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Ó dúvida cruel (tópico em que a gente se ajuda a interpretar livros)

Mellime

ahlalalalalala
Usuário Premium
Olá minhas caras leitoras e leitores,

Em especial aqueles que são perseguidos, assolados, assombrados por dúvidas cruéis que surgem como um parasita durante uma leitura e que décadas depois ainda estão lá porque ninguém conseguiu te responder...


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Estava eu aqui relembrando um causo de quando eu estava no ensino médio, 16 anos atrás, e tive que ler Iracema de José de Alencar.

Sim, aquele livro em que a protagonista é chamada o tempo todo de virgem dos lábios de mel, virgem disso, virgem daquilo pelo narrador. Lá pelas tantas Iracema resolve que cansou de ser virgem e... Páginas depois de o próprio narrador admitir que ela não era mais virgem, segue se referindo a ela mais como "a virgem" do que como Iracema.

Eu perguntei isso ao professor de literatura e ele me respondeu: é porque para o narrador ela ainda se sentia virgem, ela ainda não tinha tido tempo de "mudar". Tipo um resquício de inocência ou algo do tipo. Como no Harry Potter quando a pessoa não vê thestrals imediatamente depois de ver alguém morrer porque tem que esperar "cair a ficha" (mas na real a explicação é que a autora achou que ficaria confuso demais introduzir esse assunto no final do livro IV) (ou nem sequer tinha tido a ideia ainda quando lançou o livro IV e ficou só inventando desculpa) (divago).

Outro professor de literatura me respondeu, impaciente: o José de Alencar decerto não prestou atenção e não revisou, foi um lapso.

Essas respostas foram muito frustrantes.

Lembrei disso recentemente porque uma amiga mencionou o livro Iracema esses dias. Pensei: em 2007 não tinha tanto conteúdo na Internet como hoje! Agora vou enfim encontrar a resposta da minha pergunta!

... Até agora não encontrei ainda 😭



Mas este tópico não se limita à minha dúvida sobre Iracema.

Ele é direcionado a qualquer dúvida literária que não entre na area Tolkien, suponho.

Às vezes pode ser alguma dúvida sem nenhuma resposta objetiva, uma questão de interpretação mesmo. Claro que a clássica pergunta "Capitu traiu ou não traiu?" já tem mais de um tópico por aqui. Mas para varios outros casos não faria sentido criar todo um tópico para fazer uma pergunta - nem toda dúvida literária marca gerações e gerações, como foi o caso da (in)fidelidade de Capitu.


Este tópico é especialmente para os detallistas, os que veem pelo em ovo, aqueles que precisaammmm entendeeeerrrrr seus livros, revirar cada pedra ou morrer tentando!

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(P. S. talvez um tópico desses fosse bom não só livros para para tudo! Eu queria perguntar como cada um interpreta um determinado clipe de música. Pode falar disso aqui, moderação? 😅)
 
Quando eu ler, te respondo.
:hihihi:

Sim, fui um aluno relapso com as leituras obrigatórias na faculdade e estou devendo muitos clássicos pra mim mesmo. Ou seja: não posso te ajudar senão com meu apoio moral, não te deixando aqui no vácuo. :*
 
Mas assim, arriscando palpite:
Com certeza não foi descuido do autor (wtf).
Mais provável é que virgem aí tenha sentido figurado. Nem acho que soaria muito poético ficar declarando a todo momento que a mulher é cabaço.
 
Se chamam a a Maria de virgem até com filho crescido e barbado, que mal tem chamar a Iracema assim.
 
Em latim, virgo nem sempre designava uma mulher que nunca transou na vida; era muito usado como sinônimo de garota. Acredito que essa seja a explicação mais simples.

Penso que duas outras podem ser dadas também:
  • A virgindade em Iracema não é só física. O subtítulo "Lenda do Ceará" deixa claro que o livro descreve um espaço físico imaginário mas também um espaço simbólico. Um exemplo muito apontado é o de Iracema e Martim enquanto símbolos da América e da guerra colonizadora;
  • Alencar está usando um recurso típico da poesia épica tradicional: os epitetos, isto é, apelidos recorrentes de um personagem. Iracema é virgem mesmo quando não continue mais virgem de fato, pois ser virgem é algo que pertence à ordem da memória coletiva. É como todos se lembram delas e é como o narrador fala a seu respeito.
 
Amei o tópico, Mandy!

Eu vim apresentar a minha hipótese sobre a sua dúvida, mas é a mesma que a do Mavz. Como já estou aqui, vou falar do mesmo jeito.

Voltemos, pois, às aulas de literatura do Ensino Médio — aulas que não tive, porque os estilos de época foram mal e parcamente ensinados pelos meus professores — e falemos o básico: Iracema se trata, metaforicamente, do nascimento do Brasil, a partir da junção do europeu, metonimicamente presente na figura de Martin, e do povo indígena, do qual Iracema se faz metonímia.

Uma das figuras de linguagem que melhor define o estilo de escrita de José de Alencar no livro em questão é a Símile. Fica muito claro — ou eu acho que isso por ser professora? — que, ao longo do livro, Iracema é comparada à Natureza. E não se trata de qualquer natureza, e não se trata de qualquer Iracema. Trata-se de uma Natureza específica: selvagem e virgem, aquela invadida pelo europeu, aquela conhecida por seus mistérios, por seus segredos. Trata-se da Iracema que guarda o segredo da jurema. Esta é a Iracema que é a virgem dos lábios de mel.

E, aqui, entramos em outras das características do nosso querido autor indianista: José de Alencar é muito conhecido pelo uso dos adjetivos. Epíteto é um adjetivo-substantivo. O adjetivo dá uma característica ao substantivo, não é? Então, muitas vezes, a pessoa passa a ser chamada por essa característica por toda a vida. Aquiles, por exemplo, em A Ilíada, é chamado de O Melhor dos Aqueus, e todo o mundo sabe de quem se trata. Mesmo depois de sua morte, esse epíteto não deixa de pertencer a ele. Existem muitos Aquiles, mas não existe nenhum outro que recebera esse epíteto (elogio).

Por isso, mesmo quando a Iracema perde o mel e fica apenas com os lábios, ela continha sendo a virgem dos lábios de mel. Pode haver outras Iracemas, mas nunca esta, nunca a Iracema que deu origem ao Brasil, porque esta recebeu o epíteto de A virgem dos lábios de mel. E, como como estamos falando do efeito de verossimilhança, agora, vou além na minha interpretação. Assumimos que Iracema e a Natureza são equiparadas por intermédio da Símile, não assumimos? Logo, assumimos, também, que a Natureza, sofre as dores da invasão do europeu, assim como a Iracema sofre as dores do parto. Não por acaso, Moacir — fruto do rala e rola entre a indígena e Martin — significa filho da dor.

O Brasil já nasce em um cenário de dor. E uma das cenas mais lindas do livro se dá quando Iracema alimenta o filho e há um misto de sangue e leite, isto é, morte e vida. Para que o primeiro brasileiro e, por conseguinte, o Brasil como o conhecemos, nascesse, foi necessário que houvesse sangue, morte. Como eu disse, cheguei no ponto em que eu faço a minha interpretação muito particular: há, nesse ponto, uma renovação do ciclo. A Natureza, antes desvirginada, renasce, intacta, e Virgem, Imaculada, não ferida, Intocada, e cheia de perspectiva, na figura de Moacir. É uma vida nova, ainda é algo novo. Em Moacir, sempre viverá a Iracema. Não qualquer Iracema, mas a virgem dos lábios de mel.​
 
Olá minhas caras leitoras e leitores,

Em especial aqueles que são perseguidos, assolados, assombrados por dúvidas cruéis que surgem como um parasita durante uma leitura e que décadas depois ainda estão lá porque ninguém conseguiu te responder...


Ver anexo 97702



Estava eu aqui relembrando um causo de quando eu estava no ensino médio, 16 anos atrás, e tive que ler Iracema de José de Alencar.

Sim, aquele livro em que a protagonista é chamada o tempo todo de virgem dos lábios de mel, virgem disso, virgem daquilo pelo narrador. Lá pelas tantas Iracema resolve que cansou de ser virgem e... Páginas depois de o próprio narrador admitir que ela não era mais virgem, segue se referindo a ela mais como "a virgem" do que como Iracema.

Eu perguntei isso ao professor de literatura e ele me respondeu: é porque para o narrador ela ainda se sentia virgem, ela ainda não tinha tido tempo de "mudar". Tipo um resquício de inocência ou algo do tipo. Como no Harry Potter quando a pessoa não vê thestrals imediatamente depois de ver alguém morrer porque tem que esperar "cair a ficha" (mas na real a explicação é que a autora achou que ficaria confuso demais introduzir esse assunto no final do livro IV) (ou nem sequer tinha tido a ideia ainda quando lançou o livro IV e ficou só inventando desculpa) (divago).

Outro professor de literatura me respondeu, impaciente: o José de Alencar decerto não prestou atenção e não revisou, foi um lapso.

Essas respostas foram muito frustrantes.

Lembrei disso recentemente porque uma amiga mencionou o livro Iracema esses dias. Pensei: em 2007 não tinha tanto conteúdo na Internet como hoje! Agora vou enfim encontrar a resposta da minha pergunta!

... Até agora não encontrei ainda 😭



Mas este tópico não se limita à minha dúvida sobre Iracema.

Ele é direcionado a qualquer dúvida literária que não entre na area Tolkien, suponho.

Às vezes pode ser alguma dúvida sem nenhuma resposta objetiva, uma questão de interpretação mesmo. Claro que a clássica pergunta "Capitu traiu ou não traiu?" já tem mais de um tópico por aqui. Mas para varios outros casos não faria sentido criar todo um tópico para fazer uma pergunta - nem toda dúvida literária marca gerações e gerações, como foi o caso da (in)fidelidade de Capitu.


Este tópico é especialmente para os detallistas, os que veem pelo em ovo, aqueles que precisaammmm entendeeeerrrrr seus livros, revirar cada pedra ou morrer tentando!

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(P. S. talvez um tópico desses fosse bom não só livros para para tudo! Eu queria perguntar como cada um interpreta um determinado clipe de música. Pode falar disso aqui, moderação? 😅)
Sobre Iracema, a única lembrança que eu tenho sobre esse livro: uma vez eu fui com uma colega da escola numa loja de tecido atrás de alguém que desenhasse um croqui pra uma roupa indígena feminina e o cara - claramente gay - disse "É a Iracema, né? Eu nem sei porque chamam ela de virgem dos lábios de mel se ela nem escovava os dentes.". Pretendo ler Iracema com mais atenção um dia.
 

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