Viagem de um Anão – Capí­tulo 4 – Luzes e Estranhos Vigilantes na Floresta

viagens-de-um-anao.jpgMorit continuou em frente, enquanto Rarum ressonava monstruosamente nas traseiras da carroça e a hortelã que mascava ininterruptamente lhe retirava a sonolência. O cavalo, que, como todos os animais, não era afectado pelo pó dos sonhos continuava a caminhar. Passaram por eles inúmeros viajantes, alguns a pé, outros a cavalo, um ou outro de carroça. Outros ainda ultrapassaram-nos agarrados as suas altivas montadas, cavalos de todo o mundo, galopando com os seus cascos ferrados martelando na terra batida. Mas todos a mascar hortelã. As enormes planícies começavam a ficar longe e o terreno era agora composto por colinas e mais colinas e ainda mais colinas. A cada ponto alto na estrada Morit podia ver a floresta cada vez mais perto, mas ainda longe.
 
Quatro dias se passaram. Rarum ainda dormia, devido a enorme quantidade de pó de sonhos que havia inspirado. O cavalo subia uma colina. Uma colina como todas as outras que haviam atravessado, com a diferença que esta era a ultima antes da grande floresta. Dolorosamente, o animal subia a íngreme elevação. Quando Morit reparou que o cavalo chegou ao fim da escalada esperou uns dolorosos segundos enquanto a carroça seguia o seu puxador e quando chegou ao cimo da colina finalmente viu a floresta. Uma gigantesca, enorme e monstruosa massa verde estendia-se para lá de onde o olhar humano alcança. Pequenas aves saíam e entravam na enorme extensão arborizada, sobrevoando as arvores altas e belas e pousando em ninhos escondidos em ramos compridos. Durante o tempo que a carroça ficou parada no cimo da elevação, a uns escassos cem metros da orla da floresta apenas o som do sussurrar do vento nas folhas leves e húmidas dos abetos e pinheiros e o constante “piu-piu” das diversas aves ecoava pelos ouvidos do mago. De repente, Morit notou que algo não estava bem. Havia um som que estava ausente… o ressonar de Rarum! Quando Morit olhou para trás verificou com um gigantesco espanto que o anão comia uma grande fatia de bolo de mel.

-Rarum! Dorminhoco de primeira, bem me parecia que algo não estava certo! Então sabe quanto tempo esteve adormecido?!

-Não, não sei. E você desiludiu-me bastante meu velho! Podia-me ter avisado que estávamos a chegar ao Pântano dos Sonhos mas não! Preferiu esperar que eu fizesse aquela figura para se divertir!

-Ora, ora! Não julgue os outros antes de saber as suas razões! Eu apenas queria poupar-lhe  uma viagem longa e aborrecida! Esteve quatro dias adormecido se é que quer saber, e fartou-se de ressonar!

-O quê?! Eu, ressonar?! Você não deve estar lá muito bem!

-Basta Rarum! Não desperdicemos o nosso tempo com discussões imbecis! Veja, olhe para a frente. Não vai querer passar toda a travessia da floresta de costas viradas para mim pois não?!

Rarum hesitou por breves momentos, mas depois respondeu sem grande demora:

-Tudo bem! Ganhou! Está desculpado. Mas vá, ponha esse cavalo a andar que temos muito caminho pela frente.

Morit cumpriu o pedido do seu amigo e com um grito de “yah, yah”, pôs o cavalo a andar.

Ora o cavalo avançou os escassos cem metros a descer, que os separavam da floresta e penetrou nesta. Entrou por entre os abetos e a estrada encolheu ligeiramente. Tudo ficava agora para trás. O sol não penetrava pelas altas árvores, com uma altura incalculável, e, apesar de linda, a floresta tornava-se mais escura a cada metro que avançavam. Rarum já lá tinha passado antes. Mas não se recordava de nada. Agora apenas os pássaros que habitavam altos ninhos nas copas das árvores, os milhares de insectos que viviam em galerias subterrâneas e os restantes animais desconhecidos que povoavam o solo húmido da extensão arborizada se faziam ouvir ali. Um piu-piu aqui mais um zzzzzz acolá e seguia-se um tumulto inquebrável. A estrada seguia para Norte, para se juntar à estrada de Dirigor a capital élfica. Esse era o longo itinerário dos nossos amigos. Depois de Dirigor seguiriam até Dolir onde fariam escala para se dirigirem a Sûl-fikir e aí apanharem a estrada para as Montanhas Longrock. O cavalo puxava a carroça calmamente e sem grande esforço pelo solo húmido da estrada velha, enquanto Morit e Rarum tomavam atenção a todos os ruídos. Depois Rarum decidiu quebrar o silêncio:

-Morit, meu amigo, diga-me, já estamos nos domínios dos Elfos?

-Ainda não meu caro. Esta pequena parte da Floresta é a única que pertence ainda aos homens do Sul. Mas não se preocupe, dentro de apenas cinquenta km estaremos no grande reino élfico onde poderá desfrutar da hospitalidade dos seus queridos aliados.

-Sim é verdade. Apenas acho aquela subida até ao cimo dos abetos e pinheiros um pouco cansativa. Mas uma vez lá em cima… Que maravilha!

-Meu amigo, não se pode esquecer de que os abetos aqui na grande floresta chegam a ter cento e vinte metros! Essas escadas e o necessário para chegar ao cimo das árvores que lhes proporcionam protecção. Mas olhe, você não tem fome?

-Por acaso tenho, a fatia de bolo não me satisfez o apetite, tendo em conta os quatro dias de “jejum” involuntário!

-Então está decidido! Paramos aqui na berma e almoçamos!

Com um pequeno toque nas rédeas, Morit desviou o cavalo para a berma direita, onde havia erva para o animal se banquetear. Rarum esticou o seu braço e retirou das traseiras da carroça o necessário para o jantar: Um pão, mel, compotas, água e presunto.

De seguida disse a Morit:

-Então meu caro, que vai comer?

-Para mim apenas uma fatiazinha do seu bolo de mel meu amigo.

Rarum acenou com a cabeça, esticou-se de novo, retirou o bolo de mel do cesto de verga e cortou uma pequena fatia. Depois entregou-a ao mago que a comeu calma e serenamente, ao contrário de Rarum, que comeu, fatia atrás de fatia, pão com geleia, pão com mel, pão com doces de todo o tipo, pão com presunto e muita água. Depois da afortunada refeição tudo foi colocado de novo no seu devido lugar e, de barriga cheia, Rarum, Morit (uma fatia de bolo de mel é o suficiente para alimentar um mago durante um dia inteiro!) e até o cavalo, voltaram a entrar na estrada e a seguir caminho, debaixo das copas altas das árvores.

Os casco do cavalo não produziam nenhum som em contacto com a estrada, devido á sua humidade, por isso o silêncio era total. Os pássaros e insectos que há menos de uma hora piavam e zumbiam na floresta estavam agora calados: A noite aproximava-se. De um momento para o outro a escuridão total abateu-se sobre a floresta. Calmamente, Morit acendeu uma luz ténue na ponta do bordão e disse:

-Rarum pega nas rédeas enquanto eu acendo as velas.

Rarum cumpriu a ordem do mago e, enquanto este abria as portinholas envidraçadas das lamparinas e acendia as velas que se encontravam no interior com a pedra do seu bordão em brasa, ele fitava com atenção o caminho escuro e solitário à frente. A copa das árvores formava uma abóbada que cobria a estrada e que dava a Rarum uma certa sensação de que estava protegido, mas não o deixava totalmente seguro. Morit voltou a sentar-se, tirou as rédeas das mãos trémulas de Rarum e conduziu o cavalo em frente. A luz das duas lamparinas iluminava a estrada e as bermas com uma luz amarelo-torrado muito trémula. Rarum tinha um frio na barriga: ouviu estalidos de troncos e folhas a remexer na floresta. Olhos vigilantes e cintilantes vigiavam-nos no lado direito da floresta, o lado onde Rarum se sentava. Rarum não imaginava o que poderia ser aquilo. Passava já da meia-noite. A criatura continuava a segui-los. Coisas assustadoras e arrepiantes passaram-lhe pela mente, a cada estalido um calafrio percorria-lhe o corpo e a cada vez que a esguia criatura revelava os seus olhos frios, uma sombra de medo abatia-se sobre ele. Pensava, pensava e pensava atormentando-se a cada novo pensamento com sombras de medo. De repente, Morit interrompeu as suas deduções:

-É uma raposa da montanha. Deve ter-se perdido das Montanhas Farî e percorreu este longo caminho. Segue-nos desde que almoçamos, mas só quando anoiteceu se sentiu segura para se aproximar tanto. Não nos fará mal, isso nota-se pela quietude do cavalo. Se ela nos estivesse a seguir com o intuito de nos atacar o pobre animal já estaria a relinchar e a dar coices.

-Mas… então que quer ela? Tem a certeza que não nos vai atacar?

-Absoluta meu velho anão. Os animais entendem-se uns aos outros, e garanto-lhe que se o seu cavalo consegue manter tamanha calma a uns escassos quatro metros de uma raposa das montanhas é porque nada nos acontecerá. Quanto ao que ela quer é simples:

A raposa das montanhas é um animal manso para quem não o ataca, e se nos segue é porque sentiu o cheiro a presunto. Se amanha de manhã ainda não nos tiver deixado, dar-lhe-emos um pouco de presunto e ela deixará de nos seguir.

-Mas porque abandonou ela as montanhas?

-Bem por alguma razão que desconhecemos. A raposa é esperta, e esta espécie em particular, é dotada de uma inteligência magnífica!

-Com todo o respeito, Morit, você não está a dizer coisa com coisa! Uma raposa inteligente? Explique-se!

-Você não conhece a lenda de Olguin?

-Não, mas agradecia que ma contasse, se é que tem alguma utilidade para o tema.

-É claro que tem! A lenda de Olguin é a lenda do deus raposa, o deus élfico dos mamíferos! Passo a contar uma história muito velha. Não há provas em relação à sua veracidade, mas eu acredito que tem a sua pontinha de verdade. Ora aqui vai: há muitos milhares de anos, pouco depois do início dos tempos, o concelho dos deuses élficos reuniu-se nos seus tronos mágicos para atribuírem um deus a cada família de animal. Ratastap, o visão-de-águia, ficou a governar as aves. Goduitir, o escama-dura, ficou a governar os peixes e mamíferos aquáticos. Libior, o martelo-de-formiga, ficou encarregue de todos os insectos. Aldoizin, lingua-de-víbora, ficou como rei dos répteis. Mas então uma discussão surgiu. Luin, o garra-de-urso, queria ficar a governar os mamíferos terrestres, mas o seu irmão, Forterion, o dente-de-elefante, também quis esse cargo. Como ambos tinham esse direito, o deus que regulava o concelho decidiu que ambos deviam partilhar o trono e governar todos os mamíferos terrestres em harmonia com o deus da natureza, Filiton, flor-de-mar. Luin aceitou, mas Forterion não concordou com a decisão. Depois de recorrer várias vezes no tribunal dos deuses élficos, e de perder sempre, ele decidiu montar uma cilada ao irmão: iria conduzi-lo até à fonte das mil vidas e tirar-lhe a imortalidade. Dessa maneira Luin seria expulso do concelho dos deuses. E foi assim que fez. Usou a lira dos mil encantos para o atrair com a sua música encantada até a fonte. Quando Luin lá chegou, sem saber que se encontrava na fonte das mil vida, o seu irmão disse-lhe: “Meu irmão, peço-te que te banhes nestas águas puras, para provar o fim das hostilidades entre nós.” Ao que Luin lhe respondeu, desconfiado: “Que fonte é esta meu irmão? Estás tu disposto a partilhar o trono comigo?”. Forterion ficou nervoso e respondeu-lhe “Meu irmão, não hesiteis mais! É uma fonte que eu construí só para ti, para te banhares nas suas águas e te lembrares que foi aqui que acabaram os conflitos com o teu irmão!”. Luin disse-lhe “Então, meu irmão, como gesto de confiança, peço-te para te banhares antes de mim.” Forterion entrou em desespero e sem saber o que dizer, vendo que o irmão não se banharia voluntariamente, atacou-o e tentou atirá-lo para dentro de água. Mas nesse momento, uma raposa atirou-se e mordeu Forterion no pescoço. O golpe foi fatal. E então, quando soube do terrível acontecimento, o concelho chamou Luin e disse-lhe para trazer a raposa. Mas depois de muita ponderação os deuses decidiram não punir o animal que  tinha salvo o deus. E Luin garra-de-urso passou a chamar-se Olguin, que significa mamífero protector, raposa-da-montanha. E deu inteligência divina àquela espécie de raposa, a que deu o nome de, adivinhe só, raposa da montanha.

-Uau… bem mas penso que isso seja apenas uma lenda! Não é que eu não acredite nos deuses mas… enfim estou um pouco mais tranquilo.

O que Morit disse a Rarum acalmou-o um pouco mas o pobre anão continuava assustado. Enquanto tentava esquecer a presença do animal tentava descobrir algo dentro da escassa luz das velas para pensar e se entreter. Mas nada parecia tirar-lhe aquele medo incontrolável de dentro. Rarum era um anão, e estava familiarizado com os grandes animais da montanha, como os ursos, mas aquele animal era algo especial. Mas depois começou a pensar noutras coisas, com alguma dificuldade. Lembrou-se da bonita vista da sua casa para o sol poente, estampado contra um céu vermelho alaranjado, e as casas de pedra branca com longas chaminés salientes de tectos de colmo, expelindo um fumo sereno em direcção à imensidão do céu. Do bater de martelos contra o ferro em brasa, das badaladas das oito horas, o chamamento das mulheres para os maridos e crianças irem jantar. Lembrou-se dos festins em casa do primo Birrask, com os melhores presuntos, queijos, vinhos, pão e muitas mais iguarias deliciosas. Lembrou-se também dos soberbos almoços nas casas dos homens grandiosos do norte, em Siliman, com as especiarias que estes exímios marinheiros iam buscar às terras do sul e às ilhas distantes no mar Oriental enquanto os furacões não chegavam, todos aqueles ingredientes exóticos de países longínquos, temperados com todos os tipos de especiarias e servidos no calor das suas cidades esculpidas contra a colina. Crianças corriam à sua volta, alegres, a rir. E de vez em quando havia uma que caía no chão e ia a correr chorar para ao pé da mãe. E a mãe consolava-o.  

Mas um pensamento terrível se abateu sobre ele: Itridin! Se ele conseguisse conquistar aquelas terras tudo isso estaria perdido. Passou-lhe pela mente a imagem de hostes de Orcos e Ogres destruindo e queimando as suas casas, escravizando homens, mulheres e crianças. Nada lhe tirava aquilo do pensamento. Desejava que o sono lhe invadisse o espírito para poder dormir e descansar, mas os quatros dias de descanso anteriores não lhe davam misericórdia. De repente despertou daquele pensamento terrível com o chamamento de Morit:

-Eh! Então meu velho? Está na lua? Não ouviu nada do que eu lhe disse?

-Peço desculpa meu amigo, estava aqui a pensar e… distraí-me. Não se importa de repetir?

-Estava a dizer que já devem ser umas cinco da manhã. Dentro de uma hora e pouco começará a amanhecer. Vá preparando duas ou três fatias do seu presunto porque a raposa continua a perseguir-nos!

-Ah sim claro… e se ela não nos abandonar?

-Nesse caso ela que venha atrás de nós… não temos nada a perder e até ganhamos uma vigia! As raposas da montanha são óptimos animais de estimação!

-Você endoideceu de vez Morit?! Adoptar uma raposa como animal de estimação??? Só se for para você porque eu não me atrevo!

-Ora não seja tolo! As raposas da montanha chegam a ser bem mais mansas que um cão! Para além disso o primeiro que a treinar, tenha ela a idade que tiver, torna-se imediatamente mestre dela! Ah e um pequeno pormenor… são bem mais mansas que um cão para si, mas se você a manda atacar alguém, aí são melhores que qualquer cão de guarda! Vai ver que umas fatias de presunto e uns minutinhos de treino e ganha o animal de estimação mais gracioso que há!

-Mas Morit você está bem? Como pode dizer que uma raposa é mais mansa que um cão? E se é esse o caso porque as pessoas não usam raposas em vez de cães?

-Meu velho eu disse raposa das montanhas! Não simplesmente raposa! E as pessoas não usam raposas das montanhas em vez de cães é porque elas só vivem nas montanhas Farî e estão protegidas pelo rei élfico.

-Não sei se essa ideia me agrada Morit!

-Se não quer fico eu com ela. Mas enfim ainda não sabemos se ela não se afastará. Esperaremos até lá. Já estamos dentro do território élfico desde as onze e meia.

-Por favor, explique-me o truque para se saber as horas numa floresta tão densa que não entra luz nenhuma e a lua não se vê?

-É segredo de mago, Rarum! Não deixe que a sua curiosidade típica de anão o deixe fazer perguntas a mais senão vai-se arrepender!

-Mas…

No momento em que o anão ia responder uma luzinha cor-de-rosa no meio do arvoredo escuro do lado esquerdo, fora do alcance da luz fraca das velas, chamou a atenção de Morit, que com um gesto súbito, ordenou ao anão que se calasse. Depois disso uma luz e outra, e mais outra, uma verde, outra amarela, uma vermelha, outra lilás, foram aparecendo na floresta. Morit disse, baixinho, a Rarum:

-A raposa está mesmo atrás de si. Não se vire bruscamente nem fale alto. Ela saltou silenciosamente por cima da tábua, na traseira da carroça, que segura a mercadoria. Sentiu-os. Sabe que eles não lhe farão mal, mas por precaução, e porque já nos acompanha há algum tempo, decidiu buscar protecção aqui.

O sangue estava gelado nas veias de Rarum. Mas este fez um esforço para responder, com uma voz trémula e hesitante, muito baixinha:

-Mas… eles quem?

-Guardas elfos. – respondeu Morit, baixinho – Estão a fazer a patrulha, com a ajuda de pirilampos mágicos multi-colores. Em breve vão perceber quem somos e, quando o sol nascer, provavelmente, convidar-nos-ão a subir as suas casas. Mas por agora mais vale estar quieto e esperar que eles nos examinem.

Rarum respondeu-lhe, indignado com a calma do companheiro, mas muito baixo na mesma:

-Isso é facílimo de dizer quando não se tem uma raposa das montanhas a fazer-lhe cócegas com a sua respiração!

Um sorriso ténue e compreensivo mostrou-se na boca de Morit, que respondeu, sempre no mesmo tom:

-Estique a mão muito, e sublinho a palavra muito, devagar até ao cesto e retire duas das fatias de presunto que cortou ao almoço.

E o pobre e terrificado anão cumpriu as ordens do mago. Demorou quase dois minutos a alcançar o cesto. Abriu-o muito devagar, retirou duas fatias que havia cortado, para o almoço, e que tinham sobrado, e num ápice virou-se e deu o presunto ao imponente animal, que parecia já saber o que se ia passar. Depois de mastigar o alimento, deitou-se nas traseiras da carroça e fechou os olhos. Rarum não hesitou em resmungar, logo a seguir, baixinho, sem se esquecer das patrulhas de elfos:

-É preciso ter lata! Eu aqui com o maior dos cuidados, a uma velocidade mínima, para não despertar a atenção, viro-me de repente pensando “Pronto! Já está! Assustou-se e agora estou metido em mãos lençóis!” e sua excelência limita-se a tirar-me o presunto da mão, como se adivinhasse!

-É a prova da inteligência deste animal. Ele não adivinhou. Ele calculou. Quando ouviu o barulho do cesto a fechar percebeu logo o que se passava e nem se deu ao trabalho de o ameaçar.

-Isso é no mínimo um insulto! Eu não produzi o mais pequeno som!

-Esquece-se que uma raposa das montanhas não possui ouvidos de humano, nem de anão nem sequer de elfo! Podia ouvir uma mosca a voar quinhentos metros daqui!

-É impressionante! Eu desperdiço duas fatias do meu melhor presunto para uma raposa e é desta maneira que elogiam a coragem que tive!

-Oh não seja exagerado!

E a discussão prosseguiu, sempre muito baixinho. A luz ténue da carroça penetrava a penumbra da floresta e seguia pela estrada velha e gasta. Cerca de cinco elfos, com os seus pirilampos mágicos presos em lamparinas envidraças, seguiam atentamente os dois companheiros. As cinco luzinhas, uma cor-de-rosa, uma lilás, uma verde, uma amarela e ainda outra verde água percorriam silenciosamente o ar da floresta, sobre a abóbada formada pelas copas das árvores. Leves como penas, os pés ágeis e calçados com sapatos de tecido e sola fina de madeira, dos elfos, avançavam silenciosamente pelo solo húmido, fértil e mole da densa floresta, com seus cabelos escuros e chapéus verdes e cómicos aquecendo as suas cabeças, os seus olhos penetrantes a vigiar a carroça, os seus ouvidos de longo alcance ouvindo a discussão engraçada dos nossos amigos e as suas bocas graciosas descrevendo leves e ténues sorrisos estampados contra os seus rosto pálidos e vigilantes.

Durante quase uma hora foi este o cenário até que um ténue e muito fraco raio de luz surgiu. Estava a amanhecer e, apesar de não entrar quase luz nenhuma por entre as copas das árvores, os elfos aperceberam-se disso e esconderam-se rapidamente. Depois Morit disse:

-Está a amanhecer. É altura de acabarmos a discussão e, enquanto tomamos o pequeno-almoço, esperar que os elfos se dirijam a nós.

-Encoste ali à frente. Há muita erva para o cavalo – respondeu Rarum, com um aceno de concordância.

E Morit seguiu o conselho do seu amigo. Parou uns quatro metros à frente, antes de uma pequena curva, onde havia boa erva para o cavalo.