Like a Bird – Parte 16

Um vulto se mexe na noite, inidentificável. Na verdade, nem seria necessário tanto cuidado, uma vez que não haveriam perseguidores atrás dela por aquelas bandas, então o que a preocupava? Eles. Não importava o quanto ela tentasse se convencer que eles não viriam atrás dela, a culpa se alguma cosia acontecesse martelava-lhe a mente como um machado pesado sobre um ferro que não quer se moldar.

 
Mas seria pior se ela não fosse. Daí o martelo estaria em seu coração. Não importava o que acontecesse, ela não abandonaria amigo algum ao tormento e tortura, não enquanto ela ainda pudesse empunhar uma espada. Tinha ouvido as histórias deles, iriam entender. Entender que ela não podia ficar lá, divertindo-se, de braços cruzados. Não enquanto sua amiga clamava por socorro sem ninguém para respondê-la.

Desceu da árvore, finalmente. Não tinha problema, a floresta jazia silenciosa como um túmulo. Os barulhos eram dentro da mente dela, como se fosse a última cosia viva do mundo. Não era uma sensação agradável. Nunca fora. Durante anos a fio, ela matara e tivera bons motivos para, na falta fúnebre de sons depois das chacinas terminadas, se sentir a única coisa viva. Ou não. Talvez estivesse mais morta do que imaginava….

Ela balançou os negros cabelos, que se confundiam com o breu da floresta. Não havia tempo para filosofar sobre o passado, o presente estava encima dela a todo momento. E num passo rápido, como quem foge de algo assustador, ela correu na direção do que ela imaginava ser o caminho para a maldita torre.

Quase podia ouvir os gritos de desespero dentro de si.


Os passos eram rápidos, leves. Por todo castelo parecia haver uma correria iminente. Mesmo Gandalf corria de um lado para o outro, ordenando coisas, o que não era exatamente do seu feitio. Legolas? Há! Podia apostar que o elfo passara na sua frente pelo menos três vezes sete vezes. E ele nem estava ali há muito tempo.

Pelo que entendera da bagunça, a responsável era a menina. Ao que parece ela desaparecera na noite indo estúpida e temerariamente atrás de uma amiga.

-Menina estúpida…- suspirou – É o seu segundo desaparecimento em um ano. Está começando a não ficar original, criança..- e suspirou. Pegou seu machado e partiu em direção ao salão, onde ele supunha estar os outros membros da comitiva.

Ao chegar lá, a cena era quase cômica, se o momento não fosse tão pungente, ele se permitiria gargalhar. Sam se encontrava meio vestido, Pippin nem isso, e Merry sequer parecia estar acordado. Legolas andava em círculos, nervoso, murmurando coisas para si mesmo e amassando um papel – se é que ainda era um papel – nas mãos.

Aragorn e Gandalf se trombavam de tempos em tempos. Ambos davam ordens e pareciam austeros, assustadores e igualmente preocupados e preocupantes. A Rainha Arwen parecia ser o único ser que ainda tinha consciência no recinto.

-Afinal, nós vamos partir ou vamos ficar aqui como um bando de mulheres assustadas?- ele exclamou, atraindo olhares para si.

E pareceu que naquela hora, a decisão foi tomada.

Um grito de dor dilacerante cortava o ar, e mais blasfêmias e maldições vãs eram proclamadas.

-Isso está quase me entediando. Ela só grita, grita, grita, e nada do nosso pássaro cair na armadilha.

-As vezes você é tão sutil, Yukishiro-san.- o costumeiro homem sorriu inocentemente, e depois maquiavélico – Creio que ela virá. Ela está vindo, na verdade É extremamente previsível isso.- e se encostou no divã. Depois de momentos de silêncio, o terceiro perguntou – Como sabe que ela está vindo para o lugar certo?

Mais um sorriso. Arrepiante.

-Ah, eu dei uma pista bem clara…..


-Então é ali.- uma afirmação inútil. Ela falara para si mesma nos últimos dias, tendo a necessidade quase a nível subconsciente de falar com alguém. Realmente, desacostumara-se a ficar sozinha. Não era bom. Não era nem um pouco bom.
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Suspirando de suas próprias esquisitices, ela voltou a observar a torre.- Como se chamava mesmo…? Awh….lembra, lembra, lembra….- ela bateu de leve na própria cabeça – Esqueci. Certo, certo…parece que essas coisinhas feias se reproduzem rápido. Quando cheguem nem eram tantos…aff….- ela abaixou a cabeça – Orcs, não é? Uruk-hais….- ela bufou. Seria muito mais fácil se eles dessem qualquer imagem de cansarem, ou de baixarem a guarda. Afinal, ela estava ou não sendo esperada? Talvez a porta da frente fosse bom o bastante. Se levantou, indo, imponente em direção á porta. Como ela esperava, os orcs e Uruk-hais pararam-na e a conduziram para dentro.

Os corredores eram negros, com pouca luz e muito, muito mal cheiro. Ela sinceramente acharia que havia um cadáver a cada esquina. Um grande e podre cadáver. De troll, preferencialmente. Mas ao entrar num corredor, seus pensamentos quanto ao mórbido cheiro se desfizeram. Esse corredor era limpo e muito bem arrumado. Ela sentiu vontade de rir ao perceber que a melhora não era muito significante. Parecia um pombal de qualquer jeito.

-Desfaça essa cara, vai se apresentar ao mestre…- grunhiu um ser que parecia humano ao seu lado. Ela fez uma cara elaboradamente irônica. Mas aceitou entrar pelas grandes portas esculpidas, tentando controlar o nervosismo. Nunca fora boa em negociações, sempre se irritara antes delas terminarem. Mas agora era diferente, não era mais uma vida. Era uma vida importante para ela, sua amiga….

Ela suspirou. Daria milhões em troca de alguém querido. Não era algo para se orgulhar, mas… a essa altura da vida, o desprezo pela humanidade se fundia com a fé, num misto de emoções bem interessante.

Tentaria meditar sobre isso mais tarde.

Agora não havia mais tempo – ela cobria em passos rápidos a distancia até o chefe.

-Então…Ai Shinomori?

-Miyoru Kazena, Senhor.

-Sim sim, eu sei.- ele disse, numa voz lenta, arrastada e forçada, movendo-se na sombra. Ela sentiu-se ser jogada ao chão, de joelhos, sem cuidado algum. A sua frente existia uma dúzia de degraus, e acima encontrava-se, numa espécie de patamar, o chefe. Encoberto por sombras que pareciam não estar ali ao acaso, parecia uma figura assustadora. Ela riria se não fosse trágico, agora, depois de grande, com medo. Mas a voz encheu o ambiente, engrolada, lenta, mórbida – Eu sei o que você quer. Quer a menina Hotaru, sua amiga de infância, não é? Eu proponho…a…troca clássica. Você por ela.
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Miyoru encarou a escuridão, em silêncio. E como uma pedra, a verdade atingiu-lhe: e se ela fosse a mercadoria a ser oferecida da próxima vez?

-Não. Você vai libertá-la, a mim também. Eu não vou me entregar.

-Não?- ele pareceu titubear co
m essa reação, como a própria Miyoru. Definitivamente, não era com essa resposta que ela estava na mente. Mas o momento de confusão de ambos durou apenas tempo suficiente para ele decidir o que fazer – Então prendam-na. Se você nãos e troca pela sua amiga, então eu ficarei com as duas.

Ela moveu-se tão rápido quanto pôde, desembainhando a espada, matando quantos conseguia, desviando, correndo de um lado para o outro. Golpes rápidos e letais, leitura de movimentos á toda, mas…

Mas ela sentiu uma dor na cabeça, de um movimento que ela não previra….

E tudo escureceu.


-Gnhww….- ela gemeu, quando sentiu a água gelada em seu rosto, acordando-a subitamente. Presa, de novo. Sinceramente, ela já fora muito melhor, como guerreira e espiã. Seu mestre diria que ela era o pior fracasso da vida dele, mas que não se pode ensinar pedras a voar. Afff….

-Bom dia, boneca.- disse um homem. Não era japonês, com certeza. Ela encarou os olhos turvos daquele estranho com firmeza – era o tipo de homem que merecia morrer rápido e o quanto antes. Ele passou um dedo torto pela linha do queixo dela, lentamente.

-Boneca, vai ser como você vai passar a ser chamado se não tirar esse pedaço de carne podre de meu rosto.-

-Está de mau-humor, Boneca? Oh, desculpe-me, Milady.- ele fez uma reverência de deboche -Bem-vinda da terra dos sonhos, meu bem.- ele deu um sorriso enviesado e saiu, Miyoru praguejou baixinho contra todos aqueles que estavam naquela torre até a sexta geração, e contra sua própria falta de controle. Quando ela percebeu que, no canto da agradável cela, havia alguma coisa se movendo.

-Hey…quem é você?- ela perguntou, olhando curiosamente. A criatura se moveu um pouco e respondeu, numa voz baixa e cautelosa.
-Eu sou uma hobbit. Meu nome é Ana. Ana Monteiro, de Bri.

Miyoru sorriu imediatamente -Hobbit! É a primeira hobbits garota que eu conheço…deixe-me ver você, seu rosto está coberto.

-Eu…- ela parecia temerosa – Estou amarrada, não posso mover meu capuz. Mas eu vejo você.- quando ela disse isso, Miyoru olhou para seu próprio corpo, caído no chão, envergado pelo peso das pesadas correntes que mantinhas seus membros colados ao chão. Qualquer movimento exigiria um esforço descomunal, então ela nem tentou. Não valia a pena se machucar sem motivo. Olhando para si mesma, ela podia ver e sentir o peso enrolado em seu corpo. É, era melhor nem se mover.- Como nos alimentam aqui?
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-Dão-nos uma bebida horrível que desce queimando, mas nos mantém acordada. – a hobbit fez um movimento que parecia um dar de ombros.

-Não havia uma outra garota com você aqui?- ela perguntou, ansiosa

-Não. Mas eu ouvi falar de uma prisioneira nos calabouços.

Um suspiro de alívio se ouviu.

-Você veio para tirá-la daqui?

-Vim.

Um silêncio pairou, estranho, sobre aquela cela. Cada uma com seus pensamentos, seus motivos para não falar nada…seus problemas…. Miyrou disse então, num impulso

-Eu vou tirar você daqui também.