Ciência da Terra-média: o laboratório de Fí«anor

Qual a primeira coisa que você bisbilhotaria se tivesse um palantír à sua inteira disposição? Não sei se você se lembra, mas Gandalf respondeu a essa pergunta em uma conversa com Pippin. O que ele tentaria ver? "A mente e a mão inimagináveis de Fëanor a trabalhar." Não se pode negar, gentil leitor: Fëanor pode ter sido um escroto, mas tinha uma inventividade de deixar Thomas Edison e Steve Jobs no chinelo.

 

 

E é sobre o mais talentoso dos Noldor que versa este episódio da série "Ciência da Terra-média". Para ser mais exato, nosso tema são os palantíri e as Silmarils, ou Silmarilli, se você preferir o quenya mais castiço. Meu guia, mais uma vez, é o biólogo britânico Henry Gee, autor do livro "The Science of Middle-earth", editor da  revista científica britânica "Nature" e fanático por Tolkien como todos nós. A pergunta, eu sei, é de natureza quase existencial. Afinal, de que eram feitos esses artefatos maravilhosos e irrepetíveis? E como funcionavam?

Pondo para funcionar seus conhecimentos de ciência dos materiais e física quântica, Gee propõe algumas hipóteses. Primeiro, para explicar o estranho fenômeno da "sintonização" entre os palantíri, no qual as pedras de Númenor (e originalmente de Eldamar) parecem ter uma ligação quase mística entre si, ele aposta no esquisitíssimo fenômeno do emaranhamento ou entrelaçamento quântico.

O bizarro do entrelaçamento quântico, normalmente associado a um par de partículas elementares (como os fótons, as partículas de luz), é o que acontece com uma partícula afeta a outra IMEDIATAMENTE. À distância. Sem que haja qualquer contato físico ou energético entre elas. Como, em tese, também é possível entrelaçar objetos macroscópicos, Gee propõe que essa é a origem da sintonia" dos palantíri.

Mas como produzir um cristal que seja capaz de produzir  o emaranhamento quântico? Uma matéria-prima possível é o niobato de lítio, substância que possui muitas características ópticas interessantes. Exemplo? Um fóton que "trombar" num pedaço de niobato de lítio automaticamente se transforma em dois fótons quanticamente emaranhados. Melhor ainda, o estímulo luminoso faz com que hologramas possam aparecer no interior do material, exatamente como se vê nos palantíri de origem élfica.

O grande problema é que a substância é facilmente quebrável, ao contrário dos palantíri, que são praticamente inquebráveis. Solução: crie seu palantíri misturando o niobato de lítio com nitreto de betacarbono, substância cuja existência foi proposta por químicos teóricos humanos (e que certamente foi descoberta em Aman). Isso tornaria os palantíri mais resistentes que diamante sem perder as propriedades ópticas, desde que fosse usado um sistema "artesanal" de produção no qual camadas e mais camadas das substâncias CRESCEM em laboratório, umas sobre as outras, como uma pérola. Nada mais élfico, não?

Matando dois coelhos com uma cajadada só, Gee propõe que a mesma matéria-prima foi usada para criar as Silmarils. Outra característica legal do niobato de lítio é a chamada geração do segundo harmônico, no qual o material é capaz de refletir a luz que recebe com metade do comprimento de onda da luminosidade original.

Na prática, isso significa que uma Silmaril de niobato de lítio poderia captar o calor de um corpo humano — que nada mais é que luz infravermelha, invisível para nós — e retransmiti-la como luz visível. Será isso o que aconteceu quando Beren tocou a Silmaril da Coroa de Ferro? Nunca vamos saber, mas é uma bonita possibilidade.