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Poema Divertido e Pouco Conhecido

Tópico em 'Literatura Brasileira' iniciado por Matheus Spier, 19 Out 2012.

  1. Matheus Spier

    Matheus Spier Usuário

    Descobri recentemente um poema que poucas pessoas conhecem (ou pelo menos que poucas pessoas mencionam e comentam); é um poema muito visual e divertido, que funde o terror com a comédia de forma bastante simples e curiosa.

    Trata-se do poema "A Orgia dos Duendes", de Bernardo Guimarães. Eu gostaria de dividir ele com o pessoal do Fórum (é meio longo, mas vale a pena ler):

    I



    Meia-noite soou na floresta

    No relógio de sino de pau;

    E a velhinha, rainha da festa,

    Se assentou sobre o grande jirau.



    Lobisome apanhava os gravetos

    E a fogueira no chão acendia,

    Revirando os compridos espetos,

    Para a ceia da grande folia.



    Junto dele um vermelho diabo

    Que saíra do antro das focas,

    Pendurado num pau pelo rabo,

    No borralho torrava pipocas.



    Taturana, uma bruxa amarela,

    Resmungando com ar carrancudo

    Se ocupava em frigir na panela

    Um menino com tripa e tudo.



    Getirana com todo o sossego

    A caldeira da sopa adubava

    Com o sangue de um velho morcego,

    Que ali mesmo co´as unhas sangrava.



    Mamangava frigia nas banhas

    Que tirou do cachaço de um frade

    Adubado com pernas de aranhas,

    Fresco lombo de um frei dom abade.



    Vento sul sobiou na cumbuca,

    Galo-preto na cinza espojou;

    Por três vezes zumbiu a mutuca,

    No cupim o macuco piou.



    E a rainha co´as mãos ressequidas

    O sinal por três vezes foi dando,

    A corte das almas perdidas

    Desta sorte ao batuque chamando:



    “Vinde, ó filhas do oco do pau,

    Lagartixas do rabo vermelho,

    Vinde, vinde tocar marimbau,

    Que hoje é festa de grande aparelho.



    Raparigas do monte das cobras,

    Que fazeis lá no fundo da brenha?

    Do sepulcro trazei-me as abobras,

    E do inferno os meus feixes de lenha.



    Ide já procurar-me a bandurra

    Que me deu minha tia Marselha,

    E que aos ventos da noite sussurra,

    Pendurada no arco-da-velha.



    Onde estás, que inda aqui não te vejo,

    Esqueleto gamenho e gentil?

    Eu quisera acordar-te c´um beijo

    Lá no teu tenebroso covil.



    Galo-preto da torre da morte,

    Que te aninhas em leito de brasas,

    Vem agora esquecer tua sorte,

    Vem-me em torno arrastar tuas asas.



    Sapo-inchado, que moras na cova

    Onde a mão do defunto enterrei,

    Tu não sabes que hoje é lua nova,

    Que é dia das danças da lei?



    Tu também, ó gentil Crocodilo,

    Não deplores o suco das uvas;

    Vem beber excelente restilo

    Que eu do pranto extraí das viúvas.



    Lobisome, que fazes, meu bem,

    Que não vens ao sagrado batuque?

    Como tratas com tanto desdém,

    Quem a c´roa te deu de grão-duque?”









    II



    Mil duendes dos antros saíram

    Batucando e batendo matracas,

    E mil bruxas uivando surgiram,

    Cavalgando em compridas estacas.



    Três diabos vestidos de roxo

    Se assentaram aos pés da rainha,

    E um deles, que tinha o pé coxo,

    Começou a tocar campainha.



    Campainha, que toca, é caveira

    Com badalo de casco de burro,

    Que no meio da selva agoureira

    Vai fazendo medonho sussurro.



    Capetinhas, trepados nos galhos

    Com o rabo enrolado no pau,

    Uns agitam sonoros chocalhos,

    Outros põem-se a tocar marimbau.



    Crocodilo roncava no papo

    Com ruído de grande fragor:

    E na inchada barriga de um sapo

    Esqueleto tocava tambor.



    Da carcaça de um seco defunto

    E das tripas de um velho barão,

    De uma bruxa engenhosa o bestunto

    Armou logo feroz rabecão.



    Assentado nos pés da rainha

    Lobisome batia a batuta

    Co´a canela de um frade, que tinha

    Inda um pouco de carne corruta.



    Já ressoam timbales e rufos,

    Ferve a dança do cateretê;

    Taturana, batendo os adufos,

    Sapateia cantando – o lê rê!



    Getirana, bruxinha tarasca,

    Arranhando fanhosa brandurra,

    Com tremenda embigada descasca

    A barriga do velho Caturra.



    O Caturra era um sapo papudo

    Com dous chifres vermelhos na testa,

    E era ele, a despeito de tudo,

    O rapaz mais patusco da festa.



    Já no meio da roda zurrando

    Aparece a mula-sem-cabeça,

    Bate palmas, a súcia berrando

    - Viva, viva Sra. Condessa!...



    E dançando em redor da fogueira

    Vão girando, girando sem fim;

    Cada qual uma estrofe agoureira

    Vão cantando alternados assim:





    III



    TATURANA



    Dos prazeres de amor as primícias,

    De meu pai entre os braços gozei;

    E de amor as extremas delícias

    Deu-me um filho, que dele gerei.



    Mas se minha fraqueza foi tanta,

    De um convento fui freira professa;

    Onde morte morri de uma santa;

    Vejam lá, que tal foi esta peça.





    GETIRANA



    Por conselhos de um cônego abade

    Dous maridos na cova soquei;

    E depois por amores de um frade

    Ao suplício o abade arrastei.



    Os amantes, a quem despojei,

    Conduzi das desgraças ao cúmulo,

    E alguns filhos, por artes que sei,

    Me caíram do ventre no túmulo.





    GALO-PRETO



    Como frade de um santo convento

    Este gordo toutiço criei;

    E de lindas donzelas um cento

    No altar da luxúria imolei.



    Mas na vida beata de ascético

    Mui contrito rezei, jejuei,

    Té que um dia de ataque apoplético

    Nos abismos do inferno estourei.





    ESQUELETO



    Por fazer aos mortais crua guerra

    Mil fogueiras no mundo ateei;

    Quantos vivos queimei sobre a terra,

    Já eu mesmo contá-los não sei.



    Das severas virtudes monásticas

    Dei no entanto piedosos exemplos;

    E por isso cabeças fantásticas

    Inda me erguem altares e templos.





    MULA-SEM-CABEÇA



    Por um bispo eu morria de amores,

    Que afinal meus extremos pagou;

    Meu marido, fervendo em furores

    De ciúmes, o bispo matou.



    Do consórcio enjoei-me dos laços,

    E ansiosa quis vê-los quebrados,

    Meu marido piquei em pedaços,

    E depois o comi aos bocados.



    Entre galas, veludo e damasco

    Eu vivi, bela e nobre condessa;

    E por fim entre as mãos do carrasco

    Sobre um cepo perdi a cabeça.





    CROCODILO



    Eu fui papa; e aos meus inimigos

    Para o inferno mandei c´um aceno;

    E também por servir aos amigos

    té nas hóstias botava veneno.



    De princesas cruéis e devassas

    Fui na terra constante patrono;

    Por gozar de seus mimos e graças

    Opiei aos maridos sem sono.



    Eu na terra vigário de Cristo,

    Que nas mãos tinha a chave do céu,

    Eis que um dia de um golpe imprevisto

    Nos infernos caí de boléu.





    LOBISOME



    Eu fui rei, e aos vassalos fiéis

    Por chalaça mandava enforcar;

    E sabia por modos cruéis

    As esposas e filhas roubar.



    Do meu reino e de minhas cidades

    O talento e a virtude enxotei;

    De michelas, carrascos e frades

    De meu trono os degraus rodeei.



    Com o sangue e suor de meus povos

    Diverti-me e criei esta pança,

    Para enfim, urros dando e corcovos,

    Vir ao demo servir de pitança.





    RAINHA



    Já no ventre materno fui boa;

    Minha mãe, ao nascer, eu matei;

    E a meu pai, por herdar-lhe a coroa

    Em seu leito co´as mãos esganei.



    Um irmão mais idoso que eu,

    C´uma pedra amarrada ao pescoço,

    Atirado às ocultas morreu

    Afogado no fundo de um poço.



    Em marido nenhum achei jeito;

    Ao primeiro, o qual tinha ciúmes,

    Uma noite co´as colchas do leito

    Abafei para sempre os queixumes.



    Ao segundo, da torre do paço

    Despenhei por me ser desleal;

    Ao terceiro por fim num abraço

    Pelas costas cravei-lhe um punhal.



    Entre a turba de meus servidores

    Recrutei meus amantes de um dia;

    Quem gozava meus régios favores

    Nos abismos do mar se sumia.



    No banquete infernal da luxúria

    Quantos vasos aos lábios chegava,

    Satisfeita aos desejos a fúria,

    Sem piedade depois as quebrava.



    Quem pratica proezas tamanhas

    Cá não veio por fraca e mesquinha,

    E merece por suas façanhas

    Inda mesmo entre vós ser rainha.





    IV



    Do batuque infernal, que não finda,

    Turbilhona o fatal rodopio;

    Mais veloz, mais veloz, mais ainda

    Ferve a dança como um corrupio.



    Mas eis que no mais quente da festa

    Um rebenque estalando se ouviu,

    Galopando através da floresta

    Magro espectro sinistro surgiu.



    Hediondo esqueleto aos arrancos

    Chocalhava nas abas da sela,

    Era a Morte, que vinha de tranco

    Amontoada numa égua amarela.



    O terrível rebenque zunindo

    A nojenta canalha enxotava;

    E à esquerda e à direita zurzindo

    Com voz rouca desta arte bradava:



    “Fora, fora! Esqueletos poentos,

    Lobisomes, e bruxas mirradas!

    Para a cova esses ossos nojentos!

    Para o inferno essas almas danadas!”



    Um estouro rebenta nas selvas,

    Que recendem com cheiro de enxofre;

    E na terra por baixo das relvas

    Toda a súcia sumiu-se de chofre.





    V



    E aos primeiros alhores do dia

    Nem ao menos se viam vestígios

    Da nefanda, asquerosa folia,

    Dessa noite de horrendo prodígios.



    E nos ramos saltavam as aves

    Gorjeando canoros queixumes,

    E brincavam as auras suaves

    Entre as flores colhendo perfumes.



    E na sombra daquele arvoredo,

    Que inda há poucos viu tantos horrores,

    Passeando sozinha e sem medo

    Linda virgem cismava de amores.



    Quem diria que em pleno século XIX, quando muitos poetas brasileiros escreviam poemas rançosos e mofados, com metáforas já gastas e com conceitos pseudo-filosóficos sobre o amor e outros temas, teriamos o surgimento de uma obra assim?

    Achei o poema muito divertido.

    Abração.

    Matheus
     
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