Aparência dos Elfos II – A batalha continua

Quando comecei a me interessar pelos assuntos
capilares em relação aos elfos, minhas concepções eram ainda bastante
incipientes, e meus conhecimentos sobre notas e citações a respeito,
quase nula. Tudo que eu tinha em mãos eram os livros em português, um
ou outro ensaio, e minha teimosia.
 
 
 
Hoje, meus conhecimentos são bastante incipientes,
tudo que tenho em mãos são os livros em português, um ou outro ensaio,
uma ou outra nota, muitas discussões, minha incansável teimosia e minha
inseparável camisa de força! Mas só este pequeno acréscimo já
justificou um novo texto, posto que alguns de meus antigos argumentos
caíram por terra, enquanto outros brotaram das cinzas. Vamos a eles.

A principal razão de minhas divagações e teorias não é, como sempre
pareceu, os cabelos de Legolas – meu elfo predileto por unaminidade de
todos os sentidos – inclusive os intelectuais – o que talvez o
colocaria em um julgamento um tanto imparcial … mas Legolas é apenas
um pivô para um processo bem mais amplo, cuja tônica principal é: qual
era, afinal, a aparência dos elfos? Havia elfos louros na TM? Havia
elfos louros fora da casa dos vanyar? Há possibilidades destas famílias
terem se cruzado e gerado outros exemplares diferentes das
características básicas e originais de suas estirpes? E as exceções, o
que fazer com elas?

A princípio, sabe-se que a devastadora
maioria dos elfos é morena. Esta informação foi sedimentada por uma
frasezinha dos Apêndices do SDA, que diz :

” …seus cabelos são escuros, exceto na casa dourada de Finarfin.”

Tal qual uma famosa frase sobre asas, estas poucas palavrinhas geraram
toda uma sequência de discussões, interpretações, teorias ferrenhas e
tendenciosas, das quais eu não me excluo. No entanto, ela carrega em si
mesma uma gama imensa de contradições, que automaticamente a descartam
como argumento principal. Vejamos quais são elas:

1) Na
primeira versão desta passagem, Tolkien se referia especificamente à
casa dos noldor. Mais especificamente ainda, à família real dos noldor.
E mesmo aí ela ainda é falha, posto que entre os nobres noldor havia
elfos com outros tons de cabelos: Idril, Glorfindel, os filhos ruivos
(!) de Fëanor.

Aqui, os opositores dizem: mas Idril era loura por ser descendente de uma vanya, e Glorfindel com certeza também era.

Sim, concordo. Mas de qualquer forma, a afirmação está invalidada.
Havia, sim, elfos louros na família nobre dos noldor, fora da casa de
Finarfin. Isto é inegável, é fato. E explicitamente oposto ao que foi
afirmado na frase em questão – base e alicerce de muitas teorias.

2) Ao ser levada para os Apêndices do SDA, a afirmação foi apresentada
como abrangendo todos os elfos – ou pelo menos todos os eldar. O que a
desqualifica mais ainda. O que faremos com a pequena turminha dos
cabelos prateados? Com os cabelos dourados de Thranduil? ( falarei
sobre o Hobbit daqui a pouco). Com o elfo louro de Lórien? E… com os
vanyar?

A famosa frase então deveria ficar assim:

Mas seus cabelos são escuros, exceto:

* os vanyar
* a casa dourada de Finarfin
* a casa prateada de Thingol
* alguns descendentes de Indis e de outros vanyar
* uma pequena parte do povo do Norte
* um ou outro elfo perdido nas florestas de Lórien

Em suma: melhor teria feito Tolkien em deixar a afirmação com sua
intenção original – a casa nobre dos noldor – que arcar depois com as
inúmeras exceções com que ela iria esbarrar pela frente.

(
Parêntese 1 : Eu gostaria aqui de registrar uma observação sobre
algumas questões estilísticas, que acabam dando margem a este tipo de
especulações: Tolkien gostava muito de certas expressões, como Casa
Dourada, Dourado/Dourada, Cinzento, Lider Supremo, Mais Velho, entre
outras. Expressões típicas do estilo do autor, que se repetem
exaustivamente e nos exaurem… não na estética – belíssima! – mas na
herança analítica.)

Deixando agora um pouco de lado a frase
infeliz, vamos analisar estes casos aí um a um, dentro de argumentos
mais sólidos – e não necessariamente naquela ordem:

Tolkien nos fala a respeito dos sindar:

” Os Mestres do Conhecimento também supuseram que a referência * era
feita aos cabelos dos Sindar. Elwë de fato tinham um longo e belo
cabelo de tonalidade prata, mas esta não parece ter sido uma
característica comum dos Sindar, embora fosse encontrada entre eles
ocasionalmente, especialmente entre parentes próximos ou distantes de
Elwë (como no caso de Círdan) . Em geral os Sindar aparentemente
pareciam muito com os Exilados, tendo cabelos escuros, sendo fortes e
altos, ainda que ágeis.”

( *em nota mais abaixo foi também atribuída às suas roupas)

Temos aqui, numa passagem bem mais consistente, que a maioria dos
sindar, tal como os noldor, tinha cabelos escuros. Mas também que
Thingol e seus parentes – não se diz quem nem quantos – tinham cabelos
prateados, e não apenas eles. Uma minoria, sem dúvida, diante do imenso
contingente dos teleri. No entanto, esta minoria existia, e gerou seus
frutos. Entre outros, Celeborn, Círdan… e Oropher. Pai de Thranduil.
Naturalmente, nossa genética não consegue determinar o que um
cruzamento de cabelos prateados com cabelos escuros daria. O único caso
conhecido é o de Luthien, que tinha negras madeixas. Mas um caso
isolado é pouco para determinar uma regra – e até mesmo utilizar a
nossa genética para isto é uma insensatez, posto que entre nós não
existem cabelos prateados, exceto talvez como tentativa de ” dourar” os
cabelos brancos … De qualquer forma, nada impede que Oropher tenha se
unido a uma cabelos-prateados – uma prima, talvez – e gerado um filho
de cabelos claros, que por sua vez se uniu sabe-se lá com quem, mas
transmitiu seu colorido à prole. Aqui, tudo é especulação – Tolkien não
deixou nada de definitivo que possa confirmar qualquer conclusão a este
respeito. Mas é implausível afirmar que a possibilidade de Legolas ter
cabelos claros é ínfima, ou mesmo ” impossível” para alguns. Pelo
contrário, ela é bastante aceitável … mas aqui eu terei que abrir
mais dois parênteses:

A) Oropher era mesmo parente de
Thingol? Era. Isto está explícito tanto no CI como no SDA. Por diversas
vezes Legolas é apontado como um parente distante de Celeborn – ele
próprio o chama assim. Alguns alegam que o “parente” nesse caso se
refere à raça élfica, simplesmente. Ora, por favor! Em todas as suas
obras e escritos, Tolkien jamais usou o termo parente com esta
conotação! Para ele, povo era povo, raça era raça, parente era parente
– ou seja, alguém com laços sanguíneos. Afirmar que nestes trechos,
neste capítulo específico ele resolveu dar outro significado à palavra
é desprezar sumariamente o cuidado que o escritor sempre teve ao
escolher seus termos e suas expressões…

B) Podemos levar
em consideração as afirmações do Hobbit? Podemos usar o Hobbit como
argumento? Afinal, é um texto antigo e tão cheio de absurdos, tão
distante do legendarium tolkeniano…
É verdade. No entanto,
muitas informações do Hobbit foram reaproveitadas na obra seguinte,
depois de devidamente compiladas, refinadas e adaptadas. Entre elas, a
figura de Thranduil, na pessoa de seu filho. Ora, no Hobbit Tolkien
descreve Thranduil e parte de seu povo como louros. Mais prá frente,
ele resolve colocar a maioria dos elfos morenos. E agora? Seria
extremamente fácil para o autor eliminar este problema citando a mãe de
Legolas, ou mesmo descrevendo-o mais minuciosamente. Em vez disto, ele
preferiu deixar o caso em aberto, e quem sabe incluir Thranduil ( e
talvez seu filho, pela imaginação dos leitores) naquela minoria élfica
que desfilava seus cabelos claros pela TM, a despeito da famosa Frase
Finarfin. Era mais fácil, mais barato e naturalmente compreensível:
sendo Oropher um parente distante de Thingol, nada impedia que ele – e
sua estirpe – tivesse cabelos claros. Ou seja – o fato não ia contra
nenhum de seus argumentos posteriores, nem constituía nenhum absurdo
dentro das histórias subsequentes. Logo, não há porque desconsiderá-lo
(bem como muitos outros). Resumindo: o Hobbit pode servir de fonte sim.
Desde que tenha sido uma passagem reaproveitada, destramente adaptada e
não modificada ou contestada posteriormente, não vejo porque deveríamos
descartá-lo sumariamente. Tolkien teve mil oportunidades de consertar
os cabelos de Thranduil. Se não o fez, é porque não achou necessário,
ou achou por demais trabalhoso de ajustar. E a lacuna na descrição de
Legolas – um personagem importantísssimo – é um indício claro disto.

Vamos agora aos outros casos:

X) Glorfindel: Este é fácil. Glorfindel nasceu em Aman, filho de um
noldo com uma vanya. Era considerado noldo porque a classificação é
legada pelo pai. E resolvido o problema.

Sem dúvida. E
assim como Finwë e Indis, e os pais de Glorfindel, pode ter havido
muitas outras uniões de noldor e vanyar em Amam, ou mesmo na TM, antes
da Grande Marcha. Em momento algum Tolkien discrimina estas uniões, nem
as coloca como coisas raras, tal como aconteceu entre elfos e humanos –
tão raras que foram até enumeradas. Mas entre as famílias élficas,
parecia ser fato até comum. Além dos dois citados ( apesar de um ser
mera suposição), temos ainda Finarfin, Galadriel … todos casados com
membros de outras famílias. E como eles, muitos outros podem ter feito
o mesmo, segundo suas palavras:

” Devido ao intercasamento
o cabelo dourado dos Vanyar algumas vezes mais tarde apareceu entre os
Noldor, notavelmente no caso de Finarfin e seus filhos Finrod e
Galadriel, em cujo caso eles vieram da segunda esposa de Finwë, Indis
dos Vanyar…”

Mas por que então não foram todos
mencionados? Porque não eram personagens importantes na história, oras!
Quantos soldados noldor seguiram Fëanor em sua insana excursão à TM ?
Quantos deles não poderiam ser frutos de uniões noldor/vanyar,
noldor/teleri, e terem herdado o título de noldo de seus pais, tal qual
Glorfindel? E por isso Tolkien ia sair mencionando um a um, tal qual os
exércitos homéricos?
(o que aliás teria sido fantástico!).

É preciso deixar claro que um ou outro exemplar com tipo físico
diferente não descaracteriza toda uma raça. Os noldor (ou quem
preferir, todos os elfos ) continuam sendo aí primordialmente uma raça
de cabelos escuros e olhos cinzentos … e como todas as raças, com
suas exceções, seus desdobramentos, suas miscigenações. Fazendo uma
comparação grosseira: se cruzarmos um chinês com uma sueca,
provavelmente teremos um chinezinho louro. Ou um suequinho de olhos
puxados. E nem por isso os chineses vão deixar de ser descritos como ”
morenos de olhos puxados”.

Mas, porque Glorfindel tinha
seus cabelos tão destacados assim, se ele não era uma raríssima
exceção? Seu nome significa exatamente isto, cabelos dourados. E deve
tê-lo recebido justamente por ser fato inédito um noldo louro, certo?
Bem, ou ele é bem mais velho que Finarfin, ou não era tão inédito
assim. Mesmo porque sua casa – a casa da Flor Dourada – sugere um belo
clã de louríssimos noldor desfilando por Gondolin. Pode ter sido por
causa de sua beleza – os cabelos de Glorfindel, como o de Galadriel,
não eram simplesmente louros. Eram de uma beleza exuberante, a ponto de
justificar num, o nome, na outra, a cobiça. E isto me lembra mais uma
coisa. O argumento de que – toda vez que um cabelo era exceção, Tolkien
o mencionava. É verdade, mas o mencionava à medida em que isto era
relevante para a história – e afora as questões linguísticas ( como
Glorfindel) ou literárias ( como certos humanos), Galadriel e Túrin são
um dos poucos (senão os únicos) exemplos que eu me lembro. Sendo que
Glorfindel nem precisaria ter sido mencionado: ele carrega esta
informação no próprio nome. Então, Tolkien estaria apenas explicando aí
a origem de mais uma raiz da língua élfica. Outros casos não passam de
figurações, de conceitos e valores literários, como veremos no próximo
caso:

Y) O elfo louro de Lórien. Um coadjuvante, um anônimo
qualquer que aparece por dois segundos no livro, e desaparece com a
mesma facilidade. No entanto, ele devia ser um assombro, devia causar
espanto em quem o via. Um elfo louro em Lórien! Um sinda, um silvestre,
ou mesmo um avari, de madeixas douradas! E no entanto, Tolkien o
descreve com a casualidade que descreveria uma grama verde, um céu
cinzento, uma margarida amarela … um simples componente de cenário, a
simples descrição de um personagem, uma simples figura de retórica.
Como se encontrar um elfo louro entre os mallorns fosse a coisa mais
comum do mundo. E não era? Uma coisa é certa. Tolkien não precisava
absolutamente ter citado os cabelos deste elfo. E no entanto citou.
Sendo ele uma exceção ou não, citou. Casualmente. Naturalmente. Como
sendo realmente a coisa mais comum do mundo.

Agora, vamos
à questão dos vanyar. Se havia elfos louros que não eram vanyar, por
que eles eram então assim chamados? Porque eles eram louros em quase
sua totalidade. E não por serem os “únicos” louros. E olha que até
entre eles parecia haver exceções … vejamos o que nos diz Tolkien:

” O nome ( vanyar) se referia ao cabelos dos Minyar, que era em quase
todos os membros do clã amarelo ou dourado profundo. Esta era
considerada uma características bela pelos Noldor (que amavam o ouro),
embora eles tivessem em sua maior parte cabelos escuros.”

(Parêntese 2: Esta paixão dos noldor pelo dourado bem sugere inúmeras
uniões dele com as belas vanyar … opinião puramente pessoal.)

Vejam que aqui há uma outra pequenina contradição, posto que ele cita
os noldor como em maioria morenos (por origem), enquanto que em outra
ocasião ele dá a entender que os únicos louros por lá eram os
descendentes vanyar. Então…

Outra vez eu vou fazer uma
comparação grosseira. Imagine que você tem duas famílias vizinhas. Uma
tem um casal moreno, com um filho moreno e outro louro ( sim, isto é
perfeitamente possível, acreditem).
E na outra, todos são
exuberantemente louros. Como a gente diria? Vou lá na casa dos louros.
Prá quem? Para a segunda família, é claro. E com isto eu acabei de
renegar completamente o outro lourinho do vizinho.

Mas –
mesmo admitindo que, a princípio, apenas os vanyar eram louros, ainda
há aquela questão de suas uniões com os noldor. As uniões anônimas que
podem ter ocorrido em Aman. Que podem ter ocorrido na TM, com os
teleri, após o retorno dos noldor ( entre eles os já frutos de tais
uniões). Que pode estar ocorrendo até hoje (!) em Valinor.

Eu, particularmente, não apenas acredito nestas uniões, como acredito
que havia elfos louros também entre os teleri. Ainda que raros, e
independente de cruzamento direto com os vanyar, o que parece não ter
ocorrido:

” Uma vez que os Lindar tiveram pouco contato
com os Vanyar tanto na Marcha ou mais tarde em Aman, o nome não era
muito usado por eles para o Primeiro Clã.”

Entre os noldor,
já acho mais difícil – era realmente uma raça morena por natureza. Os
louros “naturais” pareciam ser raríssimos, e a maior parte com certeza
era mesmo fruto de suas uniões com os vanyar. E, somando a tudo à
parcela dos prateados de Thingol… teremos:

Todos os elfos são morenos , exceto:

Certos e comprovados:

1) O povo de Finarfin ( tido em certas circunstâncias como os
únicos)
2) A filha de Turgon
3) Glorfindel e toda sua “Casa da Flor Dourada”
4) A turminha prateada de Thingol
5) O assombroso elfo de Lórien
6) Uma boa parcela de ascendentes e descendentes de Fëanor – os ruivos.

Nos controversos:

6) Thranduil e uma parte de seu povo
7) Legolas ?
8) Por último e o mais controverso, por compreender ainda uma questão
de tradução – não só de idioma, mas também de interpretação literária –
Celegorm – o pretenso filho ” louro” ( que eu já admiti como apenas
“claro”) de Fëanor. Este, eu nem citei anteriormente, por não ter mesmo
(ainda!) argumentos suficientes.

É , acho que tirando este rol de exceções e mais algumas, os outros deviam ser morenos mesmo….

Bem, como apelo final, eu gostaria de comentar a reticência do próprio
autor em ser taxativo quanto a este ou aquele aspecto, que foi
destacada através dos grifos. Tolkien fala o tempo todo em maiorias,
minorias e exceções. Mas nem mesmo entre os vanyar ele usa o termo
totalidade.

Portanto, não há como excluir exemplares nesta
ou naquela raça. Minorias não são determinantes de nada. Mas que elas
existem ( e perturbam um bocado), isso existe…