O Livro Negro de Arda – Capí­tulo 4

Continuamos a publicação da fanfic O Livro Negro de Arda, agora com o Terceiro Capítulo: O Coração do Mundo. Os demais capítulos podem ser encontrados aqui.

 

 
PARTE PRIMEIRA. O CORAÇÃO DO MUNDO
SOBRE AULË E YAVANNA. O COMEÇO DOS TEMPOS

– Ouça, será que você nunca teve vontade de criar algo seu, totalmente novo?

As pupilas de Yavanna dilataram-se:

– Para quê? Como pode ser possível criar algo mais belo do que o pensado pelo Único? E não é a felicidade suprema – realizar a vontade Dele, personificar os planos Dele?

– Mas não é interessante criar um animal alado ou uma criatura que poderá viver e na água, e na terra?

– Para quê? Pois isso significa – desobedecer ao Plano da Criação.

– Mas nos também fomos criados pelo Ilúvatar; e significa que não podemos criar nada contrário a vontade dele.

Yavanna falava em tom de sermão, como se explicasse algo a um Maia-aprendiz incapaz de compreender:

– Os animais devem viver na terra, ser quadrúpedes e cobertos por pêlos. No ar, vivem os pássaros, na água – os peixes, cobertos por escamas. Assim foi o Plano. Poderia isso ser de outra maneira?

– Claro! Vamos, eu lhe mostrarei!

“Isso não é bonito?” – perguntava Melkor. Yavanna acenava com a cabeça sem muita certeza, mas a sua fronte ficava cada vez mais sombria e, finalmente, franzindo a testa, ela disse:

– Isso não deve existir. Nos podemos somente realizar a vontade do Único; mas algo assim a contradiz. Nos somos uma ferramenta nas mãos Dele, e nenhum de nos pode compreender toda a profundidade dos planos Dele.

– Veja, é você mesma que fala… pode ser que essa parte da Visão não é conhecida por você.

– Não. Todos os kelar e olvar deverão ser minhas criações. A ninguém de nos foi dado intrometer-se naquilo que os outros fazem. Você, digamos: foi dado a você o poder sobre o fogo e o gelo. Você não deve criar o vivo. Fazendo isso, você desobedece à vontade do Único. Caia em si, – disse Yavanna suavemente. – Compreenda, aquilo que você faz é um pecado. Desista. Não há nada acima da vontade do Único.

– … Veja.

Aulë encolheu os ombros:

– São pedras ordinárias, nada de especial…

– Ouça atentamente, – Melkor sorriu.

Depois de um breve silêncio Aulë perguntou, surpreso:

– O que é isso? Canto… ou música… não entendo. De onde?

– Este é o Canto da Rocha. Você gosta?

O Ferreiro olhou para o Alado de forma um tanto estranha:

– Tal coisa não estava no Plano de Eru.

– Agora estará. Você não quer mesmo que seja assim? Isso não é bonito?

Algo incompreensível acontecia com o rosto de Aulë. Estava rígido como uma máscara, mas de tempos em tempos contorcia-se levemente, e a voz estava rouca quando ele disse:

– Ninguém se atreve a mudar o Plano da Criação!

– Mas você sabe que nos mesmos criávamos a Música…

– Não! Ela foi gerada pelo pensamento do Único, e ninguém poderá mudá-la contra a vontade Dele!

– Veja o que você mesmo diz. Pois Eru queria que este mundo se tornasse belo – e não foi nos dado embelezá-lo de acordo com os nossos pensamentos? E o que há de mau nisso, se nos…

– Cale-se! – gritou Aulë com desespero. – Será que você ainda não entendeu: tudo deve ser de acordo com a vontade do Único, e não como desejamos nos!..

Ele parou.

– O que? – perguntou Melkor, abalado. – O que você disse?

Aulë olhou-o apavorado.

– Nada… – a voz dele tremia. Ele inspirou convulsivamente e adicionou, nítido e rispidamente:

– Nada. Eu. Não. Falei. Você ouviu mal.

– Repita!

– Não tenho o que repetir!

– Não tenha medo. Eu entendo. Eu o ajudarei, prometo.

Melkor quis pegar a mão de Aulë, mas aquele se afastou rapidamente, protegendo-se com o braço como de um golpe:

– O que você entende?

– Sim, Eru ainda tem forças para castigar aqueles que não o obedecem. Eu sei o que é isso. Vença o medo. Eu te ajudarei. Acredite, todos juntos nos somos mais fortes do que ele. Nos somos livres. E ele verá isso. Ele vai entender – deve entender. Não tenha medo. Acredite em si mesmo. – Melkor falava suavemente, mas nos olhos escuros de Aulë havia somente horror e desespero.

– Vá embora, – respirou ele, por fim.

– Venha comigo. Então Eru não poderá atrapalha-lo.

O rosto de Aulë alterou-se dolorosamente:

– Vá embora, – pronunciou ele, rouco. – Eu peço. Eu ainda virei, virei, mas vá embora agora.

Melkor meneou a cabeça:

– Você nunca virá. E quando nos encontrarmos-nos novamente…

Ele voltou-se para o outro lado e repetiu surdamente:

– Quando nos encontrarmos-nos novamente…

– Vá embora! – gritou Aulë.

Agora ele sentava no chão, apertando a cabeça com as mãos, balançando de um lado para o outro. Depois se ergueu, e Melkor viu seus olhos vazios. A voz do Ferreiro era monótona e sem vida:

– Aquilo que contradiz os Planos do Único, não deve existir.

Ele ergueu o braço.

– Pare! Se você fizer isso, você nunca mais ouvirá a voz de Arta… Ouça-me, eu imploro!

“Não dá para fazer nada pela força, impossível… O abuso do poder gera o mal. Ele deve entender!..”

– Não precisa ter medo, está ouvindo? Acredite-me, ninguém pode nos proibir de criar. Mas se você começar a destruir, justificando isso com o “assim mandou Eru”, a fronteira entre o bem e o mal deixara de existir para você. Sobrará somente a vontade de Eru, e você realmente se transformará numa ferramenta cega na mão Dele… E você deixará de ser um Criador! – expirou Melkor furiosamente.

– Cale-se… eu não devo escutá-lo! Vá embora! Está me ouvindo, vá embora!

…O fogo irrompeu das rachaduras da terra, e em alguns minutos no lugar do vale havia somente uma lagoa de chamas – como uma ferida inflamada. E pareceu a Aulë – ele ouviu ou um suspiro, ou um gemido da própria terra.

E depois veio o silêncio ensurdecedor.

E o Ferreiro escondeu o rosto nas mãos, sem forças para suportar o olhar de Melkor, porque nos olhos do Alado não havia nada, alem de dor e compaixão.

… E mesmo assim, ele existe em algum lugar – o vale da Rocha Cantante. Os homens do Oriente contam sobre ele, e havia Elfos que o viram e ouviram o Canto da Rocha. Se bem que, as lendas dos Elfos não falam sobre isso. Mas o eco da memória vive no nome do reino élfico de Gondolin – Terra das Rochas Cantantes…

…Mas mesmo assim, Melkor mais uma vez foi até os Valar. Até a Valië Yavanna. Ela encontrou-o receosa.

– Ouça-me, – pediu Melkor. – Vocês querem criar um mundo que desconhece a morte?

– Sim. Pela vontade do Único, esse mundo será um jardim em flor, e belos animais vão vagar sob as cúpulas das arvores… – sorriu Kementári, sonhadora.

– Vamos supor. Os animais, sem conhecer a morte, vão proliferar e se multiplicar, e muito em breve, acredite, os alimentos deixarão de ser suficientes. E então?

Yavanna respirou fundo:

– Para isso existe o Grande Caçador Oromë…

– Certo. Caça é a alegria e diversão para ele, ele não conhece o cansaço… Mas mesmo assim – é improvável que ele poderá dar um jeito em todos os animais. E depois – ali, está vendo dois veados? Como você acha, o qual deles Oromë vai matar?

– Não sei.

– Eu te responderei. Aquele que é mais forte e mais rápido: que alegria há em perseguir um animal fraco e doente? O fraco deixará descendentes; sobreviverão – os mais fracos dos fracos, e isso é degeneração.

– Sim… – pronunciou Yavanna, confusa.

– E se tentar de um outro jeito?

– Como seria?

A criatura que saiu de traz das arvores por um sinal pouco notável de Melkor movia-se suavemente e silenciosamente, flutuava sobre o solo; somente os músculos rolavam sob o pelo macio, cinza prateado com manchas escuras de mármore. Olhos verdes pareciam luzir com luz própria: leopardo das neves.

– Bonito?

– Sim… Que maravilha… – suspirou maravilhada a Valië.

Melkor sorriu ironicamente:

– Só que não é de graminha que ele se alimenta. Ele necessita de carne para sobreviver. Olha, que caninos!

– Que horror, – Yavanna recuou.

– Não mais do que as diversões de Oromë. Só que este não vai matar por diversão. Somente o necessário para ele mesmo sobreviver. E em primeiro lugar – os fracos e os doentes. Sobreviverá aquele, cujas pernas são mais fortes, cuja respiração é melhor, cujo coração bate com mais ritmo – para fugir da perseguição. Sobreviverá aquele que tem uma visão mais aguçada, e o ouvido mais apurado – ele perceberá o inimigo a tempo. Sobreviverá aquele que tem chifres mais afiados, os cascos mais duros – ele poderá defender-se. E o predador que não conseguir chegar perto da presa despercebido ou alcançá-la, não poderá existir. Equilíbrio.

– Mas… Isso é cruel!

– Falo novamente: não mais que as diversões de Oromë.

– E você quer que esses vivam em todos os lugares?

– Não. Esses – nas montanhas; nas florestas e nas planícies – totalmente diferentes.

– Você… Você é cruel! Sim, sim, cruel! Você quer trazer a morte ao mundo!

– A morte e a vida são os dois lados da existência. Morte chegará ao mundo ela mesma. Alias, já chegou. E não há nisso nem minha culpa, nem meu mérito. Será que você não vê?

Yavanna ergueu-se bruscamente:

– Cale-se. Vá embora daqui. Eu não quero ouvi-lo.

Melkor também se levantou:

– Eu peço, pense. Ouça…

– Eu lamento ter lhe dado permissão para falar. Vá embora! É certo o que falam de você: você é o inimigo, o impiedoso mal cego!

– Você mesma verá que eu falei a verdade, – respondeu Melkor surdamente.

– Eu não quero ver nada! Vá embora! Vá, está ouvindo?!