navegar para o norte e incitar Elendil e Gil-galad. A aliança que eles fizeram mostrou ser forte o bastante para destruir o reino de Sauron. De fato, eles criaram um exército maior que Ar-Pharazôn trouxe para a Terra-Média perto de 200 anos antes. Se os aliados de Sauron foram incapazes de encarar o exército de Ar-Pharazôn, é graças a ele que o exército ficou até a batalha final da Segunda Era. Mas eles não eram páreo para a Última Aliança.

Guerra após guerra, Sauron deixou que seus inimigos ajudassem uns aos outros e às vezes trabalhar junto. Ele não percebeu que estava fazendo tudo errado até que Barad-dûr fosse cercada e os planos de Sauron morressem frustrados no sangue derramado nas batalhas. Ele precisava isolar seus inimigos um do outro. Ele lançou um ataque final e desesperado contra Gil-galad e matou o Rei-elfo, mas Elendil ficou perto o bastante para fazer um ataque mortal a Sauron. O último combate ao pé de Orodruin foi mais um ato de decepção do que qualquer outra coisa. Mesmo sem Gil-galad, a Última Aliança venceu a guerra. O império de Sauron foi desmantelado. Seu reino pessoal em Mordor foi ocupado.

Uma segunda morte deu um descanso merecido a Sauron. A Terra-Média estabeleceu um longo período de paz onde os homens esqueceram o Lorde Negro e os elfos só poderiam torcer para que ele não voltasse. Sauron agora tinha muito tempo para refletir seus erros, e quando ele finalmente retornou ele tinha uma nova estratégia, que levou quase um milênio e levou em consideração todas as variáveis que ele não considerou bem o bastante na Segunda Era.

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Caro Gandalf…

Em um dos muitos ensaios que ele escreveu sobre os Istari, J.R.R. Tolkien disse: "Entre os Homens (inicialmente), aqueles que tratavam com eles supunham que eram homens que haviam adquirido tradições e artes através de estudos longos e secretos". Essa é uma observação interessante, uma vez que muitas pessoas geralmente citam uma parte rejeitada de uma carta que Tolkien escrevera, na qual ele pensava que os Homens não poderiam ganhar magia através de tradução e estudos (ele se deu conta de que O Senhor dos Anéis invalidara esse ponto de vista, e escreveu "Mas os Númenoreanos usaram feitiços para forjar espadas?" na margem e decidiu não mandar esta parte da carta).

 

 

 

Tolkien provavelmente escreveu o ensaio sobre os Istari um pouco antes da carta a Naomi Mitcheson (Letters 154 e 155). Ele abandonou o ensaio, que seria uma parte de um catálogo extendido de O Senhor dos Anéis nunca publicado, quando se deu conta de que o projeto era muito pesado para a publicação inicial da estória (ele já tinha adaptado os apêndices propostos para obedecer à necessidade de espaço). A carta a Naomi Mitcheson representa um ponto tangencial, que ascendera rapidamente e perecera nas rochas do cânone publicado – uma ocorrência incomum nos meandros filosóficos de Tolkien através da Terra-Média. Mas o abandono do discurso sobre magia é, provavelmente, a melhor justificativa que os Tolkienologistas têm para argumentar a validade do ensaio sobre os Istari (que se contradisse a escritos posteriores). Mas o ensaio é, pelo menos, consistente em tema e contexto com a versão original de O Senhor dos Anéis.

Continuando a análise do ensaio, Tolkien disse: "(Os Istari) Apareceram pela primeira vez na Terra-Média por volta do ano 1000 da Terceira Era, mas por muito tempo andaram com aparência simples, como de homens já velhos, mas sãos de corpo, viajantes e caminhantes, adquirindo conhecimento da Terra-Média e de todos os que ali habitavam, porém sem revelar a ninguém seus poderes e propósitos".

Assim, os Istari foram inicialmente ignorados pelos Homens, até que a Sombra aumentou e a Terra-Média passou a ficar perigosa, ocasião em que eles começaram a se "intrometer" nos assuntos dos Elfos e dos Homens. Os Homens, por fim, perceberam que os Istari não morriam, então concluíram que eles deveriam ser Elfos. Essa conclusão só poderia ter sido elaborada após a Guerra de 1409. Nessa altura do campeonato, os Istari (provavelmente Gandalf e Saruman) que estavam envolvidos com os Dunedain e os Elfos de Eriador deveriam se tornar conhecidos, pelo menos para os líderes dos Elfos e Homens, e parece razoável supor que precisariam alguns séculos até que os Homens percebessem que aqueles dois caras não eram apenas Númenoreanos de vida longa, e sim, que eram alguma outra coisa.

Quando Faramir perguntou a Gandalf sobre ele próprio em Gondor, o Mago diz: "Tenho muitos nomes em diferentes lugares. Mithrandir entre os Elfos, Tharkûn para os Anões; eu era Olórin em minha juventude no Ocidente que está esquecido; no sul, Incánus, no norte, Gandalf…" Gandalf era o nome que os Homens do Norte deram a ele, e Tolkien tirou esse nome do Norueguês antigo, da Elder Edda, onde "Gandalfr" é o nome de um anão. O nome significa "Elfo da Peregrinação".

Outro nome entre os Homens nórdicos era Orald, o nome que deram a Tom Bombadil, um nome Anglo-Saxão que significa "Muito velho". O Anglo-Saxão e o Norueguês antigo já foram línguas intimamente associadas, até que uma mudança na fonética dividiu os diálogos do mundo nórdico. É, portanto, interessante notar que Tolkien dá nomes em Norueguês Antigo (o idioma que representava a língua de Valle e da Cidade do Lago) aos Istari mais associados a Eriador, e dá a Bombadil um nome Anglo-Saxão (idioma que representava a língua dos Rohirrim).

Podemos inferir que, talvez, ou o Westron de Eriador nos meados da Terceira Era estava mesclado com mais palavras nórdicas do que o Westron de Gondor, ou Gandalf e Bombadil passaram um bocado de tempo a mais nas Terras Selvagens. E vice-versa. O nome de Gandalf indica que ele não tinha negócios casuais com os Homens quando ele começou a ser notado significativamente entre eles. Eles decidiram que ele era um Elfo.

Às vezes eu penso que Gandalf estava à altura de um Elfo antes dele ser mencionado no Conto dos Anos. Ele provavelmente se encontrou com os Reis de Arthedain e Arnor em tempos de perigo – isso seria, provavelmente, durante a Guerra de 1409, a Grande Praga de 1636, a guerra de Araval com Angmar em 1851, e provavelmente no último século da existência de Arthedain, quando Araphant e Ostoher de Gondor restabeleceram as relações entre os dois reinos.

Pode-se apenas palpitar se Gandalf passara algum tempo entre os Éothed de outros Homens do Vale do Anduin. Será que ele inspirou Fram a encarregar-se de qualquer aventura que aparecesse, resultando na escravidão de Scatha, o Verme? Talvez não. É difícil imaginar Gandalf permitindo que um guerreiro valente e orgulhoso como Fram mandasse uma mensagem insultando os Anões como ele fez, a menos que a troca de descortesias tenha ocorrido após Gandalf ter se mudado.

Suas opiniões, no entanto, deveriam ser altamente respeitadas entre os Elfos e os Senhores Mortais, e pode-se facilmente ter a impressão de que Gandalf vagava de reino a reino nos meados da Terceira Era, distribuindo conselhos como uma espécie de "Caro Fulano" ambulante. Sua feroz espirituosidade e sarcasmo não poupariam rei ou príncipe que, imprudentemente, o procurassem para obter conselhos mundanos.

Caro Gandalf,

Há rumores de que o Rei-Bruxo de Angmar está movimentando seus exércitos pelas colinas. O que o povo de Arthedain deve fazer?

Argeleb.


Caro Argeleb,

Você já pensou em deixar alguns barris de cidra forte para os Orcs? Você poderia emboscar todos, uma vez que estarão caindo de bêbados. Se isso falhar, então eu sugiro que você mande um mensageiro veloz até Círdan nos Portos, para ver se ele pode dispensar alguns marinheiros para uma expedição por terra. Não há nada que um Orc ame mais do que um barril de cidra élfica forte.

Gandalf.


Caro Gandalf,

Estamos em dificuldades aqui. Um mensageiro chegou de Minas Anor com uma gripe atemorizante. Parece que todo o interior contraiu essa praga maldita. Você por um acaso não teria alguns pós mágicos para nos ajudar?

Argeleb II


Caro Argeleb,


Conheci brevemente seu bisavô. Desagradável aquele negócio com os Angmarianos, mas no fim tudo ficou bem. Quanto aos pós – sinto muito não poder ajuda-lo. Estão em falta, pois acabei de borrifar o último nos Homens dos Vales do Sul do Anduin. No entanto, você deveria pensar em mandar todos para as colinas para trocar estórias até que tudo passe. O quer que você faça, não aceite mais mensageiros de Gondor por um tempo! Boa sorte e aqueça-se. Beba muito Miruvor! Estarei em Bri no próximo Yule, se é que até lá restará Bri.


Gandalf.



Caro Gandalf,

Estávamos começando a tentar recolonizar Gondor, mas agora parece que Criaturas Tumulares malignas infestaram as antigas colinas e não há ninguém capaz de enfrenta-las. Você estaria disponível para nos dar uma mão?

Araval.


Caro Araval,

Sinto muito saber dos seus novos vizinhos. Essas Criaturas podem ser muito irritantes e problemáticas. Infelizmente, eu estou esperando um longo tempo pela manicure em Lothlórien e não estarei disponível pelos próximos cem anos, mais ou menos. No entanto, estou mandando um camarada que não se importará em ter as Criaturas como vizinhos e fará o melhor para que o mal não se espalhe. Você acha, no entanto, que pode arranjar uma bela donzela jovem para ele, que não dê bola para nenúfares e canções bobinhas?

Gandalf.



Caro Gandalf,

Não tenho certeza se podemos resistir a Angmar por muito tempo. Ouvi dizer que Gondor teve problemas, mas eles não parecem estar tão mal. Você acha que podemos pedir ajuda a eles?

Araphant.

P.S.: Ainda estamos procurando por uma bela donzela. Infelizmente, todas parecem estar prometidas, quando as apresentamos ao velho Bombadil.



Caro Araphant,

Não se preocupe quanto a Bombadil. Ele é do tipo paciente e saberá quando encontrar a garota certa. Quanto as suas relações com Gondor, bem, me parece que você poderia pedir ajuda um pouco parcialmente. Ouvi dizer que eles têm uma donzela de personalidade forte que recusou cada pretendente. Arrume o jovem Arvedui e mande ele lá para pedir sua mão em casamento.

Gandalf.



Caro Gandalf,

Apenas queria escrever para dizer: "Muito Obrigado!" Firiel é a melhor coisa que já aconteceu comigo, e não digo isso apenas porque seu pai tem alguns exércitos realmente grandes. Eu posso prever coisas ótimas para Arnor.

Arvedui, futuro rei de Arnor e Gondor.


Caro Arvedui,

Bom saber que o casamento anda bem. Mas deixe as previsões para Malbeth e os Elfos, se possível. Eles estão nesse barco há um pouquinho de tempo há mais que você, e possuem melhor dom para isso.

Gandalf.


Caro Gandalf,

Isto é para informa-lo de que Arnor não necessitará mais de seus serviços. Nada pessoal, velho camarada, mas estivemos fora da cidade e não temos previsão para voltar. Obrigado por séculos de bons conselhos e felicidades em todos seus futuros esforços. Vença uma para os Dunedain!

Arvedui.

P.S.: Acho que agora entendo o que você tentava dizer. Preciso ir. Tenho que tratar com um homem sobre um cavalo.


Caro Arvedui,

Conforme esperado, sua carta chegou atrasada devido à sorte da guerra. Gostaria que você não a tivesse mandado pelo caminho de Bri. Eu fiz uma checagem em Fornost Erain, mas não achei ninguém, exceto alguns milhares de Orcs e Trolls. Tentarei ver se você está em Lindon. O que quer que você faça, não rume para o norte. Ouvi dizer que há um inverno terrível por vir.

Gandalf.



Caro Gandalf,

Dizem que você não está mais trabalhando em Eriador. Eu estava pensando se você não poderia dar uma passadinha aqui em Lothlórien no próximo século. Tenho um pequeno trabalho que eu gostaria que você fizesse e que seria um verdadeiro estímulo para sua carreira. Diga Olá para Elrond e Círdan, e estou ansiosa para ver vocês.

Galadriel.

P.S.: Como está a espera pela manicure?

valinor

Viajando em Carroças com Hobbits

Provavelmente nunca haverá um filme do tipo Dias de Trovão celebrando as corridas de carroça entre a Vila dos Hobbits e Beirágua. Hobbits são por natureza um povo caseiro, cujos riscos mais selvagens tendem a ser roubar cogumelos e entrar e sair de botes. É claro, alguns ocasionais Tûks rumam para o Mar, mas até Gandalf ter atiçado Bilbo e Frodo Bolseiro a vagarem pela Terra Média, Hobbits provavelmente não passavam muito tempo fora de suas próprias terras por mais de mil anos.

 

Havia uma certa propriedade que acompanhava o Hobbit “literal”, um senso de que “tudo estava bem até este momento”. E este era um falso sentido de propriedade. Os Hobbits, como os Elfos, tinham seus próprios arrependimentos e preocupações. O povo do Condado tinha esquecido (ou parecia fingir ter esquecido) que eles uma vez viveram em Bri, que era agora uma terra estrangeira. E antes de morarem em Bri, eles viveram em terras ao leste das Colinas do Vento, ou ao sul do rio Gwathlo.

Estórias de Hobbits não se tornam interessantes a não ser que alguém agite suas vidas. Todos os dias, durante muitos anos, Hobbits viveram calmamente em suas colinas e jardins, e então alguém viria e tiraria sua inocência. Poderia ser devido a um Necromante, que transforma a Grande Floresta Verde na Floresta das Trevas. Ou poderia ser devido a um Rei-Bruxo que desencadeia uma devastadora série de guerras. Ou poderia ser um mago andarilho que decide ajustar alguns erros e percebe que os Hobbits podem escapar próximos ao escrutínio o suficiente para alcançar algumas coisas.

Qualquer que seja a causa, chega um dia na vida de um Hobbit em que ele põe a família em uma ou mais carroças e ruma para o interior. Tais migrações, ou fugas, devem ser difíceis para todos. Os líderes dos antigos Helvetii, um grupo de tribos celta que vive nos Alpes, a leste da Gália (França), forçava seu povo a queimar suas casas e vilarejos. Os Helvetii e seus aliados entraram na Gália sem nada além de suas carroças e os animais que puderam trazer com eles. Não havia como voltar atrás.

A decisão de deixar suas terras nos Alpes tem sido muito debatida. Os Helvetii não poderiam simplesmente partir por capricho. Alguns eruditos, ao longo dos anos, sugeriram – de fato, insistiram – que os Helvetii seguiam uma antiga prática celta chamada ver sacrum,uma expansão ritual das tribos dentro de novos territórios. Os celtas do Norte da Itália dividiam nomes tribais com os celtas da região Alpina e com os celtas da Gália.

Os Helvetii e seus aliados afirmaram que estavam fugindo para o oeste para escapar das tribos Germânicas e Eslavas. Júlio César usou a migração dos Helvetii como uma desculpa para estabelecer uma base de poder na Gália, e uma vez que ele derrotou os Helvetii, forçando-os a retornar aos Alpes, ele seguiu com a conquista de toda a Gália. As campanhas para a conquista da Gália de César desencadearam uma migração celta final, da Gália do Norte para a Bretanha.

Durante todo o tempo em que os antigos celtas se moviam ou expandiam, arranjos políticos regionais chegavam a Utumno numa cesta de mão. Qualquer que fosse o reino ou cidade que estivesse no caminho da migração, estava normalmente calçado, mas os inimigos dessas pessoas infelizes muitas vezes encontravam novos aliados nos celtas quando viajavam pelas terras. O costume do ver sacrum era disputado, apesar de ser mencionado apenas por antigos escritores. Mas arqueólogos e historiadores, em geral, aceitam que os celtas e os germânicos estavam provavelmente seguindo uma antiga prática de mandar embora os colonizadores assim que suas populações começassem a aumentar.

O registro arqueológico de comunidades agricultoras Européias sugere que, há aproximadamente 8000 anos, fazendeiros foram para a Europa a partir da Grécia. Sabe-se que eles pressionaram os clãs mais velhos e vagantes para o leste e norte. Os fazendeiros trouxeram com eles animais domesticados, ferramentas superiores, armas, e um conhecimento sobre agricultura que os possibilitou formar maiores famílias, viver em maiores comunidades e viver por mais tempo.

A agricultura e a pecuária aumentaram o poder dos clãs, para por fim se tornarem tribos e nações. Mas a tecnologia era insuficiente para suportar grandes populações. Então, a cada poucas gerações, os vilarejos tinham que exilar parte de suas populações. As fazendas locais estavam consumindo toda a terra com a sua tradicional tecnologia de “cortar e queimar”, que proporcionou breves períodos de boa agricultura antes que os agricultores tivessem que se mudar. Fazendeiros da América do Sul estão destruindo milhares de acres de Floresta Tropical todos os anos através de prática similar.

Apesar desse tipo de agricultura requerer que novas terras sejam abertas de tempos em tempos, os fazendeiros podem deslocar-se dentro da mesma região geral, de forma que seu número total não se modifique. Mas a agricultura alimenta muitas bocas famintas, e as pessoas tinham tendência de ter muitos filhos. Apesar de que a maioria das crianças não chegava à maturidade (por uma série de razões), as comunidades agricultoras gradualmente se expandiram para o leste e para o norte por aproximadamente 3000 anos.E então novos povos, que chamamos de Indo-Europeus, começaram a ir para a Europa, e iniciaram o processo de expansão novamente.

Os Indo-Europeus não eram simplesmente agricultores. Eles eram guerreiros, nômades e inventores. Eles projetaram carroças que eram eficientes, fáceis de construir e manter,e capazes de transportar muitas mercadorias. O projeto de carroça dos Indo-Europeus permaneceu essencialmente inalterado até o século XIX, quando pioneiros americanos e vassalos russos usavam vagões que se pareciam muito com os seus antecessores de 5000 anos antes, para abrir terras em dois continentes.

Esses povos Indo-Europeus que se mudaram para a Europa se estabeleceram entre os fazendeiros nas terras densamente plantadas e adotaram um pouco de seu estilo de vida. Um desses costumes era a tradicional prática de cortar e queimar. De acordo com Tacitus, que escreveu sobre eles no século I DC, os Germânicos, um grupo ao norte dos Indo-Europeus, adotaram o costume de obrigar as famílias a sair de suas fazendas todos os anos. Tacitus tinha a impressão de que as tribos germânicas de certa forma aglomeravam-se no interior, queimando suas casas e reconstruindo-as a cada ano.

Tais medidas devem ter sido extraordinárias, e eles devem ter tido motivos políticos por trás de tudo. A Arqueologia nos mostra que existiam cidades fortificadas no norte da Europa, conectadas por estradas e rotas comerciais ao longo de estuários até antes de 1400 AC. Os Germânicos Ocidentais, dos quais vieram os Saxões, Francos e Borgonheses da primitiva História Medieval, eram possivelmente as tribos mais primitivas do n
orte. Mas eles, no entanto, tinham suas próprias cidades grandes e podiam reunir respeitáveis exércitos capazes de destruir legiões Romanas experientes, incluindo as malfadadas três legiões de Quinctilius Varus no começo do primeiro século DC.

Todos esses fazendeiros bárbaros viajantes provavelmente mais forneceram a Tolkien em esquema para as migrações dos Hobbits. Os Hobbits não gostavam de guerras. Eles não conquistavam impérios. Ao invés disso, eles achavam suas própria terras confortáveis e se fixavam por tanto tempo quanto às políticas locais permitiam. Assim como os Celtas e os Germânicos, que divergiram das mesmas subculturas ancestrais Indo-Européias em algum tempo no fim do terceiro ou segundo milênio AC, os Hobbits se dividiram em duas populações após terem entrado em Eriador.

Agora, muitas pessoas serão rápidas ao apontar que havia três grupos de Hobbits: Pés-peludos, Grados e Cascalvas. Sim, isso mesmo. Mas os Cascalvas e os Pés-peludos permaneceram no Norte. Eles cruzaram as Montanhas Sombrias através da Passagem Alta (acima de Valfenda – a mesma passagem onde Thorin e a Companhia foram capturados por Orcs em O Hobbit) e estabeleceram-se em Rhudaur, provavelmente entre o Mitheithel e as Colinas do Vento.

Os Grados cruzaram as Montanhas Sombrias pela passagem do Chifre Vermelho e se dividiram em dois grupos. Alguns foram ao norte para o Angle e ficaram em Cardolan. Os outros se estabeleceram em Terra Parda, ao sul da fronteira de Cardolan. Não é apenas uma coincidência que as famílias de Hobbits que descendiam dos Grados da Terra Parda tinham nomes célticos, enquanto famílias de Hobbits que descendiam de grupos do norte tinham nomes germânicos. Muitos leitores observaram ao longo dos anos como os Terra-pardenses parecem ser um pouco “celtas”.

De fato, todo o povo de Bri tem nomes relacionados a motivos populares celtas (Macieira, Carrapicho, etc). Isto é, são nomes relacionados à natureza. Quer estejam certas ou erradas, as pessoas têm – desde o final do século XVIII – cada vez mais associado os celtas e os druidas com à adoração à natureza e uma espécie de anti-pastorialismo em cidades. Na realidade, os celtas eram grandes e ativos construtores de cidades. Mas nos lembramos deles principalmente por seus fortes em colinas, migrações e por seus misteriosos druidas.

A identificação céltica de Tolkien para com os Terra-pardenses e seus parentes é estabelecida principalmente através de nomes de lugares, como por exemplo, para a terra de Bri. Bri (Bree) é uma palavra britânica para colina e Archet, Coombe e Staddle são todos nomes derivados da antiga língua Britânica (Celta). A animosidade entre os Terra-pardenses – é dirigida de sua terra natal pelos Rohirrim – e os Rohirrim também se assemelham aos Contos Arturianos dos Celtas contra os Saxões.

O próprio Tolkien indicou a conexão celta no apêndice F de Senhor dos Anéis:

…Os nomes dos habitantes da Terra dos Buques eram diferentes daqueles do resto do Condado. As pessoas do Pântano e seus descendentes da margem oposta do Brandevin eram estranhos em vários sentidos, como se disse. Foi sem dúvida do antigo idioma dos Grados do Sul que herdaram muitos de seus estranhíssimos nomes. Normalmente deixei-os inalterados, pois, se agora são esquisitos, já eram esquisitos em sua própria época. Possuíam um estilo que talvez devamos, vagamente, considerar como “céltico”.

Como a sobrevivência de vestígios da antiga língua dos Grados e dos Homens de Bri se assemelha à sobrevivência de elementos célticos na Inglaterra, minha tradução às vezes imita estes últimos. Assim, Bri, Archet e a Floresta Chet são baseados em relíquias da nomenclatura Britânica, escolhidos de acordo com o sentido: Bree “colina”, chet “floresta”. Mas somente um nome de pessoa foi assim alterado. Meriadoc foi escolhido para refletir o fato de que o nome abreviado desse personagem, Kali, significa, em westron, “alegre”, “jovial”, apesar de ser na verdade uma contração do nome Kalimac, da Terra dos Buques, sem significado na época.”

Podemos falar sobre quatro períodos da migração dos Hobbits dentro das histórias estabelecidas por Tolkien: A) sua migração original para os Vales do Anduin, que o ensaio “Anões e Homens” em The Peoples of Middle-Earth indica ter ocorrido no início da Terceira Era; B) suas migrações para Eriador, que o apêndice B de Senhor dos Anéis diz ter ocorrido nos séculos XI e XII da Terceira Era; C) suas migrações para o oeste, para Arthedain, ou para o leste, de volta aos Vales do Anduin e D) suas migrações para o Condado.

O Condado, é claro, se expandiu alguns séculos depois para a Terra dos Buques, e muitos séculos depois para o Marco Ocidental. Mas essas expansões parecem ser diferentes do que as volkvanderungs* dos períodos iniciais. Clãs inteiros deixavam suas terras natais, talvez queimando suas casas para desencorajar seus próprios retiros, e passaram por vastas regiões até alcançar novas terras onde deveriam começar novamente. Tudo o que uma família Hobbit auto-suficiente tinha deveria ir na mudança, em suas costas, ou em carroças puxadas por pôneis e/ou gado pequeno.

Todas as três primeiras migrações ocorreram por razões similares: guerra, ou a ameaça da guerra, tirou os Hobbits de suas terras, assim como os Helvetii e seus aliados deixaram a Helvetia (aproximadamente a mesma região ocupada pela Suíça) no século I DC devido a uma ameaça de guerra a partir do leste e do norte. A Quarta migração se diferenciou das migrações porque, pela primeira vez, os Hobbits migraram em tempos pacíficos. Isso era mais ou menos como um ver sacrum dos povos celtas. Os chefes dos Hobbits, Marcho e Blancho, reuniram o máximo de pessoas que poderiam segui-los e partiram para a terra real de antigamente, além do rio Brandevin.

Devido a razões desconhecidas a nós, os Hobbits dividiram sua nova morada em quatro partes, as quatro Quartas. A divisão provavelmente não ocorreu de imediato. Até certo ponto, deve ter sido estabelecida após a queda de Arnor, depois de Angmar ter sido derrotada e os Hobbits poderem voltar para sua terra natal. Suas casas provavelmente haviam sido destruídas, e os Hobbits teriam que construir tudo novamente. Foi somente quando Aranath (aparentemente anunciado que Aranath) não reestabeleceu o acordo com o rei que os chefes do Condado começaram a organizar questão por conta própria.

Os Hobbits do Condado se estabeleceram em pequenos povoados construídos ao redor de clãs de liderança, que, ao longo de mil anos, em sua maioria fracassavam. Algumas das antigas famílias conservavam suas distintas tradições de clãs, mas muitos se tor
naram homogeneizados em uma sociedade totalmente sedentária.

Eles abriram novas terras, para ser exato, mas somente uma única grande migração é mencionada antes do retorno da autoridade real na Quarta Era. Os Oldbucks deixaram o Condado (ou alguns deles deixaram) e se estabeleceram na Terra dos Buques. Por que um Thain escolheria desistir de sua autoridade é um mistério, mas pode ser que a família Oldbuck havia se tornado tão numerosa que eles simplesmente precisavam de uma terra própria. Nesse caso, as antigas migrações dos celtas ecoam vagamente na última grande jornada Hobbit da Terceira Era.

Os Fazendeiros Celtas eram bem avançados para o seu tempo. Eles eram, de fato, melhores fazendeiros que os Romanos (de acordo com algumas opiniões). Os Celtas usavam arados de ferro e desenvolveram a rotação da safra. Então, apesar de sua reputação de vagar por todos os lugares, os Celtas tentavam permanecer no mesmo local o tanto quanto fosse possível. As migrações são consideradas uma solução para o problema de população crescente.

Os Hobbits, sendo pessoas diminutas, não requeriam tanta terra quanto homens de tamanho normal, mas eles ainda assim deveriam invadir novas terras a cada algumas gerações. O Condado deve ter sido uma região muito grande para as populações iniciais, evidentemente reduzida em 1636 (A Grande Praga) e 1974 (A Queda de Arnor). Como os Oldbucks cruzaram o Brandevin, os Tûks devem ter mandado colonizadores para o norte após a Batalha dos Greenfields (2747), uma vez que Bandobras Tûk tinha muitos descendentes na parte norte do Condado.

As comunidades mais velhas estariam assim estáveis e auto-suficientes, constantemente mandando um fluxo de colonizadores às comunidades mais jovens, que, em troca, teria dado origem às novas comunidades próximas às beiras do Condado. O presente de Aragorn do Marco Oeste para o povo do Condado no começo da Quarta Era demonstrou a necessidade de expansão mais uma vez. O estabelecimento do Marco Oeste teria sido um evento importante. Por todo o antigo Condado, famílias de Hobbits estavam enchendo as carroças, dizendo adeus aos seus amados e partindo à procura de uma nova vida.

Abrir novas terras e encarar os perigos que elas podem trazer (tais como as árvores zangadas da Floresta Velha) não são aparentemente aventuras para os Hobbits e sim feitos nascidos da necessidade. Armados com machados, escavadeiras, martelos e picaretas, os Hobbits começavam a tarefa árdua de conquistar novas terras, cujos habitantes anteriores haviam fugido. Portanto, eles não tinham necessidade de se tornar os grandes guerreiros de que os Celtas eram tão renomados por ser. Um fazendeiro Hobbit somente precisava defender sua safra contra as incursões dos filhos famintos do vizinho.

Mas se as pessoas imaginam para onde os Hobbits foram, a resposta deve ser óbvia. Houve um tempo onde as invasões dos Homens eram demasiado ameaçadoras. Os antigos limites haviam sido quebrados ou esquecidos. Então, eles encheram suas carroças, junto com seus pôneis e pequenas vacas e partiram pela estrada, seguindo para o oeste. De algum modo, eles não foram para o Mar, mas eles continuaram se movendo. E agora eles ainda estão na estrada. Crianças, carroças e tudo.

* volkvanderungs: migrações dos povos, em alemão.


Tradução de Helena ´Aredhel´ Felts

valinor

Shhhhhh! É um Anel Secreto!

Eu sou questionado sobre muitas perguntas a respeito do mundo de Tolkien e certas vezes, eu apenas arquivo as mais interessantes para futura referência. Mas outro dia alguém me perguntou algo que eu não acreditava nunca ter passado pela minha cabeça. Quem sabia sobre os anéis? Um leitor muito astuto ressaltou a mim que Boromir reconheceu o Anel imediatamente, Faramir compreendeu que havia um Anel que envolvia Gandalf e Denethor parecia saber de tudo sobre o Anel…Quando se trata exatamente disso, todos que entram em contato com Frodo parecem saber sobre o “Anel precioso” (como Bombadil o chamou).

 

Se eu puder pegar emprestada uma das comparações que Tolkien tanto detestava, é quase equivalente para todo frentista de posto de gasolina da Rota 66 pedindo a J. Robert Oppenheimer se ele pode dar uma olhada no Fat Man e Little Boy enquanto ele dirige para Los Alamos. O Anel de Sauron era para ser um grande segredo, no entanto, muitas pessoas que Frodo encontrou pareciam saber sobre ele. Gildor Inglorion compreendeu o que estava acontecendo (e como ele sabia que Frodo estava “suportando um grande fardo sem conselhos“, como Glorfindel diz, não é explicado em nenhum lugar).

Como poderia ser que tantas pessoas soubessem algo sobre o Um Anel ao fim da Terceira Era, principalmente considerando-se que estava limitado ao conhecimento daqueles que estavam mais envolvidos com ele por três mil anos?

A resposta deve estar nos dias de Elendil e Gil-Galad, quando eles primeiro formaram sua grande aliança. Tolkien escreveu muito pouco sobre o que realmente aconteceu, mas sabemos que Sauron atacou Gondor e tomou Minas Ithil. Isildur escapou com sua mulher e filhos. Anárion fortificou o Anduin e repeliu as forças de Sauron enquanto Isildur navegava para Arnor. Ali Isildur consultou-se com Elendil, que em troca, consultou-se com Gil-Galad.

Até esse tempo, podemos ter certeza, o total conhecimento dos Anéis de Poder estava limitado somente aos Elfos. Mas o quanto eles sabiam em geral? Qualquer Elfo mais velho saberia que existiam Anéis de Poder, ou o conhecimento era confinado a um grupo seleto? Bom, não há fatos para responder a essas questões. Isto é, não há nenhum ensaio ou nota de Tolkien já publicados que expliquem como o conhecimento sobre os Anéis se espalhou. Elrond contou às pessoas em seu conselho a história completa dos Anéis. “Uma parte de sua lenda era conhecida por alguns aqui, mas a lenda completa por nenhum”, Tolkien escreve no “Conselho de Elrond”.

Isso parece extraordinário. Nem mesmo Gandalf saberia toda a história dos Anéis? Bem, Gandalf não sabia da tradição do Anel até Bilbo aparecer, então talvez ele estava ainda alcançando o conhecimento. Mas a impressão é que a estória de Elrond foi rotulada como: “Segredo de Estado, Necessidade de saber e VOCÊ não precisa saber!” Exceto para ele, Galadriel e Círdan (e talvez Celeborn, mas todos sabem que ele era um forasteiro).

Quando Sauron primeiro se aproximou dos Elfos na Segunda Era, muitos suspeitaram dele, de acordo com a história descartada de Celeborn e Galadriel em Contos Inacabados. Galadriel não reconheceu Sauron (que se nomeou Aulendil por conta própria, apesar de que em outro lugar dizem que ele se nomeou Annatar). Ela desconfiou de um Maia que apareceu de repente e afirmou estar agindo em prol dos interesses dos Valar. É interessante que nenhuma tentativa foi feita para confirmar essa história com Valinor. Os Númenoreanos retornaram a Terra-Média em 600 da Segunda Era e Sauron começou a procurar por alguns bons trouxas alguns séculos depois. Devido a tal questão, os Eldar deveriam ter sido capazes de rezar para os Valar por algum tipo de conselho.

Então parece estranho começar com o fato de que as credenciais de Aulendil/Annatar nunca foram checadas. Talvez alguém tentou espiona-lo, mas talvez havia tantos Maiar que os antigos Noldor coçaram suas cabeças e falaram: “Bom, talvez…” Eu não posso deixar de pensar no prefeito em “The Music Man”, mandando os quatro conselheiros da cidade para descobrir quais eram as credenciais do Professor, e ele os transforma em um quarteto de barbeadores. Talvez Sauron era bastante como Robert Preston, especialmente dada à propensão dos Elfos para canções. Talvez Maglor foi mandado para verificar as credenciais e Sauron o perguntou por que parecia tão deprimido e…

O fato é que Sauron meneou seu caminho em Eregion numa época em que havia muitos Elfos por todos os lados da Terra-Média. O reinado de Gil-Galad se estendeu das costas de Lindon até o rio Brandevin. Os Nandor, Sindar e Noldor estavam aparentemente vagando ao redor do resto de Eriador. Muitos dos Noldor e Sindar estava vivendo alegremente em Eregion, comercializando com os Anões, construindo cidades e fazendo o que quer que os Elfos façam. No outro lado das Montanhas Sombrias os Sindar estabeleceram dois ou mais reinos entre os Elfos Silvan. E Edhellond era um canto calmo e refúgio ao sul das Ered Nimrais (Montanhas Brancas). Era, sobretudo, um mundo muito Élfico. Os Homens apenas por acaso andavam por ali, mas à parte dos numenoreanos, os Homens não faziam muito.

Sauron supostamente visitou mais de uma terra élfica em sua jornada por mentes élficas sugestionáveis. Presumivelmente os Elfos Silvan teriam tido pouco interesse na preservação da Terra-Média. E quanto a morrer? O que é a morte para eles? Talvez Eönwë tenha mencionado a probabilidade da morte dos Elfos, quando ele viajou convocando todos a Valinor, ou talvez não.

Em Lindon, Elrond e Gil-Galad recusaram-se a tratar com Sauron. Eles nem ao menos admitiriam ele no reino. Sauron deve ter mandado uma carta ou mensagem oferecendo-se para ensinar os Eldar em questões elevadas e nobres. Talvez foi um pouco de arrogância da parte de Sauron em fazer tal oferta, mas a reação de Gil-Galad deve ter sido de surpresa. Ele era apenas um rapaz quando Beleriand estava sendo invadida pelo mar pelos Valar. O que ele sabia sobre Valinor e sua felicidade?

Então pode ser que o povo de Gil-Galad era de fato composto, em sua maior parte, por Elfos mais jovens. Poucos dos Exilados originais realmente sobreviveram às Guerras de Beleriand. Destes, muitos aparentemente retornaram para o Oeste após a Interdição dos Valar foi dissipada. Então somente um punhado dos reais antigos Elfos deve ter permanecido na Terra-Média. Destes, a maior e mais bem conhecida era Galadriel, e por alguma razão, ela não ficou em Lindon por muito tempo; Então Galadriel devia estar em Eregion quando Sauron chegou farejando ao redor. De fato, é isso o que a história descartada conta, desde que ela e Celeborn eram (de acordo com esse relato) os soberanos originais de Eregion.

Sauron dedicou sua atenção a “Celebrimbor e seus companheiros ferreiros, que formaram uma sociedade ou irmandade, muito poderosa em Eregi
on, a Gwaith-i-Mirdain; mas ele trabalhou em segredo, desconhecido à Galadriel e Celeborn
”. Nesse relato, o sumário de Christopher Tolkien de um esboço que nunca foi totalmente publicado, Celebrimbor e a Gwaith-i-Mirdain tinham muitos segredos profissionais. Eles não dividiam seu conhecimento livremente com outros Noldor.

Os Noldor, os Fëanorianos em particular, eram muito sigilosos, até mesmo em Valinor. Eles eram de um tipo que não pareciam se dar bem uns com os outros. Até mesmo seus primos Avari, os Tatyar, parecem ter sido mais divididos que os Nelyarin Avari (que eram relacionados com os Teleri, os Eldar que vieram dos Sindar). Fëanor nunca chegou a revelar muitos de seus segredos para os outros Elfos. Então quando ele morreu, muito da sua sabedoria morreu com ele. É claro que muito da sabedoria antiga foi perdida nas Guerras de Beleriand de qualquer maneira. Celebrimbor e seus companheiros devem ter sido os últimos herdeiros dos grandes segredos da Primeira Era. Ou eles podem ter sido um grupo de renascimento, pegando emprestado tudo o que podiam dos Anões e descobrindo coisas por conta própria.

O resultado final foi que os Anéis de Poder eram um projeto originalmente secreto. A maioria dos Elfos não sabia nada sobre eles. As primeiras propostas de Sauron devem ter parecido um tanto quanto vagas, tirando proveito de suas dúvidas e preocupações de uma maneira geral. Não seriam vagas até que Sauron pudesse ter uma longa e sincera conversa de ambas as partes com Celebrimbor sobre o futuro dos Elfos que Sauron estaria apto para lançar o Grande Plano sobre o senhor Élfico. E não é provável que Celebrimbor tenha sido idiota. De fato, ele era provavelmente um dos Elfos mais inteligentes do início da Segunda Era. Sua penetrante sabedoria e insight se juntaram ao seu brilho. Isso teria feito dele um alvo crucial para a fraude de Sauron.

E essa fraude deve ter requerido séculos de trabalho. Sauron deve ter ensinado muito pacientemente aos Gwaith-i-Mirdain muitos segredos sobre a manufatura de várias coisas antes de ganharem sua total confiança. Tolkien nos oferece apenas um vislumbre dos tipos de artefatos que os Elfos eram capazes de fazer: os barcos de Lórien, as cordas e mantos dos Elfos Silvan e a bacia da Galadriel. Esses eram os mais modestos, aparentemente, assim como encantamentos diários, coisas de pouco interesse para os mestres ferreiros. Os Palantíri, criados em Valinor, devem ter sido o tipo de artefato que os Gwaith-i-Mirdain devem ter perseguido. Ou talvez eles se esforçaram para recriar as Silmarils, mesmo porque a Luz das Duas Árvores estava preservada somente na luz do Sol, da Lua e da Estrela de Eärendil.

A explicação de Elrond sobre os motivos dos fazedores de anéis implica que eles eram muito nobres em seus objetivos: “Aqueles que os fizeram não desejariam força, ou dominação, ou acúmulo de riquezas; mas entendimento, ações e curas, para preservar todas as coisas imaculadas.” Nós compreendemos o desejo de “preservar todas as coisas imaculadas”. Os Elfos quiseram criar um pouco de Valinor na Terra-Média através da retenção dos efeitos do Tempo. Mas “entendimento, ações e curas” parece um pouco desnecessário. O que precisaria ser entendido, o que precisaria ser curado, que todos os talentos naturais dos Elfos não seriam suficientes para entender ou curar?

Tolkien dá a entender em um ensaio que era a própria Terra-Média que precisava de cura. Estava poluída, manchada por Melkor, e danificada pela Guerra da Ira. Talvez os Gwaith-i-Mirdain tinham a esperança de criar algo que purificasse o elemento Melkor da Terra-Média. Irônica e tragicamente, eles confiaram nesse mesmo elemento para a criação dos Anéis.

Há uma outra estória envolvendo Galadriel e Celebrimbor. Esse é o conto de Elessar, a pedra élfica que Galadriel deu a Aragorn em nome da Arwen. A estória é, certamente, inacabada, e Tolkien mudou de idéia sobre muitos detalhes. No final, Celebrimbor era para se tornar um ferreiro de Gondolin (mas a estória foi composta antes de Celebrimbor estar incorporado à família de Fëanor) e fez duas Elessar. Uma foi levada para o Oeste por Eärendil e a segunda repôs a primeira e chegou até Aragorn.

O poder das Elessar estava envolvido com a cura e a preservação, e a segunda Elessar é dita como ter sido a maior criação de Celebrimbor depois dos Anéis de Poder. Deve ter sido um objeto muito potente, e a habilidade de Aragorn de curar muitas pessoas em Gondor deve, portanto, ser atribuída em certa medida pela sua posse de uma Elessar.

Desta maneira, parece que os Gwaith-i-Mirdain passavam a maior parte do seu tempo construindo itens mágicos que os Elfos usavam para curar ou preservar pequenas partes da Terra-Média, ou, de outra forma, aumentar seus talentos naturais. A ajuda de Sauron deve ter aumentado a efetividade de seus objetos. Por um tempo eles devem ter transformado os Anéis menores meros “ensaios na arte antes de estar totalmente crescido”, como Gandalf diz. Ele os descreve como sendo “de vários tipos, alguns mais potentes e outros menos”. A frase “vários tipos” é curiosa. Talvez dê a entender que os Anéis menores tinham apenas poderes e propriedades específicas, enquanto os Grandes Anéis, os Anéis de Poder, possuíam muitas propriedades.

Uma preocupação com a preservação e a cura teria dado a Sauron uma linha interna com os Elfos. Ele poderia introduzir mais e mais idéias e ajuda-los em avançar suas metas ao frustrar pequenos saltos. E então, um dia, ele seria capaz de implantar a idéia de criar artefatos poderosos novamente. Eu não acho que Sauron deva ter proposto essa idéia diretamente. Os elfos parecem ter se entusiasmado com tal projeto e, portanto, eles devem ter acreditado que era uma idéia deles mesmos. Uma fraude seria mais engenhosa desse modo. Mas também a fraude pareceria menos manipulativa na superfície, se Sauron estivesse meramente suportanto os Elfos em seus próprios esforços, ao invés de apenas dar a eles instruções explícitas sobre o que deveria ser feito.

E então deve ter ocorrido um razoável número de conversas e planejamentos. Analisar os objetivos do projeto sozinho poderia ter levado meses ou anos. E Por quê? Porque os Gwaith-i-Mirdain provavelmente não queriam que ninguém soubessem o que eles estavam fazendo. As implicações morais do que eles esperavam tentar para retardar os efeitos do Tempo não seriam totalmente compreendidas. Os Anéis de Poder representavam uma nova tecnologia, cujo impacto sobre a sociedade ainda não havia sido medido – uma sociedade que, naquele momento, era dominada pelos Elfos.

Além disso, a natureza secreta do projeto deve ter exigido o menor número de pessoas quanto fosse possível para estar inteiradas a ele. Pode ser que não mais qu
e dezessete Elfos sabiam sobre os Anéis: Celebrimbor e dezesseis outros Gwaith-i-Mirdain, talvez constituindo todos os membros da sociedade. Muitas pessoas dizem que é melhor procurar pelo perdão que pedir. Os Noldor em particular parecem ter favorecido essa filosofia. Quando chegou o tempo de decidir se deviam fazer a tentativa, Celebrimbor e seus companheiros devem ter tido longas discussões sobre as conseqüências morais de fazer qualquer coisa. Talvez no fim eles justificaram sua decisão final ao pesar todo o bem que eles esperavam alcançar contra o possível dano que eles estavam arriscando. Afinal ninguém nunca suspeitou que Sauron pudesse traí-los.

Então, antes dos Anéis serem feitos, os Gwaith-i-Mirdain devem ter tido boas razões para não revelar o que estava acontecendo a ninguém além da própria sociedade. Os Anéis, enquanto iam sendo produzidos, devem ter parecido anéis normais para os outros Elfos, se eles pudessem ser de fato notados. O véu de sigilo deve ter sido sobrecarregado com vergonha e culpa, assim que os Elfos perceberam a traição de Sauron. Imaginem como Celebrimbor deve ter se sentido, sabendo que ele forjou os Anéis em segredo, sabendo agora que Sauron era um antigo servidor de Melkor, agora com o seu próprio Anel Mestre. Quer Tolkien preservasse a rebelião de Celebrimbor (que foi registrada na história descartada de Galadriel e Celeborn) ou mudasse a estória, Celebrimbor teria que confrontar Galadriel com a verdade. Algo terrível havia acontecido, mas algo ainda pior estava para recair sobre os Elfos.

Então, uma vez que Galadriel soube sobre os Anéis, ela aconselhou Celebrimbor a esconde-los. Os Elfos não aceitavam em seus corações o fato de ter que destruir seus próprios trabalhos. Dois anéis foram dados a Gil-Galad, que deve ter sido informado sobre tudo. Quaisquer que tenham sido os sentimentos sobre a imprudência de Celebrimbor, ele também escolheu não destruir os Anéis. O medo de desaparecer deve ter sido muito impregnante na sociedade Noldorin. Então devemos nos perguntar a quem foi contado primeiramente, Elrond ou Círdan? Por um lado, Celebrimbor, Galadriel e Gil-Galad deviam saber que haveria uma guerra. Sauron tinha acabado de tentar escravizar os maiores e mais poderosos dos Noldor. Ele falhou, sua cobertura foi arrancada, e os Elfos souberam que a Terra-Média tinha um Senhor do Escuro novamente. Não era o tipo de situação que exigia que Sauron se escondesse até que a tempestade acalmasse.

De sua parte, Gil-Galad pediu ajuda aos Númenoreanos, mas não contou a eles sobre os Anéis. Tolkien menciona essa omissão nas relações Elfo-Dúnadan na Carta 211 (Letter211): “Eu não creio que Ar-Pharazon soubesse algo sobre o Um Anel. Os Elfos mantinham a questão dos Anéis bastante secreta, conforme podiam…" Então o apelo de Gil-Galad a Númenor deve ter sido muito cuidadosamente escrito. Ele tinha previamente requerido a ajuda de Númenor, enquanto Sauron estava atrapalhando toda a Terra-Média, incitando criaturas maléficas. Antes de Sauron decidir se estabelecer em Mordor, Gil-Galad estava apenas consciente de que algum poder maléfico estava organizando homens e antigos servidores de Morgoth. Mas ele não conseguia achar a fonte de suas preocupações. A revelação de Sauron como o forjador do Um Anel confirmou os piores medos de Gil-Galad. No mínimo ele tinha uma justificativa para começar uma guerra com Sauron.

Númenor mandou homens e mantimentos à Terra-Média, e durante o curso de 100 anos, os Númenoreanos construíram fortes e estoques ao longo dos rios Lhun e Gwathlo. A estratégia total parece ter sido defensiva. Os Elfos sabiam que uma guerra estava se aproximando, mas não sabiam quando. Sauron era poderoso, mas ele não controlou a Terra-Média do jeito que Morgoth fez. E Númenor ainda não comandava os enormes exércitos e navios que um dia iria formar. Um ataque prematuro ainda não havia sido considerado, aparentemente. Talvez Gil-Galad ainda não soubesse onde se estabelecia o domínio de Sauron. Mordor não parecia tão longe de Eriador quando olhamos no mapa, mas havia uma grande distância de cerca de 1000 milhas entre Barad-Dûr e Lindon. E Gil-Galad podia ainda não saber até mesmo em que direção começar a procurar.

Então os Elfos não falaram nada aos seus aliados sobre os Anéis de Poder, ou sobre o que a guerra era realmente. Isso pode ter sido apropriado para a política de sigilo deles de deixar Sauron atacar primeiro. Depois do ataque, justificaria o fato chamar Númenor para mais ajuda. Os Elfos seriam o grupo aflito. Eles já eram, considerando que Sauron havia tentado escravizar os Gwaith-i-Mirdain. Mas o motivo de queixa era moralmente fraco. Que interesse os Noldor tinham ao brincar com o Tempo de qualquer maneira? Porém, mais importante ainda, Gil-Galad parece não ter compartilhado a verdade com o seu povo. Eu duvido que muitos de seus conselheiros teriam conhecimento sobre os Anéis. Alguns dos Noldor podem apenas ter decidido jogar Celebrimbor e os Gwaith-i-Mirdain aos wargs que gastar seu sangue em outra guerra insana.

É claro, quanto mais pessoas descobrem um segredo, menos secreto ele é. Gil-Galad tinha capitães com potencial para mandar ao leste a fim de reforçar Eregion. Por que ele escolheu Elrond? Círdan era um antigo senhor dos Eldar, tendo como experiência as guerras de Beleriand (de fato, ele era o único comandante de campo que sobrevivera às guerras). Glorfindel havia retornado a Terra-Média para ajudar na guerra, de acordo com um breve ensaio que Tolkien escreveu tarde em sua vida. Ele também seria uma boa opção para mandar a Eregion. Mas foi Elrond quem Gil-Galad mandou. Eu acharia que Elrond devia estar presente quando Celebrimbor contou a Gil-Galad sobre os Anéis. Não que os nobres de Gil-Galad teriam se rebelado, mas para que sobrecarregá-los com uma culpa que não era deles?

Mas se o silêncio de Gil-Galad estaria condenando, o que Celebrimbor poderia ou deveria contar aos Elfos de Eregion? Muitos deles parecem ter escapado, por Moria ou fugindo por terra. No entanto, será que eles sabiam sobre o que era a guerra? Eu não acho que a tragédia da loucura de Celebrimbor seria aumentada se sua vergonha o tivesse proibido de confessar o que ele e os Gwaith-i-Mirdain haviam feito. Se eles não estavam contando nada aos Dúnedain pelo bem do sigilo, então também seria melhor não contar nada ao povo de Eregion. E então isso significa que os Anões de Moria não podiam saber sobre o que era a guerra. Tudo o que ia ser falado a todos era que o grande Senhor do Escuro estava chegando.

E ele chegou. Sauron espalhou-se para o norte e atacou tudo o que viu. Ele não apenas invadiu Eregion, como também foi para os Vales do Anduin e as terras ao leste da Grande Floresta Verde. Os Homens do Norte se dirigiram para as florestas e montanhas. Sua cultura foi virtualmente apagada. Muitos Elfos também devem ter perecido. Eregion tombou rapidamente e Sauron a destruiu. Assim como muitos Elfos
escaparam, muitos outros sofreram mortes horríveis enquanto Sauron procurava desesperadamente os Anéis de Poder. Se ele não podia ter os Elfos, ele certamente não queria que os Elfos tivessem sua Valinor na Terra-Média.

A defesa de Ost-Em-Edhil (Fortaleza dos Eldar) deve ter sido particularmente amarga. Na história descartada de Galadriel e Celeborn, conta-se que Celeborn liderou um ataque. O propósito do ataque não é de fato estabelecido, mas pode indicar que Celeborn havia reconhecido a falta de esperança na situação. Celeborn pode ter comandado os Elfos mais inocentes, enquanto os Gwaith-i-Mirdain e seus seguidores teriam ficado para trás para dar resistência à cidade. A última posição de Celebrimbor pode ter sido uma tentativa de reparar o que ele havia feito. Mas ao invés de morrer em batalha e guardar os segredos dos Anéis para sempre com ele, foi dirigido novamente para os degraus da Casa dos Mirdain. Sauron deve ter dado ordens para captura-lo vivo a todo custo. Imaginem os orcs sacrificando a si mesmos, assim como seus ancestrais fizeram ao levar Húrin após a Nirnaeth.

A perda de Eregion mais provavelmente significou que todos os Gwaith-i-Mirdain haviam perecido, e seu segredo vergonhoso foi preservado apenas pelos poucos senhores Eldarin que conheciam a contagem total. Os Gwaith nunca são mencionados novamente, em nenhum escrito. É interessante notar que outra sociedade, ou “escola”, os Lambengolmor (mestres de Línguas), sobreviveram à Guerra. Seu último membro foi Pengolod, que viveu em Eregion. Ele escapou, e após a guerra ele pegou um navio e deixou a Terra-Média. A destruição de Eregion parece indicar que muitos outros grupos antigos e eruditos também pereceram, ou sofreram tão terrivelmente que seus sobreviventes fugiram quando puderam. Numa nota encontrada no apêndice de “O Senhor dos Anéis”, Tolkien diz que os Eldar não tentaram nada de novo na Terceira Era. Pode simplesmente ser que não restou ninguém suficientemente talentoso nas artes sub-criativas para criar novos artefatos.

No despertar da guerra, Gil-Galad teve que reconstruir seu reino. Lindon sobreviveu, mas, sem sombra de dúvidas, sofreu muitos danos. Elrond também sobreviveu. Ele nunca teve sucesso ao reforçar Celebrimbor, mas ao invés disso ele foi dirigido para o norte (talvez com Celeborn). Elrond havia reunido tantos Homens e Elfos quanto pode e resistiu em Imladris. Naquele tempo muitas pessoas aflitas teriam perguntado: “Por quê? Por que essa guerra aconteceu?” E Elrond não seria capaz de responde-las. No entanto, ele tinha que saber a verdade. Sua defesa foi leal e valente, mas foi talvez fortalecida por uma solução nascida da culpa e do desejo de reparar as decisões terríveis que Celebrimbor – seu amigo – havia feito. De certo modo, a Guerra dos Elfos e Sauron marca uma perda final da inocência dos Noldor. Na Primeira Era, aqueles Noldor que eram nascidos em Beleriand conheciam sua história e patrimônio. Na Segunda Era, nenhum realmente sabia a contagem. Era muito perigoso contar a qualquer um. Os Anéis parecem ter tido um efeito muito debilitante no julgamento das pessoas que sabiam sobre eles. Nem Galadriel ou Gil-Galad, que não tinham nada a ver com a forja dos Anéis, conseguiam achar forças para destruir os Três.

Depois da guerra Gil-Galad convocou um Conselho em Imladris. Talvez ali ele finalmente revelou aos outros senhores Élficos o que realmente havia acontecido. Tolkien não nos conta quem compareceu, mas é possível que até mesmo os Númenoreanos foram excluídos do Conselho. Númenor ainda não estava realmente envolvida com a Terra-Média. Gil-Galad teria agradecido e recompensado os Númenoreanos profusamente, com certeza, mas ele não os contou sobre os Anéis de Poder. Seria presumido que Sauron teria achado os Nove e os Sete, uma vez que nenhum dos Elfos sobreviventes os possuíam. Não parece provável que os Elfos pudessem prever o que Sauron pretendia fazer com os Anéis. Por que eles permaneceriam calados se eles sabiam que os Homens e os Elfos poderiam estar sendo pressionados? E ainda, Gil-Galad e seus conselheiros devem ter percebido que Sauron poderia adquirir coisas terríveis com aparatos tão potentes. Então eles devem ter tomado uma postura do tipo “esperar para ver”.

Mas a decisão dos Eldar de não contar a ninguém sobre o Anel dificultou os erros dos Gwaith-i-Mirdain. Pois agora Sauron era capaz de influenciar Anões e Homens com impunidade. Certamente, muitas pessoas perguntam como Sauron ainda podia se locomover sem ser rotulado como inimigo público número 1. Ele deve ter assumido uma nova aparência. Tolkien escreveu que sua forma real era de esplendor, humanóide, embora mais largo que um Homem. Ele parecia gigantesco. E ainda ele poderia ter tomado a forma de um Anão ou de um modesto Drúadan Ele poderia se aproximar virtualmente de qualquer um no disfarce perfeito, ganhar sua confiança, e, finalmente, dado um Anel a eles. Ou pior, ele pode ter incitado tentado as pessoas a procurar os tesouros perdidos dos Elfos. Ambos os Homens e Anões estavam querendo procurar tesouros. Eles provaram isso antes. Então os Dezesseis Anéis de Poder capturados podem ter sido bem engenhosamente deixados em lugares secretos, para um punhado escolhido de Homens e Anões acharem. E eles não te
riam contado a ninguém sobre suas descobertas.

O véu de sigilo, portanto, trabalhou para os fins de Sauron. Ele pode ter falhado ao tentar escravizar os senhores Anões que pegaram os Sete Anéis, mas ele ainda era capaz de corromper seus corações. Os Nove Homens que pegaram os Anéis de Poder se transformaram em espectros e se tornaram os servidores mais terríveis de Sauron. Os Homens que se espalharam pela Terra-Média não imaginariam o que eram esses espectros do Anel, mas os Númenoreanos teriam se lembrado que Sauron era um antigo mestre de fantasmas e feitiçaria. Os servidores do Escuro não necessariamente deviam ser chamados de espectros do Anel. Eles podem ser percebidos como espectros, demônios, ou alguma outra coisa.

Ao passo que a Segunda Era avançara, os Númenoreanos se tornaram mais poderosos, mas então eles tornaram-se divididos. Então mesmo se Gil-Galad pudesse ter considerado revelar o segredo dos Anéis aos seus aliados, a crescente antipatia para com os Elfos entre os Reis e seus seguidores teria desencorajado tal política. Para que jogar lenha no fogo crescente? Os Númenoreanos podiam apenas tão facilmente ter culpado os Elfos por seus problemas como não.

E, no entanto, os fiéis Númenoreanos ficaram ao lado dos Elfos. Eles até mesmo colonizaram terras próximas ao reino de Gil-Galad a fim de continuar a aproveitar a companhia dos Elfos. Quão freqüentemente poderia Gil-Galad e Elrond ter olhado nos olhos dos Homens que os acolheram com total confiança e amizade, e que nada sabiam sobre os Anéis? Séculos de tal amizade deve ter provado ser um grande fardo a eles.

Finalmente, após Númenor ter sido
destruída e todos esperarem que Sauron pudesse estar morto por algum tempo, ele reapareceu com um exército e atacou Gondor. E Isildur espalhou as notícias sobre o ataque a Arnor, e ali Elendil se consultou com Gil-Galad. Obviamente, Sauron não ia ser fácil de se matar, mas os Dúnedain conheciam sua história. Aparentemente, não havia registro de nenhum Maia retornando à vida na Primeira Era. A morte para eles também era uma experiência muito potente. Como Sauron poderia ter sobrevivido? Imaginem as faces culpadas que devem ter confrontado Elendil e Isildur se eles tivessem feito essas questões a Gil-Galad e seus conselheiros. “Ei, caras, vocês não estão nos contando tudo, estão?”.

Então a Última Aliança dos Elfos e Homens teve que ser formada na base da absolvição.Isto é, Gil-Galad teria que contar a Elendil e Isildur o que estava acontecendo. E da parte deles, Elendil e Isildur tinham que perdoar Gil-Galad. Não apenas por si próprios, mas por incontáveis gerações de Homens que não podiam falar por si próprios. Em adição, eles tinham que se dar conta do que aconteceu com os Anéis de Poder perdidos. Os Nazgûl eram conhecidos por aproximadamente mil anos. Naquele tempo, os senhores Eldarin que sabiam sobre os Anéis de Poder devem ter imaginado se havia alguma conexão. De fato, quando os Nove Homens que se tornaram os espectros ainda estavam vivos, Tolkien conta que eles eram grandes reis e feiticeiros. Se eles foram famosos, será que os Elfos ouviram falar sobre seus estranhos poderes? Havia alguma curiosidade sobre eles?

Deve ter sido difícil para Gil-Galad saber tanto sobre os Anéis de Poder. Se Galadriel e ele não conseguiam achar o conhecimento que eles precisavam através de algum tipo de visão (como ela fez com o espelho em Lórien na Terceira Era), eles teriam que falar aos seus espiões e batedores o que procurar, ou eles apenas teriam que esperar e juntar bocados e pedaços de informações ao longo dos séculos.

Alguns leitores são da opinião que a rima do Anel em “O Senhor dos Anéis” deve ter sido composta logo após a Guerra dos Elfos e Sauron. Mas quem quer tenha composto a rima teria que saber quais eram os destinos dos Sete e dos Nove. Até então, não há como demonstrar que os Elfos sabiam algo sobre os Sete antes de estarem livres para falar com os Anões. Os Anões certamente não estavam andando por aí contando às pessoas que eles tinham Anéis mágicos. Então os Nove reis-bruxos que surgiram entre os Homens devem ter sido conspícuos somente em sua longevidade e sua aproximada expectativa contemporânea de vida. E ainda, se os Elfos estavam procurando por sinais dos Anéis de Poder, eles estavam procurando por Dezesseis, não Nove, ou Sete Anéis. O fato de Sauron ter pervertido os Anéis antes de distribuí-los iria, mais para frente, complicar as coisas para os Elfos. Gil-Galad pode não ter realmente entendido o que estava acontecendo até Durin IV ser convidado para a aliança.

Não sabemos com certeza se Durin IV era o Rei dos Longbeards no final da Segunda Era, mas há uma pequena evidência apontando para o seu nome. E a questão dele entrando na aliança não é fornecida. Parece que Gil-Galad e Elendil formaram sua aliança e então marcharam para Imladris. Dali, eles parecem ter mandado mensageiros para a Grande Floresta Verde, Lórien, Khazad-dûm e talvez outras regiões. Eu diria que é mais provável que Gil-Galad teria um segundo “conselho branco” em Imladris. Seria momentâneo como o Conselho de Elrond 3000 anos depois, ou talvez até mais. Nesse Conselho devem ter comparecido reis em atendimento e muitos senhores e príncipes. E seria a primeira vez que os Elfos falariam abertamente sobre os Anéis de Poder para todos os seus aliados.

Seria natural para os convidados querer saber por que eles deveriam se unir à aliança. Sauron vinha aterrorizando a Terra-Média por um longo período de tempo. Mas a sua morte em Númenor e reaparecimento 100 anos depois indicou que ele não estava apenas indo embora. E devido ao fato do problema dos Anéis ter se originado na Terra-Média, pode ser que quaisquer apelos a Valinor tenham chegado em ouvidos surdos. Os Elfos criaram o problema e precisavam resolve-lo. Mas eles não poderiam fazer isso sozinhos. E não serviria para nenhum propósito para os vários reis não-Eldarin proferir recriminação após recriminação. Principalmente uma vez que Celebrimbor e os forjadores dos Anéis estavam todos mortos. As pessoas verdadeiramente responsáveis pelo problema já haviam pagado com as suas vidas, e seu legado estava se tornando um fardo equivalente para todos.

Mas se os Elfos podiam enfrentar e admitir o que eles haviam feito, talvez os Anões fossem convencidos a confessar que foram dados Anéis aos seus ancestrais. Pode ser que Gil-Galad foi capaz, junto com a ajuda de Durin, trazer todos os Sete senhores dos Anões a Imladris. E ao ouvir que os Elfos tinham traído todos não uma vez, mas duas, a maioria dos Anões deve ter escolhido se afastar. Eles manteriam seus Anéis, que obviamente não iam prolongar suas vidas, ou transforma-los em espectros. E eles deixariam o mundo decidir seus próprios assuntos. Isso parece uma atitude bem típica dos Anões. Somente os Longbeards desenvolveram alguma real afinidade com os Eldar, mas os Nogrodians tinham um antigo motivo de rancor para com os Eldar. Os Quatro grupos do leste devem ter sido a minoria, mas eles certamente tinham pouca, senão nenhuma, conexão com os Elfos e os Dúnedain.

Então, deve ser que a rima dos Anéis foi criada nos anos iniciais da Última Aliança. Mais provavelmente foi composta em Imladris, logo após (senão durante) qualquer outro conselho que Gil-Galad realizara com os outros soberanos da Terra-Média. A natureza dos Nazgûl e a possessão dos Nove Anéis desaparecidos deveriam ser inferidas, mas era, a essa altura do tempo, certeza de quem estava com os Anéis. E o melhor segredo guardado da Terra-Média já não era mais de fato um segredo. No entanto, Gil-Galad não teria divulgado quem possuía os Três Anéis. Para mantê-los em segurança, ele deu seus dois Anéis a Elrond e Círdan. No entanto, a rima dos Anéis diz que os Três foram concedidos aos reis Élficos. O compositor da rima, portanto, não poderia ter sabido onde os Três estavam. Ele (ou ela) deve ter acreditado que Gil-Galad, Oropher e Amdir possuíam os Três. Convenientemente, todos os Três morreram em guerra, e ninguém reinvidicou os Três de seus corpos. Então os Elfos e seus aliados devem ter ficado em dúvida sobre quem tinha os Três logo após a morte de Gil-Galad. E essa dúvida seria refletida na rima do Anel se tivesse sido composta após a morte de Gil-Galad.

E isso nos traz à Terceira Era. A Última Aliança foi vitoriosa, e os vencedores semp
re escrevem as histórias das guerras. Sábios em Arnor, Gondor, Khazad-dûm e outras terras devem ter registrado muitas coisas sobre guerras. As bibliotecas de Arnor foram eventualmente perdidas ou destruídas. A sabedoria de Gondor declinou, e a maioria de seu povo esqueceu a maior parte de sua história. Khazad-dûm foi tomada por um balrog, e a maioria do povo de Durin se dispersou ou foi morta. No entanto, algumas pessoas preservaram a sabedoria de antigos eventos aqui e ali. Se a maioria dos homens de Arnor e Gondor em certa época entendeu sobre o que era a Guerra da Última Aliança, eles teriam passado a sabedoria para frente. Pois ainda havia Anéis de Poder ali, e eles eram coisas perigosas.

No fim da Terceira Era, Gandalf tinha poucos recursos para consultar em questões da sabedoria dos Anéis, mas Saruman havia sido o especialista. Ele pode ter achado muitos arquivos que Gandalf não tinha acesso. E Elrond deve ter tido muitas conversas com Saruman sobre os Anéis e aqueles que os fizeram. Ele, sem sombra de dúvidas, conhecera Celebrimbor pessoalmente, e deve ter conhecido alguns outros ferreiros do Anel. Outros membros da casa de Elrond, ou talvez senhores Élficos próximos, assim como Gildor Inglorion, podem ter sido capazes de contar a Saruman sobre a estada de Sauron em Eregion. Algo que Tolkien não nos conta é se Saruman acumulou sua própria biblioteca em Orthanc, após ele ter se estabelecido lá, com cópias de livros e pergaminhos, preservando o conto do Anel.

Deve ter sido útil estudar o conto dos Anéis, para ser capaz de imaginar quem poderiam ser os próximos “caras maus”. Saruman (e os Eldar) não poderiam saber se Sauron pegou os Anéis de volta dos Nazgûl. Não até Gandalf descobrir que Sauron estava reunindo todos os Anéis, em 2851. Mas os Reis Anões estavam desaparecendo. Estavam eles sendo consumidos por dragões, ou caindo nas mãos de aventureiros? O conhecimento de Saruman teria sido muito útil para os Eldar e Istari, uma vez que eles precisavam entender o que Sauron havia feito com os Anéis. E eles precisavam saber quem podia brandi-los também.

No final, o conhecimento dos Anéis deve ter escasseado nos cantos mofados da elite. Os sábios da Terra-Média tinham a tendência de vir de famílias abastadas. E assuntos de contos antigos, que poderiam um dia afetar o bem estar das nações, seriam cuidadosamente acumulados e cultivados pelos senhores dessas nações. Denethor era mestre de muitos segredos, e ele parecia estar totalmente consciente do que o Anel era. O intercâmbio que Gandalf comunica no Conselho de Elrond dá a impressão que Denethor não sabia sobre o pergaminho de Isildur, mas eu não estou convencido. Gandalf não estava exatamente dividindo suas preocupações com Denethor, então por que Denethor deveria ter dividido o que ele sabia sobre os Anéis? Denethor não tinha nenhuma razão para dar informações voluntárias, informações que ele não sabia que Gandalf estava procurando.

Faramir, certamente, era leal a Gandalf, e pôde muito bem ter estado com Gandalf quando o mago estava remexendo entre os antigos registros. Se Gandald confiou em Faramir para ser discreto, então o príncipe pode muito bem ter visto o pergaminho em que Gandalf estava mais interessado, e, portanto, ele pode tê-lo estudado. Então quando Faramir conheceu Frodo e Sam, ele foi capaz de conversar sabiamente sobre o Um Anel. Ele não necessariamente divulgou tudo o que sabia de prontidão, mas Faramir parece ter concordado muito rapidamente com o plano de Gandlaf. Por que isso? Ao menos que tenham contado a ele a história completa da guerra da Última Aliança, Faramir deveria ser bem leigo. Boromir revela que ele sabia sobre o Anel no Conselho de Elrond, mas se surpreende ao saber que Isildur o pegou. É dele a declaração que “se alguma vez tal conto foi contado no Sul, já foi esquecido há tempos”, o que nos leva a crer que ninguém em Gondor lembra do Um Anel.

A resposta deve ser que Boromir somente prestou atenção aos fatos do caso. Isto é, ele estava, provavelmente, somente interessado nos detalhes do poder, e não nas motivações que levavam à criação, nem nos eventos que o cercavam. Boromir era um guerreiro de coração e não muito um sábio de fato. Então Boromir passa uma primeira impressão pobre no leitor até então, enquanto os sábios de Gondor estão preocupados. Faramir conta a Frodo e Sam que a ele e seu irmão foi contada a estória de sua cidade e condados, e que os Stewards preservaram muita sabedoria antiga que somente poucas pessoas acessaram.

O fato da existência do Um Anel (e a existência de um grupo geral de “Anéis de Poder” mágicos) era assim, se não parte da sabedoria comum, então um fato ainda bem conhecido aos soberanos e as classes elitistas da Terra-Média de uma época. Até mesmo Glóin parece saber algo sobre os Anéis quando ele fala no Conselho de Elrond, embora ele saiba menos sobre os Anéis Élficos do que ele indica saber. Pode ser que Dáin tinha aberto a biblioteca de Erebor e havia dado informações a Glóin. Mas Glóin era primo de Dáin, um membro da família real. Parece pouco provável que ele seria completamente excluído dos registros de família. Ele provavelmente sabia tanto sobre a história geral dos Anéis de Poder quanto os mais sábios nobres de seus dias.

O conhecimento dos Anéis de Poder não estaria disponível entre as pessoas mais novas e nações. Os Homens do Norte eram antigos, mas suas culturas haviam evoluído e divergido através dos longos anos da Terceira Era. Os Rohirrim não mantiveram registros escritos, e eles não estavam interessados em questões antigas, exceto quando seus ancestrais figuravam como heróis de canções. Os Homens de Dale e os Woodmen de Mirkwood, mesmo se mantivessem alguns registros, não tinham de fato uma história antiga para sustentar um total relato sobre os Anéis de Poder. Arnor e seus reinos sucessores, Arthedain, Rhudaur e Cardolan, havían caído. Todos os que permaneceram foram os habitantes de Bri, os Hobbits do Condado e o povo de Aragorn. E os Hobbits não estavam muito preocupados com a história em absoluto, quanto mais com história antiga!

E assim que os séculos passaram, os Anéis se tornaram menos e menos importantes para os povos da Terra-Média. Sauron os queria, e o Conselho Branco sabia que eles ainda causariam uma ameaça para os Povos Livres. Mas não havia novas buscas para encontra-los, pois as pessoas que sabiam dos Anéis sabiam que eles eram perigosos. Ou ao menos elas deviam saber que grandes e terríveis guerras foram travadas devido aos Anéis no passado. A história completa provavelmente era conhecida somente por Elrond, Galadriel e Círdan, e mais provavelmente, por Saruman e Gandalf. Talvez alguns outros membros do Conselho Branco conheceram o relato completo também.
Para todos os outros, havia pedacinhos do conto passados de geração em geração.

Então, quando o primeiro ataque de Mordor foi derrotado e Aragorn e Gandalf se encontraram com Éomer e os senhores de Gondor e Rohan, eles foram capazes de falar abertamente sobre o Um Anel. Gandalf parece até mesmo ter confidenciado a Theóden um pouco sobre a jornada do portador do Anel, quando ele trouxe o rei envelhecido ao seu lado e falou com ele. Já era suficiente mencionar o Um Anel. Os Senhores sabiam sobre o que Gandalf estava falando. Eles entenderam que um grande e poderoso talismã estava sendo arriscado. Eles entenderam, essencialmente, que a guerra toda estava realmente sendo travada devido ao Anel.

Poderia-se dizer que gerações de nobres devem ter passado para frente o conhecimento mais básico sobre os Anéis de Poder de uma forma quase religiosamente dedicada. Quando todos os outros contos de dias antigos estavam perdidos ou esquecidos em meio a pergaminhos ilegíveis, os Homens se lembrariam de contar a seus filhos que, em uma certa época, havia um Senhor do Escuro que tinha um Anel terrível. E esse Anel era diferente de todas as outras coisas mágicas na Terra-Média. O conhecimento persistiu onde era mais preciso, então quando o dia chegou, serviu para aumentar a resolução dos Homens que tinham que enfrentar o Senhor do Escuro e rir na sua cara enquanto alguns Hobbits saíam correndo ao lado do Orodruin. Ninguém realmente precisava entender a história dos Anéis para lembrar que eles existiam. As pessoas estavam conscientes de que eles existiam, de uma forma geral e vaga. Mas os longos anos e as devastações arruinaram os Homens, Elfos e Anões que serviram para guardar o segredo contra a antiga vergonha dos Eldar.

Tradução de Helena ´Aredhel´ Felts

valinor

Ele deverá ser como uma árvore plantada ao longo de rios de água

As árvores da Terra Média revelam o profundo amor de Tolkien pelos graciosos gigantes da natureza. Mas apesar de os Ents defenderem a causa das árvores num mundo de lenhadores de duas pernas, eles parecem ter revelado um pouco mais sobre eles. Devemos aumentar as palavras de Tolkien com nossas imaginações, uma vez que estamos prestes a contemplar todas as árvores dos silenciosos e selvagens bosques.
 

Como os Ents foram parar na Floresta Fangorn? Como, e quando, eles fizeram a jornada através da Terra Média para o extremo sul das Montanhas Cinzentas? E por que eles se moveram por todo esse caminho até lá? Fangorn conta a Merry e Pippin que ele uma vez vagou pelos prados de salgueiro de Tasarinan. Prados de salgueiro é uma expressão curiosa, uma vez que árvores não crescem em prados. Porém, Tolkien adorava espalhar salgueiros por toda a Terra Média, ao longo de rios e lagos. E salgueiros realmente crescem junto de rios e lagos.

O salgueiro há muito tempo tem sido usado como um símbolo de arrependimento e amor perdido na literatura Inglesa. Quando Fangorn conta sobre sua juventude em Beleriand, ele começa com os prados de salgueiro de Tasarinan (Nan-Tathren no mapa de Beleriand, uma região entre as fozes do Sirion e seus Portões, para o sul de Doriath). Quando Frodo e Sam vagam por Mordor e estão com sede, Sam pensa melancolicamente, onde eles pararam em sua jornada, em salgueiros ao lado de rios. E quando Théoden conduz os Cavaleiros de Rohan fora de Harrowdale, eles passam por salgueiros ao longo do Riacho de Neve..
A mais poética descrição de salgueiros na Terra Média é provavelmente a descrição de Voronwë, de Nan-Tathren, para Tuor em “De Tuor e sua chegada a Gondolin”:

…Naquela terra o Narog se une ao Sirion, e os dois não mais se apressam, mas seguem largos e silenciosos através de prados cheios de vida; e em toda a volta do rio reluzente há lírios como um bosque em flor, e a relva é repleta de flores, como pedras preciosas, como sinos, como chamas de vermelho e ouro, como uma extensão de estrelas multicoloridas em um firmamento verde. Porém o mais belo de tudo são os salgueiros de Nan-Tathren, de um verde-pálido, ou prateados ao vento, e o farfalhar de suas inúmeras folhas é um encanto de música: o dia e a noite passavam palpitando, sem conta, enquanto eu ainda me detinha, submerso em relva até os joelhos, a escutar. Lá fui encantado, e esqueci o Mar em meu coração…

Apesar de toda sua beleza e felicidade, no entanto, Nan-Tathren parece nunca ter atraído uma população élfica permanente. Tuor e Idril conduziram os exilados de Gondolin para a região e permanecerem ali por um tempo, realizando banquetes e fazendo canções de arrependimento e mágoa por Gondolin, e para lembrar a coragem de Glorfindel. Mas eles não continuaram por muito tempo na região.

A canção de Fangorn para os Hobbits fala que ele ficaria em Nan-Tathren (Tasarinan – ele preferia usar Quenya) na primavera, e dali passar ao leste para Ossiriand, para vagar pelos bosques de olmo. No outono ele vagaria em Neldoreth, uma das florestas de Doriath, e dali passaria ao norte para Dorthonion no inverno.

É fácil inferir que os Ents rodearam Beleriand durante a Primeira Era, mas também deve-se perguntar como ou quando. Doriath era supostamente impenetrável, porém os Sindar podiam passar livremente para dentro e fora. Talvez Melian, sabendo quem e o que os Ents eram, permitiram que eles passassem livremente. Mas a antiga canção dos Ents não deve realmente retratar um modelo ou rota que qualquer Ent deve ter vagado em Dorthonion depois da Dagor Bragollach, quando Sauron conduziu um exército de Angband até a região mencionada.

Em todas as probabilidades, os Ents devem ter se retirado para Ossiriand. Ali, aliados com os elfos verdes e talvez com alguns dos feänorianos, eles teriam ajudado a manter a região livre do poder de Morgoth. Os Ents estavam, desta maneira, disponíveis a ajudar a destruir o exército de Nogrod quando retornou de Doriath, embora a estória da destruição de Doriath nunca foi totalmente desenvolvida para o Silmarillion. Por que os Entes deveriam ajudar a destruir um exército de anões? Tolkien não dá nenhuma resposta, apesar de que pode-se supor que no saque de Doriath muitas árvores teriam sido destruídas, acordando a raiva dos Ents.

Ossiriand teria se tornado populosa com antecedência na Segunda Era, no entanto. Não somente moravam os elfos verdes ali, como também os Sindar e Noldor, e por um tempo alguns dos Edain moraram na região. Os Ents devem ter se retirado para o leste do outro lado das montanhas para Eriador a fim de encontrar um pouco de paz. É claro, havia alguns Sindar que os haviam precedido, mas já havia muitos elfos Nandorin e Homens também.

Fangorn fala de um tempo onde uma enorme floresta se estendeu a partir das Montanhas Sombrias para as Montanhas Azuis (Ered Luin): “… Aqueles foram dias grandiosos! Houve um tempo em que eu podia caminhar e cantar o dia todo e escutar apenas o eco de minha própria voz nas concavidades das colinas. As florestas eram como a floresta de Lothlórien, apenas mais densas, mais fortes, mais jovens. E o aroma de ar! Eu costumava passar uma semana só respirando.

Os Ents parecem ter gostado de sua privacidade, de seu tempo quieto nos bosques. Então eles naturalmente evitaram o abarrotamento da civilização. Até os Elfos eram grandes construtores de cidades, e os marinheiros de Círdan eram lenhadores que necessitavam de madeira para seus navios. Especialmente os Ents não estavam muito contentes com os Falathrim ou quaisquer Elfos que usavam madeira extensivamente.

Por outro lado, as Entesposas eram muito organizadas, e até certo ponto em suas andanças, elas se dispersaram dos Ents. É impossível dizer quando a separação dos Ents e das Entesposas começou, mas é bem possível que tenha começado depois dos Ents terem se estabelecido nos bosques que se tornaram a Floresta Fangorn. E quando os Ents se estabeleceram nesse local? Provavelmente por volta desta época os Sindar estavam migrando em direção ao leste e estabelecendo reinos nos Vales do Anduin. “Os limites de Lórien” (Apêndice C de “A História de Galadriel e Celeborn” em Contos Inacabados) conta que “Pois a lenda relatava que o próprio Fangorn se encontrara com o Rei dos Galadhrim em dias antigos, e Fangorn dissera: – Conheço o meu, e você conhece o seu; que nenhum dos lados moleste o que é do outro. Mas se um elfo desejar caminhar na minha terra por prazer, será bem vindo; e se um ent for avistado na sua terra não tema nenhum mal.

Por que havia necessidade de Fangorn estabelecer limites sobre os Elfos, e dividir as terras? A resposta deve ser que os Ents vivenciaram certo atrito até mesmo com os Elfos, e esse atrito deveu-se ao uso de árvores. Os Elfos de Lórien usavam as árvores assim como a maior parte das pessoas as utiliza: eles constroem casas, móveis e barcos.
Os Ents devem ter percebido que até certo ponto não podiam mais contes os Elfos e Homens em Eriador, então eles retiraram-se para os bosques ao sul e estabeleceram um acordo aonde as árvores poderiam crescer livres e selvagens.

Mas Fangorn também conta a Merry e Pippin que havia lugares na floresta onde as árvores eram antigas, algumas até mais velhas que ele, e a sombra nunca aterrisou sobre elas. A sombra, ou escuridão, a qual ele se refere parece ser de Morgoth e não Sauron. Fangorn fala de um tempo onde os Elfos começaram a fugir para o Mar. Isso só pode se referir ao período após a Guerra dos Elfos e Sauros. Mas desde que ele próprio vagou por Beleriand, e relembrou de Tasarinan, ele era mais velho que a guerra. Portanto, as árvores que eram mais velhas que ele estiveram vivas por séculos, talvez milênios, antes que Sauron invadisse Eriador.

Também, se os Ents estiveram presentes em Eriador quando Sauron queimou as florestas, eles deveriam relembrar a catástrofe e se opor a Sauron diretamente. Ao invés disso, Fangorn somente sabe que as florestas foram destruídas. Ele e seu povo parecem ter estado habitando próximos ao fim das Montanhas Sombrias quando Sauron invadiu Eriador. Então a migração Ent ocorreu primariamente à Guerra dos Elfos e Sauron, e dessa forma parece lógico que os Ents procuraram uma terra onde eles poderiam obter algum benefício (dissipando a escuridão antiga das árvores ou evitando que as árvores más machucassem inocentes e espalhassem o mal), assim como estabelecendo um refúgio onde as árvores pudessem ser protegidas e alimentadas.

De sua parte, as Entesposas parecem ter morado próximo do extremo sul das Montanhas Sombrias dos primeiros dias. Fangorn conta a Merry e Pippin que as Entesposas cruzaram o Anduin “quando a escuridão veio para o Norte”. O evento o qual se refere só pode ser o retorno de Morgoth a Terra-Média, e o estabelecimento de Angband. O poder de Morgoth se estendeu através de toda a Terra Média, mas após os Noldor retornarem à Terra Média, ele começou a concentrar sua atenção em Beleriand. Então deve ter havido um breve período em que Morgoth encontrou os jardins das Entesposas e as ameaçou ou as importunou.

Mas a situação das Entesposas levanta uma interessante questão: o que elas estavam fazendo ali em primeiro lugar? A resposta deve ser que a Floresta Fangorn representa não apenas o último refúgio dos Ents na Terceira Era, mas também a terra de sua origem. Fangorn diz que os Elfos originalmente acordaram os Ents e os ensinou linguagem. Os elfos poderiam ter feito isso em Cuiviénen, mas Fangorn nunca menciona Cuiviénen, e Ents nunca estão associados com Cuiviénen. Também, a Grande Jornada marca o início da real expansão e curiosidade Élfica. Pode ser que alguns dos Eldar, ou talvez alguns dos Nandor, acordaram os primeiros Ents, logo que os Elfos cruzaram o Anduin.

Quando os Elfos passaram para o oeste, ou se dispersaram através de outras terras, os Entes devem ter se movido, para aprender mais sobre o mundo. As Entesposas ficaram em casa, e o eventual separatismo entre os dois sexos dos Ents começou logo cedo. Os Ents retornavam para as Entesposas de tempos em tempos, mas os dois grupos gradualmente foram à deriva. Finalmente, as Entesposas cruzaram o Anduin. A passagem deve ter sido facilmente alcançada nos vaus, e as Entesposas se estabeleceram nas terras ao sul da Floresta das Trevas, e então a leste de sua floresta original. Elas deviam estar próximas dos Elfos e dos Homens, mas elas poderiam ter permanecido relativamente intactas.

Na Segunda Era, como os Ents se retiraram para o leste de sua antiga morada, eles acharam antigos bosques infectados pelos mal e que as Entesposas haviam partido. Mas eles continuaram tendo contato com as Entesposas durante um tempo. A separação final deve ter sido o resultado final de Guerra dos Elfos e Sauron. Os Ents observaram enquanto o mundo revolvia-se em tumultos ao redor deles. Pois Sauron não apenas invadiu Eriador, ele mandou exércitos de Mordor para marchar ao norte para destruir as pessoas Edaínicas das Terras Selvagens, assim como quaisquer reinos Élficos que pudessem alcançar. Provavelmente, os Ents permaneceram na Floresta Fangorn pelo resto da Segunda Era. Eles prestaram pouca atenção quando a Última Aliança dos Elfos e Homens marchou ao sul contra Mordor. Mas um dia Fangorn decidiu visitar seu antigo amor Fimbrethil, e passando ao leste através dos Vaus ele chegou a uma terra devastada pela guerra. As Entesposas haviam partido, e seus jardins haviam sido destruídos.

E então começou uma aventura que deve ter durado mil anos. De vez em quando os Ents arriscavam-se para adiante e perguntavam às pessoas se haviam visto as Entesposas. Certamente, os Ents nunca encontraram as Entesposas. Quando questionado sobre elas por um leitor, Tolkien respondeu:

Eu acredito que de fato as Entesposas desapareceram pelo bem, sendo destruídas com seus jardins na Guerra da Última Aliança (Segunda Era 3429-3441), quando Sauron lutou por uma política de terra seca e queimou a terra delas contra o avanço dos Aliados abaixo do Anduin (vol.II p.79 refere-se a isso). Elas sobreviveram somente na “agricultura” transmitida aos Homens (e Hobbits). Algumas, é claro, devem ter escapado para o leste, ou até se tornado escravizadas: tiranos mesmo em tais contos devem ter um fundo econômico e agricultural para seus soldados e metalúrgicos. Se alguma então sobreviveu, elas estariam bem diferentes dos Ents, e alguma reaproximação seria difícil – a não ser que a experiência da agricultura militarizada e industrializada tenha as tornado um pouco mais anárquicas. Eu espero que sim. Eu não sei. (Letter 144)

A procura dos Ents pelas Entesposas inspirou muitas músicas e canções, e até mesmo Aragorn parecia saber algo da longa procura dos Ents, pois ele disse a Fangorn que novas terras seriam abertas a ele. Fangorn naquela altura tinha pouca esperança de encontrar sua amada Fimbrethil novamente, e ele pode nunca ter deixado seus bosques na Quarta Era. Os Ents parecem se contentar em permanecer no bosque selvagem, e vigiar Orthanc, para assegurar que o mal nunca retornará àquela região.

Naturalmente, as pessoas rapidamente notam que os Ents ou criaturas do tipo moravam próximos do Condado. E quando Fangorn questiona Merry e Pippin sobre sua terra, ele concluiu que seria uma terra favorável para as Entesposas. Mas não havia Entesposas no Condado, e é improvável que elas já tenham se estabelecido lá. A famosa árvore andante de Sam, que é reportada por seu primo Hal, poderia de fato ser uma árvore andando e não um Ent. As árvores da Floresta Velha podiam se mover, o que Frodo e seus companheiros aprenderam quando perderam seu caminho em meio aos bosques zangados. Mas não havia Ents na Floresta. Apenas árvores antigas como o Velho Salgueiro e outras curiosas, perigos inominados. Árvores podiam acordar por si próprias, por razões inexplicadas. Fangorn descreveu o processo para Merry e Pippin:

As árvores e os Ents – disse Barbárvore. – Eu mesmo n&ati
lde;o entendo tudo o que está acontecendo, por isso não posso lhes explicar. Alguns de nós ainda somos ents verdadeiros, e bastante vivos à nossa própria maneira, mas muitos estão ficando sonolentos, ficando arvorescos, por assim dizer. A maioria das árvores são árvores verdadeiras, é claro; mas muitas estão semi-acordadas. Outras estão bastante acordadas, e algumas estão, bem, ah, bem, ficando entescas. Isso está acontecendo o tempo todo.

Quando isso acontece a uma árvore, você descobre que algumas têm corações maus. Não tem nada a ver com a madeira: não quero dizer isso. Vejam, eu conheci alguns bons salgueiros velhos, descendo o Entágua, que se foram há muito tempo, infelizmente! Estavam bem ocos, na verdade estavam caindo aos pedaços, mas eram tranqüilos e falavam suavemente como uma folha jovem. E também há algumas árvores nos vales sob as montanhas, vendendo saúde e totalmente más. Esse tipo de coisa parece estar se espalhando. Costumava haver umas partes muito perigosas neste lugar. Ainda há alguns trechos muito negros.

Numa carta para o Daily Telegraph Tolkien explicou a diferença entre as florestas na Terra Média. Um artigo associou tristeza e escuridão com os bosques de Tolkien e ele deu exceções para a comparação:

Com referência ao Daily Telegraph de 29 de Junho, página 18, eu sinto que não é justo usar meu nome associado à tristeza e escuridão, especialmente num contexto lidando com árvores. Em todos os meus trabalhos, eu assumo a parte das árvores contra todos os seus inimigos. Lothlórien é linda porque as árvores são amadas; em outros lugares as árvores são representadas como o despertar para a consciência delas próprias. A Floresta Velha era hostil com criaturas de duas pernas devido às memórias de antigas feridas. A Floresta Fangorn era antiga e bela, mas naquele momento tenso da estória, com hostilidade porque estava ameaçada por um inimigo amante das máquinas. A Floresta das Trevas declinou diante da dominação do Poder que odiou todos os seres vivos, mas foi restaurada e se tornou a Floresta das Trevas antes do final da estória.

É difícil pensar em Beren encantado pela beleza e graça de Lúthien em uma floresta triste e escura, ou em Finrod olhando os ancestrais de Beren dormindo numa floresta esquecida, condenada e cheia de ódio. Os bosques de Doriath, Ossiriand, e até os do Condado são amistosos e locais abertos. Seus habitantes devem ser insulares e protetores de suas terras e vidas, mas eles não são possuídos pela malícia. A Floresta Velha e a Floresta Fangorn herdaram alguns toques do mal dos dias de Morgoth. Mas ao passo que os Ents retornaram a Fangorn para purificar ou vigiar seus bosques ancestrais, a Floresta Velha foi roendo a si mesma com malícia, pelo menos até que Tom Bombadil decidiu se estabelecer por ali. Gandalf observou no Conselho de Elrond que Bombadil havia se “retirado para uma região pequena, dentro de limites que ele mesmo fixou, embora ninguém consiga enxerga-los, talvez esperando uma mudança dos dias, e não sai dali.” Bombadil contou a Frodo e seus companheiros que ele, Bombadil, nunca poderia sair de sua terra, pois ele deveria vigia-la. O mal da Floresta Velha e das Colinas dos Túmulos havia se tornado tão grande que Bombadil se sentia obrigado a checa-la constantemente.

Mas apesar de que as Colinas dos Túmulos terem sido mandadas para infestar os antigos montes dos Dunedain por ambos Sauron ou o Senhor dos Nazgul, por que a Floresta Velha se tornou escura e ameaçadora? Tolkien notifica que os bosques mantinham “a memória de muitas feridas”. O que eram essas feridas? Nós podemos apenas ter certeza de algumas. A queimada das florestas de Eriador por Sauron deve ter começado o vagaroso processo. De algum modo, poucos lugares como A Floresta Velha e Eryn Vorn sobreviveram à destruição provocada pela guerra. Mas ao passo que alguns dos Gwathuirim (homens relacionados ao Dunlendings e os Homens de Brethil em Beleriand) se retiraram a Eryn Vorn, e sem sombra de dúvida deram seu amor aos bosques como os melhores homens são capazes, nenhum homem se retirou à Floresta Velha.

Milhares de anos antes, homens se refugiaram na Floresta Velha. Na Guerra de 1409 na Terceira Era, o reino de Angmar invadiu Cardolan. Os Dunedain se retiraram para o oeste de suas casas nas Colinas do Sul. Alguns dos Dunedain resistiram nos montes de Tyrn Gorthad, mas alguns fugiram para a Floresta Velha. Ali a luta foi violenta, e talvez muitas árvores foram perdidas ou feridas. Um retiro similar deve ter ocorrido quando Angmar finalmente destruiu o reino de Arnor. Muito do povo de Arnor foi destruído, mas alguns fugiram para se esconder. A Floresta Velha pode provavelmente ter servido de refúgio. E séculos depois, os Buqueburgos cruzaram o rio Brandevin a partir do Condado e colonizaram uma faixa de terra adjacente à Floresta Velha. Os hobbits e as árvores entraram em conflito, e Merry conta que houve uma batalha de resolução. Os Hobbits queimaram muitas árvores e cresceram o feno para ser uma barreira entre sua terra e a Floresta. Mas Hobbits ainda ocasionalmente arriscam-se a entrar na Floresta Velha. Ali ainda podem acontecer alguns poucos acidentes.

Sem Ents para vigiá-la, e com Bombadil apenas checando o mal, procurando nem destruir nem domina-la, a Floresta Velha se ferveu com malícia e a “memória de muitas feridas”. Algumas das árvores se tornaram Entescas, como Fangorn diz. E sem dúvida alguma, de quando em quando, algumas delas, saiu vagando por terras selvagens. Talvez elas acharam um bom pedaço de terra e por fim se estabeleceram. Talvez elas foram destruídas por terríveis criaturas de duas pernas ou pior. Mas ainda havia uma pequena esperança de que os Ents encontrassem as Entesposas novamente, então deveria haver uma pequena esperança de uma reconciliação da Floresta Velha com as criaturas de duas pernas. Finalmente, Tom Bombadil desistiria de sua função e prosseguiria com sua vida.

Se existia algum povo que mantinha grandes esperanças de qualquer coisa relacionada às árvores, este seria os Elfos. Fangorn observa que os Ents e os Elfos cresceram à parte. Mas no final da Terceira Era e no começo da Quarta Era, a cultura Élfica era substancialmente diferente do que das Eras iniciais. As sábias civilizações Eldarin foram reduzidas a alguns encraves. Os Elfos Silvan de Floresta das Trevas eram o maior e mais poderoso grupo. E muitos dos Noldor haviam ambos se tornado nativos, para falar, como Galadriel, ou estavam apenas permanecendo na prazerosa memória dos dias passados, como o povo de Gildor. Quando Legolas e Gimli visitaram a Floresta Fangorn após a Guerra do Anel, pode ser que uma fase final de amizade e entendimento tenha começado entre os Ents e os Elfos, e até mesmo entre os Ents e os Anões.

Mas tais tréguas ou retomadas de amizades poderiam apenas ser temporárias. Não há dicas sobre o que fez-se dos Ents e das Entesposas, salvo apenas em uma canção Élfica em que Fangorn lem
brou com prazer para dividir com Merry e Pippin. A canção tentava representar a divisão do povo Entes, mas Fangorn notou que era “Élfica, é claro: alegre, com poucas palavras e curta.” Após descrever a diferença entre os Ents e as Entesposas, a canção oferecia uma esperança de reconciliação. Juntos pegaremos a estrada de leva ao Oeste, e ao longe encontraremos uma terra onde ambos nossos corações poderão descansar.

Esse Oeste só pode ser Aman, e como tal, representa uma esperança Élfica, ou melancolia. Galadriel, em sua separação com Fangorn, o avisa que eles não voltarão a se encontrar “até que as terras que estão embaixo das ondas estarão levantadas novamente”. Ela não considerava a passagem de nenhum Ent pelo Mar. E não deveria passar nenhum. Ilúvatar criou os Ents para vigiar as árvores da Terra Média. Em Aman eles não seriam necessários, apesar de que talvez seus espíritos, após morrerem, pode ter sido reunido ali por Namo. Não há realmente nada de misticismo Ent em nenhuma das discussões de Fangorn com as pessoas. Não sabemos se para eles existe uma outra vida, ou preocupações espirituais. Mas eles eram encarnados racionais, como Tolkien mesmo colocou, e eles entendiam o arrependimento, a perda e até mesmo a esperança. Então talvez, quando Elrond, Galadriel, Gildor, Frodo, Bilbo e Gandalf rumaram para o Mar no fim da Terceira Era, no momento em Sam, Merry e Pippin observaram eles desaparecem na distância na Estrada para os Portos Cinzentos, havia olhos antigos vigiando a partir das árvores, dando silenciosas despedidas às antigas amizades e vínculos.

E talvez, apenas talvez, os Elfos e os Hobbits plantaram salgueiros em Lindon e no Condado, ao longo das margens gramadas dos rios, em memória dos antigos bosques e seus orgulhosos pastores. Até mesmo as Entesposas teriam gostado, apesar de que nada poderia ser comparado à beleza dos prados de salgueiro de Tasarinan na Primavera. A vanimar, vanimalion nostari. Namarie!


Tradução de Helena ´Aredhel´ Felts

valinor

A ponta do iceberg: novas informações sobre a Terra-Média

Por aproximadamente um ano, discussões online sobre o mundo de Tolkien vem sido apimentadas — em alguns lugares — com referências a um obscuro estudo chamado "Osanwë-Kenta". Este ensaio foi publicado pela primeira vez em Vinyar Tengwar Mº 39, o exemplar de Julho de 1998 do jornal oficial da Elvish Linguistic Fellowship (Sociedade Da Linguística Élfica), um grupo de interesse da Mythopoeic Society. "Osanwë-Kenta" ("Acerca da comunicação de pensamentos") foi premiada como um dos textos de Tolkien mais reveladores daqueles que não foram publicados. Eu acho que "Osanwë-Kenta" deve ser colocado de lado, pois há um texto mais interessante. Se chama "Os Rios e Vales de Gondor".
 

Os dois estudos são importantes na pesquisa sobre Tolkien, e os aspectos linguísticos não são necessariamente primários. Você pode perceber detalhes interessantes sobre a filosofia e história do povo de Aman em "Osanwë-Kenta". "Rios e Vales de Gondor" também nos fornecem nova informação e revelações sobre a história de Gondor e os povos que lá moram. Supondo que mais pessoas querem saber sobre os eventos na Terceira Era que eventos do começo de Aman, eu acho que "Rios e Vales de Gondor" prova ser o mais importante.

Vinyar Tengwar é primeiramente preocupado com material linguístico, de onde restam um imenso número de ensaios e notas não publicados. As reflexões linguísticas de Tolkien porém, geralmente incluem apartes, muitas vezes grandes ensaios sobre as histórias e filosofias das principais raças. O material linguístico é então de interesse especial para pesquisadores que estudam a construção do mundo de Tolkien, sua pseudo-história e filosofias artificiais.

 
Christopher Tolkien publicou fragmentos do "Rios e Vales de Gondor" no Contos Inacabados. Infelizmente, Vinyar Tengwar também publica apenas fragmentos. Assim como a situação com "Narn i Hîn Húrin" (A História dos Filhos de Húrin), que foi publicado em pedaços no Contos Inacabados e no Silmarillion, precisamos juntar o trabalho inteiro junto. Se o suficiente das duas escrituras foram publicadas nessas duas partes, cabe à HarperCollins publicar um volume com os Trabalhos Completos de JRR Tolkien, combinando-os. Tal livro seria uma marca na tentativa de fazer uma representação coerente de algo escrito fora o Hobbit e o Senhor dos Anéis.

As passagens relevantes do Contos Inacabados são encontrados no capítulo da história de Galadriel e Celeborn, especificamente nos apêndices tratando de Amroth e Nimrodel, e o porto de Lond Daer. Algum material também foi publicado na seção "Notas sobre os Druedain" no capítulo sobre os Druedain. Aquela seção do Contos Inacabados também começa com um fragmento sobre os Druedain que Christopher Tolkien tirou do "Sobre os Anões e os Homens", cuja maioria foi publicada no Peoples of Middle-Earth (Povos da Terra-Média). Na maioria dos casos, não veremos os textos inteiros publicados juntos, mas ainda podemos sonhar com a oportunidade.

Na carta que acompanha o "Rios e Vales de Gondor", Vinyar Tengwar lança uma cascata de minúsculas revelações que vai nos forçar a refazer muitas teorias sobre a Terra-Média. Por exemplo, Tolkien escreve:

"…No primeiros séculos dos Dois Reinos Enedwaith foi uma região entre o reino de Gondor e o pequeno reino de Arnor (originalmente incluía Minhiriath (Mesopotâmia)). Os dois reinos tinham interesse na região, mas eram mais preocupados com a manutenção, sua principal fonte de informação exceto pelo mar e pela ponte de Tharbad. Povos de origem numenoreana não viviam ali, exceto em Tharbad, onde um grande número de soldados e guardiões do rio era mantido. Naqueles dias eles praticavam drenagem, e as margens do Hoarwell e Greyflood eram reforçados. Mas nos dias do Senhor dos Anéis a região tinha sido arruinada e voltou para um estado primitico: um rio largo e lento que corria por uma rede de pântanos e lagos: um lugar assombrado por cisnes mortos e outros pássaros aquáticos."

"Mesopotâmia" é uma velha palavra para "terra entre rios", e Tolkien estava sem dúvida fazendo uma pequena piada sugerindo a tradução de "Mesopotamia" para "Minhiriath" (que significa a mesma coisa"). Vocês podem imaginar o quanto essa tradução vai chatear os geógrafos que fazem correlações precisas entre o mapa da Terra-Média de Tolkien e mapas da Europa e Ásia.

Mas, para mim, o comentário mais interessante é a referência indireta para "guardiões do rio". A que Tolkien estaria se referindo? Seriam aqueles homens que atravessavam os rios para cima e para baixo, prendendo piratas e ladrões? Ou seriam aqueles que faziam viagens de um lado para outro do rio? Seriam os guardiões de Tharbad os engenheiros que mantinham os trabalhos de drenagem" e as margens reforçadas dos rios Hoarwell e Greyflood? E, se não haviam numenoreanos na região, porque as margens eram reforçadas?

Tharbad já é um lugar curioso. No Contos Inacabados aprendemso que a grande ponte e os cais da cidade foram construídos por Arnor e Gondor, aparentemente para substituir o destruído porto de Lond Daer Ened. E ainda, Tar-Aldarion diz que encontra Galadriel em Tharbad numa nota acompanhando o texto "Aldarion e Erendis". Em outro lugar, a segunda história de Galadriel e Celeborn, Tharbad diz ter defendido Eriador contra a invasão de Sauron em 1695 SE. Pode ser que Tharbad seja originalmente uma colônia élfica, talvez um entreposto estabelecido por Círdan para facilitar o comércio e comunicação com Eregion. Os numenoreanos também podem ter sido o primeiro povo a fortificar Tharbad (em preparação para a guerra contra Sauron, eles também fortificaram os rios Baranduin/Brandevin e Luin).

Outro nome que merece atenção especial é "Gilrain", o nome de um rio em Gondor. Tolkien o compara a "Gilraen", o nome da mãe de Aragorn. "O significado de Gilraen é um nome feminino sem dúvida. Significava ´Aquela que é decorada com um conjunto de pequenas jóias em uma malha´, como o tesouro de Arwen descrito no SdA I 239." (Este tesouro é a "touca de renda prateada, enredada com pequenas pedras, de um brilho branco" que Arwen usa no banquete dado em honra de Frodo em Valfenda.)

Tolkien sugere que Gilraen poderia ter conseguido esse nome como um apelido, mas "provavelmente era seu verdadeiro nome, já que tornou-se um nome dado às mulheres de seu povo, as remanescentes dos numenoreanos do Reino do Norte, de sangue puro. As mulheres dos Eldar estavam acostumadas a usar tais jóias; mas entre os outros povos, eram usadas apenas por mulheres de alto nível entre os Guardiões, descendentes d
e Elros, como diziam. Nomes como Gilraen, e outros de significado similar, virariam então nomes pessoais dados às crianças nobres da família dos ´Senhores dos Dunedain´
".

Uma forte implicação dessa passagem é que os Guardiões eram um subgrupo de um povo maior, e que eles eram todos de sangue nobre, descendendo de Elros, e provavelmente os únicos Dunedain de sangue puro restantes em Arnor. Mas se aquele foi o intento de Tolkien ou uma nota mal-escrita, não podemos dizer.

Numa nota secundária, Tolkien revela que a raiz de -raen, em Gilraen, vinha do trabalho de tricô e que o adorno que Arwen e outras donzelas élficas — assim como as mulheres nobres do povo de Aragorn — usavam foi feita com um único fio.

A história de Amroth e Nimrodel é um pouco mais elaborada, também. E descobrimos a extensão completa da nota que sugere que Edhellond pode ter sido estabelecida por antigos Doriathrim que deixaram Mithlond (Portos Cinzentos). Foi abandonado no meio pois, como Christopher Tolkien opinou, seu pai percebeu que, sua dissertação sobre Círdan ser um Noldo do qual os Sindar queriam se afastar, era totalmente inconsistente com os outros textos. Então, a lenda de Edhellond ter sido fundada pelos primeiros elfos de Doriath deve ser descartada. O porto deve ter sido fundado por outros motivos, e talvez a lenda a respeiro de Brithombar e Eglarest é a mais provável de todas.

Apesar de tudo, a nota abandonada concorda com outra fonte publicada no Silmarillion dizendo onde os Nandor se estabeleceram em Eriador. Quer dizer, o fragmento de nota diz que os Eldar de Lindon "encontraram acampamentos abandonados dos Nandor" nos dois lados das Montanhas Nevoentas. O Silmarillion inclui um passagem em "Dos Sindar´ onde os anões dizem à Thingol que "seu antigo povo que lá mora [na terra à leste das montanhas] estão voando das planícies para os vales." Parece, então, que as criaturas de Melkor mandaram os Nandor em direção ao leste e para as Montanhas Nevoentas antes que Melkor retornasse para a Terra-Média.

Muitos pedaços situam-se além desses, e as implicações para os historiadores de Tolkien são extensivos. A Terra-Média revela mais uma face — aliás, muitas outras — para nós. O significado do tesouro de Arwen pode implicar em algum tipo de referência à Varda. É Arwen, afinal, que aparentemente canta o hino a Elbereth à medida que Frodo e Bilbo saem do Salão do Fogo em Valfenda. Gilraen e outras mulheres de sua família devem ter dividido tal reverência élfica à Varda.

A idéia de que povos com apenas parte do sangue numenoreano continuaram a viver em Eriador é aterrorizante. Apesar de sabermos que não poderíamos ter comunidades dos homens a oeste de Mitheithel, isto não dá novo sentido às palavras de Elrond no conselho, onde ele diz que poucos do povo de Aragorn ainda vivem? Estava Elrond talvez omitindo alguma referência á um povo maior governado pelo clã de Aragorn? Aquelas pessoas que se perguntavam onde Aragorn achou tantos guerreiros para retomar Eriador têm agora razão o suficiente para argumentar que um grande povo vivia perto de Valfenda no Ângulo.

Mais revelações nos aguardam, especialmente sobre os primeiros anos de Arnor e Gondor. Também veremos que os elfos tinham um sistema decimal e duodecimal. Então, todos estão certos. Todos nós ganhamos de novo. E é só a ponta do iceberg…

Tradução de Aarakocra
valinor

Os chifres de Rohan

Em bom jornalismo, não se recomenda começar um texto com um truísmo –
aquelas afirmações meio óbvias, que são consenso quase geral e não têm
muito “conteúdo informativo”, como os papas da profissão costumam
dizer. A vantagem de escrever pra Valinor de vez em quando é que eu
posso dizer um sonoro “dane-se” a essas regrinhas e começar com um bom
e velho truísmo: todo mundo tem uma cena preferida de O Senhor dos Anéis.
 
 
 
Todo mundo tem aquele “momento psicológico” (como
a Emília costumava dizer nos livros do Monteiro Lobato) que estava
louco pra ver na adaptação cinematográfica, no qual o coração bate mais
devagar por uma fração de segundo, as mãos suam e, se você for meio
manteiga-derretida (como é o meu caso), as lágrimas vêem aos olhos. A
obra-prima tolkieniana está lotada desses momentos, mas, cá entre nós,
duvido que algum se equipare, mesmo de longe, aos chifres de Rohan
sendo soados ao nascer do Sol.

Como quase tudo que Tolkien
escreveu, a sinfonia dos Rohirrim no Pelennor é uma mistura curiosa de
fato e mito, uma espécie de arqueologia criativa do insconsciente
humano, e em especial do inconsciente coletivo da Europa Ocidental, a
terra do coração do escritor. Histórias sobre chifres (eu prefiro essa
tradução às “cornetas” da edição nacional, já que os instrumentos eram
feitos de chifre de boi, como os berrantes dos boiadeiros) estão por
toda parte na Europa germânica da Idade Média, e não é muito difícil
imaginar o que elas querem dizer.

Numa palavra, o significado
de um chifre soprado diante do inimigo ̩ desafio Рa disposi̤̣o de
lutar até o fim, seja lá qual for a superioridade do inimigo. Um dos
registros mais antigos da atitude lembra Boromir contra os orcs e
aparece na Chanson de Roland (A Canção de Rolando), épico
francês do século X cujo herói é Rolando, sobrinho de Carlos Magno.
Diante do ataque das forças imensamente superiores dos mouros, Rolando
sopra seu chifre em desafio e ataca, acabando morto.

No mundo
da história, muito mais perto de nós, os lanceiros suíços que lutavam
na Itália no século XVI repetiram a atitude ao serem encurralados a um
passo da derrota por seus inimigos francesas. No campo de Marignano, os
“cantões florestais” de Uri e Unterwalden – qualquer semelhança com os
Rohirrim não é mera coincidência – acionaram seus chifres lendários, a
“Vaca” de Uri e o “Touro” de Unterwalden, para reunir suas forças num
último ataque suicida.

Dá para ver como todos esses elementos
se cristalizam para formar o ataque irresistível dos Cavaleiros sobre
as hostes de Mordor, mas há mais dois elementos cruciais aí, e são eles
que formam um retrato irresistível de coragem e vitória além da medida
humana. Tolkien nos conta que “a manhã veio, a manhã e um vento do
mar”. A escuridão que cobria Gondor, uma cortina de fumaça vomitada
pela magia negra de Sauron no Orodruin é varrida para longe, como se a
própria natureza se rebelasse contra a ousadia do Senhor do Escuro.

No entanto, antes que os chifres possam soprar sua nota de coragem, há
outro som, que irrompe exatamente no momento de desespero em que
Gandalf vê o horror do Rei Bruxo: um galo cantando. “Aguda e claramente
ele cantou, nada sabendo de feitiçaria ou de guerra, saudando apenas a
manhã que no céu muito acima das sombras da morte estava chegando com a
aurora.”

O cantar do galo é um símbolo imemorial pra qualquer
um que já tenha montado um presépio na vida: no topo da gruta, acima da
manjedoura, a tradição cristã conta que ele foi o primeiro animal a
saudar o nascimento de Jesus Cristo Рpara Tolkien, crisṭo convicto, o
momento que iniciou para valer a libertação da humanidade do Mal. Com o
sopro dos seus chifres, os Rohirrim respondem a esse chamado mostrando
que o tempo de temer a morte e as trevas já passou – e vencem por isso.

Há quem sugira, como o pesquisador britânico Tom Shippey, que o maior
símbolo da obra tolkieniana é outro chifre – o que Merry recebeu de
Éowyn e Éomer, vindo direto do tesouro do dragão Scatha. Em meio à
desorientação e ao desespero dos hobbits que sofriam com o Expurgo, o
chifre soprado por Merry infundiu nova coragem. Se o Condado é mesmo a
Inglaterra que Tolkien amava, então ele certamente não tinha desejo
maior que soar esse chipre e dissipar o desespero, o medo, o
conformismo. Não acho que seja otimista demais dizer que, em muitos
aspectos, ele conseguiu.