Parte 4: Profecias II

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No último artigo, dei uma introdução ao assunto das profecias e falei
um pouco sobre este tema inserido na obra de Tolkien. Além de ter
relacionado o mesmo tema em uma outra obra famosa do mesmo período do
professor, “As Crônicas de Nárnia”. O objetivo não foi comparar uma
profecia com a outra em primeira instância, mas deixar claro o quanto
uma mesma idéia de uma época se reflete na arte mesmo com objetivos ou
formas de pensar diferentes. Tolkien e Lewis diferem em muitas coisas,
eram amigos e ainda compartilham de uma visão que chega à salvação dos
seus mundos mágicos.

 

 
Talvez a principal influência de ambos tenha sido o Cristianismo. As obras de ambos podem ter suas raízes em antigas crenças cristãs, devido ao profundo nível de devoção na fé cristã que apresentavam. Contudo, esta religião apresenta assunto vasto demais para ser discutido por ora.

Neste artigo, falarei de uma outra obra famosa que levanta polêmica e discussões das mais variadas por onde quer que seja citada. A saga de Harry Potter é conhecida em todo o mundo e, diferentes das obras anteriormente citadas, não se baseia em um caráter essencialmente religioso. Pelo contrário, sua autora – J.K.Rowling – nunca falou muito sobre sua fé e nem mesmo a presença de alguma religiosidade no mundo de seu personagem.

Ao contrário de Rowling, religiosos em diversas partes do mundo classificaram a obra como “perigosa”. Escolas da Irlanda chegaram até mesmo a proibir a presença dos livros em suas bibliotecas ou que as crianças levassem-nos para serem lidos na sala de aula. O falecido papa João Paulo II, ao contrário dos que muitos poderiam pensar, era a favor do conteúdo dos livros e os via como um estímulo para a leitura e o aprendizado de mensagens que ele considerava positivas para as crianças, independente de suas religiões. Por outro lado, o atual papa Bento XVI condenou que crianças, muitas vezes com idades inferiores aos dez anos, leiam e sejam tão influenciadas pelo conteúdo presente ao longo da saga.

Harry Potter é uma saga de sete livros que conta a história do jovem bruxo do título. Ao longo de praticamente todos os livros, com exceção do último, Harry passa um ano escolar na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Sem maiores detalhes fica claro porque a grande maioria dos membros da Igreja Católica e seus seguidores sejam contra a leitura de tais livros.

Portanto, diferente do que muitos pensam ou dizem frivolamente, Harry Potter e a mitologia tolkieniana são totalmente díspares quando comparados. Sim, como o próprio Tolkien costumava dizer, tudo que já foi criado em termos de literatura está dentro de “um grande caldeirão de histórias”. De forma que qualquer semelhança quanto criaturas ou até mesmo o curso que os livros do bruxinho acabaram por seguir não foram “copiados” de Tolkien. J.K.Rowling pegou muito do que foi bom de antigas mitologias e até mesmo supostas lendas urbanas inglesas para transformar em um mundo totalmente novo.

Tudo isso que eu resumi aí em cima foi para dar uma introdução ao assunto propriamente dito por dois motivos: o primeiro, para localizar os fãs de Tolkien que não gostam ou não se interessam pelo universo de Rowling; o segundo, para servir de argumento ao fato de que histórias tão diferentes têm o seu salvador proveniente de uma mesma raiz.

Neste artigo o discutido em questão continua sendo Aragorn, só que por uma ótica muito diferente da que foi abordada da última vez. No artigo anterior, o Elessar foi visto pelo ângulo heróico e dono por direito da coroa dos reinos de Arnor e Gondor – disposto a lutar contra os servos de Sauron e se sacrificar por um objetivo mais elevado.

Desta vez não será da mesma forma, Aragorn não será analisado como o Elessar, mas somente como Aragorn: o lado humano e íntimo falando mais alto frente à probabilidade de enfrentar uma jornada que ele sabia não ser fácil.

Harry Potter, assim como Aragorn, teve uma profecia realizada para ele antes mesmo de seu nascimento por uma mulher chamada Sibila Trelawney (coincidência ou não, seu nome remete às sibilas da mitologia grega, também capazes de fazer predições e adivinhações). Segue abaixo a profecia:

“Aquele com o poder de vencer o Lord das Trevas se aproxima…nascido dos que o desafiaram três vezes, nascido ao terminar o sétimo mês…e o Lord das Trevas o marcará como seu igual, mas ele terá um poder que o Lord das Trevas desconhece…e um dos dois deverá morrer na mão do outro pois nenhum poderá viver enquanto o outro sobreviver…aquele com o poder de vencer o Lord das Trevas nascerá quando o sétimo mês terminar…”

O grande diferencial da profecia de Harry é que ninguém sabia qual garoto era, poderia ser o próprio Harry ou o seu amigo – Neville Logbottom. Lord Voldemort decidiu pela profecia quando tentou matar Harry quando ainda bebê e fez uma cicatriz em formato de raio na testa do garoto – marcando-o como seu igual.

É importante entender o contexto do mundo dos bruxos de Harry quando Voldemort determinou sua própria queda ao tentar matar o garoto: era o auge do poder das forças malignas lideradas pelo Lord, todos os dias pessoas eram mortas ou simplesmente desapareciam, praticamente não existia mais um governo. Ou seja, todas as pessoas viviam um momento de grande confusão e não se permitiam, ao mesmo tempo, crer que conseguiriam sair daquela situação de extrema insustentabilidade pelo domínio das Trevas. Surge então uma profetisa e alguns dias depois,há a queda do ser que causava tanto tormento a todos.

Agora, vamos relembrar qual era o contexto vivido na Terra-Média no período de Aragorn: Sauron estava voltando a ficar cada vez mais forte após a sua derrota para Isildur anos antes, os orcs tomavam conta das estradas e ameaçavam invadir sempre mais terras. Os reinos dos homens não só haviam perdido o seu antigo esplendor, como também encontravam-se com pobreza da população e dificuldades no exército, por falta de recursos e riquezas.

Algo importante de ser observado nos dois contextos é que não há um grande herói sem um grande vilão, ou seja, são os próprios tiranos que em sua extrema morbidez e dominação inflexível sobre uma população criam os seus próprios poderosos oponentes.

Aragorn ficou rapidamente órfão de pai e, por que não dizer de mãe? Digo isso porque Mestre Elrond encarregou-se de toda a sua criação e educação ao longo dos anos seguintes. O sábio elfo tornou-se mestre do futuro rei e também uma espécie de pai que o garoto nunca conhecera.

Harry com um ano de idade perdeu o pai e a mãe por assassinato para Voldemort. Após torturantes anos com os tios e o primo que o detestavam, vai para Hogwarts e conhece o diretor da instituição que ao longo dos anos seguintes torna-se seu grande protetor e mestre, Alvo Dumbledore. E por que não falar também que uma espécie de pai? Harry e o diretor tiveram conflitos que são muito adequados para um adolescente em relação com seus pais.

O paralelo entre os dois personagens é muito forte, mas se torna ainda mais quando Aragorn aos vinte e Harry aos quinze descobrem quem realmente são. Mais uma similaridade a ser reforçada é que o amor chega à vida de ambos nas respectivas idades acima, ou seja, uma diferença de apenas cinco anos e que nos dois casos tudo acontece quase que ao mesmo tempo.

Quando Aragorn encontra Arwen por entre as árvores e se apaixona perdidamente, ele insiste com Elrond e descobre sua descendência real e os motivos pelos quais ele fora levado a Elrond e tido que ser mantido vivo por representar a esperança dos povos da Terra-Média. Harry Potter, após descobrir a profecia que lhe dizia respeito e os motivos pelos quais tivera uma infância reclusa do mundo bruxo por questões de segurança, encontra dentro de si o seu amor por Gina Weasley.

Outro ponto de coincidência entre os dois é que eles, mesmo amando as mulheres de suas vidas, abandonaram-nas porque precisavam encontrar a sua missão no mundo e a ajudar a impedir seus mundos da completa destruição e submissão às forças das Trevas.

Aragorn caminhou por anos em busca dos servidores de Sauron para destruí-los e depois integrou-se à Sociedade do Anel para ajudar a Frodo, já que Mestre Elrond dissera que o casamento com Arwen só se daria se Aragorn fosse coroado rei. Já Harry passou todo o seu último ano escolar em companhia de seus amigos Rony Weasley e Hermione Granger em busca das Horcruxes, objetos que continham pedaços da alma de Lord Voldemort. A única forma de Harry voltar para Gina era vencendo o bruxo das Trevas e,claro, sobrevivendo ao combate final.

Tanto Aragorn como Harry tiveram vários embates contra as forças das Trevas e, depois de muitas dificuldades, vieram a sair vitoriosos de seus conflitos.

Aragorn tornou-se o rei Elessar e contraiu matrimônio com Arwen. Harry tornou-me chefe dos aurores do Ministério da Magia e casou-se com Gina. Ambos conseguiram revolucionar os mundos que viviam e construir uma nova era de felicidade e alegria. Claro, as forças das Trevas não estavam extinguidas e sempre havia batalhas para se lutar e vencer, de forma a garantir que o mundo não se tornasse novamente um lugar de desespero, miséria e morte.

Para finalizar, deixo uma pergunta para que os leitores deste artigo respondam. As profecias que foram feitas para Aragorn e Harry transformou completamente antigas crenças que eles tinham antes de saberem as verdades sobre eles próprios mas e, se ao invés deles acreditarem nas profecias eles tivessem continuado a viver as próprias vidas de acordo com os interesses que bem entendessem? O destino viria até eles ou eles teriam feito o seu destino ser alterado e invalidar a força das profecias?

O artigo da próxima semana será ainda sobre profecias e abrangerá a última comparação com profecias do aspecto desenvolvido para Aragorn. Como exemplificador será o ciclo Trilogia da Herança.