Legolas inútil? Em defesa dos elfos

No decorrer da leitura de Contos Inacabados, deparamos com uma nota de
Tolkien que seu filho, Christopher, classificou como “curiosíssima�:

 
“Na derrocada final de Sauron, os elfos não
estavam efetivamente envolvidos no ponto da ação Legolas provavelmente
foi o que menos realizou dentre os Nove Andantes�

Em um outro trecho, nas �Letters� ( que infelizmente não consegui
localizar) Tolkien reafirma ter sido o elfo o membro “mais inútil� da
Sociedade

A leitura deixa a nós, fãs dos elfos e do personagem em particular,
perplexos, tristes e revoltados Afinal, poderíamos preencher duas
páginas com os feitos de Legolas na Guerra do Anel, suas qualidades
como companheiro e guerreiro, suas habilidades e a contribuição que ele
deu à Comitiva Mas não se trata aqui de contestar a afirmativa, nem
provar por A + B que ela está errada ou foi infeliz, e sim descobrir
seu motivo e seu verdadeiro significado

Uma leitura mais atenta me levou a encontrar uma nova perspectiva para
a asserção do professor, que de certa forma sugere uma interpretação
mais amena de suas palavras

Ora, a Guerra do Anel aconteceu no final da Terceira Era Tolkien foi
categórico ao afirmar que a Última Aliança foi realmente o último elo
da interação homens/elfos nas histórias da Terra-Média Este foi o
prenúncio da Era do Domínio dos Homens, e aos elfos cabia pouco a pouco
irem partindo para cumprir seu destino nas Terras Imortais

Quando a Sociedade do Anel se formou, Elrond convocou representantes de
todos os povos livres da Terra-Média , incluindo-se aí os elfos,
naturalmente, que embora estivessem em declínio, ainda habitavam este
mundo em número suficiente que justificasse uma participação Mas Elrond
não requisita nem seus maiores guerreiros noldorim, nem os mais
experientes, mais sábios ou mais velhos: apenas um representante que
pudesse, com sua perícia, sua sensibilidade e seus poderes élficos,
auxiliar a Comitiva na árdua demanda E o verbo auxiliar aqui vem bem a
calhar, posto que esse era o papel de Legolas junto aos companheiros:
ajudar simplesmente, e não tomar a frente das ações

Não cabia ação aos elfos nesta ocasião A própria Galadriel, poderosa
entre os poderosos, poderia ser considerada omissa, nas mesmas palavras
de Tolkien : “Galadriel, a maior dos eldar que sobreviviam na
Terra-Média, tinha sua principal potência na sabedoria e na bondade,
como diretora ou conselheira no combate, inconquistável na resistência
( em especial na mente e no espírito), mas incapaz de ação punitiva�

Podemos ver novamente aqui que não mais se atribuia aos elfos a tarefa
de participação ativa num conflito por “direito� humano, assim como os
valar não mais interferiam nos problemas da Terra-Média , a não ser por
meios indiretos – e Tolkien menciona isto mais adiante, inclusive
comparando a atuação de Galadriel à do próprio Manwë:

“Na sua escala, ( Galadriel) tornara-se como Manwë com respeito à
grande ação total Manwë, no entanto () ainda não era um mero observador
Foi claramente de Valinor que vieram os emissários que eram chamados de
istari �

E Legolas? Qual foi seu papel então ? Teria sido ele um mero
observador, um representante estatístico na composição da Sociedade dos
Nove? Não, sua função seria exatamente aquela que Tolkien sugeriu: a de
um coadjuvante, um pilar na retaguarda, para apoiar e dar cobertura às
ações e decisões que caberiam àqueles que buscavam o objetivo definido
nestas batalhas: restaurar a glória dos antigos reinos dos homens

A “inutilidade� de Legolas pode ser então traduzida pela omissão nas
ações de cunho decisivo, na condução do rumo dos acontecimentos
Realmente, ele pouco ( ou nada) realizou neste sentido, e nada mais
justo: não era esse seu papel, e nem o de qualquer elfo que vivesse
naquela época

Dentro das funções que poderiam lhe ser atribuídas, Legolas foi um
grande colaborador na Sociedade, e um grande guerreiro de sua época Não
no ponto da ação ( decisiva) como Tolkien mencionou Mas a de um lastro,
uma retaguarda sem a qual as verdadeiras ações não se completariam

 
(Para Villië e Deriel)

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