Passagem pelas fadas

Ana "Glaunir" Curcia mais uma vez nos presenteia com um artigo sobre a
obra do Professor. Desta vez, ela comenta "Sobre Histórias de Fadas"
cuja tradução de Reinaldo José Lopes encontra-se disponível para
download na Valinor (para baixar, basta clicar aqui). Com vocês, Passagem pelas fadas, de Ana "Glaunir" Curcia.
 
 
Passagem pelas fadas

Seguindo o ritmo do meu artigo anterior, continuarei a analisar a obra
“Sobre Histórias de Fadas”; mudando apenas o enfoque da análise.
Considero esta obra mais importante até mesmo que “As Cartas de
J.R.R.Tolkien”, pois o professor expõe sua própria tese sobre o que
considera da literatura moderna e os caminhos que ela poderia tomar;
todavia a abrangência do aspecto social da Inglaterra em 1939 é muito
importante, já que é uma nação que comumente influencia o restante do
mundo e evidencia as características do mundo desenvolvido durante a
Segunda Grande Guerra.

A melancolia expressa pelo professor durante toda a sua dissertação é a
mesma que todos os catedráticos e membros mais assíduos da Universidade
de Oxford sentiam: a crescente destruição das antigas tradições e o
esquecimento da população em geral (estudiosos também) para com os
mitos e as histórias européias. Mestre Tolkien nem mesmo cita os mitos
ingleses (à exceção de Beowulf), pois há muito após a inserção do
Cristianismo a antiga cultura inglesa (celta, saxã, anglo-saxã, bretã,
juta e normanda) foi progressivamente sendo engolida e praticamente
desapareceu do pensamento inglês. Embora eu ache que este fato ferisse
profundamente Tolkien, tanto quanto a crescente industrialização de
algumas áreas tipicamente rurais do Reino – este tópico será discutido
mais tarde.

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De todos os aspectos considero como algo muito forte a noção do
professor de que a sociedade do mundo moderno tem a tendência de
caracterizar as histórias de fadas como sendo algo infantil. Tal
atitude acaba por desprezar a importância dessas histórias e a
transformar o seu real significado em contos “bobos”, relevantes apenas
para crianças que ainda não têm a falta de importância deste tipo de
escrito.

J.R.R.Tolkien mostra profunda maturidade tanto como ser humano quanto
como escritor ao classificar histórias de fadas como um tipo de
literatura que acredita-se ser voltado para as crianças porque os seres
humanos a capacidade de distinguir os próprios passos em um passado
distante – todos esses contos para terem sido escritos já foram
baseados em fatos reais, é tudo uma questão de respeitar algo que para
nós muitas vezes já não faz mais sentido.

Outro fato que concordo com Tolkien é em seu desprezo para com as
alterações que se faz propositalmente nas histórias: Tristão e Isolda,
A Branca de Neve, A Chapeuzinho Vermelho e etc. O professor discorda
claramente das novas versões criadas pelos franceses (principalmente
pelos Irmãos Grimm), classifica tais modernidades como descartáveis
para o conjunto da literatura.

Com relação à industrialização sempre crescente às proximidades da
Universidade de Oxford, o professor vivia em contato com tal fato
diretamente. Ele reclamava das constantes perturbações pelo barulho do
trânsito, das máquinas e das indústrias aos estudos da Universidade.
Mas o pior problema para Tolkien era a destruição do característico
cenário rural da Inglaterra que tanto inspirava as novas obras
literárias; sem contar que a destruição desta paisagem era um fator a
mais para o total desaparecimento da cultura do Mundo Antigo.

Acredito que o professor Tolkien consegue trabalhar tão bem com o mundo
da fantasia porque deixa bem claro nesta obra o quanto acredita na
realidade e veracidade deste outro universo. Suas intenções não são
especulativas, a todo momento trata o Mundo das Fadas com profundo
respeito e admiração – talvez seja este o motivo que as portas deste
Universo paralelo se abriram e jamais se fecharam para Tolkien até o
fim de seus dias.