A voz do mar

-Senhor  Frodo… Ei. Sr.  Frodo! Está ouvindo: É a mesma voz! O mesmo canto! – murmurou  Sam.

Bill, o pônei, levantava as orelhas como se entendesse a conversa. Estavam na estrada para o oeste, e junto com eles alguns dos mais sábios e velhos na Terra-Média.

Aqueles eram dias especiais, e Sam sabia disso. O Senhor dos Anéis havia sido derrotado e o Rei retornara finalmente. Mas com isso, muito do que de mais belo havia no mundo estava partindo. A Queda da Grande Sombra era também o início de uma nova Era. Os elfos compreenderam então que seu pesar seria eterno lá, e apenas em terras imortais devem viver os que sofrem com o infindável passar do tempo. Eram os dias dos Homens, e junto com os elfos partia muito da magia e encanto do mundo.

 

-Sim, Sam, também estou ouvindo, e ela está mais alta e clara dessa vez. Parece vir do mar, para onde vamos. – respondeu Frodo.

O murmúrio melodioso que há umas horas haviam ouvido, voltava a se espalhar pelo ambiente suave daquela noite como um manto de música belíssima. Ela transmitia uma tristeza sufocada pelos séculos sem fim, mas reconfortada por um alívio alegre; como se toda a dor que ela um dia guardou voasse junto com o vento que a levava até tão longe, para nunca mais retornar.

E os hobbits viram quando a expressão de Elrond se alterou.O brilho nos olhos daquele grande senhor sorriu com aquela voz, como se a conhecesse e se alegrasse ao ouvi-la. Ela trazia de volta as lembranças de um passado distante, que aos ouvidos dos homens soava como lendas e histórias dos elfos. Mas Elrond viveu naqueles dias, e era daqueles tempos remotos que se recordava; ouvia em um alívio inesperado aquela voz, que apesar do tempo era familiar, pois o amor que ela tinha por ele era puro como o de um pai. Fez, então, soar sua harpa na mesma melodia daquela canção, e em uma harmonia luminosa como as estrelas, pois seu brilho era, de fato, o mesmo.

O Carro da Lua já brilhava alto e refletia com as estrelas sua luz no Grande Mar, quando Bilbo, despertando de seu cochilo, ergueu seus olhos e viu uma alta torre crescendo no horizonte.

-Elostirion! A torre mais alta das Emyn Beraid! Vejam, Frodo e Sam! Já chegamos às Colinas das Torres! De Elostirion, Elendil podia olhar ao longe e contemplar Tol Eressëa, a Ilha Solitária às costas de Amam.

Sam já tinha visto grandes e magníficas construções dos elfos. Mas à medida em que se aproximava daquelas torres, ele podia sentir quão magníficas e imponentes eram as obras dos elfos na Terra-Média. Eles passavam por entre as colinas cobertas por uma vegetação muito viva, e seus olhos apaixonados pelos campos e jardins do Condado, voltavam a se espantar com aquelas cores delicadas e suaves das florestas élficas. E a cada vez que ele se distraía com uma flor, uma paisagem, ou com o ruído de uma pequena cascata, surgia algum tesouro do passado por entre as plantas e rochas. Aquelas que foram grandes presentes de Gil-Galad a Elendil, as grandes torres de vigia do antigo Reino do Norte, ainda guardavam em suas fundações firmes a grande imponência dos Senhores de outrora.

Logo estavam sobre uma alta colina e os hobbits mais uma vez pararam encantados. Pois por entre os braços colossais das Montanhas Azuis, eles pela primeira vez puderam divisar a grande imensidão e maravilha do oceano. A brisa suave que vinha do mar era acompanhada pelo vôo das gaivotas; e coroando o claro luar daquela noite, podiam ver a cidade e porto de Mithlond. Eles haviam chegado aos Portos Cinzentos.

Círdan os recebeu e cumprimentou-os com prazer. Olhou bem para Frodo, Sam e Bilbo; os Pequenos cujos nomes se tornaram grandes, lembrados por anos sem conta.

Próximo à embarcação que os aguardava, estava Gandalf, e todos se alegraram ao saber que ele também iria; à exceção de Sam, que mal se conformava com tantas despedidas e agora pensava no seu retorno solitário. Entretanto, logo surgiram galopes apressados atrás. Eram Merry e Pippin. Em meio às lágrimas, eles se despediram dos velhos amigos e os viram partir.

Assim que o barco deixou o porto, o canto que ouviram nas Torres e ainda antes, voltou. Mas agora ele mudara, ara apenas alegre; calmo e suave, seu som se misturava à música das ondas, e mesmo sem parecer alto, era ouvido bem ao longe. Ouvindo-o, os três hobbits amigam viram o barco sumir de vista e retornaram em silencio para o Condado.

Quando desceu seus olhos do horizonte, Círdan viu o dono daquela voz. Ele estivera cantando na praia por e caminhando junto ao mar por anos sem fim. Muitas vezes durante esse tempo, homens e elfos ouviram seu canto triste. Corria a lenda entre os homens do elfo andarilho que cantava junto ao mar canções de grande tristeza, de arrependimento e de dor. Ele passava como um vulto branco à noite e todos choravam ao ouvi-lo. Poucos conheciam sua história naqueles dias, e esses sempre que viam a Luz de Eärendil voando pela noite, clara mesmo entre as estrelas, se lembravam daquele que hoje chora ao cantar pelas praias.

Agora ele estava parado de frente a Círdan, seu olhar era de arrependemento.

-Há muito que eu o ouço, e a não menos tempo que perdoei seus atos.- disse o Senhor de Mithlond.

-Sinto-me feliz por isso.- respondeu o elfo. Tinha longos cabelos negros, era alto e vestia cinza. Mas era nos seus olhos que ainda estava a Luz. –A minha dor eu cantei pelos séculos. Arrependo-me do que eu jurei e mais ainda do mal que fiz em nome do meu Juramento. O mar ouviu minhas tristezas e recolheu minhas lágrimas. Há muito que ele guarda a Luz, motivo de minha insanidade e de meus atos de loucura, o brilho pelo qual lutei e pelo qual por três vezes matei meus irmãos. Sei de minha dor, mas também sei que em canção nenhuma estava toda a dor do sangue que derramei.

-Os dias são outros – disse Círdan – Os Círculos do Mundo deixaram de ser nossa casa. O nosso lar está no além-Mar, inclusive o seu. Os Senhores do Oeste o ouviram, seu pesar não foi em vão.

-Então eu irei. Mas serei o último.

-Iremos juntos então. Quando todos tiverem ido, eu partirei, finalmente.

Alguns dizer que realmente foram os dois últimos a partir para o Oeste. E em Valinor eles reviram seus parentes. Na Valinor onde brilharam as Árvores, as Terras Abençoadas onde nem mesmo o Inimigo havia plantado sua semente vil. Era como uma estrela que ainda vivia a Luz naqueles dias, mas no Fim ela havia de retornar também do mar e da terra, e como nova iluminaria todo o mundo renascido.