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Literatura e contágio

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por DiegoMP, 7 Fev 2015.

  1. DiegoMP

    DiegoMP Usuário

    Sinto-me inquieto com certa tendência burocrática — a escrita como um “dever a cumprir”, um “trabalho de casa” — que percebo na literatura brasileira contemporânea. Ficções bem feitas, arrematadas com competência, revisadas com afinco — mas vazias. Isso, de fato, me aborrece. Creio que é, antes de tudo, uma deformação de mercado. Autores escrevendo para agradar editores. Para chegar às listas de mais vendidos. Para praticar o tal “estilo internacional”. Na esperança tola de conseguir traduções e adaptações rápidas. Em resumo: para “cumprir tarefa” e exibir depois o título de “competentes”.

    Sempre achei que literatura e competência se excluem. Não é pelo “bem feito” que uma ficção arrebata o leitor. Não se trata de determinação, ou de aplicação. A literatura não tem relação alguma com o bom comportamento. Em contato diário com a produção de hoje, e enquanto fuço minha biblioteca, o azar (a sorte) me leva a Os últimos dias, reunião de textos de Liev Tolstói publicada pela Penguin/Companhia das Letras em 2009. Ainda guiado pelo acaso, abro o livro justamente na página 95, onde está um breve trecho de O que é a arte?, livro que Tolstói publicou em 1896. A tradução é de Anastassia Bytsenko.

    Uma ideia, de imediato, se destaca: a do “contágio”. Sim, não nos aproximamos verdadeiramente de um livro por “aplicação”, mas por “contágio”, defende Tolstói. “Nessa capacidade das pessoas de se contagiar com sentimentos de outras pessoas se fundamenta a ação da arte.” A literatura “bem feita” — como um terno bem cortado — pode preencher nossas expectativas de correção, de elegância e até de vida impecável. Mas simplesmente não arrebata — isto é, não nos arrasta. Arrebatar é nos arrancar com violência de uma certa estagnação. O mundo contemporâneo — veloz, agitado, hiper ativo — tende, porém, à estagnação e ao marasmo. Precisamos da arte (da literatura) para acordar.

    Insiste Tolstói, falando da arte em geral: “No momento em que os espectadores e os ouvintes se contagiam pela mesma sensação que experimentou seu autor — isso é a arte”. Há na arte (na literatura), sim, um movimento de comunicação. Não a troca aplicada, formal e coerente de mensagens objetivas, mas uma troca desregrada de impulsos e de sustos. Novamente: o contágio. Escreve Tolstói: “O principal é que a arte não é o prazer, mas um meio de comunicação que, unindo pessoas pelos mesmos sentimentos, é indispensável para a vida e o progresso de cada indivíduo e de toda a humanidade”. Vejo a literatura como uma espécie de empurrão. Algo nos tira do lugar — eis um livro. Algo nos agita e desassossega. Contudo, a literatura “bem feita” de hoje despreza esses sentimentos radicais. Busca, ao contrário, a competência e o equilíbrio. Quer acertar — ou, pelo menos, não errar. Por isso se torna, tantas vezes, uma literatura escolar. “Para professores” — no sentido em que é escrita para agradar os mestres (editores, críticos, jurados de prêmios literários, etc.).

    Insiste, ainda, Tolstói: “Existe um indício incontestável que distingue a arte verdadeira da falsa — o contágio”. Ou o leitor é contaminado e abalado pelo que lê, ou não lê. A literatura se parece, assim, com uma doença. Que provoca dor, inevitável, desgaste, mas que também nos empurra para a frente. Daí, alerta Tolstói, a necessidade de separar a arte de sua adulteração: “Por mais que esse objeto seja poético, pareça autêntico, impressionante ou interessante, não será uma obra de arte se não despertar no homem aquela sensação muito peculiar de felicidade, de comunhão espiritual com o outro (autor) (…) que contemplam a mesma obra de arte”.

    O contágio não se dá gratuitamente. Sua primeira condição, ele nos diz, é a “necessidade interior”. A sinceridade exigida do escritor é simples: que escreva para si mesmo — e não para as gôndolas das livrarias, ou para as páginas do sucesso. Singularidade, clareza e sinceridade seriam, para Tolstói, princípios essenciais da arte. “Trata-se de três condições cuja presença separa a arte de suas falsificações e, ao mesmo tempo, determina o valor de qualquer obra de arte, a despeito de seu conteúdo.” Pergunto-me, um tanto perplexo, se os autores contemporâneos atribuem algum valor às indicações de Tolstói. Parece que não. Serão, provavelmente, consideradas antigas e sem propósito. Inúteis. Pois eu as releio com entusiasmo e fervor. Continuo a buscar caminhos para me libertar do “congelamento” que define nosso tempo. Muita agitação — para nada. Muitos avanços — para o retrocesso? Muitas novidades — para continuar no mesmo lugar.

    Talvez eu esteja muito pessimista. Ainda assim, a ideia do contágio pode ser muito útil para os escritores contemporâneos. Que deixem de lado seus projetos de sucesso e de aceitação. Que se esqueçam, um pouco, da opinião alheia para pensar em si mesmos. Aprecio os escritores silenciosos, que trabalham serenamente em seus escritos, quietos em seu canto, sem pirotecnias ou estardalhaços. Recentemente, perdemos um escritor — grande poeta — que agia exatamente assim: Manoel de Barros. Por isso talvez, infelizmente, e apesar de sua inegável grandeza, ele tenha sido tão desprezado.

    Autor: José Castello
    Fonte:
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    E aí, concordam, discordam ou muito pelo contrário?
     
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  2. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    Eu não diria que se trata de uma deformação de mercado pois, olhando o que o Bourdieu chama de campo literário, a coisa é isso mesmo (pelo menos considerando da consolidação do campo literário pra cá, que pro Bourdieu se dá em especial no século XIX -- e é uma opinião que em âmbito brasileiro encontra apoio num Antonio Candido):

    Acho legítimo o enfado do autor do texto -- mas como não acompanho a prosa contemporânea, fico sem poder discutir a respeito. Só acentuaria que a proposta dele de estabelecer novos padrões (talvez "estabelecer" seja um termo muito forte, mas não consigo pensar num melhor) pode servir em manter um status quo ou girar apenas um pouco a roda do campo literário. É que o fenômeno literário é heterogêneo. Existem obras artísticas que querem essa inventividade desenfreada, digamos assim, e o fato de ainda quererem ou não não interessa: é verdade que a busca pelo novo, se você lançar vistas largas no século passado, já cansou -- mas é só assim: se você lançar vistas largas, o que é sempre perigoso (perigoso pois joga tudo no mesmo saco, simplifica pontos de partida, propostas literárias, parâmetros críticos etc). E existem também obras que querem um contato mais próximo possível com os excessos do contemporâneo. No âmbito poético seria o caso da poesia conceitual, que precisa desse embate corpo a corpo com os materiais mais perecíveis que nos rodeiam: o Kenneth Goldsmith, por exemplo, no Day, remaneja a edição 2000 do New York Times e a imprime num livro de mais de 800 páginas.

    Então volta aquilo de querer colocar tudo isso num só saco. Isso cerceia não só no sentido de você passar a ver como aceitável apenas algumas linhas de produção literária, como também de produção crítica: o autor citou Manoel de Barros como poeta distante do espalhafato e da pirotecnia gratuita, mas a poesia do Manoel de Barros está diretamente ligada ao veio surrealista que, bem..., é caracterizado por muitos como pirotecnia e espalhafato gratuitos. Seria mesmo tão isenta de espalhafatos e pirotecnias uma literatura que diz que poesia é voar fora da asa? Ou ele não está dizendo que se trata de uma poesia ausente de espalhafatos e pirotecnias... porque está distante de propósitos mercadológicos? Além, claro, de que o fato de que o desinteresse mercadológico ou crítico de alguns artistas não quer dizer que ele não possa ser precisamente convertido em interesse mercadológico ou crítico: o próprio Bourdieu (só que mais no livro As regras da arte) afirma que o desinteresse é uma forma de interesse (ela ajuda a fechar o ciclo da distinção cultural -- convertida, por sua vez, em capital simbólico que, mais do que poder se converter em $$$, se estabelece como paradigma). E, se você for parar pra analisar, a literatura espalhafatosa e de pirotecnias é uma literatura que se quer desinteressada -- a raiz dela (arte vanguardista) está na arte pura, ora essa. Sabemos que a vanguarda já está meio que institucionalizada, mas a aversão mercadológica ou crítica, combinada com isso de escrever pra si mesmo, também estão (combinando um e outro você chega basicamente à equação romântica...).

    Então minha opinião é a de que pode até ser que a queixa do autor proceda. Mas acho perigoso quando ele aponta um outro caminho que, se tomado apenas nas suas diretrizes gerais e fincado em cima de uma visão homogeneizadora do fenômeno literário, acaba dando na mesma. Acho muito melhor que observemos a heterogeneidade das propostas de um dado tempo e que, esmiuçando, imergindo nelas, e não simplesmente pressupondo um conluio (ou mesmo pondo esse conluio como critério definidor -- afinal de contas, se o artista só quiser chocar ou se vender ao mercado, isso não é "prova" de sua má-qualidade [entre aspas pois não acredito em provas quando o assunto é crítica]), façamos nossos juízos críticos.
     
    Última edição: 7 Fev 2015
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