Tol… Quem?

Seja numa reunião familiar ou numa mesa de bar, ao discorrer apaixonadamente sobre minha óbvia admiração pelas obras do professor, quase sempre sou interrogado pelos amigos e colegas desavisados: “Peraí, Tol…Tol….Quem?”. É, pode parecer estranho para vocês mas a maioria das pessoas que conheço e convivo não tem a mínima noção de quem seja nosso querido professor. De início eu ficava revoltado e fazia aquele discurso quilométrico que acabava em muitos minutos de um silêncio pesado e desconfortável pra todo mundo. Depois eu tentava culpar Deus e o mundo por não conhecer pessoas que compartilhassem as mesmas paixões, pessoas com as quais eu pudesse comentar partes dos livros ou dos filmes sem ser incomodado pela fatídica pergunta acima. Eu era um tolkieniano fanático, fato.

Mas com o passar dos anos passei a ponderar melhor minhas revoltas e tentei entender porque as coisas não possuíam a amplitude que eu imaginava e desejava. Descobri que no Brasil, entre os jovens de classe média, que supostamente deveriam ter acesso à leitura, há um amplo descaso com a literatura em geral. Pois é, e eu querendo que todos conhecessem um autor inglês. Descobri que a maioria destes meus amigos e colegas não liam um livro por iniciativa própria há muito tempo e que alguns eram avessos à leitura. Mesmo os livros que eram pedidos nos grandes vestibulares eram facilmente substituídos por filmes que adaptavam, ou tentavam adaptar as obras de forma satisfatória. Culpa de uma cultura de massa, extremamente midiática? Talvez. Mas é uma desculpa muito genérica se levarmos em conta outros fatores. Lembro-me de pensar: “Ah, como A História Sem Fim faz sentido agora.” Mas no caso de “O Senhor dos Anéis” os filmes tiveram uma enorme repercussão e mesmo que os créditos mostrassem o nome do verdadeiro autor, a quem esses meus colegas atribuíam a autoria da história?

A maioria ao Peter Jackson e mesmo assim quando não confundiam o nome do diretor com o Michael Jackson ( sim, já aconteceu algumas vezes.). Pois é, eu tento entender até hoje, juro. Mas acabo sempre tentando imaginar como seria uma adaptação dos livros feita pelo Michael Jackson. E sempre chego naquele limite do pensamento no qual você imagina tanta bizarrice que a obra original começa a perder o sentido. Então decido que é melhor voltar e não ir além com essas imagens. Mas confesso que algumas vezes eu não consigo deixar de me irritar com algumas colocações. Há exatamente um ano atrás, estava eu pronto para filmar a cena mais épica do meu curta metragem, aos pés do Pico das Agulhas Negras em Itatiaia quando Bilbo e os anões vêem Erebor pela primeira vez, ao longe.De repente, uma chuva forte começa a despencar. A maquiagem derrete, a capa se molha e todo mundo corre pra “pousada-cabana-taberna” tentando salvar pelo menos a camerazinha. E lá estou eu, imaginem, parecendo que voltei de uma rave doida no Pântano dos Mortos, com um mau humor extremo pois além de me achar a criatura mais medonha do mundo sem barba, tive que refazer todo o processo de maquiagem, ajeitar aquela peruca que era um tanto difícil num banheiro com poças de xixi por toda parte. Uma imagem realmente glamorosa. E a chuva incessante lá fora.

Resolvi me sentar perto da lareira no “salão” principal da pousadinha. Eis que chega uma senhora de uns trinta e cinco anos, olha para minha cara enrolado na capa de lã…..dá um grito e cai no chão tendo convulsões de tanto rir. Eu tentando ignorar a cena pensava nas falas que eu ainda não tinha decorado quando, minutos depois,(sim, minutos), ela chega quase recomposta gritando: “Tira uma foto comigo Peter Pan?” E eu na maior calma respondendo que não era o “Peter Pan” era um outro personagem. A mulher, ainda histérica, continua gritando: “Então você é um príncipe? Cadê a princesa??” E eu já não tão calmo resolvo elevar o tom de voz e dizer que eu era um Hobbit!!!!

Mas é claro que ela não sabia o que era e ficou me chamando de “Robert” o resto da tarde. Aliás, to pensando em fazer um curta chamado “O Robert” porque parece uma conspiração universal. Todo mundo que cruza meu caminho nos últimos meses pergunta o que é o tal “Robert”. Hoje em dia até acho graça e tento desviar do assunto. Mas não sei qual é pior: o “Robert” ou o “Tol…Quem?” . Talvez “Michael Jackson” dirigindo o SDA ainda ganhe este combate. Escolha difícil.

Mas a graça da vida está justamente nestas coisas, eu creio. O ser humano é muito complexo e pelo menos todas as pessoas que converso e que passam a conhecer Tolkien, diga-se de passagem, o verdadeiro autor de “O Senhor dos Anéis” passam a admirar ou mesmo respeitar o trabalho do professor. Mesmo num mundo globalizado, temos nossas escolhas diversas e nem tudo que chega até nós somos obrigados a aceitar. Há uns dez anos atrás, talvez fosse eu perguntando: “Tol Quem?” Por isso aprendi a admirar as pessoas diferentes e a valorizar ainda mais os amigos que possuem uma paixão e uma admiração em comum em relação ao universo de Tolkien. Hoje em dia digo aos meus amigos, que não é preciso gostar mas respeitar um trabalho louvável, sempre. Respeitar sempre, isso já me basta e me faz feliz.