O Retorno do Hobbit

Os dias se passaram e depois os meses. Mês após mês, até que toda aquela vontade de criar e toda a esperança de ir um dia para a Nova Zelândia não passava de um sonho perdido e de uma lembrança vaga que agora mais machucava do que inspirava. Quando eu tentava conversar com alguém sobre isso tudo as pessoas diziam que era melhor assim. Que eu deveria me limitar a coisas que eu sabia e podia fazer, e que tudo não passava de um sonho mirabolante. Aliás, este era o consenso geral daqueles que conviviam comigo e para alguns ainda era há bem pouco tempo. Impressionante como em momentos de fragilidade nos deixamos levar por conselhos deste tipo.

Eu passava os dias trabalhando e estudando, ganhava bem mais que a média dos estagiários que eu conhecia por aí o que me dava liberdade para ir ao shopping e gastar duzentos reais em besteiras num único dia. Tinha uma vida boa, mas eu não era feliz. Foram os piores meses da minha vida. Eu estava depressivo, derrotado, apático. Não passava de uma sombra daquele menino sonhador que pensava que podia conquistar o mundo. Um dia, passeando por um shopping no interior, vi o box com os DVDs da trilogia e embora eu tivesse dinheiro o suficiente, não tive coragem de comprar. Era um sentimento de vergonha, rebaixamento. Eu não podia ouvir falar em Tolkien, Peter Jackson. Fugia de tudo que pudesse me lembrar do meu sonho “impossível”. Naquele dia cheguei em casa e chorei. Aquilo não podia continuar. Afinal, o que me impedia de tentar?

Sempre fui uma pessoa que enxerga certos sinais na vida, no cotidiano, nas coisas mais simples. Alguns chamam de intuição, outros de superstição. O fato é que ao voltar para São Paulo decidi economizar meu dinheiro gasto de forma leviana para quem sabe um dia filmar algumas cenas do Hobbit. Sim, de um roteiro de cem páginas, resolvi filmar apenas algumas cenas. Então, enquanto eu não pudesse cuidar do meu próprio filme, eu iria ajudar e aprender com outros produtores e ao mesmo tempo apurar minha atuação, desenvolver novas técnicas e tentar ganhar um pouco de destaque para ser alguém no meio artístico antes de gravar e enviar qualquer coisa de melhor qualidade para o Peter Jackson. Se eu conseguisse chegar ao IMDB, mesmo que não fosse famoso, ele e qualquer pessoa poderia verificar minha experiência como ator, ir atrás de algum trabalho meu. Fiz milhares de testes e fui reprovado em vários. A voz da minha irmã mais velha dizendo: “Você nunca vai participar de um filme na sua vida.”, era algo recorrente na minha mente. Como alguém pode ser tão derrotado e perdedor? Mas um dos testes deu certo e em pouco tempo eu estava envolvido com vários outros filmes, em geral de curta metragem, feito por alunos, inexperientes como eu. Ah, não consigo descrever o quanto eu aprendi. Faltava um iluminador, lá estava eu para ajudar e aprender. Aprendi a mexer com látex, sangue de mentira, câmera, iluminação, figurino. Fiz contatos, amigos do meio que, ao contrário das outras pessoas, me ouviam falar do Hobbit como quem admira uma maravilha rara. Todos me incentivaram demais mas nenhum destes filmes, e foram no total oito em menos de seis meses, me deram algum reconhecimento no IMDB. Bom, para quem não sabe o IMDB que eu cito e repito é uma base de dados mundial de atores, a maior delas. É a abreviação Internet Movie Database e ao menos que você tenha participado de algum filme profissional, com vínculos formais com uma empresa ou emissora, participado de algum festival e que possa ser comprovado, seu nome estará lá. Não era o meu caso. Os filmes dos quais participei eram independentes, de faculdade. Foi então que aconteceu. Ao abrir meu e-mail vi um teste para um filme que aconteceria na Avenida Paulista. Achei que eu tivesse o perfil, marquei a data com a produtora, mas acabei não indo. Não me sentia capaz. Aquela noite eu tive um sonho e nele eu estava ensaiando o roteiro do Hobbit na casa do Peter Jackson com mais alguns atores. Era muito divertido e no sonho conversávamos dos filmes que havíamos feito antes do Hobbit, antes de embarcarmos para a Nova Zelândia, os testes que não passamos, as frustrações. Acordei no meio da noite e pensei: “Por que não fui para aquele maldito teste?”

No dia seguinte acordei e liguei para a produtora. Ainda havia um papel disponível mas precisavam com urgência de alguém. Me descrevi por telefone, ela perguntou se eu sabia falar inglês e a pessoa me passou o endereço dizendo que eu começaria imediatamente. Em menos de duas horas eu estava num trem rumo a Caieiras para filmar um drama/terror chamado The Last Shot que participou da seleção do Sundance e outras coisas importantes. Na janela do trem sucateado e empoeirado eu li meu nome já meio apagado e pensei. É isso, é aqui que tudo recomeça. E foi assim que meu nome apareceu primeiro no IMDB.

Depois disso não só eu passei a confiar mais em mim, como minha família e meus amigos passaram a me apoiar bastante. Às vezes, as pessoas precisam de provas concretas de que você é capaz. Foi assim que comprei minha primeira câmera miniDV. Minha amiga Sol me deu a idéia de comprar uma super câmera, me emprestou o total do dinheiro e eu paguei parcelado pra ela. Ela me ajudou demais, acreditou demais. E logo depois que terminei de pagar a câmera, meu estágio acabou. Peguei o dinheiro acumulado, a câmera e procurei pessoas pra me ajudar a filmar. Mas pouca gente topa se expor assim. Meu maior problema nessa historia toda foi falta de pessoal. E demorou muito tempo para eu perceber que se eu não fizesse as cenas centradas no Bilbo sacrificando de certa forma o restante, eu não conseguiria fazer nada. Marquei reuniões, fiz inúmeros cronogramas, marquei viagens, e sempre o mesmo problema. Pessoas desistindo, com seus próprios problemas pessoais. Creio que fiquei um ano nesse planejamento. Eu já sabia as cenas de cabeça, as locações, o onde, o como e o porquê de tudo, tinha o figurino completo, a câmera mas me faltava ajuda. Essa ajuda pra ser bem sincero apareceu mais no final do ano passado quando uma amiga viajou comigo para o interior gravar algumas cenas e foi reforçada por outro amigo que veio do nordeste só pra me ajudar nas filmagens. Formamos finalmente uma mini equipe. E assim, pudemos produzir esse humilde filminho de cerca de 40 minutos que neste exato instante está voando para o outro lado do mundo enquanto você lê este artigo. Tudo numa caixinha de madeira envernizada, de pequenas dimensões, contendo anos de trabalho, dedicação e estudo. Carregando o meu maior sonho para terras distantes onde tenho a certeza de que um certo alguém que conhecemos tão bem vai saber desvendar seus mistérios e códigos. Sim, a caixa em si é um enigma. Eu a construí para ser única. E até onde eu sei, ela está sendo esperada por alguém especial.

As lições que aprendi são bem claras, acho que todo mundo que leu pelo menos uma parte do artigo consegue ver que a maior das lições aprendidas foi a persistência. Que às vezes por mais que nossos objetivos fiquem desfocados ou até mesmo em segundo plano, temos o poder de ressucitá-los e deixá-los maiores. Mas não foi só isso, descobri também que sozinhos não somos capazes de nada. Que encontrei no meu caminho muitos Gollums e Grimas, mas tive alguns Sams que me ajudaram a cumprir o meu destino. É a eles que devo tudo o que derivar desta empreitada. Descobri que mesmo as pessoas mais poderosas, são mais acessíveis do que pensamos. Enfim, lembro de uma frase meio clichê que vi num outdoor mas que serviu de inspiração para eu chegar até aqui e dizia o seguinte: “O impossível é algo que ninguém ousou tentar.”

Eu tentei, estou tentando. E estou envolvido com novas produções cujos desafios são maiores do que os descritos aqui. Só digo uma coisa: Salve o Dragão Verde!