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Cinco Livros Favoritos com Mercúcio [2.0]

Melian

Período composto por insubordinação.
Nove anos depois de sua primeira participação no Cinco Livros Favoritos, Mercúcio nos presenteia com uma senhora lista! Não se pode dizer menos de uma seleção que conta com preciosidades como: Grande Sertão: Veredas e Cem anos de solidão. É uma lista para aquecer o coração dos latino-americanos, condenados à solidão proveniente de um ininterrupto processo de opressão, saqueio e abandono. É uma lista que, como as anteriores, apresenta-nos os meandros da personalidade de quem a construiu. É impossível olharmos para os livros selecionados sem pensarmos no Mercúcio historiador; preocupado com a construção de um mundo justo; em busca do aprimoramento da espiritualidade e, também, como fã inveterado de Nélida Piñon e Lygia Fagundes Telles. A literatura é essa coisa maravilhosa que nos permite conhecer melhor as nossas próprias veredas e, mais do que isso, ela nos permite dar um giro de 360º em nossas vidas. Por isso, peço vênia para parafrasear Nietzsche: sem a literatura, a vida seria um erro.
1. Os Miseráveis (Victor Hugo)

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Aviso: não sei ser comedido ao falar desse livro.
É, de longe, o meu livro preferido da vida; o livro que mais me marcou e que passou até mesmo a integrar a minha visão de mundo. E, para além de uma dimensão afetiva, para além de uma dimensão filosófica, do sentido político e da crítica social subjacente, a obra tem também, ao menos para mim, uma forte dimensão espiritual. Nenhum texto religioso que eu tenha lido conseguiu me fazer sentir tão perto do Divino como este romance. Foi uma leitura de fascínio, de assombro, e foi também um tanto catártica — dos poucos livros que me fizeram chorar. É aquele livro que eu sempre pego na estante pra matar a saudade, pra reler as passagens que eu marquei e rever as anotações que fiz no canto das páginas. O Hugo é um escritor que eu venero, é a sensibilidade social aliada a uma erudição realmente monstruosa, no melhor dos sentidos.
Eu adoro até mesmo as longas digressões do narrador (sobre o campo de batalha de Waterloo; sobre os esgotos de Paris; sobre as gírias do moleque de Paris...), embora entenda que muita gente considere essas passagens cansativas. Tenho uma relação afetiva forte com Os Miseráveis.

Qualquer obra que traga um painel histórico bem feito tem boas chances de me cativar. Mas aqui eu preciso fazer um registro sobre a edição em que li: aquele boxzinho da Cosac Naify, com dois tomos. Cara, eu me lembro de ter xingado muito quando comprei essa edição, porque achava a qualidade do material bastante vagabunda pra um livro de mais de 120 reais (lembrando que 120 reais em 2014 era bem mais que 120 reais hoje, embora o valor nominal ainda designe o que eu chamo de “livro caro”). Fui obrigado a morder a língua. Essa edição da Cosac é a melhor referência que eu tenho hoje de uma edição bem feita! Tem umas oitocentas notas de rodapé (não me lembro o número exato), com um padrão elevadíssimo e traz um excelente texto de apresentação, assinado pelo Renato Janine Ribeiro. Fez toda a diferença ter lido nessa edição. A sensação ao final era a de que eu tinha tido quase que um curso de história da França da primeira metade do oitocentos.

Um comentário lateral: Javert é um dos meus antagonistas preferidos.​
2. Cien Años de Soledad (Gabriel García Márquez)
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Tinha a expectativa de que se havia um livro que, pela sua monumentalidade, pudesse rivalizar com o significado que Os Miseráveis teve para mim, esse livro seria Guerra e Paz, do Tolstói. Não chegou nem perto.

O livro que chegou mais perto — e esse mais perto, ainda assim, é um “perto-longe” — foi Cem Anos de Solidão, do Gabriel García Márquez. Coloquei o título em espanhol porque li o livro na edição da ‎Vintage Books USA, em espanhol. Eu então já havia tido um primeiro contato com o Gabo através de O Amor nos Tempos do Cólera, numa tradução para o português, e queria ter acesso ao texto original do autor. Coincidiu com uma época em que eu estava dedicado ao aprendizado do idioma.

No meu ranking afetivo, é este livro o meu nº 2. E aqui por motivos que não dialogam tanto com os motivos alinhavados para Os Miseráveis. Cem Anos entra na lista porque é o exemplo maior que eu conheço de uma Imaginação Poderosa, superior, absolutamente magnética, arrebatadora. O Gabo é um puta contador de histórias, e o seu texto me fez mergulhar de cabeça em Macondo. A cada momento que algo de inexplicável sucedia na narrativa, eu ficava absolutamente boquiaberto, me perguntando como caralhos esse cara conseguiu imaginar isso.

Se Guerra e Paz não atendeu às minhas expectativas, Cem Anos de Solidão explodiu as que eu tinha, transcendeu e foi muito, muito além do que eu esperava - e ressalto: eu esperava muito desse livro. É um livro que vou querer reler muitas vezes.​
3. Grande Sertão: Veredas (João Guimarães Rosa)
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Durante muito tempo, tive esta dúvida, e Gabo e Guimarães Rosa se estapearam nesse meu ranking afetivo de leituras pra ver quem ficava melhor colocado. Ficou sendo o meu nº 3, mas é um quase empate com o meu nº 2.

Grande Sertão: Veredas foi um livro que, durante muito tempo, me intimidou. Até que ele venceu uma eleição no Clube e eu fui obrigado a encará-lo.

A linguagem, o aspecto formal, a estética da narrativa, por si só já eleva esse livro a um outro patamar. Mas há muito mais em Grande Sertão: Veredas. O enredo é maravilhoso e cheio de significados. Cara, que absurdo é esse livro! Com a modesta amostragem que eu tenho, nas minhas leituras, e do alto da minha ninguendade*, eu considero o Guimarães Rosa o maior dos escritores brasileiros.

De fato, não se acostuma de cara com o texto do escritor. Foram precisas algumas dezenas de páginas para que a leitura começasse a fluir melhor. Pra mim, a experiência de leitura foi análoga a uma escavação arqueológica. Você tem a superfície da narrativa, mas, pouco a pouco, munido de um pincel, com sutileza, você vai descobrindo novas camadas de sentidos subjacentes, novas teias de complexidade, sentidos filosóficos, questões existenciais. Os textos de apoio, que compõem a edição da Companhia das Letras que tenho aqui, assim como as discussões com o pessoal do Clube de Leitura Travessia, me ajudaram muito nesse relativo aprofundamento. E, mesmo assim, eu sinto que ainda há muito a aprofundar, que essa “escavação” ainda é capaz de revelar novas nuanças e significados. Digamos que o livro como que te desafia a uma futura releitura.

Para coroar essa experiência de leitura, como já relatei em outras partes desse fórum, fizemos uma viagem a Cordisburgo-MG, terra do Guimarães Rosa. Tivemos uma das nossas reuniões de discussão de leitura literalmente no quintal da casa em que viveu o escritor na infância, hoje um museu dedicado à sua vida e obra. Isso agregou um sentido quase místico à leitura e trouxe o escritor pra mais perto da gente. Aliás, recomendo muito que visitem o museu Casa de Guimarães Rosa. Para além do museu, andar por Cordisburgo-MG é tropeçar em referências à vida e à obra do escritor a cada 50 metros. E, à parte isso, é uma delícia de cidade pequena mineira.

Foi minha melhor leitura em 2019.​
4. A República dos Sonhos (Nélida Piñon)
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Já rasguei elogios a esse livro em outros tópicos desse fórum de literatura. Então, acho que muitos de vocês já esperavam que ele figurasse na minha lista. Foi o meu primeiro contato com a obra de Nélida Piñon e, conforme escrevi em outras partes, terminei a leitura completamente rendido ao gênio da escritora. Foi minha melhor leitura de 2020, e é o nº 4 no meu ranking afetivo.

Na edição em que li — aquela edição comemorativa de 30 anos da publicação do Romance — tem um puta prefácio foda, assinado pelo Alberto Mussa, no qual o escritor aponta A República dos Sonhos como um “romance perfeito”, um “romance total” e como um dos textos seminais da cultura ocidental. O Mussa é um cara realmente muito inteligente, e penso que a Record acertou em cheio ao trazê-lo para escrever esse texto, que efetivamente prepara o leitor para o livro.

O romance narra a saga de Madruga, um imigrante que, no início do século XX, com apenas 13 anos de idade, foge da Galícia, decidido a fazer fortuna e deitar raízes no Brasil. Na travessia atlântica, conhece o misterioso Venâncio, que se tornará seu amigo e companheiro na aventura americana, ao longo de toda a vida. Com o passar dos anos, enquanto Madruga se casa e constitui família, seus filhos e netos vão consolidando o estabelecimento da família em terras brasileiras, e o leitor, a partir do espaço orbital dessa família, se vê conduzido ao longo da história do Brasil do século XX. A modernização do Rio de Janeiro, a condição do imigrante europeu, a questão racial, as estruturas da República Velha, a Revolução de 1930, a Era Vargas, a ditadura estadonovista, a Segunda Guerra Mundial e a queda de Getúlio; as perspectivas desenvolvimentistas dos anos Juscelino, a tensão dos anos Jango, a ditadura militar, as perseguições políticas, a tortura, os exilados, etcéteras a perder de vista. Para completar, as raízes que ligam os personagens à Espanha também nos situa em face de um dramático processo histórico transcorrido no Velho Mundo: a Guerra Civil Espanhola e o advento do franquismo.

A par da tessitura dos contextos, os temas perpassados em A República dos Sonhos também são diversos: a dimensão da ancestralidade, o espaço das lendas e das narrativas míticas e seu sentido aglutinador, no que respeita à construção de uma identidade nacional; o estatuto social da mulher — da mulher negra, inclusive; a sexualidade e, em particular, a sexualidade feminina em face de um contexto que a oprime. Em verdade, trata-se de um romance multidimensional e a percepção dessa multidimensionalidade é reforçada pelas escolhas narrativas da autora, que torce completamente a cronologia, transitando a todo momento entre o passado e o futuro (a narrativa não é linear!), num fluxo quase desconcertante, embora tremendamente arrebatador, conduzido por três vozes narrativas que se alternam — duas delas em primeira pessoa (a narrativa de Madruga, o patriarca da família, e a de sua neta, Breta) e uma, impessoal, em terceira pessoa. Ler A República dos Sonhos é uma surpresa a cada capítulo, a cada parágrafo, porque você nunca sabe em que ponto da linha do tempo você está até que o narrador da vez te dê os elementos para se situar. É um livro para ser lido e apreciado sem pressa.

Para mim, A República dos Sonhos é dessas obras que geram, como efeito reflexo, um certo encantamento pela vida, pelas histórias, pela efemeridade do humano - inclusive no que diz respeito à sua dimensão trágica. Um livraço, que, a meu ver, infelizmente, é muito menos lido e muito menos valorizado do que mereceria.

Por fim, destaco também a maneira atenciosa como a escritora, tomando conhecimento dos comentários despretensiosos que fiz a propósito de seus livros, nas minhas redes sociais, reagiu às minhas impressões. Comentou os meus posts, entrou em contato comigo — inclusive, agendando uma conversa por telefone. Me senti realmente abraçado pela escritora e só fez crescer a minha admiração por ela.​
5. Verão no Aquário (Lygia Fagundes Telles)
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Neste ponto, eu quebro o critério que guiou as minhas escolhas anteriores. Todos os livros anteriores são realmente os meus 4 livros preferidos [até aqui]. Mas eu realmente não sei indicar qual seria o quinto livro nesse ranking. Por isso, decidi deslocar o foco para a escritora, e não para a obra em si. Tenho muito carinho pela obra da Lygia Fagundes Telles, e queria mesmo que ela figurasse nessa lista.

Lygia representa a minha porta de entrada para o conto — um gênero que apenas começo a explorar. Entre os seus livros de contos, os meus favoritos (até agora) são Seminário dos Ratos e A Noite Escura e mais Eu — ficam, desde já, como menções honrosas. Mas decidi escolher um de seus romances, apenas para ficar coerente com o restante da lista.

Lygia escreveu apenas quatro romances e eu decidi indicar Verão no Aquário, em parte, porque ele não é a escolha óbvia. Li em algum lugar que a própria Lygia chegou a cogitar a ideia de impedir que o livro fosse reeditado, porque é um romance que ficou muito na sombra de livros como As Meninas ou Ciranda de Pedra. Qualquer um desses dois, a meu ver, seriam as escolhas óbvias.

Mas escolhi Verão no Aquário também porque, dos romances de Lygia (eu li os quatro), ele é, mesmo, o meu preferido, seguido, de muito perto, por As Meninas.

O livro retrata um drama familiar: a relação tumultuada entre Raíza — narradora-personagem cheia de ambiguidades, carências, indefinições; órfã de pai alcóolatra, pianista frustrada, entregue a uma vida dissoluta e a uma conduta, sob muitos aspectos, autodestrutiva; no sexo, nas drogas, nos relacionamentos em geral — e sua mãe, a distante e inatingível Patrícia, escritora reconhecida, por quem a filha tem uma espécie de amarga rivalidade. A coisa se complexifica com a presença de André, um jovem e problemático seminarista em crise, consumido pela dúvida quanto à sua vocação, que arrasta a relação mãe e filha para uma tensa triangulação: Raíza acha que André e Patrícia são amantes e, talvez, inconscientemente guiada pela rivalidade que sente pela mãe, apaixona-se (ou acredita-se apaixonada) por ele.

Como é recorrente na literatura de Lygia, os personagens de Verão no Aquário são trágicos. E a condução dada pela escritora tem uma certa inclinação para a crueza das coisas. Seu texto é quase cruel, como a escancarar que a vida fora do ambiente protegido do aquário doméstico, se por um lado convive com a beleza do mar, também deve suportar a sua fúria. É um baita livro!​

Mercúcio disse:
___________
Menções honrosas, além das citadas no texto acima: Gabriela, Cravo e Canela (Jorge Amado); Meu Pé de Laranja Lima (José Mauro de Vasconcellos); O Sol é Para Todos (Harper Lee); 1984 (George Orwell); Grandes Esperanças (Charles Dickens); Um Conto de Natal (Charles Dickens); Os Três Mosqueteiros (Alexandre Dumas... este, inclusive, entrou na minha primeira lista); e vou parar por aqui. :dente:


*Nota da Melian: Chamou Darcy Ribeiro para o boteco. Amei! Eu realmente adoro essa ideia de que, a partir da constituição híbrida do povo brasileiro, somos, em todos os tempos, protótipos de ninguéns em busca de se tornarem alguéns. :issoaih:
 

Anexos

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Béla van Tesma

I’m hoping to do some good in the world!
Que listinha soberba :clap:
Ainda bem que o Mercúcio escreveu mais do que eu; assim não preciso me sentir constrangido. :timido:

Desses aí só li mesmo o Cem Anos de Solidão, que dei um jeito de incluir também na minha lista, como menção honrosa. Talvez depois da releitura ele consiga figurar no Top5. Vamos ver. É um livrinho poderoso mesmo.
 

Fúria da cidade

ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ
De todas as listas com menções honrosas inclusas, é disparada a que tem mais títulos e/ou autores que li. Muito boa! :)

Quando estive pra escolher o meu título marcante da infância Meu pé de Laranja Lima era o outro "finalista" que por muito pouco não escolhi.
 

Níra

Usuário
Bela lista. Dela, só li o Grande Sertão: Veredas - aliás, a descrição que o Mercucio fez do processo da leitura, comparando com uma "escavação arqueológica", foi mais ou menos o que senti ao ler também; e é uma tática que se encontra no outro do Guimarães que li, Sagarana, apesar de lá a costura se dar entre os contos..

Ah, e, digamos, de certa forma também li Os Miseráveis :dente:
 

Finarfin

Usuário
Cem Anos está na minha lista também. Então deixo meu comentário para lá (mas já adianto que está bem mais sucinto que o do Mercúcio)

Ainda não tive coragem de encarar os Miseráveis. Tenho uma edição da Penguin em inglês, mas não gosto de ler em inglês quando a língua original é outra (a não ser que seja algo que não exista tradução para o português). O dia que eu botar mão numa versão em português eu leio.
Do Victor Hugo, só li O Corcunda de Notre Dame e, apesar de ter gostado, confesso que achei cansativo. Isso fez com que eu não me apressasse em ler os miseráveis.

O Grande Sertão: Veredas também me faltou coragem de encarar. Gosto muito o Guimarães Rosa, mas não é sempre que consigo lê-lo. Depende muito do meu estado no memento. Tem época que flui muito bem, mas também tem época em que não consigo nem começar. Tenho outros livros dele em casa, alguns já lidos e outras na fila, mas como esse não tenho, vai ficando sempre pra depois.

Nunca li nada da Nélida Piñon, mas seus comentários sobre ela (aqui em outros tópicos) me motivam bastante a lê-la.

A Lygia comecei a ler há pouco tempo, cerca de 2 anos acho, e de tempos em tempos incluo algo dela nas minhas leituras, e tenho gostado bastante. Esse da sua lista não conheço, mas vou pegar a indicação.
 

Loveless

J'ai une âme solitaire
Usuário Premium
Certamente o Mercúcio é um dos maiores disseminadores da obra da Nélida de toda a internet. Aliás, hoje saiu um vídeo da Feltrin sobre República dos Sonhos que deve levar a autora a um público mais amplo e diversificado, que até o momento não a conhece. Ainda não assisti ao vídeo, mas acho que ela deve falar bem sobre o livro. Espero que ajude a formar novos leitores.

Sobre as observações sobre Guerra e Paz: sigo o relator. É um livro ok, mas deveras superestimado. Ao invés de ler uma obra magnífica e grandiosa, li um livro razoável e cansativo. Estou pensando em relê-lo ano que vem, já que o li há uns dez anos, e minhas percepções sobre o livro poderão mudar com a nova leitura, da mesma forma que mudei como pessoa. Mas a preguiça de ler um livro de mil e tantas páginas que não gostei ainda é grande. Veremos.
 

Melian

Período composto por insubordinação.
Após todos os comentários que o migo Mercúcio fez sobre A República dos Sonhos, tanto no fórum quanto no Instagram, já coloquei o livro na lista de "um dia, lerei". Até hoje, nunca me decepcionei com o que li da Nélida Piñon. Quanto à Lygia Fagundes Telles, não tem jeito: o maior impacto que sua literatura me causou foi com Antes do Baile Verde. A sensação que senti, ao ler o referido livro, foi única.

Acho muito pertinente para o debate a interpretação de Os Miseráveis feita pelo Mercúcio, quando ele diz que, de certo modo, trata-se de um "encontro com o Divino". Não sei se compartilho dessa ideia por, também eu, ter um histórico com a ideia de um Ser Supremo e suas manifestações; pode ser que seja, mas acho que vai além. Acredito que toda a elaboração estética da obra nos conduz para essa interpretação.

Grande Sertão: Veredas, mais do que ser uma obra de travessia, é uma obra que nos atravessa, nos transpassa, e nos confunde. Quanto mais eu penso que entendo o que Guimarães Rosa fez nesta obra-prima, mais confusa eu fico. Deve ser por isso que cismei que preciso reler o livro. Bora lá, gente! E como eu adoro me embrenhar numa confusão! Fico feito detetive, caçando pistas para descobrir que, ao fim e ao cabo, todas as pistas estavam erradas, porque esse é o único jeito possível de ler uma obra em que tudo é e não é.

É impossível não ser profundamente afetado pela leitura de Cem anos de solidão. É como se o Gabo botasse um bolo, enorme, com o formato da América Latina, na mesa, e dissesse: fique à vontade, pegue sua fatia de solidão e deixe que as lágrimas da angústia acompanhem a degustação do bolo. Será uma experiência dolorosa, linda, mágica e necessária.
 

Meneldur

We are infinite.
Usuário Premium
Vergonhosamente, da lista só li Os miseráveis. Também acho um livro ótimo, mas nunca tenho a coragem de reler (também, uma porreta daquelas né). Cem anos de solidão eu comecei, mas foi na época que comecei a facul, saí de casa a primeira vez, aí acabei parado, mas quero reler.

O da Nélida eu tô com vontade tem uns tempos, de tanta propaganda do @Mercúcio .

Quanto às menções, eu li o 1984, Os Três Mosqueteiros, e gostei muito. E o Conto de Natal e o Grandes Esperanças, que eu acho de longe o melhor do Dickens.
 

Mercúcio

Usuário
Obrigado pela generosidade do textinho de introdução à lista, @Melian ( :abraco: ). E adorei que você pegou a referência ao Darcy. haha

Que listinha soberba :clap:
Ainda bem que o Mercúcio escreveu mais do que eu; assim não preciso me sentir constrangido. :timido:

Cara, tamo junto! hahaha
Eu ainda cortei muita coisa, porque achei que tinha ficado excessivo. No fim, mandei mensagem pra @Melian meio que me desculpando porque prolixidade é um mal de que sofro e que, caso ela julgasse necessário, eu podia tentar fazer uma versão mais sintética. Graças a Deus ela disse que não precisava. Obrigado, Melian! :lol:

De todas as listas com menções honrosas inclusas, é disparada a que tem mais títulos e/ou autores que li. Muito boa! :)

Quando estive pra escolher o meu título marcante da infância Meu pé de Laranja Lima era o outro "finalista" que por muito pouco não escolhi.

Valeu, @Fúria da cidade !! :cerva:
Cara, Meu Pé de Laranja Lima é lindo demais. Eu não tive a felicidade de lê-lo na infância. Faz apenas dois anos que li e foi uma porrada, outro que me fez chorar. Ainda preciso ir atrás de mais coisas do autor. Não li nenhum outro livro dele.

Ah, e, digamos, de certa forma também li Os Miseráveis:dente:

:lol:
Tem muitas versões adaptadas, né?
Lembro que a Isabela Lubrano, do canal Ler Antes de Morrer, leu uma dessas edições de Os Miseráveis achando que era o texto integral. E não era.

Ainda não tive coragem de encarar os Miseráveis. Tenho uma edição da Penguin em inglês, mas não gosto de ler em inglês quando a língua original é outra (a não ser que seja algo que não exista tradução para o português). O dia que eu botar mão numa versão em português eu leio.
Do Victor Hugo, só li O Corcunda de Notre Dame e, apesar de ter gostado, confesso que achei cansativo. Isso fez com que eu não me apressasse em ler os miseráveis.

Então, O Corcunda de Notre Dame é um texto da juventude do Hugo. Embora eu considere um belo livro, eu concordo com você: ele tem umas passagens bastante cansativas mesmo. Mas Os Miseráveis é um texto da madurez do Hugo. É outro escritor, inclusive no que diz respeito às suas convicções políticas e filosóficas. O Hugo de Notre Dame era um católico realista; o Hugo de Os Miseráveis, é um liberal progressista exilado, flertando com o Espiritismo, e que acha, por exemplo, que a vida monástica é uma excrescência, que violenta a própria natureza humana.

E fico feliz que tenha se interessado por ler A República dos Sonhos e Verão no Aquário. :cerva:

É impressionante ver as listas do pessoal do fórum; aqui tem mesmo uns leitores bem cultos.

Valeu pelo elogio, @Giuseppe .
Não que eu ache que o mereça ( :timido: ) , mas tenho que comentar que foi, em parte, este fórum de literatura da Valinor que me motivou e ainda me motiva a abrir mais o leque de leituras. Comentei em outro tópico que frequentar essa área do fórum, alguns anos atrás, fazia com que eu me sentisse tremendamente inculto e sem referências. Tem muita gente foda aqui na Valinor e tem muita coisa que li por influência de vocês.

Porque Tolkien foi o autor que definiu o meu nicho de interesse na juventude, bastante fanboy. Depois, vieram as leituras da graduação e do mestrado, quando a literatura praticamente saiu do cardápio. Então, quando concluí o mestrado, eu sentia que tinha um déficit de formação cultural nessa área e, em parte por isso, criei, com amigos, um clube de leitura, ali por volta de 2014, focado na leitura de clássicos. O clube está ativo até hoje (virou Clube de Leitura Travessia, depois que passamos pelo Guimarães Rosa). Hoje estamos ampliando um pouco mais o escopo do clube, para incluir obras que não são exatamente canônicas.


Após todos os comentários que o migo Mercúcio fez sobre A República dos Sonhos, tanto no fórum quanto no Instagram, já coloquei o livro na lista de "um dia, lerei". Até hoje, nunca me decepcionei com o que li da Nélida Piñon. Quanto à Lygia Fagundes Telles, não tem jeito: o maior impacto que sua literatura me causou foi com Antes do Baile Verde. A sensação que senti, ao ler o referido livro, foi única.

Acho muito pertinente para o debate a interpretação de Os Miseráveis feita pelo Mercúcio, quando ele diz que, de certo modo, trata-se de um "encontro com o Divino". Não sei se compartilho dessa ideia por, também eu, ter um histórico com a ideia de um Ser Supremo e suas manifestações; pode ser que seja, mas acho que vai além. Acredito que toda a elaboração estética da obra nos conduz para essa interpretação.

Grande Sertão: Veredas, mais do que ser uma obra de travessia, é uma obra que nos atravessa, nos transpassa, e nos confunde. Quanto mais eu penso que entendo o que Guimarães Rosa fez nesta obra-prima, mais confusa eu fico. Deve ser por isso que cismei que preciso reler o livro. Bora lá, gente! E como eu adoro me embrenhar numa confusão! Fico feito detetive, caçando pistas para descobrir que, ao fim e ao cabo, todas as pistas estavam erradas, porque esse é o único jeito possível de ler uma obra em que tudo é e não é.

É impossível não ser profundamente afetado pela leitura de Cem anos de solidão. É como se o Gabo botasse um bolo, enorme, com o formato da América Latina, na mesa, e dissesse: fique à vontade, pegue sua fatia de solidão e deixe que as lágrimas da angústia acompanhem a degustação do bolo. Será uma experiência dolorosa, linda, mágica e necessária.

Vou até enumerar (hehe):

1) Feliz que A República dos Sonhos entrou no seu horizonte de futuras leituras.
2) Antes do Baile Verde é muito bom mesmo!
3) Com relação a Os Miseráveis, quando disse que o livro me fez sentir mais perto do Divino, falava mais da minha experiência subjetiva, durante a leitura, do que propriamente de uma interpretação da obra. Mas eu concordo muito com você, no sentido de que estética da obra te leva a isso.
4) Sobre o que você comentou com relação a Grande Sertão e a Cem Anos, só me resta concordar. :g:

Certamente o Mercúcio é um dos maiores disseminadores da obra da Nélida de toda a internet. Aliás, hoje saiu um vídeo da Feltrin sobre República dos Sonhos que deve levar a autora a um público mais amplo e diversificado, que até o momento não a conhece. Ainda não assisti ao vídeo, mas acho que ela deve falar bem sobre o livro. Espero que ajude a formar novos leitores.

Sobre as observações sobre Guerra e Paz: sigo o relator. É um livro ok, mas deveras superestimado. Ao invés de ler uma obra magnífica e grandiosa, li um livro razoável e cansativo. Estou pensando em relê-lo ano que vem, já que o li há uns dez anos, e minhas percepções sobre o livro poderão mudar com a nova leitura, da mesma forma que mudei como pessoa. Mas a preguiça de ler um livro de mil e tantas páginas que não gostei ainda é grande. Veremos.

Que ótimo!! Eu sabia que ia sair vídeo no canal dela, porque foi o Lucas do canal Diário de Leitura (tem vídeo no canal dele também) que fez a indicação e vi que ela tinha topado ler. Como ela tem bastante alcance, fico feliz que isso vá chegar a novos leitores (claro, supondo que a opinião dela sobre o livro tenha sido favorável... :lol: ). Quem sabe assim a Record se liga e solta uma nova tiragem do livro. É um absurdo, no ano em que a autora completa 60 anos de carreira, a sua obra prima estar fora de catálogo. :(

Sobre Guerra e Paz, estou totalmente contigo. Só não pretendo relê-lo. :dente:

Vergonhosamente, da lista só li Os miseráveis. Também acho um livro ótimo, mas nunca tenho a coragem de reler (também, uma porreta daquelas né). Cem anos de solidão eu comecei, mas foi na época que comecei a facul, saí de casa a primeira vez, aí acabei parado, mas quero reler.

O da Nélida eu tô com vontade tem uns tempos, de tanta propaganda do @Mercúcio .

Quanto às menções, eu li o 1984, Os Três Mosqueteiros, e gostei muito. E o Conto de Natal e o Grandes Esperanças, que eu acho de longe o melhor do Dickens.

Ôxi, Menel... isso é mamão com açúcar pra você. Se você quiser, eu boto fé que em três dias essa listinha já está lá na sua contagem no seu Censo Valinor. :lol:
Também fico feliz que tenha se animado a ler A República dos Sonhos. E, cara... adoro esses dois do Dickens. Por pouco, o Grandes Esperanças não entrou na lista oficial. Ficou de fora, porque não queria essa lista sem a Lygia. :dente:
Tamo junto! :cerva:
 
Última edição:

Eriadan

Usuário
Usuário Premium
De muitas das outras listas eu só li Tolkien ou Rowling; curiosamente a do Mercúcio não tem nenhum dos dois e é a com mais livros ou autores que eu já li, dentre os selecionados, menções honrosas e outros citados. Provavelmente porque tem muitos clássicos, e nesses últimos anos eu tenho ido bastante atrás deles.

Os Miseráveis (a edição completa, não a mentirosa que o @Níra citou :rofl:) eu estou lendo agora, com ânimos divididos: ora eu gosto um absurdo do livro, a ponto de achar que vai para os meus favoritos de todos os tempos; ora eu paro por duas semanas entediado porque o autor está calculando o ângulo entre duas paredes de algum prédio bombardeado em Waterloo ou de quantos sinos são tocados para cada uma das 147 freiras do convento de Petit-Picpus...

Interessante que nunca me importei com Tolkien contando todos os tipos de árvore que tem em um cenário onde não vai se passar cena alguma. Acho que para mim esse vício descritivo só tem graça dentro da fantasia. :dente:
 

Meneldur

We are infinite.
Usuário Premium
Interessante que nunca me importei com Tolkien contando todos os tipos de árvore que tem em um cenário onde não vai se passar cena alguma. Acho que para mim esse vício descritivo só tem graça dentro da fantasia. :dente:
Porra, mas o Victor Hugo leva isso pro outro nível, né? Ele faz toda a análise tática do Waterloo só pra contar que no final dois personagens se encontraram.
 

Finarfin

Usuário
Ah, esqueci de comentar. Eu gosto muito das capas das edições da Companhia das Letras da Lygia Fagundes Telles, e com essa não é diferente.
 

Mercúcio

Usuário
Porra, mas o Victor Hugo leva isso pro outro nível, né? Ele faz toda a análise tática do Waterloo só pra contar que no final dois personagens se encontraram.

É bem por aí mesmo... :rofl:
Mas eu adoro esse capítulo. É o capítulo em que o Hugo se coloca na cena, se dirige diretamente ao leitor, relatando a sua visita ao local do campo de batalha. Acho foda a descrição que ele faz da batalha. Lembro que logo que terminei de ler Os Miseráveis, fui ler um paper em que o cara confrontava a descrição que o Hugo faz com a historiografia a respeito de Waterloo, apontando as inconsistências na versão do romance.

Eu acho incrível como o Hugo não deixa ponta solta. Tudo que ele joga na narrativa, vai ser aproveitado na história. É incrível como os fatores mais aparentemente aleatórios acabam convergindo para o núcleo de personagens que ele constrói, que não é pequeno, e como tudo fica redondinho, no final. Essas convergências são tais, que a coisa toda perde até em verossimilhança. Esse lance da batalha de Waterloo, mesmo, tem grandes desdobramentos sobre a história do Marius.
 

Eriadan

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Porra, mas o Victor Hugo leva isso pro outro nível, né? Ele faz toda a análise tática do Waterloo só pra contar que no final dois personagens se encontraram.
Bem isso! :rofl: E ele ainda chega a dizer que seria crucial fazer essa digressão toda...

Mas Tolkien também tem dessas: às vezes ele passa vários parágrafos descrevendo um cenário. Quem não tá acostumado acha que vai rolar algum clímax ali no meio daquela mata, mas eis que nada acontece, ninguém faz nenhum comentário... A galera só passa por ali mesmo. :lol:

Eu acho incrível como o Hugo não deixa ponta solta. Tudo que ele joga na narrativa, vai ser aproveitado na história. É incrível como os fatores mais aparentemente aleatórios acabam convergindo para o núcleo de personagens que ele constrói, que não é pequeno, e como tudo fica redondinho, no final. Essas convergências são tais, que a coisa toda perde até em verossimilhança. Esse lance da batalha de Waterloo, mesmo, tem grandes desdobramentos sobre a história do Marius.
Bom, pode ser isso, também, o meu desgosto por essas partes. Não cheguei no final ainda.
 

Jhulha

Voltando a caverna
Dessa lista só li duas menções honrosas :lol: 1984 e os três mosqueteiros, são uma maravilha que ainda quero reler , mas não tenho coragem de encarar de novo. kkk

Falam tão bem do livro cem anos de solidão que fiquei com aversão de lê-lo, esta na lista de esperar "o povo para de pedir para eu ler", para só assim eu dar uma chance de ler.
 

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