Paz na Terra-média?

O último número da revista norte americana Entertainment Weekly veio com uma longa reportagem sobre toda a confusão que supostamente estaria atrasando as filmagens de O Hobbit. Uma vez que a matéria traz mais do que a "boa notícia" de que Peter Jackson está conversando com a New Line sobre o filme, mas também um panorama geral sobre a briga entre o diretor e o estúdio, que segundo o autor vem de muito antes do que pensamos, a Valinor trouxe até vocês uma tradução completa do artigo.
 
Chamamos a atenção para o fato de que a reportagem possui muitas fontes não confirmadas e que o ideal é manter ainda um certo pé atrás quando o assunto é O Hobbit. Então, fiquem agora com a reportagem "O Hobbit: Paz na Terra-média?" escrito por Benjamin Sevtkey e traduzido por Ana "Lovejoy" Bittencourt.
 
 

Capa da EW

Capa da EW

O Hobbit: Paz na Terra-média?

Fãs têm desejado há tempos que o diretor de "O Senhor dos Anéis",
Peter Jackson, dirija "O Hobbit" de J.R.R. Tolkien, mas uma terrível
batalha judicial com a New Line tem tornado isto impossível. Agora,
finalmente, parece que um cessar-fogo pode estar próximo.
(por Benjamin Sevtkey)

No mês passado, no jornal acadêmico Science, paleontólogos apresentaram
uma nova evidência de que eles tinham descoberto um parente ignorado do
homem pré-histórico. Oficialmente, eles têm classificado as espécies de
Homo floresiensis
– não oficialmente, eles o têm chamado de "hobbits" – mas seja lá como
o chamam, o que eles encontraram foram restos fossilizados de 18.000
anos de um hominídeo de cerca de um metro de altura, queixo curto e o
cérebro do tamanho de uma bola de beisebol¹.

Enquanto isso acontece, eles estão escavando hobbits em Hollywood
também. Do tipo com uma queda por anéis e com um dom para conseguir
bilhões nas bilheterias. Até umas poucas semanas atrás, estava
parecendo que essa ninhada estaria extinta também, dizimada por
senhores negros mais poderosos do que o próprio Sauron – advogados da
indústria do entretenimento. Mas agora a batalha judicial que manteve a
prequel‘ de O Senhor dos Anéis (O Hobbit) suspensa por anos – uma amarga disputa entre o diretor de O Senhor dos Anéis,
Peter Jackson, e o co-diretor da New Line, Robert Shaye – pode
finalmente estar próxima de uma conclusão. Pela primeira vez, há uma
razão para estar prudentemente otimista. Durante a publicação deste
artigo, nenhum acordo foi anunciado e detalhes sobre as negociações são
vagos (nem a New Line ou os representantes de Jackson comentaram com a
EW sobre qualquer aspecto dessa história), mas fontes próximas a eles
nos contaram que estão percebendo muito menos gelo no ar, e que um
acordo pode ser alcançado o que poderia ajudar a conduzir a obra-prima
inicial da Terra-média de J.R.R. Tolkien para as telas antes do fim da
década. "Têm ocorrido negociações", disse um informante. "Há agora um
começo de negociação entre Peter Jackson e a New Line que está correndo
paralelamente aos procedimentos legais."

Tudo bem, não é o tipo de declaração de paz que faz com que os sinos da
igreja toquem. Mas é uma grande melhora comparado a apenas 10 meses
atrás, quando Shaye e Jackson brigaram na imprensa e o co-diretor do
estúdio contou bravo para um repórter que o diretor era arrogante
demais para seu gosto, adicionando "Eu não quero mais trabalhar com
aquele cara." Além disso, em Hollywood, qualquer movimento em um
projeto há muito tempo em negociações é notícia importante. Foi O Hobbit,
afinal de contas, que primeiro introduziu ao mundo o amável e
assustador universo da Terra-média. O romance se passa 60 anos antes de
"O Senhor dos Anéis", e para muitos leitores que chegaram aos
trabalhos de Tolkien quando crianças, ainda retém um brilho mais quente
na memória do que a intimidadora e algumas vezes lenta trilogia. Seu
herói é Bilbo Bolseiro, um tímido hobbit caseiro que é arrastado por um
mago e 13 anões para uma aventura durante a qual ele leva de um dragão
chamado Smaug um tesouro roubado e do malvado Gollum um certo anel
todo-poderoso. Apenas alguns membros do elenco de O Senhor dos Anéis
retornarão neste primeiro conto. Mas a história tem precisamente os
mesmos temas – de lealdade e coragem inesperada – que fizeram a série
do Anel enorme. E por enorme nós queremos dizer gigantesca, com cada
filme ganhando cerca de um bilhão de dólares no mundo todo entre 2001 e
2003, com mais 17 Oscars, incluindo os de Melhor Diretor e Melhor
Filme. Em Hollywood, em outras palavras, O Hobbit é aquela criatura mágica rara – uma certeza.

E é isto que faz essa bagunça judicial tão obscura. Que desentendimento sobre O Senhor dos Anéis poderia ser tão importante, tão pessoal, que ambos os lados jogariam fora um potencial de bilhões de dólares de lucro por isso?

A ironia é que há um tempo atrás, Peter Jackson e Bob Shaye deram para
cada um os melhores presentes de suas carreiras. Em 1998, o pedido de
Jackson de fazer O Senhor dos Anéis
como três filmes separados – ao contrário de dois, ou mesmo um – foi
rejeitado por quase todos os estúdios em Hollywood. Shaye e a New Line
eram sua última esperança, um fato que o diretor camuflou ligando
algumas vezes para remarcar a reunião com a New Line por causa de sua
agenda supostamente cheia. Jackson e Shaye formaram um par estranho: um
Kiwi² tímido sempre de calças curtas e pés descalços, e um dos últimos
ases de Hollywood, que gostava tanto de seus óculos escuros que uma vez
Jack Nicholson o chamou de "Bobby Shades"³ O que Jackson e Shaye tinham
em comum era um tipo de indiferença absoluta ou sem medo sobre o que as
outras pensavam ser um suicídio financeiro ou criativo. Shaye autorizou
o sonho de Jackson do trio de filmes de 100 milhões de doláres sobre
elfos e anões. (Nem mesmo Harvey Weinstein teve estômago para isso;
ele disse para Jackson que assinaria apenas para dois. Por ser um
produtor executivo, ele ficou com um pedaço da bilheteria de qualquer
forma). E Jackson deu para Shaye uma franquia de 3 bilhões de dólares e
uma nova imagem para sua companhia. A New Line, que Shaye lançou 40
anos atrás ao descobrir clássicos B como Reefer Madness e vendendo-os em seu apartamento, não é mais conhecida por A Hora do Pesadelo e Austin Powers.

Invariavelmente, há tensão entre estúdios e diretores durante a
produção. A New Line aprendeu rapidamente que apesar de ser grata por
seu trabalho, o diretor e sua parceira, Fran Walsh, não eram pessoas a
serem empurradas por aí. Então tiveram brigas e mágoas de magnitudes
variadas de ambos os lados, todas compostas pela idéia da indústria do
cinema de que Shaye tinha literalmente apostado seu estúdio em O Senhor dos Anéis. A primeira indicação de que tudo não estava bem veio por volta de 2003. O segundo filme de O Senhor dos Anéis (As Duas Torres),
ganhara seus bilhões de dólares e os membros da produção começaram a
perceber que eles não estavam exatamente compartilhando o dinheiro.
(Duas fontes próximas da produção lembram de um ator principal
recebendo um cheque de merchandising de 45 centavos). Eventualmente,
após os atores mais populares perceberem que estavam ocupados demais
para fazer mais publicidade para os filmes, a New Line entregou
relutantemente alguns bônus. (Os atores menos conhecidos já moveram um
processo alegando que o estúdio reteve a renda do merchandising.) Então
vieram ruídos do produtor Saul Zaentz. Ele tinha trazido os direitos
dos filmes da trilogia O Senhor dos Anéis e O Hobbit da United Artists em 1976 – a parceira da United Artists, MGM, retém os direitos de distribuição de O Hobbit
– e em 2004, Zaentz também moveu um processo, afirmando que a New Line
não estava pagando tudo o que devia para ele em direitos. Seu caso foi
resolvido um ano depois por uma quantia não divulgada, mas a essa
altura Jackson já estava ocupado com a prestação de contas da New Line.

Ninguém gosta de ter que prestar contas, mas isto é uma rotina na vida
de Hollywood. Shaye, entretanto, parece ter levado o pedido de
prestação de contas de Jackson para o lado pessoal. "Isso o amargurou",
repara um observador. "É como se pensasse, ‘Eu dei a grande
oportunidade para esse cara – e ele salta fora?" Shaye aparentemente
tinha esquecido que Jackson não era apenas um Kiwi afável. Quando a New
Line começou a planejar a venda de objetos cenográficos e fantasias em
leilão, Jackson interveio e disse que ele gostaria de tê-los, tanto por
razões sentimentais quanto por um museu que ele planejava construir um
dia. O estúdio resistiu. Jackson então chamou a atenção para o fato de
que ele nunca tinha assinado um contrato para a versão estendida em DVD
de O Retorno do Rei.
Ele informou à New Line que aceitaria alegremente as fantasias e
objetos cenográficos como pagamento – a sugestão sendo de que ele
poderia não trabalhar no DVD de outra maneira. As versões estendidas
tinham se tornado de longe uma fonte de renda mais lucrativa do que
qualquer um poderia ter predito. Jackson conseguiu seus objetos
cenográficos. A relação entre diretores e o estúdio naquele ponto caiu
para algum lugar entre desagradável e não existente.

Em novembro de 2003, Jackson e Walsh sentaram-se em seu cinema
particular na Nova Zelândia, fazendo retoques de última hora no
terceiro filme, O Retorno do Rei.
"Os fantasmas estavam bons, mas aos meus olhos os heróis estavam um
pouco grandes", disse Jackson sobre a seqüência conhecida com "A Senda
dos Mortos". Ele desenhou círculos na tela com um marcador laser, então
seguiu em frente para o pedaço onde Sam Gamgi retorna para casa e
abraça sua família. A cena precisava de um pequeno retoque. Jackson
perguntou para sua equipe de efeitos especiais quanto tempo isto
levaria. “Dez dias”, contaram para ele. "Não, não, não, não", ele
respondeu. "Dez dias causariam um ataque cardíaco em Los Angeles."
Walsh sorriu. "Isto não seria tão ruim," ela disse. Quando uma risada
nervosa se espalhou pelo cinema, Jackson disse: "Vamos votar, pessoal?"

Se a prestação de contas irritou Shaye, o pior ainda estava por vir. Em
fevereiro de 2005, Jackson iniciou seu processo contra a New Line,
afirmando que o estúdio não estava fornecendo a documentação para os
auditores. O processo não pedia qualquer quantia em dólar por danos,
mas insistia em Jackson ser autorizado a examinar os livros de
contabilidade do estúdio, para procurar por questões do tipo: como a
New Line, uma divisão da Time Warner, vendeu os direitos auxiliares de
seus filmes. (A Entertainment Weekly também é propriedade da Time
Warner). De vários modos, a New Line fechou contratos com companhias
dentro da família Time Warner, como a Warner Bros. Records e o canal à
cabo TBS. Se Jackson conseguir mostrar que a New Line pode ter assinado
mais acordos lucrativos com companhias de fora, ele poderá solicitar
uma renda significante.

Em todo caso, uma vez que o processo foi iniciado, O Hobbit
estava fadado a acabar. A New Line chegou a se aproximar de Jackson
para falar sobre fazer o filme pelo menos uma vez, no outono de 2006,
prometendo resolver a disputa (e pagá-lo a quantia apropriada) se ele
concordasse em fazer o filme. Mas não duas vezes. Jackson continuou a
insistir que um acordo deveria vir antes. E ele já tinha começado a
fazer King Kong. Para a Universal.

O ponto alto veio em novembro do ano passado, quando Shaye literalmente "demitiu" Jackson de O Hobbit. Jackson levou a briga diretamente ao público. "[Nos falaram] que a New Line não quer mais nossos serviços em O Hobbit,"
Jackson escreveu uma nota no site TheOneRing.net. "Esse foi um foi um
aviso de cortesia para que soubéssemos que o estúdio está agora está
querendo contratar um outro diretor." Shaye surtou. Em janeiro de 2007,
ele atacou Jackson com uma tirada agora famosa. "Eu não me importo mais
com Peter Jackson", disse para o site Sci Fi Wire. "Ele acha que nós
devemos algo para ele, após termos pago mais de um quarto de bilhões de
dólares!"

Shaye não parecia estar blefando. A New Line começou a ver O Hobbit
conduzido por outros diretores. Como Sam Raimi. ("Peter Jackson pode
ser o melhor diretor do planeta no momento," disse o diretor de
Homem-Aranha para a EW em março, mas "se Peter não quiser dirigir…")
Não é que alguém tivesse pensado que essa era a melhor idéia.
"Francamente, qualquer um seria uma segunda escolha," disse um
executivo do cinema de alto escalão. "Não será o filme que as pessoas
querem." Certamente não será o que Ian McKellen quer; o ator que
interpretou Gandalf na trilogia está conduzindo uma campanha de um mago
só para conseguir colocar Jackson novamente atrás das câmeras, pedindo
para os dois lados que acertem suas diferenças. "Eu adoraria revisitar
a Terra-média com Peter," ele escreveu em seu site. A personagem de
Viggo Mortensen, Aragorn, não aparece no enredo de O Hobbit,
mas mesmo ele não consegue imaginar o filme sendo feito sem Jackson.
"Ele é o candidato ideal," Mortensen disse para a EW. "No fundo do
coração, a New Line sabe que ele é ideal." Muitos fãs argumentariam que
Jackson não é apenas ideal para O Hobbit como também
indispensável. Sua visão é agora a mesma de Tolkien – como é o trabalho
de suas empresas de efeitos especiais, Weta Workshop e Weta Digital.
"Os fãs assistiriam a um filme dirigido por outra pessoa?" pergunta o
editor-chefe do TheOneRing.net, Michael Regina. "Talvez 90% iria, mas
eles ficariam chateados com isso. Partiria o coração deles."

Não seria o cenário mais ensolarado para Bob Shaye e a New Line também.
Na realidade, o tempo está ficando curto para o lançamento do filme. Em
uma data não muito distante, os direitos de O Hobbit
retornarão para Zaentz. Muitas pessoas acreditam que é 2010. Assim,
para fazer o filme, a New Line teria que renegociar – assumindo que
Zaentz gostaria de fazer negócio com eles novamente – em termos muito
mais caros e com maior competição por causa dos outros estúdios. E pode
haver um outro prazo: Shaye e o co-diretor do estúdio Michael Lynne têm
apenas até o final de 2008, quando seus contratos com a New Line estão
para expirar. É pouco tempo para adicionar um último triunfo de Tolkien
em seu legado.

Mas agora a verdadeira pressão sobre a New Line está vindo dos
tribunais. No último mês, a companhia foi multada em 125 mil dólares
por não ter entregado os documentos de contabilidade solicitados. Mesmo
nas semanas anteriores a isso, havia sinais de que a intransigência da
New Line começava a se desmanchar. "Deixando de lado nossas brigas
pessoais", Shaye disse para o L.A. Times em agosto, "Eu realmente
respeito e admiro Peter, e adoraria que ele estivesse criativamente
envolvido de alguma forma em O Hobbit."

Finalmente, uma bandeira branca.

É claro, mesmo que o processo se resolva amanhã, ainda existirão alguns detalhes a resolver antes que O Hobbit
comece a ser feito. Como um roteiro, por exemplo, que ninguém de fato
escreveu. No passado, Jackson sugeriu que faria dois filmes, com o
segundo sendo um arco de história entre O Hobbit e o começo de O Senhor dos Anéis.
Apesar de Tolkien nunca ter escrito um romance ligando as eras, ele
deixou pistas em textos mais curtos e epílogos que poderiam servir de
base para um roteiro. Esta não seria a primeira vez. Em O Senhor dos Anéis,
Jackson, Walsh e a roteirista Philippa Boyens aumentaram a história de
amor entre as personagens de Mortensen e Liv Tyler a partir do material
presente nos apêndices escritos por Tolkien.

Além disso, é difícil imaginar Jackson tendo tempo de dirigir um filme de O Hobbit, imagine dois. Ele logo começará a filmar sua adaptação para o best-seller The Lovely Bones na Pensilvânia. E depois disso, está escalado para fazer Tintin com Steven Spielberg. Há uma especulação de que a New Line pode oferecer para ele como acordo a produção executiva de O Hobbit,
deixando-o escolher um diretor e cuidando da produção. Isto poderia ser
o suficiente para evitar que os corações dos fãs se partissem, mas
seria o suficiente para Jackson? Surpreendentemente, após tudo o que
ele passou – oito anos fazendo O Senhor dos Anéis e outros
tantos na corte brigando por isso – o Condado ainda o encanta. Na
realidade, Jackson pode ser a única pessoa que nunca perdeu a esperança
sobre o filme. Mesmo em 2003, quando a relação com a New Line estava
bastante fraca, Jackson ainda dava livros de O Hobbit como presente. "Ótimo livro," ele escreveu em uma cópia. "Fico imaginando como será quando o filme sair?"

Fonte: EW.com

¹ O termo utilizado foi "Wiffle ball", que é uma bola utilizada para jogar uma variação ‘indoor
do beisebol, tendo dimensão semelhante à bola utilizada no segundo jogo
mas sendo mais leve, uma vez que é perfurada e de plástico.

² Kiwi é um termo utilizado para ser referir às pessoas nascidas na Nova Zelândia.

 
³ Trocadilho com a pronúncia do sobrenome do co-diretor (Shaye) com a palavra Shade, utilizada para óculos escuros.